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PEÇANHA, Nilo

Nilo Peçanha foi um político brasileiro proeminente, atuando como deputado federal, presidente do estado do Rio de Janeiro e presidente da República entre 1906 e 1910. Ele se destacou por suas iniciativas em diversificação econômica, modernização da infraestrutura e educação técnica, além de ter promovido reformas nas forças armadas e na administração pública. Seu governo foi marcado por uma busca de desenvolvimento econômico e político, enfrentando desafios e alianças com diversas oligarquias regionais.

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PEÇANHA, Nilo

Nilo Peçanha foi um político brasileiro proeminente, atuando como deputado federal, presidente do estado do Rio de Janeiro e presidente da República entre 1906 e 1910. Ele se destacou por suas iniciativas em diversificação econômica, modernização da infraestrutura e educação técnica, além de ter promovido reformas nas forças armadas e na administração pública. Seu governo foi marcado por uma busca de desenvolvimento econômico e político, enfrentando desafios e alianças com diversas oligarquias regionais.

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PEÇANHA, Nilo

* const. 1891; dep. fed. RJ 1891-1902; pres. RJ 1903-1906; vice-pres. Rep. 1906-1909;
pres. Rep. 1909-1910; sen. RJ 1912; pres. RJ 1914-1917; cand. pres. Rep. 1922.

Nilo Procópio Peçanha nasceu em Campos, na então província do Rio de Janeiro, no dia 2
de outubro de 1867, filho de Sebastião de Sousa Peçanha e de Joaquina Anália de Sá Freire.
Seu pai era padeiro, e sua mãe descendia de uma família importante na política norte-
fluminense.
Fez os primeiros estudos em sua cidade natal e ingressou a seguir na Faculdade de Direito
de São Paulo, mas bacharelou-se pela Faculdade de Direito do Recife, em 1887. Iniciou-se
na política ao se engajar nos movimentos abolicionista e republicano em Campos, onde
ajudou a instalar o Partido Republicano após a fundação, em 13 de novembro de 1888, do
Partido Republicano da Província do Rio de Janeiro.

CONSTITUINTE E DEPUTADO FEDERAL


Com a proclamação da República em 15 de novembro de 1889, e a convocação de
eleições para a Assembleia Nacional Constituinte em 15 de novembro 1890, candidatou-se
a deputado pelo estado do Rio de Janeiro na chapa do Partido Republicano e foi eleito.
Tomou posse em 15 de novembro seguinte, participou da elaboração da Constituição
promulgada em 24 de fevereiro de 1891, bem como da eleição de Deodoro da Fonseca para
presidente no dia 25, e, com o início da primeira legislatura ordinária em 15 de junho
seguinte, passou a ocupar uma cadeira na Câmara dos Deputados, com mandato até
dezembro de 1893.
Quando o presidente Deodoro da Fonseca fechou o Congresso em 3 de novembro de 1891,
engajou-se na luta por seu afastamento – o que de fato ocorreu em 23 de novembro, quando
Deodoro renunciou – e apoiou fortemente o governo de Floriano Peixoto, o vice-presidente
que então assumiu o poder. Diante da agitação política que marcou o governo de Floriano
(1891-1894), articulou-se com as principais lideranças republicanas para dar-lhe
sustentação na repressão à Revolta da Armada, que eclodiu em setembro de 1893 na baía de
Guanabara e obrigou a mudança da capital do estado do Rio de Niterói para Petrópolis.
Sempre na legenda Partido Republicano Fluminense (PRF) – que apareceu pela primeira
vez com essa denominação em 18 de abril de 1892 – foi reeleito deputado federal nas
legislaturas 1894-1896 e 1897-1899. Em 1895 casou-se com Ana de Castro Belisário
Soares de Sousa, descendente de uma tradicional família fluminense.
No governo de Prudente de Morais (1894-1898) passou a militar no movimento jacobino
do Rio de Janeiro. Engajou-se na oposição ao governo, e em novembro de 1897 foi
acusado, ainda que de forma indireta, de participar do atentado contra a vida do presidente.
Em meio a um contexto de grande agitação política, buscou refúgio em Campos e só voltou
à Câmara no ano seguinte, quando foi beneficiado pela anistia.
Nos primeiros anos da República, Nilo Peçanha dedicou-se fundamentalmente a fazer
política no Distrito Federal, afastando-se das questões internas fluminenses. No entanto, a
partir de 1898, voltou-se novamente para elas, num momento em que o estado do Rio
atravessava grandes dificuldades, não só no terreno econômico-financeiro, mas também no
campo político. Com a eleição de Alberto Torres para a presidência do estado em 1897, as
divergências entre os republicanos históricos e os ex-monarquistas liderados por Paulino
Soares de Sousa, o conselheiro Paulino, delinearam-se de maneira mais clara, provocando
uma cisão no seio do PRF. Na ocasião, Nilo associou-se a Alberto Torres e a seus
seguidores, um expressivo grupo de políticos de Petrópolis liderado por Homogêneo Silva e
de antigos oposicionistas de Niterói ligados ao ex-governador Francisco Portela. De sua
aliança com Alberto Torres fundou-se, em 23 de julho de 1899, o Partido Republicano do
Rio de Janeiro (PRRJ). Foi nessa legenda que Nilo foi mais uma vez eleito deputado
federal, em dezembro de 1899, para a legislatura 1900-1902.
A partir de 1899, Nilo Peçanha, Alberto Torres e as demais lideranças do recém-fundado
PRRJ buscaram implementar propostas para minimizar a grave crise econômica que
assolava o estado desde o final do Império, decorrente das dificuldades da lavoura cafeeira.
O encarecimento dos custos da produção, somado à queda dos preços do café, havia feito
com que o estado do Rio de Janeiro perdesse espaço para São Paulo. Entre as novas
propostas apresentadas para vencer a crise, incluíam-se o parcelamento da grande
propriedade, o melhor aproveitamento da mão de obra nacional, a supressão de órgãos da
administração, a contenção dos gastos públicos, o corte de pessoal, a ampliação da receita e
a criação do imposto territorial rural. A despeito do empenho em superar as dificuldades, os
resultados obtidos foram bastante limitados.
A crise fluminense iria ser equacionada graças à interferência fundamental de Nilo
Peçanha, que, visando a contornar os conflitos, sugeriu a Campos Sales, então presidente da
República (1898-1902), o nome do republicano histórico Quintino Bocaiúva, figura de
grande expressão e capaz de construir um consenso, para presidente do estado do Rio na
sucessão de Alberto Torres. Aceita a proposição, Quintino logo angariou apoio nas hostes
fluminenses e foi eleito. Empossado em 31 de dezembro de 1900, tinha uma dupla tarefa, a
de solucionar a crise econômica e a de pacificar o estado. Mais uma vez Nilo Peçanha
desempenhou um papel-chave, ocupando-se de resolver os problemas mais prementes e de
preparar o terreno para sua própria candidatura à sucessão de Quintino. Tratava-se de
enfraquecer as possíveis oposições provocadas pela volta da capital de Petrópolis para
Niterói e de realizar uma reforma constitucional que fortalecesse o Executivo estadual.

PRIMEIRO GOVERNO NO ESTADO DO RIO


Como aliado de Campos Sales e defensor na Câmara da “política dos
governadores”, Nilo Peçanha foi extremamente bem-sucedido em suas articulações, e em
31 de dezembro de 1903 foi empossado como presidente do estado do Rio de Janeiro. A
partir de então, dedicou-se à montagem de uma máquina política que lhe garantiria um
longo período no poder. Conquistou grande autonomia na tomada de decisões, pois havia
neutralizado completamente as oposições, e não havia predominância de um setor
específico como base de apoio a seu governo, que recebeu adesões através da cooptação ou,
se necessário, da coerção.
Nilo voltou suas diretrizes e decisões de política econômica essencialmente para a
diversificação da agricultura, mas não deixou de apoiar a cafeicultura. Além de um rigoroso
programa de saneamento das finanças públicas que visava a reduzir os gastos do estado e
ampliar a receita através de modificações no sistema tributário, implementou um conjunto
de medidas destinadas a incentivar a produção agrícola. Ainda que fizesse restrições à
política de valorização do café, participou, juntamente com os presidentes do estado de São
Paulo, Jorge Tibiriçá (1904-1908), e de Minas Gerais, Francisco Sales (1902-1906), do
Convênio de Taubaté, firmado no dia 26 de fevereiro de 1906 na cidade paulista de
Taubaté. O convênio estabeleceu as bases de uma política conjunta daqueles estados de
valorização da economia cafeeira.
Nilo promoveu também uma reforma urbana em Niterói, com o alargamento de ruas e
avenidas, a reconstrução da Câmara Municipal, a organização do horto, a compra do
palácio do Ingá, onde instalou a sede do governo, a inauguração do Teatro João Caetano
(atual Teatro Municipal de Niterói), a criação do centro de serviços municipais, a
substituição do sistema de gás pela eletrificação da cidade, a introdução do sistema de
bondes elétricos e a modernização da travessia marítima. Buscou enfatizar políticas que
incentivassem a implantação de indústrias, pois acreditava-se que a reforma do estado
deveria se dar através de princípios cientificistas, refletidos nos projetos e ações de
saneamento e eletrificação da Baixada Fluminense – tal orientação estaria presente em
todos os seus governos, até mesmo quando assumiu a presidência da República. No campo
da educação, deu atenção à educação profissionalizante e criou, em setembro de 1906, as
primeiras escolas técnicas do estado.
Também na esfera federal Nilo Peçanha ganhou expressão, transformando-se numa
liderança nacional. O sucesso de sua atuação à frente do governo estadual permitiu que
buscasse novas articulações políticas. Assim, em 1904, tentou promover um Congresso dos
Governadores que iria reunir governantes de 17 estados brasileiros, para discutir questões
econômicas e administrativas. Ainda que a iniciativa não se tenha concretizado, ficou
demonstrada a estratégia de Nilo para conquistar posições na cena nacional. Em diversos
momentos firmou acordos, articulou-se, e até mesmo submeteu-se às oligarquias mineiras e
paulistas, mas isto não impediu que sua posição e a de seu grupo divergissem das
orientações traçadas por Minas Gerais e São Paulo. Evidenciaram-se assim tentativas de
aproximação com os estados da Bahia e de Pernambuco e, em certos episódios, até mesmo
com o Rio Grande do Sul, buscando apoio para seu projeto político nacional.

NA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA
Como desdobramento de sua projeção no cenário nacional, em 1906 Nilo Peçanha
foi indicado para concorrer a vice-presidente da República na chapa do mineiro Afonso
Pena. Seu nome, sustentado pelas articulações do senador gaúcho Pinheiro Machado,
ganhou densidade em virtude de suas tradições republicanas, numa chapa em que o nome
principal era o de um antigo monarquista. Eleitos ambos em março de 1906, Nilo
transmitiu o governo fluminense ao primeiro vice-presidente Oliveira Botelho em 1º de
novembro e tomou posse na vice-presidência da República no dia 15 de novembro. A partir
de então ficaria bastante isolado e ameaçado de perder sua liderança na política fluminense,
já que seu sucessor, Alfredo Backer, empossado em 31 de dezembro e apoiado por Afonso
Pena, rebelou-se contra suas orientações e marginalizou seus principais aliados.
Entretanto, com a morte de Afonso Pena em junho de 1909, Nilo assumiu a presidência,
que exerceria por 17 meses, até o fim do quadriênio, em novembro de 1910. No novo
posto, procurou implementar algumas medidas que expressavam sua crença na
diversificação da produção. De acordo com essa orientação, criou o Ministério da
Agricultura, Indústria e Comércio, cuja meta era modernizar o Brasil através da atualização
do setor agrário, tendo como base o conhecimento científico. Ainda com essa perspectiva
criou Escolas de Aprendizes Artífices (EAA), dando início ao desenvolvimento do ensino
técnico no país. Também o setor industrial mereceu sua atenção. O capital investido na
indústria passou de 12,4% para 18,5%, e chegou-se a um total de aproximadamente 3.424
empresas no território nacional. Nilo via no desenvolvimento econômico a base material
para o pleno exercício do regime republicano, e por isso defendeu o quanto pôde as forças
de produção, que considerava fatores propulsores da riqueza nacional. Ainda que, durante
seu governo no estado do Rio, tivesse defendido uma política de controle de gastos e
saneamento financeiro, na presidência da República sustentou que a emissão de papel-
moeda e a elevação dos impostos de importação poderiam ser um impulso para o parque
manufatureiro nacional. Visando à implantação de uma siderúrgica nacional, buscou atrair
capitais. Contribuiu, enfim, para a consolidação de uma infraestrutura capaz de assegurar o
tão almejado desenvolvimento econômico, característico da real independência do país.
Uma das questões a que se dedicou foi a resolução dos problemas concernentes à abertura e
à ampliação das estradas de ferro. Reorganizou e ampliou a rede ferroviária da Bahia,
levando suas linhas a novas regiões do próprio estado e a Minas Gerais, ampliou as estradas
da Paraíba, Pernambuco e Alagoas, e construiu a rede do Paraná e de Santa Catarina,
ligando-a à rede do Rio Grande do Sul. Também o estado do Rio foi beneficiado pelo
aumento do número de linhas férreas.
Através do Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, foram fundados diversos
serviços que considerava essenciais para seu projeto de desenvolvimento nacional. Entre
eles estavam o Serviço de Inspeção Agrícola, a Diretoria da Indústria Animal (destinada,
principalmente, a vulgarizar os processos modernos da indústria de laticínios e a promover
a organização de cooperativas para a fabricação de manteiga e queijo, além de realizar o
estudo experimental da alimentação do gado), a Diretoria de Meteorologia e Astronomia, o
Serviço de Publicações e Biblioteca, o Serviço de Distribuição de Plantas e Sementes, e o
Serviço de Consultas e o Serviço de Inspeção, Estatística e Defesa Agrícola.
Nilo buscou também realizar algumas reformas nas forças armadas. Houve, assim, um
incremento das linhas de tiro, que proporcionavam treinamento militar a todos os cidadãos,
tornando-os soldados sem necessariamente tirá-los do trabalho e/ou de casa para o quartel.
Com isso, pretendia aumentar o potencial militar do Brasil e integrar todos os cidadãos na
tarefa da defesa nacional. Também nessa época foi criado o Serviço de Proteção aos Índios
(SPI), que teve como primeiro presidente o então general Cândido Rondon.
Embora tenha governado por um período relativamente curto, Nilo Peçanha proporcionou o
crescimento de diversos setores de atividade: decretou a reforma dos Correios e Telégrafos,
reduziu as taxas postais e construiu 1.556 quilômetros de linhas telegráficas; abriu uma
linha de navegação entre o Rio de Janeiro e Lisboa; modernizou o fornecimento de luz
elétrica às ruas do Rio de Janeiro, como, em 1905, havia feito em Niterói, reduzindo as
taxas para o consumo de energia pelo público. Iniciou também as obras de saneamento da
Baixada Fluminense; promoveu a desobstrução e a drenagem de vários rios que
desembocam na baía de Guanabara; restaurou o parque da Quinta da Boa Vista; iniciou as
obras da lagoa Rodrigo de Freitas e construiu o Sanatório Naval de Friburgo. Criou a Bolsa
de Corretores, e ainda em 1909 determinou o pagamento antecipado das dívidas externas,
quando estas só expirariam em 1911, recuperando assim certa independência financeira
para o Brasil, o que por sua vez representou uma posição vantajosa para a negociação de
novos empréstimos.
Ao se aproximar a sucessão presidencial prevista para 1910, a agitação política cresceu,
colocando em campos opostos os principais grupos oligárquicos regionais. De um lado,
liderados por São Paulo, posicionaram-se os estados que apoiavam a candidatura de Rui
Barbosa; de outro, ficaram Minas Gerais e Rio Grande do Sul, apoiando o nome de Hermes
da Fonseca. As forças ruístas desencadearam a Campanha Civilista, no intuito de combater
o militarismo hermista. No estado do Rio, porém, as forças nilistas apoiaram Hermes da
Fonseca, afinal eleito presidente da República, e garantiram a eleição de seu candidato,
Oliveira Botelho, para o governo fluminense.
Após ter passado a presidência para Hermes da Fonseca em 15 de novembro de 1910, Nilo
Peçanha viajou em 1911 para a Europa e lá permaneceu um ano. Em 1912 voltou ao Brasil
já eleito senador pelo estado do Rio e escolhido presidente do Partido Republicano
Conservador Fluminense (PRCF). O PRC, criado por Pinheiro Machado em 1910, visava a
promover a união da oligarquias dominantes e dos militares numa agremiação política de
caráter nacional que, sob sua direção, apoiaria o governo de Hermes da Fonseca. Nilo
Peçanha se engajou nessa articulação, mas sua aliança com Pinheiro Machado não foi
duradoura. A interferência federal, seja através de Hermes da Fonseca, seja através de
Pinheiro Machado, nos negócios internos fluminenses acabaria por promover uma nova
cisão no grupo nilista e sua ruptura com as lideranças do PRC.
As divergências aumentaram em 1913, quando da escolha do candidato à sucessão
presidencial em 1914. Enquanto Hermes da Fonseca, Pinheiro Machado e Oliveira Botelho
apoiaram a candidatura do então vice-presidente da República, o mineiro Venceslau Brás,
Nilo mostrou-se neutro. A tentativa de atuar como uma força política independente iria
lançá-lo contra o governo federal, terminando por levá-lo ao isolamento e a dificuldades na
manutenção de seu domínio na política fluminense.

SEGUNDO GOVERNO NO ESTADO RIO


Em 1914, Nilo Peçanha enfrentava portanto momentos difíceis: sem aliados na
esfera federal, e traído pelos correligionários em seu estado natal, parecia que sua carreira
estava esgotada. Mas ainda não seria dessa vez que perderia definitivamente o controle do
estado do Rio. Embora sem contar com o apoio dos governos federal e estadual, que
apresentaram a candidatura do então prefeito de Niterói, Feliciano Sodré, à presidência
estadual, teve seu nome lançado para presidente do estado por parcelas do PRCF. A disputa
eleitoral foi extremamente acirrada, contrariando a prática usual na Primeira Republica,
quando as oposições, diante de poucas chances de vitória, aderiam à situação dominante.
Com uma campanha voltada para a defesa da autonomia fluminense, Nilo percorreu todo o
estado fazendo comícios e passeatas nos diferentes municípios, inovando na forma de fazer
política. O resultado foi sua eleição para presidente do estado.
Sua posse em 31 de dezembro de 1914, contudo, não se efetivou sem contestações. A
facção política liderada por seu ex-aliado Oliveira Botelho, e apoiada por Pinheiro
Machado, não acatou sua vitória e considerou eleito Feliciano Sodré, instaurando uma
duplicidade de poderes e reivindicando a intervenção federal. Esse processo perdurou
durante todo ao ano de 1915, tendo ficado conhecido como “O caso do Estado do Rio”.
Contudo, o interesse do presidente Venceslau Brás (1914-1918) em esvaziar o poder de
Pinheiro Machado e em controlar a política fluminense acabou por enfraquecer o líder
gaucho e as pretensões dos opositores de Nilo. O desfecho dessa longa disputa permitiu
assim a consolidação do poder nilista.
Durante seu segundo mandato como presidente do estado do Rio, Nilo Peçanha colocou
em prática um programa pouco popular de reequilíbrio orçamentário, reduzindo os cargos
públicos e as repartições. Além disso, elevou os impostos estaduais e suspendeu verbas na
área da saúde, da educação e da infraestrutura. Ao mesmo tempo, manteve-se fiel às ideias
agraristas, através da implementação de um programa de incentivo à lavoura, de
diversificação agrícola e de divisão das terras em pequenas propriedades.
Nilo Peçanha não concluiu, porém, seu mandato. Em 7 de maio de 1917 renunciou ao cargo
de presidente estadual para, a convite de Venceslau Brás, assumir o Ministério das
Relações Exteriores no lugar de Lauro Müller. O fato mais marcante registrado durante sua
passagem por essa pasta foi a declaração de guerra do Brasil à Alemanha no dia 26 de
outubro desse ano. Em 1918, foi novamente eleito senador.

A CAMPANHA DA REAÇÃO REPUBLICANA


Depois de deixar o ministério ao final do governo Venceslau Brás, em 15 de
novembro de 1918, no qual foi sucedido por Domício da Gama, Nilo Peçanha partiu em
viagem pela Europa, de onde só retornaria em junho de 1921. Durante o período em que
esteve fora, acompanhou de longe a política fluminense e nacional. Na disputa pela
presidência da Republica entre Epitácio Pessoa e Rui Barbosa, em 1919, apoiou fortemente
o político baiano, que afinal foi derrotado. Ainda assim, sua posição na política fluminense
manteve-se inalterada, através do controle do governo do nilista Raul Veiga (1919-1922).
A sucessão de Epitácio Pessoa, em 1922, revestiu-se de um caráter peculiar, já que pela
primeira vez o confronto entre os grandes estados e os estados intermediários se colocou
claramente numa disputa sucessória, revelando as tensões regionais interoligárquicas e
desnudando as contradições do federalismo brasileiro. O confronto assumiu sua forma
plena através da formação da Reação Republicana, em junho de 1921, movimento que
lançou a chapa formada por Nilo Peçanha e J. J. Seabra em oposição à candidatura oficial
de Artur Bernardes. Enquanto Bernardes contava com o apoio de Minas Gerais, São Paulo
e pequenos estados, em torno da Reação Republicana uniram-se o estado do Rio de Janeiro,
Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambuco e Distrito Federal, tentando construir um eixo
alternativo de poder.
Os pontos básicos do manifesto de lançamento da Reação Republicana eram a crítica ao
processo adotado pelos grandes estados para a escolha do candidato à presidência, a
reivindicação de maior autonomia para o Legislativo frente ao Executivo e a exigência de
maior credibilidade para as Forças Armadas, que, no governo de Epitácio Pessoa, haviam
sido afastadas da chefia das pastas militares. Do ponto de vista econômico, o documento
defendia princípios financeiros ortodoxos e elegia o equilíbrio do orçamento federal e
cambial como questões centrais. Colocadas de maneira vaga no manifesto de lançamento,
essas idéias foram assumindo contornos mais nítidos ao longo da campanha eleitoral.
Em seu primeiro discurso já como candidato, Nilo definiu a Reação Republicana como um
movimento “de defesa dos princípios republicanos”, organizado para que as “decisões
políticas nacionais saiam do terreno das convergências regionais para horizontes mais
iluminados de crítica e liberdade, e que do choque das ideias postas a serviço da
emancipação política dos estados se possa caminhar para a formação de partidos que serão
a alma da República”. Partindo desses pontos de vista, Nilo aprofundava as críticas ao
funcionamento do regime federalista, que beneficiava os grandes estados em detrimento
dos demais, chamava a atenção para a importância da institucionalização dos partidos e já
anunciava suas preocupações com a situação de desprestígio que vinham enfrentando os
militares.
Entre 24 de junho de 1921 e 1º de março de 1922, Nilo percorreu todo o país em uma
crescente e moderna campanha política que contava, além das viagens, com forte
propaganda, comícios, faixas e distribuição de brindes, e por isso mesmo ganhou grande
repercussão em todos os jornais. Entretanto, dentro dos padrões políticos vigentes na
Primeira República, ser candidato da oposição significava enfrentar todo tipo de
dificuldade. As regras de funcionamento da política dos governadores garantiam a
perpetuação das situações no poder, e a sorte das candidaturas oposicionistas parecia já
estar traçada antes mesmo da disputa eleitoral. Ainda assim, as forças dissidentes
acreditavam dispor de um espaço considerável para neutralizar as dificuldades. O nome de
Bernardes encontrava ampla resistência em diversos setores e estados, e isso seria
suficiente, na sua concepção, para quebrar a regra clássica de funcionamento da política
oligárquica. A Reação Republicana acreditava poder equacionar esse desafio através do uso
de diferentes estratégias: a cooptação de chefes políticos municipais e estaduais
descontentes com as forças bernardistas, a propaganda eleitoral e a busca de apoio militar.
A despeito das diferentes práticas adotadas visando a ampliar as possibilidades de vitória da
chapa da Reação Republicana, o desenrolar da campanha sucessória e a aproximação de
pleito evidenciavam os limites dessas estratégias. A cooptação dos elementos dissidentes
não era fácil de ser efetivada, e muitas adesões esperadas não se concretizaram. As práticas
políticas vigentes na Primeira República, baseadas no compromisso coronelista,
implicavam uma postura de reciprocidade em que cada parte tinha algo a oferecer. No caso
da Reação Republicana, poucos eram os trunfos que podiam ser usados para obter o apoio
eleitoral dos oligarcas e coronéis do interior, já que a máquina federal não podia ser usada
na distribuição de privilégios e favores. Ainda que sem abrir mão dessas iniciativas,
tornava-se fundamental contar com alternativas mais eficazes: era preciso encontrar um
novo parceiro político capaz de antepor-se às oligarquias dominantes. Os militares eram o
segmento ideal.
Os conflitos entre os militares e o governo federal já haviam marcado vários momentos da
política republicana. A posse de Epitácio Pessoa e a posterior escolha de civis para ocupar
as pastas militares durante seu governo só fizeram aumentar as dificuldades. O retorno de
Hermes da Fonseca da Europa em novembro de 1920 recrudesceu os antagonismos, e sua
eleição para presidente do Clube Militar em 1921 abriu novas articulações em torno de seu
nome, que chegou a ser cogitado para a sucessão presidencial. A não concretização de sua
candidatura veio aumentar ainda mais a insatisfação dos militares, o que os tornava aliados
em potencial das oligarquias dissidentes. De fato, desde o lançamento do manifesto da
Reação Republicana no Rio de Janeiro ficaram claras as preocupações em obter uma
aproximação com os militares, através da crítica à posição secundária que lhes vinha sendo
atribuída pelo governo federal. Também nos estados a campanha eleitoral procurou a
adesão e a simpatia dos elementos militares distribuídos pelas várias regiões.
O arquivo de Nilo Peçanha traz informações significativas acerca de suas ligações com os
militares ao longo de todo o segundo semestre de 1921. São inúmeras as cartas de militares
provenientes de diferentes estados do país declarando seu apoio a Nilo e relatando suas
iniciativas para a criação de comitês eleitorais. A imprensa nilista também fazia questão de
enfatizar o apoio dos militares ao candidato oposicionista, como demonstra a notícia
publicada em novembro de 1921 por O Imparcial: “Nilo Peçanha desce de bordo do Iris
nos braços de um general e de um almirante – o Exército e a Armada se confraternizam
com o povo para glorificar o grande líder democrático.” O ponto culminante desse processo
de aproximação se deu com o episódio das chamadas “cartas falsas”, supostamente
enviadas por Bernardes a Raul Soares, contendo referências desrespeitosas aos militares. A
publicação desses documentos pelo Correio da Manhã visava claramente a
incompatibilizar o candidato situacionista com os militares e envolver definitivamente estes
últimos na causa dissidente.

A DERROTA DA REAÇÃO REPUBLICANA


E A REVOLTA DE 5 DE JULHO DE 1922
A despeito do clima de intensa agitação política que marcou os primeiros meses de
1922, as eleições presidenciais realizaram-se na data prevista, em 1º de março. Os
resultados eleitorais, controlados pela máquina oficial, deram a vitória a Bernardes, com
446 mil votos contra 317 mil de Nilo Peçanha. Mais uma vez o esquema eleitoral vigente
na Primeira República funcionou para garantir a posição do candidato oficial.
Diferentemente dos pleitos anteriores, porém, não houve uma aceitação dos resultados
eleitorais pela oposição. A Reação Republicana não reconheceu a derrota e, além de
reivindicar a criação de um Tribunal de Honra que arbitrasse o processo eleitoral,
desencadeou uma campanha visando, de um lado, a manter a mobilização popular e, de
outro, a aprofundar o acirramento dos ânimos militares.
Ao longo de todo o primeiro semestre de 1922, e em especial após as eleições, a imprensa
pró-Nilo assumiu uma postura panfletária, denunciando diariamente as punições e
transferências sofridas pelos militares antibernardistas. Além de fazer esse tipo de
denúncia, as lideranças da Reação Republicana radicalizavam suas posições, abrindo
espaço para a possibilidade de intervenção armada na decisão do conflito político. Nesse
clima de intensa agitação, os militares começaram a passar do protesto à rebeldia e a
intervir de fato em disputas políticas locais em favor de seus aliados civis, como aconteceu
no Maranhão. Paralelamente, começavam a aparecer os primeiros sinais de tentativas de
levantes no Distrito Federal e em Niterói.
As lideranças políticas de Minas e São Paulo não se deixaram entretanto intimidar diante
das declarações alarmistas dos militares sobre a ameaça de revolta das tropas, e nem a idéia
do Tribunal de Honra nem a proposta conciliadora de Epitácio foram consideradas. Em
conformidade com essa orientação, ao ser realizada em maio de 1922 a eleição para a mesa
da Câmara dos Deputados e para as diversas comissões parlamentares, foram excluídos
todos os deputados dissidentes. A disposição clara das forças bernardistas de não fazer
nenhum tipo de negociação conduziu a uma radicalização maior das correntes
oposicionistas. Com o afastamento de seus partidários de todas as comissões da Câmara e
dos trabalhos de reconhecimento eleitoral, Nilo Peçanha e J. J. Seabra lançaram um
manifesto que declarava: “A dissidência retira-se do Congresso e só a este caberá a
responsabilidade do que acontecer de hoje em diante.” Totalmente marginalizadas no
cenário político nacional e sem nenhuma possibilidade de acordo, as forças dissidentes não
tinham outra alternativa senão o aprofundamento das relações com os militares.
As possibilidades de subversão da ordem e de intervenção militar tornavam-se por sua vez
cada vez mais concretas. Ainda em meados de maio, Dantas Barreto, já suspeitando da
crise que iria eclodir em Pernambuco, telegrafou a Nilo declarando: “Tribunal de Honra ou
revolução.” A rebelião eclodiu finalmente em 5 de julho de 1922 e contou com a
participação das guarnições de Campo Grande, Niterói e Distrito Federal. A tentativa de
revolta fracassou desde o começo, sendo logo sufocada pelas forças federais. O movimento
não obteve a adesão de segmentos militares expressivos, e as oligarquias dissidentes, que
tanto haviam contribuído para acirrar os ânimos militares, não se dispuseram a um
engajamento mais efetivo. Epitácio Pessoa pediu imediatamente a decretação do estado de
sítio no estado do Rio e no Distrito Federal, e grande número de deputados dissidentes do
Rio Grande do Sul, Bahia e Pernambuco votaram a favor da medida, demonstrando o recuo
das oligarquias e a desarticulação completa da Reação Republicana. Nos meses seguintes, a
repressão desencadeada pelo governo fortalecido de Epitácio Pessoa determinou várias
prisões e instaurou vários processos. Embora arrolado no inquérito policial como envolvido
na revolta, Nilo Peçanha não teve as acusações comprovadas. Mas numerosos políticos
fluminenses e jornalistas foram presos e processados.
Por ocasião da posse de Bernardes, em 15 de novembro de 1922, Nilo Peçanha voltaria a se
pronunciar publicamente, lançando um manifesto à nação. Esse documento, além de
resumir os pontos básicos do programa da Reação Republicana, defendia a regeneração da
República. Nilo não só retomava ideias centrais defendidas desde o começo de sua carreira
política, como a diversificação da agricultura e uma política econômico-financeira
ortodoxa, mas também se engajava na defesa de novos pontos, como a reforma
constitucional e o voto secreto para todos os cidadãos alfabetizados. Finalmente, criticava
com vigor as distorções do federalismo, advogando uma representação mais igualitária dos
estados no Congresso, que atenuasse a preponderância que a antiga divisão das províncias
do Império havia determinado em favor das grandes unidades, e que tornava cada dia mais
precário o equilíbrio da Federação.
Contudo, qualquer que fosse sua posição naquele momento, Nilo Peçanha não iria alterar
sua sorte política. A Reação Republicana já estava completamente diluída, e as oligarquias
dissidentes tentavam se rearticular com a situação dominante de forma a evitar as
intervenções federais. Se a posição do Rio Grande do Sul garantiu o controle do estado para
o Partido Republicano Rio-Grandense de Borges de Medeiros, a Bahia, Pernambuco e o
estado do Rio de Janeiro sofreram alterações significativas nas suas políticas internas, com
a troca dos grupos dominantes. Especialmente no estado do Rio, esse processo assumiria
um caráter radical. A intervenção federal no estado desalojaria definitivamente os nilistas
do poder, dando lugar à ascensão de um novo grupo político, liderado por Feliciano Sodré,
alinhado ao governo federal. O projeto de Nilo Peçanha, de articular um eixo alternativo de
poder que neutralizasse as oligarquias dominantes, estava derrotado, e com ele também
findava uma fase em que as oligarquias fluminenses ambicionaram um lugar de destaque
no contexto da Federação brasileira.
Nilo Peçanha faleceu pouco tempo depois, em 21 de março de 1924.

Marieta de Morais Ferreira

FONTES: CÔRTE, A. Política; FERREIRA, M. Em busca; FERREIRA, M.


República; PINTO, S. Correspondência.

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