Capitulo 1
O lugar dos índios na história:
dos bastidores ao palco
Wo tempo dos bastidores
nossa
Como os índios têm sido vistos tradicionalmente em
história? Desde a História do Brasil de Francisco Adolfo Var-
nhagen [1854] até um momento bastante avançado do século
XX, os índios, grosso modo, vinham desempen hando papéis
ses
muito secundários, agindo sempre em função dos interes
alheios. Pareciam estar Ho Brasil à disposição dos europeus,
que se serviam deles conforme seus interesses. Teriam sido
úteis para determinadas atividades « inúteis para outras, alia-
05
dos ou inimigos, bons ou maus, sempre de acordo com
objetivos dos colonizadores. Além disso, em geral, aparec iam
na história como índios apenas no momento do confronto,
0% ini-
isto é, quando pegavam em armas € Jutavam contra
migos. Assim, os tamoios, os aimorés, os goitacazes e tantos
ram
outros eram vistos como indios guerreiros, que resisti
à conquista de suas terras. Foram, no entanto,
bravamente
na
derrotados e passaram a lazer parte da ordem colonial,
qual não havia brecha nenhuma para a ação. Tornavam-se,
da Brasil
Ds indios na história 15
1a F&v de Bolso
então, vítimas indefesas dessa ordem. Na condição de escra- teórica, hoje bastante questionada, tinha ampla aceitação
vos ou submetidos, aculturavam-se, deixavam de ser indios & pum tempo em que historiadores É antropólogos andavam
desapareciam de nossa história, afastados v scus campos de estudo eram nitidamente distin-
Essas ideias. até muito recentemente, cembasavam o de- tos. Culturas, identidades étnicas, relações culturais e vários
outros temas relacionados ao cotidiano de homens comuns c
saparecimento dos indios, em diversas regiões do Brasil, já
nos primeiros séculos da colonização, Desapareciam, porém, de povos não ocidentais eram assunto de antropólogos €, em
deve-se ressaltar, apenas da história escrita. Fstudos recentes geral, estudados num plano sincrônico, isto é, sem levar em
têm demonstrado que, do século XVI ao XIX, os índios inse- conta processos de mudança. É
ridos no mundo colonial, em diferentes regiões da América A cultura dos chamados “povos primitivos” , vista como
portuguesa, continuavam muito presentes nos sertões, nas pura e imutável, era objeto de investigação dos antropólogos
vilas, nas cidades e nas aldeias. Inúmeros documentos pro- “preocupados em compreendé-la em suas características ori-
duzidos pelos mais diversos atores sociais cvidenciam essa ginais e autênticas. Processos históricos de mudança por eles
presença, vividos não eram valorizados por pesquisadores interessados
Como se explica terem desaparecido da história do Brasil? em desvendar a lógica c o funcionamento da cultura entendi-
: ey
Em grande parte, parece-me, devido à ideia acima apontada da de forma essencialista, isto é, como fixa, estável e imutável.
predominante, por muito tempo, entre antropólogos e histo- “Além disso, os chamados povos primitivos eram considerados
riadores. Trata-se da ideia segundo a qual os indios integra- isolados e sem história. Moviam-se com-base em suas tradi-
À
dos à colonização iniciavam um processo de aculturação, isto ções c mitos considerados também a-históricos. Essas ideias,
é. de mudanças culturais progressivas que os conduziam à com exceções é nuances que não serão aqui abordadas, pre-
assimilação & consequentemente a perda da identidade Ermi- dormimaram entre 28 principais correntes do pensamento an-
ca, Assim, as relações de contato com sociedades envolventes tropológico, ao longo do século XX, e orientaram importantes
e os vários processos de mudança cultural vivenciados pelos e excelentes trabalhos sobre os povos indígenas da América c
grupos indígenas eram considerados simples relações de do- suas culturas, porém não numa perspectiva histórica.
minação impostas aos índios de tal forma que não lhes restava Embora algumas vozes já alertassem, em meados do século
nenhuma margem de manobra, a dão ser a submissão passiva XX, para a importância de se considerar a trajetória históri-
a um processo de mudanças culturais que us levaria a serem ca dos povos para o melhor entendimento de suas culturas,
predominou, entre os antropólogos, a concepção de que os
assimilados « confundidos com a massa da população.
Nessa perspectiva assimilacionista predominante, por lon- processos históricos portadores de mudança não eram im-
go tempo, no pensamento antropológico, us índios integrados portantes para a compreensão de seus objetos de estudo. Ao
à colonização tornavam-se indivíduos aculturados e passivos contrário, eram vistes como propulsores de perdas culturais
que, junto com a guerra, perdiam culturas, identidades ét- sucessivas que levavam à extinção dos povos estudados. Af
nicas e todas as possibilidades de resistência. Tal concepção nal, sc a cultura era vista como algo fixo e estável, relações de
16 FGV de Bolso 7
5 indios na história do Brasil
contato, principalmente com povos de tecnologia superior, como bravos inimigos dos portugueses que lutaram ardorosa-
só poderiam desencadear processos de aculturação que con- mente, mas que, uma vez vencidos, tornaram-se aculturados,
duziriam necessariamente a perdas culturais e à extinção ét- submissos e escravizados. fo perderem a cultura “autêntica”,
nica, Às relações de contato cram, então, grosso modo, vistas passaram a fazer parte de um outro sistema, no qual cram der-
como relações de dominação /sulimissão, na qual uma cultura cotados e não tinham possibilidades de escolha, Foram bravos,
se impunha sobre a outra, anulando-a. Nessa perspectiva, os mas perderam e “...o seu heroísmo « a sua coragem não mo-
indios integrados à colonização, seja como escravos ou como vimentaram a ia, perdendo-se irremediavelmente com a
história,
aliados, eram vistos como submissos e aculturados, não cons- destruição do mundo em que viviam” (Fernandes, 1976:72),
tituindo, pois, categoria social merecedora de maiores inves- como destacou o autor, Sem desmerecer o importante trabalho
tigações. de Fernandes, responsável em desvelar, ainda que com limi-
A partir dessa perspectiva, as interpretações sobre as tes, à lógica de funcionamento da sociedade tupinambá, cabe
relações de contato eram pensadas com hase em dualismos reconhecer que sua abordagemre reforçava a concepção de Var.
simplistas que estabeleciam rigidas oposições entre índio nhagen segundo a qual para os “povos na infância não há '
aculturado e índio puro; aculturação e resistência cultural história: há só etnografia” (Varnhagen, s/d:d2, v. 1).
[entendida esta última como negação dos novos valores cul- Essa frase de Varnhagen evidencia claramente o papel re
turais impostos); estrutura cultural (fixa, imutável e orien- servado aos indios também pelos historiadores, Ainda que
tadora do comportamento dos povos primitivos) e processos distantes dos antropó ólogos quanto às temáticas analisadas e às
históricos (responsáveis por introduzir mudanças « conduzir formas de abordá- las, mungavam com eles quanto às ideias
à exlinção desses mesmos povos). Esses dualismos foram, em assimilaciomistas a ei dos índios. Para eles, os índios
grande parte, responsáveis por abordagens redutivistas que também eram indi primitivos, espécivs de fósseis vivos da
conduziram a visões equivocadas sobre a atuação dos índios humanidade, portadores de culturas autênticas e puras que
nos processos históricos, deviam ser estudados por A rafos, antes que desapare-
A percepção de que os indios em contato com sociedades cessem. o lostícuto H soro
ist co cugr: áfico Brasileiro (1IHGB),
envolventes caminhavam inevitavelmente para a assimilação fundado em 1838 c 1a intenção. de criar uma história do
predominou até quase os nossos dias, mesmo entre os mais de- «Brasil que unificassse Ei
a PR 3 do novo estada em torno de
dicados defensores das causas « dos direitos indígenas. Entre uma memória histá afcomum e-herçuica, iria reservar aos ih-
esses, vale cilar Florestan Fernandes. O autor procurou des- dios um lugar muit sheet a passado.) Nessa história, os in-
mistificar algumas visões equivocadas da historiografia quanto dios apareciam naEEora do contranto, como inimigas a serem
ao comportamento passivo dos indios face à colonização, Enta- combatidos ou como heróis que-auxiliavam os portugueses.
Lizou a resistência indigena, buscando entendê-la a partir das Os indios vivos e prés sentes no território nacional, no século
caracteristicas da organização social dos tupis, desconstruindo XIX, não cram incluídos. Para eles, dirigiam-se as politicas de
a ideia do baixo nivel civilizatório dos índios. Apresentou-os assimilação que, desde meados do século XVII, tinham o ob-
o
18 FGV de Bolso
Os índios na história do Brasil Lã
Jetivo de integrá-los acabando com as distinções entre eles e
os não índios, primeiro na condição de súditos do Rei, depois e multiplicam-se, como demonstram os últimos censos. Tor.
como cidadãos da Império. nam-se cada vez mais presentes na arena política brasileira,
ao mesmo tempo em que despertam o interesse dos historia-
Essas [ormas de compreensão sobre os índios iriam se
manter até muito avançado o século XX e eram respaldadas e dores e lentamente começam a ocupar lugar mais destacado
incentivadas pelas políticas indigenistas. À política assimila” no palco da história. À que se deve esse movimento? O cha- |
) mado processo de aculturação continua em curso e, deve-se
cionista para os indiós, iniciada com as reformas pombalinas
convir, cada vez mais intenso nesses tempos de globalização.
em meados do século XVIII, teve continuidade no Império!
brasileiro e também na República, Ainda que diferentes Je | Porém ao invés de levar à extinção das diferenças étnicas,
gislações garantissem as terras coletivas e alguns outros cui- parece que tem contribuido para reforçã-las.
O recente episódio envolvendo os conflitos e o julgamento
dados especiais para os índios enquanto eles não fossem con-
sobre as terras da Rescrva Raposa Serra do Sol, em Roraima,
siderados civilizados, a proposta de promover a integração
c extingui-los como grupos diferenciados iria se manter até é significativo a este respeito. Em dezembro de 2008, cinco
a Constituição de 1088,
povos indígenas (macuxi, wapixana, ingaricó, patamona e
Essa foi 4 primeira lei do Brasil que
taurepang). há 30 anos em disputa pela demarcação de suas
garantiu aos indios o direito à diferença, marcando uma vira-
da significativa na legislação brasileira. A nova lei, em gran- terras nessa reserva, tiveram seus direitos defendidos pela
de parte influenciada pelos movimentos sociais é indigenas advogada indígena Joênia Batista de Carvalho. Índia wapi-
Xana, Joênia foi a primeira indígena a defender uma causa
do século XX, veio, na verdade, a sancionar uma situação
de ho Supremo Tribunal Federal. Acontecimento histórico, nas
fato: os indios, nos anos 1980, contrariando as previsões aca-
dêmicas, davam sinais claros de que não iriam desaparecer. palavras da própria Joênia, que nos convida a relletir sobre
a história dos índios em nosso país. Sem entrar no mérito da
Até os anos 1970 do século XX, no entanto, a perspecti-
questão, cabe assinalar a atuação de Joênia que, formada em
va pessimista do inevitável desaparecimento dos índios pre-
dominava entre os intelectuais brasileiros, incluindo os mais direito, atuou como defensora de seu próprio grupo. Partici-
dedicados defensores de seus direitos. Ainda que denuncian- Pou do ritual do julgamento com a roga que a função exige &
do violências e lutando por legislações favoráveis aos Com o rosto pintado conforme as tradições de seu povo, Com
índios, coragem c determinação, defendeu os direitos dos índios, que
intelectuais, indigenistas e missionários buscavam, grosso
mudo, apenas retardar um processo visto por eles como irre- acabaram ganhando a causa.
versivel, Os índios, não resta dúvida, iriam desapa Alguém duvida que ela seja india? Com certeza, sim. En-
recer. eis Becas argumentos contrários à demarcação continua daquelas
Conquistando um lugar no palco... terras, inclui-se o argumento de que muitos dos grupos ali
WE envolvidos há muitordeixaram de ser índios, Percebe-se, pois,
Surpreendentemente, as previsões não se cumpriram.
Os que as disputas políticas por esses direitos envolvem disputas
povos indígenas não desapareceram. Ao invés disso, cresce
m sobre suas classificações étnicas. Ser ou não scr indio implica
at FGV de Bolso Os indios na histária do Brasil al
ganhar ou perder direitos e isso não acontece apenas em nos- A noção de cultura no sentido antropológico, incluindo
sos dias. Desde meados do século XVIII, disputas políticas em todos os produtos materiais, espirituais e comportamentais
torno de classificações étnicas para assegurar ou não direitos da vida humana, bem como as dimensões simbólicas da vida
indígenas concedidos pela legislação já vcorriam.
social têm sido amplamente adotadas pelos historiadores.
For ora, para o argumento em questão, importa reconhe-
Em suas análises, valorizam os diferentes significados das
cer que os movimentos indigenas da atualidade evidenciam
ações humanas para entender os processos históricos, Os
que falar português, participar de discussões politicas, rel-
vindicar direitos através do sistema judiciário, enfim, parti- antropólogos, por sua vez, valorizam os processos históricos
cipar intensamente da socicdade dos brancos e aprender seus de mudança como elementos explicativos e transformadores
mecanismos de funcionamento não significa deixar de ser in- das culturas dos povos por cles estudados, na medida em
dio e sim a possibilidade de agir, sobreviver e defender seus que abandonam a antiga ideia de cultura fixa e imutável.
direitos. São os próprios índios de hoje que não nos permitem Reconhecem que as trajetórias históricas vividas pelos po-
mais pensar em distinções rigidas entre indios aculturados é vos são importantes para uma compreensão mais ampla de
indios puros, suas culturas,
Cabe agui retomar a questão sobre as mudanças nos ins- 'abe destacar à contribuição fundamental do historiador
trumentos de análise dos antropólogos e historiadores e reco- E. PR Thompsom que enfatizou a importância-de se considerar
nhecer que, em grande parte, essas mudanças foram e con- a historicidade da cultura. De acordo com ele, a cultura É um
Linuam sendo influenciadas pelos movimentos indigenas da “produto histórico, dinâmico e flexível que deve ser apreendi-
atualidade. Afinal, se os índios deveriam desaparecer, con- do como um processo no qual homens e mulheres vivem suas
forme as teorias do século XIX c de hoa parte do XX, mas, ao
experiências. O antropólogo Sidney Mintz, comungando tais
invés disso, crescem é multiplicam-se, é hora de repensar us
percepções, destacou a importância de se perceber que um
instrumentos de análise, É o que tem sido feito, nas últimas
décadas, por historiadores e antropólogos que cada vez mais sistema cultural apresenta variabilidade no que se refere às
intenções, consequências e significados dos atos escolhidos
se aproximam c reformulam alguns conceitos « teorias funda-
mentais para pensar sobre as relações entre os povos,
pelos individuos. Pessoas situadas em posições socialmente
Nessa aproximação, vs antropólogos passam a interessar- diferentes podem até agir da mesma forma, mas essas ações
se pelos processos de mudança social, percebendo que seus muito provavelmente não terão para elas o mesmo sentido,
objetos de estudo não são imutáveis e estáticos, e os histo- nem tampo dy Mesmas consequências. Os homens agem [+
riadores passam a valorizar comportamentos, crenças c coti- 50 relacionam, conforme seus lugares sociais € seus objetivos.
dianos dos homens comuns, tradicionalmente considerados Dai a importância de se estabelecer o entrosamento dinâmico
irrelevantes, bem como a intercssar-se por estudos de povos entre sociedade é cultura. As estruturas culturais orientam o
não ocidentais que tiveram importância fundamental em nos- comportamento dedos homens, mas não podem ser vistas como
sa história, tais como os índios e os NCgros. malhas de ferro que não lhes possibilitem agir fora delas.
22 FGv de Bolso Os indios na história do Brasil 2"
Dessa forma, processos históricos É estruturas, cultt ais in- mais a apropriação do que a transtr issão. No caso da história
fluenciam-se mutuamente e ambos são importantes pama uma indipgena, trata-se de deslocar 0 foco da análise dos coloniza-
compreensão mais ampla sobre os homens, suas culturas, his- dores para os índios, procurando i identificar suas formas de
vérias e sociedades, compreensão e seus próprios alojar ivos mas várias situações
Apartir dessas novas concepções teóricas, antropólogos e de contato por eles vividas.
historiadores têm analisado situações de contato, repensando Essa tem sido a tendência dos tr abalhos das últimas déca-
e ampliando alguns conceitos básicos sobre o tema. A compre- das, através dos quais podemos pererceber que as atitudes dos
ensão da cultura como produto histórico, dinâmico e flexível, índios em relação aos colonizadore s não se reduziram, abso-
formado pela articulação continua entre tradições e novas ex- lutamente, à resistência armada, à f uga e à submissão passiva,
periências dos homens que a vivenciam, permite pecrccber a Houve diversas formas do que 5 e Stern chamou de resis-
mudança cultural não apenas enquanto perda ou esvaziamento tência adaptativa, através das quai s os índios encontravam
de uma cultura dita autêntica, mas em termos do seu dinamis- formas de sobreviver e garantir melhores condições de vida
mo, Mesmo em situações de contato extremamente violentas na nova situação em que se encont avam, Colaboraram com
como foi o caso dos índios e dos colonizadores. OS curópeus, integraram-se à colon ização, aprenderam novas
Nesse sentido, o conceito de Eca também se altera práticas culturais e políticas c soube “ram utilizá-las para a ob-
unto com
tenção das possíveis vantagens que a nova condição permítia.
Ferderam muito, não resta dúvida mas nem por isso deixa-
ela. Desde os anos TOPO, esse conceito vem TER roblema-
pro
cam de agir.
tizado e visto como processo de mão dupla, no qual todos se
A ideia de que os grupos indiger nas e suas culturas, longe
transformam, Em nossos dias, as ideias de apropriação e res-
de estarem congelados, transforma mam-se através da dinâmi-
significação cultural têm sido mais utilizadas e realmente são
ca de suas relações sociais, es pc cessos históricos que não
mais adequadas ao estudo de situações nas quais se leva em
necessariamente os conduzem 20 desaparecimento, permite
conta os interesses c motivações dos próprios índios nos pro-
repensar à Lrajetória histórica de números povos que, por
cessos de mudança. Ao invés de vitimas passivas de imposi-
muito tempo foram considerados1 isiurados e extintos. Não
ções culturais que só lhes trazem prejuízos,
os ifídios passam é o caso de desconsiderar a violên a do processo de conquis-
a ser vistos como agentes ativos desses processos. Incorporam ta e colonização. A mortalidade foi a ltissima, inúmeras etnias
elementos da cultura ocidental, dando a eles significados pró- foram extintas v os grupos e individ uos que se integraram a
prios é utilizando-os para a obtenção de possiveis ganhos nas colônia ocuparam os estratos social “ mais inferiores, sofrendo
novas situações em que vivem. preconceitos, discriminações & prejl vizos incalculáveis. Ape
Q conceito de tradição também tem sido repensado, pre- Sar disso, no entanto, ENE ontraram possibilidades de sobrevi-
valecéndo, hoje, o pressuposto de que ela sempre se modifica vência e souberam aproveitá-las.
ao ser transmitida. Tudo que 5e transmite é ERR comn- Como lembrou Jonathan Hill, os grupos sociais huma-
forme a maneira do recehedor, o que implica em valorizar Dos, mesmo reduzidos à escravi ão C às piores condições,
Os índios na história do Brasil 25
za FGv de Balso
são capazes de reconstituir significados, culturas, histórias e suas identidades. Os inúmeros e diferenciados grupos étnicos
classi-
identidades. Os índios integrados misturaram-se muito, não que habitavam a América tornaram-sê todos índios na
resta dúvida, entre 5i, e com outros grupos étnicos e sociais. ficação dos europeus. Identidade genérica e imposta, porém
era muitos casos assumida pelos indios coma condição que
Porém, muitos chegaram ao século KIX ainda afirmando a
lhes garantia alguns direitos jurídicos. Estudos realizados em
identidade indigena e reivindicando direitos que a legisla-
diferentes regiões têm revelado as inúmeras possibilidades de
são lhes concedia. l
reconstrução identitária por
sobre isso, cabe ainda uma breve reflexão sobre o concei- que os movimentos indígenas da
Do exposto, percebe-se
to de identidade étnica, também repensado a partir dessas
atualidade somados aos novos pressupostos teóricos da his-
novas perspectivas histórico-antropológicas. Tal como a cul- tória c da antropologia conduzem ao abandono de antigas
tura, a identidade já não é vista como fixa, única € imutável. concepções que contribuiram para excluir os indios de nos-
Ao contrário, é entendida também como construção histórica «sa história. Os dualismos entre índio aculturado/índio puro,
de caráter plural, dinâmico e flexivel, Com base nos trabalhos tradição /aculturação, estruturas culturais/processos históri-
de Max Weber e, mais recentemente, de Frederick Barth, os cos vão sendo superados, o que permite um outro olhar so-
estudos atuais sobre cinicidade já não comsideram à cuttu- bre populações indígenas inseridas nas sociedades coloniais
ra como elemento definidor de grupo étnico. Ao invés dis- & pós-coloniais.
so, priorizam suas dimensões políticas e históricas. Nos anos
1920, Weber já alertava para O papel da ação política comum E lguem diria?) a ação dos índios também move a história...
como elemento de formação e manutenção do sentimento de A partir dessas novas abordagens interdisciplinares,
comunhão étnica. Barth, no final dos anos 1960, bastante in- fe
alguns pontos pacificos da história do Brasil têm sido des-
fluenciado pelas ideias do primeiro, enfatizava que as distin- montados « dado lugar a interpretações nas quais os índios
ções étnicas não dependem da ausência de interação social, surgem como agentes dos processos de mudança por eles
nem tampouco são destruídas por processos de mudança & vividos. Fontes históricas, algumas já bastante trabalhadas,
aculturação. O autor valorizava também a ação política. o quando lidas de outra forma revelam realidades distintas das
caráter organizacional é 0 sentimento sutjetivo de perventi- tradicionalmente apresentadas.
mento ao grupo como fatores essenciais Nos procCaSos de sua De início, convém ressaltar que as relações de contato
formação. Entendem-se, hoje, as identidades como constru- estabelecidas na América entre europeus e grupos indige-
cões fluidas e cambiáveis que se constroem por meio de com- nas não devem ser vistas simplesmente como relações entre
plexos processos de apropriações e ressignificações culturais
brancos e índios. Essa abordagem generaliza e simplifica uma
nas experiências entre grupos e indivíduos que interagem. questão que é extremamente complexa. Afinal. os grupos in-
digenas no Brasil eram muitos e com culturas e organizações
Assim, se os povos indígenas foram capazes de reclaborar,
Sociais diversas, que os levavam a comportar-se de diferentes
em situações de contato, suas culturas, fizeram à mesmo com
]
E FGV de Bolso Os indios na história co Brasil E
formas em relação aos estrangeiros. Os índios não estavam na ram as trajetórias históricas c as relações dos diversos grupos
América à disposição dos curopeus, c se muitos os receberam e indivíduos indigenas em diferentes regiões e temporalida-
de forma extremamente aberta e cordial, olerecendo-lhes ali- des. A partir desses estudos regionais, no entanto, algumas
mentos, presentes e, inclusive, mulheres, não o fizeram por generalizações são possiveis c até necessárias, principalmente
ingenuidade ou tolice. A abertura ao contato com o outro é num livro de sintese como este.
!': uma característica cultural de muitos grupos indígenas ame- Outras contribuições teóricas importantes para o estudo
ricanos e especialmente dos tupis. Outros grupos, no entanto, sobre os índios e suas relações partem das revisões historio-
tinham características culturais distintas e alguns [oram bas gráficas no âmbito da história política e da história econômica
ante arredios « hostis aos estrangeiros, como os almorés, os da América e do Brasil, Desde a década de 1970, as interpre
muras, 05 guaicurus é muitos outros. tações históricas que partiam das metrópoles para explicar a
Por outro lado, os europeus também não devem ser vistos formação e o desenvolvimento das colônias vêm sendo ques-
como um bloco homogêneo, Colonos, missionários, bandvei tionadas. Às pesquisas atuais priorizam os aspectos internos
rantes, autoridades metropolitanas e coloniais tinham inte- das socicdades americanas para a compreensão de suas histú-
resses diversos na colônia e não se relacionavam com os in- rias. Enfatizam a importância de se levar em conta os agen-
dios da mesma forma. Cabe ainda lembrar que a colônia era tes, as instituições c as dinâmicas locais sem desconsiderar
um mundo em construção, no qual todos se influenciavam as necessárias articulações com as metrópoles. Nesse sentido,
utuamente e se transformavam. Nos primórdios da colo- estudos regionais de caráter político e econômico têm se mul-
nização, ocorridos em épocas variadas conforme as regiões, tiplicado e evidenciado as inúmeras e necessárias adaptações
os portugueses cram extremamente dependentes dos índios, de normas, leis e projetos metropolitanos nas colônias, con-
ue souberam perceber e usar isso a seu favor, como têm re- forme as peculiaridades locais.
velado vários estudos. Entre essas peculiaridades, incluem-se, cada vez mais,
Além disso, não se pode esquecer à continua transforma- as ações dos povos indigenas que deram limites « possibili-
cão da experiência do contato. Os interesses e objetivos dos dades aos projetos coloniais desenvolvidos na América. Um
vários atores sociais que interagiam na colônia, incluindo os excelente exemplo a respeito disso são as capitanias heredi-
índios, modilicavam-se com a dinâmica da colonização e das tárias do Brasil. Criadas em 1534, a maioria delas fracassou,
relações entre eles. Assim, do século XVI ao XIX, os compor- em grande parte, pelos ataques de grupos indígenas. As duas
lamentos e ações dos atores sociais eram impulsionados por Capitanias que mais prosperaram, São Vicente e Pernambuco,
motivações que se alteravam e podiam ter significações di- foram aquelas cujos donatários puderam contar com o apoio
versas, conforme tempos e regiões. Deduz-se dai que é pra- inestimável de lideranças indígenas com as quais estabele-
ticamente impossivel falar de uma história indigena geral do ceram estreitos laços de aliança. O projeto de catequese da
Brasil. Nas últimas décadas, estudos especificos têm se desen- Companhia de Jesus constitui outro exemplo interessante, na
volvido e revelado a amplitude de situações que caracteriza- medida em que passou por inúmeros ajustes na Província do
2h FGV de Bolso
ou
Brasil para fazer frente às dificuldades locais, como ressalt
dades foram,
Charlotte de Castelnau-L'Estoile. Essas dificul
Capítulo 2
em grande parte, impostas pelos próprios indios.
Do ponto de vista da história política, cabe ainda destacar
nar a ideia Os indios pa América portuguesa
44 atuais tendências teóricas que visam a questio
À percep
de oposição rigida entre dominadores e dominados.
control e total
ção segundo a qual os primeiros esecceriam um
ação já não
sobre os últimos anulando suas possibilidades de
colonial ,
ca custenta. No caso dos índios submetidos à ordem
lidades
os documentos têm revelado que eles tiveram possibi
grande
de agir e freram isso. Sua ação [undamentava-se. em
questão importan-
parte, na própria lei. Isso OS remete a outra
a.
ue que tem sido valorizada na historiografia contemporâne
como resul-
Trata-se de repensar o papel das legislações, vistas
, ncgpcia ções e conlron tos entre os Agentes Tupis e tapuias em tempos de mudança
tantes de acordos O
interessados e suas respectivas capacidades de Lazer valer
seus Não cabe aqui abordar a controvertida questão sobre
de Brasil na momen to da che-
interesses. As leis não foram inventadas maquiavelicamente número de índios habitantes
apenas para dominar € oprimir, pois ainda que legitimassem gada dos portugueses. As estimativas, de acordo com John
as relações desiguais, clas sempre permitiram mediações. Em Monteiro, podem variar entre 2 e 4 milhúes de habitantes.
udo
outras palavras, as leis sempre deixaram brechas para as rei- Importa. no entanto, admitir que eram muitos, sobret
05 da popula ção portug uesa calcul ada
vindicações dos menos favorecidos, e [ui nessas brechas que se comparados à reduzi
a
ao XIX. em cerca de 1.500.000 habita ntes no século XVI. Import
índios incorporados à colônia agiram, do século XVI te di-
dos com base nessas novas abor- também assinalar que era uma popula ção extre mamen
Os docume ntos analisa
dagens apresentam índios que mesmo “açulturados” v “do- versificada, com estimativas, segundo Aryon Rodrigues, de
Em 1994, se-
minados”, não deixaram de apir, não deixaram de ser índios mais de 1.000 etnias no tempo da conquista.
, não to Socioa mbient al (ISA), havia
e. embora por longo tempo ausentes da historiografia gundo dados do Cedi/lustitu
esses dados
270.000 indios e 20h etúias. No censo de 2001,
sairam da nossa história.
mento an-
subiram para 701 mil indios, evidenciando o cresci
nos
teriocmente apontado. Às incertezas desses números não
impedem de constatar o impacto violento da conquista da
colonização sobre os índios, que resultou em mortalidade al-
tissima e extinção de centenas de etnias.