Hebreus-Católicos
Hebreus-Católicos
Conteúdo e articulação da Carta aos Hebreus e das Epístolas Católicas; com particular
atenção a uma delas. Comentário de textos escolhidos.
INTRODUÇÃO
A presente tese pretende tratar do bloco da bíblia composto pela carta aos Hebreus, e as
Cartas Católicas: Tiago, 1ª,2ª e 3ªJoão, 1ª e 2ª Pedro, Judas. Neste universo de livros a
bordagem vai deter-se na apresentação do conteúdo e da articulação década livro que forma
as Cartas Católicas. A carta aos Hebreus, de cuja discussão autoral ainda não se chegou ao
consenso, abre uma nova etapa um tanto inédita nos escritos neotestamentários ao colocar
Jesus como sumo-sacerdote superior aos anjos. Este tema merecerá um tratamento especial
em torno de vários outros assuntos que buscam sustentar este argumento. De outro extremo
da tese, erguem-se as chamadas “Cartas Católicas”, assim agrupadas por simples razão de
serem extra paulinas e de não terem um destinatário comum a não ser a Igreja universal à
qual o termo “católico” alude.
I - CARTA AOS HEBREUS
Nem é carta, nem é de Paulo e nem é aos Hebreus! Assim sustenta A. Vanhoye no seu
tratado sobre a “Carta aos Hebreus”, um escrito singular e rico pela sua única mensagem
relativa ao sacerdócio de Cristo no Novo Testamento.
[Link] e Lugar
Antigamente apresentava-se Paulo como sendo seu autor, mas esta hipótese mostra-se hoje
indefensável devido ao movimento, estilo e vocabulário diferentes do das cartas paulinas e a
diferenças nas citações (o uso do leghein contra o graphein de Paulo) e [Link]
atribuem a Apolo, Barnabé ou Priscila por terem sido alguns indivíduos que trabalharam com
Paulo devido à semelhança da estrutura com as Cartas não escritas por Paulo. Por exemplo, a
carta está dividida em dois blocos: a parte doutrinal (1-11) e a parte moral (12 e 13) que nos
lembra o método paulino. Exemplo disso é a presença de uma lista de admoestações na parte
prática do texto o que nos remete ao estilo paulino (cfr. Hb 13).
Clemente de Alexandria aventou a hipótese de que Lucas tenha sido o autor da Carta baseado
na afinidade de estilo com os Actos dos Apóstolos, justificando isto, pelo facto de Lucas ter
sido tradutor de uma epístola escrita por Paulo em hebraico. Mas Hebreus não é uma
tradução, e varia tão profundamente em estilo e na especificidade teológica, de tal modo que
isto não passa de uma suposição.
Orígenes defendeu a velha hipótese de que tenha sido Clemente de Roma a escreve-la, mas
não parece existir qualquer forma de dependência entre o escrito e aquele [Link] vários
autores propostos em conjunto não conseguem sustentar a tese de terem sido autores
1
autênticos de tal maneira que se torna impossível determinar a identidade do autor. Todavia,
o autor seja ele quem for, tem características de ser um Judeu-cristão convertido, líder da
comunidade em situação de cativeiro (13,19)1e conhecedor profundo de seus problemas, daí a
manutenção do seu anonimato.
Quanto ao lugar onde o livro foi escrito, não se pode igualmente determiná-lo com exactidão,
embora haja uma boa variedade de conjunturas: Roma, Egipto, Éfeso e Antioquia. Contudo,
há uma referência à Itália (13,24). Porém, este trecho não nos garante a certeza de ter sido
escrito nesta região e por isso, o lugar da composição permanece incerto. Quanto às datas, o
texto deve ter sido escrito entre 60 e 70 d.C.
[Link]ários
Quanto ao nome da carta “Hebreu”, era o nome dado aos israelitas pelas nações vizinhas.
Talvez tenha derivado de eber ou heber que significa “homem vindo do outro lado do rio”
que é o Jordão ou o Eufrates, a exemplo de Abraão que foi chamado de Hebreu por ter vindo
doutro lado do rio. É de referir que este escrito não é uma carta mas trata-se de um «sermão».
Não encontramos no texto nenhuma referência aos Hebreus como destinatários, e nada indica
que o grego em que está escrito seja uma tradução do hebraico.
É, portanto, difícil dizer quais os seus destinatários, embora o título «aos Hebreus» seja muito
antigo (séc. II). Pode facilmente admitir-se que fosse dirigida a judeo-cristãos, saudosos do
culto judaico que antes praticavam. EstesJudeo-cristãos aparentam viver num ambiente
citadino e ameaçado por perseguições e tentações de voltarem às suas anteriores práticas
(10,33-34. 24) depois da morte de seus primeiros pregadores (13,17).
O título parece justificar-se ainda mais, se tivermos em conta o conteúdo da Carta, pois ela
pressupõe leitores bem conhecedores do culto e da liturgia judaica. Contudo, nem tudo isto
pode ser demonstrado com alguma probabilidade. O indício claro é o de que eram cristãos
(cf. 3,1.4;6,4-9).
3. Características do Livro:
O livro tem teor cristológico, ou seja, apresenta um verdadeiro tratado sobre a pessoa de
Cristo. E a carta liga o Antigo e ao Novo Testamento de modo brilhante. Prevalecem por isso,
a superioridade de Cristo em relação aos anjos, profetas, a lei, Moisés, Josué, Arão e sobre os
sacerdotes (1,4; 6,9).
Em torno do Livro, desenvolveu-se um aceso debate, se este seria uma carta ou um sermão.
De facto, a passagem 13,18-25, dá uma indicação precisa de que o escrito se trata de uma
1
«Exorto-vos com maior insistência a que o façais, para que eu vos seja restituído mais depressa» (Hb 13,19).
2
carta, mas seu começo não tem nada a ver com o estilo epistolar, denotando por conseguinte
ser um sermão que posteriormente foi posto em escrito (McConnell 1965:5).
SEGUNDO A. VANHOYE
CARTA AOS HEBREUS
NB: O conteúdo une a doutrina-fé com a moral ao longo do texto
bíblico. A função sacerdotal de Cristo também não diz só respeito à sua
palavra mas se complementam.
Prólogo (1,1-4)
ESTRUTURA 1. O nome de Cristo é superior aos anjos (1,4. 1,5-3,18);
LITERÁRIA 2. Cristo sumo-sacerdote digno de fé (2,17-18. 3,1-5,10);
3. Valor incomparável do sacerdócio de Cristo (5,11-10,39)
4. Fé e perseverança (10,36-39. 11,1-12,13)
5. Caminhos rectos (12,14-13,21)
[Link]êndice: recomendações, bênçãos e saudação final (13,1-25).
HEBREUS
DOUTRINAL (1-10,18)
Palavra de Deus (1-4)
MORAL (10,19-13)
CONTEÚDOS
2
«Não oferecereis ao Senhor um animal com testículos pisados, lesionados, arrancados ou cortados. Não façais
isso na vossa terra» (Lev 22, 24).
3
SACERDÓCIO NT (Santificação=União: JC pertence ao povo, aproxima-se dos
DE CRISTO impuros, condenado, impuro e não é consagrado3etc);
3. Cristo Sumo-sacerdote:Por ser Filho de Deus;Imagem e resplendor
do Pai, Superior aos anjose com Nome de herança(1,1-4);
4. Mediação sacerdotal de Cristo:Cristo glorificado, Filho de Deus
(1,5-14) e Irmão dos Homens (2,5-16). Semelhante aos homens em tudo
(provações, sofrimento até à morte infame!)Misericordioso e digno de
fé.
ARTICULAÇÃO
a) Glória e superioridade de Cristo
A glória e superioridade de Cristo presentes em Hb 1,3-4 baseiam-se fundamentalmente na
sua imagem e no seu nome: «Este Filho, que é resplendor da sua glória e imagem fiel da sua
substância… tão superior aos anjos quanto superior ao deles é o nome que recebeu em
herança».
Duas razões são fundantes da glória e superioridade de Cristo, nomeadamente: imagem fiel
da substância do Pai e o nome Cristo. Segundo A. Vanhoye, nesta primeira parte, «Jesus
Cristo é superior aos anjos e por essa razão recebe um nome diferente daqueles». A
superioridade de Cristo em relação aos anjos gira em torno da «mediação», uma tarefa levada
a cabo pelos anjos. Quando Cristo torna-se superior a estes, indica que ele é o melhor
mensageiro de sempre, o “próprio Verbo de Deus”, no dizer de João. Por isso, em Hb 1,5
começa uma demonstração neste sentido: já o Antigo Testamento mostra que o nome de
Filho é dado a Cristo e não aos anjos. 4 Por isso, a insistência sobre o nome indica um sabor
semítico: o autor fala da “glorificação de Cristo” (Cristologia).
Esta comparação é propositadamente colocada no início para salvaguardar a superioridade de
Cristo em tudo quanto se refere ao seu sacerdócio e ao papel mediador, que tal implicaria. Se
Cristo é superior aos anjos e constituído último porta-voz de Deus (Hb 1,2), nada o impede de
ser o maior mediador de sempre entre Deus e os homens. Ademais, o facto de aparecer
«nestes dias que são os últimos» (1,2) nos revela sua importância, depois de tantas outras
tentativas falhadas por meio dos profetas do Antigo Testamento. Jesus marca o fim da
3
Nada na vida, mensagem e morte dele corresponde ao ideal do sacerdócio antigo.
4
Com efeito, a qual dos anjos disse Deus alguma vez: Tu és meu Filho, Eu hoje te gerei? E ainda: Eu serei para
Ele um Pai e Ele será para mim um Filho? (Hb 1,5).
4
revelação pública e pela sua missão impõe-se como o último e o mais importante dos
mensageiros de Deus.
b) Jesus Cristo Sumo-sacerdote fiel e misericordioso:novo sacerdócio de Cristo
(mediador).
Jesus Cristo Fiel ao Pai: Jesus Cristo foi sempre fiel e obediente ao Pai, Foi sempre fiel na
escuta da Palavra, até que obedeceu ao Pai até à morte e morte de cruz.
Misericordioso: Jesus Cristo é sumo-sacerdote que se compadece dos seus irmãos, pois
vivendo na terra com os homens, também foi provado em tudo como nós, excepto no pecado.
É n’Ele que alcançamos misericórdia dos nossos pecados e é n’Ele que encontramos graça
sobre graças.
c)Sacerdócio de Jesus Cristo
Superior aos levitas (Melquisedec) – Hb 7, 1-28
O autor de Hebreus identificou Jesus como sumo-sacerdote de acordo com a ordem de
Melquisedeque, tanto no capítulo 5 como no capítulo 6. Mas quem é Melquisedecque? Por
que Jesus é um sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque, em vez da ordem levítica?No
capítulo 7, o autor responde a ambas questões. Melquisedec que aparece na história bíblica
apenas um curto período (veja Génesis 14,18-20). Porque a Bíblia não registra seu
nascimento, morte nem mesmo sua genealogia, Melquisedeque parece ser de natureza eterna,
como o Filho de Deus.
Ele é identificado como sendo tanto o rei de Salém como sacerdote do Deus Altíssimo. Ao
falar-se no sacerdócio de Cristo, os hebreus poderiam levantar o seguinte questionamento:
Como Cristo poderia ser sumo-sacerdote tendo nascido da tribo de Judá? Os sacerdotes
vinham da tribo de Levi. Por isso, o autor diz que Cristo era sumo-sacerdote da ordem de
Melquisedeque, que é anterior e superior à ordem de Aarão, que descendia de Levi.
O autor deseja demonstrar a superioridade do sacerdócio de Jesus sobre o de Aarão e, assim,
ele afirma a superioridade de Melquisedeque sobre Levi. Ele o faz, em parte, observando que
Melquisedeque abençoou Abraão (o menor é abençoado pelo maior) e que Abraão, que tinha
as promessas, pagou dízimo a Melquisedeque. Num sentido figurado, Levi, descendente de
Abraão, também pagou dízimo a Melquisedeque, através de Abraão.
Mas por que uma outra ordem de sacerdócio, segundo Melquisedeque era necessária? A
resposta é que o sacerdócio levítico não era adequado (7,11-27). Nem a Jesus era permitido
ser sacerdote segundo a ordem de Levi. Os sacerdotes vinham da tribo de Levi, mas Jesus era
da tribo de Judá (7,13-14). A lei de Moisés nada dizia sobre homens de Judá tornarem-se
sacerdotes e, assim, isso era proibido. O homem não deve ir além do que Deus autorizou.
5
Para que Jesus fosse um sacerdote, o sacerdócio tinha que ser mudado. Uma vez que o
sacerdócio e a lei de Moisés estavam intimamente ligados, se o sacerdócio fosse mudado,
então a lei também precisariade ser mudada (7,12.18-19).
Aqueles que querem viver sob a lei de Moisés, hoje em dia, desligam-se do sacerdócio de
Jesus, porque ele não pode ser sacerdote sob essa lei! O sacerdócio de Jesus é, então, uma
garantia de que uma lei (ou aliança) melhor foi estabelecida (7,20-22).Os sacerdotes levíticos
eram fracos porque pecavam assim como os homens, pelos quais eles faziam intercessão.
Jesus, contudo, é santo, imaculado e separado dos pecadores. Ele não tem que fazer oferenda
por si mesmo, como os sacerdotes levíticos tinham que fazer. De muitas maneiras, Jesus é
verdadeiramente o sumo-sacerdote superior!
Jesus Cristo sumo-sacerdote de uma nova Aliança (Hb 8,15ss)
O trabalho do sacerdote é fazer as oferendas e sacrifícios no santuário (8,3). Como nosso
Sumo-sacerdote celestial, Jesus também serve num santuário, mas este é um santuário que
não foi feito por mãos humanas, como o foi o tabernáculo. Jesus é, não somente superior aos
profetas do Antigo Testamento, aos anjos, a Moisés e a Aarão, mas é também um melhor
sumo-sacerdote, que ministra num santuário melhor.
Ele é o mediador de uma aliança melhor estabelecida sobre melhores promessas (8,2-
6).Alguns dos destinatários originais de Hebreus estavam pensando em retornar ao judaísmo.
O autor de Hebreus quer que eles entendam como seria tolo deixar uma Aliança melhor para
retornar a uma imperfeita. Se o primeiro pacto tivesse sido infalível, não teria havido
necessidade de outro (8,7). Até mesmo o santuário associado à Lei de Moisés, o tabernáculo
construído no Monte Sinai, era apenas uma cópia e uma sombra do santuário celestial.
O que estava errado com a aliança feita com Israel no Monte Sinai? Realmente, nada havia de
errado com o pacto em si; ele cumpria as funções que Deus pretendia. Ele identificava o
pecado, encorajava a santidade entre o povo escolhido de Deus e apontava aos homens em
direcção a Cristo e à graça de Deus.
O escritor de Hebreus nota que a falha estava realmente no povo de Deus, e não na aliança
(8,8-9).Mas a nova Aliança é diferente, pois o perdão estaria disponível através do sacrifício
de Jesus Cristo (8,12). Não haveria mais necessidade de sacrifícios anuais no Dia da
Expiação, como a lei de Moisés o exigia (cf. Lv16). Jesus, o sacrifício perfeito, precisou
oferecer a si mesmo somente uma vez. Por que haveríamos de querer voltar ao velho e
imperfeito, quando Deus providenciou um pacto novo e melhor, com um melhor Sumo-
sacerdote?
Sacrifício de Cristo superior a Moisés (Hb 10)
6
Deus não se alegrava com os sacrifícios oferecidos sob a lei de Moisés, no sentido em que
eles eram inadequados para pagar a pena pelos pecados cometidos. O sangue dos animais era
oferecido a Deus, mas o autor de Hebreus observa que tal sangue “não podia tirar meus
pecados” (10,4.11). Jesus, contudo, veio a este mundo e foi totalmente obediente ao Pai
(10,9).
Como resultado, Ele foi capaz de oferecer a si mesmo, isto é, uma vida imaculada pelo
pecado, como um sacrifício perfeito. Diferente dos sacrifícios do Antigo Testamento, Jesus
ofereceu a si mesmo uma única vez, porque seu sacrifício garantia a remissão dos pecados
(10,10-12.14.18). Sob a lei de Moisés, somente ao sumo-sacerdote era permitido entrar na
parte do tabernáculo conhecida como o Santo dos Santos, e ele tinha que ser cerimonialmente
purificado antes que pudesse entrar ali na presença de Deus. O sacrifício de Jesus tornou
possível para nós, nos aproximarmos de Deus, e finalmente entrar ousadamente no próprio
céu, purificados pelo sangue de Jesus Cristo de todos os nossos pecados (10,19-22; 9,24-26).
d) Fé e Perseverança (11)
Em Hebreus 10,34 é explicada a razão pela qual o autor exige dos seus destinatários uma
atitude de fé e de perseverança: «Tomastes parte nos sofrimentos dos encarcerados,
aceitastes com alegria a confiscação dos vossos bens, sabendo que possuís bens melhores e
mais duradouros». Esta passagem dá a indicação de que os destinatários tinham passado por
momentos de dificuldades e de perseguições no passado, mas, face a uma iminente
perseguição, corriam o riscode perderem a fé e caírem na apostasia. O autor aplica os
exemplos da fé e os chama à perseverança como forma de animá-los a um maior heroísmo no
presente.
e) Os nossos pais na fé (Hb 11)
A ilustração do catálogo edificante dos heróis da fé da antiguidade vem justamente como uma
medida de reactivar o ânimo dos destinatários que possuíam corações pusilânimes. A ideia
fundamental que se quer comunicar é a de que «se o cristão quer salvar-se, deve ter fé».
Surge por conseguinte, a definição da fé como «a hipóstase das coisas que se esperam, um
elenco de coisas que não se vêm» (McConnell, JM 1965:88). Daí nasce a preocupação do
autor em aludir à Fé, Perseverança e Caridade que são as três virtudes de um cristão maduro.
Nasce assim, a sequência dos justos patriarcas do Antigo Testamento como modelos de fé e
de perseverança; «celebram-se todas as realizações de todas as provas da fé» (A. Vanhoye),
fazendo do capítulo 11 a maior galeria do tratado da fé extraída do Antigo Testamento. A
coragem e a paciência demonstradas pelos nossos antepassados na fé podem servir de modelo
de paciência aos hebreus, à qual a carta se destina.
7
f)Exemplo de Jesus (Hb 12)
À entrada do Capítulo 12, o autor volta a introduzir o tema da «perseverança», fazendo uma
exortação directa: «Considerai, pois, aquele que sofreu tal oposição por parte dos pecadores,
para que não desfaleçais, perdendo o â[Link] não resististes até ao sangue na luta
contra o pecado» (12,3-4). Este exemplo vem enfatizar a exortação à perseverança, tomando
como modelo o próprio Cristo que mesmo em face ao sofrimento da cruz, resistiu até ao fim.
Os destinatários são mais uma vez chamados a dar prova de perseverança, à exemplo de Jesus
[Link] serve para sua educação de filhos de Deus, e por isso, não devem perder a
coragem. As palavras características são a perseverança, a correcção e a educação que se
estendem até ao 12,11.
g)A fidelidade à vocação cristã
O tratado sobre a fé e a perseverança encontram seu maior significado na fidelidade à
vocação cristã. Nascem por conseguinte um conjunto de orientações práticas para a vida
cristã, tais como: procurar a paz e a santidade, vigiar e velar para que não haja impuros no
grupo (cf.12,14-16). Termina apelando à prática do culto a Deus com respeito e reverência
(cfr. 12,28).
h) Bênção (13)
Os temas acima mencionados vão desembocar no capítulo 13 que constitui um apêndice no
qual se dão as últimas recomendações. Nele nota-se uma insistência na santificação, na
relação com Deus, convidando os cristãos a viver à altura da sua vocação (13,1-6).
Ademais, dá orientações concretas sobre a caridade, a castidade, a pobreza e a confiança em
Deus; enquanto o trecho 13,7-18 busca fortalecer a coesão da comunidade com os seus
dirigentes.
A vida cristã é vista como um culto dado a Deus na acção de graças e na solidariedade
fraterna efectiva. A frase solene de 13,20-21 é a conclusão de todo o discurso: retoma
brevemente o conteúdo doutrinal (20) e as consequências para a vida (21) e termina com uma
doxologia, dando por terminado o sermão aos hebreus.
II - EPÍSTOLAS CATÓLICAS
1. Introdução geral
Cartas ou epístolas
8
Por carta entende-se um escrito com um carácter real, possui: emitente, destinatários, situação
ou ocasião, que existiam na realidade. Mas as epístolas dizem respeito a uma ficção literária,
na qual o autor pretende elaborar um tratado destinado à publicação, com um carácter
epistolar.
As epístolas católicas possuem elementos característicos tanto das cartas quanto das epístolas.
Elas apresentam marcas das cartas de estilo greco-romano, mas, simultaneamente,
apresentam marcas de epístolas, porque os autores tem a pretensão que elas sejam difundidas.
Porque católicas
As epístolas católicas são 8, mas as cartas de João formam um bloco paralelo com o
evangelho e o Apocalipse e a Carta aos hebreus é sui generis, apesar de ser separada do
corpus paulinum e anexada ao conjunto das epístolas católicas. O elemento comum das
epístolas católicas é de não pertencerem nem ao corpus paulinum nem ao joanino.
Estas epístolas levam o nome de católicas porque:
Eram conhecidas e lidas em todas as igrejas como católicas;
Possuem um conteúdo e destinatário universal;
Tratam de assuntos que afectavam a maior parte da cristandade. Ex: perseguições e
heresias.
Se dirigem a uma generalidade de fiéis e a um amplo sector:
Tiago – às 12 tribos da dispersão, totalidade de todo o povo de Israel, a Igreja;
1Pd – Aos cristãos do Ponto, Capadócia, Ásia e Bitínia;
2Pd e Jd – Aos fiéis da Ásia Menor.
Cartas, mesmo com destinatário, são aceitas como canónicas pelas igrejas;
Há um grupo de sete escritos do Novo Testamento que tem este título muito antigo: Cartas
Católicas. A partir do séc. IV d.C., esta designação genérica foi reservada para as sete Cartas
canónicas: Tiago, 1.ª e 2.ª de Pedro, 1.ª, 2.ª e 3.ª de João e Judas.
“Católico” significa universal, e tal deve ser a origem do nome destas Cartas. Notamos que
nem os autores, nem os destinatários, nem os temas tratados ou a sua forma literária
justificam que estas Cartas formem um conjunto. Agruparam-se pelo simples facto de não
serem escritos paulinos, não tendo um destinatário concreto, pois, eram dirigidas a toda a
Igreja, e não às comunidades ou pessoas concretas (excepto 2 e 3Jo, anexas a 1Jo).
1.1. Canonicidade
Nem todas as epístolas foram, desde os primeiros tempos, universalmente reconhecidas como
escritos inspirados O historiador Eusébio de Cesareia colocou as Cartas de Tiago, 2.ª de
Pedro, 2.ª e 3.ª de João e Judas (assim como o Apocalipse) entre os “livros discutidos,
9
embora admitidos pela maioria”, aos quais chamamos Deuterocanónicos. O acordo universal
só se deu no Ocidente pelos fins do séc. IV e no Oriente nos séc. VI-VII.
NB: Nos manuscritos antigos do Oriente as cartas católicas apareciam depois de Actos e
antes das Cartas de Paulo, pela ordem em que hoje as temos, o que deixa ver o grande valor
em que já eram tidas; nos códices, liam-se no lugar que agora ocupam no conjunto dos livros
do Novo Testamento, depois da Carta aos Hebreus e antes do Apocalipse de João.
1.2. Conteúdo:
As epístolas têm de comum a temática:
a) Cuidados a ter com os falsos mestres: 2 Pe 2,1-3.10-22; 2 Pe 3,3-4.16-17; 1 Jo 2,18-
23.26; 1 Jo 4,1-6; 2 Jo 7-11; Jd 4-19.
b) Necessidade de guardar a integridade da fé:Tg 2,14-26; Tg 3,13; Tg 4,3-12; Tg 5,7-11;
1 Pe 2,11-12.13-17; 1 Pe 4,1-4; 2 Pe 3,1-7.14-18; 1 Jo 2,18-29; 1 Jo 4,1-6; 2 Jo 7-11.
c) Exortação à fidelidade na perseguição:Tg 1,2-4.12; Tg 4,7; 1 Pe 1,6-7; 1 Pe 2,11-17; 1
Pe 3,13-17; 1 Pe 4,12-19; 1 Pe 5,6-10; 1 Jo 2,24-28.
d) Proximidade do fim dos tempos:Tg 5,3.7-9; 1 Pe 1,5; 1 Pe 4,7; 2 Pe 3,3-4.8-10; 1 Jo
2,18-19; Jd 18.
1.3. Tempo e contexto histórico
A temática das epístolas denuncia uma época relativamente tardia, em que esses problemas
eram os mais prementes, devido ao aparecimento das primeiras heresias cristológicas e a
algumas perseguições. Mas estas podem ter vindo do poder político exterior ou do interior da
própria comunidade – ou seja, dos falsos mestres.
[Link] A TIAGO
Esta carta é um dos escritos singulares no Novo Testamento, pois carece de elementos que
façam acreditar que seja um distintivo da fé e da prática cristã. Apresenta certos elementos
que parecem contrários à doutrina da justificação apresentados por Paulo. E é considerada
uma carta enigmática porque:
Apresenta uma doutrina escandalosa para os judeus;
Tem uma forma literária em desuso na época;
É difícil de situa-la no quadro histórico em que foi escrita;
Actualmente ganhou interesse por tratar da relação entre a fé e vida.
2.1. Autor, Data, Lugar e Destinatário
a) Autor
10
Quanto à questão do autor, a carta apresenta logo no início: “Tiago, servo de Deus e do
Senhor Jesus Cristo” (1,1). O problema é de saber de que Tiago se trata, uma vez que o Novo
Testamento apresenta 4 homens com esse nome:
Tiago, pai de Judas (não o Iscariotes) – Lu 6,16;
Tiago, filho de Alfeu – Mc 6,18; Lc 6,15;
Tiago, filho de Zebedeu – Mc 3,17;
Tiago, irmão do Senhor – Mt 13,55;1Cor 15,7.
Desse grupo os dois últimos é que são comumente apontados como autores. Mas uma parte
significativa aponta para Tiago irmão do Senhor pelas seguintes razões:
Porque Tiago foi testemunha ocular da ressurreição;
Porque era líder da igreja de Jerusalém;
O facto de Tiago, filho de Zebedeu ter morrido em 44 d.C. (Act 12,2);
O estilo do grego empregado na epístola é muito parecido com o do discurso de Tiago
(Act 15,13-21);
O testemunho dos padres da Igreja, que consideram a carta escrita por Tiago, irmão do
Senhor;
O consenso de diversos autores sobre a carta.
Todavia, um grupo de estudiosos refuta a hipótese de ter sido Tiago, irmão do Senhor pelas
seguintes razões:
O grego de boa qualidade e o profundo conhecimento da cultura helenística, que
contrastam com a figura rural de Tiago;
O silêncio na carta de certos problemas que se viviam na igreja de Jerusalém, como a
relação entre judeus e pagãos;
O completo silêncio sobre a figura de Jesus, como um exemplo;
O facto da carta não ter sido reconhecida até ao séc. XV – facto intrigante, pois a carta era
considerada de uma pessoa com certa autoridade na comunidade;
Relações literárias e teológicas que a carta apresenta em relação a alguns escritos
posteriores;
Este grupo de pensadores aventa a hipótese de o escritor da carta ter sido um judeu cristão
que era conhecedor da cultura helenística e que viveu numa época posterior.
b) Data
Aqui também há divergências sobre a datação. O grupo de aceita autoria de Tiago irmão do
Senhor apresentam duas hipóteses:
De 35-49 – porque a carta pressupõe uma comunidade embrionária;
11
De 62-65 – porque a carta apresenta algumas afinidades com os escritos do Novo
Testamento.
Os que não acreditam na autoria de Tiago, irmão do Senhor apresentam:
De 57-60 – porque a carta corrige ou amplia o ensinamento de Paulo;
Fins do séc. I até a metade do séc. II – porque o género e a forma pressupõem um
cristianismo daquela época, na qual o fervor do cristianismo era decadente, daí a
necessidade de exortações fortes para animar a fé.
c) Destinatário
Destinam-se às 12 tribos da dispersão. O número 12 inidca a totalidade, portanto é destinada
a todos os judeus convertido ao cristianismo que se encontravam na Palestina ou fora dela.
Tiago, irmão do Senhor (homem influente em Jerusalém e tradicionalista ao lado de Pedro e
João. Deu dores de cabeça a Paulo. O grego não parece dele mas dum discípulo anónimo).
Ano 40 (uso da sinagoga e ignora a crise judaizante) ou 60 (semelhante a Mateus).
Na Palestina (Jerusalém?).Destinada às 12 tribos da dispersão (1,1): Judeo-cristãos do mundo
grego, todo o povo.
2.2. Conteúdo
A atitude cristã perante as provações: 1,2-18;
Pôr em prática a Palavra: 1,19-27;
Caridade para com todos: 2,1-13;
Fé com obras: 2,14-26;
Domínio da língua: 3,1-12;
Verdadeira sabedoria: 3,13-18;
Origem das discórdias: 4,1-12;
Evitar a presunção: 4,13-17;
Advertências aos ricos: 5,1-6;
Exortações finais: 5,7-20.
2.3. Articulação
a) Linguagem
é um dos melhores escritos do Novo Testamento depois da Carta aos Hebreus, pois apresenta
um excelente grego da koiné, mesmo com a presença de alguns semitismos. É uma carta rica
em vocabulários e apresenta uma linguagem viva e cheia de frescor. Faz recurso à diatribe; é
um texto abertamente agressivo para com um determinado interlocutor. Apresenta muitas
perguntas e muitos imperativos.
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Apesar de apresentar uma saudação inicial (1,1), próprio das cartas, a Carta de Tiago não
obedece à estrutura de uma carta, facto que leva muitos autores a considerarem-na um escrito
do género parenético do Novo Testamento muito usado pelos mestres judeus e pagãos ligados
ao ensino.
2.4. Teologia
Há alguns temas de realce:
Deus
A concepção teológica de é teocêntrica, pois para ele existe uma correlação entre o agir de
Deus e o agir humano, porque é Deus quem possibilita o agir humano. Tanto é que, como
Deus é perfeito o homem pode e deve ser perfeito. Tiago concebe Deus como Pai, Senhor,
legislador e juiz. Como criador do universo (1,17). Deus dá sem medida e não tenta a
ninguém; está próximo do homem. É bondoso e misericordioso (5,15).
Cristo
Há escassas referências a Cristo, pelo que só aparece por duas vezes (1,1;2,1). E em nehuma
ocasião faz menção à ressurreição. Entretanto, Cristo é mencionado 60 vezes de maneira
indirecta como Senhor. É daqui que se entende a cristologia de Tiago.
A justificação: relação entre a fé e as obras
O homem é salvo pela palavra e é Deus que pode salvar o homem e este por si mesmo não se
pode salvar. Ele não é oposto a Paulo na questão das obras., pois também valoriza a fé de
Abraão (2,23).
Ética
É tido como o documento mais ético do Novo Testamento. O ensinamento se funda na crença
de que se alguém se aproximar de Deus cumpre a sua vontade e obtém os seus benefícios
espirituais, tanto nesta como noutra [Link] do sofrimento como uma prova e da dignidade
dos pobres.
Perfeição da lei
Todo cristão deve ser perfeito e integro como são perfeitos os dons de Deus, a lei da
liberdade, e a fé de Abraão. Mas para alcançar a perfeição o homem deve cumprir toda a lei
Parece que os destinatários eram provados de diversas maneiras (1,2.12); não por causa da fé
por parte dos judeus ou dos gentios, mas também pelo comportamento dos ricos (não se
exclui que esses sejam membros da comunidade), amantes do fausto (2,2ss), arrogantes e
opressores (2,5ss; 5,1-6).
Os mais tímidos dos fiéis assumiam uma atitude quase adulatória (2,1-9), enquanto outros se
entregavam à cólera (1,19ss), ao ciúme e às contendas (3,14ss; 4,1-3), à maledicência
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(4,11ss) e à murmuração (5,9). Muitos talvez não dessem à fé um conteúdo prático com o
exercício das virtudes evangélicas. Exorta a testemunhar a fé com obras, pois sem elas não
basta!
3. 1ª CARTA DE PEDRO
3.1. Canonicidade e autoria
Esta carta foi sempre considerada como escrito inspirado. Aparece escrita pelo Apóstolo
Pedro (1,1), por meio do seu secretário, Silvano (5,12). A crítica moderna tem dificuldades
em admitir a autoria de Pedro, isto porque o seu carácter de discurso exortativo e baptismal
não exige que seja um escrito tardio. Uma carta do Apóstolo podia ter, logo na origem, um
carácter de exortação moral e um fundo que se coadune com uma “homilia baptismal”.
Também as referências às perseguições não são aquelas oficiais dos imperadores romanos,
que só nos fins do séc. I estenderam-se a todo o Império. A elegância e perfeição do grego,
como as frequentes expressões paulinas, dão-nos a entender que tenha sido Silvano (5,12),
discípulo e companheiro de Paulo.
3.2. Destinatário
A carta é dirigida aos estrangeiros da dispersão (1.1-2) e sobre isto os autores pensam que são
as regiões da Ásia Menor e outros pensam que se refere às comunidades de Paulo. Os
estrangeiros da dispersão, para uns refere-se aos judeus cristãos convertidos, que se
encontram fora da própria pátria; outros pensam que são os cristãos em geral, tanto os vindo
do judaísmo quanto os que vem do paganismo (1,14).
Dirige a sua carta aos cristãos de toda a Ásia Menor, gentios que haviam sido evangelizados
por Paulo. A designação: “os que peregrinam na diáspora” (1,1) é entendida por uns no
sentido literal – os judeo-cristãos da diáspora, e por outros no sentido figurado –os cristãos
em geral, dispersos por este mundo.
3.3. Divisão e Conteúdo temático:
O autor pretende exortar os fiéis a permanecerem firmes na fé, no meio do ambiente hostil,
embora não pareça tratar-se de perseguição generalizada. Muitos estudiosos concordam que
se trata de orientar e encorajar, exortar e reforçar a convicção dos destinatários que estavam
mergulhados no sofrimento em relação à vida social e religiosa.
A primeira Carta é um denso resumo do Novo Testamento sobre a fé cristã e sobre a conduta
que esta fé inspira; está escrita em tom seguro, entusiasta e alegre.
Primeira Carta de Pedro:
Capítulo 1: Chamado a uma vida nova.
Capítulo 2: Chamado a uma conduta cristã.
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Capítulo 3 e 4: Chamada à caridade.
Capítulo 5: Exortações.
3.4. Teologia
Deus
A carta apresenta uma introdução trinitária, o que revela uma maturidade teológica do autor
(1,2). E o seu nome ocorre em número significativo.
Cristologia
Supõe uma cristologia tradicional do Novo Testamento, mais com muito realce no sofrimento
de Cristo. Esta é a base da sua pregação, para animar as comunidades no sofrimento.
Vida cristã: exortação e comunidade
Ocorre mais o aspecto exortativo do que o doutrinal. Começa com a exortação para terminar
com a doutrina.
Eclesiologia
Cristo é o fundamento da Igreja, por isso, as comunidades eram identificadas em Cristo. Faz
alusão aos dirigentes, que formavam um colégio.
Exortar a uma vida cristã mais santa. Esta santidade da caridade e do amor fraterno. É com o
amor fraterno que os cristãos poderão vencer as tribulações.
4. 2ª CARTA DE PEDRO
Mesmo que o nome da carta indique uma ligação com a 1Pd, nota-se uma grande diferença a
nível do conteúdo e do estilo. Apresenta forte relação com a carta de Judas.
4.1. Autor
O autor desta carta apresenta-se como Simão Pedro, servo e Apóstolo de Jesus Cristo (1,1), e
testemunha da transfiguração de Jesus na montanha (1,16). Um discípulo anónimo de Pedro,
sob inspiração do Espírito Santo, ao utilizar o seu nome e a sua autoridade, ter-se-ia valido de
um recurso frequente naquela época, a pseudonímia, com a consciência de que as ideias
desenvolvidas não eram pessoais, saídas da própria cabeça, mas do Apóstolo Pedro.
4.2. Destinatário
Não são referidos na carta, mas são cristãos que conhecem os escritos paulinos (3,13). Pela
referência e 3,1 bem poderiam ser os da 1ª Carta. Seja como for, a carta tem um carácter
universal.
4.3. Divisão e Conteúdo temático
O autor pretende animar os cristãos na perseguição e trata dos perigos e dos ataques dentro da
Igreja. Portanto, a carta tem mais um carácter de advertência. Mas ele pretende basicamente
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formular uma resposta à doutrina dos seus adversários, os falsos mestres. Eles possuem as
seguintes características (2,1ss):
É um grupo que pertence à comunidade (2,1-2);
Possui numerosos seguidores e tem autoridade (2,1-2);
Negam a Jesus;
Agem com libertinagem.
Pedro dá a sua resposta destacando:
A importância do conhecimento religioso (1,2-8;2,20;3,1);
O verdadeiro conhecimento que vem da cruz de Cristo;
A segunda vinda do Senhor (1,16)
Temas escatológicos como: o julgamento divino; a destruição do mundo; a promessa dos
novos céus e nova terra.
Tem como objectivo denunciar graves erros que ameaçavam a fé e os bons costumes,
sobretudo a negação da segunda vinda do Senhor.
Segunda Carta de Pedro:
Capítulo 1: Exortação a consolidar a vocação recebida. Recordar os ensinamentos de Cristo e
dos Profetas
Capítulo 2: polémica contra os falsos mestres.
Capítulo 3:O dia do Senhor. Exortação a uma vida santa.
4.4. Teologia
Não tem muitos fundamentos teológicos e cristológicos. Faz referência a Deus como Pai
(1,17). Fala do Espírito Santo como inspirador das escrituras (1,21) e Jesus é referido como
Senhor (1,[Link]) e Salvador (1,11;2,20;3,2.18).
Asegunda carta condena o erro daqueles que deixam de dar importância ao juízo de Deus e
negam a parusia. Recomenda a paciência, arrependimento e conversão, porque o Senhor
poderá pedir contas a qualquer momento. Consolar e sustentar a fé daqueles cristãos que se
encontram em momentos difíceis.
[Link] DE JOÃO
O Novo Testamento inclui três cartas atribuídas a João. A 1ª sempre foi aceite como escrito
inspirado; as dúvidas de autenticidade incidem na 2ª e 3ª carta.
[Link]
Deve ser o mesmo do IV Evangelho, atendendo às enormes semelhanças de vocabulário,
estilo, ideias e doutrina. As Cartas aparecem assinadas, como as restantes do N.T; apenas a 2ª
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e a 3ª se dizem ser do ancião (Presbítero), sem declarar o seu nome. Toda a tradição as
atribuiu ao Apóstolo João.
Se é certo que na 1ª de João o autor faz parte de um “nós”, também é certo que não fica
diluído nesse colectivo, pois sobressai acima da sua comunidade como alguém que teve um
contacto pessoal e directo com o próprio Jesus: “O que ouvimos, o que vimos... e as nossas
mãos tocaram...”(1Jo 1,1-4).
5.2. Composição
Alguns autores consideram que, assim como no IV Evangelho pode ter havido uma redacção
sucessiva com a intervenção de um redactor final, discípulo e continuador fiel do Apóstolo, o
mesmo poderia ter acontecido também com esta Carta. Com efeito, o “nós” coaduna-se bem
com o grupo de colaboradores e chefes da comunidade, dirigida pelo Discípulo Amado.
5.3. Destinatário, Finalidade e Data: cada uma das Cartas tem as suas características
próprias:
1ª Carta: não tem endereço e não parece ser dirigida apenas a uma comunidade, mas
provavelmente ao conjunto das igrejas que estavam ligadas ao Apóstolo João. A tradição
diz que ele passou os seus últimos tempos em Éfeso; os destinatários seriam
provavelmente as comunidades cristãs da Ásia, sobretudo aquelas a quem se endereçam
as Cartas do início do Apocalipse.
5.4. Divisão e conteúdo: 1 Jo pode estruturar-se da seguinte maneira:
Prólogo: 1, 1-4;
I. Caminhar na Luz: 1,5-2,29;
II. Viver como filhos de Deus: 3, 1-24;
III. A fé e o Amor: 4, 1-5,12
5.5. Conclusão: 5, 13-21
A Carta não foi só escrita apenas para reavivar a fé em Cristo e o amor aos irmãos; parece
tratar das ameaças de erros graves; é contra os gnósticos, que afirmavam ter um
conhecimento directo de Deus e negavam tanto a vinda de Deus “em carne mortal”como a
identidade entre o Cristo celeste e Jesus terreno (2,22). Para eles, o Jesus não passava de um
mero instrumento de que o Cristo Celeste se tinha servido para comunicar a sua mensagem,
descendo a Ele por ocasião do Baptismo e abandonando-o por ocasião da Paixão; e assim,
negavam a Encarnação e a morte do Filho de Deus, e o seu valor redentor.
2ª Carta: É um brevíssimo escrito dirigido “à senhora eleita e a seus filhos”(v.1),
designação simbólica de uma igreja concreta da Ásia Menor; pois se fosse uma pessoa
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singular, não teria o mesmo nome da sua irmã: “Saúdam-te os filhos da tua Irmã
eleita”(v13). Visa incitar os fiéis à vida cristã e à caridade e defende-los da heresia.
3ª Carta: é dirigida a um cristão, Gaio (v.1). Animava-o a continuar a receber em sua
casa os enviados do apóstolo João, que eram mal recebidos pelo chefe da Comunidade
local, um certo Diótrefes.
6. CARTA DE JUDAS
6.1. Autoria
O autor apresenta-se como “irmão de Tiago”(1,1), ou seja, “irmão do Senhor”. Hoje parece
ter mais peso a opinião de que este “irmão do Senhor” seja o Apóstolo Judas Tadeu (Mc 3,
18). O autor dá a entender que não se situa entre os Apóstolos (v.17). A brevidade desta Carta
e o seu menor interesse doutrinal justificam ter sido menos citada na antiguidade e ter havido
dúvidas acerca da sua canonicidade.
6.2. Destinatários
A carta faz menção dos chamados no amor de Deus (1,1), pelo que não escreve para
comunidades específicas. Mas muitos autores pensam nos cristãos vindos do paganismo. Isto
nota-se que se fosse aos judeus cristãos não seria necessário advertir sobre a luxuria e outros
vícios trazidos pelos falsos mestres.
A Carta não menciona os destinatários; provavelmente seriam os cristãos convertidos do
judaísmo, que nesse momento encontravam-se dispersos pelos territórios do Império
Romano, expostos aos falsos mestres portadores de falsidade. Com uma linguagem rica e
cuidada e com grande vivacidade de estilo, este escrito vai duramente contra os hereges e
exorta aos cristãos apermanecerem firmes na fé e no amor de Deus, segundo o ensino dos
Apóstolos.
6.3. Data
Escreveu-se pelos anos 62-80. Teria sido escrita antes de 2Pe. Ou nos fins da vida de Pedro,
ou depois da sua morte, por volata do ano 80.
[Link]ão e conteúdo:
Toda a carta de Judas encontra-se incluída na 2Pd. O conteúdo da carta é revelado pela
descrição que o autor faz dos falsos mestres e na resposta que dá a eles.
Os falsos mestres são descritos como:
Impios (v.4);
Libertinos;
Negam a graça de Deus e o único soberano e Senhor, Jesus Cristo;
Perturbam os ágapes;
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São arrogantes (v.16);
Mundanos e sem espírito (v.19).
As características desse grupo conduzem a pensar em grupos gnósticos, libertinos, infiltrados
das comunidades a que Judas se dirige.
Portanto o autor escreve para repreender e ameaçar a esses falsos mestres. E por outro lado
pretende exortar os fieis a permanecer na fé confiada aos santos (v.3).
A maior parte desta pequena carta dirige-se contra os falsos mestres, que se tinha infiltrado
nas comunidades. Tem uma característica anti- herética.
- Recordar os exemplos passados.
- Lutar contra os falsos mestres.
- Exortação à comunidade.
6.5. Teologia
Judas recorda, a partir daí, os aspectos fundamentais da fé tradicional. O autor reafirma quem
é Deus e quem é Jesus Cristo:
Deus
É Pai (v.4) e único (v.25). Chama, salva dá graças, conduz à vitória.
Jesus Cristo
É Senhor (17.21.25) e Soberano (4. Cf. 8).
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A. Vanhoye
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