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A História de Souleymane no Cinema

Enviado por

Liliana Almendra
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados, alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social, S.A.
Sexta-feira | 10 Janeiro 2025 | publico.pt/culturaipsilon
ESTE SUPLEMENTO FAZ PARTE INTEGRANTE DA EDIÇÃO Nº 12.669 DO PÚBLICO, E NÃO PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE

Vemo-lo todos
O filme realizado por Boris Lojkine é um
dos primeiros grandes títulos de 2025

os dias, nada
sabemos dele
Eis A História
de Souleymane
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2 | ípsilon | Sexta-feira 10 Janeiro 2025


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É como
furar o ecrã
e aceder a uma
verdade que não é
apenas a do cinema.
Esta é A História de Souleymane
Como dar conta dos nossos contemporâneos
agora que o realismo e o humanismo se
ausentaram das televisões e da política?
O cinema que interessa interessa-se. É essa
A História de Souleymane. Quem é ele?
Vemo-lo todos os dias, não sabemos dele.

Vasco Câmara

Q
uem é Souleymane? A pergunta é retórica: ve- Isso tem sido assegurado pelo nosso tempo. É obra do
mo-lo todos os dias na cidade. nosso século. O cinema que (se) interessa tem cuidado
É ele próprio, desde logo, Souleymane San- da dignidade e da existência destas figuras esquivas
garé. Mas é também todos os outros que, como como Souleymane, já que nas televisões e nos noticiá-
ele,se tornaram sombras, sendo as cidades um rios e nos discursos (?) políticos, melhor seria dizer nas
cenário de filme expressionista; se tornaram diatribes partidárias, onde antes se resgatava a realidade
exilados nos não-lugares da sociedade, sendo este o e hoje já nada de realista ou de humano aí se passa, elas
sítio onde abundam os abandonados e os desesperados. são tratadas como uma cifra.
Os que, como Souleymane, imigrantes sem papéis que Há uma família cinematográfica possível, então, para
os legalizem e com uma ordem de expulsão a pairar A História de Souleymane, terceira longa-metragem de
sobre as suas cabeças, entregam encomendas e comida Boris Lojkine. É uma linhagem ou uma companhia que
ao domicílio deslizando nas suas bicicletas. se pode propor. Não é, de todo, exaustiva. É socialmente
transversal. De modo que todos estamos aqui.
Vemo-los todos os dias; Ei-los, os nossos contemporâneos, os que não pac-
não sabemos é nada deles. tuam e os que se dobram, em todo o caso os desapare-
Souleymane é um especialista no desaparecimento, cidos durante o combate: Rosetta, dos irmãos Dardenne
aliás. A bicicleta permite-lhe rapidez de movimentos (1999), filme-anunciador, até porque se abre ao século
pelas ruas de Paris. Esgueira-se, esfuma-se antes que se XXI, percebeu que não fazia sentido contar histórias
lhe ponha a vista em cima e um olhar o imobilize. Já o com a rapariga que corria atrás de um emprego para
telemóvel garante-lhe que permaneça um avatar. sentir que pertencia ao colectivo (Émilie Dequenne), o
A existência de Souleymane é, contudo, bem real. que importava era seguir-lhe os passos, sentir-lhe 

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 a ferocidade, tudo o que resistia a qualquer forma Na organização da produção não havia nada de luxuoso,
de romanesco; O Emprego do Tempo (2001), de Laurent não havia cantina, não havia camiões, estávamos entre
Cantet, cinematograficamente tão elusivo quanto o Vin- nós e íamos comer ao restaurante da esquina. Mesmo
cent interpretado por Aurélien Recoing, figura que, na distribuição, a Pyramide, que [em França] distribuiu
oposta à de Rosetta, até no espectro social em que se os meus dois filmes anteriores [Hope, 2014; Camille,
situava, mas igual a ela na solidão, empregava todo o 2021] e com quem tenho numa relação quase familiar,
seu tempo a dissimular a sua recusa em habitar o mundo é formada por pessoas que se interessam pelos filmes
do trabalho, desaparecendo na sua impostura e nas suas não para fazer dinheiro com eles porque não havia à
mentiras; A Lei do Mercado, de Stéphane Brizé (2015), partida nada a ganhar quando se interessaram pelo pro-
crónica da insidiosa ocupação da mente e da moral de jecto — mas vão fazer dinheiro, porque o filme está a
Thierry (Vincent Lindon) pelas leis do mercado; Geração correr muito bem [risos]. Não deixou por isso de ser

Neste filme é “como Low-Cost, de Emmanuel Marre e Julie Lecoustre, fil-


mando em 2024, hoje mesmo, a obscena vulnerabili-
dade dos indivíduos perante a organização social e
bizarro estarmos no Festival de Cannes, no meio das
pailletes e do champanhe, porque o nosso filme não
pertence a esse ambiente”.

se eu não escrevesse económica — a individualidade da Cassandre de Adèle


Exarchopoulos, aeromoça, mostrava-se rarefeita ou até
suprimida pela organização que a empregava, e assim
Cannes, Maio de 2024, secção Un Certain Regard: o
Prémio do Júri foi para o filme A História de Souleymane,
o prémio do melhor actor para Abou Sangaré. Prémios

um argumento que também o naturalismo da actriz era levado até a um


ponto de transparência.
O que é que A História de Souleymane acrescenta a
do Cinema Europeu, Dezembro de 2014: a escolha de
melhor actor recaiu em Sangaré e a obra recebeu ainda
a distinção para o melhor som.

colasse intenções esta genealogia de personagens condenadas à ausência


e a esta hipótese de declinação e superação de um cha-
mado “cinema social”? Podemos começar por aqui: o
O momento da verdade:
o silêncio
a um milieu. Como se desaparecimento da câmara de filmar como objecto e
como fétiche, como algo pelo qual o cinema chega e é
construído, como algo exterior à acção mas que a cria
Quem é Abou Sangaré, o intérprete de Souleymane?
Está à espera da autorização de residência em França
que lhe permita concretizar o emprego por que anseia

tudo o que se vê e a coreografa. Desaparecimento: como se um filme não


fosse feito, como se um filme devesse ser encontrado
no real, revelado.
e que lhe está prometido: mecânico de automóveis
numa garagem. Deixou a Guiné-Conacri, onde nasceu,
quando tinha 15 anos, em 2016. Depois de um percurso

viesse do real” E se a bicicleta surge como o objecto indicador da


alienação de Souleymane (é a primeira vez no ecrã para
Abou Sangaré, 23 anos), então Boris Lojkine, realizador,
que o levou até à Argélia e à Líbia, onde esteve preso,
finalmente alcançou a França em 2017. Socorreu-se da
sua condição de menor, à chegada, para legalizar tem-

Boris Lojkine faz corpo com a personagem e com o actor e escolhe,


gesto que tem consequências estéticas e sensoriais mas
de que não se despega o princípio ético, também a
porariamente a sua situação. Passou a residir em
Amiens, onde fez a sua aprendizagem como mecânico
e de onde três vezes tentou obter o certificado de resi-
bicicleta. dência, o que lhe foi negado pelas autoridades que lhe
“O filme é muito imersivo e isso deve-se à forma como deram a ver e a sentir a ameaça da deportação. O melhor
foi rodado: uma câmara muito próxima da personagem, que conseguiu foi um visto temporário de seis meses.
como uma relação física entre ela e Sangaré” — Boris, en “Começámos o casting já com o filme financiado, por
passant, dá a entender que o actor, também presente isso tinha já de haver um argumento, mas quando San-
nesta conversa telefónica, prefere que se neutralize o garé começou a fazer parte do projecto tive vontade de
“Abou”, quer ser tratado apenas pelo apelido, Sangaré. me aproveitar de muitas coisas, de quem ele é, e assim
“Não há praticamente planos largos. Filmámos al- a sua presença incorporou-se na personagem. Mudei
guns, mas não os montámos porque eles não iam com aspectos da história de Souleymane para me adaptar à
o tom ou com a estética do filme, com esse sentimento história de Sangaré. Havia já um argumento construído
de que falou e que é decorrente das pesquisas que fiz, mas efectivamente quando Sangaré entra é ele que in-
de ser um filme que fala da realidade daquelas pessoas. carna a personagem. Não foi um filme em que eu pu-
Como se eu não inventasse nada. Como se eu não escre- desse inventar. Diz-se que é um filme de ficção. Mas
vesse um argumento que colasse intenções a um deter- como filme de ficção não é muito inventado. Pega-se na
minado milieu. Como se tudo aquilo que se vê no filme realidade, na verdade desse milieu e também naquilo
viesse do real. E sim, houve planos filmados em bicicleta que é Sangaré”.
[risos]. Mesmo se tudo é fabricado, há decisões que são Vamos então olhar para ele, Souleymane. E o que
tomadas pela realidade em cada uma das etapas da pro- vemos? Entre as várias entregas ao domicílio, há um
dução: ao documentar-me”, na rua, durante um mês e homem com dificuldade de ser e de existir porque está
meio, em conversas e cafés com uma quinzena de dis- a construir a sua história oficial, memorizando os seus
tribuidores de mercadorias ao domicílio, “mais tarde passos tal como um actor se vai apropriando da ficção.
ao escolher um cast inteiramente não profissional for- Conhecemos primeiro a falsa história de Souleymane
mado por pessoas cujas vidas estão próximas daquelas Sangaré, e é singular progredir assim num filme, conhe-
que vão ser incarnadas no ecrã. Isso dá o sentimento de cer a personagem através daquilo que ela não é, daquilo
que não se trata de colar um olhar exterior a uma reali- que ela inventa, daquilo que nunca lhe aconteceu. Por
dade, o tal sentimento de que falava”. exemplo, que em 2019-2020 — Souleymane esforça-se
“E tem razão quando fala na ética”, continua Boris, por decorar mas às vezes engana-se nas datas — foi des-
55 anos. “É um filme em que tudo é coerente: a forma pejado de casa, preso por resistir a essa acção mas na
como foi pensado, escrito, rodado, interpretado, a ma- verdade foi punido pelas autoridades por se ter inscrito
neira como fizemos o casting e mesmo a maneira como na UFDG, a União das Forças Democráticas da Guiné. É
gastámos o dinheiro. Mesmo a forma como o distribuí- isso o que ele tem de fazer crer à funcionária do OFPRA
mos. Não quis fazer este filme com milhões e milhões, [Office français de protection des réfugiés et apatrides],
isso seria contraditório. Fizemo-lo com muito pouco organismo para a protecção de refugiados e apátridas,
dinheiro, um milhão e meio de euros, o que em França daí a dois dias numa entrevista, ele que nunca sequer
é o escalão mais baixo para um filme dito normal. Toda passou por uma prova oral: que esteve preso, que ade-
a gente foi paga pela tarifa sindical e ninguém ganhou riu ao projecto político da UFDG para a Guiné-Conacri,
fortunas. Não havia stars no plateau, mesmo os salários em especial por concordar com o programa de escola-
do produtor e do realizador ficaram dentro de uma ló- ridade obrigatória para as crianças a partir dos cinco
gica artesanal. Isso sente-se na relação com o dinheiro. anos de idade e com o aumento do orçamento para a

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educação, que fugiu do país, Argélia e depois Líbia, onde actor, é o momento também da revelação da sua intimi- Abou Sangaré, 23 anos, o intérprete de
foi preso. O percurso coincide com o da personagem dade e do seu passado biográfico. A história de Sou- Souleymane, está à espera da autorização de
Souleymane Sangaré. O apelido também é comum. Mas leymane, em suma, é a vida de Sangaré. Para essa des- residência em França que lhe permita concretizar
não é coincidência. coberta o espectador não precisa da informação adicio- o emprego por que anseia: mecânico de
Souleymane tem de resistir às armadilhas do inqué- nal sobre a vida do intérprete como a que está contida automóveis numa garagem
rito administrativo, tem de sair dele com o estatuto de neste texto: ser o momento de verdade do filme, a pas-
refugiado. Tem de sobreviver também à teia de depen- sagem da primeira para a segunda parte em A História
dências em que se enreda cada vez mais, como um thril- de Souleymane, isso implica que a oscilação emocional
ler urbano, e que incluem os que lhe cobram a fabrica- que está no seu âmago aflore à superfície e atinja quem
ção da sua falsa identidade, os que se fazem pagar pelo estiver na sala escura.
aluguer a Souleymane, que não está em condições legais “O momento mais forte” — Boris descreve e é mesmo
de trabalhar, da sua identidade, do seu perfil virtual de assim — “é aquele de viragem em que Souleymane é
distribuidor de mercadorias, até das suas selfies. desafiado pela agente do OFPRA: “páre de contar par-
E assim, no meio dos estilhaços do que antes era o voíces, invenções, conte-me a verdade’. Ele hesita: ‘será
factor humano, Souleymane surge como figura em uma armadilha ou uma oportunidade?’. Esse silêncio
perda de materialidade. Vai enfrentar a OFPRA no dia é o momento mais forte. Quando fizemos o casting —
aprazado. Aí toda a construção da mentira vai levá-lo a muitas vezes dizemos que um actor é alguém que fala,
enfrentar uma verdade irrecusável, a sua, vai enfim ma- que tem facilidade em falar, mas não é necessariamente
terializar-se. Aí, o momento de actor de Sangaré, ou o assim — pedi a todos os candidatos que me contassem
momento no filme em que Sangaré se constrói como coisas e depois que improvisassem. E o momento 

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“Quando me pedem para contar a minha história


a três pessoas, isso é uma coisa. Mas num filme que
duas mil pessoas vão ver... ” Abou Sangaré
 mais forte de Sangaré foi o momento em que ele para o encurralar, ele contorce-se para encontrar uma
se fechou no seu silêncio e o seu partenaire, pois era solução de saída, ela procura encurralá-lo de novo, ele
uma cena em que havia outro actor, tentava fazê-lo me- contorce-se, tudo está detalhado no argumento. Eu só
xer-se, falava-lhe muito, mas ele não dizia nada. Havia tinha que assegurar que a lógica argumentativa era
uma grande intensidade nesse nada dizer. Era o seu mantida. Foi uma rodagem bastante clássica, até se
rosto que me contava muitas coisas nesse momento. O chegar ao silêncio, ao grande silêncio. Pedi-lhe para se
que se confirmou rapidamente na rodagem: desde que aguentar nesse silêncio o mais que pudesse porque
fosse filmado, haveria sempre coisas no rosto dele que enquanto ele não dissesse nada era ele que detinha o
contavam coisas, emoções. Como nuvens que passam poder; enquanto ele mantivesse as palavras suspensas
numa paisagem” dos seus lábios, era ele que teria o poder. ‘Faz durar
A História de É então a partir desse silêncio, que na verdade lhe esse silêncio’, mesmo se ele não puder ser aguentado
Souleymane valeu ser o escolhido para entrar no filme, que o actor eternamente. A funcionária pede-lhe ‘conte-me a sua
L’histoire de Sangaré conta a sua história íntima como parte da histó- história, não hesite’, mas ele hesitava, hesitava, a ex-
Souleymane ria da personagem Sangaré. Cinematograficamente é um pectativa adensava-se e no momento em que ele ia falar
De Boris momento notável, até porque desaparece a capacidade eu cortei” a acção.
Lojkine de apreensão do espectador relativamente às cenas, a Dia seguinte: rodagem mais curta mas cena mais difí-
Com Emmanuel consciência da montagem, dos cortes e das mudanças cil. “Sei que Sangaré tinha muito medo dessa segunda
Yovanie, Nina de ângulos. Tudo parece acontecer com a fluidez de um parte, tínhamos ensaiado todo o filme, mas a segunda
Meurisse, Abou longo plano-sequência. Sangaré, o actor e a personagem, parte não o tínhamos feito tão bem porque eu queria
Sangare, conta aí a verdadeira razão por que saiu da Guiné-Cona- algo que acontecesse espontaneamente, no momento.
Younoussa cri: a doença mental da mãe, escorraçada pelo pai, a Sangaré esteve muito à vontade na rodagem mas sabia
Diallo vergonha social, a necessidade de providenciar para os que o momento de filmar a sequência final aproximava-
Em sala cuidados dela. se e havia uma inquietude devido ao carácter íntimo do
“Sim, essa cena fez-me medo”, confessa o actor. que se ia passar. Era uma evidência para mim que tínha-
) “Quando me pedem para contar a minha história a três mos de jogar com esse lado íntimo para que funcionasse
pessoas, isso é uma coisa. Mas num filme que duas mil também como uma evidência para o espectador que não
pessoas vão ver... Tratava-se de passar de uma falsa his- se trata apenas de jogo de actor. É como se aí se furasse
tória a uma verdadeira história. E assim não só pude o ecrã e se passasse para o lado de lá e tivéssemos acesso
enfrentar a minha própria vida como pude divulgar, a a uma verdade que não é apenas a do cinema”.
quem não sabe, histórias da imigração. Porque, como São quatro ou cinco minutos filme rodados ao longo
acontece no filme, há uma série de histórias falsas que de um dia inteiro e em que “ao longo das várias prises
as pessoas são obrigadas a contar sobre elas próprias. era o próprio Sangaré que procurava o ponto certo da
Foi angustiante, mas era isso que era preciso fazer”. sua emoção”. Uma equipa de apenas quatro pessoas
estava lá “para o acolher”.
A emoção central, “Foi um dia inteiro para que ele contasse a sua história.
o traumatismo De tudo o que ele me tinha contado, eu aproveitara para
A memória desse bloco final pode ser surpreendente. a trama alguns episódios, a infância, a separação dos
Experimentem comprar relatos dessa sequência de A pais, a mãe que é louca, a sua partida, e juntei ainda uma
História de Souleymane com os amigos. Haverá versões namorada que o abandona, a viagem para a Argélia e a
diferentes. Boris conta que lhe chegam versões delirantes Líbia. Mas antes de filmar percebi que não era impor-
sobre o que ali se passou. tante ter a referência a todos esses episódios. O impor-
“Filmámos nos verdadeiros locais da acção”, em ins- tante era chegar a um momento de emoção verdadeiro.
talações da OFPRA que não estão operacionais aos fins- Todo o dia foi gasto em levar Sangaré até essa emoção.
de-semana. “Negociámos então dois fins-de-semana, três Necessariamente, o centro dessa emoção era a mãe. Não
dias para a primeira parte”, em que Souleymane conta foi uma cena que dirigi, ‘faz isto’, ‘faz aquilo’, ‘chora’ —
a versão que decorou e com a qual espera garantir o seu isso sobretudo não diria para ele fazer —, ‘baixa a mão’,
estatuto de exilado político, “e um dia para a segunda”, ‘roda a cabeça’. Não houve ordens como estas. Ele está
quando a personagem enfrenta o seu passado e o actor a contar a sua história, a emoção é a dele, não tenho nada
faz a sua catarse. que estar a dirigi-lo. Estava ali apenas para acolher isso,
Olhando para o plano de rodagem e folheando o argu- com paciência, com a cumplicidade da pessoa que in-
mento: “A parte das mentiras ocupa 17 páginas do argu- terpretava a agente do OFPRA, porque o único a inter-
mento e a parte da verdade apenas três. No dia para fil- pretar a cena era Sangaré. Todos estávamos ali para o
marmos a história falsa fizemos quilómetros e quilóme- acolher quando ele atingisse a sua emoção. Filmámos
tros de diálogos. E embora se possa dizer que Sangaré apenas com uma câmara, várias takes, todo o dia à volta
não é um actor profissional, as coisas correram espantosa dessa emoção central, desse traumatismo”. Abou Sangaré e Boris Lojkine na rodagem
e surpreendentemente bem porque nesse momento da O stress do actor não era só previsível por causa do de A História de Souleymane
rodagem, que já decorria há dois meses, Sangaré tornara- trauma íntimo. “Ele sabe o que é fazer um pedido admi-
se um actor. Correu muito bem porque essa parte tem de nistrativo e estar perante alguém da administração para
decorrer da forma como está escrita e está escrita de defender a sua causa e obter os seus papéis. Isso coloca-
forma precisa”. va-o evidentemente num stress que fazia com que a di-
O que se passa é isto: “A personagem tenta contar ferença entre ele e Souleymane fosse muito pequena.
uma história falsa, a funcionária coloca-lhe questões Sobretudo em todas as cenas em que ele está perante a

6 | ípsilon | Sexta-feira 10 Janeiro 2025


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administração. Até porque enquanto rodávamos essa rodei mais perto de minha casa. Há cenas filmadas a “O que se vai passar a partir de agora será a vontade
cena Sangaré tinha dado entrada com um pedido de pa- menos de 100 metros de onde vivo. O que é muito estra- de Deus. Eu não sabia que isto”, o cinema, “se ia passar
péis na administração francesa. São coisas que ele viveu nho: entre Jaurès, os Grands Boulevards, Barbès, tudo na minha vida e aconteceu. É verdade que o cinema me
e que vive ainda de forma muito íntima”. bairros que conheço bem”. trouxe coisas e me ajudou. Mas adoro o trabalho de me-
Presente e futuro de Boris Lojkine e Abou Singaré, Era Boris. Agora Sangaré, mecânico por gosto e voca- cânico. Não direi por isso que fazer cinema seja uma
diálogos finais. “Estou a escrever uma série que se passa ção numa garagem que está à sua espera em Amiens se prioridade. Se aparecerem projectos como A História de
no Brasil, na Amazónia. Faço os meus filmes sempre uma carte de séjours assim o permitir e desbloquear a Souleymane fá-lo-ei. Mas não andarei em Paris à procura
muito longe. A História de Souleymane é o primeiro que sua actual situação. de castings”.

ípsilon | Sexta-feira 10 Janeiro 2025 | 7


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Um Quarto
na Cidade
Une chambre
en ville
De Jacques
Demy
Com Dominique
Sanda, Danielle
Darrieux,
Richard Berry
Em sala



A década infeliz de
absolutos ou relativos (o primeiro dos anos 60 — até aqui se volta a
grande fracasso foi ainda nos anos uma cidade portuária, Nantes, não
60, o belo Model Shop, o seu filme por acaso a cidade em que o reali-
americano que transplantava para zador cresceu (como também nos
Los Angeles uma espécie de “multi- dizia Rosalie, o ponto de partida
verso Demy”, personagens vindas foram as memórias do pai de Demy,

Jacques Demy
da Lola e da Baía dos Anjos). que foi operário nas estaleiros de
O último sucesso inequívoco terá Nantes).
sido A Princesa com Pele de Burro, Isto foi reconhecido na altura, o
que em 1970 esteve entre os filmes filme teve críticas ditirâmbicas, e
mais vistos em França. O Tocador de choveram nomeações para os Césa-
Flauta, de 1972, e O Acontecimento res. Mas os espectadores mantive-
Mais Importante Desde que o Homem ram-se à margem, e o filme foi um
Chegou à Lua, em 1973, já ficaram flop comercial monumental. O que
aquém das expectativas, e isso ex- era “cinema popular” nos anos 60
plica possivelmente o longo silêncio já não era “cinema popular” nos
Dois Älmes da fase Änal do cineasta francês que nunca de Demy ao longo da década, só anos 80, e isto foi o “caso de Um
quebrado mesmo no fim (em 1979) Quarto na Cidade, ou o caso que Um
tinham chegado ao circuito comercial português. Um com um dos seus filmes mais pecu- Quarto na Cidade serviu para reve-
Quarto na Cidade é um dos píncaros da arte do liares, e hoje em dia mais esqueci-
dos (é o único ausente da retrospec-
lar: estava-se já noutro planeta. Ao
mesmo tempo que o filme de Demy
realizador. Parking é um Älme falhado, mas fascinante. tiva da Medeia Filmes em curso), se afundava nas bilheteiras, uma
Lady Oscar, co-produção franco-ja- daquelas comédias popularu-
ponesa falada em inglês, com argu- chas em que se especializou
mento adaptado de uma “manga”, um ex-ícone da nouvelle

Luís Miguel Oliveira actualmente redescoberto como


evocação clandestina de uma exis-
tência “trans” (trata de uma rapa-
vague, Jean-Paul Bel-
mondo, arrastava mul-
tidões. Chamava-se O Ás
riga educada como se fosse um ra- dos Ases e alguns críti-

S
egundo todos os relatos, e morreu em 1990, depois de um úl- dourado composto por Os Chapéus paz), mas com muito pouco eco na cos inconformados
como a sua enteada, Rosalie timo filme que não terá feito muito de Chuva de Cherburgo e As Donzelas altura da estreia. Só que o pior ainda escreveram artigos a
Varda, confirmou nestas para lhe levantar o moral: Trois Pla- de Rochefort, sofria com a impossi- estava para vir. opor os dois filmes e a
páginas há poucas sema- ces pour le 26, estreado em 1988, foi bilidade de replicar esse sucesso, de Um pior que se confunde com o lamentar os diferentes
nas, Jacques Demy foi um mais um insucesso crítico-comercial voltar a receber o amor que esses melhor. Um Quarto na Cidade, filme destinos de cada um.
homem bastante entriste- a juntar aos filmes precedentes (que filmes tinham gerado. Os filmes dos de 1982, é uma obra-prima absoluta, Esses artigos deram
cido durante a década de 1980. em Portugal nem chegaram a es- anos 60 — ainda Lola e A Baía dos um dos candidatos a magnum opus origem a uma pe-
Amargurado, mesmo: “pensou vá- trear: Um Quarto na Cidade e Anjos, sobretudo estes dois — são a de Demy, um filme magnífico que quena tempestade
rias vezes deixar o cinema definiti- Parking são, como esse, inéditos no “lenda de Jacques Demy”, a lenda retoma, mas envolvendo-o em ne- na imprensa popu-
vamente”, dizia-nos Rosalie nessa nosso circuito comercial). Outrora do Demy feliz, e fazem-nos esquecer grume, um negrume tão melodra- lar, que hoje se re-
conversa. Não teve tempo para isso, realizador de filmes tão amados e que dos anos 70 em diante o reali- mático como político, o estilo “em- corda até com uma
a despedida foi mais radical porque tão populares, sobretudo esse par zador francês acumulou fracassos, cantado” dos seus grandes êxitos certa nostalgia —

8 | ípsilon | Sexta-feira 10 Janeiro 2025


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basta encará-lo como o encontro


com uma mensagem numa garrafa
enviada por um náufrago de há 40
anos. É uma homenagem expressa,
e anunciada no genérico, a Jean
Cocteau, um santo pessoal de Demy
(e um padroeiro de toda a geração
da nouvelle vague, a bem dizer), uma
revisão do mito de Orfeu e Eurídice
que Cocteau filmara por duas vezes
Parking ( O Sangue de Orfeu e O Testamento
titulo original de Orfeu) — e lá está em Parking Jean
De Jacques Marais, na pele de Hades, o “direc-
Demy tor” do mundo dos mortos, um
Com Francis mundo burocratizado, cheio de
Huster, Laurent computadores e formulários, que
Malet, Keiko Itô existe no subterrâneo de um parque
Em sala de estacionamento em Paris.
Um mundo a preto e branco,
 como o “além” do Uma Questão de
Vida ou de Morte de Powell/Press-
burger (outra mais que provável
vénia de Demy), pintalgado por
manchas de vermelho-inferno
(quando Parking se estreou andava
Wim Wenders a congeminar As Asas
do Desejo, não é impossível que o
trabalho de Demy sobre a cor tenha
tido alguma influência no alemão).
Mas Orfeu, aqui, é um cantor rock,
que Demy pensou entregar a David
Bowie, mas sem Bowie ficou visual-
mente uma espécie de cruzamento
Prince/Springsteen (como alguém,
com alguma razão, escreveu), inter-
pretado por um actor, Francis Hus-
À esquerda, era o tempo em que, primeiro, o muito mais força do que o amor, único filme de Demy que mesmo os ter, sem um pingo do carisma neces-
Um Quarto que a crítica de cinema dizia ainda onde as mulheres já não se confun- “demyanos” reconhecem como fra- sário para ser uma encarnação
na Cidade. tinha algum impacto, e depois o diam com as “donzelas” (fabulosa, casso quase total, é complexo, por- convincente. É um retrato desajus-
À direita, tempo em que o que acontecia na a personagem de Dominique que o reconhecimento do fracasso tado da “cena musical” dos anos 80,
uma cena imprensa continuava a acontecer na Sanda), os homens já não eram ma- não invalida o reconhecimento das uma caricatura sensaborona de um
de Parking. imprensa. Foi esse o “caso”, a opo- rinheiros sorridentes mas operários singularidades e dos mistérios do “universo MTV” e da idade dos te-
Em baixo, sição entre o filme de Demy e o filme calejados (talvez o papel da vida de filme. O insucesso foi total, e desta lediscos, embora saiba encontrar os
o realizador de Belmondo tornou-se uma coisa Richard Berry), e mesmo Michel vez já nem a crítica esteve do lado traumas do tempo inaugural das
Jacques Demy política em sentido lato, um grande Piccoli já não era o lojista meigo e de Demy. grandes celebridades pop (o destino
levantamento popular contra o “eli- bondoso do filme de Rochefort, mas Em 1985 devia ser, de facto, difícil deste Orfeu, que tem uma namo-
tismo” da critica de cinema, a um alucinado vendedor de electro- encontrar ponta por onde pegar em rada japonesa, é semelhante ao de
confirmação definitiva de que domésticos (e os planos com Piccoli, Parking, mas hoje é mais fácil, por- John Lennon, e parece que Demy
os anos da nouvelle vague, e semi-louco de ciúme, rodeado pelos que vemos a ligação entre o filme e pensou nisso, numa alusão ao casal
até os anos 70 da pós-nou- televisores à venda na sua loja, são a época — não é preciso “salvá-lo”, John/Yoko).
velle vague, já tinham um sinal do tempo também, um si- As horríveis canções de Legrand
passado, já não podia nal da passagem da idade do cinema não ajudam nada à credibilidade do
DOYEN
EN

haver convívio feliz entre à idade da televisão, um sinal de que retrato, mas não obliteram a singu-
ANTOINE D

“os intelec tuais” e o o filme sabia bem o que se tinha laridade se conseguirmos passar
“povo”. Nos jornais popula- partido). por cima delas. E o que mais é sin-
res leram-se parangonas gular? O desenho de um universo
como “querem impedir Bel- O ponto mais fraco clandestino e dominado pela morte,
mondo de fazer rir a França”,
vituperou-se a “intelligentsia es-
As canções de Um Quarto na Cidade
não foram compostas por Michel Os filmes dos anos que com o seu Orfeu bissexual traz
à superfície um vislumbre do “ice-
querdista da crítica de cinema”. O
pobre Demy, o mais popular dos
Legrand. O lendário parceiro de
Demy não se reconheceu no pro- 60 — ainda Lola berg” da vida pessoal de Demy, e
parece um sinal dos tempos em que
cineastas vindos da órbita da nou-
velle vague, viu tombar-lhe em
jecto, e pior, não reconheceu o
amigo — “isto não és tu”, disse-lhe, e A Baía dos Anjos, a Sida começava devastar a comu-
nidade artístico/intelectual pari-
cima o anátema do “elitismo”. Al-
guma coisa estava definitivamente
e Demy teve que ir à procura de ou-
tro colaborador musical (que foi sobretudo estes siense (como aconteceria com o
próprio Demy, cinco anos depois).
partida.
Mas não era o filme que estava
Michel Colombier, e não se ficou
perder, porque as composições de dois — são a lenda Ou a profusão de computadores,
televisores, telefones móveis, a in-
partido. Não era um filme para
“fazer rir” como Belmondo, certo,
Colombier estão em perfeita sinto-
nia com o negrume operático pre- do Demy feliz, e trusão tecnológica como parceira
da morte, anúncio de outro tipo de
e sendo “em-cantado” não era para
pôr a audiência a cantar com as
tendido). Se calhar, Demy devia ter
ficado com Colombier, porque o fazem-nos esquecer inferno que estava prestes a chegar.
Parking, por cima dos seus defeitos
personagens. Era o lado negro de
As Donzelas de Rochefort, cheio de
ponto mais fraco do filme seguinte
(ou do “caso” seguinte) são as can- que dos anos 70 em candidamente expostos (é um filme,
digamos, “inocente”), é também
ecos virados do avesso, uma
“ópera operária” onde a frustra-
ções de Legrand, porventura as
mais preguiçosas, desengraçadas, diante o realizador isto — um filme para ver, ou rever,
com a mente limpa da má fama que
ção já tinha muito mais força do
que a esperança, o desamor
pirosas mesmo, de toda a sua car-
reira. Mas o “caso Parking”, que é o acumulou fracassos lhe vem agregada. É um exercício
que costuma ser proveitoso.

ípsilon | Sexta-feira 10 Janeiro 2025 | 9


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Tiago Rodrigues
inscreveu os
nossos males
nas entrelinhas
de uma tragédia
grega
Hécuba, não Hécuba é o primeiro
encontro do dramaturgo e encenador
português com a Comédie-Française,
mediado por Eurípides: uma mãe em
pranto feroz perante a negligência do
Estado, de todos nós.

Inês Nadais, em Avignon

N
uma pedreira perto de Avig- gado de estabelecer se o seu filho de
non, como em Troia, como 12 anos, Otis, foi ou não violentado
em Genebra, como em por aqueles que dele deviam cuidar.
Gaza, a dor sucede à dor, A que encontra na protagonista da
que sucede à dor, que su- Antiguidade que é suposto interpre-
cede à dor. tar, e nas palavras com 25 séculos
Funesta mensagem esta, que anos que é suposto dizer, o reflexo
Tiago Rodrigues inscreveu nas en- da sua condição, muito pouco dis-
trelinhas (e nas entranhas, porque torcido. A que ao mesmo tempo é e
aqui chora-se, sangra-se e uiva-se) não é Hécuba, sendo que essa é e
de uma tragédia grega com 2500 não é a questão.
anos, a Hécuba de Eurípides: uma O fracasso do Estado, de todos
história geral dos padecimentos da nós, perante “os mais vulneráveis
humanidade, ou pelo menos dos dos vulneráveis”: é sobretudo essa
padecimentos da civilização que a questão, e ainda nem sequer che-
teve o seu berço no mesmo Mediter- gámos a Gaza. A tragédia de Hécuba,
râneo onde agora naufraga e se aliás Nadia, e do seu filho Polidoro,
afoga. Entre a antiga rainha de Troia aliás Otis, decorre no coração da
que vê o mais jovem dos seus filhos Europa “civilizada”, num dos países
assassinado pelo anfitrião a quem o mais ricos do mundo. Apesar de
confiara e a actriz suíça que em 2019 tudo, neste passado-presente fu-
se revoltou contra os maus-tratos nesto ainda ecoa, salvífica, a “little
infligidos ao filho autista numa ins- tenderness” de Otis Redding. E, em-
tituição do Estado, o dramaturgo e balada por ela, a fé no Estado de
encenador português interpôs uma direito. Ou, à falta dela, a catarse
personagem, Nadia. A que chega momentânea que uma assembleia
atrasada aos ensaios de uma peça reunida num teatro pode providen-
de Eurípides por causa das audiên- ciar, na Grécia antiga como na Eu-
cias com um procurador encarre- ropa dos nossos dias, numa pedreira

10 | ípsilon | Sexta-feira 10 Janeiro 2025


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RAYNAUD DE LAGE CHRISTOPHE


perto de Avignon como no Centro agora nada se pode dizer, mas seja- rídicos para inventar uma história mos como uma cultura diversa e em
Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, mos honestos: são escumalha. Não que a Hécuba veio depois completar permanente mutação”, observa
onde Hécuba, não Hécuba se apre- há outra palavra”). e, sobretudo, iluminar. A que a Hé- Tiago Rodrigues, “a cultura euro-
senta hoje, amanhã e depois. Dois dias após a estreia, e a pou- cuba veio dar o elemento de poesia, peia é uma prenda que Atenas nos
Primeiro encontro do dramaturgo cos mais de uma segunda volta que de pensamento e de filosofia que há deu há 25 séculos e que perdura,
e encenador português com uma acabou por não entregar ao partido em Eurípides.” como um tesouro que transmitimos
das mais inabaláveis instituições do de Le Pen o controlo da Assembleia Se o que estava na Hécuba de Eu- de geração em geração”.
teatro europeu — a mítica Comédie- Nacional, Tiago Rodrigues dizia ao rípides era sobretudo a defesa de A guerra que por estes dias de-
Française, fundada em 1680 por Ípsilon que era sua missão “tentar um mínimo denominador comum corre não muito longe desse lugar
Luís XIV e sediada desde 1799 junto preservar o espectáculo sem negar humanitário até na mais sangrenta fundador também se vê reflectida
ao Palais Royal, em Paris —, Hécuba, que o mundo estava a acontecer” e e genocida das guerras, Tiago Rodri- na Hécuba que a protagonista de
não Hécuba teve a sua estreia no que lá fora havia um país “numa gues acrescentou-lhe essa camada Hécuba, não Hécuba está a ensaiar.
Festival de Avignon a 30 de Junho encruzilhada em relação ao futuro de social-democracia que confia ao Não que a reescrita o tenha querido
passado. Funesta noite também. da sua democracia”, perante a Estado, “em nosso nome, e através sublinhar. Mas tal como o avanço da
Nem os dramáticos maciços calcá- “perspectiva muito sombria de uma dos nossos impostos”, a prestação extrema-direita ali pulsa, sublimi-
rios da Pedreira de Boulbon, onde distópica chegada da extrema-di- à comunidade de “serviços que in- nar, também os incontáveis mortos
o canto crepuscular das cigarras reita ao Governo”. dividualmente não seríamos capa- de Gaza se amontoam nas entreli-
parece sussurrar até hoje as memó- Saberia Eurípides que esse dia es- zes de prestar”. nhas. “O sofrimento das crianças,
rias do Mahabharata que Peter tava para chegar? “As tragédias gre- É natural, diz, que essa questão que é não apenas a dimensão mais
Brook em 1985 ali materializou, pro- gas, que por sua vez reescrevem e tenha emergido ao entrar “numa chocante do que se passa em Gaza
tegeram a peça das ondas de choque fixam mitos pré-existentes, têm essa casa que faz serviço público de cul- mas também a mais repugnante,
irradiadas pela primeira volta das capacidade; a cada vez que alguma tura, a Comédie-Française, para vem sobretudo de Eurípides. E claro
eleições legislativas francesas. No coisa acontece no mundo, parece criar um espectáculo destinado a que estará na cabeça de muitos es-
final, depois dos aplausos, quando que falam disso sem esforço, porque um festival que inventou o serviço pectadores. Quando a ex-rainha de
de novo os telemóveis se sintoniza- tratam basicamente de toda a mi- público de cultura, o Festival de Troia, agora escrava, descobre que
ram com a realidade, a União Nacio- ríade de aspectos fundamentais da Avignon”. Tudo isto, insistamos, no o rei da Trácia, a quem pedira que
nal de Marine Le Pen tinha ficado na condição humana”, responde o en- coração da Europa “civilizada”, mantivesse o seu filho a salvo, o
dianteira, com 29% dos votos. cenador. Na reivindicação de justiça aquela que remonta aos gregos, atraiu e matou, ela lembra a Aga-
Nada em Hécuba, não Hécuba mu- perante a morte do filho de Hécuba, como a própria ideia de cidade e de mémnon, o rei dos gregos, o vence-
dou, mas tudo ficou mais urgente. dano colateral das guerras entre gre- cidadania de que nos reclamamos dor, que mesmo em tempo de
gos e troianos, Tiago Rodrigues des- herdeiros. “Mesmo que a entenda- guerra há coisas que são sagradas,
A serpente escondida cortinou a antecâmara da Conven- como as leis da hospitalidade —
Seis anos antes, quando o adminis- ção de Genebra e do Direito Huma- é como se nos dissesse que uma
trador-geral da Comédie-Française, nitário Internacional; na luta para criança é uma responsabilidade
Éric Ruf, convidou Tiago Rodrigues responsabilizar o Estado que falhou colectiva e não tem lado num
a escrever e encenar uma peça des- à criança autista de Nadia, inscreveu conflito.”
tinada a ingressar no repertório da outra preocupação contemporânea: Hécuba perdeu filho, Nadia sal-
companhia, Gaza ainda não estava o risco de derrocada da ideia de ser- vará o dela. Ambas uivarão para
“tchernobilizada” (mais de 13 mil
crianças mortas segundo dados de
viço público que “está na matriz das
democracias europeias”. Entre a rainha de toda a eternidade. Uma mãe enrai-
vecida, escreveu Tiago Rodrigues
Novembro, uma a cada 30 minutos),
a actriz e co-directora da Comédie
A “enorme diferença entre a extre-
ma-direita da primeira metade do Troia que vê o filho reescrevendo Eurípides, é a criatura
mais perigosa do mundo.
de Genève Natacha Koutchoumov
ainda não tinha denunciado as ne-
século XX e a extrema-direita de
hoje” é o seu ultraliberalismo, o seu assassinado e a O teatro do teatro
gligências e os maus-tratos conti-
nuados no centro para crianças
turbocapitalismo, a sua aversão (pelo
menos aparente) ao Estado. “Esta actriz que em 2019 Para cá dos buracos negros de Hé-
cuba e de Nadia, há um elenco que
autistas de Mancy, e o dramaturgo
e encenador português ainda não
extrema-direita traz uma violência
também ao nível da organização so- se revoltou contra se reúne numa sala de ensaios para
ensaiar uma tragédia grega, e que
tinha emigrado para França, rumo
à direcção artística do Festival de
cial: não há um desejo de coesão, há
um desejo de descapitalização do os maus-tratos ao nem sempre consegue manter lá
fora os altos e baixos da vida real
Avignon. Marine Le Pen, no entanto,
já tinha passado a uma segunda
serviço público. E essa é talvez a ser-
pente escondida debaixo das flores filho autista, Tiago (como por exemplo a contagem de-
crescente para um despacho de
volta das presidenciais, levando um
terço do eleitorado com ela: 33,9%.
do apelo ao voto dos desvalidos. Na
realidade, o projecto, muito clara- Rodrigues interpôs acusação que coincidirá com a con-
tagem decrescente para uma es-
O Estado social europeu como o co-
nhecemos, no país europeu que
mente anunciado, é o do desmante-
lamento do serviço público: regras uma personagem: treia). Também é essa a ficção me-
tateatral de Hécuba, não Hécuba:
mais encarniçadamente o blindou,
começava a fissurar-se.
Estaremos a ir longe de mais nas
do mercado para todos.”
Eurípides entrou aqui “para fazer
ricochete arcaico e dramatúrgico”
Nadia Tiago Rodrigues escreveu uma peça
sobre o que é ensaiar uma peça,
tendo o cuidado de manter drama-
entrelinhas (e nas entranhas) desta com a história que Tiago Rodrigues turgo e encenador fora de cena,
Hécuba de que Tiago Rodrigues se entendera entretanto ajustar-se ao talvez para não ser juiz em causa
apropriou, retomando um dos seus seu encontro com a Comédie-Fran- própria, talvez para se manter a
procedimentos dramatúrgicos pre- çaise: a saga real da actriz suíça que, salvo da caricatura.
ferenciais, a reescrita dos clássicos? nos intervalos dos ensaios de Na Se o elenco da ficção parece em
Não quando uma das personagens Medida do Impossível, criação que o autogestão, reclamando do cenário
cruciais desta história, Nérine, é encenador estreou há dois anos em e dos figurinos que desmerecem
uma imigrante sem papéis; ou Genebra e em Abril último trouxe a Elsa Lepoivre encarna Nadia, Eurípides, ou da falta de indicações
quando ouvimos da boca do procu- Lisboa, se envolvera num combate que por sua vez encarna de cena que deixa as personagens à
rador, ressuscitando a funesta ex- de vida ou morte pelos direitos de Hécuba: Tiago Rodrigues deriva, o elenco da vida real, com-
pressão de Nicolas Sarkozy em crianças autistas como a sua. “Neste escreveu o texto tendo em posto por sete dos 81 societários da
2005, que é trabalho da polícia con- caso, não parti de uma tragédia mente esta actriz da Comédie-Française (Éric Génovèse,
trolar a “racaille”, ou seja, “a escu- grega para depois inventar uma his- Comédie-Française: “Choro Denis Podalydès, Elsa Lepoivre,
malha” (“Não se pode dizer, porque tória”, explica. “Parti de factos ve- ao vê-la ensaiar”, confessou Loïc Corbery, Gaël Kamilindi, 

ípsilon | Sexta-feira 10 Janeiro 2025 | 11


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JEAN-LOUIS FERNANDEZ

JEAN-LOUIS FERNANDEZ
teria escrito uma peça com tantos
volte-faces sem a sua capacidade de
mudar de estado de alma”, disse à
revista Télérama. Confiou à sua pre-
sença tocante, e à inteligência pro-
fundamente subtil que a alimenta,
esta Hécuba que também é Nadia
— a projecção dessa outra actriz
suíça que durante meses observou
“a atravessar um enorme sofri-
mento na sua vida e a encontrar al-
guma espécie de consolo ao traba-
lhar na representação do sofrimento
dos outros”.
Se algum consolo há na tragédia
de Nadia, ele virá de uma canção
gravada em 1966 por Otis Redding,
Try a little tenderness, que a dado
momento há-de embalar a vida das
personagens. Ou do afago da pata
de uma cadela ferida, como aquela
em que a Hécuba dos gregos se viu
transformada pela fúria dos deuses,
e que, fantasmagórica, domina o
Estreada no Festival Avignon de ) Élissa Alloula e Séphora Pondi), destes actores profissionais “muito ao lado de um autor que é actor e cenário de Fernando Ribeiro. De
que Tiago Rodrigues é director, foi tudo o que um encenador podia versáteis e muito rápidos a pensar encenador também. Rapidamente resto, fiel à queda para o wishful
a peça construiu-se em torno da esperar da companhia-pináculo do em conjunto nas mais diversas cons- perceberam que nestas condições thinking que notoriamente o distan-
mesa de uma sala de ensaios em sistema teatral francês — e muito telações” não matou a urgência e a o trabalho de actores constrói muito cia de Eurípides, o dramaturgo in-
Paris: na foto da direita, Gaël mais. Trabalhar com e para “a com- vitalidade sem as quais o teatro não mais o espectáculo do que se o texto jectou no texto apartes que funcio-
Kamilindi e Elsa Lepoivre panhia mais antiga do mundo em é o teatro — pelo menos para quem estivesse pronto desde o primeiro nam como alívio cómico num in-
actividade, uma casa de actores de o entende como processo de criação dia, e desfrutaram do poder de in- ferno de mortes e maus-tratos:
enorme responsabilidade e enorme colectiva em tempo real, aberto ao fluenciar.” “Acho que já é um traço de persona-
reputação”, podia ter sido um peso, diálogo e à invenção até ao último lidade. Não sei se meu, se das mi-
podia ter descambado numa em- minuto antes da estreia. Do sofrimento nhas peças, se do que desejo para o
preitada “sob pressão, angustiada e “Não é habitual, embora não seja ao consolo meu quotidiano. Reclamo essa ca-
nervosa”, mas tudo isso se revelou completamente novo para eles, tra- Hécuba, não Hécuba beneficiou as- pacidade de rir das coisas, até da
“completamente secundário com- balhar um texto que está ainda em sim do enorme talento desse ensem- tragédia.”
parado com o prazer jovial de fazer construção. Talvez a minha maneira ble de sete intérpretes que por sua Mas o humor desta Hécuba, não

“O teatro está aqui teatro em conjunto”, garante o di-


rector do Festival de Avignon.
de o fazer acrescente um bocadinho
de adrenalina, no sentido em que
vez se desmultiplicaram, como bo-
necas russas, em sucessivas perso-
Hécuba é também reflexo da obser-
vação directa que fez enquanto di-

para dialogar com as Em Paris, onde decorreram os en-


saios até à estreia e onde Hécuba, não
escrevo até muito tarde e imensas
incógnitas permanecem em aberto
nagens (o procurador que é também
um actor que é também Aga-
rigia Natacha Koutchoumov em
Genebra: “Não quero generalizar,

grandes emoções, Hécuba concluirá em Maio a digres-


são que a levou, depois dos anfitea-
quase até ao fim”, admite o autor
desta peça. “Mas não senti nenhuma
mémnon; o secretário de Estado
que é também um actor que é tam-
mas encontrei pais de crianças au-
tistas profundas que mantêm um

mas também com tros a céu aberto de Avignon e de


Epidauro, na Grécia, a uma série de
resistência ao que propunha. Pelo
contrário, depois de uns primeiros
bém Polimestor; a imigrante ilegal
que é também uma actriz que é tam-
sentido de humor particular, às ve-
zes mesmo desconcertante. Isso era

as banalidades. salas europeias, Tiago Rodrigues en-


controu “intérpretes com uma tre-
sustos, de uns primeiros ‘como é
que eu preparo a minha persona-
bém o corifeu…). Todos foram esco-
lhidos a dedo mas uma era condição
qualquer coisa que eu queria retra-
tar”, explica. “Ao mesmo tempo,

O ir e vir entre o menda disponibilidade para experi-


mentar e uma equipa completa-
gem se não sei como é que ela vai
acabar?’, senti neles genuína vonta-
sine qua non, Elsa Lepoivre. Tiago
Rodrigues tinha o “desejo preciso”
queria lembrar que o teatro está
aqui para dialogar com as grandes

pequeno sorriso mente à escuta das necessidades do


espectáculo”. O rigor técnico que faz
dede aproveitar a oportunidade de
participar numa invenção colectiva
de escrever para ela. “É uma grande
trágica. Choro a vê-la ensaiar e não
ideias e com as grandes emoções,
mas também com as banalidades

e o pranto feroz é que às vezes encapsulam sofrimen-


tos e esperanças. O ir e vir entre o
CHRISTOPHE RAYNAUD DE LAGE

profundamente pequeno sorriso e o pranto feroz é


profundamente humano.”

humano” Vinte e cinco séculos depois de


Eurípides, “o teatro, na sua impo-
tência, pode pelo menos relacionar-
se e relacionar-nos com a nossa
impotência perante as injustiças”,
e eventualmente, como “antecâ-
mara da política” que necessaria-
mente “tem de vir a seguir”, ofere-
cer “consolo, coragem, reparação
até”. Permanecendo o lugar onde é
Os sete actores, diz o possível ladrar, ganir, uivar os males
dramaturgo e encenador do mundo e imaginar que alguma
português, entregaram-se ao coisa vai mudar a seguir. Se é que já
prazer colectivo (e à adrenalina) não mudou entretanto.
de trabalhar um texto que
permaneceu em aberto quase O Ípsilon viajou a convite do Centro
até à estreia Cultural de Belém

12 | ípsilon | Sexta-feira 10 Janeiro 2025


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M
Palavras Antes
A
Palavras
P
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O
cenário é o de uma vernis-
sage. De copo na mão, olha-
res a vaguear pelos recantos
da sala, mais atentos a
quem por ali circula do que
interessados em qualquer
proposta artística, dois velhos ami-
gos esbarram um no outro. Mas não
é um reencontro esperado de dois
homens íntimos, um abraço a cele-
brar a casualidade, os meses ou anos
como se não tivessem passado e ra-
pidamente resumidos e partilhados;
é antes um cumprimento frio, de-
nunciador de desconforto entre as
duas partes. A amizade entre os dois,
logo se percebe, já teve melhores
dias. “Vim ter contigo porque queria
fazer-te uma pergunta… eu queria
saber… o que é que aconteceu?”,
pergunta um ( João Cabral) ao outro
(Marcello Urgeghe).
Aos poucos, na peça curta que a
escritora francesa Nathalie Sarraute
escreveu em 1982, assistiremos a uma
situação que se vai transformando:
primeiro, a negação de um dos ami-
gos de que existe qualquer problema
entre eles, apenas a natural constata-
ção de que quase nunca é ele quem
toma a iniciativa do contacto, porque
não gosta de incomodar; depois, pe-
rante a insistência do outro, a admis-
são de que há uma perturbação na
relação a dois, mas “nada que se
possa dizer, nada de que se possa
realmente falar”; a seguir, a admissão
de que houve um certo episódio, uma
certa entoação que notou na voz do
amigo quando se gabava de algo e
que parecia recriminá-lo de forma
mascarada; por fim, a exposição do
caso perante dois desconhecidos,
para determinar se aquela entoação
se tratará de um mero mal-entendido

A linguagem como vírus


ou de uma razão atendível para dei-
xar uma amizade cair em desgraça.
É assim Por Tudo e por Nada — o
amigo ofendido terá, diz-se, a fama
de “cortar relações por tudo e por
nada” —, a primeira de duas peças
de Sarraute que Carla Bolito resolveu
juntar num mesmo espectáculo que
titulou Tudo a que se Chama Nada,
em cena no Teatro São Luiz, Lisboa,
de amanhã a 26 de Janeiro. E é a con-
do desentendimento
para Carla Bolito
sequência de um desejo que a ence-
nadora sentia de voltar a trabalhar a
palavra e os diálogos na sua forma
mais pura — em Sarraute, tudo anda
à volta da linguagem, desde a trama
aos mecanismos e às questões levan-
tadas. “Já tinha feito o Exercícios
para Joelhos Fortes, do Andreas Flou- Juntando duas peças curtas de Nathalie Sarraute,
rakis, um autor contemporâneo,
mas essa foi uma escolha que tinha a encenadora testa o poder e os equívocos da
mais que ver com o contexto da
troika, porque era uma peça sobre
a intervenção do FMI [Fundo Mone-
Gonçalo palavra em cena a partir de amanhã e até 26 de
Janeiro no Teatro São Luiz, em Lisboa. Em Tudo
tário Internacional] na Grécia”, diz
ao Ípsilon. “Na altura, sentia a pul-
sação e a urgência de fazer algo que
Frota a que se Chama Nada ninguém se entende.
reflectisse também a realidade por
que estávamos a passar.” Algo raro
em si, confessa numa gargalhada,

14 | ípsilon | Sexta-feira 10 Janeiro 2025


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Nas peças de Nathalie Sarraute

PEDRO ROSÁRIO NUNES /EGEAC


porque se diz “sempre da ficção e da a Nathalie Sarraute depois de ser le- referindo-se a “um lado libertador”
negação da realidade”. vada (ainda em criança) pela mãe não há acção, antes e a um outro “muito opressor”.
A vontade de voltar a trabalhar um para Paris, tendo prosseguido estu- “personagens” ocupadas com É uma certa camada de opressão
texto mais ancorado na palavra — de- dos em Inglaterra, Alemanha e problemas levantados pela que Carla Bolito identifica em Aqui
pois das experiências mais pessoais França. Sarraute seria, na verdade, o linguagem Está Ela. Porque a obsessão crescida
que foram A Minha Cabeça e Verme- apelido do seu marido que passaria a neste homem, tomado pela necessi-
lho É a Cor do Meu Luto — levou Bolito adoptar e as letras só entraram em dade de impor a sua perspectiva a
até Sarraute, autora contemporânea força no seu caminho quando foi im- uma mulher que não lhe reconhece
de Sartre e Beckett, com semelhante pedida de exercer a sua profissão de essa autoridade, aponta para uma
interesse pelo existencialismo e pela advogada em 1941, proibida pelas leis “ditadura sobre a opinião”. Perce-
exploração (e desconstrução) da lin- nazis (devido à sua origem judia). bendo a discordância da mulher, ele
guagem. A busca da encenadora Pouco antes tinha, ainda assim, lan- tenta convencê-la da sua insensatez,
fez-se no sentido de poder erguer um çado o seu primeiro livro, Tropismes, tenta lembrá-la que também ele já lhe
espectáculo “em torno da palavra, admirado e elogiado por Sartre. Os deu razão numa outra disputa ante-
não só do poder que a palavra tem tropismos, termo pedido de emprés- rior (e, portanto, acha-se merecedor
naquilo que convoca, naquilo que
evoca, mas também naquilo que
timo à botânica — esclarece Carla Bo-
lito —, são “as alterações que as plan- A vontade de voltar de um gesto recíproco), chega a su-
gerir que sabe “de onde é que lhe vem
pode vir a ser representado no teatro
com a entoação”.
tas sofrem quando as condições do
seu ambiente mudam, gerando mo- a trabalhar um texto isso”, essa divergência, que alguém
lhe terá impingido e ela terá engolido
Ao juntar Por Tudo e por Nada e
Aqui Está Ela, Carla Bolito cose dois
vimentos de atracção e repulsa entre
si”. E é isso que Sarraute aplica na sua mais ancorado sem pensar. “Também quis escolher
esta peça para terminar”, justifica
textos da escassa produção teatral de
Sarraute (mais dedicada ao romance),
escrita para teatro, “nos sucessivos
avanços e recuos dos jogos de lingua- na palavra levou Bolito, “porque tinha a presença de
uma personagem feminina, quase
unidos pela ideia de escavar na lin-
guagem à procura de soluções e por
gem”. Porque é aí que se encontra
sempre o seu foco. Dizia a própria Carla Bolito até cilindrada por esta outra personagem
masculina que não suporta que ela
um certo grau de insólito desconcer-
tante. Se na primeira peça os dois
autora, aliás: “Nas minhas peças, não
há acção, ela foi substituída pelo fluxo Nathalie Sarraute, tenha uma ideia diferente. Ele fica
possuído por não ver da parte dela
homens não se entendem quanto a
uma frase e põem toda uma relação
e pelo refluxo das palavras.”
Esse fluxo e refluxo das palavras contemporânea um comportamento subserviente e
de aceitação da sua ideia.”
em xeque devido às diferentes inter-
pretações daquilo que foi dito, na
observa-se, desde logo, no rastilho
de Por Tudo e por Nada. O desenten- de Sartre e Beckett, Acaba, finalmente, por ser o ho-
mem — já depois de ser abandonado
segunda um homem (Álvaro Correia)
apercebe-se da presença de uma co-
dimento entre os dois amigos es-
barra, às tantas, na necessidade de com semelhante por um duplo silencioso que o acom-
panha durante algumas cenas e cuja
lega de trabalho (Anabela Brígida)
enquanto conversa com um amigo e
nomear aquilo que se passou entre
ambos, na tentativa de peneirar o interesse pelo presença parece servir apenas para
não ceder à absoluta insegurança
convence-se de que essa mulher terá
reagido de forma negativa àquilo que
dicionário até encontrar a palavra
que se ajusta àquilo que foi comuni- existencialismo daquilo que pensa sem validação
exterior — a ficar sozinho em palco,
diziam, discordando e desaprovando
mesmo as opiniões que ambos ex-
cado e interpretado naquela con-
creta entoação que provoca a discór- e pela exploração agarrado de uma forma quase deses-
perada a palavras que parecem cada
pressavam (e que o público ignorará
sempre porque, na verdade, aquilo
que diziam pouco interessa para tudo
dia. Usando a sua predilecção pelo
insólito, Sarraute escreve que o ofen-
dido terá chegado ao ponto de entre-
da linguagem vez mais esvaziadas de sentido,
como se passassem a ser uma mera
sequência aleatória de sons, a cami-
quanto Sarraute pretende pôr em gar um requerimento para pôr fim nho de se desfazerem no chão, sem
cena e em discussão). formal à amizade, mas os vários pe- qualquer poder para se manterem
A ideia de unir as duas peças, ex- didos juntos das entidades compe- no ar e forjarem qualquer comuni-
plica Carla Bolito, feitas em sequência tentes terão sido indeferidos. É nessa cação. A palavra em Sarraute vai
e em separado (sem qualquer cruza- altura que o amigo sugere que deve- “desde a sua construção semântica
mento entre os textos), obedeceu à ria ter usado a palavra “condescen- e morfológica”, descreve a encena-
tentativa de criar uma “progressão dência” para descrever com minúcia dora, “até um ponto em que é já
neste jogo de linguagem”, partindo e rigor aquilo que sentira no malfa- quase apenas fonética e onomato-
de uma primeira peça “num sítio dado episódio que ergueu uma pa- paica — vai até ao osso”. Até, enfim,
mais perto do quotidiano, de dois rede de betão entre os dois. tropeçar nesta impossibilidade, pa-
amigos que se desentendem e que “Há várias palavras que a Sarraute Na segunda das peças tente nos dois textos, de mediar o
pegam nas palavras que cada um diz” tem nas suas peças e que parecem encenada por Carla Bolito, um entendimento entre dois olhares.
usando-as contra o outro, para uma saltar um pouco mais do que as ou- homem não suporta que uma Afinal, a palavra ajuda sempre — nem
segunda que “segue para um lugar tras”, acredita Carla Bolito, “como se mulher discorde da sua opinião que seja a separar e a afastar.
mais abstracto, de uma personagem fosse uma espécie de pista que ela

PEDRO ROSÁRIO NUNES /EGEAC


(embora a Sarraute tenha abolido as nos está a dar.” Condescendência
personagens) que fica obcecada pela poderá ser essa palavra-chave em Por
ideia de que outra pessoa não con- Tudo e por Nada, ao passo que tole-
corda com o que estavam a dizer e rância poderá cumprir o mesmo pa-
não suporta essa diferença”. E essa pel em Aqui Está Ela. Porque é “tole-
diferença, acrescenta a encenadora rância” a palavra arremessada numa
aludindo à actual época de trinchei- folha de papel amarrotada (como
ras e de antagonismo feroz, “é algo a amarrotadas serão as roupas de todo
que também assistimos cada vez mais o elenco em palco) — para sermos
no nosso tempo — sempre existiu, exactos, é a segunda palavra arremes-
mas talvez agora tenhamos mais cons- sada, sendo a primeira “intolerân-
ciência da forma como se manifesta, cia”. Se a linguagem é a ferramenta
particularmente na linguagem”. de comunicação, pode também ser,
por outro lado, um obstáculo para o
Condescendência entendimento. “E tem os dois lados”,
e tolerância diz a encenadora — que gosta de citar
Nascida Natalyia Tcherniak em 1900, William S. Burroughs e a sua “lan-
perto de Moscovo, a escritora passou guage is a virus from outer space” —,

ípsilon | Sexta-feira 10 Janeiro 2025 | 15


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P
rimeiro é a antecipação, o
som dos pulmões a enche-
rem-se de ar. Segundo a se-
guir a esse: uma voz rasgada,
visceral, que irrompe sem
freios — “there’s something
wrong with my…” —, uma torrente de
ruído que a segue, guitarras tempes-
tade, bateria trovão, a voz que con-
tinua, grito que se prolonga e pro-
longa — “there’s something wrong with
booooooneeeees”. A primeira impres-
são está dada. Cinco segundos pas-
saram e é impossível ficarmos indi-
ferentes. Bem-vindos a A Single Wo-
man/ A Single Mother/ An Only Child,
segundo álbum de bbb hairdryer,
mas, possivelmente, o primeiro
disco do resto da vida da banda nas-
cida como veículo criativo, sem fil-
tro, da guitarrista e vocalista Elisa-
bete Guerra.
Afinal, reformulemos, para uns
quantos mais atentos ou bem guiados
por mão amiga, a primeira impressão
já fora dada. Está tudo na página no
Bandcamp de bbb hairdryer. São 18
edições desde Fevereiro de 2018:
canção avulsas registadas com tele-
móvel, takes de voz com som am-
biente das ruas abertas sobre uma
varanda, gravações caseiras roufe-
nhas com guitarra e voz, canções de

No rock no fio
banda em modo lo-fi (um microfone
apenas e nada mais necessário), sin-
gles e EP, versões de Car Seat Hea-
drest e um álbum que reúne todas as
gravações dispersas por diversos re-
gistos (Kingdom Hearts II Final Mix:
Pretty Generic Radio Pop With a Few
Fucks And Edgelord Lyrics).
da navalha de

bbb
Foi através daquele último, editado
em 2022, que começam a atrair os
olhares sobre si. No texto de apresen- riência enquanto mulher trans aí. “Se estás numa aldeia e não te
tação, líamos o seguinte: “bbb (Wrong bones/knife, canção de arran- consegues relacionar verdadeira-
hairdryer é um retrato muito cru e que do novo álbum, mostra-o à pri- mente porque não conheces alguém
transparente, é insensível em toda a meira explosão). Elisabete, que tinha queer perto de ti… É uma comuni-
sua sensibilidade (e vice-versa), é de lidar com neonazis a prometerem- dade que teve de ser criada um bo-
queer, é punk, é subversão do que lhe porrada, a ela e aos amigos, sim- cado à força e à distância. O facto de
deve ou não ser dito à frente de um plesmente por existirem — “tive de irmos lá e de conectarmos essas pes-
microfone. Não é choque pelo shock A Single fugir para Lisboa para ser uma gaja, soas é importante”.
value, é choque porque a vida é Woman/ A por isso, I think you can imagine, era Esta dimensão é determinante,
mesmo assim”. Single difícil, muito difícil” — e que sentia basilar à música e expressão de Eli-
“Primeiro vem alguma coisa que Mother/ An falta de se ver representada nos con- sabete Guerra, mas não se fecha aí.

hairdryer,
eu tenha para dizer, depois vem a Only Child certos que passavam na sua terra, Ouçamo-la e como extravasa a mú-
música”, explica Elisabete. “Só es- bbb hairdryer espera poder agora desempenhar sica que cria enquanto bbb hardryer,
crevo o que tenho de escrever, só Revolve perante outros esse papel. “Eu gos- banda que, além de Francisco Couto,
escrevo se for mesmo uma coisa que tava de ter sido adolescente e ver se completa com Miguel Gomes na
acho que tem de ser dita, que não  uma banda queercore a passar na bateria (conhecemo-lo enquanto

uma vida
seja só mais uma coisa”. Os bbb minha cidade”, diz. Chinaskee, autor do neo-psicade-
hairdryer não são definitivamente, Para o baixista Francisco Couto lismo solar de Malmequeres, álbum
só mais uma coisa. São rock sónico (tal como Elisabete nascido na Bene- de 2017, e da granada sónica pintada
transbordante, punk dissonante, dita, autor de electrónica densa en- a vermelho garrido que é Bochecas,

como ela é
noise rock no fio da navalha, são quanto HIFA, integrante da banda de lançado em 2021), e Chica na guitarra
canções de fúria, angústia, raiva e palco de Maria Reis e de nëss), a (tem percurso a solo, cantautora de
dor, transparentes na forma como “cena fixe” de percorrer o país em dores de crescimento e belas orques-
canalizam e amplificam essas emo- concertos passa precisamente por trações, como registado em Cada
ções — HATE, diz uma, Head on con-
crete, reza outra. São, assim se defi-
nem, criadores de “satanic trans
guitar shit”.
Sendo esta música arrancada à
vida, sem fantasias e sem subterfú-
Mário A Single Woman/ A Single Mother/ An Only Child é rock gritado
e visceral, regado a feedback. No seu centro, a voz intensa de
gios, as canções que Elisabete com-
põe são indissociáveis da sua expe- Lopes Elisabete Guerra, mulher trans, cantora de dor e de raiva.

16 | ípsilon | Sexta-feira 10 Janeiro 2025


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Esta é uma banda que toca rock mesma, de costas para o público — a
com uma intensidade excepção é Chinaskee, o único a tes-
impressionante, mas que temunhar as reacções que a música
duvida da validade do rock no provoca. “Torna-se um bocadinho
ano da Graça de 2025 difícil, às vezes, estar fora da bolha

Mário
queer e ter boy dudes do rock a olha-
rem para uma mulher trans e a não
EYES OF MADNESS queríamos que soasse”, resume Fran- verem uma mulher trans”, lamenta
cisco Couto). A assegurar as misturas, Elisabete. “Prefiro não ver [esse
pormenor importante, esteve Filipe olhar]. Estou na minha, estou com a

Coelho
Sambado. É a ela que se deve a super- banda. De vez em quando há uma
fície incandescente desta música, que abertura, mas somos nós que esco-
distorce e entra em electrocussão nos lhemos quando há abertura. É uma
momentos mais intensos, como se os questão de controlo. Por mais wokes
aparelhos de gravação fossem inca- e da cena mais fora que sejam, é es-
pazes de conter aquela energia. tranho para eles. Por isso é que me
comparam muito com o Kurt Cobain
Em digressão pelo país — eu, que nem sequer faço power
A pontuar esses momentos, como a chords. É o mais próximo que tens
catarse shoegaze endemoninhada de de queerness no rock, mas não deixa
Pulsing meat, o riot grrrl galvanizador de ser um homem com um vestido”.
de P.O.V. — I’m lying to you — “I don’t Francisco recorda então o que lhes
wanna be Phoebe Bridgers anymore” disse Ondness, ou seja, o músico
(”This one is for the trannies with the Bruno Silva. “’Vocês não tocam de
septum rings”, diz um dos versos), costas para o público, tocam de
esse muro de tensão que se ergue, tão frente para os amplificadores’. De
imponente quanto fruto do deses- frente para o feedback”.
pero, que é HATE, entre essas can- Esta é uma banda que toca rock
ções, dizíamos, feitas de baixo pul-
sante, bateria enfurecida e feedback
com uma intensidade impressio-
nante, mas que duvida da validade Quando Eu Morrer, Vou
a corroer todo o espaço sonoro, voz do rock no ano da Graça de 2025. “O
rasgada a guiar tudo o que ouvimos, rock tornou-se uma coisa bastante Fazer Filmes no Inferno!
há espaços em que tudo quebra: so- dispersa, pouco focada e, hoje em
mos devolvidos à intimidade dos mo-
mentos iniciais, quando bbb hairdryer
dia, não significa nada”, diz Fran-
cisco. É uma banda que sente neces-
23-25 JAN M/16
era Elisabete num quarto na Benedita sária mais diversidade e representa-
ou nas Caldas da Rainha a gravar para tividade nos concertos desse mesmo
um telemóvel (assim é Not afraid of rock, “predominantemente mascu-
death e a última canção do álbum, For lino e com uma energia hiper mas-
them to want to fuck me). culinizada”. É uma banda para
Lançado no final de Novembro, A quem, ainda assim, algo vai mu-
Single Mother / A Single Woman / An dando. Citam a importância da Vaia-
Only Child teve na altura concerto de praia, que já nem precisa de se iden-

Joana
Qual no Seu Buraco, de 2022, e é uma apresentação no B.Leza. Nas próxi- tificar como queercore — “é punk
das Rainhas do Baile de Vaiapraia). mas semanas será apresentado nas simplesmente, não é preciso mais”,
“Este álbum não seria assim se as Caldas da Rainha (SILOS, dia 16), Lei- diz Chinaskee — e falam de um re-
músicas não tivessem passado pela ria (Texas Bar, dia 17), Coimbra (Salão gresso das bandas, depois “de uma
lente de todos eles. Ao contrário do Brazil, dia 18), Barreiro (Sala 6, dia altura em que as pessoas, ao come-

Gama &
anterior, é um álbum de banda”, 24), Portalegre (Centro de Artes e Es- çarem a fazer música, se viravam
diz Elisabete. “Mas o propósito foi pectáculos, 7 de Março) e Évora (SHE, para a electrónica”: “isso trouxe uma
sempre esse, chegar a um colectivo 8 de Março). cena refrescante, porque já não são
em que possa partilhar as minhas Nesses concertos, o público verá as mesmas pessoas, porque são mais
coisas. Ser pessoal, mas uma coisa uma banda que se volta sobre si abertas. Há bué girlies a gostar de

Luís
de comunhão”. Chinaskee, que é o Hetta ou de Maquina., que são as
único que consegue pagar as contas bandas rock mais salientes [no cir-
com a música (ou, como afirma, a
trabalhar à volta da música), deixou Os bbb hairdryer não cuito independente português]”, diz
Francisco. “É um tipo de rock e um
de a ver como trabalho. “É partilha,
são definitivamente, tipo de público que atrai algo dife-

Fernandes
um momento de criação colectiva. rente, que é mais aberto e receptivo.
Fazer a música com amigos, chamar
amigos para misturar, masterizar, só mais uma coisa. Esta nova onda é mais libertadora
nesse aspecto”. Quanto a isso, Elisa-
fazer um feat, ir beber copos depois
do ensaio”. São rock sónico bete não tem certezas — “a transmi-
soginia é diferente, não é tão linear”.
Em essência, nada mudou. Elisa-
bete traz as canções, a banda junta-se, transbordante, punk Chica, que se juntava à entrevista
quase no final, culpa de uma con-
a música completa-se. A diferença é
que A Single Mother / A Single Woman dissonante, noise sulta, diz, em modo deadpan, não ter
experiência empírica para compro-
/ An Only Child é resultado do traba-
lho conjunto ao longo dos últimos rock no fio da var a afirmação. “Não sei. Estou de
costas nos concertos. Antes, estou
dois anos. A diferença é que foi gra-
vado num estúdio, no caso o da pro- navalha, são no backstage, depois vou para o
backstage outra vez”.
motora/produtora/editora Materni-
dade (“não é questão de ser mais DIY canções de fúria, Viremo-nos nós de frente para os
bbb hairdryer. Impossível resistir ao
Strata
ou menos DIY, mas conseguimos que
soasse mais próximo daquilo a que angústia, raiva e dor que vemos e ouvimos. O impacto é
imediato, os efeitos duradouros. 31 JAN M/6

culturgest.pt

ípsilon | Sexta-feira 10 Janeiro 2025 | 17


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Cascata, a obra central da


exposição Linha d’Água, é uma
escultura que simula uma mesa
de laboratório científico

A
visita à exposição Linha
d’Água é precedida de uma
conversa com Miguel
Palma. Pela primeira vez, o
artista fala-nos das suas ori-
gens, e de como é impor-
tante para si expor em Sintra. “Vivi
aqui muitos anos, e fui aqui muito
feliz.” Pouco depois conta-nos da sua
vida em casa dos avós, em Cascais, no
tempo em que o pai estava na Guiné
e a mãe o acompanhava. “Eu era o
único rapaz numa família cheia de
raparigas; as minhas irmãs, as minhas
primas, tudo eram raparigas naquela
casa”. Recorda o quarto, com um ter-
raço enorme que era só seu, e o avô,
que tinha construído uma estufa no
jardim onde a vida das plantas era um
espectáculo quotidiano. Hoje, precisa
de ter um jardim perto, e esta foi de-
certo uma das razões que o levaram
a mudar-se para Santarém.
Chegamos depois ao Museu da
Água e de Resíduos, um equipa-
mento essencialmente didáctico
vocacionado para divulgar junto do
público a necessidade de preservar
e cuidar do ambiente hídrico. Foi
para aqui que Miguel Palma foi con- construir nessa altura. Mas essa será grandes dimensões, incluindo escul- rios e dos mares, uma miniatura de obra, podemos salientar duas gran-
vidado a expor pelos dois coordena- uma conversa para outro dia. turas e instalações. No caso que nos um depósito de água e, sobretudo, des constantes: a apropriação de
dores do espaço, Ricardo Pereira e Por agora, o que nos prende a ocupa tem, no seu centro, uma uma colecção de lentes convexas, objectos pré-existentes (de certa
Helena Cardoso. Esta última, que em atenção é mesmo a exposição Linha grande escultura que se desenvolve dispostas verticalmente, que propor- forma, ready-mades que são modifi-
tempos trabalhou com Isabel Carlos d’Água de Miguel Palma. Foi mon- horizontalmente, e que lembra uma cionam visões deformadas de cada cados e transformados no processo
no extinto Instituto de Arte Contem- tada numa sala do museu, que está mesa de laboratório. Em cima, fras- elemento desta peça. de realização da obra) e a assunção
porânea, aproveita a ocasião para instalado num antigo edifício indus- cos de vidro com água, que através O conjunto, que tem o nome de do devir como motor de actualização
manifestar a sua inquietação sobre trial que, entre outras funções, foi de sistemas fechados circula no inte- Cascata, traz sem dúvida alguma a de cada peça. Sistemas que se trans-
o conteúdo e o destino da Colecção uma central eléctrica. O espaço pos- rior de cada recipiente; há também marca autoral de Miguel Palma. Ao formam, aviões que simulam voos
de Arte Contemporânea do Estado sui um pé direito considerável, o que um microscópio, pedras com orifí- longo de mais de duas décadas em no espaço, uma grande estufa feita
que, pelo menos em parte, ajudou a permitirá no futuro expor peças de cios curiosos criados pela erosão dos que temos vindo a acompanhar a sua em tempos (decerto devedora das

18 | ípsilon | Sexta-feira 10 Janeiro 2025


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Os circuitos
aquáticos
de Miguel Palma
O artista regressa à pintura numa nova
individual em Sintra. Foi convidado a expor no
Museu da Água e de Resíduos por Ricardo
Pereira e Helena Cardoso.

Luísa Soares de Oliveira


memórias de infância que nos con-
tou) que funcionava no museu e ou-
na escultura central. “Tem a ver com
a imagem da garrafa com a mensa-
anterior. É um cérebro estéril, mas
não morto; e que, noutra existência, “As lentes permitem )
tros sistemas em permanente trans-
formação formal criam uma ligação
gem no seu interior”, diz-nos Miguel
Palma ao falar-nos sobre esta obra.
comandava também a distribuição
de líquidos. ver melhor, como Linha d’Água
De Miguel
estreita entre o universo da arte, a
Natureza e o ambiente industrial.
De facto, a mensagem dentro da gar-
rafa, lançada ao mar, é um sinal de
Todas as peças que estão incluídas
na construção de Linha d’Água fazem o microscópio antigo Palma
SINTRA. Museu da
São máquinas, mas como as máqui-
nas dadaístas, nada produzem, a não
urgência e perigo que está em plena
consonância com os tempos de crise
parte da colecção particular do ar-
tista — um verdadeiro recolector dos permite observar Água e dos Resíduos.
Rua Carlos de
Oliveira Carvalho, 19.
ser o gozo lúdico do artista que as
cria e do visitante que descortina o
climática que vivemos. “As lentes
permitem ver melhor, como o mi-
desperdícios da nossa sociedade,
que são sempre encarados como o que não vemos De 3ª a domingo, das
10h às 13h e das 14h às
18h. Até 31 de Março.
seu funcionamento.
Em Linha d’Água, como é evidente,
teria de existir uma ligação ao tema
croscópio antigo permite observar o
que não vemos a olho nu”. No fundo,
trata-se de observar, de não fechar
material para a criação artística. A
analogia com o processo de trabalho
de Duchamp, que era engenheiro de
a olho nu”
do museu. E essa ligação está na pre- os olhos para nada do que faz parte formação e que se interessava tam-
sença da água, e no sentido de obser- do ecossistema em que vivemos. E, bém pelas potencialidades semióti- possui uma tonalidade antracite que
vação e de urgência que detectamos embora a obra de Miguel Palma não cas das coisas, é imediata; pensamos lhe interessava.
seja programática, é impossível não sobretudo nos Rotorelevos do artista As peças bidimensionais intitulam-
associar a leitura que dela fazemos francês, discos com imagens, dota- se Meteo-rite, Tripofobia e Passpartout
com os objectivos do museu. dos de um motor, que simulavam um Literário, esta última dotada de mol-
desenho em movimento. Duchamp duras simuladas preenchidas com
Um cérebro estéril apenas pintou no início da sua car- caracteres tipográficos. “Na brinca-
Ainda na escultura, um dos frascos reira, mas foi toda a vida obcecado deira, tornam o trabalho mais poé-
tem, no seu interior, uma placa re- pela pintura. E Miguel Palma, nesta tico. Por uma questão literária de se
pleta de recortes que se assemelham exposição, resolveu regressar à pin- poder ler e inventar uma palavra ou
a relevos com pictogramas. Contudo, tura. “A pintura para mim é um de- outra. Quanto às letras, trouxe-as de
esta interpretação está muito longe safio complicado. É mais difícil “, uma caixa para aprendizagem do in-
da realidade. “Esta peça é, na reali- confessa-nos. E acrescenta que as glês fonético dos anos 60”, conclui.
dade, um cérebro. É este o seu nome pinturas e desenhos que vemos na Na sala, há ainda uma última peça,
na indústria automóvel. Faz a gestão exposição, dispostas em duas pare- uma espécie de colagem de capas
hidráulica da pressão das válvulas e des, são “cheias de truques. Eu co- encadernadas de colecções da re-
dos óleos para a mudança da veloci- mecei a pintar com vassouras e com vista Nature. É talvez a mais clássica
dade dos carros de caixa automática. piaçabas e com jactos d’água das la- de todas, aquela onde a relação com
Daí se chamar cérebro, porque é da- vagens dos automóveis”, o que no a pintura abstracta é mais óbvia. De
qui que vai o comando para a caixa fundo continua a ser uma regulação qualquer modo, é nas peças anterio-
de velocidade”, explica-nos. Aqui ela do fluxo de um líquido — mesmo tra- res, a escultura, as pinturas e os de-
não comanda nada, é estéril, e ape- tando-se agora de tinta. “Tudo o que senhos com molduras tipográficas,
nas faz parte da escultura por causa está aqui são experiências de pressão que a exigência própria deste artista
da carga simbólica, da qualidade es- de água”, acrescenta. E a tinta negra e a sua vontade de sempre se renovar
tética e da memória da sua função dos fundos é tinta de ardósia, que e nos surpreender se nota melhor.

ípsilon | Sexta-feira 10 Janeiro 2025 | 19


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Paulo
Bugalho
Não vamos perceber
o que é isto de ser
humano se não lermos
O cérebro será a “última fronteira” onde se produzem
sonhos num processo que encontra paralelo na
literatura. Paulo Bugalho, neurologista, escritor, entra
nesse território onírico atrás do nosso melhor duplo,
o que produz o belo.

Isabel Lucas
(Texto)
Nuno Ferreira Santos
(Fotografia)

T “Não fiz uma


omemos um sonhador co- que muitas seriam aliadas preciosas
mum, alguém, que durma do acto criativo, histórias nascidas
oito horas por noite. Contas
redondas, quatro dessas oito
num processo não muito diferente
do literário. pesquisa concreta
horas são a sonhar, mesmo
para os que garantem que
Neurologista, grande leitor, ro-
mancista com um romance publi- sobre os sonhos
não sonham. Multipliquemos isso
por 365 noites e temos 1460 horas
cado – A Cabeça de Séneca, Gradiva,
2011 – e vários escritos à espera de dentro da literatura,
de sonho por ano. O autor desta
contabilidade deixa, contudo, uma
um segundo olhar do autor, Paulo
Bugalho escreveu um conjunto de mas é fácil
advertência: “o total de que um bom
sonhador se lembrará num ano será
apenas dezoito horas”, e mesmo
ensaios a que deu o título de O Me-
lhor Duplo. É um livro raro na lite-
ratura portuguesa, onde parte de
encontrá-la“
essas se desvanecem pouco depois uma proposta sedutora: falar do
do acordar. Quantas ideias boas pro- belo no sonho e na literatura. O que
duzidas nessas horas se terão per- pode haver em comum nestas duas
dido?, pergunta o mesmo sonhador experiências? “(...) o sonho é ao
em estado de vigília, convencido de mesmo tempo belo (porque distor-

20 | ípsilon | Sexta-feira 10 Janeiro 2025


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cido) e verdadeiro (porque próximo não podia pôr tudo. À medida que
do que somos). (...) A literatura não fui escrevendo, começou a haver
é isso que pretende: mostrar uma alguma precaução em afastar auto-
qualquer verdade por meio de um res que se aproximavam a querer
contrato estético? Torna-se incom- entrar.
preensível o tédio de uma evidên- Por exemplo?
cia, para que esta se transforme em Coisas do Torga, do Diário. Ele diz
arte? Chegar ao sítio marcado pelo que o seu subconsciente está nos
caminho mais belo, mesmo que seja poemas, e que os seus sonhos são
mais tortuoso? A metáfora é a arma perfeitamente literais e desinteres-
O Melhor maior da literatura, mesmo para os santes, que os sonhos dele são aqui-
Duplo ficcionistas. E talvez seja por isso, lo que escreve. Mas o sonho é uma
Paulo Bugalho por esta comunhão de cernes entre espécie de ficção biológica produ-
Língua Morta conhecimento e invenção, que os zida pelo cérebro sem intenção lite-
sonhos constituem um dispositivo rária e acaba por se servir de metá-
 muito atraente para os trabalhos foras, de imagens sem um significa-
narrativos”, escreve Paulo Bugalho do directo.
naquela que pode ser lida como Chama ao sonho “a metáforas
uma espécie de premissa de um li- das metáforas”.
vro que se concretiza numa deriva Não comecei o livro a pensar desse
brilhante entre ciência e literatura, modo, mas fui percebendo que os
Médico convocando autores como Proust, sonhos são uma ficção, algo que o
neurologista, David Foster Wallace ou Thomas nosso cérebro inventa, provavel-
grande leitor, Mann. O tom é o de uma conversa, mente porque está a funcionar de
autor do cheia de erudição e ironia, um jogo modo diferente daquele em que
romance A onde o leitor entra porque é impos- funciona quando estamos acorda-
Cabeça de sível não ser cúmplice – se não lite- dos, e que podemos considerar
Séneca (ed. rário, pelo menos onírico – e do qual imperfeito. O movimento criativo
Gradiva, 2011) sai com uma percepção indelével também tem essa imperfeição de
sobre os mecanismos que só lhe é base. É necessária alguma distrac-
possível conhecer a partir desse es- ção, não estarmos num foco dema-
tado difícil de definir, o da fronteira siado prático, literal. A experiência
entre vigília e sonho onde se situa o de sonhar acordados contém em si
território literário. a ideia da criatividade.
A ausência de vigília
Que relação existe entre o permanente?
sonho e a literatura? Este livro Exacto. O facto de estarmos muito
quis explorar ou tentar concentrados num assunto de modo
responder a esta pergunta? muito vígil corta os laços mais ou
A ideia era escrever algo que tivesse menos escondidos que a criativida-
a ver com a neurologia e, ao mesmo de forma entre coisas que parecem
tempo, com o contexto literário, cul- muito afastadas, mas com ligações
tural, religioso. Os sonhos como tema escondidas. Elas são o foco da lite-
científico estiveram na minha forma- ratura, aquilo que a literatura é. Se
ção de médico, académica, e achei calhar é também o modo que o cére-
interessante a abordagem científica bro utiliza nos sonhos para nos aju-
de algo que encontramos com fre- dar em vigília.
quência na literatura, nos mitos. Os O livro segue uma cronologia
sonhos têm essa dupla natureza, era científica associada ao estudo
possível falar deles enquanto tema do sonho e vai deixando entrar
científico e literário. referências literárias muito
Deu-lhe a forma de uma deriva, dispersas no estilo, geografia,
de deambulação. Porquê? época. Como chegou a essa
A parte literária é uma divagação, estrutura ensaística?
uma deambulação, aproveitando Isso descreve muito bem o livro.
elementos do conhecimento cientí- Utilizei os dois métodos em parale-
fico que podem gerar metáforas ou lo. Em relação à parte científica,
ideias mais literárias. Enquanto para que se tornasse minimamente
escrevia a parte mais científica, perceptível, há uma ordem crono-
havia coisas de literatura que sur- lógica, mais ou menos contando as
giam, livros de que me lembrava. teorias e contra-teorias que vão sur-
É-lhe natural essa relação gindo. Se lermos A Origem das Espé-
imediata? cies, de Darwin, não vamos achar
Sim, vivo com as duas coisas no dia- muito interessante, tornou-se um
a-dia. Achei interessante escrever lugar-comum, mas quem inventou
sobre literatura à medida que fosse o lugar-comum foi Darwin.
tentando explicar aspectos da neu- Era o “novo”, de que também
robiologia dos sonhos. Não fiz uma fala.
pesquisa concreta sobre os sonhos Sim, mas ao contrário do novo em
dentro da literatura, mas é fácil ciência que progride, a literatura
encontrá-la. O sonho é um mecanis- vive de acontecimentos paralelos.
mo muito utilizado nos romances Quem escreve hoje um romance
para explicar as personagens. Mas não está a melhorar o que 

ípsilon | Sexta-feira 10 Janeiro 2025 | 21


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 escreveram Homero ou Flau- relação com a literatura e sobrevi-


bert; está apenas a fazer uma coisa vem, mas para algumas ela é parte
diferente. Claro que os escritores integrante do viver. A minha vida é
transportam o peso do que está para tanto formada por livros como por
trás, de não repetir os grandes factos reais. A literatura oferece algo
livros, mas podem fugir para os muito útil para pensar a nossa vida,
lados, inventar coisas diferentes. A aquilo que dá um sentido à existên-
literatura antiga... cia, porque o quotidiano é formado
Não foi desmentida. de elementos díspares e o tempo é
Não é algo que seja desmentido, muito veloz. A literatura pára o tem-
porque não está ali propriamente po, reapresenta as coisas de modo
uma verdade. Está aquela verdade a dar-lhes sentido, e é frequente
ou aquela visão sobre o mundo. E a encontrarmos nela coisas que nos
ciência torna-se obsoleta. comovem ou ganham um sentido
No seu caso, os sonhos são próprio e que já encontrámos na
matéria de estudo neurológico. realidade, só que não estávamos
Têm relevância clínica, porque algu- atentos, não estava a ser apresenta-
mas manifestações dos sonhos são do daquele modo. A literatura mos-
um primeiro sintoma de algumas tra a coisa com outro sentido. É essa
doenças neurodegenerativas. a sua relevância, se é que tem de ter;
Um dos capítulos explora a pode ser só um divertimento. Mas o
relação entre beleza e verdade, conhecimento do mundo passa pela
no sonho como na literatura. O literatura. Seria impossível perceber
que há de verdade numa o que é a história da espécie se não
narrativa que acontece no olhássemos para essa característica
nosso estado de não-vigília e tão humana, tão específica. Não
numa narrativa ficcional. Ou vamos perceber o que é isto de ser
seja, do que se fala quando se humano se não lermos, se não tiver-
fala de beleza e de verdade mos uma relação com os livros. Esse
nesta relação? tipo de conhecimento indirecto,
A literatura e o sonho tentam orga- que não é necessariamente lógico
nizar imagens. Podem ser imagens ou literal, existe na literatura e, pen-
belas, ou pelo menos que nos sur- sam os cientistas, é também um
preendam, imagens improváveis ou trabalho dos sonhos: uma forma de
alteradas, organizadas de forma a organizar a nossa memória enquan-
não falar directamente da realidade, to estamos a dormir para que ela
chegando lá por outras vias. Alimen- faça mais sentido.
tam-se da realidade e dão-lhe um Refere que há pessoas que em
sentido que não é concreto ou real, certos momentos têm a
mas útil para a compreensão do capacidade de controlar o
mundo. A literatura fala ao lado das sonho enquanto estão a sonhar.
coisas e não da literalidade. Um Esse controlo assemelha-se ao
escritor não quer replicar a realida- processo criativo em literatura,
de, mas utilizá-la mostrando o seu deixar-se levar sob algum Paulo Bugalho grande ideia enquanto sonhávamos, o que está nos sonhos é o nosso
sentido não apreensível de imedia- controlo? queria e isso desvanece-se, porque nos melhor duplo.
to, no quotidiano, no nosso pensar É um devaneio controlado, uma escrever um vamos afastando desse estado. Como chegou ao tom do livro,
mais vígil. Como o sonho, apresen- espécie de alucinação sobre a qual ensaio e não Durante o sonho a nossa memória com uma linguagem científica
ta essa informação trabalhada de se tem um controlo. O acto da escri- um livro de não está a funcionar correctamente, muito próxima da literária, com
outra maneira, unindo outros sen- ta depende um bocadinho desse divulgação por isso o sonho é tão descontínuo, cada capítulo a funcionar como
tidos ou outros sítios, pegando nou- estado intermédio, entre uma total num tom que fragmentado e não cronológico. Por um ensaio ou por vezes
tras partes, afastadas ou esquecidas atenção que elimina a criatividade fosse não estar a ser fixado correctamente mini-contos, com desfechos
ou que não apareceram tão nítidas e o sono profundo em que estamos perceptível do quando estamos a sonhar, ao acorda- surpreendentes ou bizarros?
e alterando a relação entre as coisas. impossibilitados de movimento, ponto de vista mos grande parte desaparece. Aquilo Eu queria escrever um ensaio e não
Ou seja, alteram a relação entre os mas em que as ideias, o ordenamen- científico, com que ficamos é muito pouco, mas um livro de divulgação num tom que
objectos do quotidiano, da memó- to, a progressão de imagens aconte- mas também por vezes parece muito interessante, fosse perceptível do ponto de vista
ria, misturando-os com a nossa cem. Na literatura, vão surgindo à literário a pessoa que sonhava, esse duplo de científico, mas também literário;
emotividade. medida que se escreve e dependem mim, chegou a uma revelação que reduzi algumas ideias e contei-as
Usou a palavra “útil” em de um certo cansaço, uma certa depois escapa. O sonho é também como uma narrativa. Também houve
relação ao sonho como à sonolência, que não pode ser total, esse território da criatividade, algo a intenção de escrever as pequenas
literatura. No entanto essa mas a vigília total impede a criativi- difícil de alcançar. Diz-se que os artis- histórias dos cientistas e de quem
utilidade vem sendo dade. O escritor está a controlar ou tas dependem das musas, de serem chegou às descobertas. Esse tom foi-
questionada nos dois casos. a utilizar coisas que lhe vão surgin- visitados por uma espécie de ilumi- se formando. Quis ter capítulos que
Para que serve o sonho e para do, está no meio de imagens mais nação. Os sonhos parecem ser essa pudessem ser interessantes para
que serve a literatura? Para ou menos dispersas que vai conse- sequência de iluminações interessan- quem lê e em que algumas ideias cien-
nada, dirão muitos. A sua tese é guindo unir de modo a que tenha tes que perdemos ao acordar. Por tíficas pudessem ser metáforas úteis
outra. um sentido literário, que seja belo. vezes fica-se com a ideia de que o para a literatura, ideias ou imagens
Em relação ao sonho e à literatura, O nosso melhor duplo é o que melhor estava lá, quando dormía- com um valor literário, poético.
há um bocadinho a noção de que sonha, ou o título contém uma mos; as melhores ideias, um entendi- O tom é conversacional, um
são ambos disparates. Acontece-me espécie de desafio, ou mento mais claro, ou pelo menos autor que convoca o leitor e cria
na clínica, doentes dizerem que têm provocação? mais interessante das coisas. Ao acor- uma pretensa relação de
tido sonhos alterados, mas não lhes Contém também um lamento. dar passamos para um estado prag- proximidade, a partir de uma
darem importância. E é verdade que Todos já passámos pela experiência mático, literal, que é a vigília. Nesse mitologia comum aos sonhos e à
há pessoas que não têm nenhuma de acordar a achar que tivemos uma sentido, podemos ter a ideia de que literatura.

22 | ípsilon | Sexta-feira 10 Janeiro 2025


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que sonhou, dependemos de uma uma linguagem à primeira vista literatura lida com dois tipos de
narrativa do sonho. Não temos aces- delirante. É um exemplo de pacto com o leitor: o da
so à acção, mas à história. Os sonhos delírio controlado? verdade e o da ficção que passa
são narrativas, são filmes a que só É um delírio controlado. É difícil por uma espécie de “quero ser
podemos aceder pela linguagem. entender como se atinge aquela dis- bem enganado” ou
Estamos a construir uma história persão e ao mesmo tempo se produz manipulado. Como geriu os
que se calhar difere muito daquilo algo cheio de sentido enquanto obra dois tipos de protocolo?
com que sonhámos. Contar uma de arte, com muitas ideias incisivas Foi difícil mostrar algo objectivo de
coisa altera, e os sonhos ainda mais, sobre coisas como o bem e o mal, forma literária, e o literário tem de
porque a necessidade de dar alguma Deus e uma série de questões eternas ser subjectivo, de partir da expe-
lógica a algo que se apresenta como que a literatura vai sempre repescan- riência de quem escreve e apelar à
ilógico é uma tentação. Quando do. Ele fá-lo reinventando uma lin- de quem lê. Quem lê literatura,
contamos o sonho já estamos a tor- guagem. É essa a magia de Guima- espera ser enganado. É esse pacto
ná-lo mais compreensível, e quando rães Rosa, produzir uma linguagem que se forma, ser seduzido. Em
tentamos interpretar, ainda mais. nova, mas captável. Os sonhos tam- crianças, quando brincamos ao faz
Não sendo uma ficção, há um bém têm essa mistura de coisas ines- de conta, temos interesse no jogo
jogo, o autor apresenta-se peradas. Reconhecemos uma pessoa porque sabemos que não é verda-
quase como uma personagem no sonho, mas a face da pessoa não deiro, que ali está uma representa-
com um papel naquilo que é a que conhecemos. E certos acon- ção de algo que podemos experi-
escreve: é apresentado como “o tecimentos que durante a vigília nos mentar sem as consequências nega-
autor”. deixariam muito angustiados ali são tivas. Isso aplica-se ao sonho. O
É verdade. acompanhados de indiferença. É sonho tem a função de replicar coi-
Para não pôr ali um eu? uma forma do sonho metabolizar sas negativas para que possamos
Sim. experiências negativas, de lhes dar estar preparados para elas, e são
Enquanto isso, vai outra cor, tornando-as confusas ou mais frequentemente negativas do
interrogando a linguagem e a aliviando o peso de coisa má. O que positivas.
própria ideia de literatura em sonho é individual e ao mesmo tem- E não se morre nos sonhos.
mais um paralelismo onde po estranho para o indivíduo que o O sonho é sempre sonhado por
entra a palavra “mistério” sonha. Somos duas pessoas - a ideia aquela pessoa, estamos sempre lá;
sempre que se fala de cérebro. de duplo. Duas existências em comu- se nos retiramos, o sonho termina.
O cérebro como a última fronteira. nicação numa linguagem imperfeita, O sonho não pode existir sem o
É provavelmente o órgão que menos não totalmente compreensível, e por sonhador, é totalmente solipsista. O
conhecemos, e o que melhor nos isso misteriosa. sonho não imagina a morte porque
define. Está mapeado, mas continua Ao falar de ciência e de não tem essa experiência.
por compreender. Uma coisa é
conhecer os sítios, saber o que se
activa em determinadas situações,

TEATRO MUNICIPAL
outra é compreender o funciona-
mento da consciência, da cabeça

JOAQUIM BENITE — CTA


durante o quotidiano, o modo como
as coisas fluem. A literatura tenta
compreender esse fluxo, mais direc-
tamente nos romancistas do moder-

Os sonhos parecem Há partilha das mesmas imagens, do


mesmo modo de relacionar as coi-
nismo, numa tentativa de apanhar
a fuga de ideias em que vivemos per- DE MARY PARA MARY
ser essa sequência sas, porque quem escreve, escreve
parcialmente baseado nos seus
manentemente, a duplicidade de
estarmos dedicados a uma coisa
18.01 — 19.01.2025
SÁBADO — 21H
DOMINGO — 16H
SALA EXPERIMENTAL

de iluminações sonhos.
Interfere.
prática e, simultaneamente, numa
outra vida interior. Isso é muito difí- Texto PALOMA PEDRERO Direcção MARIA DO CÉU GUERRA

interessantes que Interfere. É provável que o que está


a escrever nesse dia fosse trabalha-
cil de identificar e de definir do pon-
to de vista científico. Nesse aspecto

perdemos ao do durante a noite enquanto sonha-


va. Mesmo acordados, temos
a literatura tem alguma vantagem.
Pode inventar, dizendo a verdade.

acordar. Por vezes momentos em que estamos num A literatura tem a capacidade de dar

TEATRO
estado intermédio, mais alheados, um sentido ao que é disperso,

fica-se com a ideia em que a cabeça funciona de modo


mais semelhante aos sonhos, daí a
enquanto mostra a dispersão. No
fundo, a ficção produz uma realida-

M/14
de que o melhor expressão “sonhar acordado”. Esse
devaneio acordado não é tão dife-
de que é uma réplica inteligível do
caos que é a realidade. Essa é a gran-

estava lá, quando rente do devaneio totalmente des-


controlado, ou controlado de outro
de função do romance, da ficção:
explicar o mundo de modo não lite-

dormíamos modo, dos sonhos, e é natural que


as coisas se misturem.
Nos sonhos como na literatura
ral, de um modo em que a beleza do
mundo permaneça, mas possa ser
transmitida. A ciência é mais come-
ZEMING WU
MÚSICA

utiliza-se a expressão “ler”. zinha e mais lenta e vai somando


Praticamente o único modo de ace- pequenos sucessos. São métodos
25.01.2025
der aos sonhos é ouvindo a história diferentes de tentar decifrar esse
M/6

SÁBADO — 21H SALA EXPERIMENTAL


desse sonho, mesmo que seja cons- mistério.
tituído por imagens, porque o nosso Para falar do delírio inerente CICLO DE MÚSICA DE CÂMARA (Piano)
cérebro é sobretudo um cérebro de ao sonho e ao processo criativo
imagens. Os sonhos replicam a pre- vai buscar o exemplo de Grande Organização
dominância da imagem, mas quan- Sertão: Veredas, de Guimarães
do perguntamos a alguém com o Rosa, onde o escritor inventa

Subvenções
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ctalmada.pt

ípsilon | Sexta-feira 10 Janeiro 2025 | 23


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Mathias

JEAN-MARC ZAORSKI/GAMMA-RAPHO VIA GETTY IMAGES


Enard
Uma parte
do século XX
continua
a correr
como um rio
subterrâneo

O escritor francês,
vencedor do Goncourt em
2015, continua, em
Desertar, a perseguir os
rastos da guerra e a

A
arquitectura da narrativa cedor do Prémio Goncourt em 2015 violência e que, numa zona monta-
esboçar uma história da dos romances do francês
Mathias Enard (n. 1972) pa-
— é o tempo cronometrado (entre as
23h e as 7h) o que suporta estrutural-
nhosa, procura chegar à fronteira do
país; por outro, e em vários planos
Europa e do século rece desenhada a com-
passo, régua e transferidor.
mente a narrativa das muitas histó-
rias de um musicólogo insone.
narrativos, a história de Paul Heude-
ber, um matemático genial da Ale-
passado. Se em Zona (D. Quixote, Em Desertar, o seu mais recente manha de Leste, sobrevivente do
2010) descreve com uma longuís- romance, o autor francês justapõe, Holocausto (preso durante quatro
sima frase de 500 páginas o monó- em capítulos alternados , duas histó- anos no campo de concentração de
logo de alguém que leva numa mala, rias aparentemente sem ligação en- Buchenwald), “comunista fervoroso

José Riço durante uma única viagem de com-


boio em Itália, listas com nomes de
carrascos (e das suas vítimas) da
tre elas: por um lado, a de um sol-
dado sem nome, a quem a guerra fez
“regressar à selvajaria e à solidão da
até à insensatez”, cuja vida adulta
decorreu entre a ascensão do na-
zismo e o colapso do comunismo.

Direitinho guerra na antiga Jugoslávia, no ro-


mance que se seguiu, Bússola — ven-
infância”, que deserta para tentar
fugir à sua memória e à sua própria
Com uma leitura mais superficial,
ou desinteressada, parecem capítu-

24 | ípsilon | Sexta-feira 10 Janeiro 2025


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TheatroCirco

10 janeiro 21h30 → Teatro

Ricardo III
JEAN-MARC ZAORSKI/GAMMA-RAPHO VIA GETTY IMAGES

(uma personagem que surge como tro desta estrutura, posso improvi-
uma espécie de contraponto político sar: provar coisas que podem funcio-
do matemático). “Ela pareceu-me a
narradora perfeita, porque é herdeira
nar, ou não. E, se não, volto à estru-
tura...” William Shakespeare
deste mundo [do século XX], conta a
história dos seus pais, e também, ela
A narrativa do soldado sem nome
tem como cenário uma guerra de Marco Paiva
própria, é historiadora.” Mas depois lugar e tempo indefinidos. O leitor
as coisas alteraram-se e teve de rees- pode, no entanto, e por conhecimen-
truturar a ideia do romance. tos botânicos, ter quase a certeza de
“A guerra na Ucrânia mudou total- que tudo está a acontecer na orla do
Desertar mente o rumo do romance. Entendi Mediterrâneo: uma paisagem agreste
Mathias Enard que o século XX não tinha acabado onde não faltam as figueiras, as
(Trad.: Joana com o início do século XXI. Há uma amendoeiras, os medronheiros, es-
Cabral) parte dele que continua a correr tevas, pistaceiras, entre várias outras
Dom Quixote como um rio subterrâneo, por exem- plantas.
plo, no discurso de Putin: querer Sobre a razão desta indefinição do
 ‘desnazificar’ a Ucrânia, etc. Mas, lugar e do tempo, diz Mathias Enard:
sobretudo, vi que com a guerra na “Primeiro, porque se contrapõe à
Ucrânia a Europa não voltaria a ser história de Paul: por um lado, temos
a mesma. Que a violência da guerra um relato histórico, com datas, no-
Mathias Enard, desde muito mais brutal tinha voltado à Europa mes próprios, dados e personagens
jovem, interessa-se por depois de um quarto de século de históricas; e, por outro, o oposto: não
matemática. Ao longo do paz. Isto modificou totalmente a mi- conhecemos nem os nomes das per-
romance, são múltiplas as nha percepção da História.” sonagens, o tempo e o lugar esca-
referências a conceitos A ideia do livro apareceu-lhe num pam-nos, só vemos com os sentidos: M/16 12€ (6€ cartão Quadrilátero)
matemáticos, quase sempre sonho que teve num castelo alemão: cheiros, formas, plantas... É a única
com um peso de ironia “O romance nasce do personagem coisa que chegamos a saber — uma
Paul Heudeber e do meu encontro, história humana da violência.”
no Castelo de Ettersburg, com o fan- Já a história do matemático tem
los de dois livros singulares — dife- tasma de [Friedrich] Schiller [drama- por base o dia 11 de Setembro de 11 janeiro 21h30 → Música → Contraponto
rentes estilos: um, poético e telúrico, turgo e poeta, 1759-1805] saindo do 2001: num barco com o nome Beetho-
trabalhado com frases entrecortadas
como versos; o outro com uma es-
campo de concentração de Bu-
chenwald, este terrível encontro, a
ven, que navega no rio Spree, em
Berlim, decorre um “congresso flu- Rzewski e Shostakovich
Jovem Orquestra Portuguesa
crita escorreita e sem ademanes. meio do século XX, entre a criação e tuante” em homenagem a Paul Heu-
Em conversa com o Ípsilon, por a destruição.” derber (que morrera uns anos antes).
email, Mathias Enard justifica: “Para Enard confessa que estrutura todo Estão presentes ilustres matemáticos
mim, as duas histórias são uma. Tra- o romance antes de o começar a es- e também Maya, a mulher de Paul,
ta-se de contaminação, de contágio: crever, como se desenhasse uma então já com mais de 80 anos, e
uma ‘empapa-se’ do efeito da outra. forma de arquitectura: “Sei, mais ou ainda a filha (que 20 anos depois
Para o leitor, não é o mesmo ler um menos, até onde vou. E então, den- narra a história, já com ecos da inva-
capítulo sobre Paul depois de ter são russa). Entretanto, o congresso
lido o anterior, sobre o soldado. Al- é interrompido por causa dos acon-
guma coisa passa de uma história tecimentos em Nova Iorque.
para outra, é uma literatura [que se É sabido que Enard, desde muito
faz] por osmose. Vou entrançando
as duas partes como se faria com o “O romance nasce jovem, se interessa por matemática
(confessou-o em várias entrevistas),
cabelo: são [ambas as histórias] da
mesma matéria-prima.” E acres- do personagem Paul apesar de na universidade ter estu-
dado Árabe e Persa, que agora en-
centa: “Paul Heudeber não é o con-
traponto do soldado. É o seu com- Heudeber e do meu sina. Ao longo do romance, são múl-
tiplas as referências a conceitos
plemento. Ambos perfazem uma
unidade.” Mathias Enard confia na encontro, no Castelo matemáticos, quase sempre com um
peso de ironia. O livro As Conjecturas
inteligência do leitor.
O autor francês continua, neste de Ettersburg, com o de Ettersberg, Elegias Matemáticas é
a obra-prima da sua personagem,
M/6 12€ (6€ cartão Quadrilátero)

virtuoso Desertar, a perseguir os ras-


tos da guerra, as feridas deixadas por fantasma de Schiller que nele escreve uma demonstração
matemática em verso, inclui poemas
qualquer guerra, directa e indirecta-
mente, e a esboçar uma história da saindo do campo de para a mulher e comentários sobre
a vida no campo de concentração.
Europa e do século XX, como já tinha
feito de maneira brilhante em Zona, concentração de “A matemática é uma linguagem”,
diz Mathias Enard. “Como tal, é uma Promotores Apoio Institucional
acerca da guerra dos Balcãs. Desertar
é um romance sobre a guerra, sobre Buchenwald, este forma literária... Contudo, a litera-
tura é muito mais ampla. Mas é certo
a sobrevivência, mas também sobre
utopias e suas decepções. terrível encontro, a que os dois conjuntos, literatura e
matemática, têm uma intersecção Programa de Artes Performativas Programa do ciclo
Contraponto com o apoio
Apoio à Divulgação

A guerra tudo mudou meio do século XX, muito interessante, com muitas for-
mas de utilizar a matemática na lite-
Mathias Enard conta que o seu pro-
jecto inicial era o de narrar a história entre a criação ratura, mas também a literatura
dentro da matemática. Que Paul seja
do século XX pela boca de uma histo-
riadora, Irina, filha de Paul e de Maya e a destruição” um matemático literato, permite-me
aproximá-lo mais de mim...”

www.theatrocirco.com

ípsilon | Sexta-feira 10 Janeiro 2025 | 25


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DR

isolada e irrepetível. Poeta do seu directo do seu próprio leito, J Dilla um músico regenerado, finalmente

Livros fd?????
tempo, ele será porventura de
tempos vários, no mais
entranhado da sua escrita. Não há
e David Bowie.
Aí está uma etapa que o modelo
Kübler-Ross não prevê: negação,
livre para o exercício estético.
Assim se ergue a primeira metade
do álbum, pela força da
ar do tempo, mormente deste raiva, negociação, depressão e sonoplastia, que em nada
nosso, nos poemas do autor, mas aceitação não cobrem o luto feito desautoriza o jeitinho lo-fi. Por
uma espécie de “denominador em praça pública. E não só por exemplo: são faixas consecutivas
incomum”, que desperta a motivar um tipo especial de Breaths, um ensaio de recitação
Poesia actividade do verso e a recorrência poética, difícil de avaliar quase solene, e Swallowed alive,
sortílega das palavras. Uma criticamente, mas porque ao uma rápida vergastada de black
A ronda não inscrição como “A trepidação,
longínqua/ É mais um condomínio
potencial de catarse vem atrelada
a pena: uma piedade que é
metal (com tudo aquilo a que se
tem direito, incluindo os gritos
acaba nunca mongol, ninguém se assuste.” também voyeurismo e rótulo de flageladores), tudo isto a passar-nos
(p.19) parece assentar em alicerces coitadinho, um daqueles que pelos ouvidos em glória.
Uma poesia da viagem, potencialmente alternativos. deixam sempre resíduo, por muito Entre isso e a submissão
Uma revisitação da História que se descolem e se arranhem. temática aos elementos naturais,
através da geografia e de Não há ar do tempo nos poemas chinesa (hegemonia mongol), um Ainda assim, Elverum parece ter será Night Palace apenas uma
manifestações humanas a de Gil de Carvalho retrato contemporâneo? Pouco feito as pazes com isso: admite que “fritalhada” mística? Não. O
um tempo enigmáticas e importa, se esta poesia faz reviver há um antes e um depois dessa universo de Mount Eerie sempre
límpidas. Hugo Pinto Santos de modo tão firmemente intenso e morte, da qual Crow e o sucessor esteve à vista: montanhoso e
recuperássemos a distinção de sóbrio ditos e presenças que se Now Only (2018) eram as crónicas. ventoso, ora doce, ora inóspito,
8 Benedetto Croce, que distinguia a erguem como fragmentos de Em 2020, reactivou a chancela dos para que ninguém ficasse
literatura, enquanto índice gestos e conversas capazes de Microphones para um disco ainda mal-habituado. (Verdade seja dita:
Gil de Carvalho
Alambique civilizacional e de urbanidade, e interrogar as eras e questionar os autobiográfico, mas muito menos a primeira parte do álbum não é
poesia, núcleo da linguagem limites da geografia. claustrofóbico, deixando entrar a tão fácil de fixar, mas vale a pena
) enquanto ser original. luz ao imaginar pontos de fuga. repeti-la, até que todas as cores se
Não é preciso buscar uma Night Palace, de regresso ao revelem.) Mas de Myths come true
Das duas vezes identificação assaz taxativa, ainda nome Mount Eerie, é a travessia de em diante estamos noutro plano
que reuniu os
seus poemas em
livro, Gil de
que esta poesia, aqui e ali, por
acaso fortuito, afirme algo
semelhante, talvez agora
Música Elverum por todos esses
caminhos, antes só idealizados.
Um álbum duplo de estradas
de existência: as guitarras cada
vez mais musculosas, a voz mais
transparente, tudo mais imediato
Carvalho abusivamente escolhido como imprevisíveis e curvas drásticas, e tangível.
intitulou essas exemplo: “A língua em certas trajectória que evoca a obra-prima November rain é o momento
recolhas horas, é uma força/ Misteriosa da dos Microphones: The Glow, Pt. 2 realmente “orelhudo” do álbum:
Tarantela e folhagem, escura, ponteaguda.” (2001), diário de bordo de um música de viagem, em traço
Viagens (Fenda, (p.18) A grafia alternativa é Outono fantasiado, do rock descontínuo, as cordas acústicas e
1998) e Viagens 1978-2008 (Assírio deliberada, como, em quase todos Rock analógico à folk nua. Mas as pastorais a darem lugar às
& Alvim, 2008). Indicações os momentos da sua poesia, é a incursões de Elverum em 2024 são eléctricas, totalmente distorcidas.
importantes. Sem que a sua poesia
se resuma, ou reduza, à
pontuação uma instância
respiratória e significadora, nunca A canção mais profundas, acidentadas, até
chocantes. Nada estraga as
É também o manifesto de um
morador rodeado de
deslocação no espaço, assim se
afirma, inegável e
uma aplicação da norma. São
extremamente raros os momentos
a renascer para surpresas, nem as camadas de
feedback que dão arranque ao
casas-fantasmas: “Todos estes
proprietários ausentes perdem/ O
simbolicamente, que a viagem é assim, em que a poesia de Gil de Mount Eerie disco, na meditação ruidosa da grande abraço, o beijo premente
cerne desta poesia. Contudo, esse Carvalho reflecte sobre o faixa-título. desta chuva específica de
pressuposto, aliado ao território acontecer da linguagem e da Phil Elverum, o fundador dos “Apenas respiração, muito Novembro na longa escuridão”.
mais amplamente visitado pelos poesia; geralmente, os seus versos raramente canção”, diz em Huge A noção de propriedade privada é
versos do autor, poderia levar a constituem uma notação atenta Microphones, já não tem fire, a melodia ainda um rizóide, sujeita ao escrutínio do tribunal da
não poucos equívocos. aos cenários e às pessoas mais réquias para cantar. perante um tronco cada vez mais natureza; canta-se a urgência de
Viu-o quem bem o entendeu e entrevistas, sem passagem para o Night Palace é imprevisível, alto de percussão e guitarras. É um descolonizar os EUA; pesa-se o
estudou, o poeta e ensaísta Duarte plano da metalinguagem. (Mais impressionista, vital. Pedro novo ponto de transição em Mount acto de cantar, se é que significa
Drumond Braga, que informa: “A uma razão para citar este Eerie: de um ser humano ocupado algo, quando o mundo insiste em
Ásia deste poeta não coincide, a momento singular.)
João Santos com a expressão crua da dor, para brindar-nos com massacres e
não ser com a China, com os A desarticulação na sintaxe Night Palace INDIGO FREE
territórios típicos do Oriente destes versos é factor de
Mount Eerie
português.” Razão pela qual, desorientação, mas é também um Edição de autor
segundo este autor, está aqui instrumento de individualidade. A
ausente a ideia de “orientalismo palavra não se reencontra, nesta )
(no sentido que lhe deu Edward poesia, pela estesia, ou a
Said em 1978)”, uma vez que “não impressão marcante da Até 2017, Phil
há Oriente (…), esse mecanismo sonoridade. É pela disrupção Elverum era um
de recondução do alheio ao rigorosamente discreta do seu dos músicos mais
próprio, essa necessidade de dizer que ela surge, na produtivos do
encaixar a Ásia num olhar desagregação que, sem se indie rock;
europeu” (Hoje Macau, 2020). anunciar, estes versos depois,
A viagem não é, portanto, pormenorizam, a desfazer o uno e tornou-se um ilustre viúvo. Foi o
mecanismo ilustrativo, alusão ou o óbvio, o habitual, que deu lançar A Crow Looked at
reconhecimento. Depende de um fragmentando-o em vestígios Me, álbum alérgico a eufemismos,
olhar observador, um espírito infindos, como sedimentos à beira sobre a morte da parceira criativa
irrequieto que visa cruzar lugares, de qualquer rio. O registo “As e romântica Geneviève Castrée. “A
fixá-los. Apenas por um instante tribos perdidas/ Estão que morte é real/ Alguém está lá e, de
(“A raiz de tudo é o instante”, p.8): voltam.” (p.9), no seu dizer repente, já não/ E não serve para
“À porta de tua casa brilha por arcaico, associa-se ao tenaz cantar/ Não é algo para se tornar
vezes uma pequena folha de latão/ nomadismo de gentes e coisas em arte” (tradução livre), declarou
Conheço o peso da neve, o hostal, captadas nos versos de Gil de nesse disco, designado magnum
a língua dos acompanhantes/ Que Carvalho. A escrita do poeta opus de uma obra em construção
no velho relógio da estação se dão sempre se converteu num modo desde 2003. Esse verso espreme a
tempo. Demais./ Romãzeiras que airado e andarilho, sem peso, nem medula do osso: é ridículo, talvez
são. Em certos reguengos del Rey obviedade, nas suas observações até pouco nobre, esperar que a
e da Reina/ É a fuga./ — São de um mundo eleito pelo que nele música possa atenuar (ou mesmo
idiomas.” (p.10). haja de singular, por estranheza plasmar) o sofrimento
Podia, assim, arriscar-se que, ou encanto. incomensurável da morte. Mas era
menos que uma literatura de Talvez por isso tanto seja de essa a ferramenta ao alcance de
viagens, é de uma poesia de notar a falta de “filiação” na poesia Elverum, como foi para Sufjan Há estradas imprevisíveis e curvas drásticas em Night Palace
viagens que nos aproximamos, se de Gil de Carvalho e a sua estrela Stevens e Ariana Grande, ou, em
26 | ípsilon | Sexta-feira 10 Janeiro 2025
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OLIVER MATICH
legislação misógina. Mais político, lonely e na The doctor movida a andróides. Essa genealogia está
não menos pessoal, este é um sintetizador, assalta-nos ao longo inteirinha em Mars Express,
disco de quem resistiu à letargia: de Human Fear uma estranha primeira longa-metragem do
até em The gleam, Pt. 3, sobre sensação. Com os altos e baixos, animador francês Jérémie Périn
demência, Elverum consegue com um par de novidades e todas (esta semana em sala antes de
modelar em som as pesadas as marcas Franz Ferdinand, que chegar à plataforma TVCine no
malhas da névoa mental — e nos legará este disco para a início de Fevereiro), que invoca a
imagina como atravessá-las. história dos Franz Ferdinand? estrutura de film noir daquela
O título de Night Palace vem de Guardaremos algo dele quando adaptação livre de Philip K. Dick
um poema citado na capa de A vinte anos passarem, vinte mais para construir um mundo
Crow Looked at Me, em que Joanne desde estes vinte já passados do futurista onde a humanidade se
Kyger descreve a morte como o momento em que Darts of pleasure espalhou para colónias
despertar de um sonho: ser apresentou a banda escocesa ao extraterrestres e a omnipresença
“pós-humano, num passado que mundo? dos robôs e da inteligência
continua a acontecer, além de ti”. artificial levanta importantes
O luto continua, desta vez com a questões sociopolíticas.
cabeça no ar puro, e os pés Mars Express é derivativo, e não
descalços no pântano gelado. Phil
Elverum permitiu-se ficar aqui:
não no passado, mas no futuro,
Cinema é pouco — a sua narrativa herdada
do policial negro clássico (uma
detective que dá por si envolvida
para ver a canção renascer. num caso bem mais sensível do
que parece) vai também buscar
referências, por exemplo, ao Eu,
Robot tal como visto por Alex
São os novos Estreiam Proyas e a toda a geração de
Franz escritores ciber-punk

Ferdinand, Eles, os robôs influenciados pelo Neuromante de


William Gibson. Mas na verdade
essa derivação é parte do seu
serão os Franz A primeira longa do charme, usando os arquétipos do
animador francês Jérémie
Ferdinand Périn é um inteligente
género como porta de entrada
para o seu universo. A concepção
de sempre? policial ciber-punk à sombra gráfica a cabo de Mikael Robert, a
meio caminho entre leves toques
de William Gibson e Blade de anime e a tradição da BD
Human Fear, o sexto álbum Runner, ambientado num franco-belga, é extremamente
de estúdio da banda fascinante universo gráfico. conseguida, deixando no
escocesa, revela um par de Jorge Mourinha espectador a sensação de estar a
surpresas e mostra uma Os Franz Ferdinand tocam no dia 14 de Fevereiro na Aula Magna visitar um universo perfeitamente
Mars Express concebido em todos os detalhes e
linguagem aprimorada, com uma textura vivida, cujos
inconfundível. Fica, porém, a De Jérémie Périn
matéria dançável sob uma É interessante testemunhar a recantos ficamos com vontade de
Em sala
sensação de algo em falta. glamorosa bola de espelhos e a procura de novos sons, é louvável explorar. E o argumento não tem
Mário Lopes filiação numa longa e mui nobre que, duas décadas depois, os ) problemas em trocar as voltas às
tradição britânica de eterno apreço Franz Ferdinand mantenham tão expectativas, sobretudo num final
Human Fear pelo formato canção e pela vincada uma marca autoral que os Ridley Scott tem muito por que cuja reflexão sobre a consciência é
melodia do refrão. O disco que vêm torna inconfundíveis. Porém, mais responder: independentemente particularmente inteligente e
Franz Ferdinand
Domino; distri. Popstock apresentar dia 14 de Fevereiro à que os momentos em que os astros do que tenha feito depois, o seu inesperada.
Aula Magna, em Lisboa, Human parecem alinhar-se na perfeição, Blade Runner tornou-se na matriz Com todas as suas fraquezas,
) Fear, sexto álbum de estúdio e como na despedida em The birds, criativa de toda uma série de Mars Express é um dos mais
sucessor do já longínquo Always ou aqueles em que a navegação se visões mais ou menos distópicas dignos, e meritórios, herdeiros de
E então, aquilo Ascending, editado há sete anos, faz em ritmo de cruzeiro, como no do futuro da humanidade e da Blade Runner que nos foi dado ver
que era o frémito tem essas marcas bem vincadas. esquecível power pop de Bar coabitação entre humanos e no meio século desde a 
do novo que Audacious, canção de abertura,
irrompia, essa tem o balanço clássico Franz
voz que se Ferdinand, riff e movimento de
juntava ao anca, e tem um refrão que pede
conjunto de vozes que dava tom e cantoria comunitária, qual hino
discurso àquele momento brit pop para estádio entoar em
específico, torna-se, duas décadas coro. Na seguinte,
passadas, uma outra coisa. Curioso Everydaydreamer, há sintetizador a
efeito, efeito há muito conhecido, colorir os passos no escuro da
geração após geração de bandas. pista. Aqui uns traços new wave
Os Franz Ferdinand não podem ser com guitarra a apontar a Wilko
já os de Take me out, Darts of Johnson, ali o piano a comandar as
pleasure ou Do you wanna?, operações com Ray Davies no
rock’n’roll movido a anfetaminas, pensamento e, pelo meio, a
olhar de Kapranos fixo nas mil surpresa da produção electrónica
coisas que o escuro da pista de de Hooked, com arranque a sugerir
dança nos revela sobre a natureza o SexyBack de Justin Timberlake,
humana. De certa forma, os Franz ou essa curiosa fantasmagoria
Ferdinand já nem são bem os Franz chamada Tell me I should stay, que
Ferdinand, tendo em conta que do vai de Tom Waits em circo
quarteto original restam Alex psicadélico a Beach Boys em banda
Kapranos, vocalista, guitarrista e sonora da Família Addams — e
compositor, e o baixista Bob ainda teremos a Black eyelashes
Harris, sendo a banda actualmente que avança para paisagens
um quinteto — Julian Corrie (teclas, inesperadas, as do rebetiko
guitarra), Dino Bardot (guitarra) e (Kapranos a homenagear as
Audrey Tait (bateria) juntaram-se origens), com bouzouki e versos
agora enquanto membros de pleno em grego, como manda a tradição,
direito em palco e em estúdio. Há mas devidamente electrificado,
uma marca que fica, isso é certo, a porque esta é, afinal e ainda, uma Mars Express é exemplar do que se anda a fazer no campo da animação para públicos adultos
ideia de rock’n’roll enquanto banda rock’n’roll.
ípsilon | Sexta-feira 10 Janeiro 2025 | 27
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Robbie Williams dá a voz, Jonno Davies emprestou o corpo, Gracey e os efeitos digitais fizeram o resto O dilema de Bill Furlong, que vende carvão numa aldeia irlandesa

) estreia desse filme. E, para Hollywood, that’s entertainment. um macaco a quem isto acontece, Christopher Nolan, produziu o
além da simples curiosidade, é Deixem-me, por isso, entreter-vos, um macaco que tem a voz A moral filme (com Matt Damon) e
exemplar do que se anda a fazer ou não tivesse Williams dito em e a lata e os maneirismos de interpreta Bill. Foi buscar o belga
no campo da animação para tempos que ser-se vedeta pop é Williams e a tarimba de actor de da história Tim Mielants (com quem
públicos adultos. ser um “performing monkey” — um Davies, e que Gracey se recusa a trabalhou na popular série Peaky
macaquinho treinado para tratar como personagem “virtual” A novela da irlandesa Claire Blinders) para realizar e reuniu
entreter. — o estrelato dos anos da britpop Keegan sobre as um elenco sólido (com destaque
Aí reside o golpe conceptual de de 1990 já é suficientemente para a arrepiante madre
Entreter Better Man: representar Williams, bizarro, visto à distância de um
“lavandarias de Maria superiora de Emily Watson).
Madalena” recebe uma
é vencer literalmente, como um macaco.
Williams dá a voz, Jonno Davies
quarto de século, para um salto
conceptual ainda desfasar mais as adaptação sólida e sensível,
Tudo em Pequenas Coisas como
Estas está no seu sítio,
emprestou o corpo, Gracey e a sua coisas. mas sem sinais particulares. respeitando a tradição do
O mundo precisava de um equipa de animação e efeitos E, de repente, o mundo afinal “realismo social” do cinema
filme biográfico de Robbie digitais fizeram o resto; de uma só precisava de um biopic de Robbie
Jorge Mourinha britânico mas sem carregar
Williams? Vai-se a ver, sim: penada, Better Man desfaz-se das Williams. Better Man recorda-nos Pequenas Coisas como Estas demasiado na dimensão didáctica
comparações com o original que porque é que Robbie Williams foi de denúncia; o que interessa a
ao representar o cantor Small Things Like These
penalizam qualquer biopic (não há uma estrela pop de primeira Walsh, Murphy e Mielants é
inglês como um macaco, De Tim Mielants
actores de carne e osso a fingirem grandeza mesmo que apenas Com Cillian Murphy, Eileen desenhar o quotidiano, traçar
Michael Gracey injecta ser a vedeta, não há parecenças ou durante alguns anos: aqui estava Walsh, Michelle Fairley um retrato do dia-a-dia, ver como
frescura e inteligência numa falta delas que influenciem o alguém que não tinha pretensões a a consciência de algo vem alterar
Em sala
fórmula gasta. Jorge espectador), e introduz uma ser mais do que um “artista de a nossa posição sobre as coisas.
frescura bem-vinda na fórmula. cabaré”, um entertainer para ) Um simples passeio natalício para
Mourinha Porque, sim, fora a “macacada”, o quem entreter é vencer. Uma ver as montras ganha de repente
Better Man filme de Gracey segue à risca a figura simpática, desarmante, Quando a escritora irlandesa um peso completamente
fórmula: puto de classe convivial, um vizinho do lado a Claire Keegan publicou em 2021 a diferente, porque Mielants
De Michael Gracey
Com Robbie Williams, Jonno trabalhadora a quem sai a sorte quem calhou a sorte grande, e que sua novela Pequenas Coisas como rodou em décors reais na própria
Davies, Steve Pemberton grande ao ser escolhido para uma Michael Gracey filma Estas, não fazia ideia que a sua aldeia onde Keegan situou a
boy-band, deslumbre com a fama, precisamente dessa maneira (só adaptação ao cinema viesse a acção e porque Murphy faz passar
Em sala
queda no álcool e nas drogas, que com muitos pelos). E nessa estrear-se num mundo com grande delicadeza e
) abandono do grupo, desejo de simpatia desarmante, nessa polarizado, onde a necessidade inteligência a gravidade do
singrar a solo, vontade de provar eficácia, ganha-se um biopic com de tomar uma decisão imposta dilema enfrentado pela sua
O mundo precisava de um filme que é mais do que uma carinha personalidade, capaz de injectar pela simples sensatez humana e personagem.
biográfico de Robbie Williams? laroca, transformação em estrela graça e diferença numa fórmula moral ganha uma dimensão E, sem que quer a escritora
Não. Queen, Elton John, Bob pop global, sempre transportando imutável. Tal como o seu herói, muito menos “caseirinha”. Mas é quer os autores do filme o tenham
Marley? Tudo perfeitamente as feridas não saradas de uma Better Man é um filme porreiro. Já nessa paisagem pré-autoritária pretendido, eis a pequena
defensável. Amy Winehouse? OK, infância sem pai. Mas, lá está, é não é nada mau. que recebemos o dilema de Bill parábola moral da história a
ainda passa. Mas Robbie Williams Furlong, que vende carvão numa tornar-se subitamente em
não está nessa categoria, e o aldeia irlandesa na década de espelho microscópico do mundo
australiano Michael Gracey (O
Grande Showman) sabe-o. O
As estrelas Jorge
Mourinha
Luís M.
Oliveira
Vasco
Câmara
1980, e que já não pode continuar
a fechar os olhos à “lavandaria de
progressivamente mais
autoritário em que vivemos, onde
próprio Robbie Williams sabe-o: Maria Madalena” local, escolher olhar ou afastar os olhos
se há coisa que o autor de Angels e as instituições para onde eram tem consequências muito
Let Me Entertain You sempre “despachadas” as mães solteiras superiores a uma mera questão
assumiu é que isto da fama é que tinham “desgraçado” a vida e literária. Que isso torna Pequenas
Aqui )  
completamente marado e tem um a família, sobretudo depois de Coisas como Estas bastante mais
prazo de validade bastante curto, Better Man )   uma das jovens ali recolhidas lhe premente do que pareceria é
sobretudo quando se é “cabaré, Chá Preto )   pedir ajuda. Bill sabe por inegável; que isso é independente
mesmo que de primeira classe”. Encontro com Pol Pot —)   experiência própria que, numa das suas forças e fraquezas
Foi sempre isso, aliás, a Glória )  
Irlanda rural ainda muito enquanto obra cinematográfica é
diferenciar Williams dos seus apegada ao catolicismo, ser mãe evidente, sendo um excelente
companheiros das tabelas de A História de Souleymane )   solteira é mal visto; e que ir exemplo do profissionalismo
vendas (britânicas e europeias Mars Express ) — — contra os ditames da Santa inatacável mas anónimo de uma
sobretudo) na passagem de Nosferatu )   Madre Igreja ainda mais; e que ser certa ideia de “qualidade
século: a perfeita compreensão do Parking —)   boa pessoa não facilita britânica” que não desilude mas
mercado pop como terreno de as coisas — e Bill é uma boa também não entusiasma. Claire
Pequenas Coisas como Estas  — —
jogo minado, onde mais valia cair pessoa. Keegan tinha ficado melhor
em graça do que ser engraçado, e Um Quarto na Cidade    O dramaturgo Enda Walsh — servida pelo filme de Colm
a sua disponibilidade para o jogar Tudo o que Imaginamos como Luz    que escreveu Fome para Steve Bairéad A Menina Silenciosa,
em plena consciência de nada Wallace & Gromit - A Vingança das Aves ) —  McQueen — adaptou a novela de mas Pequenas Coisas como Estas
disto ter importância nenhuma. Keegan para o cinema; Cillian não merece por isso
 Mau  Medíocre  Razoável  Bom  Muito Bom  Excelente
Para citar um velho filme de Murphy, o Oppenheimer de ser ignorado.
28 | ípsilon | Sexta-feira 10 Janeiro 2025
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O clube de leitura
do jornal PÚBLICO
e da revista
Quatro Cinco Um.

Quem eram os colonos?


Que relação tinham com
TERÇA-FEIRA, 14 JANEIRO,
22H (19H EM BRASÍLIA)
as populações locais?
Isabel Coutinho e Paulo Werneck Como foi a sua vinda
para Portugal?
conduzem um encontro entre
Bruno Vieira Amaral e os seus leitores.
Em destaque, o livro Hoje Estarás
Comigo no Paraíso. Há 50 anos iniciava-se o maior movimento
migratório do século XX em direcção a Portugal
e o retorno do país às suas pequenas fronteiras.
Participe por Zoom
O PÚBLICO reúne uma série de reportagens
na reunião com
nesta que é a última Estante P do ano.
a ID 821 6606 8914.
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Acção Paralela Meditação na Pastelaria


António Guerreiro Ana Cristina Leonardo
A ministra que veio de Marte Admirável mundo d e
A S
citação vai ser longa, e tratarei por isso de calunioso e não corresponder à verdade, mas ejamos claros: o problema não é o
dividi-la em duas partes, evitando retirar porque a função que exerce consiste em gerir as que Elon Musk escreve no X: o
uma só palavra à eloquência de combate regras do “meio”. Pode fazer tudo para anulá-las problema são os cheques que ele
que reclama uma mobilização total. ou sabotá-las parcialmente. Mas o que daí resulta depois passa quando vai para casa.
Primeira parte: “Esta é a prova provada será sempre uma aparente reconstrução que, Sem cifrões — palavra que foi
de que Eça está hoje vivo e bem, podendo ter outros protagonistas, mantém a perdendo crédito entre nós após a
porventura mais vivo do que muita gente com que lógica do “meio”. Tudo aquilo que a ministra pinta conversão de Portugal ao euro — os pontos
nos cruzamos, sequestrada na espuma dos dias, na com cores muita negras pode ser explicado com de vista de Musk não teriam sequer cotação
maledicência das tribos e das côteries, das trocas conceitos analíticos da sociologia da cultura – por na bolsa de valores da opinião pública. E,
de favores e cumplicidades obscuras, nas exemplo, os conceitos de habitus, de campo sim, até onde a minha vista alcança, nunca
lealdades negociadas, nas lógicas que infelizmente cultural, de capital simbólico, recorrendo como hoje foi tão absolutamente visível que
ainda dominam parte do nosso meio cultural, novamente a Pierre Bourdieu. money makes the world go round, de resto
como é chamado, e com o qual devemos romper O “meio cultural” não existe de outra maneira um facto bastante anterior ao dueto de Liza
de forma decidida e firme”. (em Portugal, em Espanha, em Itália, em todo o Minnelli e Joel Grey em 1972 no Cabaret de
Quem é o autor desta tomada de posição lado, apenas com ligeiras diferenças) e é porque Bob Fosse. Em 1914, o norte-americano de
revolucionária, apelando à sublevação colectiva existe um “meio cultural” que há um ministério da origem alemã, Adolf Philipp, um nome
de um “nós”, um presumível povo em armas? Será Cultura. Ser ao mesmo tempo ministra da Cultura então bem conhecido da Broadway,
um crítico da cultura em fúria? Será um defensor e declarar guerra ao “meio” é uma impossibilidade compôs canção de título idêntico para a
da democracia cultural contra os privilégios das lógica. Há, evidentemente, quem se afaste do comédia musical Two Lots in the Bronx e,
elites? Será uma voz vinda do tempo em que aos “meio”, quem ache que só retirando-se dele pode sem nos desviarmos do tema, recorde-se
que diziam que a cultura é aquilo que exercer bons ofícios culturais. Mas esses de modo que o primeiro volume de O Capital de
incondicionalmente importa defender se opunham nenhum se identificam com algo a que aqui chamo Marx foi publicado ainda antes, em 1867. Há
os que pensam que a cultura é precisamente aquilo “bons ofícios culturais” e, para eles, mais ministra mais de 150 anos que andamos à volta do
do qual temos de nos defender? Será um herdeiro menos ministra, mais “meio” menos “meio”, mesmo.
tardio de uma “teoria crítica” vulgar para a qual a tanto faz. A ministra bem pode argumentar que Parecer actual e irrefutável: os ricos estão
“crítica da cultura” implica o tema da mentira? apenas declara guerra a um “certo” meio. Mas a ganhar! E nem o mais pobre de entre nós
Será um sociólogo que venera o divino Bourdieu e imediatamente o “meio” reconstitui a sua lógica ousará dizer o contrário.
se apoderou do conceito de habitus para lutar porque não há “meio cultural” que não seja um Aquando da crise do subprime, dois
contra um sistema de disposições regulamentadas, campo de batalha, um terreno de luta. brilhantes actores ingleses (infelizmente,
contra as estruturas e condicionamentos É tão impossível ser ministra da Cultura e ambos desaparecidos) explicaram à frente
associados a uma classe? governar contra a lógica do “meio cultural”, como das câmaras como as coisas se passaram.
E agora, a segunda parte da citação, que revela a é impossível eu escrever o que aqui vai escrito John Bird, o banqueiro, é entrevistado por
autoria desta tomada de posição e o lugar subtraindo-me ao mesmo tempo à condição de John Fortune, o jornalista.
estratégico – não a rua, mas uma ilustre casa – de quem, beneficiando do acesso aos media (ou, pelo A propósito da crise, Bird começa por
onde emerge a sublevação: “Como ministra da menos ao medium que é este jornal), está incluído esclarecer que o mundo da alta finança é
Cultura, o meu compromisso é com o Portugal na categorização ministerial de “senhor da constituído pelas pessoas mais argutas e
inteiro, não com grupos que, pelo seu acesso aos cultura”. Não é que isso me satisfaça, e às vezes até sofisticadas do planeta. Em seguida,
media, se julgam senhores da cultura em Portugal. o tento contrariar fazendo “crítica cultural” (uma acrescenta que o outro factor a ter em conta
Quero dizer isto, e de forma muito determinada e disciplina que, de resto, já caducou há muito é aquilo a que se designa tecnicamente
clara, não em Lisboa, ou apenas em Lisboa, mas tempo), mas a única maneira possível – e coerente “sentimento económico”, palpite
também sobretudo aqui, na ilustre Casa de – de fugir às desonras culturais era mudar de vida emocional que rege o mercado da alta
Tormes”. e de lugar. No dia em que a ministra da Cultura, finança. Bird explica com clareza o modo
No essencial, o diagnóstico da ministra da não na “ilustre Casa de Tormes”, mas num outro como se dá o processo.
Cultura e as denúncias que ela faz não são sítio (proponho uma conhecida casa “comum” no Um dia, uma dessas pessoas mais argutas
incorrectos, são mesmo um lugar-comum e os Regueirão dos Anjos, em Lisboa), vier declarar e sofisticadas do planeta acorda e grita,
lugares-comuns são verdades que de tão repetidas que percebeu que a guerra ao “meio cultural” não enquanto arranca os cabelos e pondera
se tornaram inócuas. Tal como não seriam pode ser feita, e resulta numa coisa ridícula, a atirar-se da janela: “Meu Deus! Estamos a
incorrectos o mesmo diagnóstico e a mesma partir do Ministério da Cultura, e que por isso perder tudo!” e, naturalmente sem se dar
denúncia, visando no entanto outros sectores, abandona o cargo para prosseguir a sua guerra conta, repete a pergunta de Lenine: “Que
feitos por quem ela, não nomeando ninguém em por outros meios mais eficazes e mais legítimos, fazer? Que fazer?” A notícia espalha-se e a
particular, vitupera. Este discurso da ministra é eu alisto-me nas suas hostes como soldado e resposta sai pronta: “Vender! Vender!
naïf, sem fundamento e pernicioso não por ser nunca mais serei aqui visto. Vender!” Pouco tempo decorrido, a mesma
arguta e sofisticada pessoa (que não se
atirou da janela) acorda e diz: “Parece que
as coisas afinal estão a correr muito bem.
Livro de recitações Somos ricos outra vez”. E o mercado,
arrebatado pelo novo sentimento, brade
“Estamos na cauda da Europa em literacia. O que fazer? no entanto, não ser dotado da mínima em uníssono: “Comprar! Comprar!
In PÚBLICO, 29/12/2024 competência informática, o que, nosso Comprar!”
tempo, será considerado como uma forma de No caso específico do subprime, a crise
Uma coisa importante a fazer seria começar analfabetismo. É verdade que a literacia resultou de a pacotes de hipotecas
pela crítica ao próprio conceito de “literacia”, testada no inquérito da OCDE, agora incobráveis a casas sem valor os bancos
a toda a lógica que o envolve, e aos efeitos divulgado, diz respeito à compreensão e terem decidido atribuir nomes requintados
que a obsessão pela literacia produz. A “crise interpretação de frases simples e à e atractivos como Veículos Estruturados de
da literacia” foi diagnosticada com grande “competência” para efectuar operações Investimento, ou as entidades financeiras
preocupação nos Estados Unidos, nos anos aritméticas elementares. Mas não faltam responsáveis pelos hedge funds os terem
80 do século passado. Trata-se de uma especialistas nesta matéria que nos dizem rebaptizado de Fundos Estratégicos de Alto
questão de “competência” (outra que é por a escola estar cada vez mais focada Nível ou mesmo Fundos Reforçados de
palavra-fétiche) numa área restrita. Pode-se em literacias específicas que ela produz Crédito Estruturado de Alto Nível, com os
ser muito competente na leitura de Proust e, cidadãos iletrados. termos “estruturado”, “alto” e “reforçado”
a garantirem obviamente a sua
credibilidade. No final, a montanha tinha
FICHA TÉCNICA: DIRECTOR DAVID PONTES EDITOR PEDRO RIOS DESIGN MARK PORTER, SIMON ESTERSON DIRECTORA DE ARTE SÓNIA MATOS DESIGNER CLÁUDIO SILVA E-MAIL [email protected] parido um rato, mas orientados pelo
30 | ípsilon | Sexta-feira 10 Janeiro 2025
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meu amigo rico e dou-lhe conta da situação: Palavras de Uso


“Como ir aí ao banco?! Passe-me ao
funcionário!”. Passei ao funcionário,
falaram os dois e afinal já não era preciso
André Barata
d esconhecido passar no banco. Ultimo os últimos
documentos e toca o telemóvel.
Pergunta-me o amigo qual é o juro do
empréstimo. Como se tratava de um
Medida
O
princípio “too big to fail” os Bancos centrais empréstimo indispensável, nem me tinha lhando para trás, a racionalidade ocidental
e os governos decidiram salvar os interrogado de qual seria o juro. Pergunto foi uma procura de proporção, vontade de
especuladores. E quando John Fortune, o de quanto é o juro e informo o meu amigo. pôr as coisas à mesma escala, sopesá-las,
jornalista, pergunta candidamente se salvar “Mas que juro vem a ser esse?! Passe-me ao encontrar-lhes uma lei de equivalência,
tanta imprevidência não será recompensar funcionário!” Passei ao funcionário, como se assim se trouxesse mais justiça ao
a ganância, Bird nega-o, afirmando que se falaram os dois e poucos minutos eram pensar e ao viver. A própria justiça, como
trata antes de recompensar aquilo a que o passados dá-se o milagre da baixa da taxa retribuição do mal ou distribuição do bem,
então primeiro-ministro trabalhista, de juro. Preparo-me já para sair do banco e concebeu-se com vigilância de medidas. Justiça e
Gordon Brown, havia chamado o “engenho toca de novo o telemóvel. Daí a quanto justificação partilham tanto a etimologia como a
do mercado”. Caso contrário, acrescenta o tempo estaria o empréstimo disponível na administração da medida nas ideias e nas acções. Até
banqueiro, dar-se-ia um novo crash e, como minha conta. Repito a informação que me a violência esteve menos nas dores do que na sua
sempre, não seria ele a sofrer as fora dada: “Como assim uma semana?! falta de justiça. Houvesse justificação e até o
consequências, mas os fundos de pensões. Passe-me ao funcionário!” Falaram mais assassínio era tido como não violento. E, no entanto,
Se a explicação de John Bird a John uma vez e sou informada de que o que tremendo lugar de poder e violência iminente é
Fortune tivesse sido levada a sério — e não empréstimo estaria disponível no dia esse da medida que justifica.
encarada, ingenuamente, como um seguinte de manhã. Nesta história da razão, a cada época alguém ou
momento maior do humor britânico — E agora pergunto eu: como não amar os algo teve de ser medida das coisas, o homem ou
talvez o mundo tivesse metido um travão ao ricos nossos amigos? Ah! E se a vida fosse deus, a Terra ou o Sol, o trabalho ou o capital, os
capitalismo antropofágico e não tivéssemos assim tão simples, passada em agradável algoritmos ou a materialidade das coisas. Do lado de
chegado ao ponto de as fortunas dos 500 coexistência pacífica entre ricos e não ricos! fora da racionalidade, a desmesura expunha aos
mais ricos (segundo a revista Forbes nos perigos do abismo, o canto das sereias exigia amarras
três primeiros lugares estão, por ordem, a Ulisses e a música escapava à ordem como Dioniso
Elon Musk, Jeff Bezos e Larry Ellison)
corresponderem à soma do Produto Sem cifrões — palavra que foi a Apolo em dias de festa. Também nas sombras da
razão, a humidade da vida transbordava as coisas e
Interno Bruto da Alemanha, Japão e
Austrália de 2024. E, provavelmente, se perdendo crédito entre nós após a os corpos que as animam, como em Vollmond (Lua
cheia) da Pina Bausch, a experimentar a forma
lhes acrescentássemos o Sudão do Sul, a
Somália ou até mesmo Moçambique e mais conversão de Portugal ao euro — os líquida da dança. Corpos vivos escorrem a
desmesura.
um ou outro, incluindo o Iémen, as contas
continuariam a bater certas. pontos de vista de Musk não teriam Amarrados nas escoras da ordem, evitamos as
vertigens da queda medindo cada coisa e cada
É inegável que ter dinheiro traz
vantagens. Se Elon Musk não fosse rico, sequer cotação na bolsa de valores palavra. Só que cair é importante como viver. Cair é
participar na suspensão da medida e da desmesura
teria Mário Machado, à boleia do caso do
britânico Tommy Robinson, pedido ajuda
ao dono da Tesla para que intercedesse por
da opinião pública que dá a medida própria das coisas. Para serem, as
coisas não precisam de ser justificadas. Precisam de
ressoar como as palavras querem dizer.
ele junto a Donald Trump e lhe conseguisse Urge cair porque realmente qualquer medida traz
pelo menos uma carta verde, no caso de Se os ricos estão cada vez mais ricos (e o dentro a desmesura, o pequeno que, de outra
não conseguir uma branca? que é isso tem de novo? — como perguntava perspectiva, é infinitamente grande, o grande,
Note-se que está também provado que o Sholom Aleichem), o que parece ter mesmo se infinito, que ainda pode ser infinitamente
dinheiro nem sempre serve propósitos vis. realmente mudado é a valoração das contas pequeno. Na verdade, se não nos tomarmos por
Por exemplo, quando Peter O’Toole e Peter bancárias, num movimento duplo em que medida das coisas do mundo, tudo nele se torna
Finch entram num pub e perante a recusa os ricos abandonam as suas costumadas grande e pequeno ao mesmo tempo. A álgebra do
de lhes ser servido one more for the road reservas em relação ao seu estatuto, infinito chega a ser poética.
sacam de um cheque e compram as bebidas enquanto os não-ricos os invejam e os E olhando às coisas, não é apenas a escala, mas o
por atacado, o uso do vil metal não tem tomam como modelo, nunca como que a cada escala se encontra, no pequeno outra vez
outro desígnio senão o de aumentar a taxa antagonistas (a velhinha luta de classes Ilustração da o grande. Não precisamos de nos libertar das escalas,
de alcoolemia dos próprios. Para mais, a entrada em desuso). Some-se a isto a Lei das mas de as libertar. “Tudo está em tudo”, chegou-nos
história tem final feliz: quando, no dia armadilha da meritocracia, os exemplos Oitavas do de Anaxágoras; “cada pedaço da matéria pode ser
seguinte, passada a bebedeira, se inspiracionais dos influencers, filhos John concebido como um jardim repleto de plantas”, dizia
apercebem do seu novo estatuto de legítimos das redes sociais (as velhinhas Newlands, Leibniz. Um químico inglês, John Newlands,
proprietários de um bar e voltam ao local vanguardas ou elites pela hora da morte), a que inclui imaginou que os elementos químicos dispostos
do crime, o dono do bar saúda-os cereja no topo do bolo: a Inteligência elementos segundo a massa atómica repetiam periodicamente
estimando-lhes juízo e vida longa e Artificial que nos tornará a todos químicos as mesmas propriedades como uma escala musical.
devolve-lhes o cheque que guardara na mentalmente mais preguiçosos (para não dispostos num Chamou-lhe lei das oitavas. Não foi levado muito a
gaveta. Acresce que, de toda a evidência, as ofender ninguém usando a palavra pentagrama sério, mas antecipou a tabela periódica. Tudo ressoa
contas bancárias de O’Toole e Finch — dois estúpidos), e os ventos não podiam correr musical em tudo.
santos bebedores com vidas bem mais mais de feição a Elon Musk, um exemplo DR
felizes do que a de Joseph Roth (confirmar, superlativo de sucesso para milhões e
lendo A Lenda do Santo Bebedor seguido de milhões de pessoas.
O Leviatã, Joseph Roth, trad. e apresentação Bem podemos esbracejar contra a sua
de Álvaro Gonçalves, Sistema Solar, 2018) — ingerência na política, bem podemos — eu
não perfariam o PIB de nenhum Estado, diria que infantilmente — querer discutir os
nem mesmo do mais desvalido. limites da liberdade de expressão, nada
Diga-se ainda que os ricos podem ser disso alterará a verdade nua e crua: ele é o
bastante úteis. Por exemplo, no papel de homem mais rico do mundo. E ser o
fiadores. Conto o episódio com o máximo homem mais rico em sociedades em que o
de realismo. dinheiro comanda a vida, só os ingénuos
Um amigo rico serviu-me de fiador para não perceberão como isso arrasta
um empréstimo bancário indispensável. privilégios de monta.
Chegada ao banco e entregue toda a Mas como dizia o poeta, e os poetas têm
literatura necessária, o funcionário atrás do habitualmente razão: “Ainda não é o fim
balcão diz-me que o fiador terá de vir nem o princípio do mundo calma é apenas
assinar os papéis presencialmente. Ligo ao um pouco tarde”.
ípsilon | Sexta-feira 10 Janeiro 2025 | 31
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UM PAI E UM FILHO:
TEMOS DE TER
UMA CONVERSA
O pai, José Manuel Pureza,
e o filho, Manuel Pureza,
sentam-se à mesa para falar sobre família,
educação, ócio, activismo e todos aqueles
assuntos que geram desconforto.

Semanalmente
às quartas-feiras.

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