COMPACTAÇÃO DOS SOLOS
Entende-se por compactação dos solos o melhoramento artificial de suas propriedades por meios
mecânicos que provocam a redução do índice de vazios via compressão ou expulsão dos gases.
O processo sempre envolve redução de volume. A importância da compactação dos solos está no
aumento e na estabilização da resistência, na diminuição da deformabilidade e na redução da
permeabilidade que se obtém ao sujeitar o solo a técnicas convenientes que aumentem seu peso
específico e diminuam seus vazios.
Mesmo sendo uma técnica milenar, com evidências de uso de rolos compressores pelos maias,
no Peru, e sem esquecer as exemplares vias do império romano, a construção de estradas, até a
década de trinta do século passado, era feita em bases empíricas, havendo situações em que o
mesmo solo, compactado com os mesmos procedimentos de compactação, podia resultar em uma
estrada muito boa ou muito ruim, dependendo da época do ano que fosse construída.
A partir de observações de campo e em laboratório, Ralph Proctor (1933) estabeleceu os
princípios fundamentais da compactação moderna: a qualidade da compactação, depende,
principalmente, da quantidade de água no solo antes da compactação e da energia empregada
em tal processo. O primeiro ponto, até então completamente desconhecido, explicava com clareza
o comportamento citado anteriormente.
Ensaios de Compactação
O primeiro método para simular as condições de campo em laboratório é devido a Proctor e é
conhecido como ensaio Proctor Normal. Consiste em compactar o solo, em três camadas, em um
molde de dimensões e forma especificadas, por meio de golpes de um soquete, também
especificado, que se deixa cair livremente de uma altura prefixada. O molde é um cilindro de 0,95
litro, 10,2 cm de diâmetro e 11,7 cm de altura, provido de uma extensão desmontável (colarinho)
de igual diâmetro e 5 cm de altura (Ver Figura 1). O soquete é de 2,5 kg e cai de uma altura de
30,5 cm. O solo é compactado em três camadas, com 26 golpes em cada uma, distribuídos na
área da seção circular do cilindro. Com os dados anteriores, a energia específica de compactação
fica em torno de 5,95 [Link]/cm³ (600 kJ/m³) calculada pela Equação (E),
𝑁𝑛ℎ𝑊
𝐸=
𝑉
Em que: N é o número de golpes por camada; n é o número de camadas; h é a altura de queda
do soquete; W é o peso do soquete; V é o volume do molde.
Figura 1 – Kit de compactação em laboratório.
Com os procedimentos de compactação, Proctor estudou a influência que a umidade do solo
exercia no processo, descobrindo que tal valor era de fundamental importância na compactação
pretendida. Com efeito, observou que para umidades crescentes, a partir de valores baixos, se
obtinha valores maiores de pesos específicos, portanto, melhor compactação do solo. Porém esta
tendência não se mantinha, visto que, ao passar a umidade de certo valor, os pesos específicos
secos obtidos passavam a diminuir, resultando em uma pior compactação da amostra. Proctor
concluiu que, para um determinado solo e para cada energia de compactação, existe uma umidade
chamada ótima, que leva a um máximo peso específico seco conforme exemplificado na Figura 2.
Figura 2 – Curva de compactação
A baixas umidades, a água está em forma capilar nos solos finos, tendendo, então, a formar
torrões dificilmente desagregáveis que dificultam a compactação. O aumento de umidade diminui
a força capilar, fazendo com que uma mesma energia de compactação produza melhores
resultados. Porém, se há água em excesso, a ponto de o ar nos vazios estar em forma de bolhas
oclusas, a baixa permeabilidade do solo controla o processo, impedindo uma boa compactação,
posto que não podendo fluir instantaneamente a água absorve parte do impacto do soquete.
A Figura 2 mostra a curva de saturação de 100% que pode ser obtida com a equação
𝑆 𝛾 1
𝑤 = 100 ( 𝛾𝑤 − 𝐺 ), que também permite calcular o grau de saturação correspondente à umidade
𝑠 𝑠
ótima, o qual se situa na faixa de 60% a 90% para a maioria dos solos.
Com o desenvolvimento dos equipamentos de compactação de campo, a energia do Proctor
Normal começou a se tornar inadequada para representar a compactação de campo com
equipamentos mais modernos. O que resultou em uma modificação no ensaio, aumentando-se a
energia do ensaio através de um soquete de maior massa (4,536 kg), caindo de uma altura maior
(45,7 cm) e aumentando também o número de camadas. Surgiram, assim, o Proctor Intermediário
(E = 12,9 [Link]/cm³) e o Proctor Modificado (E = 27,4 [Link]/cm³).
Diferentes combinações de cilindros, soquetes, número de camadas e número de golpes podem
ser utilizadas para se obter as energias desejadas. A Tabela 1 mostra algumas combinações de
acordo com a norma ABNT/NBR 7182. O cilindro pequeno (do ensaio Proctor Normal) tem um
volume de 1000 cm³ e pode ser usado somente quando a amostra, após a preparação, passa
integralmente na peneira de 4,8 mm.
Tabela 1 – Energias de compactação usuais para cilindros pequenos.
Variáveis Ensaio
normal intermediário modificado
Soquete pequeno grande grande
Número de camadas 3 3 5
Golpes por camada 26 21 27
Energia ([Link]/cm³) 5,95 12,9 27,4
A escolha da energia de compactação depende do tipo de equipamento disponível e da
importância da camada compactada, além de fatores econômicos. Em subleitos e aterros
rodoviários, geralmente, emprega-se a energia Proctor Normal, em sub-bases rodoviárias
emprega-se a energia do ensaio Proctor Intermediário, enquanto para bases pode-se empregar a
energia do Proctor Intermediário ou Modificado. Para o corpo de barragens, bases de pavimentos
de aeroportos e lastros de ferrovias geralmente emprega-se a energia do Proctor Modificado.
Como mostra a Figura 3, o peso específico seco cresce, a princípio, ao aumentar a umidade,
diminuindo depois de ultrapassada a umidade ótima. Nota-se ainda que o peso específico seco
máximo obtido nos ensaios de maior energia é maior que o obtido nos de menor energia, ao
mesmo tempo que a umidade ótima decresce com o aumento da energia de compactação, o que
está de acordo com as explicações anteriores. Unindo-se os pontos relativos aos valores máximos
de peso específico aparente seco para as diversas energias, obtém-se a chamada “linha das
máximas”. O ponto de máximo peso específico seco depende do tipo de solo submetido ao
processo de compactação.
Figura 3 – Efeitos da compactação em solos argilosos
Solos argilosos apresentam baixos valores de pesos específicos secos máximos (da ordem de 14
a 15 kN/m³) e elevadas umidades ótimas (entre 25% e 30%). À medida que os grãos ficam
maiores, há uma tendência de se encontrar pesos específicos máximos mais elevados e umidades
ótimas mais baixas. Areias com pedregulho, pouco argilosas, apresentam pesos específicos secos
máximos da ordem de 20 a 22 kN/m³ na energia Normal, para umidades ótimas na faixa de 8 a
10% (Murrieta, 2019).
Influência da Saturação
Pode parecer mais conveniente compactar o solo com uma umidade abaixo da ótima (w1 < wót),
pois sua resistência seria mais elevada; ao mesmo tempo, porém, o maior volume de vazios
facilitaria o acesso da água, podendo a umidade aumentar o suficiente para atingir o ramo
descendente da curva. Assim, com o solo quase saturado (nas épocas de chuvas intensas),
passaria a haver uma umidade w2 e a sua resistência seria praticamente nula (barragens sonrisal).
Se, ao contrário, o solo for compactado próximo da wót, a variação da resistência com a saturação
será muito menor como pode se ver na Figura 4.
CBR
R1
curva de resistência sem
saturação prévia saturação
Rmax
Rot curva de resistência com
saturação prévia saturação
R1’
B a
w (moldagem)
OBSERVAÇÕES:
a umidade ótima (wot) é maior que a umidade (w1)
correspondente à resistência máxima (R1);
s se um corpo de prova com umidade w1 for saturado
antes do ensaio de resistência, esta sofrerá uma queda
e o corpo de prova passará a apresentar resistência R1’
(Rmax).
A’ curva de compactação
A
w1 wot w (moldagem)
CBR
curva de resistência sem
saturação prévia saturação
R1 curva de resistência com
saturação prévia saturação
Rmenor
Rot
R1’
B
w (moldagem)
s
A curva de compactação
w1
wot w (moldagem)
OBSERVAÇÕES:
a umidade ótima (wot) é maior que a umidade (w1) correspondente à resistência máxima (R1);
se um corpo de prova com umidade w1 for saturado antes do ensaio de resistência, esta sofrerá uma queda e o
corpo de prova passará a apresentar resistência R1’;
a queda de resistência também ocorre com os corpos compactados com menor energia de compactação, porém,
em menor magnitude.
Figura 4 – Relações entre umidade de compactação e resistência
Índice Suporte Califórnia - ISC
Este índice, mais conhecido como CBR (Califórnia Bearing Ratio), refere-se a resistência à
penetração de um solo tendo como referência a resistência à mesma penetração em uma brita
padrão, conforme a equação,
𝑡𝑒𝑛𝑠ã𝑜 𝑛𝑎 𝑎𝑚𝑜𝑠𝑡𝑟𝑎
𝐼𝑆𝐶 = 𝑡𝑒𝑛𝑠ã𝑜 𝑛𝑎 𝑏𝑟𝑖𝑡𝑎 𝑝𝑎𝑑𝑟ã𝑜
100.
A determinação em laboratório do ISC é feita sobre amostras compactadas na energia e umidade
que serão usadas no campo. Basicamente, o ensaio consiste em fazer com que um pistão de 4,96
cm de diâmetro penetre com uma velocidade de 1,27 mm/min em um corpo de prova compactado.
A tensão necessária para que o cilindro penetre 2,54 mm dividida pela tensão necessária para a
mesma penetração na brita padrão (70 kgf/cm²) fornecerá o ISC desta amostra.
Compactação de campo
Os princípios que governam a compactação de solos no campo são, essencialmente, os mesmos
vistos para ensaios em laboratório. Assim, os pesos específicos máximos obtidos são,
fundamentalmente, função do tipo de solo, da quantidade de água e da energia de compactação
aplicada pelo equipamento que se utiliza, a qual depende do tipo e peso do equipamento e do
número de passadas sucessivas aplicadas.
Em função da distância e condições locais, escolhe-se a “área de empréstimo” que fornecerá o
material para o aterro. Equipamentos diversos, especialmente os scrapers retiram o solo a ser
compactado e o depositam no local do aterro, em camadas de 10 cm até 40 cm, dependendo do
equipamento a ser usado na compactação, com a umidade o mais próximo possível da exigida.
Faz-se a correção final da umidade, se necessário, e inicia-se a compactação com rolos pés-de-
carneiro, rolos lisos, rolos pneumáticos, equipamentos vibratórios ou equipamentos de impulsão.
Da prática antiga dos indianos de utilizar-se da passagem de animais como meio de compactação,
os ingleses observaram que o carneiro, pela relação peso e área de sua pata, era um dos animais
que mais eficientemente compactava argilas. O atual rolo pé-de-carneiro (Figura 5) originou-se
desta observação. Os rolos pés-de-carneiro têm como característica fundamental a compactação
do solo de baixo para cima, exercendo um efeito de amassamento no mesmo por meio de
protuberâncias de mais ou menos 15 cm de altura, em forma de uma pata de carneiro. Os demais
equipamentos de compactação mencionados compactam o solo da superfície para baixo. Outra
vantagem do rolo pé-de-carneiro é a superfície irregular ao final da compactação de cada camada,
o que permite ótima aderência com a camada subsequente. Os outros equipamentos de
compactação podem exigir a escarificação da superfície da camada recém compactada, antes do
lançamento de uma nova, para evitar o surgimento de caminhos preferenciais de fluxo ou mesmo
de cisalhamento. Os rolos pés-de-carneiro são recomendados para solos argilosos, pois este tipo
de equipamento proporciona grande concentrações de tensões e o efeito de amassamento
necessário para a desagregação dos grumos na compactação adequada destes materiais. Um
rolo pé-de-carneiro típico exerce uma pressão de contato da ordem de 2000 a 5000 kPa.
Os mais antigos exemplares de rolos lisos foram encontrados em ruínas de cidades maias e eram
feitos de pedra, muito embora alguns historiadores afirmem que os maias não utilizavam a roda.
Hoje em dia os rolos lisos (Figura 6) são mais utilizados para acabamento superficial uma vez que
seu uso como equipamento de compactação exige o lançamento de camadas muito delgadas de
no máximo 10 cm. Estes são muito recomendados para a compactação de solos não coesivos,
como areias, pedregulhos e até matacões em enrocamento de barragens.
Figura 5 – rolo compactador tipo pé-de-carneiro.
Figura 6 – Rolo compactador tipo liso.
Controle da compactação
A compactação produzida nos solos pelos diferentes equipamentos é, evidentemente, influenciada
pelo número de vezes sucessivas que estes passam sobre o aterro. A relação entre os pesos
específicos secos obtidos em campo e o número de passadas, a princípio, cresce rapidamente,
porém após um certo número de passadas o efeito de uma passada posterior diminui e já não
mais compensa outras passadas do equipamento. Na prática, o número econômico de passadas
está entre 5 e 10 vezes. O número de passadas necessárias para obter-se um certo peso
específico seco é função do equipamento de campo usado; um equipamento mais pesado
conseguirá isto mais rapidamente que um mais leve. Atualmente, a tendência é trabalhar com
equipamentos pesados a fim de reduzir o número de passadas.
Um dos parâmetros que se usa para verificar se a compactação de campo atende às exigências
𝛾𝑠, 𝑐𝑎𝑚𝑝𝑜
do projeto é o Grau de Compactação, obtido com a equação 𝐺𝐶 = 𝛾 100.
𝑠, max 𝑑𝑒 𝑙𝑎𝑏𝑜𝑟𝑎𝑡ó𝑟𝑖𝑜
Para sua determinação, mede-se no campo, por meio de ensaios adequados (o ensaio de frasco
de areia ou similar), o s do aterro compactado. Compara-se este valor com o s máximo de
laboratório aplicando a fórmula do GC. Se GC < 100%, não se atingiu o s exigido. Se GC > 100%
a compactação é satisfatória. Não se deve compactar o solo muito acima de um grau de
compactação de 100%, pois pode-se gerar um cisalhamento prévio do material. Tampouco deve-
se tentar compensar a falta de umidade de compactação, aumentando-se o grau de compactação
com várias passadas do rolo.
há quase sempre uma tolerância definida pelo projetista quanto à umidade e ao GC (por exemplo,
w = ± 2% da wót e GC > 95%). Em geral, especifica-se um grau de compactação de 100% para
as camadas superiores (pelo menos os últimos 20 cm) de aterros rodoviários e para as camadas
do pavimento (sub-bases e bases). O controle da umidade de compactação no campo é tão
relevante quanto o grau de compactação. Dependendo da forma da curva de compactação, uma
variação de 1% de umidade em torno da ótima pode resultar em grandes variações de peso
específico e de outras propriedades do solo compactado. Há várias formas de controle de
umidade, desde os métodos mais precisos em laboratório (como o método da estufa), até métodos
rápidos de campo (como o método da frigideira). Há também aparelhos para controle de umidade
em campo como o “speedy” (pouco preciso), aparelhos à base de resistividade e densímetros
nucleares.