A História de Souleymane no Cinema
A História de Souleymane no Cinema
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Sexta-feira | 10 Janeiro 2025 | publico.pt/culturaipsilon
ESTE SUPLEMENTO FAZ PARTE INTEGRANTE DA EDIÇÃO Nº 12.669 DO PÚBLICO, E NÃO PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE
Vemo-lo todos
O filme realizado por Boris Lojkine é um
dos primeiros grandes títulos de 2025
os dias, nada
sabemos dele
Eis A História
de Souleymane
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É como
furar o ecrã
e aceder a uma
verdade que não é
apenas a do cinema.
Esta é A História de Souleymane
Como dar conta dos nossos contemporâneos
agora que o realismo e o humanismo se
ausentaram das televisões e da política?
O cinema que interessa interessa-se. É essa
A História de Souleymane. Quem é ele?
Vemo-lo todos os dias, não sabemos dele.
Vasco Câmara
Q
uem é Souleymane? A pergunta é retórica: ve- Isso tem sido assegurado pelo nosso tempo. É obra do
mo-lo todos os dias na cidade. nosso século. O cinema que (se) interessa tem cuidado
É ele próprio, desde logo, Souleymane San- da dignidade e da existência destas figuras esquivas
garé. Mas é também todos os outros que, como como Souleymane, já que nas televisões e nos noticiá-
ele,se tornaram sombras, sendo as cidades um rios e nos discursos (?) políticos, melhor seria dizer nas
cenário de filme expressionista; se tornaram diatribes partidárias, onde antes se resgatava a realidade
exilados nos não-lugares da sociedade, sendo este o e hoje já nada de realista ou de humano aí se passa, elas
sítio onde abundam os abandonados e os desesperados. são tratadas como uma cifra.
Os que, como Souleymane, imigrantes sem papéis que Há uma família cinematográfica possível, então, para
os legalizem e com uma ordem de expulsão a pairar A História de Souleymane, terceira longa-metragem de
sobre as suas cabeças, entregam encomendas e comida Boris Lojkine. É uma linhagem ou uma companhia que
ao domicílio deslizando nas suas bicicletas. se pode propor. Não é, de todo, exaustiva. É socialmente
transversal. De modo que todos estamos aqui.
Vemo-los todos os dias; Ei-los, os nossos contemporâneos, os que não pac-
não sabemos é nada deles. tuam e os que se dobram, em todo o caso os desapare-
Souleymane é um especialista no desaparecimento, cidos durante o combate: Rosetta, dos irmãos Dardenne
aliás. A bicicleta permite-lhe rapidez de movimentos (1999), filme-anunciador, até porque se abre ao século
pelas ruas de Paris. Esgueira-se, esfuma-se antes que se XXI, percebeu que não fazia sentido contar histórias
lhe ponha a vista em cima e um olhar o imobilize. Já o com a rapariga que corria atrás de um emprego para
telemóvel garante-lhe que permaneça um avatar. sentir que pertencia ao colectivo (Émilie Dequenne), o
A existência de Souleymane é, contudo, bem real. que importava era seguir-lhe os passos, sentir-lhe
a ferocidade, tudo o que resistia a qualquer forma Na organização da produção não havia nada de luxuoso,
de romanesco; O Emprego do Tempo (2001), de Laurent não havia cantina, não havia camiões, estávamos entre
Cantet, cinematograficamente tão elusivo quanto o Vin- nós e íamos comer ao restaurante da esquina. Mesmo
cent interpretado por Aurélien Recoing, figura que, na distribuição, a Pyramide, que [em França] distribuiu
oposta à de Rosetta, até no espectro social em que se os meus dois filmes anteriores [Hope, 2014; Camille,
situava, mas igual a ela na solidão, empregava todo o 2021] e com quem tenho numa relação quase familiar,
seu tempo a dissimular a sua recusa em habitar o mundo é formada por pessoas que se interessam pelos filmes
do trabalho, desaparecendo na sua impostura e nas suas não para fazer dinheiro com eles porque não havia à
mentiras; A Lei do Mercado, de Stéphane Brizé (2015), partida nada a ganhar quando se interessaram pelo pro-
crónica da insidiosa ocupação da mente e da moral de jecto — mas vão fazer dinheiro, porque o filme está a
Thierry (Vincent Lindon) pelas leis do mercado; Geração correr muito bem [risos]. Não deixou por isso de ser
educação, que fugiu do país, Argélia e depois Líbia, onde actor, é o momento também da revelação da sua intimi- Abou Sangaré, 23 anos, o intérprete de
foi preso. O percurso coincide com o da personagem dade e do seu passado biográfico. A história de Sou- Souleymane, está à espera da autorização de
Souleymane Sangaré. O apelido também é comum. Mas leymane, em suma, é a vida de Sangaré. Para essa des- residência em França que lhe permita concretizar
não é coincidência. coberta o espectador não precisa da informação adicio- o emprego por que anseia: mecânico de
Souleymane tem de resistir às armadilhas do inqué- nal sobre a vida do intérprete como a que está contida automóveis numa garagem
rito administrativo, tem de sair dele com o estatuto de neste texto: ser o momento de verdade do filme, a pas-
refugiado. Tem de sobreviver também à teia de depen- sagem da primeira para a segunda parte em A História
dências em que se enreda cada vez mais, como um thril- de Souleymane, isso implica que a oscilação emocional
ler urbano, e que incluem os que lhe cobram a fabrica- que está no seu âmago aflore à superfície e atinja quem
ção da sua falsa identidade, os que se fazem pagar pelo estiver na sala escura.
aluguer a Souleymane, que não está em condições legais “O momento mais forte” — Boris descreve e é mesmo
de trabalhar, da sua identidade, do seu perfil virtual de assim — “é aquele de viragem em que Souleymane é
distribuidor de mercadorias, até das suas selfies. desafiado pela agente do OFPRA: “páre de contar par-
E assim, no meio dos estilhaços do que antes era o voíces, invenções, conte-me a verdade’. Ele hesita: ‘será
factor humano, Souleymane surge como figura em uma armadilha ou uma oportunidade?’. Esse silêncio
perda de materialidade. Vai enfrentar a OFPRA no dia é o momento mais forte. Quando fizemos o casting —
aprazado. Aí toda a construção da mentira vai levá-lo a muitas vezes dizemos que um actor é alguém que fala,
enfrentar uma verdade irrecusável, a sua, vai enfim ma- que tem facilidade em falar, mas não é necessariamente
terializar-se. Aí, o momento de actor de Sangaré, ou o assim — pedi a todos os candidatos que me contassem
momento no filme em que Sangaré se constrói como coisas e depois que improvisassem. E o momento
administração. Até porque enquanto rodávamos essa rodei mais perto de minha casa. Há cenas filmadas a “O que se vai passar a partir de agora será a vontade
cena Sangaré tinha dado entrada com um pedido de pa- menos de 100 metros de onde vivo. O que é muito estra- de Deus. Eu não sabia que isto”, o cinema, “se ia passar
péis na administração francesa. São coisas que ele viveu nho: entre Jaurès, os Grands Boulevards, Barbès, tudo na minha vida e aconteceu. É verdade que o cinema me
e que vive ainda de forma muito íntima”. bairros que conheço bem”. trouxe coisas e me ajudou. Mas adoro o trabalho de me-
Presente e futuro de Boris Lojkine e Abou Singaré, Era Boris. Agora Sangaré, mecânico por gosto e voca- cânico. Não direi por isso que fazer cinema seja uma
diálogos finais. “Estou a escrever uma série que se passa ção numa garagem que está à sua espera em Amiens se prioridade. Se aparecerem projectos como A História de
no Brasil, na Amazónia. Faço os meus filmes sempre uma carte de séjours assim o permitir e desbloquear a Souleymane fá-lo-ei. Mas não andarei em Paris à procura
muito longe. A História de Souleymane é o primeiro que sua actual situação. de castings”.
Um Quarto
na Cidade
Une chambre
en ville
De Jacques
Demy
Com Dominique
Sanda, Danielle
Darrieux,
Richard Berry
Em sala
A década infeliz de
absolutos ou relativos (o primeiro dos anos 60 — até aqui se volta a
grande fracasso foi ainda nos anos uma cidade portuária, Nantes, não
60, o belo Model Shop, o seu filme por acaso a cidade em que o reali-
americano que transplantava para zador cresceu (como também nos
Los Angeles uma espécie de “multi- dizia Rosalie, o ponto de partida
verso Demy”, personagens vindas foram as memórias do pai de Demy,
Jacques Demy
da Lola e da Baía dos Anjos). que foi operário nas estaleiros de
O último sucesso inequívoco terá Nantes).
sido A Princesa com Pele de Burro, Isto foi reconhecido na altura, o
que em 1970 esteve entre os filmes filme teve críticas ditirâmbicas, e
mais vistos em França. O Tocador de choveram nomeações para os Césa-
Flauta, de 1972, e O Acontecimento res. Mas os espectadores mantive-
Mais Importante Desde que o Homem ram-se à margem, e o filme foi um
Chegou à Lua, em 1973, já ficaram flop comercial monumental. O que
aquém das expectativas, e isso ex- era “cinema popular” nos anos 60
plica possivelmente o longo silêncio já não era “cinema popular” nos
Dois Älmes da fase Änal do cineasta francês que nunca de Demy ao longo da década, só anos 80, e isto foi o “caso de Um
quebrado mesmo no fim (em 1979) Quarto na Cidade, ou o caso que Um
tinham chegado ao circuito comercial português. Um com um dos seus filmes mais pecu- Quarto na Cidade serviu para reve-
Quarto na Cidade é um dos píncaros da arte do liares, e hoje em dia mais esqueci-
dos (é o único ausente da retrospec-
lar: estava-se já noutro planeta. Ao
mesmo tempo que o filme de Demy
realizador. Parking é um Älme falhado, mas fascinante. tiva da Medeia Filmes em curso), se afundava nas bilheteiras, uma
Lady Oscar, co-produção franco-ja- daquelas comédias popularu-
ponesa falada em inglês, com argu- chas em que se especializou
mento adaptado de uma “manga”, um ex-ícone da nouvelle
S
egundo todos os relatos, e morreu em 1990, depois de um úl- dourado composto por Os Chapéus paz), mas com muito pouco eco na cos inconformados
como a sua enteada, Rosalie timo filme que não terá feito muito de Chuva de Cherburgo e As Donzelas altura da estreia. Só que o pior ainda escreveram artigos a
Varda, confirmou nestas para lhe levantar o moral: Trois Pla- de Rochefort, sofria com a impossi- estava para vir. opor os dois filmes e a
páginas há poucas sema- ces pour le 26, estreado em 1988, foi bilidade de replicar esse sucesso, de Um pior que se confunde com o lamentar os diferentes
nas, Jacques Demy foi um mais um insucesso crítico-comercial voltar a receber o amor que esses melhor. Um Quarto na Cidade, filme destinos de cada um.
homem bastante entriste- a juntar aos filmes precedentes (que filmes tinham gerado. Os filmes dos de 1982, é uma obra-prima absoluta, Esses artigos deram
cido durante a década de 1980. em Portugal nem chegaram a es- anos 60 — ainda Lola e A Baía dos um dos candidatos a magnum opus origem a uma pe-
Amargurado, mesmo: “pensou vá- trear: Um Quarto na Cidade e Anjos, sobretudo estes dois — são a de Demy, um filme magnífico que quena tempestade
rias vezes deixar o cinema definiti- Parking são, como esse, inéditos no “lenda de Jacques Demy”, a lenda retoma, mas envolvendo-o em ne- na imprensa popu-
vamente”, dizia-nos Rosalie nessa nosso circuito comercial). Outrora do Demy feliz, e fazem-nos esquecer grume, um negrume tão melodra- lar, que hoje se re-
conversa. Não teve tempo para isso, realizador de filmes tão amados e que dos anos 70 em diante o reali- mático como político, o estilo “em- corda até com uma
a despedida foi mais radical porque tão populares, sobretudo esse par zador francês acumulou fracassos, cantado” dos seus grandes êxitos certa nostalgia —
haver convívio feliz entre à idade da televisão, um sinal de que retrato, mas não obliteram a singu-
ANTOINE D
“os intelec tuais” e o o filme sabia bem o que se tinha laridade se conseguirmos passar
“povo”. Nos jornais popula- partido). por cima delas. E o que mais é sin-
res leram-se parangonas gular? O desenho de um universo
como “querem impedir Bel- O ponto mais fraco clandestino e dominado pela morte,
mondo de fazer rir a França”,
vituperou-se a “intelligentsia es-
As canções de Um Quarto na Cidade
não foram compostas por Michel Os filmes dos anos que com o seu Orfeu bissexual traz
à superfície um vislumbre do “ice-
querdista da crítica de cinema”. O
pobre Demy, o mais popular dos
Legrand. O lendário parceiro de
Demy não se reconheceu no pro- 60 — ainda Lola berg” da vida pessoal de Demy, e
parece um sinal dos tempos em que
cineastas vindos da órbita da nou-
velle vague, viu tombar-lhe em
jecto, e pior, não reconheceu o
amigo — “isto não és tu”, disse-lhe, e A Baía dos Anjos, a Sida começava devastar a comu-
nidade artístico/intelectual pari-
cima o anátema do “elitismo”. Al-
guma coisa estava definitivamente
e Demy teve que ir à procura de ou-
tro colaborador musical (que foi sobretudo estes siense (como aconteceria com o
próprio Demy, cinco anos depois).
partida.
Mas não era o filme que estava
Michel Colombier, e não se ficou
perder, porque as composições de dois — são a lenda Ou a profusão de computadores,
televisores, telefones móveis, a in-
partido. Não era um filme para
“fazer rir” como Belmondo, certo,
Colombier estão em perfeita sinto-
nia com o negrume operático pre- do Demy feliz, e trusão tecnológica como parceira
da morte, anúncio de outro tipo de
e sendo “em-cantado” não era para
pôr a audiência a cantar com as
tendido). Se calhar, Demy devia ter
ficado com Colombier, porque o fazem-nos esquecer inferno que estava prestes a chegar.
Parking, por cima dos seus defeitos
personagens. Era o lado negro de
As Donzelas de Rochefort, cheio de
ponto mais fraco do filme seguinte
(ou do “caso” seguinte) são as can- que dos anos 70 em candidamente expostos (é um filme,
digamos, “inocente”), é também
ecos virados do avesso, uma
“ópera operária” onde a frustra-
ções de Legrand, porventura as
mais preguiçosas, desengraçadas, diante o realizador isto — um filme para ver, ou rever,
com a mente limpa da má fama que
ção já tinha muito mais força do
que a esperança, o desamor
pirosas mesmo, de toda a sua car-
reira. Mas o “caso Parking”, que é o acumulou fracassos lhe vem agregada. É um exercício
que costuma ser proveitoso.
Tiago Rodrigues
inscreveu os
nossos males
nas entrelinhas
de uma tragédia
grega
Hécuba, não Hécuba é o primeiro
encontro do dramaturgo e encenador
português com a Comédie-Française,
mediado por Eurípides: uma mãe em
pranto feroz perante a negligência do
Estado, de todos nós.
N
uma pedreira perto de Avig- gado de estabelecer se o seu filho de
non, como em Troia, como 12 anos, Otis, foi ou não violentado
em Genebra, como em por aqueles que dele deviam cuidar.
Gaza, a dor sucede à dor, A que encontra na protagonista da
que sucede à dor, que su- Antiguidade que é suposto interpre-
cede à dor. tar, e nas palavras com 25 séculos
Funesta mensagem esta, que anos que é suposto dizer, o reflexo
Tiago Rodrigues inscreveu nas en- da sua condição, muito pouco dis-
trelinhas (e nas entranhas, porque torcido. A que ao mesmo tempo é e
aqui chora-se, sangra-se e uiva-se) não é Hécuba, sendo que essa é e
de uma tragédia grega com 2500 não é a questão.
anos, a Hécuba de Eurípides: uma O fracasso do Estado, de todos
história geral dos padecimentos da nós, perante “os mais vulneráveis
humanidade, ou pelo menos dos dos vulneráveis”: é sobretudo essa
padecimentos da civilização que a questão, e ainda nem sequer che-
teve o seu berço no mesmo Mediter- gámos a Gaza. A tragédia de Hécuba,
râneo onde agora naufraga e se aliás Nadia, e do seu filho Polidoro,
afoga. Entre a antiga rainha de Troia aliás Otis, decorre no coração da
que vê o mais jovem dos seus filhos Europa “civilizada”, num dos países
assassinado pelo anfitrião a quem o mais ricos do mundo. Apesar de
confiara e a actriz suíça que em 2019 tudo, neste passado-presente fu-
se revoltou contra os maus-tratos nesto ainda ecoa, salvífica, a “little
infligidos ao filho autista numa ins- tenderness” de Otis Redding. E, em-
tituição do Estado, o dramaturgo e balada por ela, a fé no Estado de
encenador português interpôs uma direito. Ou, à falta dela, a catarse
personagem, Nadia. A que chega momentânea que uma assembleia
atrasada aos ensaios de uma peça reunida num teatro pode providen-
de Eurípides por causa das audiên- ciar, na Grécia antiga como na Eu-
cias com um procurador encarre- ropa dos nossos dias, numa pedreira
JEAN-LOUIS FERNANDEZ
JEAN-LOUIS FERNANDEZ
teria escrito uma peça com tantos
volte-faces sem a sua capacidade de
mudar de estado de alma”, disse à
revista Télérama. Confiou à sua pre-
sença tocante, e à inteligência pro-
fundamente subtil que a alimenta,
esta Hécuba que também é Nadia
— a projecção dessa outra actriz
suíça que durante meses observou
“a atravessar um enorme sofri-
mento na sua vida e a encontrar al-
guma espécie de consolo ao traba-
lhar na representação do sofrimento
dos outros”.
Se algum consolo há na tragédia
de Nadia, ele virá de uma canção
gravada em 1966 por Otis Redding,
Try a little tenderness, que a dado
momento há-de embalar a vida das
personagens. Ou do afago da pata
de uma cadela ferida, como aquela
em que a Hécuba dos gregos se viu
transformada pela fúria dos deuses,
e que, fantasmagórica, domina o
Estreada no Festival Avignon de ) Élissa Alloula e Séphora Pondi), destes actores profissionais “muito ao lado de um autor que é actor e cenário de Fernando Ribeiro. De
que Tiago Rodrigues é director, foi tudo o que um encenador podia versáteis e muito rápidos a pensar encenador também. Rapidamente resto, fiel à queda para o wishful
a peça construiu-se em torno da esperar da companhia-pináculo do em conjunto nas mais diversas cons- perceberam que nestas condições thinking que notoriamente o distan-
mesa de uma sala de ensaios em sistema teatral francês — e muito telações” não matou a urgência e a o trabalho de actores constrói muito cia de Eurípides, o dramaturgo in-
Paris: na foto da direita, Gaël mais. Trabalhar com e para “a com- vitalidade sem as quais o teatro não mais o espectáculo do que se o texto jectou no texto apartes que funcio-
Kamilindi e Elsa Lepoivre panhia mais antiga do mundo em é o teatro — pelo menos para quem estivesse pronto desde o primeiro nam como alívio cómico num in-
actividade, uma casa de actores de o entende como processo de criação dia, e desfrutaram do poder de in- ferno de mortes e maus-tratos:
enorme responsabilidade e enorme colectiva em tempo real, aberto ao fluenciar.” “Acho que já é um traço de persona-
reputação”, podia ter sido um peso, diálogo e à invenção até ao último lidade. Não sei se meu, se das mi-
podia ter descambado numa em- minuto antes da estreia. Do sofrimento nhas peças, se do que desejo para o
preitada “sob pressão, angustiada e “Não é habitual, embora não seja ao consolo meu quotidiano. Reclamo essa ca-
nervosa”, mas tudo isso se revelou completamente novo para eles, tra- Hécuba, não Hécuba beneficiou as- pacidade de rir das coisas, até da
“completamente secundário com- balhar um texto que está ainda em sim do enorme talento desse ensem- tragédia.”
parado com o prazer jovial de fazer construção. Talvez a minha maneira ble de sete intérpretes que por sua Mas o humor desta Hécuba, não
Letra a Mais
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O
cenário é o de uma vernis-
sage. De copo na mão, olha-
res a vaguear pelos recantos
da sala, mais atentos a
quem por ali circula do que
interessados em qualquer
proposta artística, dois velhos ami-
gos esbarram um no outro. Mas não
é um reencontro esperado de dois
homens íntimos, um abraço a cele-
brar a casualidade, os meses ou anos
como se não tivessem passado e ra-
pidamente resumidos e partilhados;
é antes um cumprimento frio, de-
nunciador de desconforto entre as
duas partes. A amizade entre os dois,
logo se percebe, já teve melhores
dias. “Vim ter contigo porque queria
fazer-te uma pergunta… eu queria
saber… o que é que aconteceu?”,
pergunta um ( João Cabral) ao outro
(Marcello Urgeghe).
Aos poucos, na peça curta que a
escritora francesa Nathalie Sarraute
escreveu em 1982, assistiremos a uma
situação que se vai transformando:
primeiro, a negação de um dos ami-
gos de que existe qualquer problema
entre eles, apenas a natural constata-
ção de que quase nunca é ele quem
toma a iniciativa do contacto, porque
não gosta de incomodar; depois, pe-
rante a insistência do outro, a admis-
são de que há uma perturbação na
relação a dois, mas “nada que se
possa dizer, nada de que se possa
realmente falar”; a seguir, a admissão
de que houve um certo episódio, uma
certa entoação que notou na voz do
amigo quando se gabava de algo e
que parecia recriminá-lo de forma
mascarada; por fim, a exposição do
caso perante dois desconhecidos,
para determinar se aquela entoação
se tratará de um mero mal-entendido
P
rimeiro é a antecipação, o
som dos pulmões a enche-
rem-se de ar. Segundo a se-
guir a esse: uma voz rasgada,
visceral, que irrompe sem
freios — “there’s something
wrong with my…” —, uma torrente de
ruído que a segue, guitarras tempes-
tade, bateria trovão, a voz que con-
tinua, grito que se prolonga e pro-
longa — “there’s something wrong with
booooooneeeees”. A primeira impres-
são está dada. Cinco segundos pas-
saram e é impossível ficarmos indi-
ferentes. Bem-vindos a A Single Wo-
man/ A Single Mother/ An Only Child,
segundo álbum de bbb hairdryer,
mas, possivelmente, o primeiro
disco do resto da vida da banda nas-
cida como veículo criativo, sem fil-
tro, da guitarrista e vocalista Elisa-
bete Guerra.
Afinal, reformulemos, para uns
quantos mais atentos ou bem guiados
por mão amiga, a primeira impressão
já fora dada. Está tudo na página no
Bandcamp de bbb hairdryer. São 18
edições desde Fevereiro de 2018:
canção avulsas registadas com tele-
móvel, takes de voz com som am-
biente das ruas abertas sobre uma
varanda, gravações caseiras roufe-
nhas com guitarra e voz, canções de
No rock no fio
banda em modo lo-fi (um microfone
apenas e nada mais necessário), sin-
gles e EP, versões de Car Seat Hea-
drest e um álbum que reúne todas as
gravações dispersas por diversos re-
gistos (Kingdom Hearts II Final Mix:
Pretty Generic Radio Pop With a Few
Fucks And Edgelord Lyrics).
da navalha de
bbb
Foi através daquele último, editado
em 2022, que começam a atrair os
olhares sobre si. No texto de apresen- riência enquanto mulher trans aí. “Se estás numa aldeia e não te
tação, líamos o seguinte: “bbb (Wrong bones/knife, canção de arran- consegues relacionar verdadeira-
hairdryer é um retrato muito cru e que do novo álbum, mostra-o à pri- mente porque não conheces alguém
transparente, é insensível em toda a meira explosão). Elisabete, que tinha queer perto de ti… É uma comuni-
sua sensibilidade (e vice-versa), é de lidar com neonazis a prometerem- dade que teve de ser criada um bo-
queer, é punk, é subversão do que lhe porrada, a ela e aos amigos, sim- cado à força e à distância. O facto de
deve ou não ser dito à frente de um plesmente por existirem — “tive de irmos lá e de conectarmos essas pes-
microfone. Não é choque pelo shock A Single fugir para Lisboa para ser uma gaja, soas é importante”.
value, é choque porque a vida é Woman/ A por isso, I think you can imagine, era Esta dimensão é determinante,
mesmo assim”. Single difícil, muito difícil” — e que sentia basilar à música e expressão de Eli-
“Primeiro vem alguma coisa que Mother/ An falta de se ver representada nos con- sabete Guerra, mas não se fecha aí.
hairdryer,
eu tenha para dizer, depois vem a Only Child certos que passavam na sua terra, Ouçamo-la e como extravasa a mú-
música”, explica Elisabete. “Só es- bbb hairdryer espera poder agora desempenhar sica que cria enquanto bbb hardryer,
crevo o que tenho de escrever, só Revolve perante outros esse papel. “Eu gos- banda que, além de Francisco Couto,
escrevo se for mesmo uma coisa que tava de ter sido adolescente e ver se completa com Miguel Gomes na
acho que tem de ser dita, que não uma banda queercore a passar na bateria (conhecemo-lo enquanto
uma vida
seja só mais uma coisa”. Os bbb minha cidade”, diz. Chinaskee, autor do neo-psicade-
hairdryer não são definitivamente, Para o baixista Francisco Couto lismo solar de Malmequeres, álbum
só mais uma coisa. São rock sónico (tal como Elisabete nascido na Bene- de 2017, e da granada sónica pintada
transbordante, punk dissonante, dita, autor de electrónica densa en- a vermelho garrido que é Bochecas,
como ela é
noise rock no fio da navalha, são quanto HIFA, integrante da banda de lançado em 2021), e Chica na guitarra
canções de fúria, angústia, raiva e palco de Maria Reis e de nëss), a (tem percurso a solo, cantautora de
dor, transparentes na forma como “cena fixe” de percorrer o país em dores de crescimento e belas orques-
canalizam e amplificam essas emo- concertos passa precisamente por trações, como registado em Cada
ções — HATE, diz uma, Head on con-
crete, reza outra. São, assim se defi-
nem, criadores de “satanic trans
guitar shit”.
Sendo esta música arrancada à
vida, sem fantasias e sem subterfú-
Mário A Single Woman/ A Single Mother/ An Only Child é rock gritado
e visceral, regado a feedback. No seu centro, a voz intensa de
gios, as canções que Elisabete com-
põe são indissociáveis da sua expe- Lopes Elisabete Guerra, mulher trans, cantora de dor e de raiva.
Esta é uma banda que toca rock mesma, de costas para o público — a
com uma intensidade excepção é Chinaskee, o único a tes-
impressionante, mas que temunhar as reacções que a música
duvida da validade do rock no provoca. “Torna-se um bocadinho
ano da Graça de 2025 difícil, às vezes, estar fora da bolha
Mário
queer e ter boy dudes do rock a olha-
rem para uma mulher trans e a não
EYES OF MADNESS queríamos que soasse”, resume Fran- verem uma mulher trans”, lamenta
cisco Couto). A assegurar as misturas, Elisabete. “Prefiro não ver [esse
pormenor importante, esteve Filipe olhar]. Estou na minha, estou com a
Coelho
Sambado. É a ela que se deve a super- banda. De vez em quando há uma
fície incandescente desta música, que abertura, mas somos nós que esco-
distorce e entra em electrocussão nos lhemos quando há abertura. É uma
momentos mais intensos, como se os questão de controlo. Por mais wokes
aparelhos de gravação fossem inca- e da cena mais fora que sejam, é es-
pazes de conter aquela energia. tranho para eles. Por isso é que me
comparam muito com o Kurt Cobain
Em digressão pelo país — eu, que nem sequer faço power
A pontuar esses momentos, como a chords. É o mais próximo que tens
catarse shoegaze endemoninhada de de queerness no rock, mas não deixa
Pulsing meat, o riot grrrl galvanizador de ser um homem com um vestido”.
de P.O.V. — I’m lying to you — “I don’t Francisco recorda então o que lhes
wanna be Phoebe Bridgers anymore” disse Ondness, ou seja, o músico
(”This one is for the trannies with the Bruno Silva. “’Vocês não tocam de
septum rings”, diz um dos versos), costas para o público, tocam de
esse muro de tensão que se ergue, tão frente para os amplificadores’. De
imponente quanto fruto do deses- frente para o feedback”.
pero, que é HATE, entre essas can- Esta é uma banda que toca rock
ções, dizíamos, feitas de baixo pul-
sante, bateria enfurecida e feedback
com uma intensidade impressio-
nante, mas que duvida da validade Quando Eu Morrer, Vou
a corroer todo o espaço sonoro, voz do rock no ano da Graça de 2025. “O
rasgada a guiar tudo o que ouvimos, rock tornou-se uma coisa bastante Fazer Filmes no Inferno!
há espaços em que tudo quebra: so- dispersa, pouco focada e, hoje em
mos devolvidos à intimidade dos mo-
mentos iniciais, quando bbb hairdryer
dia, não significa nada”, diz Fran-
cisco. É uma banda que sente neces-
23-25 JAN M/16
era Elisabete num quarto na Benedita sária mais diversidade e representa-
ou nas Caldas da Rainha a gravar para tividade nos concertos desse mesmo
um telemóvel (assim é Not afraid of rock, “predominantemente mascu-
death e a última canção do álbum, For lino e com uma energia hiper mas-
them to want to fuck me). culinizada”. É uma banda para
Lançado no final de Novembro, A quem, ainda assim, algo vai mu-
Single Mother / A Single Woman / An dando. Citam a importância da Vaia-
Only Child teve na altura concerto de praia, que já nem precisa de se iden-
Joana
Qual no Seu Buraco, de 2022, e é uma apresentação no B.Leza. Nas próxi- tificar como queercore — “é punk
das Rainhas do Baile de Vaiapraia). mas semanas será apresentado nas simplesmente, não é preciso mais”,
“Este álbum não seria assim se as Caldas da Rainha (SILOS, dia 16), Lei- diz Chinaskee — e falam de um re-
músicas não tivessem passado pela ria (Texas Bar, dia 17), Coimbra (Salão gresso das bandas, depois “de uma
lente de todos eles. Ao contrário do Brazil, dia 18), Barreiro (Sala 6, dia altura em que as pessoas, ao come-
Gama &
anterior, é um álbum de banda”, 24), Portalegre (Centro de Artes e Es- çarem a fazer música, se viravam
diz Elisabete. “Mas o propósito foi pectáculos, 7 de Março) e Évora (SHE, para a electrónica”: “isso trouxe uma
sempre esse, chegar a um colectivo 8 de Março). cena refrescante, porque já não são
em que possa partilhar as minhas Nesses concertos, o público verá as mesmas pessoas, porque são mais
coisas. Ser pessoal, mas uma coisa uma banda que se volta sobre si abertas. Há bué girlies a gostar de
Luís
de comunhão”. Chinaskee, que é o Hetta ou de Maquina., que são as
único que consegue pagar as contas bandas rock mais salientes [no cir-
com a música (ou, como afirma, a
trabalhar à volta da música), deixou Os bbb hairdryer não cuito independente português]”, diz
Francisco. “É um tipo de rock e um
de a ver como trabalho. “É partilha,
são definitivamente, tipo de público que atrai algo dife-
Fernandes
um momento de criação colectiva. rente, que é mais aberto e receptivo.
Fazer a música com amigos, chamar
amigos para misturar, masterizar, só mais uma coisa. Esta nova onda é mais libertadora
nesse aspecto”. Quanto a isso, Elisa-
fazer um feat, ir beber copos depois
do ensaio”. São rock sónico bete não tem certezas — “a transmi-
soginia é diferente, não é tão linear”.
Em essência, nada mudou. Elisa-
bete traz as canções, a banda junta-se, transbordante, punk Chica, que se juntava à entrevista
quase no final, culpa de uma con-
a música completa-se. A diferença é
que A Single Mother / A Single Woman dissonante, noise sulta, diz, em modo deadpan, não ter
experiência empírica para compro-
/ An Only Child é resultado do traba-
lho conjunto ao longo dos últimos rock no fio da var a afirmação. “Não sei. Estou de
costas nos concertos. Antes, estou
dois anos. A diferença é que foi gra-
vado num estúdio, no caso o da pro- navalha, são no backstage, depois vou para o
backstage outra vez”.
motora/produtora/editora Materni-
dade (“não é questão de ser mais DIY canções de fúria, Viremo-nos nós de frente para os
bbb hairdryer. Impossível resistir ao
Strata
ou menos DIY, mas conseguimos que
soasse mais próximo daquilo a que angústia, raiva e dor que vemos e ouvimos. O impacto é
imediato, os efeitos duradouros. 31 JAN M/6
culturgest.pt
A
visita à exposição Linha
d’Água é precedida de uma
conversa com Miguel
Palma. Pela primeira vez, o
artista fala-nos das suas ori-
gens, e de como é impor-
tante para si expor em Sintra. “Vivi
aqui muitos anos, e fui aqui muito
feliz.” Pouco depois conta-nos da sua
vida em casa dos avós, em Cascais, no
tempo em que o pai estava na Guiné
e a mãe o acompanhava. “Eu era o
único rapaz numa família cheia de
raparigas; as minhas irmãs, as minhas
primas, tudo eram raparigas naquela
casa”. Recorda o quarto, com um ter-
raço enorme que era só seu, e o avô,
que tinha construído uma estufa no
jardim onde a vida das plantas era um
espectáculo quotidiano. Hoje, precisa
de ter um jardim perto, e esta foi de-
certo uma das razões que o levaram
a mudar-se para Santarém.
Chegamos depois ao Museu da
Água e de Resíduos, um equipa-
mento essencialmente didáctico
vocacionado para divulgar junto do
público a necessidade de preservar
e cuidar do ambiente hídrico. Foi
para aqui que Miguel Palma foi con- construir nessa altura. Mas essa será grandes dimensões, incluindo escul- rios e dos mares, uma miniatura de obra, podemos salientar duas gran-
vidado a expor pelos dois coordena- uma conversa para outro dia. turas e instalações. No caso que nos um depósito de água e, sobretudo, des constantes: a apropriação de
dores do espaço, Ricardo Pereira e Por agora, o que nos prende a ocupa tem, no seu centro, uma uma colecção de lentes convexas, objectos pré-existentes (de certa
Helena Cardoso. Esta última, que em atenção é mesmo a exposição Linha grande escultura que se desenvolve dispostas verticalmente, que propor- forma, ready-mades que são modifi-
tempos trabalhou com Isabel Carlos d’Água de Miguel Palma. Foi mon- horizontalmente, e que lembra uma cionam visões deformadas de cada cados e transformados no processo
no extinto Instituto de Arte Contem- tada numa sala do museu, que está mesa de laboratório. Em cima, fras- elemento desta peça. de realização da obra) e a assunção
porânea, aproveita a ocasião para instalado num antigo edifício indus- cos de vidro com água, que através O conjunto, que tem o nome de do devir como motor de actualização
manifestar a sua inquietação sobre trial que, entre outras funções, foi de sistemas fechados circula no inte- Cascata, traz sem dúvida alguma a de cada peça. Sistemas que se trans-
o conteúdo e o destino da Colecção uma central eléctrica. O espaço pos- rior de cada recipiente; há também marca autoral de Miguel Palma. Ao formam, aviões que simulam voos
de Arte Contemporânea do Estado sui um pé direito considerável, o que um microscópio, pedras com orifí- longo de mais de duas décadas em no espaço, uma grande estufa feita
que, pelo menos em parte, ajudou a permitirá no futuro expor peças de cios curiosos criados pela erosão dos que temos vindo a acompanhar a sua em tempos (decerto devedora das
Os circuitos
aquáticos
de Miguel Palma
O artista regressa à pintura numa nova
individual em Sintra. Foi convidado a expor no
Museu da Água e de Resíduos por Ricardo
Pereira e Helena Cardoso.
Paulo
Bugalho
Não vamos perceber
o que é isto de ser
humano se não lermos
O cérebro será a “última fronteira” onde se produzem
sonhos num processo que encontra paralelo na
literatura. Paulo Bugalho, neurologista, escritor, entra
nesse território onírico atrás do nosso melhor duplo,
o que produz o belo.
Isabel Lucas
(Texto)
Nuno Ferreira Santos
(Fotografia)
cido) e verdadeiro (porque próximo não podia pôr tudo. À medida que
do que somos). (...) A literatura não fui escrevendo, começou a haver
é isso que pretende: mostrar uma alguma precaução em afastar auto-
qualquer verdade por meio de um res que se aproximavam a querer
contrato estético? Torna-se incom- entrar.
preensível o tédio de uma evidên- Por exemplo?
cia, para que esta se transforme em Coisas do Torga, do Diário. Ele diz
arte? Chegar ao sítio marcado pelo que o seu subconsciente está nos
caminho mais belo, mesmo que seja poemas, e que os seus sonhos são
mais tortuoso? A metáfora é a arma perfeitamente literais e desinteres-
O Melhor maior da literatura, mesmo para os santes, que os sonhos dele são aqui-
Duplo ficcionistas. E talvez seja por isso, lo que escreve. Mas o sonho é uma
Paulo Bugalho por esta comunhão de cernes entre espécie de ficção biológica produ-
Língua Morta conhecimento e invenção, que os zida pelo cérebro sem intenção lite-
sonhos constituem um dispositivo rária e acaba por se servir de metá-
muito atraente para os trabalhos foras, de imagens sem um significa-
narrativos”, escreve Paulo Bugalho do directo.
naquela que pode ser lida como Chama ao sonho “a metáforas
uma espécie de premissa de um li- das metáforas”.
vro que se concretiza numa deriva Não comecei o livro a pensar desse
brilhante entre ciência e literatura, modo, mas fui percebendo que os
Médico convocando autores como Proust, sonhos são uma ficção, algo que o
neurologista, David Foster Wallace ou Thomas nosso cérebro inventa, provavel-
grande leitor, Mann. O tom é o de uma conversa, mente porque está a funcionar de
autor do cheia de erudição e ironia, um jogo modo diferente daquele em que
romance A onde o leitor entra porque é impos- funciona quando estamos acorda-
Cabeça de sível não ser cúmplice – se não lite- dos, e que podemos considerar
Séneca (ed. rário, pelo menos onírico – e do qual imperfeito. O movimento criativo
Gradiva, 2011) sai com uma percepção indelével também tem essa imperfeição de
sobre os mecanismos que só lhe é base. É necessária alguma distrac-
possível conhecer a partir desse es- ção, não estarmos num foco dema-
tado difícil de definir, o da fronteira siado prático, literal. A experiência
entre vigília e sonho onde se situa o de sonhar acordados contém em si
território literário. a ideia da criatividade.
A ausência de vigília
Que relação existe entre o permanente?
sonho e a literatura? Este livro Exacto. O facto de estarmos muito
quis explorar ou tentar concentrados num assunto de modo
responder a esta pergunta? muito vígil corta os laços mais ou
A ideia era escrever algo que tivesse menos escondidos que a criativida-
a ver com a neurologia e, ao mesmo de forma entre coisas que parecem
tempo, com o contexto literário, cul- muito afastadas, mas com ligações
tural, religioso. Os sonhos como tema escondidas. Elas são o foco da lite-
científico estiveram na minha forma- ratura, aquilo que a literatura é. Se
ção de médico, académica, e achei calhar é também o modo que o cére-
interessante a abordagem científica bro utiliza nos sonhos para nos aju-
de algo que encontramos com fre- dar em vigília.
quência na literatura, nos mitos. Os O livro segue uma cronologia
sonhos têm essa dupla natureza, era científica associada ao estudo
possível falar deles enquanto tema do sonho e vai deixando entrar
científico e literário. referências literárias muito
Deu-lhe a forma de uma deriva, dispersas no estilo, geografia,
de deambulação. Porquê? época. Como chegou a essa
A parte literária é uma divagação, estrutura ensaística?
uma deambulação, aproveitando Isso descreve muito bem o livro.
elementos do conhecimento cientí- Utilizei os dois métodos em parale-
fico que podem gerar metáforas ou lo. Em relação à parte científica,
ideias mais literárias. Enquanto para que se tornasse minimamente
escrevia a parte mais científica, perceptível, há uma ordem crono-
havia coisas de literatura que sur- lógica, mais ou menos contando as
giam, livros de que me lembrava. teorias e contra-teorias que vão sur-
É-lhe natural essa relação gindo. Se lermos A Origem das Espé-
imediata? cies, de Darwin, não vamos achar
Sim, vivo com as duas coisas no dia- muito interessante, tornou-se um
a-dia. Achei interessante escrever lugar-comum, mas quem inventou
sobre literatura à medida que fosse o lugar-comum foi Darwin.
tentando explicar aspectos da neu- Era o “novo”, de que também
robiologia dos sonhos. Não fiz uma fala.
pesquisa concreta sobre os sonhos Sim, mas ao contrário do novo em
dentro da literatura, mas é fácil ciência que progride, a literatura
encontrá-la. O sonho é um mecanis- vive de acontecimentos paralelos.
mo muito utilizado nos romances Quem escreve hoje um romance
para explicar as personagens. Mas não está a melhorar o que
que sonhou, dependemos de uma uma linguagem à primeira vista literatura lida com dois tipos de
narrativa do sonho. Não temos aces- delirante. É um exemplo de pacto com o leitor: o da
so à acção, mas à história. Os sonhos delírio controlado? verdade e o da ficção que passa
são narrativas, são filmes a que só É um delírio controlado. É difícil por uma espécie de “quero ser
podemos aceder pela linguagem. entender como se atinge aquela dis- bem enganado” ou
Estamos a construir uma história persão e ao mesmo tempo se produz manipulado. Como geriu os
que se calhar difere muito daquilo algo cheio de sentido enquanto obra dois tipos de protocolo?
com que sonhámos. Contar uma de arte, com muitas ideias incisivas Foi difícil mostrar algo objectivo de
coisa altera, e os sonhos ainda mais, sobre coisas como o bem e o mal, forma literária, e o literário tem de
porque a necessidade de dar alguma Deus e uma série de questões eternas ser subjectivo, de partir da expe-
lógica a algo que se apresenta como que a literatura vai sempre repescan- riência de quem escreve e apelar à
ilógico é uma tentação. Quando do. Ele fá-lo reinventando uma lin- de quem lê. Quem lê literatura,
contamos o sonho já estamos a tor- guagem. É essa a magia de Guima- espera ser enganado. É esse pacto
ná-lo mais compreensível, e quando rães Rosa, produzir uma linguagem que se forma, ser seduzido. Em
tentamos interpretar, ainda mais. nova, mas captável. Os sonhos tam- crianças, quando brincamos ao faz
Não sendo uma ficção, há um bém têm essa mistura de coisas ines- de conta, temos interesse no jogo
jogo, o autor apresenta-se peradas. Reconhecemos uma pessoa porque sabemos que não é verda-
quase como uma personagem no sonho, mas a face da pessoa não deiro, que ali está uma representa-
com um papel naquilo que é a que conhecemos. E certos acon- ção de algo que podemos experi-
escreve: é apresentado como “o tecimentos que durante a vigília nos mentar sem as consequências nega-
autor”. deixariam muito angustiados ali são tivas. Isso aplica-se ao sonho. O
É verdade. acompanhados de indiferença. É sonho tem a função de replicar coi-
Para não pôr ali um eu? uma forma do sonho metabolizar sas negativas para que possamos
Sim. experiências negativas, de lhes dar estar preparados para elas, e são
Enquanto isso, vai outra cor, tornando-as confusas ou mais frequentemente negativas do
interrogando a linguagem e a aliviando o peso de coisa má. O que positivas.
própria ideia de literatura em sonho é individual e ao mesmo tem- E não se morre nos sonhos.
mais um paralelismo onde po estranho para o indivíduo que o O sonho é sempre sonhado por
entra a palavra “mistério” sonha. Somos duas pessoas - a ideia aquela pessoa, estamos sempre lá;
sempre que se fala de cérebro. de duplo. Duas existências em comu- se nos retiramos, o sonho termina.
O cérebro como a última fronteira. nicação numa linguagem imperfeita, O sonho não pode existir sem o
É provavelmente o órgão que menos não totalmente compreensível, e por sonhador, é totalmente solipsista. O
conhecemos, e o que melhor nos isso misteriosa. sonho não imagina a morte porque
define. Está mapeado, mas continua Ao falar de ciência e de não tem essa experiência.
por compreender. Uma coisa é
conhecer os sítios, saber o que se
activa em determinadas situações,
TEATRO MUNICIPAL
outra é compreender o funciona-
mento da consciência, da cabeça
de iluminações sonhos.
Interfere.
prática e, simultaneamente, numa
outra vida interior. Isso é muito difí- Texto PALOMA PEDRERO Direcção MARIA DO CÉU GUERRA
acordar. Por vezes momentos em que estamos num A literatura tem a capacidade de dar
TEATRO
estado intermédio, mais alheados, um sentido ao que é disperso,
M/14
de que o melhor expressão “sonhar acordado”. Esse
devaneio acordado não é tão dife-
de que é uma réplica inteligível do
caos que é a realidade. Essa é a gran-
Subvenções
Mais Info
ctalmada.pt
Mathias
O escritor francês,
vencedor do Goncourt em
2015, continua, em
Desertar, a perseguir os
rastos da guerra e a
A
arquitectura da narrativa cedor do Prémio Goncourt em 2015 violência e que, numa zona monta-
esboçar uma história da dos romances do francês
Mathias Enard (n. 1972) pa-
— é o tempo cronometrado (entre as
23h e as 7h) o que suporta estrutural-
nhosa, procura chegar à fronteira do
país; por outro, e em vários planos
Europa e do século rece desenhada a com-
passo, régua e transferidor.
mente a narrativa das muitas histó-
rias de um musicólogo insone.
narrativos, a história de Paul Heude-
ber, um matemático genial da Ale-
passado. Se em Zona (D. Quixote, Em Desertar, o seu mais recente manha de Leste, sobrevivente do
2010) descreve com uma longuís- romance, o autor francês justapõe, Holocausto (preso durante quatro
sima frase de 500 páginas o monó- em capítulos alternados , duas histó- anos no campo de concentração de
logo de alguém que leva numa mala, rias aparentemente sem ligação en- Buchenwald), “comunista fervoroso
TheatroCirco
Ricardo III
JEAN-MARC ZAORSKI/GAMMA-RAPHO VIA GETTY IMAGES
(uma personagem que surge como tro desta estrutura, posso improvi-
uma espécie de contraponto político sar: provar coisas que podem funcio-
do matemático). “Ela pareceu-me a
narradora perfeita, porque é herdeira
nar, ou não. E, se não, volto à estru-
tura...” William Shakespeare
deste mundo [do século XX], conta a
história dos seus pais, e também, ela
A narrativa do soldado sem nome
tem como cenário uma guerra de Marco Paiva
própria, é historiadora.” Mas depois lugar e tempo indefinidos. O leitor
as coisas alteraram-se e teve de rees- pode, no entanto, e por conhecimen-
truturar a ideia do romance. tos botânicos, ter quase a certeza de
“A guerra na Ucrânia mudou total- que tudo está a acontecer na orla do
Desertar mente o rumo do romance. Entendi Mediterrâneo: uma paisagem agreste
Mathias Enard que o século XX não tinha acabado onde não faltam as figueiras, as
(Trad.: Joana com o início do século XXI. Há uma amendoeiras, os medronheiros, es-
Cabral) parte dele que continua a correr tevas, pistaceiras, entre várias outras
Dom Quixote como um rio subterrâneo, por exem- plantas.
plo, no discurso de Putin: querer Sobre a razão desta indefinição do
‘desnazificar’ a Ucrânia, etc. Mas, lugar e do tempo, diz Mathias Enard:
sobretudo, vi que com a guerra na “Primeiro, porque se contrapõe à
Ucrânia a Europa não voltaria a ser história de Paul: por um lado, temos
a mesma. Que a violência da guerra um relato histórico, com datas, no-
Mathias Enard, desde muito mais brutal tinha voltado à Europa mes próprios, dados e personagens
jovem, interessa-se por depois de um quarto de século de históricas; e, por outro, o oposto: não
matemática. Ao longo do paz. Isto modificou totalmente a mi- conhecemos nem os nomes das per-
romance, são múltiplas as nha percepção da História.” sonagens, o tempo e o lugar esca-
referências a conceitos A ideia do livro apareceu-lhe num pam-nos, só vemos com os sentidos: M/16 12€ (6€ cartão Quadrilátero)
matemáticos, quase sempre sonho que teve num castelo alemão: cheiros, formas, plantas... É a única
com um peso de ironia “O romance nasce do personagem coisa que chegamos a saber — uma
Paul Heudeber e do meu encontro, história humana da violência.”
no Castelo de Ettersburg, com o fan- Já a história do matemático tem
los de dois livros singulares — dife- tasma de [Friedrich] Schiller [drama- por base o dia 11 de Setembro de 11 janeiro 21h30 → Música → Contraponto
rentes estilos: um, poético e telúrico, turgo e poeta, 1759-1805] saindo do 2001: num barco com o nome Beetho-
trabalhado com frases entrecortadas
como versos; o outro com uma es-
campo de concentração de Bu-
chenwald, este terrível encontro, a
ven, que navega no rio Spree, em
Berlim, decorre um “congresso flu- Rzewski e Shostakovich
Jovem Orquestra Portuguesa
crita escorreita e sem ademanes. meio do século XX, entre a criação e tuante” em homenagem a Paul Heu-
Em conversa com o Ípsilon, por a destruição.” derber (que morrera uns anos antes).
email, Mathias Enard justifica: “Para Enard confessa que estrutura todo Estão presentes ilustres matemáticos
mim, as duas histórias são uma. Tra- o romance antes de o começar a es- e também Maya, a mulher de Paul,
ta-se de contaminação, de contágio: crever, como se desenhasse uma então já com mais de 80 anos, e
uma ‘empapa-se’ do efeito da outra. forma de arquitectura: “Sei, mais ou ainda a filha (que 20 anos depois
Para o leitor, não é o mesmo ler um menos, até onde vou. E então, den- narra a história, já com ecos da inva-
capítulo sobre Paul depois de ter são russa). Entretanto, o congresso
lido o anterior, sobre o soldado. Al- é interrompido por causa dos acon-
guma coisa passa de uma história tecimentos em Nova Iorque.
para outra, é uma literatura [que se É sabido que Enard, desde muito
faz] por osmose. Vou entrançando
as duas partes como se faria com o “O romance nasce jovem, se interessa por matemática
(confessou-o em várias entrevistas),
cabelo: são [ambas as histórias] da
mesma matéria-prima.” E acres- do personagem Paul apesar de na universidade ter estu-
dado Árabe e Persa, que agora en-
centa: “Paul Heudeber não é o con-
traponto do soldado. É o seu com- Heudeber e do meu sina. Ao longo do romance, são múl-
tiplas as referências a conceitos
plemento. Ambos perfazem uma
unidade.” Mathias Enard confia na encontro, no Castelo matemáticos, quase sempre com um
peso de ironia. O livro As Conjecturas
inteligência do leitor.
O autor francês continua, neste de Ettersburg, com o de Ettersberg, Elegias Matemáticas é
a obra-prima da sua personagem,
M/6 12€ (6€ cartão Quadrilátero)
A guerra tudo mudou meio do século XX, muito interessante, com muitas for-
mas de utilizar a matemática na lite-
Mathias Enard conta que o seu pro-
jecto inicial era o de narrar a história entre a criação ratura, mas também a literatura
dentro da matemática. Que Paul seja
do século XX pela boca de uma histo-
riadora, Irina, filha de Paul e de Maya e a destruição” um matemático literato, permite-me
aproximá-lo mais de mim...”
www.theatrocirco.com
isolada e irrepetível. Poeta do seu directo do seu próprio leito, J Dilla um músico regenerado, finalmente
Livros fd?????
tempo, ele será porventura de
tempos vários, no mais
entranhado da sua escrita. Não há
e David Bowie.
Aí está uma etapa que o modelo
Kübler-Ross não prevê: negação,
livre para o exercício estético.
Assim se ergue a primeira metade
do álbum, pela força da
ar do tempo, mormente deste raiva, negociação, depressão e sonoplastia, que em nada
nosso, nos poemas do autor, mas aceitação não cobrem o luto feito desautoriza o jeitinho lo-fi. Por
uma espécie de “denominador em praça pública. E não só por exemplo: são faixas consecutivas
incomum”, que desperta a motivar um tipo especial de Breaths, um ensaio de recitação
Poesia actividade do verso e a recorrência poética, difícil de avaliar quase solene, e Swallowed alive,
sortílega das palavras. Uma criticamente, mas porque ao uma rápida vergastada de black
A ronda não inscrição como “A trepidação,
longínqua/ É mais um condomínio
potencial de catarse vem atrelada
a pena: uma piedade que é
metal (com tudo aquilo a que se
tem direito, incluindo os gritos
acaba nunca mongol, ninguém se assuste.” também voyeurismo e rótulo de flageladores), tudo isto a passar-nos
(p.19) parece assentar em alicerces coitadinho, um daqueles que pelos ouvidos em glória.
Uma poesia da viagem, potencialmente alternativos. deixam sempre resíduo, por muito Entre isso e a submissão
Uma revisitação da História que se descolem e se arranhem. temática aos elementos naturais,
através da geografia e de Não há ar do tempo nos poemas chinesa (hegemonia mongol), um Ainda assim, Elverum parece ter será Night Palace apenas uma
manifestações humanas a de Gil de Carvalho retrato contemporâneo? Pouco feito as pazes com isso: admite que “fritalhada” mística? Não. O
um tempo enigmáticas e importa, se esta poesia faz reviver há um antes e um depois dessa universo de Mount Eerie sempre
límpidas. Hugo Pinto Santos de modo tão firmemente intenso e morte, da qual Crow e o sucessor esteve à vista: montanhoso e
recuperássemos a distinção de sóbrio ditos e presenças que se Now Only (2018) eram as crónicas. ventoso, ora doce, ora inóspito,
8 Benedetto Croce, que distinguia a erguem como fragmentos de Em 2020, reactivou a chancela dos para que ninguém ficasse
literatura, enquanto índice gestos e conversas capazes de Microphones para um disco ainda mal-habituado. (Verdade seja dita:
Gil de Carvalho
Alambique civilizacional e de urbanidade, e interrogar as eras e questionar os autobiográfico, mas muito menos a primeira parte do álbum não é
poesia, núcleo da linguagem limites da geografia. claustrofóbico, deixando entrar a tão fácil de fixar, mas vale a pena
) enquanto ser original. luz ao imaginar pontos de fuga. repeti-la, até que todas as cores se
Não é preciso buscar uma Night Palace, de regresso ao revelem.) Mas de Myths come true
Das duas vezes identificação assaz taxativa, ainda nome Mount Eerie, é a travessia de em diante estamos noutro plano
que reuniu os
seus poemas em
livro, Gil de
que esta poesia, aqui e ali, por
acaso fortuito, afirme algo
semelhante, talvez agora
Música Elverum por todos esses
caminhos, antes só idealizados.
Um álbum duplo de estradas
de existência: as guitarras cada
vez mais musculosas, a voz mais
transparente, tudo mais imediato
Carvalho abusivamente escolhido como imprevisíveis e curvas drásticas, e tangível.
intitulou essas exemplo: “A língua em certas trajectória que evoca a obra-prima November rain é o momento
recolhas horas, é uma força/ Misteriosa da dos Microphones: The Glow, Pt. 2 realmente “orelhudo” do álbum:
Tarantela e folhagem, escura, ponteaguda.” (2001), diário de bordo de um música de viagem, em traço
Viagens (Fenda, (p.18) A grafia alternativa é Outono fantasiado, do rock descontínuo, as cordas acústicas e
1998) e Viagens 1978-2008 (Assírio deliberada, como, em quase todos Rock analógico à folk nua. Mas as pastorais a darem lugar às
& Alvim, 2008). Indicações os momentos da sua poesia, é a incursões de Elverum em 2024 são eléctricas, totalmente distorcidas.
importantes. Sem que a sua poesia
se resuma, ou reduza, à
pontuação uma instância
respiratória e significadora, nunca A canção mais profundas, acidentadas, até
chocantes. Nada estraga as
É também o manifesto de um
morador rodeado de
deslocação no espaço, assim se
afirma, inegável e
uma aplicação da norma. São
extremamente raros os momentos
a renascer para surpresas, nem as camadas de
feedback que dão arranque ao
casas-fantasmas: “Todos estes
proprietários ausentes perdem/ O
simbolicamente, que a viagem é assim, em que a poesia de Gil de Mount Eerie disco, na meditação ruidosa da grande abraço, o beijo premente
cerne desta poesia. Contudo, esse Carvalho reflecte sobre o faixa-título. desta chuva específica de
pressuposto, aliado ao território acontecer da linguagem e da Phil Elverum, o fundador dos “Apenas respiração, muito Novembro na longa escuridão”.
mais amplamente visitado pelos poesia; geralmente, os seus versos raramente canção”, diz em Huge A noção de propriedade privada é
versos do autor, poderia levar a constituem uma notação atenta Microphones, já não tem fire, a melodia ainda um rizóide, sujeita ao escrutínio do tribunal da
não poucos equívocos. aos cenários e às pessoas mais réquias para cantar. perante um tronco cada vez mais natureza; canta-se a urgência de
Viu-o quem bem o entendeu e entrevistas, sem passagem para o Night Palace é imprevisível, alto de percussão e guitarras. É um descolonizar os EUA; pesa-se o
estudou, o poeta e ensaísta Duarte plano da metalinguagem. (Mais impressionista, vital. Pedro novo ponto de transição em Mount acto de cantar, se é que significa
Drumond Braga, que informa: “A uma razão para citar este Eerie: de um ser humano ocupado algo, quando o mundo insiste em
Ásia deste poeta não coincide, a momento singular.)
João Santos com a expressão crua da dor, para brindar-nos com massacres e
não ser com a China, com os A desarticulação na sintaxe Night Palace INDIGO FREE
territórios típicos do Oriente destes versos é factor de
Mount Eerie
português.” Razão pela qual, desorientação, mas é também um Edição de autor
segundo este autor, está aqui instrumento de individualidade. A
ausente a ideia de “orientalismo palavra não se reencontra, nesta )
(no sentido que lhe deu Edward poesia, pela estesia, ou a
Said em 1978)”, uma vez que “não impressão marcante da Até 2017, Phil
há Oriente (…), esse mecanismo sonoridade. É pela disrupção Elverum era um
de recondução do alheio ao rigorosamente discreta do seu dos músicos mais
próprio, essa necessidade de dizer que ela surge, na produtivos do
encaixar a Ásia num olhar desagregação que, sem se indie rock;
europeu” (Hoje Macau, 2020). anunciar, estes versos depois,
A viagem não é, portanto, pormenorizam, a desfazer o uno e tornou-se um ilustre viúvo. Foi o
mecanismo ilustrativo, alusão ou o óbvio, o habitual, que deu lançar A Crow Looked at
reconhecimento. Depende de um fragmentando-o em vestígios Me, álbum alérgico a eufemismos,
olhar observador, um espírito infindos, como sedimentos à beira sobre a morte da parceira criativa
irrequieto que visa cruzar lugares, de qualquer rio. O registo “As e romântica Geneviève Castrée. “A
fixá-los. Apenas por um instante tribos perdidas/ Estão que morte é real/ Alguém está lá e, de
(“A raiz de tudo é o instante”, p.8): voltam.” (p.9), no seu dizer repente, já não/ E não serve para
“À porta de tua casa brilha por arcaico, associa-se ao tenaz cantar/ Não é algo para se tornar
vezes uma pequena folha de latão/ nomadismo de gentes e coisas em arte” (tradução livre), declarou
Conheço o peso da neve, o hostal, captadas nos versos de Gil de nesse disco, designado magnum
a língua dos acompanhantes/ Que Carvalho. A escrita do poeta opus de uma obra em construção
no velho relógio da estação se dão sempre se converteu num modo desde 2003. Esse verso espreme a
tempo. Demais./ Romãzeiras que airado e andarilho, sem peso, nem medula do osso: é ridículo, talvez
são. Em certos reguengos del Rey obviedade, nas suas observações até pouco nobre, esperar que a
e da Reina/ É a fuga./ — São de um mundo eleito pelo que nele música possa atenuar (ou mesmo
idiomas.” (p.10). haja de singular, por estranheza plasmar) o sofrimento
Podia, assim, arriscar-se que, ou encanto. incomensurável da morte. Mas era
menos que uma literatura de Talvez por isso tanto seja de essa a ferramenta ao alcance de
viagens, é de uma poesia de notar a falta de “filiação” na poesia Elverum, como foi para Sufjan Há estradas imprevisíveis e curvas drásticas em Night Palace
viagens que nos aproximamos, se de Gil de Carvalho e a sua estrela Stevens e Ariana Grande, ou, em
26 | ípsilon | Sexta-feira 10 Janeiro 2025
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OLIVER MATICH
legislação misógina. Mais político, lonely e na The doctor movida a andróides. Essa genealogia está
não menos pessoal, este é um sintetizador, assalta-nos ao longo inteirinha em Mars Express,
disco de quem resistiu à letargia: de Human Fear uma estranha primeira longa-metragem do
até em The gleam, Pt. 3, sobre sensação. Com os altos e baixos, animador francês Jérémie Périn
demência, Elverum consegue com um par de novidades e todas (esta semana em sala antes de
modelar em som as pesadas as marcas Franz Ferdinand, que chegar à plataforma TVCine no
malhas da névoa mental — e nos legará este disco para a início de Fevereiro), que invoca a
imagina como atravessá-las. história dos Franz Ferdinand? estrutura de film noir daquela
O título de Night Palace vem de Guardaremos algo dele quando adaptação livre de Philip K. Dick
um poema citado na capa de A vinte anos passarem, vinte mais para construir um mundo
Crow Looked at Me, em que Joanne desde estes vinte já passados do futurista onde a humanidade se
Kyger descreve a morte como o momento em que Darts of pleasure espalhou para colónias
despertar de um sonho: ser apresentou a banda escocesa ao extraterrestres e a omnipresença
“pós-humano, num passado que mundo? dos robôs e da inteligência
continua a acontecer, além de ti”. artificial levanta importantes
O luto continua, desta vez com a questões sociopolíticas.
cabeça no ar puro, e os pés Mars Express é derivativo, e não
descalços no pântano gelado. Phil
Elverum permitiu-se ficar aqui:
não no passado, mas no futuro,
Cinema é pouco — a sua narrativa herdada
do policial negro clássico (uma
detective que dá por si envolvida
para ver a canção renascer. num caso bem mais sensível do
que parece) vai também buscar
referências, por exemplo, ao Eu,
Robot tal como visto por Alex
São os novos Estreiam Proyas e a toda a geração de
Franz escritores ciber-punk
Robbie Williams dá a voz, Jonno Davies emprestou o corpo, Gracey e os efeitos digitais fizeram o resto O dilema de Bill Furlong, que vende carvão numa aldeia irlandesa
) estreia desse filme. E, para Hollywood, that’s entertainment. um macaco a quem isto acontece, Christopher Nolan, produziu o
além da simples curiosidade, é Deixem-me, por isso, entreter-vos, um macaco que tem a voz A moral filme (com Matt Damon) e
exemplar do que se anda a fazer ou não tivesse Williams dito em e a lata e os maneirismos de interpreta Bill. Foi buscar o belga
no campo da animação para tempos que ser-se vedeta pop é Williams e a tarimba de actor de da história Tim Mielants (com quem
públicos adultos. ser um “performing monkey” — um Davies, e que Gracey se recusa a trabalhou na popular série Peaky
macaquinho treinado para tratar como personagem “virtual” A novela da irlandesa Claire Blinders) para realizar e reuniu
entreter. — o estrelato dos anos da britpop Keegan sobre as um elenco sólido (com destaque
Aí reside o golpe conceptual de de 1990 já é suficientemente para a arrepiante madre
Entreter Better Man: representar Williams, bizarro, visto à distância de um
“lavandarias de Maria superiora de Emily Watson).
Madalena” recebe uma
é vencer literalmente, como um macaco.
Williams dá a voz, Jonno Davies
quarto de século, para um salto
conceptual ainda desfasar mais as adaptação sólida e sensível,
Tudo em Pequenas Coisas como
Estas está no seu sítio,
emprestou o corpo, Gracey e a sua coisas. mas sem sinais particulares. respeitando a tradição do
O mundo precisava de um equipa de animação e efeitos E, de repente, o mundo afinal “realismo social” do cinema
filme biográfico de Robbie digitais fizeram o resto; de uma só precisava de um biopic de Robbie
Jorge Mourinha britânico mas sem carregar
Williams? Vai-se a ver, sim: penada, Better Man desfaz-se das Williams. Better Man recorda-nos Pequenas Coisas como Estas demasiado na dimensão didáctica
comparações com o original que porque é que Robbie Williams foi de denúncia; o que interessa a
ao representar o cantor Small Things Like These
penalizam qualquer biopic (não há uma estrela pop de primeira Walsh, Murphy e Mielants é
inglês como um macaco, De Tim Mielants
actores de carne e osso a fingirem grandeza mesmo que apenas Com Cillian Murphy, Eileen desenhar o quotidiano, traçar
Michael Gracey injecta ser a vedeta, não há parecenças ou durante alguns anos: aqui estava Walsh, Michelle Fairley um retrato do dia-a-dia, ver como
frescura e inteligência numa falta delas que influenciem o alguém que não tinha pretensões a a consciência de algo vem alterar
Em sala
fórmula gasta. Jorge espectador), e introduz uma ser mais do que um “artista de a nossa posição sobre as coisas.
frescura bem-vinda na fórmula. cabaré”, um entertainer para ) Um simples passeio natalício para
Mourinha Porque, sim, fora a “macacada”, o quem entreter é vencer. Uma ver as montras ganha de repente
Better Man filme de Gracey segue à risca a figura simpática, desarmante, Quando a escritora irlandesa um peso completamente
fórmula: puto de classe convivial, um vizinho do lado a Claire Keegan publicou em 2021 a diferente, porque Mielants
De Michael Gracey
Com Robbie Williams, Jonno trabalhadora a quem sai a sorte quem calhou a sorte grande, e que sua novela Pequenas Coisas como rodou em décors reais na própria
Davies, Steve Pemberton grande ao ser escolhido para uma Michael Gracey filma Estas, não fazia ideia que a sua aldeia onde Keegan situou a
boy-band, deslumbre com a fama, precisamente dessa maneira (só adaptação ao cinema viesse a acção e porque Murphy faz passar
Em sala
queda no álcool e nas drogas, que com muitos pelos). E nessa estrear-se num mundo com grande delicadeza e
) abandono do grupo, desejo de simpatia desarmante, nessa polarizado, onde a necessidade inteligência a gravidade do
singrar a solo, vontade de provar eficácia, ganha-se um biopic com de tomar uma decisão imposta dilema enfrentado pela sua
O mundo precisava de um filme que é mais do que uma carinha personalidade, capaz de injectar pela simples sensatez humana e personagem.
biográfico de Robbie Williams? laroca, transformação em estrela graça e diferença numa fórmula moral ganha uma dimensão E, sem que quer a escritora
Não. Queen, Elton John, Bob pop global, sempre transportando imutável. Tal como o seu herói, muito menos “caseirinha”. Mas é quer os autores do filme o tenham
Marley? Tudo perfeitamente as feridas não saradas de uma Better Man é um filme porreiro. Já nessa paisagem pré-autoritária pretendido, eis a pequena
defensável. Amy Winehouse? OK, infância sem pai. Mas, lá está, é não é nada mau. que recebemos o dilema de Bill parábola moral da história a
ainda passa. Mas Robbie Williams Furlong, que vende carvão numa tornar-se subitamente em
não está nessa categoria, e o aldeia irlandesa na década de espelho microscópico do mundo
australiano Michael Gracey (O
Grande Showman) sabe-o. O
As estrelas Jorge
Mourinha
Luís M.
Oliveira
Vasco
Câmara
1980, e que já não pode continuar
a fechar os olhos à “lavandaria de
progressivamente mais
autoritário em que vivemos, onde
próprio Robbie Williams sabe-o: Maria Madalena” local, escolher olhar ou afastar os olhos
se há coisa que o autor de Angels e as instituições para onde eram tem consequências muito
Let Me Entertain You sempre “despachadas” as mães solteiras superiores a uma mera questão
assumiu é que isto da fama é que tinham “desgraçado” a vida e literária. Que isso torna Pequenas
Aqui )
completamente marado e tem um a família, sobretudo depois de Coisas como Estas bastante mais
prazo de validade bastante curto, Better Man ) uma das jovens ali recolhidas lhe premente do que pareceria é
sobretudo quando se é “cabaré, Chá Preto ) pedir ajuda. Bill sabe por inegável; que isso é independente
mesmo que de primeira classe”. Encontro com Pol Pot —) experiência própria que, numa das suas forças e fraquezas
Foi sempre isso, aliás, a Glória )
Irlanda rural ainda muito enquanto obra cinematográfica é
diferenciar Williams dos seus apegada ao catolicismo, ser mãe evidente, sendo um excelente
companheiros das tabelas de A História de Souleymane ) solteira é mal visto; e que ir exemplo do profissionalismo
vendas (britânicas e europeias Mars Express ) — — contra os ditames da Santa inatacável mas anónimo de uma
sobretudo) na passagem de Nosferatu ) Madre Igreja ainda mais; e que ser certa ideia de “qualidade
século: a perfeita compreensão do Parking —) boa pessoa não facilita britânica” que não desilude mas
mercado pop como terreno de as coisas — e Bill é uma boa também não entusiasma. Claire
Pequenas Coisas como Estas — —
jogo minado, onde mais valia cair pessoa. Keegan tinha ficado melhor
em graça do que ser engraçado, e Um Quarto na Cidade O dramaturgo Enda Walsh — servida pelo filme de Colm
a sua disponibilidade para o jogar Tudo o que Imaginamos como Luz que escreveu Fome para Steve Bairéad A Menina Silenciosa,
em plena consciência de nada Wallace & Gromit - A Vingança das Aves ) — McQueen — adaptou a novela de mas Pequenas Coisas como Estas
disto ter importância nenhuma. Keegan para o cinema; Cillian não merece por isso
Mau Medíocre Razoável Bom Muito Bom Excelente
Para citar um velho filme de Murphy, o Oppenheimer de ser ignorado.
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UM PAI E UM FILHO:
TEMOS DE TER
UMA CONVERSA
O pai, José Manuel Pureza,
e o filho, Manuel Pureza,
sentam-se à mesa para falar sobre família,
educação, ócio, activismo e todos aqueles
assuntos que geram desconforto.
Semanalmente
às quartas-feiras.
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