Amaru Tulio
Amaru Tulio
Museu Nacional
Programa de Pós-Gradução em Antropologia Social
2019
As várias formas de Amaru:
a personagem mitológica nas regiões noroeste amazônica e andina
Rio de Janeiro
2019
As várias formas de Amaru: a personagem mitológica nas regiões noroeste
amazônica e andina
Banca examinadora:
_________________________________________________
Orientador: Prof. Dr. Eduardo Viveiros de Castro
Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional, UFRJ
_________________________________________________
Profª Drª Bruna Franchetto
Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional, UFRJ
_________________________________________________
Profª Drª Lydie Oiara Bonilla Jacobs
Departamento de Antropologia, Universidade Federal Fluminense
_________________________________________________
Profª Drª Aparecida Maria Neiva Vilaça (suplente)
Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional, UFRJ
_________________________________________________
Profª Drª Joana Miller (suplente)
Departamento de Antropologia, Universidade Federal Fluminense
À minha mãe
AGRADECIMENTOS
INTRODUÇÃO.............................................................................................................12
CAPÍTULO 1 – AS REFLEXÕES DE LÉVI-STRAUSS..........................................14
CAPÍTULO 2 – A AMARU BANIWA.........................................................................26
Cosmologia baniwa........................................................................................................27
O benzimento kalidzamai e o roubo das flautas..........................................................33
A serpente Umawali.......................................................................................................39
A placenta de Amaru.....................................................................................................48
Breve resumo..................................................................................................................50
Mitos sobre relações com cobras..................................................................................52
A placenta de Amaru e as vísceras flutuantes.............................................................59
CAPÍTULO 3 – OUTROS MITOS DE JURUPARI..................................................62
A versão de Stradelli......................................................................................................62
Mitologia barasana........................................................................................................67
CAPÍTULO 4 – A AMARU INCA................................................................................82
CONCLUSÃO..............................................................................................................108
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS......................................................................116
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INTRODUÇÃO
características e das ações de Amaru, passei a reparar que esta personagem baniwa
cumpre, nos mitos, uma função ofídica – semelhante à da outra Amaru, a serpente arco-
íris inca. É essa a hipótese que sustento aqui. A Amaru baniwa está em relação de
transformação com a Amaru inca.
...
Para elaborar este argumento, apresento inicialmente as reflexões de Lévi-
Strauss que o levaram à percepção da existência dessa associação entre as Plêiades e a
cobra arco-íris. Em seguida, introduzo os mitos baniwa, sobretudo os que possuem
relação direta ou indireta com Amaru. Sublinho os elementos e episódios desses mitos
que permitem o desenvolvimento do raciocínio aqui proposto.
Uma análise comparativa de uma personagem mitológica como a que me dedico
a fazer neste trabalho exige não somente uma incursão na mitologia baniwa, mas
também um sobrevoo pelo corpus mítico no qual ela se insere: a mitologia do noroeste
amazônico, sobretudo a que diz respeito ao mito de Jurupari, disseminado – em suas
várias versões – pela região.
Por isso, após o mergulho nos mitos relacionados a Amaru, apresento duas
outras variantes da história de Jurupari: a recolhida entre os Tariana pelo etnógrafo
italiano Ermano Stradelli e a registrada por Stephen Hugh-Jones entre os Barasana. A
apresentação destas versões e a comparação com a baniwa são etapas importantes do
trabalho. Elas não somente demonstram que os elementos detectados nas narrativas
acerca de Amaru, embora se transformem, continuam presentes (endossando a
pertinência dos insights lévi-straussianos), mas também tornam evidente que o mito de
Jurupari possui fortes conexões com as cosmologias da região andina, inclusive a que
remonta aos Incas – povo que comprovadamente mantinha contato com a floresta
tropical, sendo conhecedor, inclusive, de sua fauna reptiliana.
A última parte do trabalho é dedicada a destrinçar as características e atribuições
da Amaru inca. Baseando-me nos escritos dos cronistas, em imagens, em estudos
arqueológicos, bem como em relatos de comunidades andinas atuais, foi possível
observar as formas com que essa serpente arco-íris aparece, os movimentos que realiza
e as funções que lhe são atribuídas. O conjunto desses aspectos, comparado ao que foi
dito a respeito da Amaru baniwa, deixa evidente que as duas personagens estão em
relação de transformação.
14
vezes – “desde a Guiana até o Chaco” –, é o próprio arco-íris que se confunde com uma
cobra multicolorida, com tendência malignas e assassinas (Idem, p. 284).
Lévi-Strauss ainda demonstra que tanto na mitologia da Guiana quanto na do
Chaco há o tema da árvore dos alimentos – provedora de vida –, que pode ser
assimilada à Via Láctea – constatação que o faz conceber a equação de que a Via Láctea
está para o arco-íris assim como a vida está para a morte. Ele utiliza observações feitas
por Tastevin para corroborar esta equivalência. Este “autor frisa que a cobra Boyusu se
manifesta de dia na forma de arco-íris e à noite na forma de uma mancha negra na Via-
Láctea. A contrapartida noturna do arco-íris seria, pois, a não-presença da Via-Láctea
num ponto em que ela deveria normalmente estar” (Idem, ibidem).
Dito isso, mencionaremos alguns exemplos de significações dadas ao arco-íris,
apresentados por Lévi-Strauss, que nos serão importantes. Em um mito bororo que
aparentemente não traz referências ao fenômeno, há uma personagem que é a mãe das
doenças. A história termina com os irmãos dela cortando-a em dois pedaços e jogando-
os um num lago a leste e outro num lago a oeste. O antropólogo afirma que essa
personagem é transformável em arco-íris. Primeiro por ser, como este, causa das
doenças. Segundo, por ser enviada aos dois pontos cardeais. “Esse aspecto ‘dual’ do
arco-íris ocupa um lugar importante nos mitos sul-americanos” (Idem, p. 285). Já
mencionamos a teoria timbira, que foca nas duas extremidades do arco-íris, saídas da
boca de sucuris. Os Katawashi, por sua vez, distinguem dois arco-íris, um a leste e outro
a oeste. Distinção também verificada entre os Tukuna, em que os dois arco-íris são
demônios subaquáticos, um dono dos peixes, outro dono da argila de cerâmica – “que
também é um modo de água, visto que os mitos tukuna sempre deixam claro que é
extraída do leito dos rios” (Idem, p. 285). Por sinal, a heroína bororo referida acima
também assume, no mito, o papel de dona dos peixes; ela os exsuda pelo corpo, “na
forma de doenças que matam grande quantidade de humanos” (Idem, p. 287) . Outra
característica sua é a de ser uma má nutriz, pois “abandona o filho para mais facilmente
se empanturrar de peixe” (Idem, ibidem).
Lévi-Strauss, em passagem anterior do livro, caracteriza o sariguê, ou a sarigueia
– a partir da leitura de suas aparições nos mitos –, como boa nutriz e fedida.
Modalidades, portanto, comparáveis às da heroína bororo. Esta inverte a modalidade
positiva (é má nutriz) e eleva a negativa a uma alta potência (o fedor que exala dos
peixes que exsuda é causador de doenças fatais para a humanidade). Seu fedor, portanto,
atinge o ponto de excluir a virtude nutriz.
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veneno quanto pela das doenças. Coincidência que Lévi-Strauss interpreta pelo fato de
as epidemias causarem “enormes lacunas na trama demográfica. Elas provocam o
mesmo efeito que o veneno de pesca, que [...] faz na população dos rios estragos
desproporcionais com os resultados que se pode obter por outros meios” (Idem, p. 320).
A respeito da concepção do veneno na filosofia indígena, Lévi-Strauss constata:
...
Feitas essas pontuações, podemos agora tratar do capítulo de Do mel às cinzas
em que se encontra o trecho que, como dissemos no início, guia o desenvolvimento
desta dissertação.
Dissemos que as Plêiades são associadas às estações e às alternâncias do tempo,
o que implica, obviamente, numa variação no significado dessa constelação – uma vez
que a estação e o clima aos quais ela se associa mudam de acordo com a região a partir
de onde se as observa. Além disso, a conotação dada às Plêiades também varia numa
mesma região, pois ela adquire um significado quando surge no leste, outro quando se
põe no oeste, ou, ainda, uma conotação quando desponta no amanhecer, outra quando o
faz após o crepúsculo. Cada um desses momentos pode indicar a seca, as chuvas, o
início das atividades agrícolas etc..
Nota-se, assim, uma “ambivalência meteorológica” (Lévi-Strauss, 2004b, p.
251) das Plêiades, o que faz com que sejam objeto tanto de saudações de alegria quanto
de temor. Alguns exemplos que o autor traz desse reflexo da ambivalência
meteorológica num outro plano são significativos para o nosso trabalho. Os Arawak
acreditam que quando essa constelação está muito brilhante – o que ocorre no período
de sua aparição – haverá muitas mortes. “Brilhante”, para eles, é sinônimo de
“malvada”. Só não se sucumbe totalmente a esse brilho mortífero devido à intervenção
de uma cobra celeste (Perseu). Os Kalina dizem ter existido, sucessivamente, duas
constelações das Plêiades. “A primeira foi devorada por uma cobra; outra cobra
persegue a segunda e surge no leste, quando ela se põe no oeste. O fim dos tempos
ocorrerá quando a cobra a alcançar”. As Plêiades, entretanto, também evitam “que os
21
A associação com o mel vai além do nome. Lévi-Strauss demonstra como Ceucy
é uma inversão da moça louca por mel, personagem que figura em outros mitos
abordados pelo autor. Esta é “movida por uma gula bestial” e engole esse mel que
normalmente é vomitado; faz surgir as “Plêiades sob um aspecto masculino e fecundo
(abundância de peixes)”; além de ser “uma mãe (em alguns casos, de vários filhos) que
abusa do casamento, cometendo adultério com um aliado” (Idem, ibidem). O autor a
considera uma moça mal-educada, ao passo que o mito de Ceucy funda um sistema
severo de educação das moças. Neste sentido, a primeira ainda se liga à segunda pois
ela está incluída no “ciclo mitológico relativo à iniciação dos rapazes” (Idem, p. 266).
Portanto, em um caso a heroína engole o mel, no outro ela carrega o próprio
nome desse mel que deve ser vomitado. Além disso, no primeiro caso ela é uma
“criatura malfazeja, que determina, do lado de fora, a aparição das Plêiades, revestidas
de um aspecto masculino e provedor”. Já no segundo “ela mesma é determinada como
Plêiade, aspecto feminino ao qual os índios guianenses atribuem um valor sinistro”
(Idem, p. 267).
Aqui reencontramos o trecho citado inicialmente, que, como dissemos, norteia
este trabalho. Recapitulando, Ceucy contém um caráter benéfico, pois propicia o
surgimento dos peixes, que são pescados em grande quantidade, com o auxílio das
plantas venenosas. Já o caráter maléfico remete às epidemias que ela traz.
O arco-íris, ou a cobra arco-íris, também assume o papel de dono dos peixes,
além de ser causa da origem das epidemias e do veneno de pesca – função etiológica
atribuída a seu cromatismo, ao qual o pensamento indígena imputa um caráter maléfico.
O cromatismo, por ser o reino dos pequenos intervalos, pertence ao lado do contínuo,
onde estão também as Plêiades, devido à distribuição agrupada mas aleatória de suas
estrelas. Elas podem ser vistas como um fragmento da Via Láctea no céu escuro, o que é
simétrico ao fragmento de céu escuro no meio da Via Láctea – que é concebido como
arco-íris noturno. Além disso, há uma dupla oposição que aponta outra afinidade direta
entre esses dois termos. O arco-íris é diurno; as Plêiades, noturnas. Aquele é diário, esta,
sazonal. Ambos, ainda (dependendo da região e do momento em que se as observa, no
caso das Plêiades), “anunciam a interrupção da chuva, seja durante um momento do dia,
seja durante um período do ano”. Portanto, “numa escala temporal mais restrita, o arco-
íris é uma constelação das Plêiades diurna” (Idem, ibidem).
Essa equação também pode ser obtida por uma via diferente. Uma outra
personagem dos mitos tratados por Lévi-Strauss, Estrela, situa-se a igual distância da
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moça louca por mel e de Ceucy. Lembremos que a moça louca por mel é casada, porém
sedutora do irmão de seu marido. Já Ceucy é uma virgem enclausurada, transformada
em constelação pelo próprio irmão. Estrela, por sua vez, é casada e casta, no entanto
violentada pelo irmão ou pelos irmãos de seu marido.
Ela, ainda, é “bem-educada demais” e “concorda em ser uma provedora, não
uma esposa”. Vomita “milho, protótipo das plantas cultivadas”, no marido, “em vez de
tirar o mel da boca dele (moça louca por mel) ou de ser ela própria um mel destinado a
ser vomitado (Ceucy)” – o mel é assimilado, pelo pensamento indígena, a um fruto
selvagem. Estrela também
...
Feita essa incursão em algumas das reflexões desenvolvidas por Lévi-Strauss
nas Mitológicas, podemos apresentar o objetivo deste trabalho. A etnia Baniwa, grupo
arawak habitante do Alto Rio Negro, no noroeste amazônico, possui uma versão própria
do mito de Jurupari. Nela, o herói denomina-se Kuwai, e sua mãe, Amaru.
Amaru é também o nome dado a uma personagem mítica dos antigos Incas.
Trata-se de uma serpente que em algumas representações apresenta duas cabeças, uma
em cada ponta do corpo. Frequentemente possui a forma de um arco-íris, em outros
casos aparece como uma serpente alada.
À primeira vista, não há maiores semelhanças entre as duas personagens, à
exceção da homonímia. No entanto, guiados pelo raciocínio de Lévi-Strauss,
mostraremos que uma pode ser encarada como transformação da outra.
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Cosmologia baniwa
Os Baniwa, grupo arawak habitante do Alto Rio Negro, no noroeste amazônico,
concebem a história do cosmos como sendo dividida por diferentes eras (Wright, 1998;
Xavier, 2008, pp. 92-93). Numa primeira era reinava um estado permanente de caos, em
que tribos de animais predadores matavam e devoravam os Duemieni – os seres
primordiais –, chegando praticamente a exterminá-los.
Enúmhere, o chefe desses predadores, após comer uma de suas vítimas, joga seu
osso no rio. Nesse osso estavam Nhiaperikoli e seus dois irmãos – ou, os Nhiaperikonai,
“aqueles dentro do osso” (Wright, 1998, p. 29). Estes também são referidos como os
hekwapinai, o povo universo; serão eles, encabeçados por Nhiaperikoli, os moldadores
e transformadores do mundo.
Aparece então uma figura feminina, a esposa de Enúmhere e ao mesmo tempo
avó – tia em outras versões – dos Duemieni, que se compadece dos Nhiaperikonai e,
com o consentimento do marido, resgata o osso do fundo do rio. O que Enúmhere
ignora é que ela passa a cuidar dos meninos dentro do osso, que eles estão vivos, e que
vão crescendo, se libertando do invólucro e passando por múltiplas transformações – em
camarão, grilo, pica-pau – até se tornarem humanos. A partir daí eles começam a
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‘Naquele tempo’, diz seu Marcelino, ‘todos eram humanos, peixes e homens
eram iguais’. Não havia (ainda) a diferença de perspectivas, em que homens
veem a si mesmos como humanos, peixes veem a si mesmo como humanos,
etc, mas que há uma ‘barreira’ no reconhecimento entre as espécies. Naquele
tempo, a humanidade era indistinta, e todos viam-se igualmente e uns aos
outros como sociedades providas de cultura. Naquele mundo primordial,
disputava-se a ‘humanidade dominante’. (Xavier, 2008, p. 93)
1
Esta versão foi incluída na coletânea de mitos Waferinaipe Ianheke: a sabedoria dos nossos
antepassados, volume 3 da Coleção narradores indígenas do Rio Negro, publicada pela FOIRN
(Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro), quando André Fernando era vice-presidente desta
fundação.
29
Conta o xamã Pereira que, no início, havia apenas uma pequena bola de pedra,
cujo nome era Hekwapi. Não havia absolutamente nada em volta dela. A “criança
universo”, hekwapi ienipe, procurava pela Terra. Enviou a pomba Tsutsuwa nessa
missão, colocando-a em cima da pequena bola, que então se transformou na Terra. A
“criança universo” fez o Sol subir sobre a nova Terra até ficar acima do buraco Hipana,
o umbigo do universo. Sentindo-se sozinha, a criança foi ao buraco e retirou pessoas de
dentro dele. Procurou também pela noite, que retirou de um cesto, dando início à
alternância dia/noite, pois até então apenas o dia existia (Idem, pp. 231-232).
Em sua interpretação desse mito, Wright ressalta que hekwapi ienipe era órfã
(pawaada), ou seja, foi o primeiro ser existente. Além dele, só havia a pequena bola que
flutuava no lipukuthawa, o vasto espaço vazio e luminoso. O corpo da “criança
universo” era, pois, o Sol.
Uma consideração sobre esse conceito de corpo na cosmologia baniwa se faz
necessária para prosseguirmos. A “criança universo” é, na verdade, “a luz, sem forma
definida, cujas características são a luminosidade brilhante, a refletividade [...] e a
intencionalidade” (Idem, p. 237). Essa é a definição de sua newiki, sua pessoa – ou seja,
“o conjunto de características que definem sua agentividade” (Idem, p. 235). A newiki
dos seres cosmológicos é destacada de seu corpo. No entanto ela realiza uma projeção
de si; a materialização dessa projeção é o que podemos denominar corpo. O corpo dos
seres cosmológicos pode ser visto por todos os humanos, já à sua pessoa somente os
xamãs têm acesso. Portanto, o “corpo-sol é a manifestação corpórea dessa luz” (Idem, p.
237) que é a “criança universo”.
Não tendo sido gerada por nenhum processo reprodutivo anterior, ela “encarna a
ideia de autogeração” e é, então, segundo os Baniwa, “nosso pai órfão” (Idem, ibidem).
A “criança universo” é o primeiro ancestral de todos os Baniwa; é quem, conforme
demonstra o mito, dá origem a eles retirando-os do buraco em Hipana, o umbigo do
mundo. É também o pai de toda a humanidade e de todos os seres vivos. Por fim: essa
criança é Nhiaperikoli.
A história de Kuwai
Nhiaperikoli se conectou com Amaru, sua tia, através do pensamento. Foi este
que a penetrou e engravidou. Não houve intercurso sexual. Seu pensamento foi para
baixo de Amaru, subiu até sua barriga e lá ficou. Kuwai é esse filho que cresceu nela.
Amaru não tinha vagina. Nhiaperikoli, então, pegou uma tora de patauá para
abrir uma passagem em Amaru e tirar Kuwai dela. Assim que o fez, Amaru desmaiou.
Nhiaperikoli a ressuscitou e ela perguntou por seu filho. Porém os homens o haviam
levado para longe dela, para ser cuidado por uma outra Amaru, a preguiça.
Nhiaperikoli percebeu que não tinha como Kuwai viver nesse mundo. Qualquer
mínimo gesto seu gerava um barulho ensurdecedor. Nhiaperikoli, então, mandou Kuwai
embora para o céu.
Quatro meninos em fase de crescimento catavam marimbondos e vespas e os
colocavam em camotis. Dançavam com eles e assim reproduziam o som de Kuwai;
eram seu Kuwai de mentirinha.
2
Há xamãs que consideram que a evangelização efetuada pela missionária Sophie Muller na região, em
meados do século XX, transformou as tradições num nível comparável a uma nova mudança de era
(Wright, 2005, pp. 263-264).
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Kuwai, que os observava, decidiu ir até eles. Apareceu como um homem branco.
Primeiro perguntou por Nhiaperikoli e os meninos disseram que ele não estava lá.
Depois falou que o que eles faziam era bobagem; que o Kuwai de verdade era ele. Os
meninos pediram então que ele cantasse para provar. Kuwai disse que o faria somente se
eles jejuassem por duas estiagens. Os meninos toparam e Kuwai cantou várias canções.
O corpo de Kuwai é cheio de buracos; cada buraco de cada parte do corpo emite uma
canção diferente. Quando todas as partes cantam ao mesmo tempo, o som produzido é
aquele que criou o mundo. Kuwai representa o conhecimento do pai – que é o sol, como
já demonstramos – transmitido, através da música, para as sucessivas gerações.
Kuwai também estimula que eles se açoitem uns aos outros. Pede que não
revelem sua aparição para Nhiaperikoli. Retorna no dia seguinte, quando o sol está a
pino, canta novamente, e se vai.
Nhiaperikoli aparece e os chama para comer. Eles se esquivam, repetem a
atitude no dia seguinte, e Nhiaperikoli compreende que estão se encontrando com
Kuwai. Decide que no próximo dia irá antes ao local, preparar a casa para a vinda de
Kuwai. Levou primeiro as mães – as Amarunai – para o porto, pois elas não podem vê-
lo. Depois foi com os meninos até a casa, deixou-os esperando Kuwai e se escondeu.
Kuwai chegou, perguntou por Nhiaperikoli. Os meninos responderam que ele
havia ido embora, mas Kuwai sabia que Nhiaperikoli estava lá. Este, assim, apareceu e
perguntou sobre as recomendações de Kuwai, que então informou que após o jejum
prescrito os meninos poderão comer pimenta e todo tipo de peixe. Falou também que
era para as mulheres colherem mandioca e fazerem caxiri; após isso ele voltaria para
açoitar os meninos.
Quando estava tudo pronto e o período de duas estiagens passou, Kuwai retornou
para açoitar os meninos e cantar. Logo após eles foram colher frutos do mato. Kuwai
subiu no pé de uacu para jogar os frutos aos meninos. Todos ainda voltariam, Kuwai
benzeria a pimenta e só então eles poderiam comer. Porém havia um fogo abaixo da
árvore em que os meninos assaram o uacu e comeram. Apenas o mais novo não comeu.
A fumaça do fogo subiu até Kuwai, que cantou uma canção recriminando os meninos
pela desobediência. Os buracos de seu corpo se abriram, jorrando saliva. Veio uma
enorme chuva. Kuwai desceu da árvore, abriu a boca, que se transformou numa caverna,
e gritou para os meninos se abrigarem dentro dela. Apenas o mais novo não entrou.
Kuwai fechou a boca e comeu os três meninos. Voltou à casa e os vomitou, mortos.
32
Nhiaperikoli – que também jejuava – e o menino mais novo estavam com fome e
precisavam de Kuwai para encerrar o jejum. Nhiaperikoli fez imagens dos meninos
devorados. Encarregou um inseto da missão de ir ao céu e convencer Kuwai a descer e
benzer a comida. Kuwai aceitou somente após uma segunda tentativa de Nhiaperikoli.
Porém sabia o que aconteceria.
Kuwai recebe os materiais necessários – a pimenta, os charutos de tabaco, o
banco para sentar – e começa o benzimento, denominado kalidzamai, que dura até o
amanhecer. E é dessa forma que ensina a Nhiaperikoli e seus irmãos Eri e Dzuuli esse
benzimento que é realizado até hoje.
Quando terminou de benzer, repartiu a comida. Sabia que Nhiaperikoli tinha a
intenção de matá-lo. Diz para ele que não conseguiria, pois nada é capaz de matá-lo –
visto que seu corpo é todas as coisas. Afirma que somente o fogo tem esse poder. Eles
seguem dançando e cantando. Quando o sol estava a pino, Nhiaperikoli empurrou
Kuwai no fogo.
Das cinzas de Kuwai surgiu uma enorme árvore paxiúba que cresceu até tocar no
céu. Nhiaperikoli solicitou ao pica-pau que cortasse a árvore em pedaços. Este o fez, e
Nhiaperikoli, amarrando as penas do gavião Kamathawa nos pedaços, transformou-os
em instrumentos e passou a tocá-los.
As mulheres, que eram Amaru, a mãe de Kuwai, queriam os instrumentos.
Nhiaperikoli, certa feita, mandou o filho ir ao porto, de madrugada, lavar o pênis com
cipó de espuma. As mulheres, ouvindo a conversa, aproveitaram a ocasião para ir até o
porto e roubar os instrumentos do local onde estavam escondidos dentro do rio [os
instrumentos aqui equivalem ao filho, Kuwai, que foi se banhar no porto].
Nhiaperikoli as escuta tocando os instrumentos e vai atrás delas. Elas atiram
dardos envenenados – que saíram de dentro das flautas – e fazem Nhiaperikoli recuar.
Fugiram com os instrumentos rio acima e, nas cabeceiras do igarapé Uaraná, na Serra de
Motipana, fizeram uma casa e a cercaram. A mais nova das mulheres menstruou;
fizeram então o benzimento kalidzamai para sua comida.
Nhiaperikoli, que as tinha seguido e ficado observando de fora da casa, voltou
rio abaixo para organizar uma guerra contra as mulheres. Pegou flechas venenosas e
reuniu os animais seus parentes – entre eles a cutia, a paca, o tatu, os pássaros e também
a ni-Amaru (a arraia). Subiram o rio, transformaram-se em sapos, cujo canto – que
entoaram – é igual à palavra “tia”: kuikui. Amanheceu e as mulheres terminaram o
benzimento. Logo em seguida eles atacaram – começou uma guerra. Cada hora um dos
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grupos inimigos conseguia obter a posse de Kuwai. Nhiaperikoli jogou uma das
mulheres para o céu. Outra escondeu uma flauta na vagina; Nhiaperikoli a matou.
Assim foi matando todas e obtendo as flautas de volta. Jogou uma mulher até o céu
preto, outra até onde o sol entra, mais uma até o céu vermelho e, por fim, jogou uma até
o céu amarelo.
Muito tempo depois, Nhiaperikoli virou os corações daquelas mulheres, para que
não se lembrassem como era Kuwai. Foi com os parentes testá-las. Fizeram um som e
Amaru falou que via Kuwai. Nhiaperikoli perguntou como ele era. Amaru soprava seus
próprios cabelos. Pensou e respondeu que não sabia.
Nhiaperikoli terminou de fazer os instrumentos e os deixou para o povo, para
que fossem transmitidos às futuras gerações. Nhiaperikoli, então, foi embora.
(Wright [org.], 1999, pp. 52-73)
3
Outros mapas sobre os trajetos das Amarunai podem ser encontrados em Oliveira, 2015.
36
Criou-se, no local, um lago sem nenhum canal com saída. Um pouco do sangue, no
entanto, transbordou e – já em forma de água – deu origem aos rios, que passaram a
correr ao redor do mundo inteiro até a borda do céu e da terra, eenu ta’he, “onde as
águas não correm mais” (Idem, p. 361). Este acontecimento instaurou uma mudança
crucial: o universo deixou de ser estático e miniaturizado para se tornar dinâmico e
alargado – aberto a transformações.
Esse ponto do rio Uaraná do qual surgiram as águas – a partir do sangue de
Amaru – está duplamente ligado ao tema do primeiro sangramento: é também a
localização da montanha Motipana, onde as mulheres construíram a fortaleza a fim de
realizarem o primeiro benzimento feminino, em decorrência da menstruação de uma
delas.
Um segundo momento de expansão do mundo ocorreu justamente quando as
mulheres roubaram as flautas sagradas. Ainda segundo essa exegese, as Amarunai, ao
fugir tocando os instrumentos, “foram para cinco direções, basicamente ao longo dos
mesmos caminhos que o sangue de Amaru abriu (os leitos dos rios); também seguiram
essas rotas após a guerra, quando foram enviadas para serem ‘Mães dos Brancos’”
(Idem, p. 422) (grifos nossos).
Wright, a partir disso, conclui: “não está claro se Amaru tem um corpo físico na
forma de um avatar animal, como Kuwai [ser monstruoso], ou um corpo celeste, como
Nhiaperikoli [o sol]. Pode bem ser que seu ‘corpo’4seja as águas correntes do sistema
fluvial” (Idem, p. 318) (grifo nosso).
...
Abordemos o papel das mulheres como “Mães dos Brancos”, mencionado
acima. Xavier (2008, pp. 188-189) nos apresenta uma versão da história, narrada por
Olímpio Lourenço, em que Nhiaperikoli não logrou obter as flautas de volta. Por sinal,
quem as criaram foram as próprias mulheres; colocaram-nas na vagina para levá-las
escondidas até o rio, onde as ocultaram. Porém logo foi preciso fugir com as flautas. Ao
longo da fuga, as mulheres entravam e saíam de baixo da terra para escapar de
Nhiaperikoli. Quando chegaram em São Gabriel da Cachoeira, Nhiaperikoli se
transformou em uma cobra grande para tentar matar as Amarunai. Foram estas que
mataram a cobra – sem que o matassem – e seguiram até Manaus, onde Nhiaperikoli
deixou de as perseguir. As mulheres, então, se encaminharam ao fim do mundo – o
4
Cf. o conceito de corpo na cosmologia baniwa, definido acima.
38
outro lado do céu. A posse das flautas lhes dava conhecimento, riquezas e mercadorias.
Passaram a transmitir esse conhecimento aos brancos; a ensinar a fabricação dos
materiais e equipamentos hoje existentes. Tivesse Nhiaperikoli tomado as flautas de
volta, não seriam os brancos os ricos e conhecedores, e sim os índios.
Vale citar, aqui, a definição que Hill dá para Amaru no glossário de seu livro
(1993, xv): “ser humano feminino primordial e mãe de Kuwai; [...] [nos cantos,] Amaru
é uma categoria extraordinariamente poderosa de nomes-espírito para ‘coisas quentes’,
como ferramentas de metal, armas de fogo e doenças contagiosas trazidas à região pelos
brancos”.
Com efeito, independentemente do desfecho da guerra – tendo as Amarunai
permanecido ou não com as flautas –, exegeses reafirmam que, após as mulheres terem
ido para os confins do mundo, elas passaram a estabelecer a comunicação com os
brancos. Amaru se torna, de fato, “‘Mãe dos Brancos’, a Mãe da forma mais poderosa
de Alteridade para os Baniwa” (Wright, 2013b, p. 355). O xamã hohodene Mandu
afirmou que as Amarunai permaneceram em Tsuwai, “os fins do mundo” (ver Figura 4),
“‘onde as águas não correm mais’, e lá fizeram ‘fábricas’, produzindo o ar tóxico que
provoca doenças contagiosas entre os humanos atualmente” (Wright, 2013a, p. 191-
192) (grifo nosso).
Essa noção de “fábrica” “é um tropo histórico baseado na imagem primordial de
Amaru como tendo sido ‘a fonte de todos os rios que fluem do Aiari aos fins do
mundo’; seu corpo era – dizem os narradores – a ‘fábrica’ (o produtor) dos rios que
fluem – estes são transformações de seu sangue” (Wright, 2013b, p. 424).
“Nessas fábricas, há potes [...] de vários tipos de metal – ouro, prata, ferro,
alumínio” (Idem, ibidem) – que são aquecidos pelo fogo e então soltam uma fumaça
tóxica que se espalha sobre o mundo e dissemina doenças associadas ao homem branco.
Aproveitando esse tópico das cores, tragamos outra observação de Wright, agora
a respeito da gripe. O autor afirma que ela é imaginada como o “‘algodão’ do ‘tecido
que Amaru usa na cabeça’ [...]. Amaru trabalha tecendo algodões de diferentes cores, e
esse algodão se refere à gripe que aparece nos cantos de cura baniwa” (Idem, pp. 424-
425) (grifo nosso).
A serpente Umawali
Três mitos precisam ser apresentados para darmos continuidade a nossa
argumentação. Ambos se referem a Umawali, a personagem mítica sucuri, “‘pai dos
peixes’ e de todos os diferentes tipos de sucuriju” (Wright [org.], 1999, p. 131).
Dependendo do mito, ela pode aparecer com outro nome, o que indica se tratar de um
tipo específico de Umawali, mas que ao mesmo tempo se lhe equivale. No nosso
primeiro mito, Umawali é a serpente aquática Unidáferi.
Neste mito também há outra sobreposição de personagens. O herói é
Kuwaikaniri, o irmão mais novo de Nhiaperikoli. No entanto, aqui ele ao mesmo tempo
é Nhiaperikoli – possui essa dupla identidade. Eis a história:
Kuwaikaniri vai para o Uaupés à procura do caminho do mutum. Tal caminho é
Unidáferi. Este vem por esse caminho para matar Kuwaikaniri – que tinha consciência
dessa intenção. Unidáferi vem por baixo de Kuwaikaniri, bate nele com o rabo e o
derruba no rio. Kuwaikaniri cai dentro da barriga de Unidáferi. Este desce o rio Uaupés
– com o outro dentro dele – até São Gabriel, onde o capturam com um matapi e o
matam. Nhiaperikoli o leva até o mar. Kuwaikaniri corta a barriga da serpente, sai dela e
vai voltando pelo rio até a casa de Nhiaperikoli [os Baniwa também possuem cantos que
mencionam os lugares pelos quais Kuwaikaniri passou nessa volta rio acima].
Após a volta de Kuwaikaniri, Nhiaperikoli vai para onde estava o corpo de
Unidáferi, já apodrecido e cheio de tapurus. Nhiaperikoli pega dois destes, um branco e
40
outro preto. Vai até Hipana, o umbigo do mundo, de cuja cachoeira retira todos os
povos. Logo os tapurus também se transformam em gente. O tapuru branco vira um
homem branco, e o preto, o avô dos Baniwa.
Nhiaperikoli dá uma espingarda para o avô dos Baniwa, que falha em atirar. Dá
em seguida para o Branco, que consegue. Por isso o Branco ficou com a espingarda e
também com todas as outras ‘coisas’. Tivesse o avô dos Baniwa conseguido atirar, todas
as ‘coisas’ teriam ficado com eles. Nhiaperikoli deixa os brancos onde o corpo de
Unidáferi tinha apodrecido.
(Wright [org.], 1999, pp. 89-92; Wright, 1993-1994, p. 47)
Importante, para nossa argumentação, reter desse mito que Nhiaperikoli é casado
com a filha de Umawali, a sucuri, e que este – e seus parentes – tiram a camisa.
41
Eis o terceiro mito protagonizado por Umawali, que aqui também é chamado de
Uliámali:
Nhiaperikoli desce ao porto. Dois meninos, que pescavam peixes, informam-no
de que sua mulher está se deitando com Uliámali, ali mesmo – no porto – no início da
tarde, quando ela volta da roça.
Naquele mesmo dia, sua mulher foi de fato ao porto e bateu com uma cabaça na
água, para chamar a cobra. Uliámali saiu da água, mas era um homem branco,
Umawali. Nhiaperikoli fica observando eles se deitarem juntos. Volta para casa e chama
Huiniri, o dono de uma zarabatana, para irem juntos matar a cobra.
No dia seguinte, eles vão ao alto de uma pedra e, quando Umawali já estava
subindo na mulher, Nhiaperikoli sopra sua zarabatana para acertá-lo, mas erra. Huiniri
diz como ele deveria fazer. Então sopram, com toda a força, para matar. As flechas
voam até o céu e voltam como dardos espíritos, walama, que matam Uliámali. Este
afunda, vira para cima e deixa sair seu esperma, que flutua. Nhiaperikoli finge, para sua
mulher, que nada tinha feito.
Nhiaperikoli manda seu irmão mais novo, Kuwaikaniri, pescar. Este traz alguns
peixes e Nhiaperikoli separa, para sua mulher, os que eram o esperma de Uliámali.
Assim que ela come, ele revela que se tratava do pênis de Uliámali. Ela fica furiosa,
corre para o porto, toma água e vomita. Mas um peixe ainda fica dentro dela, o que faz
com que Umawali cresça em sua barriga: ela é, agora, mãe de Uliámali.
Ocorre uma primeira tentativa, da moça, de fugir de Umawali (ele costumava
sair e entrar de volta em sua barriga). Frequentemente iam procurar árvores frutíferas.
Certa vez, ela o deixou sozinho e se escondeu em um panelão de barro. Umawali saiu
do rio, foi para casa, subiu no teto e não encontrou sua mãe. Mandou formigas pretas
procurarem por ela, que a encontraram. A mãe saiu correndo até o rio, em que se jogou
e se tornou o peixe pirarara.
Logo em seguida ela já aparece de volta com seu filho, que vai subindo em
árvores para colher frutos. Sua mãe senta em um buraco na base de uma das árvores em
que ele subiu, com o rabo dele permanecendo dentro da vagina dela. Ela lhe dá um fruto
vermelho; ele cospe a semente. Aparece um sapinho que ela coloca em seu próprio
lugar, e foge para o rio. Uliámali a vê remando para longe e vai atrás dela. Nhiaperikoli
deixa coisas para matá-lo no rio. Quando ele mergulha, as piranhas o matam.
Sua mãe desce até o fundo do rio.
42
5
Mhenakhoiwanai são os meninos iniciados por Kuwai – já nascidos através do intercurso sexual entre
humanos. Notar ainda que Amaru é tanto cônjuge quanto tia de Nhiaperikoli.
44
Já em relação às próprias flautas (que são Kuwai), notemos que Wright, apesar
de – como apontamos no início – não apresentar Amaru ou as Amarunai como
serpentes, afirma que, quando estão na posse das mulheres, as flautas
passam a ser como Sucuris, pois: (a) no início do episódio, elas são
mantidas sob a água; (b) quando sobem à terra, fazem “muito barulho” como
as próprias Sucuris fazem; (c) na posse delas – e ao vê-las –, as mulheres
“ficam com os corações alegres”. [...] Sucuris são descritas no mito como
seres cujos desejos não podem ser satisfeitos [...][.] A Sucuri é um símbolo
sexual. (Wright, 1981, p. 443)
novamente, Tiquié, Papuri; por onde passa vai deixando etnias diferentes (Idem, pp.
370-372).
Já podemos visualizar uma semelhança entre a primeira viagem da cobra-canoa
e o mito apresentado acima em que Nhiaperikoli pega os tapurus da sucuri Unidáferi,
que estava no mar, vai até Hipana, onde há um buraco de que retira tanto os Baniwa
quanto os brancos. Leva, igualmente, estes últimos de volta ao mar.
Com efeito, nesse mito – que é sobre a morte de Unidáferi e o surgimento dos
brancos e de sua superioridade bélica – encontra-se inserido, de modo resumido, o mito
em que Nhiaperikoli retira os humanos do buraco em Hipana. Este mito costuma ser
contado separadamente. Numa versão contada por Ricardo Fontes, da fratria Hohodene
(Wright [org.], 1999, pp. 82-84), Nhiaperikoli queimou toda a floresta, extirpando-a de
doenças, animais ferozes e espíritos maléficos; lavou-a com água, e foi ao buraco retirar
as pessoas. Saíram nessa ordem: os Maulieni, “avós” dos Hohodene, também
considerados seus servos (maku); os Mulé-dakenai, povo que não existe mais, porém
tidos como “chefes” dos Hohodene; os próprios Hohodene; seus irmãos mais novos, os
Adzaneni; os Kumadeni, outros irmãos mais novos. São estes os cinco clãs que
compõem a fratria Hohodene. Número comparado aos dedos das mãos; os Hohodene,
que estão no meio, são o clã que dá nome à fratria. Todos eles saem com as flautas
Kuwai. Já o narrador Luís Manuel conta o surgimento de sua fratria, Walipere-dakenai
[Idem, pp. 85-88]. Também do buraco em Hipana saem os clãs que a compõem.
Nhiaperikoli lhes dá tabaco, beiju, pimenta.
Vianna aponta que esse mito de surgimento dos clãs é complementar ao mito de
Kuwai. Este último diz respeito às relações de parentesco egocentradas: surge o
primeiro indivíduo concebido por uma união entre homem e mulher, gestado na barriga
desta. Já aquele discorre sobre o plano das relações sociocentradas: segmenta a
humanidade em clãs. “Estes dois mitos, considerados conjuntamente, apresentam e
problematizam aspectos e fundamentos complementares da socialidade atual baniwa”
(Vianna, 2017, p. 241).
Este autor aponta a hesitação dos mitos em descrever a vida pregressa dos clãs-
pessoas que emergiram em Hipana. Vianna escreve que a própria liderança indígena
André Fernando (já mencionado aqui, como interlocutor de Wright) lhe revelou que
carrega a dúvida sobre onde estavam as pessoas humanas antes desse evento. Esta
“lacuna mítica” sugere que o mito baniwa de surgimento dos clãs pode conter uma “face
oculta” (Idem, p. 248).
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dos brancos e de sua superioridade bélica. Porém aqui, ao invés de a viagem ser feita em
função da captura de Unidáferi, ela é empreendida pela canoa (uma variante da sucuri).
Além disso, o tema do surgimento da humanidade é mais detalhadamente explorado: há
uma descrição maior tanto do percurso e das etnias que vão desembarcando no caminho,
quanto do momento de surgimento dos clãs em Hipana.
Como dissemos, essa é uma versão rara de ser narrada. É evidente a semelhança
dela com o mito tukano da cobra-canoa. Os Baniwa, comumente, ao narrar sua origem,
dão preferência ao episódio do surgimento dos clãs em Hipana. Isto levou à concepção
corrente de que os Baniwa se veriam como autóctones, nascidos da terra, enquanto os
Tukano concebem que surgiram da água.
No entanto, como fica evidente a partir do que foi apresentado,
1981, p. 97). Wright, aqui, enfatiza o poder de Kuwai de abertura do mundo. De fato,
lembremos que, na versão de Laureano, os ancestrais estavam com os instrumentos
quando navegaram rio acima – da mesma forma que as mulheres quando iniciaram a
viagem. Kuwai simboliza a transmissão dessa função ofídica entre os personagens.
A placenta de Amaru
Embora não tenha aparecido na versão do mito de Kuwai que apresentamos no
início do trabalho, há um acontecimento no momento do nascimento do herói, presente
em diversas versões, que nos interessa diretamente. Tomemos como base a versão
narrada por Alberto Lourenço, registrada por Xavier:
Quando Amaru pariu Kuwai, sentiu tanta dor que desmaiou. Nhiaperikoli, ao ver
que o filho era um ser terrível, escondeu-o na água. Amaru acordou e perguntou pelo
filho. Nhiaperikoli pegou o “lugar de assento” de Kuwai, a placenta, e disse que aquele
era o filho. Amaru viu que a placenta não tinha olhos nem boca, e que um pedaço do fio
do umbigo de Kuwai ainda sangrava. Assim, não acreditou que se tratava do seu filho e
mandou Nhiaperikoli jogar a placenta no rio. Este assentiu, falando que “ele não será
gente para você”, e a placenta se transformou em arraia assim que caiu no rio.
Posteriormente, Amaru ainda encontraria a arraia comendo minhoca na beira do
rio e a pegaria. Veria então que ela tinha olhos, boca e buracos no ventre, e perguntaria
se ela era mesmo o seu filho. A arraia responderia que sim, que ela era aquele que
Nhiaperikoli jogara no rio, mas que não era seu filho verdadeiro.
(Xavier, 2008, p. 56)
Algumas observações podem ser feitas acerca dessa associação entre Amaru e a
placenta/arraia. Sigamos, de início, o raciocínio desenvolvido por Lévi-Strauss no
capítulo “Os operadores binários”, em O homem nu. Neste texto, o autor demonstra que
alguns animais possuem características que são exploradas pelo pensamento mítico de
modo a conferir-lhes um papel ambíguo nas histórias.
Um deles é a arraia. É possível observar neste animal duas oposições: (1) “sua
face ventral [...] não possui a mesma contextura que sua face dorsal” (Lévi-Strauss,
2011, p. 525) e, (2) se visto de frente, sua forma é larga e losangular, mas visto de perfil
– por ser achatado – torna-se excessivamente fino. Lévi-Strauss mostra como mitos da
América do Norte se valem dessa dualidade para construir suas narrativas. Por exemplo,
num mito tillamook uma arraia ganha o duelo com um cervo (quando todos apostavam
no contrário), pois sabe se esquivar das flechas na hora certa, apresentando-se de perfil
(Idem, ibidem). Em mitos nootka, a arraia serve de armadilha para capturar os ventos:
posta-se no chão para estes escorregarem (Idem, p. 526).
No entanto, em outros mitos, como num chehalis (Idem, p. 528), é a serpente a
encarregada de comandar as operações da guerra dos ventos. E o que a eleva a esse
posto é o fato de ser vesga – o que faz Lévi-Strauss equiparar a função da arraia à da
serpente:
Breve resumo
Recuperemos e sublinhemos os principais pontos que levantamos até agora
acerca de Amaru. Trata-se de uma personagem fechada, sem nenhum orifício,
engravidada por Nhiaperikoli – o sol – através do pensamento deste. O nascimento de
Kuwai provoca a primeira abertura dela, de onde corre o sangue que comporá todos os
rios do mundo. A abertura de Amaru é também a abertura do mundo – este deixa de ser
estático e miniaturizado para se tornar dinâmico e alargado (aberto a transformações). O
próprio corpo de Amaru se confunde com esse sistema fluvial. Quando fogem com as
51
flautas, as Amarunai percorrem os trajetos desses rios formados por seu sangue, ou, em
outras versões, vão criando os rios à medida que passam por eles (quando também
entram e saem de baixo da terra para escapar de Nhiaperikoli). Ao fim da guerra, são
mandadas para os quatro cantos do céu; seguem novamente por essas rotas para se
tornarem “Mães dos Brancos”. Transmitem conhecimento aos brancos, e estes criam
fábricas de cujos potes continentes de metais sai uma fumaça tóxica que se espalha da
periferia do mundo até o centro, misturando o que não deve ser misturado e assim
produzindo doenças – portanto, criando um fenômeno equiparável ao arco-íris, cujo
cromatismo (mistura) é visto como maléfico pelo pensamento indígena (lembremos
aqui da heroína bororo transformável em arco-íris e mãe das doenças). A noção de
“fábrica” se alicerça na imagem primordial de Amaru, cujo corpo é a fábrica (o
produtor) dos rios – a fonte de onde eles fluem. A doença advinda dos potes das fábricas
é incluída na categoria “doenças do universo”, que ocorrem durante transições sazonais,
quando as doenças se espalham, pelo ar, a partir de potes primordiais de frutas
localizados num grande círculo no Outro Mundo. Barcos dos brancos pintados de várias
cores também provocam doenças. Já o algodão do tecido que Amaru usa na cabeça,
igualmente de várias cores, é o causador da gripe. Vejamos que, nos dois últimos casos,
a associação entre cromatismo e doença é explicitada.
Ainda sobre a origem dos brancos, lembremos de outro mito, em que eles
surgem do corpo apodrecido da serpente Umawali, serpente esta que também faz um
percurso até um local longínquo (opera a mediação com a alteridade): o oceano, onde os
brancos serão colocados. Amaru, enquanto esposa de Nhiaperikoli, aparece em outro
mito como filha de Umawali. E, em um terceiro, trai o companheiro com a serpente, que
é também um homem branco. Torna-se a própria mãe de Umawali, que costuma sair e
entrar de volta em sua barriga. Reparemos que, na relação com a serpente, Amaru é
excessivamente aberta (Lévi-Strauss, 2004a, pp. 152-153), ao contrário do que ocorre
com Nhiaperikoli, que a engravida apenas por pensamento.
Por essa relação sexual com Umawali, podemos – seguindo o raciocínio de
Vianna – considerar Kuwai filho virtual da sucuri, ou, como disse Nhiaperikoli, “do
esperma deste mundo”. Portanto, a abertura do – e ao – mundo, que Amaru propicia,
inicia desde a sua relação com Umawali (a serpente representante da alteridade, que
inclusive aparece como homem branco); continua quando dá à luz (seu sangue cria os
rios); prossegue quando toca as flautas por todas as partes (momento em que estas, no
52
dizer de Wright, passam a ser como Sucuris); e persiste após a guerra, pois vai para os
cantos do mundo, ser “Mãe dos Brancos”.
Assim, se os Baniwa não possuem – ou não privilegiam – o mito da cobra-
canoa, o tema da navegação ofídica pelos rios não está ausente de sua cosmologia.
Quem o desenvolve, porém, é Amaru. Sua função serpente pode inclusive ser deduzida
– como fizemos baseando-nos nas proposições de Lévi-Strauss – do fato de que a arraia
(o oposto simétrico da cobra) se origina de sua placenta. Por sinal, no médio rio Negro
se diz que a arraia surge do rabo da cobra grande.
...
Há, contudo, uma caracterização dessa personagem, comum em outras versões
do mito de Jurupari, que está ausente das narrativas baniwa. A mãe do herói costuma ser
apontada como sendo a constelação das Plêiades. Embora os rituais de iniciação
Kuwaipan ocorram no período de aparição dessa constelação (Wright, 2013b, p. 319) e
haja desenhos das Plêiades nas pedras em Hipana que, dizem, são associados a Amaru
(Idem, p. 316), não há associação explícita, nas versões baniwa do mito, entre essa
constelação e a mãe de Kuwai.
No entanto, as características de Amaru, que acabamos de resumir, permitiriam
por si só essa associação – se nos basearmos nas reflexões de Lévi-Strauss, apresentadas
no início do trabalho. Entretanto, uma vez que essa associação é efetivamente
estabelecida em outras versões, é imprescindível que a destrincemos para alargar nossa
compreensão acerca da natureza dessa personagem. Passaremos, assim, em breve, à
exposição e análise de variações do mito de Jurupari fora do contexto baniwa.
Antes, porém, podemos analisar mais a fundo dois pontos da mitologia abordada
que dialogam intimamente com observações de Lévi-Strauss ainda não apresentadas
aqui e revelam novas facetas da proximidade entre Amaru e as Plêiades. Referimo-nos
ao episódio em que Amaru torna-se mãe de uma cobra e ao já explorado, porém sob um
ângulo diferente do que apresentaremos agora, em que sua placenta torna-se uma arraia.
Comecemos pelo primeiro.
ventre, seu sangue menstrual corre ininterruptamente. Vejamos esses mitos mais
detidamente.
Uma versão bororo conta que uma mulher colocou nas costas um pedaço de
sucuri. O sangue desta escorreu, penetrou-a e fecundou-a. O “gerado pelo sangue”
conversa com a mãe ainda no ventre, se oferece para ajudá-la na colheita de frutas,
frequentemente sai dela para fazê-lo, momento em que a mãe tenta fugir, mas o filho
sempre consegue alcançá-la e retornar ao abrigo uterino (Lévi-Strauss, 2004a, p. 131).
Há um mito mundurucu em que uma mulher é amante de uma cobra e dela engravida.
Numa versão toba-pilaga, o sangue menstrual de uma jovem só parava de correr
quando, nas palavras dela, seu “marido estava lá”. Ninguém sabia quem era esse
marido, até que descobriram que a moça ficava em casa o tempo todo sentada num
buraco ocupado por píton, o marido. Seus irmãos o matam. A jovem dá à luz seis
cobras, igualmente mortas por seus irmãos (Idem, p. 152). Nos dois outros mitos
apresentados, os irmãos da mulher também matam a cobra ao fim da história.
Acerca desses episódios, Lévi-Strauss comenta:
A mulher [do mito toba-pilaga] só não menstrua quando o marido “está lá”,
ou seja, quando ela está tampada. Pois as “moças da cobra” apresentam, na
América do Sul, uma característica notável: são normalmente abertas. A
heroína [do mito bororo] [...] havia sido acidentalmente fecundada pelo
sangue de uma cobra que o marido tinha matado na caça. E o filho da cobra
que ela assim concebe dialoga com ela, sai de seu ventre e retorna quando
quer. A mesma indicação aparece num mito tenetehara: o filho da amante da
cobra deixa o útero materno todas as manhãs e volta à noite. O irmão da
mulher a aconselha a se esconder e mata o rebento. Segundo um mito warrau,
é o próprio amante que a mulher carrega no corpo, que sai dele de tempos em
tempos, para subir nas árvores frutíferas e abastecê-la. (Idem, pp. 152-153)
(grifo nosso)
a mulher [...] é iniciada na vida sexual por uma cobra-d’água, que ela instiga
ao coito batendo numa cabaça pousada sobre a água. Segundo uma versão
urubu, essa cobra é o pênis de um quilômetro de comprimento, fabricado pelo
demiurgo para satisfazer as mulheres, pois, na origem, os homens eram como
crianças e assexuados. No primeiro mito tenetehara, a morte da cobra priva a
mulher de seu parceiro e a incita a seduzir o marido, motivo pelo qual
aparecem a vida, a morte e a sucessão das gerações. No mito urubu, depois
que a cobra foi morta, o demiurgo cortou seu corpo em pedaços e os
distribuiu aos homens como pênis individuais; em consequência disso as
mulheres irão conceber os filhos no ventre (e não mais num pote) e terão
dores no parto. Mas como deve ser interpretado o segundo mito tenetehara?
O ponto de partida é o mesmo: conjunção de uma mulher (ou das mulheres) e
de uma cobra. Essa conjunção é seguida de uma disjunção e depois, nos três
casos, de uma fragmentação: pênis da cobra cortado, cabeça da cobra cortada
e seu corpo fragmentado, filho-cobra definitivamente separado do corpo da
mãe. Mas, nos dois primeiros casos, a fragmentação se projeta na duração
sob forma de periodicidade: o pênis masculino será alternadamente duro e
mole, as gerações se sucederão, a vida e a morte se alternarão, as mulheres
gerarão no sofrimento... No terceiro caso, a fragmentação se projeta no
espaço: o filho-cobra (ele também, como as outras cobras, morto por sua
natureza ofidiana, já que não quer juntar-se ao pai) quebra seu arco e flechas
em pedaços, que, espalhados no céu noturno, virão a ser as estrelas. É porque
a aranha foi testemunha ocular dessa fragmentação que para ela, e apenas
para ela, a periodicidade (troca de pele) tem valor de vida, ao passo que, para
o homem, tem valor de morte. (Idem, p. 188)
56
Lévi-Strauss ainda traz para sua análise outro mito retirado de Barbosa
Rodrigues (1890), em que a mãe abandona o filho-cobra. Este sobe ao céu e se torna o
arco-íris. Antes de subir, havia recomendado que respondessem aos seus chamados lá
do alto. Porém sua avó, adormecida, não o escuta; apenas os lagartos, as cobras e as
árvores o fazem, e por isso trocam de pele e rejuvenescem (Lévi-Strauss, 2004a, p. 93).
Barbosa Rodrigues não registra a etnia de que colheu este mito; apenas indica
que foi no rio Solimões e o intitula cobra grande, ou, em nheengatu, boia açu. A
respeito desse personagem, o autor faz uma afirmação relevante para a nossa discussão:
Sob esse titulo (Cobra grande) ha varios contos, mas que se referem a um
ophidio phantastico que vive pelos lagos e rios. A crença quer que seja real a
existência d’esse ophidio, cujos olhos dardejam luz como pharóes. [...]
A cobra grande, o dragão, não é mais do que um mytho modificado pelas
gerações, legado por aquelles filhos das serpentes e do sol, que vieram para a
America em época muito anterior á Colombiana. O Gucumatz do Mexico e de
Guatemala, conhecido no Perú por Amaru, symbolisa o mesmo mytho.
(Barbosa Rodrigues, 1890, p. 233) (último grifo nosso)
Feita essa digressão, foquemos agora mais estritamente no tema da cobra que
entra e sai do ventre da mãe humana, e conversa com ela de dentro dele. A certa altura
de O cru e o cozido, Lévi-Strauss identifica ser bastante modesta a posição do sariguê
nos mitos do Brasil Central e que “igualmente desconcertante é a ausência quase
completa de referência mítica à bolsa marsupial”. No entanto, ele aponta para o fato de
que “os temas de inspiração, digamos, marsupial, são frequentes” (Lévi-Strauss, 2004a,
p. 204). É justamente ao nosso tema que ele se refere; o autor repara em como o ato de
sair e entrar novamente no ventre da mãe – além da possibilidade de se comunicar
oralmente com ela – é semelhante ao que ocorre entre os sariguês, devido à bolsa
marsupial que possuem. O filho, nesses mitos, “fala no ventre, como se já tivesse
nascido e utilizasse o ventre materno à guisa de bolsa marsupial” (Idem, p. 214).
Lévi-Strauss lembra que em um desses mitos o sariguê efetivamente aparece,
embora não como o possuidor da bolsa. Trata-se de um mito tupi colhido por Thevet,
em que a mulher do deus civilizador, enquanto viajava sozinha, carregava o filho no
ventre. Este conversava com ela, indicando o caminho. A mãe se recusou a dar-lhe
legumes que havia no caminho, o que o deixou emburrado e o fez parar de falar. Ela
então se perde e acaba parando na casa “de um homem chamado Sarigoys”. Ele abusa
57
dela, que acaba engravidando de outro filho; este passa a fazer companhia para o
primeiro. “Como castigo por esse ato, ele [o homem] foi transformado em sariguê”
(Idem, pp. 205-206).
Outros mitos que tratam do tema, apresentados pelo autor, são relevantes para a
nossa discussão. Em um mito apapocuva, dois gêmeos ficam órfãos, o “mais velho”
deles pede a uma sarigueia que alimente o mais novo, ainda lactente. Ela lambe as
mamas antes de se tornar nutriz, a fim de “tirar as secreções fétidas. Como recompensa,
o deus lhe dá a bolsa marsupial e lhe promete que doravante ela parirá sem dor”. Numa
outra variante guarani, o irmão mais velho transforma a mãe em paca, “‘jaicha’, mas o
texto diz também “mbyku”, que é o termo traduzido por ‘sariguê’”. Já em uma versão
mundurucu, uma mulher procura livrar-se do filho bastardo. Uma sarigueia o recolhe e
o amamenta. “É por isso que os sariguês dão à luz sem dor” (Idem, pp. 215-216). Lévi-
Strauss se baseia nesses mitos para reconhecer na sarigueia a função de “boa nutriz”,
que já abordamos aqui.
Um mito dos Guarani meridionais substitui o leite da sarigueia pelo mel. O
irmão mais velho tenta reconstituir o corpo da mãe, mas o mais novo o destrói. Então
aquele descobre mel no tronco de uma árvore, com o que alimenta o caçula (Lévi-
Strauss, 2004b, p. 269).
Vejamos ainda um mito warrau. Um homem esculpiu sua filha num tronco de
madeira. O Sol esposou-a e descobriu que ela não possuía vagina. Pede ajuda ao pássaro
bunia, que fura a moça, criando essa abertura que faltava – de onde sai uma cobra que
ali se alojava. A partir de então o casal passa a se relacionar. O Sol decide viajar para
oeste. Como sua esposa estava grávida, ela faz a viagem por etapas, seguindo os passos
do marido. A certa altura, ela se perde. A criança, então, de dentro do ventre, passa a se
comunicar com a mãe, indicando o caminho. Uma vespa pica a moça acima da cintura.
A moça tenta matá-la, mas erra o alvo e acaba atingindo o próprio corpo. O filho
interpreta que o tapa tinha sido nele e para de falar com a mãe. Esta, então, se perde,
acaba parando na casa de uma rã, ingere um veneno sem querer e morre. A rã abre o
cadáver, de onde tira dois meninos, Makunaima e Piá (Idem, pp. 199-200). Em uma
versão karib desse mito, Makunaima se torna a constelação das Plêiades (Idem, p. 203).
As transformações empreendidas por esses mitos nos fazem reencontrar, por
outra via, as equivalências entre as Plêiades, a cobra arco-íris, o sariguê e o mel.
Vejamos, primeiramente, o que Lévi-Strauss constata ao cotejar essas narrativas. O
tema presente no mito dos Guarani meridionais – o irmão alimentando o caçula com
58
mel – “apresenta tamanho paralelismo” com o que ocorre na versão apapocuva “que é
possível afirmar que a sarigueia nutriz e as abelhas estão em relação de transformação”
(Idem, p. 270). Um episódio anterior desses mitos ressalta ainda mais essa relação.
Num momento em que se deve supor que a sarigueia ainda era desprovida de
bolsa marsupial, a mãe dos gêmeos comporta-se como se tivesse uma, pois
conversa com seu ou seus filhos, embora eles ainda estejam em seu ventre.
Ora, a comunicação se interrompe – ou, dito de outra maneira, o útero pára
de desempenhar o papel de bolsa marsupial – em seguida a um incidente que
[o mito dos Guarani meridionais] relata nos seguintes termos: “A criança, no
ventre, pediu a sua mãe que lhe desse flores. Ela as colhia aqui e acolá
quando foi mordida por uma vespa que ali bebia mel...” [...]. Apesar da
distância e da diferença de língua e cultura, a versão warrau preserva
escrupulosamente esta lição: “A mãe já havia colhido várias flores vermelhas
e amarelas, quando uma vespa a picou acima da cintura. Ela tentou matá-la,
não a atingiu e bateu em si mesma. A criança, no ventre, recebeu a pancada e
acreditou que tinha sido visada; injuriada, recusou-se a continuar a guiar sua
mãe” [...].
Por conseguinte, assim como a sarigueia real, boa nutriz, é congruente com o
mel de abelha, a mãe, má nutriz, sarigüê figurada, é congruente à vespa, cujo
mel, como se sabe, é ácido, quando não tóxico. (Idem, p. 270)
em certas versões é a própria cobra arco-íris. Em outras, são gêmeos, atacados pela
vespa equivalente às Plêiades. Um desses gêmeos se torna as próprias Plêiades. Na
versão warrau, ainda, é importante notar que, de início, a mulher – esposa do Sol – não
possuía vagina. No entanto, quando esta é criada, sai uma cobra de dentro dela. Em
seguida ela engravida de gêmeos que, à maneira do filho-cobra dos outros mitos,
conversam com ela desde o ventre.
A semelhança desse mito com os de Amaru é evidente. Esta se apresenta
hermeticamente fechada para Nhiaperikoli – o sol –, porém completamente aberta para
a cobra, com quem se relaciona sexualmente e em relação a quem – trazendo os outros
mitos para a comparação – também assume o papel de mãe sariguê figurada. Além
disso, Amaru é mãe de Kuwai, tido por filho de Nhiaperikoli. No entanto, de acordo
com o raciocínio exposto, Kuwai pode ser interpretado como sendo filho virtual de
Umawali (a serpente). Kuwai, por fim, é a versão baniwa de Jurupari, e a mãe deste,
como explicitam outras versões do mito, é a própria constelação das Plêiades.
justapõe essas duas interpretações”. Neste mito, um homem mata seu irmão. O fantasma
deste diz ao assassino que, se ele enterrasse seu corpo e espalhasse as entranhas, daria-
lhe peixe em abundância. “O assassino concordou e viu as entranhas flutuarem nos ares
e subirem até o céu, onde se tornaram as Plêiades. Desde então, todos os anos, na época
em que as Plêiades aparecem, os peixes se tornam abundantes nos rios” (Idem, p. 281).
Um mito taulipang também estabelece essa relação entre as Plêiades, a chuva e os
cardumes de peixes. E um mito arekuna aponta novamente para a ligação entre essa
constelação e as vísceras flutuantes. Neste, é a sogra das Plêiades que morre; seu fígado
cai na água e fica boiando sob a forma de planta aquática. Já seu coração vira a semente
das plantas (Idem, p. 282).
Lévi-Strauss afirma:
esses mitos sugerem que, como termo de código, o motivo das vísceras
flutuantes pode cumprir duas funções distintas; é, de certo modo, bivalente.
Em código “áquático”, as vísceras são côngruas aos peixes e às plantas do
pântano. Em código “celeste”, são côngruas às estrelas e, mais
especificamente, às Plêiades. (Idem, ibidem)
A versão de Stradelli
Resumimos, no início do trabalho, a versão do mito de Jurupari colhida por
Stradelli (2002). Trata-se de uma das versões mais conhecidas e completas da narrativa.
Foi, de fato, originalmente escrita em nheengatu por Maximiano José Roberto, índio
mestiço alfabetizado no idioma; sua mãe era tariana, irmã de um tuxaua da região do
Uaupés. Sabe-se pouco de sua biografia, no entanto “podemos afirmar que era grande
conhecedor da cultura indígena da região dos rios Uaupés, Içana e Negro” (Medeiros,
2002). Max J. Roberto entregou o texto ao etnógrafo italiano Ermano Stradelli, que o
traduziu e o publicou em sua própria língua em 1890. Uma vez que já apresentamos o
resumo da narrativa, traremos agora alguns de seus episódios que nos interessam
diretamente.
Notamos a existência de gerações de Ceucy. Uma, primeira, é senhora de um
lago, no qual costuma banhar-se. Certa vez, todas as mulheres se banharam no lago,
onde também se banhou um pajé. Quando saíram, estavam prenhes. O pajé “as havia
fecundado todas, sem que elas sequer suspeitassem”. Após o feito, o pajé “se atirou ao
lago, cuja supefície ficou toda coberta por uma poeira branca”. Ceucy também o fez,
“deixando como marca de sua passagem no azul do céu uma senda quase branca,
semeada de pequenas estrelas” (Stradelli, p. 274). Podemos notar aqui a presença, já
comentada, da conexão entre os códigos “celeste” e “aquático” de Ceucy (Plêiades).
Quando nasceram os filhos das mulheres, entre eles havia uma menina que
recebeu o nome de Ceucy devido a sua “beleza esplendorosa”. Esta Ceucy da Terra “era
o retrato” da outra, a Ceucy do céu. Manteve-se virgem até que comeu a fruta do
pihican, proibida às moças que não tivessem atingido a puberdade. O suco da fruta
escorreu por ela e a penetrou, fecundando-a. Pariu um menino que se parecia com o Sol.
“Proclamaram-no tuxaua e deram-lhe o pomposo nome de Jurupari, isto é, gerado pela
fruta” (Idem, p. 275).
Como dissemos, Jurupari reuniu os homens e lhes revelou as novas leis, a serem
seguidas doravante. Entre elas estava a proibição da participação das mulheres nas
festas dos homens, em que estariam presentes as flautas sagradas. Ao fim da reunião, os
homens perceberam que as mulheres os haviam espionado. Encontraram-nas já
transformadas em pedra, embora conservassem os traços que tinham em vida. Ninguém
nunca soube quem havia aplicado esta punição. O que se sabe é que a própria mãe de
63
Jurupari “estava lá[,] com o rosto virado para o oriente, indicando com a mão do
coração na direção do lago de Muira e com a outra para a árvore de pihican,
rejuvenescida e com um sorriso malicioso nos lábios” (Idem, p. 280).
Em outro momento do mito, Jurupari conta a história de seus antepassados. No
começo do mundo, as mulheres que não tivessem maridos seriam colocadas num local
separado, até que se encontrasse alguém para casar com elas. Uma dessas mulheres
fugiu desse local para a floresta. Encontrou a tribo dos Jacamim, casou com o filho do
tuxaua e engravidou. Quando ia parir, começaram a fazer um ninho onde poria os ovos.
No entanto, perceberam que ela não havia se transformado completamente em jacamim;
ela própria já era um pássaro, mas os filhos seriam humanos. Transformou-se
novamente em humana para não morrer no parto, e deu à luz um menino e uma menina.
“A menina tinha um punhado de estrelas na testa e o menino, da testa até os pés, uma
serpente com as mesmas estrelas” (Idem, p. 297). Quando dormiam, as estrelas em seus
corpos brilhavam como as do céu. O pai duvida de sua paternidade e conversa com o
mais velho do grupo sobre essa questão. Este pergunta a posição que a mulher mantinha
quando se relacionavam, ao que o outro responde: “com o rosto virado para o céu”. O
mais velho, então, esclarece “que ela sentia maior prazer em sua forma primitiva [...] e
foi numa dessas vezes que ela concebeu, tendo diante dos olhos as estrelas do céu”
(Idem, p. 298).
O filho nascido deu a si mesmo o nome de Pinon (serpente, em tukano) e à sua
irmã o de Meênspuin (fogo da estrela, em tariana e cubeo) (Idem, p. 302). Eles
acabaram flechando os jacamins (inclusive o próprio pai), sem saber que eram seus
parentes. A mãe deles, Dinari, então, decidiu voltar ao seu povo. Este não reconheceu
Dinari; no entanto, assustado com o poder de Pinon, aceitou os forasteiros entre si.
Pinon acabou afrouxando as normas rígidas daquela sociedade e engravidou todas as
mulheres, que também passaram a se relacionar com outros homens. Pinon, porém, quis
evitar que sua irmã perdesse a virgindade, então a levou às portas do céu e fez um anzol,
por onde subiram ao país das estrelas. Lá deixou sua irmã Meênspuin, também chamada
Ceucy. Quando Dinari foi atrás de seus filhos, acabou sendo levada pela mãe dos peixes
às profundezas do rio (Idem, pp. 303-305).
De volta à aldeia, Pinon procurou, em vão, por sua mãe. Seus filhos nasceram;
entre eles uma linda menina com uma bonita estrela na testa. Pinon a levou para o país
das estrelas e lá a deixou. Deu-lhe o nome de Jaci-tatá.
64
Pinon descobriu que sua mãe estava em um lago próximo ao céu e havia sido
transformada em pirarara (peixe-arara, em nheengatu) – peixe em que, inclusive, a
própria Amaru baniwa se transforma, no mito em que se torna mãe de Umawali.
Aprendeu os conhecimentos de pajé, libertou sua mãe “e a levou para o céu, onde todos
vivem”. Todos, inclusive Jurupari, descendem de Pinon. “O último dia que ele ficou na
Terra foi o dia em que ele fecundou a mãe de vocês” (Idem, p. 307), disse o herói.
Em outro momento da história, Curán, uma mulher que havia – quebrando a
proibição –, presenciado e aprendido a música de Jurupari, sumiu. Nunca se soube para
onde foi. “A maioria achou que a Serpente Grande a tivesse levado para o fundo das
águas; aliás, [...] desde aquele dia, à meia-noite, bem no meio da cascata [...] aparece
uma mulher [...] que, após cantar a música e o canto de Jurupari, desaparece outra vez
nas águas” (Idem, p. 327).
Em ensaio acerca do mito de Jurupari, Gordon Brotherston (2002) traz reflexões
pertinentes para o nosso trabalho. Esquematizando as informações fornecidas pela
versão de Stradelli, ele reconstrói a genealogia de Jurupari:
torna-se pirarara, “ou peixe-ave (arara)”. O autor em questão enxerga nesse discurso
zoológico uma verdadeira elaboração indígena da história evolutiva das espécies. “Este
episódio da família de Pinon estabelece relações genéticas entre os que na sucessão
evolutiva são os vertebrados peixe, ofídio e ave, e explicitamente toca na distinção entre
ovíparos e vivíparos” (Idem, p. 403).
Brotherston torna a estabelecer a proximidade com os Andes, bem como com a
América Central, agora em relação a esse esquema elaborado no mito de Jurupari.
Dessa forma, escreve:
O discurso zoológico sobretudo exibe [...] uma coerência que merece mais
atenção do que até agora recebeu. Reivindica os parentescos e a verdadeira
natureza do tão citado Quetzalcoatl, Gucumatz no Popol Vuh, o ofídio-ave
que, jazendo nas águas primordiais, já contém e prefigura a história
evolutiva que elaborou a América muito antes que Darwin a intuísse. Não só
neste caso, é notável o gosto por nomes duplos cujos termos em si supõem
todo esse argumento: a peixe-arara (Pirarara), mãe de Pinon e Meenspuin; [as
referências seguintes são do Popol Vuh] a jacaré-arara (Cipacialo), madrasta
dos Gêmeos; os homens-peixes (uiniq kar), forma a que revertem os Gêmeos
(cf. os tlacamichin dos nahua); o jaguar-veado (Ixbalanque), um dos Gêmeos.
(Idem, p. 406) (grifo nosso)
de Pinon – uma cobra vertical, da fronte até o pé”. Essas constelações “identificam os
momentos onde se entrecruzam os dois grandes circuitos do céu: o zodíaco ou plano do
sistema solar (a Eclíptica) por onde viajam os planetas, o Sol e a Lua; e a Via Láctea”
(Idem, p. 408).
Vale lembrar que a personagem das Plêiades costuma se banhar no lago Muipa.
Este fica ao norte. “Isso corresponde à ideia de que essa constelação, que estando na
curva norte da Eclíptica passa ao Norte do Equador, se reflete no lago”. Além disso,
recordemos que Ceucy puxa consigo uma faixa branca - esta corresponde à Via Láctea,
que se move pelo lago. “Esta posição inaugural, perto do cruzamento da Eclíptica com a
Via Láctea, é atribuída às Plêiades por toda a Amazônia”. Lembremos, pois, de que
Lévi-Strauss afirma serem as Plêiades correspondentes a um fragmento da Via Láctea.
Brotherston ainda observa que “a substância que utiliza Meenspuin para formar a dita
faixa branca provém do corpo do pajé em quem depois reconhecemos o seu irmão
Pinon” (Idem, p. 408). Tal observação reforça a ideia, norteadora deste trabalho, da
aproximação entre as Plêiades e a cobra arco-íris: a personagem correspondente àquela
constelação retirou o brilho que traz consigo de seu irmão serpente. Por fim, a
constelação que este representa – Escorpião – “complementa perfeitamente a posição
inicial da irmã, no sentido em que fica no extremo oposto, perto do outro cruzamento da
Via Láctea com a Eclíptica” (Idem, p. 409). Presente em diversas culturas amazônicas,
“este modelo de complementaridade entre as Plêiades e Scorpius, Meenspuin e Pinon,
implica toda uma filosofia de interação entre céu e terra” (Idem, ibidem). Ainda a
respeito dessa complementaridade e das posições simétricas e opostas destas
constelações em relação à Via Láctea e à Eclíptica, Brotherston lembra que Reichel-
Dolmatoff informa que para os Desana a Via Láctea consiste em “duas cobras
entrelaçadas” (Idem, p. 411). Finalmente, quanto à natureza ao mesmo tempo ofídica e
estelar dos personagens, nosso autor também comenta o fato de a mãe deles “ter sido
fecundada deitada, com o rosto olhando para o céu noturno” (Idem, p. 410).
Mitologia barasana
A outra versão do mito de Jurupari que apresentaremos é a dos Barasana – grupo
tukano habitante da região do Uaupés, na Colômbia –, registrada e analisada por
Stephen Hugh-Jones em The palm and the Pleiades. Como ocorre entre os Baniwa, o
herói possui outro nome, porém os mitos que protagoniza podem ser vistos como
variantes e transformações dos mitos de Jurupari.
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Hugh-Jones publica, com efeito, diversas narrativas que compõem esse corpus
mítico barasana ligado a Jurupari. Apresentaremos, novamente, trechos que nos
interessam diretamente.
vieram beber sua urina. Warimi foi atrás; quando estava sobre a vagina da moça, ela
fechou as pernas e o capturou.
Warimi se transformou num bebê que não parava de chorar. Rapidamente
cresceu e virou um garoto. Certa vez, numa roça de mandioca, transformou-se em várias
espécies de pássaros pequenos. Uma mulher Onça tentava caçar esses pássaros. De
repente, Warimi se transformou em adulto, fez sexo com a mulher e logo voltou a ser
criança. Voltou para casa de canoa com a sua avó, a mulher do Xamã Meni, e
mergulhou na água, dizendo que ia trazer um tronco oco cheio de peixe. Ao invés disso,
emergiu com uma sucuri cheia de peixe, que colocou na canoa. Sua avó desmaiou de
susto, mas ele a acordou usando remédios tirados da sucuri.
Em outro momento, Warimi percebeu que as Onças estavam jogando futebol
com a cabeça de Meneriyo, sua mãe. Ele interveio, chutou a cabeça da mãe para o alto,
de forma que ela cruzou o rio e caiu em cima de uma árvore, tornando-se um ninho de
vespas. Warimi fez uma ponte cruzando o rio, a fim de pegar a cabeça de volta. Cortou
toras de palmeiras de açaí e as amarrou com videiras. “As toras eram sucuris e as
videiras eram cobras”.
Warimi fez as Onças irem dançar sobre a ponte, que, ao sinal do herói, caiu,
derrubando as Onças na água. As piranhas do rio – também criadas por Warimi –
comeram as Onças e a água ficou vermelha de sangue.
Warimi, em outra ocasião, quis obter veneno. Foi, então, atrás da Sucuri
Venenosa. Com a ajuda das aves Cabeças-secas, chegou primeiro à casa de Romi Kumu,
sogra delas. A fim de procurar veneno dentro do corpo dela, Warimi fez sexo com Romi
Kumu. Não encontrou. No entanto, Romi Kumu o levou até o pai dela, a Sucuri
Venenosa. Warimi se transformou numa pulga, entrou no corpo da Sucuri e conseguiu
arrancar o veneno de dentro dela. Fugiu transformado em papagaio, depois em rouxinol-
do-rio-negro.
Warimi queria usar o veneno para matar Rame, a águia comedora de homens.
Passa o veneno na zarabatana, com a qual tenta acertar a Rame. É exitoso apenas
quando a zarabatana atinge o céu antes de cair sobre a águia. Antes de morrer, Rame
tenta fugir pela região do rio Pirá-paraná. Em cada lugar que passa canta uma seção
diferente de sua canção. Foi do corpo de Rame que fizeram os equipamentos
cerimoniais. As penas de suas asas foram utilizadas nos instrumentos He. De seus ossos
fizeram estes próprios instrumentos. São chamados os ossos do Sol, Ossos do Pai da
Águia.
71
Outro personagem que aparece nos mitos é a Sucuri He. Certa vez, desceu de
uma árvore; começou uma chuva; Sucuri He, transformado em tora com duas aberturas
em cada ponta, deitou no chão; seus netos vieram e, dentro dele, se esconderam da
chuva. Emitindo um barulho como o de um trovão, Sucuri He foi para a Porta da Água,
a boca do rio no leste. Foi lá que as crianças morreram.
Quando chegou o tempo de mostrar He para seus outros netos, que haviam
crescido, Sucuri He ordenou que se preparasse um ritual. “No dia marcado, Sucuri He
chegou. Enquanto se aproximava, os He soavam; o som de He era Sucuri He ele
próprio”. Vomitou os ossos para os netos; eram os ossos do Sol, os ossos do filho do
Sol. Depois pediu para que seu filho o queimasse numa fogueira. No local da
incineração cresceu uma palmeira paxiúba que atingiu o céu. Dos pedaços dessa
paxiúba, cortados pelo esquilo, foram feitos os instrumentos He. Nesta versão, a Mulher
Branca Tucano é filha de Sucuri He. Numa outra, o Tucano é pai de He. É o Tucano
quem corta a paxiuba e distribui os instrumentos para os povos.
(Idem, pp. 284-285)
Figura 7 Figura 87
Figura 9
Figura 10
7
Interpretamos que a avó dos Ayawa, que engravida através do esperma que depositaram na fruta, é Romi
Kumu. Pois esta é mãe do céu (pai dos Ayawa), das águas, guarda o fogo na vagina, e dá à luz sem
intercurso sexual – quem engravida de forma semelhante é a mãe de Jurupari, as Plêiades, constelação
que Romi Kumu também representa.
74
Figura 11
Peixe. Sabia a dança das flautas He. Casou também com o Sariguê. A morte deste
coincidiu com o início da chuva. Yawira ainda casou com o Chefe Urubu, depois voltou
com Yeba, morreu sufocada no mel e virou mãe de He. Vejamos, agora, o que Hugh-
Jones diz a respeito desses mitos.
Primeiramente, há um outro elemento nessas narrativas que sugere uma
identificação com as Plêiades, mas que ainda não foi tratado aqui e que o autor
evidencia. O ritual das flautas sagradas dos Barasana, denominado Casa He, está
intimamente ligado ao movimento das Plêiades. Em novembro, quando, no crepúsculo,
esta constelação começa a aparecer no horizonte, ao leste, há um ritual preliminar, o
Casa Fruta. É também neste mês que o fruto ingá está maduro. Em abril ocorre o ritual
principal, o Casa He. É quando, também no crepúsculo, as Plêiades estão se pondo, no
oeste. Além disso, esse é o outro mês em que o ingá está maduro. Há, portanto, uma
associação entre o ingá (que é mencionado nos mitos) e as Plêiades. Trataremos dessa
associação mais abaixo.
Mencionemos, para abrir a discussão, a referência que faz Hugh-Jones às três
divisões básicas do cosmos barasana. Para cada uma delas
Ainda a respeito desses ancestrais, vale ressaltar que são todos filhos de Yeba
Haku, o Sol Primordial. E que Sucuri Yeba Meni, o ancestral dos Barasana, é uma das
variantes da cobra-canoa cuja viagem já mencionamos aqui.
Com essas observações, podemos compreender a recorrência da aparição da
personagem sucuri nos mitos que resumimos e a importância desse animal na mitologia
barasana. Além disso, o papel da sucuri enquanto tanto predador dominante de uma das
divisões do cosmos quanto mediador dessas divisões – chegando mesmo a se tornar
uma águia – é de particular interesse para o nosso trabalho. Lembremos que o percurso
que estamos traçando tem como intuito aproximar a personagem Amaru baniwa – cujo
corpus mítico em que se insere, o de Jurupari, engloba a mitologia barasana – da Amaru
inca, uma serpente arco-íris ou alada.
Outro mediador entre água, terra e céu para o qual Hugh-Jones chama atenção é
a própria palmeira paxiúba, que cresce até o céu e da qual são feitas as flautas sagradas.
No mito barasana, Jurupari é Sucuri He. E a alma deste, diz o autor, “vai para o alto por
dentro dessa palmeira, à medida que ela cresce e atinge o céu. Assim, a palmeira medeia
terra e céu” (Idem, p. 158). Hugh-Jones ainda observa que
a paxiúba só cresce em pântanos; pode-se dizer então que medeia água, terra
e céu. Apesar de os Barasana não dedicarem muita atenção a isso, não dá
para não ficar espantado com a forma das raízes aéreas dessa palmeira; elas
fazem com que pareça que a palmeira esteja pendurada entre o céu e a terra.
Os instrumentos He também medeiam terra e água pois eles são guardados
debaixo da água, em rios; eles são tirados para a terra seca quando vão ser
usados. (Idem, pp. 158-159)
Recupera ainda a aproximação entre o sariguê e as Plêiades, para então afirmar que
Meneriyo também equivale a esta constelação. Meneriyo tem a cabeça envolta por
abelhas quando vai ao céu. Outra observação:
A mãe de Jurupari, ela própria identificada com as Plêiades, era uma virgem
sem vagina. Então, quando engravidou, era incapaz de dar à luz até que um
canal fosse feito em seu corpo. Apesar do fato de que Meneriyo era
claramente não virgem e tinha uma vagina, o nascimento de seu filho Warimi
é fortemente reminiscente do de Jurupari: em ambos os casos a mãe teve de
ser aberta por um agente externo. (Idem, p. 170)
e seu retorno (quando escapa [...]) deve corresponder à descida das Plêiades”. Hugh-
Jones afirma então que o ingá é outro “mediador entre terra e céu, alto e baixo, e
também entre estações secas e úmidas”, pois frutifica no início de ambas as estações.
“As Plêiades também possuem essa dupla conotação de estação seca e úmida, pois sua
subida anuncia a estação seca e sua descida anuncia a chuvosa” (Idem, ibidem).
Lembremos ainda que quando Sucuri Mandioca cai para o Mundo Inferior, também
pousa num ingá.
Para reforçar a identificação de Meneriyo com as Plêiades – e, assim, com Romi
Kumu – Hugh-Jones ainda recupera as ideias de Lévi-Strauss a respeito das vísceras
flutuantes e menciona o episódio em que, para Warimi nascer, o útero de Meneriyo foi
levado ao rio. Registremos a semelhança dessa passagem com o nascimento de Kuwai,
em que o útero de Amaru é jogado no rio e se transforma numa arraia. Por fim, Hugh-
Jones, ao longo da análise do ritual de He empreendida no livro em questão, demonstra
que a cabaça de cera de abelha, que Romi Kumu (Plêiades) possui, é associada às
vísceras.
Hugh-Jones também aproxima Meneriyo do sariguê, que, como vimos, é
igualmente associável às Plêiades. O autor lembra o quanto o episódio em que Meneriyo
chega à casa desse animal se parece com o mito tupi citado por Lévi-Strauss e já
apresentado aqui. Neste, a mãe carrega um filho no ventre, que lhe indica o caminho –
ato que, como demonstramos, pode ser tomado como metáfora de um filho numa bolsa
marsupial –, mas em seguida fica bravo e para de se comunicar. Por isso, eles acabam
chegando à casa do sariguê, onde a mãe é violentada. “Warimi também conversa com
sua mãe Meneriyo desde seu útero; mas, ao invés de depois se recusar a conversar, dá-
lhe direções erradas, de modo que ela também chega à casa do sariguê, onde é (quase)
violentada por ele” (Idem, p. 172).
A associação com o sariguê também é feita em relação a Yawira. Esta, à maneira
de Meneriyo, chega à casa do Sariguê sem a intenção de fazê-lo, passa a viver com ele e
fica fedendo. Tal fedor a faz “homóloga tanto do sariguê quanto de Romi Kumu (que
também fede)”. Lembremos ainda do momento em que ela se afoga no mel. Hugh-Jones
afirma que “Yawira é a moça louca por mel”, personagem, segundo Lévi-Strauss,
homóloga ao sariguê (Idem, p. 173).
De nossa parte, sublinhemos ainda que Yawira, tendo sido – através de sua
função sarigueia – equiparada a Meneriyo, a Rumi Kumu, às Plêiades e à mãe de
Jurupari, é também uma sucuri, continente de vários peixes e filha de Sucuri Peixe.
79
Por fim, em sua exegese, Hugh-Jones recupera mais um mito barasana, em que
“Romi Kumu (≡ Plêiades) criou o arco-íris para manter aquecida a criança nascida de
seu sangue menstrual (a chuva), que caiu em uma árvore oca”. E menciona o trecho
norteador do nosso trabalho: “Lévi-Strauss mostrou que, na mitologia da América do
Sul, há uma afinidade direta entre as Plêiades e o arco-íris, bem como entre o sariguê e
o arco-íris” (Idem, ibidem). Lembremos ainda que, no corpus mítico de que estamos
tratando, toras ocas fazem as vezes de sucuris continentes de peixes – conforme
demonstram passagens dos mitos de Sucuri Mandioca, Warimi e dos Ayawa.
Para resumir e esquematizar o que expusemos acima, mostremos os diagramas
elaborados por Hugh-Jones:
Sublinhemos, por fim, que nossa intenção com essa explanação era demonstrar o
quanto essas personagens também se aproximam de Amaru – pelas características já
apresentadas e interpretadas desta última.
...
Outra equivalência que Hugh-Jones estabelece é entre Jurupari, Sucuri
Venenosa, Sucuri He e Sucuri Mandioca:
O império Inca vigeu entre aproximadamente 1400 até 1532, ano da conquista
espanhola dos Andes. A região que o império ocupou ia do norte do atual Equador,
perpassava o Peru, parte da Bolívia e se estendia até metade do que hoje é o Chile e, ao
leste, o noroeste da Argentina. Os Incas chamavam sua terra e império de
Tahuantinsuyu, “os quatro quartos unidos”, pois dividiam esse território em quatro
partes: Chinchaysuyu, Antisuyu, Collasuyu e Cuntisuyu (Urton, 1999, pp. 7, 10). A
cidade de Cusco, no Peru, era a capital e centro do império. É onde está localizado o já
mencionado Templo do Sol, ou Coricancha (recinto de ouro), ponto principal da vida
ritual da capital, em cujos compartimentos há “imagens e ídolos retratando e dedicados
à divindade criadora (Viracocha), ao Sol, à Lua, a Vênus (da Manhã e da Tarde), ao
Trovão, ao Arco-íris e a outros objetos de adoração” (Idem, pp. 10-13).
Além disso, “os Incas não foram a primeira civilização andina a unificar os
povos”. Eles, de fato, só conseguiram estabelecer essa unificação pois se basearam em
“relações já existentes, em instituições estatais e hábitos de império herdados de povos
anteriores”. Seu próprio “arcabouço de conhecimento, crenças e práticas veio de
civilizações precedentes” (Idem, p. 14). A pré-história do Peru, por sinal, é dividida em
cinco grandes períodos, três dos quais denominados “horizontes” – devido à “relativa
84
unidade da arte, arquitetura, ritualismo e economia numa extensa região dos Andes
centrais” – e dois chamados “intermédios”, em que o que preponderou foram os
“processos de desenvolvimento local e regional (ao invés de pan-andino)” (Idem, p. 15).
O Horizonte Tardio corresponde ao período do império Inca (1400 – 1532 d.C.).
A região andina
Figura 15 (Idem, p. 6)
plantas e da vida aquática da costa, das terras altas e da floresta tropical” (Idem,
ibidem). É possível encontrar essas mesmas figuras em sítios do alto Amazonas, dos
altos vales intermontanos dos Andes e dos vales de rios da costa desértica do Pacífico.
As imagens de animais presentes na arte Chavín retratam principalmente felinos
em postura humana, águias, falcões e serpentes. Muitas destas últimas contêm enormes
dentes caninos. Outro “elemento onipresente na arte Chavín [...] é o chamado ‘deus do
bastão’” (Idem, pp. 15-16). Trata-se de “figuras em posição frontal, possivelmente
representando um compósito animal-humano ou humanos mascarados, tanto masculinos
quanto femininos, segurando bastões ou talos de milho nas mãos”. Embora não se saiba
ao certo o significado dessa divindade, certamente tratava-se de uma figura
proeminente, o que é atestado “pelo fato de que deuses do bastão de postura semelhante
e com apetrechos similares aparecem comumente em representações artísticas desde os
tempos Chavín até – e incluindo – os tempos inca” (Idem, p. 16).
É bem provável que, como os assim chamados deuses criadores dos tempos
inca, como Viracocha e Pachacamac, os deuses do bastão dos povos de
Tiahuanaco e Huari eram considerados responsáveis pela origem da
humanidade e pela fertilidade das plantações e dos animais. (Idem, p. 21)
Em Chan Chan [capital desse estado] e outros sítios que foram incorporados
ao estado Chimu, encontramos fragmentos de complexos reais contendo
praças abertas, montes funerários e centros administrativos. Tais sítios
apresentam uma variedade de frisos de adobe decorativos, incluindo repetidas
imagens de aves marinhas, criaturas do oceano, bem como o que tem sido
interpretado como serpentes arco-íris de duas cabeças. (Idem, p. 23) (grifo
nosso)
87
Apresentemos uma das histórias contadas sobre os reis incas que sucederam a
Manco Capac. O príncipe Pachacuti, em sua jornada para visitar o pai – o rei Viracocha
Pachayachachi (que possuía o nome do deus criador) –, aproximou-se de uma fonte de
água e viu cair nela uma barra de cristal. Olhou para a fonte de água e viu, na barra, a
imagem de um índio vestido com a indumentária inca. Possuía, além disso, três raios,
como os do sol, que saíam de sua cabeça. Também havia cobras em torno de seus
ombros e a cabeça de uma suçuarana aparecendo entre suas pernas. Outra suçuarana
agarrava-se em suas costas, que também carregava uma criatura na forma de serpente
89
estendida do topo até embaixo. Pachacuti pegou o cristal para, a partir de então,
consultar nele o futuro. Dizia identificar, naquela imagem, o deus criador Viracocha.
(Idem, p. 57)
...
Há vários cronistas que escreveram sobre a mitologia inca no primeiro século
após a conquista espanhola. Um deles foi Garcilaso de la Vega, nascido em Cusco em
1539, filho de uma princesa inca e de um conquistador espanhol. Aos vinte e um anos,
mudou-se para a Espanha, onde viveu o resto da vida e escreveu sua obra sobre a
história do império Inca, Comentarios Reales de los Incas.
Em uma passagem da obra, Garcilaso comenta que os Incas adoravam deuses
que eram tigres (onças?) e
cobras grandes que chamam Amaru: são muito mais grossas que a coxa de
um homem e com um comprimento de vinte e cinco a trinta pés; há outras
menores. Adoravam todas por sua grandeza e monstruosidade. São bobas e
não fazem mal; dizem que uma maga as encantou para que não fizessem mal,
e que antes eram ferozes. (Garcilaso de la Vega, 1609, p. 196).
fez surgir uma serpente enorme chamada amaru, um amaru de duas cabeças,
para que fosse nefasto a Pariacaca. Ao vê-lo, Pariacaca ficou furioso e cravou
um bastão de ouro no meio de seu lombo. Nesse mesmo instante, amaru se
converteu em pedra. Diz-se que, ainda hoje, se pode ver muito claramente
este amaru petrificado [...]. As pessoas [...] golpeiam este amaru com uma
90
O arqueólogo Frank Meddens nos lembra que mitos a respeito de Amaru ainda
podem ser encontrados na atualidade. Ele próprio registrou versões nos anos 2001 e
2002, no distrito de Pampachiri, que afirmam ser Amaru “uma criatura na forma de
dragão ou serpente que causa tempestades e chuvas de granizo” (Meddens, 2006, p. 52)
ou “uma formação de nuvens espiralada” (Idem, p. 61). Conta-se, ainda, que logo após a
invasão espanhola, um padre se dirigia a Papachiri para assumir um posto. No caminho,
“viu uma grande tempestade se anunciando e Amaru voando no céu”. O padre apontou
sua cruz e sua Bíblia para Amaru e proclamou rezas. “Amaru caiu do céu e atingiu a
terra com tanta força que metade de seu corpo se enterrou no solo, onde ela se tornou
uma pedra”. Meddens aponta que este mito une “uma antiga divindade celeste (a
serpente celeste ou Amaru) à chuva e às águas do rio (tempestades e o rio Molino), bem
como à pedra” (Idem, p. 52). A pedra em questão existe de fato, chama-se
Amaruchayoc, e se localiza na confluência dos rios Molino e Qoypachayoc.
No mesmo artigo, o autor também recupera a antiguidade da história de Amaru
e sua relação com a cobra, a água e a pedra. Lembra que o o simbolismo da cobra “está
difundido pela iconografia de várias culturas andinas, presente inclusive no período pré-
cerâmico”. Menciona outro extirpador de atividades idólatras, Cristóbal de Albornoz,
que nos anos 1560 registrou uma história em que “uma cobra chamada Amaru emergia
de um lago para ir a outro lago, mas, por conta da notícia da chegada do espanhóis,
transformou-se em uma pedra” (Idem, p. 53). Meddens cita ainda o trecho do
Manuscrito de Huarochirí que já apresentamos. A partir dessas histórias, conclui que
Meddens também recupera uma outra história, em que “a cobra está ligada aos
ancestrais e às origens” (Idem, ibidem). A cobra/dragão mítico desta narrativa chama-se
Michosamaro e emergiu da caverna em Pacaritambo junto com Manco Capac, na
91
disso, os felinos cumpriam o papel de sentinelas guardiães das fontes de água das
montanhas; os felinos eram mediadores entre o domínio terreno e o domínio da essência
fértil. Smith também sustenta que o motivo dos degraus, do qual ele trata no artigo e
que apresentaremos com mais detalhes, representa uma montanha sagrada.
Já dissemos que a Porta do Sol, em Tiahuanaco, contém a figura do deus do
bastão. Este, acrescentemos agora, encontra-se em pé, sobre degraus. Trata-se, com
efeito, da representação mais famosa do motivo dos degraus. As figuras 18 e 19
consistem, respectivamente, numa fotografia da Porta do Sol, com o foco no deus do
bastão sobre os degraus, e num desenho elaborado a partir dessa imagem. “No centro do
motivo dos degraus, há um invólucro do qual emergem seres em formato de serpente,
com cabeças de felinos e aves” (Idem, ibidem).
THE CENTRAL FIGURE ON THE GATEWAY OF THE SUN AND THE STEP
MOTIF (AFTER STONE-MILLER 2002:133, FIG. 104)
O motivo dos degraus, ou das montanhas de degraus, segundo nosso autor, “está
quase sempre retratado associado a criaturas em forma de serpente. Frequentemente
esses seres serpentinos emergem de um elemento central da montanha. As bases da
montanha, nos dois lados, também são comumente descritas como serpentes”. Smith
comenta que em toda a região dos Andes, desde a pré-história até a atualidade, as
serpentes possuem um lugar de destaque dentre os motivos iconográficos e “costumam
estar conceitualmente vinculadas às montanhas”. O próprio autor colheu um relato
numa cidade da bacia do lago Titicaca, que conta haver uma serpente gigante e
monstruosa nas entranhas de certa montanha que é uma das principais huacas da região.
Em relação aos grupos pré-históricos, Smith afirma haver muitas evidências de que as
serpentes simbolizavam rios e correntes, além de representar “fertilidade e essência
espiritual” (Idem, p. 10). Sobre esse significado da serpente, também há evidências de
sua persistência atualmente. A comunidade de Cabanaconde, das terras altas do sul do
Peru, próxima a Arequipa, possui falantes de quéchua que “visualizam os rios na forma
de serpentes”. Por sinal, o símbolo de autoridade do prefeito, responsável pela
manutenção dos canais e redes de irrigação, é um bastão com cabeça de serpente. Já
uma comunidade Aymara possui um ritual que “enfatiza essa conexão entre serpentes,
fertilidade e rio” (Idem, p. 11).
É comum também, entre as comunidade andinas, a concepção de que há uma
rede de circulação de água ao redor do cosmos. A água viria da Via Láctea, desceria
94
através das chuvas, seguiria das montanhas à costa e seria levada de volta à Via Láctea
através de uma lhama, que desceria à terra para beber a água dos rios e levá-la de volta
ao céu. Os habitantes de Sonqo, no sul do Peru, falantes de quéchua, dizem ainda que os
rios que vão dos lagos das terras altas para a floresta retornam aos seus locais de origem
através do subsolo. Além disso, são os rios e as correntes “a forma mais tangível do
sami”, que é “a essência animada do mundo e se manifesta fisicamente na água e na
luz”. Eles distribuem essa essência pelo cosmos. Há, por fim, um elemento que facilita
essa distribuição de água e de sami. Trata-se de “K’uychi (Arco-íris)” (Idem, p. 12).
Smith cita o trabalho de Catherine Allen, em que esta afirma que
K’uychi é uma amaru (grande serpente subterrânea) que vive nas fontes de
água. Repleto de água após a chuva, ele sai voando de uma fonte e arqueia-se
através do céu. Enterrando sua cabeça numa segunda fonte, ele transmite
água, através de seu corpo, de uma fonte a outra. (Allen apud Smith, 2011, p.
12).
DETAIL OF SCENE FROM COLONIAL PERIOD KERO (AFTER FLORES O. ET AL. 1998:211)
Figura 20 (Idem, p. 13)
INCA AMARU REPRESENTATION FROM COLONIAL PERIOD KERO (AFTER FLORES O. ET AL. 1998:211)
Figura 21 (Idem, p. 15)
arqueólogo nos lembra que o templo escalonado (com degraus) de Puma Punku, em
Tiahuanaco, “também possuía uma rede de drenagem, espacialmente associada à fonte
de Choquepacha. Há evidências de que esta possuía uma importância ritual nos tempos
de Tiahuanaco” (Idem, p. 14). Disso tudo, Smith conclui que
DETAIL FROM AN EARLY TIWANAKU STYLE TUNIC OF FACE WITH TEAR TRACKS TERMINATING IN
PLANT ELEMENT (AFTER YOUNG-SÁNCHEZ 2004:42, FIG. 2.22)
Há, também, representações que explicitam mais ainda essa relação entre os
pássaros e os portais entre mundos (os locais de florescimento e emergência). São
imagens de pássaros “voando para baixo, na direção de uma montanha ou uma colina da
qual surgem flores e plantas” (Figura 24) – acessando, portanto, o domínio dos
ancestrais. Algumas dessas imagens “não mostram o pássaro por inteiro, mas somente
uma pena de sua cauda emergindo do topo da montanha, como se o pássaro tivesse
entrado nesse cume” (Idem, p. 34) (Figura 25).
98
DETAIL OF SCENE FROM 17TH CENTURY INCA KERO (AFTER FLORES O. ET AL. 1998:22)
Figura 24 (Idem, p. 35)
DETAIL OF BIRD ELEMENT FROM TIWANAKU TAZÓN. NOTE THE SAME TREFOIL ELEMENT
USED FOR BOTH FLOWERS AND TAIL FEATHERS (AFTER EISLEB 1975:PL. 162A)
Smith afirma que “essa relação artística era sustentada pela conexão ideológica
entre pássaros e flores”, ambos com presença marcante nos portais entre mundos. Por
sinal, um termo aymara, do século XVII, wayta, significa “tanto ‘flor’ quanto ‘pena’”
(Idem, p. 35). Outra imagem que traz essa associação é a do Sacrificante, presente na
arte de Tiahuanaco. Esse personagem é uma mistura de humano e felino, de cuja boca
sai um elemento linear terminado em flor/pena de cauda (Figura 28).
Smith nos chama atenção para a analogia entre essa imagem do Sacrificante e
“as descrições posteriores que os Incas fizeram de amarus (seres com atributos tanto de
serpentes quanto de felinos) com elementos em forma de correntes emergindo de suas
bocas e terminando em flores” (Idem, p. 36). É o caso das Figuras 21 e 29.
100
DETAIL OF SCENE FROM COLONIAL PERIOD KERO SHOWING AN AMARU WITH FLOWER
ELEMENT EMERGING FROM MOUTH (AFTER FLORES O. ET AL. 1998:307)
DETAIL OF DRAWING BY GUAMAN POMA DE AYALA SHOWING TWO SERPENTS WITH FLOWER
ELEMENTS EMERGING FROM THEIR MOUTHS. NOTE THAT GUAMAN POMA HAS SPECIFICALLY
LABELED THESE AS AMARU (AFTER GUAMAN POMA DE AYALA 1980 [1615]:83)
De nossa parte, chamemos ainda atenção para o fato de que as amarus das
Figuras 21 e 29, além de terem flores (equivalentes a penas) saindo de suas bocas,
também possuem, em seus dorsos, motivos que remetem às próprias penas de pássaros
entrando no cumes das montanhas, como retratado nas Figuras 25 e 31. Portanto,
podemos notar que Amaru é também representada como uma serpente alada, ou, ainda,
como uma ave aquática.
101
DETAIL OF SCENE FROM COLONIAL PERIOD KERO (AFTER FLORES O. ET AL. 1998:163)
Figura 31 (Idem, p. 35)
onde trouxe uma pele vermelha de suçuarana. Quando se pôs a dançar com a pele [...],
apareceu um arco-íris ao redor da cabeça da suçuarana” (Taylor [ed.], 2008, p. 39).
Há um outro fato relevante, para o nosso trabalho, a respeito dessa interação
entre felinos e serpentes na arte e na mitologia incas. Trata-se da relação desses animais
com o sol. Citemos, primeiramente, a afirmação de Zuidema de que “um uso simbólico
da suçuarana [...], ou de sua cabeça, é o de permitir o sol ou o arco-íris emergirem da
terra” (Idem, ibidem). Arco-íris (amaru) e sol aparecem aqui lado a lado. Embora nas
imagens o primeiro figure jorrando chuva sobre as pessoas, ele também é feito de luz e
anuncia o sol. Na imagem de um kero do período colonial podemos ver o sol sobre o
arco-íris (Figura 32).
DETAIL OF SCENE FROM COLONIAL PERIOD KERO (AFTER GÓMEZ 2003:177, FIG. 7C)
Figura 32 (Idem, p. 13)
Ademais, Smith recupera a história, que já citamos aqui, da visão que teve o
príncipe Pachacuti na fonte de água. Dissemos que Pachacuti identificou, na imagem, o
deus criador Viracocha. Entretanto, este comumente se confunde com o próprio sol,
como inclusive demonstra sua descrição nessa história. Smith, de fato, citando Zuidema,
se refere ao personagem como o Deus Sol. Lembremos que ele é descrito como tendo,
na cabeça, três raios, brilhantes como os do sol. Além disso, trazia serpentes e
suçuaranas em torno de si.
Assim, Deus Sol, o representante do outro mundo, o mundo dos ancestrais
(lembremos que os Incas diziam ser filhos do sol), aparece no mundo terreno pelo
intermédio de felinos e serpentes.
...
Para concluirmos esse capítulo, vale apresentar algumas reflexões de Gary Urton
em sua etnografia de Misminay (Urton, 1981a, 1981b). Urton, na década de setenta,
103
realizou um trabalho de campo nesta comunidade, que fica nas proximidades de Cusco,
e encontrou ressonâncias de concepções incas.
A partir da leitura dos cronistas do império Inca, Urton percebe que essa
civilização identificava constelações a partir das regiões escuras da Via Láctea. São as
constelações de nuvens negras, em que visualizavam diversos animais, como lhamas,
felinos, serpentes e aves. Comunidades quéchua atuais, aponta o autor, continuam a
identificar constelações a partir dessas regiões escuras da Via Láctea. É o caso de
Misminay, em que a observação dessas constelações serve a vários propósitos, como a
marcação do tempo à noite e das etapas da atividade agrícola.
Na ordem de aparição, ao leste, as constelações identificadas em Misminay são:
uma serpente (mach’acuay), um sapo, um tinamídeo, uma lhama, uma lhama bebê (ou
umbigo da lhama, ou ainda serpente), uma raposa e um tinamídeo. Tais constelações
estão em relação direta com a estação chuvosa. Sobretudo a Serpente, mach’acuay,
aparece à noite no céu ao longo dessa estação. Já na estação seca, “ela está sob o solo
durante a noite” (Urton, 1981a, p. 111). Além disso, essas constelações de nuvem negra
figuram no eixo central da Via Láctea, que é denominada Mayu (Rio) – o que aponta
para mais uma associação delas com a água.
Os habitantes de Misminay afirmam ser a Via Láctea um rio celestial do qual o
rio Vilcanota, que corre na comunidade, é um espelho. Este último rio corre da direção
sudeste à noroeste. Diz-se que ele conduz a água terrestre às bordas da terra, onde
deságua no mar cósmico, que envolve a terra. “À medida que a Via Láctea corre em
volta da terra, ela mergulha – a oeste – no mar cósmico, absorve a água terrestre, passa
pelo subsolo e sobe novamente, a leste” (Idem, p. 113). Assim que desponta no céu, a
Via Láctea passa a mover-se sobre a terra, levando água para a esfera celeste; água esta
que retorna para a terra em forma de chuva, compondo os rios tributários que formarão
o Vilcanota. “Dessa forma, os rios terrestres e celestes agem em concerto para renovar
continuamente a água – fonte da fertilização – do universo” (Idem, ibidem).
A partir de trechos do Manuscrito de Huarochirí e dos escritos do cronista
Bernarbé Cobo, Urton demonstra que esse sistema também era conhecido entre os
Incas. Cobo disse que os Incas viam a Via Láctea como um grande rio que pegava a
água dos rios da terra. Já no Manuscrito fala-se que das constelações de nuvens negras
descia a sombra de uma lhama para beber a água do mar. Se ela não o fizesse, o mundo
inundaria.
104
A água do rio celestial tem, portanto, uma origem terrestre. “Não é, então,
surpreendente que os animais da Via Láctea também se originem da terra”. De fato, há
“nos Andes a crença geral na origem subterrânea de todos os animais”, que teriam saído
das fontes de água. Assim, há uma relação “entre o comportamento dos animais e o
comportamento das constelações”. Podemos conhecê-la examinando “as características
de cada animal terrestre e celeste” (Idem, p. 114). Por exemplo, “as constelações de
animais são responsáveis pela ‘procriação e aumento’ de sua contraparte animal na
terra” (Idem, p. 115). Apresentaremos a análise que Urton faz das caraterísticas de
Mach’acuay, a serpente.
Cobras, com efeito, são raras no sul dos Andes – sobretudo se comparamos a
região com a floresta amazônica, localizada ao leste e ao norte. Das espécies maiores
que doze pés, a única natural do sul andino é a Tachymenis peruviana. Dentre seus
aspectos, destaquemos ser ela levemente venenosa, amarela ou castanha-clara, com
manchas escuras na pele, também com faixas longitudinais ao longo da parte superior
de seu corpo. Ela vive pouco e seu período de nascimento é entre setembro e outubro.
Urton defende que o termo mach’acuay, “comumente encontrado na literatura da
fauna reptiliana de Cusco”, refere-se principalmente a esta cobra. Há, ainda, duas outras
“que podem ser consideradas variantes do grupo mach’acuay” (Idem, ibidem). Trata-se
da yana-muroq (“a de manchas negras”), uma cobra verde e branca, e oje-muroq (“a de
manchas cinzas”), cuja cor varia entre o marrom padrão e o marrom escuro.
Grandes serpentes da América do Sul, como a sucuri, não são naturais da região
de que estamos tratando. Urton, no entanto, menciona o trecho de Garcilaso de la Vega,
a que já fizemos referência, em que este afirma que os habitantes de Antisuyu, a parte do
território inca que ocupa a floresta tropical, presenteavam os reis com essas serpentes da
Amazônia – que chamavam de amarus. Portanto, a população dos arredores de Cusco
não desconhecem tais serpentes. Urton ainda comenta que a atual distribuição de
algumas jiboias como a Constrictor constrictor ortonni e a Boa hortulana hortulana,
presentes no alto Marañón e no alto Madre de Diós, respectivamente, “é um bom
indicativo de que os grandes répteis da Amazônia são conhecidos atualmente pelos
habitantes das terras altas dos Andes” (Idem, ibidem).
Na comunidade de Misminay, que está localizada nas terras altas, é comum que
se viaje ao vale do Urubamba, nas terras baixas, para se consultar xamãs. Viagens
semelhantes faziam as populações andinas pré-colombianas, o que reforça a constatação
105
de que “répteis de médio a longo porte do alto Amazonas tenham sido parte do
conhecimento faunístico dos povos dos Andes desde um bom tempo” (Idem, ibidem).
Nosso autor nos apresenta uma outra constelação serpente, a Sulluullucu – nome
que ele considera vir da surucucu da floresta tropical. Adiciona, ainda, mais uma
sugestão de que as serpentes da Amazônia são conhecidas nos Andes. Em seu
dicionário de quéchua, o padre Jorge Lira designa, para serpente, o termo mach’acuay.
Porém, também designa um nome para jiboia: a’ti mach’akkaway. E relaciona este
nome a amaru, “a serpente monstruosa da mitologia andina e também [...] as grandes
serpentes dadas como tributo aos Incas” (Idem, ibidem).
Amarus são importantes para o estudo de Urton, e o autor – mencionando
características que já apresentamos – diz por quê. O termo “é aplicado aos arcos-íris,
que, acredita-se, são grandes serpentes. O corpo da Serpente Arco-íris emerge de uma
fonte de água, arqueia-se no céu, e enterra o final oposto do próprio corpo em outra
fonte” (Idem, ibidem). Também lembra que elas são pensadas como tendo duas cabeças,
uma enterrada em cada fonte.
Urton demonstra a relação existente entre Mach’acuay, a constelação de nuvens
negras em forma de serpente, e a serpente arco-íris Amaru. Trata-se da “relação entre
répteis negros e multicoloridos” (Idem, ibidem). O antropólogo lembra que esta mesma
oposição está presente na etnoastronomia da floresta tropical. O exemplo que dá é
justamente o já apresentado aqui, de Tastevin, apud Lévi-Strauss. O padre, ao tratar do
mito da cobra Boyusu, frisa que esta, durante o dia, se manifesta na forma de arco-íris.
Já à noite, na de uma mancha negra na Via Láctea. Recordemos que Lévi-Strauss, a
partir dessas observações, conclui que a contrapartida noturna do arco-íris é “a não
presença da Via-Láctea num ponto em que ela deveria normalmente estar” (Lévi-
Strauss, 2008a, p. 284) – o que é simétrico ao fragmento de Via Láctea perdido no céu
escuro, fragmento este representado pelas Plêiades.
Acrescentemos agora, baseando-nos nas citações de Urton, que Tastevin
constata que essa constelação serpente formada pela mancha negra gira em torno da
constelação Escorpião – cuja complementaridade com as Plêiades já foi demonstrada.
Essa relação entre serpentes negras e multicoloridas possui uma base empírica
na fauna da floresta tropical, afirma Urton. A “jiboia-arco-íris (Epicrates cenchris)
exibe exatamente essa oposição ou união de cores”. Ela “possui uma tonalidade marrom
com anéis negros” (Urton, 1981a, p. 116). No entanto, sua cor se transforma quando ela
fica sob o sol. “À medida que, dependendo da inclinação, a luz toca a superfície
106
superior de sua pele, fragmentos de iridescência verdes e azuis brilham, como as asas
das borboletas morpho” (Ditmars apud Urton, 1981a, p. 116).
As sucuris (Eunectes murinus), cuja aparição nos mitos já foi amplamente
comentada aqui, também possuem coloração e hábitos similares “às descrições das
serpentes (arco-íris) celestes e aquáticas da tradição amazônica”. Têm a cor verde-oliva
e grandes manchas redondas e pretas. São aquáticas, “noturnas, e passam os dias em
pântanos ou banhando-se ao sol, em ramos sobre a água”. Além disso, dão à luz no
começo do ano. “Assim, no mesmo momento em que a serpente de nuvens negras da
Amazônia, Boyusu, figura no zênite, assinalando o início das chuvas, as grandes sucuris
aquáticas da terra terão recentemente dado à luz” (Urton, 1981a, p. 116).
Urton conclui que “as serpentes celestes na Amazônia estão relacionadas aos
arcos-íris (água), às nuvens negras da Via Láctea e ao início da estação chuvosa”. Por
fim, o antropólogo afirma que “este é o mesmo complexo de associações encontrado na
astronomia dos Andes” (grifo nosso) – em que temos Mach’acuay (“nuvem negra da
Via Láctea observada no início da estação chuvosa”) e Amaru (“serpente arco-íris de
duas cabeças e multicolorida”) (Idem, ibidem).
É possível observar uma semelhança entre o “padrão de comportamento
climatológico” das amarus – que, após uma chuva, emergem de uma fonte – e o das
serpentes terrestres “que, ao fim da estação fria/seca e no início da estação
quente/chuvosa, emergem da hibernação subterrânea”. Urton nos informa que a
temporada seca/fria dos Andes ocorre entre os meses de maio de junho e que consiste
num período “de reduzida atividade não somente da fauna reptiliana, mas também da
fauna que os répteis caçam”. Os períodos de atividade e de inatividade dos répteis
terrestres andinos, portanto, estão “em relação direta com as [...] alternâncias entre as
estações seca/fria e quente/chuvosa”. Obviamente, as “serpentes meteorológicas (arcos-
íris/amarus) aparecem somente durante a parte chuvosa do ano”. Sendo assim, “elas
exibem um ciclo de atividade sazonal semelhante aos dos répteis terrestres” (Idem, p.
118).
Mach’acuay forma no céu uma linha em ziguezague composta de poeira
interestelar, que vai, aproximadamente, do Cruzeiro do Sul até a estrela Adhara. “A
cabeça da Serpente precede a cauda na ascensão”. Este movimento pode ser equiparado
ao das serpentes terrestres e das serpentes arco-íris, que quando saem e quando entram
novamente na terra é sempre a cabeça que vai primeiro. “O nascer helíaco da cabeça da
Serpente [Mach’acuay] ocorre durante a primeira semana de agosto; a descida helíaca
107
Quando lembramos que o período mais intenso das chuvas nos Andes ocorre
entre os meses de dezembro e fevereiro, e que o período de plantio começa
no início da mudança da seca para as chuvas em agosto, torna-se evidente
que a periodicidade da emergência e do retorno à terra efetuados pela
Serpente celestial compreende a estação chuvosa. Com efeito, a Serpente
celestial, como as serpentes meteorológicas, emerge da terra junto com o
início da estação quente/chuvosa e retorna no início da estação seca/fria.
Além disso, descobrimos que a principal serpente do Departamento de Cusco
[...], T. peruviana, dá à luz entre setembro e outubro, logo após o começo da
estação quente/chuvosa. (Idem, ibidem)
CONCLUSÃO
montanhas sagradas de onde sai uma fonte de água – e as aves e serpentes são capazes
de transgredir essas fronteiras. Elas simbolizam a própria emergência.
Se lembrarmos da cosmologia barasana, que divide o cosmos em três domínios
diferentes – céu, terra e água – e atribui a cada domínio um predador dominante – águia,
onça e sucuri, respectivamente –, predadores estes que são capazes de transgredir as
fronteiras e passar de um domínio a outro, percebemos que a Amaru inca parece
sintetizar esses três predadores em si – uma vez que contém atributos de serpentes, de
felinos e de aves – e assim igualmente cumprir a função de um ser encarregado de
transgredir os domínios.
Lembremos ainda da afirmação de Meddens, quando diz que Amaru é “uma
serpente aquática símbolo da desordem se transformando numa nova ordem” (Meddens,
2006, p. 53). Tal constatação nos remete ao que observamos acerca da Amaru baniwa,
também responsável pela instauração de novas ordens. Propicia a primeira abertura do –
e ao – mundo ao se relacionar com Umawali (a serpente, que aparece como homem
branco, representante da alteridade), continua o processo no momento em que dá à luz
(pois o sangue que passa a correr de si cria os rios do mundo), abre o mundo mais uma
vez ao peregrinar tocando as flautas pelos caminhos dos rios (flautas que passam a ser
como Sucuris, no dizer de Wright), e conclui o processo quando, após a guerra, vai para
os cantos do mundo tornar-se “Mãe dos Brancos”. Com Amaru, portanto, o universo
deixou de ser estático e miniaturizado para se tornar dinâmico e alargado – aberto a
transformações.
Importante, além disso, destacar a semelhança entre as Amaru no que concerne
ao papel delas de instauração da fertilidade. Vimos que, de fato, desde o Horizonte
Inicial as fontes de água em montanhas “eram conceitualizadas como olhos e eram
pontos de origem dos humanos, dos camelídios e da fertilidade agrícola”, e que “as
águas que corriam dessas fontes eram comumente conceitualizadas como serpentes”
(Smith, 2011, p. 2). As serpentes – amarus – representavam a fertilidade, que
espalhavam pelo universo.
A Amaru baniwa cumpre um papel semelhante. Além ser criadora dos rios, é a
primeira mulher a conceber. As duas funções estão, com efeito, interligadas. Como
demonstramos, a fertilidade de Amaru advém da sua abertura à alteridade; “a primeira
união capaz de produzir uma criança foi, justamente, entre um homem branco (cobra) e
uma mulher indígena” (Vianna, 2017, p. 122).
110
Enfatizemos, ainda, a relação das serpentes incas com o sol. Enquanto arco-íris,
elas são compostas de luz, e embora levem a chuva, também anunciam o sol.
Recuperemos, ademais, o episódio do príncipe Pachacuti. Este visualiza numa fonte de
água o Deus Sol (que se confunde com o deus criador Viracocha), que aparece envolto
em serpentes e onças.
Aqui podemos estabelecer mais uma aproximação com a mitologia do noroeste
amazônico. Primeiramente, Brotherston, como citamos, já mencionara a existência de
estudos que “detectaram vestígios andinos na história de Jurupari, entre eles a sua
atuação como herói patriarcal e solar que anda pela paisagem dispensando leis ao estilo
de um Viracocha inca” (Brotherston, 2002, p. 401). Em segundo lugar, acrescentemos
que, além de dispensar leis, Viracocha e seus dois filhos saem pelo território inca
chamando os ancestrais dos povos, que respondem emergindo do subsolo, após terem
partido por baixo da terra desde o lago Titicaca. Nota-se assim uma semelhança com os
mitos tukano e baniwa de origem da humanidade. Já demonstramos que estes não são de
todo opostos. O mito tukano de viagem da cobra-canoa seria – de acordo com Vianna –
a “face oculta” do mito baniwa em que Nhiaperikoli chama os grupos, fazendo-os
emergir do buraco em Hipana. Pontuemos ainda a equivalência das funções do lago
Titicaca, na mitologia inca, e do Lago de Leite, na tukano.
Por fim, a cena em que o Deus Sol (Viracocha) aparece em uma fonte de água –
sinônimo de local de surgimento das amarus – e envolto por serpentes nos remete ao
episódio de Amaru – personagem que exerce função ofídica – dando à luz Kuwai, que,
embora tenhamos sustentado ser filho virtual de Umawali, é apontado nos mitos como a
princípio sendo filho de Nhiaperikoli – o sol – e seu mensageiro. Lembremos ainda que
Jurupari, explicitamente comparado a Viracocha por Brotherston, é filho de Ceucy,
personagem de ascendência ofídica.
...
Concluímos a parte deste trabalho dedicada à Amaru andina tratando da
etnografia de Urton em Misminay. Fizemo-lo pois tal pesquisa tanto aponta para a
continuidade entre a cosmologia dessa comunidade andina contemporânea e a dos Incas,
quanto evidencia equivalências entre estas e cosmologias amazônicas – atando assim as
pontas do nosso próprio trabalho.
Mach’acuay, a constelação serpente composta por nuvens negras – que figura no
eixo central da Via Láctea, denominada Mayu (Rio) –, está vinculada à sazonalidade e
sua época de aparição marca o período das chuvas. Há uma relação entre Mach’acuay e
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a serpente arco-íris Amaru (esta obviamente também só surge na estação chuvosa, pois
desponta no céu ao fim de uma precipitação). O movimento que Mach’acuay realiza é
semelhante ao das serpentes arco-íris e terrestres – saem da terra e entram novamente,
sempre com a cabeça precedendo o deslocamento. O período de aparição de
Mach’acuay também coincide com o de atividades mais intensas das serpentes
terrestres.
Além disso, a relação entre Mach’acuay e Amaru é a que se estabelece entre
répteis negros e multicoloridos. Urton menciona então que essa relação está igualmente
presente na Amazônia, como aponta o estudo de Tastevin acerca de Boyusu – cobra
arco-íris de dia, mancha negra de Via Láctea à noite. Esta equação é a que induz Lévi-
Strauss a elaborar uma outra que lhe é simétrica – e que serviu de guia para a nossa
empreitada –, a saber, a que compara as Plêiades a um fragmento de Via Láctea perdido
no céu escuro.
Foi sobretudo esse insight de Lévi-Strauss que nos mostrou ser possível
comparar as duas Amaru – uma vez que a Amaru baniwa é equivalente a Ceucy, mãe do
herói Jurupari e constelação das Plêiades. À medida que nos aprofundávamos na
mitologia baniwa, percebíamos o quanto a formulação de Lévi-Strauss encontrava eco
no que diziam os mitos e as exegeses. De fato, Amaru, correlata de Ceucy, cumpria
funções que se equiparavam às da cobra arco-íris inca.
Empreendemos, então, a estratégia de apresentar os mitos baniwa relativos a
Amaru, apontar seus elementos que dialogavam intimamente com as proposições de
Lévi-Strauss, inserir esses mitos no corpus maior do qual fazem parte – através da
apresentação da versão de Stradelli do mito de Jurupari e do estudo de Hugh-Jones
sobre a cosmologia barasana –, para assim demonstrar ser possível estabelecer conexões
entre a mitologia baniwa e a inca.
Relembremos os aspectos da Amaru baniwa, relevantes para o nosso trabalho,
ainda não recapitulados nesta conclusão. Amaru, para Nhiaperikoli, é hermeticamente
fechada, ao passo que frente a Umawali ela se apresenta completamente aberta – se
relaciona sexualmente com a serpente, seu sangue corre ininterruptamente e quando
Umawali se torna seu filho, ele entra e sai de seu ventre a todo momento. Tais
elementos se conectam com os dos mitos que Lévi-Strauss recupera sobre a relação
entre mulheres e cobras, em que as primeiras são excessivamente abertas, e com os de
inspiração marsupial, em que os filhos agem no ventre da mãe como se já tivessem
nascido. Vale, ao abordar esse tema do contraste entre o fechamento hermético diante
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Acerca desse tema, conferir também Lévi-Strauss, 2004b, pp. 419-446.
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ações semelhantes às de Kuwai. Além disso, Sucuri He, dependendo da versão, é pai ou
filho de uma ave, o Tucano. O personagem Sucuri Mandioca é filho do Sol, irmão de
uma ave, a Arara. Num embate, um se transforma no outro. Sucuri Mandioca, sua
mulher e seu irmão Arara se transformam nas flautas He. E é do corpo do primeiro que
é feita a cabaça de cera de abelha. Há também o personagem Yeba, filho do Sol – ou de
Sucuri Mandioca –, criado numa cabaça de cera de abelha e iniciado por Romi Kumu.
Obteve uma Mulher Peixe e sucuri como esposa. Era Yawira. Esta era também filha de
Sucuri Peixe. Sabia a dança das flautas He. Casou também com o Sariguê. A morte
deste coincidiu com o início da chuva. Yawira ainda casou com o Chefe Urubu, depois
voltou com Yeba, morreu sufocada no mel e virou mãe de He.
Outro fato que esses mitos revelam é a própria caracterização de Jurupari
enquanto ser ofídico. Com a versão de Stradelli, demonstramos que os antepassados
desse herói possuem tal natureza. Já ao tratar do mito baniwa, apontamos que é
sobretudo Kuwai quem transmite a função ofídica a Amaru. Os mitos barasana, por sua
vez, apresentam o próprio Jurupari como criatura serpentina – Hugh-Jones equipara este
herói a Sucuri Venenosa, a Sucuri He e a Sucuri Mandioca.
Podemos perceber, dessa forma, que há uma flutuação da atribuição dada aos
personagens. Uma leitura apressada, por exemplo, veria a cabaça de cera como símbolo
exclusivamente feminino – ela é associada à vagina. Já a serpente – associada ao pênis –
seria um símbolo exclusivamente masculino. Os mitos borram essas concepções
taxativas. Romi Kumu, dona da cabaça (que também é associada à Plêiades), criou o
Povo He sem intervenção masculina. A própria cabaça, repitamos, é feita a partir da
cabeça de uma serpente, Sucuri Mandioca. O Povo He é representado pelos
instrumentos He, identificados com as sucuris ancestrais masculinas. No entanto, uma
vez que representam esse povo, criado por Romi Kumu, os instrumentos têm portanto
acepções femininas. Lembremos ainda que Yawira, personagem feminina equivalente a
Romi Kumu, é ela própria uma sucuri.
Somos remetidos, assim, de volta a Amaru, personagem feminina, que concebe
Kuwai e, como demonstramos, exerce nos mitos o papel de uma serpente.
...
Ao tratarmos da Amaru andina, nos referimos a uma essência animada do
mundo, o sami, que se manifesta fisicamente na água e na luz. Estes dois elementos são
responsáveis pela distribuição dessa essência pelo cosmos. O arco-íris, por conter
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Versão online:
https://www.researchgate.net/publication/249109495_Mysteries_of_the_Jaguar_Shama
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