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O documento discute a importância de Simone de Beauvoir como uma figura central no feminismo e na literatura francesa, destacando sua relação com Jean-Paul Sartre e sua obra 'O Segundo Sexo'. Beauvoir argumenta que a condição feminina é uma construção social e não uma natureza inata, desafiando as percepções tradicionais sobre o papel das mulheres. A autora enfatiza a necessidade de emancipação feminina através do trabalho e da independência financeira, propondo que as mulheres devem agir para alterar sua situação social.

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O documento discute a importância de Simone de Beauvoir como uma figura central no feminismo e na literatura francesa, destacando sua relação com Jean-Paul Sartre e sua obra 'O Segundo Sexo'. Beauvoir argumenta que a condição feminina é uma construção social e não uma natureza inata, desafiando as percepções tradicionais sobre o papel das mulheres. A autora enfatiza a necessidade de emancipação feminina através do trabalho e da independência financeira, propondo que as mulheres devem agir para alterar sua situação social.

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SIMONE DE BEAUVOIR - A GRANDE DAMA

DO FEMINISMO
Rosa Alice Caubet (UFSC)

Hã um principio bom que criou a ordem, a luz,


e o homem e um principio mau que criou o
caos, as trevas e a mulher.
(Pitágoras)

A primeira mulher em que se pensa quando se procura, na


literatura francesa, o exemplo de uma mulher que seja também
uma grande escritora, é seguramente Colette. Mas, se em sua
vida Colette foi uma feminista convicta, se teve um comporta-
mento que desafiava toda e qualquer convenção da sociedade
machista - mesmo que consideremos os padrões atuais - as suas
personagens de meia idade e seu extenso bestiário têm, pela
maneira como ela aborda esses temas, relentos de misoginia.
Colette pagou caro e duramente pela sua liberdade, mas um ba-
lanço entre sua vida e obra resulta que os sinais exteriores e
ostentados de emancipação (pintar-se com agressividade, usar
uma linguagem provocante, ter liberdade de costumes, dirigir
um automóvel - estamos na "belle-époque" no inicio do século)
não correspondem a uma verdadeira liberação afetiva, moral,
intelectual.
Para representar a literatura francesa nesta revista so-
bre Literatura/Mulher, preferi, então, trazer Simone de Beau-
voir, mais coerente, nossa contemporânea, cuja vida e obra não

ILHA DO DESTERRO, N9 14, 29 semestre de 1985, p.

13
só vão de par, mas se tornaram inseparáveis. Vou abordar, en-
tão, essa circularidade essencial que faz com que seja impos-
sível dizer até onde vai a vivência e onde começa a obra.

Num filme realizado por Josée Dayan em 1978 (que leva o


nome de Simone de Beauvoir), a autora explica como a memória
de seu passado se confunde com seus livros de memórias.

Tendo escrito minhas memórias, lembro do que es-


crevi em minhas memórias, ll'ac há mais nenhuma
surpresa. (...) Por exemplo, quando falo com mi-
nha irmã, há coisas de que ela se lembra e eu sou
incapaz de ressuscitá-las porque não foram ano-
tadas, inscritas e é como se elas não mais exis-
tissem. É certo. Escrever embalsama o passado,
mas isso o deixa um pouco fixo como uma múmia.
Não tenho lembranças muito quentes, muito vivas
do que me aconteceu outrora. Ou elas são quen-
tes, vivas se, por exemplo, eu me releio um pou-
co e, através dessa leitura, eu ressuscito a
coisa. Mas as lembranças geralmente não vem de
uma maneira espontânea.

Em suas memórias' Simone de Beauvoir conta a história da


lenta emancipação que ela deve aos estudos avançados e á in-
fluencia de Jean-Paul Sartre, a quem encontrou quando prepara-
vam a "agrégation" de filosofia, concurso máximo na carreira
do magistério.

Impossível falar em Simone de Beauvoir sem falar em Sar-


tre: é prova disso a última frase do último livro da autora, A
Cerimónia do Adeus, que é o testemunho dos dez últimos anos
da vida de Sartre.

Sua morte nos separa. A minha morte não nos reu-


nirá. São os fatos; já é maravilhoso que nossas
vidas tenham podido se harmonizar por tanto tem-
po.

As cartas de Sartre a Simone de Beauvoir, recentemente pu-


blicadas (sem as respostas), também são prova disso. Ali está
preto no branco: Sartre nunca publicou nada sem a autorização
de Beauvoir e as sugestões feitas por ela às obras de Sartre
foram acatadas. Para exemplificar com o aspecto mais importan-
te: sabemos que Sartre é o pai do existencialismo francês.

14
Beauvoir não escreveu obras filosóficas. Escreveu alguns en-
saios, na maioria das vezes para defender o existencialismoosn-
tra os ataques de que era alvo. Mas ela "forçou o existencia-
lismo a pensar acima de suas possibilidades." 2 Ela forneceu
ao existencialismo elementos essenciais à tomada de consciência
minuciosa da opressão das mulheres. E, vice-versa, foi o exis-
tencialismo que a conduziu ao feminismo:

tua idéia me permite pensar a condição feminina


tua filosofia me põe no caminho de minha emanci-
pação, tua verdade me tornará livre.3

(Abro um parênteses aqui para insistir: trata-se do exis-


tencialismo francês. Kierkegaard, o primeiro filósofo existen-
cialista escreveu: "Que infelicidade ser mulher! E no entanto,a
pior infelicidade, quando se é mulher, é não entender isso.")

Simone de Beauvoir foi suficientemente inteligente para


seguir o seu próprio caminho dentro de uma linha comum, comple-
tando a obra de Sartre com a reflexão sobre a condição femini-
na, o relato de suas vidas - relato esse que inclui a génese
das obras de um e outro, uma apreciação crítica dessas mesmas
obras. É um documento de grande valor. Talento ela tinha de so-
bra e, junto com uma memória fabulosa e um trabalho insano de
anotações, ela nos deu quatro volumes de grande valor também
literário. Escreveu também muitos romances, e em todos os li-
vros, contando como se emancipou, Simone de Beauvoir conta tam-
bém como muitas de suas amigas não tiveram a sorte de escapar,
como ela, dos malefícios de uma certa educação. A condição fe-
minina é, desde o início de sua carreira, o centro dos proble-
mas que aborda e incluo aqui sem hesitar romances, memórias,
ensaios, teatro e a própria vida da autora, indiferentemente.

Em 1949 ela publica O Segundo Sexo, estudo documentadíssi-


mo sobre todos os aspectos da condição feminina, onde tenta
desmistificar o conceito de "feminilidade", inventado pelos ho-
mens para fechar as mulheres numa noção de "natureza" inelutá-
vel. Sente-se aqui o pensamento de Sartre que recusa a noção de
natureza humana. O homem não é naturalmente bom ou naturalmen-
te ruim, ele é o que se torna através de seus atos. A noção de

ls
condição humana substitui a noção de natureza humana.

Vou propor uma das leituras possíveis da obra de Simone de


Beauvoir, percorrendo O Segundo Sexo. Não é a única, mas, a meu
ver, a primordial, já que a autora afirma que "não se nasce mu-
lher, a gente se torna mulher."5

Foi quando ela estava acariciando a idéia de uma autobio-


grafia que Simone de Beauvoir se perguntou o que significava
para ela ter nascido mulher. Pensou, de início, poder resolver
rapidamente o problema.

Jamais tinha tido sentimento de inferioridade,


ninguém me tinha dito: voce pensa assim porque
é mulher. Minha feminilidade não me tinha a-
trapalhado em nada. Eu disse a Sartre que para
mim, praticamente, isso não tinha contado.
- Mesmo assim, voce não foi educada da mesma
maneira que um rapaz: seria preciso olhar isso
aí mais de perto. Olhei e tive uma revelação:
esse mundo era um mundo masculino, minha in-
fância tinha sido alimentada de mitos forjados
pelos homens e eu não tinha reagido a esse fa-
to da mesma maneira que se fosse um rapaz. Fi-
quei tão interessada pelo assunto que abando-
nei o projeto de uma confissão pessoal para
me ocupar da condição feminina em sua genera-
lidade.5

Por outro lado, seus conhecimentos de literatura e filosofia


provavam que (essas informações estão também no Segundo Sexo)
legisladores, padres, filósofos, escritores, sábios insistiram
em demonstrar que a condição de subordinada da mulher era dese-
jada no céu e de proveito na terra. Desde a antiguidade satíri-
cos e moralistas não se cansam de fazer o quadro das fraquezas
femininas. Sabe-se com que hostilidade a mulher sempre foi tra-
tada através de toda a literatura francesa. Mas "á mais fácil
acusar um sexo do que desculpar o outro", diz Montaigne 7 , e es-
sa hostilidade, freqüentemente gratuita, esconde um desejo de
auto-justificação. O código romano, por exemplo, limita os di-
reitos da mulher invocando "a imbecilidade, a fragilidade do
sexo", e num momento em que, em conseqüencia do enfraquecimento
da família, a mulher se torna um perigo para os herdeiros do
sexo masculino.

16
Montaigne, citado acima, denunciou a arbitrariedade e a
injustiça da sorte reservada às mulheres que "têm razão quando
recusam as regras que são introduzidas no mundo, já que são os
homens que as fizeram sem elas."'

Mas é só no século XVIII que homens profundamente democra-


tas encaram a questão com objetividade. Diderot, entre outros,
se empenha em demonstrar que a mulher é, como o homem, um ser
humano. Esse filósofo é de uma imparcialidade excepcional. No
século XIX a querela do feminismo tornou-se de novo uma quere-
la de partidários; uma das conseqüéncias da revolução indus-
trial é a participação da mulher no trabalho produtor. É quando
as reivindicações feministas saem do campo teórico e encontram
bases económicas; os seus adversários tornam-se mais agressi-
vos. Mas a burguesia se agarra à velha moral que vê na solidez
da familia a garantia da propriedade privada: ela exige a mu-
lher no lar com um afinco diretamente proporcional à ameaça que
constitui a sua emancipação. Mesmo na classe trabalhadora os
homens tentaram frear a liberação, pois essas perigosas concor-
rentes estavam acostumadas a trabalhar por baixos salários. Pa-
ra provar a inferioridade da mulher, os antifeministas, que an-
tes tinham como único recurso a religião, fizeram valer a filo-
sofia, a teologia, e até a ciência: biologia, psicologia expe-
rimental, etc. Consentia-se no máximo, para o segundo sexo, em
"igualdade na diferença". Simone de Beauvoir faz ver que é a
mesma fórmula que utilizam as leis americanas ditas anti-racis-
tas. Numa análise mais profunda dos argumentos, nossa autoracb-
serva que não é um acaso se os processos justificatórios são
os mesmos para reduzir à condição inferior, quer seja uma raça,
quer seja uma casta, quer seja um sexo. "L'éternel féminin",pa-
ra Simone de Beauvoir, á o homólogo da "alma negra" e do "cará-
ter judeu". Na verdade é um pouco como a história dos negros
contada por Bernard Shaw: o americano relega o negro ao nível
de engraxate e conclui que ele só serve para engraxar sapatos.

Esse circulo vicioso, pois, se aplica à mulher. O lugar


da mulher é, atualmente, o lugar que o homem escolheu para ela.
A VERDADEIRA mulher é frívola, pueril, irresponsável, ou seja,
a mulher submissa ao homem. E como diz Simone de Beauvoir,quan-

17
do um indivíduo ou um grupo de indivíduos é mantido em situação
de inferioridade, ele é inferior. (Em francês existe um só ver-
bo para SER e ESTAR. Todos ainda se lembram da famosa fórmula
do prof. Portela, Ministro da Educação demissionário (sic) do
governo João Figueiredo, quando da primeira grande crise da
Universidade brasileira em 1980: "Eu estou ministro e sou pro-
fessor". Então, em francês, só dispomos do verbo Etre e é sobre
o alcance desse verbo que é necessário concluir. A má fé mascu-
lina, nesses casos, consiste em lhe dar um valor substancial,
quando ele tem um sentido dinâmico.) Em outras palavras a mu-
lher hoje em dia t inferior aos homens (Na Europa sobretudo,
isso era mais verdade em 1949 quando da publicação do Segundo
Sexo; hoje já existem inúmeras exceções, mas insisto na palavra
exceções.): o problema é de saber se este estado de coisas deve
se perpetuar. E quando Simone de Beauvoir diz que não nascemos
mulheres, ela quer dizer também que isso implica numa boa dose
de comodismo por parte das mulheres. Cabe às mulheres reagir:
os homens são como são porque as mulheres aceitam o lugar que
lhes foi designado. Cada qual tem excelentes razões: uma não
quer ficar no prego, outra não quer enfrentar a pressão fami-
liar - que sempre é violenta - afinal de contas o pioneirismo
nunca foi uma solução cómoda, outras acham que ruim com ele pi-
or sem ele, e só de pensar em assumir uma profissão séria, car-
reira, etc., preferem continuar dependentes e em conseqüência
submissas. Mesmo as que trabalham, aliás, se acomodam freqüen-
temente numa falta de ambição; o ordenado de assistente em re-
gime de 20 horas dá para minhas roupas, o cabeleireiro, a pin-
tura... Mas aqui extrapolei um pouco, pois foi esse um dos te-
mas de um encontro de estudos sobre a mulher na Universidade
de Toulouse-le Mirail em 1984.

Voltando a Simone de Beauvoir, cabe à mulher reagir. de


novo o existencialismo que surge aqui: deve-se agir nem que
seja para alterar o seu quotidiano, e há sempre alguma coisa a
fazer do que fizeram da gente."

As próprias escritoras foram as primeiras a não ousar se


aventurar por caminhos inéditos. Cantavam o ideal burguês e
exaltavam a mistificação destinada a convencer as mulheres a

18
permanecerem como mulheres, ou seja, a assumirem sua diferença.
Simone de Beauvoir indica, a essas escritoras, os caminhos da
liberdade e da criação: transcendência, solidão, desvendamento
da realidade inteira e não de sua própria pessoa, contestação
da condição humana, e não somente da condição feminina."Emergir
em fim de mundo para recriá-lo todo novo."'" É preciso se libe-
rar da mulher que nos tornamos: narcisista timorata, mistifica-
da, voltada para si mesma. E ela não vê outro meio de emancipa-
ção que não comece pelo trabalho que traz: 1) independência fi-
nanceira, 2) preocupações concretas que substituem a contempla-
ção do umbigo. "As mulheres devem superar a especificidade mi-
lenar que as acantona em sua feminilidade."' Ou seja: é o fim
da era congenital. Mas para sair, enfim, da inferioridade, para
atingir a liberdade do "criador", seria, pois, necessário dei-
xar de ser mulher? É a ambigüidade de uma fórmula que cristali-
zou a tomada de consciência de uma geração de intelectuais e
retomou a questão das mulheres. Eu acrescentaria que, ao con-
trário, á a hora de se mostrar que se é mulher. O fato á que,
com Marguerite Yourcenar (a primeira mulher a ter acesso à Aca-
demia Francesa), Nathalie Sarraute, Marguerite Duras, para só
citar as maiores, Simone de Beauvoir faz parte de um grupo de
escritoras inovadoras que se impõe à critica. Se esse grupo bus-
ca efetivamente o reconhecimento de uma só literatura, que
transcenda os sexos, não estudei suficientemente a questão para
afirmá-lo. Só posso afirmar que as duas correntes coexistem en-
tre as escritoras contemporàneas. Algumas delas, Marguerite Du-
ras, por exemplo, cansada de ouvir falar de seus livros como
livros de mulher, começou a recusar-se a responder sobre o as-
sunto, ou seja, sobre o fato de ser mulher e escrever. Posso
afirmar 'bambem que Simone de Beauvoir nunca encampou (na práti-
ca da escrita) o movimento da escritura feminina dos anos 60,
quando artigos, ensaios sobre o assunto, são cantos de amor e
de orgulho, uma encantação, por assim dizer, da diferença, um
hino ao "feminino". A escritura (o estilo) de S.B. não se afir-
ma contra o LOGOS, o discurso masculino. Ela não inventa uma
outra linguagem, uma nova escritura. (Conheci feministas que
não usam uma só palavra do gênero masculino.) Ela lamenta até
que muitas (demais) mulheres escritoras, em sua luta, tenham

19
por único tema a sexualidade (órgãos sexuais, Lacan - a volta
ao útero materno). Se bem que admita que pelo menos, para falar
de sexo, elas se coloquem como olhar, como elemento ativo (na
relação sujeito/objeto), como consciência, como liberdade.

Quando escreveu o Segundo Sexo S.B. não era feminista.

Teriam me surpreendido e ate irritado, aos 30


anos, se me tivessem dito que eu me ocuparia dos
problemas femininos e que meu público mais sério
seriam mulheres.12

Como eu disse há pouco, baseada no que ela própria escreveu so-


bre o assunto em suas memórias, esse livro foi concebido de
maneira quase fortuita. Querendo falar de si mesma, Beauvoir se
deu conta de que era necessário começar pela descrição da con-
dição feminina. Ela acabou ajudando muitas mulheres que desco-
briram em sua filosofia como se liberar das imagens que tinham
de si próprias e que as revoltavam. O livro era um recurso con-
tra os mitos que as esmagavam. As mulheres se deram conta de
que as suas dificuldades não refletiam uma desgraça singular,
mas uma condição generalizada. Essa descoberta permitiu-lhes e-
vitar o auto-desprezo, algumas até encontraram no livro forças
para lutar. "A lucidez não faz a felicidade, mas favorece e dá
coragem."" Psiquiatras recomendavam a leitura do livro às suas
pacientes, e não somente intelectuais, mas também burguesas,
de classe media, operárias.

Mas, evidentemente, o livro suscitou muitos mal-entendi-


dos. Aliás, ele foi imediatamente colocado no Index. Houve mui-
ta gente para alimentar esses mal-entendidos. Os homens, prin-
cipalmente, consideraram uma injúria pessoal o que ela tinha
escrito sobre a frigidez feminina pela qual foram responsabili-
zados. Normal que os homens façam questão de imaginar que dis-
pensam prazer quando querem (ELES julgam quem merece e quem não
merece). Duvidar disso, é castrá-los.

Um capitulo trata do aborto. Outro assunto tabu. Que fes-


tival de obscenidade, sobre pretexto de fustigar a indecência
encontrada no livro:

Recebi, assinados ou anônimos, epigramas, epite-

20
tos, sátiras, admoestações, exortações que me en-
dereçavam por exemplo MEMBROS MUITO ATIVOS DO
PRIMEIRO SEXO. Insatisfeita, gelada, priápica,nin-
fomaniaca, lésbica, cem vezes abortada, fui tudo,
até mãe clandestina. Ofereciam-se para curar mi-
nha frigidez, acalmar meus apetites glutões, pro-
metiam-me revelações, em termos vulgares mas em
nome da verdade, do belo, do bem, da saúde e até
da poesia, indignamente saqueada por mim. 1"

Perambulando nas revistas da época por razões outras, encontrei


algumas pérolas. Mauriac, escritor católico conhecido de todos
que tem um pouco de contacto com a literatura francesa, senhor
mui respeitável, escreveu a um dos colaboradores dos Temps Mo-
dernes: "fiquei sabendo tudo sobre a vagina de sua patroa". Ele
provavelmente não esperava que a revista publicaria a declara-
ção. Etc. Etc. Fiz uma censura dessas criticas que freqüente-
mente foram de extrema vulgaridade.

Quando saiu o segundo volume do livro, seis meses depois


(em novembro de 1949), houve nova ofensiva, mas contraditória.
Os criticos calam das nuvens:

não havia problema: as mulheres sempre foram i-


guais aos homens; elas eram irremediavelmente in-
feriores a eles; tudo o que eu dizia já se sabia,
não havia uma palavra de verdade no que eu di-
zia.ls

Quanto aos adjetivos é de novo quem mais pode: uma pobre coita-
da neurótica, recalcada, frustrada, infeliz, virago, (censura),
invejosa, azeda, cheia de complexos de inferioridade em rela-
ção aos homens, em relação às mulheres consumida pelo ressen-
timento. Alguns criticos (homens) afirmaram também que não lhe
cabia falar nas mulheres já que não procriara (sio:). Mas S. B.
não recusou todo e qualquer valor ao sentimento materno, con-
forme outra acusação de que foi alvo.

Eu pedi que a mulher vivesse [esses sentimentos]


na verdade e livremente, já que muitas vezes ela
se aliena neles, a tal ponto que a alienação con-
tinua quando o coração calou. 6

Eu me atardei muito no Segundo Sexo, mas não foi por acaso. Já

21
disse que S.B. não era feminista quando escreveu esse livro,mas
uma mulher preocupada com a condição feminina. No entanto, fato
bastante freqüente na vida de um autor, O Segundo Sexo foi mui-
to alem das expectativas e ate das intenções de sua autora. O
público e a crítica em geral, a favor ou contra, fizeram deste
livro uma obra feminista. Assumindo a sua própria contingência,
S.B. assumiu a etiqueta que lhe foi imposta de fora. Era uma
posição a justificar. Reinventando-a, fez dela obra sua e lhe
impôs um sentido. Eu quero dizer com isso que S.B. não escre-
veu O Segundo Sexo porque era feminista, mas que se tornou fe-
minista porque escreveu O Segundo Sexo. A vontade substituiu o
pretenso mandato: "eu era esperada... eu fazia o que devia ser
feito. " 17 Eis o que diz Francis Jeanson a respeito, num livro
sobre Simone de Beauvoir:

á sempre passando por outras consciências que uma


consciência particular pode chegar a si mesma,
pois e necessário dar sentido a todas as signi-
ficações que ela já recebeu do mundo e que o pró-
prio sentido de que ela se quer autora deve por
sua vez obter sentido no mundo. Minha verdade de-
pende dos outros: enquanto ela me foi inicialmen-
te dada como vinda deles, depois na medida em que
eles não cessam de retomá-la e de contestá-la, a
a partir do momento em que eu mesma me esforço
por faze-la.18

Mas claro é que, se seu dever lhe convinha, era na medida exata
em que ele servia sua própria satisfação. Quinze anos depois da
publicação do livro, num de seus volumes de memórias, S.B. diz
que O Segundo Sexo e o livro que lhe trouxe as maiores satisfa-
ções. No entanto, foi a única de suas obras que foi amplamente
combatida. Os seus volumes de memórias tiveram o apoio unãnime
da crítica.

Simone de Beauvoir nunca alimentou a ilusão de transformar


sozinha a condição feminina. Esta e mais uma idéia do existen-
cialismo: não se luta para ganhar tão somente; pelo menos a
gente mostra que há descontentes. S.B. sabe que "a condição fe-
minina depende do futuro do trabalho no mundo, que (ela] só
mudará seriamente quando houver uma revolução na produção."19
S.B. também não trouxe remédio a cada problema particular, mas

22
ajudou e ajuda as mulheres de sua época a tomar consciência de
si mesmas e de sua situação. Ela se manifesta em favor das mu-
lheres sempre que se faz necessário, a res peito de um projeto
de lei, um processo, etc..., através da imprensa ou em ato pú-
blico. Encabeçou, por exemplo, uma lista de 341 personalidades
femininas que declararam à imprensa, com o intuito de modificar
a lei sobre a matéria: EU PRATIQUEI O ABORTO. Com isso criou um
precedente jurídico de não punição a crime previsto por lei, e
conseguiu, a médio prazo, a liberação da prática abortiva em
condição de higiene e segurança, ou seja, em ambiente hospita-
lar. Mais recentemente, com o advento do governo socialista,
conseguiu-se na França que a previdência social arcasse com as
despesas de tais intervenções, o que só foi possível em conse-
qüência daquela primeira luta, que encampou por convicções pes-
soais: para decidir de seu destino, h. preciso que a mulher dis-
ponha de seu corpo. S.B. recusou ser mãe porque decidira ser
escritora, julgando-se incapaz de harmonizar as duas ativida-
des.

Há um aspecto que não posso deixar de levantar, se bem que


essa última fase da autora eu conheça menos bem: na medida em
que o movimento feminista se radicalizou, S.S. se radicalizou
também. Ela não se fechou no movimento chamado feminismo en-
quanto acreditava numa aliança possível e eficiente com os o-
pressores. Dizia no Segundo Sexo que a mulher "pesa tanto sobre
o homem, porque lhe é proibido repousar sobre si mesma: ele se
liberará, liberando-a". E também que "o problema da mulher sem-
pre foi um problema dos homens". Depois ela viu o que se passou
nos vinte anos que seguiram à publicação desse livro. A libera-
ção do proletariado devia conduzir fatalmente à liberação da
mulher. Veio o socialismo russo, o único socialismo realizado,
na época. Trabalhando de igual para igual com os homens, as mu-
lheres russas trabalham dobrado, pois a família e a casa con-
tinuam a encargo delas. Nem por isso são chamadas a ocupar pos-
tos de responsabilidade política ou de poder real.

Outro exemplo, o da Argélia. Durante a guerra da indepen-


dência as mulheres lutaram como homens (Vejam como para me fa-
zer entender 95 disponho do logos machista). Assim que foi cons-

23
tituido o novo regime elas foram relegadas outra vez à sua in-
ferioridade caseira e mantidas estritamente no poder patriarcal
dos homens da família.

Na França deu-se direito de voto às mulheres em 1946, e


reforçou-se ao mesmo tempo um movimento que prega a volta ao
lar. O novo governo socialista quer institucionalizar o emprego
de meio período... para as mulheres, sob o pretexto de aliviá-
las. Seria preciso, isto sim, segundo S B., uma redução das ho-
ras de trabalho de ambos os sexos com divisão do trabalho do-
méstico e familiar. Para tanto cabe ao Estado assumir em parte
a educação das crianças com mais creches. A partir de três anos
de idade, na França, o problema já está resolvido.

Seu discurso, em conseqüência, mudou de tom. A rubrica de


um dos nilmeros de Wmps Modernes (1979), "O sexismo ordinário",
já e prova disso. Em 1975 já emprestara seu nome ao grupo de
feministas mais radical. 2 ° "Como são os pobres que devem ar-
rancar o poder dos ricos, as mulheres devem arrancar o poder
dos homens." 21 Ela tomou consciência, ao ter atingido o ponto
que atingiu, de que a luta das mulheres pela sua autonomia não
podia mais se fazer com os homens mas contra os homens.22

No post-scriptum ao Segundo Sexo,(um conjunto de conferen-


cias e entrevistas publicado pela Gallimard em 1979) aparece
claramente esse novo discurso.

Ê necessário que uma mulher trabalhe, é necessá-


rio a independência económica antes de mais nada.

A luta de classes propriamente dita não emanci-


pa a mulher. Suprimir o capitalismo não suprime
a tradição patriarcal, enquanto existir a famí-
lia.

A luta feminista de Simone de Beauvoir se encaixa no es-


quema de ação existencialista, pois "agir é modificar a figura
do mundo, 6 dispor dos meios visando um fim, é produzir um com-
plexo instrumental organizado de tal maneira que produza um
resultado previsto.' É importante dizer ainda que a ação é
por principio intencional, o que não quer dizer que se preveja
todas as conseqüências de seus próprios atos; é importante di-

24
zer também que "a condição indispensável e fundamental de toda
ação é a liberdade de quem age." 24 O sucesso da empresa repousa
então sobre uma organização complexa: MOTIVO - INTENÇÃO - ATO -
FIM. Esperamos ter exposto bastante claramente os motivos de
Simone de Beauvoir. O seu próprio texto declara suas intenções.
O livro é. o ato. E o FIM? Que as mulheres se tornem - e aqui eu
cito outra epígrafe do segundo volume de Segundo Sexo, que é de
autoria de Sartre,

meio vítimas, meio cúmplices, como todo mundo.

NOTAS

Semoires d'une jeune filie rangée, La force de l'áge, La force


des choses
2 Le DOEUFF, Michèle. "De l'existentialisme au deuxième sexe"in
Magazine Littéraire n9 145, fev. de 1979.
3 ldem, ibidem.
"Citado por Simone de Beauvoir, como epígrafe, em Le Deuxième
Sexe II.
s Le Deuxième Sexe I.
s La Force des Choses I.
'Citado por Simone de Beauvoir em Le Deuxième Sexe I.
°Idem, ibidem.
"SARTRE, Jean-Paul. "L'espoir maintenant" in Le Nouvel Obser-
vateur, março de 1980.
"Le Deuxième Sexe II.
11Ibidem.
12 La Force Des Choses I.
13 Le Deuxième Sexe.
14 La Fbrce des Choses 1.
IsIbidem.
1sIbidem.

"Ibidem.

25
"l in Simone de Beauvoir ou l'entreprise de vivre.

19 Le Deuxième Sexe.
20 1'Arc n9 61, "Simone de Beauvoir et la lutte des femmes". Foi
republicada nessa ocasião a entrevista de Sartre à Beauvoir
sobre as mulheres, mas não consta deste número nenhum artigo
da autora.
21 Citado por Georgette ROBERT, in Magazine Littéraire n9 145,
fev. de 1979.
22 ROBERT, Georgette. "Simone de Beauvoir et le féminisme", in
Magazine Littéraire n9 145, fev. de 1979.
22 SARTRE, Jean-Paul. L'Etre et le Néant.
24 Idem, ibidem.

BIBLIOGRAFIA

L'ARC n9 61: "Simone de Beauvoir et la lutte des femmes",


Aixen-Provence, 1975.
BEAUVOIR, Simone de. Le Deuxième Sexe vol. 1 e 2. Paris,
Gallimard, 1949.
. La Force de 1'Age, Paris, Gallimard, 1960.
. La Force des Choses, Paris, Gallimard, 1963.
5) . La Cérémonie des Adieux, Paris, Gallimard, 1980.
. "La femme la pub et la haine" in Le Monde, 4 de
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DAYAN, Josée et RIBOWSKA, Malka. Simone de Beauvoir, Paris,
Gallimard, 1979.
JEANSON, Francis. Simone de Beauvoir ou l'entreprise de
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SARTRE, Jean-Paul. L'Etre et le Néant, Paris, Gallimard,1980.
. "L'espoir maintenant" in le Nouvel Observateur nos
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