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Nove Noites: A História de Buell Quain

O romance 'Nove noites' de Bernardo Carvalho narra a história de Buell Quain, um antropólogo americano que se suicida no Brasil, enquanto o narrador, Manoel Perna, reflete sobre suas experiências com Quain e a complexa relação entre brancos e indígenas. A obra explora temas como a interseção entre realidade e ficção, a loucura causada pela obsessão científica e a memória. A narrativa se desenrola entre 2001 e 2011, entrelaçando passado e presente na busca por compreender a vida e a morte de Quain.

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Nove Noites: A História de Buell Quain

O romance 'Nove noites' de Bernardo Carvalho narra a história de Buell Quain, um antropólogo americano que se suicida no Brasil, enquanto o narrador, Manoel Perna, reflete sobre suas experiências com Quain e a complexa relação entre brancos e indígenas. A obra explora temas como a interseção entre realidade e ficção, a loucura causada pela obsessão científica e a memória. A narrativa se desenrola entre 2001 e 2011, entrelaçando passado e presente na busca por compreender a vida e a morte de Quain.

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Nove noites

Bernardo Carvalho

Esta Foto de Autor Desconhecido está licenciado em CC BY-NC-ND


O autor

• Bernardo Carvalho (1960): escritor,


jornalista, colunista do jornal Folha de São
Paulo.
• Obras do autor: Aberração, Mongólia,
Simpatia pelo demônio, Reprodução.
• Vencedor do prêmio Portugal Telecom e
Biblioteca Nacional com o romance Nove
noites.

Esta Foto de Autor Desconhecido está licenciado em CC BY-NC-SA


Enredo e personagens
• Buell Quain: antropólogo (etnólogo) americano, ligado a universidade de
Columbia. Vem ao Brasil para estudar os índios mas acaba se suicidando em 2
de agosto de 1939, aos 27 anos.
• Bernardo Carvalho (personagem), escritor, jornalista, alter ego do autor. Ao ler
uma notícia de jornal sobre a figura de Buell Quain se interessa pelo
personagem e parte atrás de sua história. Na infância, o narrador tem
lembranças de suas andanças pelo Xingú acompanhando o pai que comprava
terras por lá.
• Manoel Perna: narrador-personagem (marcado em itálico). Escreve cartas para
um suposto amante de Quain. Narra as nove noites em que acompanhou
Quain. Engenheiro da cidade de Carolina.
• Heloisa Alberto Torres: Diretora do Museu nacional e responsável pelos
antropólogos americanos no Brasil.
• João e Ismael: os índios que acompanhavam Buell quando ele se suicidou.
• O misterioso velho no hospital.
Temas centrais

• Realidade e ficção, memória e imaginação.


“Alucinar o externo”.
• Buell Quain era um cientista promissor.
Representa a ciência e a racionalidade, mas é
contaminado por seu objeto de estudo e fica
louco. Sua loucura também se deve a sífilis.
• Narrativa paranoica: no final do romance a
paranoia contamina a narrativa do jornalista.
• O retrato dos índios. Índio raiz X índio Nutella.
• Índios Trumai e Krahô.
• O Estado Novo de Getúlio Vargas.
Narrativa
• Tempo narrativo:
2001 até 2011: de quando o jornalista lê a notícia sobre Buell Quain
até 2011 quando vai para os EUA procurar informações sobre Quain.
Meados dos anos 40: narrativa que Manoel Perna conta.
Quando Buell Quain estava no Brasil nos anos 30.
“Isto é para quando você vier. É preciso estar preparado. Alguém terá que preveni-lo. Vai entrar
numa terra em que a verdade e a mentira não têm mais os sentidos que o trouxeram até aqui.
Pergunte aos índios. Qualquer coisa. O que primeiro lhe passar pela cabeça. E amanhã, ao acordar,
faça de novo a mesma pergunta. E depois de amanhã, mais uma vez. Sempre a mesma pergunta. E a
cada dia receberá uma resposta diferente. A verdade está perdida entre todas as contradições e os
disparates. Quando vier à procura do que o passado enterrou, é preciso saber que estará às portas de
uma terra em que a memória não pode ser exumada, pois o segredo, sendo o único bem que se leva
para o túmulo, é também a única herança que se deixa aos que ficam, como você e eu, à espera de
um sentido, nem que seja pela suposição do mistério, para acabar morrendo de curiosidade. Virá
escorado em fatos que até então terão lhe parecido incontestáveis. Que o antropólogo americano
Buell Quain, meu amigo, morreu na noite de 2 de agosto de 1939, aos vinte e sete anos. Que se
matou sem explicações aparentes, num ato intempestivo e de uma violência assustadora. Que se
maltratou, a despeito das súplicas dos dois índios que o acompanhavam na sua última jornada de
volta da aldeia para Carolina e que fugiram apavorados diante do horror e do sangue. Que se cortou
e se enforcou. Que deixou cartas impressionantes mas que nada explicam. Que foi chamado de infeliz
e tresloucado em relatos que eu mesmo tive a infelicidade de ajudar a redigir para evitar o inquérito.
Passei anos à sua espera, seja você quem for, contando apenas com o que eu sabia e mais ninguém,
mas já não posso contar com a sorte e deixar desaparecer comigo o que confiei à memória.” p. 6
A morte e as cartas

“Quando se matou, tentava voltar a pé da aldeia de Cabeceira Grossa para


Carolina, na fronteira do Maranhão com o que na época ainda fazia parte de
Goiás e hoje pertence ao estado do Tocantins. Tinha vinte e sete anos. Deixou
pelo menos sete cartas, que escreveu, aos prantos, nas últimas horas que
precederam o suicídio. Queria deixar o mundo em ordem, a julgar pelo
conteúdo das quatro a que tive acesso, endereçadas a sua orientadora, Ruth
Benedict, da Universidade Columbia, em Nova York; a dona Heloísa Alberto
Torres, diretora do Museu Nacional, no Rio de Janeiro; a Manoel Perna, um
engenheiro de Carolina de quem se tornara amigo, e ao capitão Ângelo
Sampaio, delegado de polícia da cidade.” p.13
Manoel Perna e as Nove noites.

“Se faço as contas, vejo que foram apenas nove noites. Mas foram como a vida
toda. A primeira, na véspera de sua partida para a aldeia. Depois, mais sete
durante a sua passagem por Carolina em maio e junho, quando vinha à minha
casa em busca de abrigo, e a última quando o acompanhei pelo primeiro trecho
de sua volta à aldeia, quando pernoitamos no mato, debaixo do céu de estrelas. A
última noite foi por minha conta. Ele não havia requisitado a minha companhia,
mas senti que devia acompanhá-lo a cavalo, nem que fosse apenas no primeiro
trecho do percurso, como se de alguma maneira soubesse o que àquela altura
não podia saber, que nunca mais o veria. O que agora lhe conto é a combinação
do que ele me contou e da minha imaginação ao longo de nove noites. Foi assim
que imaginei o seu sonho e o seu pesadelo. O paraíso e o inferno.” p. 41
O pai, o Xingú e o governo militar.

“A prática foi estabelecida como programa pelo governo militar, que sob o pretexto
de desenvolvimento da Amazônia não só subvencionou a compra de centenas de
milhares de alqueires a preço de banana, como em seguida financiou nababescamente
os projetos de ocupação pelos fazendeiros — em geral, bastava derrubar a mata,
plantar capim e encher as fazendas de gado. Meu pai devia ter os contatos certos. A
finalidade da viagem era achar as terras. Originalmente, pretendia se concentrar no
cerrado. Acho que só depois surgiu a oportunidade do Xingu, uma miragem que ele
não conseguiu recusar. Ficamos na ilha do Bananal. Na época, meu pai ainda pilotava
um monomotor.”
A relação entre o homem branco e o índio.

"Não estava bom?", perguntou Antônia. "Estava ótimo. Mas é que não estou com fome. Não estou
acostumado a comer muito. Estou precisando emagrecer", respondi, devolvendo-lhe o prato com as
duas batatas que restavam intactas, ainda com casca, e que o José Maria devorou num instante.
Eu tinha levado barras de cereais para uma eventualidade dessas, as quais escondi no fundo da mochila.
Logo quando cheguei e o José Maria e o filho de bicicleta se juntaram à minha volta para ver o que eu
havia trazido e tirava da mochila, me adiantei e disse que tudo o que estivesse ali dentro ficaria para eles
de presente quando eu fosse embora. Queria evitar todo tipo de constrangimento. Mas as barras eu
escondi. Só tinha dez. No meio da primeira noite, levantei da rede pé ante pé, abri a mochila e peguei
uma barra. Havia mil barulhos à noite, mas quando rasguei a embalagem, foi como se o silêncio mais
absoluto tivesse baixado sobre a aldeia e só eu, com a crepitação irritante daquela embalagem, pudesse
ser ouvido. Dei a primeira mordida e foi como se o barulho da minha mastigação fosse uma trovoada
sem fim. Enfiei a barra inteira na boca e esperei que se dissolvesse, mordendo aqui e ali de vez em
quando. No dia seguinte, ao me reunir aos meus anfitriões para o café-da manhã, me perguntaram se eu
tinha dormido bem, se não estranhara a rede. Enquanto me servia o bendito peixe, Antônia disse que
havia ficado preocupada, achando que eu estava com frio quando me levantei no meio da noite, mas
que se acalmou ao ver que eu tinha acordado para comer. Eu já não tinha escolha. Fui lá dentro, peguei
as nove barras de cereais que me restavam e as trouxe para o café-da-manhã. Eles devoraram todas em
menos de cinco minutos, repetindo "chocolate" enquanto comiam.”
Agradecimentos
Este é um livro de ficção, embora esteja baseado em fatos, experiências e
pessoas reais. É uma combinação de memória e imaginação – como todo
romance, em maior ou menor grau, de forma mais ou menos direta. Ao
longo da pesquisa que o precedeu, contei com o auxílio de várias pessoas, a
começar por Mariza Corrêa. Sem ela, provavelmente eu nunca teria sabido
da existência de Buell Quain e este livro não existiria.

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