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Ipsilon 20150116

Enviado por

Liliana Almendra
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Sexta-feira | 16 Janeiro 2015 | publico.

pt/culturaipsilon
ESTE SUPLEMENTO FAZ PARTE INTEGRANTE DA EDIÇÃO Nº 9042 DO PÚBLICO, E NÃO PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE

Michel
na rentrée
Houellebecq,
um acontecimento

fbfe1450-57d3-4ccd-9109-18fc235b9e93
O pirómano
TED SOQUI/CORBIS
Flash
Sumário
6: Michel Houellebecq
História de um fenómeno
Quando Lars andava na escola
Epidemic e Europa.
12: Daniel Metcalfe Após exibição dos filmes, Peter
Descobriu Angola Schepelern, professor associado
catedrático na Universidade de
14: Wim Vandekeybus Copenhaga onde Lars estudou
O demónio interior entre 1976-1979 (antes de se
matricular na Danish Film School),
16: Alain Platel falará sobre eles. E durante o
No princípio era a festival, aquele que é autor de
livros sobre a obra do cineasta (e
escuridão de artigos sobre o movimento
Dogma 95), fará uma palestra, o
17: Mónica Calle que poderá saciar a curiosidade
tem casa nova sobre a vida e a obra de Lars.
Não fica por aqui a Dinamarca no
18: Teddy Thompson Córtex 2015. Uma nova secção,
O filho de Richard e Linda Hemisfério, dedicada a uma
Thompson faz a catarse instituição cinematográfica
internacional, estreia-se
precisamente com a Escola de
Cinema da Dinamarca,
apresentando 5 curtas-
metragens, realizadas entre 2013
e 2014, por alunos. A
coordenadora internacional da
Danish Film School, Eizabeth
Rosen, estará em Sintra. E haverá
música, no Museu das Artes de
Sintra: de um lado, Mikkel
Solnado; de outro a violinista Lilia
Donkova e o acordeonista
Gonçalo Pescada, que
apresentarão o seu projecto
Symbiosis sobre imagens
projectadas de filmes de Carl
Theodor Dreyer.
O Córtex tem as suas habituais
Os inícios de Lars von Trier na abertura do Córtex sessões competitivas, nacional
(entre outras, curtas de Gabriel
O Córtex, Lars von Trier e a formação, realizadas no Abrantes, Patrick Mendes,
Dinamarca – palavras-chave para momento, aliás, em que Lars Miguel Clara Vasconcelos) e
a 5ª edição do Festival de Curtas integrou o “Von” no seu nome, e internacional, que serão
Metragens, que se realiza no é legítimo que o espectador apreciados por um júri
Centro Cultural Olga Cadaval, em queira encontrar nelas as origens composto pelos actores
Sintra. do que veio a conhecer depois – Margarida Vila Nova, Maria de
O dia de abertura, a 12 de obsessões, fobias, medos. Medeiros e Filipe Vargas, e por
Fevereiro (o festival encerra a Nocturne, retrato de uma mulher Manuel Mozos e Pedro Filipe
15), é dedicado a Lars von Trier, aterrorizada pela luz, foi Marques, realizadores. Pela
com a exibição de dois trabalhos realizada quando Lars tinha 24 primeira vez, o Córtex
de escola do cineasta anos. Image of a Relief foi o programa uma mostra,
dinamarquês, produzidos primeiro filme da escola a ter competitiva, a pensar no
quando ainda aluno da Danish distribuição comercial e é público infantil. Fá-lo em
Film School: Nocturne e Image of considerado um ensaio para o associação com a MONSTRA -
a Relief. São, então, obras de que seriam The Element of Crime, Festival de Animação de Lisboa.

agenda de concerto tão rara partículas dub, sopros jazz


quanto intensos são os seus fantasmagóricos ou kraut-rock em

HHY & concertos. Só pode ser portanto


uma boa notícia a de que
modo voodoo haitiano, nos
transportar para um outro lugar. Já

The Macumbas: poderemos vê-los hoje, sexta-


feira, 16 de Janeiro, no Salão
os viram o público do Outfest, do
Milhões de Festa, do Amplifest ou do

xamãs em Brazil, em Coimbra (22h30, com


actuação também de UUMRRK), e
Sonar. Quem não os viu, melhor será
que aproveite a oportunidade agora

Coimbra e Lisboa amanhã, sábado, dia 17, no


Musicbox, em Lisboa (24h). Um
oferecida. A viagem promete ser
surpreendente e recompensadora.
Ficha Técnica O ano passado mostraram-nos
Throat Permission Cut, álbum de
concerto no Porto, marcado para
18 de Janeiro no Maus Hábitos, foi
Mário Lopes

Directora Bárbara Reis estreia criado através da entretanto cancelado. A banda


Editores Vasco Câmara, compilação de sons gravados em anunciará brevemente nova data.
Inês Nadais concerto e posteriormente Os HHY & The Macumbas são um
Design Mark Porter, trabalhados em estúdio para criar combo misterioso: apresentam-se
Simon Esterson uma outra música. em palco com máscaras e criam
Directora de arte Sónia Matos Grupo com formação variável música sem centro definido, quais
Designers Ana Carvalho, (podem ser sexteto, podem ser dez xamãs de vários tempos e
Carla Noronha, Mariana Soares músicos em palco) capitaneado proveniências reunidos num
E-mail: [email protected] por Jonathan Uliel Saldanha, tem mesmo palco para, através de Um combo misterioso
2 | ípsilon | Sexta-feira 16 Janeiro 2015
Georges Wolinski, Grande Prémio tem data de validade. “Este reagrupamento”, disse à AFP.
de Angoulême 2005, vai ser prémio deve deixar de ser Plantu, célebre cartoonista do Le

Angoulême cria recordado com Cabu, Wolinski e


Charb através do novo galardão,
atribuído no dia em que todos os
ilustradores do mundo se possam
Monde, vai criar o cenário para um
“concerto desenhado” de Areski O irmão de Sherlock
prémio Charlie criado dia 8 numa reunião de
urgência na sequência do ataque à
expressar livremente”, segundo o
director-geral do festival Franck
Belkacem que reunirá
desenhadores de todo o mundo. visto pelo escritor
da liberdade de redacção do Charlie Hebdo.
O prémio, segundo o Le Monde,
Bondoux. Na cidade francesa,
haverá também tempo e espaço
Mesas redondas sobre a liberdade
de imprensa, as melhores capas mais alto do mundo
expressão e lança- deve ser entregue anualmente a
um desenhador de imprensa ou
para recordar o trabalho dos
desenhadores caídos. “A edição
do Charlie Hebdo e concursos em
torno das criações dos
Continua a ser o único eleito três
vezes seguidas melhor jogador do

se à 42.ª edição de banda-desenhada que se tenha


visto impedido de exercer a sua
de 2015 será tempo de memória,
de resistência, de debate sobre a
desenhadores mortos pelos
irmãos Chérif e Said Kouachi vão
campeonato universitário de
basquetebol dos EUA, que chegou
É já no fim do mês que começa profissão em liberdade plena. E liberdade de expressão, e de marcar o 42.º Festival de a proibir durante vários anos os
mais uma edição do Festival de Angoulême, cuja cerimónia de afundanços por causa da
Angoulême, um dos mais encerramento também influência exercida pelo poste de
importantes eventos mundiais homenageará o jornal. Também 2,18 metros.
dedicados à banda-desenhada, serão expostos os resultados – Kareem Abdul-Jabbar prolongou
mas esta não será uma edição centenas – do apelo lançado pelo depois o seu domínio no
qualquer. É a edição que acontece festival no Facebook por desporto profissional: seis vezes
no mesmo mês em que mataram ilustrações e trabalhos na esteira campeão da NBA e jogador mais
Cabu, Wolinski, Charb e Tignous. do massacre de Paris. valioso da temporada, ainda é o
E por isso e pelo ataque ao jornal A programação do festival não melhor marcador absoluto da
satírico Charlie Hebdo em que foi alterada, apenas revista e competição norte-americana,
morreram 12 pessoas, entre as aumentada. Continuam previstas graças a uma série de atributos
quais os quatro importantes as mostras dedicadas a Jack que incluíam o famoso skyhook,
desenhadores de imprensa e Kirby, a Calvin & Hobbes, uma um lançamento de gancho
outros quatro trabalhadores do monográfica do japonês Jirô indefensável.
semanário, Angoulême criou o Taniguchi, um mergulho 3D Abdul-Jabbar, que abandonou o
prémio “Charlie da liberdade de na obra de Matthias Picard nome de nascimento Lew
expressão”. A edição do com Curious Jim (também em Alcindor quando se converteu ao
A 42ª edição arranca dia 29 e Charlie Hebdo foco na última edição do Islão, está visto, não foi um atleta
prolonga-se até 1 de Fevereiro com saída na AmadoraBD), uma exposição qualquer. Mas também não é o
um cartaz desenhado por Bill quarta-feira dedicada às visões sobre os típico ex-desportista. Actor
“Calvin e Hobbes” Waterson, que bluesmen na BD, os cenários de esporádico (um combate
deveria também presidir ao Fabien Nury, os 35 anos de memorável com Bruce Lee e a
evento depois de ter ganho no criação de Alex Barbier e vários participação em Aeroplano são os
ano passado o Grande Prémio do espaços e mostras para crianças. papéis mais conhecidos),
festival mas que anunciou que Todos os anos passam por argumentista e produtor de um
vai respeitar a sua tradição da Angoulême cerca de 200 mil documentário bem recebido,
discrição e não estará presente. pessoas. Joana Amaral Cardoso filantropo, autor regular de
artigos de opinião na Time,
embaixador cultural dos EUA,
mas também escritor de sucesso.
Agora, depois de alguns livros

Boiler Room em Lisboa com Mariza e Buraka


SARA MATOS
não ficcionais ou infantis,
prepara-se para lançar o seu
primeiro romance, Mycroft
Holmes, um mistério policial, co-
escrito com Anna Waterhouse,
sobre o irmão – também genial
– de Sherlock Holmes.
“Percebi que poderia ser feito
algo mais com esta personagem
mais velha e inteligente ligada ao
governo britânico, numa altura
Kareem em que o Reino Unido era o país
Abdul-Jabbar mais poderoso do mundo”,
começou a ler explicou Abdul-Jabbar,
as histórias de que começou a ler as
Arthur Conan histórias de Arthur
Doyle na sua Conan Doyle na sua
época de época de estreia na
estreia na NBA, em 1969.
NBA, em 1969 Manuel Assunção

apresentações
especiais a
partir de locais
secretos. Em Lisboa
serão três espaços – um
deles com curadoria dos
Buraka Som Sistema -
acolhendo uma mão cheia de
Boiler Room é uma comunidade global ligada para ver e ouvir os melhores DJs e músicos do mundo em actuações ao vivo (Buraka,
apresentações especiais a partir de locais secretos Moullinex, Batida, Gala Drop, Paus,
Sequin, Jibóia ou a surpresa Mariza
A terceira edição da experiência e com uma mão cheia de DJs e mundo, via streaming, na internet com o seu Ensemble) e de DJs,
Red Bull Music Academy takeover músicos portugueses. (http://boilerroom.tv/live).
ive). como Miguel Torga, Tiago, Trikk,
GEORGE FREY/ AFP

– Boiler Room em Lisboa está O local físico onde a coisa se É esse o conceito Boilerr Room, DJ Ride, Alex FX, IVVVO, Marie
envolta de características realiza, no dia 21 de Janeiro, é uma espécie de comunidade
nidade global Dior, Bison & Squareffekt ou Nigga
especiais, contando com três secreto e apenas para convidados, ligada para ver e ouvir os melhores Fox. O acontecimento terá início
espaços diferenciados de actuação mas pode ser visto em todo o DJs e músicos do mundo do em pelas 19h00 de dia 21 de Janeiro.
ípsilon | Sexta-feira 16 Janeiro 2015 | 3
T

PHILIPPE CARON/SYGMA/CORBIS
odos conhecemos pessoas do- resto, um livro disparatado onde res- nio da Luta. O romance é marcante,
ces, indolentes, transparentes ponde violentamente ao filho (que se mas não ultrapassa suficientemente a
ou que se fazem de simpáti- inspirou nela para diversas persona- norma nas suas tomadas de posição
cas, e que se revelam, sob o gens femininas). para o transformar numa estrela. Ne-
verniz, heróis, tiranos, lou- Quantas estradas secundárias terá le descobrimos, no entanto, os alicer-
cos, sectários ou génios. So- de percorrer antes de nascer verda- ces das obsessões que marcarão os
fremos um choque: como nos tínha- deiramente para o que será a sua vida: romances seguintes, bem como o es-
mos enganado em relação à pessoa a escrita? A sua superioridade intelec- tilo único que contribuirá para tornar
que temos agora à nossa frente e que tual leva-o a ingressar num curso de a sua escrita tão singular. Narra a exis-
está a anos-luz daquela que olháva-
mos ainda há instantes.
preparação para as Grandes Écoles
d’Ingénieur, onde se selecciona, ex-
tência obscura de um solteirão neu-
rasténico. De uma banalidade atroz, a
É alguém que
Michel Houellebecq é um choque
permanente. Não é possível ignorá-lo.
plora, tria e forma a nata da nata da
elite francesa. Entra numa célebre es-
personagem não deixa de ter parecen-
ças com Houellebecq: informático, existe de forma
É o grande homem dos franceses e
da sua literatura, comparado a Bal-
cola de Agronomia — tão longe do es-
critor. Afasta-se ainda um pouco mais
fortemente obcecado pelo sexo, mer-
gulhado numa vida solitária enquanto, muito forte, tem
zac, Zola ou Flaubert. É um choque
a sua omnipresença há 15 anos — a
ao trabalhar em informática, durante
13 anos, para diversas empresas e ins-
à sua volta, se agita uma sociedade de
consumo obscena que engendra um muito talento.
densidade do seu pensamento, a for-
ça do seu estilo. Um choque, também,
tituições. Ao longo desse tempo, ar-
mazena, sem dúvida, uma matéria em
combate financeiro e sexual implacá-
vel entre classes e indivíduos. Tem a capacidade
a polémica que desencadeia de cada
vez que aparece, obrigando-nos a
questionar-nos.
bruto inestimável aonde vai buscar
mais tarde a sua panóplia de persona-
gens incrivelmente reais, esculpidas
O virtuosismo de Houellebecq é no-
tável, nomeadamente nas suas litanias
descritivas de factos insignificantes,
de identificar
E eis o mais recente choque: Sou-
mission, que fala da França, do islão,
no barro da fabulosa mediocridade do
francês médio. E, sobretudo, vive, so-
do ordinário mais sórdido ou de coisas
aparentemente enfadonhas. Instru-
aquilo que a
de política, de vencedores e vencidos,
e que se dirige a uma França já esgo-
brevive, ganha a vida.
Claro que publicou, de vez em quan-
ções de electrodomésticos, sociologia
de uma empresa, descrição pelo rótu-
sociedade
tada por 20 anos de debates e de in-
compreensões sobre o islão, a políti-
do, revistas e poemas. Gosta de ler,
ama as mulheres, fuma e adora beber.
lo de um prato ultracongelado, fun-
cionamento do Minitel, relatório de-
precisa que lhe
ca, os vencedores e os vencidos. O
livro será editado em Portugal neste
As grandes bebedeiras de então ainda
não o marcaram. Os seus grandes
talhado dos ruídos produzidos por
uma velha caldeira. Irá mesmo des-
digam de mais
primeiro semestre pela Alfaguara,
com o título Submissão.
olhos azuis ora espantados, ora fugi-
dios, que de repente se fixam intensa-
crever com extremo pormenor uma
espécie de mosca em O Mapa e o Ter-
abjecto, o
Antes de Submissão, havia Houelle-
becq. Um físico estranho. Uma voz
mente, iluminam um rosto juvenil
com uns lábios finos de fino observa-
ritório, e aproveitará para agradecer
à Wikipédia por tê-lo ajudado nas suas discurso que a
átona e hesitante. Um olhar de uma
intensidade desconcertante, gestos
dor, emoldurado por cabelos que já
vão rareando, bem penteados e de
diligências! Houellebecq sabe tornar
fascinante um aspirador. sociedade
suaves e desajeitados. E um passado
atípico para quem pretende ter assen-
uma cor indecisa.

Não há boa literatura


Mas é em 1998, com As Partículas
Elementares, que as portas da forta- precisa que lhe
to entre os grandes da literatura con-
temporânea. com bons sentimentos
leza dos media e da celebridade tóxi-
ca vão estilhaçar-se. Entra no circo, façam”
Os seus primeiros anos são à ima-
gem das personagens que privilegia:
É raro que se faça boa literatura com
bons sentimentos. Tragédias, poli-
ele, o imodesto, tão absolutamente
seguro da sua superioridade. Bebe Jean Birnbaum,
incertos, difusos, parecendo deslizar
entre os obstáculos da vida. Tem uma
data de nascimento oficial (1958) e
ciais, poesia, ensaio ou romance: to-
dos os géneros carregam a sua massa
de sofrimento, mal-estar, dramas a
com volúpia o cálice da agitação e das
primeiras controvérsias. E o falso tí-
mido explode nos ecrãs.
jornalista
uma falsa (1956). Foi a mãe que, pres- exorcizar. E Houellebecq é um mestre As Partículas Elementares é uma nar-
sentindo-lhe o génio, o envelheceu na arte de fazer zoom sobre o quoti- rativa prolífica e multiforme. Trata-se
dois anos para o inscrever na escola, diano de personagens perdidas e algo de um simples romance? De um en-
ou foi ele que, para rejuvenescer, a desinteressantes para, logo de segui- saio? De um estudo biológico ou so-
falsificou? Há controvérsia, logo mis- da e num movimento inverso, ofere- ciológico? De um manifesto político?
tério. Deverá o seu nome ao acaso de cer um panorama particular do mun- Digamos que é uma narrativa quase
um passeio ao Monte Saint-Michel. A do e uma relação entre factos aparen- clínica, isto é, sem projecção emocio-
família parece disfuncional, não mui- temente insignificantes. nal do autor nos factos que relata da
to atenta a ele. A mãe publicará, de Em 1994 publica Extensão do Domí- vida de dois meios-irmãos, um dos

Seguindo
o rasto de um

escritor genia
de pena envenenada
4 | ípsilon | Sexta-feira 16 Janeiro 2015
al,
É o grande homem dos franceses e da sua literatura,
comparado a Balzac, Zola ou Flaubert. É um choque
a sua omnipresença há 15 anos — a densidade do
seu pensamento, a força do seu estilo. Um choque,
também, a polémica que desencadeia. Eis o mais
recente: Submissão, que fala da França, do islão, de
política, de vencedores e vencidos.
Jan Le Bris de Kerne

ípsilon | Sexta-feira 16 Janeiro 2015 | 5


JACKY NAEGELEN/REUTERS
quais, Michel, possui muitos pontos no século XX, o romance intercala a
em comum com Houellebecq. No li- história das vidas de Daniel2 e Daniel3
vro desenvolvem-se de novo as suas até Daniel25, clones que vivem vários
obsessões breteastonellisianas: o se- séculos depois do primeiro Daniel.
xo, necessariamente orgiástico, ob- Este comediante cínico, mestre dos
sessivo, cru, um pouco perverso, no mecanismos do humor e do sucesso
limiar da pedofilia; a mulher, neces- mediático, não deixa de lembrar um
sariamente objecto, consolidado com Dieudonné, controversa vedeta do
o plástico da cirurgia, atraída pelo humorismo que conjuga perigosa-
dinheiro dos machos e também pelo mente a provocação anti-semita, o
seu sexo, claro. O diálogo impossível conflito israelo-palestiniano e a his-
entre as pulsões permanentes do ma- tória colonial e africana de França.
cho e as aspirações da fêmea, causa Como sempre em Houellebecq, o
de frustração sexual, inibições e inap- desastre sentimental é um tema
tidões sociais. maior, bem como a inexorável que-
Para além destes temas, o roman- da na depressão dos seus heróis. Não
cista desfia outras linhas narrativas: se esquece o sexo, o incesto, o dese-
a doença, o suicídio, o divórcio, o jo pedófilo, as seitas e a espécie hu-
abandono, a crise dos 40, a clona- mana melhorada pela manipulação
gem, para concluir com um epílogo genética e pela clonagem. A Possibi-
que gela: a personagem de Michel, lidade de uma Ilha é o desejo de ou-
geneticista, vê o seu trabalho resultar, tro lugar, mal endémico da nossa
após a sua morte, em 2029, na cria- sociedade contemporânea. Um ou-
ção de uma raça de sobre-humanos tro lugar que Daniel1 não alcançará
desumanizados, liberta das angústias ou, pelo menos, não em vida, uma
com que se debatiam as personagens vez que se suicida no fim, dando as-
do livro. Os homens desaparecem da sim vida aos seus clones, que her-
terra, dando lugar a super-homens dam o relato escrito da vida de Da-
estéreis e eternos, podendo assim niel1 e a completam, um após outro,
consagrar-se, sem consequências, ao para ir melhorando a linhagem. O
perpétuo prazer sexual. livro é um calhamaço: 500 páginas.
Que deixa o leitor perturbado, tão
Não há fenómenos sem denso e ambicioso é o seu objectivo.
polémicas e sem estilo Este trabalho notável merecerá o
Em 1998, torna-se, portanto, um fe- Prémio Interallié. Gaita, ainda não
nómeno. Ora, poderá alguém reivin- é o Goncourt.
dicar o título de “fenómeno” sem Como é que consegue manter os
polémicas? Em França, certamente seus numerosos leitores fascinados
que não. Escandalosamente porno- de fio a pavio pela sua obra magistral?
gráfico, lamentavelmente misógino, Porque o seu público vai bem além
forçosamente reaccionário: está sob dos círculos intelectuais rodados no
fogo, mas o falso simpático, o doce, exercício da leitura de obras impo-
o indolente distende-se como uma nentes. O escritor é fracturante e exi-
mola e transforma-se em demónio gente, mas popular. É lido por todo
para escapar aos detractores. É astu- o lado. E se é lido por todo o lado e
to, é jogador. Borrifa-se nas críticas, por toda a gente, e com uma tal avi- O dia do
multiplicando as teorias futuristas dez, é porque tem estilo. lançamento
(modificar a espécie humana, recriar Jean Birnbaum, jornalista no Le de Submissão
o matriarcado, readquirir sentido Monde e editor do suplemento literá- em França foi
através da religião), desmultiplicando rio do diário francês, admite ao Ípsi- o dia da capa
as suas obediências: um dia, diz-se lon: “É alguém que existe de forma da Charlie
comunista; no dia seguinte, amigo muito forte, tem muito talento. Tem Hebdo
dos católicos tradicionalistas anti- a capacidade de identificar aquilo satirizando
aborto, apologista da sociedade do que a sociedade precisa que lhe di- Houellebecq e
consumo ou, pelo contrário, em bus- gam de mais abjecto, o discurso que também o do
ca do misticismo laico. a sociedade precisa que lhe façam.” ataque
O mundo da edição dava-o como O homem e o estilo são reconhe- terrorista
grande vencedor do Prémio Gon- cíveis por todos e, além disso, asse- contra a
court, mas nada. A decepção será tão melham-se. Clínicos, fluidos, neu- revista que em explicações técnicas exageradas, O fenómeno é também
amarga quanto o homem é orgulho- tros. Economia de palavras. Ausência conduziria ao em cursos de física especializados o homem
so e ciente do seu valor. de efeitos. Linguagem clara. Prosódia balanço que até um engenheiro-cromo teria É imodesto ao ponto da vaidade. É
Em 2000, tendo enriquecido, sem floreios. Claro que tem um pra- dramático de dificuldade em seguir. Evidentemen- incontável o número de declarações
expatria-se na Irlanda, terra apazi- zer indissimulado quando se lança 17 mortos te, rejubila quando, inesperadamen- em que se admira a si mesmo e elogia
guante para todos os tipos de pro- te, se torna crítico literário e disseca o seu talento. Representa, aliás, o seu
MIGUEL MEDINA/AFP

blemas de dinheiro. Ei-lo exilado um autor célebre com a desenvoltu- próprio papel em 2014, no imprová-
fiscal, o grande escritor que, não sa- ra erudita do especialista. Mas con- vel telefilme L’enlèvement de Michel
tisfeito em pôr a França a ferro e segue dar uma espantosa unidade Houellebecq. É um fracasso, o que não
fogo com a sua mania de a questio- aos seus livros com gavetas que não o impede de declarar: “Continua a
nar e de a voltar a ensinar a ler, de- param de se abrir. E cada vez se quer surpreender-me muito que me con-
sertou para o lado dos ingleses, o mais simples. No programa Boome- siderem um actor. Embora o resulta-
traidor, para aí esconder a sua for- rang da France Inter, diz, a 7 de Ja- do não seja mau.” Tanto que repro-
tuna. Nova tempestade, novo assal- neiro de 2015: “Não quero de manei- duz a experiência com a estreia, no
to da cavalaria político-mediática. ra nenhuma que se veja como as mesmo ano, do improvável Near De-
Desta vez, tentará aliviar as tensões, coisas são escritas. Isso torna-se ob- ath Experience, no qual é... o único
regressando ao país em 2012. sessivo. Tento minimizar os efeitos, actor. Narcisismo.
Mas voltemos atrás: ficámos no du- enfim, não fazer efeitos, ser muito Houellebecq é também um físico
che frio que se abate sobre Houelle- fluido, muito fácil de ler.” que se parece com uma personagem
becq quando falha o Goncourt em O génio do escritor está também de pesadelo saída de uma tela de Hie-
1998. Seis anos depois, ei-lo de novo. em ter sabido escolher temas que ronymus Bosch, com uma criatura
A Possibilidade de uma Ilha é publica- parecem improváveis, nocivos, frac- de BD americana, com o assassino
do em 2005. Os temas caros são no- turantes, com a ideia de federar, de em série e o imperador Palpatine da
vamente convocados, de forma es- ser acessível ou consensual. Fez, Guerra das Estrelas. Felizmente, pos-
pantosa. Enquanto seguimos a vida portanto, sucessos comerciais e crí- sui uma qualidade maior: o humor e
de Daniel1, comediante de sucesso ticos falhados. a autocrítica. Deixemo-lo falar de si
6 | ípsilon | Sexta-feira 16 Janeiro 2015
France Orange Mécanique (o que lhe
valeu ser classificado como de extre-
ma-direita por certos editorialistas).
A tendência na Ring é crítica em re-
lação ao islão, pró-Bush e anti-siste-
ma, com posições de direita, portan-
to. E Houellebecq afirma que “a Ring
é o melhor site de informação”. Su-
per-inapropriado... E porque não?
Entre os que O homem é inapropriado em todos
os aspectos. As suas relações com
desfilaram no personalidades ambíguas já não sur-
preendem muita gente.

domingo, em Podem escrever-se


coisas más com maus
Paris, com a sua sentimentos
boa consciência, Dissemos que não se faz boa litera-
tura com bons sentimentos. Mas,

há quem tenha no momento em que é lançado Sub-


missão, a ideia de que se podem
escrever coisas más com maus sen-
sido dos timentos impõe-se. Quase ninguém
ainda leu o livro que eclipsa todos
primeiros a dizer os outros nesta rentrée (como fre-
quentemente acontece com Houel-
que a Charlie lebecq), mas o fragor surdo da po-
lémica já se faz ouvir ao longe. Já
Hebdo estava a um mês antes se levantavam as pri-
meiras vozes a denunciar um livro
pedi-las. O que qualificam de râncido, nausea-
bundo, islamofóbico, assustador
escritor não tem — em suma, perigoso e indigno de
um grande escritor.

de estar O primeiro problema é que Sub-


missão vem colocar-se no cimo de

preocupado com uma pilha de livros que batem na


mesma corda: a do declínio francês

uma parte da face ao perigo muçulmano. Há 15


anos que esta ideia regressa inaba-

população (...) A lavelmente ao primeiro plano. O úl-


timo escândalo até à data é o livro

literatura é um do editorialista Eric Zemmour, mui-


to famoso em França, intervindo na
rádio, na TV, na imprensa e nos seus
território sagrado, livros. Embora se considere eterna-
mente censurado pelos bem-pensan-
temos o direito de tes do “sistema”, vemo-lo por todo
o lado, de manhã à noite. Zemmour
forçar a nota. publicou Le Suicide Français. Vendas
recorde para este livro que traça um
Temos direito ao retrato arrasador da França e apon-
ta sem hesitar os responsáveis pelo
mau gosto e à declínio: os imigrantes, os homosse-
xuais, as mulheres (ou, pelo menos,
blasfémia.” as feministas) e, depois, a esquerda,
e também, um pouco, a direita, to-
próprio. Eis um extracto de O Mapa
e o Território, onde coloca em cena
Voltei a recair completamente ao nível
da charcutaria”, prossegue Houellebe-
Na vida, em torno de Houellebecq
gravita a galáxia Houellebecq. Já não Emmanuel Pierrat, dos os políticos e, claro, os jornalis-
tas e os censores — em suma, tudo o
uma miríade de personagens reais
do mundo das artes, incluindo — e
sobretudo — ele mesmo:
cq sombriamente. Realmente, a mesa
estava repleta de embalagens de chou-
riço, de mortadela, de salame. Estende
está tão solitário, o escritor goncour-
tizado: esquerdistas intelectuais de
aparência igualmente desleixada e
advogado que não é branco, sexagenário, ca-
tólico e heterossexual.
Temos, então, um Houellebecq
“Reconhecerá facilmente a casa, é o a Jed um saca-rolhas e, logo que a gar- suja, mas também celebridades, es- que cavalga esta onda salobra da is-
relvado mais desleixado das redonde- rafa é aberta, engole um primeiro copo critores famosos e outras persona- lamização da França com o cenário
zas”, dissera-lhe Houellebecq. ‘E talvez de um só trago, sem cheirar o bouquet gens mais controversas ou dificil- da chegada ao poder de um Presi-
de toda a Irlanda’, acrescentara.” do vinho, sem sequer se entregar a um mente classificáveis de que a França dente da República muçulmano,
simulacro de degustação. Jed tira uma possui o segredo. Detenhamo-nos chamado Mohammed Ben Abbas, e
“Bateu pelo menos dois minutos à por- dúzia de grandes planos, tentando va- um instante num extraordinário jan- a poligamia, e a exclusão das mulhe-
ta, sob chuva forte, antes de Houellebe- riar os ângulos.” tar. A 14 de Novembro de 2010, dia res do mundo do trabalho, e o esta-
cq abrir. O autor d’As Partículas Ele- de remodelação ministerial, o pre- belecimento de uma sharia light —
mentares envergava um pijama com Houellebecq, o homem, até então sidente Nicolas Sarkozy e a sua mu- tudo isto sob o olhar desolado de
riscas cinzentas que o fazia parecer-se incompleto, acede à completude. lher, Carla Bruni, convidam, em franceses ultrapassados e apáticos.
vagamente com um presidiário de uma Entra para o panteão, conquistando honra de Houellebecq, algumas per- E tudo isto é muito. Cá estamos, é o
telenovela; o cabelo estava despenteado o seu graal, o seu Goncourt, em 2010, sonalidades das artes e dos media. choque de Submissão. Coloca-se en-
e sujo, o rosto vermelho, quase afogue- com O Mapa e o Território. O seu quin- Por seu lado, Houellebecq convocou tão a questão da responsabilidade
ado, e cheirava um pouco mal. A inca- to romance. O Goncourt é atribuído a editora-executiva da Playboy, que das elites e dos intelectuais. Porque,
pacidade de fazer a higiene pessoal é no muito chique e mítico Restauran- lhe inspirou uma personagem em A se nos apraz designar como causa
um dos sinais mais seguros de um esta- te Drouant, em Paris. Nesse dia, a Possibilidade de Uma Ilha. Inapro- dos nossos males responsáveis saí-
do depressivo, recorda Jed.” agitação em torno do frágil Houelle- priado. Convidou também o enig- dos do povo (imigrantes, professo-
becq é considerável. Ei-lo cercado mático e muito direitista David Ser- res, minorias), porque não interro-
“Com efeito, restos de tostas e de fatias pelas objectivas, sacudido como uma ra, que dirige uma revista on-line, garmo-nos sobre a responsabilidade
de mortadela juncavam os lençóis, palha, um pouco esgazeado e perdi- Ring, e publica escritores como Lau- dos responsáveis pelo país, os líde-
manchados de vinho e queimados, aqui do, mas exultante. Acaba de entrar rent Obertone, autor de uma obra res de opinião, as elites: os políticos,
e ali, por cigarros.? “Voltei a recair... na História. sobre a delinquência intitulada La os media e os intelectuais.
ípsilon | Sexta-feira 16 Janeiro 2015 | 7
Para melhor s
A escolha, por Houellebecq, deste Lyon, e a Liga dos Direitos do Ho-
tema candente que esgota os france- mem, que o acusava de racismo. Du-
ses há 15 anos pode ser considerada rante um ano elaborámos uma lista
unicamente artística? Houellebecq é de intelectuais que chamámos a
demasiado sensível ao ar do tempo apoiá-lo. Foi a debandada geral. Aca-
e ao jogo mediático para ignorar a bámos com cinco testemunhas, entre
onda de indignação e a ressaca de as quais o escritor Philippe Sollers e
aprovação que se vão seguir. Teve de Fernando Arrabal, que fora persegui-
prever e desejar o (bad) buzz. Aliás, do sob a ditadura de Franco por blas-
no dia do lançamento do livro — 7 de femar contra Cristo. Depois, era a Um ano de apostas na não-ficção
Janeiro —, aos microfones da Radio indignação de jornalistas do mundo
France Inter, o crítico Augustin Tra- inteiro. Tínhamos o mundo intelec- para os leitores que querem interpretar
penard leu uma passagem de Submis- tual contra nós ou à distância. Ti-
são em que Houellebecq fala do gos- nham acontecido os atentados do 11 a actualidade. Também um ano de
to do escritor Huysmans pela discór- de Setembro (as vendas do livro Pla-
dia. O jornalista lê o que Houellebecq taforma caíram a pique). E depois, literatura polémica. Por Isabel Coutinho
escreveu: “Huysmans tem, antes do na altura do julgamento, houve outro
mais, necessidade de causar escân- atentado em Bali, contra uma disco-
dalo, de chocar o burguês, naquilo teca. Ora esse era exactamente o ce- FOTO DE ARQUIVO DE SVETLANA ALEXIEVITCH

que se parece bastante com um plano nário que Houellebecq descrevia em próximos meses, essa tendência
de carreira.” Plataforma. Pela minha parte, decidi parece ter sido levada em conta.
“– Quer dizer que isso se aplica a invocar o ‘direito à blasfémia’. A au- Na editora Gradiva, até ao final do
mim?”, pergunta Michel Houellebe- diência durou nove horas, a tensão ano, ficará praticamente
cq. era muita. Mas senti que a sala, a pou- concluída a recolha e a edição de
“– Estou a colocar-lhe a questão. co e pouco, reflectia. No fim do dia, toda obra publicada do académico
Você também choca o burguês”, res- saímos do tribunal: tínhamos dado a Eduardo Lourenço e que estava
ponde Trapenard. volta ao assunto, Houellebecq tinha dispersa. Começa com Do Brasil:
“– OK, aparentemente, sim.” razão. Como por magia, os apoios Fascínio e Miragem este mês; Sobre
“– Trata-se de um plano de carrei- que nunca tínhamos conseguido de- a Pintura em Março; Salazar como
ra?” sataram a telefonar: ‘Já agora, lamen- Questão em Maio; Requiem por
“- Hum... enfim, sim”, admite Hou- to não ter estado presente, mas se Alguns Vivos em Julho; O Cinema
ellebecq. precisares...’” como Mitologia Cultural em
“– Ah, uma cacha, o plano de car- Jean Birnbaum, o chefe de redac- Setembro; Estudos Camonianos
reira de Michel Houellebecq: chocar ção do Le Monde des Livres, mostrou- (título provisório) em Novembro.
o burguês. se severo no site do Monde.fr sobre Também entre os lançamentos
“- Não mais do que Huysmans, mas Submissão. “Um livro que suscita a marcantes dos próximos meses,
também não menos.” náusea, a revolta.” Confirma-nos ao ainda sem título em português,
É claro que ninguém sonha asso- telefone o seu ponto de vista, simul- está aquele que foi considerado o
ciar Houellebecq aos últimos e trági- taneamente intransigente em relação livro estrangeiro mais importante
cos acontecimentos em França. Cro- ao aspecto puramente estilístico, mas publicado em França em 2013,
nologicamente, é impossível. Embo- igualmente em relação ao conteúdo: obtendo o Prémio Medicis para
ra tenha pronunciado estas frases “Do ponto de vista literário, este livro livro estrangeiro: La Fin de
cheias de nuances em 2001, na revis- não é um acontecimento. Somos mui- L’Homme Rouge, da escritora e
ta Lire: “A religião mais estúpida é, tos a dizê-lo: imita os seus imitadores, jornalista Svetlana Alexievitch,
apesar de tudo, o islão. Quando le- é bastante preguiçoso na sua cons- que no ano passado apareceu
mos o Corão, ficamos abismados.
abismados! (...). O islão é uma religião
perigosa, e isto desde que apareceu.
trução, tem facilidades. Sente-se que
ele pega nos mesmos truques, em
temas que antes tratava com virtuo-
Svetlana Alexievitch como forte candidata ao Nobel.
Está a ser traduzido do russo pela
Porto Editora, que o publicará em
Felizmente, está condenado. Para já, sismo mas desta vez com um tom ‘já La Fin de L’Homme Rouge, da Abril. “A escritora é um fruto da
porque Deus não existe e, mesmo conhecem esta cantiga’.” escritora russa que no ano situação criada com a Perestroika
que sejamos estúpidos, acabamos E sobre a noção de responsabilida- passado apareceu como forte e com a queda do império
por perceber isso. A longo prazo, a de dos autores: devemos considerá- candidata ao Nobel, sai em Abril soviético. Ela é uma russa, na
verdade triunfa. Depois, o islão está los puros escritores ou eles são outra verdade nascida na Ucrânia e de
minado internamente pelo capitalis- coisa? “Não se pode exigir a um es- família bielorussa. Este livro é o
mo. O que mais podemos desejar é critor que seja moderado ou pruden- retrato do homem soviético antes

N
que triunfe rapidamente. O materia- te”, prossegue. “Mas como dizia Sar- a sua primeira edição e depois da Perestroika, conta-nos
lismo é um mal menor. Os seus valo- tre: ‘As palavras são armas carrega- deste ano, o Babelia, como era a vida quotidiana de um
res são desprezíveis mas, apesar de das’. É preciso ter mesmo curta suplemento literário do cidadão soviético antes da
tudo, menos destrutivos, menos cru- memória para não se ser reenviado jornal espanhol El País, Perestroika e o que passou a ser
éis do que os do islão.” a períodos muito obscuros da nossa anunciava na capa: “O depois”, diz o editor. Na Relógio
É nessa altura que o advogado pa- História quando se lê em Submissão ensaio volta a estar em D’Água, em Fevereiro, será
risiense Emmanuel Pierrat encontra sobre a cobardia, sobre a pertença primeiro plano”. Como os leitores publicado O Que Quer a Europa?,
Houellebecq: “Michel Houellebecq de todas as personagens a um grupo querem “dar sentido a um mundo de Slavoj Zizek e de Srecko Horvat,
tinha recusado o advogado da edito- religioso por puro oportunismo, co- desconcertante”, procuram com prefácio de Alexis Tsipras.
ra Flammarion, que queria que se mo isco para o dinheiro e para o sexo. “chaves” na filosofia, na política e De um dos comentadores
fosse pedir desculpa publicamente, Nunca por espiritualidade. Não há na ciência. económicos mais influentes, o
se possível, diante da Grande Mes- ninguém no livro que se converta ao Recentemente, o editor Manuel editor do Financial Times Martin
quita de Paris. Ora, Houellebecq que- islão por convicção. É incrível, Michel Alberto Valente defendeu o Wolf, ver-se-á no Clube do Autor
ria defender a sua liberdade de ex- Houellebecq joga tudo no facto de mesmo. “Neste momento The shift and the schocks, livro
pressão e explicar-se. Procurou-me que haverá um público amnésico, assistimos cá, como lá fora, a uma sobre aquilo que aprendemos — e
e falámos todos os dias durante esse bastante desinvolto ideologicamente certa mudança no paradigma ainda temos de aprender — com a
Verão. Veja como ele é: não pode res- para se sair com o argumento estú- editorial e a uma maior atenção crise. E na Bertrand, este mês,
ponder a uma pergunta sem fazer pido ‘oh, afinal de contas não é mais dos leitores à não-ficção do que sairá A Ética das Finanças, de
uma longa pausa e inalar profunda- do que um romance’. Houellebecq havia até aqui”, disse na sessão de Robert J. Shiller, Nobel da
mente o fumo de um cigarro. No tri- sabe muito bem quais as consequên- apresentação das novidades do Economia em 2013, visão analítica
bunal, isso era impensável. Portanto, cias políticas da linguagem e da lite- grupo Porto Editora. “Vejam o do sistema financeiro e de como
desabituei-o à força de adesivos e ratura. Imagine-se o que um jovem êxito que está a ter um livro difícil este deve funcionar. Também os
treinei-o para responder com voz for- da cultura muçulmana sente perante como o é O Capital no Século XXI, autores de Freakonomics e
te e de forma clara e rápida. Foi uma isto, é de chorar.” de Thomas Piketty, que vai com Superfreakonomics, Steven Levitt e
loucura. Tínhamos contra nós o islão Consequências do ruído mediáti- quase dez mil exemplares Stephen Dubner, estão de volta
francês, a Liga Islâmica Mundial (um co anti-árabe: à força de repetir, con- vendidos só em Portugal, o que com Pense como um Freak, na
órgão da Arábia Saudita), a Federação tribui para instalar uma atmosfera para um livro daqueles é notável”. Presença.
Nacional dos Muçulmanos em Fran- que permite validar uma desconfian- Quando se olha para o que vai Um livro “híbrido” da espanhola
ça, as grandes mesquitas de Paris e ça generalizada em relação aos ser publicado em Portugal nos Rosa Montero, escrito depois da
8 | ípsilon | Sexta-feira 16 Janeiro 2015
r se entender o mundo
morte com cancro do
companheiro com quem a “Assistimos Palahniuk. Dois livros que só serão
publicados nos EUA na próxima
romances de João Tordo, bem
como um romance e uma nova
escritora viveu 21 anos e inspirado
no diário que Marie Curie a uma mudança no rentrée, em Setembro, estão já
agendados para sair em Portugal
enciclopédia da estória universal
de Afonso Cruz (na Alfaguara).
escreveu depois da morte do
marido, A Ridícula ideia de não paradigma na Dom Quixote. O colossal City
on Fire, de Garth Risk Hallberg,
Novos livros de Pedro Vieira
(Quetzal), Jorge Reis-Sá (Guerra &
voltar e ver-te, sai este mês na
Porto Editora. Começa com a editorial e a uma mil páginas que foram a sensação
da Feira do Livro de Londres de
Paz), dos prémios LeYa João
Ricardo Pedro (D. Quixote) e Nuno
frase: “Como no he tenido hijos, lo
más importante que me ha sucedido maior atenção 2013, será publicado este ano
ainda sem data, e em Outubro
Camarneiro (Se Eu Fosse Chão, D.
Quixote) e um novo romance de
en la vida son mis muertos”. Em
Maio, na mesma editora, vai ser dos leitores podemos contar com Purity, de
Jonathan Franzen.
Ana Margarida de Carvalho,
Grande Prémio de Romance e
publicado 1889, do jornalista e
escritor brasileiro Laurentino à não-ficção” Adília Lopes e Teresa
Novela APE, na Teorema.
Em Outubro, publicar-se-á na D.
Veiga de regresso
Gomes, que encerra a sua
premiadíssima trilogia e que Manuel Alberto Quanto às novidades de autores
Quixote a Antologia Poética de
Adonis, com tradução e
recebeu o Prémio Jabuti para o
Melhor Livro de Não-ficção 2014. Valente, editor portugueses, sabe-se que a autora
de culto Teresa Veiga regressa à
organização de Nuno Júdice. Em
Fevereiro, na Relógio D’Água, sairá
O quinto volume da História de ficção com um livro de contos, Milreos, de João Miguel Fernandes
Portugal — Os Filipes, de António a sair em Março na Colecção de Jorge, e na Assírio & Alvim um
Borges Coelho, sairá em Maio na Ficção de Língua Portuguesa da novo livro de poemas de Adília
Caminho; para Setembro ou Tinta-da-China. António Lobo Lopes, Manhã. Em Março, uma
Outubro, a editora prevê Diários Antunes terá novo romance em edição da Obra Poética de Sophia
da Prisão, de Luandino Vieira. Outubro, Da Natureza dos Deuses de Mello Breyner Andresen na
Em ano de centenário da duas vezes distinguida com o Man (D. Quixote). Haverá novo roman- mesma editora incluirá alguns
Orpheu, haverá uma programação Booker Prize, Hilary Mantel, e que ce de Mia Couto, ainda sem título, poemas inéditos que integram o
na Assírio&Alvim com forte também causou polémica no na Caminho, e também novo espólio da autora em depósito na
presença dos modernistas; na Reino Unido, O Assassinato de romance de Pepetela e um livro Biblioteca Nacional.
Colecção Pessoa, dirigida por Margaret Thatcher, sairá em Março em prosa de Nuno Júdice (na D.
Jerónimo Pizarro na Tinta-da- na Jacarandá. E o mais recente Quixote).
China, sairá em Março 1915, o Ano romance de Martin Amis, The Zone Esperam-se também novos dois
do Orpheu — edição fac-similada. of Interest, abordagem satírica dos
campos de concentração, será
ANDRE-LOEYNING Karl Ove Knausgård
As vidas deles publicado pela Quetzal. O segundo volume de A Minha
Uma biografia de Agostinho da Muitas obras premiadas Luta do escritor norueguês que é
Silva (1906-1994), O Estranhíssimo chegarão às livrarias portuguesas. dos mais recentes “fenómenos”
Colosso, realizada pelo académico Os mais recentes livros do Nobel da literatura nórdica sairá em
António Cândido Franco, é da Literatura 2014, Patrick Maio
esperada na Quetzal em Fevereiro. Modiano, L’Herbe des nuits e Pour
E na Planeta, em Abril, será que tu ne te perdes pas dans le
contada a história do quartier, são lançados pela Porto
narcotraficante Pablo Escobar Editora. A obra que recebeu o
pelo seu filho, em Meu Pai, de Juan Man Booker Prize 2014, A Senda
Pablo Escobar. No mesmo mês, a Estreita do Norte Profundo, de
mesma editora publicará a Richard Flanagan, está prevista
autobiografia do actor que se para Fevereiro na Relógio D’Água.
tornou uma lenda dos Monty O Prémio Femina 2013, A Estação
Python: Então, de qualquer da Sombra, de Léonora Miano,
maneira..., de John Cleese. sairá na Antigona em Abril. O
Na Colecção de Viagens dirigida prémio Alfaguara 2014, O mundo
por Carlos Vaz Marques na Tinta- de fora, de Jorge Franco, e Así
da-China, serão lançados Era Uma empieza lo malo, o novo romance
Vez em Goa, de Paulo Varela de Javier Márias, considerado
Gomes e o clássico Viagem à Volta pelos críticos do Babelia como a
do Meu Quarto, de Xavier de obra mais importante publicada
Maistre. Em Setembro, na em Espanha no ano passado,
Antígona, sairá La Nebbiosa (título sairão na Alfaguara.
original), do guião-romance de O segundo volume de A Minha
Pier Paolo Pasolini que estava Luta, de Karl Ove Knausgård: O
inédito na sua versão integral. “Do Homem Enamorado, vai ser
guião inicial, repleto de lançado pela Relógio D’Água em
referências políticas e Maio, e a Sextante termina a
sociológicas, (quase) nada ficou, publicação da saga de Edward St
nem mesmo o título, no filme Aubyn com o quinto volume, Por
realizado por Pino Serpi e Gian Fim, em Abril.
Rocco e proibido a menores de 18 Na Quetzal sairá Cifra, do chinês
anos, exibido numa única sala de Mai Jia. uma das apostas do ano.
Milão”, segundo o editor. Na Gradiva esperam-se Ian
McEwan (The Children Act, Março),
Deu polémica Kazuo Ishiguro (The Burried Giant,
Entre os lançamentos mais Abril), Peter Carey (Amnésia,
importantes deste primeiro Agosto) e Umberto Eco (Número
semestre está Submissão, o Zero, Maio). Na Marcador, ainda
romance de Michel Houellebecq a sem título em português, sairão
publicar pela Alfaguara. A Imperial Bedrooms, de Bret Easton
colectânea de contos da autora Ellis, e Beautiful You, de Chuck
ípsilon | Sexta-feira 16 Janeiro 2015 | 9
muçulmanos: -> estigmatização -> poderia, dada a sua homossexuali- va-se, faz-se de ingénuo. Na véspera cial do entretenimento e já não pare-
discriminação -> exclusão -> retrac- dade, sentir-se próxima de publica- do lançamento do livro, Houellebecq cia suscitar mais do que uma estranha
ção comunitária da população visa- ções antimuçulmanas. “Os muçul- está no telejornal da noite da France unanimidade. Finalmente, mostrou
da -> risco de recuperação por ex- manos sentem que são atacados sem 2: o pivô, David Pujadas, interroga-o que faz o que quer e que continua a
tremistas islamistas-> risco de radi- terem a possibilidade de ripostar”, sobre o quadro geral apresentado no ser, em última instância, o único se-
calização dos indivíduos mais frágeis diz Zeraoui. “Mesmo que pudessem livro, que alimenta o medo, e sobre nhor de si mesmo.”
-> violência -> nova desconfiança ge- fazê-lo, torna-se muito difícil, na me- a responsabilidade subjacente do au- Os acontecimentos actuais repli-
neralizada, etc. dida em que defrontam pugilistas tor no seu alastramento. Por três ve- cam os de 2001. Um livro polémico,
No dia em que foi lançado Submis- profissionais que usam de má-fé e, zes Pujadas regressa à pergunta, por declarações islamofóbicas então, um
são, 7 de Janeiro de 2015, a revista
satírica Charlie Hebdo saiu também,
por vezes, de verdades que carecem
de respostas precisas e complexas.
três vezes Houellebecq responde ao
lado. O jornalista conclui: “Parece
“Nós, alguns livro sensível hoje, e a coincidência
de atentados hediondos. Catorze
com uma caricatura de Houellebecq
na capa. E estas palavras sobre a fi-
É difícil criticarmos a nossa comu-
nidade numa altura em que a palavra
minimizar a questão.”
Então mostra reacções de leitores, media, fazemos anos depois, o advogado Emmanuel
Pierrat pensa como pensava e não
gura do escritor: “As previsões do
mago Houellebecq: em 2015 vou fi-
de ordem é a união.” Para Zeraoui,
não é possível deixar de se alinhar
entre as quais a de Malek Chebel,
filósofo argelino, tradutor do Corão, desta ficção o hesita em afirmar: “Entre aqueles que
desfilaram no domingo, em Paris,
car sem dentes... Em 2022 observa-
rei o Ramadão!”
pela imagem viril do irmão ou do pai
quando esta é atacada pelo mundo
antropólogo das religiões. E cita-o:
“Quando se é um grande escritor, acontecimento com a sua boa consciência, há quem
tenha sido dos primeiros a dizer que
Muito bad timing, o dia do lança-
mento de Submissão, que foi o dia da
exterior. “A exacerbação, por parte
dos muçulmanos, da virilidade (de
têm-se mais responsabilidades. Sen-
te isso?” Resposta de Houellebecq: do dia, fazemos a Charlie Hebdo estava a pedi-las e
dos primeiros a atiçar o fogo nos su-
capa da Charlie Hebdo satirizando
Houellebecq, e também o do ataque
terrorista contra a revista que condu-
que os radicais são a encarnação: o
super-homem, o combatente, o ho-
mem que não sofre de nenhuma ta-
“Não me lembro de nenhum caso
em que um romance tenha alterado
o curso da História.” Seguem-se vá-
de um escritor, búrbios. O escritor não tem de estar
preocupado com uma parte da po-
pulação. Se assim for, entra-se numa
ziria ao balanço dramático de 17 mor-
tos. É difícil não nos sentirmos afec-
ra ocidental), é uma resposta a esse
ataque à virilidade. E os gays saídos
rias não-respostas, como “Nem uma
coisa nem outra”, “Não sei, já não
que tem o direito lógica que vai contra os nossos prin-
cípios. Houellebecq é um escritor,
tados por esta funesta carambola de
acontecimentos, entre os quais sen-
dessa comunidade muçulmana não
têm remédio se não associar-se a es-
sei mesmo”, “Então não aprovo nem
condeno [a personagem principal,
de pensar o que não um panfletário ou um jornalista
como Zemmour. A literatura é um
timos existir uma ligação difusa.
É então que Houellebecq desapa-
sa palavra de ordem implícita: não
haverá degenerados a manchar a
que se converte ao islão por facilitis-
mo]”.
quiser, o território sagrado, temos o direito de
forçar a nota. Temos direito ao mau
rece da confusão. Fazem-no sair de
Paris, para sua segurança, e também,
nossa unidade, a nossa postura, o
nosso orgulho singular. Há que ser
Esta questão da responsabilidade
dos intelectuais e da comunicação
acontecimento gosto e à blasfémia. Se os escritores
deixaram de ter direito a isso, então
dizem-nos, porque precisava de des-
cansar antes de retomar a promoção
masculino.” É a lei do silêncio, não
se participa no debate.
social dá azo a viva discussão no pro-
grama C à vous da France 5. Edwy
político da rentrée acabe-se já com a literatura.”
François Samuelson, agente e ami-
do livro. Outros fazem o mesmo, pru-
dentemente, depois de terem defen-
Para Frédéric Pichon, licenciado
em Árabe, professor de Geopolítica
Plenel, politicamente de esquerda,
director do site Médiapart e ex-direc- (...). A que é que go de longa data de Houellebecq, to-
ma também a defesa do escritor. Leu
dido veementemente a tese de Hou-
ellebecq. Alain Finkielkraut, por
e consultor de comunicação social
que contacta via Internet com jiha-
tor do Le Monde, atira: “Nós, os me-
dia, alguns media, fazemos desta damos relevo? A Submissão há oito meses, mas há uma
semana que é solicitado por todos os
exemplo, filósofo famoso, conhecido
pelas suas posições de direita e anti-
distas, se é evidente que alguns líde-
res de opinião instrumentalizam este
ficção o acontecimento do dia, faze-
mos de um escritor, que tem o direi- que o islão é um órgãos de comunicação. Tem tempo
para nos responder: “Constato a ir-
imigracionistas: o seu assessor de
imprensa explica ao Ípsilon que do-
filão antimuçulmano, não é isso que
leva à radicalização. De resto, consi-
to de pensar o que quiser, o aconte-
cimento político da rentrée. Após problema, que os responsabilidade daqueles que cen-
suram uma alegada islamofobia, que
ravante não dará mais entrevistas
sobre Houellebecq, tendo em conta
dera o romance de Houellebecq irre-
alista. Não seria possível eleger um
três meses de zemmouradas (...),
consideramos normal, nós, jornalis- muçulmanos são são os mesmos que denunciavam a
islamofobia e o mau gosto das cari-
o que acaba de acontecer. Três dias
antes, a 4 de Janeiro, ainda dizia no
programa de Élisabeth Levy na rádio
presidente muçulmano “pela simples
razão de que não existe uma comu-
nidade muçulmana em França”: “Há
tas, fazer eco disto, promover isto
(...). A que é que damos relevo? A
que o islão é um problema, que os
um problema (...). caturas da Charlie Hebdo. Faz-se co-
mo o pirómano que, depois de atear
um incêndio, chama os bombeiros!
RCJ: “Michel Houellebecq é o nosso
grande romancista do possível. Entre
muitas correntes no islão: a francesa,
a magrebina, a turca, etc. Não conse-
muçulmanos são um problema. Há
15 anos que somos um país que pro-
Dá-se conta da O escritor escreve um livro, trata-se
de uma fábula política, como Voltai-
a clonagem generalizada e o futuro
turístico da França, compraz-se no
guiriam chegar a um consenso sobre
um presidente.” Em contrapartida,
move a discriminação em bloco de
uma população devido à sua origem,
violência que isto re poderia ter escrito. Infelizmente,
por um terrível acaso, a realidade foi
romance de antecipação. Soumission
não foge à regra mas, desta vez, Hou-
avança uma explicação curiosa. Há
muito que a nossa cultura ocidental
ao seu credo, à sua cultura quando
falamos dos muçulmanos, do islão...
exerce sobre as ao encontro da ficção. É como se dis-
séssemos a uma rapariga violada que
ellebecq toca na ferida, e os progres-
sistas de quem era a coqueluche,
deixou de oferecer um modelo espi-
ritual interessante. “Ela esqueceu o
Dá-se conta da violência que isto
exerce sobre as pessoas em causa?
pessoas em foi bem feito porque se veste de for-
ma provocante. Peço desculpa, estou
apesar do seu pessimismo, soltam
ais (...). A grande preocupação da-
sagrado, já não é capaz de transmitir
valores. O que uma parte da juventu-
Michel Houellebecq é islamofóbico,
reivindica isso mesmo há 15 anos,
causa? Michel um pouco exaltado, mas isto deixa-
me louco.”
queles que se apresentam como re-
beldes, refractários, resistentes, é
de muçulmana vai procurar noutro
lado remete para o nosso vazio.” À
basta ler as suas entrevistas, e vocês
fornecem-lhe um púlpito.” Houellebecq é Samuelson acrescenta, por fim,
que “está tudo bem”, Michel Houel-
que nada obste às reivindicações do
islão e à sua progressão, e essa é, a
força de ver vídeos de jihadistas, dis-
tinguiu três noções importantes, três
Contactámos David Serra, director
da revista Ring, que se mostra, pelo islamofóbico (...), lebecq regressou a Paris. Não vamos
jogar ao “Rapto de Michel Houelle-
meu ver, a mistificação da esquerda
actual, a sua suprema mentira: quan-
elementos que, involuntariamente,
são demonstrados pelos jovens que
contrário, bastante entusiasta: “Para
encontrar o espírito de uma época basta ler as suas becq parte 2”! “Está sobretudo cons-
ternado com a morte do seu amigo
do diz ‘mudança” quer dizer ‘sub-
missão’.”
se filmam, por vezes, antes de abra-
çar a violência: “1) A regeneração: a
não mergulhamos nas notícias dos
jornais, procuramos o escritor que entrevistas, e Bernard Maris [jornalista e econo-
mista que escreveu Michel Houellebe-
O seu amigo Emmanuel Carrère,
também ele um escritor maior, Pré-
mio Renaudot por Le Royaume, de-
nossa radicalização vai fazer-nos mu-
dar de vida. Metro, trabalho, dormir,
metro, trabalho: isso já eu rejeitava
‘agarrou o século pela garganta’. Um
autor autêntico atira sobre a multi-
dão, rasga o espaço público, e eu fico
vocês fornecem- cq économiste, retomando as análises
económicas do autor que considera-
va pertinentes]. Foi isso que o atingiu.
clara à propósito de Soumission: “Um
livro profético, na linha de 1984 e de
em França. Acabou-se o haxe e os
desacatos, encontrei um sentido pa-
contente por reencontrar um pouco
o Michel Houellebecq de Plataforma,
lhe um púlpito” Está-se nas tintas para a matilha!”
Houellebecq vai sair-se bem. Sai-
Admirável Mundo Novo, mas mais po-
deroso.”
ra a minha vida. 2) A emoção: os in-
divíduos choram de emoção antes de
que me dá, desta vez, lições de polí-
tica, de teologia, de moral e de eco-
Edwy Plenel, se sempre bem. Não será um Dorian
Gray do avesso, trazendo no rosto
Fouad Zeraoui está numa posição
privilegiada para avaliar o impacto
passar ao acto, manifestam o seu
amor pelos ‘irmãos’ que encontra-
nomia (...). Não conheço as forças
actualmente em jogo na cabeça de
director do site os sulcos tortuosos da decadência
de um pensamento ultra-sedutor
destes discursos na juventude mu-
çulmana de França. Fundador da
ram. 3) A ascese: o aspecto marcial,
sacrificial, são a sua nova vida.” De
Michel Houellebecq, mas sinto que
ainda é, na sua solidão genuína, uma
Médiapart que se corrompeu na busca de mais,
de melhor, de sempre ainda mais
associação Kelma (“palavra”, em um lado, portanto, os líderes de opi- força em acção num turbilhão de es- forte. Acrobata de equilíbrio inso-
árabe), de uma revista gay e étnica, nião que estigmatizam; do outro, um critores com plásticas, com rostos lente mesmo quando o vento sopra,
e promotor das noites Black Blanc vazio espiritual que nada vem preen- idênticos (...). A identidade é o tema encontrará a forma de aterrar de pé.
Beur que organiza em Paris, tem co- cher... até que se têm maus encon- central, aquele que está em todas as Afinal de contas, trata-se do grande
mo alvo uma população apanhada tros. cabeças, incluindo aquelas que pare- homem das letras francesas. A sua
entre dois fogos: os muçulmanos O último problema é que Houelle- cem desprezá-lo. O seu público habi- produção romanesca cifra-se em seis
homossexuais. Confrontados com o becq finge não compreender bem o tual desejava esse tema, mas já não livros. Seis livros apenas, uma obra
racismo fora de casa, são vítimas de que querem dele. Ser responsável? o esperava. Michel Houellebecq pa- imensa. Tivemos Houellebecq, te-
homofobia dentro dela. Eis uma po- Responsável por quê? Por nada, uma recia domesticado depois do Gon- mos agora Submissão, aguardamos
pulação de origem imigrante que vez que, quando questionado, esqui- court. Aparecia na comunicação so- a continuação.
10 | ípsilon | Sexta-feira 16 Janeiro 2015
E

DANIEL ROCHA
m 2008, o jornalista inglês vestígios que iria encontrar, do im- uma paragem de alguns dias em São
Daniel Metcalfe ouviu na rá- pério marítimo português aos con- Tomé e Príncipe (estada descrita nos
dio uma canção de Ana Mou- tornos da Guerra Fria em África, dois primeiros capítulos do livro
ra. Mais do que pela música, passando pelo comércio de escra- Dália Azul, Ouro Negro) para se acli-
ficou fascinado pelos sons vos, e sentindo-se “cada vez mais matar aos efeitos do colonialismo
daquela língua estranha que fascinado por aquele longínquo pa- português e ao seu legado. Depois,
nunca antes ouvira. Começou então ís, um dos mais singulares e envol- já em Luanda, aproveitou a hospi-
a estudar português e a frequentar ventes que é possível visitar”. talidade da casa do amigo para lhe
uma biblioteca londrina na Belgrave Angola simbolizava um importan- servir de base, e usou os transportes
Square, em Londres, a Hispanic and te ponto de viragem entre os conti- públicos entre localidades, nas via-
Luso-Brazilian Council Library, on- nentes, o reposicionamento do mun- gens mais longas (quando não exis-
de se podiam encontrar livros raros do dos ricos em relação a África, tiam ligações, recorreu a ONG ingle-
relacionados com a História de Por- aquilo a que alguns já chamam “co- sas). Fez quatro rotas: de Luanda a
tugal e das suas colónias. “Infeliz- lonialismo em sentido inverso”. “A Saurimo (capital dos diamantes),
mente essa biblioteca já não existe”, minha faceta de viajante queria co- passando por Malanje, no Leste do
conta ao Ípsilon, “era um lugar à nhecer este lugar que vivia um inten- país; de Luanda ao Cuíto Canavale
moda antiga e sobrevivia graças a so crescimento para ver com os meus (a cidade da célebre batalha entre
subsídios”. próprios olhos os tais chefes paste- forças cubanas e sul-africanas), pas-

Angola,
Foi nessa biblioteca que conheceu leiros portugueses a passarem pelos sando por Benguela, Lobito, Huam-
Rui, um jornalista angolano a viver bairros de lata a caminho do traba- bo e Menongue; de Luanda a
entre Luanda e Londres, antigo “tra- lho”, diz Metcalfe em tom jocoso. M’Banza-Congo, já perto da frontei-
dutor dos senhores da guerra no Anos antes, o jornalista financeiro ra Norte; e uma última ao enclave
mato”, opositor e crítico feroz do inglês publicara um livro de viagens de Cabinda, a região petrolífera de
partido que governa Angola desde sobre a Ásia Central, Out of Steppe. Angola.
a independência, o MPLA. Rui con- Agora tinha um novo projecto para Metcalfe registou as inúmeras
tava histórias sobre os “manda-chu- outro livro de viagens: Dália Azul, conversas que teve com as mais va-
vas da comunicação social, os tra- Ouro Negro - Viagem a Angola. Mas riadas pessoas (líderes tribais, tra-

um país
paceiros e os magnatas do petróleo Luanda é a capital mais cara do mun- balhadores da indústria petrolífera,
que estavam a sugar as riquezas na- do e o orçamento de Daniel Metcalfe rapazes da rua), e também com al-
cionais e a transferi-las para as suas não era abonado. Conhecera entre- guns portugueses. “Parece haver
contas bancárias”. Entre as várias tanto em Londres vários angolanos, uma aparente relação de amizade
histórias contadas, havia a daquele e entre eles um que lhe disse que a entre portugueses e angolanos, mas
empresário angolano que tinha em sua família teria todo o gosto em por vezes é complicada, quase am-
casa “uma estátua que urina cham- recebê-lo e acomodá-lo em casa em bivalente. Partilham uma língua e
panhe”, ou a de outro que andava Luanda. Metcalfe estava decidido a um passado. Estranhamente, muitos

com
sempre com “um chefe pasteleiro tentar perceber “que tipo de socie- angolanos não falam nenhuma lín-
português baixinho a correr atrás dade vende hambúrgueres a 30 li- gua africana — circunstância única
dele”. Daniel Metcalfe poucas vezes bras e cobra 300 libras por noite em toda a África subsariana, penso,
ouvira falar em Angola, e a curiosi- num quarto de hotel pavoroso”: “A desdenhando o quimbundo a favor
dade fê-lo perceber que é um país situação é tão extrema que se torna do idioma oficial. Há, claro, aqueles
com uma história difícil e complexa. quase risível. Enfim, um irresistível saudosistas do império, e muita nos-
E quis estudá-la a fundo. “Angola desafio.” Mas ao mesmo tempo que- talgia entre os mais velhos. Mas aos
tem, provavelmente, mais História ria mostrar que não era preciso fretar mais novos apenas interessa o tra-

História
do que aquela a que um país tem um helicóptero ou alugar um jipe balho, são pragmáticos. E à seme-
direito.” para visitar lugares no interior do lhança dos ingleses, por exemplo,
A biblioteca londrina era uma es- país. Assim, viajaria como o comum também me pareceu que os seus
pécie de refúgio espiritual para um dos angolanos, ao contrário de mui- círculos sociais se restringem sobre-
estranho grupo de “intelectuais ana- tos estrangeiros que encontrou (in- tudo aos do seu país.”
crónicos, antigos activistas chilenos, cluindo bastantes portugueses) que Dália Azul, Ouro Negro — Viagem
um poeta goês que se orgulhava de não querem viajar para fora do lugar a Angola, o livro de histórias de um
falar em português erudito e uma onde trabalham por temerem os pe- viajante optimista, prova a ideia

a mais
misteriosa herdeira colombiana”. O rigos. “Recusava-me a ser um desses com que Metcalfe iniciou a viagem,
seu espólio parecia ter estagnado comerciantes-viajantes rabugentos a de que “existia ali algo de invulgar
na década de 1970, na altura em que que se queixam de pagar seis dólares e único e que ainda era possível
os movimentos de libertação das por uma Coca-Cola no vestíbulo de testemunhar cenas inspiradoras e
antigas colónias lusófonas viram um hotel.” ser obsequiado com gestos de ama-
chegar a esperada independência. bilidade espontâneos”, apesar de
Daniel Metcalfe passou então alguns As viagens toda a frustração do povo que ha-
meses a percorrer esse acervo bi- Daniel Metcalfe viajou duas vezes bita os musseques que cercam a
bliográfico e a ler tudo o que lhe para Angola, em 2010 e em 2012, Luanda cosmopolita. É um livro

José Riço pudesse interessar para uma visita


ao país, sensibilizando-o para os
demorando-se no país um total de
três meses. Na primeira viagem fez
que depois de lido não se esquece
tão depressa.

Direitinho Daniel Metcalfe


mmmmm nunca tinha
Dália Azul, Ouro
Negro — Viagem
ouvido falar
a Angola português.
Daniel Metcalfe
(Trad. Susana Um dia ouviu
Sousa e Silva)
Tinta-da-China
cantar Ana Moura
e apaixonou-
se pela língua.
Depois descobriu
Angola e escreveu
um livro.

12 | ípsilon | Sexta-feira 16 Janeiro 2015


Informações 21 790 51 55 · [email protected] · www.culturgest.pt
Ticketline Reservas e informações: 1820 (24 horas)· Pontos de venda: Agências Abreu, Galeria Comercial
Campo Pequeno, Casino Lisboa, C.C. Dolce Vita, El Corte Inglés, Fnac, Megarede, Worten e www.ticketline.sapo.pt

Pocilga
de Pier Paolo Pasolini
Encenação de John Romão
TEATRO QUI 15, SEX 16, SÁB 17 DE JANEIRO · 21H30 · 12€ · M16
Se me visses um só instante como sou na realidade, correrias aterrorizada
a chamar um médico ou uma ambulância. (P.P. Pasolini, Pocilga) · Corpos
e porcos são aqui objeto de uma mesma ocultação e depreciação. Pasolini
conta a história de um homem cuja paixão é motivo de escândalo, e de uma
aliança política para calar “tudo o que não vive”, ou seja, tudo o que não
é visto aos olhos do outro.

Alexandra Grimal e
Giovanni di Domenico
JAZZ CICLO “ISTO É JAZZ?” · SEX 16 DE JANEIRO · 21H30 · 5€ · M6
O que podia ser uma limitação formal – o duo de piano com instrumento
de sopro, uma formação mais usada na música clássica – eles transformam
num jogo de exploração de possibilidades. Compositores de jazz com
formação académica que também são conhecidos pelas suas incursões
na música improvisada, decidiram-se a definir um jogo entre o escrito
e o tocado que salta para fora das margens estabelecidas. Pode soar-nos
familiar, mas depressa se instala um delicioso e subtil inconformismo.

Norberto Lobo
MÚSICA · CULTURGEST PORTO SEX 16 DE JANEIRO · 22H · 5€ · M6
Uma das figuras principais da música portuguesa contemporânea, em
apresentação do novo disco Fornalha.

Amélia com
versos de Amália
Amélia Muge
MÚSICA SEX 23 DE JANEIRO · 21H30 · 18€ · M6
Dificilmente se poderia encontrar quem pegasse nestes poemas de forma
Abertura Oficial
mais inteira, sensível e sublime. (Gonçalo Frota, Ípsilon, crítica 5 estrelas
ao disco Amélia com versos de Amália, 28.11.14)
16-18 Jan
Órgão nos Clérigos I Da música Jonathan Ayerst órgão
16 Sex · 13:00 Igreja dos Clérigos nascem histórias 18 Dom · 12:00 Sala Suggia
Jonathan Ayerst órgão 17 Sáb · 16:00 Sala 2 Ciclo Piano EDP
Serviço Educativo · Concertos para Todos Obras de Bach, Buxtehude,
Rihm e Brahms
Alemanha Medo e desejo
em concerto 17 Sáb · 18:00 Sala Suggia Tradição
Pocilga © Rui Palma

16 Sex · 21:00 Sala Suggia Remix Ensemble Casa da Música coral germânica
Orquestra Sinfónica Obras de Lachenmann e Wagner/Dove 18 Dom · 18:00 Sala Suggia
do Porto Casa da Música Coro Casa da Música
Obras de Weber, Lachenmann Obras de Lachenmann, Hidalgo,
e Beethoven Stockhausen, Hassler e Schütz

MECENAS SERVIÇO EDUCATIVO MECENAS CICLO PIANO EDP APOIO INSTITUCIONAL MECENAS CASA DA MÚSICA APOIO INSTITUCIONAL MECENAS PRINCIPAL CASA DA MÚSICA
MECENAS ORQUESTRA SINFÓNICA MECENAS CICLO BARROCO

APOIO APOIO PROJECTO APOIO PORTRAIT PATROCINADOR ABERTURA PATROCINADORES ANO ALEMANHA PATROCINADOR OFICIAL
ANO ALEMANHA HELMUT LACHENMANN ANO ALEMANHA ANO ALEMANHA
Inês Nadais
A peça que Wim
Vandekeybus
traz agora a
Braga é herdeira
do filme que
rodou na
Wim Vandekeybus tem esta coisa Hungria e que se
encontra em
de se meter com gente que não é pós-produção:
da idade dele. Talk to the Demon, nele, trabalhou
com 45 miúdos
que hoje chega ao Theatro de rua ciganos e
com os seus
Circo, é a peça em que se deixa respectivos

Atiramos dominar por um miúdo de sete


anos. Falámos com o demónio.
cavalos

tijolos,
mas a

vida
DANNY WILLEMS
continua
DANNY WILLEMS

14 | ípsilon | Sexta-feira 16 Janeiro 2015


DANNY WILLEMS
W
im Vandekeybus cres- mo a que fazia há mais de dez anos ceiras, e dei por mim com imenso
ceu com demónios que no fim de Blush: “E tu, engoles?”). tempo livre. Como vinha de traba-
o fazem atirar tijolos e Entre os dois miúdos que aparecem lhar com 45 crianças, achei que de-
pedras a paredes de no palco, há um que teremos de es- via usar essa energia para criar uma
metal, e isto há 27 anos. colher, e certamente escolheremos peça sobre a violência e a crueldade
Foi a milhares de qui- “o miúdo errado, o mais merdoso”, da infância. Basicamente, a ideia era
lómetros, mas até aqui se ouviu o como nos faz engolir, em seco, Jerry encontrar um miúdo que fosse o
estrondo que faziam os rapazes Van- Killick, um dos pais que o coreógra- arquitecto de todo o serão, e deixá-
dekeybus a desabar contra o chão, fo pôs em palco, como se ainda acre- lo controlar os outros seis bailarinos
na língua estranha e suicida que fa- ditasse que seria possível domar a a partir das suas possessões, das su-
lam as peças do coreógrafo flamen- energia primitiva, demoníaca, que as crueldades, dos seus caprichos,
go desde What the body does not re- é libertada assim que a peça come- dos seus jogos mentais.”
member, o muito afirmativo big bang ça (Sarah, que durante os primeiros Muitos dos miúdos que via passar
com que refundou em 1987, a partir meses foi a miúda preterida de Talk à porta do estúdio em Sint-Jans-Mo-
dos escombros em que a tinha dei- to the Demon, é filha do intérprete- lenbeek entraram e foi com eles que
xado, a nova dança belga. fetiche de Vandekeybus, o seu Klaus Vandekeybus começou a levantar
O corpo dele lembra-se — dema- Kinski, mas “faltou a demasiadas Talk to the Demon: “A companhia
siado, diz-nos neste princípio de tar- aulas” e foi substituída entretanto: instalou-se ali há dois anos e meio e
de em que atende o telemóvel para “No mundo do espectáculo, nunca fomo-nos conhecendo pouco a pou-
responder às perguntas que temos se deve trabalhar com crianças nem co. Fiz vários workshops com cerca
sobre o Talk to the Demon, espectá- com animais, e o miúdo que vocês de 15 miúdos — sessões de trabalho
culo que hoje traz ao Theatro Circo, escolheram é ambos”, diz ainda muito abertas, em que não lhes dis-
em Braga, para abrir o ciclo A dança Killick antes de o circo ter verdadei- se que estávamos a trabalhar numa
dança-se com os pés e o programa de ramente lugar, chicotes e tudo). nova produção, e que me permiti-
comemorações do centenário da sa- ram aprofundar imenso as ideias,
la, que se festejará todo o ano mas Trabalhar com o perigo através das tarefas que vamos exe-
sobretudo em Abril. “Claro que o Já não estamos — passaram uns anos cutando e que claramente distin-
meu corpo se lembra. Por exemplo: — no recreio de Radical Wrong, onde guem quais são os melhores. Foi um
passei oito anos a escrever o meu em tempos Vandekeybus encenou casting orgânico, um processo que
último filme [Galloping Mind está em uma adolescência daquelas de cai- se foi afunilando.” Aprendeu muito:
pós-produção e deve estrear-se ainda xão à cova com tendas de campis- que há crianças de oito anos dema-
em 2015] e seria capaz de represen- mo, roupa interior, motas, cerveja, siado adultas, quase velhas, e que a
tar os papéis todos como acho que bebedeiras, bullying, euforia, pala- combinação de que precisava (fia-
deviam ser feitos. Mas há uma altura vrões, sexo forçado e sexo consen- bilidade, frescura, vontade) não se
em que tenho de me afastar e deixar tido, para provar que “não há certo encontra com muita facilidade.
que os actores levem as personagens nem errado numa cabeça com 16 “Gosto muito de trabalhar com o
para lugares que eu não tinha previs- anos, só na cabeça dos pais”. Tem perigo. Se ele não estiver lá, não é
to (a Hungria, por exemplo: foi lá que saudades disso: “É a última idade interessante para quem está a ver.
filmou com dezenas de miúdos de em que ainda não pensas em mor- Claro que quando existe esse opti-
rua, dezenas de miúdos ciganos que rer. A força disso é uma coisa que mismo, essa euforia, essa extrover-
passaram por ele a cavalo]. Sou só o aos 25 anos já esmoreceu e que aos são, é fácil perder o controlo. Quan-
realizador, não posso controlar tu- 35 desapareceu completamente”, do deixas os miúdos sozinhos em
do”, explica. Bom, o corpo dele lem- dizia então ao Ípsilon. Passaram uns cima de um palco e não lhes dás ne-
bra-se até de coisas mais antigas: da anos, escrevíamos, e ele andou para nhuma instrução, eles podem ser
maneira como ficou em carne viva trás. Passou a trabalhar mais com terrivelmente desinteressantes. Ou
depois de tantos tijolos lhe caírem crianças e com adolescentes — não terrivelmente selvagens. Mas somos
em cima, porque aquilo era a dança tem vontade nenhuma de formar duros com eles: estão num espectá-
a ser mortal (“E no entanto a vida bailarinos para a dança contempo- culo e têm de se defender. A verda-
continuou, eu ainda estou aqui”), e rânea, prefere abrir as portas do de é que andamos há anos a atirar
da maneira como, muitos anos antes grande estúdio que entretanto en- tijolos e a vida continua.”
(cresceu no campo: o pai foi veteri- controu num bairro de imigrantes Aqui, além de tijolos, há pedras
nário), intuiu toda uma linguagem a de Bruxelas, cheio de entulho pós- atiradas em fúria contra a parede.
partir do instinto — e da confiança industrial, e absorver a fúria de Adultos em roupa interior, dispostos
sobre-humana que os animais têm quem ainda tem tudo para aprender a matarem-se pelo último chocolate.
no corpo. — e viciou-se nisso. “Ao fim de tanto Corpos presos por elásticos e gan-
Houve outras coisas que o fizeram tempo é difícil começar do zero. Mas chos, gritos, manadas de cavalos
crescer. A música, em que também trabalhar com pessoas novas ajuda. tiranizados por apenas um cowboy
sempre mostrou uma confiança Não posso confiar que saibam do do alto dos seus nove anos, triciclos
sobre-humana ao ponto de encostar que eu estou a falar, e isso obriga-me e raquetes de badmington. Um mi-
a ela diversas peças da sua Última a explicar tudo outra vez. Em Março, údo escolhido, outro sacrificado. E
Vez — do David Byrne de In Spite of vou fazer outro espectáculo, e que- perguntas difíceis, vindas do sítio
Wishing and Wanting, em 1999, ao ro mesmo que seja uma coisa nova, onde a inocência ainda é selvagem
David Eugene Edwards de Blush, em mais lírica. Para me sentir vivo pre- (“Amas-me?”, “Quando é que eu vou
2003, passando pelo Marc Ribot de ciso de saber que ainda sou capaz morrer?”, “Porque é que não há mú-
Inasmuch as Life is Borrowed..., em de montar um espectáculo inespe- sica?”). Como espectadores, mania-
2000. Deixou-a para trás, e o silên- rado. É uma tarefa interminável, camente levados ao limite por um
cio caiu-lhe em cima. “Talk to the atroz, nunca se fará depressa.” coreógrafo tão diabólico quanto
Demon é uma peça sem música — e, No caso de Talk to the Demon, curandeiro, podemos escolher entre
nesse sentido, é uma peça muito trata-se mais de saber se ainda é ca- a inércia e a cumplicidade, e tere-
assustadora e muito nua, mas ao paz de desencadear, não de fazer, mos de aceitar que isso será sufi-
mesmo tempo também muito pura um espectáculo interessante. O es- ciente. “Há essa altura em que o
e muito comovente. A música enche pectáculo que Vandekeybus traz a miúdo pergunta ‘porque é que não
tudo. Com música parece tudo mui- Braga nasceu da gigantesca frustra- há música?’ e em que somos obriga-
to bonito; tiras a música e vês as coi- ção de ter tido de desperdiçar o ma- dos a parar para o ouvir — porque
sas como realmente são.” terial que tinha andado a descobrir eu queria ouvir os miúdos, e os mi-
Talk to the Demon é assim: sem entre a Hungria e a Roménia, com údos sabem imenso de música. Aqui
música, mas não propriamente mu- os tais miúdos de rua não tão dife- parece não haver música — nem
da (os corpos dos bailarinos estão rentes assim daqueles que lhe apa- ideias, nem intenção — e no entanto
amplificados, todo o palco é uma recem à porta em Sint-Jans-Molen- o espectáculo está cheio disso.”
DANNY WILLEMS

banda sonora) nem sem palavras, beek. “Passei o último ano ocupado De tudo aquilo que tínhamos ju-
porque começa logo com uma per- a filmar mas de repente o projecto rado, querido, nunca fazer em fren-
gunta (não tão difícil de digerir co- foi cancelado por dificuldades finan- te às crianças.
ípsilon | Sexta-feira 16 Janeiro 2015 | 15
M

CHRIS VAN DER BURGHT


ais ou menos a meio de da sua forma extrema de encarar a Em ambos os casos, Alain Platel
tauberbach, um dos bai- vida e dos seus estranhos mecanis- vislumbra uma beleza límpida onde
larinos da companhia bel- mos de sobrevivência. Por isso, o muitos podem apenas detectar uma
ga Les Ballets C. de la B. filme não é tanto sobre uma mulher loucura risível ou um esforço ingló-
aproxima-se de outro e que vive num aterro, mas sobre um rio. A armadilha, admite, é que a sua
abocanha-o na zona da aterro que se torna uma metáfora da posição e a forma como a projecta
laringe. Simula mordê-lo na chama- vida ou do caos no mundo”. Uma das em palco possam ser confundidas
da maçã-de-Adão, um pouco como expressões de Estamira no filme, re- com “uma forma de arrogância”
se detonasse o mundo em que vive- cordada em palco pela actriz Elsie de diante de um mundo cada vez mais
mos. É uma imagem veemente, que Brauw — “Há frases que se perdem lesto no desembainhar de acusa-
o próprio Alain Platel confessa ter no documentário, mas quisemos ções. “Mas sinto-me muito protegi-
incluído na peça, antes de mais, pe- colocá-las em palco por serem tão do porque as minhas peças são cons-
la intensidade dramatúrgica do mo- mágicas, belas e fortes”, diz Platel —, truídas a partir de uma troca muito
mento. Mas basta olhar em redor, é a de que “a incivilização é o que é intensa com os performers.” Tauber
para um palco coberto de peças de feio”. E essa ‘incivilização’ é identi- Bach, o projecto de Zmijewski, re-
roupa avulsas e largadas em desma- ficada a partir de um posto de obser- vela uma frágil e comovente leitura
zelo, inspirado pela história de uma vação privilegiado: equilibrada em da música do compositor cantada
mulher brasileira, esquizofrénica, cima de todo o lixo produzido por por intérpretes que ultrapassam um
que viveu durante mais de 20 anos uma sociedade entregue ao consumo embaraço: o de saber que as suas
num aterro sanitário do Rio de Janei- e ao desperdício desenfreados. O li- vozes, quando ‘tacteiam’ as melo-
ro por sua livre escolha, para lhe in- xo, a falta de civilidade, afinal, são dias, provocam por vezes o riso em
tuir outro alcance. Estamira, que aquilo que Estamira vê quando olha quem ouve. “Mas ao ouvir as grava-
dava igualmente nome ao documen- na direcção da cidade. Não quando ções”, conta Platel, “fui percebendo
tário realizado por Marcos Prado em olha para o sítio onde os seus pés se a sua musicalidade. E foi curioso
2005, tornar-se-ia uma obsessão pa- enterram. descobrir que os bailarinos come-
ra Platel nos últimos anos, tendo o Em parte, aquilo que interessa a çaram a juntar as suas vozes a partir
coreógrafo belga ensaiado várias Alain Platel nesta mulher é a assun- de determinado momento, o que
abordagens falhadas à história da- ção plena e carregada de uma luci- inicialmente parecia impossível”.
quela mulher em quem via “uma dez desarmante — apesar de um
verdadeira filósofa contemporânea”, discurso por vezes tão caótico quan- Bach para reconstruir
segundo descreve ao Ípsilon. to a aparência do cenário em que se Bach não é novidade na obra de
“O que mais me impressionou”, encontra. Segundo o coreógrafo, Alain Platel. Tem sido, aliás, rastilho
admite o coreógrafo, “foi a descober- este é um tema de discussão fre- frequente nas suas criações (Pitié!
ta de que ela vivia na lixeira por de- quente na sua vida, o da faculdade baseava-se na Paixão segundo São
cisão pessoal e acreditava poder le- permanente de se fazerem escolhas Mateus) — e não só. “Quanto mais
var uma vida autêntica naquele sítio. e tomarem decisões, recusando trabalho e mais o tempo passa”,
Depois, fiquei deslumbrado com o qualquer aprisionamento. “Quer confessa, “tomo consciência de que
facto de usar palavras belíssimas pa- tenhamos filhos, uma vida familiar a sua música é uma fonte de inspi-
ra descrever a sua situação e o mun- a proteger ou algo assim, estas de- ração muito forte e uma fonte im-
do. Há muito no olhar dela que é cisões estão sempre presentes e isso portante de consolo em momentos
verdadeiramente inspirador. Gosto não significa que tenhamos de ser diferentes da minha vida”. Esse as-
egoístas”, defende. Estamira é al- cendente aparece agora, no entanto,

Uma
CHRIS VAN DER BURGHT

CHRIS VAN DER BURGHT

guém que criou o seu pequeno mun- reforçado pela recente revelação da
do e vive de acordo com as suas biografia do compositor assinada
próprias regras. por John Eliot Gardiner, onde o des-

lixeira O coreógrafo não nega, assim, que


Estamira é uma essencial fonte de
inspiração para tauberbach, sobre-
cobriu como “uma pessoa muito
bruta e crua que passou tempos
muito difíceis e que fazia música não

com vista
tudo para o trabalho de Elsie de pela graça divina mas por ser al-
Brauw. Foi, na verdade, a actriz a guém que vivia muito intensamen-
desbloquear o impasse criativo em te”. “Não era nenhum santo”, diz
Inspirado numa que Platel se encontrava relativa- Platel com alívio, como se finalmen-

para a esquizofrénica
que viveu 20
mente ao material do filme. “Ela
usou-a como inspiração”, relata,
“mas não queríamos copiá-la ou
te pudesse descer Bach à terra e jus-
tificar a frequente convocatória pa-
ra o seu palco. Também este mara-

lucidez
torná-la uma personagem muito ní- vilhamento não exclui — já o
anos num aterro, tida na performance. A Elsie usou
também muito outros elementos da
suspeitava — a crueza.
Tal como um músico, compara,
tauberbach é sua vida pessoal, da sua carreira co-
mo actriz e outros ainda que foram
quando se coloca de fora, assistindo
às suas obras, Platel diz não se reco-
Alain Platel a surgindo no estúdio durante os en- nhecer frequentemente nas imagens
saios. Não se trata de uma tentativa estranhas que compõem o quadro
questionar, em de contar em palco a história de Es- final. Sabe quais foram as opções,
Guimarães e tamira”. Aos poucos, aliás, Alain
Platel foi percebendo que na sua
lembra-se de sancionar e seleccionar
cada trecho, mas releva sentir-se sis-
Lisboa, o lugar criação conviviam duas peças soltas tematicamente diante de um objecto
para as quais nunca encontrara o “fascinante, enigmático e revelador”,
a partir do qual contexto ideal. Por um lado, Esta- para o qual não tem grandes expli-
escolhemos mira; por outro, Tauber Bach, pro-
jecto de interpretação de música de
cações. A sua certeza é a de que, em
cada nova obra, gosta de se questio-
relacionar-nos Bach por um grupo de cantores sur-
dos, realizado por Artur Zmijewski.
nar sobre onde tudo começa e a par-
tir de que ruínas é possível recome-
com o mundo. tauberbach, dia 21 no Centro Cultu- çar. Como Estamira. “Não apenas
ral Vila Flor (Guimarães), de 23 a 25 para fazermos performances”, subli-

Gonçalo Frota no Teatro Maria Matos (Lisboa), é o


choque entre os dois.
nha. “Mas também para construir-
mos as nossas vidas.”

16 | ípsilon | Sexta-feira 16 Janeiro 2015


Gonçalo Frota
F
oram três anos para Mónica o cenário era ainda extensão de uma rios capítulos de uma narrativa as-
Calle chegar de Heiner Müller marginalidade portuária a pulsar na sombrada pela escrita de Brecht e
até Bertolt Brecht. Os mes- vida lisboeta, paredes-meias com a pelo mundo de Calle. Em A Boa Al-
mos três anos que levou a prostituição e todo um ambiente ma de Setsuan, três deuses descem
traçar um percurso do Cais nocturno bas-fond. A transformação à Terra à procura de uma alma boa,
do Sodré para a Zona J, em profunda da área nos últimos anos, dando a busca por terminada quan-
Chelas. engolida pelo centro da cidade e fei- do encontram a prostituta Chen Tê,
As duas ideias de deslocação uni- ta escoadouro do Bairro Alto, fez da que lhes dá guarida. Chen Tê muda
das, de um autor para outro, de uma Casa Conveniente uma ilha desco- depois de vida, abrindo uma taba-
área de Lisboa para outra, coincidem nexa e desligada da nova identidade. caria. “O jogo que o Brecht faz e que
na criação de A Boa Alma. Ao invés Ao juntar a este desconforto um tra- também quis fazer”, analisa Luís
de Hansel e Gretel a largarem miga- balho continuado de formação de Mário, “é pensar como nos pensa-
lhas de pão para poderem recuperar actores junto da população prisional mos ou nos recriamos, às vezes pe-
o caminho inverso, Mónica Calle de- de Vale de Judeus, Calle sentiu que la dificuldade que sentimos em exis-
lineou uma viagem de espectáculos, se dava um corte definitivo e foi fa- tirmos em sociedade e como faría-

A casa
que podiam ser seguidos até à nova zendo a sua deriva afectiva em di- mos se fôssemos amorais ou
localização da sua Casa Conveniente, recção ao Bairro do Condado (Zona limitados pela moral em que nos
mas para não mais voltar atrás. Por J), ao mesmo tempo que mergulha- encontramos mergulhados.” Em vez
ora, a sua nova casa em Chelas é ain- va num ciclo dedicado ao dramatur- de Chen Tê, agora a protagonista
da um lugar inóspito, com paredes go alemão Heiner Müller. chama-se Mónica, vinda da prosti-
a serem derrubadas no intervalo dos Através de Müller, chegou então tuição e das ruas próximas dos ca-
ensaios, um frio de gelar os ossos a a Brecht. Mas quis fazê-lo pelo filtro minhos-de-ferro (alusão acidental

nova de
atravessar divisões decoradas apenas da escrita de Luís Mário Lopes. Foi ao Cais do Sodré, confessa) e muda
por escombros e vista para a rua me- a ele que encomendou uma reapro- de vida ao deslocar-se para um sítio
diada por uma rede azul presa a an- priação de A Alma Boa de Setsuan, novo. Esse sítio, inevitavelmente,
daimes que engana a chegada da alimentada tanto pelo texto original formou-se na cabeça do autor com
noite. E é aqui, ao ritmo de cada no- de Brecht quanto pelo seu universo as imagens e o mapa da Zona J, só
va peça, que Mónica Calle nos pro- pessoal e pela sua migração iminen- desbloqueando a escrita de A Boa
põe acompanhar o seu recomeço, te. Depois, estendendo o mapa da Alma quando conseguiu introduzir

Mónica
numa nova Casa Conveniente. A obra cidade, imaginou uma cartografia algum artifício no texto.
a que aqui assistiremos terá duplo que sugerisse um trajecto, ainda que Só que A Boa Alma, artificiosa que
sentido - artística e de requalificação errante, que documentasse e inte- possa tentadoramente ser, funciona
do espaço. grasse a mudança. O autor acabou em permanência como uma inves-
“Não é solitário”, diz a actriz e en- então por autonomizar fragmentos tigação disso que é ser bom ou fazer
cenadora sobre este reinício. “Podia das nove partes que iriam compor o bem e de uma questão primordial

Calle
ter recomeçado tudo sozinha, con- A Boa Alma e repensou-os à luz de para Mónica Calle: “Como posso
tinuado o caminho de uma outra Os Sete Pecados Mortais dos Pequenos continuar a ajudar os outros ajudan-
forma e feito outras escolhas. Mas Burgueses, também de Brecht, num do-me a mim”. A resposta é dada
escolhi assim. Não quer dizer que espectáculo partido em sete apre- pela implicação. “O texto permite
às vezes não tenha vontade de fugir, sentações (do Teatro da Politécnica uma colagem muito grande a mim”,
sabendo da dureza e de todo o imen- e da Latoaria, à Companhia Olga confirma a actriz e encenadora. As
so esforço que vai implicar vir para Roriz e ao DNA do Teatro Praga) personagens centrais, aliás, tomam

é um
aqui, todo este recomeço aos 48 acontecidos em Dezembro. Foi uma os nomes constantes do seu bilhete
anos, quando estou na meia-idade. dramaturgia do abandono do Cais de identidade – Mónica, Calle, Basí-
Vou começar mais uma vez ao frio, do Sodré, um limpar os vestígios lio. “Só que há muitas coisas que não
no entulho, sem luz, sem água, tudo para entrar em Chelas já pela mão têm a ver só comigo, mas com as
dificílimo. Mas continua a fazer sen- de Brecht, com um vazio previa- histórias de todos nós, do nosso tra-
tido. E, portanto, continuo a acre- mente preenchido. “Quando a Mó- balho, da Casa Conveniente. Há aqui

recomeço
ditar.” nica me falou nas sete apresentações uma convocação em que todos nos
Foi precisamente por acreditar na e em usar partes do texto para tam- podemos encontrar e há também
sua relação e das suas propostas ar- bém criarem um caminho textual”, um lado secreto que é uma maneira
tísticas com o lugar em que se en- lembra Luís Mário Lopes, “isso en- de poder existir numa tentativa de
contra que Mónica Calle planeou a caixava no formato em que tinha plenitude. Não gosto da ideia da bio-
fuga do Cais do Sodré. Quando ali estruturado o texto. Foi uma expe- grafia, apesar de estar lá totalmen-
abriu a Casa Conveniente, em 1991, riência interessante e bonita de ver te.” Estar totalmente parte também
até que ponto uma só parte resistia da lógica comunitária e emocional
num outro espectáculo. Levámos que Calle coloca no que faz. As pa-
BRUNO SIMÃO

ao extremo a ideia do teatro épico redes são deitadas abaixo por gente
do Brecht - que achava possível tirar da construção civil pescada ali ao
alguns fragmentos e a peça resistir lado, as cadeiras para o público são
na mesma.” emprestadas pelos vizinhos, a fábri-
ca de bolos do texto foi extraída re-
Mónica, Calle, Basílio almente das imediações. E em cada
A Boa Alma apresenta agora o texto esquina do texto, ludibriando-nos
total, trabalhado por Luís Mário Lo- com os ângulos e as sombras que
pes ao mesmo tempo que o cantau- usa na sua circulação pelo espaço,
tor JP Simões se servia do mote bre- estará sempre Mónica Calle. No pon-
chtiano para criar nove temas que to frágil e inicial da sua reconstru-
servem de separadores entre os vá- ção.

Abre as portas da sua Casa


Conveniente na Zona J. A Boa
Alma, com texto de Luís Mário
Lopes e música de JP Simões,
é um espectáculo assombrado
por Brecht e pela deriva da
actriz e encenadora.
ípsilon | Sexta-feira 16 Janeiro 2015 | 17
A família
ou o
suicídio Desesperado, sem dinheiro,
Teddy Thompson, filho de
Richard e Linda Thompson,
teve a mais bizarra das ideias:
fazer um disco com todos os
compositores da família. Saiu
um álbum sobre a importância
do clã — e também a catarse do
violentíssimo período em que
os pais se separaram.

João
Bonifácio

Linda e Richard Thompson


foram um caso especialíssimo
do folk-rock britânico: Shoot
Out The Lights fez deles estrelas
da noite para o dia

18 | ípsilon | Sexta-feira 16 Janeiro 2015


E
de repente todo o corpo se
arrepia, os pêlos eriçam-se,
to não decidia o que o próximo dis-
co ia ser”. “Apesar de a pensar que, “por mais disfuncionais”
que sejam, ainda há ali algo que os
a garganta aperta. Estamos
no refrão de Bonny boys, o
Mas, “olhando para trás”, admite
Teddy, “este disco coincidiu com um minha família não agarra uns aos outros. Mas uma coi-
sa é ter empatia pelo filho/mano/tio
quarto tema de Family, pé-
rola folk editada há pouco
período muito difícil”. “Comecei a
colocar muitas questões, a mim e ser tradicional, que anda mal da carteira. Outra é
brilhar menos do que ele — e desde
por um grupo chamado Thompson
— isto é, Richard e Linda Thompson,
ao meu terapeuta, sobre a minha
infância e sobre como cheguei a es- ainda assim o primeiro momento Teddy aperce-
beu-se de que “havia uma certa com-
mas também os filhos, sobrinhos e
netos de ambos. Até aí fora Linda a
te ponto na minha vida. E devagari-
nho fui-me apercebendo de que somos uma família petição”, que ele considera “saudá-
vel”. (Ao New York Times, Kami disse
guiar a canção, que é uma espécie
de aviso de uma mãe aos filhos acer-
manifestei o desejo de fazer este dis-
co como forma inconsciente de jun- — e temos os que tinha de fazer a melhor canção
de todas, desse por onde desse.) Te-
ca dos perigos do mundo (costuma
tratá-los por “Bonny boys”, daí o tí-
tar a minha família e reparar alguns
dos danos feitos quanto eu tinha seis nossos problemas. ddy “nunca [teve] dúvidas de que os
seus familiares escreveriam boas can-
tulo.) Quando chega o refrão, Ri-
chard junta-se à ex-mulher e ambos
anos.”
Linda Peters conheceu o seu fu- Também temos ções”. De facto, a qualidade era de
tal monta que “após escutar o que
cantam às suas crias “Bound to no-
one, fear nothing (...)/ Dry your tears/
turo marido nas gravações de Henry
The Human Fly, disco a solo de Ri- uma dinâmica toda a gente fizera” Teddy sentiu
“uma enorme pressão” enquanto
I am at peace/ With your sweet voices
in my ears”. Todo o corpo se arre-
chard que tem a honra de ser o ál-
bum menos vendido em toda a his- musical que escrevia a sua segunda canção. Aca-
bou por ser a que abre o disco e lhe
pia.
É que há 40 anos, em End of the
tória da Warner Bros Records. Por
maiores que os Fairport Convention torna as coisas é homónima.
É um tremendo pedaço de com-
rainbow, nono tema de I Want To See
The Bright Lights Tonight, o primei-
nos pareçam hoje, a verdade é que
sempre que o seu fundador se dedi- confusas, posição, uma balada folk num ¾ que
traz inquietude às palavras — de uma
ro disco lançado a meias pelo par,
Richard Thompson, ex-fundador
cava a álbuns a solo as vendas eram
um desastre. competitivas e por mesura e de uma empatia humanas
admiráveis: “My father is one of the
dos Fairport Convention e inventor
do folk-rock britânico, cantava, com
Em 1973, o casal casou-se e cola-
borou em cinco discos, todos com vezes excitantes. greats/ to ever step on a stage/ my
mother has the most beautifull voice
uma rispidez psicótica “I feel for you,
you little horror/ Safe at your mother’s
o mesmo inêxito, até que Shoot Out
The Lights os tornou, da noite para Falamos mais uns in the world/ and I am betwixed and
between/ Sean Lennon, you know
breast (...)/ ‘Cause your father is a
bully/ And he thinks that you’re a
o dia, estrelas. Teddy Thompson ti-
nha seis anos. Nascera no seio de com os outros what I mean/ (...). It’s family (...)/ My
mother gave me all of the love that she
pest/ And your sister she’s no better
than a whore”. Muna, a filha mais
uma comunidade islâmica em que
os pais decidiram assentar, por en- através de had/ she lived for us kids (...)/ but she
never dealt with her pain/ and I’ve
velha do casal, tinha acabado de
nascer.
tre dietas que faziam toda a família
passar fome e que — dizem as más canções do done exactly the same”, canta Teddy.
Um portento de canção, uma aber-
Oito anos depois chegava Shoot
Out The Lights, que viria a ser o úl-
línguas — estarão na origem de epi-
sódios de tremenda violência emo- que cara-a-cara” tura perfeita que desde logo suma-
riza o que se segue. Há uma razão
timo disco a meias de um casal que cional por parte de Richard. Naque- para isto.
pouco depois não o era mais. Linda le exacto instante em que tudo po- “Vou contar-te uma coisa”, come-
estava grávida de Kami, a terceira deria ter sido perfeito, com os haver momentos em que não a su- ça Teddy, sempre no seu tom de
filha, e as letras de Richard descre- cheques a caírem na conta bancária, portamos. “Seja o que for que ele quem é incapaz de não ser honesto:
viam, com uma exactidão cruel, a já o mal estava feito — Richard saiu esteja a dizer, adoro a ideia: afasta-te “Essa foi a última canção escrita pa-
violência emocional da separação. de casa e Teddy não voltou a ver o da minha vida, vive a tua. Acho que ra o disco. Não conseguia compor
Entre as duas obras-primas, entre pai até aos 18 anos, quando se bor- funciona em muitos aspectos.” nada de jeito e procrastinei o mais
Muna e Kami, nasceu Teddy. Que, rifou para a universidade e foi viver que pude — e hoje estou feliz por
ficámos a saber há dias, quando fa- com o pai para se tornar cantautor. Curar a ferida tê-lo feito. Acho que estava escrito
lámos com ele, é quem realmente Não admira que tenha contas a ajus- Family foi gravado de uma forma que tinha de ser assim. É que doutro
canta a harmonia de Bonny boys — tar com os seus seis anos de idade. particular: todos os membros da fa- modo não poderia ter composto o
numa imitação perfeita da voz do seu Mas na génese do projecto que mília mandaram as canções por e- que no fundo é uma espécie de sín-
pai anos antes. Teddy, que leva uma agora chega às lojas não estava qual- mail, e Teddy tinha a última palavra tese do projecto e da ideia de família
bela carreira em nome próprio, foi quer vingança — nem sequer era quanto ao que ficava. Só se encon- em geral. Estou muito orgulhoso
o mentor de Family. Foi dele a ideia suposto que o tema fosse a família, trou com o pai, mas não correu pro- dessa canção”.
de todos os elementos da família que como veio a ser. “Pedi a cada mem- priamente bem: Teddy tinha “difi- Continua, no seu jeito de miúdo
se dedicam à música criarem um ál- bro da família que escrevesse can- culdade em dizer-lhe ‘Toca menos’, que finalmente se impôs mas ainda
bum em conjunto; e foi dele a ideia ções originais para este disco, mas em dar-lhe ordens”. “Era importan- luta para ser ouvido: “Apesar de a
de cada um gravar em separado, de não especifiquei tema algum. Nesse te que eu fosse o produtor e tomas- minha família não ser tradicional,
modo a não houvesse lugar a atritos. sentido foi interessante ver a respos- se decisões, porque alguém tinha porque os meus pais são músicos,
As boas intenções, no entanto, têm ta que deram — algumas canções de estar ao comando. E o e-mail era ainda assim somos uma família — e
um limite — e não tenhais dúvidas de eram claramente sobre a família e o a única forma possível: juntar esta temos os mesmos problemas que as
que quando se houve a voz de Teddy amor, outras mais pragmáticas.” gente toda ficava demasiado caro, outras famílias. Também temos uma
em Bonny boys no lugar do que devia Teddy refere-se ao pai que, evasi- porque vivemos em sítios diferentes dinâmica musical que torna as coi-
ser a voz de Richard, alguém está, vo como sempre, aproveitou para — além de provavelmente não ser sas ainda mais confusas, competiti-
finalmente, a matar o pai. escrever um tremendo hino político boa ideia juntar os meus pais no vas e por vezes excitantes — acho
Tudo começou, como não podia sobre os nossos tempos, That’s enou- mesmo espaço”, diz, com uma sin- eu. Falamos mais uns com os outros
deixar de ser, com desespero. “Que- gh. Mas em One life at a time, a se- ceridade desarmante. através de canção do que cara-a-
ro deixar isto bem claro: a Verve gunda canção com que contribui Teddy parece ser, muitas vezes, o cara.”
[editora que lhe lançava os discos] para Family, canta a dada altura “So- rapaz “not too secure of himself”, co- Quando Family começou, Teddy
não renovou o meu contrato. Admi- metimes it’s hard to say/ what you got mo se descreve na canção que dá o estava a sentir-se “muito só e mal
to que me foi difícil ajustar-me à vi- to say anyway/ I’m gonna have to say/ título ao álbum. Tem uma necessi- amado”. Ocorreu-lhe fazer um disco
da sem uma editora que me carre- that I’m not thrilled about you (...)/ dade de honestidade tão grande que a solo sobre a família mas rapida-
gasse. Não sou propriamente um You’re building me a prison/ where é capaz de dizer: “Pessoalmente, mente percebeu que se tivesse feito
empreendedor”, confessa Teddy. freedom is a crime”. Para o melóma- apreciei o processo porque o con- tudo sozinho se teria suicidado. De-
O dinheiro não era o único pro- no atento à vida privada deste ho- trolei. E quando os meus pais se se- pois diz isto: “Precisava que a minha
blema de Teddy na altura. Ou por mem, isto é o típico e velho Richard: pararam, o que eu mais senti foi que família se unisse em torno de
outra: “mais tarde”, ele apercebeu- sarcástico, bruto, vagamente misan- não tinha controlo algum, não fui mim.”
se de que o dinheiro não era o único tropo mas honesto e certeiro até à tido nem achado no curso dos acon- Precisamos todos, Bonny boy. E é
problema, visto que na altura em medula. tecimentos. Isto ajudou a curar um exactamente por tu e os teus terem
que teve a ideia de juntar os pais, “Bem”, começa Teddy, “o meu pai pouco a ferida.” sabido transmitir isso tão bem que
uma irmã directa, uma meia irmã jura que é uma canção política, mas A família, note-se, não levantou Family é possivelmente o mais belo
do segundo casamento da mãe e um sem dúvida que eu ouço na canção nenhuma objecção ao projecto: “Ti- e comovente disco de final de 2014
sobrinho para juntos criarem um o mesmo que tu”. Uma espécie de nha a certeza de que iam dizer sim. e ficará connosco muito tempo.
álbum, ele estava “apenas à procu- confissão: seja qual for a relação que Eles sabiam que eu precisava”, diz Que os vossos estejam sempre ao
ra de editar qualquer coisa enquan- se tem com uma pessoa, vai sempre Teddy — uma resposta que nos faz vosso lado.
ípsilon | Sexta-feira 16 Janeiro 2015 | 19
FERNANDO RESENDES
mmmmm

José Medeiros
Aprendiz de
Feiticeiro
Palco de Ilusões

José
Medeiros:
Talvez a
aventura
me tenha
escolhido
N
É uma das mais o início é a só a voz, aquela
imensa voz rouca, cava e tão
A música é também ela uma digres-
são por géneros e tempos. Os misté-
Rosas, realizador de O Outro Lado do
Espelho, conta com participação de
ram profundamente. Enquanto tiver
fôlego quero continuar a ser apren-
magníficas expressiva. “Se tu me visses
/ na mentira dos espelhos /
rios telúricos da tradição apresentam-
se na magnífica PartIlha feita de flau-
Maria do Céu Guerra, Filipa Pais
(uma das vozes de Aprendiz de Feiti-
diz desses grandes feiticeiros”.
Aprendiz de Feiticeiro foi gravado
vozes da música talvez Ulisses / se tu me vis- tas, sanfona e violino, a balada ceiro) ou de Jorge Palma. Teve antes- entre Albarraque, em Sintra, Coim-
ses”. Quase no fim, na déci- descarnada (e a chanson aqui tão per- treia quarta-feira em São Miguel e, bra (para assegurar que Manuel Ro-
portuguesa. Nas ma sexta das dezassete canções, há to, apesar da guitarra portuguesa), em Fevereiro será exibido em Lisboa cha, da Brigada Víctor Jara, estaria
suas canções, uma viagem à Lua com Meliés, há a
harmónica que Morricone ofereceu
encanta em Balada do varandim), há
bossa feita melancolia no balanço da
(dia 20 na Casa dos Açores, dia 27 no
Teatro A Barraca).
no disco) e São Miguel. Foi constru-
ído “’with a little help from my frien-
não ouvimos a Sergio Leone em O Bom, o Mau, e o já citada Lua d’Agosto no Rio de Janei- A coincidência da edição do disco, ds’”, como diz, citando a canção dos
Vilão, há o ameaçador “are you ro ou Orientes entrevistos na opulen- que tem também documentário, com Beatles. Teve direcção musical de
apenas o músico, talking to me?” de Robert de Niro em ta A suave inquietação das traineiras. o lançamento do filme, é isso mes- Jorge A. Silva, que com Rogério Car-
mas também o Nova Iorque ou a imortal melodia de
As time goes by em Casablanca. A mãe
“De uma forma muito natural, sem
planear nada, eu tenho esta tendên-
mo, uma coincidência. Mas, inadver-
tidamente, ilustra bem a forma como
doso Pires e Gil Alves formaram o
núcleo duro das gravações. Mais
homem do teatro das ficções, a Odisseia de Homero, e
aquelas que, no século XX, o homem
cia para ser ecléctico”, afirma. José Medeiros encara a criatividade.
“Nunca houve uma fronteira muito
amigos e amigas se juntaram: Filipa
Pais, Sara Vidal, o velho companhei-
ou o realizador – inventou com um “comovido cora- Homenagem nítida entre as minhas actividades na ro Carlos Guerreiro, dos Gaiteiros de
ção a bater a 24 imagens por segun- aos mestres música, no teatro ou no cinema, tal- Lisboa, ou William “Maninho” Nas-
é dessa riqueza do”. José Medeiros, 63 anos, ao telefone vez por ser de uma família de actores cimento, músico brasileiro radicado
de olhares que Nelas, feito delas, José Medeiros,
micaelense de nascimento e residên-
desde São Miguel, carro encostado
na berma da estrada e olhar obser-
e músicos”.
No início da década de 1970, tro-
nos Açores há duas décadas.
É um álbum sem conceito. Uma
nasce a sua cia, lisboeta por adopção, um músi- vando o mar e as nuvens sobre a ilha, cou a ida para a Universidade em colecção de canções, de histórias e
co longe de ser “só” músico que vem dirá: “Não sei se escolhi a aventura, Lisboa por uma temporada com a deambulação por diferentes cená-
singularidade. construindo ao longo dos anos, dis- talvez a aventura me tenha escolhido sua banda no Paquete Funchal – an- rios, unidos pela sempre magnífica
Aprendiz de cretamente, um singularíssimo cor-
po-de-obra. Aprendiz de Feiticeiro, o
a mim”. Mais à frente, confessará que
isso, a aventura, “é inevitável nos
dou entre São Miguel, Lisboa e o
Funchal a tocar canções dos Beatles,
voz de José Medeiros e pelo roman-
tismo que carrega. Um álbum extra-
Feiticeiro é o seu seu último álbum, sucessor quatro
anos depois de Fados, Fantasmas e
ilhéus”: “estamos aqui no mar e ten-
tamos estender os braços para os
dos Rolling Stones ou de Ray Char-
les, isto enquanto descobria em Jo-
ído da sua vida, das suas leituras, dos
seus filmes. Com uma excepção, um
novo álbum. Folias, tem essa singularidade inscri- dois lados do Atlântico, ou para o sé Afonso ou Adriano Correia de “desabafo”, como lhe chama. Tal co-
ta no título e na edição ela mesma: o país na Europa, ou para as Améri- Oliveira música que marcaria deci- mo as outras canções, aconteceu-lhe.

Mário Lopes músico, que é também homem do


teatro e do cinema, junta ao CD um
DVD com O Outro Lado do Espelho,
cas”. Está a falar dele e está a falar
de um outro açoriano, célebre nou-
tras paragens, a quem tem dedicado
sivamente o seu percurso futuro. Foi
depois assistente de realização em
Lisboa, foi nos anos 1980 realizador
Falamos da Fanfarra dissonante que
citámos há alguns parágrafos. “É im-
possível olharmos à nossa volta e não
documentário sobre o seu percurso ultimamente muito do seu tempo. da RTP Açores, rodando Xailes Ne- acharmos que a orquestra está desa-
e documento de como, em palco, faz Ao mesmo tempo que recebemos gros ou Há Mau Tempo no Canal e finada”, diz. Canção teatro (delicio-
das canções teatro musicado. o novo passo de uma discografia compondo as bandas-sonoras dos samente burlesco) para duas vozes
No disco, como é habitual, José inaugurada no final da década de filmes produzidos. A sua música tem (junta-se à de José Medeiros a de Pi-
Medeiros viaja: nas caravelas de Ba- 1970 e que lhe valeu em 2004, com inscrita essa indefinição entre lin- lar Silvestre), qual filarmónica de
lada do varandim, pelas sementeiras Torna-Viagem, o Prémio José Afonso, guagens artísticas. Ele é, afinal, e intervenção, verseja, por exemplo,
na aldeia micaelense de João Bom, estreia Livreiro de Santiago, docu- como se auto-intitula no novo ál- “a bem da nação, a bem da nação /
observando a Lua d’Agosto no Rio de mentário ficcionado, assim o define, bum, Aprendiz de Feiticeiro. “[O tí- neste grotesco bailado vamos todos
Janeiro, caminhando pela Mancha sobre Carlos George Nascimento, tulo] é uma homenagem aos gran- ao casino / que emoção”.
de Quixote, pela magia do cinema corvino filho de baleeiros emigrado des mestres. O Chaplin músico, clo- José Medeiros, que cria música
ou através da Fanfarra dissonante, para os EUA e, depois, para o Chile, wn e realizador, um imenso intemporal, música para todos os
com “a crise e a bancarrota” a “dan- que se tornaria o primeiro editor do feiticeiro. O Orson Welles e o Kuro- tempos, é um feiticeiro atento. Sabe
çar um pas de deux (faîtes vos jeux!)”, jovem Pablo Neruda (ou de outra sawa. A outro nível o Zeca Afonso, quando ser sátiro, sabe quando er-
no país ensombrado que é hoje o Nobel da Literatura, Gabriela Mis- o Tom Jobim e o Ray Charles, gran- guer a voz. Fê-lo novamente. É um
nosso. tral). Filmado com a equipa de Tiago des feiticeiros que sempre me toca- prazer ouvi-lo.
20 | ípsilon | Sexta-feira 16 Janeiro 2015
Sinfónica
Descobertas Sinfónicas 31 Jan
18:00 Sala Suggia
€ 17 | Cartão Amigo € 12,75
Lugar Coro € 12,75
Jovem/Sénior € 13,6

17:00 Cibermúsica
Palestra pré-concerto por
Baldur Brönnimann

ALBERTO CARNEIRO
ÁRVORES, FLORES E FRUTOS

W W W.CASA DA M U S I CA .C O M / 2 2 0 1 2 0 2 2 0
DO MEU JARDIM ORQUESTRA SINFÓNICA
DESENHOS E ESCULTURAS DO PORTO CASA DA MÚSICA
Baldur Brönnimann
curadoria: Catarina Rosendo direcção musical

Exposição: até dia 21 de Fevereiro de 2015


Horário: de quarta-feira a sábado, das 15h00 às 20h00 (excepto feriados)
MECENAS CASA DA MÚSICA APOIO INSTITUCIONAL MECENAS PRINCIPAL CASA DA MÚSICA

fundação carmona e costa


MECENAS ORQUESTRA SINFÓNICA

Edifício Soeiro Pereira Gomes (antigo edifício da Bolsa Nova de Lisboa)


Rua Soeiro Pereira Gomes, Lte 1- 6.ºA/C, 1600-196 Lisboa
(Bairro do Rego / Bairro Santos) | Tel. + 351 217 803 003 / 4
www.fundacaocarmonaecosta.pt
Parque de estacionamento mais próximo: Hotel Sana Seja um dos primeiros a apresentar hoje este jornal completo na Casa da Música e ganhe um convite duplo para este concerto. Condicionada à disponibilidade da sala, a oferta
Metro: Sete Rios / Praça de Espanha / Cidade Universitária | Autocarro: 31 é limitada aos primeiros 10 leitores e válida apenas para um convite por jornal e por leitor. Obrigatória a apresentação do documento de identificação no acto do levantamento.

Programação Fundação EDP


Museu da Eletricidade
Exposição permanente
Circuito Museu
Exposições temporárias
7 Mil Milhões de Outros* Alexandre Conefrey
Vídeo-Exposição The Pit: Dois Abismos
Até 8 de fevereiro – Um Poço Fitando o Céu
*Esta exposição é paga. Gravura
A receita reverte, na íntegra,
para o projecto social Até 5 de abril
“Dentista do Bem”

Almada Negreiros
Desenho, pintura,
livros de artista
Até 29 de março

Terça a Domingo / 10h – 18h / Entrada livre


Museu da Eletricidade, Lisboa
Saiba mais em: www.fundacaoedp.pt

Vitoriano Braga. Retrato de estúdio de Almada Negreiros, Século XX,


Vidro / Gelatina sal de prata © Direção-Geral do Património Cultural /
Arquivo de Documentação Fotográfica: Luísa Oliveira (2006)
FERNANDO VELUDO/ NFACTOS

Gentilmente N
o palco do Musicbox Lis-
boa está uma miúda com
orelhas de troll, um cava-
quinho, uma guitarra em
dégradé de azul para cor-
de-rosa e uma voz pueril.
Parece viver num mundo à parte,
um mundo povoado por muitos

vossos
animais, elfos, desenhos anima-
dos, gordos a comer Nestum e nu-
vens cor-de-rosa que vêm e vão
Coelho num país longínquo onde não há
Radioactivo, Moxila noite no Verão — e onde ser cres-
cido não é um estatuto assim tão
e Flamingos são entusiasmante.
Moxila é o cosmos muito particu-
projectos ligados lar de Mariana Pita, artesã de can-
à Gentle Records, ções que são autênticos relicários
da infância (mas com letras que não
editora on-line que deixam de ter segundos sentidos),
de uma musicalidade rudimentar
congrega miúdos sincronizada com um jeito natural
para criar melodias encantatórias
e graúdos. Mais inundadas de candor e graça, que
uma prova de que a se colam ao ouvido, que põem um
sorriso na cara de quem não se leva
música portuguesa demasiado a sério e que se situam
algures entre a K Records, Daniel
está bem e Johnston, Kimya Dawson, o twee da
recomenda-se. Sarah Records, Frankie Cosmos ou
o tontipop espanhol.
“A Moxila entretém-me e isso é
mesmo espantoso. Gostava que a

Mariana Duarte minha música tivesse isso, essa ca-


pacidade de surpreender quem ou-
ve”, diz Luís Gravito, mais conheci- Tudo o que dá forma à editora (a pessoas da casa, de convidados e na casa dos 20, que pelo nosso bem que agora tens tantos putos a fazer
do por O Cão da Morte, que nessa escrita, gravação e produção de de quem lhes envia propostas para começaram a fazer música em idade música boa a partir do quarto. Acho
mesma noite — a passada quinta- música; os vídeos, as capas, os a caixa de correio. imberbe (errata: alguma da melhor que a FlorCaveira foi muito impor-
feira, dia 8, no Musicbox — acompa- cartazes e os concertos) se deve música ouvida nos últimos anos em tante para isso. Ajudou teres gajos
nhou o amigo Coelho Radioactivo ao núcleo duro da Gentle Incesto Records solo nacional). Sim, metemo-los ao teu lado a fazer essa cena lo-fi e
(nome de guerra de João Sarnadas) Musicalmente falando, as referên- aqui ao barulho propositadamente, a mostrarem que podia resultar”,
na apresentação em Lisboa de Can- cias da equipa Gentle são de genea- pois não faltam pontos de contacto diz Luís Gravito, que, tal como João
ções Mortas, novo disco que reúne logia múltipla. Uns falam em Pastels, entre a Cafetra e a Gentle: são ami- Sarnadas, foi apadrinhado por João
um conjunto precioso de canções outros em Mark Hollis, outros em gos, partilham palcos, vêem concer- Coração, um dos embaixadores da-
clássicas de cadência dulcífica, da- Hüsker Dü. Não admira, portanto, tos e gostam das canções uns dos quela editora. “O Coração era bué
quelas que conseguem ocupar o seu que o resultado seja uma editora outros, e vivem do mesmo senti- ‘venham cá todos, vamos tocar can-
próprio tempo e vagar, destilando que agrega música diferente entre mento caseiro, do faça-você-mesmo, ções e mostrar as músicas uns aos
sobre os amores e desamores que
nos tocam a todos. “Decidimos criar si (mas sempre de gentil tacto), on-
de tanto há lugar para canções que
da mesma criatividade imparável,
do mesmo sentido de pertença, da
outros’”, lembra Sarnadas.
E é isso que a família Gentle Re-
Mas o que é que Mariana, 24 anos,
Luís, 22, e João, 23, têm em comum, uma pequena seguem a herança da folk como pa-
ra twee, pop afectuoso ou explora-
mesma linguagem mundana mas de
português bem tratado, da mesma
cords vai continuar a fazer, sempre
com a janela aberta para todos aque-
além de fazerem parte de uma co-
munidade de músicos portugueses editora on-line. ções à guitarra. Apesar das diferen-
ças, quase todos eles acabam por
vontade de “querer viver a vida toda
sem merdas de empreendedor” (ou-
les que os queiram ouvir. Quanto a
planos para o futuro próximo, ha-
estupidamente jovem que faz músi-
ca estupidamente boa? São colegas Sem custos, ter projectos em conjunto. “Isto de-
via chamar-se Incesto Records”,
vir Dinheiro pra te pagar, de João
Nada), da mesma legitimação da
verá discos de Tomba Lobos, de João
Nada e de Flamingos (se o nosso ho-
na Gentle Records, uma editora com
base no Porto onde miúdos na casa descentralizada e graceja José Cardoso. “É natural, nós
gostamos todos da música uns dos
música entre os pares, sem estarem
demasiado preocupados com a len-
róscopo não falhar, vem aí assunto
sério), mais concertos (no dia 6 de
dos 20 e alguns graúdos, unidos pe-
la música, pelo design e pela ilustra- sem outros”, justifica João Sarnadas. “Eu
senti logo que a Gentle era uma ce-
galenga “da música mal tocada e mal
cantada” de detractores exteriores
Fevereiro, Moxila faz a primeira par-
te de B Fachada no Paço dos Duques
ção, dão a ouvir, através de downlo-
ads gratuitos, as canções altamente compromissos: na especial”, declara Luís Gravito,
que entrou oficialmente no gangue
(citemos o recadinho deixado pelas
Pega Monstro nesse hino chamado
de Bragança, em Guimarães), o
prosseguir das sinergias com a Fa-
recomendáveis que andam a fazer
no quarto lá de casa e, ocasional- quem quiser pode no último Verão para dar corpo a
Flamingos, a nova aventura com
Fetra: “Se isto não é música/ então
faz tu uma canção/ e se eu desafino/
vela Discos (uma espécie de irmã da
Gentle mais extrovertida, dada à
mente, em estúdio.
Tudo o que dá forma à editora (a editar só uma Sarnadas. “Não encontro mais nada
que soe a Moxila, a João Nada ou a
canta lá tu ó meu cabrão”).
Um modo de estar na vida e na
fritaria, “e menos fofinha”) e novos
capítulos da videoteca mensal Cine-
escrita, gravação e produção de
música; os vídeos, as capas dos dis- música na Gentle” Tomba Lobos”, acrescenta, em re-
gisto de vénia genuína.
música que nos remete para a revo-
lução discreta que foi a FlorCaveira,
alegre. De resto, dizem eles, logo se
vê. Sem pressas, dizemos nós - des-
cos, os cartazes e a marcação dos
concertos) é levado a cabo pelo nú-
cleo duro da Gentle, com quem o
Leonel Sousa O mesmo acontece com a Cafetra,
outra editora de rapazes e raparigas
a escola de alguns miúdos da Cafetra
e da Gentle. “Perguntaste porque é
de que continuem a tratar gentil-
mente dos nossos ouvidos.

Ípsilon esteve à conversa: João Sar-


nadas (Coelho Radioactivo, Flamin-
gos), Mariana Pita (Moxila, Renata
e os Índios, Sr. Eduardo Urso), José
Cardoso (Tomba Lobos, Zé & Leo-
nel), Leonel Sousa (Zé & Leonel,
Spatial White Noise), João Sobral
( João Nada, emigrado em Londres),
Jorge Amador (Major Dog Ear) e
Luís Gravito (Flamingos), o maestro
das operações em Lisboa. Não há
chefes nem ninguém que queira ser
mais do que os outros, e por isso
foi tão difícil conseguir arrancar-
lhes quem começou com esta his-
tória toda. “Isso não interessa. To-
da a gente faz a sua parte e toda a
gente tem a password para meter
uma música no site ou no Facebook
quando quiser”, atira José Cardoso.
Mas lá acabam por ceder. “Fui eu
e o Zé que começámos com isto em
2012”, conta Leonel Sousa, 36 anos,
o mais velho do grupo, que se pode
orgulhar de ter co-criado a Bor
Land, extinta editora independen-
te que lançou nomes como Norber-
to Lobo, Lobster e Old Jerusalem.
“Decidimos criar uma pequena
editora on-line. Sem custos, descen-
tralizada e sem compromissos:
quem quiser pode editar só uma
música na Gentle. Queríamos que
fosse uma comunidade aberta a to-
da a gente e em que todos os mem-
bros pudessem convidar pessoal”,
explica Leonel. A coisa foi crescen-
do precisamente segundo uma es-
tratégia de contratação livre, com
base na amizade e na admiração
mútua, no amigo puxa amigo e ve-
nham mais cinco — e ninguém leva
a mal quem não ficar ligado à edi-
tora após alianças passageiras. Tal
pode acontecer, por exemplo, na
Singles Week, uma semana espe-
cial, agendada duas vezes por ano
(a próxima é em Março), em que a
Gentle edita uma canção por dia de
Discos
wanna hurt yourself”, ouvimos no
Que fazer desta início; ouviremos mais tarde: “You
revolução? made a list of all your heroes / and
you thought about all they went
Belle & Sebastian through / It’s much harder, much
darker then what you went through”.
Girls In Peacetime Want To Dance
Matador Records; distri. Popstock Quando desembocamos em The
party line, somos tudo entusiasmo:
mmmmm são os Belle & Sebastian, os da
agudeza da lírica e do ouvido para
Ao nono álbum, a melodia, e são também algo de
os Belle & diferente. Porém a diferença, esta
Sebastian estão diferença, não manterá o seu
diferentes. É o encantamento. Atravessamos a
que todos dirão, dolência de The power of three”,
mesmo não cantada por Sarah Martin (secção
tendo como prova mais que The de cordas dinâmica em convívio
party line, o primeiro single de com sintetizador de viajante
Girls In Peacetime Want To Dance. espacial), avançamos pela
A mudança, no caso específico belíssima pop de câmara de The cat
desta canção, é refrescante. with the cream e aterramos depois
Cowbell a marcar o ritmo do pré- em Enter Sylvia Plath. Não é
refrão, sintetizadores a dançarem surpreendente ver os Belle &
enrodilhados no baixo, batida Sebastian escreveram sobre a
funk na tangente do disco e muito poeta americana. Surpreendente é
hedonismo, muito elegante: “Jump o que fizeram com ela: quase sete
to the beat of the party line”, exorta minutos de um synth pop
o refrão e é precisamente isso que desenterrado de pesadelos dos
Soul e tecnologia: de novo o carimbo de Steve Spacek temos vontade de fazer. anos 1980 enquanto caricatura
Mas The party line é apenas uma mal-amanhada de Pet Shop Boys
das doze canções do novo álbum, o ou dos ABBA. Desconcertante – e
descendente de, entre outros, que sucede a Write About Love, não de uma boa maneira: a
Pop Voodoo, o muito marcante álbum editado em 2010. E é, neste álbum surpresa é só desilusão e
de D’Angelo de 2000. produzido nos EUA por Ben H. desconforto perante a brincadeira
Nostalgia A meio dos anos 2000 chegou a
mudar-se da cinzenta Londres
Allen III (Gnarls Barkley, Animal
Collective), o primeiro e decisivo
(só pode ser isso, não é?). Não, não
é. Ouviremos yatch rock barato,
do futuro para a solarenga Los Angeles, sinal da apregoada mudança na com congas e ritmo disco, em
onde o seu trabalho parecia ser banda que inventou para si uma Perfect couples – o paradoxo entre o
Criado com o recurso a melhor entendido, trabalhando ao sensibilidade pop feita de uma tom bem-disposto e os versos
aplicações de iPhone e iPad, lado de J Dilla ou Sa-Ra, tendo superfície delicada e de dor e crise cantados (“What have we done? /
regressado a Inglaterra anos existencial abaixo dela. those perfect couples / keep breaking
é um disco que respira a
depois. É daí que sai agora este Nobody’s empire, a canção que up”) é uma boa e velha ideia dos
dualidade passado-futuro, registo. Como sempre a música é abre o álbum, tem a trompete que Belle & Sebastian, a sua
com as letras a criarem precisa, mas com a necessária é imagem de marca, coro gospel concretização, aqui, nem por isso.
um espaço de nostalgia, agitação para gerar calor e para frémito épico e uma guitarra Ouviremos sete minutos de mais
enquanto a música nos puxa atributos rítmicos. A semântica elegante a abrir caminho para synth-pop, o de Play for today, este
minimalista está lá, mas em cada frases como “If we live by the books em versão tropical (ou chungaria
para cenários futuristas. aresta descobrem-se cambiantes e and we live by hope / does it makes us 80s), onde se canta sobre a miúda
Vítor Belanciano decifram-se novos mistérios. É targets for gunfire?” – é sempre um de sorriso fácil que esconde
talvez a obra onde mais prazer reencontrar a pena de consigo uma terrível verdade (não,
Beat Spacek transcende géneros, centrando-se Stuart Murdoch. Allie, a segunda a vida não lhe sorri).
na atmosfera e no balanceamento canção, grande canção, soa a No fim, damos por nós a pensar,
Modern Streets
Ninja Tune, distri. Symbiose rítmico, independentemente das canção combate à Belle & medido o início irrepreensível do
inspirações. Sebastian: dançamos o ritmo disco, recordando como a
mmmmm Criado em grande parte com o garageiro sem fúria, mas com a despedida com Today (This army’s
recurso a aplicações de iPhone e flauta, soprada com intenção, a for piece), balada enublada por
Em 2015 o cantor iPad, é um disco que respira a colorir a melodia. A guitarra há-de sons atmosféricos, é uma canção
e músico inglês dualidade passado-futuro, com as espingardar e é impossível não da qual não queremos sair,
Steve Spacek letras a criarem um espaço de bater o pé ao ritmo da peça. Mas, reconhecendo que continuamos a
continua a nostalgia, enquanto a música nos nesse momento, o que fazemos ser surpreendidos pelo universo
reinvenção da puxa para cenários futuristas. Em com todo este conforto? “When lírico de Stuart Murdoch (que não
canção soul em Compact n’ sleep somos there’s boms in the Middle East / you mudou), pesado tudo isso,
cenários tecnológicos. Foi assim transportados para um panorama
com Curvatia (2001) e Vintage soul espaçoso, com a voz
Hi.Tech (2003), os admiráveis aveludada de Spacek a brilhar,
álbuns do seu extinto grupo enquanto os subgraves de Alone in
Spacek, e depois com Space Shift da sun ou de I wanna know nos
(2005), assinado já com o nome colocam num local vagamente
Steve Spacek, e mais tarde com 93 marcado pelo dub ou dubstep e
Million Miles (2011), subscrito com a Inflight wave ou I want you
designação Africa HiTech, ao lado resultam numa pop electrónica
do músico Mark Pritchard. dinâmica que evoca elementos do
Agora reinventa-se com a pós-punk.
designação Beat Spacek, naquele Ou seja, independentemente
que é o primeiro álbum da editora dos quadros que são traçados,
Ninja Tune para este ano – estará consegue sempre um equilíbrio
nas lojas a 26 de Janeiro. Na entre identificação e invenção,
década de 2000 Steve Spacek entre voz, gestão rítmica e
representou uma alternativa desenho melódico, afirmando um
sólida aos padrões massificados da vocabulário a partir de várias
soul ou do hip-hop, entendendo nomenclaturas que, no fim de
esses universos como espaço de contas, acabam por resultar numa Belle & Sebastian: a festa plástica na pista de dança está longe de
fantasia e especulação estética, soul de contornos tecnológicos, lhes assentar bem
através de um som minimalista como foi sempre o seu carimbo.
24 | ípsilon | Sexta-feira 16 Janeiro 2015
dizíamos, concluímos que neste assim: uma slide-guitar cheia de
Girls In Peacetime Want To Dance a reverberação desenha uma figura
suave revolução entusiasma e é melódica encantadora, enquanto
bem-vinda, mas que a festa plástica Courtney nos põe a par do seu mal
na pista de dança (a revolução de pulmões num registo vocal
histriónica, digamos) está longe de particular, meio narrado, meio
lhes assentar bem. E é uma pena. slacker, sempre com uma frase
Mário Lopes aguçada pronta a gozar com a sua
condição de pessoa-a-quem-
Courtney Barnett acontecem-coisas. Em Out of the
woodwork, a abertura, guitarras e
Double EP: A Sea of Split Peas
Popstock pianos entregam-se a um pequeno
duelo antes de teclas que emulam
mmmmm violinos ensombrarem o refrão
com ligeira melancolia. Há um
Portugal pouco mais de balanço em History
continua a ser eraser, em que a guitarra surge
um país onde as mais à frente dos restantes
coisas chegam instrumentos na mistura – Double
tarde: a empatia EP, diga-se, é uma ode à arte
humana, a perdida de fazer de uma guitarra
democracia, os discos. Double EP: ritmo o motor de uma canção. Em
A Sea of Split Peas, álbum de estreia certo sentido há muito de Go-
da magnífica Courtney Barnett, Betweens, aqui, como as seis
lançado na Austrália em 2013, cordas de David ou Lance Jr
chegou às nossas lojas em provam. Mas permitam que
Dezembro, pelo que meio de citemos a letra desta última: “I
Janeiro parece a altura ideal para masturbated to the songs you wrote
falar deste magnífica elegia ao (…) it felt wrong, but it didn’t take too
engenho musical. Engenho no long/ much apreciated all your
sentido em que a senhora Barnett songs/ doesn’t mean i like you/ it just
consegue, com quase nada, criar helps me get to sleep”. Quantas vezes
melodias deliciosas, arrancar vemos tão delicado tema ser
simples mas brilhantes arranjos e, tratado com tanto descaramento,
como se isto não fosse suficiente, tanto humor e tanta classe?
escrever narrativas hilariantes Poucas, muito poucas.
baseadas nos pequenos acidentes João Bonifácio
do dia-a-dia. O melhor exemplo
deste talento é Avant-gardener, a Veja os videoclips
história de uma ida ao hospital à na edição do ípsilon
conta de asma, que se edifica para tablets

ípsilon | Sexta-feira 16 Janeiro 2015 | 25


12 capítulos, 250 páginas, continua salta-se sem licença, sem vírgulas. E
o seu exercício de perseguir e dar salta-se também para outras
maior corpo ao imenso projecto de personagens, que ajudam na
criar uma nova forma de narrativa vertigem. É aí que Wallace quer
humana, só que com uma herança estar, na génese do pensamento e
pesada: com A Piada Infinita tinha da emoção, quando se inscreve
sido “genial”. E agora? Como não num curso de contabilidade para
desmerecer a genialidade que saber como articular essas fórmulas
perseguia e atormentava em doses “secas” com evocações do que de
iguais? É só uma das especulações mais poético e transcendente se
acerca de David Foster Wallace que pode passar na mente. Sem
ajudam a alimentar o mito. respeito pela cronologia, num
Outra é este seu romance tempo pessoal em confronto com a
póstumo. A versão que se conhece precisão do relógio que impõe o
não seria a que Wallace iria dar a ler aborrecimento e leva outro estado
se algum dia a chegasse a publicá- de alienação, a do robô, do
la. Sabia-se da sua obsessão em executante letárgico como o
emendar, da busca da perfeição, Bartleby de Herman Melville, a que
mas tudo o que se acrescentar vai sendo comparado.
sobre isto será, mais uma vez, Mais uma vez, Wallace parte de
especulativo. O Rei Pálido é o um universo muito fechado para o
trabalho de Foster Wallace mais o mais abrangente de todos os
trabalho do seu editor, Michael mundos, onde tudo lhe é permitido.
Pietsch, sobre o imenso material Listas, catálogos, fórmulas
que foi encontrado depois da sua matemáticas e também a paisagem
morte no escritório da casa onde territorial e humana, o erotismo e o
vivia com a mulher, Karen Green, riso, a demência e o respeitinho que
Quando morreu, David Foster Wallace deixou aparentemente completos 12 capítulos, 250 páginas, em Claremont, na Califórnia. Eram é muito bonito, tal como ensinam as
deste romance que o seu editor, Michael Pietsch, transformou numa “neurologia do fracasso” “discos rígidos, pastas de ficheiros, regras que Wallace desmonta.
dossiers com argolas, blocos de Desmontou-as até onde foi capaz,
notas de espiral e disquetes”, conta no que descrevia como o turbilhão
Livros
procurava alternativas nas artes. Pietsch no posfácio, “capítulos em que estava metido — assim dele
Ficção O Rei Pálido, o livro que deixou imprimidos, maços de papéis falava, nas poucas vezes em que
incompleto e em que trabalhava escritos à mão, notas e muito dele falava, ao seu editor.
É possível parar havia dez anos, está incluído nesse
volume de mil páginas que tenta
mais”. “Apanhei um avião para a
Califórnia”, continua, “e, passados
O Rei Pálido será sempre
inacabado e incapaz de responder
o pensamento? responder à pergunta “por onde dois dias, regressei a casa com uma até onde poderia ir Foster Wallace
começar?”. É uma das grandes mochila verde e dois sacos da se não tivesse morrido aos 46 anos.
O romance inacabado de hesitações. Há caminhos melhores Trader Joe’s a abarrotar de Mas quem o lê reconhece nele todos
David Foster Wallace — para este seguidor de Thomas manuscritos. Uma caixa cheia de os traços dessa tarefa que foi a sua:
Pynchon, que partiu do livros que o David tinha utilizado viver à margem sem ser por escolha
uma trágica e hilariante modernismo para inventar algo para o trabalho de investigação e fazer dessa incapacidade de ser
dissertação sobre o tédio e a sem nome, experimental às vezes, seguiu pelo correio”. feliz uma obra sobre os intrigantes
frustração. Isabel Lucas outras clássico, no modo como A descrição serve para perceber limites de estar vivo, desafiando as
narra as pequenas histórias que o trabalho de composição que deu convenções da linguagem,
O Rei Pálido compõem a sua intrincada teia origem a este O Rei Pálido, Um apoiando-se na investigação de
literária? Quem já leu Wallace sabe Romance Inacabado, que em 2011, campo, interrogando-se sobre o
David Foster Wallace
da dificuldade de penetrar naquele ano em que seria finalmente trabalho de um escritor, no seu
(Trad. Maria Dulce Guimarães da
universo que não deixa um nervo publicado, foi um dos três finalistas inferno pessoal. Revelar um pouco
Costa e Vasco Teles de Menezes)
Quetzal ileso; da dificuldade de aguentar a do Pulitzer para ficção (não houve de tudo isso é o grande mérito deste
mágoa, de não sucumbir ao delírio, vencedor). Mas O Rei Pálido é mais livro, além, claro, dos muitos
mmmmm de aceitar dar um passo em do que isso. É um compêndio de momentos vibrantes.
direcção ao inferno, sabendo que escrita sobre Foster Wallace. As
O romance dificilmente se sairá igual. Isso, essa notas que deixou e que ajudaram o
póstumo de capacidade de permanecer editor a completar o puzzle sem Sangue novo
David Foster
Wallace, o
intocado quando se vai em frente
no aventuroso convite de o seguir
fim, o labirinto de possibilidades,
dando forma a essa espécie de
para o romance
escritor que se no seu tormento e na sua vertigem “neurologia do fracasso”, de formação
propôs inventiva, também não era o que expressão retirada a uma das
reinventar uma Wallace queria. Ele fere. Mas não é muitas personagens que o autor Uma investigação destemida
fórmula de fazer gratuito. Estava ferido e era nesse criou, são também um modo de o
sobre tempos e lugares
literatura e foi estado que escrevia. Sobretudo nos leitor perceber a oficina obsessiva e
classificado de génio depois de romances. Que sedução pode haver perfeccionista de Wallace. revistos com mão diurna e
publicar A Piada Infinita (Quetzal nisto? A tal garantia de ser tocado. Depois da diversão extremada de nocturna. Hugo Pinto dos
2012), sai em Portugal ao mesmo Foi assim em A Piada Infinita, A Piada Infinita, estamos agora no Santos
tempo que nos Estados Unidos se original de 1996: um livro de mais terreno do tédio. Na Direcção
publica David Foster Wallace The de mil páginas, centrado na figura Regional de Finanças de AT de A Amiga Genial
Reader (Little, Brown and de Harold Incandenza, 18 anos, Peoria, Illinois, em 1985, uma série
Elena Ferrante
Company), guia de leitura para interno numa academia de ténis, de personagens vive encerrada
(Trad. Margarita Periquito)
quem quiser iniciar-se no autor que que serviu ao escritor para satirizar num quotidiano de grande Relógio D’Água
não suportou viver no turbilhão da o permanente convite à alienação aborrecimento, um lugar onde é
sua cabeça. É uma selecção de pela indústria do entretenimento possível estar-se morto quatro dias mmmmm
alguns dos seus textos mais na América de finais do século XX. sem que ninguém estranhe a falta
significativos, um best-of que varre A suprema felicidade estava na de movimentos desse corpo que Uma amiga de
a diversidade do seu registo suprema capacidade de diversão. sempre foi quieto e reservado, um infância de
literário — ensaio, conto, Daí nasceu uma enciclopédia de lugar onde um ser humano é Elena, a
romance... — e que os mais cínicos sentimentos, emoções à flor da comparado a “um peixe a debater- narradora,
apontam como outro produto da pele, obsessões, um modo se na rede das próprias desapareceu sem
indústria Wallace, aquela que se inclemente e letal de contar a obrigações”, num campo absurdo deixar rasto. Há
alimenta do suicídio do escritor, em depressão, a tristeza que vem da entre o riso e a lágrima. Do que de decénios a
Setembro de 2008, tinha ele 46 frustração de se ser, e também de mais íntimo se passa na consciência separá-las de um
anos, e do culto que o elevou ao não se ser, um alienado. O Rei de alguém até àquela que é aqui convívio que fora
estatuto de ícone da América, a Pálido, de que Foster Wallace descrita como mais burocrática das especialmente próximo. Numa
marca de uma geração que deixou aparentemente completos existências, a de um contabilista, demanda que lembra tenuemente
26 | ípsilon | Sexta-feira 16 Janeiro 2015
Um Estranho Amor (in Crónicas do memórias de Elena, que primava Nápoles — separados ambos os
Mal de Amor, Relógio D’Água, pelos conhecimentos clássicos (e pólos por uma jornada que
2014), o filho da desaparecida lembre-se que se aventa a hipótese cumpria percorrer com penosos
procura a mãe. Por isso contacta de a esquiva Elena Ferrante ser transportes. Assim se cava mais Estação Meteorológica
Elena, que acede a recuar mais de
50 anos, desenterrando a sua
licenciada em Estudos Clássicos),
fizesse sentido evocar o genius
fundo o fosso firmado pelo
romance, separador de realidades António Guerreiro
infância e a sua adolescência, em
dois momentos narrativos de um
romance que claramente se
latino. Isto é, a divindade que
velava por cada ser, o
acompanhava e desaparecia com a
irreconciliáveis: social e
individualmente.
Quando Elena refere a língua
As imposturas
anuncia como mais um tomo na
guerra que a vida é até ao fim —
“Vamos ver quem vence, desta
sua morte. Por outras palavras, a
amiga que sempre seguiu Elena
como uma sombra.
italiana falada pela professora, o
exemplo de que se socorre para a
descrever é a Ilíada. O poema
da avaliação

U
vez” (p. 16). Com estas palavras, A Amiga Genial forma-se homérico não lhe serve apenas m artigo publicado há uma semana neste
que encerram o prólogo, Apagar o segundo o instrumento de forças para contrastar a correcção da jornal, da autoria de um professor da
rasto, se determina o que a leitura opostas que crescem em mestra com o “italiano cheio de Faculdade de Letras da Universidade de
do romance só confirmará: não acumulação, e não tanto por fios erros” (p. 72) da sua mãe, mas para Lisboa e investigador no Centro de Estudos
estamos perante o perfilar que recuem e avancem, à medida introduzir uma nota sobremaneira Clássicos (CEC), Rodrigo Furtado, vale como
sossegado de memórias que de caprichos composicionais, ou importante em A Amiga Genial: a um eloquente requisitório que mostra, com
deslizem com a mansidão de uma impulsos do estilo. O sentido é violência. Ao descrever um rapaz força lapidar e abundância de exemplos, as práticas
reminiscência alisada pelo passar praticamente unívoco. Após a que captara o seu interesse, a fraudulentas e a incompetência dos avaliadores no
dos anos. O que encaramos é a brevíssima interrupção do narradora voltará àquele poema mundo académico. O título, O Triunfo da
turbação que cinco décadas não prólogo, a narrativa avança quase — “parecia-se com Heitor, tal como Incompetência: a Avaliação dos Estudos Clássicos em
fizeram mais do que acidular. sempre de forma linear, sem estava representado na versão Portugal, parece responder a uma injunção recorrente
Elena prepara-se para narrar uma nunca sobrecarregar de forma escolar da Ilíada” (p. 87). A uma que reclama a necessidade de saber quem avalia os
Infância e uma Adolescência numa explícita o texto com dados infância “cheia de violência” (p. 27) avaliadores. Mas Rodrigo Furtado não se fica por aí:
disposição de matérias que parece especificamente cronológicos, sucede o bairro “cheio de faz-nos ver que a avaliação é uma ideologia e que essa
querer evocar o exemplo de antes deixando que se infira a conflitos” (p. 107) da adolescência. ideologia é o aparelho de justificação de um sistema
Tolstói, mas que vai numa passagem das épocas através de Nem mesmo as festividades que institui uma polícia científica — composta por
direcção bem mais encrespada, indícios em trânsito elegante no escaparão a essa pulsão belicista. A comissários que fazem figura de idiotas racionais —
descendo por galerias de toque romance. Um acontecimento “batalha do fogo-de-artifício” (p. munida de instrumentos e poderes que lhe permitem
agressivo. escolar, um acidente doméstico, 157), que põe em confronto os instaurar o valor de norma e de verdade. Conta o autor
O método eleito pelo romance é uma fissura no edifício social. Essa foliões pelo melhor festejo, será do artigo que os avaliadores do painel de humanidades
o da antinomia. A mais importante harmonia de contrários, que uma imagem clara e inquietante atribuem ao CEC projectos de estudos que estão
manifestação desse princípio é a alimenta a construção do dos conflitos que agitam o subsolo completamente ausentes das propostas e dos
que opõe Elena e Lila. A vida romance, estender-se-á para lá do das relações familiares e, em programas do referido centro, cometendo ainda por
recordada e narrada em A Amiga núcleo essencial composto por sucessivos anéis de tensão, do cima erros nos relatórios que denunciam uma total
Genial é uma medição de forças Elena e Lila. A comunhão entre as plano mais geral da sociedade. As ignorância sobre as matérias que estão a avaliar, para
com aquele outro ser, aquela outra duas amigas (que seria tentador imagens de cisão são poderosas além de reclamarem de quem se dedica aos Estudos
forma de entender o mundo. O figurar como o negativo uma da representações dessa cisão. Clássicos que siga os famigerados requisitos do
romance irá, repetida e outra) está, além do mais, no Nápoles “corta-se, parte-se” (p. management empresarial: a inovação e o
obsessivamente, fazer reviver uma próprio nome da amiga. De seu 107); o liceu é “esfarrapado” (p. pragmatismo tendo em vista a aplicação utilitária, o
existência entendida em nome verdadeiro Rafaella, todos a 237). Com o casamento de Lila, que que os leva a elogiar uns “guias literários” que
permanente confronto com o conhecem por Lina, excepto encerra o romance, a distribuição erradamente atribuem ao CEC, mas que, garante
outro. Que é aqui, antes de tudo, a Elena, que sempre lhe chamará desigual de bebidas soará o sinal Rodrigo Furtado, “o CEC não editou, não edita, nem
amiga — “aquilo que me faltava, ela Lila. A questão linguística não é, derradeiro de futuros conflitos, propõe editar”. A grande impostura da avaliação
tinha, e vice-versa, num jogo aliás, acessória. Como sucedia em que já se adivinham. Tudo enquanto prática e doutrina não está apenas instalada
contínuo de trocas e inversões, Crónicas do Mal de Amor, língua e permanecerá, porém, num na universidade e na investigação, estendeu-se nos
que, ora com alegria, ora com não língua, norma e desvio dela, adensar que não se distende nem últimos anos a todos os domínios de actividade
sofrimento, nos tornavam são um dos instigadores da escrita. resolve, nas linhas finais de A profissional e a todos os sectores da sociedade.
indispensáveis uma à outra” (p. A fórmula “metade em dialecto, Amiga Genial. Rodrigo Furtado denuncia essa impostura na sua
205). Para chegar a esta conclusão, metade em italiano” (p. 14), Na adolescência — período da dimensão grotesca. Uma definição rigorosa diz-nos de
formulada já em plena aplicada quase no início de A vida e parte do romance —, os facto que grotesco é o facto de um indivíduo deter, por
Adolescência, Elena teve de erguer Amiga Genial, desenvolve-se ao monstros da primeira parte de A um estatuto adquirido por um acto arbitrário de
uma construção de notável longo de um romance que colhe Amiga Genial sofrem nomeação, um poder efectivo de que deveria estar
engenharia, um todo em que as constantemente energias desse metamorfoses. Menos lineares, privado por razões intrínsecas, ou seja, por não ter
partes se digladiam entre si, mas foco de tensão que é a coexistência mais abusadores da ordem que a qualquer autoridade no campo sobre o qual é
sem nunca abalarem o edificado. crispada desses dois códigos — “em própria adolescência põe em chamado a desempenhar o papel de um sobre-saber.
Desde os bancos da escola dialecto era difícil conversar sobre causa. Dom Achille, que era o ogre Na verdade, o poder dos avaliadores institui-se como
primária, passando pelo momento a corrupção da justiça terrena, da infância, é assassinado por um uma ciência sobre a ciência, uma competência sobre a
em que Elena prossegue os estudos como se via bem durante o almoço “ser, metade masculino e metade competência. Trata-se de um poder politicamente
e Lila fica de fora, mantendo-se em casa de dom Rodrigo, ou sobre feminino, que está escondido no constituído que atribui a si próprio, unilateralmente,
dentro da esfera do saber por as relações entre Deus, o Espírito esgoto e sai pelas sarjetas, como os legitimidade para exercer um direito que é por
interposta amiga, ou pelo seu Santo e Jesus” (p. 206). Porque a ratos” (p. 82). A imaginação natureza ilegítimo, injustificado e tirânico sobre o
próprio desafectado esforço questão da língua é, neste delirante da infância dá, então, saber, a sua produção e a sua transmissão. A ideologia
autodidacta. Até ao dia em que a romance, um exemplo eloquente lugar à fantasia e ao fantasma, à da avaliação quer sempre incutir a falsa consciência,
amiga se casa, e Elena se reúne de como o contexto envolvente projecção e ao temor. Um temor, como todas as ideologias, de que é neutra e objectiva,
com a sua própria dissolução — transcende a função de cenário, desta vez, mais da vida do que da e não subjectiva e produto de uma vontade particular.
“não sei o que sou nem o que para ser um elemento actuante na sonhada existência que a infância Por isso, prefere punir e humilhar, com a arrogância
realmente quero (…), sinto-me sua dinâmica. É o dialecto fabrica. A adolescência substitui de uma pseudo-ciência, os investigadores e os centros,
metade e metade” (p. 262) —, napolitano que estabelece a esses planos pelas limalhas que para não admitir que a maior parte das decisões são
incapaz de dizer esse sim à vida demarcação entre os que possuem recolhe dos seus primeiros predeterminadas e sobrederminadas por razões que
que Lila parece pronunciar mesmo escolaridade e os que se agarram à contactos sangrentos com o nada têm a ver com a ciência (veja-se como agiu este
sem falar. Assim, será ela a “amiga subsistência possível. É ele que mundo. Elena vai surgindo, neste ano a Fundação para a Ciência e Tecnologia e o modo
genial” do título, embora tudo o espreita sempre que a razão romance de formação, que é muito como quis ocultar decisões prévias de política da
contradiga. Até a própria Lila, que sucumbe à vertigem dos sentidos mais do que isso, como a imagem investigação). A avaliação tem uma natureza e uma
dirá a frase de sinal contrário — “Tu ou do álcool. O dialecto faz falar a viva do escritor. Evoluirá de uma função essencialmente estratégicas: nas empresas,
és a minha amiga genial” (p. 249). carne; só o italiano traduz a subserviência quieta aos livros e está ao serviço da gestão e da disciplina dos
Mas talvez aqui “genial” se refira implantação do raciocínio e da aos autores a uma crescente “recursos humanos”; na universidade e na
menos à proeza livresca (que Lila, cultura. A pressão resultante desse emancipação, em busca de “uma investigação, é o “dispositivo” de uma máquina de
no entanto, exibe, de uma forma atrito de opostos é outro dos eixos escrita fluente e sedutora” (p. 220), governo. Um “dispositivo”, no sentido em que
sedutoramente desprendida) ou do do romance. É uma relação o que consegue. Mas, utilizamos aqui o conceito, é tudo aquilo que
conhecimento em sentido lato, do comparável à que se instala entre o significativamente, esta descrição pretender ter a capacidade de capturar, orientar,
que a uma outra qualidade mais subúrbio, habitado por estas referia-se à escrita de Lila. Daimon determinar, controlar e assegurar as condutas, as
oculta e total. É possível que nas personagens, e a cidade de e sombra. Génio. opiniões e os discursos dos indivíduos.
ípsilon | Sexta-feira 16 Janeiro 2015 | 27
de Preces (Relógio D’Água), escrito doutrina que impregnou a cabeça literalmente neste romance.
A cólera entre 1946 e 1947, “descoberto” e
publicado em 2013. De Teilhard de
do rapaz. Mas Francis mantém
uma atitude de teimosia e
O’Connor foi uma ardente devota,
mas a questão do seu catolicismo
de Deus Chardin, Flannery retirou a crença alheamento, tendo por companhia e a forma como este se revela nos
de que tudo converge para Deus, a mesma “voz” (o seu amigo, isto é, seus escritos têm sido objecto de
Um combate com os algures num ponto ofuscante o diabo) que o alicia na descrença e estudos e especulações. O próprio
enigmas da fé, cheio do som onde ela, a autora, coloca as suas na resistência. A acção decorre ao título deste livro remete para a
personagens, dilaceradas entre a longo de uma semana e toda a ambiguidade da passagem de
e da fúria do “gótico sulista”.
crença feroz e a dúvida perene. narrativa é construída em torno de Mateus, 11:12 — “Desde os dias de
Helena Vasconcelos Em O Céu É dos Violentos, esse flashbacks que dão conta de uma João Baptista até agora, o reino
O Céu É dos Violentos combate centra-se num rapaz de família disfuncional, cujos dos céus tem sido objecto de
cerca de 14 anos, Francis Marion membros, ao longo dos anos, se violência e os violentos apoderam-
Flannery O’Connor
Tarwater, a quem o seu tio-avô, debateram com conflitos se dele à força” —, evocativa da
(Trad. Luís Coimbra)
Relógio D’Água um homem “possuído” — e auto- alimentados pela ignorância, pela luta perene contra o Mal, que
proclamado profeta — confia duas fraqueza moral e pelo tenta subjugar o divino para o
mmmmm missões: a de lhe dar um enterro fundamentalismo messiânico. Os diminuir e distorcer. Luta essa que
cristão e a de baptizar um outro vértices do triângulo formado por não exclui a violência e o
Em 1964, quatro sobrinho com problemas mentais, Francis Tarwater, Rayber e Bishop confronto brutal, reminiscente do
anos antes de que vive na cidade com o pai. O simbolizam três forças que se tumulto que encontramos no
morrer vítima de velho Tarwater, que raptou digladiam impiedosamente e Paraíso Perdido de John Milton.
lúpus, Flannery Francis em criança para lhe acabam por se destruir entre si, à O’Connor não se coíbe de
O’Connor transmitir a sua visão fanática da medida que as acções demenciais desmascarar a ignorância que leva
publicou O Céu É religião, cria-o na floresta no se sucedem à luz de visões bíblicas à intolerância e que, por sua vez,
dos Violentos, o sentido de fazer dele o seu de baptismos e purificações que se desenvolve num fanatismo
seu segundo e discípulo e morre efectivamente carregam consigo a destruição e a grotesco, frequentemente
último romance, no início do livro. O rapaz procura morte. intrínseco aos seus personagens,
uma história apoteoticamente satisfazer o seu compromisso, O Céu É dos Violentos tem o peso mesmo quando estes estão Depois da capa, o sol raramente
sombria sobre a morte e a começando a cavar uma sepultura de uma maldição lançada aos imbuídos de uma qualquer visão espreitará das suas páginas.
redenção da alma. O tom no solo duro e resistente, mas quatro ventos por esta autora redentora. No entanto, essa Realizadas entre 2009 e 2013, as
arrebatador com que esta sulista interrompe a tarefa árdua e singular que lia e relia em criança espécie de epifania nunca é imagens imobilizam rostos,
se lançou na escrita serviu o inglória ao ouvir uma “voz” que os contos de Edgar Allan Poe e pacífica, antes se reveste de um espaços domésticos, objectos,
propósito, bem delineado desde a lhe diz para esquecer o velho e manteve uma discussão consigo carácter demolidor que é próprio movimentos do mar. Mas esta
infância, de expor e de articular, seguir com a sua vida. Incapaz de própria relacionada com os da revelação do mistério da morte, imobilização é momentânea, tudo
em múltiplos aspectos, duas das tomar uma decisão, embebeda-se, enigmas da fé sem nunca perder de tema central deste romance e se move com o folhear das
questões essenciais que pega fogo à casa com o cadáver lá vista uma ironia selvagem que tratado, pela autora, com uma páginas, permitindo ao leitor
preencheram a sua existência: os dentro e apanha uma boleia de um raiou o grotesco, muito próprio do espécie de desespero irónico, imaginar as narrativas que aquelas
abismos da crença religiosa e a caixeiro-viajante que lhe garante “gótico sulista”, uma designação enquanto transpõe, para a ficção, constroem. Prevalecem os olhares
relação conturbada com o espaço que “não existe o diabo nem nada que serviu para acantonar tudo aquilo que a atormentou: os e os corpos de figuras do sexo
geográfico em que nasceu e viveu. que o valha… não tens de escolher escritores tão diferentes quanto preconceitos e a tibieza moral, o feminino que hão-de reaparecer a
No vórtice de O Céu É dos entre Jesus e o diabo. A escolha é William Faulkner, Carson bem e o mal, as tensões entre o ser longo do livro, com outros
Violentos, a escritora faz convergir entre Jesus e ti mesmo” (p. 38). Ao McCullers, Tennessee Williams, humano e a natureza, entre a razão penteados, outras poses, outras
toda a sua filosofia, alimentada e chegar à cidade, Francis procura o Harper Lee, Truman Capote, e o fanatismo, entre o paraíso e o cores. Lentamente, reconhecidas
desenvolvida, sobretudo, pelo tio, o professor Rayber, pai de Cormac McCarthy e a relutante inferno. pelo “leitor que olha”,
estudo de S. Tomás de Aquino e Bishop, o referido miúdo com Eudora Welty, que se insurgiu transformar-se-ão, então, em
do teólogo Pierre Teilhard de síndrome de Down, que o acolhe e contra essa categorização. Na personagens: a ficção instala-se.
Chardin, já visível no seu juvenil e tenta fazer dele um “ser humano realidade, todos eles conheceram e Fotografia Um pequeníssimo texto revela
profundamente espiritual Diário útil”, desmistificando a falsa se deixaram seduzir que fazem parte da família de
perversamente pela ideia, que
transpuseram para a escrita, de um
Vento e água Sandra Rocha, mas nada se fica a
saber da sua intimidade, das suas
lugar luminosamente sombrio, vidas. Que laços que têm com a
Os Açores e a família de
entre chamas purificadoras, o criança que, deitada no chão,
apaziguamento da água baptismal, Sandra Rocha num livro afaga um gato, com o homem que
a viagem iniciática e o negrume de de fotografias tocadas pela segura o bebé nas mãos, ou com a
um céu onde os pobres, os paisagem. José Marmeleira miúda que escreve sobre uma
deserdados, os impotentes, os mesa? Não nos dizem. Sandra
marginais e os mutilados física e Anticyclone Rocha permite, gentilmente, que
psicologicamente se movimentam se entre neste universo privado,
Sandra Rocha
numa ânsia redentora que os Ed. Autor mas com uma reserva silenciosa.
arrasta por um longo caminho de Não há imagens do exterior da
martírio. Este quase sadismo a que mmmmm casa, de lugares precisos ou
O’Connor expõe homens e facilmente identificáveis. Não há
mulheres destinados a um Anticyclone nomes.
propósito envolto em trevas foi o começa com uma Que entra em Anticylone
que desencadeou a reacção da sua rapariga em vagueia, assim, entre espaços e
antiga professora de escrita criativa biquíni. corpos, tacteando emoções e
no Georgia State College for Enquadrada pelo gestos até que o doméstico se
Women (cujas aulas frequentou em azul da capa, tem confunde com o onírico, o
1942), que, dez anos mais tarde, ao a mão sobre o quotidiano com o fantástico: no
ler o primeiro romance da sua peito, o queixo mesmo mundo, participam o
aluna (Sangue Sábio), o atirou pelo levemente nevoeiro que vela um rosto e um
ar e exclamou: “Se ela tivesse levantado à procura do sol, os aniversário que aguarda a
matado o personagem logo no olhos fechados. É uma imagem de celebração numa mesa enfeitada.
início, em vez de o fazer no fim, praia, das que facilmente atraem o A misteriosa rapariga de vestido
teria poupado uma grande maçada olhar masculino. Quem não branco e a mulher que lê,
a muita gente”. Este desabafo conhece a artista que assina este conformada, uma revista. Não se
reflecte o desconforto de leitores livro colocará, talvez, a pergunta: encontram sinais de espaços
que resistem ao ímpeto será a rapariga a autora, Sandra urbanos, da cidade, e rareiam os
devastadoramente cómico de Rocha? A simples abertura de da tecnologia. A influência do
O’Connor, cuja força, feita do Anticyclone, concebido com a anticiclone dos Açores, a
apuramento incandescente da sua colaboração de André Príncipe e personagem invisível, mas
escrita, aliado a um imaginário José Pedro Cortes, desfaz o omnipresente, das narrativas,
Flannery O’Connor foi uma ardente devota, mas a forma como o assombroso, se condensa equívoco. As imagens vêm de um surge nas cores, nas sombras, nas
catolicismo se revela nos seus livros tem sido alvo de especulação essencialmente nas narrativas mais lugar, a Ilha Terceira, nos Açores, e paisagens. As imagens não se vêem
curtas mas que “explode” vêm com vento, água e nevoeiro. apenas, experimentam-se como
28 | ípsilon | Sexta-feira 16 Janeiro 2015
Cinema
história de um homem condenado
Estreiam pela sua genialidade que acabou A mulher
por se suicidar em 1954 sem que a
A teoria importância do seu trabalho fosse que não sabia
do big bang
reconhecida em vida.
O Jogo da Imitação esconde essa
o que queria
dimensão trágica por trás de uma
Uma interpretação soberba narrativa clássica de thriller de Uma comédia atenta
de Benedict Cumberbatch guerra, ligada à corrida contra o e simpática sobre uma
numa meditação sobre a tempo da equipa de criptógrafos quase-trintona em fuga para
recrutada pelo governo inglês para a frente. Jorge Mourinha
diferença disfarçada de descodificar as comunicações
thriller de guerra. Jorge militares alemãs. Por trás desse Encalhados
Mourinha problema matemático, é uma
Laggies
metáfora da própria humanidade
De Lynn Shelton
O Jogo da Imitação de Turing que se gere: o título Com Keira Knightley, Chloë Grace
refere-se ao célebre “teste de Moretz, Sam Rockwell
The Imitation Game
Turing” onde um pequeno número
De Morten Tyldum
Com Benedict Cumberbatch, Keira de perguntas seria suficiente para mmmmm
Knightley, Matthew Goode identificar e diferenciar uma
inteligência humana de uma
mmmmm inteligência artificial. Mas esse “jogo
da imitação” é também o jogo da
Pode parecer algo “insensível” identificação e diferenciação da
evocar a popular série de comédia “normalidade” e do “desvio”.
A Teoria do Big Bang para falar de Reflecte a tragédia de Turing como
A personagem invisível, mas Alan Turing, matemático inglês um visionário desfasado do seu
omnipresente, das narrativas que lançou as bases dos tempo, uma personalidade quase
de Sandra Rocha surge nas computadores modernos e teve autista que, apesar dos seus
cores, nas sombras, nas um papel fulcral na decifração dos melhores esforços, nunca
paisagens: as imagens não se códigos militares alemães durante conseguiu integrar-se
vêem apenas, experimentam- a II Guerra Mundial. Não é, por completamente na sociedade rígida
se como atmosferas uma simples razão: a própria da Inglaterra pós-imperial. E o filme
estratégia do argumentista Graham ganha-se precisamente na elegância
Moore e do realizador Morten com que Morten Tyldum tece o seu
atmosferas: Anticyclone é um Tyldum em O Jogo da Imitação é retrato de Turing como prisioneiro De Lynn Shelton recordamos
objecto em que o vento e a água introduzir a personagem ao do seu tempo histórico mais do que com satisfação duas boas
parecem tocar a pele do leitor. espectador (numa cena notável como símbolo do que quer que seja. comédias independentes em
À medida que se caminha para o que brinca com o conceito das Para isso contribui sobremaneira modo semi-improvisado sobre
fim, vão diminuindo os retratos de “entrevistas de emprego”) como a interpretação espantosa de os quiproquos emocionais dos
família e os instantâneos do dia-a- um idiot savant que parece existir Benedict Cumberbatch, que trintões contemporâneos,
dia em favor das imagens da numa realidade alternativa, um transforma o cientista quase sem Humpday/Deu para o Torto
natureza representada no mar. É génio matemático incapaz de jogar esforço de proto-Sheldon Cooper (2009) e, sobretudo, Entre
este que, a princípio distante e o jogo social. Esse início algo em figura trágica, que transporta às Irmãs (2011). Encalhados, o
calmo, vai fazendo notar a sua brusco e picaresco remete costas um filme mais inteligente do novo filme da realizadora
presença, progressivamente mais invariavelmente para Sheldon que a aparência de “filme de época americana, mais polido e
violenta a ponto de, nas últimas Cooper, o físico imaturo da Teoria britânico” daria a entender (e é controlado, tem qualquer coisa
páginas, se lançar sobre as rochas, do Big Bang – e é essencial para uma produção americana dirigida de “exame de acesso” ao
“fustigando” a aparente indiferença estabelecer a base do que se por um cineasta norueguês). E é a patamar superior do “filme de
das personagens femininas. seguirá. O filme é a história da maneira certa de falar de Alan estúdio”, sem por isso perder a
“Aparente”, sublinhe-se. No olhar “aprendizagem” que Turing faz da Turing: como uma pessoa tendência atenta e
que devolvem a Sandra Rocha ou necessidade de se integrar na demasiado complexa para um observacional do seu cinema.
no peso, na densidade dos seus estrutura social de uma Inglaterra mundo que não aceitava essa A sua heroína é Megan, uma
corpos (de costas viradas para o classista e rígida, mas também a complexidade. quase-trintona que não sabe
leitor, de frente para o horizonte no o que fazer da vida mas não se
último terço do livro), estão uma quer comprometer nem
serenidade e uma solitude conformar, e que se vê
conscientes da passagem do tempo. encostada à parede pelo
Escreve a artista que ao olhar para pedido de casamento do seu
aquelas imagens vê o seu passado, namorado de sempre.
presente e futuro. Ao leitor não Encalhados é o retrato da
será difícil colocar-se no mesmo “fuga para a frente” de
lugar. Naqueles rostos e corpos Megan, procurando esconder-se
persistem, apesar da hostilidade da idade adulta que lhe assobia
indomável do mundo exterior, aos calcanhares junto de uma
tantas desilusões quantas vontades. amiga adolescente, e atrasar o
É esse o seu e o nosso consolo. mais possível a decisão que tem
(Nota: Anticyclone pode ser de tomar. O tema é a
adquirido em www.sandrarocha.pt medida de Shelton e do seu
e será apresentado em Bordéus no humor suave e
mês de Fevereiro, acompanhado compreensivo, mas as arestas
de uma exposição no espaço ACT mais limadas e o acabamento
Image. Refira-se também que mais envernizado surgem às
Sandra Rocha está a preparar um custas de alguma
novo livro a partir de um projecto espontaneidade e alguma
realizado em Junho de 2014, energia. Ainda assim, a
durante uma residência na realizadora confirma-se uma
Finlândia, e em 2015 começará a excelente directora de actores
trabalhar numa monografia sobre a – Keira Knightley vai
ilha do Pico). lindamente e nem nos
lembramos dela como
Leia excertos dos presença regular em filmes
livros na edição do O Jogo da Imitação: mais inteligente do que a aparência de “filme de época britânico” dá a entender de época ingleses – e Encalhados
ípsilon para tablets tem uma vibração humana
ípsilon | Sexta-feira 16 Janeiro 2015 | 29
que costuma estar ausente montando uma peça de Raymond
da maioria das comédias Carver e actuando na Broadway. E
americanas com ele e com o dilema desse
contemporâneas. actor em busca de autenticidade
Iñárritu passa da montagem
paralela e do ponto de vista de
A menina várias câmaras, as suas armas
e o criado anteriores, para um fluxo
contínuo alimentado a planos
Miss Julie sequências, como se tudo não
capaz de oprimir com a elegância pudesse ser se não a verdade
De Liv Ullmann
Com Jessica Chastain, Colin Farrell, (personagem para o qual o captada e nada mais do que essa
Samantha Morton realizador olha, aliás, com verdade. A verdade de um teatro
respeito e gravidade), existencial, em suma: quando a
mmmmm podemos ouvir aqui o embate auto-estima se incha no
surdo da auto-reflexão, algo que se Facebook e no Twitter, mas
A influência de Strindberg paira ouvia já em outros filmes do não se levanta do chão sem a
sobre uma grande porção da realizador, como em Climas, em ficção das redes sociais, quando
dramaturgia cinematográfica que Ceylan e a mulher os sentimentos e o desejo se
sueca, sendo a obra de Ingmar Miss Julie: do lado errado do “teatro filmado” interpretavam um casal. Isso vibra. falsificam ou lutam para soarem a
Bergman o exemplo mais evidente Mas o dispositivo de diálogos e verdade (como aquele actor,
e, provavelmente, máximo. Liv situações é utilizado aqui da interpretado por Edward Norton,
Ullmann, que vem, de corpo e mesma forma incontinente como, que só consegue evidenciar a
alma, de dentro do universo antes, Ceylan utilizava os tusa junto da amante quando
bergmaniano, atira-se aqui a uma travellings. O realizador de Clouds ambos estão em palco). Não é
das peças mais célebres de of May (1999) e Longínquo (2002) caso para dizer que Iñárritu
Strindberg, a Menina Júlia, já era, talvez, um cineasta mais procura, como Riggan Thomson,
várias vezes passada a filme, humilde e mais justo para com os ser outra personagem, diferente
nalguns casos com resultados seus limites do que o de Sono de da do manipulador de destinos e
extraordinários, como a versão de Inverno. Limites que ele acreditou, de epifanias que costuma ser.
1951 assinada por Alf Sjöberg (de talvez por influência dos rituais dos Fiquemo-nos por aqui: há pelo
resto, um dos mestres de festivais, que se alargaram: menos a vibração de uma dúvida a
Bergman). Se insistimos na ligação decididamente passou a querer interagir com os seus
de Ullmann ao mundo inscrever o seu nome numa procedimentos habituais e a
bergmaniano e ao que ele espécie de solenidade prêt-a-porter vontade de criar para os actores
representa, ligação reforçada do cinema de autor. Era uma vez na qualquer coisa próxima de um
ainda pelo facto de o seu filme Anatólia, por isso, acabava por ser microcosmo e das suas “verdades”
anterior como realizadora Não é o melhor Godard da “fase ensaística” iniciada nos 80’s, mas uma involuntária demonstração da e nevroses domésticas mas
(Infidelidade, de 2000) ter sido tem mais cinema lá dentro que todos os que invocam o seu nome impossibilidade de ser Theo essenciais. Talvez não seja por
feito com base num argumento Angelopoulos; aqui mostra-se que acaso, e por isso não tão absurdo
original de Ingmar, é porque nada não é possível ser Ingmar Bergman assim, que nos tenhamos
nos prepara para a enorme as elipses que dão a noite que a 3D como nenhum outro cineasta apesar de Sono de Inverno ser, lembrado várias vezes ao longo de
decepção que é esta Miss Julie, Menina e o criado passam juntos) alguma vez o usou. Não é o melhor fundamentalmente, um conjunto Birdman de Noite de Estreia, filme
totalmente instalada no lado resulta tudo tão morno Godard desta “fase ensaística” de cenas de uma vida conjugal. Um de John Cassavetes. Mas é também
errado do “teatro filmado”. que depressa se passa da iniciada na década de 1980 (que, movimento de câmara – a essa memória que repõe a verdade
Transpondo a acção para a falta de entusiasmo ao para nós, é o sublime Elogio do sequência final – a afastar-se de no que toca a Iñárritu e à suposta
Irlanda, pormenor que acaba por aborrecimento. Luís Miguel Amor), mas mesmo um Godard uma casa, o céu a desfazer-se em audácia do seu passo: Cassavetes
ser irrelevante e justificar apenas o Oliveira menor (o que também não é o neve, lá dentro um casal... era isto. chegou lá, ao centro da dor, da
inglês falado pelos seus caso) tem mais cinema lá dentro não era? Vasco Câmara angústia, sem qualquer proeza, a
protagonistas “internacionais” que todos aqueles que invocam o não ser a magnificência humana
( Jessica Chastain, Colin Farrell e Continuam seu nome. J.M. Birdman ou (a Inesperada com que trabalhava. O que é
Samantha Morton), Ullmann Virtude da Ignorância) contraditório em Birdman, cujo
aborda a peça com uma encenação material de base sublinha clichés
austera, bem longe das liberdades
Adeus à Linguagem Sono Birdman or (the Unexpected
sobre o logro da fama, é o facto de
Adieu au langage Virtue of Ignorance)
tomadas por exemplo nessa versão
De Jean-Luc Godard de Inverno De Alejandro González Iñárritu
o que nele se evidencia ser sempre
Sjöberg que mencionámos. Com Héloïse Godet, Kamal Abdelli, Com Michael Keaton, Zach o processo para conduzir a um
Estamos quase sempre em Richard Chevalier, Kis Uykusu Galifianakis, Edward Norton efeito: o plano sequência e a ilusão
interiores, as personagens de um único movimento de
De Nuri Bilge Ceylan,
presentes são mesmo só aquelas mmmmm Com Haluk Bilginer, Melisa Sözen, mmmmm câmara, tudo empurrado por um
três (a Menina Júlia de Chastain, o Demet Akbag omnipresente solo de bateria que
criado de Colin Farrell, a sofrida Nos idos de 1959, Godard foi um Eis Riggan Thomson, estrela em parece gritar a coisa; a
cozinheira de Morton), e o filme dos cineastas que “inventou” o mmmmm Hollywood nos filmes da série performance dos actores, que não
avança em longas cenas de diálogo cinema moderno. Meio século Birdman. Um dia essa estrela é possível ignorar (Keaton,
que nunca se pretendem descolar depois, continua a forçar as suas Há todo um filme a percorrer – e resolve tentar transcender-se e Norton, Emma Stone, Naomi
de uma respiração propriamente fronteiras como cineastas com um quase três horas e meia dele – para ganhar uma diferente legitimidade Watts e Zach Galifianakis), mas
“teatral”. Mas o que no papel era terço da sua idade não são capazes chegar ao que podia ter sido. Até lá
“cru”, e bem em sintonia com a de fazer. Adeus à Linguagem desenham-se, com redundância,
gélida observação das relações de parece querer apagar a luz e dizer círculos à volta de um objectivo:
classe curto-circuitadas pelo “quem vier depois que feche a destruir as virtudes intelectuais e
desejo “inter-classista”, acaba por porta”, mas também dizer que há morais de um intelectual – cenário:
resultar demasiado limpo, para outras portas por abrir para as a Anatólia coberta de neve. Essa
não dizer demasiado mole - ver a quais deveríamos olhar. estratégia cobre-se de outra, e
escala de planos, por exemplo, Desintegrado, fragmentado, também com violência: com este
previsível, académica, bastantes indefinível, indescritível, Adeus à filme, Nuri Bilge Ceylan parece
vezes dependente de uma lógica Linguagem é, nas próprias palavras interromper a incontinência
de campos-contracampos sem de Godard, um “ensaio de formalista dos seus últimos
surpresa alguma, próxima do investigação cinematográfica” que trabalhos, apoiando-se desta vez
“tele-teatro” mais desenxabido. prova como o cineasta-iconoclasta em diálogos, que percorrem a
Falta “grão” ao filme - aquele continua a explorar um território moral, a religião e todo o mundo,
“grão” que fez da “redução ao só seu, pessoal, intransmissível, sendo através das palavras que as
teatro” um dos pilares de algumas um espaço de experimentação personagens se constroem e
correntes da “modernidade” formal e reflexão densa sobre o destroem. Se pensarmos que a
cinematográfica - e fora alguns poder, as possibilidades e as personagem principal é um
momentos bem resolvidos (como armadilhas da imagem, que usa o homem vaidoso, dominante e
30 | ípsilon | Sexta-feira 16 Janeiro 2015
Seymour Hoffman desse filme,
AS ESTRELAS Jorge
Mourinha
Luís M.
Oliveira
Vasco
Câmara
que lhe tragam personagens
DO PÚBLICO pré-fabricadas, ou já prontas a
usar. Apesar do ecletismo do
elenco (Steve Carell, Channing
Tatum, Mark Ruffalo, tudo actores
Adeus à Linguagem mmmmm mmmmm mmmmm de registos habitualmente
Birdman mmmmm – mmmmm dispares), ou justamente por isso,
em Foxcatcher vê-se mais
Encalhados mmmmm – –
“interpretação”, mais
Foxcatcher mmmmm mmmmm mmmmm performance, do que personagens,
O Jogo da Imitação mmmmm – – e mais uma espécie de
embevecimento perante os
Invencível mmmmm mmmmm –
actores do que vontade de
Miss Julie – mmmmm – imprimir uma direcção
Mr Turner mmmmm mmmmm mmmmm narrativa forte, ou um olhar
que enquadre e enforme os
Sono de Inverno mmmmm – mmmmm
muitos ressentimentos e
Uma Esperança de Liberdade mmmmm mmmmm – recalcamentos que ligam as Pasolini: tentativa de ensaio, palavra grande para coisa tão tímida,
a Mau mmmmm Medíocre mmmmm Razoável mmmmm Bom mmmmm Muito Bom mmmmm Excelente
personagens umas às outras. sem violência ou escândalo
O argumento indicia virtudes,
pelo que é daqueles casos que
que nunca conseguem descolar da pareciam pedir mais realizador e mas um filme para Pasolini? imaginação dos bacanais de
sensação de exibição e nada menos ilustração. L.M.O. Tal como um fã à espera de Porno-Teo-Kolossal não será
podem, mesmo que o quisessem, um sinal de aprovação da nunca aquilo que
contra a “máquina” que os Pasolini figura idolatrada, Ferrara dá a recordaremos do cinema de
empurra. ouvir a música que Pasolini Ferrara. Dafoe fala às vezes
De Abel Ferrara
Com Willem Dafoe, Ninetto Davoli, gostava de ouvir (Maria Callas, é italiano mas sobretudo em
Uma Esperança de Liberdade Riccardo Scamarcio claro). Mostra-se cálido ao inglês, como se o realizador
abeirar-se de uma figura decisiva quisesse reclamar a coisa
Rosewater
De Jon Stewart mmmmm no mundo de Pier Paolo, a mãe amada para o seu cinema. Em
Com Gael García Bernal, Kim (interpretada por Adriana Asti, Welcome in New York não
Bodnia, Haluk Bilginer Uma Esperança de Liberdade No Festival de Cannes, em Maio que foi actriz em Accatone, o que precisava de o fazer,
passado, quando apresentou é um suplemento de emoção na Dominique Strauss Khan
mmmmm Welcome in New York, sobre homenagem). É uma tentativa emergia como invenção
Dominique Strauss-Khan, de ensaio, palavra grande para escandalosa de Abel
Jon Stewart, ou o Daily Show que Ferrara aproximara DSK de coisa tímida, mas é respeitosa, Ferrara. V.C.
ele conduz, é das poucas coisas na Pasolini, a personagem do seu sem violência ou escândalo: por
televisão que não dão vontade de filme seguinte, porque em ela Ferrara atreve-se, e falha, Veja os trailers das
desligar o aparelho. Toda a ambos a solidão era em si em caminhos fora dos seus, estreias na edição
simpatia prévia para este seu qualquer coisa de herético. como os da fábula alegórica - a do ípsilon para tablets
ensaio como realizador, até por É verdade que em Welcome in
questões de contexto político, as New York Ferrara tinha à
mesmas que no seu programa disposição o corpo de
Stewart tenta, por vezes com Depardieu, que em si mesmo é
brilhantismo, desmontar, virando Invencível: decepcionante uma afirmação escandalosa, e
do avesso os efeitos mais óbvios com esse escândalo uivante a
da langue de bois política. Mas personagem de D.S.K.
depois o filme, Rosewater, sobre o guerra (a campanha americana no aparecia como uma figura do
vespeiro iraniano, não é bem isso, Pacífico na II Guerra), tudo está universo do cineasta, como
antes um objecto certinho e nos conformes, numa mistura de se a ele pertencesse antes do
escorreito, não particularmente eficácia e indiferença que nada mais. Em Pasolini Willem Dafoe é
mordaz, que privilegia uma noção fazem para que o filme se distinga, um impressionante invólucro
de decência (moral e intelectual) nem para que seja “importante” para o pensamento de Pier Paolo.
digna daquele “olhar americano” que a realizadora seja Jolie ou Ferrara sintetiza Pasolini no
tão bem corporizado na tradição outra pessoa qualquer. Grandes seu último dia de vida, depois
da Hollywood clássica, mas a que vedetas que passam à realização de Pier Paolo ter regressado de
falta quase tudo o resto, rasgo ou para fazerem filmes sem estilo Estocolmo onde se encontrou
energia. Até Clooney - que como próprio já houve várias - tem com Ingmar Bergman. O dia em
realizador talvez seja quem tem sempre qualquer coisa de que, antes de engatar Pelosi num
estado mais próximo da simpático (uma espécie de bar de Roma e de irem os
sensibilidade de Stewart - já foi “fantasia do anonimato”) mas não dois jantar a um restaurante
mais feliz a jogar com as mesmas deixa por isso de ser que Pasolini frequentava,
regras. L.M.O. decepcionante. L.M.O. deu aquela que seria a sua
última entrevista, a Furio
Invencível Foxcatcher Colombo. Aí sintetizou a sua
análise sobre o novo totalitarismo
Unbroken De Bennett Miller
Com Stece Carrell, Channing Tatum emergente, o consumismo, e
De Angelina Jolie
Com Jack O’Connell, Domhnall e Mark Ruffalo sobre a destruição do que era
Gleeson, Miyavi ancestral: o humano. Essa
mmmmm entrevista, que Dafoe e Ferrara
mmmmm recriam de forma grave, solene,
Bennett Miller é um ilustrador antecipação do futuro que é hoje,
No primeiro filme de Jolie como simpático - veja-se o seu Capote é a peça central do “corpo de
realizadora, Na Terra de Sangue e - mas precisa, como com o Philip trabalho” que existe em Pasolini.
Mel, ambientado na guerra Para além disso, Ferrara cria
Jugoslava dos noventas, havia uma imagens para Petróleo, o
certa “irregularidade”, uma fuga a romance póstumo do escritor,
códigos e cânones da produção e imagina o que poderia ter
hollywoodiana corrente, que sido o filme que o cineasta
sugeria uma certa teimosia, uma deixou por fazer, Porno-Teo-
certa idiossincrasia. Ao segundo Kolossal, que seria com Ninetto
fílme isso começa-se a ver menos: Davoli e Eduardo De Filippo.
ainda reconstituição e ainda Não um filme sobre Pasolini,
ípsilon | Sexta-feira 16 Janeiro 2015 | 31
17 Janeiro
sábado, 18:00h

A viúva alegre
lehár
Andrew Davis
Susan Stroman

18 Janeiro
domingo, 19:00h

Cuarteto Casals
mozart

21 + 22 Janeiro
quarta, 21:00h / quinta, 21:00h

Cappella Andrea Barca


András Schiff
schubert
mozart
dvorák

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a. schiff © photographin priska ketterer, luzern

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