0% acharam este documento útil (0 voto)
36 visualizações12 páginas

Acrdo N2 - Obrigaes

Enviado por

makitrabalhos
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
36 visualizações12 páginas

Acrdo N2 - Obrigaes

Enviado por

makitrabalhos
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

RECURSO ESPECIAL Nº 1.423.

315 - PR (2013/0222661-0)

RELATOR : MINISTRO MARCO AURÉLIO BELLIZZE


RECORRENTE : AGROPECUÁRIA PONTE DE PEDRA S/C LTDA
ADVOGADO : VICENTE DE PAULA MARQUES FILHO E OUTRO(S) - PR019901
RECORRIDO : BANCO DO BRASIL SA
ADVOGADOS : CARLOS JOSE MARCIERI E OUTRO(S) - SP094556
ÂNGELO AURÉLIO GONÇALVES PARIZ E OUTRO(S) - DF023980
EMENTA

RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE REVISÃO DE CONTRATO BANCÁRIO C.C. PEDIDO DE


INDENIZAÇÃO E REPETIÇÃO DE INDÉBITO. NEGATIVA DE PRESTAÇÃO JURISDICIONAL.
NÃO OCORRÊNCIA. QUESTÕES DEVIDAMENTE ANALISADAS PELO TRIBUNAL DE
ORIGEM. ASSUNÇÃO DE DÍVIDA FIRMADA COM TERCEIRO. EXONERAÇÃO DO DEVEDOR
PRIMITIVO DO VÍNCULO OBRIGACIONAL. ILEGITIMIDADE ATIVA PARA DISCUTIR AS
CLÁUSULAS DO CONTRATO, DO QUAL NÃO FAZ PARTE. EXTINÇÃO DO PROCESSO SEM
RESOLUÇÃO DE MÉRITO. ACÓRDÃO RECORRIDO MANTIDO NA ÍNTEGRA. RECURSO
DESPROVIDO.
1. O Tribunal de origem analisou expressamente a questão acerca da ilegitimidade ativa da
autora, ora recorrente, tanto que reformou a sentença para extinguir o feito, sem resolução
de mérito, nos termos do art. 267, inciso VI, do CPC/1973, não havendo que se falar em
negativa de prestação jurisdicional.
2. Se a responsabilidade pelo pagamento da dívida foi integralmente transferida a terceiros,
ainda que, para tanto, a devedora primitiva tenha entregado imóveis de sua propriedade por
valores supostamente abaixo do valor de mercado, não se revela possível o ajuizamento de
ação buscando a revisão do contrato com pedido de indenização e repetição de indébito,
considerando que a recorrente não compõe mais o polo passivo da relação obrigacional.
3. A recorrente deveria previamente tentar anular a assunção de dívida feita com os terceiros
assuntores, pela qual transferiu parte de seus imóveis em troca da sua liberação do vínculo
obrigacional, a fim de retornar à condição de devedora da obrigação junto à instituição
financeira, e, a partir daí, discutir eventuais nulidades das cláusulas contratuais, o que não
ocorreu na hipótese, razão pela qual deve o acórdão recorrido, que reconheceu a
ilegitimidade ativa ad causam da recorrente, ser mantido na íntegra.
4. Recurso especial desprovido.
ACÓRDÃO

Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam
os Ministros da Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça, por unanimidade, negar
provimento ao recurso especial, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator.
Os Srs. Ministros Moura Ribeiro, Nancy Andrighi e Ricardo Villas Bôas Cueva
(Presidente) votaram com o Sr. Ministro Relator.
Ausente, justificadamente, o Sr. Ministro Paulo de Tarso Sanseverino.
Brasília, 21 de setembro de 2021 (data do julgamento).

MINISTRO MARCO AURÉLIO BELLIZZE, Relator

Documento: 2098214 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 24/09/2021 Página 1 de 4
RECURSO ESPECIAL Nº 1.423.315 - PR (2013/0222661-0)

RELATÓRIO

O SENHOR MINISTRO MARCO AURÉLIO BELLIZZE:

Trata-se de recurso especial interposto por Agropecuária Ponte de Pedra


S/C Ltda. contra acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Paraná, assim ementado:

PROCESSUAL CIVIL. RECURSO. APELAÇÃO. CONTRATOS


BANCÁRIOS. AÇÃO DE REVISÃO DE CONTRATO C.C. REPETIÇÃO
DE INDÉBITO. ESCRITURA PÚBLICA DE CONFISSÃO E ASSUNÇÃO
DE DÍVIDAS COM GARANTIA HIPOTECÁRIA. ASSUNÇÃO DE DÍVIDA
POR TERCEIRO. SUBSTITUIÇÃO DO DEVEDOR. ILEGITIMIDADE
ATIVA. CONFIGURAÇÃO. CARÊNCIA DE AÇÃO. EXTINÇÃO DO
PROCESSO SEM RESOLUÇÃO DE MÉRITO. EXEGESE DO ART.
267,INC. VI, DO CPC. PRINCÍPIO DA SUCUMBÊNCIA. SENTENÇA.
REFORMA. INVERSÃO DA VERBA ARBITRADA.
1. Ilegitimidade ativa. Não é parte legítima para promover ação
revisional de contratos, renegociados em confissão de dívida, aquele
que cedeu integralmente seus direitos, passando a terceiros a
responsabilidade pelo débito, em contrato de assunção de dívidas.
2. Princípio da sucumbência. Em matéria afeta ao princípio da
sucumbência, deve-se sopesar tanto o aspecto quantitativo, quanto o
jurídico da pretensão em debate.
Recurso de apelação provido.

Os embargos opostos ao referido acórdão foram rejeitados.

Nas razões recursais, a recorrente sustenta que o referido decisum violou o


art. 535, inciso II, do Código de Processo Civil de 1973, pois o Tribunal de origem, a
despeito de ter sido instado a se manifestar em relação à sua legitimidade ativa sob o
enfoque dos dispositivos legais apontados, permaneceu silente, em flagrante negativa de
prestação jurisdicional.

Afirma, ainda, que houve violação dos arts. 299 e 302 do Código Civil, ao
argumento de que "o devedor primitivo não perde o direito de reclamar contra o Banco
Recorrido os danos que sofreu na vigência do negócio jurídico, porque a assunção não foi
gratuita, ou seja, o Recorrente transferiu o domínio e posse dos imóveis como condição
para que o Assuntor assumisse a obrigação de pagar ao Banco Recorrido. Deste modo, o

Documento: 2098214 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 24/09/2021 Página 2 de 4
Assuntor (novo devedor) assume o negócio jurídico a partir de então, de modo que
somente poderá discutir a dívida e eventuais vícios 'a partir' da celebração do pacto que
implicou na assunção de divida, enquanto que ao antigo devedor (Recorrente) se
reconhece legitimidade até o momento em que ele se desvencilhou do vínculo obrigacional
por força da assunção" (e-STJ, fl. 724).

Por fim, aduz que, "diante da manifesta legitimidade da Recorrente em exigir


a restituição dos valores que lhes foram cobrados indevidamente, o v. acórdão violou as
disposições do art. 267, VI, do Código de Processo Civil, ao retirar da Recorrente a
legitimidade de pleitear reparação de dano material que sofreu em virtude de cobrança
indevida perpetrada pelo Recorrido" (e-STJ, fl. 727).

Busca, assim, o provimento do recurso especial para que seja reconhecida


a legitimidade ativa da Recorrente, determinando-se o retorno dos autos ao Tribunal de
Justiça do Paraná para analisar o mérito do recurso de apelação, ou, caso assim não se
entenda, seja reconhecida a omissão do acórdão recorrido, a fim de que a questão acerca
da legitimidade seja efetivamente examinada na origem.

É o relatório.

Documento: 2098214 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 24/09/2021 Página 3 de 4
RECURSO ESPECIAL Nº 1.423.315 - PR (2013/0222661-0)

VOTO

O SENHOR MINISTRO MARCO AURÉLIO BELLIZZE (RELATOR):

1) Delimitação fática

Colhe-se dos autos que a Agropecuária Ponte de Pedra S/C Ltda., ora
recorrente, ajuizou ação de revisão de contrato c.c. indenização e repetição de indébito em
desfavor do Banco do Brasil S/A.

Na inicial, a autora narrou que, em novembro de 1988, assinou uma


"escritura pública de confissão de divida" em favor do réu, que consolidou numa só
conta-gráfica diversas operações de crédito rural, inclusive dívidas de terceiros. No
instrumento foi fixado o reajuste da dívida pela "maior taxa média anual de captação de
depósito a prazo fixo, divulgada pela ANBID". Também foram fixadas a capitalização
mensal e sobretaxa de 0,60%. A partir de junho 1989, o réu passou a recusar a renovação
de linhas de crédito à autora.

Enquanto isso, a dívida da confissão subia exponencialmente. Sem recursos


para regularizar os débitos pendentes, os sócios da autora renegociaram a dívida junto ao
Banco do Brasil, firmando uma "escritura pública de confissão e assunção de dívidas com
garantia hipotecária", em 15/10/1992, ocasião em que foi realizada a assunção de dívida
da autora pelo terceiro assuntor André Maggi e sua esposa Lúcia Borges Maggi.

Afirmou que, na cláusula 11ª da assunção, os imóveis hipotecados, todos de


propriedade da autora, foram avaliados em Cr$ 29.844.780.000,00 (29 bilhões), sendo os
mesmos vendidos a André Maggi por apenas 19 bilhões, em troca apenas da assunção da
dívida. Somente nesta diferença, ou seja, entre o valor confessado da dívida e o valor do
patrimônio "vendido" a Maggi, a autora perdeu 5 (cinco) milhões de reais, sem computar os
juros do período.

Em razão de tais fatos, pugnou para que: a) sejam declaradas nulas as

Documento: 2098214 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 24/09/2021 Página 4 de 4
cláusulas de confissão de dívida no tocante à taxa ANBID, capitalização mensal de juros e
à assunção de dívida de terceiros, porque praticada em contrariedade ao contrato social
(ultra vires); b) seja declarada nula a aplicação do IPC de março/90 ao débito confessado,
substituindo-o pelo BTNF; c) seja o réu condenado a indenizar a diferença entre o valor do
débito - depois de substituídos os encargos ilegais pelos definidos em juízo - e o valor do
patrimônio, expresso na escritura pública de confissão e assunção de dívida, tudo com
juros e correção monetária; e d) seja o réu condenado a restituir os valores cobrados
indevidamente e que geraram a perda do patrimônio da empresa, que devem ser
corrigidos com a aplicação dos mesmos índices e juros praticados pelo réu.

O Juízo de primeiro grau julgou procedentes os pedidos formulados na ação.

Em apelação do Banco do Brasil S/A, o Tribunal de Justiça do Paraná


acolheu o argumento de ilegitimidade ativa da autora, julgando extinto o feito, sem
resolução de mérito, nos termos da seguinte ementa:

PROCESSUAL CIVIL. RECURSO. APELAÇÃO. CONTRATOS


BANCÁRIOS. AÇÃO DE REVISÃO DE CONTRATO C.C. REPETIÇÃO
DE INDÉBITO. ESCRITURA PÚBLICA DE CONFISSÃO E ASSUNÇÃO
DE DÍVIDAS COM GARANTIA HIPOTECÁRIA. ASSUNÇÃO DE DÍVIDA
POR TERCEIRO. SUBSTITUIÇÃO DO DEVEDOR. ILEGITIMIDADE
ATIVA. CONFIGURAÇÃO. CARÊNCIA DE AÇÃO. EXTINÇÃO DO
PROCESSO SEM RESOLUÇÃO DE MÉRITO. EXEGESE DO ART.
267,INC. VI, DO CPC. PRINCÍPIO DA SUCUMBÊNCIA. SENTENÇA.
REFORMA. INVERSÃO DA VERBA ARBITRADA.
1. Ilegitimidade ativa. Não é parte legítima para promover ação
revisional de contratos, renegociados em confissão de dívida,
aquele que cedeu integralmente seus direitos, passando a
terceiros a responsabilidade pelo débito, em contrato de
assunção de dívidas.
2. Princípio da sucumbência. Em matéria afeta ao princípio da
sucumbência, deve-se sopesar tanto o aspecto quantitativo, quanto o
jurídico da pretensão em debate.
Recurso de apelação provido.

Daí o presente recurso especial, em que a recorrente, além de sustentar a


negativa de prestação jurisdicional, defende a sua legitimidade ativa ad causam, sobretudo
porque a assunção de dívida não foi gratuita, considerando a venda de imóveis de sua
propriedade para o terceiro assuntor.

Documento: 2098214 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 24/09/2021 Página 5 de 4
2. Da apontada violação ao art. 535, inciso II, do CPC/1973

A recorrente sustenta que "o v. acórdão recorrido foi omisso (...) em relação
à análise da legitimidade ativa da Recorrente que deriva das disposições dos artigos 299 e
302 do Código Civil, nos moldes em que fora exposto no presente recurso e nos embargos
de declaração opostos anteriormente para fins de prequestionamento", pois "a aplicação
dos referidos dispositivos no caso em apreço conduziria inexoravelmente na mudança dos
rumos do julgamento, em especial para reconhecer a manifesta legitimidade ativa da
Recorrente" (e-STJ, fl. 728).

Não obstante a alegada negativa de prestação jurisdicional, constata-se que,


na verdade, o Tribunal de origem analisou expressamente no acórdão recorrido a questão
da ilegitimidade ativa da recorrente, não havendo qualquer omissão no decisum.

Afasta-se, assim, a violação ao art. 535, inciso II, do Código de Processo


Civil de 1973.

3) Da ilegitimidade ativa da recorrente - arts. 299 e 302 do Código Civil


e 267, VI, do CPC/1973

A assunção de dívida consiste no negócio jurídico em que o devedor


originário é substituído por uma terceira pessoa, a qual assume a posição de devedora na
relação obrigacional, sem extinção do vínculo obrigacional primitivo.

A teor do art. 299 do Código Civil, para que o terceiro assuma a obrigação do
devedor, é preciso que haja o consentimento expresso do credor, ocasião em que haverá
a exoneração do devedor primitivo, salvo se o assuntor, ao tempo da assunção da dívida,
era insolvente e o credor ignorava esse fato.

Nas palavras de Nelson Nery Júnior e Rosa Maria de Andrade Nery:

2. Insolvência do assuntor. Quando se dá a assunção da dívida


pelo novo devedor, com a anuência do credor, opera-se a exoneração
do devedor primitivo e o credor fica impossibilitado de exercer seu
poder de excussão sobre o patrimônio dele; isto porque a exoneração
operada desfaz o vínculo primitivo de sujeição que ligava o devedor
antigo ao credor, impedindo-o de contra ele exercer o seu crédito.
Remanesce a mesma dívida, porém, para ser exigida do novo

Documento: 2098214 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 24/09/2021 Página 6 de 4
obrigado, o assuntor. Pode ocorrer, contudo, que a situação jurídica
do assuntor seja de insolvência civil, ou seja, pode se dar a hipótese
de o novo devedor não dispor de patrimônio suscetível de penhora em
quantidade suficiente para honrar a dívida assumida. Nesse caso, há
que ser identificada a real situação vivida pelas partes. O credor
poderá exigir o cumprimento da dívida do primitivo devedor, não o
exonerando, se, e somente se, o novo devedor já era insolvente no
momento da assunção da dívida e se o credor dessa fato (situação de
insolvência do novo devedor) dele não teve conhecimento.
(Código Civil comentado. 10 ed. São Paulo: Editora Revista dos
Tribunais, 2013, fl. 554)

Assim, conclui-se que a assunção de dívida, concretizada com a anuência


expressa do credor, acarreta a exoneração do devedor primitivo, o qual não poderá ser
demandado mais pelo credor, desde que o assuntor não seja insolvente ao tempo da
assunção.

Na hipótese, revela-se inequívoco nos autos que i) a assunção de dívida


ocorreu com a concordância expressa do credor - Banco do Brasil S/A; ii) o terceiro
assuntor (novo devedor) não era insolvente ao tempo da assunção; e iii) houve a
expressa exoneração da devedora primitiva, ora recorrente, da obrigação.

Outro ponto que chama a atenção, ainda, é o fato de que a recorrente se


exonerou do pagamento do débito em 15/10/1992, quando foi firmada a escritura pública
de assunção de dívida, e somente em 16/3/2007 - isto é, quase 15 (quinze) anos depois -
ajuizou a ação de revisão de contrato c.c. indenização e repetição de indébito contra o
Banco do Brasil, objetivando discutir as cláusulas do contrato.

Por essas razões, o Tribunal de origem reconheceu a ilegitimidade ativa ad


causam da recorrente para discutir eventuais nulidades das cláusulas contratuais,
consignando que "a responsabilidade da dívida foi transmitida integralmente aos terceiros
assuntores - André Maggi e sua esposa, operando-se a substituição do devedor originário
com a sua consequente exoneração e liberação da obrigação", logo, "em razão da
substituição do devedor, evidente a ausência de legitimidade ativa da empresa
Agropecuária Ponte de Pedra, ora apelada, para ingressar com a pretensão revisional,
pois todos os direitos e deveres oriundos do débito foram cedidos ao assuntor,
sem reservas ou obrigação solidária" (e-STJ, fls. 699-700).

Tal entendimento não merece qualquer reparo.

Documento: 2098214 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 24/09/2021 Página 7 de 4
Com efeito, se a responsabilidade pelo pagamento da dívida foi integralmente
transferida a terceiros, ainda que, para tanto, a devedora primitiva tenha entregado imóveis
de sua propriedade por valores supostamente abaixo do valor de mercado, não se revela
possível o ajuizamento de ação buscando a revisão do contrato com pedido de
indenização e repetição de indébito, considerando que a recorrente não compõe mais o
polo passivo da relação obrigacional.

A recorrente deveria previamente tentar anular a assunção de dívida feita


com André Maggi e sua esposa, pela qual transferiu parte de seus imóveis em troca da
sua liberação do vínculo obrigacional, a fim de retornar à condição de devedora da
obrigação junto ao Banco do Brasil S/A, e, a partir daí, discutir eventuais nulidades das
cláusulas contratuais.

Ocorre que, na ação subjacente, os terceiros assuntores não figuraram


como litisconsortes passivo necessário, sendo a demanda ajuizada apenas contra o
Banco do Brasil S/A, o qual nem sequer recebeu os imóveis que constaram na escritura
pública de assunção de dívida.

Nesse particular, vale destacar os precisos fundamentos consignados no


acórdão recorrido, in verbis (e-STJ, fls. 700-701):

11. Destaque-se ainda, que a autora carece de legitimidade para


pedir a revisão de contrato c.c. repetição de indébito, em razão da
assunção de sua dívida por terceiro - o Sr. André Maggi e sua esposa
Lúcia Borges Maggi, em 15/10/1992.

A autora deveria, mas não o fez, previamente perseguir


alcançar a nulidade da referida assunção de dívidas, pela qual
procedeu a transferência de seu patrimônio em troca da
quitação de suas dívidas.

Em razão do referido pedido de nulidade, constituir-se-ia o


litisconsorte passivo necessário de André Maggi e sua esposa,
que, obrigatoriamente, deveriam integrar a lide em face do
pedido de reconhecimento de vício de consentimento, pela
suposta transmissão de bens imóveis por valor inferior ao
negócio jurídico.

Com efeito, quanto a suposta ocorrência de lesão, em razão da


diferença do valor confessado e o valor expresso nas
escrituras de compra e venda dos imóveis, cabe à autora
promover ação contra quem figurou no contrato, ou seja, André
Antonio Maggi e Lucia Borges Maggi, e não em face do

Documento: 2098214 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 24/09/2021 Página 8 de 4
apelante.

Ora, a prevalecer o entendimento defendido pela recorrente acerca da sua


legitimidade ativa ad causam, ela seria duplamente beneficiada, pois, além de ter sido
liberada da totalidade do débito, em razão da assunção da dívida, não podendo mais ser
cobrada pelo credor, ainda assim receberia pelos encargos indevidos do contrato,
conforme equivocadamente entendeu o Juízo de primeiro grau, caracterizando verdadeiro
comportamento contraditório (venire contra factum proprium).

Vale destacar que a recorrente não tem razão ao afirmar que "o assuntor
(novo devedor) assume o negócio jurídico a partir de então, de modo que somente poderá
discutir a dívida e eventuais vícios 'a partir' da celebração do pacto que implicou na
assunção de divida, enquanto que ao antigo devedor (Recorrente) se reconhece
legitimidade até o momento em que ele se desvencilhou do vínculo obrigacional por força
da assunção", pois "houve extinção da obrigação antiga, de modo que a nova obrigação
somente pode ser discutida pelo novo devedor, ao passo que a antiga obrigação compete
ao antigo devedor, já que sofreu os danos inerentes ao negócio jurídico discutido e a
assunção não foi gratuita" (e-STJ, fls. 724-725).

É que não se pode confundir "assunção de dívida" com "novação subjetiva


passiva". Enquanto nesta há verdadeira substituição de uma dívida por outra, alterando-se,
inclusive, o devedor originário; naquela, não há extinção do vínculo obrigacional, mas tão
somente a alteração do sujeito no polo passivo (o terceiro assuntor assume o lugar do
devedor), permanecendo, assim, as mesmas características da obrigação outrora mantida
com o devedor primitivo.

Daí porque, na assunção de dívida, conquanto o novo devedor não possa


opor ao credor as exceções pessoais que competiam ao devedor primitivo, nos termos
do que determina expressamente o art. 302 do Código Civil, como, por exemplo, o direito
de compensação pertencente ao devedor primitivo em face do credor, dentre outros,
poderá perfeitamente alegar as defesas decorrentes da própria dívida assumida que não
sejam pessoais, dentre as quais se insere a eventual nulidade de cláusulas
contratuais.

Nesse sentido, é o entendimento preconizado pela doutrina:

Documento: 2098214 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 24/09/2021 Página 9 de 4
3.3 Exceções comuns e pessoais

Exceção, em sentido amplo, significa toda e qualquer alegação


formulada pelo sujeito, em defesa de seu direito na posição de réu no
curso do processo judicial. As exceções podem ser: a) comuns; b)
pessoais.

As exceções podem dizer respeito à dívida assumida ou podem


ser pessoais. Dizem respeito à dívida assumida as que se
referem à sua validade (nulidade ou anulabilidade). Estas
podem ser opostas pelo novo devedor ao credor, depois da
assunção de dívida, porque a assunção de dívida não tem o
poder de convalidar atos inválidos.

O art. 302 do Código Civil trata das exceções pessoais.


Efetivamente, estabelece que o novo devedor não poderá se
utilizar das exceções pessoais que o primitivo devedor
possuía em relação ao credor. Desse modo, não poderá arguir
compensação que o devedor originário possuía perante o
credor, ou remissão por ele obtida.

Contudo, poder-se-á utilizar exceções pessoais que ele (o novo


devedor) possua em face do credor. Assim, se era credor do credor
em outra relação jurídica, poderá exercer o direito de compensação se
atendidos os requisitos legais.

(OLIVEIRA, J. M. Leoni Lopes de. Direito Civil: obrigações. 2 ed. -


Rio de Janeiro: Forense, 2018, fl. 370 - sem grifo no original)

Em outras palavras, os novos devedores (assuntores) poderão discutir a


nulidade das cláusulas do contrato firmado pelo Banco do Brasil S/A com a devedora
primitiva, ora recorrente, pois tal questão não se trata de exceção pessoal, não tendo
incidência, assim, o disposto no art. 302 do Código Civil ("O novo devedor não pode opor
ao credor as exceções pessoais que competiam ao devedor primitivo").

Como já afirmado anteriormente, à recorrente caberia, primeiro, tentar anular


a assunção de dívida firmada com os terceiros assuntores, para que fosse restabelecida
ao polo passivo do contrato primitivo e, a partir daí, viabilizar a demanda revisional, o que,
todavia, não ocorreu.

Por fim, conforme consta do acórdão recorrido, considerando que o pedido


de nulidade da primeira escritura de confissão de dívida, firmada em 9/11/1988, estava
embasada em excesso de poderes do sócio gerente da autora/recorrente, "também
deveria obrigatoriamente integrar à lide, em litisconsórcio passivo necessário, o sócio que
Documento: 2098214 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 24/09/2021 Página 10 de 4
alega que teria praticado tais atos" (e-STJ, fl. 701), o que não se verificou.

Dessa forma, revela-se manifesta a ilegitimidade ativa ad causam da


recorrente para ajuizar a ação revisional subjacente, impondo-se, assim, a manutenção do
acórdão recorrido na íntegra.

Ante o exposto, nego provimento ao recurso especial.

É o voto.

Documento: 2098214 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 24/09/2021 Página 11 de 4
CERTIDÃO DE JULGAMENTO
TERCEIRA TURMA

Número Registro: 2013/0222661-0 PROCESSO ELETRÔNICO REsp 1.423.315 / PR

Números Origem: 00213703120078160014 07778856 0777885601 201100038564 213703120078160014


27307 7778856 777885601 777885602

PAUTA: 21/09/2021 JULGADO: 21/09/2021

Relator
Exmo. Sr. Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE
Presidente da Sessão
Exmo. Sr. Ministro RICARDO VILLAS BÔAS CUEVA
Subprocurador-Geral da República
Exmo. Sr. Dr. DURVAL TADEU GUIMARÃES
Secretária
Bela. MARIA AUXILIADORA RAMALHO DA ROCHA

AUTUAÇÃO
RECORRENTE : AGROPECUÁRIA PONTE DE PEDRA S/C LTDA
ADVOGADO : VICENTE DE PAULA MARQUES FILHO E OUTRO(S) - PR019901
RECORRIDO : BANCO DO BRASIL SA
ADVOGADOS : CARLOS JOSE MARCIERI E OUTRO(S) - SP094556
ÂNGELO AURÉLIO GONÇALVES PARIZ E OUTRO(S) - DF023980

ASSUNTO: DIREITO CIVIL - Obrigações - Espécies de Contratos - Crédito Rural

SUSTENTAÇÃO ORAL
Dr. VICENTE DE PAULA MARQUES FILHO, pela parte RECORRENTE: AGROPECUÁRIA
PONTE DE PEDRA S/C LTDA
Dr. MARCELO GLASHERSTER, pela parte RECORRIDA: BANCO DO BRASIL SA

CERTIDÃO
Certifico que a egrégia TERCEIRA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na
sessão realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:
A Terceira Turma, por unanimidade, negou provimento ao recurso especial, nos termos
do voto do(a) Sr(a). Ministro(a) Relator(a).
Os Srs. Ministros Moura Ribeiro, Nancy Andrighi e Ricardo Villas Bôas Cueva
(Presidente) votaram com o Sr. Ministro Relator. Ausente, justificadamente, o Sr. Ministro Paulo
de Tarso Sanseverino.

Documento: 2098214 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 24/09/2021 Página 12 de 4

Você também pode gostar