Wallace & Gromit: Nova Aventura em 2025
Wallace & Gromit: Nova Aventura em 2025
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Wallace, Gromit
O inventor de engenhocas e o seu cão Äel
regressam com uma aventura animada
em stop motion, 20 anos depois da primeira
longa. Fomos a Bristol visitar a rodagem de
Wallace & Gromit: A Vingança das Aves.
É
Chega hoje à Netflix Wallace & Gromit:
CORTESIA NETFLIX
num banal parque industrial à saída de Bristol,
num barracão sem sinais particulares com ar de A Vingança das Aves, a segunda longa-metragem
armazém pré-fabricado, que se esconde uma das da dupla
mais amadas manufacturas artesanais dos reinos
de Sua Majestade britânica. Dentro deste hangar
anónimo com paredes em betão nu, escadas de
metal e divisórias de linha de montagem, algumas deze-
nas de pessoas afadigam-se a terminar o grosso da pro-
dução de um dos mais aguardados filmes do Natal de
Na era digital, eis
2024 no Reino Unido — embora o calendário diga estar-
mos no primeiro dia do mês de Agosto.
Numa pequena sala de conferências, algures no inte-
um filme artesanal,
rior do labirinto de salas e estúdios, o produtor Richard
Beek diz a um pequeno grupo de jornalistas (entre os
quais o do Ípsilon) que a imagem real tem de estar fe-
feito à mão,
chada daí a duas semanas, para a pós-produção ficar
terminada em Novembro. Tudo está dentro dos prazos,
muitos cenários estão já a ser desmanchados; estamos
fotograma a
na ponta final de filmagens iniciadas em Maio de 2023,
ao ritmo de poucos minutos de imagem por semana,
para uma longa-metragem de 70 minutos pela qual um
fotograma, por uma
núcleo duro, mas ferrenho, aguarda há quase 20 anos.
No átrio de entrada, um sofá está decorado com al-
mofadas de Shaun, mais conhecida em Portugal como
centena de artistas
a Ovelha Choné. Na cafetaria no piso superior alinham-se
cartazes das longas e curtas que fizeram o nome do es-
túdio. De simples alter ego de dois animadores ainda a de Agosto, que a divisão pequeno ecrã/grande ecrã é
tirarem o curso, Peter Lord e David Sproxton, a Aardman irrelevante para o seu trabalho. A partir de As Calças
Animations tornou-se um estúdio de animação de refe- Erradas, foi sempre a BBC a produzir e encomendar as
rência global, propriedade desde 2008 de uma coope- aventuras da dupla; e o grosso da produção da Aardman
rativa de assalariados. A sua conjugação de aclamação (como de muitos estúdios britânicos de animação) foi
crítica, sucesso público e lugar cativo no coração dos sempre destinada à televisão.
conhecedores e especialistas apenas é ultrapassada pelo “Isso do pequeno ecrã já não é uma grande questão
Studio Ghibli, do japonês Hayao Miyazaki. E não seria porque hoje em dia toda a gente tem um ecrã grande em
assim se não tivesse havido as personagens que trazem casa!”, diz, sorrindo, numa videoconferência a partir da
o Ípsilon a Bristol: Wallace, o inventor de engenhocas sua casa, em Bristol, onde ficou retido por um diagnós-
amante de queijo, e Gromit, o seu fiel e sofredor cão, tico de covid-19, com o seu co-realizador, Merlin Cros-
criados por Nick Park (Preston, 1958) para um filme de -singham, presente na sala de reuniões do “hangar” de
fim de curso na Escola Nacional de Cinema e Televisão Bristol. “A Maldição do Coelhomem foi a ‘anomalia’, por
britânica. assim dizer, porque foi a única aventura feita a pensar
primeiro em cinema”, recorda Park. “Para nós, a BBC
Experiência colectiva sempre foi a ‘casa’ de Wallace e Gromit. A Netflix permi-
Desde a sua primeira aparição, em 1989, Wallace e Gro- te-nos de certo modo reproduzir essa lógica fora de In-
mit ganharam três Óscares, deram a volta ao mundo glaterra. Não nos cabe a nós decidir onde é que as pes-
e tornaram-se embaixadores culturais de uma certa -soas os vêem, e isso não afecta o modo como os vemos,
Inglaterra. Bastaram para isso quatro curtas-metragens porque, para nós, são filmes na mesma. O que nos inte-
de 30 minutos (Dia de Folga, 1989; As Calças Erradas, ressa é que toda a família os veja ao mesmo tempo.”
1993; No Fio da Navalha, 1995; e Uma Padaria de Morrer, A experiência colectiva, em suma, que justifica a in-
2008 — todas disponíveis entre nós na plataforma de sistência da estreia na BBC e a ideia de “appointment
streaming Filmin) e uma longa (A Maldição do Coelho- viewing”, aquele momento em que todos paramos ao
mem, de 2005). Ao longo dos anos, Wallace e Gromit têm mesmo tempo para ver a mesma coisa. Os tempos áureos
surgido numa série de outros projectos — videojogos, da televisão britânica continuam, portanto, a ser uma
anúncios, intercalares para a BBC — mas o “cânone” de referência muito forte — e nem precisamos de ir lá muito
filmes limita-se àqueles cinco títulos. Até agora. atrás, basta pensar no que Steve McQueen fez ao produ-
Finalmente, o inventor distraído e o seu cão regressam zir a série dos telefilmes Small Axe há um par de anos,
com uma nova aventura, numa paisagem audiovisual feitos precisamente para o canal estatal inglês.
muito diferente daquela em que se tornaram populares.
No Reino Unido, a longa A Vingança das Aves (título por- Tudo à mão
tuguês inexplicável para o original Vengeance Most Fowl) É por aí, também, que podemos ler toda a contradição
teve estreia na BBC no dia de Natal de 2024, com lança- de insistir — como a Aardman o faz — em fazer stop
t e o pinguim:
mento quase simultâneo nas salas de cinema. Fora de motion, ou animação de volumes fotograma a foto-
Inglaterra, é o gigante do streaming Netflix que distribui grama, numa época em que a animação digital permite
o filme, com uma curta estreia em sala nos EUA, para tudo ou quase tudo.
entrar na corrida aos Óscares (tendo já sido nomeado Nick Park e Merlin Crossingham, bem como todos
para o Globo de Ouro da categoria de longa de anima- aqueles com quem falamos ao longo de uma manhã de
ção), e com o lançamento global na plataforma (Portugal visita aos estúdios e oficinas da Aardman, que vão de
marionetas
incluído) hoje. veteranos do estúdio a recém-chegados que cresceram
Podia ser mais uma acha para a fogueira dos protestos com Wallace & Gromit na BBC, não enjeitam de todo as
contra o todo-poderoso algoritmo do streaming e con- novas tecnologias. Desde a impressão em 3D, que per-
sequente estrangulamento das salas de cinema. Mas Nick mite criar do zero esqueletos de bonecos, partes so-
Park, o criador das personagens e realizador de todos bresselentes ou acessórios de decoração, ao sofisticado
os filmes da série, recorda ao Ípsilon, e aos jornalistas software de motion control, que permite repetir movi-
britânicos e americanos em Bristol neste primeiro dia mentos de câmara as vezes que foram necessárias
tura” escapa ao controlo do seu “criador”, em parte dias de rodagem.” Como Becher explica, “sempre que Os principais bonecos utilizados na rodagem
devido a Penas McGraw, o pinguim mestre do crime que uma personagem se movimenta, os dedos, os braços, a são feitos numa plasticina de base de giz, e a
Wallace e Gromit meteram na prisão em As Calças Erra- boca, os olhos têm de ser reposicionados — por exemplo, cultura da Aardman permite a cada animador
das (é a sua vingança que dá título ao filme). um piscar de olhos é uma coisa a que não prestamos “tornar seu” o boneco através das imperfeições.
Embora o projecto tenha começado a ser pensado há atenção na vida real, mas aqui temos de pensar muito Os olhos, bocas, bicos e outros “acessórios”
largos anos, muito antes da actual explosão de inteligên- bem em cada uma das piscadelas.” têm de ser reposicionados a cada fotograma.
cia artificial, Park e Crossingham dizem que o filme é Isto implica que tenha de haver “um entrosamento O departamento de modelagem encarrega-se
menos sobre a tecnologia fora de controlo do que sobre perfeito entre realizadores e animadores”, diz Becher. de criar “múltiplos” de cada boneco consoante
“Wallace e Gromit se terem afastado”. “Os realizadores têm de saber aquilo que querem de as necessidades de cada cena (como os gnomos
“Já não são íntimos porque o Wallace anda demasiado cada cena e explicá-lo muito bem ao animador, para, nas duas fotografias à direita)
entusiasmado com as suas invenções e o Gromit está quando o plano estiver terminado, cinco semanas mais
bastante farto de ser posto de lado. Quando o Norbot tarde, ser exactamente aquilo que pretendiam. Porque
aparece, ele sente-se uma espécie de órfão”, explicam é impossível voltar atrás e corrigir ou acertar pormeno-
os realizadores em animada cavaqueira. “Não temos res. Se o plano não estiver no ponto, vai ter de se refazer
nenhuma postura antitecnológica, mas muitas das in- do zero.” E isso acontece muito? “Não muito, mas acon-
venções do Wallace na verdade não trazem grandes tece”, responde, explicando que, em média, por cada
mais-valias, são apenas uma distracção da vida real”, diz 40 cenas rodadas uma terá de ser refeita. “Por vezes é
Park. “Também não queríamos comentar os nossos dias, uma questão puramente técnica, mas na maior
porque Wallace e Gromit não vivem no nosso mundo
contemporâneo, não têm telemóveis nem tablets como
nós”, continua Crossingham. “O que nos interessava
muito mais era a dimensão humana das relações, e o
modo como a tecnologia acaba por a entravar.”
O pinguim criminoso de luva na cabeça, personagem
cujo regresso os fãs clamam há anos, não fazia parte do
projecto original, explica Crossingham. “A ideia do
gnomo robótico não era suficientemente forte por si só
para sustentar a história. Alguém da equipa sugeriu ir-
mos buscar o Penas e, a partir do momento em que tí-
nhamos um vilão de peso, muitas das questões narrati-
vas que nos estavam a criar problemas ficavam resolvi-
das.” Foi também a introdução do pinguim que tornou
A Vingança das Aves de curta (para Nick Park, “a meia
hora é a zona de conforto de Wallace e Gromit”) em
longa (“assim que o Penas entrou na história, não con-
seguíamos meter tudo em meia hora”).
E, paradoxalmente, a própria natureza da persona-
gem cria aquilo que Crossingham diz ser um “contraste
de representação” — “fisicamente, o Wallace é alguém
que está sempre a fazer qualquer coisa, é um agente do
caos, enquanto o Penas é muito contido, move-se pouco,
a sua força está na sua quietude. Uma espécie de yin e
yang, se quiserem, para um animador.”
Fotograma a fotograma
Temos de deixar claro que estamos a falar de bonecos
— a palavra a Will Becher, veterano que supervisionou a
equipa de animadores do filme: “Se pegarmos num bo-
neco construído pelo nosso departamento de modela-
gem — o Wallace, por exemplo — é ‘apenas’ um boneco.
São os animadores que têm de o ‘moldar’ para se trans-
formar no Wallace.” Dar-lhe vida, em suma.
O animador funciona como o “actor” que dá vida ao
modelo articulado, fotograma a fotograma, através de
minúsculos e minuciosos movimentos. No monitor junto
a um dos cenários do filme, o supervisor chama do disco
rígido um plano de Wallace a tirar um capacete: “São 60
fotogramas, dois minutos e meio de filme, dois a três
parte dos casos é por causa da performance” — isto madores onde é que a sua parte vai encaixar.” E também grafia que trabalha com Park desde o início e supervi-
é, de um desencontro entre o que os realizadores pedi- respeitar a “linha editorial” do estúdio e das personagens, siona todos os plateaux de rodagem, pode haver 40
ram e o que o animador fez. porque uma longa-metragem destas são três anos de tra- animadores a trabalhar em simultâneo, em 40 planos,
Tal como Becher, Merlin Crossingham começou como balho a tempo inteiro, um enorme compromisso para em 40 cenários diferentes — tudo registado manual-
assistente de animação, foi subindo a pulso na hierarquia uma empresa como a Aardman, independentemente da mente num conjunto de quadros de cortiça parecido
do estúdio até se tornar, em 2009, “director criativo ofi- popularidade das personagens. com os velhos horários de estações de comboio, que
cial” de Wallace & Gromit, cargo que assumiu enquanto O estúdio não tem capacidade para mais do que uma serve de “bíblia” de produção para identificar quem
Nick Park rodava a sua longa A Idade da Pedra. Mas daí a produção de grande envergadura como esta de cada está a trabalhar, onde e no quê.
dar o passo para a realização vai um salto que Crossingham vez (e, no dia em que o visitámos, com as rodagens a Sim, leu bem: manualmente. Um dos membros da
deu a convite do mentor. “Um animador apenas é respon- terminar, muitos dos animadores já estavam nas outras equipa estava a terminar a criação de um programa in-
sável por uma pequena parte do filme. Realizar é exacta- instalações a trabalhar na próxima leva de episódios da formático, uma “bíblia digital”, que viesse substituir os
mente o oposto: é ter sempre o todo à frente, estar em Ovelha Choné). No ponto mais activo das rodagens, mapas. Mas a verdade é que estes quadros que ocupam
cima de tudo o que está a acontecer, comunicar aos ani- como nos explica Dave Alex Riddett, director de foto- meia parede numa das salas do hangar de Bristol, reple-
O cinema
são as almas.
Tentamos
capturá-las
Rithy
Panh
Como Älmar o genocídio de um milhão
e 800 mil cambojanos? Faltarão sempre
imagens. Por isso, toda a Äcção é impossível.
Encontro com Pol Pot pode, ainda assim,
esbracejar, esconjurar.
Vasco Câmara
R
ithy Panh, 60 anos, é um dos nar sem homens do que formada por
órfãos da Angkar, a organi- “homens imperfeitos”.
zação que dizimou cerca de Eis a doutrina pura e dura do
1 milhão e oitocentos mil Irmão n.º 1, Pol Pot, nascido Saloth
cambojanos entre os anos Sar (1925-1998), primeiro-ministro
de 1975-1979 com o seu pro- entre Abril de 1975 e Janeiro de 1979:
jecto de “comunismo integral”, de reformar os que podiam ser reforma-
“igualitarismo absoluto”, de criação dos, eliminar todos os outros. Du-
“de homens novos a partir da classe rante esse período mandou evacuar
dos camponeses pobres”. cidades e vilas para levar mão-de-
A sua família, enviada para um -obra para os campos e assim foi li- Encontro com
campo de trabalho, foi desapare- quidado um quinto da população Pol Pot
cendo ao longo da construção desse cambojana: nos campos da morte ou Rendez-vous
“Kampuchea sem ricos nem po- à fome. avec Pol Pot
bres”, projecto de uma sociedade O adolescente futuro cineasta con- De Rithy Panh
nova sem salários, sem dinheiro e seguiu fugir para a Tailândia em 1979. Com Irène
também sem opositores, que os Um ano depois chegou a Paris. Estu- Jacob, Cyril
Khmer Vermelho preferiam imagi- dou na Fémis, escola de cinema. Gueï, Grégoire
Colin
Em sala
O cineasta continua a sua demanda de lidar com a memória
de um país e de figurar o que não é figurável, o genocídio
do seu povo perpetrado pelos Khmer Vermelho
) Desde o seu primeiro filme de naturalismo, de um burlesco lar- cídio — pode ser compreendido. Encontro com Pol Pot não somos políticos, influenciados ou
tem-se dedicado a manter viva a me- var, do surreal, do metafórico e do Quando Primo Levi [1919-1987] documenta um pesadelo, não. Esse buraco, como diz, é uma
mória do genocídio, um comprome- metafísico. saiu do campo nazi e regressou a Itá- vive-o ainda forma de nos colocarmos face a nós
timento cinematográfico que cola- Fica claro então que o docudrama lia, no caminho de regresso disse a próprios. Neste caso, face a este
bora para a edificação de um projecto é irrealizável; que Encontro com Pol si mesmo que se contasse o que vi- homem com todos os seus slogans, a
de sociedade do Camboja saído do Pot é um impossível encontro entre vera ninguém iria acreditar. Não é sua ideologia pura e de pureza, que
trauma — como um desafio do legado jornalismo e cinema, na forma como por acaso que Primo Levi se tornou nos mostra também onde estamos
histórico do “homem novo” que o ontem as televisões e hoje as plata- um grande escritor. Socorreu-se da hoje: estamos em plena época de
cinema pode colocar em acção — e formas de streaming formataram, expressão artística. Ele é as palavras, radicalização. Há posições muito
que é indissociável do seu projecto um filme em que Rithy Panh convoca eu as imagens... o filme, a música duras de comunitarismo, de esquer-
Bophana, o centro audiovisual que de novo as suas figurinhas de argila podem ensinar-nos a expressar-nos. distas, de direitistas, de nazis, como
criou para a preservação das imagens para nos dizer de forma mais evi- Aprende-se o que é a imagem, o que se houvesse necessidade de radica-
e dos sons da história do seu país.
Eis dois exemplos maiores do
dente dessa impossibilidade e do que
podem ser as personagens de Gré-
é a ética, o que é a estética. A imagem
que falta faltará sempre. “Fizemos algum lização para afirmar uma identidade
pura de alguma forma.
“documentarista” Rithy Panh: o tre-
mendo S21, la machine de mort
goire Colin, Irène Jacob e Cyril Gueï,
evidentemente figurinhas, e dos in-
Foi essa a razão para não
mostrar nunca no filme a figura caminho nestes A ideologia da pureza é algo de
muito perigoso...
khmère rouge (2003), em que víti-
mas confrontam os carrascos na-
cidentes em que se vêem envolvidos;
eles que afinal não vêem nada no
de Pol Pot?
Pol Pot é Pol Pot. Encarná-lo talvez 50 anos. O país Voilà. Não há pureza. Somos huma-
nos, somos todos primos e primas.
quele que foi um centro de detenção
dos Khmer Vermelho em Phnom
Camboja. É um esbracejar, uma ma-
nifestação de desespero, talvez
seja um erro. Pode-se arranjar um
grande actor, maquilhá-lo. Tenho mudou muito. Descendemos da mesma humanida-
de e tudo o que é ideologicamente
Penh, uma antiga escola, e A Ima-
gem que Falta (2013), o seu primeiro
mesmo impotência, mas ainda assim
a insistência em convocar fantasmas
arquivos sobre ele e imagens dele.
Tentei, tentei que o interpretassem, Mas é uma história defendido como puro é questioná-
vel. Essa interrogação é o motor do
filme a chegar ao circuito comercial
português, em que o cineasta en-
— é um ritual de esconjuramento,
não um documentário ou uma fic-
fiz dois ou três castings, mas nunca
foi satisfatório. E descobri, além dis- muito complicada. filme.
Como é que posso dizer? A história
frenta a sua história pessoal — um
filme rodado com figurinhas de ar-
ção, este filme. Toda a memória está
ainda inteiramente traumatizada,
-so, que o actor que inicialmente que-
ria fazer o filme depois já não queria. É preciso um repete-se. Ainda hoje. Sabemos isso.
E porque é que não se faz nada para
gila, como se à aproximação auto-
biográfica fosse necessária ainda
Encontro com Pol Pot não documenta
um pesadelo, vive-o ainda.
Disse a mim próprio: “Se aquele que
é um grande actor no nosso país não trabalho de corrigir isso, para escapar a isso? So-
mos incapazes, indiferentes, egoís-
maior distância, maior pudor.
O dilema cinematográfico como
questão ética e filosófica, então:
Utiliza registos diferentes no
filme, ficção e imagens de
o quer fazer, então não vale a pena
forçar as coisas.” Como fazer? Não é
possível encarnar a personagem. Um
memória” tas. Pensamos antes de tudo em nós
mesmos. Temos necessidade de um
carro e compramos dois ou três.
como dizer em imagens o genocídio arquivo, e como em A Imagem obstáculo é um alerta. Aconteceu Para quem não sabe o que se
de um milhão e 800 mil camboja- que Falta... duas semanas antes da rodagem, com passou no Camboja com o
nos? Há sempre uma imagem em ... as estatuetas... um grande actor que é um amigo Khmer Vermelho, o filme tem
falta. Nesse movimento de aproxi- ... as estatuetas de barro. Para meu. Era necessário compreendê-lo um lado didáctico. Mas as
mação que tem sido o seu percurso citar então o título desse filme, porque não foi uma decisão ligeira da explicações nunca são
de filmes, Rithy Pahn cola-se agora há algo que falta em Encontro sua parte: como comediante, ele que- suficientes para justificar o que
à ficção com Encontro com Pol Pot com Pol Pot, não se consegue ria fazê-lo, mas moralmente e espiri- se passou. Ao buraco em termos
ou a história de três franceses con- explicar o que é inexplicável. tualmente, e como sobrevivente de figuração corresponde
vidados pelo regime Khmer para Sim, tem razão, é isso o que acontece também do genocídio, não podia esse vazio insustentável.
registar e divulgar ao mundo as con- com toda a violência extrema, e não interpretar [jouer, que também signi- Rithy Panh, 60 anos, era Quem foi Pol Pot? Não se sabe
quistas revolucionárias e entrevistar apenas com o crime de genocídio. fica “jogar” ou “brincar”, o que acres- adolescente quando conseguiu verdadeiramente...
o Irmão n.º 1. Um crime contra a humanidade deixa centa ainda mais sentidos]. Com- escapar, ao contrário da família, Se eu soubesse quem foi Pol Pot,
São eles um marxista-leninista, traços, como uma violação, que para preendi então que era necessário ser ao genocídio cambojano tê-lo-ia feito encarnar.
companheiro de Pol Pot nos seus es- mim é um acto de violência extrema. o mais dogmático possível: “Não é O que é a civilização? É a história
tudos universitários em Paris (Alain Uma violação é como uma arma. possível encarnar Pol Pot.” dos homens que se batem contra a
Cariou, interpretado por Grégoire Como exprimir essa violência, É isso que cria no filme uma ignorância, contra o obscurantismo,
Colin), a repórter Lise Delbo (Irène como falar dela? Não sei como lhe espécie de buraco, de vazio no contra o Mal, contra a rejeição dos
Jacob) e o fotojornalista Paul Tomas explicar o que é a morte por genocí- seu centro... outros. Mas o Mal é sempre mais
(Cyril Gueï). São deixados numa pista dio. Posso senti-lo, é uma coisa estra- É o Mal. E é o facto de nos colocar- forte que o Bem. A nossa civilização,
de aeródromo, um espantoso cenário nha, posso lembrar-me de algo que mos face a face com esse buraco o pensamento, existe porque nos
— real, milhares de cambojanos mor- vi, de um gesto, de uma multitude negro. Somos todos políticos mesmo batemos contra o Mal. Esse caminho
reram a construí-lo — e que se vai agi- de coisas diferentes, mas nessa mul- quando não somos seres políticos. não é uma questão de lógica. Porque
gantando, dominando o filme com o titude há algo sempre que falta. Somos políticos na nossa forma de o monstro também é humano.
seu vazio, preenchendo-o aliás com De tal forma que não tenho a certeza viver mesmo quando vivemos sozi- Se um actor tivesse figurado a
vazio, numa metamorfose invisível de que aquilo que lhe poderei dizer nhos na montanha: somos políticos personagem...
mas multiforme, capaz de ser a base ou contar — sobre o que é um geno- ainda assim. Vivemos em sociedade, ... eu teria feito mal. O que é bom na
O memorial pop N
um instituto musical perto mada, que não lhe interessava de
de Veneza em 1800, escon- todo fazer um filme musical “à
de-se Teresa, uma gata bor- Hollywood”, “coisa que, aliás, nem
-ralheira que, de manhãzi- tem tradição em Itália”.
nha cedo, constrói na sua As referências que ela evoca ao
cabeça uma verdadeira sin- longo de 25 minutos de conversa são,
antidepressivo
fonia do quotidiano feita a partir das como Gloria!, filmes “com” música:
rotinas imutáveis de preparar o dia Os Commitments, de Alan Parker, a
que começa, milimetricamente história de uma improvisada banda
coreografada entre Daft Punk e Busby soul irlandesa, “porque é um filme
Berkeley. muito leve que fala da importância Gloria!
É por aqui que Margherita Vicario da música na vida daqueles que não De Margherita
do convento
(Roma, 1988) decidiu introduzir-nos têm mais nada a que se agarrar”; De- Vicario
no mundo que criou na sua primeira claração de Guerra, de Valérie Don- Com Galatéa
(e deliciosa) longa-metragem, Gloria!, zelli, “porque o uso que ela faz da Bellugi,
esta semana nas salas: através da mú- música é de uma liberdade extraor- Carlotta
sica que é (supostamente) a razão de dinária, espelhando as emoções das Gamba,
ser desta “santa casa da misericórdia” personagens de uma maneira fortís- Veronica
que educa meninas órfãs e pobres, -sima”; e o cinema de Michel Gondry Lucchesi
Chega de Älmes depressivos, chega de mas que não lhes permite sonhar com
um futuro musical, apenas com o ma-
(O Despertar da Mente) ou Spike
Jonze (Queres Ser John Malkovich?),
Em sala
musicais prefabricados! Para começar o ano trimónio ou o convento. “porque a fantasia é neles extrema-
Enquanto prepara um chá em sua mente explícita”.
bem, eis Gloria!, primeira longa da cantora casa, poucos dias antes do Natal, a O que a cineasta estreante fez, em
e actriz italiana Margherita Vicario, fantasia cantora, compositora e actriz italiana,
com dois álbuns em carteira e uma
vez disso, é um “filme antidepres-
-sivo”, uma fantasia pop sobre coisas
pop e insolente sobre as instrumentistas tese de doutoramento no uso da mú-
sica no teatro político de Bertolt
muito sérias. Uma “fábula dos irmãos
Grimm” com final feliz que evoca Cin-
esquecidas da Itália patriarcal. Brecht, diz ao Ípsilon, por videocha- derela e outros sapatinhos de cristal
Jorge Mourinha
A primeira longa-metragem
de Margherita Vicario
passa-se em 1800
17.ª edição
mento havia cenas musicais”. É assim curto-circuito, de contar a história de
que Margherita define a criação do forma ‘moderna’. Com o meu direc-
filme, do qual é também guionista tor de fotografia, Gianluca Palma,
(com Anita Rivaroli) e autora de toda quis fazer um filme que fosse bonito
a música com o seu produtor habi- de se ver, esteticamente refinado,
tual, Davide Pavanello. “Foram as inspirado em imagens que todos co-
Destinado a intervenções
cenas musicais que ditaram tudo o nhecemos porque as vimos nos mu-
resto. É a música que conta tudo, que seus, na escola.”
desenvolve a história e lhe dá signifi- O resultado inscreve-se em simul-
cado. Cabia-me apenas pôr essa mú-
sica em imagens.”
tâneo na tradição da comédia italiana
clássica e nas tentativas mais recentes
exemplares que promovam
Uma história por contar
de rejuvenescer o género, pegando
nas narrativas clássicas com uma fres-
a conservação, recuperação,
O passo para trás da câmara era coisa
que nunca lhe tinha passado pela ca-
cura semelhante ao que, por exem-
plo, Susanna Nicchiarelli fez em Miss
valorização e divulgação
beça, mesmo que Margherita tenha
nascido no cinema: os avós paternos
Marx ou Nico 1988.
“O próprio processo artístico é de Património.
eram Rossana Podestà, vedeta ita- algo que torna tudo mais leve, é um
liana dos anos 1950 e 1960 que rodou modo de exorcizar e aligeirar a dor”,
com Valerio Zurlini, Mario Monicelli defende Margherita Vicario. “De-
ou Robert Aldrich, e Marco Vicario,
realizador de 7 Homens de Ouro ou
testo a apologia da depressão, e este
é um filme antidepressivo, porque a
Candidaturas
Empresta-me o Teu Motorista; o pai
Francesco e o tio Stefano são também
realidade pode ser feia, mas precisa
de ser melhorada. Existem belíssi- até 31 mar 2025
experientes realizadores televisivos. mos filmes deprimentes, mas já há
A ideia era mesmo só escrever o filme que cheguem, não precisamos de
e entregar a outra pessoa para reali- mais. Precisamos é de alegria, de
zar. “Não sou uma realizadora, sou glória. Precisamos de histórias com
uma cantautora”, justifica. “Mas o
meu produtor, Carlo Cresto-Dina
um final feliz, de música que nos diga
que é possível haver esperança.” GULBENKIAN.PT
[igualmente produtor de Alice Missão gloriosamente cumprida.
Descobrir
ALBERT BAEZ
Joan Baez:
A Cantiga
É Uma Arma,
documentário
da folk por
conta a história
da sua carreira
enquanto
trás da
acompanha a sua
última digressão.
Mostra mais:
máscara o sofrimento
e a dor que a voz
não contava.
Mário Lopes
J
oan Baez, a rainha da folk,
uma das vozes da luta pelos
direitos civis, a voz pelo paci-
fismo, contra a guerra do
Vietname. Joan Baez, dona
de um soprano divino, fora
deste mundo, celestial. Estreou-se em
álbum aos 18 anos e, quando o revi-
valismo folk era fenómeno ainda con-
tido nos clubes de Greenwich Village
(Nova Iorque), saltou para o top ten
americano. Aos 21 anos estava na capa
da Time. “Por alguma razão, fui a voz
certa no tempo certo”, comenta em
Joan Baez: A Cantiga É Uma Arma,
documentário de Karen O’Connor,
Miri Navasky e Maeve O’Boyle que
chega às salas portuguesas no dia 9
de Janeiro. É a história da carreira da
cantora que foi voz e rosto das lutas
sociais dos anos 1960 e da sua contra-
cultura. Não é só isso. O que é mais é,
de resto, o seu atractivo principal e,
ao mesmo tempo, a sua fraqueza.
Projecto desenvolvido num longo
período — vemos aqui a irmã mais
velha, Pauline, falecida em 2016;
vemos a mãe Joan, muito debilitada,
pouco antes da sua morte, centená-
ria, em 2013 —, Joan Baez: A Cantiga É
Uma Arma, estreado em 2023, ano
em que integrou a secção Heart Beat
do DocLisboa, chega agora às salas
portuguesas. Estreia-se em Lisboa
(Cinema City Alvalade e El Corte In-
glés) e em Gaia (Arrábida) a 9 de Ja-
neiro, e será projectado em Coimbra
(Casa do Cinema, 19 de Janeiro), São
Brás de Alportel (Cineteatro Jaime
Pinto, 20 de Janeiro) e Leiria (Teatro
Miguel Franco, 22 de Janeiro).
É curiosa a escolha do título em
português, Joan Baez: A Cantiga É
Uma Arma. Rima na perfeição com
a postura de Baez, com a sua visão
da música como veículo de denúncia
e motor de transformação social,
com a imagem que projectou e as
batalhas a que se juntou assim que
pegou numa guitarra e subiu a um
palco: a luta pelos direitos civis, ao
lado de Martin Luther King na mar-
cha de Selma até Montgomery e em
Washington quando o pastor profere em 1975, “só pela música, sem a po- que caía regularmente, a incapaci- CONTEÚDO COMERCIAL
o I have a dream que ainda hoje a lítica” e que se tornou um sucesso dade que carregou vida fora em se
TOP MENSAL
emociona; a fundação do Instituto comercial e junto da crítica. Está, nas entregar emocionalmente. “Não sou
para o Estudo da Não Violência; o imagens de arquivo, aquela voz fora muito boa em relações de um para
movimento antiguerra do Vietname deste mundo, e a voz que mostrou um, sou óptima em relações de um
a que se entregou generosamente, mundo fora na digressão de despe- para dois mil.”
pagando com a prisão, nascendo-lhe dida, menos virtuosa, mais grave e Enquanto, sob o olhar público, o
depois um filho, Gabriel Harris, mais terrena, “mais honesta” — mundo via uma mulher artista lumi-
quando o pai, então marido de Baez, “sinto falta dos agudos, mas não há nosa, de convicções férreas e solida-
o activista David Harris, cumpria nada a fazer, confessa, “tenho de me mente defendidas, de um humor
pena de prisão por recusar o recru- reinventar”. corrosivo, Joan Baez lutava com uma
tamento. Vemos essa Joan Baez no turbulência interna difícil de conter,
documentário, obviamente. A vida secreta habitada por sentimentos contradi-
É uma dimensão inescapável da O documentário, porém, é menos tórios: o prazer que sentia pelo su-
sua vida e do seu percurso enquanto sobre a história conhecida e mais so- cesso alcançado e pela adulação que
TOP 5
música e intérprete — “Nada faz sen-
tido para mim, além de eu, tu e a
bre o não dito, sobre as dores e os
traumas familiares que enfrentou, as
lhe devotavam convivia com a culpa
de viver uma vida de privilégio num TODOS OS MESES SELECCIONAMOS O
revolução”, escreveu numa das car- suas inseguranças e inadequações, a mundo atravessado por gritantes
tas enviadas a David Harris. Joan luta de décadas por uma serenidade injustiças e desigualdades. E tinha o do que ver no AXN para que não perca toda a acção,
Baez: A Cantiga É Uma Arma não é, e pela aceitação de si mesma que lhe pai que a censurava ao vê-la chegar
porém, apenas um filme sobre essa escapava desde a infância. A epígrafe a casa com os primeiros cachês vo- a emoção e suspense exclusivos que o AXN tem para si.
cantora. O seu título original é Joan que surge a início, frase de Gabriel lumosos — “eu trabalhei para ganhar
Baez: I Am A Noise, expressão reti- García Márquez, é para levar a sério: o meu dinheiro!” — e as irmãs que
rada a um dos cadernos que escre- “Todos temos três vidas, a pública, a passaram a viver na sua sombra. RED EYE AXN
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veu desde o início da adolescência e privada e a secreta.” A mais velha, Pauline, fugindo para Red Eye é um thriller em que três
que são uma das fontes mais citadas Contornando a fórmula habitual o mais longe que podia e refugiando- mundos colidem – DC Hana Li, a
no filme. Frase completa: “I am not em documentários de carreira, em -se “nas artes do silêncio”; a mais jornalista Jess Li, e Madeline Delaney
a saint, I am a noise” (“Não sou uma que a cabeças falantes, normalmente nova, Mimi, a tentar replicar-lhe os do MI5. As três mulheres são envolvidas
santa, sou um ruído”). celebridades que cobrem o objecto passos, tornando-se ela mesma can- numa conspiração e correm risco de vida
Inicialmente, foi pensado como um filmado de elogios, se sucedem ima- tora em duo com o marido Richard quando um médico britânico é preso por
documentário sobre a carreira de gens de arquivo, Joan Baez: A Cantiga Fariña, carreira a arrancar e a sofrer assassinato na viagem de regresso de
Joan Baez, produção executiva de É Uma Arma faz avançar em paralelo um abalo difícil de ultrapassar, com Pequim para Londres.
Patti Smith, realização liderada por a história de uma carreira e a história a morte precoce de Richard em 1966.
Karen O’Connor, produtora televisiva de uma ferida aberta desde cedo e Continuaria, mas sempre com uma QUARTO 309 AXN WHITE
cuja filmografia documental se tem que só muito mais tarde — Baez tem nuvem negra a acompanhá-la — Mimi Quarto 309. Um dos homens mais
debruçado sobre questões sociais. hoje 83 anos — parece cicatrizar. Ha- Fariña, que morreu de cancro em ricos da Turquia anuncia que a sua herança
Quando Baez decide despedir-se dos via a discriminação que sofreu na 2001, aos 56 anos, “estava progra- irá para o neto que casar e for pai primeiro.
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palcos com uma digressão encerrada infância devido à ascendência mexi- mada para ser infeliz”. As suas mães lançam-se numa caça pela
a 28 de Julho de 2019 no Teatro Real cana e que a fizera refugiar-se na mú- Pouco a pouco, o novelo vai-se des- mulher certa, que os envolve num conjunto
de Madrid (passou pelo Coliseu dos sica e na pintura — o pai, o físico e fiando, porventura deixando o per- de encontros às cegas. Onur e Lale
Recreios, em Lisboa, a 1 de Fevereiro professor Albert Baez, pacifista que curso artístico demasiado em se- conhecessem-se, por engano, num desses
desse ano), o filme imaginado passou foi o responsável pelos valores sólidos gundo plano e, infelizmente, com a encontros desastrosos. O resto? Acompanhe
a ter no descerrar do pano sobre a sua professados pelas três filhas, nascera óptima música e a voz abençoada de no AXN White, todas as quartas-feiras.
longa carreira o centro a partir do em Puebla. Havia, também, os ata- Baez a dar lugar a banda sonora de
qual irradiaria tudo o que o antece- ques de ansiedade e a depressão em dramatismo barato, piano de repor- ACCUSED AXN
deu. Entretanto, porém, Baez abre as tagem televisiva a pedir compaixão, Dentro da sala de audiências,
portas do armazém onde os pais guar- sempre que ouvimos os áudios das
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todos os casos continuam à espera
daram um imenso arquivo (os vídeos
caseiros da família, as cartas e as fitas Joan Baez abriu sessões de terapia. Escolha infeliz, de
facto — aquelas palavras, com aquela
de serem resolvidos e, a cada semana,
há novos crimes, novas tramas e novas
áudio que Baez enviava regularmente
aos pais, os seus cadernos de refle- o armazém onde música, ganham uma desconfortável
película manipuladora.
personagens intrigantes.
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segue Andrea Whitford, uma detective
para esse espaço profundamente ín-
timo e afasta-se. O documentário às realizadoras terrível, a de o pai, músico amador
que as encaminhara para a música e
que se muda para a pequena cidade High
Country para investigar o desaparecimento
inicialmente imaginado torna-se, en-
tão, outro filme. É a história da grande as gravações das que lhes inculcara um agudo sentido
de justiça na luta pelos desfavoreci-
de um jovem viajante. Porém, percebe
que este caso poderá estar ligado a outros
cantora folk que viu a sua carreira
explodir depois da aparição no Festi- suas sessões dos, ser também o responsável pela
dor que as filhas carregavam. Um
desaparecimentos que nunca foram resolvidos.
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A equipa da Unidade de Análise
tempo, elogiará) o par perfeito da que Pauline não acreditava que Comportamental do FBI está repleta de
música de intervenção, isto antes de tivesse acontecido, que pai e mãe novos casos para desvendar, enquanto
Dylan seguir o seu próprio caminho, À esq., Joan Baez enquanto negaram veementemente. Mimi mergulha na complexidade das suas vidas
lhe partir o coração, assim o confessa jovem mestre da folk. Em baixo, nunca recuperou. Joan sim, “de certa pessoais, nomeadamente após
no documentário, e, sob o peso do a cantora nos nossos dias maneira”. a chegada de um novo membro à equipa.
sucesso, “afastar toda a gente” — an- No documentário vemos imagens
tes, “era só uma pessoa, um miúdo, do concerto de despedida de Nova
e foi maravilhoso, um período breve Iorque, no Beacon Theatre. Baez
em que fomos dois miúdos juntos”. canta Fare thee well, abraça comovida
Em Joan Baez: A Canção É Uma a banda no final — um dos membros,
CONHEÇA O PROJECTO SEMANA AXN
Arma (1h53m) está a desorientação percussionista, é o seu filho. Sem re-
quando avançam os anos 1970 e a morsos. “Este é um bom período na
autodefinida “viciada em activismo” minha vida”, diz. Conta que um jor-
não sabe para onde canalizar o idea- nalista lhe perguntara dias antes qual
lismo. Está o renascimento com Dia- a sua década preferida. “De todas,
monds and Rust, o álbum que gravou esta era a que escolheria.”
MATTHEW ZARGOSKI
Chat Pile
Música para
um mundo
em ruínas
V
alência ainda está debaixo ouve os discos dos Chat Pile supõe Seguia-se Why, poderosa canção de
Surgiram do meio do nada — ou, pelo de água e Donald Trump que não estejam contentes com a sua protesto, questionando o porquê de
menos, do meio dos EUA — para nos acaba de ser eleito o 47.º
Presidente dos Estados Uni-
vitória. Também supõe que, indepen-
dentemente do resultado, não ficas-
haver pessoas sem abrigo com tantas
casas vazias — eles sabiam a resposta,
lembrar do que pode e deve ser o dos quando Raygun Busch -sem contentes. Quando Raygun todavia, o desespero com que
entra na videochamada Busch, Luther Manhole, Stin e Cap’n Raygun perguntava “why do people
rock: uma arma. Cool World é o seu com o Ípsilon. O vocalista dos Chat Ron lançaram os primeiros EP, have to live outside?” mexia mais con-
mais recente disparo. Vamos poder Pile está encafuado com muita gente
numa carrinha, a caminho de Cleve-
Remove Your Skin Please e This Dun-
geon Earth, em 2019, Donald Trump
nosco do que qualquer diatribe an-
ticapitalista. O tom acusatório repe-
vê-los em 2025, no Primavera Sound. land, no Ohio, antes de mais um con-
certo de apresentação do novo disco,
ainda ocupava a Casa Branca, con-
tudo, já não estava lá quando lança-
tia-se no resto das faixas, povoadas
por assassinos e empresários sem
Cool World — que poderemos ouvir a ram o primeiro álbum, God’s Country, escrúpulos, por vítimas de tiroteios,
13 de Junho, no Primavera Sound em 2022, e a sua fúria não tinha amai- de pedofilia, da droga.
A
ndré Gide disse que é com pre usada entre aspas, porque ela é de nascermos: não o vivemos, não o mento. Um pintor reduz a realidade
bons sentimentos que se apenas a nossa interpretação do real. vimos, mas há histórias dele, há pa- a um olhar.”
faz má literatura — o que, Neste romance, há coisas que o meu lavras que o descrevem, de vez em
obviamente, não implica pensamento crê que são reais. Há quando há também uma ou outra Coração
que os romances bondosos um padre doente do coração que fotografia.” Faciolince confessou que, antes da
sejam sempre maus. Salvo precisa de um transplante, que vai Mesmo quando parte de aconteci- publicação do romance, alguns dos
o Meu Coração, Tudo Está Bem, de para uma família onde há duas mu- mentos reais, eles não podem ser seus amigos a quem declarou o título
Héctor Abad Faciolince (n. 1958), é lheres e três crianças. Isso é real. Mas contados passando tudo para o lei- do livro reagiram ao uso da palavra
um exemplo disso. O colombiano — há algo obscuro, fechado, que no tor. Além disso, há a forma como se “coração” no título. Apesar de não
também autor do célebre livro Somos romance é a casa onde ele entra e conta, pois é isso que vai tornar conhecerem a história, recearam que
o Esquecimento Que Seremos (Alfa- onde ocorrem coisas. Essas coisas eu aqueles acontecimentos, aquela rea- esta pudesse ser confundida com Salvo o Meu
guara, 2023) — escreveu um verda- não conheço, não as vi, e essa reali- lidade, que de certa forma está a ser uma narrativa melosa, dessas que Coração,
deiro hino à bondade, à amizade e dade tenho de a inventar. Tenho de criada, única. Para isso há que fazer enchem os escaparates das livrarias. Tudo Está
ao amor ao contar uma parte da vida responder à pergunta sobre o que escolhas, pois é também esse o papel Mas o colombiano tinha várias razões Bem
do padre Luis Córdoba, a quem cha- acontece a um homem que foi sem- do escritor. para manter a palavra no título — era Héctor Abad
mavam “O Gordo” — inspirado na pre alma, espírito, castidade, afasta- “Não tenho imaginação”, sublinha uma imagem literal muito precisa do Faciolince
história verdadeira do padre Luis mento do corpo. O que se passa o colombiano. “O que tenho, espero, que se passa na narrativa, mas que (Trad.
Álvarez e na do próprio autor. quando ele se encontra com algo é uma espécie de antena, de radar acaba por poder ser lida também de Margarida
Numa apresentação do livro em muito corpóreo, com uma família, que logra encontrar no caos da rea- forma metafórica. Amado Acosta)
Lisboa, na livraria Travessa, em Ou- com uma mulher que o toca fisica- lidade, o que é literário, o que serve “‘Coração’ é uma palavra de que se Alfaguara
tubro, o escritor colombiano contou mente? Isto tive de inventar a partir para uma história. A realidade é am- abusou muito em alguma literatura
a história em que se inspirou: há das minhas experiências. Nessa al- pla, aborrecida, mas tem situações romântica, em alguma poesia. Então
muitos anos, quando se separou e tura, começa aquilo a que chamamos que, não sei porquê, são poéticas, e poderia parecer um pouco piroso
saiu de casa, a sua ex-mulher, mãe ficção.” essas vale a pena contá-las, se para usá-la no título”, conta o autor. “Mas
dos três filhos do casal, convidou um Ao criar essa realidade, que preen- isso se encontrarem as palavras e o quando se abre o livro e se percebe
padre para viver em sua casa, pois o che o que se desconhece, o autor tom adequados. É uma espécie de que é do coração físico que se fala, de
homem estava muito doente do co- inventa, mas não mente, apenas tradução aquilo que os escritores uma víscera que vai ser tirada para se
ração, à espera de um transplante, e prossegue o dever de continuar a fazem. Temos de traduzir a reali- pôr outra, então entende-se que este
já não podia subir as escadas da resi- contar tentando iluminar, para si e dade, filtrá-la, reduzi-la para que as coração é algo que não está bem, que
dência eclesiástica. Muitos anos de- para os leitores, os lados mais obscu- palavras se traduzam em imagens está doente. Apesar de o poema ori-
pois, também Faciolince adoeceu ros do que ainda não foi contado. fortes na cabeça do leitor, e que ao ginal, de onde eu tirei este verso, ser
gravemente do coração e foi sujeito “O inventado não é mentira”, mesmo tempo seja um relato coe- um poema de amor. Quando nos ope-
a uma delicada operação cirúrgica. afirma. “O inventado cria uma reali- rente. Para que isto realmente fun- ram ao coração, como aconteceu
Destes dois acontecimentos, tempe- dade diferente, que o leitor partilha, cione, essas palavras têm de ter be- comigo, quando nos matam por um
“Um tributo rados com muita ficção, surgiu Salvo aceitando o pacto com o escritor. Se leza, simetria, harmonia, e sobre- tempo porque o param, quando pelo
ao amor o Meu Coração, Tudo Está Bem. o leitor não crê, é porque essa reali- tudo ritmo. A vida está cheia de cérebro não passam os bombeamen-
e à amizade, Costuma afirmar que não tem dade está mal contada, ou porque é momentos que não servem para tos de oxigénio, mas um fluxo contí-
à dor e à muita imaginação, e que talvez por um leitor tão realista que a única nada, inúteis, e não temos de os con- nuo de sangue, acordamos sabendo
solidão”, disse isso os seus romances partam quase coisa que lhe interessa são os factos tar. As histórias minuciosamente que algo mudou na nossa mente, não
o escritor sempre de personagens ou de situa- comprováveis. Os melhores leitores realistas são um tédio. Mas para des- se acorda igual. Tem algo de ressur-
cubano ções reais. Em conversa com o Ípsi- são os que acreditam na realidade cobrir as simetrias, a beleza, é pre- -reição, morrer e voltar à vida. Ima-
Leonardo lon, Faciolince apontou o momento criada pelas palavras, pelos relatos ciso ter um olhar diferente. Ao ser gino que num transplante [de cora-
Padura em que, neste livro, a realidade dá que não são mentira e que existem assim contada, a realidade fica me- ção] aconteça o mesmo, que é um
sobre este lugar à ficção: “O Nabokov dizia que dentro de nós. Assim como nós acre- lhor. Um fotógrafo também não pouco o tema deste romance: um
livro a palavra ‘realidade’ deveria ser sem- ditamos que havia um mundo antes conta tudo, escolhe o enquadra- homem de 50 anos, um padre, que
espera um coração alheio, quer ter procurar o assombro na realidade de outro motivo era a homossexuali- cidade de me encher com a sabedo-
uma vida nova, se sobreviver à ope- uma “história real” mantém-se. “Os dade, numa sociedade fechada em ria dos outros. O que posso fazer é
ração. Ele tinha uma vida espiritual, escritores são predadores inofensi- que não se podia manifestar, ir para pôr o que os outros me contam por
casta, de amor à música, ao cinema, vos, não roubamos algo de que os o seminário, tendo fé, acredita-se vir palavras claras e dar-lhes ritmo.”
de amores apenas platónicos. E quer outros precisem”, diz o colombiano. a ter uma vida casta.” Depois deste romance, cuja pri-
trocá-la por uma vida de contacto fí- “Procuramos na realidade o que nos O protagonista do romance é um meira versão ficou terminada pouco
sico, de carícias.” assombra e tratamos de condensar cineasta e um melómano, ouvindo antes da operação ao coração, Héc-
O narrador de Salvo o Meu Cora- as palavras para que esse assombro sobretudo ópera — que o leitor tam- tor Abad Faciolince trabalha agora
ção, Tudo Está Bem perde-se, por que sentimos seja também sentido bém pode ouvir, enquanto lê, bas- num livro que tem a Ucrânia como
vezes, em minuciosas descrições de por outros. Eu tive de falar com mui- tando para isso usar os códigos QR tema central. Confessa que não é um
informações médicas sobre a doença tos padres para saber como é ser que surgem ao longo da narrativa. romance como inicialmente pensou
que afectava o padre Córdova e que,
de algum modo, não são essenciais
padre. Falei com amigos do padre
Álvarez, com alunos dele, com reali-
Quisemos saber se, de facto, o autor
se aproxima do padre Córdova nes- “A morte tem-me escrever e que achou não ter resul-
tado — “Deitei cem páginas para o
à história, mas ele logo adverte: “Se
alguém não estiver interessado em
zadores de cinema que estiveram
com ele. Quando algum deles me
tes interesses. “Não tenho conheci-
mentos de ópera nem de cinema”, passado muito lixo” —, mas uma espécie de crónicas
romanceadas. A ideia surgiu-lhe de-
saber como funciona um coração, o
centro vital do nosso corpo, pode
contava algo muito banal, como a
história de um gato, de um cão, de
confessa Faciolince a sorrir. “Não
sou uma pessoa particularmente perto. Vivo quase pois de um acontecimento em que
quase morreu.
saltar esta parte.” (pág. 29)
Nos nossos dias, a verdade, aquilo
um papagaio [o protagonista tem
vários animais de companhia], pro-
culta, sou normal e com muito má
memória. Leio muito e esqueço morrendo. Mas, “A morte tem-me passado muito
perto. Vivo quase morrendo. Mas,
que pensamos ser a verdade, parece
ter-se tornado, também em litera-
curava nelas detalhes que as ligassem
à vida do padre. Outra coisa que quis
quase tudo. Mas tenho amigos muito
inteligentes e cultos. Se tenho uma não sei porquê, não sei porquê, não morro. Então, já
que não morro, conto. Há um ano e
tura, mais importante do que a fic-
ção. Em muitos romances e filmes,
saber: porque iam os rapazes para o
seminário? O que me contavam era
pergunta médica, de direito, de bio-
logia, de ópera, da vida de Mozart ou não morro. Então, pouco, na Ucrânia, quase me mata-
ram. Mas mataram a pessoa que es-
agora é importante anunciar que é
“baseado numa história real”. A ve-
que havia dois motivos fundamen-
tais: a pobreza, a família não podia
de Bach, pergunto-lhes e escrevo
como se fosse eu o homem culto. já que não morro, tava à minha frente, mais nova do
que eu. Agora dou voz a essa pessoa
rosimilhança deixou de ser sufi-
ciente. Mas essa necessidade de
alimentar tantas bocas e no seminá-
rio tinham comida e estudavam;
Muitas vezes sinto-me uma caixa va-
zia, não tenho nada, apenas a capa- conto” que morreu, conto coisas que não
sei, para que a vida faça sentido.”
Cláudia
T
Ed Conway
odos os dias usamos objectos Seleccionou seis: o petróleo, o lítio, médio prazo, uma quantidade de
sem darmos grande pensa- o sal, o cobre, o ferro e a areia. E, materiais ainda mais considerável”
mento à sua existência: tele- “numa história de deslumbra- para construir automóveis eléctri-
os materiais e como são las em semicondutores. Mas a rela- é por causa do vidro e dos chips de Ed Conway faz uma viagem Fazer um lápis. É um processo tão
conseguidos? ção fundamental que temos com o silício [semicondutores]. desde a extracção dos materiais complexo que ninguém sabe sozinho
Acho que há algo inato nos humanos planeta continua a ser mais ou Mas, sim, falei com muitas pessoas até ao momento em que como o fazer. O reverso da medalha
que remonta à Idade da Pedra. menos a mesma. e o sal causou muita estranheza. chegam às nossas mãos é que a nossa compreensão de como
Enquanto espécie, sempre escavá- E penso que há algo de primordial Muita gente pensa apenas em co- as coisas chegam até nós é realmente
GAMMA-RAPHO/GETTY IMAGES
Uma salina em quantidade aumenta. Há um Este é o aspecto fundamental: carbónica é dizer que vamos deixar carbónica em todas estas vias alter-
Castro Marim desafio inerente. Mas há outra razão, preocupa-me que não tenhamos ex- de utilizar alguns destes combustí- nativas que todos estão a traçar, a
que foi a razão pela qual me tornei periência anterior de deixar de uti- veis por completo. E isso não tem AIE e o nosso comité para as altera-
um pouco mais pessimista no último lizar um determinado combustível. precedentes. Nunca o conseguimos ções climáticas e todos os outros,
ano: quando passamos por estas Tanto quanto sei, continuamos a na existência humana. todos eles partem do princípio de
transições, na maioria das vezes, não usar basicamente todos os combus- Portanto, não é que o material de- que o carvão se reduz a um número
é como se deixássemos de usar o tíveis que aprendemos a utilizar. Não sapareça. E isso é interessante, não muito baixo. Isso é totalmente sem
último combustível que estávamos parámos. Passar para a neutralidade é? Porque para atingir a neutralidade precedentes. Nunca o conseguimos
a usar antes. Ainda usamos muita
madeira: continuamos a queimar
VCG/GETTY IMAGES
mim, as duas coisas são parte da tica do Congo, que obviamente con-
mesma história. Não se pode escapar tinua a ser muito importante para o
à política aqui. Em teoria, temos o cobalto.
tipo de engenharia, temos a econo- Sabemos que, no passado, o que
mia e o tipo de capacidade de fabrico muitas vezes aparentava ser
[necessários] e parece que estamos a uma solução, como o petróleo
fazer um bom trabalho nesse sentido. ou o plástico, acabou por se
Mas depois há a política e está tudo a tornar um problema. Poderá
colidir neste momento. É uma histó- acontecer o mesmo nesta fase de
ria absolutamente fascinante, mas transição? Ou estaremos mais
também bastante assustadora, por- conscientes do perigo?
que, quando a política está envolvida, É provável que volte a acontecer. De
tudo se torna bastante imprevisível, todas as vezes que tivemos uma tec-
não é? nologia transformadora acabou por
O lítio pode ser um ponto de ser um tiro pela culatra. Aconteceu
viragem não só na indústria dos com o petróleo, com os plásticos,
transportes, mas também no com o carvão... Foi em parte graças
mapa geopolítico mundial? Mais ao carvão que não acabámos com
do que o material em si, importa todas as florestas que temos, porque
muito o local onde é produzido. o carvão foi capaz de intervir e forne-
Poderá isto continuar a ser um cer todo o combustível de que neces-
problema? -sitávamos para fabricar aço e para o
Existem consequências geopolíticas calor de que precisávamos. O proble-
enormes. Se pensarmos, muitas das ma é que é muito difícil prever estas
questões geopolíticas que domina- coisas com antecedência.
ram o último século XX estavam, de Suponho que a vantagem que te-
uma forma ou de outra, relacionadas mos agora seja o facto de estarmos a
com o petróleo. Seria estranho se pensar mais nestas coisas do que as
estivéssemos a mudar do petróleo e gerações anteriores. No passado, al-
do gás para metais como o lítio e o gumas pessoas pensavam sobre as
cobalto e isso não dominasse o qua- consequências ambientais, mas
dro político do século XXI. É também nunca foi tão generalizado e tão sin-
um problema para o Médio Oriente, cero e com tantos milhões de pessoas
porque se deixarem de poder contar a trabalhar para ter um planeta mais
com grandes receitas provenientes sustentável. Com sorte, vamos fazê-lo
do seu sector do petróleo e do gás... de uma forma mais inteligente, mas
fazer no passado. Por isso, pergunto- É viável mudar para veículos Mina de carvão na Baía de Ha isso é existencial para eles. E já se vê ficarei espantado se não houver algu-
-me se as pessoas se apercebem do eléctricos, tendo em conta a Long, no Vietname isso na Arábia Saudita, a forma como mas consequências indesejadas das
quão difícil isso será. procura existente e a quantidade estão a tentar afastar-se do sistema e tecnologias sobre que nos estamos a
Sobretudo os decisores de lítio que será necessária? a construir alternativas. debruçar.
políticos... Não creio que o lítio seja o problema Para mim, o que é interessante Para chegar à neutralidade carbó-
Penso que há muitos solavancos no dos carros eléctricos. Penso que con- aqui é: a China é, de certa forma, a nica, para alcançar tudo a que nos
caminho que se avizinha: em parte seguimos obter lítio suficiente. Teo- história nas sombras de todo este li- propusemos, temos de continuar a
é a política, mas também penso que ricamente, deveríamos ser capazes vro. Porque a China já pensa neste fazer muita extracção mineira, temos
esta conversa não foi devidamente de ter baterias suficientes. O relató- mundo material há muito tempo. de fazer muita construção e de utili-
tida com a maioria das pessoas. rio World Energy Outlook das agên- Grande parte das baterias, painéis zar muita energia e, na maior parte
E parte dessa conversa é dizer cias internacionais de energia diz solares e outros produtos são fabri- das vezes, isso é bastante sujo am-
que, a curto prazo, isto pode ficar que o actual pipeline que existe para cados na China. Grande parte da bientalmente. Por isso, para sermos
mais caro. De facto, será provavel- o fabrico de baterias é suficiente para razão pela qual a China está tão em- limpos, temos de ser sujos. Suspeito
mente mais caro. Talvez a longo cumprir o seu roteiro para todos os penhada na transição energética não que só daqui a uns 100 anos é que
prazo possa ficar mais barato, mas a automóveis eléctricos de que preci- se deve ao facto de acreditarem pia- nos vamos aperceber de que houve
curto prazo é preciso gastar muito samos. mente nas alterações climáticas e na consequências não intencionais de
dinheiro para investir em energias O problema é que quase todas es- redução das emissões de carbono fazer todas as coisas que estamos a
renováveis, em redes eléctricas, em sas baterias estão a ser fabricadas na — é porque querem independência fazer agora.
baterias e em todas as tecnologias. China. E a questão passa a ser: a Amé- energética. E teremos sempre de extrair
Trata-se de uma infra-estrutura ma- rica sente-se confortável com isso? Isto está a mudar a dinâmica geo- materiais do solo?
ciça, que envolve muito dinheiro a A Europa sente-se confortável com política de uma forma que é muito Já não estamos habituados à ideia de
curto prazo. E acho que não foi de- isso? A China está muito mais à frente difícil de prever. Por outro lado, explorar minas como estávamos anti-
vidamente transmitida a ideia do no que diz respeito à produção de quando o petróleo foi descoberto na gamente. Esquecemo-nos de que
que vai custar chegar a esta meta. baterias e ao fabrico de módulos so- Arábia Saudita, não se tratava, de praticamente todos os produtos que
No meu país e em algumas partes
da Europa, já se começa a assistir a
lares. Em teoria, isso deveria ser su-
ficiente para nos ajudar a chegar à “Esquecemo-nos de forma alguma, de uma economia
desenvolvida. Era um país pequeno.
utilizamos começaram a sua vida ao
ser retirados do solo. Mas como sai
alguma reacção negativa das pessoas
que dizem: “Não sei se estou prepa-
neutralidade carbónica, mas na prá-
tica muitos países, incluindo os nos- que praticamente Não tinha instituições políticas que
existem em sítios como o Chile, por
do solo noutro lugar do mundo, e
porque muito poucos de nós traba-
rado para isto.” Se quisermos que
isto funcione, temos de inspirar as
-sos, estão preocupados com a possi-
bilidade de dependerem de um único todos os produtos exemplo. Por isso, o facto de muitos
dos recursos necessários para a tran-
lham nesse mundo material de que
falo, como muito poucos de nós têm
pessoas e dar-lhes a sensação de que
a sua vida está a melhorar, e não que
país para esse efeito. E a América, em
particular, depende nervosamente que utilizamos sição energética se encontrarem em
países muito mais desenvolvidos e
uma ligação íntima com ele, esque-
cemo-nos de que é assim que as coi-
têm de ser penalizadas. Isto pode ser
mais caro a curto prazo, mas há uma
dele. Já foram impostas tarifas aos
veículos eléctricos chineses. começaram a sua com instituições políticas muito me-
lhores é encorajador, porque é me-
sas são feitas. E é verdade que tem de
ser menos intensivo em carbono, mas
vida melhor no futuro — se o conse-
guirmos alcançar. Mas acho que não
Eu não sou jornalista ambiental,
sou mais um jornalista político, eco- vida ao ser retirados nos provável que haja instabilidade
e é menos provável que haja um fu-
não podemos fingir que um telemó-
vel ou qualquer outro dispositivo
é assim que a conversa tem sido
feita.
nómico. Por isso, talvez esteja mais
concentrado nestas coisas. Mas, para do solo” turo volátil. A excepção, claro, são
locais como a República Democrá-
aparece misteriosamente do nada.
Tem de ser feito em algum lado.
Livros
História
Eça a Este
Um trabalho notável de
investigação, provavelmente
definitivo desse ponto de
vista, sobre a viagem de Eça
ao Egipto em finais de 1869.
António Araújo
Eça de Queirós no Egipto e a
Abertura do Canal de Suez
Teresa Pinto Coelho
Tinta-da-china
)
Em 5 de Julho de
1798, depois de
ter tomado a
cidade de
Alexandria,
Napoleão
reuniu-se com
13 chefes
beduínos
derrotados, a quem comprou
500 camelos e dos quais obteve,
a troco de 100 piastras, a
libertação de um grupo de
soldados franceses que haviam A inauguração do Canal de Suez, numa ilustração da época, assinada por Édouard Riou
sido capturados no decurso
daquela operação militar.
Quando estes foram levados à oficiais, deixando os presentes especialmente das relações em inúmeros textos esparsos, exotismo, o tema, de facto,
sua presença, Bonaparte boquiabertos ante a desarmante luso-britânicas nesse período, saídos na imprensa e não só. presta-se muito a uma obra
acercou-se de um deles para franqueza daquele camarada. Teresa Pinto Coelho já havia Haverá sempre aspectos obscuros narrativa, e a autora, com a sua
tentar obter informações sobre Ainda que sem tanta crueza e abordado a viagem levantina de — desde logo, a que título e por formação anglófila, decerto não
como era a vida entre “aqueles brutalidade, é também destes Eça em escritos anteriores. Agora, que razão viajou ele até ao Cairo? desconhece modelos que poderá
semi-selvagens”. O soldado encontros e desencontros entre porém, fá-lo com muito maior —, mas, estamos em crer, e a seguir no futuro, para que,
gaulês, porém, não parava de Ocidente e Oriente que trata o amplitude e profundidade, ao fim menos que surjam materiais poupado a questões de
chorar convulsivamente, o que mais recente livro de Teresa Pinto de uma longa e paciente inéditos com novas e hermenêutica textual sobre
intrigou o general: “Que te Coelho, o qual versa a célebre investigação levada a cabo em surpreendentes revelações, esta é cadernos de bolso e “linguados”,
fizeram eles? Porque choras viagem de Eça de Queirós ao Portugal, em Oxford e em Paris uma obra definitiva, constituindo o público tenha finalmente
tanto?” Egipto, em Novembro de 1869, que lhe permitiu acumular um doravante uma referência maior acesso a um relato mais cativante
Entre soluços, o infeliz lá foi para assistir, na companhia do seu impressionante manancial de sobre o que parece ter sido um e apaixonante como aquele
explicando que os seus captores amigo Luís de Castro Pamplona, informação, que a autora cruza de passo fulcral da trajectória que Anthony Sattin produziu
beduínos o tinham sujeitado conde de Resende, às faustosas forma meticulosa, até aos biográfica de José Maria de Eça de em A Winter on the Nile. Florence
àquilo a que o secretário de cerimónias de inauguração do pormenores mais ínfimos, Queirós. Nightingale, Gustave Flaubert and
Napoleão eufemisticamente Canal de Suez. Tão faustosas estas naquilo que constitui, sem Compreende-se, assim, que, the Tempations of Egypt, de 2010;
chamaria “o tratamento tão bem foram que, aliadas aos custos da qualquer dúvida, um importante numa fase de fixação de fontes e ou, e ainda com um outro
conhecido no Oriente”. “Mas que guerra com a Etiópia, arruinariam avanço nos estudos queirosianos. de factos, e subsistindo ainda alcance, como as obras de Toby
grande pateta”, replicou o futuro as finanças do país, obrigando-o a De certo modo, o presente livro tantas incertezas e zonas de Wilkinson, que a autora
imperador, condescendente: vender aos ingleses a sua forma um díptico luminoso com sombra em torno de pontos estranhamente não cita, com
“Ora, ora, isso não é tão mau participação na Companhia do o de Luís Manuel de Araújo, que cruciais (v.g., sobre o grau de destaque para A World Beneath
assim. Ao menos, serviu-te de Canal e convertendo-o, não muito em Eça de Queirós e o Egipto intervenção do filho do escritor the Sands. The Golden Age of
lição para não te deixares ficar depois, e na prática, num Faraónico, de 1987, corrigira na redacção de O Egipto. Notas de Egyptology, de 2020 (note-se que
para trás na coluna. E deves até protectorado britânico. vários erros e lapsos históricos e Viagem, de 1926), a obra se são raras as lacunas
agradecer aos céus teres tido Depois do Cairo, não sem antes egiptológicos que o escritor ressinta de um certo bibliográficas, podendo apenas
uma pena tão leve!” (cf. Paul se terem estatelado enquanto cometera; agora, Teresa Pinto academismo, no sentido em que apontar-se, além de Toby
Strathern, Napoleon in Egypt, desciam a Grande Pirâmide, Coelho esclarece-nos de forma a autora privilegia questões que Wilkinson, os livros de Rober Solé
2008, pp. 83-84). Queirós e Resende seguiram para exaustiva, e concludente, quer para um leitor comum serão de Ismaïl Pacha, Khédive d’Égypte, de
Anos depois, e como nos conta a Palestina e para o Líbano, sobre as fontes que Eça usou ou pormenor e só ao alcance de 2021, e Suez. Histoire d’un canal à
Artemis Cooper em Cairo in the regressando a Lisboa no início de terá usado (textuais, com especialistas, em detrimento de la croisée des mondes, já de 2024,
War, 1939-1945, um episódio 1870, num périplo pelo Oriente destaque para o Itinéraire uma narrativa mais fluida, até do ou, sobre Alexandria, o também
semelhante sucedido numa outra que, como este livro bem mostra, descriptif… de Adolphe Joanne e ponto de vista literário e recente Alexandria. The City That
guerra: um coronel britânico foi teve uma importância Émile Isambert, de 1861, mas estilístico, capaz de nos dar uma Changed the World, de Islam Issa,
convidado para jantar na casa de fundamental na formação do também iconográficas, note-se) big picture mais colorida das publicado em 2023).
um paxá a quem tratara jovem Eça, então com 23 anos, e quer sobre a projecção que a sua andanças de Eça e de Resende A mesma opção pelo debate
altivamente, e uma vez aí foi no seu percurso subsequente. viagem teve em muito do que por terras de Oriente, inclusive académico, em desfavor de um
sequestrado em vingança e Catedrática aposentada da escreveu depois, não apenas em A com o apoio de um mapa do auditório mais vasto, terá levado
violentamente abusado por seis Universidade Nova de Lisboa e Relíquia ou em A Correspondência percurso efectuado, Teresa Pinto Coelho a ler e a
possantes núbios, incidente que uma das nossas maiores de Fradique Mendes, mas também inexplicavelmente ausente desta interpretar toda a viagem e todas
a vítima não teve pudor nem pejo especialistas na cultura literária n’O Mistério da Serra de Sintra ou edição. as observações de Eça à luz do
em relatar depois na messe dos de finais de Oitocentos, no Dicionário de Milagres, além de Até pelo seu persistente célebre conceito de
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“orientalismo” forjado por alguém disse, “Florence deixou de consumir haxixe e até
Edward Said num livro-manifesto Nightingale escolheu os templos, de trazê-lo para Lisboa, para os
de 1978, cuja génese é Flaubert preferiu os bordéis”). amigos experimentarem,
indissociável do percurso Maxime du Camp vai ao ponto de traficando-o misturado com
biográfico do seu criador (cf. informar que, um dia, o cônsul geleia, bolos e pastilhas que se
Edward Said, Out of Place, A francês em Alexandria mandou fumavam em cachimbos
Memoir, 1999). que uma escrava negra do especiais, na recordação de Jaime
Sobre isto, o que se oferece mercado da cidade se despisse Batalha Reis. Possivelmente,
dizer é que, no nosso país e nos em público apenas porque queria também terá usado ópio.
outros, a academia e a esfera contemplá-la nua; e, para cúmulo Em suma, este livro de Teresa
pública culta, ou com pretensões do voyeurismo, o autor de Pinto Coelho representa, como se
a sê-lo, permanecem Educação Sentimental confessou disse, um progresso muito
excessivamente apegadas a que chegara a pagar e a relevante no conhecimento sobre
chavões referenciais (a presenciar uma cena de sexo um momento crucial da vida de
“banalidade do mal” de Arendt, o entre os seus condutores de Eça de Queirós, a sua
“orientalismo” de Said, as burros e umas prostitutas junto Bildungsreise pelo Egipto e pela
“comunidades imaginadas” de ao velho aqueduto de Alexandria. Palestina, mesmo que a autora,
Anderson, a “invenção da No Cairo, não deixaria aliás de sobretudo na parte final, talvez a
tradição”, de Hobsbawm, os visitar o bordel de uma madame valorize em excesso, ao afirmar
“não-lugares” de Augé) que são de Trieste, “La Triestina”, e, que ela o salvou do diletantismo
usados a torto e a direito como numa carta a um amigo, estéril a que estavam condenados
bordões omnicompreensivos, daí descreveu os pormenores do seu os jovens adultos portugueses da
resultando uma vulgata ou uma “estranho coito” com uma das sua condição social que não
langue de bois insuportáveis em raparigas do prostíbulo, na qual queriam seguir advocacia,
que, por um lado, se transcende ele e ela se olharam nos olhos, encaminhando-o para a
em muito o sentido e o propósito sem serem capazes de entender o actividade consular e
com que aqueles conceitos foram que um e outro diziam. Nada aprofundando a sua pulsão pela
cunhados e, por outro lado, não disto existe nos textos de Eça, o escrita.
têm, se perde de vista que tais qual, pelos vistos, não explorou Estão criadas as condições para
conceitos não podem nem devem uma das principais atracções do que se concretize finalmente a
ter a aplicação universal e attrape Egipto, o turismo sexual, ou edição crítica de O Egipto. Notas
tout que lhes é dada, tantas vezes sensual, que se manteve e de Viagem, em preparação, e que,
de forma excessivamente prolongou pelo século XX dentro, a par dela, em futuros trabalhos,
simplificadora e até simplista. fazendo do Cairo uma metrópole da autora ou de outros, tenhamos
Daí que, e muito bem, a autora muito mais cosmopolita e uma obra que, com mais lhaneza
se afaste da caracterização linear e frenética do que tantas vezes de propósitos e maior abertura e
algo básica de Eça como julgamos (cf. Raphael Cormack, desenvoltura na escrita, nos dê
“orientalista”, afirmando que Midnight in Cairo. The Female um relato mais vibrante e vívido
as suas considerações sobre o Stars of Egypt’s Roaring ‘20s, do que Eça fez no Este, e do muito
Egipto e os egípcios se aproximam 2021). Ainda assim, Eça não que de lá nos trouxe.
muito mais do conceito de
“ambivalência” proposto por
Homi Bhabha em The Location of
TEATRO MUNICIPAL
Culture, de 2004. Uma vez mais,
porém, há uma incapacidade de
sair de um terreno, digamos,
puramente conceptualista, eivado JOAQUIM BENITE — CTA
de noções e de categorias que na
prática pouco esclarecem. Na
verdade, não será por demais
evidente a “ambivalência” de
sentimentos que o Egipto
suscitava nos ocidentais da época,
divididos entre o fascínio por uma
civilização milenar, cujos avanços
pretéritos não podiam negar, e
MÚSICA
abrem-se sem percursos “solid light works”, em especial Snow —, McCall deixa que “o Window, o visitante encontrará
Música
Metal
Tanta música
nos Blood
Incantation
Um dos acontecimentos de
2024, um disco a transbordar
de ideias. Pedro Rios
Absolute Elsewhere
Blood Incantation
Century Media
É um dos
acontecimentos
de 2024.
Aclamado por
Rooms é a primeira exposição individual do artista britânico Anthony McCall em Portugal publicações tão
diferentes como a
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JOE DILWORTH
Jazz
Dois excelentes
discos para
Rodrigo Amado
continuar
a crescer
Quase ao mesmo tempo, dois
belos álbuns: o quarto do trio
The Attic, aqui com Eve
Risser, e o primeiro registo
em duo com David Maranha.
Gonçalo Frota
La Grande Crue
The Attic & Eve Risser
NoBusiness Records
Wrecks
A explosão definitiva, totalmente confiante, dos Blood Incantation
Rodrigo Amado & David Maranha
Nariz Entupido
Wire, a Kerrang, a Pitchfork e a enquanto as letras e a imagem da come from outer space?”, Em The message [tablet I], que )
Quietus (que o classificou mesmo capa (pirâmides a conviver com pergunta-se, “Why not? How many abre de forma exultante, com
como o disco death metal “mais um céu pintado de nebulosas, worlds are there in the universe? guitarras metal quase felizes (!), Não apanhará de
significativo” desde o clássico repouso violento de astros) Millions, perhaps billions”, é a bateria hiperactiva que nos surpresa quem
Altars of Madness, dos Morbid levam-nos para o universo responde-se. Virá depois uma impressiona particularmente. No segue com
Angel, de 1989), Absolute e vidas extraterrestres. São zonas guitarra acústica que podia ser dos Tablet II da mesma peça, os Rush atenção o
Elsewhere consagra os Blood de alguma forma já pisadas Opeth instalar-nos em território entram num curto intensivo de universo da
Incantation como uma das mais por este grupo de músicos prog… Mentira! Lá vamos nós, metal até tudo sossegar e música
criativas e inclassificáveis forças talentosos e virtuosos num rápido turbilhão rumo a um lembrarmo-nos dos Pink Floyd da improvisada
do metal contemporâneo, uma tecnicamente, mas nunca desta buraco negro de violências, era Animals (1977). Na terceira e do jazz
banda tão apreciadora de riffs forma. eis-nos de novo num disco death secção de The Message, com que o contemporâneo:
demolidores (o inferno The stargate [tablet I] abre com metal. disco fechará, ouviremos um na última década,
condensado numa guitarra), death metal clássico, bateria veloz, Esta velocidade no manejo de breve quase madrigal murmurado, o saxofonista
bateria com bombo duplo e voz crescendo de intensidade a cada diferentes géneros não resulta cercado por violências de vária português Rodrigo
em registo gutural como de solos passo, a voz de Paul Riedl a urrar em exibicionismo bacoco, antes ordem, um festim selvagem. Amado foi conquistando, a pulso,
de guitarra devedoras do rock aforismos cósmico-especulativos numa excitação permanente — é Para onde vão os Blood um lugar de destaque absoluto na
progressivo, sintetizadores (“All life is temporary, what lasts is impossível distrairmo-nos, ao Incantation depois disto? Não cena internacional. Sem passar
kosmische e outras fugas. consciousness”), até tudo se contrário de tantos e tantos discos sabemos, mas queremos muito pelo caminho espinhoso (e
Não é uma surpresa total que o aquietar e entrarmos numa secção com credenciais progressivas. saber. demasiado inviável para um
grupo de Denver (Colorado, EUA) de ecos dub, bateria jazzística e LAURENT ORSEAU músico sediado numa zona
chegue a um álbum tão expansivo, guitarras a construírem a periférica como Portugal) de se
diverso e surreal como Absolute paisagem por onde hão-de mostrar enquanto sideman de
Elsewhere, o seu quarto disco. irromper solos de sintetizador nomes maiores, Rodrigo Amado foi
Depois do fabuloso Hidden History vintage e, depois, um curto solo escalando nesse reconhecimento à
of the Human Race (2019), colosso planante à David Gilmour (Pink custa de uma dedicação plena, de
death metal de contornos prog a Floyd). Tudo isto desenrola-se uma criteriosa selecção das suas
transbordar de ideias, fizeram um rapidamente (ainda não chegámos gravações, do investimento em
disco de… ambient, Timewave aos cinco minutos do tema), antes projectos pessoais e do espaço que
Zero (2022), sintetizadores a de uma secção death metal foi procurando junto da crítica
flutuar nos astros, declaração de atravessada por solos demoníacos, internacional.
independência de quaisquer bombo duplo, tudo a que temos Num primeiro e fundamental
grilhetas que lhes quisessem pôr. direito, voltar a lembrar-nos que momento, essa afirmação fez-se na
Em 2023, nos dois temas do single esta é uma banda de metal, companhia do Motion Trio,
Luminescent Bridge, o death metal, que é ainda esse o território partilhado com Miguel Mira
os Pink Floyd, os sintetizadores e, que moldam, esticam, (violoncelo) e Gabriel Ferrandini
no final, uma pequena passagem transformam. (bateria), e assentou nas
orquestral vaporosa mostravam-se Tudo é servido com uma clareza colaborações com Jeb Bishop,
elementos, géneros, ambientes sonora cintilante que podemos Peter Evans e Alexander von
feitos uns para os outros. agradecer ao produtor Arthur Rizk Schlippenbach. Mas se os dois
Este percurso prenunciava e aos estúdios Hansa, em Berlim, discos com o trombonista
Absolute Elsewhere? Sim, é casa lendária por onde passaram, norte-americano (Bishop)
tentador e legítimo afirmá-lo, mas nos anos 1970, iluminados como ajudaram a solidificar uma
o mais recente álbum não é mais Brian Eno, David Bowie e linguagem intrépida, sempre à
um disco dos Blood Incantation, Tangerine Dream. O sintetizador procura de uma música
antes a explosão definitiva, de Thorsten Quaeschning, destes incandescente e vertiginosa, o
totalmente confiante, da sua visão últimos, leva o Tablet II de The verdadeiro salto para uma outra
omnívora da música. Dividido em stargate a lugares fabulosos: dimensão deu-se com o encontro
duas grandes peças (cerca de 20 arpejos efervescentes percorrem duplo (em estúdio e ao vivo) com
minutos cada), The stargate e The panoramicamente o espaço Evans.
message, cada uma dividida em auditivo durante três minutos, Os dois álbuns do Motion Trio
três secções (eles chamam-lhes onde ouviremos um diálogo com o trompetista, que marcaram
tablets), o álbum cruza o death extraído ao filme de ficção o início da parceria de Amado com
metal com o psicadelismo, o rock científica Contamination (Luigi Rodrigo Amado cimenta o seu lugar na cena jazz internacional a mui recomendável NoBusiness
progressivo e outras estéticas, Cozzi, 1980): “Do you mean they Records, seguiriam caminhos
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FICHA TÉCNICA: DIRECTOR DAVID PONTES EDITOR PEDRO RIOS DESIGN MARK PORTER, SIMON ESTERSON DIRECTORA DE ARTE SÓNIA MATOS DESIGNER ANA CARVALHO E CLÁUDIO SILVA F
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UM POUCO
contrariando a assertividade de Von der quando um terror súbito lhes veio pôr cobro.
Leyen em 2022 de que a derrota da Rússia Pois só então compreendemos como para
estava por um fio, a que acrescia a convicção nós, homens, representa um feliz acaso o
vendida então ao estimado público de que as ser-nos dado viver nas nossas pequenas
tropas russas, famintas e tendo apenas à comunidades, sob um telhado protector,
disposição material bélico obsoleto, se entregues a aprazíveis conversas e
MAIS DE
renderiam em menos de uma semana. Se, afectuosamente saudados pela manhã e à
como sabemos, “a primeira vítima da guerra noite. Ai!, demasiado tarde reconhecemos
é a verdade”, era preciso mentir tanto?! que já assim a cornucópia da fortuna nos
Nós por cá todos bem — para nos presenteara. (…) No Outono, bebericávamos
mantermos nos títulos de cinema. Vejamos: como sábios e fazíamos as honras aos vinhos
AZUL
enquanto há quem tenha de usar como preciosos que se dão bem nas encostas
muleta Ahmad al-Sharaa para acreditar na meridionais da Grande Marina. Quando O podcast que reúne
nova Síria, a muitos portugueses parece ouvíamos nas hortas, por entre a folhagem Fernando Alves,
bastar acreditar no almirante Gouveia e Melo rubra e os negros cachos, as vozes galhofeiras Rita Taborda Duarte
para profetizar um Portugal finalmente nos dos vinhateiros, quando em vilas e aldeias e Francisco Louçã
eixos. Enquanto em tantos lugares do mundo, começava a chiadeira dos lagares e o cheiro está agora no PÚBLICO.
uma fila de pessoas encostadas à parede é do bagaço novo envolvia os casais com um O quotidiano, os livros,
sinónimo de fuzilamento in loco, nós véu de fermentações embriagadoras,
os filmes e a vida
podemo-nos dar ao luxo de ter um descíamos até junto dos taberneiros, dos
primeiro-ministro que, face ao alinhamento tanoeiros e viticultores, e bebíamos com eles que vai acontecendo.
da Rua do Benformoso, se permite dizer: “Sou do púcaro bojudo. (…) Também gostávamos
muito honesto, também não gostei de ver. No de comer castanhas assadas e nozes a
sentido visual, não gostei de ver”. E se acham acompanhar o vinho novo, e apreciávamos
de somenos, vão lá à Coreia do Norte para ver sobretudo os soberbos cogumelos, que
se alguém se preocupa com a estética! desencantávamos nos bosques com o auxílio
Guerra no Médio Oriente, Sudão, o Haiti, de cães…”, in Sobre as Falésias de Mármore,
onde os gangues, porventura à falta de balas, Ernst Jünger, trad. Rafael Gomes Filipe, Veja,
matam centenas à machadada, o futuro 1987.
incerto de Moçambique, os curdos
ameaçados pela Turquia — Kobane de novo
nas notícias —, o relatório da UNICEF a
dar-nos conta de que 2024 terá sido Isto — a vida, a História, o tempo — não
provavelmente o ano com maior número de
crianças afectadas pela guerra — mais de 473 só é irrisório, mas também bastante
milhões a viverem em zonas de conflito,
numa percentagem que quase duplicou da
década de 1990 para hoje (de 10% para 19%), e
mais confuso do que pensávamos
uma ONU inoperante com um presidente que
oscila entre viver very concerned e extremely Suponho que nada mais duradouro Quinzenalmente
concerned. do que o passado, onde chegamos sempre às quintas-feiras.
E como para cada provérbio existe um atrasados. Embora não deixe de ser também
provérbio de sentido contrário, ao “mal de verdade que, como dizia a repugnante
muito é consolo” obriga-nos a compaixão que personagem de John Huston no Chinatown
o contestemos: “mal de muitos, desgraça de Polanski, “Claro que sou respeitável.
grande”. Sou velho. Políticos, prédios feios e putas,
Posto isto, apanhado malparido de um ano todos se tornam respeitáveis se durarem Disponível em publico.pt/podcasts
resumido à distância e para esquecer, sobram o suficiente”. e em todas as plataformas de podcasts
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EM BANCA
VOL2
da urgência do momento e o deslumbramento por uma nova
iconografia que eles, fotógrafos, repórteres e editores,
captando-a e publicando-a, ajudaram também a criar.
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