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“ A desautorização no contexto clínico
psicanalítico com pacientes difíceis
Émily Laiane Aguilar Albuquerque
UEM
10.37885/210203407
RESUMO
O objetivo deste estudo teórico foi uma tentativa de compreender como a relação entre
analista e analisando em casos de pacientes difíceis podem contribuir para a ocorrência
ou a permanência de um trauma psíquico. Partindo dos pressupostos psicanalíticos
de Sándor Ferenczi foram utilizados textos ferenczianos e de outros psicanalistas que
contribuíram para o aprofundamento e para a lapidação das análises realizadas. Assim,
algumas considerações finais foram compreendidas acerca da noção de trauma psíquico
para Ferenczi. Uma delas foi a necessidade de ampliar as teorizações e práticas psicana-
líticas que utilizam como base teórica e recurso apenas a técnica clássica freudiana para
todos os pacientes, sem levar em consideração as diferenças e os rearranjos conforme
os sintomas e as vivências reais dos pacientes, desautorizando-os em seus sofrimentos.
Palavras-chave: Psicanálise, Trauma, Sándor Ferenczi, Desautorização, Pacientes Difíceis.
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INTRODUÇÃO
Ao pensarmos na fundamentação teórica que Ferenczi (1873-1933) escreveu ao longo
de sua trajetória de estudos, compreendemos que sua teoria nos conduz a um embasamento
acerca do contexto clínico, mais especificamente, em relação aos pacientes não-neuróticos.
Talvez, pelo fato de Ferenczi ter tido a oportunidade de atender diversos tipos de pacientes
que rompiam com o modelo de clínica tradicional e elitizado na qual Freud estava acostu-
mado a atender seus pacientes histéricos e neuróticos.
Podemos compreender que Ferenczi nos leva a pensar nos casos clínicos de narcisis-
mo, melancolia e de paranoia, isto é, pacientes fronteiriços, limítrofes em que Freud afirmou
não serem muito tratáveis por meio da terapia estabelecida para o tratamento das neuroses
de transferência, e que puderam ser compreendidos a partir das teorizações ferenczianas.
Os pacientes que Freud afirmou não serem tratáveis por meio da transferência, no
método psicanalítico clássico, vêm sendo muito frequentes na clínica contemporânea e são
denominados por autores psicanalíticos mais atuais, como pacientes limítrofes ou borderline.
Segundo Nasio (1995), diferentemente de Freud, Ferenczi se encontrava envolvido com
as demandas da realidade social, pois seu trabalho como médico assistente permitia que
estivesse bem perto de pacientes em vulnerabilidade social. Porquanto, Ferenczi trabalhou
em asilos nos quais atendeu homossexuais, prostitutas, casos limítrofes (então conside-
rados difíceis) que não se encaixavam no método utilizado na época para tratar pacientes
neuróticos (BARANDE, 1972).
Além disso, segundo Dean-Gomes (2019), Ferenczi foi médico do exército austro-
húngaro na Primeira Guerra Mundial e, depois, trabalhou com pacientes acometidos de
neuroses de guerra em um hospital em Budapeste. Essas experiências, somadas a várias
situações de impasses na clínica psicanalítica e intuições sobre a educação e constituição
do psiquismo infantil, levaram Ferenczi a se interessar pelo problema do trauma, percor-
rendo a questão do trauma dos campos de batalha até o contexto doméstico. Assim, foi
revendo algumas questões da técnica e procurando trabalhar de forma a acolher situações
de traumatismo precoce.
A autora Judith Dupont, em seu artigo de 1988, intitulado La “locura” de
Ferenczi:, coloca que:
As habilidades terapêuticas de Ferenczi e sua considerável experiência clí-
nica eram muito bem conhecidas. Colegas de todo o mundo o consultavam
sobre casos considerados críticos. Essencialmente, eram casos que hoje em
dia seriam diagnosticados como limítrofes ou psicóticos; estes são pacientes
que muitas vezes não se pode colocar no divã. Eles vão passear na sala de
consulta ou adotar posições diferentes na frente do analista (DUPONT, 1988,
p. 03, tradução da autora).
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Sendo assim, devido a uma demanda clínica diferenciada dos casos de neurose que
eram mais comuns na clínica tradicional, Ferenczi se preocupou em buscar uma estrutu-
ração teórica que estava mais atrelada a noção de trauma e desautorização, ou seja, que
levava em consideração não somente a realidade fantasiosa, interna dos pacientes mas
os acontecimentos do mundo real, contribuindo, assim para um desenvolvimento de uma
clínica diferenciada, que compreendeu como a noção de desautorização também pode ser,
infelizmente, estabelecida no vínculo terapêutico entre analista e analisando.
Para compreendermos a noção de desautorização desenvolvida no decorrer da obra
de Ferenczi, é preciso, antes, nos debruçarmos sobre o pilar da construção ferencziana,
isto é, a noção de trauma. Isso porque o conceito de desautorização está imerso no desen-
volvimento da traumatogênese ferencziana.
Sobre a noção de trauma elaborado por Ferenczi no percurso de suas obras,
Kuppermann (2015) afirma que o traumático aconteceria no período infantil podendo advir
de uma confusão entre a linguagem de adultos e crianças. Pois, as relações de afeto entre a
criança e o adulto são compreendidas de formas diferentes, segundo Ferenczi (1933/1992),
para a criança, o afeto é nutrido sob forma de brincadeira, de fantasias lúdicas em relação
ao adulto, essa sedução caracterizaria a linguagem da ternura. O adulto, caso tiver predis-
posição psicopatológica, não reconheceria a linguagem infantil, e poderia confundir a relação
lúdica entre ele e a criança com a relação sexual de dois adultos, respondendo sob a forma
de linguagem da paixão, e não sob a forma da linguagem infantil, a de ternura.
Conforme descreve Ferenczi (1933) em relação à criança, a linguagem estaria sendo
desenvolvida sob forma de brincadeira e a sedução caracterizaria a linguagem da ternura,
cuja organização sexual e psíquica estaria anterior à sexualidade adulta, isto é, não apresen-
tando fins genitais. Entretanto, os adultos não reconhecem a linguagem infantil, respondendo
sob forma de linguagem diferente da de ternura, sob a linguagem da paixão:
O jogo pode assumir uma forma erótica [para a criança] mas conserva-se,
porém, sempre no nível da ternura. Não é o que se passa com os adultos se
tiverem tendências psicopatológicas, sobretudo se seu equilíbrio ou autodo-
mínio foram perturbados por qualquer infortúnio, pelo uso de estupefacientes
ou de substâncias tóxicas. (FERENCZI, 1992/1932, p. 102)
Nesse sentido, Ferenczi (1933) afirma que quando a criança possui uma experiência
real e incompreensível para sua capacidade subjetiva, ocorre o processo de negação. Já,
para o adulto, essa negação incompreensível, é chamada de desautorização. O trauma,
assim, constituiria na vivência real e violenta (que podem ser vivenciadas pela criança); e na
negação dessa experiência (passível de ser vivenciada pelo adulto, devido a incompreensão
entre a linguagem diferenciada do adulto e a da criança). Após passar pela experiência de
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agressividade, a criança ao contar para um adulto cuidador e este não a escutar ou não
acreditar na verdade da criança acabaria por caracterizar a vivência traumática. Nessa úl-
tima parte do trauma, a criança sofreria a clivagem narcísica, em que a atividade psíquica
ficaria suspensa, estado em que as resistências e as percepções se encontram suspensas,
incapazes de serem elaboradas.
Assim como aconteceria a desautorização entre os adultos e a criança, Ferenczi (1933)
faz um paralelo entre o analista e o paciente. Ambos por estarem num contexto de imaginário
social hierárquico onde o analista ocuparia o lugar de quem detém o conhecimento ao de-
sautorizar alguma vivência ou sofrimento psíquico do paciente, negando-o ou não dando a
devida atenção para que haja um processo de elaboração da angustia experenciada poderia
estar repetindo uma cena traumática infantil ou provocando um trauma ao não escutar e dar
espaço para possíveis elaborações.
DESENVOLVIMENTO
Segundo Figueiredo (2018), os pacientes limítrofes, que não se enquadravam nas
neuroses de transferência sofreram de algum tipo de abandono e falhas no cuidado durante
a infância, gerando traumas precoces. Nesse contexto, o trabalho transferencial na clínica
necessita de uma postura diferente do tradicional viabilizados em pacientes neuróticos. Pois
os sintomas seriam diferentes nos processos psicopatológicos derivados de traumas preco-
ces, exigindo uma postura diferenciada do analista, bem como o manejo clínico se tornaria
mais amplo, flexível como veremos no decorrer deste capítulo.
Assim, na clínica contemporânea, esses pacientes são muito comuns, sendo com-
preendidos como pacientes-limites, que seriam considerados pacientes difíceis, exatamente
devido à dificuldade de enquadramento clínico, não estando no campo das neuroses, mas
também não sendo considerados psicóticos, estando no limite, na borda das estruturas
psíquicas formuladas por Freud.
De acordo com Figueiredo (2018), os pacientes-limites requerem uma psicoterapia
de análise diferenciada, em que o modo de análise psicanalítica tradicional necessita de
modulações, embora ainda mantenha os principais preceitos da abordagem psicanalítica.
Pois, uma das preocupações de Ferenczi era a de construir suas teorizações tomando como
base os textos freudianos e de outros autores psicanalíticos a fim de ampliar seus preceitos
no campo da psicanálise, como fez com seu estudo teórico sobre a noção de trauma e suas
implicações para o desenvolvimento do ego na infância e na vida adulta.
Ferenczi considerava um caso difícil, conforme Kahtuni e Sanches (2009), quando os
recursos psicanalíticos da época não davam conta de compreender o paciente que não se
enquadrava nas técnicas e teorias propostas por Freud. Os pacientes então eram chamados
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de difíceis devido as dificuldades encontradas pelos analistas durante os atendimentos.
Que acabavam sendo um desafio para Ferenczi, conduzindo-o a se esforçar para encontrar
meios de atender esses pacientes que até então eram inanalisáveis. Atualmente, os pa-
cientes que na época eram considerados traumatizados e difíceis foram organizados como
personalidades borderline.
Os casos difíceis passaram a ser conhecidos como borderline a partir de 1945 com
Otto Fenichel, o qual assinalou a existência como um tipo de sofrimento psíquico que antes
fazia parte “do vocabulário anglo-saxão próprio da corrente da Psicologia do self e, em certos
aspectos, do movimento pós-kleiniano da década de 1960” (KATHTUNI; SANCHES, 2009,
p. 277). Tal conceito foi ampliado com os trabalhos publicados de Kohut e de Kernberg que
nominou como ‘organizações limite’ a fim de representar uma configuração de personalidade
que seja diagnosticada segundo uma diversidade de sinais e sintomas. Isto é, organizações
psíquicas fronteiriças que apresentam funcionamento neurótico coexistindo com áreas cujo
funcionamento também é psicótico.
Assim, de acordo com Green (2018), os casos-limite situam-se em um território onde
as fronteiras não estão definidas, são vagas. Portanto, devemos considerar o limite como
uma fronteira movediça, flutuante, tanto com relação a normalidade quanto com relação a
patologia. Dessa forma, apesar das variações semânticas ao longo dos anos, neste estu-
do optamos em utilizar o termo pacientes difíceis tomando como base a terminologia que
Ferenczi utilizou em seus textos para descrever os pacientes traumatizados, que se distan-
ciavam da neurose clássica e que hoje são denominados como borderline.
Destarte, para compreendermos os pacientes considerados difíceis é necessário reto-
marmos a noção de trauma. Porquanto, foi a partir dos estudos com os pacientes trauma-
tizados que Ferenczi ampliou suas teorizações psicanalíticas, abrindo o caminho para que
outros psicanalistas pudessem pensar e atender a clínica de pacientes com diferentes tipos
de sofrimento psíquico. Pois, segundo Kathuni e Sanches (2009), a concepção de Ferenczi
acerca do trauma criou a necessidade de uma grande mudança no setting analítico. Em que
a clínica psicanalítica com a qual Freud tratava seus pacientes precisou ser adaptada aos
pacientes que tinham diferentes tipos de organizações psíquicas, como os borderline, psi-
cóticos, psicossomáticos etc.
Nesse sentido, é possível pensar que a noção de desautorização e seus desdobramen-
tos no psiquismo está relacionada com a compreensão dos diferentes tipos de adoecimento
encontrado nos casos considerados difíceis. Visto que para Ferenczi (1933) o paciente que
sofreu uma violência externa, ao relatar sua vivência angustiante para uma outra pessoa,
e ela a desautoriza, isto é, nega ou ignora o que lhe aconteceu acaba tendo como conse-
quência o sofrimento de angústia. De tal modo, que a vítima não consegue simbolizar sua
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vivência, dar outros significados, resultando em inúmeros sintomas, tais como: sentimento
de incapacidade, de autodestruição e de culpa; desorientação psíquica; medo da loucura
(chegando a repensar se o que vivenciou foi realmente verdade); mania de perseguição,
dentre outros sintomas.
Apesar da inscrição dos pacientes borderline nos DSMs, Shiozaki (2016) salienta que
é necessário repensar toda a atribuição generalista da gravidade com que esses pacientes
difíceis foram catalogados pelos DSMs. Visto que, há uma grande variedade de pacientes
borderline em que alguns estão desadaptados socialmente, mas que muitos conseguem
relativamente se inserir e se adaptar de alguma forma. Assim, é importante considerar que
tais pacientes fazem parte do meio social e cultura que caracteriza a subjetividade contem-
porânea, que devido a indústria farmacológica tende a medicalizar ou enquadrar em um tipo
de transtorno qualquer sofrimento humano.
Destarte, o objetivo aqui não é cessar as teorizações acerca dos pacientes difíceis, mas
compreender a partir de um olhar ferencziano ampliado, que compreende o adoecimento
psíquico inter-relacionado com o meio cultural que vivenciamos na atualidade, bem como
suas implicações para a clínica psicanalítica contemporânea.
Nesse contexto, as consequências da angústia traumática descritas no período em
que se encontrava Ferenczi foram denominadas por André Green como patologias do va-
zio. Sendo, muito frequentes nos pacientes ferenczianos, que carregavam “áreas de seus
psiquismos silenciadas e agonizantes, buracos negros internos” (FIGUEIREDO, 2018, p.
189). Tais sintomas podem ser consequências do que Ferenczi (1933) descreveu acerca da
desautorização, em que haveria algumas possibilidades de o traumatismo reverberar pelo
psiquismo. Uma delas seria por meio da cisão do eu, no qual as memórias infantis trauma-
tizantes são cristalizadas e dissociadas no aparelho psíquico.
Podemos pensar, assim, que as cisões e progressões do trauma no psiquismo são
resultados de desautorizações. Ou seja, é devido a relação com o objeto externo que os
pacientes difíceis são levados a desestruturação do eu, ao vazio depressivo e a ausência de
imagens constitutivas de si mesmo. Para Pinheiro (1995), no trauma ferencziano a clivagem
egoica mantem o objeto desautorizante (a pessoa que desacredita, silencia) internalizada
no próprio eu, mantendo-a aprisionada pela vivência traumática, provocando defesas que
visam apagar sua história. Assim, o trauma é afastado das trocas psíquicas do próprio eu,
a pessoa que sofre a desautorização apaga uma parte de si mesma, sendo assassina e
vítima ao mesmo tempo.
Nesse contexto, pensar nos processos psíquicos que ocorrem na desautorização e
que levam aos sintomas dos pacientes difíceis, podem nos conduzir a refletir que há uma
auto desautorização, na medida em que o próprio eu se sabota. Pois, para ressignificar as
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vivências traumáticas infantis, é necessário a ajuda de um outro e quando este apoio é falho
“o trauma age unicamente as custas do ego” (PINHEIRO, p. 82, 1995), que sem recursos
submerge em seu próprio sofrimento. Esse agravamento da defesa se relaciona com o
aumento na quantidade de cisões, de modo que quanto maior o choque psíquico, maior as
cisões que o eu precisará fazer para se defender das lembranças psíquicas traumáticas.
Com a fragmentação do eu, apesar da pessoa não ter acesso as partes faltantes para
integrá-las, estas ainda residem no psiquismo, trazendo um vazio, uma angústia desprovi-
da de sentido. Segundo Ferenczi (1930), com o choque a psique apressa-se em reunir os
diversos fragmentos em uma única unidade para retomar o controle do psiquismo. Mas, a
consciência acaba não tendo o menor conhecimento acerca dos conteúdos e eventos que
sobrevieram após o traumatismo. O que nos conduz a pensar nos pacientes difíceis, pois,
conforme Figueiredo e Coelho Junior (2018), os adoecimentos devido a traumatismos con-
duziram os pacientes a uma extinção do aparelho de pensar, gerando as patologias do vazio.
Quando a vivência dolorosa é desautorizada pelo outro, seja um adulto cuidador, os
pais, ou outra pessoa de confiança, Ferenczi (1933) escreve que ocorre a solidão traumática,
isto é, o ser que fica só precisa ajudar a si mesmo, para isso, fissura o próprio psiquismo,
clivando-o. Assim, a desautorização e a não-integração egoica das vivências e emoções
traumáticas podem provocar um vazio depressivo, típico da patologia esquizoide.
Segundo Shiozaki (2016), o paciente borderline estaria entre uma problemática esqui-
zoide e outra narcísica, por apresentar dificuldades em construir e sustentar uma imagem
integrada e estável de si mesmo, bem como dos objetos externos. Além de apresentar
problemas em constituir as fronteiras externas e internas do eu devido a impedimentos pro-
venientes de objetos externos, por exemplo, pela figura materna ou outra figura que pode
de forma ativa impedir o processo de constituição do psiquismo.
Outra maneira de preencher o vazio depressivo da patologia esquizoide seria por meio
do uso de psicotrópicos. Sendo esse tipo de recurso muito frequente entre os pacientes
borderlines: “o uso de drogas, anestesiantes e excitantes, que não precisam, necessaria-
mente ser químicos (pois, alguns se excitam ou relaxam com ideias, ações e fantasias)
(SHIOZAKI, 2016, p. 156)”.
Uma outra saída encontrada pelos pacientes difíceis para se defender da angústia pro-
veniente do trauma seria por meio da progressão traumática. Conforme Figueiredo (2018),
a parte do psiquismo que se desenvolve de maneira autossuficiente e onipotente, responde
também ao traumatismo pela via do sofrimento esquizoide. Como podemos conferir em um
dos casos clínicos que Ferenczi apresentou em seu Diário clínico (1932):
[...] completamente desprovida de emoção, no sentido de uma performance
de pura adaptação, através da identificação com os objetos de terror. A pa-
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ciente torna-se terrivelmente inteligente. [...] O trauma reduzira-a a um esta-
do emocionalmente embrionário, mas, ao mesmo tempo, ela tinha adquirido
uma sabedoria intelectual como a de um filósofo compreensivo, inteiramente
objetivo e sem emoção. O que é novo em todo esse processo é que ao lado
da fuga diante da realidade no sentido regressivo, há também uma fuga no
sentido progressivo, um desenvolvimento súbito de inteligência. (p. 250-251,
grifo da autora)
O caso acima exemplifica o fenômeno da progressão traumática nos casos de pacientes
considerados difíceis. Assim, a progressão traumática aconteceria juntamente com o senti-
mento de apatia, em que as emoções sentidas acabam sendo intelectualizadas. O paciente
difícil ao tentar superar seu sofrimento em que foi desautorizado, por um lado desenvolve
uma sabedoria muito avançada, mas, por outro lado, não consegue vivenciar suas emoções.
É possível pensarmos que tamanha sabedoria advém da necessidade em superar
a angústia decorrente do trauma. Para Pinheiro (1995) esse recurso seria uma forma de
proteção e de cuidado para que não venha sofrer uma outra vivência traumática, devendo
então ser racional e mantenedora de um equilíbrio psíquico para que a pessoa, longe das
emoções, retorne as suas atividades cotidianas.
Além disso, Pinheiro (1995) salienta que o trabalho clínico com os pacientes difíceis,
traumatizados levaram a teorização de que somente o corpo guardou a lembrança do trau-
ma. A voz se calou quando foi desautorizada, aparecendo por meio de expressões do corpo
que fala, somatiza, sendo o portador de uma voz silenciada. “As lacunas da memória do
paciente traumatizado vibram em algum lugar do corpo sem encontrar, contudo, uma tradu-
ção possível em sua fala” (p. 99).
Essa passagem da autora e de outros autores citados acima nos permitem pensar que
o trauma propriamente dito, segundo os avanços feitos nesse campo por Ferenczi, reverbera
por inúmeros mecanismos de defesa no aparelho psíquico. Sendo que, a ausência de uma
escuta verdadeira e apropriada pode conduzir a um reforço da desautorização, levando os
pacientes difíceis ao silenciamento ou ao ‘apagamento’ de sua vivência angustiante. Ou seja,
o trauma não sendo traduzido, se expressa por meio das patologias do vazio, somatizações,
apatia, abusos de substâncias psicotrópicas, dentre outros sintomas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com essa pesquisa percebeu-se que a teoria nos ajuda, e muito, na ampliação da téc-
nica psicanalítica, assim como numa maior compreensão dos casos clínicos considerados
difíceis. Visto que, tanto o analisando quanto o analista possuem limites, como coloca Candi
(2010) dizendo que há um movimento dialético entre as forças que organizam o campo e
os limites de sua ação de um lado e as forças que constantemente desafiam esses limites,
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de outro. De modo a entender que “se existe evolução na teoria e na prática psicanalíticas,
é porque essas duas coexistem exercendo pressões opostas e complementares, capazes
de se organizarem em uma articulação interna” (CANDI, p. 12, 2010).
Assim, compreender a noção de desautorização com os pacientes limítrofes é saber
se colocar para muito além de uma atuação clássica, interpretativa, de neurose de trans-
ferência. Muito pelo contrário, é compreender que a clínica está aberta para o processo de
escuta, de integração e de diálogo. De maneira a colocar de lado o modo interpretativo na
tentativa de uma presença empática, sensível que permite tanto o analista quanto o ana-
lisando abrir-se para as fronteiras do diferente, do indizível. É vivenciar a experiência de
análise sentindo com o paciente.
Ferenczi em sua teorização acerca da técnica psicanalítica demonstra, portanto, uma
ênfase no papel do outro para que a relação terapêutica possa avançar. Outro este que
suscitaria em uma compreensão do que há de mais infantil no paciente. De modo que,
caberia ao analista por meio de uma relação transferencial, “entre os extremos caricaturais
representados pelas figuras de um pai severo ou de uma mãe bondosa, dispor da intuição
necessária para lidar de forma adequada com cada paciente” (HONDA, 2018, p. 77). Nesse
sentido, é possível pensarmos que a figura do analista para Ferenczi, teria o papel diferen-
ciado, conforme cada analisando, estabelecendo um vínculo que possibilitasse uma relação
terapêutica satisfatória.
Além disso, Ferenczi (1930) reitera que a relação verticalizada entre o analista e o ana-
lisando, pode se assemelhar a uma relação de professor e aluno. O autor relata um exemplo
de que começou a perceber que seus pacientes não se sentiam confortáveis o suficiente
para demonstraram ou falarem que estavam descontentes. Assim, não havia abertura e
liberdade no processo analítico para os pacientes irem contra o dogmatismo e pedantismo
da relação entre analista e analisando.
AGRADECIMENTOS
Agradeço ao Programa de Pós-graduação de Psicologia da Universidade Estadual de
Maringá – UEM e à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CAPES
pelo incentivo financeiro que possibilitou o desenvolvimento desta pesquisa e ao meu orien-
tador Helio Honda, pelo cuidado e paciência que sempre teve comigo e com esta pesquisa,
além das sugestões sempre muito pertinentes que possibilitaram maiores discussões e ricos
aprofundamentos teóricos.
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