Natal, 2024
Editora do DEI-RN, Av. Câmara Cascudo, 334, Ribeira, Natal-RN; Editora
Manimbu, R. Açu, 666a - Tirol, Natal - RN.
Governo do Estado do Rio Grande Projeto gráfico e diagramação
do Norte Nathália Nóbrega
Professora Fatima Bezerra
Pré-impressão
Secretaria Extraordinária de Cultura Edenildo Simões
Mary Land Brito
Produção gráfica
Presidente da Fundação José Afrânio Melo
Augusto
Gilson Matias Chefe da gráfica
Willams Laurentino
Diretora-Geral DEI
Flávia Assaf Revisão
Pedro Lucas Bezerra
Arte da capa
Transcriação a partir da ilustração de Estagiários
Adriel Lopes Cardoso para a capa da Valdemiro Wesley Bezerra Nobre
primeira edição de Roseira Brava (1929) Amanda Vieira Fonseca
Edição André Macedo de Lima
Flávia Assaf Mário André Sousa de Oliveira
Pedro Lucas Bezerra
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Wanderley, Palmyra, 1899-1978
Roseira brava : poemas / Palmyra Wanderley. --
Natal, RN : DEI RN, 2023.
ISBN 978-65-998543-1-6
1. Poesia brasileira I. Título.
23-179229 CDD-B869.1
Índices para catálogo sistemático:
1. Poesia : Literatura brasileira B869.1
Tábata Alves da Silva - Bibliotecária - CRB-8/9253
Conselho de Cultura do Rio Grande do Norte
Valério Alfredo Mesquita - Presidente
Paulo de Tarso Correia de Melo - Vice Presidente
Francisco Martins Alves Neto - Secretário
Conselheiros
Antônio Gentil
Cícero Martins de Macedo Filho
Diógenes da Cunha Lima
Diva Maria Cunha de Macedo
Eulália Duarte Barros
Gilson Matias
Ivan Lira de Carvalho
João Morais
Josimey Costa da Silva
Joventina Simões
Rejane de Souza
Sônia Maria Fernandes Faustino
Suplentes
Ailton Medeiros
Armando Holanda
Leide Câmara
Apresentação da 3º edição
O Governo do Estado do Rio Grande do Norte vem, através da
Secretaria Extraordiária de Cultura, da Fundação José Augusto
e do Departamento Estadual de Imprensa, devolver aos leitores e
leitoras potiguares a poesia de Roseira Brava, de Palmyra Wanderley,
95 anos após a primeira edição e 59 anos após a segunda edição.
Já não era sem tempo!
Para quem é amante da poesia e para quem ainda será iniciado
nesse mister, eis a obra basilar da precoce poetisa norte-rio-
grandense nos seus detalhes, percurso e reverberações.
Esta 3a Edição de Roseira Brava vem comentada por estudiosos de sua
obra, como Diva Cunha, Alexandre Alves e Vicente Serejo, anotada
pelos editores, e traz todo o conteúdo das duas edições anteriores
para o conhecimento dos leitores e leitoras do século XXI.
O Governo do Estado do Rio Grande do Norte sente-se feliz e
orgulhoso em saldar essa dívida histórica com a Cultura potiguar.
Natal, março de 2024.
Professora Fatima Bezerra
Governadora do Estado do Rio Grande do Norte
Mary Land Brito
Secretaria Extraordiária de Cultura
Gilson Matias
Presidente da Fundação José Augusto
Flávia Assaf
Diretora-Geral DEI
A g ra d ec i m e nto s
Pelas colaborações para esta edição, agradecemos a Vicente Sere-
jo e Rejane Cardoso, por cessão de sua biblioteca de valiosas edi-
ções de Palmyra Wanderley e de bibliografia a respeito da autora;
a Daliana Cascudo e Instituto Ludovicus, por cederem imagens da
primeira edição do livro; a Diva Cunha e Alexandre Alves, pelos
textos introdutórios que jogam luz na poesia e na vida da autora
para os novos e velhos leitores; a Regina Azevedo, pelo texto da
orelha desta edição; ao jornalista Minervino Wanderley e ao Dr.
Lauro dos Guimarães Wanderley, familiares da poeta, pelo apoio
a esta publicação; ao poeta visual e artista plástico Falves Silva.
Minh a t ia Pa l my ra
Lauro dos Guimarães Wanderley Filho
Embora com pouco contato com tia Palmyra Wanderley, li
muito acerca da vida dela e conversei sobre com minhas ir-
mãs, que são mais velhas que eu e tiveram um contato mais
próximo com ela. Minha lembrança, aos 11 anos, é de tia Pal-
myra já adoecida, vindo se hospedar por um breve tempo na
casa dos meus pais. Meu pai era viúvo com 4 filhos quando
casou com minha mãe. A diferença de idade entre eles era
grande. Por isso, meus tios tinham idade de avós. Meu pai
faleceu aos 68 anos. Eu tinha 13 anos. Poucos anos depois, tia
Palmyra faleceu. Nos últimos 2 anos, tenho lido muito sobre
a vida da grande Palmyra Wanderley e a fantástica geração
dos Wanderley: José Wanderley, teatrólogo diretor do teatro
nacional e autor da primeira peça, encenada pelo ator Má-
rio Lago (vi esse depoimento na TV na década de 80); Irmã
Marta, que ensinou pintura a gerações no colégio das Neves
em João Pessoa (tinha curso de pintura na França); Cônego
Luis Wanderley (para nós, tio padre) que morava aí em Natal;
Olavo Wanderley, pioneiro dos cinemas na Paraíba; além dos
outros tios, entre eles Renato Wanderley, que conheci, e ainda
o intelectual e teatrólogo Jayme dos Guimarães Wanderley;
juntos, estes formaram uma geração intelectualmente ímpar.
Sobre Palmyra, me debrucei nos escritos sobre ela. Tem
um poema feito para mim quando eu nasci e tenho um exem-
plar de Roseira Brava. Nos últimos tempos ela cresceu muito
no meu conceito, pelo pioneirismo desbravador da presença
feminina na intelectualidade potiguar e brasileira. Sua trágica
vida, com a perda do seu grande amor (por tuberculose), o seu
posterior casamento, que sofreu preconceito familiar, e as cri-
ses financeiras que a fizeram perder seu patrimônio, a levaram
a um envelhecimento precoce. A grande Palmyra Wanderley
se foi sem a felicidade e os sonhos que seus belos poemas ro-
mânticos e doces se concretizassem na sua vida pessoal.
Lamento não ter convivido com ela. Me alegra ter desco-
berto os detalhes da sua história, quando meus cabelos brancos
me dão o discernimento da sensibilidade e dos desafios que as
mulheres potiguares tiveram. Auta de Souza, Nísia Floresta, en-
tre outras, formam junto com Palmyra Wanderley, as Roseiras
Bravas da poesia potiguar. É meu testemunho e opinião.
19 Em nome de Palmyra
Diva Maria Cunha Pereira de Macêdo
25 Palmyra Wanderley:
poesia moderna em transição
nos versos de Roseira Brava
Alexandre Alves
37 O refrão panteísta:
outra vez Roseira Brava
Pedro Lucas Bezerra
44 Nota Introdutória
Roseira Brava
Primeira Edição
49 ROSAS DE SOL E ESPUMA
113 ROSAS TROPICAIS
143 ROSAS DE SOMBRA E DE NEBLINA
169 MADRIGAIS
199 ROSAS DE TODO ANO
205 ROSAS DO TEU ROSAL
233 Registros de Palmyra
Roseira Brava
Segunda Edição
243 ROSAS DE SOL E ESPUMA
315 ROSAS TROPICAIS
341 ROSAS DE SOMBRA E DE NEBLINA
379 ROSAS DE TODO ANO
381 MADRIGAIS
395 ROSAS DO TEU ROSAL
417 OUTROS VERSOS
500 TROVAS
509 Palmyra Wanderley
e a crítica nacional
522 Palmyra, a pré-modernista
Vicente Serejo
530 Notas de fim
537 Referências do texto Palmyra
Wanderley:
poesia moderna em transição
nos versos de Roseira Brava, de
Alexandre Alves
540 Índice de poemas
E M NOM E D E PA LMY RA
Diva Maria Cunha Pereira de Macêdo
Poeta, professora aposentada da UFRN e membro da
Academia Norte-Rio-Grandense de Letras
“Clara a manhã de ouro desfia
A meada de luz para tecer o dia”.
16
Roseira Brava, de Palmyra Wanderley, é o livro que faltava para que
se pudesse estudar a literatura norte-rio-grandense das três primei-
ras décadas do século XX, o papel da poetisa nessa literatura e as
relações que ela manteve com os escritores que a antecederam.
A primeira edição da obra foi lançada em 1929 e recebida
com aplausos no estado. Ganhou menção honrosa da Academia
Brasileira de Letras e foi apresentada na Academia Pernambuca-
na de Letras. A autora foi festejada pela imprensa local e nacio-
nal, tornando-se a estrela da poesia potiguar da época.
Palmyra Wanderley nasceu em Natal, em 06 de agosto de 1894.
Seus pais foram Celestino Carlos Wanderley e Ana Freitas Guima-
rães Wanderley, ambos pertencentes a uma importante família de
intelectuais do Rio Grande do Norte. Estudou nos melhores colégios
de Natal e do Recife, onde recebeu a educação tradicionalmente
dada às moças, que eram preparadas para serem donas de casa e
mães de família. A morte trágica do noivo, às vésperas do casamen-
to, foi um duro golpe na vida da poetisa. Depois ela casou, tardia-
mente e a contragosto da família, com Raimundo França.
Palmyra participou da fundação da Academia Norte-Rio-Gran-
dense de Letras, em 1936, e escolheu Auta de Souza como patrona
de sua cadeira, de número 20. Morreu em Natal, em 18 de novem-
bro de 1978, pobre e esquecida, e sua obra não é reeditada há quase
sessenta anos, para tristeza daqueles que amam a literatura potiguar.
Participou ativamente da vida intelectual da cidade, escreven-
do e publicando em jornais e revistas que circulavam no Rio Gran-
de do Norte e em outros estados. Em 1914, lançou, juntamente
com sua prima Carolina Wanderley e outras moças, a revista Via
Láctea. Essa revista foi um marco na vida intelectual das primas 17
Wanderley, porque, além de ser um veículo para publicação dos
seus textos, foi o palco onde se debatiam questões relativas ao lugar
da mulher na sociedade, como o direito de estudar, a educação que
deveriam receber e a participação ativa em diversos setores da vida
social. Infelizmente, por falta de colaboração das companheiras, a
revista durou apenas pouco mais de um ano.
Em 1918, Palmyra lançou seu primeiro livro de poesias – Es-
meraldas –, que recebeu uma crítica demolidora de Clementino
Câmara, como relata Câmara Cascudo no seu livro Alma Patrícia
(1921). Cascudo, ao contrário, analisa a obra, aponta as falhas e
estimula a poetisa a não desistir de escrever, apostando no seu ta-
lento, orientando-a a buscar, acima de tudo, a originalidade. Ela
continuou a escrever e publicar em jornais e revistas, mas renegou
seu livro Esmeraldas e só publicou uma nova obra dez anos depois.
Em 1929, Palmyra lança o livro Roseira Brava, que marcará,
definitivamente, sua presença na poesia norte-rio-grandense.
Esse livro revela uma artista afinada, equilibrando-se, cuidado-
sa, entre o pós-romantismo de sua formação e as novas propos-
tas estéticas sopradas do sul. Ela era leitora de Auta de Souza, a
quem dedicou o poema “Barro Vermelho ninho da poesia”, que
revela a admiração e o vínculo intelectual com sua antecessora.
Leitora também do Livro de Poemas, de Jorge Fernandes, que,
um ano antes, havia deixado a província em estado de choque
com suas propostas modernistas. Menos avançada que Jorge,
mas ousando em sua medida, a poetisa distensiona a poesia das
amarras formais e oferece novas perspectivas ao processo poé-
tico, aos quais engloba o fluxo da modernidade, sua velocidade,
suas experiências e sua nova visão do mundo.
Debruçada sobre a paisagem natal, ela faz uma cartografia
18 do seu território de afetos, visitando poeticamente lugares pri-
vilegiados pela natureza e metaforizando, com delicadeza, os
pormenores do “locus amoenus” tropical, que se estende entre o
rio e o mar. Nesse cenário, contracenam atores locais, nacionais
e até internacionais, com quem ela dialoga, ao mesmo tempo
que enxerta nos seus textos vozes diversas, que vão de trechos
da Bíblia a contos da carochinha, em uma colagem às vezes
bem-sucedida (e em outras nem tanto).
O enlevo paisagístico, de quem quase pinta com palavras,
não aliena a poetisa, que está atenta às flores sombrias que bro-
tam nas periferias, abandonadas pelos homens e até por Deus.
Com palavras afiadas e duras, ela aponta essas chagas sociais,
que um dia vão tornar a vida insegura e quase impossível.
O livro é organizado em blocos de poemas, nomeados
com metáforas f lorais, numa reincidente presença do pós-ro-
mantismo e marca sintomática da poética feminina, limitada
aos jardins e quintais.
Em busca de novas soluções, ela escreve longos poemas, com
versos rimados ou não, que buscam abarcar as nuances do mundo
em que vive e a passagem dos tempos rurais para os tempos urba-
nos, com a aceleração dos motores em marcha. Essa busca do novo
não impede a presença de formas atemporais, como madrigais e
sonetos, e também a prática da forma popular, como a trova.
A segunda edição de Roseira Brava é de 1965 e fez parte da
Coleção Jorge Fernandes, que foi lançada pela Fundação José
Augusto. Essa edição sofreu inúmeras modificações, que vão da
substituição de títulos e subtítulos dos blocos dos poemas, da
redução ou acréscimo de versos, que dá nova apresentação aos
textos poéticos, até a troca de palavras por sinônimos, que nada
acrescenta ao texto. Essas significativas alterações do livro como 19
um todo leva a crer que a publicação foi organizada pela autora,
porque o Roseira Brava de 1965 não é o mesmo de 1929. E é im-
possível admitir que toda essa mudança tenha sido feita por outra
pessoa ou sem aprovação da autora. Essa segunda edição tam-
bém não tem prefácio nem posfácio; apenas, numa das páginas
iniciais, são citadas as obras publicadas pela escritora: Roseira Bra-
va e uma conferência – A ação da mulher cristã. A seguir, há uma
lista de textos por publicar. No final do livro, são dedicadas cinco
páginas a elogios feitos à obra por vários intelectuais brasileiros.
Trabalho com a segunda edição do livro Roseira Brava, exemplar
que, de tão velho, se desfaz em pedaços em minhas mãos. Não co-
nheço a primeira edição da obra, mas tive acesso aos trinta poemas
que foram publicados no livro Palmyra Wanderley entre trinta botões
de uma Roseira Brava, de Humberto Hermenegildo e João Palhano.
Num cotejo breve, vê-se que a diferença é gritante entre as duas edi-
ções. Na primeira, os versos são mais enxutos, os textos mais limpos
e a tensão poética tem a medida certa: solta e aperta o laço em torno
das palavras para que digam mais do que falam. A segunda é mais
palavrosa e o que ganha em linhas perde em força e ritmo.
Após a publicação do livro, Palmyra Wanderley torna-se a
poetisa oficial do Rio Grande do Norte, estando presente em so-
lenidades e colaborando nos jornais, com crônicas, artigos e poe-
mas. Essa oficialização da voz, seguramente, prejudicou a poesia
palmyriana, que não publicou mais nenhum livro.
Não se sabe ao certo o momento em que a poetisa adoeceu e
saiu de cena, mas é interessante lembrar que sua substituta no ofí-
cio da poesia no estado foi Zila Mamede, com o livro Rosa de Pedra.
É necessário lembrar que a primeira e maior parte desse livro é
composta por sonetos elaborados, tais como eram os palmyrianos.
20 Roseira Brava é um livro inovador e cumpriu o papel de re-
alizar a transição literária entre a produção poética do final do
século XIX e das primeiras décadas do século XX.
Na alegria de ver a poetisa viva de novo entre nós e cumprida mi-
nha parte nessa história, agradeço emocionada, em nome de Palmyra.
Natal, 29 de setembro de 2023.
PAL MYR A WA N D ER LEY
poesia moderna em transição nos versos de Roseira Brava
Alexandre Alves
Professor da UERN, mestre e doutor em literatura pela UFRN
No Rio Grande do Norte, a estreia da poesia moderna coube ao
natalense Jorge Fernandes, que em 1927 publica seu único vo-
22 lume de poesia, o provocativo Livro de poemas de Jorge Fernandes,
contendo quarenta textos. Raros foram os outros nomes que
se dispuseram a enveredar nos anos ou décadas seguintes pelos
elementos da lírica moderna de forma imediata. Após uma re-
cepção tímida da escassa crítica literária do período, o livro de
Fernandes ficou no esquecimento até os anos de 1950, década
na qual o poeta faleceu logo em seu começo, vindo a ser redes-
coberto nos decênios seguintes por outros escritores (MELLO,
1970; ARAÚJO, 1995), mas cujas marcas modernas na poesia
do natalense se tornam “versões locais para uma nova literatu-
ra ainda posta à prova e aqui surgindo uma expressão singular
nesse contexto” (ALVES, 2014, p.88).
Retornando ao âmbito poético anterior a Jorge Fernandes,
Palmyra Wanderley já era figura importante no cenário cultural
potiguar. Ela foi uma das idealizadoras e diretoras da revista femi-
nina Via Láctea entre 1914 e 1915, uma façanha entre as mulheres
brasileiras no começo do século XX. Palmyra também já havia
publicado o livro Esmeraldas (1918), cujos versos delineavam uma
índole tradicional e ainda sob a égide tardiamente romântica. En-
tretanto, na obra de Palmyra Wanderley há a ocorrência, segundo
apontam Duarte e Macêdo (2001, p. 207), de outros textos “[...]
mais elaborados, tanto no que diz respeito às escolhas temáticas
como ao trabalho formal, e a tentativa de alcançar uma linguagem
mais densamente poética. É o caso dos sonetos ‘Mangueira’ e ‘La-
vadeiras de minha terra’ [...]”.
Todavia, o que se nota em ambos com clareza é a onipresente
natureza e ao lado de cenas ultra cotidianas de uma cidade ainda
pacata, como as imagens que integram os versos do segundo poe-
ma citado: “As lavadeiras seguem descuidadas, / Ora prendendo
as roupas nos espinhos, / Ora apanhando as frutas encarnadas,
/ Ou cantando também com os passarinhos” (WANDERLEY
apud DUARTE; MACEDO, 2001, p. 216). Diante disso, as per- 23
sonagens humildes das lavadeiras já deixam uma pista do que
Palmyra vislumbra em breve, mesmo que parcialmente.
Nos tumultuados anos de 1920, muito ocorreu na poesia
brasileira desde o advento do Modernismo a partir da Semana
de Arte Moderna de 1922, em São Paulo. Em terras potiguares,
Câmara Cascudo foi o propagador mor das novidades líricas,
incluindo textos seus que seriam publicados em revistas do Sudes-
te, caso da revista Terra Roxa e Outras Terras, em 1926. Cascudo
afirmou em carta que teria um livro inteiro de poesia, mas que re-
solveu esquecer a empreitada de vez. Foram encontrados recen-
temente em 2023 os originais datilografados de Caveira no campo
de trigo, cuja edição deve ser outro marco cascudiano, mesmo que
tardiamente após um século depois de escrito.
Em 1929, Palmyra Wanderley editava Roseira brava, livro que
iria repercutir nacionalmente, inclusive recebendo uma menção
honrosa em 1931 relativa ao Prêmio de Poesia da Academia Bra-
sileira de Letras, cujo elogio à obra foi lido em uma plenária pelo
acadêmico e poeta Adelmar Tavares (apud WANDERLEY, 2008,
p. 190): “A Academia faz obra de perfeita justiça distinguindo
[…] Roseira brava, de Palmyra Wanderley, para quem tem a co-
missão os seus melhores louvores e em quem reconhece uma das
vozes mais harmoniosas que vem do Norte do Brasil”. Detalhan-
do mais a obra, esta surge dividida em partes distintas, segundo a
visão de Duarte e Macêdo (2001, p. 208):
Na primeira parte a poetisa desenha um mapa lírico da
cidade de Natal, percorrendo os bairros, as praias, o rio,
a lagoa e logradouros históricos, registrando com lirismo
e imagens plásticas a beleza natural, ainda preservada, de
24
seu tempo. Alguns bairros são antropomorfizados como,
por exemplo, o Tirol, que aparece como “um cavaleiro real
de capa azul, verde e amarela”, símbolo da brasilidade.
[…] Na segunda parte de Roseira brava, Palmyra dedica
poemas à fauna e à flora da região […]. A forma predomi-
nante é a dos versos livres, espontâneos, por onde escorre
um ritmo de quase prosa, que tira sua força poética da be-
leza da cidade. A poetisa revela, assim, conhecer as novas
direções da poesia brasileira, após a Semana de 22.
Estranhamente, após o lançamento de Roseira brava, Palmyra
Wanderley não chegou a editar outra obra poética (coinciden-
temente, a mesma atitude de Jorge Fernandes), embora tenha
produzido poemas esparsos que viriam a ser publicados na ree-
dição do supracitado livro em 1965. Ao invés de ter continuado
no campo da poesia, fato que poderia ter dado um novo ímpeto
à própria produção norte-rio-grandense, ela preferiu colaborar
como cronista em inúmeros veículos, tais como os jornais locais A
República, Diário de Natal e Tribuna do Norte, e as revistas Paladina
do lar (BA), Estrela (CE), Revista Feminina (SP) e Revista Moderna
(SP). De todo modo, tais fatos comprovam que Palmyra vem a ser
outro nome feminino de referência na poesia do Rio Grande do
Norte, ao lado de Auta de Souza.
De todo modo, seria equivocado não trazer o nome de Pal-
myra como não participante ou não consciente do Modernis-
mo brasileiro, diante de toda sua presença literária anterior, a
exemplo da revista Via-Láctea (um marco na literatura potiguar
e feminina no Brasil) e também com poemas que poucos per-
ceberam a existência, caso de “Aviador”, publicado no jornal A
República, no dia 18 de junho de 1922. Era uma clara referência
a um feito histórico no mesmo ano em que a poesia moderna 25
nasceria no Brasil: “Em 1922 o mundo voltou seus olhos para
dois oficiais da marinha portuguesa, que tentavam em um frá-
gil aeroplano monomotor e anfíbio, cruzar pela primeira vez a
parte sul do grande Oceano Atlântico. Estes dois homens eram
Carlos Viegas Gago Coutinho e Artur Sacadura Freire Cabral”
(MEDEIROS, 2011). Eis o soneto (WANDERLEY, 1922, p.01):
Alonga o voo. A imensidão recorta.
Domina assim o espaço, o Azul domina,
Já que o seio da terra não comporta,
O grandioso ideal que te fascina.
Sonha! Teu próprio sonho te transporta.
Acima de ti mesmo – Asas empinam!
És quase um Deus! Ser homem pouco importa.
Se a conquista do céu, faz-se divina.
Ser como as águias. Voa nas alturas.
Transpõem o etéreo, as siderais planuras,
Da Via Láctea a célica mansão.
Sobe ainda mais, num frêmito inaudito.
– Percorre as cordilheiras do infinito.
Heroico bandeirante da amplidão.
Os versos do poema antecedem em muito a estupefação dian-
te da aviação produzida nos poemas de Jorge Fernandes como a
tríade de poemas nomeada “Aviões” ou a síntese antropofágica
de “Jahú”: “E os anhangueras vieram todos cheios de óleos e
sujos / De poeira das terras feias... / Passaram por sobre os mares
e as terras verdes” (FERNANDES, 2008, p. 39). Embora ainda
preso às rimas e métricas passadistas, o temário do poema é vi-
26
sivelmente moderno, fazendo com que Palmyra se alinhasse aos
novos objetos da modernidade, criando uma espécie de contra-
ponto entre o novo e o tradicional que serviria como modo de
transição de sua lírica na década de 1920.
Em contraste com a textura romântica ou parnasiana em
Esmeraldas, em alguns textos de Roseira brava a lição modernista
aparece parcialmente em sua segunda aparição no solo poti-
guar, uma vez que Palmyra escreveu uma extensa obra concei-
tual – fato anotado por Duarte e Macêdo (2001) –, posta em
seções divididas tematicamente e formalmente. Embora entre
as dezenas de poemas o formato do soneto ainda fosse mar-
cante (com vinte e oito textos nesta tradicional forma lírica),
alguns poemas presentes traziam, além da novidade polêmica
do uso do verso livre, um retrato da nova fisionomia da capital
potiguar. Essa expansão da cidade em novas regiões termina
por relatar as ações urbanas expostas em textos como o longo
poema dedicado a um dos bairros de Natal, o “Alecrim” (WA-
NDERLEY, 1965, p. 36-38):
É o bairro do samba, da folia,
Das adivinhações e da magia,
Das promessas de fitas,
Dos fandangos, dos leilões...
[…]
Alecrim é o bairro operário,
A tecer noite e dia.
É a aranha operosa
que faz a teia e fia.
[…]
É o bairro da lida, da função, 27
É o bairro da feira domingueira,
Numa algazarra louca!
Vestida de algodão, numa sujeira,
Arrastando tamanco entre as barracas,
Dando empurrão,
A tocar berimbau e realejo de boca,
Mascando alho, dizendo palavrão.
O poema se apresenta bem distinto daquele caráter sau-
dosista ou repleto de referenciais ligados à natureza tão pre-
sentes nas escolas parnasiana e simbolista, períodos literários
de clara influência na produção anterior da poetisa. Em “Ale-
crim”, o bairro da capital potiguar é visto a partir da noção
das diferentes culturas que dele fazem parte, partindo de uma
impressão da brasilidade, de mistura de culturas (É o bairro
do samba, da folia, / Das adivinhações e da magia, / Das pro-
messas de fitas, / Dos fandangos, dos leilões...) para depois o
bairro ser personificado em evidente citação ao trabalhador
urbano (É a aranha operosa / que faz a teia e fia.).
Em seguida, as imagens do local amplificam os aspectos li-
gados ao cotidiano citadino repleto de movimento (Dando em-
purrão, / A tocar berimbau e realejo de boca, / Mascando alho,
dizendo palavrão.) e as imagens prosaicas se desdobram nos
elementos humanos, com o poema adquirindo uma perspectiva
praticamente narrativa, fundamentado na ação dos personagens
humanos e urbanos do bairro.
Outro fator de interesse é a citação direta de nomes de poetas
potiguares em textos da obra, o que revela uma consciência dela
28 sobre a produção lírica local em Roseira brava, caso de trechos
presentes em “Tirol é direitinho uma paisagem bíblica” – “Folhas
de macassar, / Para sentir o cheiro passadista. / O chuá, chuá, /
Da água escorregando, / Faz-me lembrar o ‘Banho Brasileiro’ /
De Jorge Fernandes, poeta modernista” (WANDERLEY, 1965,
p. 30) – e “Refoles”, no qual é citada a região que dá nome ao
poema como um lugar ligado à poesia local e às lembranças de
eu lírico ainda criança, repleto de imagens fragmentadas: “Nas
gamboas do rio / A tranquilidade do esquecido... / Tudo isso as-
sim era envolvido / Na filosofia triste e dolorosa / De Antônio
Marinho / […] / Tão diferente agora, outro te vejo, / Tão diverso
daquele onde brinquei, / Onde compôs os seus melhores versos /
Segundo Wanderley” (WANDERLEY, 1965, p. 34-35).
Um tópico que também estabelece uma clara consciência da
poetisa com a lírica moderna reside na aproximação de um dos
poemas de Roseira brava com a crítica social, elemento este pre-
dominante na prosa da chamada “Geração de 30” e em algumas
obras líricas do período, como A Rosa do povo (1945), de Carlos
Drummond de Andrade. Após a leitura do longo poema “Passo
da Pátria”, contendo mais de uma centena de versos, há uma
visão do Eu Lírico de Palmyra acerca da sugestiva retratação da
miséria humana, fato advindo de versos como “Passo da Pátria é
a tasca do vício, / Do pecador impenitente. / Tem um cheiro ruim
de maresia / E um bafo, muito forte, de aguardente. / Mendigo
maltrapilho e esfaimado, / Quase a morrer de fome e abandono,
/ Aproveita migalhas, como sobejo, / Veste trapos, roupas velhas,
/ Teima no vício, / Fuma ponta de cigarro, já fumado” (WAN-
DERLEY, 1965, p. 41-42).
Na exposição trazida pelos versos, a aproximação com a te-
mática de forte teor social se tornou um caso isolado – na verda-
de, um exercício parcimonioso explorando novos recursos for-
mais – entre as dezenas de textos da obra, na qual predominam 29
as ambiências líricas romantizadas, típicas da herança passadista
em confronto com o ideário modernista recém-nascido no Brasil.
Decorrido já bem mais de meio século, o poema “Passo da Pá-
tria” veio a se revelar atual, pois esta mesma região ribeirinha da
cidade de Natal é até a recente data relacionada com um baixo
índice de qualidade de vida e de desprestígio social, “uma zona
marginal, entre a Ribeira e a Cidade Alta, apertada na terra úmi-
da de mangue do rio e a encosta onde assentava o casario [do
centro de Natal]” (MIRANDA, 1999, p. 56).
Tudo isto indica a permanência, através da visão poética de
Palmyra, e a relevância de um drama cotidiano com personagens
continuamente esquecidos pelos poetas potiguares no período que
foi publicado, mais preocupados com a análise interna do ser hu-
mano do que com o sofrimento alheio. No cômputo final, os poe-
mas supracitados de Palmyra Wanderley revelam algo mais do que
a mera realidade local, pois “O uso de elementos primitivos para
centrar coisas locais / regionais […] resultam na adição de chamar
a atenção para as novas situações, ou seja, para sinalizar no sentido
de uma visão da atualidade, das mudanças ocorridas na literatura,
na economia, na vida, enfim, nos espaços sociais. A cidade será,
então, neste meio, um ambiente favorável para discussão […]”
(OLIVEIRA, 2009, p. 136). O próprio Cascudo comparou a arte
poética de Jorge Fernandes com a de Palmyra Wanderley na crô-
nica “Poesia d’aqui mesmo...”, publicada em A República no dia 21
de agosto de 1927, portanto, ainda antes do lançamento de Roseira
brava. No texto, o cronista relatou que a poetisa:
[...] deixou todos os pássaros do estrangeiro, todas as flo-
res de estufa, todos os tipos de livro e olhou a paisagem
ambiente. […] Com os poemas Tyrol, Alecrim, Refoles e
30
Siá Rocas a poetisa Palmyra Wanderley alarmou o reba-
nho aqui-me vou sim-senhor dos remanescentes passadistas.
[…] Todo um mundozinho velho e bolorento de cismas e
luas pregados em céus obedientes às rimas, todo o arrazel
material e pesado de sensibilidades falsas e de culturas às
avessas, virou passo e pingou a reticência amedrontada.
(CASCUDO apud FERREIRA, 2001, p. 82-84)
Não há dúvidas sobre a aclimatação modernista nos poe-
mas de Palmyra citados por Cascudo, que cria um estímulo e
provocação de ímpeto modernista propagado pelo autor de Joio,
pois a citação do nome de Jorge Fernandes em um dos poemas
dela – além da narrativa poética ligeiramente onomatopaica
presente nos textos apontados, tais como os versos livres par-
cialmente adotados por Palmyra – seria um caso de contato,
mesmo que fugidio, da autora de Roseira brava com o Modernis-
mo. Ainda na mesma crônica, Cascudo indicava que Jorge Fer-
nandes e Palmyra Wanderley seriam os poetas mais “brilhantes
e típicos” do Rio Grande do Norte desde o início do século XX,
embora isto não disfarçasse suas preferências diante do quadro
do Modernismo que se erguia paulatinamente no Brasil e tinha
seus representantes em Natal.
De todo modo, após a produção de Palmyra Wanderley –
que Cascudo (2002) descreveu como uma mulher que ficou,
após a edição de Roseira brava, “a mergulhar na doce penumbra
do lar” –, raros são os nomes nos anos de 1930 e 1940 que
publicaram obras possuidoras de uma conexão, ainda que de
forma tímida, com o Modernismo. Entre eles figuram nomes
como Luiz Rabelo (autor de Meditações, de 1944, e Último can-
to, de 1950) e Antônio Pinto de Medeiros, este publicando Um
poeta à toa em 1949. Entre os nomes femininos, apenas a figura
de Helen Ingersoll publicou poemas esparsos no fim da década 31
de 1940, mas sem editar nada em livro (uma edição recente or-
ganizada por Cláudio Galvão em 2021 conseguiu agrupar vin-
te poemas avulsos da autora). Isto acaba gerando, no mínimo,
uma sensação de estranhamento sobre os motivos de a nova
escola literária não ter apresentado uma continuidade no Rio
Grande do Norte após Jorge Fernandes, fazendo com que este
ficasse durante um longo tempo como uma obra isolada.
O esforço consciente de Câmara Cascudo em divulgar o Mo-
dernismo como nova etapa da literatura brasileira e estrangeira,
a publicação do único livro poético de Jorge Fernandes e a par-
cial adoção de Palmyra Wanderley a temas e formas modernas
nos versos de Roseira brava parecem não ter sido suficientes para
alavancar o “novo lirismo” pretendido pelos citados. Ao que tudo
indica, os (poucos) leitores de literatura no Rio Grande do Norte
ainda não estavam preparados para a contemporaneidade poéti-
ca, ou como declara Antonio Candido (2000, p. 140) ao se referir
ao início da literatura em São Paulo, não havia uma “integridade
do espírito criador na dimensão do tempo”.
A poesia moderna continuaria para os potiguares como
um fator ainda submerso, escondido ou rejeitado, mas o futuro
haveria de trazer um novo cromo para o gênero lírico no Rio
Grande do Norte, ainda que o tempo e as circunstâncias atra-
sassem o verso e sua nova roupagem libertadora de um passado
que se fazia presente. Depois de Nísia Floresta e Auta de Souza
no século XIX, e Palmyra Wanderley e Helen Ingersoll na pri-
meira metade do século XX viria uma geração inteira tendo
à frente o nome de Zila Mamede na década de 1950 e todas
as que a sucederam, mas já são outras bravas estórias da lírica
norte-rio grandense e brasileira.
32
O R E F R Ã O PA N T E Í STA :
o u t ra vez Rosei ra Bra va
Pedro Lucas Bezerra
Mestre e doutor em literatura pela UFRN
Como deixar para trás a melancolia
de um planeta envenenado?
Timothy Morton, O Pensamento Ecológico
34
Roseira Brava retorna às prateleiras da literatura potiguar mais
de uma centena de anos após as primeiras incursões da autora
Palmyra Wanderley na poesia, quando fundou a revista Via Lác-
tea, em 1914. Pioneira, Palmyra foi uma inquieta figura disposta
entre os primeiros estrondos do modernismo brasileiro e a cadên-
cia de uma lírica eivada de uma melancolia que torna possível
relacioná-la mesmo com Emily Dickinson ou Elizabeth Barrett
Browning. Sob a égide da novidade, esse Roseira Brava que o leitor
re-conhecerá nas próximas páginas é resultado da reconstrução
da primeira edição do livro, em face a uma reprodução também
da segunda edição, lançada em 1965 pela Fundação José Augus-
to e supostamente alterada pela autora, que aumentou versos,
recolheu, eliminou ou apagou palavras, incluiu outras, engordou
poemas, alterou o curso dos versos de uma edição para outra.
Para nós, a segunda edição acabou tirando da sua roseira original
o que há de misterioso e frondoso, onde os galhos das árvores que
Palmyra cita ao longo do livro tocam-se uns aos outros tornan-
do-se uma terceira árvore, similar às formas internas que poeta
explora, labirintos de memória onde as veredas se bifurcam por
caminhos de lagoas, por ramos que dão frutos, por matas recôn-
ditas. Mas ao leitor, aqui, não é negado o cotejo das mudanças
de uma edição a outra, já que esse volume traz as duas edições
de modo definitivo, dando luz às passagens da dicção poética de
Palmyra. O modo como ela altera e modula a própria voz na
mudança de um livro para outro, que reaparece num intervalo
de quase trinta anos. O modo como o livro torna-se outro, afinal.
Essa terceira edição traz uma revitalização da primeira que
recupera paratextos que desaparecem na segunda; por exemplo, as
citações que iniciam seções do volume, atribuídas, respectivamen- 35
te, ao escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe e ao composi-
tor alemão Vincent Lübeck, cujo nome foi grafado como ‘Lubbe-
ck’, na versão original, e cujas fontes não conhecemos. Ambas as
frases não são facilmente coligidas, e Palmyra não informa de onde
as retirou, mas há de se pensar nos livros que circulavam no perío-
do, e nas traduções indiretas de textos em alemão que vinham ao
Brasil vertidas do francês ou do inglês. De lá para cá, as traduções
diretas ganharam espaço no país, e muitos textos de autores ger-
mânicos consagrados tornaram-se outra coisa. Palmyra pode ter
citado diretamente de livros de referência, compilações, revistas –
seus itinerários de leitura podem ter sido diversos.
Outras citações ao longo do livro colocaram-nos pequenos
impasses, como a menção ao pintor italiano radicado brasileiro
Nicola de Garo, que provavelmente era um nome conhecido
nos anos 1920 no país, ilustrando diversos livros, participando,
junto com o irmão Giovanni, de diversas exposições em Per-
nambuco, Pará, São Paulo, tornando-se precursores do moder-
nismo na pintura brasileira. Suas personas, no entanto eram
misteriosas: os irmãos possivelmente tinham outros nomes, e
passaram por outros países além do Brasil até se radicar nos
Estados Unidos, provavelmente com outras identidades. A cita-
ção de Palmyra às cores de de Garo torna-se um pequeno do-
cumento sobre um pintor desaparecido, cuja memória perma-
nece de modo fantasmagórico ou espectral. De Garo, afinal, é
um desconhecido: sua identidade jamais se fecha. Outro pintor
de origem ítalo-brasileira citado pela poeta é o pernambucano
Murillo La Greca; embora não tenha uma dispersa identida-
de como de Garo, a citação a ele demonstra a movimentação
Natal-Recife no período: Palmyra caminhava por esse circuito
36 e a ele remetia na sua poesia, reconstrução de sua experiência
cotidiana enquanto observadora.
Da segunda edição, reproduzimos e recuperamos uma com-
pilação de comentários de escritores e intelectuais contemporâ-
neos da poeta sobre sua obra, demonstrando a presença de Pal-
myra além dos limites de sua província, e como sua poesia foi lida
por nomes importantes como Medeiros e Albuquerque, Tristão
de Athayde (pseudônimo do escritor Alceu Amoroso Lima), Agri-
pino Grieco e Alberto de Oliveira.
Por dentro desses locais daquela Natal, é possível vislumbrar
também acontecimentos e agitações do período que ilustram a par-
ticipação de Palmyra na vida social de seu tempo. O lançamento
da primeira edição do livro, inclusive, motivou uma noite festiva
que ficou marcada naquele início de século em terras potiguares,
segundo a crônica da revista A Cigarra, que registra a efeméride.
O programa foi dividido em um momento dançante e um mo-
mento musical, conduzido por Dolores e Gracinha Albuquerque,
Odila Garcia, Dolores Monte, Concita Camara, Nethércia Mara-
nhão e Denize Albuquerque. A presença feminina chama a atenção:
além das citadas, a poeta Carolina Wanderley (prima da autora ho-
menageada), co-fundadora da revista Via Láctea, cujo corpo edito-
rial estava representado nessa celebração, foi fotografada junto com
Palmyra, com a Miss Rio Grande do Norte daquele ano e com a
senhora Odette Paiva O’Grady, marcando os nomes de algumas das
mulheres que circulavam pela vida cultural daquela Natal de fim dos
anos 1920 e início dos anos 1930. Segundo Manoel Onofre Júnior,
em Literatura e Província (1997), “os convidados invadiram a pista de
dança e ficaram lá até o sol raiar”. Cabe observar que a grande festa
em torno de Roseira Brava teria originalmente uma noite de leitura
no Theatro Carlos Gomes (hoje Teatro Alberto Maranhão), que foi
cancelada. O registro consta também na revista A Cigarra. 37
A citação atribuída a Goethe que abre o volume é um retrato
(ainda que impreciso) do campo que Palmyra abre dentro de sua
obra: enquanto o alemão fala que a poesia é um “evangelho huma-
no que nos infunde serenidade interior e aligeira o fardo da vida”,
Palmyra mira no verso que soa como a segunda parte da frase,
que considera que a poesia “Parece um balão que subindo às altas
regiões já não avista mais os labirintos da terra senão em confusão
longínqua”. Esse balão que permite que tudo seja visto por cima
parece ser a nave ou nau de onde a poeta semeia seus dardos; ain-
da que sua munição seja forjada em sua própria fragilidade, sua
fraca força em edificar versos que claudicam e se confundem com
as cores de sua época, mas infestados pelos humores românticos,
ainda, e por uma superação do parnasianismo que se vale de suas
próprias armas, uma vez que as visões idílicas aqui não são mais
aquelas mediterrânicas ocidentais, mas miram os jardins orientais
que apontam para um panteísmo universalista.
Esse panteísmo tem lugar na assimilação da linguagem e do
mundo místico e exuberante do poeta indiano Rabindranath Ta-
gore, de quem Palmyra traduz e transcria dois poemas. O ges-
to transcriativo traz consigo um componente vanguardista, mas
também carrega nas tintas catequéticas: enquanto traduz alguns
versos, Palmyra se perde na reconstrução cristã do ideário holísti-
co de Tagore, espelhando a sua própria orientação católica numa
integração ao Oriente. O orientalismo no século XX era um ho-
rizonte percorrido por outros poetas, como W.B. Yeats e mesmo
Cecília Meirelles, que traduziu poemas de R. Tagore para o por-
tuguês. Palmyra, então, como admiradora do poeta indiano, se
38 coloca no centro das tendências do período.
O panteísmo se estabelece também com as águas e flores que
germinam pelos poemas, o desejo e a tentação de trazer para o po-
ema as frutas, os perfumes, as formas das rosas. Algo na poesia de
Palmyra que agora reaparece talvez possa se conectar com o pen-
samento ecológico que circunda o imaginário contemporâneo. Se-
gundo Timothy Morton, o pensamento ecológico “tem a ver com
amor, perda, desespero e compaixão”; é desse modo que Palmyra
Wanderley é nossa contemporânea e extemporânea. Morton per-
gunta também: “Como deixar para trás a melancolia de um pla-
neta envenenado?”. Ao perguntar isso, o filósofo pensa nas calotas
polares derretendo, nas grandes secas e queimadas, nas enchentes
futuras que tendem a abreviar o fim do planeta. A pergunta de
Morton, feita na segunda década do século XXI, se conecta de
modo insuspeito com a melancolia que Palmyra Wanderley assistia
ao ver uma cidade passar de pequeno para médio centro urbano.
Algo no seu planeta se movia e se envenenava também. As rosas
que restaram, as plantas que se mantinham reflorindo e dando no-
vos frutos, pareciam ser o que sobrava desse mundo em mudança.
Quando traz as rosas de sua roseira brava, algo do amor, da perda,
do desespero e da compaixão se instalam à nossa frente. Mas junto
dessas palavras, instala-se também a memória e permanência da
poeta que observa seu tempo, o recolhe e o devolve ao mundo.
Nessa devolução, temos mais uma volta de Palmyra, mais uma ro-
seira brava entre sol, espuma e espinhos (como ela queria).
39
No ta Int ro d u t ó r i a
41
Para esta edição, trazemos face a face as duas versões que Palmyra
Wanderley deixou de Roseira Brava. A estrutura-base da primeira,
de 1929, está presente na segunda, de 1965, embora com mudan-
ças de título (como o poema Boda Selvagem, cujo nome é alterado
para Lagoa de Manuel Felipe) ou versos com alterações de pala-
vras, de estrofes e de sinonímia, incluindo informações históricas
do longo período entre uma publicação e outra, retratando mu-
danças e movimentos sociais e políticos que Palmyra pôde acom-
panhar. A diferença principal e definitiva entre as duas versões está
nos poemas acrescidos nas seções Outros Versos e Trovas, que surgem
apenas no livro de 1965. As singularidades de cada livro poderão
ser observadas por quem o lê, tendo à sua disposição, finalmente,
duas faces e fases da Roseira Brava.
Os editores.
43
LIVROS PUBLICADOS DA AUTORA
Esmeraldas (1918) - Versos – Edição esgotada
A festa das cores (1924) – fantasia lírica com 42 números de música.
Levada à cena três vezes no Theatro Carlos Gomes.
A acção da mulher cristã – Conferência realizada no salão róseo do
Palácio do Governo e publicado em plaquete.
44
O verso é a parte musical da expressão. Ele destaca do canto para
cantar também e também para falar à alma essa linguagem que não
é dada a toda gente compreendê-la.
A poesia é um evangelho humano que nos infunde serenidade interior e
aligeira o fardo da vida. Parece um balão que subindo às altas regiões já
não avista mais os labirintos da terra senão em confusão longínqua.
Goethe
Pa l m e i ra
Abres em luz os leques verdejantes,
Palmeira erguida em meio do caminho…
Rezas, por todos nós, aos céus distantes,
Enquanto eu rezo pelo meu carinho.
Fazes o bem, em dádivas constantes,
– A flor, o fruto, em cada palma um ninho…
Se não tens sombra para os viajantes,
Tens agasalho para o passarinho. 45
Trazes n’alma a esperança sempre acesa.
Do mal não te arreceias, com certeza,
– Não dura sempre a dor por mais sentida!...
Julgo-te, assim, no bem tão dadivosa,
Tão constante no amor, tão luminosa,
A palmeira que eu sonho ser na vida!
RO SAS DE SO L E DE ES P UM A
B e m -Te -V i
Todas as tardes, sempre à mesma hora
Vem visitar-me um passarinho amigo…
Canta cantigas que eu cantava outrora,
Canta coisas que eu sinto, mas não digo.
De onde ele vem, não sei; nem onde mora;
Se lembranças me traz, guarda-as consigo.
Sinto, porém, quando se vai embora,
Que a minh’alma não quer ficar comigo. 47
Hoje, tardou… Há chuva nos caminhos,
Mas chuva não faz mal aos passarinhos
E ele há de vir, a tarde festejando…
Lá vem ele, ligeiro como um sonho…
Canta coisas tão minhas, que eu suponho
Ser o meu coração que vem cantando.
Salve Rainha do Potengi
Salve, Senhora!
Bendito o fruto que floriu de ti,
Natal, cidade aurora.
Visão de luz surgindo lá das águas,
Coroada de espumas e de flor.
O manto em que se envolvem as tuas formas
Tem o mesmo estrelário,
48
É a mesma cor
Do manto azul
Da Padroeira da Apresentação.
Natal, cidade oblata,
sempre num gesto de elevação…
Salve, cidade da serenata,
Salve, cidade da viração.
Cidade do fandango e da modinha,
Da guabiraba, do camboim.
Salve, cidade minha,
De todo aquele que gostar de mim.
Nas moitas tristes, quantos queixumes!
Que poesia doce demais!
Natal, cidade dos vagalumes,
Cidade verde dos coqueirais.
O mar tão perto soluça tanto!
Nada é mais branco que o teu luar!
Natal, cidade cheia de encanto,
Cidade feita para se amar. 49
Fogueira ardente de São João,
Chama vermelha
Lá do arrebol,
Aboio triste pelo valado,
Cortiço louro de mel de abelha,
Acorde doce de violão,
Natal, cidade cheia de sol,
Cheirando a cravo e manjericão.
Nos cajueiros muito amorosos,
Fazendo sombra pelos caminhos
Tecendo ramos muito cheirosos
Para o namoro dos passarinhos,
Salve, cidade dos namorados,
Cidade afeto, cidade ninho.
Nas dunas brancas que avisto ao longe,
Nas curvas rubras do teu perfil,
Nas gameleiras todas floradas,
No céu de tinta da cor do anil,
50
Nos montes verdes tão veludosos,
Nos morros brancos calvos demais,
Nos arvoredos embandeirados,
Nas mangabeiras, nos laranjais,
Nas velas brancas que vão e vêm,
Salve, cidade pra querer bem,
Cidade cheia de panoramas
Nenhuma outra mais belos tem.
Montanha feita para os pastores,
Para os pastores lá de Belém.
Água corrente cantando um hino,
Cachos de espuma tecendo rendas,
Os passarinhos cantando HOSANA,
Natal, presépio do Deus Menino
Cheirando a incenso das oferendas.
Esposa amada do Sol,
Rainha do POTENGI,
Salve, cidade afilhada
Da Padroeira daqui!
51
Petrópolis é a
colina do sonho
Petrópolis,
Cavalheiro real,
Vestido de veludo azul e amarelo,
De espada
E capa estrelejada,
Espia o mar da torre de um castelo
Feudal.
52
Pensa, suspira, ama,
Com fervor.
Senhor
Medieval,
Vai dar a vida pela sua dama
Num duelo de amor…
Olha o norte, olha o sul,
Mas eis que de repente ele é mudado
Por uma fada,
Sua namorada
Em pássaro erradio
De uma vaga azul.
Abre as asas agora e pousa docemente
Na onda verde da vegetação.
Avista, de repente,
O Potengi descendo, o coqueiral mais perto.
De leque sempre aberto,
As dunas muito longe,
Muito alvas.
Parecendo um rebanho a descansar
53
Deitado,
Bem pertinho do mar
E vigiado.
Então,
– Pelo monge
De barba muito branca em oração
Olha a vida do alto, olha a cidade.
Ninguém dele se esconda.
Olha outra vez a esmo,
Em volta de si mesmo.
E faz a ronda
Triste da saudade.
Fita de frente o horizonte aberto.
Pensa no abraço do céu, no abraço do mar
E começa o desejo de abraçar.
Petrópolis é a colina do sonho.
À proporção que se sobe a ladeira,
O pensamento sobe na carreira
E a busca da ilusão
54
De tocar nas estrelas,
Ou de pegar o próprio sol com a mão.
E eu penso,
Ao vê-lo reluzir na noite escura,
Num jardim suspenso,
De estrelas a florar,
Para enfeitar
O carro em que Netuno
Passeia com Anfitrite
Sobre as ondas do mar.
Quando o luar
Estua
Em floração,
Parece gruta branca de marfim
E madrepérola,
De onde Endimião
Namora a lua.
E eu vejo, se não me engano,
Passar perto de mim,
Toda enfeitada, 55
Num esquife de vidro, muito leve,
Mais branca do que o luar, tão branco assim,
Branca de Neve,
Amortalhada,
E os anãos muito tristes vão levando
A amada
Para o lado do rio,
Vestidos de peliça enluarada,
Pois no alto faz frio.
Petrópolis
É o mais formoso bairro de Natal.
É a vida no que há de melhor:
Sonhar!
É um novo brinquedo de criança,
Colorido,
Um não sei que do amor, muito querido,
Que nos faz esperar,
Mesmo sem esperança.
O seu mar
56
É tão azul, às vezes, como céu;
Tão bonito e sedoso,
Tão brilhante ele é,
Que até
Parece
Envolvido na gaze
Dos sete ricos véus de Salomé.
Há quem diga que existe nesse mar
Assim maravilhoso,
Lá no fundo das águas,
Um reinado
Encantado
Das antigas histórias de Trancoso;
Que existem, lá, ondinas transformadas
Em flores de coral e conchas nacaradas;
Que há um moço formoso,
Transformado
Por velha feiticeira
Num dragão
Luminoso,
Mas que um dia será, feliz, desencantado 57
Pelo grande poder de um coração.
Não sei porque
Em cada sonho que as moças tem,
De ser rainha,
Sempre aparece um príncipe encantado
Que eu não sei de onde vem,
Mas se adivinha
Pela voz, pelo som…
É que o amor é assim
Tal qual um conto bom,
Ou ruim
Da velha Carochinha.
E há sempre no correr do conto o mesmo amor
E o mesmo tim que eu guardo na memória:
– MANDOU DIZER REI MEU SENHOR
QUE CONTASSE OUTRA HISTÓRIA.
58
Praia do Meio “Gaivota
de Asa Aberta”
Praia do Meio, praieira linda,
No seu afã,
Tomando banho com a sua roupa
Cor da manhã.
Bem ali, a cismar
Umas cismas de moça namorada
Que ama e que é amada, 59
Entre os morros e o mar,
Pertinho da cidade,
Avistando de longe a claridade
Do farol
Lá do Forte a acender, a apagar,
De repente
Com receio
De queimar
O véu preto da noite,
Fica a Praia do Meio
Coisa incerta,
Gaivota de asa aberta,
Ou borboleta
Lantejoulada
De lantejoulas do sol beijando a Areia Preta.
Na ilusão de quem desce
De Petrópolis para o mar
Em busca de uma coisa prometida
E encontrada,
Ela surge das águas e aparece
60 Envolvida
Na toalha franjada
Das espumas do mar.
Tem qualquer coisa da surpresa
Boa,
Da cor de um sonho bom que não desmaia
Lembra, às vezes, sombrinha japonesa
Aberta, à toa,
Sobre a areia da praia.
Outras vezes parece eu nem sei bem com quê!...
Já sei:
— Rendeira muito nova e original
Trocando, satisfeita (e pensando em você)
As rendas do enxoval.
Aqui e ali as casas multicores
Se embaraçam
E se dispersam
E, ninguém sabe ao certo onde as casas começam
Bem como os dissabores.
Olhada assim do alto, às vezes, de manhã
61
Na esperança
De um dia cor do tempo,
Ou de romã,
Parece um cosmorama da lembrança
Do que se teve e nunca se esqueceu,
Do que se foi na vida e não se mereceu.
E assim como se fosse um traço de união
Unindo um coração que sabe querer bem
A outro coração que não foi de ninguém.
Uma oferenda
Igual
Aquelas que se encontram nos sapatos
Nas noites de Natal.
Um amor que no seu modo de entender
Muitas vezes nos faz grande mal, sem querer;
Uma cantiga branca de menina
Numa roda a cantar:
– “Ciranda, cirandinha,
Vamos todos cirandar…
Escolhei nesta roda
O que mais vos agradar”.
62
E eu penso que a minha alma está cantando
– Nem me serve, nem me agrada
Só a ti hei de querer…
Pois a minha alma já sabe a quem foi que escolheu...
Mas, em vez de cantar, está chorando,
Porque a roda desanda
E, um dia, ela brincando
De ciranda
Sem saber como, o seu amor perdeu…
A re i a Pre ta , f l o r de ver ã o
Areia Preta, praia que se esfuma
Às vezes, a pensar
Na sorte das jangadas no alto mar.
Yara langorosa,
De olhos verdes, verdes,
Fecha os olhos tristonha,
Está com sono,
Na alva rede de espuma
63
Está deitada e sonha
Com seu dono.
A ventania dança o seu lundum
E ela dorme embalada ao cantochão da vaga
Hum… hum… hum…
Ama tudo quanto amei.
Canta ao luar cantigas que eu cantei
Noutro tom,
Num tom que eu ainda não dei.
Acompanha o seu fado,
O violão da noite estrelejado
E a guitarra da lua
Com craveiras e cordas do luar,
Com um bordão
Que somente possui o coração
E o possui para amar.
A brisa é quem nos traz o som da serenata
Num bafejo cheirando a cajueiro,
A resina escorrendo
64
Na alvorada,
A fruto de cardeiro,
Amadurecendo
De madrugada.
Areia Preta, eu te revejo agora,
Nas ondas do teu mar
Sempre revolto,
Mas sempre muito verde e muito triste,
Como a esperança que se vai embora
Pra nunca mais, pra nunca mais voltar.
Areia Preta, eu te revejo sempre,
Nas areias de fogo do deserto
Desses teus morros polvilhados de ouro,
Onde eu vejo passando
Beduínos do amor,
Caravanas de sonhos que morreram
Ao luar de langor.
Areia Preta, flor de verão
Aberta ao sol da praia e ao sol do coração
Das praieiras ditosas do lugar;
65
Renda branca a penar
Na almofada de bilros das rendeiras
Antigas
Já tão cansadas
Das fadigas
Das noites que passaram mal passadas
Em serões a trocar.
Ouvindo tristes cantigas
De Mãe d’Água a se embalar.
Areia Preta, vela aberta,
Lembrando
O pescador de alma bondosa e rude,
Mas cheia de virtude
E fiel, tão fiel à madrugada
Como hora marcada
Para a maré encher
Para a maré vazar…
Ai, como sabe amar
O pescador!
66 Bem o quisera saber o homem da cidade!...
Seu coração foi sempre preamar
De amor
E de saudade.
Quem me dera casar com um pescador
De tez queimada ao sol das pescarias,
Lutador
Que em dias
De procela
Atira a rede e assiste ao destroço da vela
Na tempestade,
No escuro,
Sem perder nunca essa serenidade
– Que é fé em Deus
E é confiança
No futuro.
Quem me dera casar com um simples pescador
Forte, leal, sereno, valoroso,
Temerário, na dor,
No prazer, cauteloso,
67
Nos dias de bonança, previdente,
Não sabendo enganar,
Não sabendo fingir,
Sabendo tão somente amar
E prometer, prometer e cumprir.
Quem me dera casar com um homem pescador assim,
Sincero e bom, honesto e destemido,
Firmado na vontade de vencer
E de vencer-se a si, sem ser vencido
Pelo mal que tanto mal nos faz,
Sem nunca em sua vida haver mentido.
Um pescador assim,
Que tivesse a alegria de viver,
Que amasse
O sol, o mar, a praia, a Natureza,
E só pensasse
Em mim.
Quem me dera casar com um pescador, ousado
68
Na procela,
grosseiro no seu traje de algodão,
Mas tendo o sentimento delicado,
Consciência mais branca que a vela
E amor para me amar com o coração!...
Areia Preta, eu te invoco, revendo
Aquele morro, quase
Desaparecendo
Dentro d’água,
Tal qual um sonho que encontrei também,
Bem dentro da minh’alma, mergulhado
No doce travo de querer bem,
No gosto amargo de haver amado.
E, volvendo ao passado
De menina,
Areia Preta, eu te revejo assim
Na história muito triste da rendeira,
Na voz do pescador, do alto da colina,
Cantando para mim 69
Que também sou praieira!
S in h á Ro c a s
À beira-dágua nasceu um dia (ninguém estranhe)
Linda praieira, tão pobrezinha, nasceu sem mãe!
A água salgada da maré-cheia encheu-lhe a boca
E ela nem pôde chorar, coitada,
Com a boca cheia de água salgada
Que ainda amarga na sua boca.
Cresceu sozinha, pobre garota, corre na praia sempre
70 Vagando;
Deita na areia com os moradores
E passa os dias assobiando.
Escuta histórias da Carochinha na Lua Cheia
Sobre as jangadas dos pescadores.
Brinca nas dunas, com a meninada,
De esconde-esconde,
Mancha, ciranda, pinicainha,
Boca de forno tirando bolo
Para a avozinha.
Veste vestido de algodãozinho dá no tecido¹,
Vive nas tocas,
No lamaçal,
Mas todos gostam de Sinhá Rocas,
Mesmo vestida com seu vestido colonial.
Alguém lhe disse num tempo desses
Toma a meada para fiar.
Ela, coitada, morrendo à fome foi trabalhar.
E fez tresmalhos, fez largas redes, ninguém a chame
De preguiçosa que é inverdade…
71
Olhem as jangadas, como vêm vindo cheias
De peixe, para a cidade…
As velas todas que ela cerziu
Noites inteiras a seroar
Como são brancas à beira d’água, d’água do mar.
Se todos vissem enroladinhas
Na compostura de uma oração…
Lembram vergônteas todas cheinhas
Para uma festa de comunhão.
Foi certo dia não sei quem disse que Sinhá Rocas
Já tem vestidos para mudar. Toca sanfona,
Já calça meias, põe charpa ao ombro.
Flor no cabelo — maracujá
Canta modinhas ao violão
E faz fogueiras, muitas fogueiras em São João.
Sabe a doutrina
Vai sempre à missa, todo domingo
Na igrejinha lá da colina.
Horas inteiras, fazendo renda, põe-se a cantar.
72 É muito nova, mas tem idade pra se casar.
E há quem jure ser confidente dos seus amores.
É a prometida do mais robusto dos pescadores.
Mas, vez por outra, um cavalheiro cá da cidade
Da flor de espuma procura o mel
E, pela praia, na Lua cheia
Canta Praieira de Othoniel2.
Ela, sorrindo, chega à latada,
Toda faceira,
Para escutar…
Ali, bem perto, velha rendeira
Conta aos netinhos, já sonolentos,
A velha história da Borralheira,
Que faz chorar.
Mais longe, um grupo de jangadeiros toma aguardente,
Deita de bruços na areia lisa com o peito quente,
Outros conversam coisas passadas aqui na rua.
Há quem arengue jogando dados à luz da lua.
Formam uma roda só de meninas cantarolando
À beira-mar.
73
E, dentro, Sinhá Rocas está cantando para ensinar
(canta)
OH MINHA GATINHA PARDA
QUE EM JANEIRO SE SUMIU,
QUEM ROUBOU MINHA GATINHA
VOCÊ SABE? VOCÊ SABE! VOCÊ VIU?
T irol é direitinho uma
paisagem bíblica
Madrugada alta…
Quase manhã.
A estrela d’Alva já se vai embora…
Aboio de vaqueiro lá de cima
Vem encher os caminhos…
Quem quiser pode dar bom-dia à aurora
Que vem vindo.
74
Porteira do curral escancarada
Está rangendo.
Cheiro de leite fresco e flor de guabiraba,
Misturado com mel de jandaíra.
Toda a mata respira
Incenso.
O Pau d’Arco amarelo
Abre o chapéu-de-sol de ouro.
Urtigas… Passarinhos…
Lavadeiras, falando alto na estrada,
Tiram carrapichos da saia.
Porção de espinhos.
A água tão fria da lagoa verde³
Que não seca
Está arrepiada
Lembrando um quadro que pintou La Greca⁴…
Raparigas trigueiras vão ao banho
Cantarolando o trá-lá-lá
Arrepiadinhas de frio esfregam
Nas pontinhas dos dedos macaçá
Para sentir um cheiro 75
Passadista…
O chuá-chuá,
D’água despegando
Faz-me pensar no BANHO BRASILEIRO
De Jorge Fernandes⁵,
Um dos grandes poetas futuristas.
As banhistas
Chupam cajus vermelhos, apanhados
Ali.
Imitam passarinhos acordados…
Chiado de folhas secas pela estrada.
Cheiro de flor de cajueiro.
Quanta árvore florida!
Canta um galo mais alto,
Um cão de raça late.
A casa de farinha despertou.
Há movimento incerto.
O dia recomeça.
Abre-se ali por perto
76
Um bangalô…
É a vida.
Manhã
– Quem foi que viu passar pelo arvoredo,
À hora das matinas,
O pastor do dia
Tocando na avena de ouro
Para chamar o Sol?
E a aurora, que já se ia, respondeu:
– Fui eu.
Lá vai ele descendo os montes do Tirol
Pastoreando a manhã,
A sua linda irmã.
Como outrora os pastores de Belém
Ele vai apanhando as frutas dos caminhos.
Em vez de pombas brancas, leva passarinhos,
Leite e mel, flor e fruto em vez de renda.
Para a oferenda
E no olhar qualquer coisa da estrela matutina 77
Leva, para guiá-lo à manjedoura.
Tirol faz-me pensar
Na Palestina evocadora,
Com o seu colar de morros veludosos.
A água da lagoa que dimana
Do Tirol
Refrescando cajueiros infloridos,
Com certeza encheu um dia
A bilha nova da Samaritana,
Numa tarde de sol, da Samaria,
Cheia de aroma, idílica!...
TIROL – É direitinho uma paisagem bíblica!
Tarde
Vai longe, muito longe o meio dia.
Silêncio, sombra, paz, recolhimento.
Nas tristes catedrais dos montes solitários
É profundo o mistério, o encantamento.
Existe lá por dentro algum convento
78 De freiras carmelitas meditando.
Psiu!... Psiu!...
Ninguém desperta a alma recolhida.
A mais contrita
Pode acordar tristonha.
A alma que reza é muito mais bonita
Do que a alma que sonha.
De longe em longe um canto se desata
Na solidão;
É o sabiá da mata que está fazendo oração.
E o mugido de bois,
Na quietude sentida dos currais
Enche todo o arvoredo
E vai quebrar-se ao pé do monte em ais!...
E tem o mesmo som do eco da saudade
De um bem perdido não se sabe quando!...
Tudo isso, porém, engrandece o silêncio
Muito mais
Aumentando! Aumentando!
Tirol…
79
É cisma, é prece, é solidão, desmaio
Cheira a incenso queimado
Nas ladainhas de maio.
É ali onde eu vou meditar
E refletir
Quando quero melhor em Deus pensar
Antegozando a paz que me há de vir!
Re fo l e s
Gosto tanto de ti como de um bem amado
Que a gente não esquece, ainda mesmo querendo!
Quantas vezes fitando no passado
Eu te vejo Refoles, te revendo.
Gosto tanto de ti como gostei um dia
De alguém que ainda não sei se gostará de mim…
O rio azul, o Potengi beirando,
80 Cajueiros derreados mesmo assim…
As “Quintas”… O “Alecrim”…
Gosto tanto de ti como das flores velhas
Que murcharam num livro de lembrança.
Não só gosto de ti como te quero bem,
Porque me viste criança.
Gosto tanto de ti! Guardo páginas inteiras
Da tua velha história!... O cheiro do caminho…
Um boi filosofando vagaroso…
A casa de taipa do guarda, gaiolas de passarinhos…
O sol no poente,
Doloroso.
A tranquilidade do esquecido…
Tudo isso era assim envolvido
Na filosofia triste
De Antonio Marinho⁶
Que passara meses contigo.
Nem sei quando!
Doente
Sofrendo como sofre um pobre filósofo
Tuberculoso 81
Paciente…
O “Oitizeiro”⁷ aqui, agua em redor.
Embaixo do Oitizeiro lavadeiras
Batendo roupa. Os bois pastando perto
Ubaias amarelas – lenheiras…
O velho Ricardo, vigia da estrada.
A chaminé da fábrica.
Monte de lenha apagada
Na beira do caminho.
O coradouro espelhando.
Homens de foice ao ombro…
A casa antiga, o alpendre, o trapézio balançando…
Um silêncio das coisas deste mundo…
Pé de jasmim de cera carregado.
As cajazeiras.
A ordenança de tio Segundo⁸.
O cercado,
O arvoredo verde… CAMPANELAS
Oiti…
82 Lavadeiras das Quintas… Araçá…
O trem resfolegando… Xá… Xá… Xá…
O apito Pi!... Pi!...
Quanta coisa guardada na memória!...
E eu pequenina indo brincar contigo
Como brincava com o melhor amigo.
Gostava de assustar os passarinhos
Colhendo nos barrancos, malmequer,
Para um amor que eu nem sequer
Pressentia
Que havia
De chegar
Como chegou um dia.
Refoles, eras triste, solitário,
Mas sempre muito amigo da poesia.
As tuas curvas vermelhas de um tom raro
Fazem-me hoje pensar
Em fortes pinceladas de De Garo…
Tão diferente, agora, outro te vejo,
Tão diverso daquele onde brinquei, 83
Onde compôs os seus melhores versos
Segundo Wanderley.
…..
Ombro, armas!!!
Clarins, toque de caixa,
Os tambores rutilando…
Marinheiros de blusa azul marinho.
Voz de comando, todos vão marchando…
E a corneta começa retinindo…
Faz de conta que eu ainda estou ouvindo
Meninos de Natal,
Ainda do meu tempo,
Brincando de soldado
Com o passo acelerado
E o quepe de jornal
Tocando na corneta das mãos:
– Marcha, soldado, cabeça de papel,
Marcha, soldado, direito pro quartel…
Num famoso guerreiro te mudaram,
84
Refoles, bem amado, triste asceta!...
E nunca em tua vida te lembraram
De que foste o retiro
De um filósofo – e de um poeta!
Alecrim
É verde, é todo verde como o sonho
Que faz verde a minha alma.
Parece que Jesus entrou lá no Alecrim
Levando no ombro a palma
Num domingo de ramos.
E verde ele prospera
Como se fosse o recanto
Da fada da primavera.
85
E cheira e cheira tanto!
Mais cheiroso não há, nem mais ameno.
Rescende a malva-rosa, a macaçá,
A cravo branco aberto no sereno
Na beirada da casa.
Cheira mesmo a alecrim bento
A alecrim da Paixão
Que enfeita na Quaresma o Senhor do Bonfim
Na procissão.
É o bairro do samba, da folia,
Das adivinhações e da magia,
Das promessas de fitas,
Dos fandangos, dos cordões
E das latadas de maracujá,
Das modinhas antigas,
Cantadas nos terreiros lá de cima
Ao som dos violões
Ali de perto,
Das saudosas lapinhas de Itajubá,
86 Das serenatas de Deolindo Lima,
Das morenas formosas de Gothardo Neto⁹...
Do par de namorados langorosos,
No caminho.
Conversando amorosos,
Encostados
Nas cercas de melão cheias de flor,
Entre juras de amor.
E quando ele começa venturoso
Tocando
O maracá
E cantando chistoso
CAPELINHA DE MELÃO
É de SÃO JOÃO
É de CRAVO é de ROSA,
É de MANJERICÃO,
Toda gente nos diz:
É da cidade o bairro mais feliz!
Como ele, porém,
Existe alguém
Que agoniza e padece 87
Cada dia mais
E não parece
Na máscara que traz.
É lá onde reside a soledade,
O cipreste evocando.
É lá a cidadela da saudade¹⁰
O derradeiro adeus nos acenando.
Alecrim é o bairro operário
A tecer noite e dia.
É a abelha¹¹ operosa
Que faz a teia e fia.
Tecelã, tecelã
Não te cansas de fiar,
Maria?...
Assim é a dor
Trabalha sempre para doer
E não se cansa de trabalhar
Ninguém a socorre
E ela não morre
88 Porque precisa fazer sofrer.
É o bairro da lida, da canseira,
De FUNÇÃO.
É o bairro da feira
Domingueira,
Numa algazarra louca,
Vestida de algodão,
Arrastando o tamanco,
A tocar realejo com a boca.
Olha, acolá, no meio da rua,
Havia uma fonte
De água mais clara do que a Lua…
Há muita sombra boa ainda pelos sítios,
Cajueiros floridos,
Acordando uns amores esquecidos.
Há laranjais que às vezes matam a sede.
Há mangueiras frondosas
Para o embalo da rede.
E, além, os morros verdes¹² continuam
O caminho. 89
Existe bem por perto uma lagoa¹³
E deve haver porção de passarinho,
No meio
Da balseira,
Embalado no ninho
Como o filho da humilde cigarreira
Dorme
Embalado no seio,
Ao som da voz, que mais parece um dobre,
Da pobre mãe tão consumida e pobre!
A voz vai se sumindo ali na casaria
Quase rente com o chão,
Enquanto o filho se some
Nas dobras do coração.
E ela, a pobrezinha, tão penada,
Com a voz perra de sono,
Já tão cansada de
Trabalhar,
Vai repetindo muito devagar
A arrastar, a arrastar,
90 A cantiga do povo
DORME, DORME, MEU FILHO
DEIXA DE TANTO CHORAR
QUEM TEM FILHO NÃO PASSEIA
SUA MÃE FOI PASSE-A-R…
Nada mais se percebe na distância,
Da voz amena
Senão este final de cantilena
Á-Á-Á-Á!!!
Barro Vermelho
Ninho de Poetas
Meu Deus, como ele é pobre
E desolado!
Parece o Só de António Nobre¹⁴,
Coitado!
Mas, nos ramos das árvores dilectas
Fazem versos os pássaros poetas.
E a levada, tão clara e tão bonita
91
A recitar
Murmura qualquer coisa de um romance
De José de Alencar¹⁵.
Não há naqueles sítios submersos
Na sombra de cajueiros tão frondosos
Um passarinho que não faça versos
Amorosos.
É que ele assim tão só, tão esquecido,
Tão feito para a alma que repousa,
Houve um tempo em que foi retiro preferido
De Auta de Souza¹⁶.
Ela ia ensinar aos passarinhos
Do verão
A poesia do coração
E corre como certo
Que eles levavam à mestra de presente,
Ramos de flor no bico,
Apanhados n’água da corrente,
Ou colhidos na mata ali por perto.
Se algum dos passarinhos se feria
92 No espinho da roseira,
Ela, agradando o pássaro, servia
De enfermeira.
E quando ele voava
Pela mata sombria,
Em busca do seu ninho, seu conforto,
Cantava…
E o riacho correndo repetia
– Vão ver como é bondosa a poetisa do Horto!
Anos depois, a morte, tão temida,
Num dia azul sem véu,
Levou a poetisa tão querida
Para fazer versos lá no céu.
Dizem que nesse dia
De soledade,
Enquanto havia
Na pátria das estrelas muita festa,
Choravam aqui na terra, de saudade,
Todos os passarinhos da floresta.
93
Pas s o d a Pátr i a
É um antro de miséria,
É um passo de dor.
Parece que os apaches de outras terras
Nascem dali. Que horror!
Quanto medo nos mete!
É, com certeza, daquele lodo
Que se gera o amor d’apachinete,
Bebendo com a desgraça o próprio amor.
94
Mata com um beijo, crava o punhal,
Disputa a sorte
No jogo do “trinta e um”.
Dança, a dança da morte,
No lamaçal,
Dá estalos com a língua,
Sentindo o gosto do mal.
Passo da Pátria é a tasca do vício,
Do impenitente;
Tem um cheiro de maresia
E um bafo muito forte de aguardente.
Mendigo maltrapilho e esfaimado,
Quase a morrer,
Aproveita migalhas,
Come sobejo,
Veste retalho,
Fuma ponta de cigarro
Já fumado,
Mastiga fumo rolado,
95
Dentes de alho
E deixa a baba escorrer.
É bem ali, num fim de ladeira esquecida,
Pobre enjeitado!
Ainda é tempo de mudar a vida,
Pecador, de tanto pecado!
É uma coisa assim ao léu nascida
No monturo,
Mas quanta coisa boa mal sabida
Lhe reserva o futuro?!
Dizem que ele por Deus não é lembrado.
Mentira!
Deus não se esquece do desgraçado,
Pois foi Deus o Pintor daquela Natureza.
Que quadro singular! Que tintas! Que beleza!
A esperança dali
São os mangues, tão verdes,
Beirando o rio muito azul,
Como um jardim de flor azul boiando.
96
Até o sol, que vem por trás, custa a chegar;
Mas, quando vai chegando,
A própria lama põe-se a brilhar.
DE NOITE.
Aqui, ali, a luz mortiça de uma candeia…
Casinhas muito alvas arruadas
Mal se distinguem.
Palhoças desaprumadas…
Choram lá dentro com fome e frio.
Os barrancos vermelhos escurecem.
Árvores, se despenhando nos barrancos,
Parecem fantasmas
De negras cabeleiras
Desgrenhadas,
Na noite escura.
AO LUAR.
O rio,
Docemente limpando
Os pés da rua,
97
Quebra de vez em quando
Em maré cheia.
Lá vem a lua
E o Potengi vem subindo
De barreira a barreira.
Toda ladeira
Dorme.
Só o Passo da Pátria, a sentinela
Da miséria,
Está de espia
E grita: alerta!
MEIA NOITE
É a hora da orgia
É a hora das bruxas e dos apaches.
Um gemido se escuta, um ai, uma canção,
Um beijo.
Serenata.
Acordes de violão.
Um bêbedo.
98
Um samba.
Folia…
Tropel de cavalos.
Gritos.
Arrelia.
Pancada.
Choro.
Apitos…
A cavalaria.
IRONIA
A vida é mesmo assim…
Tem o seu lado bom e o seu lado ruim.
Sobre aquele telheiro desprezado
Do Passo da Pátria,
Quanta gente se abriga sem telhado,
Quanta canoa passa e descarrega,
Quanta vela a se desenrolar.
– Coração que se foi volta alegre e sossega
E continua a amar –
99
Vai um bote, outro vem,
Carregado,
Vem ali dos “Barreiros”¹⁷
Traz verduras e frutas,
Traz tijolos, traz telha,
Verdureiros,
Leiteiros…
Olha, aquela canoa
Leva adeus, traz saudade,
Vai ali do outro lado, já volta,
Vai ao “Porto do Padre”¹⁸...
Nesse vaivém da sorte
Umas encontram a vida,
Outras a morte…
Em tudo há ironia!
– Canta com fome a cigarra –
Passo da Pátria tem a sua alegria
No sábado.
Que feira interessante e bizarra!
Que gritaria!
(Louça de barro! Louça de barro!)
100
E do Passo da Pátria a paisagem é tão linda!
É selvagem, é morena, é ardente,
É mesmo de encantar,
A natureza
Dali!
Tanta beleza abandonada assim
Eu nunca vi!
Sobre ela pousaram, com certeza,
Os olhos muito pretos de Poti¹⁹.
A alma se embevece na contemplação
Daquela natureza
Variada, esquisita,
E fica em oração,
Rezando ao Potengi
Uma oração contrita,
Pela tribo, talvez, que se abrigasse ali.
E o olhar,
Mergulhado dentro dela,
A se alongar,
101
Vê tanta coisa bela,
Que só se vê aqui
Para se amar!
E eu penso com o pensamento,
O mais profundo,
E sinto, como filha,
Que Natal é a cidade maravilha!
A mais bela cidade deste mundo!
B o da Se l vag e m 20
Para as almas enamoradas dos idílios da Natureza
ANTE A LAGOA MANUEL FELIPE²¹
Clara manhã de ouro desfia
A meada de luz para tecer o dia.
Já a estrela d’Alva, tão formosa e boa,
Terminará a tarefa de fiar
102 Nas derradeiras flores da estiagem
A toalha do altar,
Para a boda selvagem
Do cajueiro em flor e da lagoa.
Ao longe, morros verdes de esmeralda,
Embebidos na luz da manhã cor-de-rosa,
Em oração ainda,
Mostravam ao Sol a rútila grinalda
Da noiva casta venturosa e linda.
A beira d’água verde, filigranas
Entretecendo moitas de capim,
A ondular,
Tecem
De veludo das folhas um coxim,
Para a desposada descansar.
Nos ninhos,
Passarinhos
Acordados
Cantavam a missa branca dos noivados.
E o Sol,
Sacerdote pagão subindo ao altar
Azul da Natureza, 103
Toma a estola de franja
Para a boda selvagem celebrar.
Clara manhã de ouro desfia
A meada de luz para tecer o dia.
E, enquanto na minh’alma os olhos ponho,
Sinto que desmancha a teia do meu sonho.
Entristeço.
Perto de mim, as pobres lavadeiras vão e vem,
Nem sabem que eu padeço,
E cantam descuidadas
TRISTE COISA QUERER BEM!
Clara manhã de ouro desfia
A meada de luz para tecer o dia.
E tu, ó cajueiro tão florido,
Escutando a cantiga que ressoa
Em CANTOCHÃO,
Tu és o prometido da lagoa.
104 A tua sombra é uma oferenda,
É a música tua oração.
E assim como quem dá o que tem de melhor
No coração: – amar –
Assim apaixonadamente te derreias,
Com ardor, na lagoa, a sonhar,
E a ela te aconchegas, cajueiro em flor,
A agradar, a agradar…
Os teus galhos, num gesto só de amor,
Só desejam enlaçar.
Nada mais queres, nada mais anseias,
Do que amar.
A lagoa, te olhando embevecida,
Torna-se tua para toda a vida.
E os dois, numa fusão de sentimento,
Dois destinos contidos numa sorte,
Sob a umbela de luz do firmamento,
Enleados serão até na morte.
A lagoa, tão clara e iluminada,
Parece que banhou a madrugada…
105
E em ti, em tua copa acolhedora e amante,
Canta a tua alma ardente, palpitante,
Como se cada folha fosse uma avena dourada,
Tocando uma canção nunca escutada.
És sempre assim um eterno amoroso.
Quando inclinas um galho: afetuoso,
Perfumando os caminhos,
Te dás todo em carinho.
E a terra, de quem és tão terno amigo,
Vive sempre a fazer um idílio contigo.
Arrastas os teus ramos pela estrada,
Afagando,
Como se a terra fosse tua bem amada
Te abraçando.
E, em troca dos teus beijos, te coroa
Para depois, ó árvore tão boa,
Dadivosa que és, cheia de brilho,
Desmanchares as flores nos seus pés
Ou em fruto te dares aos seus filhos.
106
Quero também a sombra hospitaleira
E o perfume da flor que faz sonhar…
Quem me dera, sonhando a vida inteira,
Nunca mais acordar!
Castelinhos n’Areia
da “Praia do Meio”
Castelinhos n’areia
Na beira da praia…
E ninguém se arreceia
Da onda que espraia
Coisas da meninice
Que a gente faz e não cansa.
E agora faz outra vez 107
Pra ver se vira criança.
Banhistas deitados ao sol do poente
Trabalham, trabalham, na maré da enchente.
E a onda que vai
E a onda que vem
Nem
Sabe que faço castelos também.
As torres de ouro levanto no espaço
E o mar nem se importa
Com as torres que eu faço
E a beira da praia parece uma rua
Só de castelos olhando pra lua
Que está lá no alto, no seu varandim,
Olhando pra eles, olhando pra mim.
Tão cedo ela veio nos ver do sobrado,
Envolvida num véu,
Que a gente pensou que se havia adiantado
O relógio do céu.
E a cada momento uma torre se alteia
108
Castelos de sonho… Castelos de areia.
É tarde, bem tarde. O sol já se pôs
E eu faço castelos só para nós dois.
No alto da torre eu ponho um mirante
E ninguém nos vê…
Pois fiz um mirante
Pra mim e você.
E o mar invejoso já vem se chegando
E os meus castelinhos se vão desmanchando
E a onda que vem e vai a rolar,
Desmancha um castelo,
Constrói um pesar.
E à lua tão branca
Eu digo isto assim:
Ai, tudo que eu quero
A sorte carrega pra longe de mim!
E levantando a mão
Acima do coração
Suplico:
109
– A BENÇÃO, DINDINHA LUA,
ME DÊ UM PUNHADINHO DE FARINHA
Do trigo nevado da felicidade!
Me dê e não tome,
Que a ventura que eu tinha
Era tão pobrezinha
Que morreu de fome!
RO SAS T RO P I C A IS
111
A poesia é a melhor recordação dos momentos felizes da exis-
tência. É a lembrança dos pensamentos fecundos. Luz da vida, de
que é a verdadeira imagem, expressa a verdade eterna, imortaliza o
mais belo e melhor deste mundo.
Lübeck²²
Fortaleza dos Reis Magos
Em frente, o mar fervendo e espumando de ira,
Na neurose do ódio, em convulsões rouqueja.
E contra a fortaleza imprecações atira
E blasfema e maldiz e ameaça e pragueja.
Todo ele se baba. E se arqueia e delira,
Na fervente paixão de vencê-la… Peleja.
Ergue o dorso e se empina e se estorce e conspira
112 E cai, magoando os pés daquela que deseja.
A fortaleza altiva, agarrada às raízes,
Nem parece sentir as fundas cicatrizes
Dos golpes com que o mar o seu corpo tortura.
Evocando o passado, avista as sentinelas,
No Cruzeiro do Sul a cruz das caravelas
E as flechas de Poti rasgando a noite escura.
Extremoz²³
Extremoz, “ermo, tristeza, solidão!”
Herdade sombria da recordação.
Desenho velho de um solar d’outrora.
Taba de amores, casa de missão.
Estância da saudade, pouso amigo
Da lembrança cansada de lembrar…
Relíquias do passado,
Retalhos de lenda, 113
Um convento de frades a rezar…
Almofadas de renda,
Fuso a rodopiar…
Flechas cruzando à toa,
Índios pescando à beira da lagoa,
Missionário ensinando
O Padre Nosso na ermida do lugar…
O canto do carreiro,
O badalar do sino…
Coisa do Rio Grande ainda menino.
Hoje –
Mágoa de não ser o que foi
E desejar.
Extremoz, pedaços de quimera
Em cinzas pelo chão.
Página colonial, de uma história
De aldeia,
Infância do Brasil,
Patriotismo,
114
Rastros do coração.
Sobejos de ventura,
Restos de amor,
Resignação, desventura
De quem morre de fome e vive na fartura,
Tormento
De possuir e não gozar.
Sombra da felicidade
Muito mais escura
Do que a sombra da noite – a mãe preta do dia –
— Celeiro de saudade
Hora de Ave Maria.
Ruínas piedosas de um mosteiro
Onde a alma contrita
Se debruça
E medita,
E soluça,
Evocando
O profético perfil do jesuíta.
115
Extremoz, soledade,
Silêncio.
Árvores recolhidas em oração.
Sinal da cruz,
Penitência, meditação.
Extremoz, abandono,
Cabaz vazio de flor,
Parque que há de florir…
Tristeza de quem ama e vive só,
Vontade de ter dono
Tendo sido senhor,
Pena de quem faz dó!
Extremoz, aldeia velha que se encantou
Lá dentro de uma lagoa
Embandeirada de árvores…
Reinado que se afogou…
E a esperança ainda espera
No pendão do eucalipto sempre verde,
Que ela, um dia, ressurja, à beira d’água,
116
Mais formosa, talvez, que a Primavera.
Extremoz, solar cristão, antigamente,
Ensinava a rezar…
Casa de Nazaré onde as donzelas
Selvagens
Aprendiam a fiar.
Extremoz, lagoa azul irmã do céu,
Mais clara do que a estrela da manhã.
Quando ela dorme e sonha com o passado
Parece que eu, também, sou sua irmã.
Sua alma é feita de lenda.
De lenda que diz assim:
– O sino à meia noite há de tocar
Toda a vida,
Na onda sempre azul da lagoa florida…
E a voz muito arrastada
Do carreiro, cantando
Uma toada triste,
117
Enche o ermo da vila, relembrando…
Badalada do sino! – Oração e fervor –
Coração, coração, és carreiro de amor!
Extremoz já vivido,
Tristeza de um bem perdido!
E a lenda continua:
– E quando a voz do carreiro,
Misteriosa,
Recomeça a aboiar no fundo da lagoa
De Extremoz,
Enchendo a soledade…
Parece que a alma das coisas, dolorosa,
Canta chorando o aboio da saudade.
118
Palma da Ressurreição
Da escarpa na aridez, ela rebenta,
Filha das rochas, nos sertões nascida;
Parece ter brotado da tormenta
De um’alma que venceu e foi vencida.
É um gesto de dor; não se lamenta,
Porque a dor mais calada é a mais sentida…
No entanto se adivinha que é sedenta
Da água que baste pra lhe dar vida. 119
Contraste dessa palma milagrosa
Que do batismo sai nova, viçosa,
E do verde se veste e se refaz.
É uma antiga lembrança que ainda abrigo,
Um velho sonho que murchou comigo,
É qualquer coisa que não volta mais!
NOTA DA ”A REPÚBLICA”
“A planta que a poetisa crismou com o nome de PALMA
DA RESSURREIÇÃO é conhecida entre os sertanejos pela
denominação de PÉ DE PAPAGAIO, a cuja cor e forma,
durante o estio, muito se assemelha. Nascida nas escarpas das
serras, aí desabrocha na época das chuvas, fechando os olhos
quando volta o verão, parecendo assim inteiramente morta.
120 Desenraizada do granito pela torrente, é por ela arrastada
para o solo, confundindo-se com as folhas secas.
O exemplar que inspirou o maravilhoso soneto com que
hoje brindamos os nossos leitores, há oito meses se encontra-
va ressequido na secretaria de um colecionador de raridades
da nossa flora e reviveu aos olhos da poetisa poucos instan-
tes depois de mergulhado em uma taça de água pura.”
B au n i l h a
Lembrando o pé de baunilha do jardim
da capela da Imaculada Conceição.
Lembra um jarro de flor. Pompeia ao vento
A floração que é pluma enluarada.
Doce aroma do Céu, de mancha isento,
Vem da Baunilha aos pés da Imaculada.
O seu perfume é prece. E no momento
Rezam todas as flores. Ajoelhada, 121
Noviça na capela do convento,
Não seria mais bela, engrinaldada.
Ramos de neve estende na invernia.
De mãos postas parece a ramaria
Rezar com mais fervor sua oração.
Curva a baunilha a fronte alva e divina,
Como se fosse angelical menina
Na mesa da primeira comunhão.
F l o r de U r t i g a
É um resquício de espuma a flor de urtiga,
Um pingo d’água doce e perfumosa,
Um pensamento bom… Não há quem diga
Que ela nasce de planta venenosa.
Apanhá-la no pé, talvez consiga
Mão de mulher sutil e carinhosa,
Que agrade muito e seja muito amiga
122 De bem-fazer, sem mesmo ser ditosa.
A flor de urtiga é um lírio bem pequeno,
Um beijo muito alvo no sereno,
Um dengue, um ai, um doce bem querer…
Faz-se tão langorosa perfumando,
Que eu fico, às vezes, sem querer, pensando
Numa coisa de amor que ouvi dizer…
U i ra p u r u
Das matas é o cantor aprimorado,
O monarca real da melodia,
Vive cantando sempre descuidado,
Como se fosse o dono da alegria.
Quando desfere o mágico trinado,
Saudando a aurora, bendizendo o dia,
Um bando de aves voa ao seu chamado,
Para escutar-lhe a estranha sinfonia. 123
E a passarada, estática, silente,
Procura descobrir se o canto ardente
Vem da garganta em fulgido descante
Ou se das nuvens desce o som dorido,
Das cordas soltas de um colar partido,
Caindo em salvas de cristal cantante.
Árvore do Bem
A corola vermelha ao fogo se compara.
No cálix de coral, o pólen de ouro se inflama.
Rubra, a flor da romã, de pétalas avara,
Lembra a chama do amor, do meu amor a chama.
Romãzeira a florir, tu, na existência amara,
És a árvore do bem, que a doçura derrama.
De ti é que nos vem essa virtude rara
124 De ser feliz no amor, de amar a quem nos ama.
Ó fruto circular, sem atrativo embora,
Em escrínios encerra as gemas cor d’aurora
Veladas por um véu dourado… E se adivinha
Que a coroa que cinge o fruto apetecido
É a coroa de um rei, talvez desconhecido,
A velar os rubis de um colar de rainha.
Pal m e i ra do Ro s ár io
Sem que mais possa ver, palmeira amiga,
A tua irmã que outrora aqui vivia,
Vejo as dunas, o mangue, a Igreja antiga,
O mesmo rio, a Santa Cruz, a Pia.
Que a tua fronde o pássaro bendiga,
Atalaia do Templo de Maria.
Parta, embora de ti, doce cantiga,
Eu sinto que entristeces todo o dia. 125
A brisa geme. A farfalhar, soluças,
E sobre a própria sombra te debruças,
Querendo agasalhar d’outra o destroço.
De minha terra a Natureza inteira
Chora contigo a morte da palmeira,
Tronco partido de um passado nosso.
Pi ta n g u e i ra
Termina agosto. A pitangueira flora,
A umbela verde cobre-se de alvura.
E, antes que de setembro finde a aurora,
Enrubesce a pitanga, está madura.
Da flor o fruto é de esmeralda agora.
Num topázio depois se transfigura,
E, pouco a pouco, um sol de estio o cora
126 Dando a cor dos rubis à carnadura.
A pele é fina. A carne veludosa,
Vermelha como o sangue, perfumosa,
Como se humana a sua carne fosse.
Do fruto, às vezes roxo como o espargo,
A polpa tem um travo doce amargo,
O sabor da saudade amargo e doce.
Aguarela
O rio azul²⁴, voluptuosamente,
Se espreguiça na areia cor de prata
Estende os braços, amorosamente,
Para abraçar melhor a verde mata.
À beira d’água, perfumosamente,
a ramaria o seu BOUQUET desata.
Canta a floresta e o coração da gente
Na voz do sabiá, que se dilata. 127
Uma canoa esguia o rio desce.
Desce tão vagarosa, que parece
Falar de amor às águas em segredo.
De pé, o canoeiro, olhando o rio,
Recebe, da ramagem no cicio,
O bafejo selvagem do arvoredo.
Não cantas mais!
Não cantas mais! Junho, brumoso e frio,
Hoje foi teu coveiro, meu cantor.
Chove lá fora. E eu sinto n’alma o estio
Da tua doce voz cheia de amor.
Não cantas mais! Do teu cantar o fio
Partiu-se na garganta, sem rumor.
Morreu contigo o derradeiro pio
128 E na roseira a derradeira flor.
E assim, tão só, como viver agora,
Sem ter mais quem me entenda como outrora,
No canto irmãos, no sofrimento iguais?
E, enquanto na minh’alma dolorida
A tua voz me falta para a vida,
A dor que me doeu dói muito mais.
F l a m boya n ts
Verão. A natureza no-lo atesta
Dos flamboyants nas flores nacaradas.
Derramou-se, talvez, pela floresta
Uma porção de flores encarnadas.
As cigarras cantando fazem festa
As corolas de seda ensanguentadas.
Quanta coisa esquecida ainda nos resta
No si-si das cantigas nas ramadas. 129
Inverno. Os flamboyants despem-se agora.
Nem mais um canto. Emudeceu lá fora
Das cigarras, no estio, o bando alacre…
Até que aos flamboyants a cor vermelha
Volte, na floração, que se assemelha
A lindas borboletas cor de lacre.
Lava d e i ra s d e m i n h a ter ra
Partem, cantando, à luz das alvoradas,
Molhando os pés na relva dos caminhos,
E ao som de suas vozes, acordadas,
Beijam-se as asas no frouxel dos ninhos.
As lavadeiras seguem descuidadas,
Ora prendendo as roupas nos espinhos,
Ora apanhando as frutas encarnadas,
130 Ou cantando também com os passarinhos.
Depois, a tarde. O sol desaparece
Por trás do rio. A noite desce, desce…
Toda a mata rescende a alecrim bento.
Elas ao lar retornam, conversando,
Enquanto a Lua, pelos céus pairando,
Esgarça a seda azul do firmamento.
Figu e i ra
Na aridez do terreno, a figueira rebenta,
Buscando ver o sol, que dela não se esconde,
Quanto mais luz recebe, é de mais luz sedenta,
Para a sombra apagar do crime em sua fronde.
De Judas a lembrança a figueira atormenta;
Mas, vendo-a sempre verde, a dor não há quem sonde;
No entanto, ela se agita em convulsões, e tenta
Fugir do olhar de Deus. De Deus fugir para onde? 131
Quando desponta o figo, é uma esperança em fruto.
Depois, é de ametista. O verde fez-se luto,
Conservando no caule o leite que o nutriu.
O bago sazonado é doce sem ressabio,
A polpa, quase rubra, é como a flor do lábio,
Não contendo o travor do beijo que traiu.
Lí r i o Ve r m e lh o
Lírio Vermelho, de esquisita cor,
Onde o perfume, alma das flores, mora.
Lírio que se fez rubro de pudor,
Quando o sol o beijou diante da aurora.
Foi de neve, talvez, esse rubor
Que a brancura das pétalas colora;
Vem do beijo da luz, desse calor,
132 Que algumas faz corar e outras descora.
O coração desse formoso lírio,
Onde goteja o orvalho do martírio,
É um rubro cofre flamejando amor.
E recorda a corola, mesta e langue,
Assim vermelha, mergulhada em sangue,
Uma chaga de Cristo aberta em flor.
Mangueira
Exposta ao vento, exposta à noite, ao dia exposta,
Aprumada na terra, a mangueira se alteia
E, do solo, a raiz a rigidez arrosta,
Qual polvo que se estorce e se entranha na areia.
Quando o inverno aparece umedecendo a encosta,
De pranto a chuva orvalha a coma e a torna cheia
De pequenos botões… Qual pérola suposta,
A lágrima reluz na fronde que pompeia. 133
E, ao vir da Primavera estrelada de flores,
Faz-se esposa do sol. E os alados cantores
Cantam salmos de amor, na mangueira frondosa.
Depois, beijos de luz as pétalas abrindo,
Da rubra floração, verdes frutos surgindo,
Transformam-se, afinal, em pomos de ouro e rosa.
Árvore Feliz
Meses atrás, te conheci
Menina,
Crescendo entre as roseiras de um jardim…
Eras tão verde, mas tão pequenina,
que ainda não tinhas sombras
Para mim,
A tua copa mal se adivinhava,
134 Tão nova que tu eras!
E eu pensava, a sorrir:
– Com mais três primaveras
Ela há de florir…
Ela há de florir, muito mais bela,
Num domingo de Páscoa, a repicar,
E tecerá as flores da capela,
Para ir se casar…
Para ir se casar, num dia santo,
Com seu vestido novo cor do mar,
Enramado de flor, cheio de encanto,
Numa tarde de doce claridade,
Fazendo inveja à noiva mais bonita
Da cidade.
O seu noivo há de ser aquele passarinho,
Cantador,
Que aí vem,
De mansinho.
Que ainda não amou
Mas quando canta, se sente
135
A saudade
De um bem
Que não se teve, mas que se esperou…
Eu também, nesse tempo, prazenteira,
Tive sonhos iguais ao sonho da limeira.
Tempos depois, te vi… Mas quem diria
Que eras tu mesma aquela de outro dia,
Tão longe de ser hoje o que tu és?
E ao ver-te assim, alegre, venturosa,
tão crescida, tão verde, tão viçosa,
Carregada de flores e de frutos…
Eu comecei, então, a refletir:
– Como a sorte varia!
A ventura te veio antes do dia,
E a minha nem sei mais quando há de vir!!
136
Pau D’Arco
Domina a mata inteira. O grosso tronco escuro
Se eleva para o céu, em galhos esquisitos.
Seu passado de rei, de rei o seu futuro,
Nos ramos, em sinais estranhos, vejo escritos.
No inverno conheci, sem flores, obscuro,
Rei proscrito, o pau d’arco, entre muitos proscritos.
Floresce no verão. Dourada a copa, eu juro
Ser o reino de luz dos pássaros bonitos. 137
É o marechal da mata. Altivo, nobre, belo,
No capacete ostenta o penacho amarelo,
Guerreiro destemido, em demanda da glória.
Orgulhoso, desfralda a bandeira bordada
E, enlaçado de flor, escuta, n’alvorada,
Um concliz a tocar o clarim da vitória.
Caminho de São Gonçalo
Madrugada.
As ceifeiras da luz vão trabalhar.
Escorre leite e mel do favo do luar…
A mata iluminada,
Aberta toda em flor de guabiraba,
Cheira tanto que entontece,
E com um altar
De noivado se parece.
138
Carros de boi,
Na estrada vão passando,
Enlaçados de flor.
E, dentro, muitas moças da cidade
Vão cantando, na doce claridade,
Versos de amor.
Os violeiros tocam iluminados
No caminho da mata
A cintilar…
São esses os primeiros convidados
Para as bodas de prata do luar.
139
ROSA S D E S OM BR A E D E N EBLIN A
“Po n te Ve lh a ” d o Reci fe
“Ponte Velha” do Recife!
Ponte esquecida!
Ponte do tempo!
Ponte da vida!
Ponte da saudade a recordar!...
Que vontade me vem
De amar… De amar alguém
Que me ame, também, 141
Para junto contigo, recordar!...
Que vontade me vem de querer bem!
“Ponte Velha” do Recife!
Ponte do passado!
Ponte do abandono!
Ponte do meu sonho mais sonhado!
Cai o luar tonto de sono
Lá de cima da noite…
E a água compassiva
Estende mais a colcha chamalotada
Ondulando, encrespada,
Para aparar
O luar,
Que cai, coitadinho,
Lá de cima da noite, a cochilar,
No Capibaribe, sozinho.
E a lua,
A velha ama de leite do luar,
Lá vem agasalhar,
142
Com a sua boá
De penas brancas,
O luar com frio,
Mergulhado no rio…
E eu, debruçada
No parapeito da ponte
Meio enluarada,
Olho a água,
Tremendo,
E sinto que se agasalha a minha grande mágoa…
Dentro do rio correndo.
Aqui e
Ali
Mancha mais viva
Criva
De luz
O rio.
E a lua, desenrolando
As penas de sua boá, 143
Parece que está fazendo
A cabeleira branca
Da “Ponte Velha”, já tão velhinha
Que faz dó!...
Que vontade me vem de ser menina,
Para outra vez brincar do que eu brincava
Nos tempos de colégio, no recreio,
Cantando muito alto sem receio
Nenhum
Da vida, esta cantiga:
– LÁ NA PONTE D’ALIANÇA
TODO MUNDO PASSA
AS LAVADEIRAS FAZEM ASSIM,
AS LAVADEIRAS FAZEM ASSIM,
TRÁ-LÁ-LÁ-LÁ!...
TRÁ-LÁ-LÁ-LÁ!...
E correr… E correr
144 E brincar
Sem pensar,
Sem saber
Que muitas vezes, na vida,
É preciso olvidar,
É preciso esquecer,
Uma coisa querida…
Cai o luar
Com frio
Lá no escuro do rio.
Como o luar da “ponte velha”
Tão tristonha,
É um sonho que às vezes a gente sonha.
Vem lá de cima,
Mal
Cai dentro d’alma,
Já mergulhou…
Mas, às vezes, a alma é tão profunda
Que o sonho dentro dela se afogou…
“Ponte Velha”, do Recife!
145
Ponte esquecida!
Ponte do tempo!
Ponte da vida!...
Que vontade me vem
De amar alguém… De amar alguém
Que me ame, também,
Para junto contigo recordar!...
Que vontade me vem de querer bem!...
Mandacaru
De manhãzinha é sempre o meu cuidado
Dar-te o bom dia e olhar se tu floriste…
E eu vou-me embora sem te ver florado
E tu nem sabes como eu parto triste!
Quando cheguei tinhas desabrochado,
A flor mais alva!... E tu nem pressentiste
A pena que sofri, vendo fechado
146 O teu floral… Meu sonho assim persiste.
Dizem que, vez por outra, reflorindo,
Tal qual um pé de Estrela d’Alva abrindo,
Nossa Senhora vem te olhar assim…
E eu me fico a esperar que, na partida,
Quando eu disser-te adeus, na despedida,
Abras, ao menos, uma flor pra mim!
O ra ç ã o d a Pa z
Alva, tão alva como os liriais,
Surges, visão da paz,
Qual se fosses luar no firmamento,
Da noite iluminando o lúgubre advento.
Magnólia de prata desfolhada,
Pelo orvalho do céu toda orvalhada,
Asa de cisne aberta a velejar,
Floco de espuma rendilhando o mar. 147
Beijo de Deus na imagem da harmonia,
Irradia, irradia,
Formosa irmã da estrela da manhã.
Páscoa de rosas, aleluia branca,
Ressurreição de lírios virginais,
Vestem-te o corpo pétalas nevadas,
Num banho de luar enluaradas,
E o sereno do bem mais bela assim te faz.
Pomba de arminho, iluminada, pura,
Traze no bico o ramo da ventura.
Chama branca fulgindo em céu de anil,
Queima no fogo santo o peito do Brasil.
Deixa que à tua sombra verdejante,
Oliveira real,
Gloriosa e altiva, a nossa pátria cante,
Em ósculos de amor,
O hino nacional
148 Dos corações em flor.
Virgem Mãe, laranjeira engrinaldada,
De nevado rosal
Abrindo em flor a fronde imaculada,
Abrindo em fruto o colo maternal,
És tu, virgem da paz, fecunda e casta,
Primavera do bem,
Que sendo mãe nos basta pelo amor que nos vem.
Avé, cheia de graça e de beleza,
Que a graça do senhor contigo seja!
És bendita na augusta realeza,
Bendito seja o fruto que nos dás,
Ó rainha da paz!
Entre todos os povos relampeja,
Abre as asas do amor, pelo Brasil perpassa,
Mãe da divina graça!
(Da fantasia lírica Festa das Cores)
149
Co n s e l h o s à m i n h’a l ma
Não te maldigas. Não! Não te maldigas!
Se um gozo retardado faz sofrer,
Há de chegar um dia em que consigas
Toda a felicidade merecer.
Não te perturbe a sanha das intrigas.
Sê firme na vontade de querer.
“Dá o bem pelo mal”... Que assim prossigas
150 E a força do mais forte hás de vencer.
Perdoa sempre aquele que te odeia.
Recebe o teu quinhão na dor alheia,
Não te julgues feliz no mal de alguém.
Ama sem recompensa e sem usura,
Pois o amor, apesar da desventura,
É de todos os bens o melhor bem.
Feli c i d a d e
Cantas dentro de mim, ave encantada!
Eu sinto, e sem te ouvir já te sentia.
Mas, se ouso beber-te a voz amada
Já nem sei da ventura que sabia.
Se não te busco, vens enamorada
Pousar nessa minha alma fugidia.
Ai de mim se tocar-te a asa dourada;
Foges, embora voltes n’outro dia. 151
Quis entender-te; agora, já não quero,
Porque quando te encontro não te espero,
Porque quando te espero nem te avisto…
De que serve voltares insistindo,
Se bem não chegas perto vais fugindo,
Sem saberes o mal que me faz isto.
A dor que mais doeu
– Fui eu, perdoa, a causa dessa mágoa
Tão grande assim!
Porque fui para o céu, longe daqui…
Mãe, porque tens os olhos cheios d’água,
Não vês o teu filhinho ao pé de ti.
Se a maninha em te beijar insiste,
Numa alegria louca,
Para ver se não choras tanto assim,
152 Sou o beijo que sai da sua boca triste
E mamãe nem sorri com saudades de mim.
Quando o “nenê” embalas com ternura
E a tua voz parece uma oração,
Não vês que te acalento com doçura,
Procurando embalar teu coração?
Andas a casa toda procurando
Um bem que se perdeu…
Mas este bem, mãezinha, está contigo,
Porque sou eu.
Ontem, quando dormias,
Tão cheia de desgosto,
Dos teus olhos a lágrima rolava
E tu nem percebias
Que era eu quem beijava
O teu formoso rosto.
Guardaste os meus brinquedos soluçando,
A corneta, o tambor, o carro pequenino…
Mas, para quê, mamãe, se estou brincando
Com os brinquedos que tem o Deus Menino?
153
Ficas mais triste e muito mais chorosa
Quando está perto do papai chegar,
Triste, também, pensando sempre assim:
– ERA NA CASA A HORA MAIS DITOSA…
MAS O MEU BEIJO QUEM O RECEBE AGORA?...
Pensando nisto às vezes papai chora…
Recebe os dois, mamãe, e um guarda pra mim.
Vê bem, querida, que nem num momento
Me separei de ti; reza, descansa.
Estou contigo no teu pensamento,
Eu sou a tua dor que mais doeu,
Sou a tua lembrança,
A tua sombra eu sou, teu coração sou eu.
Se, ainda assim, tu não me vês, querida,
E a tua lágrima vai
Os teus olhos molhar e a tua vida,
Procura na saudade do papai,
Na lembrança do mano, tão sozinho,
Nos beijos da irmãzinha,
154
No afago do maninho…
Procura na tu’alma, mãe querida,
Que ali hás de encontrar o teu filhinho.
S e n h o r d o s Pa s s o s
Senhor, caminho nos teus passos. Penso
Seguir contigo do calvário a estrada.
Levas o amor na cruz – martírio imenso!
E eu, na minh’alma, a dor crucificada!
Tiveste, como tive, a mirra e o incenso,
Hoje a fronte de espinho engrinaldada.
Teu mal nos traz um benefício imenso,
Vivo no meu penar purificada. 155
Teu corpo santo em chagas arroxeia.
De um bem perdido a mágoa me alanceia
No coração que a dor mata aos pedaços…
Enfim, tens o Thabor²⁵… E eu reconheço
Que por bem merecer o que padeço,
Vou, novamente, percorrer teus passos.
Adeus Maria
Adeus, Maria!... O teu olhar responde,
Cheio de afeto, à minha despedida…
O teu profundo amor não há quem sonde!
Olha-me, sempre assim, por toda vida!
Adeus, Maria, adeus! Ai, quem me esconde
Do mal que, às vezes, traz a alma vencida?
Onde me abrigarei, Senhora, onde?
156 Quem me concede a graça prometida?
Adeus, Maria!... A noite se avizinha.
Ouço o canto final da ladainha,
Vejo os círios chorando de saudade.
Adeus, Virgem de Maio – a flor descora…
Sem ti, o que há de ser, Nossa Senhora,
Desse meu sonho de felicidade?!...
Ce n a I n fa n ti l (s o b tema )
– Mamãe, eu sinto um pesar,
Uma dor que não tem fim…
Não sei, porém, explicar
O que me dói tanto assim!
– Prendeste algum passarinho?
Inseto mal te picou?
Não, mamãe, é que o vizinho
Foi ao céu e não voltou. 157
E a dormir, quando o levaram,
Num caixão de azul cetim,
Senti bem que magoaram
Não sei quê dentro de mim.
– E as horas passando estão,
Aumentando a tua mágoa…
Quanto mais se espera em vão,
Mais se enchem os olhos d’água.
Não penses que ele voltando
Lá do Azul para onde foi,
A tua dor se dissipando
Nunca mais ninguém magoe
O Céu é tão longe, filho,
Tão difícil de encontrar,
Que aquele que encontra o trilho
Não deseja mais voltar.
– E assim sozinho, ao sereno,
O caminho acertaria?
158
– Sendo assim muito pequeno
Os anjos servem de guia…
– Que fazem lá nas alturas
Os meninos como eu?
– Acendem as noites escuras
Com o lume que Jesus deu.
De dia tecem grinaldas
De rosas, cravos, boninas
E tapetes de esmeraldas,
Para enfeitar as campinas.
Escuta, filho, o que digo.
– O Céu tantos bens encerra
Que nunca mais teu amigo
Deseja voltar à terra.
– Pois, então, mamãe procura
O teu filhinho sarar…
– O que o remédio não cura
Vai meu beijo aliviar.
159
– Mas como é que me vem,
Aliviar o teu beijo,
Se não podes ver, também,
Onde dói, como eu não vejo?!
– Se todo o teu corpo é são,
E cresce a dor da ferida
Perscrutando o coração,
Sentirás a alma dorida…
E quando a alma padece
E o pranto umedece o olhar
Somente o carinho, a prece,
O pranto fazem secar.
– Não sei o que seja a alma.
Que forma tem? Sua cor?
– Não tem forma, não tem cor;
Se sente, mas não se vê,
Como o perfume da flor.
Sem asas, voa serena,
160 Parece feita de arminho.
É mais leve que a pena,
Mais sutil que um passarinho.
Não tocas, nem vês o ar,
Mas sentes que vai passando…
Assim, não podes tocar
Na tu’alma soluçando.
Tristonha agora aparece
Em ti que perdeste um bem…
Tua tristeza entristece
A tua mamãe também.
Se às vezes te acaricio,
Quando tu foges do mal,
D’alegria o murmúrio,
Tu’alma escuta, afinal.
Escuta, filho inocente,
A alma bem deve ser
Tudo aquilo que se sente
Sem que ninguém possa ver.
E quando cresceres mais
Por entre os carinhos meus, 161
Então compreenderás
Que a alma é o sopro de Deus.
A l m as Para l e la s
Há nesta vida uma barreira densa,
Sombra maldita entre nós dois pairando.
Corvo de Poe²⁶, de garra adunca, imensa,
Toda felicidade estrangulando.
Força do mal sobre nós dois supensa,
Na figueira de Judas balouçando.
Um mistério, um abismo, a indiferença,
162 Reticências de amor nos separando.
Almas proscritas, almas paralelas,
Jamais se encontrarão. As sentinelas
Da inveja andam de espreita. Sorte amara…
E assim dissimulando a nossa estima
Quanto mais este amor nos aproxima,
Mais a mão do destino nos separa.
Ing e n ui da d e
Diz a crença do povo, ingênua e mansa,
Que, quando um meteoro os céus percorre,
Enquanto ao nosso olhar a luz não morre,
Tudo que a gente pede a Deus alcança.
E acreditei também com segurança
Na doce ficção que ao mundo ocorre:
Voz do povo é de Deus, e eu fiz-me criança
Para crer com mais fé nisso que corre. 163
E certa vez o espaço interrogando,
Um meteoro vi no Azul rolando,
Pensei então pedir por nós, que louca!
Tão ligeiro correu na noite calma,
Que os meus sonhos ficaram na minh’alma
E o teu nome morreu na minha boca.
Inocência
– Mamãe, para que serve esse branco alimento
Que há pouco transformaste em hóstia pequenina?
– Para encerrar Jesus, das almas o sustento,
Quando o padre o consagra em âmbula divina.
– E Jesus cabe aí? Maior que o firmamento,
Maior que o Azul, que o mar e que tudo domina?
164 – É um mistério de amor que desvendar não tento,
O milagre sem par que a lei de Deus ensina.
Como nos ama e quer, como deixa o que brilha,
As estrelas, o sol, por ti, ó minha filha,
Por mim, por todos nós, onde procura abrigo…
– Dá-me essa hóstia a beijar, mamãe, é o meu desejo.
Quando chegar Jesus, encontrando o meu beijo,
Sabendo que foi meu, se alegrará comigo.
M AD R I GAI S
Que cheiro bom!
QUE CHEIRO BOM!...
Que coisa deliciosa
Cheirei, agora, como por encanto!...
Fosse talvez o cálice de uma rosa
Não cheiraria tanto.
De onde é que vem esse perfume assim?
Perfume novo e velho para mim,
166 Forte, tão forte, que me entonteceu,
Se mistura comigo e não sou eu?...
Perfurme que recorda o cheiro do teu lenço,
Mas não o é.
Não é também incenso,
Mas se parece com uma incensação
Este perfume a perfumar sem conta…
É que hoje cheirei de manhãzinha
A flor vermelha do teu coração
E fiquei tonta,
Tontinha…
Tento fugir do teu olhar
TENTO FUGIR DO TEU OLHAR
Me enveredo no atalho
Dos escolhos.
Evito a luz do luar,
Pra não te ver…
E caio, sem querer,
No luar dos teus olhos.
167
Desde aquele instante
em que te olhei
DESDE AQUELE INSTANTE EM QUE TE OLHEI,
Voltou-me o riso, o amor, a confiança, a calma.
E, nunca mais com a noite eu me avistei,
Porque faz sempre dia na minh’alma...
168
É tarde, é muito tarde,
meu amor!...
É TARDE, É MUITO TARDE, MEU AMOR,
Se alguém nos visse, agora, aqui sozinhos,
Falaria
De nós sem piedade.
Não vês a escuridão?...
Mas toda gente sabe na cidade
Que eu conto as horas todas do meu dia
169
Pelo relógio do teu coração.
Q ua n d o p a s s o c o nti g o
c onve rs a n d o
QUANDO PASSO CONTIGO CONVERSANDO,
No terraço a florar,
Eu penso que as estrelas vão pensando
Naquilo que dizemos sem pensar.
170
Ol h a n aq u e l e p o ç o
t ã o p ro f u n do
OLHA NAQUELE POÇO TÃO PROFUNDO,
Uma estrela cadente,
Como ainda não vi outra mais bela,
Nem tão brilhante assim!...
Caio dentro do poço, de repente,
E apanho-a para mim.
171
Não me olhes assim
nunca na vida
NÃO ME OLHES ASSIM, NUNCA, NA VIDA.
Eu tenho medo, é sério.
Não me olhes assim com tal mistério…
Se eu te faço sofrer, me fazes louca
Pelo teu quebranto.
Provei o teu olhar… Amarga tanto,
Que chegou a amargar na minha boca!
172
L ua r
Campagna Romana (numa tela)
Madona, do alto, a lua tudo assiste,
No varandim da noite se inclinando…
Quebra o silêncio da paisagem triste,
A oração dos pinheiros evocando.
Na voz dos ramos um lamento existe,
De coisas mortas nem se sabe quando!
Luar, banhando a ramaria, insiste 173
Em abraçar as árvores rezando.
O romantismo desse quadro belo
Evoca a velha história de um castelo:
A dama, o cavalheiro, o trovador…
Quebras de juras feitas em segredo,
Um duelo travado no arvoredo,
Um marquês que se bate por amor…
O Po e ta da s Co lm ei a s
São Francisco de Assis, tu que chegaste,
Um dia,
De cantor do luar, de trovador da Umbria
A rouxinol do amor,
Dá que possa cantar as coisas que cantaste
Meu pobre coração, que é, também, trovador.
São Francisco de Assis,
174 Tu, que nos ramos embalaste as asas,
Dos passarinhos,
Em doces orações,
Fala, também, apóstolo das aves,
Ao pássaro azul das minhas ilusões.
São Francisco de Assis, poeta das colmeias,
Tu que levaste as mãos cheias
De flores
Para as bodas de abelha rumorosa,
Dá-me, também, do mel dos teus botões de rosa
São Francisco de Assis, enamorado do sol,
Em que vias brilhar um sol divino,
Faze amanhã as sombras do arrebol
Que envolvem o meu destino.
São Francisco de Assis, no teu burel tristonho
As andorinhas vinham sossegar…
Sossega essa andorinha do meu sonho,
Que não quer se aquietar.
São Francisco de Assis,
Tu que fizeste abrir 175
Rosas em palma
No espinheiro da estrada, por encanto;
Tu que tiveste a flor das cinco chagas
Desabrochando no teu corpo santo.
Transforma as minhas penas em roseiras
E aquele grande amor em mel para minh’alma.
Maria Nina
Faz hoje um ano Maria Nina,
Suave enlevo de todos dois…
Branca de neve, quando menina,
Nem foi mais alva, nem mais bonita
Do que ela agora, tão pequenita,
Mimosa pluma de pó de arroz.
Forma a trindade do amor sagrado
176 Entre as maninhas fazendo três,
Parece, às vezes, no braço amado
O cordeirinho de Santa Inês.
Um ano hoje. Chuva de rosas
Cai no seu berço, sempre a embalar,
E, em volta, as tias, fadas bondosas,
Vão a sobrinha linda fadar.
“Fademos todas, manas, fademos”
E Yayá, rezando, começa assim:
– “Nossa Senhora! Maria Nina
Tão inocente, tão pequenina,
Quando crescer,
Seja mais pura que um serafim
Um lírio branco n’alvorecer!”
E Judith, sorrindo, então prediz:
– “Serás muito feliz!
E tão boa hás de ser que as andorinhas,
Julgando em ti a sua doce irmã,
Contigo irão brincar entre as maninhas
177
No jardim, de manhã,
E as abelhas, do mel tão desejosas,
Numa alegria louca,
Hão de encontrar o mel das rubras rosas
Na rosa singular da tua boca”.
Dhalia sempre risonha, ternamente,
Quanta coisa baixinho segredou…
E abençoando-a, diz, alegremente:
– “Deus te faça feliz como hoje sou…”
Quando cresceres, diz Ninita, ansiosa,
Seja-te a vida assim como hoje é,
Um traço de união bem cor de rosa
Entre o afeto de Ignez e de José.
Por onde tu passares, diz Livinha,
Todas as flores
Tecerão louvores
À sobrinha.
Laura agora se achega docemente.
178 – “Nunca a tua alma branca, alma inocente,
Prove o amargo da vida.
Jamais teu coração imaculado,
Sem sombra do pecado,
Sinta o travo do amor, sendo esquecida”.
Corina lhe concede o talismã
Da bondade, do amor, de todo o bem da terra…
Letícia traz num raio da manhã
Toda a alegria que seu nome encerra.
Leopoldina, a fada da doçura,
Diz cheia de esperança e de candura:
– “Suave, doce, venturosa e amena,
Sem prantos, sem tristezas, sem escolhos,
Seja-te a sorte assim sempre serena,
Como os lagos azuis que tens nos olhos”.
Nina, a madrinha tão virtuosa,
Beijando a rosa
Dos seus carinhos,
Ergue a varinha
179
Do seu condão
E diz, num beijo, todo ternura:
– “Ai, não conheças a noite escura,
Nem os espinhos do coração.
Tu cantarás como os canários cantam,
Sempre felizes,
E a tua voz doçura e suavidade
Há de acalmar a mágoa de infelizes
Numa promessa de felicidade.
E viverás a rir com os passarinhos,
Tão mansa que tu és…
Serão flores as pedras dos caminhos
E os cardos serão rosas nos teus pés.”
***
Na teia da ventura os áureos fios,
Formosa benfadada,
Trabalham no destino que terás…
Alegria dos tios,
Rosa branca florindo entre dois sóis
180 Na roseira sagrada
Dos avós;
Trevo da fortuna dos teus pais,
Sua glória e riqueza;
Consolo da velhice abençoada
De “Mãe Thereza”...
Di n d i n h a Lu a
Lá fora, a Lua anda a espalhar
Fios de prata no seu tear,
Para as estrelas, quando ela for
Aos outros mundos levar amor,
Tecerem todas, noite de escuro,
O véu de noiva para o futuro.
Lá fora, a Lua anda a espalhar 181
Fios de prata no seu tear;
Caminha lenta, pobre velhinha,
Vai tão cansada!
Doce avozinha,
Parece agora que está parada.
Fica me olhando, de olhar magoado,
Por trás do vidro lá do telhado.
E vem-me a ideia do que eu fazia
Quando menina.
Pedia à Lua, que então me ouvia,
benção divina.
Daqueles tempos, quanta saudade me veio
Então,
Fazendo forte bater no seio
Meu coração.
Mas doce, ainda, doce lembrança
182 N’alma flutua…
Quando eu dizia com segurança:
– “A minha benção “Dindinha Lua”,
E procurava ver na medalha da Lua cheia
São Jorge, belo, de espada em punho
E comprida meia.
E o seu cavalo me parecia,
Como eu queria,
Formoso assim:
Rubim
Nos freios,
De ouro os arreios,
Prata o selim.
Lá fora, a Lua anda a espalhar
Fios de prata no seu tear…
E agora, grande, sua netinha
Pede à avozinha
Que mora longe, nos céus azuis:
– Espalhe sempre, formosa e calma,
Dentro em minh’alma, 183
Fios de prata, réstias de luz.
Lá fora, a Lua anda a espalhar
Fios de prata no seu tear…
N uven s ( Ra b in d ra n a t h Tago re)27
– Mamãzinha²⁸, certo dia,
Daquela nuvem dourada
Que se parece contigo,
Quando vens de madrugada,
De mansinho, de mansinho,
Me beijar e me cobrir,
Com receio de acordar
O seu filhinho;
184 Daquela nuvem dourada,
Certo dia,
Começaram a me chamar:
“Vem menino conosco aqui brincar
Neste jardim de estrelas a florar.
É o Menino Jesus o jardineiro
Do mais belo canteiro.
Nós brincamos com Ele a toda hora,
Desde que o dia acorda até que vai dormir.
A nossa vida assim é bem melhor que a tua.
Nós temos por brinquedo o ouro em pó da aurora
E uma bola de prata, a mais bonita – a lua.
Anda, sobe, vem cá.”
– Sem asas, como posso ir até lá?
– Trepa naquele morro, o mais comprido
Que existe na cidade.
Depois as tuas mãos estende-as para os céus…
E então
Todas as nuvens, que felicidade!
Nos seus braços, a rir te levarão. 185
– Não posso ir; eu tenho a minha amada,
Que tem da aurora de ouro o mesmo brilho.
A esta hora, talvez, já esteja olhando a estrada
À espera de seu filho.
Acredita, mamãzinha, eu não te iludo.
Se eu te faltasse, mãe, te faltaria tudo!
Sabes, mamã, agora o que eu pensei,
Vendo outra vez a nuvem que flutua,
Abrindo de ouro a asa?...
Eu sou a nuvem, tu serás a lua.
Com os meus beijos assim te cobrirei…
Será o céu azul a nossa casa.
Que coisa boa pode haver na vida
Melhor que esse brinquedo, mãe querida?
186
Q uando e Po rque
(Rabindranath Tago re )²⁹
Quando trago brinquedos coloridos
Para ti pequeno amor,
Que me esperas ansioso, a suspirar por mim,
Nas grades do jardim,
Entre ramos floridos,
É que venho a entender,
Meu grande benquerer,
Porque Deus fez o coração de cor, 187
Porque a nuvem do alto pesarosa,
Fica muito mais linda cor de rosa.
E porque a flor, tão alva e tão singela,
Troca de vez em quando a veste branca,
Pela veste encarnada ou amarela.
Quando trago brinquedos coloridos,
Meu grande benquerer,
É que venho a entender…
Quando canto
Baixinho
Para que tu dances,
É que conheço o encanto
Da música das folhas sussurrando
Para o passarinho,
Quando canto baixinho.
Quando o coro das ondas soluçando
Canta cantigas d’água mesmo assim,
Para fazer dançar a concha de carmim,
É que conheço,
188
Meu bem, que não mereço,
Porque gostas de mim!
Quando encho bem cheias de confeitos
As tuas mãos franzinas,
Pequeninas,
Sem defeitos,
Que me afagam, espantando dissabores,
É que sei porque existe tanto mel
No cálice das flores,
E porque é tão doce o suco
Das frutas saborosas,
Quando encho bem cheias de confeitos
As tuas mãos gulosas…
Quando te beijo as faces encarnadas,
Para ouvir-te as risadas
Sem maldade,
É que sinto em minh’alma, meu pequeno,
A suavidade
Que escorre do sereno
189
Nos jorros de luz das madrugadas.
E sei porque a manhã é mais formosa,
Quando a brisa rumoreja
E beija
A rosa,
E porque é linda a tarde do verão,
Quando te beijo as faces, coração.
Escuta!
Tenho um segredo n’alma, tão guardado
Que escondo ele de mim, no meu sentido.
Mas tanto ele me tem mortificado,
Que eu vim queixar-me, ó Mãe, do que hei sofrido.
Quero contar-te tudo o que é passado
E te pedir perdão de haver mentido.
Mas, antes de contar-te o meu pecado,
190 Deixa beijar-te a fímbria do vestido.
Escuta: – um mal de morte me atormenta.
Eu sinto n’alma uma agonia lenta
E vou morrendo aos poucos, sem querer…
Perdoa, Mãe do Céu, a covardia,
Pois toda filha em sua mãe confia
E eu tenho tanto medo de dizer!...
Anjos da Guarda
do Nosso Amor
Noite. As estrelas pestanejando,
Tontas de sono no Azul nevoento,
As lamparinas vão apagando
Por um momento.
Tudo escurece. Brilham depois
Louras pupilas para nós dois.
191
E, assim, fugindo da treva densa,
Entre os escolhos a resplender,
A luz constante dos astros raros
Descerra os cílios dos olhos claros,
Para nos ver.
É que, de longe, Nosso Senhor
Faz que as estrelas, beijos de Deus,
Faróis das noites abrindo em flor,
Círios acesos no altar dos céus,
Mais lindas sejam
Quando desejam
Servir de guardas ao nosso amor.
Desfilam nuvens brancas, nevadas.
Ovelhas mansas arrebanhadas,
Pascendo
Flores,
Bebendo
Luz
Nos áureos prados
Estrelejados,
192
Nas fontes de ouro dos céus azuis…
As nuvens passam, marcham depois,
Sempre voltadas
Para nós dois.
Agora, a lua nos vem olhar
Pela janela do seu solar.
Toda de branco, no Azul bordado,
A nívea deusa recorda, assim,
Noiva formosa,
Pura, ditosa,
Que faz o manto do seu noivado
Da via-láctea cor de marfim.
E, enquanto, tímida, a cabeça esconde
Lá onde
A noite tem esplendor,
Enche-nos a alma,
Risonha e calma,
De tal fulgor
Que até parece
193
Que o luar cresce
No nosso amor.
As nuvens passam… Marcham depois,
Sempre voltadas para nós dois.
RO SAS D E TO D O A N O
Para Nós Dois
… Quando aquela manhã chegar à curva
Do mesmo caminho, à borda do mesmo
Lago, para nós dois, sonhadores do mesmo sonho.
EU e TU beberemos luz no cântaro do dia.
E então a voz profética de Rabindranath
Embalará os ramos e a poesia nos embalará.
… E eu acordarei do sono que dormi à tua sombra…
… Ao relento… 195
Co m o fo i q u e e u
d o r m i ao re le n to ?
COMO FOI QUE EU DORMI AO RELENTO
E cheguei a sonhar,
Se estava alerta, agora, olhando o teu olhar?
É tão ameno o sereno
Do amor que vem de ti,
Que o bebi
De um só trago
196
E adormeci na borda enluarada do teu lago.
Fu i I n c e n s a r
FUI INCENSAR
Os teus campos orvalhados
Para a missa silvestre.
E encontrei-os de flores tão providos,
Que fiquei a pensar:
– São todas elas para os meus vestidos,
Quando eu vier contigo passear.
197
Quero beijar o teu
manto primeiro
QUERO BEIJAR O TEU MANTO PRIMEIRO
Depois, então, repousa!...
Ajoelhei-me no teu santuário,
Como na sombra de um jasmineiro
Em flor,
Quando faço oração…
198 Sou mariposa,
Beijei no cálice do teu coração.
Quero beijar, agora, as sandálias douradas.
Deixa-me por quem és!...
Mas, se eu puder beijar tuas hastes floradas,
Tenho beijado a marca dos teus pés.
Quero beijar, ainda, a túnica de rei
Que me esconde
Nas dobras de tu’alma,
Como o orvalho nas pregas de uma flor
Que te dei.
Quero beijar o gesto com que pretendes
Afagar
O meu sonho mais sonhado!...
Beijei dois lírios bentos lá no altar
Que tem o mesmo cheiro e o mesmo agrado…
Quero beijar a mente incendiada
Com que pensas em mim
Nesse momento…
Eu dei um grande beijo n’alvorada
E pensei que era assim
199
Que eu devia beijar teu pensamento.
Quero beijar, enfim, no sentimento
Com que gostas de mim…
Dize, meu amor,
Eu faço o que desejo?
Mas, se eu beijar aquela estrela,
Aquela,
Encho a tua alma toda com um só beijo!
RO SAS D O T E U RO SA L
A ti que és senão a onda que me embala, o som que me adormece, o
perfume que me envolve, a fumaça azul que me faz sonho e se desfaz nas
minhas mãos sem ao menos tocá-la de leve.
Ao poeta que é Rabindranath Tagore. O maior de todos os poetas
que sonharam na terra de eterna Primavera, das nuvens de ouro, das
flores eternas, das montanhas douradas a “cem anos de distância”. 201
“As tuas mãos nas minhas mãos, os teus olhos nos meus olhos, assim
começou o nosso amor. Foi por um luar de maio, as flores se abriam em
perfumes, falava por mim o silêncio e o ramalhete que fazias ficava por
acabar. É puro como um gorjeio este amor que nos une.”
“Não guarda para ti só o segredo do teu coração, meu amigo.
Dize-o a mim só, só a mim em segredo.
Tu, que sorris com tanta doçura, dize-me baixinho. É meu coração que
ouvirá, não os meus ouvidos.”
202 “Conheço bem o ritmo dos teus passos; eles estão batendo dentro
do meu coração.”
“Eu também colhi as flores deste mundo, apertei-as contra o seio e seus
espinhos me feriram. E quando o dia acabou, afundado nas trevas, as
flores estavam murchas e só a dor me ficara.”
“Bebi não sei que vinho de silvestres dormideiras para que haja nos meus
olhos essa loucura.”
“Meu coração conhece a tua voz como se fosse dele”. 203
TAGORE
Do Jardineiro do Amor.
F l o r do te u Can tei ro
UM DIA,
Desejei
Do teu jardim
Da roseira florida
Que eu não via,
Todas as rosas que sonhei
Na vida…
204 ENTREI…
E olhando o jardineiro descuidado
Sem me olhar, sem me ouvir,
Sem mesmo pressentir
Que eu tinha entrado,
Em vez de lhe pedir,
Como devia,
As flores que eu queria,
Furtei-as…
Fiz um pecado!
MAS LOGO FOI PUNIDA
A criminosa…
Aquela rosa,
Aquela,
Tão alva e tão singela,
Dentre todas, talvez, a mais formosa,
Por ser a mais cheirosa
Que existe em teu jardim,
Mal fui lhe pondo a mão devagarinho,
Com toda a precaução,
205
De leve, mesmo assim,
Feriu-me, de repente, o seu espinho
Aqui… no coração…
***
PARA TER SEMPRE FLOR DO TEU CANTEIRO
Eu mesma vou pedir ao JARDINEIRO…
Co m o s e fo s s e o l u ar
DEIXA-ME ENTRAR, SENHOR, NO TEU JARDIM
FLORADO.
Deixa-me entrar assim.
Como entra o luar no teu jardim!...
Ela dizia isto ao bem amado.
NO TEU CANTEIRO HÁ TANTAS FLORES, TANTAS…
Deixa-me entrar, senhor!
206 Que mal posso fazer às tuas plantas,
Se és tu o Plantador?
JÁ VISTE ALGUMA VEZ A LUA CHEIA
Desenrolando
Luz nos teus rosais?
Ela entra sutil
Pelo gradil,
Na grama
Veludosa
Se derrama
E serpeia… E serpeia…
E, embebida de luz,
Cada rosa parece a lua cheia
E as roseiras parecem com o luar…
DEIXA-ME ENTRAR, SENHOR, NO TEU JARDIM
Florado!
Deixa-me entrar, assim
Como se fosse o luar no teu jardim;
Assim como se fosse a lua doce e calma
Cobrindo os teus rosais.
207
SENHOR,
Eu quero ser a humilde jardineira
De tu’alma.
Nada mais, nada mais!!
O te u j a rd i m
Senhor,
Eu parti cedo
E vim com a madrugada
Porque é longo o caminho.
Eu tive medo
De me perder na estrada.
Parei aqui, ali, colhendo malva
Até minh’alma encher de luz da estrela d’Alva.
208 Trago os meus pés feridos nos espinhos,
Receando acordar teus passarinhos.
E palmilhando vim areias tantas,
Para não machucar as tuas plantas.
Senhor,
Venho de longe, muito longe.
Ouvi falar de ti, do teu jardim de monge.
Ouvi falar também do teu mistério.
E até, se não me engano,
Ouvi dizer que existe em teu império
Um rosal que dá rosas todo o ano!
Que as roseiras podadas
Estão todas de novo carregadas…
Que aquela que se enrola no gradil
Há de florir no fim do mês de abril.
E a fonte de águas claras está cheia,
Para matar a sede das roseiras,
Quando o sol do verão as rosas incandeia.
E o Senhor respondeu:
– É certo, mas às vezes acontece
209
Que de tristeza o meu jardim padece.
Há tanto espinho, tanto, em cada palma,
Que eu tenho medo de espinhar minh’alma...
E cai tanto sereno, lacrimando,
Que eu penso que a roseira está chorando…
E a serva disse assim:
– Pois, sim, eu fico aqui,
Perto de ti,
Do teu jardim.
Não posso mais voltar,
Sem ser com a madrugada.
E quando ela chegar,
Para ir comigo,
Eu com jeito lhe digo:
– Não vou, não.
Estou muito cansada
Do rigor da jornada
E do peso que faz meu coração.
Já não sei dos caminhos,
210 Esqueci-me do atalho…
Por isso eu fico aqui,
Perto de ti,
Ceifando espinhos
E apanhando orvalho.
Era uma vez um
Príncipe Encantado
Ontem,
Dia marcado
Para a sereia ir encher o cântaro sagrado,
N’água benta do lago do jardim,
Ela acordou mais cedo
E foi com muito jeito e muito afago
Tentar, 211
Muito em segredo,
Se, bebendo a água do lago,
Bebia o teu olhar;
E as águas
Marulhosas,
Entre flores singelas,
Contavam às borboletas amarelas
Uma história de amor:
Era uma vez um príncipe encantado
Que sonhava acordado,
Poderoso senhor,
Ele habitava na falda
Da montanha de Rubim,
Num palácio dourado.
Possuía um jardim
Maravilhoso e um lago de esmeralda,
Onde um pássaro de ouro a gorjear
Banhava as suas penas ao luar.
212
Há quem diga que o príncipe indiano,
Duas vezes por ano,
Ainda hoje aparece pelos campos,
Vestido em sua túnica real,
Acompanhado pelos pirilampos,
Fazendo bem a quem lhe faz o mal.
E da su’alma a luz que se destende
A escuridão amanha…
E as estrelas do céu, então, acende
No caminho infinito da montanha.
Certa vez,
Numa linda manhã clara e rosada,
O príncipe desejou
Da roseira do amor uma rosa encarnada.
Fez do seu coração um jarro de cristal
E, com muito ciúme,
Aí depositou a rosa original,
Para aspirar melhor o místico perfume.
À tarde, a linda flor, rubra centelha,
Perdeu de todo a sua cor vermelha.
O perfume evolou-se… 213
E sob o olhar do príncipe encantado
A rosa desfolhou-se…
Desde esse dia, então, dizem fadas bondosas,
Para consolo dessa desventura,
Que o poderoso olhar desse senhor
Tem o alto poder de transformar
O sofrimento em rosas.
E até o coração, se ele o fitar
Pode mudar
Em flor.
É por isso que às vezes de repente
Eu me sinto mudada
Numa linda roseira bem viçosa,
Carregada de folha e coberta de rosa.
214
Ave perdida,
sem saber do ninho
Aquele passarinho
Maltratado,
Ferido, desolado,
Que encontraste sozinho,
Na escuridão de aspérrimo caminho,
Era o meu coração,
Ave perdida, sem saber do ninho.
215
Deste-lhe, então, pousada,
À sombra que fazia
A ramaria
Umbrosa,
Calma
E silenciosa de tu’alma.
Deste-lhe água corrente
Que refresca e sacia.
O teu rosal de rosas se cobria…
E ele viu novamente a luz do dia
Na promessa de luz da nova madrugada.
Vez por outra, porém,
Ele entristece,
E a pena que padece
A voz lhe embarga.
O próprio orvalho de beber se esquece
E a fruta por mais doce ele acha amarga.
Quem sabe o que ele tem?
216 Quem foi que viu a dor que faz ficar tão triste
Tão alegre cantor?
É que há dias não vem trazer-lhe o alpiste
O Doce Benfeitor.
O senhor do luar
Ela desceu, cantando
os seus cantares
Abriam, dentro d’água, nenúfares.
Ia, outra vez, encher com muito afago
O cântaro do amor, nas águas do teu lago.
O sereno caía…
E a serva pressurosa,
Entre os ramos floridos do jardim, 217
Levava o luar de Maio, em sua companhia,
Em um luar tão claro e tão bonito
Que, até, me parecia a flor das laranjeiras
Engrinaldando o azul, lá, do infinito,
Para o noivado branco das roseiras…
Quando a serva chegou,
Como alguém
Que, de não ver o amado, se arreceia,
Ajoelhou-se e rezou
Uma oração de luz, à lua cheia.
Nisto, ela vem, de leve se inclinar
Sobre as bordas do lago, a meditar…
E quando o lago verde clareou
E a lua
Retratou,
Eu vi, lá dentro d’água, a imagem tua
Que me olhava…
Foi só assim que pude descobrir
Quando o luar começa a reflorir
E se escuta a sereia
218
E, de leve, um rosal pelo espaço flutua
Desfolhado,
Que és tu, – Príncipe Encantado –
Aquele cavalheiro que passeia
Pelas montanhas brancas, lá, da lua…
– São Jorge, a vaguear nas noites luminosas,
Pelo campo nevado, em floração…
– O Senhor do Luar despetalando rosas
Sobre o meu coração.
A tua jardineira
– Que vens fazer aqui de manhãzinha?
Que vens fazer aqui, sem ordem minha,
Com alegria tamanha?
Não vês que em meu jardim
É proibida a entrada à gente estranha?
É severo o castigo que eu costumo infligir,
Porque sou dono,
A quem se atreve a perturbar meu sono.
219
– Não me conheces mais?
Estranha te pareço,
No entanto pela sombra eu te conheço!
Escuta a minha história:
– Um dia a água da fonte escureceu
E passaria turva a vida inteira…
Mas olha a água da fonte e verás que sou eu
A TUA JARDINEIRA.
Fo ste t u m e s m o
Quem andou por aqui antes de mim?
Quem mudou de lugar esse pé de jasmim?
Quem teria colhido a flor de bogari
Que eu deixei para ti?
Quem apagou a aurora assim tão cedo,
Antes de eu chegar
Para a apagar?...
220 Foi alguém que já sabe do segredo…
E quando tu chegares, que direi?
Tenho medo!
Levavam tudo o que eu te havia dado
E tu não tens mais confiança em mim,
Meu bem amado!
Nas árvores
Sinto, porém,
O embalo dos teus braços.
No lago o mesmo brilho e a mesma calma.
No jasmineiro encontro a tua sombra.
Em tudo encontro a marca dos teus passos…
Porque foste tu mesmo
Quem furtaste a minh’alma…
221
Indefinido Mal
O que sinto por ti, dor n’alegria,
Desejo de chorar, se alegre venho,
É um nada que é tudo e não sacia
É tudo quanto dou e nada tenho.
Um não sei quê de gozo e de agonia
Que me aniquila e, por senti-lo, empenho,
O que sou nesta vida, o que seria
222 E o que de bom no coração contenho.
Um mal que em bem se muda na minh’alma,
Um desespero que não turba a calma
Vontade de querer, se nada quero…
Tranquilidade na desesperança,
Sabor de quem procura e não alcança,
Doce ilusão, quando mais nada espero.
A minh’alma na
tua mergulhada
A MINH’ALMA NA TUA MERGULHADA,
Meu coração batendo pelo teu…
E eu já nem sei dizer quando és tu, meu amor,
Quando eu sou.
223
Eu e você
Se eu sou a luz do Sol, para você,
A incandescer sua alma de verão,
Você
É para mim a água da chuva
Que faz cantar
O passarinho do meu coração.
Se eu sou a chama acesa desta luz
224 Que faz você viver…
Você
É para mim a sombra iluminada
Desta noite estrelada
Em que eu vivo a sonhar
Toda a vida, acordada,
Numa eterna ilusão de amanhecer.
Se eu sou todinha o Sol que seduz e abrasa
A mariposa tonta de sua alma de poeta,
No sol toda curtida,
Você é para mim o ritmo divino
Da asa
Inquieta
Na dança singular do meu destino.
Se eu sou para você a claridade
De um dia que amanhece…
Você é para mim aquela suavidade,
Que a gente sente uma vez e nunca mais esquece.
225
Se eu sou para você o sol que tinge a planta,
Você é para mim a árvore que fala…
Se eu sou para você o pássaro que canta,
Você é para mim a onda que me embala…
Eu e Você,
Você e Eu, nós dois
Sozinhos,
Vamos cantando
Como os passarinhos
Em busca de ilusões,
Sempre risonhos…
... Eu
serei sempre Sol nos seus caminhos…
... Você,
A eterna fonte
De águas marulhosas
Desta ROSEIRA BRAVA
Dos meus sonhos,
Que, em vez de espinhos,
226 Para Você
Tem rosas…
R E G I ST RO S D E PA L MY R A
Figura 1 - Palmyra Wanderley.
Fonte: Contracapa do livro “Esmeralda”, 1918.
Figura 2 - Palmyra Wanderley.
Fonte: Palmyra Wanderley, a Cigarra dos Trópicos: imagi-
nários culturais e mapa onírico em “Roseira Brava” (1965),
Daniella Lago Alves Batista de Oliveira Eustáquio (2015).
Figura 3 - Palmyra Wanderley na revista Cigarra.
Fonte: Palmyra Wanderley, a Cigarra dos Trópicos: imagi-
nários culturais e mapa onírico em “Roseira Brava” (1965),
Daniella Lago Alves Batista de Oliveira Eustáquio (2015).
Figura 4 - Palmyra Wanderley.
Fonte: Revista “A Cigarra” nº 1, novembro de 1928.
Figura 5 - Palmyra Wanderley com um exemplar
de Roseira Brava na festa de lançamento do livro.
Fonte: Revista Cigarra, n. 4, agosto de 1929.
Figura 6 - Palmyra Wanderley, ao centro, com amigas
no restaurante Rotisserie, localizado na avenida Tava-
res de Lira, no bairro da Ribeira, em Natal, em 1929.
Fonte: Palmyra Wanderley, a Cigarra dos Trópicos: imagi-
nários culturais e mapa onírico em “Roseira Brava” (1965),
Daniella Lago Alves Batista de Oliveira Eustáquio (2015).
Figura 7 - Da esquerda para a direita: “A po-
etisa ao lado da Miss Rio Grande do Norte,
da poetisa Carolina Wanderley, e senhoritas
Odette Paiva O’Grady e Concita Camara”.
Fonte: Revista Cigarra, n. 4, agosto de 1929.
Figura 8 - Palmyra Wanderley em matéria
de jornal de 1969.
Fonte: Jornal Diário de Natal, 14/08/1969.
ROSEIRA BRAVA e outros versos
Segunda Edição
Edições da Fundação José Augusto, Natal, 1965
237
PALMYRA WANDERLEY, nascida em Natal, onde reside,
publicou, na juventude, o primeiro livro de versos - ESMERAL-
DAS -, bem aceito pela crítica dentro e fora do Estado.
(Texto retirado da orelha da segunda edição)
ROSEIRA BRAVA é o seu segundo livro de poemas. Na
Academia Pernambucana de Letras, a autora fez a sua leitura.
A REVISTA DA CIDADE, em Recife, encarregou-se de sua pu-
blicação. Ganhou menção honrosa da Academia Brasileira de
Letras. Edição esgotada em pouco tempo. O maior sucesso de
venda daquele ano, em Recife. Recebeu de Florence Carll, em
Limois, um pedido do ROSEIRA BRAVA para figurar na sua
tese sobre poetas latino-americanos.
Esta segunda edição de ROSEIRA BRAVA integra o Plano
Cultural do Governo Aluízio Alves, homem do presente, culti-
vando o passado, jornalista-orador, uma das afirmações mais
positivas da inteligência e da cultura de sua geração, que o faz
através da Fundação José Augusto, criada pelo seu Governo, sob
competente direção do escritor - comendador Hélio Galvão.
Esta edição do livro de Palmyra Wanderley tem, como toda
a sua poética, vários aspectos: líricos, panteístas, místicos, telúri-
cos, acrescido de humana tonalidade, como no seu novo poema
“Moleque de Rua”. A terra do seu nascimento continua a ser
motivo constante de sua inspiração. Cronista, conferencista, Pal-
myra está sempre a louvar a sua terra, em tudo quanto escreve
e diz. Praias e bairros, rios e dunas, colinas e lagoas, morros e
subúrbios, costumes e cantigas; termos do cancioneiro folclórico
servem de motivos a grande parte de seus poemas.
238
A poetisa permanece fiel ao seu estilo próprio, sem se escra-
vizar a escolas e a métodos, procurando o equilíbrio artístico de
sua personalidade poética. É possível que recebesse alguma in-
fluência do momento, sem deformar, no entanto, a sua maneira
pessoal de versejar. Sente-se à vontade em continuar a ser o que
é, entendendo que foi assim que conquistou da crítica nacional, a
consagração definitiva. Pertence à Academia Norte Riogranden-
se de Letras, tendo como patrono a poetisa Auta de Souza.
Pal m e i ra
Abres em luz, os leques verdejantes,
Palmeira erguida em meio do caminho…
Rezas, por todos nós, aos céus distantes,
Enquanto eu rezo pelo meu carinho.
Fazes o bem, em dádivas constantes,
— A flor, o fruto, em cada palma um ninho…
Se não tens sombra para os viajantes,
Tens agasalho para o passarinho. 239
Trazes na alma a esperança sempre acesa,
Do mal não te arreceias, com certeza,
— Não dura sempre a dor por mais sentida!...
Julgo-te assim, no bem tão dadivosa,
Tão constante no amor, tão luminosa,
A palmeira que eu sonho ser na vida!
RO SAS DE SO L E DE ES P UM A
B e m - te -v i
Todas as tardes, sempre à mesma hora,
Vem visitar-me um passarinho amigo…
Canta cantigas que eu cantava outrora,
Canta coisas que eu sinto, mas não digo.
De onde ele vem, não sei; nem onde mora;
Se lembranças me traz, guarda-as consigo.
Sinto, no entanto, quando vai-se embora,
Que a minha alma não quer ficar comigo. 241
Hoje tardou… Há chuva nos caminhos,
Mas chuva não faz mal aos passarinhos
E ele há de vir, a tarde festejando…
Lá vem ele, ligeiro como um sonho…
Canta coisas tão minhas, que eu suponho
Ser o meu coração que vem cantando.
Sa l ve Rai n h a do Poten g i
Salve Rainha do Potengi! Salve Senhora!
Bendito o fruto que nasceu de ti,
Natal, cidade aurora!
Visão de luz surgindo da água azul,
Coroada de espuma, em floração.
Tem a mesma expressão
E a mesma cor do manto
242 Da Padroeira da Apresentação.
Natal, cidade oblata,
Sempre num gesto de elevação.
Salve cidade da serenata!
Salve cidade do violão!
Cidade do fandango,
Da modinha,
Da guabiraba, do camboim.
Salve cidade minha,
De todo aquele que gostar de mim!
Nas moitas tristes quantos queixumes,
Que poesia doce demais!
Natal, cidade dos vagalumes,
Cidade verde, de coqueirais.
O mar tão perto soluça tanto,
Nada é mais branco que o teu luar.
Natal, cidade cheia de encanto,
Cidade feita para se amar.
Fogueira acesa de São João,
Chama vermelha lá do arrebol; 243
Aboio triste pelo valado,
Cortiço cheio de mel de abelha,
Coisas passadas que doces são!...
Natal, cidade cheia de sol,
Cheirando a cravo e manjericão.
Nos cajueiros muito amorosos,
Fazendo sombra pelos caminhos,
Tecendo ramos muito cheirosos,
Para o namoro dos passarinhos.
Salve cidade dos namorados,
Sempre embalada nos meus carinhos!
Nas dunas brancas que avisto ao longe,
Nas curvas verdes do teu perfil,
No sopro ameno da brisa clara,
No céu de tinta da cor de anil;
Nos morros verdes, tão veludosos,
Nos montes claros, brancos demais,
Nos arvoredos embandeirados,
244 Nas mangabeiras, nos coqueirais,
Nas velas pandas que vão e vem…
Salve cidade dos panoramas,
Nenhuma outra mais belos os tem…
Montanha feita para os pastores,
Para os pastores lá de Belém.
Água corrente cantando um hino,
Cachos de espumas tecendo rendas,
Os passarinhos cantando hosanas!
Natal, presépio do Deus Menino,
Cheirando a incenso das oferendas.
Esposa amada do Sol,
Rainha do Potengi!
Salve cidade afilhada
Da Padroeira daqui!
245
Pe tr ó p o li s é a
c o li n a do s o n h o
Petrópolis, cavalheiro real
De capa azul, verde e amarela,
Espia o mar da torre de um castelo feudal.
Pensa, suspira e ama com fervor
A doce amada
Capaz de dar a vida pela sua dama,
Num duelo de amor medieval.
246
De repente aparece
Como um pássaro encantado
Sobre a vaga azul.
Abre as asas e pousa, docemente
Sobre o bairro mais belo de Natal.
Olha o horizonte, ao Norte, em frente, o mar,
A vista à esquerda o Potengi.
As dunas muito ao longe,
Estiradas na praia,
Parecendo um rebanho,
A descansar deitado
Na imensa solidão!...
Enquanto me parece vigiado
Pelo pastor do tempo
Em constante oração.
Olha a vida do alto, olha a cidade;
Ninguém dele se esconda que ele vê…
Olha outra vez a esmo,
Olha em redor
247
E faz a ronda triste da saudade,
No canto matinal dos sabiás,
Que o tempo que se foi não volta mais!
Petrópolis é a colina do sonho,
É a ilusão de tocar nas estrelas
E de pegar o sol com a mão.
Eu penso que ele passeia
Com Anfitrite sobre as ondas,
No carro estrelejado, em noites de verão.
E quando o luar docemente flutua,
Eu cuido vê-lo transformado em gruta
De madrepérola e marfim,
De onde Endimião namora a lua.
Recordo histórias que escutei menina
E me parece ver, perto de mim,
Passar toda enfeitada,
Num esquife de vidro,
Branca de Neve amortalhada…
E um cortejo de anãos tristonhos vão levando
248
A doce e linda amada!...
Para o lado do rio,
Vestidos de peliça enveludada,
Pois, Petrópolis faz frio.
É o mais bonito bairro da cidade!
É a vida no que há de mais belo
E melhor! Sonhar sobre as espumas,
Navegar sobre um mar verde, florido;
Não deve haver brinquedo mais querido
Se a onda é mansa
E a estrela que ali nasce é da esperança.
Tão crespo, tão sedoso e transparente,
O mar, às vezes, é…
Que até parece envolvido
Na gaze luminosa
Dos sete véus de Salomé.
Há quem jure que existe nesse mar,
Lá no fundo das águas,
Um reinado encantado, 249
Igual ao das histórias de Trancoso,
Que começam assim:
— Foi um dia um rapaz muito formoso,
Transformado por velha feiticeira,
Num dragão luminoso,
Estirado na entrada do portão…
Aconteceu que ele foi desencantado
Pela audácia do amor,
De um nobre coração.
Em cada sonho que as moças tem
Sempre aparece um príncipe encantado
E uma rainha;
Tal qual um conto bom
Da velha Carochinha.
E há sempre dentro do conto
A mesma história
Que eu guardo, de menina, na memória:
— “Mandou dizer rei meu senhor
Que eu contasse outra história”.
250
“Prai a do M e i o ”
G a i vo ta de a s a ab er ta
Praia do Meio, gaivota
Linda, no seu afã
Tomando banho
Com seu maiô cor da manhã.
Bem ali a cismar,
Umas cismas de moça namorada
Que ama e é amada;
Entre os morros e o mar, 251
Pertinho da cidade,
Avistando de longe
O farol lá do Forte
A acender, a apagar,
De repente, com receio de queimar
O véu preto da noite,
Fica a Praia do Meio,
Coisa incerta,
Gaivota de asa aberta,
Ou borboleta lantejoulada
De sol, beirando Areia Preta.
Na ilusão de quem desce
De Petrópolis para o mar,
Em busca de uma coisa
Prometida e encontrada,
Ela surge das águas
E aparece envolvida
Na toalha franjada
Das espumas do mar.
252 Tem qualquer coisa de surpresa boa,
Da cor de um sonho bom
Que não desmaia…
Lembra, às vezes, sombrinha japonesa
Aberta à toa
Sobre a areia da praia.
Outras vezes, parece,
Eu nem sei bem com que…
Já sei, rendeira muito nova e original,
Trocando satisfeita
E pensando em você,
As rendas do enxoval.
Aqui e ali
As casas se confundem
E se dispersam
De várias cores…
E ninguém sabe ao certo
Onde as casas começam
Bem como os dissabores.
Olhada assim ao alto, da manhã,
253
Na espera de um dia cor do tempo,
Parece um cosmorama de lembrança
Do que se teve e nunca se esqueceu…
Do que se foi na vida
E não se mereceu;
Assim como se fosse
Um traço de união
Unindo um coração que sabe querer bem,
A outro coração que não foi de ninguém,
Uma cantiga branca de menina,
Numa roda a cantar:
— “Ciranda, cirandinha,
Vamos todos cirandar,
Escolhei nesta roda
O que mais vos agradar”.
Escuto que a minha alma
Está cantando:
— “Nem me serve
Nem me agrada,
Só a ti hei de querer!”
254
Pois, o meu coração
Sabe bem a quem foi que escolheu…
Mas, em vez de cantar
Está chorando?...
Porque a roda desanda
E um dia em que eu
Brincava de ciranda,
Sem saber como foi,
O seu amor perdeu.
Areia Preta — Flor de Verão
Areia Preta, praia que se esfuma,
Às vezes, a pensar
Na sorte das jangadas,
No alto mar.
Iara langorosa
De olhos verdes, verdes,
Fecha os olhos, tristonha,
Está com sono.
Na alva rede de espuma 255
Está dormindo
E sonha com o seu dono…
A ventania dança o seu lundum
E ela dorme embalada
Ao cantochão da vaga:
- Hum!... Hum!... Hum!...
Ama tudo quanto amei.
Canta ao luar
Cantigas que eu cantei
Noutro tom;
Num tom que eu ainda não dei.
Acompanha o seu fado
O violão da noite estrelejado.
E a guitarra da lua, às vezes,
Também toca,
Com craveiras e cordas de luar;
Com um bordão
Que somente possui o coração.
E o possui para amar.
256
A brisa é quem nos traz
O som da serenata,
Num bafejo cheirando
A flor de cajueiro;
A resina escorrendo na alvorada;
O fruto azedo e doce
Amadurecendo de madrugada.
Areia Preta, eu te revejo sempre,
Nas ondas de teu mar encapelado,
Mar, sempre muito verde e muito triste,
A se queixar…
Como se a esperança fosse embora
Prometendo que volta, sem voltar.
Areia Preta eu te revejo sempre,
Nas areias de fogo de um deserto
Desses teus morros
Polvilhados de ouro,
Onde eu imagino desfilando
Beduínos no sol e no calor;
Caravanas de sonhos
257
Que morreram de sede,
Sem promessas de amor.
Areia Preta, flor de verão!
Aberta ao sol da praia
E ao sol do coração,
Das praieiras bonitas do lugar;
Renda branca a penar,
Na almofada de bilro,
Das rendeiras antigas,
Já tão cansadas das fadigas
Das noites que passaram
Mal passadas,
Em serões, a trocar…
Ouvindo tristes cantigas
Da Mãe da Água a se embalar…
Areia Preta, vela
Aberta, lembrando
O pescador, de alma bondosa e rude,
Mas, cheio de virtude
E fiel, tão fiel à madrugada,
258
Como a hora marcada
Para a maré encher,
Para a maré vazar…
Ai, como sabe amar
O pescador!
Bem o quisera saber
O homem da cidade.
Seu coração é sempre um preamar
De amor e de saudade.
Quem me dera casar com um pescador
De tez queimada ao sol das pescarias,
Lutador que, em dias de procela,
Atira a rede
E assiste o destroço da vela;
Na tempestade, no escuro,
Sem perder nunca essa serenidade
Que é a fé em Deus
E confiança no futuro.
Quem me dera casar
Com um simples pescador 259
Forte, leal, sincero, corajoso,
Resistente na dor,
Prudente na alegria,
No prazer cauteloso.
Nos dias de bonança, previdente,
Sem saber enganar,
Sem saber iludir,
Sabendo amar somente
E prometer,
Prometer e cumprir.
Quem me dera casar
Com um pescador assim,
Sincero e bom, honesto e destemido,
Firmado na vontade de querer
E de vencer,
Sem nunca ser vencido.
Um pescador assim,
Que sentisse a alegria de viver
Pelo bem feito.
Que amasse o amor,
260 O sol, o mar, a praia, a Natureza
E só pensasse em mim.
Quem me dera casar
Com um pescador ousado
Na procela,
Grosseiro, no seu traje de algodão…
De sentimento nobre e delicado,
Consciência mais branca do que a vela
E amor para me amar com o coração.
Areia Preta, eu te evoco revendo
Aquele morro quase desaparecendo,
Dentro da água revolta do teu mar,
Tal qual um sonho que encontrei um dia,
Bem dentro da minha alma mergulhado,
No doce travo de querer bem,
No gosto amargo de haver amado.
E volvendo ao passado de menina,
Areia Preta, eu te revejo assim:
– Na história muito triste da rendeira,
Na voz do pescador, do alto da colina, 261
Cantando para mim,
Que também sou praieira!...
Si n h á Ro c a s
À beira da água
Nasceu, um dia,
Ninguém estranhe,
Linda praieira,
Tão desditosa,
Nasceu sem mãe…
A água salgada
Da maré rente
262 Encheu-lhe a boca..
E ela nem pôde chorar, coitada!
Com a boca cheia de água salgada,
Que ainda amarga na sua boca.
Cresceu sozinha, pobre garota,
Corre na praia, sempre vagando;
Deita na areia com os moradores
E passa os dias assobiando;
Escuta histórias da Carochinha
Na lua cheia,
Sobre as jangadas dos pescadores.
Brinca nos morros
Com a meninada
Mancha, Ciranda, Pinicainha
Da barra de vinte e cinco,
– “Mingorra, Mingorra,
Tire essa mão que já está forra”.
“Boca de forno tirando bolo”
Para a avozinha.
Veste vestido de algodãozinho,
Vive uma vida bem desigual
263
Canto do Mangue, Reis, Areal!
Mas, todos gostam de Sinhá Rocas,
Comendo peixe, com os pés na areia,
Mesmo vestida com seu vestido colonial.
Alguém lhe disse, num tempo desses:
– Toma a meada para fiar”.
E ela, coitada, passando fome,
Foi trabalhar.
E fez tresmalhos, fez longas redes,
Para pescar…
Ninguém a chame de preguiçosa,
Que ela não é.
Não é verdade.
Olhem as jangadas
Como vem cheias
De muito peixe para a cidade.
As velas todas que ela cerziu,
Noites inteiras, sem cochilar,
Como são brancas, à beira da água,
Da água do mar.
264 Se todos vissem enroladinhas
Na compostura de uma oração…
Lembram vergônteas de lírios brancos,
Em floração.
Foi certo dia que eu vi contar
Que Sinhá Rocas
Já tem vestidos para mudar.
Já calça meias, põe charpa ao ombro,
Flor no cabelo, maracujá.
Canta modinhas ao violão
E faz fogueiras,
Na noite santa de São João.
Prega lanternas, solta balão.
Sabe a doutrina, faz comunhão.
Vai sempre à missa
Todo domingo,
Na capelinha
Lá da colina.
Horas inteiras, fazendo renda,
Põe-se a cantar.
É muito nova 265
Mas já namora para casar.
Um namorado cá da cidade,
Da flor amarga procura o mel…
E pela praia, na lua cheia,
Canta “Praieira” de Othoniel.
Ela, faceira,
Chega à latada
Para escutar.
Ali, bem perto, velha rendeira
Conta aos netinhos, já sonolentos,
A velha história da Borralheira
Que faz chorar.
Mais longe, um grupo de jangadeiros
Toma aguardente,
Deita de bruços na areia lisa
Com o peito ardente.
Outros conversam coisas passadas
Ali, na rua.
Há quem arengue
266
Jogando dados,
Na luz da lua.
Fazem uma roda só de meninas
Cantarolando na beira-mar.
E dentro dela está Sinhá Rocas
Para ensinar.
Canta de roda, torna a rodar,
Canções do povo
Que ouvira outrora cantarolar;
– “Ô minha gatinha parda,
Que em janeiro se sumiu,
Você viu minha gatinha?
Você sabe? Você sabe!... Você viu!...”
267
T i ro l é di re i t i n h o uma
p a i s a g e m bí bl i c a
Madrugada alta. Quase manhãzinha.
A estrela da Alva já se vai embora.
Aboio de vaqueiro,
Não sei de onde,
Vem encher os caminhos.
Quem quiser, pode dar bom dia à aurora
E bom dia, também, aos passarinhos.
268
Porteira de curral escancarada
Está rangendo.
Cheiro de leite fresco e flor de guabiraba,
Misturado com mel de jandaíra.
Toda a mata rescende
A incenso e murta.
O pau-darco amarelo
Abre a umbela de ouro.
Urtigas, jitiranas,
Abelhas, borboletas, a brisa, o som.
Um bando de besouros se alvoroça.
Tranquilidade, amor,
Num clima bom.
As lavadeiras passam
Conversando na estrada.
Tiram carrapichos na saia.
Levam trouxas de roupa
Na cabeça,
Vão direito à levada…
A água fria e transparente
Da lagoa de Manuel Felipe, 269
Arrepiada, não seca,
Entre cajueiros escondida,
Lembra uma tela que pintou Lágréca.
Um bando de mocinhas
Vai ao banho,
Cantarolando – trá – lá – lá.
Esfrega, nas pontas dos dedos,
Folhas de macassar,
Para sentir o cheiro passadista.
O chuá, chuá,
Da água escorregando,
faz-me lembrar o “Banho Brasileiro”
de Jorge Fernandes, poeta modernista.
Nuns quadros tão singelos,
As banhistas
Chupam cajus vermelhos
E amarelos,
Apanhados ali.
Chiado de folhas secas
270
Pela estrada florida.
Cheiro de baunilha e resina
Vem da manhã quase nascida.
Manhã.
Canta um galo muito alto.
Um cão de raça late.
A casa de farinha despertou…
O dia, ainda incerto, recomeça.
Abre-se, ali por perto,
Um bangalô.
É a vida!
Quem foi que viu passar pelo arvoredo,
à hora das matinas,
O pastor do dia,
Tocando na avena de ouro,
Para chamar o sol?
E a aurora que se ia respondeu:
– Fui eu.
Lá vai ele descendo os morros do Tirol,
271
Pastoreando a manhã,
Tangendo o sol.
Como outrora, os pastores de Belém,
Ele vai apanhando as frutas dos caminhos.
Em vez de pombas mansas,
Leva passarinhos;
Leite e mel, muita flor, em vez de rendas,
Para as oferendas…
E no olhar qualquer coisa da estrela matutina
Leva, para guiá-lo à manjedoura.
Tirol faz-me pensar
Na Palestina evocadora!
Com os seus morros guardando
Velhas lendas,
A água da lagoa do Tirol,
Aguando cajueiros refloridos,
Com certeza encheu um dia,
A bilha nova da Samaritana,
Numa tarde de sol, na Samaria,
Cheia de encanto e de pureza idílica,
272 Tirol é direitinho uma paisagem bíblica.
Tarde.
Vai longe, muito longe, o meio-dia.
A sombra vai caindo.
Silêncio, paz, recolhimento,
Por trás daqueles montes solitários
Que emolduram o bairro,
É profundo o mistério, o encantamento.
Psiu!... Psiu!...
Cuidado. Ninguém fale no momento.
De tarde a Natureza se recolhe
Contrita.
A alma que reza é muito mais bonita
Do que a alma que sonha.
De vez em quando, uma voz se descuida
E se desata,
Na solidão…
É o sabiá da mata
Que está fazendo oração…
E o mugido dos bois
Na quietude triste dos currais,
273
Quebra o silêncio
Pelos coqueirais
E vai findar-se pelo vale, em ais!...
Tudo isso quer dizer saudade
De um bem perdido,
Não se sabe quando,
Nem se volta mais!
O poder do silêncio se engrandece
Nos eflúvios da paz.
Tirol
É cisma, é prece, é solidão, desmaio…
Cheira a incenso queimado,
Nas ladainhas de maio.
É ali onde se vai buscar tranquilidade,
Fugindo do pecado e do escarcéu…
Porque Deus do Tirol está mais perto,
Nos mitigando a sede azul do Céu.
274
Re fo l e s
Gosto tanto de ti
Como de um bem amado
Que a gente não esquece, ainda mesmo querendo.
Quantas vezes mergulho no passado
E, Refoles, te vejo amanhecendo!
Gosto tanto de ti, como gostei um dia
De alguém que eu nunca soube
Se gostou de mim…
O rio azul, o Potengi beirando, 275
Cajueiros abraçados, mesmo assim…
As Quintas, o Alecrim.
Gosto tanto de ti como das flores velhas
Que murcharam num livro de lembranças.
Não só gosto de ti, como te quero bem,
Por que me viste criança.
Gosto tanto de ti! Guardo páginas inteiras
De tua velha história…
O cheiro do caminho,
Um boi filosofando vagaroso…
A casa de taipa do guarda,
Gaiolas de passarinho.
O sol no poente
Caindo de repente
Nas gamboas do rio.
A tranquilidade do esquecido…
Tudo isso assim era envolvido
Na filosofia triste e dolorosa
De Antônio Marinho,
276
Que passara meses contigo,
Não sei quando. Magro, doente,
Sofrendo, como sofre um pobre filósofo,
Tuberculoso, desiludido e paciente…
O ‘Oitizeiro’ ali, água em redor,
Embaixo do ‘Oitizeiro’, lavadeiras
Batendo roupa…
Ubaias amarelas. As lenheiras.
O velho Ricardo vigia.
A chaminé da fábrica de óleo,
Monte de lenha na estrada,
O coradouro alvejando,
A roupa estendida e bem cuidada.
Homens de foice ao ombro
Vão ao trabalho.
A casa grande, o alpendre,
O trapézio balançando…
Um silêncio das coisas ruins do mundo.
Pé de jasmim de cera carregado, 277
As cajazeiras cheias de cajás.
O ordenança de tio Segundo,
O arvoredo verde, campanelas,
Camboins, guabirabas, batingas,
Melão de São Caetano nos cercados,
Moitas de jitiranas amarelas;
Apanhadeiras de frutas
Carregando araçá
E oiti…
O trem resfolegando – Xá! xá! xá! xá!
O apito – Pi! pi! pi! pi! pi!
Quanta coisa guardada de memória!
E eu pequenina, indo brincar contigo,
Como brincava com o melhor amigo,
Gostava de assustar os passarinhos,
Colhendo nos barrancos mal-me-quer,
Para um amor
Que eu nem sequer sabia
Que havia
278 De chegar, como chegou um dia.
Refoles, eras triste e solitário,
Mas sempre muito amigo da poesia.
As tuas curvas vermelhas
De um tom raro,
Fazem-me hoje pensar
Em fortes pinceladas de De Garo.
Tão diferente agora, outro te vejo,
Tão diverso daquele onde brinquei,
Onde compôs os seus melhores versos
Segundo Wanderley…
“Ombro armas”
Clarins, toque de caixa,
Os tambores ruflando;
Marinheiros de blusa azul marinho
Vão marchando…
Sob a voz de comando.
E a corneta começa retinindo
A mesma cantilena de alertar.
279
Faz de conta que ainda estou ouvindo
Meninos do Natal de antigamente,
Brincando de soldado na calçada,
No seu passo de marcha
E o quepe de jornal na cabeça,
Trocando na corneta das mãos:
– “Marcha soldado, cabeça de papel,
Marcha soldado, direito pro quartel”.
Numa praça de guerra te tornaram,
Refoles, bem amado, triste asceta…
E nunca em tua vida te lembraram
De que foste o retiro, muito tempo,
De um filósofo
E de um poeta.
280
A l ec r i m
É verde, é todo verde como o sonho
Que faz verde a minha alma.
Parece que Jesus entrou, lá no Alecrim,
Levando no ombro a palma
Num domingo de ramos,
E verde ele prospera
Como se fosse o recanto
Da fada da Primavera…
E cheira! E cheira tanto! 281
Mais cheiroso não há, nem mais ameno,
Rescende a malva-rosa, a macassar,
A cravo branco aberto no sereno,
Na panela de barro,
Na beirada da casa.
Cheira mesmo a alecrim bento,
A alecrim da Paixão,
Que enfeita na quaresma o Bom Jesus dos Passos,
No andor da procissão.
É o bairro do samba, da folia,
Das adivinhações e da magia,
Das promessas de fitas,
Dos fandangos, dos leilões…
E das velhas latadas de maracujá,
Das modinhas antigas,
Cantadas nos terreiros lá de cima,
Ao som dos violões de acorde certo…
Da saudosas lapinhas de Itajubá,
Das serenatas de Deolindo Lima,
282 Das morenas formosas de Gothardo Neto;
Do par de namorados,
Conversando encostados,
Nas cercas de melão cheias de flor,
Entre beijos furtados
E promessas de amor…
E quando ele começa venturoso,
Tocando maracá e cantando chistoso:
– “Capelinha de melão,
É de São João,
É de cravo, é de rosa,
É de manjericão”
Toda gente nos diz:
É da cidade o bairro mais feliz!
Mas não é, não..
Como ele também existe alguém
Que agoniza e padece cada dia mais
E nem parece, na máscara que traz.
É lá onde reside a soledade, 283
O cipreste evocando.
É lá a cidade da saudade,
O derradeiro adeus nos acenando.
Alecrim é o bairro operário,
A tecer noite e dia.
É a aranha operosa
Que faz a teia e fia.
Tecelã, tecelã, para um momento.
Tu não te cansas de fiar, Maria?...
Assim é a dor trabalha sempre sem descansar.
E não se cansa de trabalhar,
A fiandeira do sofrimento.
É o bairro da lida, da função,
É o bairro da feira domingueira,
Numa algazarra louca!
Vestida de algodão, numa sujeira,
Arrastando tamanco entre as barracas,
Dando empurrão,
A tocar berimbau e realejo de boca,
284
Mascando alho, dizendo palavrão.
Olha, acolá! No meio da rua,
Havia uma fonte mais clara do que a lua,
Muitos ramos floridos,
Dando abrigo a uns amores esquecidos.
Há mangueiras frondosas,
Para o embalo gostoso de uma rede
Nas tardes langorosas…
E além os morros verdes
Continuam o caminho
E deve haver porção de passarinho
No meio da balseira,
Embalado no ninho,
Como o filho da humilde cigarreira
Dorme, embalado no seio
Da pobre mãe, tão consumida e pobre!
A voz vai se sumindo, ali, na casaria,
Quase rente com o chão…
Enquanto o filho se some 285
Nas dobras do coração.
E ela, a pobrezinha, já tão penada,
Com a voz perra de sono,
Já tão cansada de trabalhar,
Vai repetindo muito devagar,
A arrastar, a arrastar,
A cantiga do povo:
– “Dorme, dorme, meu filhinho,
Deixa de tanto chorar,
Quem tem filho não passeia,
Tua mãe foi passear”.
Nada mais se percebe, na distância,
Da voz amena,
Senão este final de cantilena:
Á.. á… á… á… á… á…
286
B a r ro Ve r m e l h o
Nin h o d e Po e s i a
Meu Deus, como ele é triste e desolado!
Parece o “Só” de Antônio Nobre, coitado!
Dizem que nos ramos das árvores
Prediletas
Fazem versos os pássaros poetas.
E a levada, tão clara e tão bonita,
Começa a recitar.
287
E murmura também alguma coisa
De um romance que agrada,
De José de Alencar.
Não há naqueles sítios submersos,
Na sombra de arvoredos tão fechados,
Um passarinho que não faça versos.
É que ele assim tão só, tão escondido,
Tão feito para o sonho que repousa,
Houve um tempo em que foi o Horto preferido
Da grande poetisa Auta de Souza.
Ela ia ensinar aos pássaros do verão
A poesia terna, doce, mística, sonora
E triste, do coração.
E corre, como certo,
Que eles levavam à mestra de presente
Ramos de flor no bico,
Apanhados na água da corrente,
Ou colhidos na mata, ali, por perto.
Se algum dos passarinhos se feria
288 No espinho da roseira,
Ou na arma cruel do caçador,
Ela lhe servia de enfermeira.
E quando ele voava, já curado,
Pela mata sombria, ou pelo céu,
Em busca de encontrar da companheira
O carinho, o conforto,
Cantava, muito alto, na ingazeira:
– Venham ver como é bondosa a poetisa do “Horto”!
Anos depois, a morte tão temida,
Num dia azul, sem véu,
Levou a poetisa, tão querida,
Para fazer versos, lá, no Céu.
Dizem que nesse dia de tristeza
Para toda a cidade,
Enquanto lá no Céu havia festas
Pela sua chegada,
Todos os passarinhos conhecidos
Choravam de saudade.
Os tempos passam, voltam os desenganos, 289
Há em todo prazer qualquer tristeza;
Barro Vermelho guarda em seus arcanos
Muita coisa dos tempos do bruxedo…
E ouvi muito contar e se espalhou
Que foi ali à sombra do arvoredo,
Onde a bela do bosque adormeceu cem anos
E a poetisa se santificou.
Pas s o d a Pátr i a
É um antro de miséria
É um passo de dor!
Parece que os apaches de outras terras
Nascem dali. Que horror!
Quanto medo me mete!
É, com certeza, daquele lodo
Que se gera o amor do apachinete,
Bebendo com a desgraça
290 O próprio amor.
Mata com um beijo, crava o punhal,
Disputa a sorte no jogo de trinta e um,
Dança a dança da morte
No lamaçal,
Dá estalos com a língua
Amarga, pecaminosa,
Sentindo o travo do mal.
Passo da Pátria é a tasca do vício,
Do pecador impenitente.
Tem um cheiro ruim de maresia
E um bafo, muito forte, de aguardente.
Mendigo maltrapilho e esfaimado,
Quase a morrer de fome e abandono,
Aproveita migalhas, como sobejo,
Veste trapos, roupas velhas,
Teima no vício,
Fuma ponta de cigarro, já fumado,
De arrependimento, não há indício.
Mastiga fumo cortado, a remoer, 291
Cravo, pimenta;
E deixa a baba fedorenta
Pela boca, sem dentes, escorrer.
É bem ali, no fim da ladeira, esquecido
Pobre enjeitado!
Não é bairro, não é nada, é um refugo.
Ainda é tempo de mudar de vida,
Pecador de tanto pecado.
É uma coisa assim, ao léu, nascida
Num monturo.
Mas quanta coisa boa, mal sabida,
Lhe reserva o futuro?!
Dizem que ele de Deus não é lembrado.
Mentira! Deus não se esquece do desgraçado.
Se foi Deus o pintor daquela Natureza,
De quadro original;
Que tintas, que beleza! Que cicio!
Nasce ali a esperança,
292
Nos mangues verdes, beirando o rio,
Jardim de flor azul na água boiando.
Até o sol, que nasce atrás,
Custa a chegar…
Mas, quando chega, transforma tudo,
Poças de lama põem-se a brilhar.
De noite é muito escuro, é feio mesmo.
Aqui e ali, a luz mortiça de uma candeia
Malmente clareia.
Raras casinhas alvas, aprumadas,
No meio das ruínas, mal se veem.
Palhoças esburacadas,
Choram lá dentro, com frio, fome e pecado.
Os barrancos vermelhos escurecem
De entristecer.
Árvores se despenhando na ladeira,
Se agarram, na amargura de viver.
Chega o luar, o rio se encandeia
E caudaloso e sensual se estira,
Limpando os pés de uma pequena rua
293
Na areia.
Quebra, de vez em quando, a maré cheia.
Benvinda seja a lua!
E o Potengi que vem subindo,
De barreira a barreira,
Assusta e ameaça, a noite inteira.
Toda a ladeira maltratada
Dorme no chão,
Embriagada com cachaça,
Solta palavrões e maldição.
Passo da Pátria, a sentinela da miséria
Na dor desperta.
Gagueja, roga praga e diz: – Alerta!
Meia noite. Hora de orgia.
É a hora das bruxas, dos apaches,
Um gemido se escuta, um grito, uma canção,
Um beijo, uma dentada, serenata,
Acorde doido de sanfona e realejo,
Muitos bêbedos, um samba, uma folia,
Desafinado, toca um violão.
294
Tropel de cavalos, gritos, arrelia,
Pancadas, choro, apitos, cavalaria.
A ironia da vida é mesmo assim.
Há o seu lado bom e o outro ruim…
Sob aquele telheiro desprezado
Do Passo da Pátria,
Quanta gente se abriga sem telhado,
Quanta canoa pára e descarrega,
Quanta vela a desenrolar!
Coração que se foi volta alegre, sossega
E continua a amar.
Muitas canoas chegam carregadas,
Vem ali de Barreiros, de Santo Antônio,
De Igapó³⁰. Trazem tijolo, trazem telha,
Verdureiros, leiteiros,
Pescadores também.
Olha aquela ligeira como vem!
Leva adeus, traz saudade,
Vai ali do outro lado, já volta.
295
Vai ao Porto do Padre,
vem de novo à cidade,
Nesse vaivém da sorte,
Umas encontram a vida,
Outras a morte.
Continua a ironia!
Canta com fome a cigarra.
Passo da Pátria tem a sua alegria
No sábado; que algazarra!
Que feira concorrida! Que gritaria!
– Louça de barro, louça de barro,
Grude, sequilho, alfenim!
Tapioca, bolo preto, que azucrim!...
Mercado de banha com patichuli e jasmim.
Que contraste da vida!
A paisagem do Passo da Pátria
É tão linda!
É selvagem, é morena, é ardente,
É mesmo de encantar
A Natureza dali…
296
Tanta beleza abandonada eu nunca vi!
Sobre ela namoraram, com certeza,
Os olhos, muito pretos, de Poti.
A gente se embevece na contemplação
Da paisagem bonita.
Parece que ela faz uma oração, contrita,
Pelos índios, talvez, que se abrigaram ali.
E o olhar mergulhando dentro dela,
Vê tanta coisa bela,
Que não se pode imaginar…
Um quadro natural, feito de propósito,
Para se querer bem, para se amar.
E eu penso, com sentimento tão profundo,
Que Natal, a cidade panorama,
É a mais bela cidade deste mundo!
297
Lag o a de M a n u e l Fel i p e
Clara a manhã de ouro desfia
A meada de luz para tecer o dia.
Já a estrela da Alva, tão formosa e boa,
Terminara a tarefa de fiar,
Nas derradeiras flores da estiagem,
A toalha do altar,
Para a boda selvagem
Do cajueiro em flor e da lagoa…
298
Ao longo, os morros verdes,
Embebidos na luz da manhã cor de rosa,
Mostram ao sol as flores da grinalda
Da noiva casta, linda e venturosa.
À beira da água, verdes filigranas
Entretecendo moitas de capim,
Tecem, do veludo das folhas,
Um coxim
Para a desposada descansar.
Nos ninhos enganchados nas ramagens,
Passarinhos acordados muito cedo,
Cantam a missa branca do noivado.
E o sol, sacerdote pagão, subindo ao altar
Na Natureza, toma a estola dourada,
Para a boda selvagem celebrar.
Clara a manhã de ouro desfia
A meada de luz para tecer o dia.
E, enquanto na minha alma os olhos ponho,
Sinto que se desmancha a teia do meu sonho.
299
Perto de mim as lavadeiras vão e vem,
Nem sabem que eu padeço
E cantam descuidadas:
– Triste coisa é querer bem!
Clara a manhã de ouro desfia
A meada de luz para tecer o dia.
E tu, ó cajueiro tão florido,
Escutando a cantiga que ressoa
Em cantochão,
Tu és o prometido da lagoa.
A tua sombra é uma oferenda
Em flor.
É música a tua oração…
Como quem dá o que tem
De melhor no coração: Amor!
Assim apaixonadamente te derreias
Sobre a lagoa lindamente cheia.
E a ela te aconchegas, cajueiro amoroso,
300 Num jeito de quem quer sempre abraçar…
Nada mais desejas, nem pretendes,
Do que amar.
A lagoa te olha embevecida
E se torna tua para toda a vida…
E dois se uniram por consentimento,
Sob a umbela de luz do firmamento.
A lagoa tão clara e iluminada,
Parece que banhou a madrugada.
Na ramaria em flor, sem ter espinhos,
Canta um bando gentil de passarinhos,
Como se cada folha fosse
Uma avena dourada
Tocando uma canção,
Nunca escutada.
És sempre assim, cajueiro frondoso,
Rastejando na terra os teus carinhos.
E a terra de quem és tão doce amigo,
301
Vive a fazer também um agrado contigo.
Arrastas os teus galhos docemente
E ela gosta e consente,
Como se fosse a tua bem amada.
E em troca desse afeto te coroa,
Para depois, ó árvore tão boa,
Dadivosa que és em frutos belos,
Transformares as flores perfumosas
Em cajus encarnados e amarelos.
Quero, na tua sombra hospitaleira,
Aprender a sonhar…
Quem me dera, sonhando
A vida inteira,
Nunca mais acordar!...
302
Ca ste li n h o s n a A rei a
d a Pra i a do M e i o
Castelinhos na areia,
Na beira da praia.
E ninguém se arreceia
Da onda que espraia.
Coisas da meninice,
Que a gente faz e não cansa…
E agora faz outra vez,
303
Como se fosse criança.
Banhistas deitadas num sol tão ardente,
Trabalham, trabalham na maré de enchente.
E a onda que vai
E a onda que vem,
Nem sabe que eu faço
Castelos também.
As torres de ouro levanto no espaço
E o mar nem se importa
Com as torres que eu faço.
E a beira da praia parece uma rua
Só de castelos espiando a lua,
Que está lá no alto do seu varandim,
Olhando para eles,
Também para mim.
Tão cedo ela vem nos ver do sobrado,
Envolvida num véu,
Que a gente pensou
Que se havia adiantado
304 O relógio do céu.
E a cada momento
Uma torre se alteia
Castelos de sonhos, castelos de areia.
É tarde, é tão tarde, o sol já se pôs
E faço castelos só para nós dois.
Do alto da torre eu ponho
Um mirante e ninguém nos vê…
Pois, fiz um mirante
Para mim e você.
E o mar invejoso já vem se chegando
E os meus castelinhos
Se vão desmanchando.
E a onda que vai e vem, a rolar,
Desmancha um castelo,
Constrói um pesar.
E à lua tão branca,
Eu digo isto assim:
– Ai, tudo que eu quero
A sorte carrega
305
Bem longe de mim!
E a mão levantando, espalmada, a pedir,
Eu lembro à menina
Que outrora dizia a mesma oração,
Que hoje ainda diz:
– “A minha benção, dindinha lua,
Para eu dormir! Para ser feliz!
Me dê um punhadinho de farinha,
Do trigo nevado da felicidade!
Me dê e não tome
Que aquela que eu tinha,
Era tão pobrezinha
Que morreu de fome!"
306
RO SAS T RO P I C A IS
For tal e za do s Re i s M a g os
Em frente o mar, fervendo e espumando de ira,
Na nevrose do ódio, em convulsões rouqueja
E contra a Fortaleza imprecações atira
E blasfema e maldiz e ameaça e pragueja.
Todo ele se baba. E se arqueia e delira,
Na fervente paixão de vencê-la… Peleja.
Ergue o dorso e se empina e se estorce e conspira
308 E cai, magoando os pés daquela que deseja.
A Fortaleza altiva, agarrada às raízes,
Nem parece sentir as fundas cicatrizes,
Dos golpes com que o mar o seu corpo tortura.
Evocando o passado, avista as sentinelas,
No cruzeiro do sul a cruz das caravelas
E as flechas de Poti rasgando a noite escura.
Ext re m oz
Extremoz, ermo, tristeza, solidão,
Herdade sombria da recordação.
Desenho velho de um solar de outrora,
Taba de amores, casa de missão.
Estância da saudade, pouso amigo,
Da lembrança cansada de lembrar.
Relíquia do passado,
Retalho de lenda,
Um convento de frades a rezar… 309
Fuso a rodopiar.
Flechas cruzando à toa,
Índios pescando à beira da lagoa,
Missionários ensinando
O Padre Nosso, na ermida do lugar.
O canto do carreiro se afogando,
O badalar do sino;
Coisas do Rio Grande ainda menino;
Hoje, mágoa de não ser o que foi
E desejar.
Extremoz, pedaço de quimera,
Em cinzas pelo chão.
Página colonial
De uma história de aldeia.
Infância do Brasil,
Rastros do coração.
Sobejo da ventura,
Resto de amor,
Resignação na desventura,
De quem morre de fome, na fartura;
310 Tormento de possuir e não gozar.
Sombra de uma ventura desaparecida,
Hoje muito mais escura,
Do que a noite – a mãe preta do dia…
Celeiro vazio de pão,
Lagoa da saudade,
Ave Maria!
Ruína muito antiga
De um mosteiro
Onde a alma se debruça e medita.
E recorda, evocando
O profético perfil do Jesuíta.
Extremoz, solidade, silêncio
Onde os pássaros fazem retiro
E as árvores fazem oração.
Sinal da cruz faz o tempo
Penitência, contrição.
Extremoz, abandono, tristeza,
Cabaz vazio de amor.
Parque que já deu flor;
311
Desgosto de quem ama e vive só,
Vontade de ter dono,
Tendo sido senhor,
Pena de quem faz dó.
Extremoz, aldeia antiga, tão vivida,
Que ainda conserva, para seu consolo,
A majestade azul da lagoa esquecida.
Contam que em suas águas ondulosas
Foi um dia, o carreiro
Conduzindo o seu carro, se afundou…
E o sino que levava para a igreja
No fundo da lagoa se afogou.
Extremoz, templo de fé, antigamente,
Ensinava a rezar.
Casa de Nazaré onde a donzela
Aprendia a fiar.
Extremoz, lagoa azul espelha o céu
Mais clara do que a estrela da manhã…
312 Quando dorme sonhando com o passado,
Eu penso que também sou sua irmã.
História cheia de lenda,
De lenda que diz assim:
– O sino da meia noite
Há de tocar toda a vida,
Na onda sempre azul,
Da lagoa florida.
E a voz muito arrastada do carreiro,
Com seus bois afogados, na aflição,
Ecoará, muito triste,
Enchendo a vila de recordação.
Badalada do sino, oração e fervor,
Coração, coração, és carreiro do amor!
Extremoz, já vivido,
Tristeza de um bem perdido!...
E a lenda continua:
– E quando a voz dolorosa do carreiro
Recomeça a aboiar,
Num doloroso tom de soledade,
313
Parece que Extremoz chora escutando
O doloroso aboio da saudade.
Pal m a da Re s s u r rei çã o
Da escarpa na aridez, ela rebenta,
Filha das rochas, nos sertões nascida;
Parece ter brotado da tormenta
De uma alma que venceu e foi vencida.
É um gesto de dor; não se lamenta,
Porque a dor mais calada é a mais sentida…
No entanto, se adivinha que é sedenta
314 Da água que baste para lhe dar vida.
Contraste dessa palma milagrosa
Que do batismo sai nova, viçosa,
E de verde se veste e se refaz…
É uma antiga lembrança que ainda abrigo,
Um velho sonho que murchou comigo,
É qualquer coisa que não volta mais!!
B au n i l h a
Lembra um jarro de flor, balança ao vento
A floração que é pluma enluarada.
Doce aroma de rosa e cravo bento
Vem da baunilha, aos pés da Imaculada.
O seu perfume é prece. E no momento,
Rezam todas as flores. Ajoelhada,
Noviça na capela do convento,
Não seria mais bela, engrinaldada. 315
Ramos de neve estende na invernia.
De mão postas parece a ramaria
Rezar, com mais fervor, sua oração.
Curva a baunilha a fronte alva e divina,
Como se fosse angelical menina,
Na mesa da primeira comunhão.
F l o r de U r t i g a
É um resquício de espuma a flor de urtiga,
Um pingo de água doce e perfumosa,
Um pensamento bom… Não há quem diga
Que ela nasce de planta venenosa.
Apanhá-la ao pé, talvez, consiga
Mão de mulher, sutil e carinhosa,
Que agrade muito e seja muito amiga,
316 De bem fazer, sem mesmo ser ditosa.
A flor de urtiga é um lírio bem pequeno,
Um beijo muito alvo no sereno,
Um dengue, um ai, um doce bem querer…
Faz-se tão langorosa perfumando,
Que eu fico, às vezes, sem querer, pensando
Numa coisa de amor que ouvi dizer…
O U i ra p u r u
Das matas é o cantor aprimorado,
O monarca real da melodia,
Vive cantando sempre descuidado,
Como se fosse o dono da alegria.
Quando desfere o mágico trinado,
Saudando a aurora, bendizendo o dia,
Um bando de aves voa ao seu chamado,
Para escutar-lhe a estranha sinfonia. 317
E a passarada, estática, silente,
Procura descobrir se o canto ardente
Vem da garganta em fúlgido descante,
Ou se das nuvens desce o som dorido,
Das contas soltas de um colar partido,
Caindo em salvas de cristal cantante.
Pal m e i ra do Ro s ár i o
Sem que mais possa ver, palmeira amiga,
A tua irmã que outrora aqui vivia,
Vejo as dunas, o mangue, a Igreja antiga,
O mesmo rio, a Santa Cruz, a Pia.
Que a tua fronde o pássaro bendiga,
Atalaia do Templo de Maria!
Parta, embora, de ti doce cantiga,
318 Eu sinto que entristeces todo o dia.
A brisa geme. A farfalhar, soluças,
E sobre a própria sombra te debruças,
Querendo agasalhar doutra o destroço.
De minha terra a Natureza inteira
Chora contigo a morte da palmeira
Tronco partido de um passado nosso.
Á r vo re do Be m
A corola vermelha ao fogo se compara,
No cálix de coral, o pólen de ouro se inflama,
Rubra, a flor de romã, de pétalas avara,
Lembra a chama do amor, do meu amor a chama.
Romãzeira a florir, tu, na existência amara,
És a árvore do bem, que a doçura derrama.
De ti é que nos vem essa virtude rara
De ser feliz no amor, de amar a quem nos ama. 319
O fruto circular, sem atrativo, embora,
Em escrínios encerra as gemas cor da aurora,
Veladas por um véu dourado… E se adivinha.
Que a coroa que cinge o fruto apetecido,
É a coroa de um rei, talvez desconhecido,
A guardar os rubis de um colar de rainha.
Pi ta n g u e i ra
Termina agosto. A pitangueira flora,
A umbela verde cobre-se de alvura.
E, antes que de setembro finde a aurora,
Enrubesce a pitanga, está madura.
Da flor o fruto é de esmeralda agora.
Num topázio depois se transfigura,
E, pouco a pouco, um sol de estio o cora,
Dando a cor dos rubis à carnadura.
320
A pele é fina. A carne veludosa,
Vermelha como o sangue, perfumosa,
Como se humana a sua carne fosse.
Do fruto, às vezes, roxo como o espargo,
A polpa tem um travo doce amargo,
O sabor da saudade amargo e doce.
A g u are la
O rio azul, voluptuosamente,
Se espreguiça na areia cor de prata,
Estende os braços, amorosamente,
Para abraçar melhor a verde mata.
À beira da água, perfumosamente,
A ramaria o seu buquê desata.
Canta a floresta e o coração da gente,
Na voz do sabiá, que se dilata.
321
Uma canoa esguia o rio desce.
Desce tão vagarosa, que parece
Falar de amor às águas em segredo.
De pé, o canoeiro, olhando o rio,
Recebe, da ramagem no cicio,
O bafejo selvagem do arvoredo.
N ão c a n ta s m ai s !
Não cantas mais! Junho, brumoso e frio,
Hoje foi teu coveiro, meu cantor.
Chove lá fora. E eu sinto na alma o estio
Da tua doce voz cheia de amor.
Não cantas mais! Do teu cantar o fio
Partiu-se na garganta, sem rumor…
Morreu contigo o derradeiro pio
322 E na roseira a derradeira flor.
E assim, tão só, como viver agora,
Sem ter mais quem me entenda, como outrora,
No canto irmãos, no sentimento iguais?
E, enquanto na minha alma dolorida,
A tua voz me fala para a vida,
A dor que me doeu, dói muito mais!
F l a m boya n ts
Verão. A natureza no-lo atesta,
Dos flamboyants nas flores nacaradas.
Derramou-se, talvez, pela floresta
Uma porção de flores encarnadas.
As cigarras cantando fazem festa
As corolas de seda ensanguentadas.
Quanta coisa esquecida ainda nos resta
Nos ‘si-si’ das cantigas nas ramadas. 323
Inverno. Os flamboyants despem-se agora.
Nem mais um canto. Emudeceu lá fora
Das cigarras, no estio, o bando alacre…
Até que aos flamboyants a cor vermelha
Volte, na floração, que se assemelha
A lindas borboletas cor de lacre.
La va d e i ra s d e m i n h a ter ra
Partem, cantando, à luz das alvoradas,
Molhando os pés na relva dos caminhos,
E ao som de suas vozes, acordadas,
Beijam-se as asas no frouxel dos ninhos.
As lavadeiras seguem descuidadas,
Ora prendendo as roupas nos espinhos,
Ora apanhando as frutas encarnadas,
Ou cantando, também, com os passarinhos.
324
Depois, a tarde. O sol desaparece
Por trás do rio. A noite desce, desce…
Toda a mata rescende a alecrim bento.
Elas ao lar retornam, conversando,
Enquanto a lua, pelos céus pairando,
Esgarça a seda azul do firmamento.
Pa u D ’A rc o
Domina a mata inteira. O grosso tronco escuro
Se eleva para o céu, em galhos esquisitos.
Seu passado de rei, de rei o seu futuro,
Nos ramos, em sinais estranhos, vejo escritos.
No inverno o conheci, sem flores, obscuro,
Rei prescrito, o pau d’arco, entre muitos proscritos.
Floresce no verão. Dourada a copa, eu juro,
Ser o reino de luz dos pássaros bonitos. 325
É o marechal da mata. Altivo, nobre, belo,
No capacete ostenta o penacho amarelo,
Guerreiro destemido, em demanda da glória.
Orgulhoso, desfralda a bandeira bordada
E, enlaçado de flor, escuta na alvorada,
Um concliz a tocar o clarim da vitória.
F i g ue i ra
Na aridez do terreno, a figueira rebenta,
Buscando ver o sol, que dela não se esconde,
Quanto mais luz recebe, é de mais luz sedenta,
Para a sombra apagar do crime em sua fronde.
De Judas a lembrança a figueira atormenta,
Mas, vendo-a sempre verde, a dor não há quem sonde.
No entanto, ela se agita em convulsões e tenta
Fugir do olhar de Deus. De Deus fugir para onde?
326
Quando desponta o figo, é uma esperança em fruto.
Depois, é de ametista. O verde faz-se luto,
Conservando no caule o leite que o nutriu.
O bago sazonado é doce, sem ressábio,
A polpa, quase rubra, é como a flor do lábio,
Não contendo o travor do beijo que traiu.
L ír i o Ve r m e lh o
Lírio vermelho, de expressiva cor,
Onde o perfume, alma das flores, mora.
Lírio que se fez rubro de pudor,
Quando o sol o beijou diante da aurora.
Foi de neve, talvez, esse rubor,
Que a brancura das pétalas colora;
Vem do beijo da luz, desse calor,
Que algumas faz corar e outras descora. 327
O coração desse formoso lírio,
Onde goteja o orvalho do martírio,
É um rubro cofre flamejando amor.
E recorda a corola, mesta e langue,
Assim vermelha, mergulhada em sangue,
Uma chaga de Cristo aberta em flor.
Cam i n h o d e Sã o Gon ç a l o
Madrugada alta. Quase de manhã.
As fiandeiras da luz vão descansar.
Escorre leite, ainda, do luar,
Na mata iluminada.
Abre no galho a flor da guabiraba.
O perfume é tão forte que entontece.
Com um altar de noivado
A mata se parece.
328
Carros de boi rangendo, tristemente,
Pela estrada, vão voltando,
Enlaçados de flor.
E dentro muitas moças da cidade
Cantam versos de amor.
Os violeiros tocam, docemente,
No caminho da mata, a cintilar.
São esses os primeiros convidados
Que voltam, alegremente,
Pelo caminho bom de São Gonçalo,
Da festa toda branca do luar.
329
M a n g ue i ra
Exposta ao vento, exposta à noite, ao dia exposta,
Aprumada na terra, a mangueira se alteia.
E, do solo, a raiz a rigidez arrosta,
Qual polvo que se estorce e se entranha na areia.
Quando o inverno aparece umedecendo a encosta,
De pranto a chuva orvalha a coma e a torna cheia
De pequenos botões… Qual pérola suposta,
A gota da água enfeita a fronde que pompeia.
330
E, ao vir da Primavera estrelada de flores,
Faz-se esposa do sol. E os alados cantores
Cantam salmos de amor, na mangueira frondosa.
Depois, beijos de luz as pétalas abrindo,
Da rubra floração, verdes frutos surgindo,
Transformam-se, afinal, em pomos de ouro e rosa.
Á r vo re Fe l i z
Meses atrás, te conheci menina,
Crescendo entre as roseiras de um jardim.
Eras tão verde, mas tão pequenina,
Que ainda não tinhas sombras para mim…
A tua copa, mal se adivinhava,
Tão nova que tu eras.
E eu pensava, a sorrir,
Que com mais três Primaveras,
Ela há de florir 331
Muito mais bela!
Num domingo de Páscoa a repicar
E tecerá de flores a capela
Para ir se casar,
Num dia santo,
Com o seu vestido verde, cor do mar,
Estampado de flor, cheio de encanto,
Numa tarde de doce claridade,
Fazendo inveja à noiva mais bonita
Da cidade.
O seu noivo será aquele passarinho
Alegre, cantador,
Que chega de mansinho
E ainda não amou.
E quando canta, bem que se sente
A lembrança de um amor
Que não se teve,
Mas, que se esperou.
Eu também nesse tempo, prazenteira,
Tive sonhos iguais aos sonhos da limeira.
Tempos depois, te vi. Mas, quem diria,
332
Que eras tu mesma, aquela de outro dia,
Tão longe de ser hoje o que tu és?...
E ao ver-te assim, mais bela, mais viçosa,
Mais crescida, mais verde, mais frondosa,
Carregada de flores e de frutos,
Eu comecei, então, a refletir:
– Como a sorte varia,
A ventura te veio antes do dia
E a minha, nem sei mais quando há de vir!
ROSA S D E S OM BR A E D E N EBLIN A
Po n te Ve l h a do Reci fe
Ponte velha do Recife!
Ponte esquecida!
Ponte do tempo, ponte da vida!
Ponte da saudade a recordar!
Que vontade me vem de amar,
De amar alguém,
Para junto contigo recordar!
Que vontade me vem
334 De querer bem!
Ponte Velha do Recife,
Ponte do abandono e do passado!
Ponte do meu sonho o mais sonhado!
Cai o luar tonto de sono,
Lá de cima da noite…
E a água compassiva do rio cheio
Estende mais a colcha chamalotada,
Para aparar
O luar
Que caiu, coitadinho,
Lá de cima da noite, a cochilar,
No Capibaribe, sozinho!
E a lua, a velha ama de leite do luar,
Lá vem agasalhar,
Com a sua boá de penas brancas,
O luar tremendo de frio,
Mergulhado no rio.
335
E eu, debruçada no parapeito
Da Ponte Velha,
Olho a água mexendo.
E sinto que se agasalha
a minha grande mágoa
Dentro do rio correndo…
E a lua, desenrolando as penas
De sua boá,
Parece que está fazendo
A cabeleira branca da Ponte Velha,
Já tão velhinha que faz dó!
Que vontade me vem de ser menina,
Para outra vez brincar, do que eu brincava,
Nos tempos do colégio, no recreio,
Cantando, muito alto,
Sem nenhum receio,
Da vida, essa cantiga:
– “Lá na ponte da Aliança,
336 Todo mundo passa,
As lavadeiras fazem assim:
Trá-lá-lá-lá-lá!...
Trá-lá-lá-lá-lá!...
E correr e brincar,
Sem saber, sem pensar,
Que, muitas vezes, na vida,
É preciso olvidar,
É preciso esquecer uma coisa querida,
Como o luar da Ponte Velha
E tão sofrida, tão tristonha,
E, às vezes, um sonho que a gente sonha,
Cai dentro da alma, já mergulhou…
Mas, às vezes, a alma é tão profunda
Que o sonho dentro dela se afogou.
Ponte Velha do Recife,
Ponte do tempo, ponte da vida,
Ponte da saudade a recordar!...
Que vontade me vem de amar alguém
Que me ame, também,
Para junto contigo recordar!...
337
Que vontade me vem
De querer bem!
Mandacaru
De manhãzinha é sempre o meu cuidado
Dar-te o bom dia e olhar se tu floriste…
E eu vou-me embora sem te ver florado
E tu nem sabes como eu parto triste!
Quando cheguei tinhas desabrochado
A flor mais alva!... E tu nem pressentisse
A pena que sofri, vendo fechado
338 O teu floral. E o meu desejo insiste.
Dizem que, vez por outra, reflorindo,
Tal qual um pé de Estrela d’Alva abrindo
Nossa Senhora vem te olhar assim…
E eu me fico a esperar que, na partida,
Quando eu disser-te adeus, na despedida,
Abras, ao menos, uma flor p’ra mim!
Conselhos à minha alma
(Traduzido para o francês pelo poeta Affonso Barrouin)
Não te maldigas. Não. Não te maldigas!
Se um gozo retardado faz sofrer,
Há de chegar um dia em que consigas
Toda a felicidade merecer.
Não te perturbe a sanha das intrigas,
Sê firme na vontade de querer…
“Dá o bem pelo mal…”” Que assim prossigas 339
E a força do mais forte hás de vencer.
Perdoa sempre àquele que te odeia,
Recebe o teu quinhão na dor alheia,
Não te julgueis feliz, no mal de alguém.
Ama sem recompensa e sem usura,
Pois, o amor, apesar das desventura,
É de todos os bens o melhor bem!
A do r qu e m a i s doeu
– Fui eu, perdoa, a causa dessa mágoa
Tão grande assim!
Porque fui para o céu, longe daqui…
Mãe, porque tens os olhos cheios de água,
Não vês o teu filhinho ao pé de ti.
Se a maninha em te beijar insiste,
Numa alegria louca,
Para ver se não choras tanto assim,
340 Sou o beijo que sai da sua boca triste
E mamãe nem sorri, com saudades de mim.
Quando o nenê embalas com ternura
E a tua voz parece uma oração,
Não vês que te acalento com doçura
Procurando embalar teu coração?
Andas a casa toda procurando
Um bem que se perdeu…
Mas este bem, mãezinha, está contigo,
Porque sou eu.
Ontem, quando dormias,
Tão cheia de desgosto,
Dos teus olhos a lágrima rolava
E tu nem percebias
Que era eu que beijava
O teu formoso rosto.
Guardaste os meus brinquedos soluçando,
A corneta, o tambor, o carro pequenino…
Mas, para que, mamãe, se estou brincando
Com os brinquedos que tem o Deus Menino?
341
Ficas mais triste e muito mais chorosa
Quando está perto de papai chegar,
Triste, também, pensando sempre assim:
– Era na casa a hora mais ditosa!...
Mas o meu beijo quem o recebe agora?
Pensando nisto, às vezes, papai chora…
Recebe os dois, mamãe, e um guarda p’ra mim.
Vê bem, querida, que nem num momento
Me separei de ti; reza, descansa.
Estou contigo no teu pensamento,
Eu sou a tua dor que mais doeu,
Sou a tua lembrança,
A tua sombra eu sou, teu coração sou eu.
Se ainda assim tu não me vês, querida,
E a tua lágrima vai
Os teus olhos molhar e a tua vida,
Procura na saudade de papai,
Na lembrança do mano, tão sozinho,
Nos beijos da irmãzinha,
342
No afago do maninho…
Procura, na tua alma, mãe querida,
Que aí hás de encontrar o teu filhinho.
Feli c i d a d e
Cantas dentro de mim, que ave encantada!
E sinto, e sem te ouvir já te sentia.
Mas, se ouso beber-te a voz amada,
Já nem sei da ventura que sabia.
Se não te busco, vens, enamorada,
Pousar nesta minha alma fugidia.
Ai de mim, se tocar-te a asa dourada;
Foges, embora voltes noutro dia. 343
Quis entender-te; agora, já não quero,
Porque quando te encontro não te espero,
Porque quando te espero nem te avisto…
De que serve voltares insistindo,
Se bem não chegas perto, vais fugindo,
Sem saberes o mal que me faz isto.
Se n h o r d o s Pa s s o s
Senhor, caminho nos teus passos. Penso
seguir contigo do Calvário a estrada.
Levas o amor na cruz – martírio imenso!
E eu, na minha alma, a dor crucificada.
Tiveste, como tive, a mirra e o incenso,
Hoje a fronte de espinho engrinaldada.
Teu mal nos traz um benefício imenso,
344 Vivo no meu penar purificada.
Teu corpo santo em chagas arrocheia.
De um bem perdido a mágoa me alanceia,
No coração que a dor mata aos pedaços…
Enfim, tens o Tabor… E eu reconheço
Que por bem merecer o que padeço
Vou, novamente, percorrer teus passos.
A d e us M a r i a !
Adeus, Maria!... O teu olhar responde,
Cheio de afeto, à minha despedida…
O teu profundo amor não há quem sonde!
Olha-me, sempre assim, por toda vida!
Adeus, Maria, adeus! Ai quem me esconde
Do mal que, às vezes, traz a alma vencida?
Onde me abrigarei, Senhora, onde?
Quem me concede a graça prometida?
345
Adeus, Maria!... A noite se avizinha.
Ouço o canto final da Ladainha,
Vejo os círios chorando de saudade.
Adeus, virgem de maio – a flor descora…
Sem ti, o que há de ser, Nossa Senhora,
Deste meu sonho de felicidade?!...
Ce n a I n fa n ti l
(Sob tema)
– Mamãe, eu sinto um pesar,
Uma dor que não tem fim…
Não sei, porém, explicar
O que me dói tanto assim!
– Prendeste algum passarinho?
Inseto mau te pico?
346 – Não, mamãe, é que o vizinho
Foi ao Céu e não voltou.
E a dormir, quando o levaram,
Num caixão de azul cetim,
Senti bem que magoaram
Não sei quê dentro de mim.
– E as horas passando estão,
Aumentando a tua mágoa…
Quanto mais se espera em vão,
Mais se enchem os olhos de água.
Não penses que ele voltando
Lá do Azul para onde foi,
A tua dor se dissipando
Nunca mais ninguém magoe.
O Céu é tão longe, filho,
Tão difícil de encontrar,
Que aquele que encontra o trilho,
Não deseja mais voltar.
– E assim sozinho, ao sereno,
O caminho acertaria?
347
– Sendo assim muito pequeno,
Os anjos servem de guia…
– Que fazem lá nas alturas
Os meninos como eu?
– Acendem as noites escuras
Com o lume que Jesus deu.
De dia tecem grinaldas
De rosas, cravos, boninas,
E tapetes de esmeraldas,
Para enfeitar as campinas.
Escuta, filho, o que digo:
O Céu tantos bens encerra
Que nunca mais teu amigo
Deseja voltar à terra.
– Pois, então, mamãe, procura
O teu filhinho sarar…
– O que o remédio não cura
Vai meu beijo aliviar.
348
– Mas como é que me vem
Aliviar o teu beijo,
Se não podes ver, também,
Onde dóis, como eu não vejo?!
– Se todo o teu corpo é são
E cresce a dor da ferida
Perscrutando o coração,
Sentirás a alma dorida…
E quando a alma padece
E o pranto umedece o olhar,
Somente o carinho, a prece,
O pranto fazem secar.
– Não sei o que seja a alma.
Que forma tem? Sua cor?
– Não tem forma, não tem cor;
Se sente, mas não se vê,
Como o perfume da flor,
Sem asas, voa serena,
Parece feita de arminho. 349
É mais leve do que a pena,
Mais sutil que um passarinho.
Não tocas, nem vês o ar,
Mas sentes que vai passando…
Assim, não podes tocar
Na tua alma soluçando.
Tristonha agora aparece
Em ti, que perdeste um bem…
Tua tristeza entristece
A tua mamãe, também.
Se, às vezes, te acaricio,
Quando tu foges do mal,
De alegrias, o murmúrio
Tua alma escuta, afinal.
Atente, filho inocente,
A alma bem deve ser
Tudo aquilo que se sente
Sem que ninguém possa ver.
E quando cresceres mais,
350 Por entre os carinhos meus,
Então compreenderás
Que a alma é o sopro de deus.
A l m as Para l e la s
Há nesta vida uma barreira densa,
Sombra maldita entre nós dois pairando.
Corvo de Poe, de garra adunca, imensa
Toda felicidade estrangulando.
Força do mal sobre nós dois suspensa,
Na figueira de Judas balouçando.
Um mistério, um abismo, a indiferença,
Reticências de amor nos separando. 351
Almas proscritas, almas paralelas,
Jamais se encontrarão. As sentinelas
Da inveja andam de espreita. Sorte amara…
E assim dissilulando a nossa estima,
Quanto mais este amor nos aproxima,
Mais a mão do destino nos separa.
I n g e n ui da d e
Diz a crença do povo, ingênua e mansa,
Que, quando um meteoro os céus percorre,
Enquanto ao nosso olhar a luz não morre,
Tudo que a gente pede a Deus alcança.
E acreditei, também, com segurança,
Na doce ficção que ao mundo ocorre:
Voz do povo é de Deus, e eu fiz-me criança,
352 Para crer, com mais fé, nisso que corre.
E, certa vez, o espaço interrogando,
Um meteoro vi, no Azul rolando,
Pensei então pedir por nós, que louca!...
Tão ligeiro correu, na noite calma,
Que os meus sonhos ficaram na minha alma
E o teu nome morreu na minha boca.
I no cê n c i a
– Mamãe, para que serve o trigo sem fermento,
Que há pouco transformaste em hóstia pequenina?
– Para guardar Jesus, das almas o sustento,
Quando o padre consagra, em âmbula divina.
– E Jesus cabe aí, maior que o firmamento,
Maior que o Céu, que o mar, que o vale, que a campina?
– É um mistério de amor que desvendar não tento,
O milagre maior que a lei de Deus ensina. 353
Como Jesus nos quer, como deixa o que brilha,
As estrelas, o sol, por ti, ó minha filha,
Por mim, por todos nós, onde procura abrigo…
– Dá-me a hóstia a beijar, mamãe, como desejo!
Quando Jesus chegar, encontrando o meu beijo,
Sabendo que foi meu, se alegrará comigo.
Indefinido Mal
Um não sei quê de dor e de alegria,
Desejo de chorar, se alegre venho,
É um nada que é tudo e não sacia,
É tudo quanto dou e nada tenho.
Um não sei quê de gosto e de agonia
Que me aniquila e, por senti-lo, empenho
O que sou nesta vida, o que seria
354 E o que de bom no coração contenho.
Um mal que em bem se muda na minha alma,
Um desespero que não turba a calma,
Vontade de querer, se nada quero…
Tranquilidade na desesperança,
Anseio de quem busca e não alcança,
Doce ilusão, quando mais nada espero.
L ua r
(Campagna Romana (numa tela))
Madona, do alto, a lua tudo assiste,
No varandim da noite se inclinando…
Quebra o silêncio da paisagem triste,
A oração dos pinheiros evocando.
Na voz dos ramos um lamento existe,
De coisas mortas, nem se sabe quando!
Luar, banhando a ramaria, insiste 355
Em abraçar as árvores, rezando.
O romantismo desse quadro belo
Evoca a velha história de um castelo:
A dama, o cavalheiro, o trovador…
Quebras de juras feitas em segredo,
Um duelo travado no arvoredo,
Um marquês que se bate por amor…
S ão Fra n c i s c o d e As s i s
São Francisco de Assis!
Tu, que chegaste, um dia,
De cantor do luar, de trovador da Umbria,
A rouxinol do amor,
Dá que possa cantar as coisas que cantaste,
Meu pobre coração, que é também trovador.
São Francisco de Assis!
356 Tu, que um dia, atraíste os passarinhos,
Fazendo pregações,
Fala, também, apóstolo das aves,
Ao pássaro azul das minhas ilusões!
São Francisco de Assis, poeta das colmeias,
Tu, que levaste as mãos cheias
De flores da Primavera, as mais formosas,
Para servires à dourada abelha;
Dá-me, também, dos teus botões de rosas!
São Francisco de Assis, namorado do sol,
Em que vias brilhar um sol divino,
Faze manhã as sombras do arrebol,
Que envolvem o meu destino!
São Francisco de Assis!
Que em teu burel tristonho
As andorinhas vinham se aninhar;
Sossega esta andorinha do meu sonho,
Que não quer se aquietar.
São Francisco de Assis!
357
Tu, que fizeste abrir rosas em palma,
No espinheiro da estrada, por encanto;
Tu, que tiveste a flor das cinco chagas
Desabrochando no teu corpo santo;
Transforma em rosa as minhas amarguras
E o amor que trava
Em mel para a minha alma!...
D i n di n h a Lu a
Lá fora, a lua anda a espalhar
Fios de prata do seu tear,
Para as estrelas, quando ela for,
Aos outros mundos levar amor,
Tecerem todas, noite de escuro,
O véu de noiva para o futuro.
358 Lá fora, a lua anda a espalhar
Fios de prata do seu tear…
Caminha triste, pobre velhinha,
Vai tão cansada!
Doce avozinha,
Parece agora que está parada.
Fica me olhando, de olhar magoado,
Por trás do vidro lá do telhado.
E vem-me a ideia do que eu fazia
Quando menina.
Pedia a lua, que então me ouvia,
Benção divina.
Daqueles tempos quanta saudade
Me veio então,
Fazendo forte
Bater no peito, triste, sofrido,
Meu coração!
Mas, doce, ainda, doce lembrança
Na alma flutua…
359
Quando eu dizia, com segurança:
– A minha benção, “Dindinha Lua”!
E procurava ver na medalha da lua cheia
São Jorge, belo, de espada em punho
E comprida meia.
E o seu cavalo me parecia
Como eu queria
Formoso assim:
Rubim
Nos freios,
De ouro os arreios,
Prata o selim.
Lá fora, a lua anda a espalhar
Fios de prata do seu tear…
E agora, grande, sua netinha
Pede a avózinha,
Que mora longe, nos céus azuis:
– Espalhe sempre, formosa e calma,
360 Dentro em minha alma,
Fios de prata, réstias de luz.
Lá fora, a lua anda a espalhar
Fios de prata do seu tear…
Nu ve n s 3 1
(Rabindranath Tagore)
- Mamãezinha, certo dia,
Daquela nuvem dourada
Que se parece contigo,
Quando vens de madrugada,
De mansinho, de mansinho,
Me beijar e me cobrir,
Com receio de acordar
O seu filhinho; 361
Daquela nuvem dourada,
Certo dia,
Começaram a me chamar:
– “Vem, menino, conosco aqui brincar,
Neste jardim de estrelas a florar.
É o Menino Jesus o jardineiro
Do mais belo canteiro.
Nós brincamos com Ele a toda hora,
Desde que o dia acorda até que vai dormir.
A nossa vida assim é bem melhor que a tua.
Nós temos por brinquedo o ouro em pó da aurora
E uma bola de prata, a mais bonita – a lua!
Anda, sobe, vem cá”.
– Sem asas, como posso ir até lá?
– Trepa naquele morro, o mais comprido
Que existe na cidade.
Depois as suas mãos estende-as para os céus…
E então
362 Todas as nuvens, que felicidade!
Nos seus braços, a rir, te levarão.
– Não posso ir, eu tenho a minha amada,
Que tem da aurora de ouro o mesmo brilho.
A esta hora, talvez, já esteja olhando a estrada,
À espera de seu filho.
Acredita, mamãezinha, eu não te iludo.
Se eu te faltasse, mãe, te faltaria tudo!
Sabes, mamã, agora o que pensei,
Vendo outra vez a nuvem que flutua,
Abrindo de ouro a asa?...
Eu sou a nuvem, tu serás a lua.
Com os meus beijos assim te cobrirei…
Será o céu azul a nossa casa.
Que coisa boa pode haver na vida
Melhor que esse brinquedo, mãe querida?!
363
Q u an d o e p o rqu e
(Rabindranath Tagore)
Quando trago brinquedos coloridos
Para ti, pequeno amor,
Que me espera ansioso, a suspirar por mim,
Nas grades do jardim,
Entre ramos floridos,
É que venho a entender,
Meu grande bem-querer,
364 Porque Deus fêz o coração de côr,
Porque a nuvem do alto, pesarosa,
Fica muito mais linda côr de rosa.
E porque a flor, tão alva e tão singela,
Troca, de vez em quando, a veste branca
Pela veste encarnada ou amarela.
Quando trago brinquedos coloridos,
Meu grande bem-querer,
É que venho a entender…
Quando canto
Baixinho
Para que tu dances,
É que conheço o encanto
Da música das folhas sussurrando
Para o passarinho,
Quando canto baixinho.
Quando o côro das ondas soluçando,
Canta cantigas da água mesmo assim,
Para fazer dançar a concha de carmim
É que conheço,
Meu bem, que não mereço, 365
Que tu gostes de mim!
Quando encho bem cheias de confeitos
As tuas mãos franzinas,
Pequeninas,
Sem defeitos,
Que me afagam, espantando dissabores,
É que sei porque existe tanto mel
No cálice das flores;
E porque é tão doce o suco
Das frutas saborosas,
Quando encho bem cheias de confeitos
As tuas mãos gulosas…
Quando te beijo as faces encarnadas,
Para ouvir-te as risadas
Sem maldade,
É que sinto em minha alma, meu pequeno,
A Suavidade
Que escorre do sereno
Nos jorros de luz das madrugadas.
366
E sei porque a manhã é mais formosa
Quando a brisa rumoreja
E beija
A rosa,
E porque é linda a tarde do verão!
Quando te beijo as faces, coração.
E s c uta !
Tenho um segredo na alma, tão guardado
Que escondo ele de mim, no meu sentido.
Mas tanto ele me tem mortificado,
Que eu vim queixar-me, ó Mãe, do que hei sofrido.
Quero contar-te tudo o que é passado
E te pedir perdão de haver mentido.
Mas, antes de contar-te o meu pecado,
Deixa beijar-te a fímbria do vestido. 367
Escuta: - Um mal de morte me atormenta.
Eu sinto na alma uma agonia lenta
E vou morrendo aos poucos, sem querer…
Perdoa, Mãe do Céu, a covardia,
Pois, toda filha em sua mãe confia
E eu tenho tanto medo de dizer!...
A n j o s d a g ua rd a do
n o s s o am o r
Noite. As estrelas pestanejando,
Tontas de sono, no Azul nevoento,
As lamparinas vão apagando
Por um momento.
Tudo escurece. Brilham depois
Louras pupilas para nós dois.
368 E, assim, fugindo da treva densa,
Entre os escolhos a resplender,
A luz constante dos astros raros
Descerra os cílios dos olhos claros,
Para nos ver.
É que, de longe, Nosso Senhor
Faz que as estrelas, beijo de Deus,
Faróis das noites abrindo em flor,
Círios acesos no altar dos céus,
Mais lindos sejam
Quando desejam
Servir de guardas ao nosso amor.
Desfilam nuvens brancas, nevadas,
Ovelhas mansas arrebanhadas,
Pascendo
Flores,
Bebendo
Luz,
Nos áureos prados
Estrelejados
369
Nas fontes de ouro, dos céus azuis…
As nuvens passam, marcham depois,
Sempre voltadas
Para nós dois.
Agora, a lua nos vem olhar
Pela janela do seu solar.
Todo de branco, no Azul bordado,
A nívea deusa recorda, assim,
Noiva formosa,
Para, ditosa,
Que faz o manto do seu noivado
Da via-láctea cor de marfim.
E, enquanto tímida a cabeça esconde
Lá onde
A noite tem esplendor,
Enche-nos a alma,
Risonha e calma,
De tal fulgor,
Que até parece
370
Que o luar cresce
No nosso amor.
As nuvens passam… Marcham depois,
Sempre voltadas para nós dois.
RO SAS D E TO D O A N O
Pa ra n ó s d o i s
Quando aquela manhã chegar à curva do mesmo
caminho, à borda do mesmo lago, para nós dois,
sonhadores do mesmo sonho.
EU e TU beberemos luz no cântaro do dia.
E então a voz profética do Rabindranath embalará
os ramos e a poesia nos embalará.
… E eu acordarei do sono que dormi à tua sombra…
… Ao relento.
372
M AD R I GAI S
Q u e c h e i ro bo m !
Que cheiro bom!...
Que coisa deliciosa
Cheirei, agora, como por encanto!...
Fôsse, talvez, um cálice de uma rosa
Não cheiraria tanto.
De onde é que vem esse perfume assim?
Perfume novo e velho para mim,
374 Forte, tão forte, que me entonteceu,
Se mistura comigo e não sou eu?...
Perfume que recorda o cheiro do teu lenço,
Mas não é.
Não é também incenso,
Mas se parece com incensação
Este perfume, a perfumar sem conta…
É que hoje cheirei de manhãzinha
A flor vermelha do teu coração
E fiquei tonta,
Tontinha…
Co m o fo i ? . . .
Como foi que eu dormi ao relento
E cheguei a sonhar,
Se estava alerta, agora, olhando o teu olhar?
É tão ameno o sereno
Do amor que vem de ti,
Que o bebi
De um só trago
E adormeci na borda enluarada do teu lago.
375
Fui i n c e n s ar
Fui incensar
Os teus campos orvalhados
Para a missa silvestre.
E encontrei-os de flores tão providos,
Que fiquei a pensar:
São todas elas para os meus vestidos,
Quando eu vier contigo passear.
376
A m i n h a al m a
A minha alma na tua mergulhada,
Meu coração batendo pelo teu…
E eu já nem sei dizer quando é tu, meu amor,
Nem quando sou eu…
377
Q ue ro be i j ar
Quero beijar o teu manto primeiro,
Depois, então, repousa!...
Ajoelhei-me ao teu santuário,
Como na sombra de um jasmineiro
Em flor,
Quando faço oração…
Sou mariposa,
378 Beijei no cálice do teu coração.
Quero beijar, agora, as sandálias douradas.
Deixa-me por quem és!...
Mas, se eu puder beijar duas hastes floradas,
Tenho beijado a marca dos teus pés.
Quero beijar, ainda, a túnica de rei
Que me esconde
Nas dobras de tua alma,
Como o orvalho nas pregas de uma flor
Que te dei.
Quero beijar o gesto com que pretendes
Afagar
O meu sonho mais sonhado!...
Beijei dois lírios bentos lá no altar
Que tem o mesmo cheiro e o mesmo agrado…
Quero beijar a mente incendiada
Com que pensas em mim
Nesse momento…
Eu dei um grande beijo na alvorada
E pensei que era assim
Que eu devia beijar teu pensamento. 379
Quero beijar, enfim, no sentimento
Com que gostas de mim…
Dize, meu amor,
Eu faço o que desejo?
Mas, se eu beijar aquela estrela,
Aquela,
Encho a tua alma toda com um só beijo!
Te n to f ug i r
Tento fugir do teu olhar,
Me enveredo no atalho
Dos escolhos.
Evito a luz do luar,
Para não te ver…
E caio, sem querer,
No luar dos teus olhos.
380
De s d e a q u e l e i n sta n te
Desde aquele instante em que te olhei,
Voltou-me o riso, o amor, a confiança, a calma.
E, nunca mais com a noite eu me avistei,
Porque faz sempre dia na minha alma…
381
É ta rd e !
É tarde, é muito tarde, meu amor,
Se alguém nos visse, agora, aqui sozinhos,
Falaria
De nós, sem piedade.
Não vês a escuridão?...
Mas, toda gente sabe na cidade
Que eu conto as horas todas do meu dia
Pelo relógio do teu coração.
382
Co nve rs an d o
Quando passo contigo conversando,
No terraço a florar,
Eu penso que as estrelas vão pensando
Naquilo que dizemos sem pensar.
383
Olha!
Olha naquele poço tão profundo,
Uma estrela cadente,
Como ainda não vi outra mais bela,
Nem tão brilhante assim!...
Caio dentro do poço de tua alma
E apanho-a para mim.
384
Nã o m e o l h e s
Não me olhes assim, nunca, na vida.
Eu tenho medo, é sério.
Não me olhes assim com tal mistério…
Se eu te faço sofrer, me fazes louca
Pelo teu quebrando.
Provei o teu olhar… Amarga tanto,
Que chega a amargar na minha boca!
385
RO SAS D O T E U RO SA L
387
A TI que não és senão a onda que me embala, som que
me adormece, o perfume que me envolve, a fumaça azul
que me faz sonho e se desfaz nas minhas mãos sem ao
menos tocá-la de leve.
TAGORE
F lo r do te u c an tei ro
Um dia,
Desejei
Do teu jardim,
Da roseira florida
Que eu não via,
Todas as rosas que sonhei
Na vida…
388 Entrei…
E, olhando o jardineiro descuidado,
Sem me olhar, sem me ouvir,
Sem mesmo pressentir
Que eu tinha entrado,
Em vez de lhe pedir,
Como devia,
As flores que eu queria,
Furtei-as…
Fiz um pecado!
Mas logo foi punida
A criminosa…
Aquela rosa,
Aquela,
Tão alva e tão singela,
Dentre todas, talvez, a mais formosa,
Pode ser a mais cheirosa
Que existe em teu jardim,
Mal fui lhe pondo a mão devagarinho,
Com toda a precaução,
De leve, mesmo assim,
Feriu-me, de repente, o seu espinho 389
Aqui… No coração…
…………………………………………
Para ter sempre flor do teu canteiro
Eu mesma vou pedir ao jardineiro…
Co m o s e fo s s e o l u a r
Deixa-me estar, Senhor, no teu jardim florado,
Deixa-me estar assim.
Como entra o luar no teu jardim!...
Ela dizia isto ao bem-amado.
No teu canteiro há tantas flores, tantas!
Deixa-me entrar, Senhor!
Que mal posso fazer às tuas plantas,
390 Se és o Plantador?
Já viste alguma vez a lua cheia
Desenrolando
Luz nos teus rosais?
Ela entra sutil
Pelo gradil,
Na grama
Veludosa,
Se derrama
E serpeia… E serpeia…
E, embebida de luz,
Cada rosa parece a lua cheia
E as roseiras parecem com o luar…
Deixa-me entrar, Senhor, no teu jardim florado!
Deixa-me entrar, assim
Como se fosse o luar no teu jardim;
Assim como se fosse a lua doce e calma
Cobrindo os teus rosais.
Senhor,
Eu quero ser a humilde jardineira 391
De tua alma.
Nada mais, nada mais!!
O te u j a rd i m
Senhor,
Eu parti cedo
E vim com a madrugada
Porque é longo o caminho.
Eu tive medo
De me perder na estrada.
Parei, aqui, ali, colhendo malva
Até minha alma encher da luz da estrela-d’alva.
392
Trago os meus pés feridos nos espinhos,
Receando acordar teus passarinhos.
E palmilhando vim areias tantas,
Para não machucar as tuas plantas.
Senhor,
Venho de longe, muito longe.
Ouvi falar de ti, do teu jardim de monge.
Ouvi falar, também, do teu mistério.
E até, se não me engano,
Ouvi dizer que existe em teu império
Um rosal que dá rosas todo o ano!
Que as roseiras podadas
Estão todas de novo carregadas…
Que aquela que se enrola no gradil
Há de florir no fim de abril.
E a fonte de águas claras está cheia,
Para matar a sede das roseiras,
Quando o sol do verão as rosas encandeia.
E o Senhor respondeu: 393
– É certo, mas, às vezes, acontece
Que de tristeza o meu jardim padece.
Há tanto espinho, tanto, em cada palma,
Que eu tenho medo de espinhar a alma…
E cai tanto sereno, lacrimando,
Que eu penso que a roseira está chorando…
E a serva disse assim:
– Pois, sim, eu fico aqui,
Perto de ti,
Do teu jardim.
Não posso mais voltar,
Sem ser com a madrugada.
E quando ela chegar,
Para ir comigo,
Eu, com jeito, lhe digo:
- Não vou, não.
Estou muito cansada
Do rigor da jornada
394
E o peso que faz meu coração.
Já não sei dos caminhos,
Esqueci-me do atalho…
Por isso eu fico aqui,
Perto de ti,
Ceifando espinhos
E apanhando orvalho.
E ra um a ve z …
Ontem,
Dia marcado
Para a serva ir encher o cântaro sagrado,
Na água benta do lago do jardim,
Ela acordou mais cedo
E foi com muito jeito e muito afago
tentar,
Muito em segredo,
395
Se, bebendo a água do lago,
Bebia o teu olhar.
E as águas
Marulhosas,
Entre flores singelas,
Contavam às borboletas amarelas,
Uma história de amor:
– Era uma vez um príncipe encantado,
Que sonhava acordado.
Poderoso senhor,
Ele habitava na falda
Da montanha de Rubim,
Num palácio dourado.
Possuía um jardim
Maravilhoso e um lago de esmeralda,
Onde um pássaro de ouro a gorjear,
Banhava as suas penas ao luar.
Há quem diga que o príncipe indiano,
Duas vezes por ano,
396
Ainda hoje aparece pelos campos,
Vestido em túnica real
Acompanhado pelos pirilampos,
Fazendo bem a quem lhe faz o mal.
E da sua alma a luz que se destende
A escuridão amanha…
E as estrelas do céu, então, acende
No caminho infinito da montanha.
Certa vez,
Numa linda manhã clara e rosada,
O príncipe desejou
Da roseira do amor uma rosa encarnada.
Fez do seu coração um jarro de cristal.
E, com muito ciúme,
Aí depositou a rosa original,
Para aspirar melhor o místico perfume.
À tarde, a linda flor, rubra centelha,
Perdeu de todo a sua cor vermelha.
O perfume evolou-se… 397
E, sob o olhar do príncipe encantado,
A rosa desfolhou-se…
Desde este dia, então, dizem fadas bondosas,
Para consolo dessa desventura,
Que o poderoso olhar desse senhor
Tem o alto poder de transformar
O sofrimento em rosas.
E, até o coração, se ele o fitar,
Pode mudar
Em flor.
É por isso que, às vezes, de repente,
Eu me sinto mudada
Numa linda roseira bem viçosa,
Carregada de folha e coberta de rosa.
398
A ve pe rdi da
Aquele passarinho
Maltratado,
Ferido, desolado,
Que encontraste sozinho,
Na escuridão de aspérrimo caminho,
Era meu coração,
Ave perdida, sem saber do ninho.
Deste-lhe, então, pousada 399
À sombra que fazia
A ramaria
Umbrosa,
Calma,
E silenciosa de tua alma.
Deste-lhe da água corrente
Que refresca e sacia.
O teu rosal de rosas se cobria…
E ele viu novamente a luz do dia,
Na promessa da luz da nova madrugada.
Vez por outra, porém,
Ele entristece
E a pena que padece
A voz lhe embarga.
O próprio orvalho de beber se esquece
E a fruta por mais doce ele acha amarga.
Quem sabe o que ele tem?
Quem foi que viu a dor que faz ficar tão triste
400
Tão alegre cantor?
É que há dias não vem trazer-lhe o alpiste
O doce Benfeitor…
O s e n h o r d o l u ar
… E ela desceu, cantando, os seus cantares
Abriram, dentro da água, magnólias.
Ia, outra vez, encher com muito afago
O cântaro do amor, nas águas do teu lago.
O sereno caía…
E a serva pressurosa,
Entre os ramos floridos do jardim,
Levava o luar de maio, em sua companhia, 401
Era um luar tão claro e tão bonito,
Que, até, me parecia a flor das laranjeiras
Engrinaldando o azul, lá, do infinito,
Para o noivado branco das roseiras…
Quando a serva chegou,
Como alguém
Que, de não ver o amado, se arreceia,
Ajoelhou-se e rezou,
Uma oração de luz, à lua cheia.
Nisto, ela vem, de leve, se inclinar
Sobre as bordas do lago, a meditar…
E quando o lago verde clareou
E a lua
Retratou,
Eu vi, lá dentro da água, a imagem tua
Que me olhava…
Foi só assim que pude descobrir,
Quando o luar começa a reflorir
E se escuta a sereia
402
E, de leve, um rosal pelo espaço flutua
Desolado,
Que és tu – Príncipe Encantado –
Aquele cavalheiro que passeia
Pelas montanhas brancas, lá, da lua…
– São Jorge, a vaguear, nas noites luminosas,
Pelo campo nevado, em floração…
– O Senhor do Luar despetalando rosas
Sobre o meu coração.
A tu a j a rd i n e i ra
– Que vens fazer aqui de manhãzinha?
Que vens fazer aqui, sem ordem minha,
Com alegria tamanha?
Não vês que em meu jardim
É proibida a entrada à gente estranha?
É severo o castigo que eu costumo infligir,
Porque sou dono,
A quem se atreve a perturbar meu sono.
403
– Não me conheces mais?
Estranha te pareço,
No entanto, pela sombra, eu te conheço!
Escuta a minha história:
– Um dia a água da fonte escureceu
E passaria turva a vida inteira…
Mas olha a água da fonte e verás que sou eu
A tua Jardineira.
Fo ste t u m e s m o
Quem andou por aqui antes de mim?
Quem mudou de lugar esse pé de jasmim?
Quem teria colhido a flor de bogari
Que eu deixei para ti?
Quem apagou a aurora assim tão cedo,
Antes de eu chegar
Para a apagar?...
404 Foi alguém que já sabe do segredo…
E quando tu chegares, que direi?
Tenho medo!
Levaram tudo o que eu te havia dado
E tu não tens mais confiança em mim,
Meu bem-amado!
Nas árvores
Sinto, porém,
O embalo dos teus braços.
No lago o mesmo brilho e a mesma calma.
No jasmineiro encontro a tua sombra.
Em tudo encontro a marca dos teus passos…
Porque foste tu mesmo
Quem furtaste a minha alma…
405
E u e vo c ê
Se eu sou a luz do sol para você
A encandecer sua alma de verão;
Você é para mim a água da chuva
Que alegra e faz cantar
O passarinho do meu coração.
Se eu sou a chama acesa dessa luz
Que faz você viver; você
406 É para mim a sombra iluminada
Dessa noite estrelada,
Em que eu vivo a sonhar
Toda vida acordada,
Numa doce ilusão de amanhecer.
Se eu sou todinha o sol
Que seduz e abrasa
A mariposa tonta de sua alma;
Você é para mim o ritmo divino
Da asa inquieta
Na dança singular do meu destino.
Se eu sou para você a claridade
De um dia que amanhece…
Você é para mim aquela suavidade
Que a gente sente e nunca mais esquece.
Se eu sou para você o sol que tinge a planta,
Você é para mim a árvore que fala.
Se eu sou para você o pássaro que canta,
Você é para mim a onda que me embala.
E eu e você, nós dois sozinhos,
Vamos cantando com os passarinhos 407
Em busca de ilusões e de esperanças.
Eu serei sempre o sol nos seus caminhos.
Você a fonte de águas bonançosas
Dessa roseira brava de meus sonhos,
Que em vez de espinhos,
Para você dá rosas.
O UT RO S V ER S OS
No rde ste
Que mais feliz o teu destino fosse,
Do que sujeito ao sol que te consome.
Pedes na seca a esmola de água doce
E um pedaço de pão porque tens fome.
Sumiu-se a voz do boiadeiro, mudo.
Secaram as fontes que aleitavam o rio.
No desespero de quem perde tudo
Fecha a porteira do curral vazio.
409
Teus lábios racham, ao travo das raízes.
Carregas o destino de infelizes,
Rasgando os ombros nus, nos espinheiros…
Enquanto arquejas, maltratado, langue,
A terra tísica vai golfando sangue,
Pela boca vermelha dos cardeiros.
D e u s te s al ve , N ata l !
De manhã cedo, quando vim chegando
E de longe avistei o teu vulto, na estrada,
Eu bem que vi, na sombra do arvoredo,
Que era tu mesma, terra idolatrada!
Que é teu esse perfume doce e agreste,
Esse cheiro de ubaia pelo chão,
Que toma os meus sentidos e ainda invade
Todos os cantos do meu coração.
410
Deus te salve, Natal! Sinto o teu hálito
De bruços, na minha alma, em doce anseio.
Toco-te as formas, no teu corpo hábito
De onde o meu corpo, terra minha, veio.
Escuto a tua fala pelos ramos,
Na garganta das árvores sonoras…
Tal como fazes todas as manhãs,
No despertar de todas as auroras…
Como a cigarra volta pelo estio,
Da minha ausência ao teu encontro saio…
E vejo, na água benta do teu rio,
Toda a beleza azul do mês de maio.
Os teus braços me estendes cuidadosa
Na descida, na curva, desigual.
Não queres que a minha alma se machuque
E aceito o teu carinho maternal.
Recebo o teu abraço, me afagando,
Encontro a minha boca em tua boca,
Bebendo o orvalho que caiu na planta…
Desse idílio de amor, então, despertas
411
Como no ramo o pássaro dormido
Sacode as asas docemente e canta.
És tu mesma, Natal! Não há mudança
Em tudo quanto vejo e quanto sei…
É o mesmo céu azul, o mesmo rio,
O mesmo mar, a mesma Fortaleza,
Tudo que há mais de um ano, aqui deixei…
Dos teus encantos, linda namorada,
Mais do que eu nenhum poeta fale…
Ouço ao pé das colinas o cício
Das borboletas sacudindo o vale.
Mostra-me o Potengi, cheio, bolsando,
Na água clara que azula e que esverdeia
E eu lhe digo: — cheguei, amado meu!
E ele, ondulando as curvas das gamboas
Estremece entre os mangues, serpenteia.
Meus olhos verdes docemente ponho,
Na visão da cidade, em maré cheia,
412 Que o sol a iluminar, seu corpo mostra.
E perguntas: — que é feito do teu sonho?
E eu me fico a pensar, sem ter resposta.
Abres-me o pano da coberta azul.
Lento, o teu gesto mostra o firmamento,
Plácido, arqueado, em concha de cetim…
Contigo vôo, roçagando estrelas,
Baixando as asas, em Parnamirim.
Emerges da lagoa para a história,
Dos horizontes aclarando o véu…
E trazes, na coroa da vitória,
O destino do mundo no teu céu.
De vez em quando, sinto o teu carinho,
Da brisa as asas me afagando o rosto
E o canto triste da inhambu do ninho.
Deus te salve, Natal! O teu farol
Pisca nos morros, sobre as areais…
Vejo as banheiras verdes do Tirol 413
Nas ventarolas dos teus coqueirais.
Seja onde for, aqui, ou seja fora,
Falo do teu encanto singular,
Das tuas praias, da água do teu rio,
Que ondulando, embalou Nossa Senhora.
Tu és a sombra amiga e benfazeja,
Nas areias ardentes do caminho,
Amor a que se ama toda a vida,
Sem pedir recompensa de carinho.
Deito a minha cabeça no teu ombro
E encontro o amparo doce e maternal.
Junto de ti, me sinto defendida
De muitas culpas e de todo o mal…
És sempre clara, mesmo anoitecida,
Sempre tranquila, mesmo atormentada!
Foste na glória um dia concebida
Para um grande destino de alvorada,
Que outras cidades não tiveram igual!
A ti, em teu louvor, canto o meu hino.
414 Tu nasceste no dia do Menino,
Deus te salve, Natal!
C ravo s
Muito obrigada! Cravos? Da cidade?
Onde foste buscar tão lindas cores?
Vermelho, cor de rosa, raridade!
Como foste gentil! Falam de amores.
Que perfume sutil! Que suavidade!
Enchem meu coração cheio de dores.
E como eu te agradeço, na verdade,
Do cravo gosto mais que de outras flores. 415
Sinto no cravo um cheiro diferente,
Um cheiro que me toma inteiramente
E faz leve a minha alma pesarosa…
E nesta embriaguez, tonta de espanto,
Vejo nascer, no vale do meu pranto,
Uma porção de cravos cor de rosa.
Co nve rs a c o m
N o s s a Se n h o ra
— Nossa Senhora! Se você soubesse
Como por aqui tudo mudou?
Como está diferente do seu tempo,
Quando você no Potengi chegou?
Não há mais passarinhos na alvorada
Que a maldade dos homens espantou.
416 Nem pescador humilde, de alma simples
Descendo o rio pela madrugada,
Entrando na água sem hesitação…
Não há mais jeito de cair na rede,
Nossa Senhora da Apresentação.
Nossa Senhora! Se você soubesse
Como faz medo hoje se viver?
A inveja, o luxo, o ódio, o desigual,
O orgulho, a vaidade, a insegurança,
O desnível da classe social;
A fome que aniquila o povo seu,
O desengano na desesperança,
Em que o rumo da vida se perdeu…
Não se tem consciência do pecado,
O sentido do amor foi transviado…
São tantas as ciladas, as tormentas,
Que o futuro quem sabe o que há de ser?
Só você, Mãe querida, que é Rainha,
Pode tudo mudar com o seu poder!
417
A s ro s a s e n c ar n ad a s
Uma porção de rosas encarnadas
Apanhei de manhã, numa oferenda,
Aquele que tu és.
E enchi todas as rosas com o meu beijo,
Para que, quando sentisses o perfume,
As rosas todas te beijassem a boca
E em beijo as rosas te beijassem os pés.
418 Mas, ah! Perdida em teu olhar,
Esqueci-me das rosas apanhadas
E quando as fui buscar,
Achei-as desfolhadas…
E direitinho aconteceu comigo,
Sem perceber, na minha embriaguez,
Os sonhos todos que sonhei contigo,
Se desfolharam todos de uma vez!
A s a b e lh a s
As abelhas que moram aqui, vizinhas,
Bem pertinho de nós, de nosso amor,
Brincaram de ciranda entre nós dois,
Pensando que a ternura fosse flor.
E, tontas de perfume,
Começaram a rodar.
Tomadas de ciúme,
Beberam o mel de um beijo, pelo ar…
419
E entraram, sem pedir, na casa inteira,
Boliram no floral da jardineira,
Nos ramos do oratório, no missal,
Nas cortinas, nos quadros, nos meus livros,
Na minha alma, na minha fantasia,
No livro azul do sonho que floria…
E levaram a manhã mexendo em tudo…
No espelho, no reposteiro de veludo,
Na estante, em teu retrato, no cinzeiro,
No tapete, nos cravos do jarrão,
Naquela estatueta que me deste
Que eu gosto tanto dela! — O gazeteiro;
No relógio, na caixa de bombons,
No ramalhete sobre o almofadão.
E assim correram em bando toda a casa,
Abrindo, sem parar, a ventarola da asa.
Remexeram na minha secretária,
Na procura da flor misteriosa,
420
Que não era jasmin, nem era rosa:
— Talvez fosse ilusão!...
Quando o sol se escondia, lentamente,
As abelhas, zumbindo, alegremente,
Fizeram cerco no meu coração…
Ca p i ba r i b e
Capibaribe tristonho,
Tu, que vives a embalar,
Embala, embala o meu sonho,
Não me deixes acordar;
Que a coisa melhor da vida
É a gente poder sonhar.
Ó rio que vais correndo,
Tu vais em busca de alguém? 421
Eu vou-me embora contigo
Que aqui não deixo ninguém;
Deixo Recife que eu amo
E que me ama também.
Vou em busca de outro sonho,
Vou buscar nova ilusão,
Que os poetas nunca sabem
Onde deixam o coração.
Eu quero partir cantando,
Como cheguei a cantar;
Vou com o sonho me enganando
Para ter em que pensar…
E outra vez voltando aqui,
Nunca mais queira deixar…
Capibaribe tristonho,
Tu, que vives a embalar,
Embala, embala o meu sonho,
Não me deixes acordar,
422
Que a coisa melhor da vida,
É a gente poder sonhar.
S i n al de p a z ?
A TRIBUNA publicou que na fusela-
gem da torre de um foguete ameri-
cano, uma pomba fizera o seu ninho,
despertando a curiosidade de muitos
e a habilidade de fotógrafo amador.
Na torre de um foguete americano,
Uma pomba nativa se aninhou,
Afrontando o perigo, a temerária
423
Sobre um ninho de palhas se deitou.
Curiosos passaram admirados
Da coragem que a pomba se tomou
E assim sob a ameaça do foguete,
A pomba afoita se fotografou.
Que mensagem divina ela nos trouxe?
Que o rumo das auroras navegou?
Que ordem, que recado, que mandato
A linda mensageira carregou?
Cruzara os quatro céus do firmamento,
No destino dos ventos velejou.
Bebeu no arroio doce do arco-íris,
Nas espumas das nuvens se banhou.
Há quem diga que a linda pomba branca,
Que no pó das estrelas mergulhou,
Foi entregar ao Presidente Kennedy
424 Um aviso do Céu, que Deus mandou.
Conselho, advertência, nada mais.
— Que fossem transformados os foguetes,
Em palácios pombais…
Pois, só assim a ave mensageira
Que no foguete atômico pousou,
Pode outra vez, no bico cor de rosa,
Trazer do monte o ramo de oliveira,
Na paz que em nossas mãos se desfolhou.
Na m an j e d o ura de B el ém
Se num berço de estrelas cravejado
Não quiseste nascer,
Foi para nos dar o exemplo da humanidade
E a pobreza esquecida engrandecer.
Junto das palhas secas do presépio
Que te serve de berço, Deus Menino,
Não te venho pedir glórias, riquezas;
Já me deste demais, deste a alegria 425
Do bem poder fazer seja a quem for…
Eu te imploro, Jesus, que deposites
Na mochila vazia da indigência
O pão de cada dia;
E nos homens sem fé a luz do amor…
As palhas do presépio, em cobertura
Na choupana do pobre sem ninguém.
Da Lapinha onde estás manda a esperança
E os teus pastores entregarem às creches
O leite das crianças,
Sem nada, como tu, meu bom Jesus!
Abre os capuchos de algodão nos campos,
Manda vestir os nus.
Deixa cair da fonte azul do céu,
A chuva nos caminhos;
Senão verás a flor murchar no pé
E a alegria findar, dos passarinhos.
Mães que na seca vêem morrer os filhos
De fome e sede… A quem pedir? A quem?
426
Do seio espremem o sangue, em vez de leite,
Quase mortas, também…
Despeja as nuvens cheias sobre a terra,
Enverdece o roçado, a solidão do agreste…
Faze as ondas de enchentes se quebrarem
Na boca dos açudes do Nordeste.
Dá-me a certeza de que sou ouvida,
No primeiro arco-íris que nascer…
Antes que finde a aurora dos presépios,
Todos os rios secos vão correr;
Todas as fontes da alma que secaram
Novamente de amor se vão encher.
427
U m a i n te r ro g aç ã o
Esquisito que és! Difícil de entender!
Estranha natureza de homem essa tua!
Tens coisas tais, gestos indefinidos,
Coisas que eu sinto sem compreender;
Palavras que vão além dos meus ouvidos,
Intervalos, renúncias silenciosas,
Que escapam ao mais atento dos sentidos,
Ao mais atento mesmo em te entender.
428 És assim! São assim todos os homens,
Eterna negação.
Por mais que o teu amor ao meu se dê,
És sempre para mim, uma interrogação.
Tor m e n ta
Noite de inverno.
Toda a casa dorme.
Em vão me queixo,
Em vão lamento,
Em vão maldigo
Do silêncio da noite
A estranha calma.
O tique-taque de um relógio antigo
Marca a maior tormenta da minha alma. 429
Penso em ti, penso em mim,
Na minha vida,
Que as tuas mãos trancaram sem saber…
Sofro a condenação de não ser entendida
E a pena ainda maior
De nunca te entender…
E s s e te u be m
Tem qualquer coisa de selvagem, tem
Qualquer coisa de espinho e flor silvestre
Pela correnteza carregada
Esse teu bem, que, às vezes, dói
E ao mesmo tempo agrada…
É doce agora, amarga de repente,
Essa tua maneira de gostar da gente.
430 Essa tua maneira de entender
Parece até, às vezes, malquerer.
É rude esse teu bem, mas é gostoso, é.
Tem um tanto de doce e um quê de azedo.
Sabe a mel de cortiço e a fruta agreste
Apanhada no pé, de amanhã cedo.
C i ú m e s do m ar
— Gostas tanto do mar e eu me fico tão triste!
Tão triste! Só de pensar
Que tu gostas assim tanto do mar.
Tu gostas mais do mar do que de mim,
Bem o sei, porque dizes
Que o mar é sempre verde
E que as sereias têm verdes as tranças...
Tolice!... Tu não vês 431
Que eu tenho a alma
Toda verde de esperanças.
Tu gostas mais do mar do que de mim,
Porque dizes que o mar te embala o sono,
Como a tua mãezinha
Te embalava em menino,
Numa eterna canção...
Mas tu não sentes
Que sou eu quem te embalo,
Agora, com os meus versos,
Que sou eu quem te nino o coração?
Tu gostas mais do mar do que de mim,
Porque dizes
Que o mar contigo brinca sem enfado…
E tu não brincas comigo
Toda a vida de namorado?...
Tu gostas mais do mar do que de mim…
No entanto, o mar te engana e eu não te iludo...
432 Eu gosto mais de ti do que de tudo.
Do que da luz, do que do céu, do que do mar…
Mais do que do cheiro
Da mata amanhecida;
Mais do que da roseira
Estrelada de flor…
Porque tu és para mim a Natureza inteira!
Porque tu és para mim o ritmo da vida!
Porque tu és o Amor!
No s s a Se n h o ra da
A p re s e n ta ç ã o
Nossa Senhora da Apresentação,
O teu povo tem fome e nada alcança!
Na sacola do pobre não há pão,
Já se apagou a estrela da esperança.
Não há fé, nem ternura, na aflição,
Não há luz na palhoça sem bonança.
Tudo é pobreza. Tudo clama em vão. 433
Não há leite, nem mel para a criança.
Vê que tristeza, vê, Nossa Senhora,
Quanta boca vazia que te implora,
Quanta gente dormindo pelo chão!...
Perdoa o povo teu! Fosse o que fosse,
Maior seria o amor de Mãe, tão doce,
Nossa Senhora da Apresentação!
O fe re n da de p o bre
Tudo quanto de ti se diz, Senhora,
Muito pouco se disse em teu louvor…
E, por mais que se diga, a toda hora,
Nada se diz que seja o teu valor.
Ninguém pode dizer quanto devia
Ser dito em lábio humano, em teu louvor…
Como dizer-te, agora, eu bem queria,
Se soubesse falar do teu amor.
434
Não há brancura comparada à tua.
Nem se diga que o lírio te igualou…
Que se digam de ti coisas divinas,
Todas elas são frágeis, pequeninas,
Tu que és formosa como Deus sonhou.
Quem menos do que eu louvar-te-ia,
Sem dons e sem virtudes como sou?...
Aceita, mesmo pobre e sem valia,
O triste coração que hoje te dou!
Po e m a do s o l d a d o d e
Fer n a n d o N o ro n h a
Soldado de Fernando Noronha!
Tu, que vives cercado
Da água amarga do mar,
Longe de todo afeto conquistado,
Longe de todo bem, que se pode alcançar…
Tu, que és noite e dia,
Sob a coberta azul de um céu anil,
435
O primeiro vigia
Do querido Brasil;
Tu, que espreitas, no “alerta!”
Da guarita do tempo nebuloso
Essa esperança incerta
De outra vez ser ditoso…
E levas toda vida, ansiosamente,
Auscultando o futuro duvidoso,
Nessa noite de escuro, permanente,
Na missão de salvar, no solitário passo,
Da áurea visão da paz, o branco véu,
Entre dois infinitos: — água e espaço,
Entre dois oceanos: — mar e céu;
Tu, que és sentinela
Da hora incerta
A segurar o mastro da bandeira
Em floração aberta,
Numa verde esperança desdobrada,
Na promessa de que a Pátria Brasileira
Jamais será tomada;
436 Tu, que ficas à espera
Desta guerra sem nome,
Que a vida e o riso e o coração consome,
Alegria, ilusão, juventude que sonha,
Em plena Primavera.
Tu, que vives aí,
Dentro da própria Pátria desterrado,
— Esquecido de ti,
Sendo apenas tratado
Pelo heroico nome de soldado
De Fernando Noronha,
Na solidão que o amor não floresceu,
Na ilha do abandono
Que o mar apiedado enverdeceu;
Como podes pensar, ó grande patriota,
Que a gente brasileira te esqueceu?
Todos cuidam de ti. És sempre o preferido,
Nessa ilha onde estás pela divina graça…
És o gênio do bem, o guerreiro escolhido
Para impedir que chegue até nós a desgraça!
437
— Soldado de Fernando Noronha!
Tu, que sofres da ausência a dura prova,
Altivo, destemido, varonil,
Na ilha onde a ventura emudeceu;
Tudo para salvar
O teu e o meu Brasil…
Como podes pensar
Que a mulher brasileira te esqueceu?
Que ninguém te esqueceu, pois és o soldado
De todo bem da terra despojado
Para nos defender,
Para a pátria salvar, na imolação divina,
De tudo quanto amas:
— A terra enverdecida,
A noiva, a mãe, a irmã, a esposa estremecida,
O campo, a roça, o engenho, o açude, a correnteza,
A fazenda, a levada, o rio, a natureza…
A vida de rapaz alegre, descuidada,
A alegria da rua, o clube, a namorada,
O esplendor da cidade e tudo que fascina,
438 Camaradas, esporte, o teatro, a avenida,
A estrela que aflorou…
A ternura da avó, a filha pequenina,
Toda a felicidade desta vida,
Que a guerra, cruelmente, desmanchou…
Que ninguém te esqueceu, pois, tu és a esperança
Do futuro, a surgir na penumbra do sol…
Que ninguém te esqueceu; é de ti que a bonança
Outra vez há de vir clarinar no arrebol;
Que ninguém te esqueceu, a verdade hás de tê-la,
Fita o céu constelado e, sentirás, no brilho,
O olhar da tua mãe rezando em cada estrela,
Pela volta feliz do seu querido filho!
Que ninguém te esqueceu, farda verde querida,
Bendito sejas tu, Soldado Brasileiro!
439
Re tra to de m ãe
Como eu te quero, minha mãe velhinha!
Mesmo doente, frágil, dolorida,
És a esperança que acalento ainda,
És a alegria que pedi na vida.
Foste tão bela! A mais bonita foste!
Como eu te acho muito mais, agora,
Que te mostras na dor tão parecida
440 Com o rosto meigo de Nossa Senhora!
No ninho triste dos cabelos brancos,
Lembras um pássaro que não canta mais!
Rezas somente, em frente ao santuário,
As tuas penas, teus padecimentos,
Nas contas, muito azuis, do teu rosário.
Sumiu-se a tua voz, e eu fico ouvindo
O acalento de outrora, em meu destino!
E te escuto, mãezinha, ternamente,
Cantando coisas de deitar menino…
Que nunca a luz e a cor do olhos claros
Se apaguem para mim na noite escura!
Que a tua benção não me falte nunca,
Na tristeza, na dor ou na ventura!
Que ela me acompanhe, por toda a vida,
Com a sua proteção, com o seu amor;
Que me sigas, nos passos vacilantes
Por onde o meu destino, também, for!
441
Vo l ta n d o a Re c i fe
Recife! Há quanto tempo eu não te via!
Há quanto tempo não me vês, há quanto!
Faz toda vida que me fui embora…
Eis-me outra vez aqui, terra querida;
Tão diferente como vim, outrora;
Eu trazia comigo a luz do dia,
Pelo rumo da aurora;
Nos olhos verdes não corria o pranto
442 E um bando de ilusões da mocidade
Cantava, na minha alma, alegre canto.
Tive contigo os dias mais felizes.
Cantei tuas paisagens, teus vitrais,
Tuas alegorias e paineis…
Em tuas águas embalei meus sonhos,
Bebi o orvalho dos teus roseirais,
Cantei a glória dos teus menestréis.
Cantei teu céu azul, teu sete-estrelo,
O teu rio, teus sobrados, teus tesouros,
A graça e a formosura das mulheres.
Embalei-me, a sonhar, nos teus regaços.
Coroaste de rosas meus cabelos louros,
Carregaste a minha alma nos teus braços.
Vinha de longe. Vinha de Natal.
Nem tu sabias, nem ninguém sabia,
De onde é que vinha essa desconhecida.
De que terra seria? De que céu? 443
Quem era a forasteira do ideal?
Certa de que não serias iludida,
Sem dúvida, sem receio, sem temores,
Deste-me muito mais que eu merecia
Jogada nos meus pés, como vencida,
Numa porção de aplausos e de flores.
Nunca mais te esquecerei! Nem me esqueceste!
Nunca mais esqueci tua acolhida,
Seguindo outros caminhos bem diversos.
Nas tuas torres levantei castelos,
Nas tuas pontes escrevi meus versos.
Voltei… Mas que mudança em nossa vida,
Que diferença, que disparidade!
Tu, mais nova, mais bela, mais florida,
Coroada de acácias do verão;
Eu, de todos os sonhos desprovida,
Sem nenhuma reserva de ilusão.
Sem beleza, sem dons da mocidade,
Trago apenas das glórias que me deste,
444 O teu nome, Recife, inesquecido,
Na coroa de louros da saudade.
Exal taç ã o
Porque eu te quero bem, eu desejo ser tua;
Tua, toda tua, inteiramente tua,
Na completa renúncia de meu ser…
Porque eu te quero bem, quero que sejas meu,
Todo meu e só meu e unicamente meu,
Na grande exaltação de te querer.
Porque eu te quero bem é que, numa ânsia louca,
Sofro a condenação de querer e esperar… 445
Até que a sementeira amadureça
E os beijos quentes que tu tens na boca,
Rebentem em minha boca, a saciar.
Porque te quero bem é que tenho ciúmes
Da árvore que plantas, do pássaro que aninhas,
Da estrela que namoras, do fruto em tua mão;
Da água que tu bebes, do ar que tu respiras,
De tudo quanto tocas e acarinhas,
Que tem raízes no teu coração.
Porque eu te quero bem
É que eu sinto a secura
De ti que és meu arroio adormecido
E a sede deste amor sinto aumentar…
Porque te quero bem é suave a tortura
Da luz que me caustica, sem queimar.
Ó sombra que me exalta e me estonteia!
Ó fonte de água doce que me amarga,
Meu fruto proibido e desejado,
Meu vinho que me entontece, sem provar!
446
Porque eu te quero bem
É que minha alma estua
Na contida expansão de quem deseja e quer…
Porque eu te quero bem eu desejo ser tua;
Tua, toda tua, unicamente tua,
Na imolação divina de me dar,
Pela glória maior de ser mulher.
O n atal da c r i an ç a p ob re
— Papai Noel, quem será?
Diz consigo a pobrezinha,
Todo dia a imaginar…
E a mãe triste, coitadinha!
Não sabe bem explicar.
Ouve dizer que é um velho
De barba comprida e branca,
Encapuzado num véu… 447
Que traz bombom, traz brinquedo,
Para encher os sapatinhos
De toda criança branca
Que mora no arranha-céu.
E a criança desolada
Pergunta à mãe tristemente
E mais tristonha se fica:
– Por que o Papai Noel
Só gosta de gente rica?
E vendo nus seus pezinhos,
Compreendeu, de repente,
Que não tinha sapatinhos
Para enchê-los de presente.
E as crianças de seu bairro,
Se calçam, alguns, fazem pena;
São tão velhos, tão rasgados,
Tão sujos e esburacados,
Que não podiam guardar
Um só bombom de Natal.
448
Mas, o Menino Jesus
Lá no Céu já separou
Uns sapatinhos de prata,
Que a lua foi quem fiou,
Para o filhinho do pobre
Que na terra não ganhou.
Oraç ã o d o p ovo f i el
Da montanha, onde estás entronizado,
Sob um céu cor de anil,
Ó Cristo Redentor! Do Corcovado,
Escuta a minha voz,
Que é a voz do povo teu!
Estende mais teus braços compassivos
E abraça, mais de perto, o teu Brasil!
A noite é mais escura, o povo está mais triste, 449
Não há sossego mais, nem amor, nem carinho.
Em busca do prazer, onde a luxúria existe,
Fogem os homens, Senhor, da luz do teu caminho.
A guerra continua, a ambição é imensa!
A vida é um deserto de ideais…
Os irmãos não se entendem, nem se amam;
Longe de ti, não é possível a paz.
A Pátria está vazia de esperanças,
Os homens não tem fé; não se faz oração…
O lar está deserto de crianças,
Não há temor de Deus, nem lírio em floração.
Fareja o sensualismo a candura dos lares,
Já não se crê no Céu, no teu alampadário.
A doutrina pagã macula os teus altares
E ameaça arrancar a cruz do santuário.
Vê que desolação, Senhor, que dor tamanha!
Temos sede de luz, temos fome de pão!
Nas águas não há peixe, o vento não amanha;
450 A alma está vazia de quimeras;
Antes da floração murcharam as primaveras,
Descrente está do amor, também, o coração.
O povo não tem nada,
A adega não tem vinho,
Há cilada e perigo
Em toda parte, o espinho;
O homem não tem rumo,
A terra é como estranha.
Só se conhece esta palavra: — dor.
Não há berço, nem ninho;
No hostiário dos campos não há trigo,
Está faltando o alpiste ao passarinho,
Não há mel no apiário, as almas não dão flor.
Tudo é vingança, é ódio, interesse, rancor.
Em vez de paz — a guerra.
Em vez do bem — o mal.
Só existe egoísmo, onde havia amizade;
Vem pregar, outra vez, o sermão da montanha,
Ó Cristo Redentor, vem pregar a bondade!
451
Vem fazer, outra vez, florescer a alegria,
Ó Cristo Imaculado!
Na harmonia de todas as famílias,
Na pureza da vida sem pecado.
De ti é que nos vem a Graça Divina;
Tu, que és fonte de amor e de bonança!
A lição do “Pai Nosso” outra vez nos ensina
E o sublime sermão da Bem-aventurança.
Pra i a de Pi ra n g i
Começa naquela curva,
Entre o céu, a terra e o mar…
Uma estrada vai correndo
Até a praia encontrar.
No caminho sempre verde,
Água doce a salivar…
O mar parece com o campo,
452 O campo parece o mar.
Das ondas nascem as auroras…
Olhem a lua como vem!...
Nascem auroras dentro da alma
E as luas nascem também.
Um bafo de maresia
Sopra o vale o dia inteiro.
Bafora a roça florada
Nos ramos do feijoeiro.
Um cajueiro frondoso
Arrasta os galhos no chão…
Tem cem anos de vivência…
Cem anos de tradição.
Há letras por toda parte,
No seu tronco secular.
Quem visita o cajueiro,
No tronco velho da árvore
Tem seu nome que gravar.
Praia amena, acolhedora, 453
Na forma de receber,
Faz a mangaba madura,
No doce azedo da fruta,
O coração derreter.
O rio doce bolsando
Na popelina da praia,
Da plantação vai molhando
A guarda pisa da praia.
Os coqueiros batem palmas
Para o vento assobiar.
Enquanto a brisa arrepia
A cabeleira do mar.
Vale a pena, na fadiga,
No alpendre a rede estender…
Puxar os grandes tresmalhos,
Cheios de peixe, a valer.
Fazer castelos na areia
454 E a espuma na mão fechar,
Como o sonho que escapole
Sem se poder agarrar.
A lona do céu azul,
O campo cheirando a flor…
A água de coco verde,
As coisas boas do amor.
O lastro do mar profundo
A colcha branca de areia,
Para a barcaça deitar…
Pirangi é diferente
Das praias todas que eu vejo,
Que eu tenho ouvido falar.
Quem nasce ali, ali fica.
Quem chega não quer voltar.
Pirangi, praia bonita,
Das mais belas do lugar!
455
Po n ta N e g ra
e m s e re n ata ³ ²
Ponta Negra, praia feita
Para trovas se cantar,
Quando a lua na varanda
Vem no céu se debruçar.
Há um morro muito verde
Emborcado sobre o mar.
É dali que a lua nasce
456
Para Natal clarear.
Ponta Negra, praia boa
Para um amor começar.
Nos caminhos de água verde
Não há jeito de se errar.
Quem tiver mágoas caladas
Deixe a espuma carregar.
Há no queixume da vaga
Uma voz que vem do mar.
É o romance da praieira
Que o pescador vai contar.
Ponta Negra, praia boa
Para um amor começar.
Sobe um cheiro de poema
Da ramaria do mar.
E uma brisa marinheira
Dá vontade de beijar.
Entre as curvas da enseada
Vem a onda desmaiar.
457
Cheira a flor de cajueiro
A brancura do luar.
Ponta Negra, praia boa
Para um amor começar.
Ponta Negra, maré mansa,
Sem perigo de agastar.
Não há risco de cilada
Nem receio de enganar.
Por detrás da ribanceira
Coqueirais espiam o mar.
Minha gente, que beleza,
Lua cheia em preamar!
Ponta Negra, praia boa
Para um amor começar.
458
Re di n h a
Quem quiser venha olhar
A Redinha comigo
Arredia e tão só!
Como fica muito mais formosa
Lá do alpendre da cantina
Do “16 R. O. !”
Tem todo o colorido do arco-íris
E a bonança também.
Dá vontade de ir buscar 459
Todas as cores do sonho
E o sossego que ela tem.
Dos morros desce a beleza,
Vem na praia se estender…
É uma coisa tão bonita
Que ninguém pode dizer!
Seria o quadro mais belo
Que o pintor Newton Navarro³³
Pudesse um dia fazer.
Natal t r i ste
Ao tempo da última guerra.
— Menino Deus, acorda! Estou com tanto medo!
Olha o Teu mundo e vê como está transformado!
A bola toda azul do Teu lindo brinquedo,
Perdeu a cor do céu, de estrelas constelado.
A fonte que cantava, a estrela que fulgia,
Os pastores descendo as colinas em flor…
460 O coração é a fonte a chorar noite e dia,
Em cada canto um ai, em cada riso a dor.
A harmonia do espaço, a placidez do rio,
A brancura a flocar, em presépio florida…
Hoje tudo mudou, a luta, o desafio,
E a neve é flor de sangue amortalhando a vida.
Abre os olhos Jesus! Da guerra o mal persiste,
Do Teu berço de palha apagaram-se os brilhos…
Nossa Senhora é Mãe; como está langue e triste,
Vendo o pranto das mães que perderam seus filhos!
O rebanho, o sossego, a colina no flanco,
A esperança, a fulgir, nas tintas do arrebol…
O sangue tinge a flor do Teu presépio branco,
E o pássaro da morte apaga a luz do sol.
Ao troar dos canhões, a neve se arrepia,
Em vez de amor — o ódio, em vez de bem — o mal…
Nas almas o pesar, nem mais sorrir, Maria!
Como está diferente a noite de Natal?!...
Menino Deus, acorda! O Teu olhar bendito,
Mais claro e mais azul que a seda do Infinito, 461
Pode a treva mudar, na terra um céu de anil…
Se a guerra não findar, ao Teu olhar divino,
E a paz não reflorir Teu berço pequenino,
Que será, meu Jesus, também, do meu Brasil?!...
D e j o e lh o s
Não posso mais beijar-te a fronte imaculada,
De Pai, de justo e bom, de alma tão clara e pura.
Nem sequer, agradar-te a cabeça nevada,
Onde a velhice fez seu ninho de alvura.
Nunca mais ouvirei a tua voz magoada,
A gemer, a rezar, submisso à tortura…
Um alívio, um carinho, um conforto, mais nada;
Tudo, agora, findou, na paz da sepultura.
462
Quando a vida parou, vi teu rosto tão manso,
Na suave expressão do divino descanso…
E uma estrela não vi, do Infinito, no véu.
E, a morte te levou, mesmo assim, tão velhinho!
E eu não pude, sequer, aclarar teu caminho,
Pelas sombras da noite, à procura do Céu!
Pé de M a n a c á
Florou de manhãzinha, num domingo.
Nada sei do romance desse amor.
Branco e roxo buquê, que Deus fizera.
Sonho que chega quando não se espera,
Plantado, há tempo, sem dar flor.
O seu cheiro gostoso, diferente,
Em tudo se agarrava, no momento;
Na asa do dia claro, 463
No lenço branco do vento.
E junto de mim ficava,
E aos meus sentidos se deu.
A terra, em volta, cheirava,
Baforando o cheiro seu.
Nunca mais me largou, numa aliança
De sentimentos, de imaginação.
Impregnou-se no meu pensamento,
Ficou cheirando no meu coração.
Hoje, onde estou, sua presença está…
Na minha alma nasceu um pé de flor,
Parecido com um pé de Manacá.
464
M ol e qu e de r ua
Moleque de rua, menino vadio, nascido em favela,
Crescido no vício, no banho do mal.
Refugo da vida, fugido do destino,
Dos anjos, o mesmo; das flores, igual.
Trarias no rosto tão puro inocente,
Qualquer semelhança com o Deus pequenino.
Teu nome era outro, não esse: — “tarado”,
Tão feio apelido que hoje se diz.
Eu sei que és menino, futuro da Pátria, 465
Que estavas na hora de seres feliz.
Menino temido, menor perigoso,
Moleque de rua não devias ser…
Se tinhas candura dos anjos de estampa;
No riso alvorada, na fonte nascendo,
No olhar a esperança que vinha nascer;
Menino do “oco do mundo”, fujão,
Tão sujo de alma, tão sujo de mão.
Mudaram-te o nome e a sorte mudou:
Viver tu não podes no meio dos outros,
Se a tua inocência na rua ficou.
Mergulhas na noite, dormindo ao relento,
Dormindo nos braços da sorte revés…
No chão das calçadas e até das sarjetas,
Comendo na lata dos restos de hotéis.
Tão bom que serias! — Agora um demônio!
A falta de amparo, a falta de um bem,
Menino saído da boca da noite,
466 Perdeste no crime o doce da vida;
Nem pai, nem brinquedos, nem mãe,
Nem ninguém!
Cigarro no bico, de pontas fumadas,
Brigando sopapos, jogando pedradas,
Cuspindo na gente, que nojo que faz!
Pegando carona, fedendo a aguardente,
Fazendo outras mais.
No vício metido, fumando maconha,
Sujeito à prisão, sujeito à sevícia…
Jogando biloca, baralho, roleta,
No canto do muro, — fugindo à polícia,
Furtando, também…
Nas dobras da sombra, que perca, que ganhe,
O colo da noite lhe serve de mãe.
Menor delinquente, menino infeliz,
Tens tão pouca idade e és velho no erro,
Na coisa escondida.
Serias aurora, se alguém te cuidasse,
Se alguém te quisesse, se alguém te estimasse
467
E um beijo te desse na face encardida.
Menino que foges do sol; que terias
Se outro o teu jeito de andares na vida?!...
— Rapaz esportivo, de espáduas bem largas,
De peito empinado, de fronte atrevida,
De ação varonil…
A cruz na bandeira, pregando: — Igualdade!
Cantando no hino de amor: — Liberdade!
Guiando o seu povo, na fé do Brasil.
Mas, hoje o que és: — menor vagabundo,
Menor criminoso, se dando à aventura;
Menino sem nada de bom neste mundo,
Não tens quem te chame: — meu filho querido,
Nem veja em tua alma o semblante ferido.
Te perdes, sem rumo, nas ruas da dor,
Não há quem te atire bocado de amor.
Cadê teu sorriso, tão puro, inocente?
Cadê a alegria, cadê teu tambor?
A tua corneta? Quem foi que tomou?
De tudo o que tinhas direito na vida
468
Deixaram — anjo mau!
Apenas queixumes e mágoas da sorte,
Na voz ferrugenta do teu berimbau.
Foi o abandono que te deu revolta,
Foi o desprezo que te deu maldade.
Nunca te perguntaram se tens fome,
Nem te deram palavra de amizade.
Moleque de rua,
Menor de ninguém.
A culpa que é tua,
Partida com todos,
É minha também…
Daqueles que passam
E não olham, sequer,
A estrela no charco, o lírio no chão,
Não veem que carregas uma alma de infância,
No peito franzino, um bom coração.
E a fronte vazia de sonhos, de amor,
E a boca sem nada, sem doce, sem pão,
Sem riso, sem cantos, mascando amargor.
469
Moleque de rua, um dia há de vir,
Que bom que será! Foi Deus quem ensinou:
Que todos te amparem, te deem assistência,
Te chamem de irmão.
De tudo terás, chicletes e dropes,
Rodando, da sorte, no teu carrossel.
Terás, onde mores, menor convertido,
Ternura de sobra, carinho em redor…
Na doce alvorada que vai despertando
De um “Mundo Melhor”.
Homem
O amor tem dessas coisas, é diverso,
Guarda a felicidade, a glória, o bem.
Tudo quanto acontece, no Universo,
De nobre e generoso, ele contém.
Contigo o amor foi mau. Deu-te o reverso
Do filtro milagroso que ele tem.
A ironia, a descrença, o orgulho imerso,
470 No travo do ciúme e do desdém.
De bom que és, sereno, delicado,
Ficas estranho, injusto, arremessado,
Homem difícil de compreender…
O amor que fez de ti um tormentoso,
Deu-te a maior volúpia de amoroso,
No triste encanto de fazer sofrer.
S o n e to da di stâ n c i a
Muito mais que tristeza! Uma amargura
Me dói no coração, pobre e sozinho.
Aflito, o meu olhar o teu procura,
Sem poder alcançar-te no caminho.
Insisto em ver-te, mas, que desventura!
Nem, sequer, os teus passos adivinho…
Nem, ao menos, te avisto, que tortura!
Na distância se perde o meu carinho. 471
Solto a minha alma em busca, pela estrada;
Tu partiste mais cedo que a alvorada,
Ninguém me dá notícia, que maldade!
E eu fico o dia inteiro a procurar-te,
Em vez de ti, encontro em toda parte,
A sombra pensativa da saudade.
Pi n to r de ove lh a
O vale desenhou-se em sua infância,
Num verde de brinquedo colorido,
No carrossel da vida, ali montado,
Trepava no seu sonho, o mais querido!
A gaita do pastor soprou-lhe na alma,
Num canto de chamar, nunca esquecido.
Tanger carneiros pela ribanceira
472 Foi na infância o folguedo preferido.
O regato, uma flor de Primavera,
Uma cigarra doida de verão…
No rebanho, levava docemente
A lã que lhe aquecia o pensamento,
O amor que lhe aquecia o coração.
Juntou todas as tintas da palheta,
E repetiu as cores da ilusão!
Dormiu à sombra de um regato doce,
Amadurou o fruto em sua mão.
Correu atrás da estrela e do mistério…
O pintor ao poeta se assemelha.
Saiu trotando na manhã da vida
Pastor de sonhos e pintor de ovelhas.
473
Q u ad ro p a tr i ó t i c o
Poema dramático levado ao Teatro CARLOS
GOMES, ao tempo da última guerra.
(Toque de clarim à distância)
— O clarim a estalar, num grito indefinido,
Uma estrela a brilhar, numa concha de anil.
Ambição! Crueldade!
Um soldado ferido
474 Pelo amor do Brasil!
E bem da humanidade!
A carabina ao lado,
Ajoelhada a enfermeira,
Um anjo de ternura e de bondade.
Sob um dossel de estrelas, refulgente,
Se abraçam na guerra estreitamente
Para a vida e para a morte,
A Pátria Brasileira
E os Estados Unidos da América do Norte.
Nas asas da harmonia e da esperança,
Há um fulgor longínquo de bonança.
(Toque de clarim novamente à distância)
1º soldado — Seu nome qual será?
2º soldado — Quem sabe lá!
1º soldado — Uma carteira?
2º soldado — Apanhe…
1º soldado — É casado?
Enfermeira — Talvez não.
(Examinando os papéis): 475
Mas deve ser amado.
1º soldado — Quem sabe!
Talvez tenha esposa e tenha mãe.
Enfermeira — Pode outra vez, voltar a ser feliz.
1º soldado — Seu número? A companhia?
2º soldado — Um número qualquer.
1º soldado — Na tropa camarada.
Enfermeira — Um soldado diz tudo; mesmo
Que não fale e que não diga nada…
Apenas um gemido vacilante;
Vezes balbucia escutando
Qualquer coisa que indica um nome
De mulher.
1º soldado — Muito ferido? Morre?
Enfermeira — Talvez não.
2º soldado — Examinando. Nem uma nota!
1º soldado — Já sabemos que é. Um patriota!
Um soldado valente.
Enfermeira — No pescoço moreno
476 Uma medalha brilha.
O peito aberto, escorre,
Abre os olhos e fecha, de repente.
1º soldado — Um tiro de fuzil?
2º soldado — Talvez…
Enfermeira — Nos bolsos quase nada.
Uma flor de escumilha examinando,
Um envelope rasgado,
Pedaço de jornal amarrotado.
1º soldado — E apertando na mão
O retrato da filha.
2º soldado — E o mapa do Brasil
Calcando o coração.
(Quadro final em apoteose)
A América do Norte e o Brasil enlaçados
com as respectivas bandeiras. Um soldado
caído. A carabina ao lado. Uma enfermeira
ajoelhada sobre o ferido.
477
A m an g u e i ra e o s p á s s a ros
Feliz, amigo meu, que acordas cedo,
Pela voz matinal dos passarinhos.
Não te pese maldade, nem te ocupes
De cuidados maiores que dos ninhos.
Benfazeja mangueira, casa verde,
Que agasalha e dá sombra nos caminhos.
Gostas de vê-la, no quintal plantada,
478 Carregada de asas e de ninhos.
Consciência tranquila, sem amargos,
Coração generoso, gestos largos,
Não há porque te firas nos espinhos…
A bondade é azul, em céu vertida.
Só os bons são capazes, nesta vida,
De amar e de entender os passarinhos.
S e n h o ra m i n h a!
Ra i n h a n o s s a !
Poema recitado pela autora, na homena-
gem do Ginásio da Imaculada Conceição,
à Nossa Senhora de Fátima, e no Quartel
do 16º R. I., no momento da partida.
Nossa Senhora de Fátima!
Que queres, mãe, que te diga?
Na hora triste do adeus 479
Que mais tenho a te dizer?...
Dei-te tudo quanto tinha,
Disse tudo quanto sei!
O que me deste, eu te dei,
Cantando os louvores teus!
Dize, ó mãe, o que é que queres,
Para dizer, que ainda, possa!...
Sê bendita entre as mulheres!
Te chamei Senhora minha,
Te chamei Rainha Nossa!
Com os meus olhos te segui,
Quando chegaste, Maria,
Nas asas do céu daqui,
Formosa, clara e louçã!...
Malmente, a ave baixava,
Contigo trazendo o dia,
Como a estrela da manhã,
Teu vulto branco fulgia!
Peregrinei nos teus passos,
480 Das multidões, no teu culto,
Ardi os pés, nas areias,
Andando atrás do teu vulto.
Bebi a água dos teus olhos,
Achei sombra no teu manto…
O teu pouso era o meu pouso,
O teu nome era o meu canto.
Curti o sol das manhãs,
No crepúsculo eu te segui!
Na alvura da lua cheia,
Nossa Senhora, eu te vi,
Mais branda do que o cicio.
Abrir as pétalas do lírio
Dentro da água azul do rio,
Nas margens do Potengi…
Quando passavas, na estrada,
Roçando as águas do mar,
Eu pensei que a água do pranto,
Nunca mais ia amargar.
Na areia que desenhada
481
A tua imagem ficou,
Ninguém encontra o teu rastro,
Da brisa o sopro levou…
Onde não vai tua imagem,
Levar conforto e bonança,
O vento se encarregou
De levar tua lembrança.
Cantei em verso o teu vulto,
Em prosa também cantei!...
À claridade das fontes,
Às açucenas dos montes,
Tua alvura eu comparei.
Quando o teu povo cantava,
Pelas ruas da cidade,
Na terra do Deus Menino,
A minha voz se elevava,
Em cada estrofe do hino.
Cantei tanto, Mãe querida,
482 Cantei salmo, cantei prece,
Desde a hora em que te vi…
Como a inhambu que emudece,
De cantar enrouqueci.
Nossa Senhora de Fátima!
Há muito o que se dizer
Da tua graça sem fim.
Meu verso não tem valia,
Para cantar neste dia
Estrela tão linda, assim!
Por entre flores, Senhora!
Mãe de ternura e de amor,
Mudando de ninho, em ninho,
Pousando de dor, em dor,
Bendirão o nome teu…
Na estrada da minha vida,
Nunca mais escureceu.
Subindo de serra, em serra,
Voando de céu, em céu,
Andando de mar, em mar, 483
As coisas tristes da vida,
Nunca mais hão de brotar.
Se encontrares nos caminhos,
Alguma for esquecida,
Procurando o manto teu,
Tem compaixão, Mãe querida!
Que esta flor emurchecida,
Nossa Senhora, — sou eu!
C ân ti c o de e s p e ra
Resisti tanto tempo ao teu chamado
Sem saber de onde vinha a tua voz.
Olhei o céu azul — era todo estrelado,
Tudo em volta de mim parecia florir…
A terra era mais verde em seus encantos!
E eu deixei tudo para te seguir,
Sem escutar as vozes de outros cantos.
484 Eu me vesti da alvura da pureza
E a boca virgem perfumei cantando,
No hálito da flor de primavera;
Os lírios me emprestaram a singeleza
E eu me pus a sonhar, à tua espera…
Despedi os vassalos de rainha,
Tirei as joias, me despi de arminhos…
Desapartei nos braços as pulseiras,
Para jogá-los, livres, nos caminhos.
Deixei cair os pentes dos cabelos
Para enfeitar de aljôfares os ninhos.
Dancei todos os ritmos das horas.
Do pólen das promessas e dos sonhos,
Enchi meu coração de doces vinhos,
No vale cor de rosa das auroras.
Na fonte de água pura não bolida,
Purifiquei de aromas os meus pés…
Trepei pelos azuis da Primavera
Para dizer aos pássaros quem és.
485
Cantava pelos ramos a minha alma
E fiquei, no rebordo de uma nuvem,
Outra vez, meu amigo, à tua espera.
Até que vens, amado meu, na sombra
Que vagarosa o teu perfil desenha…
Vens, no cheiro das plantas mais cheirosas,
Na incensação do vale, ardendo à lenha.
De longe, ainda, em meu olhar te enlaço,
No som das moitas que nas águas soa,
Na voz das aves que eu reter quisera…
Até que vás, na brisa que se escoa,
No mistério das coisas invisíveis…
Eu me fico, outra vez, tateando no espaço,
Escorado no sonho que prolongas,
Outra vez, paciente, à tua espera...
486
O ra ç ã o d a s a u da d e
Mãe, eu te choro pela grande ausência!
Fico na porta olhando a te esperar…
É tão longe daqui… E não há volta.
Consola em cada estrela te avistar…
A casa é tão vazia, triste e só!
Sem eco, sem rumor…
Teus passos, tua voz silenciaram,
Em cada canto só encontro a dor.
487
Na cadeira que está fechada, agora,
Parece que te vejo cochilar…
Tua rede vazia, como engana,
Fingindo que ainda estás a balançar.
Mãe, eu te chamo pela cobertura
Do céu que tu me davas, sempre azul…
No sossego do arco do teu braço,
No carinho da concha do teu colo;
Por tudo que de doce e de tranquilo,
Achei no teu regaço.
Tão doente, tão frágil, tão velhinha,
Mais frágil que um caniço sob o vento,
Eras a fortaleza da família,
Curtida de emoção e sofrimento.
Convergência de todos os parentes,
Encontro dos irmãos que estavam ausentes,
Gênio do amor, amparo e proteção…
Sem ti, se dispersou toda a alegria,
Alguma coisa se desmoronou…
Não há mais tua benção todo dia,
488
A roda dos irmãos se desmanchou.
Sem tua voz tão doce de queixume,
Quem agora me diz:
— “Segue o caminho certo do dever,
Deus te abençoe! Deus te faça feliz!
Deus te dê longa vida, te dê paz,
Prosperidade, amor!... — Riqueza, não,
Que o rico é orgulhoso e foge à graça;
Egoísta, também, o pobre humilha,
Na ambição de ganhar cada vez mais!”
Mãe, te bendigo, quando a madrugada
Desperta te encontrava na vigia…
Enquanto o sono a noite prolongava,
Tu começavas cedo, antes do dia.
Mãe, te admiro, pelo bem que foi feito,
Pelo mal que não deixastes se fazer.
Nunca, em tua vida, mãe querida,
Deixaste, ao triste, ao pobre, de atender.
Mãe de família antiga, numerosa,
Exemplo de trabalho e de oração,
489
Que a lembrança de ti nos acompanhe,
Como fazias com o teu coração.
Tu, que foste tão rica!... Na pobreza,
Mais rica te sentias, mais ditosa,
Dos muitos filhos de quem foste mãe.
Mãe, te agradeço, mãe incomparável!
Toda ventura que de ti me veio,
Toda bonança que encontrei na vida,
No abrigo materno do teu seio.
O teu exemplo, o que aprendi contigo,
O bem que me fizeste sem cessar…
Eu te peço perdão, mãe desvelada,
Pelo muito que tive e não paguei;
Por tantas vezes que te fiz chorar,
Por tudo que me deste e eu não te dei.
490
T ROVAS
As frutas que recebi
De tuas mão milagrosas,
O amor mudou, por milagre,
Num ramalhete de rosas.
Um passarinho no laço
Prendi com satisfação…
Qualquer dia estou prendendo
Teu amor na minha mão.
Outro dia, meu amigo,
492 Um rico mimo te dei…
Peço agora que me voltes
o beijo que te mandei.
A saudade — pungir doce,
É travo que bem nos faz,
Mas, se me aparto de ti,
A saudade amarga mais.
Das rosas do seu jardim,
Se a jardineira estiver,
Eu não sei quando é a rosa
E também quando a mulher.
Pois, se a rosa tem perfume,
A mulher cheira, também,
Se a mulher tem formosura,
A rosa belezas tem.
Na graça do teu sorriso
Há qualquer coisa de mais;
Se longe de mim eu fico
Mais perto de mim estás. 493
Toda Maria é bonita,
Tem encantos como quê,
Nunca vi outra Maria
Bonita como você.
Do amor se diz tanta coisa,
Que é puro, doce, bendito,
Por mais que se diga tudo,
Nada, de certo, foi dito.
Felicidade, onde moras?
O teu rumo desconheço.
Parece que me mandaram
Errado o teu endereço.
Se tudo agora acabou-se,
Por culpa sua, bem vê…
Devolva o meu coração,
Que mandei para você.
Incerta a felicidade,
494 Nunca chega quando espero.
Quando estou certa que fica,
Toma rumo que eu não quero.
O laço de fita azul
Com que pensei te enlaçar,
Desmanchou-se justamente
Quando o nó pensei em dar.
Se a bondade não morasse
Com você seria em vão
Que procurasse a doçura
Na flor do seu coração.
A capela dos meus sonhos,
De melãozinho, também,
Desmanchou-se em minha mão
Na fogueira de meu bem.
Todas as aves têm ninhos,
Todas as flores perfumes,
Não há rosas sem espinhos,
Não há amor sem ciúmes. 495
“Suspiro que vai e vem”,
Mensageiro desse amor,
Dá-me novas de meu bem,
Minora as ânsias da dor.
Fitando de uma roseira
Lindas flores perfumosas,
Tive inveja verdadeira
Da beleza dessas rosas.
Tua mão é tão franzina
Como não vejo em ninguém.
Tão frágil, tão pequenina,
Que nem um beijo sustém.
Quando a lua alvinitente
Vem a praia iluminar,
Parece à crença da gente
Que a lua nasce do mar.
“Amor com amor se paga”,
496 Pensando nisso eu me fico…
Vou cobrando muito caro
Todo o amor que te dedico.
Jangadas de minha terra,
Por esses mares sem fim,
As minhas penas desterra
Para bem longe de mim.
Dizem que o canto suplanta
As mágoas, não posso crer.
A cigarra canta, canta,
Mas não deixa de sofrer.
Tu me disseste, morena,
Aspirar somente a morte.
Foi a primeira Maria
Que ouvi se queixar da sorte.
Meu nome, palavra oca,
Nos teus lábios tem valia.
Teu nome na minha boca
É meu pão de cada dia. 497
Eu plantei no coração
As flores que te mandei.
Quando as fui colher de novo,
Nenhuma só encontrei.
Quando a árvore se alvoroça,
Na chuva que a faz florar,
A minha boca se adoça
Com vontade de beijar.
Ninguém sabe do destino,
Onde é que vai parar,
Mas o meu segue o teu rumo,
Até com o teu se encontrar.
Se você pega na rosa,
Ela cheira como quê…
Eu fico logo pensando
Que o cheiro vem de você.
Nos quinze anos da vida,
498 A estrela surge do véu…
A vida parece o sonho,
O sonho parece o céu.
Tudo passa e nos ilude,
Como a beleza da flor…
A beleza da virtude,
Nem passa, nem muda de cor.
PA L MY R A WA N D E R L E Y
E A CRÍTICA NACIONAL
500
Resumo da crítica nacional e estrangeira sobre o Roseira
Brava, publicado em Recife em 1929, na “Revista da
Cidade” e divulgado, pela primeira vez, na Academia
Pernambucana de Letras.
Um sabiá que tivesse as penas de ouro.
ANDRADE MURICY.
O maior poeta feminino do Nordeste.
501
TRISTÃO DE ATHAYDE.
E que feliz és tu, alma ansiosa. Abres de verso em verso, rosa a rosa.
ALBERTO DE OLIVEIRA.
Palmyra Wanderley é sem contestação possível a primeira poeti-
sa do Norte do Brasil.
HENRIQUE CASTRICIANO.
Canta tudo em estrofes que cheiram a baunilha e possuem um
sabor meio amargo de pitanga. Nota-se a influência de Tagore.
Algumas gotinhas da água do Ganges se misturam ao orvalho
502 matinal de que se nutre essa cigarra dos trópicos.
AGRIPINO GRIECO.
Uma bizarra delicadeza espontânea e profundamente vívida
emana da poetisa Palmyra Wanderley. Dela se poderia dizer
como de William Henley, como o poeta inglês a poetisa se parece
dizer uma expressionista. A sua intuição poética dá-lhe um fogo
espiritual tão estranho, que, às vezes, lembra o escocês Carlyle.
BARROS LIMA.
Palmyra Wanderley — “Roseira Brava”, Musa do Norte,
patativa escrava da gaiola do sonho./Canta bem, canta bonito,
é suave./Não é araponga que martela o grito./É inhambu que
arrula o canto./Com tão febril encanto,/que só de ouvir cantar,
sabe-se que é alguém.
HERMES FONTES.
503
A autora de “Roseira Brava” é incontestavelmente uma
autêntica poetisa.
MEDEIROS E ALBUQUERQUE.
Palmyra Wanderley realizou o milagre de escrever versos livres
de todo aquele rigorismo, antes mesmo de se generalizar o mo-
vimento modernista; sem sacrificar em nada a expressão estética
que caracteriza a verdadeira poesia, seja qual for a sua forma.
AFONSO BEZERRA.
Há um espírito másculo a agitar um cérebro de mulher.
CAIO PEREIRA.
Enquanto a irmã religiosa leva terra para o Céu, a poetisa traz o
504 céu para a terra.
JOSÉ AMÉRICO.
(Discurso de saudação à poetisa, na homenagem que lhe
prestou, em João Pessoa, a mulher paraibana).
A autora de “Roseira Brava” tem, antes de tudo, talento.
NILO PEREIRA.
Louvada seja a “Roseira Brava” de Palmyra Wanderley. Estiliza o
folclore com estranha e cativante graça. Habilíssima no verso livre.
CARLOS CHIACHIO.
Palmyra Wanderley é uma expressão nova diante da velhice
da poesia.
505
ACY COELHO.
“ROSEIRA BRAVA” é um livro atual, influenciado um tanto
pelas novas correntes literárias. No verso moderno ou antigo, é
e será uma das grandes poetisas brasileiras.
FÁBIO LUZ.
Que se pode dizer de Palmyra é que ela é realmente a maior
poetisa do Norte.
SUZANA DE ALENCAR.
A autora de (Roseira Brava) é realmente poetisa. Guarda uma
grande elevação de pensamento, mesmo quando exagera no
verso livre.
506
MEDEIROS E ALBUQUERQUE
A poetisa do “Roseira Brava” cultiva o modernismo poético.
Faz, também, belos sonetos. Achei primoroso “Pitangueira”.
Lembra Caramuru, ao descrever a flora e a fauna com igual
ingenuidade e acre sabor.
JOÃO RIBEIRO.
Não sou dos que acham em todos os poetas, mas no “Rosei-
ra Brava” encontro tudo quanto nos pode impressionar em
matéria de verso.
RODRIGUES DE CARVALHO.
Entre os seus amores, a terra: Natal. A cidade toda lhe quer
bem, um grande bem. Sabe fazer versos e rir como as crianças
que recebem brinquedos. À maneira de William Blake, canta 507
como os pássaros, as cigarras e as fontes.
PASCHOAL CARLOS MAGNO.
Ela idolatra a terra: Natal. Tem um grande culto pela Natureza.
É digna de ser lida e admirada. “Roseira Brava” é mais um docu-
mento da consciência e da inteligência da mulher em nosso meio.
MÚCIO LEÃO.
Lendo “Roseira Brava”, relembro frases de Edgar Poe. Tem
sonetos lindos, camonianos. Deliciosa espontaneidade que é a
inconfundível afirmação do seu talento. Penso que Tagore assi-
naria seus versos, abençoando a doce mão que os escreveu.
AURÉLIO PINHEIRO.
Mesmo como pintora dos quadros da terra e dos costumes,
508 Palmyra Wanderley é vigorosa poetisa. Só quem conhece ao na-
tural os quadros pintados em versos por essa mão harmoniosa,
pode fazer ideia da virtude com que ela se apossa dos elementos
da natureza, animando-os.
O MALHO.
Palmyra é a própria “Roseira Brava” de nossa terra. Foi além da
palmeira espalhando suas rosas para suavizar a nossa vida.
JOÃO MARIA FURTADO.
Palmyra Wanderley alarmou, com o “Roseira Brava”, o
rebanho passadista, dos remanescentes. Mentalidade alta, a
primeira inteligência no campo literário do meu Estado. Jorge
Fernandes e Palmyra Wanderley são os dois casos típicos mais
brilhantes que eu conheço.
LUÍS DA CÂMARA CASCUDO.
509
Disse com graça e meiguice de excelente declamadora que é,
três sonetos lindos do “Roseira Brava” — “Mandacaru” escrito
agora em Recife diante de um pé coberto de flores.
OSCAR PEREIRA.
Trecho do parecer da comissão julgadora que conferiu a men-
ção honrosa da Academia Brasileira de Letras ao “Roseira Bra-
va”, no concurso aprovado por unanimidade em sessão de 1º
de abril de 1930: “A Academia faz trabalho de perfeita justiça
distinguindo com Menção Honrosa a “Roseira Brava” de Pal-
myra Wanderley para quem tem a comissão os seus melhores
louvores e em quem reconhece uma das vozes mais harmonio-
sas que nos vem do Norte do Brasil. Cantora das coisas natais,
é esta realmente uma nota que mais atrai no “Roseira” e onde
o plecto de Palmyra mais alto se define como na parte de seu
510
livro: — Rosas de Sol e de Esmeraldas. A poetisa da Rainha do
Potengi, da cidade oblata, sempre num gesto de elevação, das
moitas tristes, das serenatas, dos cajueiros amorosos, das dunas
brancas, coloca-se galhardamente para receber a menção hon-
rosa que a comissão resolveu dar ao seu livro. — ADELMAR TA-
VARES — OLEGÁRIO MARIANO — LUÍS CARLOS GUIMARÃES”.
(Fim da segunda edição, 1965)
PAL MYR A , A PR É - MO D ER NISTA
Vicente Serejo
Jornalista, professor aposentado da UFRN e membro da
Academia Norte-Rio-Grandense de Letras
A pele é fina.
A carne é veludosa, / vermelha como o sangue,
perfumosa, / como se humana a sua carne fosse...
Palmyra Wanderley
512 Esta terceira edição de Roseira Brava chega aos olhos noventa e cinco
anos depois do seu lançamento, em 1929. Além de histórica e refe-
rencial, torna possível, quase um século depois, novos estudos com-
parativos que a crítica literária sempre deverá a Palmyra Wanderley.
A editora Flávia Assaf não se contentou em propor uma
edição fac-similada, acrescida de uma introdução e uma nova
capa, a partir da segunda edição (Fundação José Augusto, Na-
tal, 1965). Como se bastasse para repor a poesia de Palmyra
nos olhos de estudiosos e leitores.
Esta edição, é imprescindível observar, consegue ir além do
apenas comum, neste Rio Grande do Norte de poucos cuidados
com a memória da criação intelectual de sua gente.
Ao perceber as muitas mudanças feitas pela autora, entre as
edições de 1929 e 1965, Assaf tomou a decisão que a técnica e a
sensibilidade recomendam: reuniu, integralmente, as duas edi-
ções de Roseira Brava. A solução torna possível, depois de quase
cem anos, que seus estudiosos e leitores comparem poema a poe-
ma, verso a verso, nos dois tempos separados por 64 anos e reve-
lador da grande diferença da poesia de Palmyra, em qualidade e
volume, arranjos e conteúdos na construção poética da evolução
estética que a faz uma pré-modernista.
A segunda edição de Roseira Brava fez parte do pequeno e
valioso rol das cinco reedições da Fundação José Augusto, em
1965, sob a presidência de Hélio Galvão, ao lado de O Horto, de
Auta de Souza; a Poesia Completa, de Ferreira Itajubá; Gizinha,
de Policarpo Feitosa; e Velhos Costumes do Meu Sertão, de Juvenal
Lamartine. A nova edição vai revelar outra Palmyra, então com
71 anos. As rosas de sua primeira Roseira não eram as mesmas,
embora guardassem a mesma dicção pré-modernista que ilu-
minou a província literária, agora com a força de uma ruptura 513
estética mais forte.
Essa ruptura começa, efetivamente, em 1918, com Esmeral-
das. É preciso não perder de vista o pequeno ensaio de Câmara
Cascudo, em 1921, ao registrar o fazer literário da província no
seu histórico Alma Patrícia, com esse título de sotaque lusitano.
Seus ensaios seriam os marcos pioneiros da leitura crítica da
prosa e da poesia da sua província. Naquele 1921, oito anos
antes da edição definitiva da obra de Palmyra, incomparavel-
mente maior e mais rica, só existia Esmeraldas e é sobre ele que
Cascudo jogou os seus olhos.
Esmeraldas é um pequeno livro de apenas 48 páginas não
numeradas, impressas em papel levemente cartonado para en-
corpá-lo, com uma capa singela, bem do começo do século. O
nome da autora encima as datas da feitura dos poemas – 1916
-1918 – o título em letras verdes e a indicação do gênero: ‘Ver-
sos’. No centro, em azul sob fina cercadura, as três estações das
Esmeraldas, em forma de arco: “Aos que amam...Aos que so-
nham...Aos que sofrem...”, ilustrada por uma carruagem con-
duzida por um anjo e puxada por dois pássaros. Logo abaixo:
“Natal-Rio Grande do Norte”. Fechando a estampa da capa:
“Typ. Commercial - J. Pinto & C. - Natal”.
É o ensaio de Cascudo, nas páginas do Alma Patrícia – tam-
bém sua estreia em livro – a datação que vai assinalar a condi-
ção pioneira de Palmyra Wanderley. Não bastasse esse fato, tem
a relevância de não apenas fixar, como, de alguma maneira,
antecipar em 12 anos o sotaque de uma nova estética poética,
mesmo que incomparável ao arrojo de Jorge Fernandes quando
lança, em 1927, o seu Livro de Poemas. Ela quatro anos antes
514 da Semana de Arte de 22, ele cinco anos depois, embora já es-
crevesse poemas antes do livro que aguçou a visão de Manuel
Bandeira e levou Mário de Andrade a pensar tratar-se de um
pseudônimo do próprio Cascudo.
Mesmo que até agora não tenha merecido a relevância dos
seus críticos, Esmeraldas foi o campo de experiências e provas de
Palmyra Wanderley. É lá que o próprio Cascudo vai sentir as
sensações que expressa no seu ensaio, quando registra, com cer-
to espanto, as preocupações sociais de Palmyra, principalmente
na condição de mulher formada em colégio de freiras, de raízes
na pequena burguesia da Natal de mais de um século. Ele es-
creve: Palmyra conquistou imediatamente, em todos os bailes, em todos
os cantos, onde e como podia, lembrava aos que se divertiam, a fome e
a miséria dos patrícios pelas estradas desertas do sertão em brasa”. E
completa: “Palmyra consegue o que Natal inteira não faria”. É bom
não esquecer que está em Esmeraldas o poema A Seca, um soneto
que, apesar da forma clássica, foge do desenho convencional
para comparar o sertanejo a um homem de braços erguidos da árvore
despedida, vergado de dor, morto entre os espinhos.
É cuidadoso lembrar que o Pré-Modernismo, classificação tão
fortemente assumida por Alceu Amoroso Lima no seu impressio-
nismo (Contribuição à História do Modernismo, José Olympio, Rio de
Janeiro, 1939), foi objeto de seminário que reuniu grandes nomes
da crítica universitária. Promovido pela Fundação Casa de Rui
Barbosa, 1988, ouviu alguns dos mais expressivos estudiosos da
literatura brasileira para fixar um corpus das obras precursoras
do Modernismo de 22, como José Murilo de Carvalho, Francis-
co Foot Hardman, Flora Sussekind, Júlio Castañon Guimarães,
Lúcia Castelo Branco, Regina Zilberman, Telê Porto Ancona Lo-
pez, Adriano da Gama Cury, Ligia Chiappini e Alexandre Eulá-
lio, entre outros. Estudaram Euclides da Cunha, Lima Barreto, 515
João do Rio, Gonzaga Duque e Olavo Bilac, para citar os nomes
mais conhecidos. Lançaram seus olhares em todas as direções da
criação literária, além dos velhos limites daqueles fins do Século
XIX e começos do Século XX. Foram dos romances urbanos ao
sertão, do teatro operário às crônicas de costume do Rio antigo,
da poesia à canção. Com as conferências reunidas no livro Sobre
o Pré-Modernismo, Rio de Janeiro, 1988.
Ora, se para Cascudo, em 1921, foi importante constatar que
pela primeira vez nos últimos anos alguém sentiu poesia daqui mesmo,
então não é estranho aproximar os poemas de Palmyra Wanderley
(1918) dos poemas de Jorge Fernandes (1927) se ambos são reali-
zadores de uma poesia pré-modernista e modernista. Já estão em
Palmyra os versos livres que florescem por entre sonetos e neles
não faltam temas e personagens da terra, como em Lamentos de um
Canário Belga, ou personagens – lavadeiras, pescadores e retirantes
da seca. O amor dos que se amam separados e no amor à terra. Em
Esmeraldas já frutificavam a Mangueira e a Pitangueira, este, o seu
soneto mais lembrado e o que mais resistiu aceso na noite escura
do esquecimento, como um dos mais belos traços da sensualidade
poética e ousada de Palmyra, ao perceber a carnadura de pele fina
e veludosa que descreve como se humana a sua carne fosse...
Quanto aos temas, lá estão os sertanejos, as lavadeiras, os
pássaros, a terra Natal, o mar e os ventos; a seca e inverno. É
a poesia daqui, como escreveu Cascudo. Nos versos livres, tim-
brados pelos ritmos e as metáforas, Palmyra constrói sem temer
o perigo das longas dicções.
Registre-se que a importância de Palmyra foi iluminada in-
tensamente, em 2017, pelos críticos Humberto Hermenegildo e
516 João Maria Paiva Palhano no ensaio Palmyra Wanderley entre trinta
botões de uma Roseira Brava, edição da UFRN, com prefácio da
poetisa Diva Cunha.
É interessante observar que na última das três estações que
dividem e ordenam as suas Esmeraldas - Aos que sofrem... - Palmyra
publica um conjunto de dez cartas e um Post Scriptum: Carta
Aberta, Carta sem Porte, Carta Expressa, Carta Fechada, Carta Regis-
trada, Carta pelo Mar, Carta pelo Vento, Carta por Terra, Carta por
uma Flor e Carta por Especial Favor, esta a única com Post Scrip-
tum, que prefere suprimir da edição definitiva de Roseira Brava. E
fecha o Post Scriptum assim:
Por isso resolvi, caso aprovares, / de destroçar, no dia em que chegares
/ os nossos corações que estão trocados.
Ainda, e para que não falte um instante de contemporanei-
dade consagradora do papel da poetisa de Roseira Brava, vale
registrar sua presença na matéria publicada pela revista Isto É,
edição 2751, de 19 de outubro de 2022 - O Nordeste exporta sabe-
doria, assinada por três jornalistas – Antônio Carlos Prado, Ga-
briela Rölke e Duda Ventura. Palmyra figura ao lado de Ariano
Suassuna, Dom Hélder Câmara, Gilberto Freyre e Jorge Ama-
do, além de outros fortes ícones da cultura nordestina, nas pági-
nas seguintes, como Paulo Freire, Nise da Silveira, João Cabral
de Melo Neto, Manuel Bandeira, Graciliano Ramos, José Lins
do Rego e Torquato Neto.
Por isso não parece justo negar à Palmyra Wanderley o pio-
neirismo de ter chegado antes, embora não se deva comparar sua
Roseira, ainda que Brava, com o arrojo poético de Jorge Fernan-
des, nossa maior referência modernista, apesar de só ter publica-
do seu Livro de Poemas em 1927. Esta edição bem cuidada paga a 517
dívida com a poetisa que soube enfrentar os limites impostos pela
sociedade patriarcal e o seu mando. E a repõe, definitivamente,
no lugar que começou a conquistar há mais de um século.
Neste 2024, cento e trinta anos do nascimento de
Palmyra Wanderley.
No ta s d e f i m
1 A expressão “dá no tecido” foi suprimida da segunda edição, de
1965, e segundo Humberto Hermenegildo e João Palhano, se desco-
nhece seu sentido. Pode ser um erro ou deslize ortográfico, mas pode
também ser menção à Fábrica de Fiação e Tecidos Natal, fundada em
1888 e que funcionou por 30 anos. Se essa hipótese se segue, o verso
poderia se dispor desse modo: “Veste vestido de algodãozinho lá do
TECIDO”, segundo análise e reflexão de Humberto Hermenegildo
e Palhano, corroborada pelo fato de Palmyra ter sido Secretária da
Aliança Feminina, associação de senhoras da elite natalense, que pro-
moveu atividades lítero-musicais para a Casa de Proteção às Moças 519
Solteiras, instituição de apoio às operárias da fábrica citada.
2 Praieira é o poema mais conhecido de Othoniel Menezes, nascido
em 1895 e falecido em 1969, poeta e jornalista, considerado Príncipe
dos poetas potiguares (título dado pela crítica, pelos intelectuais e pe-
los próprios poetas da cidade). A Praieira é também conhecida como
Serenata do Pescador, considerada um hino extra-oficial da cidade e
muito popular no começo do século XX nas serestas, serenatas e
cantorias pela cidade do Natal.
3 Segundo nota de Humberto Hermenegildo e João Palhano, prová-
vel referência à lagoa Manoel Felipe, que é situada também no poema
Boda Selvagem, onde a lagoa é personificada.
4 Menção a Vicente La Greca, ou Murillo La Greca (1899-1985),
pintor pernambucano.
5 Referência ao poema O banho da cabocla, do poeta potiguar Jorge
Fernandes (1887-1953), publicado em O livro de poemas de Jorge
Fernandes, de 1927.
6 Antonio Marinho foi um crítico literário norte-riograndense, nascido
em Natal em 1873 e falecido em 1896. Notório crítico e escritor, foi
homenageado em 1955 por Floriano Cavalcanti em discurso proferido
no Instituto Histórigo e Geográfico do Rio Grande do Norte, onde foi
divulgada sua contribuição para a crítica do estado.
7 Palmyra escreve “Oitizeiro” entre aspas, no original, provavelmen-
te por não ser uma palavra dicionarizada no período (outra forma
comum para designar a árvore do oiti, era ‘oiticica’). Nessa edição,
mantivemos as aspas para sublinhar a novidade nessa palavra para
o período. Nos versos seguintes, Palmyra não grafa mais entre aspas,
escolha que mantemos também aqui.
520 8 O referido “tio Segundo” se refere a Segundo Wanderley, nascido em
1860 e falecido em 1909. Filho do poeta Luis Carlos Lins Wanderley, foi
dramaturgo e poeta, pioneiro do teatro autoral potiguar, além de pro-
fessor do colégio Atheneu, de Natal, diretor do Hospital de Caridade, e
deputado estadual em 1906. Na coleção de suas Poesias Completas, o
crítico e escritor Gothardo Neto diz sobre Segundo, que “Da sua alma
encantadora borbotava o sentimento, como o cristal dos arroios das
entranhas misteriosas da natureza”. (Tavares de Lira, História do Rio
Grande do Norte, 2012, p. 346).
9 Ferreira Itajubá era o pseudônimo do poeta potiguar Manoel Virgílio
Ferreira (1875 (?) - 1912); Deolindo Lima (1885-1944) era poeta, jor-
nalista, amador teatral e boêmio potiguar; Gothardo Neto (1881-1911)
foi poeta e escritor. Os três são patronos, respectivamente, das cadeiras
n.19, n.50 e n.24 da Academia Norte-Rio Grandense de Letras (Aráujo
e Palhano, 2018, p. 109).
10 Referência ao cemitério localizado no bairro do Alecrim, que foi
fundado na segunda metade do século XIX, após um surto de cólera
que acometeu a Cidade do Natal. Antes da fundação do cemitério do
Alecrim, os mortos eram enterrados nas igrejas ou em seus entornos,
hábito que não condizia mais com as práticas sanitárias exigidas para
trato dos finados por doenças infectocontagiosas como a cólera. O
novo cemitério ficava afastado de tal modo do Centro da cidade (en-
tão Ribeira, Cidade Alta e Rocas), que necessitava de um trem que
levasse os moradores até o local. (Cascudo, 1999, p. 265-266 apud
Araújo, Palhano, 2018, p. 110).
11 De acordo com texto fixado por Humberto Hermenegildo de
Araújo e João Palhano, na primeira edição Palmyra escreve “abelha
operosa que faz a teia e fia”. Mas na segunda edição, a autora corri-
ge o verso: torna-se “aranha operosa”.
12 Segundo Humberto Hermenegildo e João Palhano, supõe-se ser re- 521
ferência tanto às dunas do Alecrim e de Lagoa Seca, quanto às dunas
que mais altas que se localizam no espaço que hoje circunda o Parque
das Dunas, em Natal.
13 Segundo Humberto Hermenegildo e João Palhano, provável refe-
rência à Lagoa Seca, braço de água que posteriormente foi aterrado
conforme o processo de urbanização da cidade avançou. A lagoa se lo-
calizava onde hoje fica o cruzamento da Avenida Prudente de Morais
junto à Avenida Alexandrino de Alencar.
14 Menção a Só, livro de poemas de António Nobre, publicado em
1892. O livro era conhecido pelo tom melancólico e saudosista.
15 José de Alencar (1829-1877) foi um jornalista, político, advogado e
notório escritor do romantismo brasileiro. Autor de O Guarani (1857) e
Iracema (1865), entre outros.
16 Auta de Souza (1876-1901) foi uma poeta romântica potiguar.
Autora de O Horto (1900), obra publicada no Rio de Janeiro e em
Paris, irmã do poeta Henrique Castriciano e do jornalista, escritor e
político Eloy de Souza.
17 Barreiros é um logradouro, ainda existente, localizado no município
de São Gonçalo, onde deságua o rio Potengi.
18 Porto do Padre, segundo Itamar de Souza, em “Nova História de
Natal”, era localizado à margem esquerda do Potengi. O porto não
mais funciona atualmente.
19 Poti é referência ao nome de origem do líder indígena Filipe Camarão
(nascido provavelmente em 1600 ou 1601 e morto em 1648). Também co-
nhecido como Potiguaçu, foi chefe da tribo potiguara e ainda aliado dos
portugueses, por quem recebeu o título de Capitão-Mor de Todos os Índios
do Brasil. Foi um dos herois da Batalha dos Guararapes, em Pernambuco.
522
20 Na segunda edição este poema está intitulado ‘Lagoa de Manuel Felipe’
21 Situada no bairro do Tirol, a lagoa de Manuel Felipe era o local mais
frequentado pela alta sociedade natalense para organizar piqueniques; era
um corpo de água conhecido desde o século XVIII, e hoje em dia é parte
do parque público Cidade da Criança, embora suas águas estejam poluídas
e não mais como outrora. (cf. Araújo, Palhano, 2018, p. 112)
22 Na edição original, a frase é atribuída a ‘Lubbeck’, apenas, com grafia
que possivelmente era difundida na época. Para esta edição, utilizamos a
grafia mais difundida contemporaneamente, que é o sobrenome do com-
positor e organista alemão Vincent Lübeck.
23 Segundo Câmara Cascudo, em Nomes da Terra (FJA, 1968), antes de
se chamar Vila Nova de Estremoz (1758), a localidade era conhecida como
Aldeia do São Miguel do Guajiru. Até 1577, esteve sob a direção dos pa-
dres Jesuítas, e era habitada por “1429 almas”, indígenas Tupi e Tarairiu
Paiacu. A Aldeia contava com “a mais linda Igreja da Capitania”.
24 Possível remissão ao rio Potengi, segundo Humberto Hermenegildo e
João Palhano (2018). A hipótese é a partir da consideração de que nos anos
20, a vegetação do manguezal margeava também o rio.
25 Thabor é o nome da montanha onde Cristo experienciou a
Transfiguração e tornou-se luminoso, segundo os evangelhos de Ma-
teus, Lucas e Marcos.
26 “O Corvo” é um poema do escritor norte-americano Edgar Allan
Poe (1809-1849), publicado pela primeira vez em 1845, que narra
o encontro sombrio de um homem com um corvo que bate à sua
janela. O diálogo entre o homem e o corvo é marcado pela repetida
palavra que o corvo entoa: “Nevermore” (Nunca mais). Este poema
foi objeto de reflexão estética pelo próprio Poe em seu ensaio “Filo-
sofia da Composição”, de 1846. 523
27 Adaptação do poema Clouds and Waves, do poeta indiano Rabindrana-
th Tagore (1861-1941). Tagore era considerado o nome central da literatu-
ra indiana, recebendo o Prêmio Nobel de Literatura em 1913, notabilizado
por uma lírica carregada de misticismo. Foi objeto de leitura e admiração
de diversos intelectuais no século XX, de W.B. Yeats a Cecília Meireles, no
Brasil, que traduziu alguns poemas. Sua postura política diante dos massa-
cres empreendidos pelos ingleses contra o povo indiano, então colônia da
Inglaterra, também era notória. A tradução de Palmyra, pouco ortodoxa,
parte do tema do poeta indiano mas cria uma perspectiva cristã no texto, de
modo que se conserva apenas o tom infantil que já há no original.
28 Palmyra grafa “mamãzinha’, ao invés de ‘mamãe’, como uma forma
preliminar em relação à grafia contemporânea ‘mamãe’. Mantivemos
para preservar, também, o ritmo de discurso infantil que há no poema.
29 Adaptação do poema Colored Toys, do poeta indiano Rabindranath
Tagore. Do mesmo modo que o poema anterior, Palmyra cria um diá-
logo a partir do tema original de Tagore, incluindo um recorte cristão e
um tom lírico próprios. O procedimento usado pela poeta é assimilati-
vo, partindo da referenciação e da repetição de um texto já estabelecido
para nele introduzir sua dicção poética.
30 As citações a Igapó e Santo Antônio são mudanças em relação à
versão do poema de 1929. O povoado conhecido como Santo Antônio
dos Barreiros foi criado em 1885 como vila. Hoje, Santo Antônio foi al-
çado à categoria de distrito do município de São Gonçalo do Amarante.
Igapó, antigo povoado de Aldeia Velha, hoje é um bairro localizado na
Zona Norte de Natal. O nome Igapó, segundo Cascudo (Nomes da Ter-
ra, 1968, p.91) significa “água que invade, enchente, alagado”.
31 Como assinalado na primeira edição, este poema é uma transcria-
524 ção/tradução de Rabindranath Tagore (1861-1941), mesmo procedi-
mento que se dá no poema seguinte, ‘Quando e porque’.
32 Musicado pela autora.
33 Newton Navarro, nascido em 1928 e falecido em 1992, foi um poeta,
pintor, contista e cronista natalense.
Referências do texto Palmyra Wanderley:
poesia moderna em transição nos versos de Roseira Brava,
de Alexandre Alves
ALVES, Alexandre. Poesia submersa: poetas e poemas no RN 1900-1950. Mossoró:
Queima-Bucha, 2014.
ARAÚJO, Humberto Hermenegildo de. Modernismo anos 20 no RN. Natal:
EDUFRN, 195.
CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. São Paulo: T.A. Queiroz, 2000.
526 CASCUDO, Luís da Câmara. O livro das velhas figuras VIII. Natal: EDUFRN, 2002.
DUARTE, Constância Lima; MACÊDO, Diva Cunha (orgs.). Literatura do Rio
Grande do Norte. 2. ed. Natal: Fundação José Augusto / Governo do Estado do
Rio Grande do Norte, 2001.
FERNANDES, Jorge. Livro de poemas de Jorge Fernandes. Natal: EDUFRN, 2008.
FERREIRA, José Luiz. O Modernismo na província: divulgação e produção
poética. In: ARAÚJO, Humberto H. de (org.). Histórias de letras. Natal: Scrip-
torin Candinha Bezerra/Fundação Hélio Galvão, 2001.
INGERSOLL, Helen. Poesia. Mossoró: Amigos da Pinacoteca, 2021.
MEDEIROS, Rostand. 1922, o poema de Palmyra aos aviadores. Disponível em:
em https://tokdehistoria.com.br/2011/02/15/1922-o-poema-de-palmyra-wan-
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MELLO, Veríssimo de. Introdução. In: FERNANDES, Jorge. Livro de poemas.
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de Natal em 400 anos. Natal: Governo do Estado do Rio Grande do Norte /
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OLIVEIRA, Danielle Lago. O Modernismo através dos olhos de Palmyra Wa-
nderley. In: ARAÚJO, Humberto Hermenegildo de; ROSADO, Isaura (orgs.).
Bom dia, moderno potiguar. Natal: FAPERN, 2009.
WANDERLEY, Palmyra. Roseira brava. 2. ed. Natal: Fundação José Augusto, 1965.
WANDERLEY, Palmyra. Aviador. A República, 18 de junho de 1922, p.01.
WANDERLEY, Rômulo C. Panorama da poesia norte-rio-grandense. 2. ed. Natal:
FUNCARTE, 2008.
527
Í nd ic e d o s po e m as
Roseira Brava - primeira edição
48 Palmeira
50 Bem-te-vi
51 Salve Rainha do Potengi
55 Petrópolis é a colina do sonho
62 Praia do Meio “Gaivota de Asa Aberta”
66 Areia Preta, flor de verão
73 Sinhá Rocas
528 77 Tirol é direitinho uma paisagem bíblica
83 Refoles
88 Alecrim
94 Barro Vermelho, Ninho de Poetas
97 Passo da Pátria
105 Boda Selvagem
110 Castelinhos n’Areia da “Praia do Meio”
115 Fortaleza dos Reis Magos
116 Extremoz
122 Palma da Ressurreição
124 Baunilha
125 Flor de Urtiga
126 Uirapuru
127 Árvore do Bem
128 Palmeira do Rosário
129 Pitangueira
130 Aguarela
131 Não cantas mais!
132 Flamboyants
133 Lavadeiras de minha terra
134 Figueira
135 Lírio Vermelho
136 Mangueira
137 Árvore Feliz
140 Pau D’Arco
141 Caminho de São Gonçalo
144 “Ponte Velha” do Recife
149 Mandacaru 529
150 Oração da Paz
153 Conselhos à minh’alma
154 Felicidade
155 A dor que mais doeu
158 Senhor dos Passos
159 Adeus Maria
160 Cena Infantil (sob tema)
165 Almas Paralelas
166 Ingenuidade
167 Inocência
170 Que cheiro bom!
171 Tento fugir do teu olhar
172 Desde aquele instante em que te olhei
173 É tarde, é muito tarde, meu amor!...
174 Quando passo contigo conversando
175 Olha naquele poço tão profundo
176 Não me olhes assim nunca na vida
177 Luar
178 O Poeta das Colmeias
180 Maria Nina
185 Dindinha Lua
188 Nuvens (Rabindranath Tagore)
191 Quando e Porque (Rabindranath T agore)
194 Escuta!
195 Anjos da Guarda do Nosso Amor
530 200 Para Nós Dois
201 Como foi que eu dormi ao relento?
202 Fui Incensar
203 Quero beijar o teu manto primeiro
209 Flor do teu Canteiro
211 Como se fosse o luar
213 O teu jardim
216 Era uma vez um Príncipe Encantado
220 Ave perdida, sem saber do ninho
222 O senhor do luar
224 A tua jardineira
225 Foste tu mesmo
227 Indefinido Mal
228 A minh’alma na tua mergulhada
229 Eu e você
Roseira Brava - segunda edição
246 Palmeira
248 Bem-te-vi
249 Salve Rainha do Potengi
253 Petrópolis é a colina do sonho
258 “Praia do Meio” Gaivota de asa aberta
262 Areia Preta - Flor de Verão
269 Sinhá Rocas
275 Tirol é direitinho uma paisagem bíblica
282 Refoles
288 Alecrim 531
294 Barro Vermelho Ninho de Poesia
297 Passo da Pátria
305 Lagoa de Manuel Felipe
310 Castelinhos na Areia da Praia do Meio
316 Fortaleza dos Reis Magos
317 Extremoz
322 Palma da Ressurreição
323 Baunilha
324 Flor de Urtiga
325 O Uirapuru
326 Palmeira do Rosário
327 Árvore do Bem
328 Pitangueira
329 Aguarela
330 Não cantas mais!
331 Flamboyants
332 Lavadeiras de minha terra
333 Pau D’Arco
334 Figueira
335 Lírio Vermelho
336 Caminho de São Gonçalo
338 Mangueira
339 Árvore Feliz
342 Ponte Velha do Recife
346 Mandacaru
532 347 Conselhos à minha alma
348 A dor que mais doeu
351 Felicidade
352 Senhor dos Passos
353 Adeus Maria!
354 Cena Infantil
359 Almas Paralelas
360 Ingenuidade
361 Inocência
362 Indefinido Mal
363 Luar
364 São Francisco de Assis
366 Dindinha Lua
369 Nuvens
372 Quando e porque
375 Escuta!
376 Anjos da guarda do nosso amor
380 Para nós dois
382 Que cheiro bom!
383 Como foi?...
384 Fui incensar
385 A minha alma
386 Quero beijar
388 Tento fugir
389 Desde aquele instante
390 É tarde!
391 Conversando 533
392 Olha!
393 Não me olhes
397 Flor do teu canteiro
399 Como se fosse o luar
401 O teu jardim
404 Era uma vez…
408 Ave perdida
410 O senhor do luar
412 A tua jardineira
413 Foste tu mesmo
415 Eu e você
418 Nordeste
419 Deus te salve, Natal!
424 Cravos
425 Conversa com Nossa Senhora
427 As rosas encarnadas
428 As abelhas
430 Capibaribe
432 Sinal de paz?
434 Na manjedoura de Belém
437 Uma interrogação
438 Tormenta
439 Esse teu bem
440 Ciúmes do mar
442 Nossa Senhora da Apresentação
534 443 Oferenda de pobre
444 Poema do soldado de Fernando Noronha
449 Retrato de mãe
451 Voltando a Recife
454 Exaltação
456 O natal da criança pobre
458 Oração do povo fiel
461 Praia de Pirangi
465 Ponta Negra em serenata
468 Redinha
469 Natal triste
417 De joelhos
472 Pé de Manacá
474 Moleque de rua
479 Homem
480 Soneto da distância
481 Pintor de ovelha
483 Quadro patriótico
487 A mangueira e os pássaros
488 Senhora minha! Rainha nossa!
493 Cântico de espera
496 Oração da saudade
500 Trovas
535