INTRODUÇÃO
O presente trabalho tem o objetivo de apresentar análise sob a perspectiva fenomenológica
existencial acerca do atendimento psicológico, prestado na clínica psicológica da Faculdade
Anhanguera de Jundiaí.
Foram realizadas 19 sessões (até o presente momento), de forma individual, com frequência
semanal, no período de 19/09/2017 à 24/04/2018, com duração de 50 minutos, utilizando
como referencial a abordagem fenomenológica-existencial. Para as sessões realizadas foram
utilizados os seguintes instrumentos: acolhimento; escuta; intervenções verbais; ficha de
anamnese e o manual de regras da instituição. Os atendimentos aconteceram na Clínica
Escola Dra. Nise Da Silveira, no município de Jundiaí, SP, realizados pela estagiária de
psicologia Aline Germano da Silva Camargo, e contaram com a supervisão da professora e
psicóloga Cinthia Silva Souza, CRP: 06/66743.
DESCRIÇÃO DA DEMANDA
A paciente é uma mulher de 27 anos, procurou a clínica espontaneamente, por estar
apresentando queixas de ansiedade, dificuldades de conversar em público, dificuldades em
seguir regras e de tomar decisões, e com isso sentir-se frustrada.
OS ENCONTROS
A paciente compareceu nas primeiras sessões apresentando certa resistência e querendo
exercer o controle nas sessões. Queria modificar os horários de atendimento (diferente dos
horários estipulados), mudar o ambiente, pois dizia sentir-se incomodada com um espelho que
havia em um dos consultórios.
Desde a primeira sessão relata sobre seu relacionamento familiar desestruturado, convívio
social restrito e relacionamentos afetivos conturbados. Possui certo distanciamento afetivo do
pai, certa admiração e ao mesmo tempo rancor da mãe, tem irmãos por parte de pai e mãe de
casamentos anteriores e um do casamento atual dos pais. A paciente participa financeiramente
na renda familiar, porém acredita que não tem estabilidade financeira em sua vida pessoal por
ajudar muito em sua casa. Desde sua infância relata que a mãe ensinava que nos
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relacionamentos afetivos a mulher deveria ser a dominante da relação e o homem deveria ser
o provedor.
Em algumas sessões a paciente apresentava traços ansiosos, uma sensação de tristeza e um
vazio, segundo a mesma, sente que vive em função da família e não busca seus objetivos
pessoais. Quando questionada sobre seus objetivos pessoais, relatava que não sabia realmente
o que buscava.
Outros motivos de desavença com a mãe, segundo a paciente relaciona-se com seu
comportamento compulsivo por compras (sic), em que ela faz muitas compras e tenta ocultar
da mãe, pois a mesma sente que a mãe quer que economize e também se ressente de não estar
com estabilidade financeira para comprar do mesmo modo.
A paciente apresenta dificuldade em seus relacionamentos afetivos. No relacionamento atual,
ela sente falta dos relacionamentos anteriores e diz que falta algo, que se sente incompleta.
Estes problemas em seus relacionamentos apresentam grande parte de suas preocupações no
decorrer dos atendimentos, chegando a descrever em detalhes os seus encontros românticos
durante as sessões.
ANÁLISE DOS DADOS
Com base nas análises de dados obtidas percebe-se que: a paciente apresenta características
condizentes com os traços de Transtorno de Personalidade Borderline, através de questões
como medo do abandono, mudança de humor, comportamento impulsivo e compulsivo,
tendência a manipular as relações, tendência a “atacar” se mostrando agressiva em suas
relações afetivas mais próximas, apresenta aspectos de sexualidade evidente, autodepreciação
e lente do passado.
CONCLUSÃO
Segundo DSM -5, os critérios diagnósticos para classificar uma pessoa com aspectos da classe
de Transtorno de Personalidade Borderline, são os seguintes:
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Fonte: AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION.
De acordo com os critérios mencionados pelo DSM5, apresenta as características que se
enquadram nos itens, um, dois, três, quatro, seis, sete e oito.
Diante das sessões, alguns aspectos foram sendo mostrados como o jeito de ser da paciente,
mesmo que muitas vezes sendo ou não intencionais comportamentos que podem ser
relacionados com critérios de diagnósticos, porém de um modo compreensivo na forma de
entender como ela se relaciona com o mundo e o mundo se relaciona com ela.
Através de sua fala, ela mostra o medo que tem que os pais voltem para a cidade natal e
deixem-na sozinha, sendo o medo do abandono uma primeira característica do TPB.
O Transtorno de Personalidade Borderline seria também a consequência de uma educação
muito autoritária, onde pais rígidos sempre imporiam seus desejos. Com o tempo as tentativas
de autoafirmação da criança sucumbiriam aos desejos dos pais e ela se habituaria a se
submeter sempre aos pais, desenvolvendo dúvidas sobre a própria capacidade e vergonha
pelos seus fracassos. Aos poucos a criança iria parando de tentar expressar as suas vontades
podendo levar a falhas na clarificação psíquica de si e do outro. A paciente revela a rigidez da
mãe, apresentando pouca contingência emocional para aspectos mais espontâneos
apresentados pela paciente que acredita que seu sucesso está em seguir o que mais almeja,
essa expectativa da mãe desencadeou o medo de não conseguir atingir seus objetivos e
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frustrar sua mãe.
Indivíduos com Transtorno de Personalidade Borderline se caracterizam especialmente por
sofrerem grande instabilidade emocional, irregularidade afetiva excessiva, sentimentos
intensos e polarizados do tipo “tudo ótimo e tudo péssimo” ou “eu te adoro e eu te odeio”,
angústia de abandono, percepção de invasão do self. A paciente relata apresentar intensa
dificuldade em suas relações onde a calmaria não habita em seus relacionamentos. A
insatisfação está sempre presente, bem como uma tendência a provocar as pessoas, como
relacionamentos extraconjugais estão sempre presentes.
A paciente sempre sente dúvidas sobre a busca interior, onde sempre almeja alguns objetivos
e não consegue pontuá-los. Sempre questionando sobre qual o problema que ela apresenta.
No item quatro vemos a impulsividade revelada através das compras e do sexo onde a
insatisfação está sempre presente.
Também vemos a instabilidade afetiva, tanto em seus relacionamentos afetivos, quanto
familiar, onde a paciente revela em algumas situações um cuidado excessivo pela família e ao
mesmo tempo ela quer se ausentar das dificuldades familiares, e em situações emergenciais ir
buscar abrigo na casa do namorado atual.
O sentimento vazio é contínuo apresentado em quase todo período de tratamento terapêutico,
uma busca incessante por algo que não consegue ser nomeado.
E o último idem avaliado está no item oito, onde a paciente apresenta alguns traços de
violência tanto verbal, quanto física o qual a paciente revela que seria um modo dela ser, onde
não gosta de equilíbrio e gosta de algo com menos calmaria.
“Na psicoterapia fenomenológico-existencial, o psicoterapeuta busca
compreender o sujeito borderline, suspendendo o que conhece a priori a
respeito da doença e considerando o sujeito a partir da sua forma de se
expressar no mundo. As formas de expressão e os sintomas são considerados
importantes na perspectiva psicopatológica fenomenológica, o que não
significa que devam ser determinantes e que, a partir deles, se classifique o
sujeito num quadro clínico. O desafio do psicoterapeuta fenomenológico-
existencial é compreender o paciente borderline numa perspectiva
antropológica, estando atento aos significados que ele manifesta em sua
existência no mundo e como ele se relaciona com a realidade à sua volta. A
partir da compreensão fenomenológica existencial, o psicoterapeuta busca,
na relação terapêutica com o paciente borderline, construir novos sentidos
para sua existência.” (Bin, 1998).
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Para Bin, a visão da fenomenologia sobre o TPB, o que é mais relevante é como o individuo
ele se expressa no mundo do que critérios diagnósticos que os classifiquem, pois para os
fenomenólogos o que é mais importante é como o paciente vivencia sua particularidade.
A partir dos dados acima citados, concluímos que a paciente deverá continuar no processo
terapêutico para conseguir ajudar a controlar suas emoções negativas, como saber enfrentar
momentos de maior estresse, buscando novos sentidos para o seu existir.
REFERÊNCIAS
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5: Manual diagnóstico e estatístico de
transtornos mentais. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.
BIN, Kimura. Fenomenologia da depressão estado-limite. Revista Latinoamericana de
Psicopatologia Fundamental, 1 (3), 11-32, 1998.