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11 - TESE Rafael Rust Neves

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CENTRO DE ARTES E COMUNICAÇÃO


PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DESENVOLVIMENTO URBANO

RAFAEL RUST NEVES

AUTOSSEGREGAÇÃO EM CIDADES MÉDIAS:


Configuração intraurbana e práticas espaciais dos moradores de residenciais
horizontais fechados, em Arapiraca-AL

Recife
2022
RAFAEL RUST NEVES

AUTOSSEGREGAÇÃO EM CIDADES MÉDIAS:


Configuração intraurbana e práticas espaciais dos moradores de residenciais
horizontais fechados, em Arapiraca-AL

Tese apresentada ao Programa de Pós-


Graduação em Desenvolvimento Urbano da
Universidade Federal de Pernambuco, como
requisito parcial para obtenção do título de
Doutor em Desenvolvimento Urbano. Área de
concentração: Desenvolvimento Urbano

Orientador: Prof. Dr. Ruskin Fernandes Marinho de Freitas.

Recife
2022
Catalogação na fonte
Bibliotecária Lílian Lima de Siqueira Melo – CRB-4/1425

N518a Neves, Rafael Rust


Autossegregação em cidades médias:configuração intraurbana e práticas
espaciais dos moradores de residenciais horizontais fechados, em Arapiraca-
AL / Rafael Rust Neves. – Recife, 2022.
397f.: il.

Sob a orientação de: Ruskin Fernandes Marinho de Freitas.


Tese (Doutorado) – Universidade Federal de Pernambuco. Centro de
Artes e Comunicação. Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento
Urbano, 2022.

Inclui referências e apêndices.

1. Desenvolvimento urbano. 2. Segregação urbana. 3. Práticas espaciais.


4. Planejamento urbano I. Freitas, Ruskin Fernandes Marinho de.
(Orientação). II. Título.

711.4 CDD (22. ed.) UFPE (CAC 2022-070)


.....................................................................
Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Urbano
Universidade Federal de Pernambuco

Rafael Rust Neves

“AUTOSSEGREGAÇÃO EM CIDADES MÉDIAS: Configuração intraurbana e práticas


espaciais dos moradores de residenciais horizontais fechados, em Arapiraca-AL”

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento


Urbano da Universidade Federal de Pernambuco, como requisito parcial
para obtenção do título de doutorado em Desenvolvimento Urbano.

Aprovada em: 23/02/2022.

Banca Examinadora

Participação via Videoconferência


Prof. Ruskin Fernandes Marinho de Freitas (Orientador)
Universidade Federal de Pernambuco

Participação via Videoconferência


Profa. Edvânia Torres Aguiar Gomes (Examinadora Interna)
Universidade Federal de Pernambuco

Participação via Videoconferência


Profa. Cristina Pereira de Araujo (Examinadora Interna)
Universidade Federal de Pernambuco

Participação via Videoconferência


Profa. Regina Dulce Barbosa Lins (Examinadora Externa)
Universidade Federal de Alagoas

Participação via Videoconferência


Profa. Simone Carnaúba Torres (Examinadora Externa)
Universidade Federal de Alagoas

Caixa Postal 7809 Cidade Universitária – CEP: 50732-970 Recife/PE/Brasil


Tel: + (81) 2126311 Fax: + (81) 21268772
e-mail:mdu@[Link] [Link]/mdu
AGRADECIMENTOS

Primeiramente a Deus, criador de todas as coisas.


À minha querida esposa Valdilene pelo companheirismo, colaboração e apoio
incondicional em todos os momentos desse percurso.
Aos meus pais, Antônio e Maria Elizabeth, pelos ensinamentos e exemplos de vida que
me inspiram sempre.
Às minhas irmãs Natália e Nicole, e ao meu sobrinho Guilherme, pelo
compartilhamento de alegrias que recarregavam minhas energias a cada encontro.
Ao orientador, Professor Ruskin Fernandes Marinho de Freitas, pela compreensão,
paciência, amizade e disponibilidade com que assumiu a orientação da minha pesquisa.
Às Professoras avaliadoras Cristina de Araújo, Edvânia Aguiar, Regina Lins e Simone
Torres pelas valiosíssimas contribuições dadas à esta tese.
Ao Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Urbano da Universidade Federal
de Pernambuco, nas pessoas da Coordenadora, Profa. Cristina Pereira de Araújo, e da
Secretária, Renata Albuquerque, pela oportunidade de uma formação científica sólida e pela
solicitude na resolução de assuntos acadêmicos.
Aos Professores Flávio Miranda e Pieter de Vries pelas contribuições ao
desenvolvimento da pesquisa.
Aos Professores do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFAL Campus Arapiraca,
pela amizade e por todo suporte, esforço e sacrifício que possibilitaram o desenvolvimento e a
conclusão do meu doutorado.
Aos meus amigos, Eloiza, Ithallo, Emerson, Rafael, Mário, Elizabeth, Natália,
Emanuelle, Júlio Cesar e Laini pelo apoio e ótimos momentos compartilhados nessa trajetória,
e aos voluntários, pela participação na pesquisa.
Aos meus colegas da turma do Doutorado MDU 2017, pela oportunidade de
aprendizado mútuo e, especialmente, aos meus grandes amigos João Paulo e Sávio, pelos
ótimos momentos compartilhados e pela amizade que construímos.
Aos servidores da Biblioteca Municipal da Casa da Cultura de Arapiraca, pela solicitude
nos períodos em que lá estive fazendo leituras e estudos no desenvolvimento deste trabalho.
Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pelo
suporte financeiro à pesquisa, através da bolsa de doutorado e da taxa de bancada.
A todos, meus sinceros agradecimentos.
“Quando a cidade é dissolvida (...) o vínculo arquetípico entre civilização e barbárie é invertido.
E aqui temos a fantasia subjacente da vida urbana contemporânea: a cidade é um local de
sobrevivência imprevisível e perigoso, uma ‘selva’” (DIKEN, 2004, p. 98).
RESUMO

As transformações no âmbito do capitalismo, experimentado nas últimas cinco décadas, têm


produzido mudanças na produção do espaço urbano. A transição da cidade industrial, marcada
pela dicotomia centro-periferia, para a cidade pós-fordista, dispersa e fragmentada, tem
engendrado novas configurações espaciais, não apenas nas grandes cidades. A presente
pesquisa investiga as implicações da autossegregação para a vida urbana em cidades médias,
com foco na cidade de Arapiraca-AL. A escolha dessa cidade média como recorte para a
pesquisa se deve aos residenciais horizontais fechados (RHFs) serem uma realidade
relativamente recente, oferecendo uma oportunidade privilegiada para a análise das
transformações urbanas desencadeadas por esses empreendimentos, desde a implantação. A
tese é que a autossegregação em RHFs induz uma mudança na relação que seus moradores
estabelecem com a cidade, implicando em um modo de vida urbano mais compartimentado e
seletivo. O objetivo geral da pesquisa é identificar e analisar as mudanças nas práticas espaciais
dos moradores de RHFs e suas implicações para a vida urbana em cidades médias. O método
adotado foi o fenomenológico e as técnicas de pesquisa empregadas na coleta de dados
primários foram: entrevista semiestruturada, junto a agentes públicos da administração
municipal, agentes do mercado imobiliário local, moradores de residencial horizontal fechado
e não-moradores desses empreendimentos; questionário online, aplicado em diferentes RHFs
implantados na cidade; e observação não-participante, realizada em um empreendimento dessa
natureza. Os resultados confirmaram que as principais motivações para a mudança para os
RHFs foram segurança, tranquilidade e lazer. Outro resultado aponta que esse fenômeno se
constitui como uma tendência consolidada, pois a grande maioria dos moradores optariam por
outro residencial fechado, caso decidissem se mudar do atual, e os não-moradores se mudariam
para um residencial horizontal fechado se tiverem oportunidade. Foi possível constatar que a
mudança para esses empreendimentos altera a relação que os moradores estabelecem com
outros espaços da cidade, reduzindo a frequência de compras na área central e nas feiras livres,
e usufruindo mais de espaços privados para fins de lazer e prática de atividades físicas.

Palavras-chaves: segregação urbana; condomínios fechados; cidades médias; práticas


espaciais; planejamento urbano.
ABSTRACT

The transformations within the scope of capitalism, experienced in the last five decades, have
produced changes in the production of urban space. The transition from the industrial city,
marked by the center-periphery dichotomy, to the post-Fordist city, dispersed and fragmented,
has engendered new spatial configurations, not only in large cities. This research investigates
the implications of self-segregation for urban life in medium-sized cities, with a focus on the
city of Arapiraca-AL. The choice of this average city as a focus for the research is due to the
fact that horizontal gated residential (HGR) buildings are a relatively recent reality, offering a
privileged opportunity to analyze the urban transformations triggered by these projects, since
their implementation. The thesis is that self-segregation into HGRs induces a change in the
relationship that residents establish with the city, implying a more compartmentalized and
selective urban way of life. The general objective of the research is to identify and analyze the
changes in the spatial practices of residents of HGRs buildings and their implications for urban
life in medium-sized cities. The method adopted was the phenomenological and the research
techniques used in the collection of primary data were: semi-structured interviews with public
agents of the municipal administration, agents of the local real estate market, residents of HGRs
and non-residents of these projects; an online questionnaire, applied in differents HGRs
implemented in the city; and non-participant observation, carried out in an undertaking of this
nature. The results confirmed that the main motivations for moving to HGRs buildings were
safety, tranquility and leisure. Another result points out that this phenomenon constitutes a
consolidated trend, as the vast majority of residents would opt for another gated residential, if
they decided to move from the current one, and non-residents would move to a HGR if they
had the opportunity. It was found that moving to these projects changes the relationship that
residents establish with other spaces in the city, reducing the frequency of shopping in the
downtown area and at open markets, and taking advantage of more private spaces for leisure
and physical activity.

Keywords: urban segregation; gated communities; intermediary cities; spatial practices; urban
planning.
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................. 9
2 PRÁTICAS ESPACIAIS E HABITUS: ASPECTOS TEÓRICOS E
METODOLÓGICOS ........................................................................................................ 37
2.1 Práticas espaciais .............................................................................................................. 37
2.2 Habitus .............................................................................................................................. 47
2.3 Aspectos metodológicos .................................................................................................... 56
3 ESPAÇOS RESIDENCIAIS FECHADOS: CONCEITUAÇÃO E TIPOLOGIA .......... 59
3.1 Espaços residenciais fechados: discussão conceitual ....................................................... 60
3.2 Tipologia de residenciais fechados em diferentes contextos urbanos .............................. 90
3.3 Residenciais horizontais fechados no Brasil: evolução e aspectos jurídicos ................... 99
4 CENTRALIDADE REGIONAL E CONFIGURAÇÃO DO ESPAÇO
INTRAURBANO DE ARAPIRACA-AL ....................................................................... 118
4.1 Cidades de porte médio, cidades médias e cidades intermediárias ............................... 118
4.2 Cidades médias brasileiras ............................................................................................. 131
4.3. O espaço intraurbano de Arapiraca: configuração e autossegregação ......................... 148
5 AUTOSSEGREGAÇÃO EM ARAPIRACA: REGULAÇÃO E OFERTA.................. 199
5.1 Os RHFs, em Arapiraca, do ponto de vista da regulação .............................................. 199
5.2 Os RHFs, em Arapiraca, do ponto de vista da oferta .................................................... 234
5.3 A gestão no centro da cena: utopias e distopias, embates e conflitos ............................ 263
6 AUTOSSEGREGAÇÃO EM ARAPIRACA: PRÁTICAS ESPACIAIS E HABITUS
DOS MORADORES DOS RESIDENCIAIS HORIZONTAIS FECHADOS ............... 268
6.1 Perfil dos respondentes ao questionário ......................................................................... 272
6.2 Habitabilidade e Inserção urbana .................................................................................. 276
6.3 Infraestrutura urbana, segurança e localização ............................................................ 288
6.4 Relações interpessoais e motivações para a mudança de residência ............................. 302
6.5 Práticas espaciais de consumo e lazer ............................................................................ 325
6.6 Grau de satisfação com o RHF e perspectivas futuras .................................................. 353
7 CONSIDERAÇÕES FINAIS.......................................................................................... 368
REFERÊNCIAS.............................................................................................................. 373
APÊNDICE A – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO
ENTREVISTA ................................................................................................................ 385
APÊNDICE B – ROTEIROS DE ENTREVISTAS ....................................................... 387
APÊNDICE C – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO
QUESTIONÁRIO ONLINE ........................................................................................... 390
APÊNDICE D – ROTEIRO DO QUESTIONÁRIO ONLINE ..................................... 391
APÊNDICE E – ROTEIRO DE OBSERVAÇÃO ESTRUTURADA NÃO-
PARTICIPANTE ............................................................................................................ 397
9

1 INTRODUÇÃO

As transformações no âmbito do capitalismo, experimentado nas últimas quatro


décadas, têm produzido mudanças substanciais em diversos campos da atividade humana. Esse
processo de transição, teorizado por diferentes autores, aponta para uma inflexão que engendrou
novos paradigmas na produção industrial, nas relações de trabalho, nas relações sociais, na
produção do conhecimento, na atuação do Estado e na reestruturação do espaço urbano e
regional.
A produção industrial, na primeira metade do século XX, foi marcada pelo predomínio
do modelo fordista-taylorista, ditados pela padronização da oferta associada à produção em
série, pelo trabalho alienado do operário nas linhas de montagem e pelo uso de métodos
científicos na organização e na exploração do trabalho. A partir da década de 1970, as demandas
provocadas pelo capital pautadas por diferenciação e exclusividade, a valorização da
versatilidade no processo de trabalho – demandando níveis de qualificação profissional cada
vez mais elevados – e a flexibilização das relações de trabalho, desencadearam alterações
cruciais no âmbito do capitalismo contemporâneo, denominadas por Harvey (2005, p. 140)
como “regime de acumulação flexível”.
A desconcentração espacial da indústria, apesar de mantida a centralização
administrativa, produziu os fenômenos de desindustrialização, observados no epicentro do
capitalismo, em especial nos Estados Unidos, atingindo fortemente as antigas regiões
industriais localizadas no Cinturão de Ferrugem1, promovendo altos índices de desemprego
estrutural. No capitalismo periférico, em particular no caso brasileiro, os ditames neoliberais
aprofundaram as desigualdades regionais existentes, por meio de estratégias locacionais que
privilegiavam áreas já dotadas de dinamismo econômico (ARAUJO, 1999, p. 149). Nas áreas
mais dinâmicas dos países periféricos, a desconcentração espacial da indústria foi pautada pelo
deslocamento de unidades produtivas da metrópole em direção às cidades de porte médio,
embora o lócus de comando tenha se mantido nos grandes centros urbanos. Nas áreas menos
dinâmicas, o crescimento das cidades de porte médio se deu via fortalecimento do consumo, se

1
O Cinturão de Ferrugem (tradução livre da expressão em inglês Rust Belt), corresponde a uma região econômica
situada no nordeste dos Estados Unidos, contemplando os estados de Indiana, Illinois, Michigan, Ohio, Pensilvânia
e Wisconsin. Essa região concentrou na primeira metade do século XX, muitas fábricas e siderurgias, se tornando
conhecida como coração industrial do país. A partir da década de 1970, a região entrou em franca decadência
devido a diversos fatores, entre eles, mudanças na matriz energética, tornando obsoletas diversas siderúrgicas, e a
transferência de diversas fábricas do parque industrial automotivo para outras regiões do planeta, onde a mão de
obra era mais barata e as relações de trabalho mais desregulamentadas.
10

constituindo como centros polarizadores na oferta de comércio e serviços para extensas


hinterlândias (SANTOS, 2009, p. 59).
As transformações no mundo do trabalho promoveram mudanças nas relações sociais,
constituindo um corpo social cada vez mais estratificado e diferenciado. No capitalismo
monopolista, ditado pelo fordismo-taylorismo, as classes sociais se dividiam basicamente em
desempregados temporários (exército industrial de reserva), operários, proprietários fundiários
e proprietários dos meios de produção. No regime de acumulação flexível, assistiu-se a uma
fragmentação desse corpo social, principalmente na classe média, formada por
empreendedores, executivos e profissionais liberais de diversas formações e especialidades. Se
a Teoria da Marginalidade social oferecia as bases para a compreensão das desigualdades
sociais no contexto do fordismo na América Latina, nos anos 1960 e 1970 (NUN, 2001;
QUIJANO, 1978, PAOLI, 1974, PERLMAN, 2002), a Teoria da Exclusão social formulada em
meados da década de 1970, na França, buscou explicar os novos conteúdos da desigualdade na
sociedade pós-fordista, apesar das severas críticas que recebeu (CASTEL, 2011; GAULEJAC
e LEONETTI, 1994; PAUGAM, 1999; SAWAIA, 2001; MARTINS, 2003).
A produção do conhecimento também foi afetada com uma mudança de paradigma. As
abordagens fundadas em pressupostos ontológicos e epistemológicos de base metafísica –
formas tradicionais de legitimação do conhecimento científico formuladas pelo Iluminismo –,
passaram a ser criticadas na medida em que a totalidade, a estrutura e as verdades absolutas
foram relativizadas e problematizadas (LYOTARD, 2009), privilegiando o fragmento, o
movimento e a efemeridade na produção do conhecimento sobre o mundo (DERRIDA, 1986).
O paradigma da atuação do Estado também sofreu uma inflexão fundamental nesse
processo de transição. A crise do Estado Providência, de base keynesiana, mediador no conflito
entre o capital e o trabalho e indutor do desenvolvimento, foi suplantado pelo “Estado mínimo”
propugnado pela agenda neoliberal, alavancada pelos governos Margareth Thatcher, na
Inglaterra, e Ronald Regan, nos Estados Unidos, nos anos 1980. Na esteira dessa mudança de
paradigma, em diversas partes do globo, empresas estatais e serviços públicos foram
privatizados, os órgãos de planejamento estatal foram desmobilizados, a atuação do Estado nas
políticas de assistência social foi fragmentada e as relações de trabalho foram
desregulamentadas, obliterando direitos historicamente conquistados (CASTEL, 2011;
WACQUANT, 2008; MARCUSE, 1997; KOWARICK, 2003).
No tocante à estruturação do espaço urbano, o paradigma vigente até o terceiro quartel
do século XX, fundado na sociedade urbano-industrial foi teorizado e problematizado como “a
questão urbana” (CASTELLS, 2009). Essa teoria articulou um arcabouço léxico que buscava
11

explicar o modo de estruturação da cidade industrial, tecendo reflexões sobre a dicotomia


centro-periferia, o crescimento desordenado, a distribuição dos equipamentos de consumo
coletivo, a reprodução da força de trabalho, os movimentos sociais urbanos e a racionalização
do uso do solo. Outra reflexão sobre a sociedade urbano-industrial teceu críticas aos ditames
do planejamento racional-funcionalista que buscava contê-la por meio de conhecimentos e
práticas de cunho instrumental-tecnocrático (LEFEBVRE, 2011, p. 29; HALL, 2009, p. 245).
O novo paradigma de estruturação do espaço urbano, observado a partir da década de
1980, foi teorizado como “a nova questão urbana”. Para Vainer (1999), a nova questão urbana
diz respeito às transformações no campo do planejamento urbano. O planejamento
tecnocrático-funcionalista que buscava ordenar a cidade industrial foi suplantado, a partir dos
anos 1980, por um modelo de planejamento urbano de base empresarial, originado nos Estados
Unidos e aperfeiçoado na preparação de Barcelona para os Jogos Olímpicos de 1992, sob a
denominação “planejamento estratégico”. Segundo o autor, nessa concepção de planejamento,
a ideia de cidade pautada pela competividade e pela produtividade tomaram a cena. Para Vainer
(1999), o planejamento estratégico propugna uma ideia de cidade calcada no trinômio pátria-
empresa-mercadoria, na medida em que ela é promovida como lócus de afirmação de
identidades locais, gerida em moldes corporativos onde prevalece o consenso em detrimento
do debate político, e apresentada como produto por meio do marketing urbano com vistas à
atração de investimentos, via de regra, contrários ao desenvolvimento urbano.
Secchi (2015, p. 21), analisando os espaços metropolitanos europeus e norte-
americanos, argumenta que os ideais que serviram de base para a formação da cidade moderna
foram colocados em xeque no contexto contemporâneo e a nova questão urbana pressupõe a
radicalização das diferenças entre ricos e pobres no espaço urbano, onde “as injustiças sociais
se manifestam cada vez mais em forma de injustiças espaciais”. Além disso, a nova questão
urbana traz à tona o debate sobre as desigualdades socioespaciais, sob o prisma das mudanças
climáticas e da mobilidade urbana como direito de cidadania. Donzelot (1999) discutiu a nova
questão urbana a partir do caráter individualista de perfil defensivo nas cidades, frente ao
exacerbamento de conflitos urbanos desencadeados pelo aprofundamento das desigualdades
sociais no pós-fordismo.
O arcabouço léxico relacionado com o estudo das desigualdades socioespaciais urbanas
abarca uma diversidade de conceitos, dentre os quais é possível destacar três, em razão da
recorrência com que são empregados na literatura correlata ao tema: segregação, diferenciação
e fragmentação socioespacial. Cada um desses conceitos apresenta origem epistemológica
distinta e conteúdo próprio, embora seja possível estabelecer interfaces entre eles.
12

O conceito de segregação socioespacial foi teorizado no âmbito da sociologia norte-


americana pela Escola de Chicago, na década de 1920. Robert E. Park, Ernest Burgess, Robert
Mackenzie e Harvey W. Zorbaugh elaboraram as primeiras definições para o conceito.
Zoubaugh defendeu que a expressão espacial da segregação era a “área natural” entendida como
uma área geográfica caracterizada por particularidades físicas e culturais, resultante de uma
competição impessoal. Mais tarde, Shevky e Bell avançaram propondo o conceito de “áreas
sociais” entendidas como espaços marcados pela tendência à uniformidade em termos de três
conjuntos de características da população: status socioeconômico (renda, status ocupacional,
instrução), urbanização (mulheres na força de trabalho, fase do ciclo de vida) e etnia (CORREA,
2005).
Nos anos 1970, a Escola de Sociologia Urbana Francesa, de tendência marxista, formada
por Manuel Castells, Henri Lefebvre, Christian Topalov e Jean Lojkine, produziu avanços
consideráveis nos estudos sobre a segregação urbana. Buscou-se superar a compreensão das
desigualdades urbanas com base no darwinismo social, propugnado pela Escola de Chicago,
partindo de um entendimento da cidade como um espaço socialmente construído, analisando o
conflito permanente entre os ditames da acumulação capitalista e a resistência como forma de
assegurar melhores condições para a reprodução da força de trabalho.
Castells (2009, p. 250), definiu o conceito segregação urbana como “a organização do
espaço em zonas de forte homogeneidade social interna e com intensa disparidade social entre
elas, sendo essa disparidade compreendida não só em termos de diferença, como também de
hierarquia”.
Lefebvre (2011, p. 97), na sua obra “Direito à cidade”, sistematiza a compreensão do
conceito de segregação, dividindo-o em três variantes: espontâneo (proveniente das rendas e
das ideologias); voluntário (estabelecendo espaços separados); e programado (sob o pretexto
de arrumação e de plano). Os espaços representativos da segregação nas variantes espontânea,
voluntária e programada são as favelas, os condomínios fechados e os conjuntos habitacionais,
respectivamente (Figuras 1, 2 e 3).
13

Figura 1 - Aglomerado subnormal no Ibura, Recife-PE Figura 2 - Condomínio Quintas do Lago, Eusébio-CE

Fonte: [Link] Fonte: [Link]

Figura 3 - Conjunto Habitacional Benedito Bentes, Maceió-AL

Fonte: [Link]

Os espaços representativos da segregação espontânea estão, geralmente, mais integrados


fisicamente à malha urbana consolidada, porém, de modo precário. Excluídas do acesso ao
mercado imobiliário formal, as populações com menor renda ocupam as áreas que sobram no
interior do perímetro urbano para se manterem próximas dos locais de trabalho. Declaradas pela
legislação urbanística como impróprias ao assentamento, essas áreas ambientalmente sensíveis,
com declividades elevadas ou sujeitas a alagamentos, impõem aos moradores custos maiores
para a construção da moradia e sujeição a riscos, dada a condição do sítio (MARICATO, 2008).
A segregação voluntária estabelece com o conjunto da cidade uma espécie de
“integração por conveniência”. Os espaços autossegregados, em geral, estão situados nos
limites do perímetro urbano favorecendo o deslocamento por vias de trânsito rápido com acesso
a determinados equipamentos e serviços de forma direta, sem a necessidade de transitar pela
área central ou pelo interior dos bairros periféricos (SPOSITO; GÓES, 2013). De certo modo,
essa integração se dá mais do ponto de vista funcional do que, propriamente, físico.
A segregação programada, por sua vez, constitui espaços com os menores níveis de
integração urbana, tanto do ponto de vista físico, quanto funcional. Os conjuntos habitacionais
14

são implantados, via de regra, em áreas distantes da malha consolidada das cidades – muitas
vezes fora do perímetro urbano –, em razão do baixo preço da terra e da omissão ou falha do
poder público na aplicação do Estatuto da Cidade. Nesses espaços segregados, a habitação é
produzida em larga escala, com área útil reduzida e os equipamentos comunitários, quando são
implantados, não atendem adequadamente às demandas dos moradores. Esta inserção urbana
precária onera tanto o poder público, em razão da expansão das infraestruturas, como os
moradores, dados os altos custos despendidos diariamente com o deslocamento casa-trabalho.
Ainda de acordo com Lefebvre (2011), esses aspectos podem se manifestar ora de modo
sucessivo, ora de modo simultâneo. O autor aponta ainda que o fenômeno da segregação deve
ser analisado segundo critérios distintos: ecológico (favelas e cortiços); formais (deterioração
dos signos e significações da cidade, degradação do urbano por deslocamento de seus elementos
arquitetônicos); sociológico (níveis de vida e modos de vida, etnias, culturas e subculturas etc.).
Em “A revolução urbana”, Lefebvre (2004) aponta um equívoco frequente no trato dos
fenômenos urbanos quando se toma conceitos como diferença, distinção e separação,
segregação como se fossem análogos. Para ele, a “diferença” supõe o estabelecimento de
relação, como de proximidade e distância. Já a “separação” e a “segregação” rompem a relação.
“Constituem, por si só, uma ordem totalitária, que tem por objetivo estratégico quebrar a
totalidade concreta, espedaçar o urbano. A segregação complica e destrói a complexidade”
(Ibid., p. 124).
O conceito de diferenciação socioespacial tem origens na geografia positivista francesa,
mais propriamente em Vidal de La Blache, e na geografia dos lugares, de Richard Hartshorne
(SOUZA, 2007, p. 107). No campo da sociologia, o debate em torno da exclusão social, entre
os anos 1970 e 1990 apontou a crescente diferenciação social decorrente da diversificação no
mundo do trabalho (CASTEL, 2011; GAULEJAC e LEONETTI, 1994; PAUGAM, 1999). A
segmentação social foi aprofundada na medida em que o regime fundado no trinômio produção
fordista/ sociedade salarial/ Estado Providência foi sendo superado por outro regime ancorado
no trinômio pós-fordismo/ flexibilização das relações de trabalho/ Estado Neoliberal.
As correlações entre a dinâmica espacial e esses fenômenos econômicos, sociais e
políticos teriam oferecido o conteúdo teórico para a conceituação contemporânea da
diferenciação socioespacial. Diferentemente da cidade industrial dual, partida entre locais de
moradia e de consumo para os trabalhadores, na periferia, e para os proprietários dos meios de
produção, no centro, a diferenciação socioespacial complexificou a produção do espaço urbano.
O exemplo mais emblemático desse processo são as periferias urbanas, que até os anos 1980,
no Brasil, eram ocupadas quase que exclusivamente pela população de baixa renda, via
15

ocupações irregulares e autoconstrução. A partir daquele contexto, as áreas periféricas passaram


a abrigar empreendimentos residenciais fechados destinados aos segmentos de renda média e
alta (SPOSITO, 2006).
Os primeiros usos do conceito de fragmentação aplicado ao espaço urbano teriam
surgido nos anos 1960, para designar a divisão da cidade em fase de suburbanização, e os
desafios que esse fenômeno representava para administração municipal na busca de meios para
integrar esses fragmentos. No final dos anos 80, esse primeiro uso, de caráter dual, perdeu força
e o conceito de fragmentação assumiu significados mais amplos – socioeconômico,
antropológico e até filosófico – associados a um fenômeno de âmbito global. A cidade dual foi
sucedida “por um conjunto aleatório de formas socioespaciais fragmentadas, marcadas por
processos de forte territorialização, não apenas separadas umas das outras, mas estruturadas em
uma espécie de contenção social e política” (NAVEZ-BOUCHANINE, 2002, p. 19).
Nas últimas décadas, diversos autores (SALGUEIRO, 1998; PRÉVOT SCHAPIRA,
2001; SPOSITO e SPOSITO, 2020) têm alertado que as transformações decorrentes da
transição da cidade fordista para a cidade pós-fordista demandam a revisão ou a
complementação do arcabouço léxico com novas categorias de análise. Nessa direção, tem sido
teorizado o conceito de fragmentação socioespacial como complemento ao conceito de
segregação urbana sob a justificativa de que o primeiro seria mais adequado para entender os
processos espaciais em curso na cidade contemporânea. De acordo com a reflexão das autoras
supracitadas, a realidade urbana da cidade fordista (questão urbana anterior) sob a qual foi
teorizado o conceito de segregação socioespacial, passou por um processo de transição que
aprofundou a diferenciação socioespacial. Essa transição culminou na realidade urbana pós-
fordista (a nova questão urbana) e o conceito de fragmentação socioespacial seria mais
adequado para estudá-la, de forma complementar, na medida que ainda persistem processos
espaciais atinentes à realidade urbana anterior, fordista.
Lacerda (2012), além de tecer a crítica ao dualismo que impregna o conceito de
segregação urbana, defende que a fragmentação espacial não é um processo novo, mas
constituinte da formação das cidades, desde suas origens. Para a autora, o que altera ao longo
do tempo são a natureza dos fragmentos e a forma como eles são articulados para formar o
espaço urbano.
Dentre outros estudos recentes de âmbito nacional, o livro “Cidade contemporânea:
segregação espacial”, organizado por Pedro de Almeida Vasconcelos, Roberto Lobato Correa
e Silvana Maria Pintaudi, publicado em 2013, traz valiosas contribuições sobre o tema. O livro
apresenta uma série de artigos elaborados por renomados pesquisadores brasileiros no campo
16

da geografia urbana. Além dos organizadores, contribuem com artigos nessa publicação Ana
Fani Carlos, Maria da Encarnação Sposito, Marcelo Lopes de Souza dentre outros.
De acordo com Vasconcelos, Correa e Pintaudi (2013, p. 10), “a temática da segregação
espacial está longe de ter sido esgotada, não apenas porque as relações entre sociedade e espaço
são mutáveis, mas também porque há questionamentos [...] que ainda não foram respondidos”.
Os autores apontam que, no Brasil, há poucos estudos sobre esse tema, e propõem uma agenda
de pesquisa balizada pelas seguintes linhas de investigação: a) as conexões entre segregação e
outros aspectos sociais e suas espacialidades, a exemplo da estrutura econômica-espacial, a
mobilidade residencial, a jornada para o trabalho e os movimentos sociais; b) a estruturação das
classes sociais e suas frações em suas conexões com a segregação espacial; c) os padrões
espaciais da segregação e suas mudanças; e d) a espacialidade diferencial da segregação
considerando-se as cidades de distintas dimensões demográficas, sítio urbano, estrutura social
e inserção na divisão territorial do trabalho, processo migratório, status dos movimentos sociais
e a própria história espacial.
O presente trabalho estabelece diálogo com a linha de investigação que discute os
padrões espaciais da segregação e suas mudanças. Dentre as três variantes do conceito de
segregação formuladas por Lefebvre (2004, p. 97), a pesquisa concentrará a atenção sobre a
segregação voluntária ou autossegregação, uma vez que o loteamento fechado tem sido
adotado como modalidade de residência pelos segmentos de baixa, média e alta rendas. A
possibilidade de contemplar diferentes segmentos de renda justificou a escolha pela
autossegregação como variante privilegiada para a análise nessa pesquisa.
A autossegregação apresenta aspectos de distinção que dizem respeito não apenas à
localização residencial, mas também às práticas espaciais dos indivíduos, promovendo
alterações na relação que esses grupos estabelecem com o espaço urbano (SPOSITO e GÓES,
2013, p. 41). Para Correa (2007, p. 68), “as práticas espaciais constituem ações espacialmente
localizadas, engendradas por agentes sociais concretos, visando a objetivar seus projetos
específicos”. De acordo com Góes e Sposito (2016, p. 42), tais práticas envolvem questões
aparentemente banais e expressam dimensões da vida social, guardando relação com a
subjetividade, orientando a construção de sentidos, significados e imagens sobre os espaços.
Desse modo, as práticas espaciais não devem ser consideradas exclusivamente como
produtos de motivações individuais, mas de inclinações de cunho valorativo, moral e cognitivo,
construídas socialmente, e incorporadas pelos indivíduos e grupos, o que Bourdieu (2007;
2011) e Elias (1994; 2001) conceituaram como habitus. A prática espacial diz respeito a ações,
o que os atores fazem: ir ao supermercado, passear no shopping, levar os filhos à escola;
17

enquanto o habitus é infraconsciente e remete ao porquê os atores fazem o que fazem: aceitação
em um determinado grupo, afirmação de distinção, busca de status etc.
Para Pierre Bourdieu (2007; 2011), o habitus é entendido como um sistema de
disposições, ou seja, tendências incorporadas pelos atores em razão dos modos como o processo
de socialização é experimentado por eles, e que preside o universo de escolhas e as práticas
sociais desses atores. Para Norbert Elias (1994; 2001), o habitus é incorporado a partir da
participação dos indivíduos nas figurações, que podem ser definidas como formas de
organização social (família, escola, ambiente de trabalho, Estado, sociedade etc.) que
estruturam relações de interdependência.
Bourdieu adota o termo habitus, diferenciando-o de termos usuais como “hábito” e
“costume”, uma vez que o primeiro põe em evidência capacidades criadoras e inventivas,
dotadas de sentido social e compartilhado, enquanto os outros dois termos referem-se, stricto
sensu, a qualquer comportamento dotado de regularidade ou automatismo. O habitus incorpora
capacidades ativas enquanto o hábito diz respeito a condicionamentos passivos.
O habitus se constitui na interação social gerando uma lógica, uma racionalidade
prática, ao mesmo tempo em que classifica e organiza essa interação. O habitus é, ao mesmo
tempo, condicionante e condicionador das ações dos sujeitos. “O habitus constitui a nossa
maneira de perceber, julgar e valorizar o mundo e conforma a nossa forma de agir, corporal e
materialmente” (THIRY-CHERQUES, 2006, p. 33). As práticas espacializam determinados
habitus, na medida em que sua realização é influenciada por motivações valorativas não-
conscientes.
O conceito de habitus traz como potencialidade a superação do problema
epistemológico da cisão entre indivíduo e sociedade, admitindo articular distintos níveis de
análise, que vão do societal, passando pelas classes sociais e pelo meio familiar, até o
“individual” (LANDINI; PASSIANI, 2007). A compreensão quanto à influência do habitus
sobre as práticas espaciais dos moradores dos espaços residenciais fechados oferece a
possibilidade de estudar a segregação urbana sob uma perspectiva analítica explicativa,
complementando aquelas de caráter descritivo.
A segregação urbana tem sido observada não apenas nas metrópoles. As cidades médias
vêm ganhando relevância como objeto de estudo em campos do conhecimento, tais como na
Geografia (AMORIM FILHO, RIGOTTI, 2002; SPOSITO, 2006; PONTES, 2011; CORREA,
2007; SANFELIU, 2009), na Economia Regional (SCHERER e AMARAL, 2020; ANDRADE
e SERRA, 2001; STEINBERGER, BRUNA, 2001) e na Arquitetura e Urbanismo (LIMA,
2004; LLOP et al., 2019). Tal importância se justifica pelo crescimento relativo em âmbito
18

nacional da sua população e do seu PIB nas últimas décadas, quando comparada às demais
cidades da rede urbana brasileira. Os processos de desconcentração industrial decorrentes das
deseconomias de aglomeração vêm deslocando a localização das indústrias das grandes
metrópoles para centros urbanos menores, embora as grandes cidades ainda sejam o lócus de
comando, pois nelas se localizam as sedes das grandes empresas nacionais e transnacionais.
De acordo com o estudo Regiões de Influência de Cidades (REGIC), publicado pelo
Instituto Brasileiro de Geografia a e Estatística (IBGE), em 2008, a rede urbana brasileira
contava com 12 metrópoles, 70 capitais regionais, 169 centros sub-regionais, 556 centros de
zona e 4.473 centros locais. No último REGIC, publicado em 20182, a hierarquização dos
centros urbanos já contemplava 15 metrópoles, 97 capitais regionais, 352 centros sub-regionais,
398 centros de zona e 4.037 centros locais. Considerando a subdivisão do segundo nível
hierárquico, é possível, do ponto de vista demográfico e funcional, correlacionar as cidades
médias às Capitais regionais B e C, uma vez que as Capitais regionais A abarcam capitais de
estado, com porte populacional e perfil funcional mais próximo das grandes cidades.
No REGIC 2008, as capitais regionais B e C totalizavam 59 centros urbanos, enquanto
na publicação de 2018, esse quantitativo passou para 88, registrando um crescimento de,
aproximadamente, 50%. O crescimento mais significativo nesse intervalo foi registrado no
nível dos centros sub-regionais, que aumentou 108% entre 2008 e 2018. Esse aumento foi
acompanhado da redução do número de centros de zona e centros locais, indicando que, nesse
período de tempo, a evolução da rede urbana se mostrou de modo mais evidente nos centros
sub-regionais.
O aumento do número de cidades médias tem sido acompanhado pelo crescimento do
interesse pelo tema. Do ponto de vista do espaço intraurbano, alguns autores vêm realizando
pesquisas sobre a autossegregação nesses centros, buscando levantar os padrões e as
particularidades com que o fenômeno se apresenta. A maioria desses estudos estão
concentrados no Estado de São Paulo (SPOSITO, 2006, 2013; DAL POZZO, 2011, 2015).
Dois aspectos amplamente relacionados à autossegregação, utilizados tanto pelo
mercado imobiliário, para promover a oferta de residenciais fechados, quando pelos moradores,
para justificar a opção por esse modelo de moradia, são: segurança e qualidade de vida.

2
O IBGE, no REGIC 2018, adotou um referencial teórico-metodológico inovador, em relação aos REGICs
anteriores. Nesse último estudo, o IBGE utilizou, além da Teoria das Localidades Centrais, de Walter Christaller,
que fundamentou os estudos publicados anteriormente, a Teoria dos Fluxos Centrais, do geógrafo britânico Peter
James Taylor. Com a incorporação das contribuições de Taylor, o IBGE realizou o estudo da rede urbana,
considerando não apenas as relações de hierarquia, que operam no espaço contíguo, mas também aquelas de
complementaridade, cujas bases de interação são as redes.
19

O debate em torno da segurança deve atentar para a diferença fundamental entre a


criminalidade real e insegurança subjetiva (JANOSCHKA e GLASZE, 2003). A primeira é
mensurável por meio de registros policiais e dados de saúde pública, enquanto a segunda remete
ao sentimento de insegurança, motivada pela mídia sensacionalista, por relatos de pessoas
conhecidas que foram vítimas de crimes, ou pela experiência pessoal de sofrimento decorrente
da violência, em um passado distante ou recente.
Nos Estados Unidos, nos anos 1980, havia um descolamento entre a criminalidade real
e o sentimento de insegurança, uma vez que a taxa de crimes violentos estava em queda naquele
contexto, mas a insegurança subjetiva estava crescendo no seio da população (BLAKELY e
SNYDER, 1998). As causas para o aumento da sensação de insegurança teriam motivações de
ordem mais socioeconômica, atinentes ao pós-fordismo – aumento da diferenciação social,
ruptura de vínculos sociais e preconceitos de classe – do que o aumento real de ocorrências
criminais. Além disso, havia também um descolamento de natureza espacial, uma vez que, nas
cidades americanas, os subúrbios apresentavam baixos índices de criminalidade, não
justificando, portanto, que essas localidades fossem os locais prioritariamente escolhidos para
a implantação de empreendimentos fechados protegidos.
Tais inconsistências entre a realidade e o sentimento de insegurança nas cidades norte-
americanas foram investigadas por Low (2001, p. 45), e sistematizadas por ela como uma crítica
ao “discurso do medo”. Do ponto de vista da oferta, a propagação desse discurso tornou o medo
um poderoso promotor de vendas tanto de imóveis em empreendimentos fechados, quanto de
sistemas de segurança privados. Do ponto de vista da demanda, o discurso do medo da violência
e do crime, muitas vezes, é utilizado pelos moradores de residenciais fechados como
subterfúgio para “legitimar e racionalizar estratégias de exclusão com base em classe e
segregação residencial (Ibid.)”.
Essas estratégias materializam-se em soluções urbanas e arquitetônicas, coletivas e
individuais, dos condomínios fechados exclusivos aos altos muros de residências em bairros
diversos, de alta e também de baixa renda, do centro à periferia, na maioria das cidades
brasileiras. Aqui, o sentimento de insegurança que aflige a população nas últimas quatro
décadas, coincide com o crescimento da criminalidade real.
De acordo com o Atlas da Violência, elaborado pelo IPEA, a taxa de homicídios por
100 mil habitantes registrada no país, em 1980, foi de 11,69, e atingiu, em 2017, a marca de
31,59, a maior da série histórica (Tabela 1). Os crimes violentos não afligem todos os segmentos
20

de renda de modo generalizado, vitimando com mais frequência o segmento social de baixa
renda, e dentro deste, a população de negros e pardos.3

Tabela 1 - Brasil. Taxa de homicídios por 100 mil habitantes, entre 1980 e 2017
1980 1985 1990 1995 2000 2005 2010 2015 2017
11,69 15,00 22,22 23,84 27,35 26,13 27,80 28,89 31,59
Fonte: IPEA (2019). Disponível em: [Link]

De acordo com Cerqueira (2014, p. 25), o aumento da violência letal ocorrido no país,
entre 1980 e 2007, apresentou fatores explicativos distintos em cada decênio. Na década de
1980, o crescimento da taxa de homicídios estava relacionado com: o aumento da desigualdade
de renda, causada pela crise econômica; o aumento da demanda por armas de fogo,
possivelmente atrelado ao crescimento do tráfico de drogas; e o aumento da impunidade, já que
a taxa de aprisionamento de homicidas caiu consideravelmente, em razão da obsolescência e da
ineficiência do sistema de justiça criminal. Na década de 1990, ocorreu um aumento vertiginoso
da procura por serviços e dispositivos de segurança privada. O aumento da taxa de homicídios
nessa década esteve relacionado ao aumento da proporção de homens jovens e ao crescimento
da demanda por armas de fogo. Na década de 2000, o crescimento econômico somado aos
investimentos realizados na segurança pública e ao recolhimento das armas de fogo pós-
Estatuto do Desarmamento reduziram drasticamente a taxa de homicídios. Contudo, o aumento
da violência sistêmica resultante de disputas pelo controle do tráfico de drogas, especialmente,
o crack¸ nos estados do Nordeste, Norte, Minas Gerais e Distrito Federal, impediram uma
redução maior da taxa de homicídios naquele decênio.
Entre 1997 e 2017, houve um processo de interiorização dos homicídios (Tabela 2).
Embora as taxas de letalidade sejam maiores quanto maior é a população do centro urbano, a
variação no tempo atesta que a taxa cresceu de forma mais acentuada nos pequenos municípios,
ao passo que nos médios a taxa não variou de forma considerável e nos grandes a taxa decresceu
(IPEA, 2019)4.

3
“Segundo o Atlas da Violência 2020, as taxas de morte da população negra apresentam crescimento nacional nos
últimos anos. Em 2018, o último que tem os dados compilados no documento, 75,7% das vítimas de homicídios
são pretas e pardas. Ainda segundo o atlas, entre 2008 e 2018, as taxas de homicídio apresentaram um aumento de
11,5% para os negros, enquanto para os não negros houve uma diminuição de 12,9%. Além disso, uma pessoa
negra tem mais chances de ser morta do que um não negro em todos os Estados brasileiros, com exceção do
Paraná.” Disponível em: [Link]
e-pardas. Acesso em: 25 nov. 2020.
4
IPEA. Atlas da violência 2019: retrato dos municípios brasileiros. Rio de Janeiro: IPEA/ FBSP, 2019.
21

Tabela 2 - Taxa estimada de homicídios* por município, segundo o tamanho populacional (1997-2017)
Grupo de Tamanho Taxa média Taxa média Taxa média Variação Variação Variação
municípios populacional estimada estimada estimada (%) (%) (%)
de de de 1997-2017 1997-2007 2007-2017
homicídios homicídios homicídios
(1997) (2007) (2017)
Pequenos Menos de 11,9 16,8 25,4 113,0 40,6 51,5
100 mil habitantes
Médios Entre 100 mil e 500 32,9 32,4 37,1 12,5 -1,7 14,5
mil habitantes
Grandes Mais de 500 43,1 39,8 41,1 -4,5 -7,7 3,4
mil habitantes
(*) O número de homicídios estimado foi obtido pela soma do número de homicídios mais homicídios ocultos. O
número de homicídios ocultos foi estimado com base no número de mortes violentas por causa indeterminada
multiplicado pela proporção dessas mortes violentas por causa indeterminada que correspondem a homicídios,
segundo Cerqueira (2013). Todos os dados foram obtidos para o município de residência. Obs. 2. Homicídios:
CIDs-10 (X85-Y09 e Y35-Y36), ou seja, óbitos causados por agressão mais intervenção legal. Mortes violentas
por causa indeterminada: Y10-Y34 (eventos – fatos – cuja intenção é indeterminada).
Fonte: IPEA (2019) [adaptado pelo autor]

Considerando a escala regional, a geografia do crescimento da taxa de homicídios, entre


2007 e 2017, guarda relação com a ampliação da atuação das facções criminosas no território
brasileiro, particularmente, no Norte e Nordeste e com as desigualdades regionais. As dez
capitais brasileiras que tiveram maior crescimento da violência letal estavam localizadas nas
regiões Norte e no Nordeste, enquanto as dez que apresentaram maior redução dos índices,
incluíam todas as capitais do Sudeste, além de capitais no Sul e no Centro-Oeste. Por razões
ainda não conhecidas, Porto Velho e Maceió apresentaram baixas taxas de homicídio,
compatíveis com as capitais do Sudeste e Sul (IPEA, 2019).
Quanto aos municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes, dentro do grupo dos
20 municípios com menores taxas estimadas de homicídio por 100 mil habitantes no Brasil, 14
situavam-se no estado de São Paulo, três em Santa Catarina e outros três em Minas Gerais. No
grupo dos 20 municípios com mais de 100 mil habitantes mais violentos do país, 18 situavam-
se nas regiões Norte e Nordeste, sendo 5 no estado da Bahia, 4 no Pará, 3 no Ceará, 2 no Rio
Grande do Norte, 2 em Pernambuco, 1 em Sergipe, 1 no Acre, 1 no Rio de Janeiro e 1 no Rio
Grande do Sul (IPEA, 2019).
No tocante ao espaço intraurbano, os homicídios se apresentaram de forma concentrada
em determinadas localidades, em 2017. De acordo com Cerqueira et al. (2016), metade dos
homicídios nos municípios considerados mais violentos acontecia em, no máximo, 10% dos
bairros, enquanto que em 50% dos bairros pertencentes a esses municípios, a taxa de homicídio
era praticamente zero.
22

Outro tema que aparece como fator motivador para a mudança de residência para um
empreendimento fechado é “qualidade de vida”. Essa noção de conteúdo difuso e polissêmico,
demanda sempre a definição de um recorte a fim de que seja delimitado o campo no qual a
discussão será realizada.
Os estudos sobre a qualidade de vida tiveram início nos anos 1960, realizados por
agências multilaterais como o intuito de mensurar os impactos sociais do desenvolvimento. Nos
anos 1970, a agenda ecológica incorporou a necessidade de avaliação da qualidade ambiental
como componente dos índices de qualidade de vida, em um contexto de acelerada urbanização
e degradação do meio ambiente. Nas décadas de 1980 e 1990, o conceito foi consolidado
priorizando os aspectos socioambientais (NAHAS et al., 2006, p. 2).
Ainda de acordo com Nahas et al. (2006, p. 2) a mensuração da qualidade de vida urbana
supõe a consideração de três elementos fundamentais: i) O dimensionamento da equidade no
acesso da população aos bens e recursos urbanos, abordando este acesso tanto pelo seu aspecto
espacial quanto social; ii) A avaliação da qualidade ambiental, a partir de aspectos
socioambientais e aspectos ambientais “stricto-senso”, relacionados ao meio urbano; e iii) A
produção de elementos para a discussão da sustentabilidade do desenvolvimento humano.
Para Almeida e Gutierrez (2010, p. 152), “a qualidade de vida é considerada como a
percepção do indivíduo de sua posição no contexto da cultura e sistema de valores nos quais
vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações, até a dimensão ética
e política”. A noção de qualidade de vida também é acionada a partir de uma perspectiva
multidimensional, mas aqui está associada à percepção do indivíduo.
A noção de “qualidade de vida” tem sido amplamente utilizada pelo marketing
imobiliário e dispõe de um poderoso efeito de pregnância. Nessa perspectiva, a noção
contempla o contato com a natureza, ainda que simulada e artificializada, na forma de
fragmentos de áreas verdes e espaços ajardinados; a recreação em áreas de lazer exclusivas,
dotadas de piscinas, saunas, salões de festas, brinquedoteca, espaços gourmet com
churrasqueiras e salões de beleza; e ainda a prática de atividades físicas em equipamentos
privativos como academias climatizadas, piscinas com raia semiolímpica, pista de caminhadas
e corridas, quadras poliesportiva, de tênis, de squash, dentre outros.
Outro elemento acionado como promotor da qualidade de vida diz respeito à oferta de
condições privilegiadas para o deslocamento, assegurada pela localização dos
empreendimentos residenciais nas margens de vias expressas, de trânsito rápido. Nesse sentido,
a qualidade de vida é relacionada com a facilidade de acesso, por meio do automóvel, a
equipamentos de consumo e lazer mais valorizados pelos moradores, como shopping centers,
23

hipermercados atacado-varejistas, aeroportos, universidades, dentre outros. Alguns


empreendimentos residenciais, mais sofisticados, dispõem de helipontos para possibilitar o
deslocamento aéreo.
Os equipamentos e as amenidades oferecidos pelo mercado imobiliário como a
promoção da qualidade de vida evoca uma noção imagética de um novo estilo de vida, marcado
por distinção e hierarquia. Empregada com essa conotação, a qualidade de vida assegurada para
alguns termina por piorar a qualidade de vida no restante da cidade para muitos, em razão dos
impactos urbanos e ambientais decorrentes de empreendimentos imobiliários exclusivistas:
aumento dos deslocamentos em razão de vastas áreas fechadas, encerramento de áreas públicas
que deveriam ser abertas para todos, degradação ambiental nas franjas de ocupação urbana com
impactos sobre áreas rurais, dentre outras.
Um índice muito utilizado para mensuração da qualidade de vida é o Índice de
Desenvolvimento Humano (IDH). O IDH oferece uma medida geral e sintética que incorpora
o desenvolvimento social a longo prazo considerando três dimensões: renda, educação e saúde.
Em 2010, houve uma mudança na metodologia de cálculo do IDH e, desde então, as três
dimensões que constituem o índice são mensuradas considerando: (i) uma vida longa e saudável
(saúde), medida pela expectativa de vida; (ii) acesso ao conhecimento (educação), medido pela
média de anos de educação de adultos (a partir de 25 anos) e pela expectativa de anos de
escolaridade para crianças na idade de iniciar a vida escolar; e (ii) padrão de vida (renda),
medido pela Renda Nacional Bruta (RNB) per capita expressa em poder de paridade de compra
(PPP) constante, em dólar, tendo 2005 como ano de referência (PNUD Brasil, 2020).
Outro índice desenvolvido para a medição das desigualdades sociais nos municípios
brasileiros e os impactos na qualidade de vida é o Índice Brasileiro de Privação (IBP),
desenvolvido pela FIOCRUZ em parceria com a Universidade de Glasgow.
Divulgado em dezembro de 2020, o IBP é uma medida de níveis de privação material
ou de posição socioeconômica, em diferentes áreas geográficas do Brasil. Diferentemente do
IDH que tem como menor recorte o município, o IBP pode ser aplicado a pequenas áreas, como
os setores censitários. O IBP é calculado estatisticamente a partir dos indicadores “renda”,
“escolaridade” e “condições do domicílio” da população de cada território, coletados no Censo
2010 do IBGE, utilizando os seguintes parâmetros: (i) percentual de domicílios com renda per
capita inferior a 1/2 salário mínimo (renda); (ii) percentual de pessoas analfabetas com idade
igual ou superior a sete anos (escolaridade); e (iii) percentual de domicílios com acesso
inadequado ao saneamento básico e sem água encanada, coleta de lixo, vaso sanitário e banheiro
no domicílio (condições do domicílio) (CIDACS/FIOCRUZ, 2021). Outro aspecto que
24

distingue o IBP em relação ao IDH é que o primeiro incorpora de forma objetiva a dimensão
urbanística representada pelas condições do domicílio.
O cálculo do IBP corroborou as disparidades regionais no Brasil: os resultados apontam
que metade das pessoas residentes no Nordeste e 40% no Norte habitam em áreas com maior
privação, enquanto no Sudeste e no Sul, essa fatia corresponde a 30% e 33% da população,
respectivamente (GARCIA, 2020) (Figura 4).

Figura 4 - Brasil. Índice Brasileiro de Privação, por município.

Fonte: [Link] (2021)

Considerando a Região Nordeste separadamente, é possível constatar que dentre as


capitais estaduais, Salvador, Aracaju, João Pessoa e Fortaleza apresentaram status de privação
classificado como médio. As demais capitais foram classificadas na faixa de status de privação
alto. No caso das cidades nordestinas classificadas como capitais regionais B e C no REGIC
2018, apenas Arapiraca-AL e Garanhuns estão classificadas na última faixa, com status de
privação muito alto. Arapiraca apresenta o IBP mais elevado dentre todas, apresentando as
25

maiores porcentagens nos três indicadores que compõe o Índice. As demais cidades
classificadas nessa hierarquia apresentaram status de privação alto (Tabela 3).

Tabela 3 - Capitais Regionais C e B no Nordeste. Índice Brasileiro de Privação: indicadores, total e status.
População Indicadores de privação
Status de
UF Município Residente Escolari- Condições IBP
Privação
Censo 2010 Renda dade Domicílio
PB Campina Grande 385.213 40,4% 11,0% 6,6% -0,635 Alto (Q4)
BA Itabuna 204.667 39,4% 10,5% 10,2% -0,603 Alto (Q4)
BA Feira de Santana 556.642 40,1% 9,2% 14,5% -0,560 Alto (Q4)
RN Mossoró 259.815 36,6% 13,3% 13,2% -0,483 Alto (Q4)
MA Imperatriz 247.505 38,9% 10,7% 18,2% -0,448 Alto (Q4)
PE Caruaru 314.912 40,0% 14,8% 9,7% -0,433 Alto (Q4)
BA Barreiras 137.427 39,5% 9,9% 22,1% -0,396 Alto (Q4)
PE Petrolina 293.962 46,0% 11,6% 13,2% -0,383 Alto (Q4)
BA Vitória da Conquista 306.866 43,3% 12,9% 17,2% -0,303 Alto (Q4)
BA Ilhéus 184.236 43,4% 12,4% 18,2% -0,299 Alto (Q4)
BA Eunápolis 100.196 42,3% 14,5% 19,9% -0,208 Alto (Q4)
CE Sobral 188.233 52,0% 14,5% 12,3% -0,179 Alto (Q4)
CE Juazeiro do Norte 249.939 50,6% 15,1% 17,6% -0,080 Alto (Q4)
PE Garanhuns 129.408 50,0% 16,7% 19,3% 0,007 Muito Alto (Q5)
AL Arapiraca 214.006 53,4% 21,1% 25,8% 0,367 Muito Alto (Q5)
Fontes: Fiocruz (2022), IBGE (2010)

O indicador “condições do domicílio” foi aquele em que o valor calculado para


Arapiraca mais distanciou da média das demais capitais regionais listadas. Esse resultado
corrobora o fato de que considerada a porcentagem de domicílios particulares permanentes com
banheiro ou sanitário e esgotamento sanitário via rede geral de esgoto ou pluvial, levantada a
partir dos dados do Censo de 2010, Arapiraca apresentou a pior marca, com apenas 10,5% dos
domicílios atendidos, enquanto a média para as demais capitais regionais B e C nordestinas foi
de 48,2%.
Quanto ao tipo de domicilio, os resultados do Censo para essas cidades apontaram que
Juazeiro do Norte-CE apresentou a maior porcentagem de domicílios do tipo casa (97,7%),
acompanhada de perto por Arapiraca-AL (97,4). Itabuna apresentou maior porcentagem de
domicílios do tipo apartamento (14,4%), e Arapiraca-AL, a menor (0,8%). Quanto aos
domicílios do tipo casa de vila ou de condomínio, que constitui o foco deste trabalho,
Imperatriz-MA apareceu com a maior porcentagem (7,2%), Caruaru-PE e Barreiras-BA com a
menor (0,4%) e Arapiraca-AL ocupou a quinta posição dentre os municípios listados, com 1,5%
dos domicílios deste tipo. Considerando os domicílios do tipo habitação em casa de cômodo,
cortiço ou cabeça de porco, Eunápolis-BA apresentou a maior porcentagem (1,7%), Mossoró-
26

RN a menor, com menos de 0,1% e Arapiraca-AL ocupou a décima posição, com 0,2% de
domicílios deste tipo (Tabela 4).

Tabela 4 - Capitais Regionais C e B no Nordeste. Tipo de Domicílio de acordo com Censo 2010.
Domicílio do tipo
Domicílio do tipo
Domicílio do tipo Domicílio do tipo habitação em casa
casa de vila ou de
UF Município apartamento casa de cômodo, cortiço
condomínio ou cabeça de porco
Abs. % Abs. % Abs. % Abs. %
MA Imperatriz 1.328 1,9 61.587 89,8 4.953 7,2 693 1,0
BA Feira de Santana 5.881 3,6 149.867 92,0 6.512 4,0 604 0,4
RN Mossoró 3.100 4,2 68.199 93,0 2.034 2,8 32 0,0
BA Ilhéus 5.124 9,1 49.576 88,5 926 1,7 377 0,7
AL Arapiraca 488 0,8 56.741 97,4 898 1,5 131 0,2
PE Garanhuns 1.520 4,1 35.291 94,4 495 1,3 62 0,2
PB Campina Grande 9.712 8,7 100.257 89,6 1.142 1,0 741 0,7
PE Petrolina 3.661 4,6 75.330 93,8 676 0,8 671 0,8
BA Itabuna 9.104 14,4 53.006 84,1 516 0,8 394 0,6
CE Sobral 2.644 5,2 47.464 94,0 371 0,7 41 0,1
BA Eunápolis 1.165 4,0 27.568 93,6 216 0,7 512 1,7
CE Juazeiro do Norte 1.050 1,5 67.537 97,7 504 0,7 60 0,1
BA Vitória da Conquista 6.039 7,0 79.781 92,3 479 0,6 161 0,2
PE Caruaru 8.728 9,1 86.795 90,1 397 0,4 384 0,4
BA Barreiras 1.605 4,2% 36.332 94,2% 137 0,4% 503 1,3%
Fonte: IBGE (2010)

O Índice Brasileiro de Privação e os dados do Censo de 2010 do IBGE atinentes ao


saneamento básico demonstraram que Arapiraca-AL ocupa a última posição no ranking das
Capitais Regionais C e B no Nordeste, apresentando condições piores de renda, escolaridade e
infraestrutura urbana, incluindo cidades com menor porte populacional e menor área de
influência. Esse aspecto é importante pois indica que Arapiraca, apesar do seu porte e da sua
centralidade regional no Agreste Alagoano, apresenta índice de privação e indicadores de
saneamento básico próprios de centros locais, ou seja, de pequenas cidades.
Se as disparidades regionais colocam as cidades de porte médio das regiões Norte e
Nordeste em situação de maior precariedade em relação àquelas situadas nas regiões Sul e
Sudeste, é possível afirmar que, considerados esse tipo hierárquico de centro urbano e esses
indicadores, Arapiraca apresenta um quadro preocupante quanto ao desenvolvimento humano
e urbano. A implantação de espaços residenciais fechados em um contexto socioespacial como
este tende a aprofundar o fosso entre as condições de moradia do segmento de maior e menor
renda na cidade, aprofundando a segregação urbana.
Considerando o debate sobre as motivações convencionais apresentadas para justificar
a escolha por moradia em residenciais fechados – segurança e qualidade de vida – é possível
27

afirmar que elas são insuficientes para elucidar o fenômeno da autossegregação. É necessário
compreender os valores que subjazem as escolhas e preferências dos moradores pelos espaços
autossegregados, identificando aqueles que parecem se valer dos jargões de “segurança” e
“qualidade de vida” como subterfúgios para afirmação de distinção e status. É preciso analisar
as implicações disso para o espaço urbano das cidades médias, em particular, em Arapiraca.
A pesquisa em questão adotou como ponto de partida as seguintes premissas: (i) a cidade
contemporânea deve ser analisada combinando a nova questão urbana (DONZELOT, 1999;
SECCHI, 2015) e a questão urbana anterior (CASTELLS, 2009; LEFEBVRE, 2011),
considerando transformações e permanências; (ii) O planejamento urbano estratégico
(VAINER, 1999; HALL, 2009) e os princípios do urbanismo dito pós-moderno, calcados na
fragmentação espacial e social, reduzem a diversidade à diferenciação pela renda, serviços
urbanos em mercadorias, e cidadãos em clientes (HARVEY, 2005); (iii) A proliferação de
espaços residenciais fechados (RHFs) tem produzido uma segmentação do espaço urbano em
frações cada vez mais homogêneas quanto ao conteúdo social, representando a negação da
cidade enquanto espaço do encontro e da convivência entre diferentes (CALDEIRA, 2000;
DIKEN, 2004; DUNKER, 2015; SPÓSITO e GÓES, 2013); 4) A profusão de RHFs não
configura uma realidade restrita às metrópoles e às cidades globais, mas tem sido observada
também em cidades médias e intermédias, no Brasil e no mundo (SANFELIU, 2009; SPOSITO,
2006).
A partir do exposto, a questão norteadora formulada a partir da problemática central da
pesquisa é: quais são as implicações da autossegregação para a vida urbana em cidades
médias?
O objeto teórico da tese consiste na autossegregação, com foco nas transformações
socioespaciais que ela produz no âmbito das cidades médias. O objeto empírico da pesquisa é
constituído pelas práticas espaciais e pelo habitus dos moradores de residenciais horizontais
fechados, de diferentes padrões, localizados no município de Arapiraca, uma cidade média do
Agreste Alagoano.
A escolha de Arapiraca-AL como recorte para a pesquisa se deve aos residenciais
horizontais fechados serem uma realidade relativamente recente, oferecendo uma oportunidade
privilegiada para a análise das transformações que esses empreendimentos acarretam no espaço
urbano desde a implantação.
A tese da pesquisa advoga que a autossegregação nos residenciais horizontais fechados
induz uma mudança na relação que os moradores estabelecem com a cidade, implicando em
um modo de vida urbana mais compartimentado e seletivo.
28

As perguntas norteadoras da pesquisa são:


1. Qual é a relação entre práticas espaciais e habitus, no contexto da autossegregação?
2. Quais são as particularidades da autossegregação nas cidades médias brasileiras?
3. Quais são os impactos da implantação de residenciais horizontais fechados no
planejamento urbano em Arapiraca-AL?
4. O que explica a proliferação de residenciais fechados em Arapiraca-AL dos pontos de
vista da regulação e da oferta?
5. Qual a relação que os moradores dos residenciais fechados estabelecem com o espaço
urbano, considerando suas práticas espaciais e seus habitus?
A hipótese geral de pesquisa é de que há um aprofundamento da compartimentação da
vida urbana, em Arapiraca-AL, em virtude da escolha pela moradia em residencial fechado.
As hipóteses específicas são:
1. O habitus possibilita uma abordagem explicativa para a realização das práticas espaciais
ou suas alterações, permitindo elucidar um modus operandi dos moradores de
residenciais horizontais fechados;
2. A autossegregação, nas cidades médias, apresenta particularidades em função da maior
disponibilidade de terras, com preços mais baixos; da menor extensão territorial; e da
menor capacidade de planejamento e gestão por parte das administrações municipais,
frente aos ditames do capital imobiliário;
3. A lógica e a espacialização dos residenciais horizontais fechados afrontam os princípios
da política urbana instituídos pelo Estatuto da Cidade, que fundamentam o Plano Diretor
Municipal: a função social da propriedade e da cidade, a sustentabilidade e a gestão
democrática;
4. As atuações da administração municipal e do mercado imobiliário estimulam a
proliferação de residenciais fechados em Arapiraca-AL;
5. Parte das atividades cotidianas desenvolvidas por moradores de residenciais fechados
indicam motivações exclusivistas, ancoradas na afirmação de status, distinção e
hierarquia, independente do padrão do empreendimento;
O objetivo geral da pesquisa é identificar e analisar as mudanças nas práticas espaciais
realizadas pelos moradores de residenciais horizontais fechados e suas implicações para a vida
urbana em cidades médias.
Quanto aos objetivos específicos, a pesquisa se propõe a:
• Discutir o conceito de práticas espaciais e habitus e contextualizá-los no âmbito da
autossegregação;
29

• Conceituar e exemplificar autossegregação e suas formas de espacialização, com foco


nas particularidades com que se apresenta nas cidades médias brasileiras;
• Caracterizar a autossegregação em suas formas de espacialização em Arapiraca-AL,
confrontando com o plano diretor municipal;
• Analisar a proliferação dos residenciais fechados dos pontos de vista da regulação pelo
poder público e da oferta desses empreendimentos pelo mercado imobiliário;
• Analisar a relação que os moradores dos residenciais horizontais fechados estabelecem
com o espaço urbano de Arapiraca-AL, a partir de suas práticas espaciais e do habitus;
Os estudos amplamente difundidos sobre os empreendimentos residenciais
autossegregados concentram a atenção em diferentes aspectos e podem ser classificados em
quatro linhas de pesquisa.
A primeira linha de pesquisa tem por objeto o ambiente interno dos loteamentos
fechados e observam o modo como os moradores vivenciam o espaço nesses empreendimentos.
Essa abordagem tem possibilitado a compreensão sobre as contradições e os conflitos presentes
nesses empreendimentos autossegregados, contrastando com a utopia vendida pelo marketing
das empresas construtoras (BLAKELY e SNYDER, 1998; LOW, 2001, CALDEIRA, 2000).
A segunda linha tem por foco as articulações entre os agentes do capital imobiliário –
proprietários fundiários, construtores, incorporadores e promotores imobiliários – e o poder
público, apontando as mazelas e os efeitos deletérios desses acordos para o desenvolvimento
urbano e o direito à cidade (JANOSCHKA e GLASZE, 2003; RIBEIRO, 1996).
A terceira linha aborda o estudo dos espaços segregados em relação ao conjunto da
cidade, por meio de técnicas de mapeamento e análise da configuração do tecido urbano
correlacionados com a forma urbana e aspectos socioeconômicos. Essa linha tem possibilitado
analisar de forma sistemática como a segregação socioespacial se apresenta no espaço urbano,
por meio de mapas e outros recursos gráficos (HIDALGO, BORSDORF, SÁNCHEZ, 2007);
Por fim, a quarta linha contempla o estudo da autossegregação compreendida a partir
das falas dos moradores sobre suas práticas espaciais, transcendendo o ambiente interno dos
loteamentos fechados. Essa linha investiga como a autossegregação se apresenta por meio das
práticas de consumo e lazer, contribuindo com o potencial explicativo do fenômeno já que opera
com as causas da segregação e com seus conteúdos (SPOSITO e GÓES, 2013; DAL POZZO,
2015).
Não é objetivo dessa pesquisa abordar os conflitos e contradições observados
exclusivamente no ambiente interno dos empreendimentos residenciais fechados. As
30

articulações entre agentes públicos e privados em prol da implantação desse tipo de


empreendimento não constitui o foco da pesquisa, embora possa oferecer subsídios para uma
melhor compreensão do objeto. Os estudos de configuração espacial e a correlação de dados
socioeconômicos não são finalidades dessa pesquisa, ainda que tais procedimentos sejam
utilizados como meios para compreensão geral e aproximação com o objeto empírico deste
trabalho.
A presente pesquisa está alinhada à quarta linha de pesquisa e investigará se o fato de
residir em um empreendimento residencial autossegregado altera a forma como o morador se
relaciona com o espaço da cidade, ou seja, o habitus que preside suas práticas espaciais. Desse
modo, o objeto da pesquisa recai sobre a vida cotidiana dos moradores de espaços
autossegregados, dentro e fora dos muros do residencial.
Diversos pesquisadores relacionados com o tema têm chamado a atenção para a
necessidade de realização de pesquisas empíricas sobre espaços residenciais fechados. Prevot-
Shapira e Pineda (2008) advertem que o número de trabalhos que operam com o inventário e a
localização dos residenciais fechados é significativamente maior do que pesquisas empíricas
que considerem os pontos de vista dos moradores desses empreendimentos, e em menor número
ainda estão aqueles que discutem as relações dos muros para fora5. Janoschka e Glasze (2003)
argumenta que o predomínio de publicações ensaístas que tomavam como referência
residenciais fechados norte-americanos acabaram por produzir generalizações que estenderam
aquela realidade ao restante do globo. Na mesma direção, Capron (2004, p. 98) ressalta que a
profusão desses empreendimentos “exige estudos empíricos e análises interdisciplinares
detalhadas, permitindo evitar generalizações precipitadas ou mesmo considerações normativas,
carregadas de juízos de valor.”6
Outro fator que justifica a pertinência do presente trabalho é a carência de pesquisas
sobre residenciais fechados em cidades médias (SPOSITO e GÓES, 2013). A grande maioria
dos autores consagrados, com produção de conhecimento sobre esse tema, têm por objeto de
estudo as metrópoles e as grandes cidades ao redor do planeta.
A presente pesquisa adota o método fenomenológico, entendido como “o estudo de
fenômenos humanos vivenciados dentro dos contextos sociais do cotidiano onde eles ocorrem

5
Si se han llevado a cabo esfuerzos (…) de identificación, localización y conteo de las unidades residenciales
cerradas en América Latina, el número de trabajos que han analizado las motivaciones y las sociabilidades
“comunitarias” es inferior, y aun menor si nos interrogamos sobre las relaciones potenciales a través de los
muros (PREVOT-SCHAPIRA; CATTANEO PINEDA, 2008, p. 83)
6
elle appelle des études empiriques et des analyses interdisciplinaires fines, permettant d’éviter des
généralisations trop hâtives ou encore des considérations normatives, porteuses de jugements de valeur.
31

e do ponto de vista das pessoas que os experimentam” (TITCHEN e HOBSON, 2015, p. 170).
O método consiste em uma maneira de pensar o objeto e sua sistematização na presente tese
teve por intuito valorizar a visão dos usuários sobre os espaços onde residem e as relações que
eles estabelecem entre esses espaços e o conjunto da cidade.
Segundo Marconi e Lakatos (2003, p. 83), “o método é o conjunto das atividades
sistemáticas e racionais que, com maior segurança e economia, permite alcançar o objetivo –
conhecimentos válidos e verdadeiros –, traçando o caminho a ser seguido, detectando erros e
auxiliando as decisões do cientista.” As duas autoras estabelecem uma distinção entre método
de abordagem e métodos de procedimento, em que o primeiro se situa em um nível mais elevado
de abstração, afinado a um determinado arcabouço teórico de inspiração filosófica, enquanto o
segundo diz respeito à sequência de etapas da investigação, com formalidade mais restrita e
limitadas a um domínio particular.
Someck e Lewin (2015, p. 19) utiliza designação distinta, definindo “‘metodologia’
como teorias e o arcabouço analítico para a pesquisa, e ‘métodos’ como os meios específicos
utilizados para colher e analisar os dados”. Estabelecendo uma comparação entre as duas
conceituações, “metodologia” em Someck e Lewin está para “método” em Lakatos e Marconi,
assim como “métodos” está para “métodos de abordagem”.
Segundo Titchen e Hobson (2015, p. 170), a abordagem fenomenológica apresenta dois
enfoques diferentes: o enfoque direto, de base epistemológica, que consiste em observar o
fenômeno como ele se apresenta na consciência das pessoas que o vivenciam; e o enfoque
indireto, de base ontológica, que pressupõe entrar no contexto social do fenômeno, vivenciá-lo
e olhar para ele a partir de seu interior. Os dois enfoques se diferenciam em razão do plano que
o pesquisador quer privilegiar ou conhecer com mais propriedade. O primeiro plano diz respeito
à dimensão cognitiva ou consciente e o segundo plano, à dimensão pré-cognitiva ou
despercebida.
O enfoque direto está ancorado na fenomenologia clássica, tal como foi teorizada por
Edmund Husserl. A premissa epistemológica supõe a separação entre o ator consciente e um
mundo de objetos. O pesquisador busca compreender os fenômenos explorando o saber
humano, mediante o acesso à consciência ou ao saber cognitivo. Os entrevistados tendem a
falar com mais facilidade na medida em que têm um conhecimento pessoal dele. O pesquisador
interroga os participantes sobre seus atos racionais, explorando a lógica subjacente, as
intenções, o fundamento, as escolhas e as decisões deles. O pesquisador deve se posicionar de
forma mais imparcial possível, uma vez que, estando fora, precisa estar vigilante para
influenciar o mínimo possível o que se passa dentro.
32

O enfoque indireto incorpora as contribuições de Martin Heidegger sobre o ser e o ente.


A premissa ontológica supõe que o ator está enraizado no mundo dos objetos, imerso nele e não
separado. O pesquisador debruça sobre os fenômenos investigando o ser humano, por meio do
acesso ao saber pré-cognitivo, que se expressa na consciência perceptiva, no senso corporal.
Esse saber está incorporado às práticas, como algo inefável, tácito, desprovido de representação
mental ou comunicação verbal. A investigação ilumina o segundo plano, um universo que passa
despercebido pelo entrevistado porque é evidente para ele. O pesquisador atua como observador
envolvido e conectado ao mundo cotidiano em estudo, na busca de compreender melhor a
intuição dos participantes, suas visões compartilhadas não expressas por meio de palavras e
práticas. A comparação entre os dois enfoques é apresentada na Figura 5.
33

Figura 5 - Diagrama comparativo entre os enfoques direto e indireto nos estudos fenomenológicos

Fonte: Titchen e Hobson (2015)


34

Titchen e Hobson (2015, p. 174) pondera que “é possível conciliar os dois enfoques,
utilizando suas diferenças de forma complementar, desde que se esteja ciente das distinções e
suas implicações”. Deste modo, a presente pesquisa doutoral opera com a fenomenologia como
método de abordagem, combinando os dois enfoques, na medida em que o levantamento e a
análise das falas dos entrevistados sobre suas práticas espaciais estão amparados no enfoque
direto, enquanto a investigação do habitus como indutor dessas práticas está apoiada no enfoque
indireto.
A metodologia construída para a realização da pesquisa foi dividida em quatro etapas:
A Etapa 1 contemplou a pesquisa bibliográfica sobre as categorias relevantes para a
discussão teórica – Práticas Espaciais e Habitus, Autossegregação e Cidades Médias. A revisão
de literatura sobre as categorias em questão observou as recomendações de Kamler e Thomson
(2015, p. 45), contemplando quatro procedimentos: (i) reconhecimento dos campos de
conhecimento atinentes à investigação, identificando as bases teóricas, os textos seminais e os
debates mais relevantes; (ii) identificação dos avanços alcançados e dos limites deixados por
estudos anteriores sobre o mesmo tema; e (iii) detecção das lacunas ou controvérsias teórico-
conceituais; e (iv) contribuição concreta da revisão de literatura para o campo de conhecimento
afim à pesquisa. Essa etapa teve como produtos: a compreensão sobre a potencialidade das
categorias para explicarem o fenômeno em questão, o embasamento teórico para caracterização
de Arapiraca enquanto cidade média e contribuição teórica para a produção do conhecimento
sobre o tema.
A Etapa 2 consistiu na pesquisa documental sobre os aspectos espaciais, históricos,
socioeconômicos e legais relacionados com o crescimento e o desenvolvimento urbano de
Arapiraca. O foco, aqui, foram os processos espaciais recentes, especialmente, a proliferação
dos residenciais horizontais fechados, nos últimos quinze anos. Os procedimentos utilizados
nessa etapa contemplaram: levantamento de documentos e fotografias entendidos como
relevantes para a história de Arapiraca-AL; investigação acerca da legislação e dos planos
relacionados com o parcelamento do solo na cidade; levantamento de dados sobre loteamentos
urbanos, junto à administração municipal e às concessionárias de serviços urbanos; além do
registro fotográfico in loco dos espaços públicos urbanos, de residenciais fechados e de seus
respectivos entornos. Os produtos dessa etapa foram: (i) a análise da expansão urbana da cidade
ao longo do tempo; (ii) organização dos dados referentes aos loteamentos urbanos, com
destaque para os residenciais horizontais fechados; (iii) mapeamento dos residenciais
horizontais fechados em Arapiraca, cotejando com os planos locais e a legislação em vigor; e
(iv) a classificação dos residenciais horizontais fechados em grupos, de acordo com o padrão –
35

baixo, médio-baixo, médio, médio-alto e alto –, considerando informações como tamanho


médio do lote, valor de venda dos imóveis, infraestrutura instalada, serviços de segurança
privada e equipamentos de lazer oferecidos.
A Etapa 3 compreendeu a pesquisa de campo, com a coleta de dados primários. As
técnicas de pesquisa utilizadas na coleta de dados primários serão as seguintes: (i) entrevistas
semiestruturadas, junto a representantes da gestão pública municipal e agentes do mercado
imobiliário (corretores, construtores e incorporadores); junto a moradores de residencial
horizontal fechado; e junto a não-moradores de residenciais horizontais fechados; (ii) aplicação
de questionário online junto a moradores de residenciais horizontais fechados, contemplando
diferentes padrões de empreendimento, conforme a classificação estabelecida na pesquisa; e
(iii) observação estruturada não-participante em residencial horizontal fechado. Os produtos
dessa etapa foram: a organização dos arquivos de áudio, transcrição das entrevistas, organização
e tabulação dos dados obtidos a partir do questionário e da observação.
A Etapa 4 correspondeu à análise das entrevistas, do questionário e da observação. As
entrevistas realizadas junto aos agentes públicos e privados foram escrutinadas com vistas a
identificar suas acepções sobre a implantação de residenciais fechados na cidade; os relatos
falados, as respostas ao questionário e as observações realizadas junto aos moradores foram
analisadas com vistas a identificar as motivações que os impeliram à mudança para uma
residência em empreendimento fechado e as implicações dessa mudança na sua vida cotidiana.
Essa etapa teve como produtos: (i) a compreensão sobre a implantação de residenciais
horizontais fechados, dos pontos de vista do planejamento urbano e da oferta desse tipo de
moradia pelo setor imobiliário; e (ii) a explicação sobre a relação entre habitus e as práticas
espaciais dos moradores de residenciais horizontais fechados, de diferentes padrões, de modo
a responder à questão central da tese.
Portanto, a pesquisa empírica utilizou para a coleta de dados três técnicas: entrevista
semiestruturada, questionário online e observação estruturada não-participante. O Quadro 1
apresenta, de forma sintética, a estrutura da pesquisa.
36

Quadro 1 - Quadro Síntese da Pesquisa

QUESTÕES HIPÓTESES OBJETIVOS PROCEDIMENTOS CAPÍTULOS


Qual é a relação entre práticas espaciais O habitus possibilita uma abordagem Discutir o conceito de práticas Pesquisa bibliográfica sobre, Cap. 2 - Práticas Espaciais
e habitus, no contexto da explicativa para a realização das práticas espaciais e habitus e contextualizá- práticas espaciais e habitus e Habitus: aspectos teóricos
autossegregação? espaciais ou suas alterações los no âmbito da autossegregação e metodológicos

Quais são as particularidades da A autossegregação nas cidades médias Conceituar e exemplificar Pesquisa bibliográfica e Cap. 3 - Espaços
autossegregação nas cidades médias brasileiras apresenta particularidades, tais autossegregação e suas formas de documental sobre residenciais fechados:
brasileiras? como: maior disponibilidade de terras, com espacialização, com foco nas “autossegregação” e “cidades aspectos conceituais e
preços mais baixos; menor extensão particularidades com que se médias ” tipologia
territorial; e menor capacidade de apresenta nas cidades médias Cap. 4 - Centralidade
planejamento e gestão por parte das brasileiras regional e configuração do
administrações municipais espaço intraurbano de
Arapiraca-AL
Quais são os impactos da implantação A lógica e a espacialização dos residenciais Caracterizar a autossegregação em Pesquisa bibliográfica,
de residenciais horizontais fechados no horizontais fechados afrontam os princípios suas formas de espacialização em documental e mapeamento dos
planejamento urbano em Arapiraca? da política urbana instituídos pelo Estatuto da Arapiraca-AL, confrontando com o espaços autossegregados em
Cidade, que fundamentam o Plano Diretor plano diretor municipal Arapiraca-AL
de Arapiraca Cap. 5 - Autossegregação
O que explica a proliferação de As atuações da administração municipal e do Analisar a proliferação dos Levantamento de dados em Arapiraca-AL:
residenciais fechados em Arapiraca- mercado imobiliário estimulam a residenciais fechados dos pontos de primários a partir de entrevistas regulação e oferta
AL dos pontos de vista da regulação e proliferação de residenciais fechados em vista da regulação, pelo poder com agentes-chave do
da oferta? Arapiraca público, e da oferta desses planejamento urbano e do
empreendimentos pelo mercado mercado imobiliário
imobiliário
Qual a relação que os moradores dos Parte das atividades cotidianas desenvolvidas Analisar a relação que os moradores Levantamento de dados Cap. 6 - Autossegregação
residenciais fechados estabelecem com por moradores de residenciais fechados dos residenciais horizontais fechados primários a partir de em Arapiraca-AL: práticas
o espaço urbano, considerando suas indicam motivações exclusivistas, ancoradas estabelecem com o espaço urbano de questionário, observação não espaciais e habitus dos
práticas espaciais e seus habitus? na afirmação de status, distinção e hierarquia, Arapiraca-AL, a partir de suas participante e entrevistas moradores dos residenciais
(Questão central da pesquisa) independente do padrão do empreendimento práticas espaciais e do habitus horizontais fechados
Fonte: O autor (2020)
37

2 PRÁTICAS ESPACIAIS E HABITUS: ASPECTOS TEÓRICOS E


METODOLÓGICOS

2.1 Práticas espaciais

A produção de conhecimento sobre as práticas espaciais tem como autores mais


proeminentes dois filósofos franceses, Henri Lefebvre e Michel de Certeau, em duas obras
célebres, “A Produção do Espaço” e “A Invenção do Cotidiano”, respectivamente.
As práticas espaciais estão fundamentadas na teorização do espaço social, formulada
por Henri Lefebvre, em “La production de l'espace” (A produção do espaço), publicado,
originalmente, em 1974, em que o filósofo conceitua o espaço como produto e condicionante,
simultaneamente, das relações sociais7. A partir dessa reflexão, o espaço deixa de ser
compreendido apenas como um rebatimento das ações e técnicas, mas como portador de um
papel ativo que pode possibilitar ou dificultar o exercício de determinadas ações e a utilização
de determinadas técnicas.
De acordo com Lefebvre (2000/2006, p. 27), “a prática espacial consiste numa projeção
‘no terreno’ de todos os aspectos, elementos e momentos da prática social”. A prática espacial
corresponde, segundo o filósofo, ao uso dos espaços considerando a dialética entre suas
configurações e especificidades físico-materiais e os modos de interação dos sujeitos com esses
espaços. O autor exemplifica configurações espaciais como o apartamento, a “esquina” da rua,
da “praça”, do mercado, do “centro” comercial ou cultural, de um “lugar” público; em que os
termos entre aspas correspondem às “palavras do discurso cotidiano [que] discernem, sem os
isolar, espaços e descrevem um espaço social. Elas correspondem a um uso desse espaço,
portanto, a uma prática espacial que elas designam e compõem” (Ibid., p.36).
Lefebvre chamou a atenção ainda que a relação entre a prática espacial e o espaço deve
ser compreendida a partir de um exercício dialético, uma vez que a prática produz o espaço
conferindo a ele determinados usos, ao mesmo tempo em que ela é condicionada por ele, pois
o espaço pode possibilitar ou dificultar a realização de determinada prática. “A prática espacial
de uma sociedade secreta seu espaço; ela o põe e o supõe, numa interação dialética: ela o produz

7
“O espaço não pode mais ser concebido como passivo, vazio, ou então, como os “produtos”, não tendo outro
sentido senão o de ser trocado, o de ser consumido, o de desaparecer. Enquanto produto, por interação ou retroação,
o espaço intervém na própria produção: organização do trabalho produtivo, transportes, fluxos de matérias-primas
e de energias, redes de repartição de produtos. À sua maneira produtivo e produtor, o espaço (mal ou bem
organizado) entra nas relações de produção e nas forças produtivas. Seu conceito não pode, portanto, ser isolado e
permanecer estático” (LEFEBVRE, 2000/2006, p. 7).
38

lenta e seguramente, dominando-o e dele se apropriando. Para a análise, a prática espacial de


uma sociedade se descobre decifrando seu espaço.” (LEFEBVRE, 2000/2006, p. 65)
Para o autor, a prática espacial compõe, juntamente com as representações do espaço e
os espaços de representação, a tríade que complexifica as interações entre as relações sociais
(de produção e reprodução) e o espaço. As representações do espaço estão ligadas às relações
de produção e aos signos e códigos de ordenamento que elas impõem. Os espaços de
representação estão ligados ao lado clandestino e subterrâneo da vida social, incluindo também
a arte. A prática espacial, por sua vez,

engloba produção e reprodução, lugares especificados e conjuntos espaciais próprios


a cada formação social, que assegura a continuidade numa relativa coesão. Essa
coesão implica, no que concerne ao espaço social e à relação de cada membro de
determinada sociedade ao seu espaço, ao mesmo tempo uma competência certa e uma
certa performance (LEFEBVRE, 2000/2006, p. 58)

Em outro momento da sua argumentação, Lefebvre (2000/2006, p. 65) alerta que “uma
prática espacial deve possuir uma certa coesão, o que não quer dizer uma coerência
(intelectualmente elaborada: concebida e lógica)”. O autor preconiza também que, naquele
contexto do capitalismo monopolista, a prática espacial “associa estreitamente, no espaço
percebido, a realidade cotidiana (o emprego do tempo) e a realidade urbana (os percursos e
redes ligando os lugares do trabalho, da vida “privada”, dos lazeres)” (Ibid., p. 65). Ele continua
sua reflexão, identificando um paradoxo “associação surpreendente, pois ela inclui em si
{pressupõe} a separação exacerbada entre esses lugares que ela religa” (Ibid., p. 65). E conclui
essa argumentação referendando a pertinência da pesquisa empírica para o estudo das práticas
espaciais: “a competência e a performance espaciais próprias a cada membro dessa sociedade
só se examinam empiricamente” (Ibid., p. 66).
Michel de Certeau (1998, p. 97) também ofereceu sua contribuição à teorização das
práticas espaciais. Esse autor diverge da formulação de Lefebvre (2000) segundo a qual, o
conjunto de práticas espaciais se articulariam à produção do espaço. Para Certeau, a lógica da
produção preside um dos dois tipos de prática e não o seu conjunto. Em sua teoria das práticas
cotidianas, o autor afirma que as práticas ligadas à produção e à organização espacial podem
ser reunidas sob o conceito de estratégias, enquanto as práticas imprevisíveis e supostamente
incoerentes, ele agrupa sob o conceito de táticas.
Para Certeau (1998, p. 99), a estratégia consiste no “cálculo (ou a manipulação) das
relações de forças que se torna possível a partir do momento em que um sujeito de querer e
poder (uma empresa, um exército, uma cidade, uma instituição científica) pode ser isolado”.
39

Nesse sentido, as estratégias remetem às práticas espaciais efetivadas no âmbito das instituições
(científicas, políticas ou militares) ou dos seus agentes representantes. Certeau chama a atenção
para outro aspecto fundamental das estratégias: elas se constituem na suposição de existência
de um “lugar próprio”: “a estratégia postula um lugar suscetível de ser circunscrito como algo
próprio e ser a base de onde se podem gerir as relações com uma exterioridade de alvos ou
ameaças” (Ibid., p. 99). Certeau exemplifica o uso das estratégias se valendo das corporações:
“como na administração de empresas, toda racionalização “estratégica” procura em primeiro
lugar distinguir de um “ambiente” um “próprio”, isto é, o lugar do poder e do querer próprios”
(Ibid., p. 99).
A partir da definição do que entende por estratégias, Certeau discorre sobre os efeitos
da instauração de um antagonismo entre um lugar apropriado e lugares outros. O primeiro efeito
indica o “próprio” como uma vitória do lugar sobre o tempo: “permite capitalizar vantagens
conquistadas, preparar expansões futuras e obter assim para si uma independência em relação
à variabilidade das circunstâncias. E um domínio do tempo pela fundação de um lugar
autônomo” (Ibid., p. 99). O segundo efeito decorre que o “próprio” se exerce como um domínio
dos lugares pela vista: “a divisão do espaço permite uma prática panóptica a partir de um lugar
de onde a vista transforma as forças estranhas em objetos que se podem observar e medir,
controlar, portanto, e “incluir” na sua visão”. E arremata: “ver (longe) será igualmente prever,
antecipar-se ao tempo pela leitura de um espaço” (Ibid., p. 99). O terceiro e último efeito da
apropriação pressupõe o poder do saber que objetiva “transformar as incertezas da história em
espaços legíveis”.
Em contraposição às estratégias, Certeau (1998, p. 100) utiliza o conceito de tática,
definida por ele como “a ação calculada que é determinada pela ausência de um próprio. Então
nenhuma delimitação de fora lhe fornece a condição de autonomia. A tática não tem por lugar
senão o do outro. E por isso deve jogar com o terreno que lhe é imposto tal como o organiza a
lei de uma força estranha.”
A partir dessa conceituação inicial, o autor avança no exercício de definição da tática,
atribuindo a ela outros conteúdos igualmente relevantes: “não tem meios para se manter em si
mesma, à distância, numa posição recuada, de previsão e de convocação própria”, é movimento
‘dentro do campo de visão do inimigo’ (...) e no espaço por ele controlado” (CERTEAU, 1998,
p. 100).
Diferentemente da estratégia, que supõe o aprovisionamento e o planejamento de ações,
a tática “opera golpe por golpe, lance por lance. Aproveita as ‘ocasiões’ e delas depende, sem
40

base para estocar benefícios, aumentar a propriedade e prever saídas. O que ela ganha não se
conserva” (Ibid., p. 100).
Entre estratégia e tática há, dentre outras, duas distinções fundamentais. A primeira é
que a tática não opera a partir de um lugar próprio, mas de um não-lugar, que lhe confere certa
mobilidade e a possibilidade de explorar brechas nos domínios dos agentes institucionais,
utilizando “vigilante, as falhas que as conjunturas particulares vão abrindo na vigilância do
poder proprietário. Aí vai caçar. Cria ali surpresas. Consegue estar onde ninguém espera. É
astúcia” (CERTEAU, 1998, p. 100). A segunda diz respeito à dimensão do poder: “sem lugar
próprio, sem visão globalizante, cega e perspicaz como se fica no corpo a corpo sem distância,
comandada pelos acasos do tempo, a tática é determinada pela ausência de poder assim como
a estratégia é organizada pelo postulado de um poder” (Ibid., p.101 [grifo do autor])
Em um exercício de síntese, Certeau (1998, p. 102) contrapõe as duas categorias de
forma ainda mais objetiva:

As estratégias são, portanto, ações que, graças ao postulado de um lugar de poder (a


propriedade de um próprio), elaboram lugares teóricos (sistemas e discursos
totalizantes), capazes de articular um conjunto de lugares físicos onde as forças se
distribuem. Elas combinam esses três tipos de lugar e visam dominá-los uns pelos
outros. Privilegiam, portanto, as relações espaciais.

As táticas, por sua vez,

são procedimentos que valem pela pertinência que dão ao tempo – às circunstâncias
que o instante preciso de uma intervenção transforma em situação favorável, à rapidez
de movimentos que mudam a organização do espaço, às relações entre momentos
sucessivos de um “golpe”, aos cruzamentos possíveis de durações e ritmos
heterogêneos etc.

O autor conclui estabelecendo uma última diferença: táticas e estratégias remetem a


duas opções históricas em matéria de ação e segurança, que respondem mais a coerções que a
possibilidades, e se distinguem por privilegiar de forma inversa, o espaço ou o tempo. Enquanto
a estratégia se afirma na prevalência do espaço sobre o tempo, a tática se constitui no inverso:
“as estratégias apontam para a resistência que o estabelecimento de um lugar oferece ao gasto
do tempo; as táticas apontam para uma hábil utilização do tempo, das ocasiões que apresenta e
também dos jogos que introduz nas fundações de um poder. (...) apostas feitas no lugar ou no
tempo distinguem as maneiras de agir” (CERTEAU, 1998, p. 102 [grifo do autor]). A
contraposição entre as ações de resistência próprias das táticas e as coerções impostas pelas
41

estratégias oferece, nos processos de autossegregação, um campo profícuo para análises e


reflexões.
Dentre os autores brasileiros que discutiram a noção de práticas espaciais de forma mais
objetiva, convém abordar as reflexões de dois pesquisadores do campo da geografia urbana,
Roberto Lobato Corrêa e Marcelo Lopes de Souza, em razão das relações que podem ser
estabelecidas entre as suas contribuições e as reflexões de Lefebvre e de Certeau.
Corrêa (2007, p. 69) inicia sua argumentação alertando que “não existe uma proposição
teórica explícita e clara sobre as práticas espaciais”. Não obstante, o autor reconhece a
existência de estudos que debruçaram sobre as ações dos agentes sociais, que ofereceram
aportes que podem conferir maior consistência teórica à essa noção.
Como práticas espaciais, Corrêa (2007, p. 68) define as “ações espacialmente
localizadas, engendradas por agentes sociais concretos, visando a objetivar seus projetos
específicos. Constituem ações individuais, não necessariamente sistemáticas e regulares,
caracterizadas por uma escala temporal limitada”. O autor destaca que a noção de práticas
espaciais é útil para a realização de estudos de casos que tem por objeto a ação de um agente
individual sobre uma área reduzida. Como exemplo de práticas espaciais, Corrêa cita a
seletividade espacial, a fragmentação-remembramento espacial e a antecipação espacial,
advertindo que elas não são mutuamente excludentes, podendo ser combinadas.
A seletividade espacial, segundo o autor, é a prática espacial mais comum, consumada
em decisões locacionais tanto na escala da rede urbana como do espaço intraurbano. Essa
prática espacial procede da negociação entre objetivos e possibilidades de um determinado
agente e interesses e possibilidades de outros agentes. A repetição sistemática e regular da
seletividade espacial numa mesma área conformará o processo de concentração espacial. A
oferta ou a disponibilidade de atributos como fertilidade do solo, sítio urbano, acessibilidade,
economias de aglomeração, status social elevado e vantagens fiscais são consideradas na
seletividade espacial.
A fragmentação-remembramento consiste na prática espacial efetivada pelo
fracionamento de grandes áreas em unidades espaciais menores, para fins rentistas, a exemplo
do parcelamento de extensas glebas localizadas nos limites do perímetro urbano, e na
concentração da propriedade fundiária, que pode possibilitar certo controle do mercado
imobiliário por esse grupo reduzido de agentes proprietários.
A antecipação espacial corresponde à instalação de uma determinada atividade em um
espaço antes que as condições favoráveis tenham sido garantidas, assegurando o controle prévio
da organização espacial naquela área. Essa prática tende a ser efetivada, especialmente por
42

grandes corporações, proprietários fundiários e redes hoteleiras, nas mediações do perímetro


urbano para onde se dirigem os vetores de expansão urbana, associada à transformação da terra
em reserva de valor.
É importante apontar que as práticas espaciais, tal como foram definidas e
exemplificadas por Corrêa, remete às ações de um grupo particular de agentes: as corporações.
Nesse sentido é possível associar as práticas espaciais elencadas por Corrêa à categoria
estratégia, conforme definida por Certeau. Nesse sentido, a seletividade pode ser entendida
como estratégia de apropriação de atributos, a fragmentação-remembramento como estratégia
de afirmação do poder de dispor com eficiência, e a antecipação como estratégia de submissão
do tempo aos ditames do espaço.
Corrêa (2007, p. 69) prossegue seu exercício de teorização enunciando que “a
singularidade da prática espacial transforma-se [sic], pela ação sistemática, regular e de maior
escala temporal, envolvendo uma ampla porção do espaço, em processo espacial”. E ainda “a
natureza pontual no espaço e no tempo estabelece a distinção entre prática espacial e processo
espacial”. Por processo espacial, o autor entende como:

um conjunto de forças atuando ao longo do tempo, viabilizando localizações,


relocalizações e permanências de atividades e população sobre o espaço da cidade.
Postos em ação pelos diversos agentes sociais da produção do espaço, os processos
espaciais constituem um movimento de massa, envolvendo uma sequência sistemática
e regular de ações em um período de tempo relativamente longo. Repetitividade e
duração longa são traços definidores dos processos espaciais, distinguindo-os das
práticas espaciais (CORREA, 2007, p. 68).

Corrêa exemplifica como processos espaciais a centralização urbana, a descentralização


urbana e a segregação residencial.
Para Marcelo Lopes de Souza (2013, p. 241), “práticas espaciais são práticas sociais em
que a espacialidade (a organização espacial, a territorialidade, a ‘lugaridade’) é um componente
nítido e destacado da forma de organização, do meio de expressão e/ou dos objetivos a serem
alcançados.” O autor afirma a importância do conceito de prática espacial uma vez que ele
estabelece “a ponte conceitual entre as relações sociais e o espaço”.
Souza (2013) propugna que a transformação da sociedade não deve ser travada apenas
no campo das relações sociais, mas também, e de forma imbricada, no campo do espaço social.
Nesse sentido, ele defende que essa transformação deve ser de natureza socioespacial,
mobilizando práticas de conteúdo social e também aquelas de conteúdo espacial ou
espacializante, sob a justificativa de que “em nenhuma circunstância é razoável pensar as
relações sociais sem pensar, junto, o espaço” (SOUZA, 2013, p. 237).
43

Souza (2013, p. 239) afirma de forma categórica que “toda prática espacial é,
necessariamente, uma prática social.” Ele prossegue sua argumentação enfatizando que “toda
prática espacial, assim como, mais amplamente, toda prática social, é uma ação (ou um
conjunto estruturado de ações) inscrita nos marcos de relações sociais” (Ibid., p. 241),
reafirmando a importância de articular a noção de prática espacial com os conceitos de relação
social e ação social.
Quanto à articulação entre as relações sociais e o espaço, Souza (2013) chama a atenção
para um aspecto metodológico importante, acionando o exercício dialético formulado por
Edward Soja (1993, p. 150), nas figuras da “ilusão de opacidade” e da “ilusão de transparência”.
Soja argumenta que a ilusão de opacidade consiste em um tipo de determinismo espacial, no
qual as relações sociais são entendidas como produtos das condições estabelecidas pelo espaço.
A ilusão de transparência, por sua vez, supõe um determinismo de ordem inversa ao anterior,
em que relações sociais são sobrevalorizadas a tal ponto que o espaço é reduzido a mero
receptáculo da ação social.
Ainda segundo Souza (2013, p. 246), nem todas as ações humanas devem ser
consideradas práticas espaciais, mas apenas aquelas que estejam impregnadas da dimensão
espacial da sociedade de um modo denso, complexo e constituinte. Essas práticas, segundo o
autor, se acham impregnadas da dimensão espacial da sociedade, e dizem respeito a aspectos
que vão da identidade de um grupo (e do indivíduo no seu interior) à organização socioespacial.
Souza argumenta ainda, que as práticas espaciais podem também ser qualificadas como
“práticas sociais densas de espacialidade”, admitindo, portanto que existam também práticas
sociais carentes de espacialidade.

Se nenhuma prática humana é totalmente independente do espaço social, por outro


lado é preciso admitir que muitas das ações humanas se mostram como sendo
dependentes da dimensão espacial da sociedade de um modo indireto, fraco, sem
grande complexidade ou, ainda, mais ou menos banal. É óbvio que a pesquisa sócio-
espacial [sic] pode e deve se interessar também por essas ações: seja porque elas se
entrelaçam com práticas espaciais, ou mesmo as condicionam ou lhes dão origem,
seja porque elas próprias se acham condicionadas pela espacialidade, às vezes de
maneira evidente e plena de consequências. Mas nem por isso devem ser consideradas
práticas espaciais. (SOUZA, 2013, p. 246)

Souza (2013, p. 246), ressaltando seu lugar de fala a partir da perspectiva autonomista,
destaca que as práticas espaciais podem ser de diversos tipos, servindo ora à heteronomia
(dominação, hierarquização, coerção, imposição de cima para baixo ou de fora para dentro),
ora à autonomia ou à luta contra a heteronomia (emancipação, autodeterminação, autogoverno
e livre instituição das leis pelo próprio corpo de cidadãos e autodefesa legítima).
44

As práticas espaciais heterônomas têm se apresentado no decorrer dos séculos e dos


milênios de muitas formas diferentes. De toda maneira, pode-se verificar que elas têm
em comum entre si o fato de que sempre visam à submissão, ao “adestramento”, ao
“amansamento” (ou mesmo à “domesticação”) e ao enquadramento subalterno dos
corpos e das mentes. Tais práticas espaciais coercitivas, às vezes também punitivas –
e sempre “liberticidas” – foram e têm sido, concretamente, de diversos tipos: de
dispersão, de (auto[s])segregação, de confinamento, de interdição de acesso, de
monopólio ou oligopólio de recursos espaciais, de organização da exploração do
trabalho, de indução de comportamentos e de adoração a fontes de poder
transcendentes.” (SOUZA, 2013, p. 248).

Diferentemente de Corrêa (2007), cuja atenção está na identificação e na crítica das


práticas espaciais de cunho corporativo, as contribuições de Souza (2013, p. 251-254) têm por
foco as práticas espaciais insurgentes, enquanto práxis transformadoras da realidade, do ponto
de vista político. O autor apresenta seis tipos de práticas espaciais insurgentes: (i) a
territorialização em sentido estrito, (ii) a territorialização em sentido amplo, (iii) a
refuncionalização/reestruturação do espaço material, (iv) ressignificação de lugares, (v) a
construção de circuitos econômicos alternativos, e (vi) a construção de redes espaciais.
A Territorialização, em sentido estrito, consiste na “apropriação”8 e no controle do
espaço por meio da presença física, que começam enraizadas em lugares específicos, mas
podem se desdobrar em levantes em múltiplas escalas, abrangendo um vasto espaço, a exemplo
da resistência anarquista na Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e do “território zapatista”, em
Chiapas, no México, em meados da década de 1990.
A Territorialização em sentido amplo é pautada por ações como: identificação de
territórios; contestação de direitos formais e prerrogativas de proprietários privados; e quebra
de regras espaciais impostas pelo Estado por meio de símbolos provocativos, sem a presença
física dos “transgressores/desafiadores”, a exemplo das ações clandestinas de grafitagem.
Diferentes da prática espacial anterior, normalmente, abertas e ruidosas, a territorialização em
sentido amplo são efetivadas de forma silenciosa em nível de barulho e “às escondidas”.
A Refuncionalização/reestruturação do espaço material supõe o ajuste do substrato
espacial material a novas necessidades, em função de novas relações sociais. Essa prática
espacial promove adaptações por meio de intervenções físicas que podem ser pontuais,
utilizando espaços preexistentes de uma maneira nova e criativa (refuncionalização), ou
estruturais, quando o substrato material é reconstruído ou intensamente modificado para abrigar
as novas relações sociais (reestruturação).

8
O uso de aspas é adotado por Souza, no texto original, e será explicado posteriormente.
45

A Ressignificação de lugares diz respeito às disputas em torno da imagem dos lugares,


travadas entre as práticas hegemônicas e as não-hegemônicas, em que a cultura, o simbolismo
e o discurso são mobilizados como “campos de batalha”. As representações espaciais, os relatos
sobre as histórias dos lugares, a toponímia e os debates sobre as supostas “vocações” dos
espaços e seus usos futuros compõem o arcabouço das disputas.
A Construção de circuitos econômicos alternativos tem por motivação a geração de
renda e o financiamento de atividades de cunho cultural, políticos etc. por movimentos
emancipatórios, com vistas a promover meios de produção, comercialização e consumo
alternativos, menos subordinados às relações capitalistas de produção.
A Formação de redes espaciais busca viabilizar, por meio de práticas multiescalares, a
formação de redes que integrem experiências de resistência de âmbito local ou regional. As
ações buscam articular territórios dissidentes e mobilizar solidariedade pública, visibilidade nos
meios de comunicação, eficiência logística e outras sinergias que podem alcançar, inclusive,
organizações e ativismos de âmbito internacional.
Enquanto as práticas espaciais identificadas e teorizadas por Corrêa (2007) guardam
relação com as estratégias, conforme formuladas por Certeau, as práticas espaciais
identificadas e conceituadas por Souza (2013) estão ligadas às táticas, teorizadas pelo filósofo
francês. O uso de aspas para se referir à “apropriação” nas práticas de territorialização em
sentido estrito, demonstra o cuidado de Souza para não absorver o discurso que embasa as
práticas estratégicas. As ações de cunho contestatório, de desobediência civil, com o uso de
símbolos provocativos remetem às posturas de desafio frente aos poderes constituídos, que
também são próprios das táticas. As manifestações às escondidas e em “silêncio” remetem à
emboscada, outro recurso da tática contra a estratégia. Por fim, as disputas sobre o significado
dos lugares travadas por práticas não-hegemônicas e formas alternativas de acesso a recursos
financeiros ao largo de entidades do mercado liberal, coroam a ligação entre as práticas
espaciais insurgentes sistematizadas por Souza (2013) e as táticas teorizadas por de Certeau
(1998)
Do ponto de vista da autossegregação é possível formular as hipóteses a seguir. Os
agentes do mercado imobiliário efetivam práticas espaciais corporativas, de cunho estratégico,
com vistas a assegurar o controle do espaço para maximização dos lucros. As estratégias
locacionais utilizadas pelas construtoras e incorporadoras para a implantação de residenciais
fechados incluem facilidades no deslocamento que permite o acesso rápido a determinados
estabelecimentos de comércio e serviços (shoppings, aeroportos, supermercados atacado-
varejistas, universidades etc.).
46

A autossegregação opera na forma de estratégia na medida em que mobiliza duas


formas de coerção: o aparato de segurança para impedir ou controlar o acesso dos que estão
fora e o regimento interno para assegurar a observância das regras pelos que estão dentro; ambas
operam com o controle do lugar como forma de ditar o gasto do tempo. Os operários da
construção civil que trabalham nas obras, no ambiente interno do residencial, têm a sua
permanência ali condicionada ao horário comercial: eles só podem entrar a partir das 7h00 ou
8h00 e devem sair até às 17h00 ou 18h00.
Os moradores, por sua vez, são submetidos a coerções definidas pelo regramento
previsto nos regimentos internos dos residenciais, a exemplo do período prescrito para o
funcionamento da área de lazer: o morador só pode permanecer na área de lazer em um período
específico ditado pelo horário de entrada e o horário de saída. O controle de acesso às áreas de
lazer dos residenciais impõe ao morador uma experiência de restrição que, para ele, só poderia
ser imposta aos “de fora”. Essa condição de estar ao mesmo tempo dentro e fora, é
experienciada em diferentes graus tanto pelos “de fora” quanto pelos “de dentro”, e o
compartilhamento dessa condição, para os que estão dentro, parece ser visto como inaceitável.
Os moradores dos residenciais podem realizar práticas individual-exclusivistas, de
cunho estratégico, ou práticas insurgentes, a depender de seus interesses. Quando se posicionam
contrários ao acesso de não residentes para fins de controle espacial, os moradores operam com
práticas espaciais de cunho estratégico; quando transgridem determinadas regras de
convivência indevidas, mas instituídas pelas associações de moradores, eles operam com
práticas de cunho tático.
47

2.2 Habitus

O conceito de habitus foi teorizado por dois autores de importância fulcral para as
ciências sociais, no século XX: Norbert Elias e Pierre Bourdieu. Guardadas as particularidades
das conceituações dos dois autores, o habitus pode ser definido como um conjunto de
propensões não-conscientes (disposições), internalizadas a partir das interações sociais, que
orientam nossos modos de perceber, de sentir e de pensar, e nos conduz a agir de determinada
forma, em um determinado círculo social amplo ou restrito (campo, em Bourdieu; figuração,
em Elias) (BOURDIEU, 2007, 2011; ELIAS, 1994, 2001).
O conceito de habitus abriu perspectivas para os estudos das classes sociais na
sociologia e na antropologia, possibilitando uma compreensão mais abrangente e complexa da
segmentação social. As classes sociais, até então compreendidas exclusivamente como divisões
resultantes das relações de trabalho e caracterizadas por indicadores quantitativos como salário
e renda passaram, a partir da teorização sobre o habitus, a ser também estudadas a partir de uma
abordagem de cunho mais qualitativo.
Casanova (1995) aponta que a noção de habitus, cunhada a partir do hexis de Aristóteles,
foi introduzida na reflexão filosófica por Boécio e São Tomás de Aquino. Os escolásticos
entendiam o habitus associado à ideia de que as ações encerravam uma intenção objetiva que
ultrapassava sempre suas intenções conscientes. Segundo o autor, essa conceituação teria
inspirado as teorizações posteriores.
O termo teria aparecido de forma pontual nas reflexões dos clássicos da sociologia,
como Émile Durkheim e Max Weber, e ganhou relevância a partir dos estudos de Marcel
Mauss, no contexto do surgimento da antropologia como disciplina, no início do século XX.
Para Mauss (apud CASANOVA, 1995, p.46), “estes ‘habitos’ variam não apenas com os
indivíduos e suas imitações, mas sobretudo com as sociedades, as educações, as conveniências
e os modos, os prestígios”. E continua, “é preciso encará-los como técnicas e como elaboração
da razão prática coletiva e individual”. Mauss abordou ainda a dimensão corporal do habitus e
de sua produção através da interiorização de disposições envolvidas nas relações sociais e no
processo de socialização.
Norbert Elias operou com a noção de que a sociedade e o indivíduo não podem ser
compreendidos como conceitos estanques, mas imbricados. Nesse sentido, o pensador referiu-
se ao habitus individual e ao habitus social, sendo esse último o formador das características
pessoais, se constituindo numa “segunda natureza”. Para o autor, o habitus seria incorporado a
partir da participação dos indivíduos nas figurações, que se constituem a partir de relações de
48

interdependência entre os sujeitos. A categoria figuração foi formulada por Elias como antítese
ao homo clausus, fundado na concepção de indivíduo segundo uma dimensão atomística, livre
e autônoma em relação à sociedade (ELIAS, 1994).
Elias exemplifica a figuração comparando-a com as danças de salão. Para haver dança,
se faz necessário “uma pluralidade de indivíduos reciprocamente orientados e dependentes”
(ELIAS, 1994, p. 250). A dança oferece a imagem de combinações móveis formadas por
pessoas interdependentes. Refletindo a partir da analogia proposta por Elias, é importante
destacar que as coreografias predizem os movimentos necessários para assegurar coesão e
sincronia ao conjunto. Por coincidência etimológica, os diferentes “passos” ou coreografias
executados nas danças de salão são também denominados “figuras”. Os movimentos de cada
um são influenciados pelos movimentos dos demais, assim como exerce influência sobre esses.
Cada estilo de dança delimita um conjunto de possibilidades, inclusive fisicamente. Nos
concursos de dança de salão, o palco é delimitado de modo a definir o espaço onde a
apresentação deve ser realizada. Se os dançarinos extrapolam o limite físico determinado, sua
apresentação é penalizada com perda de pontos ou desclassificação. As figurações, portanto,
constituiriam organizações sociais de diferentes níveis de abrangência como: família, grupo
religioso e ambiente de trabalho, podendo se estender ao Estado ou à sociedade, no seu
conjunto.
Para Bourdieu, o habitus se expressaria ou se objetivaria no campo. Os campos seriam
como microcosmos autônomos no interior do mundo social e todo campo se caracterizaria por
agentes dotados de um mesmo habitus (THIRY-CHERQUES, 2006, p. 36). Para exemplificar
a relação entre campo e habitus, Bourdieu utilizou a imagem de um compositor diante do seu
piano. O exercício de composição parece, de início, um universo infinito de possibilidades.
Porém, o instrumento impõe restrições, pois o teclado (campo) dispõe de um número
determinado de teclas que correspondem a doze notas musicais (habitus) que se repetem em
progressivas oitavas. Essa estrutura (campo), formada de códigos e preceitos incorporados pelo
compositor (habitus), possibilita que ele improvise, criando melodias a partir da combinação
das notas. Contudo, por mais criativo que ele seja, sua composição está sujeita a um universo
de possibilidades limitado.
Em “A sociedade dos indivíduos”, Elias (1994) define o habitus como a
indissociabilidade entre a autoimagem e a composição social dos indivíduos:

A mudança em minha abordagem do problema da relação entre indivíduo e sociedade


[...] sem dúvida reflete modificações específicas ocorridas nos indivíduos e sociedades
nesse mesmo período. Reflete, portanto, mudanças na maneira como a sociedade é
compreendida, e até na maneira como as diferentes pessoas que formam essas
49

sociedades entendem a si mesmas: em suma, a auto-imagem e a composição social —


aquilo a que chamo o habitus — dos indivíduos.

Para Elias, a auto-imagem consiste numa dualidade entre interior e exterior em que o
indivíduo se percebe “dentro” de si, com seu “eu verdadeiro”, como se ele existisse inteiramente
só, sem relacionamento com os outros, e que só “depois” assumiria uma “roupagem externa” e
se relacionaria com os outros “do lado de fora”. Essa auto-imagem padronizada, difundida e
falaciosa, segundo o autor, é produzida a partir de uma “diferenciação e uma tensão
especialmente intensas entre as ordens e proibições sociais inculcadas como autodomínio e os
instintos e inclinações não controlados ou recalcados dentro do próprio ser humano” (ELIAS,
1994, p.32) e que esse tipo de autoconsciência corresponde à estrutura psicológica estabelecida
em certos estágios de um processo civilizador.
Essa auto-imagem, marcada por um abismo e um conflito intenso experimentados pelas
pessoas altamente individualizadas, reproduz nas mentes dos indivíduos a ideia de indivíduo e
sociedade como dimensões isoladas ou em conflito insolúvel. Ainda segundo Elias (1994, p.
132) “a maneira como a sociedade promove a adaptação do indivíduo a suas funções adultas
acentua, com muita frequência, a cisão e a tensão internas a seu psiquismo”.
A preparação das crianças e dos jovens para a vida adulta, fundado numa gama variada
de funções, mas todas elas muito especializadas, deixam um campo muito restrito para as
faculdades e inclinações dos indivíduos. Desta forma, essa dimensão das inclinações
representaria para o indivíduo a sua dimensão interior, reprimida pelas funções especializadas,
como “roupagens externas”, pretensamente exigidas como requisitos para a vida em sociedade.
Elias (1994, p.34) aponta que “nessa situação, com frequência parece ao indivíduo que seu
verdadeiro eu, sua alma, está trancafiado em algo alheio e externo, chamado ‘sociedade’, como
que numa cela”, e que essa concepção se apresenta limitada se considerados os objetivos dos
estudos sociológicos:

A concepção subjacente a todas essas ideias, a antítese entre o “eu puro” — objeto da
psicologia —, que estabelece relações com as outras pessoas como que vindo de fora,
e a sociedade — objeto da sociologia —, que se opõe ao indivíduo como algo que
existe fora dele, essa concepção sem dúvida tem certo valor como expressão de
determinado estágio histórico da rede humana e da forma correspondente de
autoconsciência humana. Mas revela-se insuficiente quando o campo de investigação
é ampliado, quando o indivíduo não parte diretamente de si e de seus sentimentos ao
refletir sobre a sociedade, mas vê a si mesmo e a sua autoconsciência no contexto
mais amplo da evolução histórica (ELIAS, 1994, p. 34).

Quanto à composição social, Elias aponta que, na evolução histórica das sociedades
humanas, o caráter de evidência das relações interpessoais tende a desaparecer na medida em
que as relações de parentesco muito presentes nas sociedades tribais passam a ser transformadas
50

em relações funcionais decorrentes da criação dos Estados Nacionais. Se por um lado, o Estado
elimina as diferenças entre as pessoas, por meio de aparatos burocráticos de identificação e
arrecadação (indivíduos identificados com números), por outro, esse mesmo Estado diferencia
e controla as faculdades individuais por meio do monopólio do controle e da normalização.
Apesar do caráter de evidência ser cada vez menos perceptível no âmbito do senso
comum, Elias (1994, p. 150) destaca que “cada pessoa singular, por mais diferente que seja de
todas as demais, tem uma composição específica que compartilha com outros membros de sua
sociedade”. E continua,
a composição social dos indivíduos, como que constitui o solo de que brotam as
características pessoais mediante as quais um indivíduo difere dos outros membros de
sua sociedade. Dessa maneira, alguma coisa brota da linguagem comum que o
indivíduo compartilha com outros e que é, certamente, um componente do habitus
social – um estilo mais ou menos individual, algo que poderia ser chamado de grafia
individual inconfundível que brota da escrita social (ELIAS, 1994 p.150).

A noção de habitus, para Nobert Elias, oferece a possibilidade de superar um problema


epistemológico que marcou os estudos sociológicos até meados do século XX e que ainda
permanece em certos campos: a cisão entre indivíduo e sociedade. Teorizado a partir de uma
dialética entre essas duas categorias, o conceito de habitus social permitiu “introduzir os
fenômenos sociais no campo da investigação científica, que antes lhes era inacessível” (ELIAS,
1994, p. 150).
Pierre Bourdieu, por sua vez, iniciou sua teorização acerca do habitus a partir do
trabalho etnográfico por ele realizado entre os kabílios, no Saara Argelino. Da sua reflexão
sobre a forma como a sociedade kabília operava - com a afirmação do sentimento de honra e a
recusa ao domínio dos interesses, numa tentativa de sobrepujar o segundo pelo primeiro –,
emergiu a categoria dissimulação que, mais tarde, foi incorporada às propriedades do conceito
de habitus.
Em Pierre Bourdieu, o habitus pode ser entendido como um sistema de disposições,
como tendências incorporadas pelos atores em razão dos modos como o processo de
socialização é experimentado por eles, especificamente na sua inserção social em determinados
campos como o religioso, o intelectual, o científico e o cultural. O habitus preside o universo
de escolhas e as práticas sociais desses atores. Para Bourdieu, o habitus é:

um sistema de disposições duráveis e transponíveis que, integrando todas as


experiências passadas, funciona a cada momento como uma matriz de percepções, de
apreciações e de ações, e torna possível a realização de tarefas infinitamente
diferenciadas, graças a transferências analógicas de esquemas que permitem resolver
os problemas de modo semelhante e graças a correções incessantes dos resultados
obtidos, dialeticamente produzidos por esses resultados (BOURDIEU, 1983, p. 65).
51

Para Bourdieu, as disposições são determinadas pelas condições sociais estruturais


presentes no processo de socialização dos atores, e, ao mesmo tempo, concorrem para a
determinação das práticas desses atores. A disposição “exprime, em primeiro lugar, o resultado
de uma ação organizadora, apresentando então um sentido próximo ao de palavras tais como
estrutura; designa, por outro lado, uma maneira de ser, um estado habitual (em particular do
corpo), e em particular, uma predisposição, uma tendência, uma propensão, ou uma
inclinação” (BOURDIEU, 1983, p. 61).
Segundo Thiry-Cherques (2006, p. 33) e Peters (2009, p. 18) o habitus é composto pelas
dimensões cognitiva (eidos), normativa (ethos) e corpóreo-afetiva (hexis). O eidos se refere a
um modo de pensar específico, a uma apreensão intelectual da realidade fundada em uma crença
pré-reflexiva. O ethos corresponde a um conjunto de disposições morais, de valores e princípios
em estado prático, não-consciente, que regem a moral cotidiana do agente. O hexis consiste nos
princípios interiorizados pelo corpo, tais como posturas, expressões corporais, uma aptidão
corporal que não é inata, mas adquirida. Embora distintas, as três dimensões se encontram
articuladas no habitus “e operam de modo combinado e simultâneo na produção das práticas e
representações dos atores” (Ibid., p. 20).
Casanova (1995) sistematizou a compreensão do habitus teorizado por Bourdieu a partir
das propriedades das disposições. A pergunta norteadora que mobilizou o autor foi: quais são
as propriedades das disposições e como se organizam de maneira a constituir um habitus?
Segundo Bourdieu, o habitus é “um sistema de disposições duráveis e transponíveis que
exprime, sob a forma de preferências sistemáticas, as necessidades objetivas das quais ele é o
produto” (BOURDIEU, 1983, p.82).
A partir dessa definição, a primeira propriedade que se pode atribuir às disposições é
que elas são duráveis, ou seja, mantêm sua estrutura de forma relativamente inalterada face a
mudanças de conjuntura ou de circunstância. A propriedade da transponibilidade pressupõe
que certas tendências podem ser concretizáveis em práticas sociais diversas na aparência e em
realidade sem deixarem por isso de apresentar uma equivalência. Essa propriedade guarda
relação com a dissimulação, ou seja, mesmo quando se observam práticas aparentemente
contraditórias esta equivalência está presente, pois “um mesmo habitus pode engendrar tanto
uma prática como o seu inverso, uma vez que tem por princípio a lógica da dissimulação”
(BOURDIEU, apud CASANOVA, 1995, p.51).
As disposições também têm propriedades de conteúdo dialético: são estruturadas e
estruturantes, são sistêmicas e sistemáticas. As disposições são estruturadas (objeto) e
estruturantes (sujeito), na medida em que são determinadas (produto) pelas condições sociais
52

mais estruturais presentes no processo de socialização dos atores; mas, simultaneamente,


concorrem para a determinação (produtoras) das práticas desses atores. Nas palavras de
Bourdieu, as disposições são

duráveis, estruturas estruturadas predispostas a funcionarem como estruturas


estruturantes, isto é, como princípio que gera e estrutura as práticas e as representações
que podem ser objetivamente “regulamentadas” e “reguladas” sem que por isso sejam
o produto de obediência a regras, objetivamente adaptadas a um fim [...].
(BOURDIEU, 1983, p. 61).

As disposições constitutivas do habitus apresentam propriedades afins ao seu conjunto


- o seu caráter sistêmico -, que consiste numa influência recíproca entre essas tendências,
conferindo especificidade e unidade ao conjunto das relações aí presentes. O caráter
sistemático das disposições, diz respeito à regularidade, à concertação e à unificação das
práticas, pois os resultados dessas interrelações entre disposições (as práticas sociais), não
variam aleatoriamente, apresentam repetições, semelhanças, regularidades, equivalências e
homologias na sua variabilidade visível: “a sistematicidade implica numa face do sistema de
disposições como unificadora da expressão das práticas” (CASANOVA, 1995). Nas palavras
de Bourdieu:

A sistematicidade e a unidade só estão no opus operatum porque elas estão no modus


operandi: elas só estão no conjunto das "propriedades", no duplo sentido do termo, de
que se cercam os indivíduos ou grupos – casas, móveis, quadros, livros, automóveis,
álcoois, cigarros, perfumes, roupas – e nas práticas em que se manifesta sua distinção
– esportes, jogos, distrações culturais – porque estão na unidade originariamente
sintética do habitus, principio unificador e gerador de todas as práticas (BOURDIEU,
1983, p.83).

O conceito de habitus apresenta diversas potencialidades teórico-metodológica para o


estudo dos processos e fenômenos relacionados à sociedade e ao indivíduo, de forma imbricada,
uma vez que “o habitus permite estabelecer uma relação inteligível e necessária entre
determinadas práticas e uma situação, cujo sentido é produzido por ele em função de categorias
de percepção e de apreciação” (BOURDIEU, 2007, p. 96). Ainda segundo o autor, estas
categorias são produzidas por uma condição objetivamente observável, possibilitando a
sistematização como objeto científico.
Outra potencialidade relevante tem relação com a transversalidade que o conceito de
habitus possibilita no trato dos diversos níveis de análise, passando pela sociedade no seu
conjunto, pelas classes sociais, pela família até o indivíduo. Essa transversalidade é possível
devido à centralidade que o conceito confere ao ator social (CASANOVA, 1995, p.54).
53

A potencialidade do habitus como categoria-chave para o estudo da segregação


socioespacial está presente no texto clássico “Efeitos de lugar”, em que Bourdieu discute o
conceito em relação ao capital simbólico, ao espaço social e ao espaço físico. O autor aponta
que o espaço físico e o espaço social estão imbricados e que o acesso às melhores posições ou
localizações está em constante disputa. Segundo Bourdieu:

O sucesso nas disputas depende do capital acumulado (sob suas diferentes espécies).
De fato, as oportunidades médias de apropriação dos diferentes bens e serviços
materiais ou culturais [...] especificam-se pelos diferentes ocupantes desse habitat
segundo as capacidades de apropriação (materiais – dinheiro, meios de transporte
particulares – e culturais) que cada um detém como propriedade. Pode-se ocupar
fisicamente um habitat sem habitá-lo propriamente falando se não se dispõem dos
meios tacitamente exigidos, a começar por um certo habitus (BOURDIEU, 2011,
p.165)

E continua:
Se o habitat contribui para fazer o habitus, o habitus contribui também para fazer o
habitat através dos costumes sociais mais ou menos adequados que ele estimula a
fazer. Vê-se, assim, inclinado a pôr em dúvida a crença de que a aproximação espacial
de agentes muito distantes no espaço social pode, por si mesma, ter um efeito de
aproximação social: de fato, nada é mais intolerável que a proximidade física
(vivenciada como promiscuidade) de pessoas socialmente distantes (BOURDIEU,
2011, p.165).

É notória a contribuição do conceito de habitus para a dissolução do binômio teórico


entre “indivíduo” e “sociedade”, que produz equívocos e incompatibilidades no entendimento
das articulações entre os comportamentos de grupos e os denominados “individuais”. Através
do conceito de habitus, é possível o entendimento de que o individual, e mesmo o pessoal, o
subjetivo, é social, coletivo. Segundo Bourdieu, o habitus é uma subjetividade socializada.
Sobre os conceitos de campo e habitus, cabe tecer algumas considerações preliminares,
formuladas a partir da vivência do pesquisador como residente em Arapiraca-AL há sete anos,
primeiro em um edifício de apartamentos e, atualmente, em uma casa em residencial fechado.
O campo que a presente pesquisa debruça é aquele formado pelos moradores de espaços
fechados, mas restringe o recorte ao subcampo que abarca os moradores de casas em
residenciais fechados, excluindo, portanto, os residentes em edifícios de apartamentos.
No caso de Arapiraca-AL, parte considerável dos moradores de apartamentos parece ser
formada por uma população flutuante, que se desloca de forma pendular da capital ou dos
municípios vizinhos para trabalhar na cidade, em dias úteis. Nos fins de semana, retornam ao
município de origem. O apartamento consiste, em geral, numa segunda residência, utilizada
como estadia para reduzir a distância e o tempo de deslocamento até o local de trabalho. A
opção pela residência em apartamento, em Arapiraca-AL parece ser motivada pela busca de
54

privacidade, discrição e segurança, em especial, por profissionais cujo campo de atuação


envolve riscos pessoais. As redes de relações desses moradores se encontram, em geral, fora de
Arapiraca-AL, já que seus laços familiares e de amizade estão, em maior parte, no município
de origem. As relações de vizinhança que, em edifícios de apartamentos, tendem a ser distantes
e impessoais, em Arapiraca-AL, são praticamente inexistentes. A relação desses moradores
com os espaços da cidade tende a ter um caráter pontual, repetitivo e funcional.
No que tange ao habitus, o baixo número de edifícios verticais em Arapiraca-AL, torna
a residência em apartamento uma experiência de exclusividade e, consequentemente, uma
expressão de status. O paradoxo disso é que os apartamentos disponíveis em Arapiraca-AL são,
geralmente, pequenos (entre 55 e 70 metros quadrados) e o valor do aluguel é muito alto quando
comparado ao cobrado por uma casa com o dobro do tamanho, no mesmo bairro. A
singularidade do edifício impunha aos que adentravam, certa deferência. No apartamento onde
o pesquisador residiu só tinha um elevador. Por diversas vezes, quando um morador entrava no
elevador, o funcionário do condomínio ou prestadores de serviço optavam por descer ou subir
pelas escadas, por mais que os chamasse para compartilhar o elevador. O elevador era visto
como um artigo de luxo, reservado prioritariamente aos moradores e não como um meio de
locomoção vertical para todos. O uso desse equipamento de forma segregada, indica a
internalização de um habitus exclusivista e afirmativo de distinção, separando moradores e
funcionários.
O subcampo que constitui o recorte propriamente dito da pesquisa, os moradores de
espaços residenciais fechados, conforma um grupo que reside na cidade. Ainda que parte dos
moradores sejam oriundos de outros municípios, como empresários, profissionais autônomos e
professores universitários, eles se estabeleceram em Arapiraca-AL e utilizam a casa no
residencial fechado como primeira residência.
Diferentemente do morador de apartamento, o morador de casa em residencial fechado
parece querer ser visto e notado pelos demais moradores. Os investimentos feitos nas casas, as
formas de participação nas assembleias e a atuação nos grupos virtuais das associações de
moradores atestam isso. A rede de relações que reúne amigos e colegas de trabalho está
concentrada em Arapiraca-AL, enquanto as relações familiares se encontram tanto em
Arapiraca-AL (para os moradores naturais da cidade), quanto nas cidades de origem (para os
moradores “de fora”). As relações de vizinhança aparentam são mais estreitas do que nos
edifícios de apartamento, havendo maior interação entre vizinhos, embora os níveis de
aproximação variem de acordo com o padrão dos residenciais: nos residenciais de padrão mais
baixo, a interação entre vizinhos é maior. As relações com a cidade tendem a ser mais
55

recorrentes, diversificadas e amplas do que aquelas estabelecidas pelos moradores de edifícios


de apartamentos. No interior dos empreendimentos as regras de conduta procuram balizar o
comportamento dos moradores, visitantes e prestadores de serviço (Figuras 6A, 6B e 6C).

Figura 6 – Residencial fechado, em Arapiraca-AL. Placas indicando proibições e normas de conduta


fixadas: (A) na guarita de entrada, e (B) na alameda principal de um.
(A)

Fonte: O autor (2020)


(B)

Fonte: O autor (2020)


56

O senso comum, aceito e incorporado, que permeia as relações entre vizinhos está
apoiada no trinômio (i) valorização do espaço coletivo como condicionante da valorização do
patrimônio pessoal (casa ou terreno) (“estamos investindo no residencial para assegurar a
valorização dos nossos imóveis”); (ii) a observância das regras estabelecidas internamente
como instauração de um processo civilizador (“o descumprimento das normas é falta de
consciência e de respeito com a coletividade”); e (iii) a afirmação do residencial como um
espaço de liberdade (“aqui, as crianças brincam livres”). Essas análises, ainda preliminares,
foram abordadas com maior profundidade no capítulo 6.

2.3 Aspectos metodológicos

Na pesquisa empírica foram utilizadas três técnicas para a coleta de dados primários:
entrevista semiestruturada, questionário online e observação estruturada não-participante.
De acordo com Marconi e Lakatos (2003, p. 195) “a entrevista é um procedimento
utilizado na investigação social, para a coleta de dados ou para ajudar no diagnóstico ou no
tratamento de um problema social”. Para Richardson (2012, p. 208) “o termo entrevista refere-
se ao ato de perceber realizado entre duas pessoas”.
Manzini (1990/1991, p. 154) subdivide a técnica de entrevista em três grupos:
estruturadas, semiestruturadas e não estruturadas. A entrevista estruturada consiste em
perguntas fechadas apresentadas ao entrevistado sempre na mesma ordem. Esse tipo de
entrevista é o mais adequado quando as respostas são limitadas e conhecidas e os dados a serem
coletados são de natureza mais descritiva. Na entrevista semiestruturada é formulado um roteiro
de perguntas na forma de questões abertas, que podem ser complementadas a depender das
circunstâncias da entrevista, sendo recomendado o uso de um gravador. Ela é mais adequada
quando se deseja obter informações resultantes dos relatos e associações que o entrevistado faz
de forma mais livre. A entrevista não estruturada fundamenta-se em um questionamento inicial,
que serve como estímulo para, em seguida, as informações emergirem das associações e
experiências do entrevistado.
Para Triviños (1987, p. 146), a entrevista semiestruturada é uma das principais técnicas
de coleta de dados em pesquisa qualitativa, pois “ao mesmo tempo que valoriza a presença do
investigador, oferece todas as perspectivas possíveis para que o informante alcance a liberdade
e a espontaneidade necessárias, enriquecendo a investigação”.
Para Shostak e Barbour (2015, p. 102), “a ‘EntreVista’ é uma maneira de reunir diversas
57

opiniões das pessoas; (...) é a condição precisa para o diálogo reflexivo crítico em espaço
público surgir e ser mantido e para que se estruture um consenso provisório ‘para todos os fins
práticos’”. Segundo os autores, o uso da técnica de entrevista demanda atenção acerca dos
seguintes conceitos: (i) as estruturas de poder que formam o contexto da troca entre
entrevistador e entrevistado; (ii) a posição social, relacionadas ao contexto dos arranjos em cena
(estruturas legais, econômicas, religiosas, comunitárias, organizacionais, culturais, de gênero,
étnicas etc.); (iii) o valor das palavras dos entrevistados como ‘testemunho’ de um modo de
viver; (iv) a confiança, cuja ausência pode comprometer as condições para uma comunicação
sincera, abrindo espaço para dissimulações; (v) o significado das palavras, que podem ser
diferentes para entrevistador e entrevistado; (vi) a interpretação balizada pela definição de
regras, enfoques e arcabouços que permita escolher interpretações adequadas e significativas
para os distintos significados; e (vii) a incerteza, na medida em que os múltiplos significados e
as diversas interpretações podem criar certa atmosfera de instabilidade.
Para alcançar os objetivos propostos por esta tese, foi empregada a entrevista do tipo
semiestruturada, pois ela possibilita a coleta de dados com perguntas direcionadas e assegura
ao entrevistado maior liberdade para narrar sua experiência face o objeto do estudo.
O questionário, para Marconi e Lakatos (2003, p. 201), “é um instrumento de coleta de
dados, constituído por uma série ordenada de perguntas, que devem ser respondidas por escrito
e sem a presença do entrevistador. Em geral, o pesquisador envia o questionário ao informante,
[...] depois de preenchido, o pesquisado devolve-o do mesmo modo.”
Dentre as vantagens deste instrumento de coleta de dados elencadas por Marconi e
Lakatos (2003, p. 201), podem ser destacadas: economia de tempo, deslocamento e com
pessoal; atinge maior número de pessoas simultaneamente; abrange área geográfica mais
ampla; respostas mais rápidas e mais precisas; maior liberdade e segurança, em razão do
anonimato assegurado ao respondente; menor risco de distorção, pela menor influência do
pesquisador; e maior tempo e flexibilidade de horário. Dentre as desvantagens mencionadas por
elas, podem ser apontadas: baixo retorno dos questionários respondidos; o informante não pode
ser auxiliado em questões mal compreendidas; pessoas analfabetas não conseguirão responder;
impossibilidade de verificar se o respondente foi de fato o destinatário do questionário; e
exigência de um universo mais homogêneo.
Triviños (1987, p. 137) pondera que “o questionário fechado, de emprego usual no
trabalho positivista, também o podemos utilizar na pesquisa qualitativa. Às vezes, o pesquisador
desta última linha de estudo precisa caracterizar um grupo de acordo com seus traços gerais.”
De acordo com Richardson (2012, p.189) “os questionários cumprem pelo menos duas funções:
58

descrever as características e medir determinadas variáveis de um grupo social.” Com base na


explanação dos autores, o questionário é útil para caracterizar um determinado grupo social, no
caso da presente tese, os moradores de espaços residenciais fechados em Arapiraca-AL.
A observação é uma técnica de pesquisa de campo muito utilizada na investigação
científica. Someck e Jones (2015, p. 183) a definem como um dos métodos mais importantes
de coleta de dados: “ela implica em estar presente em uma situação e registrar as impressões
causadas pelo que acontece. O principal instrumento de pesquisa é o eu, que colhe
conscientemente dados mediante a visão, o ouvido, o gosto, o cheiro e o toque”. As autoras
ressaltam ainda que o registro da observação deriva das escolhas realizadas pelo pesquisador
sobre o que observar e o que registrar no momento da observação.
Para Marconi e Lakatos (2003, p. 190), “a observação é uma técnica de coleta de dados
para conseguir informações e utiliza os sentidos na obtenção de determinados aspectos da
realidade. Não consiste apenas em ver e ouvir, mas também em examinar fatos ou fenômenos
que se desejam estudar”. As autoras subdividem a observação em diferentes categorias
considerando como critérios: os meios utilizados (estruturada e não estruturada); a participação
do observador (participante ou não participante), dentre outros.
A observação não estruturada ou assistemática consiste em registrar os fatos de forma
espontânea, ocasional e casual, sem definir previamente os aspectos a serem observados. A
observação estruturada ou sistemática, por outro lado, é planejada e parte de um roteiro pré-
estabelecido indicando o que deve ser observado e registrado. Na observação estruturada não-
participante, o pesquisador acessa a realidade estudada presenciando, observando e registrando
os fatos, mas sem participar ativamente deles. O pesquisador desempenha um papel que se
aproxima de um espectador, mas sua observação deve ser consciente, dirigida e ordenada para
os objetivos pré-estabelecidos. Na observação participante, o pesquisador realiza uma imersão
visando sua incorporação ao grupo, participando ativamente do cotidiano da comunidade
pesquisada e interagindo diretamente com ela (MARCONI E LAKATOS, 2003).
Considerando esta técnica, foi selecionada a observação estruturada não-participante
como a mais adequada para a coleta de dados no presente trabalho, pois possibilita ao
pesquisador o registro das observações de forma presencial, sem, contudo, interagir diretamente
com os fatos observados.
59

3 ESPAÇOS RESIDENCIAIS FECHADOS: CONCEITUAÇÃO E TIPOLOGIA

A compartimentação do espaço urbano em frações cada vez mais homogêneas quanto


aos conteúdos social e econômico, vem confrontando o ideal de cidade formulado no advento
da modernidade. A nova questão urbana elenca a autossegregação como um dos principais
problemas da cidade contemporânea, juntamente com o aprofundamento das desigualdades
sociais, a fragmentação espacial, a hegemonia do planejamento urbano em bases empresariais
e a privatização dos serviços urbanos que desfigura o cidadão em cliente.
A segregação voluntária ou autossegregação não é um processo espacial novo. Desde
os primórdios da cidade industrial, a classe trabalhadora tem sido alijada do acesso à moradia
digna e ao saneamento básico enquanto a escolha das melhores localizações foi resguardada às
classes privilegiadas. A cidade moderna, planejada sob os cânones do urbanismo racional-
funcionalista, manteve sob as leis de zoneamento os privilégios das classes abastadas,
favorecidas pelos coeficientes de ocupação e adensamento. Porém, na cidade contemporânea,
a compartimentação da vida urbana ganha contornos cada vez mais marcados e os espaços
autossegregados são a expressão mais visível desse fenômeno.
Do ponto de vista do processo espacial mais amplo, parte dos autores entendem a
autossegregação como um componente da segregação urbana (LEFEBVRE, 2004; VILLAÇA,
2001; CORREA, 2013; CASTELLS, 2009), enquanto outros o compreendem como parte da
fragmentação socioespacial (SALGUEIRO, 1998; PREVOT-SHAPIRA, 2001; NAVEZ-
BOUCHANINE, 2002; LACERDA, 2012; SPOSITO e SPOSITO, 2020).
A argumentação em defesa da fragmentação socioespacial está assentada no fato de que
as transformações no âmbito do capitalismo alteraram as formas de produção do espaço urbano
a partir dos anos 1970 e que o arcabouço léxico atinente aos estudos sobre a cidade deve
acompanhar essas mudanças, criando novos conceitos para entender novas realidades. Segundo
essa abordagem, a segregação urbana foi um conceito útil para explicar a desigualdade social
na cidade fordista, sob a égide da questão urbana anterior, formulada por Castells, em meados
dos anos 1970, mas que não responde ao fenômeno na cidade contemporânea, pós-fordista,
mais diferenciada socialmente, cujas dinâmicas de produção do espaço constitui uma nova
questão urbana.
Não obstante, parte dos autores destacam que a separação física é um componente
fundante da segregação. Deste modo, o aumento da procura por espaços residenciais fechados
pode ser abordado como um fenômeno de autossegregação. Essa designação é passível de
problematização na medida que o entendimento corrente do que seja segregação supõe uma
60

ação de grupos dominantes sobre grupos desfavorecidos, no sentido de impor confinamento de


natureza social e espacial, a exemplo das prisões, com restrições a direitos. Desse modo, a
segregação suporia o acúmulo de desvantagens em diversos níveis e, portanto, a
autossegregação se apresentaria como uma espécie de autoimposição de restrições, mas não é
disso que se trata. A autossegregação resultante de uma escolha por morar em espaços
residenciais fechados engendra estratégias que privilegiam acesso rápido a equipamentos de
consumo, soluções privatistas para problemas urbanos e uso exclusivo de espaços que deveriam
ser abertos à coletividade.

3.1 Espaços residenciais fechados: discussão conceitual

A reflexão sobre espaços autossegregados, como atesta o título desse subcapítulo, é


marcada por uma multiplicidade de designações e conceitos que variam de acordo com a
realidade urbana e o idioma em cada país. Gated communities, fortress city, cidadels, barrios
cerrados, urbanizaciones cerradas, fraccionamientos cerrados, ensembles résidentiels
sécurisés, enclaves fortificados, condomínios fechados, condomínios deitados e loteamentos
fechados estão entre as denominações e conceitos atinentes ao tema.
O objetivo dessa seção do trabalho é escrutinar essas diferentes denominações,
estabelecendo a distinção entre designações, entendidas como termos utilizados para nomear
empreendimentos residenciais, incorporando neles elementos de marketing e do senso comum;
e conceitos, dotados de conteúdo teórico, com potencial elucidativo dos processos
socioespaciais que caracterizam tais empreendimentos. Foram selecionados dentre os diversos
conceitos e designações, aqueles que apareceram de forma mais recorrente na bibliografia
consultada: gated communities (comunidades fechadas), enclaves fortificados, cidadelas,
barrios cerrados (bairros fechados), urbanizaciones cerradas (urbanizações fechadas),
condomínios fechados, enclaves fortificados e ensembles résidentiels sécurisés (conjuntos
residenciais seguros).
Vários autores chamaram a atenção para essa diversidade de denominações, alertando
que elas parecem engendrar diferentes conteúdos, relacionados a particularidades locais
(PATRIOTA DE MOURA, 2010; CAPRÓN, 2004; JANOSCHKA e GLASZE, 2003;
HIDALGO e BORSDORF, 2005). Essas particularidades serão apresentadas e contextualizadas
a seguir. Para preservar os conteúdos próprios de cada designação e conceito, assim como as
61

particularidades espaciais dos contextos onde foram forjados, tais termos serão apresentados no
idioma original e, em seguida, traduzidos para a língua portuguesa.
Nos Estados Unidos, onde os espaços residenciais fechados teriam surgido, e também
na Grã-Bretanha, os agentes do mercado imobiliário os denominam “gated communities”
(comunidades fechadas, em tradução livre9).
Na produção acadêmica norte-americana, a designação antedita foi utilizada por autores
como Low (2001) e, também, por Blakely e Snyder (1998), no título de seu livro “Fortress
America: Gated Communities in the United States” (América Fortificada: Comunidades
Fechadas nos Estados Unidos) – publicado em 1995, que se tornou referência no tema –, além
dos conceitos de “enclaves” e “cidadela” (MARCUSE, 1997).
Na Espanha e nos países latino-americanos de língua espanhola, dentre os diversos
conceitos e designações de espaços autossegregados, estão barrios cerrados (bairros fechados)
(PRÉVÔT-SCHAPIRA e CATTANEO PINEDA, 2008; HIDALGO e BORSDORF, 2005),
urbanizaciones cerradas (urbanizações fechadas) (JANOSCHKA e GLASZE, 2003),
fraccionamientos cerrados (parcelamentos fechados) (CABRALES BARAJAS e CANOSA
ZAMORA, 2001).
No Brasil, são encontradas como designações e conceitos: “condomínios fechados”
(RIBEIRO, 1996; ANDRADE, 2001; PATRIOTA DE MOURA, 2010), “enclaves fortificados”
(CALDEIRA, 1997) e “loteamentos fechados” (MAIA, 2006). Na França, são designados como
“lotissement securise” (loteamento seguro) e conceituados como “ensembles résidentiels
sécurisés” (conjuntos residenciais seguros) (CAPRON, 2004), transcendendo o foco no espaço
físico fechado, com muros e portões, destacando o aspecto da segurança, tanto formal quanto
socialmente, filtrando quem entra e quem fica de fora daquele determinado espaço.
O enclausuramento de espaços residenciais nos Estados Unidos teve origem na segunda
metade do século XIX (BLAKELY e SNYDER, 1998). Tais espaços são designados em língua
inglesa como gated communities. Essas comunidades fechadas provocaram uma
compartimentação urbana nunca vista antes, levada a cabo primeiramente por grandes
industriais e celebridades, passando a mobilizar, a partir do terceiro quartel do século XX, os
anseios da classe média por exclusividade e distinção. O mercado imobiliário não tardaria a
oferecer modalidades de residenciais fechados acessíveis para esse segmento.
Para Blakely e Snyder (1998, p. 53), as comunidades fechadas são:

9
A tradução mais comum de gated community é condomínio fechado. Contudo, manterei a tradução literal, pois
o termo “comunidade” utilizado na denominação original, tem importância crucial nesta discussão.
62

áreas residenciais com acesso restrito que normalmente tornam os espaços públicos,
privados. O acesso é controlado por barreiras físicas, perímetros murados ou cercados
e entradas fechadas ou protegidas. Gated communities incluem novos
empreendimentos habitacionais e áreas residenciais mais antigas reformadas com
cancelas e cercas. Elas representam um fenômeno diferente dos edifícios de
apartamentos ou condomínios verticais com sistemas de segurança ou porteiros. Lá,
um porteiro impede o acesso público apenas a um saguão ou corredores – o espaço
privado dentro de um edifício. As gated communities impedem o acesso público a
ruas, calçadas, parques, espaços abertos e playgrounds – todos os recursos que em
épocas anteriores seriam abertos e acessíveis a todos os cidadãos de uma localidade.10

Segundo os dois autores, as comunidades fechadas remontam aos tempos dos barões
gatunos11, na segunda metade do século XIX, quando parte dos segmentos mais abastados da
sociedade norte-americana passou a implantar ruas privadas para se manterem afastadas das
classes populares. No século XX, espaços residenciais fechados passaram a ser construídos
pelas aristocracias da Costa Leste. Blakely e Snyder (1998, p. 53) alertaram que “essas
primeiras reservas fechadas eram muito diferentes dos loteamentos fechados de hoje. Eles eram
lugares incomuns para pessoas incomuns.” Hidden Hills, uma das primeiras comunidades
fechadas do condado de Los Angeles, foi implantado na década de 1950. Esse empreendimento
foi procurado pelas celebridades de Hollywood para erguer suas mansões, motivadas pela busca
de privacidade. Apesar da oposição do Comitê de Planejamento do Conselho Municipal de Los
Angeles, o condomínio fechado de Hidden Hills foi elevado à condição de cidade, em 1961,
mediante a aprovação pelo Conselho de Supervisores. A cidade conta, atualmente, com 648
propriedades e uma população de 1.852 habitantes12 (Figuras 7A e 7B).

10
“Gated communities are residential areas with restricted access that makes normally public spaces private.
Access is controlled by physical barriers, walled or fenced perimeters, and gated or guarded entrances. Gated
communities include both new housing developments and older residential areas retrofitted with barricades and
fences. They represent a phenomenon diferente from apartment or condominium buildings with security systems
or doormen. There, a doorman precludes public access only to a lobby or hallways-the private space within a
building. Gated communities preclude public access to roads, sidewalks, parks, open space, and playgrounds-all
resources that in earlier eras would have been open and accessible to all citizens of a locality.”
11
Os “robber barons” eram a empresários americanos do final do século 19 que acumularam riqueza valendo-se
de meios inescrupulosos.
12
Disponível em [Link] Acesso em: 24 jan. 2021.
63

Figura 7 - Hidden Hills, condomínio fechado situado no condado de Los Angeles, EUA elevado à condição
de cidade, em 1961. (A) Guarita de acesso, década de 1950; (B) Vista área, em 2020.
(A) (B)

Fonte: [Link] Fonte: [Link]

A partir da segunda metade do século XX, as comunidades fechadas começaram a ser


produzidas para um mercado mais amplo nos Estados Unidos. Nos anos 1960 e 1970, os
empreendimentos fechados expandiram tendo como público-alvo os aposentados, e se
distribuíam na forma de hotéis de lazer, clubes de campo (em língua inglesa denominados
resorts, country clubs) e, por fim, como empreendimentos residenciais para a classe média, nas
regiões urbanas periféricas das cidades. As formas contemporâneas de comunidades fechadas
cresceram de modo vertiginoso nos EUA em número e em extensão, a partir dos anos 1980. No
final dos anos 1990, estimava-se que mais de oito milhões de norte-americanos já residiam em
comunidades fechadas, sendo que um terço de todas as novas casas construídas nos Estados
Unidos, naquele contexto, estava nesses empreendimentos (BLAKELY e SNYDER, 1997,
1998; LOW, 2001).
Para Blakely e Snyder (1998) e Setha Low (2001), o fator motivador principal para a
proliferação das comunidades fechadas nos Estados Unidos foi o medo do crime. A
espetacularização da violência pela mídia sensacionalista e o aprofundamento da diferenciação
social teriam ampliado a sensação de insegurança, inclusive em localidades onde os índices de
criminalidade estavam diminuindo. A atuação do setor privado na área de segurança expandiu
enormemente nos Estados Unidos, nos anos 1980, quando o número de seguranças ultrapassou
o número de policiais e o montante gasto superou em quase 75% os investimentos públicos em
segurança, se tornando o principal recurso de proteção no país.

Toda essa segurança tem algum impacto real sobre o crime? As evidências não
sugerem isso. A polícia, em todas as áreas onde os autores conduziram grupos focais
relataram, na melhor das hipóteses, diferenças marginais no crime entre
empreendimentos fechados e não fechados. A maioria não encontrou diferença; as
taxas de criminalidade variaram por área, mas não entre bairros fechados e não
fechados na mesma área. Alguns acreditaram que eles atrapalharam os esforços da
64

polícia, porque os portões diminuíram o tempo de resposta, as paredes bloquearam as


linhas de visão e os residentes ganharam uma falsa sensação de segurança, levando-
os a deixar as portas da garagem abertas e portas e janelas destrancadas13 (BLAKELY
e SNYDER, 1998, p. 66).

Janoschka e Glasze (2003) aponta que a centralidade do debate sobre o espaços


residenciais fechados se deteve, durante muito tempo, no caso norte-americano, fazendo com
que o termo comunidades fechadas fosse empregado como um conceito-geral que englobava
qualquer espaço residencial fechado, independente do contexto onde estava inserido. Segundo
os dois autores, nos Estados Unidos o termo “community” tem um significado mais abrangente,
que contempla não só o bairro enquanto delimitação política, mas também uma visão de
coletividade e o estabelecimento de um conjunto de normas pactuadas por todos que dela fazem
parte. Os agentes do mercado imobiliário norte-americano teriam utilizado o termo se valendo
de sua conotação romântica e nostálgica para atrair um público-alvo formado por segmentos de
classe média e alta. Não obstante, a incorporação da noção de que esses espaços fechados
constituiriam por si mesmos comunidades, de forma instantânea e automática, não se restringiu
ao contexto norte-americano.
Outros autores discutiram os espaços residenciais fechados e seus conteúdos sociais e
simbólicos, estabelecendo contraposições com os espaços de exclusão. Peter Marcuse (1997)
distinguiu três formas de separação espacial vigentes nas cidades norte-americanas, no contexto
do pós-fordismo14: o gueto, o enclave e a cidadela, em que os espaços autossegregados
correspondem a um subtipo de enclave e à cidadela.
Para Marcuse (1997, p. 231), “um gueto é uma área espacialmente concentrada usada
para separar e limitar um determinado grupo populacional definido involuntariamente
(geralmente por raça) considerado e tratado como inferior pela sociedade dominante”.
Marcuse (1997) e Wacquant (2008) convergem na recusa, no caso norte-americano, em
categorizar enclaves de imigrantes (judeus, italianos, irlandeses, latinos e outros) como guetos,
afirmando que essa última categoria se aplicaria, exclusivamente, aos redutos ocupados pela
população afro-americana.

13
But what is the reality? Does all of this security have any real impact on crime? The evidence does not suggest
that it does. Police in all the areas where the authors conducted focus groups reported at best marginal differences
in crime between gated and ungated developments. Most found no difference; crime rates varied by area but not
between gated and ungated neighborhoods in the same area. A few even believed they hampered police efforts,
because gates slowed response time, walls blocked sight lines, and residents gained a false sense of security,
leading them to leave garage doors open and doors and windows unlocked.
14
Para Marcuse, a cidade pós-fordista – também denominada “pós-industrial” ou “pós-keynesiana” – remete às
principais cidades de países desenvolvidos tecnologicamente, a partir do final dos anos 1960 ou início dos anos
1970, caracterizadas por quatro processos interligados: mudança tecnológica, internacionalização, concentração
de propriedade e privatização da esfera pública. Espaço e raça determinam como esses processos afetarão suas
vítimas. Aqui, eu observo as consequências, e não as causas, desses processos
65

Do ponto de vista histórico, a vitória dos estados do norte na guerra de secessão e a


aprovação da 13º emenda à constituição, em 1865, determinaram a abolição da escravidão nos
Estados Unidos. Contudo, no período de reconstrução pós-guerra, entre 1865 e 1877, os estados
do sul aprovaram legislações que impuseram a segregação racial nos seus domínios territoriais.
Essas leis ficaram conhecidas como Leis Jim Crow – um epíteto pejorativo utilizado no século
XIX, nos EUA, para se referir aos negros. Em 1896, a Suprema Corte dos EUA reconheceu o
direito dos estados de institucionalizarem por lei a segregação racial, sob a doutrina “separados,
mas iguais”. A segregação racial institucionalizada só teve fim com a aprovação da Lei dos
Direitos Civis, em 1964.
As discriminações e perseguições nos estados do sul resultaram numa intensa migração
da população afro-americana em direção às cidades industriais do norte, em especial: Chicago,
Detroit e Nova York. Ao chegarem nessas cidades, a população negra foi discriminada e
impedida de residir nos bairros onde habitava a população branca. Os agentes do mercado
imobiliário, em parceria com agentes do poder público, impunham dificuldades à população
negra de modo a impedir que ela se estabelecesse naqueles bairros. Se no sul a segregação era
institucionalizada, no norte ela era difusa, mas se espacializou nas grandes cidades, se
mostrando também deletéria quanto ao reconhecimento dos diretos civis dos afro-americanos.
Em razão dessa prática segregacionista e discriminatória, a população afro-americana se viu
impelida a formar os guetos como forma de se protegerem contra agressões físicas, culturais e
institucionais. A configuração socioespacial das cidades norte-americanas apresenta, na
atualidade, permanências desse processo histórico de segregação racial (Figura 8).

Figura 8 - Distribuição da População, por raça, em Detroit, EUA, em 2010.

Fonte: [Link]
66

A característica fundamental dos guetos é o seu caráter involuntário: fazer parte dele é
uma circunstância que se impõe à revelia da vontade daqueles que ali residem. Os dois autores
concordaram também ao apontar diferenças substanciais entre o “gueto clássico” (classic
ghetto) (Figura 9A), que se formou nas cidades americanas na primeira metade do século XX,
e o “gueto proscrito” (outcast gueto), a partir da década de 1980, esse último conceituado por
Wacquant como “hipergueto” (Figura 9B).

Figura 9 - Tipos de Gueto localizados em Nova Iorque: A) gueto clássico, Harlem, 1917; B) Gueto proscrito,
South Bronx, dec. 1970.
(A) (B)

Fonte: [Link] Fonte: [Link]

O gueto clássico remete ao período fordista em que esses espaços se constituíram como
lócus de efervescência cultural, associação comunitária e organização institucional. A
população afro-americana residente ali gozava de um emprego assalariado na indústria e
vínculos sociais robustos e duradouros, ainda que restritos ao universo do gueto. Como exemplo
do gueto clássico pode ser citado o Harlem, em Nova Iorque, no início do século XX. Já o gueto
proscrito remete à sociedade pós-fordista, a partir dos anos 1980, em que permanências de
práticas discriminatórias se somaram à perda de vínculos econômicos e sociais em razão do
desemprego (resultante da desindustrialização) e da desestruturação organizativa e institucional
(decorrente das políticas neoliberais), respectivamente (MARCUSE, 1997; WACQUANT,
2008). O South Bronx, em Nova Iorque, nos anos 1970, é um exemplo do gueto proscrito. As
diferenças notadas nas duas fotografias atestam a dicotomia entre o gueto clássico (pulsante,
vivo e engajado) e o gueto proscrito (vazio, degradado e desintegrado).
Quanto ao conceito de enclave, Marcuse (1997, p. 242) propôs a seguinte definição:
“um enclave é uma área espacialmente concentrada na qual membros de um determinado grupo
populacional, autodefinido por etnia ou religião ou de outra forma, se reúnem como um meio
67

de aumentar seu desenvolvimento econômico, social, político e/ou cultural”. A decisão por
residir ou não em um enclave cabe a cada um, não está pré-determinado social ou
economicamente. O autor subdividiu essa categoria em “enclaves de imigrantes” (Figura 10),
“enclaves culturais” (Figura 11) e “enclaves excludentes” (Figura 12).

Figura 10 - Enclave de imigrantes. Chinatown, NY Figura 11 - Enclave cultural. Bairro Williamsburg, NY

Fonte: [Link] Fonte: [Link]

Figura 12 - Enclave excludente. Beverly Hills, L. A.

Fonte: [Link]

Os “enclaves de imigrantes” se apresentam como espaços étnicos separados onde a


população residente almeja a mobilidade ascendente – representada pela mudança para fora do
enclave, portanto, a separação é percebida como um caráter transitório –, viabilizada pela maior
integração dos imigrantes nas atividades econômicas principais, vetada aos que residem nos
guetos15. Os “enclaves culturais” reúnem grupos que se aproximam para fortalecer laços
identitários relacionados à orientação sexual, à religiosidade ou a estilos de vida, possuindo

15
“As economias dos enclaves de imigrantes estão intimamente ligadas às economias das cidades em que estão
localizados; assim, os coreanos abrem lojas em bairros não-coreanos e os chineses abrem restaurantes bem fora de
Chinatown, mas não é possível encontrar empreendimentos negros em escala comparável, proporcionalmente”.
(MARCUSE, 1997, p. 245). [The economies of immigrant enclaves are closely linked to the economies of the cities
in which they are located; thus Koreans open stores in non-Korean neighborhoods, and Chinese open restaurants
well outside Chinatown, but black ventures at a comparable scale, proportionately, cannot be found.]
68

caráter mais permanente em relação ao enclave anterior. O bairro Williamsburg, no Brooklyn,


em Nova Yorque é um exemplo de enclave cultural habitado por dezenas de milhares de judeus
adeptos do judaísmo hassídico.
Marcuse (1997) e Wacquat (2008) rechaçam a equiparação entre as condições de vida
no gueto negro com aquelas dos enclaves de imigrantes, nas cidades norte-americanas. Marcuse
aponta que os enclaves são percebidos como espaços que incorporam alguns valores positivos,
em comparação com os guetos, que têm uma conotação claramente pejorativa: “o gueto negro
não é um enclave. Ele é criado de fora e a maioria de seus residentes está impedida de participar
das principais áreas dominantes de uma forma que os residentes em enclaves de imigrantes
nunca foram”16 (MARCUSE, 1997, p.255).
Por fim, os “enclaves excludentes” dizem respeito às comunidades fechadas construídas
para a classe média norte-americana, formadas por casas unifamiliares, protegidas por
segurança privada, sistemas de vigilância de alta tecnologia para controlar a entrada e manter
os “indesejáveis” do lado de fora.
Marcuse diferencia ainda os “enclaves excludentes” de cidadelas (Figura 13), outro
conceito utilizado por ele e definido como “uma área espacialmente concentrada na qual os
membros de um determinado grupo populacional, definido por sua posição de superioridade,
poder, riqueza ou status, em relação a seus vizinhos, se reúnem como um meio de proteger ou
melhorar essa posição” (MARCUSE, 1997, p. 247). A distinção entre esses dois tipos de espaço
separado se dá em razão da hierarquia na pirâmide social e suas motivações principais, na
medida em que as cidadelas são destinadas à elite dominante e os enclaves excludentes à classe
média: “os primeiros servem para dominar e proteger bastiões de poder e influência e os
segundos servem simplesmente para proteger grupos que se sentem vulneráveis, excluindo
aqueles que são diferentes deles” (Ibid., p. 247).
Entre as cidadelas, Marcuse inclui os “enclaves imperiais” (Figura 14) que consistiam
numa área delimitada nas cidades coloniais africanas e asiáticas, onde se concentrava o lócus
do poder imperialista – dominador, defensivo e intimidador – rodeado pelo território colonial.

16
Nevertheless, the black ghetto is not an enclave. It is created from the outside, and most of its residents are
barred from participation in major mainstream areas in a way residents of historie immigrant enclaves never
were.
69

Figura 13 - Cidadela. Trump Tower, NY Figura 14 - Enclave imperial. Nova Delhi, em 1946

Fonte: [Link] Fonte: [Link]

Diferentemente de Blakely e Snyder (op. cit.), Marcuse (1997) incluiu na classificação


como cidadelas tanto as comunidades fechadas de altíssimo padrão, como edifícios de
apartamentos de luxo – a exemplo da Trump Tower, em Nova Iorque – não estabelecendo uma
diferença clara entre esses dois tipos de empreendimentos residenciais 17. Esse autor admoesta
ainda que a cidadela não pode ser entendida como uma variante extrema do enclave cultural, já
que a homogeneidade cultural que advoga “é mais de classe do que de etnia ou crença. Seu
relacionamento com os de fora é de superioridade, não simplesmente de diferença” 18
(MARCUSE, 1997, p. 248).
Na discussão acerca dos tipos de espaços separados, Marcuse (1997) faz ponderações
fundamentais, relativizando a concepção desses espaços como tipos ideais: (i) nenhuma forma

17
Geralmente, essas comunidades fortificadas consistem em residências unifamiliares e, em algumas
comunidades, bairros específicos de alta renda são literalmente cercados para a proteção de seus residentes; mas
encontra-se o equivalente exato em prédios de apartamentos de luxo em Nova York, Chicago ou San Francisco:
acessos controlados por câmeras de circuito fechado de televisão, porteiros que atuam como seguranças, saída
controlada de elevadores e fechaduras de combinação na entrada da garagem subterrânea servem para proteger os
residentes.
18
Citadels, by contrast, are by their nature exclusionary; whatever cultural homogeneity they may possess is more
of class than of ethnicity or belief. Their relationship with those outside is one of superiority, not simply of
difference.
70

de guetização ou formação de enclave é inteiramente nova, eles se formaram nas cidades ao


longo da história, sob diferentes circunstâncias e motivações, mas apresentaram no pós-
fordismo, características específicas não observadas antes; (ii) nenhuma forma de gueto ou
enclave é totalmente “puro”, eles apresentam características mescladas, de forma que o gueto
proscrito tem características do gueto clássico, os guetos têm algumas características dos
enclaves e vice-versa. Já entre guetos e cidadelas, Marcuse aponta para uma impossibilidade de
compartilhamento de características, dado que a diferenciação entre ambos é gritante, pois um
está no topo da hierarquia social e econômica e o outro, na base.
Diken (2004) utilizou a categoria campo para estabelecer a contraposição entre o
condomínio fechado e o campo de refugiados. O conceito de “campo”, para o autor, emerge no
contexto da globalização, marcado pela radicalização do individualismo e pela valorização do
efêmero. O campo emerge como uma zona de indistinção, em que lei e caos, dentro e fora se
tornam indistinguíveis, materializando o estado de exceção. Dessa forma, o filósofo analisou
os condomínios fechados e os campos de refugiados discutindo suas condições enquanto
estados de exceção, mas diametralmente opostos, permeados por uma penumbra de indistinções
entre dentro e fora.

Visando não mais ao confinamento disciplinar, mas também à exclusão, nossa


sociedade parece estar produzindo dois tipos de campos; os campos parecem ser
gêmeos: aqueles campos voluntários onde a entrada é bloqueada, mas a saída é
gratuita, e aqueles onde a entrada é livre, mas a saída é bloqueada. Alguns campos são
projetados para manter as pessoas (excluídas) “fora”, outros para manter as pessoas
(presas) “dentro”. Em ambos os casos, o princípio baseia-se na distribuição de
(possibilidades de) entrada e saída19 (DIKEN, 2004, p.99).

Analisando o modo como a questão dos refugiados é abordada nos países europeus, nos
EUA e na Austrália, Diken (2004, p. 84) ressalta que “a soberania não funciona meramente de
acordo com a lógica de uma exclusão unidirecional. O refugiado é excluído do domínio da lei,
mas permanece sujeito a ela”20. Isso se verifica, entre outros exemplos, na medida em que o
refugiado não é contemplado nas legislações trabalhistas e nos direitos que elas asseguram, mas

19
“Aiming no longer toward disciplinary confinement but also exclusion, our society seems to be producing two
kinds of camps; the camps seem to come in twins: those voluntary camps where the entry is blocked but the exit is
free, and those where the entry is free but the exit is blocked. Some camps are designed to keep people (outcasts)
‘out’, some to keep people (inmates) ‘in’. In both cases the principle is founded on the distribution of (the
possibilities of) entry and exit.”
20
“a crucial point needs to be clarified: sovereignty does not work merely according to the logic of a one-way
exclusion. The refugee is excluded from the domain of the law but remains subject to it.”
71

podem ser submetidos às penas previstas nos códigos penais. “O refugiado é incluído enquanto
é excluído e excluído enquanto é incluído” 21 (DIKEN, 2004, p. 84).
Sobre condomínios fechados enquanto campo, Diken (2004, p. 97) estabelece o
contraponto com o campo de refugiados, argumentando que

há também campos “benevolentes” (por exemplo, condomínios fechados, turismo


sexual, parque temático e assim por diante) que repetem a lógica da exceção para os
“vencedores”. Assim, tomado no primeiro sentido, como exceção, o campo pode se
referir tanto à privação extrema quanto ao privilégio extremo, tanto à exclusão
extrema quanto à inclusão extrema.22

Analisando a questão dos condomínios fechados como campos para privilegiados,


Diken menciona os empreendimentos residenciais “bloqueados” propagados pelo New
Urbanism, em que a mercadoria vendida não é apenas a propriedade, mas também acesso a um
estilo de vida seguro. O autor denuncia os condomínios fechados pela ausência de espaços
públicos, pela negação do direito à liberdade de movimento e dos direitos de cidadania,
privilegiando pautas privatistas em detrimento dos anseios da maioria, pelas tecnologias de
filtragem social preventiva, pelo design arquitetônico introvertido, sistemas de infraestrutura
premium e regimes de governança privatizados.
Para Diken, a cidade pós-moderna é caracterizada por um “urbanismo fragmentário"
fundado na “desagregação” das infraestruturas padronizadas fordistas através dos processos de
privatização, realizando uma recombinação seletiva daqueles fragmentos incorporando-os em
infraestruturas avançadas, conectadas em rede. A lógica dessa fragmentação está ancorada nas
conexões que cada fragmento estabelece com as redes estando, portanto, submetido a uma
inserção satisfatória nelas:

“[esses fragmentos] podem existir apenas quando estão conectados às infraestruturas


em rede que lhes permitem sustentar suas necessárias ou desejadas conexões
socioeconômicas com espaços e pessoas em maior ou menor distância (...) envolvido
diretamente no processo secessionário, apoiando a construção material de ambientes
urbanos particionados (GRAHAM E MARVIN, 2001 apud DIKEN, 2004, p.98).

Por fim, Diken chama a atenção para uma inversão da ideia de cidade formulada desde
o medievo, e aprofundada no advento da modernidade. O provérbio “O ar da cidade liberta”

21
“The refugee is included while being excluded and excluded while being included; this zone of indistinction
between inclusion and exclusion, in which the life of the refugee borders on the life of the homo sacer.”
22
“In certain cases it is thus easy enough to recognize the camp (for example, refugee camps, rape camps, favelas,
and so on). But nevertheless there are also more ‘benevolent’ camps (for example, gated communities, sex tourism,
theme parking, and so on) that repeat the logic of the exception for the ‘winners’. Thus, taken in the first sense, as
exception, the camp can refer to both extreme deprivation and extreme privilege, both to extreme exclusion and
extreme inclusion.”
72

sintetizava o que a cidade representava no período medieval, um lócus de progresso civilizatório


que assegurava proteção para aqueles que estavam em seu interior contra a barbárie atribuída
ao ambiente externo. Esse ideal de cidade teria sido dissolvido em razão da fragmentação tanto
espacial quanto conceitual, invertendo o entendimento entre externo e interno. Hoje, aqueles
que residem nos condomínios fechados veem a cidade ao redor como lócus da barbárie e o
espaço intramuros o local do contato com a natureza, ainda que simulada e artificializada:
“quando a cidade é dissolvida (...) o vínculo arquetípico entre civilização e barbárie é invertido.
E aqui temos a fantasia subjacente da vida urbana contemporânea: a cidade é um local de
sobrevivência imprevisível e perigoso, uma ‘selva’.”23 (DIKEN, 2004, p. 98).
Nos países latino-americanos de língua espanhola, dentre os diversos conceitos e
designações para os espaços residenciais fechados, destacam-se barrios cerrados,
urbanizaciones cerradas e fraccionamientos cerrados.
O termo barrio tem uma conotação importante nas cidades latino-americanas. De
acordo com o Dicionário Oxford Languages: “barrio é parte de uma população relativamente
grande, que contém um agrupamento social espontâneo e que tem um caráter peculiar, físico,
social, econômico ou étnico pelo qual é identificado. Ex.: Visitar o barrio historico.”24
De antemão, esse significado parece questionar a noção de barrio cerrado pela ausência
de agrupamiento social espontâneo. Um barrio não se forma ex ante. Tal como o dicionário
dispõe, um barrio se conforma com e não, para. Em outras palavras, é o conteúdo social que
dá sentido a um barrio, logo um conjunto de lotes vazios delimitados por um muro não pode
ser definido como tal. Esse imbróglio se resolveria com a ocupação dos lotes por residências
com moradores, mas outro problema persiste: o conjunto de moradores conferirá um caráter
peculiar e identitário que permita defini-lo como barrio? Nesse caso, o termo somente se
aplicaria como um devir. O barrio, no sentido original, se refere a um espaço social, além do
espaço físico.
Apesar da designação barrio cerrado (bairro fechado) ser comumente veiculada pelo
mercado imobiliário, autores latino-americanos tem se esforçado para conferir consistência
teórica a ela. Para Hidalgo e Borsdorf (2005), o bairro fechado pode ser definido “como um
terreno ocupado por mais de uma residência, completamente separada de outras, por muros ou

23
“When the city is dissolved, everybody turns into a ‘madman’, or rather, a ‘werewolf’, and the archetypal link
between civilization and barbarism is reversed. And herein we have the underlying fantasy of the contemporary
urban life: the city is na unpredictable and dangerous site of survival, a ‘jungle’.”
24
“Barrio é parte de una población de extensión relativamente grande, que contiene un agrupamiento social
espontáneo y que tiene un carácter peculiar, físico, social, económico o étnico por el que se identifica. “visitar el
barrio histórico”.
73

cercas, fechado por uma portaria ou cancela, e equipado com instalações de segurança” (Ibid.,
p. 1)25. Ainda de acordo com os autores,

(...) os espaços residenciais fechados são unidades urbanas que aparecem como novos
fragmentos ou partes da cidade, fisicamente desconectadas do espaço urbano
tradicional. Nesse sentido, os condomínios ou bairros fechados são lugares cada vez
mais segmentados e separados da cidade construídos ao longo do século XX,
caracterizados por muros e vigilância, exclusivos e excludentes, que em seu conjunto
dão forma a um arquipélago de ilhas em um oceano aberto que é o meio urbano que
os acolhe e os alimenta com os equipamentos e infraestruturas tradicionais da
cidade.26

Por sua vez, Janoschka e Glasze (2003) justificam sua opção pelo conceito de
urbanización cerrada pela sua capacidade de generalização, uma vez que sob o termo
“urbanização” podem-se contemplar empreendimentos fechados de diferentes portes, desde as
pequenas vizinhanças, passando por bairros e alcançando até cidades inteiras.

Como urbanización cerrada, definimos áreas residenciais que contêm pelo menos
duas unidades fisicamente separadas (casas ou apartamentos). Para ser uma
urbanización cerrada, a área deve ser separada do reto [sic] do espaço acessível ao
público em geral por meio de uma espécie de barreira física (muro, cerca, entrada com
guarda, etc.), algum tipo de serviço de uso comunitário ou infraestrutura e,
adicionalmente, que conte com uma organização de vizinhança. Pode ser que a
infraestrutura inclua apenas um estacionamento comum ou uma pequena área verde.
Mas também pode haver casos (...) onde existem infraestruturas típicas de uma cidade
média, com escolas, universidades, centros culturais, complexos de cinema, centros
comerciais e muito mais (cfr: Janoschka, 2002c). Como os condomínios fechados se
tornaram populares em todas as escalas sociais, as definições que categorizam essa
forma de habitação como um fenômeno da classe alta e se concentram na condição de
seus habitantes (Blakely e Snyder, 1997; Wehrhahn, 2000) são insuficientes e
incompletos (JANOSCHKA e GLASZE, 2003, p.10)27.

25
“un terreno ocupado por más de una vivienda, completamente separado de otros, por muros o cercas, cerrado
por una puerta o barrera, y equipado con instalaciones de seguridad.”
26
“los espacios residenciales cerrados, son unidades urbanas que aparecen como nuevos fragmentos o partes de
la ciudad, desconectadas físicamente del espacio urbano tradicional. En este sentido, los condominios o barrios
cerrados son lugares cada vez segmentados y separados de la urbe construida a lo largo del siglo XX,
caracterizados por murallas y vigilancia, exclusivos y excluyentes, que en su conjunto dan forma a un archipiélago
de islas en un océano abierto que es el medio urbano que los alberga y los nutre de los equipamientos e
infraestructuras tradicionales de la ciudad.”
27
“Como urbanización cerrada definimos áreas residenciales que al menos contienen dos unidades (casas o
apartamentos) físicamente separadas. Para ser urbanización cerrada hace falta que el área este separada del
recto [sic] del espacio accesible al público en general mediante un tipo de barrera física (muro, reja, entrada
vigilada, etc.), algún tipo de servicios de uso comunitario o infraestructura y, además, que cuente con una
organización vecinal. Puede ser que la infraestructura incluya, tan solo un aparcamiento común o una pequeña
zona verde. Pero, también, pueden darse casos (…) en donde existen infraestructuras propias de una ciudad
mediana, con escuelas, universidades, centros culturales, complejos de cine, centros comerciales y mucho mas
(cfr: Janoschka, 2002c). Debido a que las urbanizaciones cerradas se han popularizado a nivel de todas las
escalas sociales, las definiciones que categorizan esta forma de vivienda como un fenómeno de las clases altas y
se centran en el status de sus habitantes (Blakely y Snyder, 1997; Wehrhahn, 2000) resultan insuficientes e
incompletas”.
74

O termo urbanización cerrada (urbanização fechada), segundo Janoschka e Glasze


(2003), refere-se ao fechamento físico, com muros e controle de acesso e também a um
fechamento legal, ou seja, à privatização da propriedade. Essa definição proposta pelos dois
autores contempla empreendimentos residenciais horizontais unifamiliares (conjuntos de casas
ou vizinhança fechada), geralmente localizados nas periferias ou nos subúrbios; complexos
residenciais verticais multifamiliares (condomínios), que se estendem desde os bairros
tradicionais aos limites do perímetro urbano; e resorts, que oferecem segunda residência para
lazer nos fins de semana, geralmente localizados fora da cidade em regiões com forte apelo
turístico (montanhas, lagos, praias etc.) (Figura 15).

Figura 15 - Diagrama representando os três tipos de urbanização fechada

Fonte: adaptado de Janoschka e Glasze (2003)

Nesse contexto, o conceito de urbanização fechada apresenta certo potencial como


estratégia de generalização uma vez que contempla a diversidade de amenidades, de
infraestruturas e de composições sociais atinentes aos espaços fechados. Porém, apresenta
limitações na medida em que abarca espaços muito diferentes em termos de usos, função,
localização e configuração.
Janoschka e Glasze (2003) fazem uma crítica à produção científica sobre as
urbanizaciones cerradas, problematizando dois grupos de abordagens correntes. O primeiro
diz respeito à falsa presunção ancorada em um determinismo ambiental, constituindo “verdades
simplificadas”, segundo o qual a fragmentação social seria o resultado direto da fragmentação
física por muros, cercas e barreiras, sem que sejam feitas as mediações necessárias respaldadas
por pesquisa empíricas: “é importante diferenciar entre a fragmentação do modo de vida
75

individual e a fragmentação da organização territorial local, do ponto de vista analítico e


didático”28 (JANOSCHKA e GLASZE, 2003, p. 10).
O segundo diz respeito ao debate sobre as causas da proliferação das urbanizações
fechadas. Janoschka e Glasze (2003) identificaram três macrodiscursos que apontam as causas
para o fenômeno: (i) “globalização e dualização”, em que reestruturações econômicas em nível
global levaria a uma nova polarização entre os estratos privilegiados ligados ao capital
transnacional em detrimento das populações vulneráveis, produzindo divisões no espaço urbano
das cidades globais; (ii) o “aumento da criminalidade”, em que se estabelece a relação direta
entre a difusão das urbanizações fechadas e dos aparatos de segurança como prova do aumento
da criminalidade; e (iii) a “privatização de espaços públicos”, onde se presume que a
urbanizações fechadas privatiza espaços públicos.
Os dois autores questionaram as relações de causa e efeito enunciados por esses três
macrodiscursos, ponderando que no caso do binômio globalização/ dualização, Tóquio e Paris,
apesar de serem cidades globais, não abrigavam uma proliferação de urbanizações fechadas.
Quanto à presunção ancorada no aumento da criminalidade, os autores alertaram que é preciso
distinguir entre a criminalidade real e a insegurança subjetiva, além de apontarem que essa seria
apenas uma das causas da opção por essa modalidade de empreendimento, e mesmo assim,
estaria restrita ao universo da demanda, ignorando fatores relacionados a oferta pelo mercado
imobiliário. Por fim, quanto à dicotomia público versus privado, os autores argumentaram que
muitos desses empreendimentos foram implantados em áreas privadas, cujo acesso já era
restrito antes de serem edificados. Outra observação realizada por Janoschka e Glasze (2003)
indica que, quanto piores forem os serviços urbanos oferecidos pelas autoridades públicas, mais
pessoas tenderão a buscar as urbanizações fechadas.
É preciso apontar alguns aspectos passíveis de problematização nas formulações de
Janoschka e Glasze (2003), apesar de reconhecer o esforço analítico empreendido pelos dois
autores.
Quanto à reestruturação econômica no âmbito global é factível que esse fenômeno se
expresse mais marcadamente nas cidades globais, dadas as condições privilegiadas de inserção
dessas metrópoles nas redes e fluxos informacionais e financeiros. Contudo, em menor medida,
os efeitos desse processo macroeconômico é “sentido” nas médias e pequenas cidades, a
exemplo do crescimento relativo observado no setor de comércio e serviços, em relação aos
demais. Alterações no âmbito do consumo têm possibilitado o acesso a produtos diversificados

28
“Cabe que es importante diferenciar entre la fragmentación del modo de vida individual y la fragmentación de
la organización territorial local desde un punto de vista analítico y didáctico.”
76

e diferenciados por segmentos de média renda residentes nos centros urbanos de médio porte,
oferecendo indícios de que processos globais podem influenciar mercados locais, inclusive o
imobiliário.
Quanto à dicotomia “público versus privado” a reflexão de Janoschka e Glasze (2003)
não observa as particularidades do caso brasileiro. A redação original da lei federal 6.766/79,
que vigorou até sua alteração pela lei federal 13.465/17, vedava o fechamento de loteamentos
urbanos, cabendo aos municípios definir a porcentagem da área parcelada que deveria ser
destinada para uso público, geralmente em torno de 35%. Portanto, no Brasil, uma gleba é uma
propriedade privada, mas uma vez parcelada, a área passa a incluir vias e outros espaços
públicos cujo fechamento restringe sim o acesso a áreas de que seriam de uso comum a todos.
Quanto à reflexão que atribui à precariedade de infraestrutura nas cidades a causa para
a busca por urbanizações fechadas, ela só pode ser aplicada em contextos urbanos de países na
periferia do capitalismo. Nos EUA, por exemplo, cidades bem servidas em infraestrutura têm
sido lócus de implantação desses tipos de empreendimentos residenciais. Desse modo, se essa
relação causa-efeito fosse generalizada, não haveria empreendimentos dessa natureza nos
países do capitalismo central.
Maldonado-Gómez e Rincón-Salazar (2007, p. 148) realizaram pesquisas sobre os
residenciais fechados em Cali, Colômbia, a partir de uma abordagem do Serviço Social cujo
enfoque foi “observar a cidade e seus habitantes, investigar seus modos de sentir, pensar e agir,
indagar sobre como seus moradores e visitantes vivem e transitam, como as políticas públicas
são elaboradas e quais são seus efeitos na vida dos citadinos”. Em seus estudos sobre essa
modalidade de moradia, as autoras criaram o conceito de Espaços Residenciais Multifamiliares
(ERM), entendidas por elas como

empreendimentos imobiliários com acesso restrito, seja por cercamento ou


dispositivos de vigilância e segurança, utilizados como espaços de convivência por
grupos de moradores que compartilham pelo menos uma área comum. Dependendo
de suas características, os moradores podem compartilhar tanto regras de
comportamento, explícitas ou não, quanto responsabilidades administrativas (Ibid., p.
149).

As autoras compreenderam como ERM tanto os empreendimentos fechados horizontais


quanto os verticais. Para elas a pertinência de estudar os ERMs está em chamar a atenção para
essa modalidade de residência como um fenômeno mundial, também presente na cidade de
Cali, e compreender quais são razões que os residentes alegam para viver neste tipo de espaço.
As entrevistas realizadas por Maldonado-Gómez e Rincón-Salazar (2007) junto a
moradores de ERMs em Cali corroboraram o postulado de que os residentes apontam como
77

motivação principal a “segurança”. Contudo, as autoras alertaram que esse termo ainda
permanece vago e confuso, ele admite significados diversos daqueles atinentes à proteção
contra furtos, roubos e sequestros. Segundo elas, a ideia generalizada de “segurança” admite
também conotações como proteção de vida e intimidade, “tranquilidade”, “convivência” e
“qualidade de vida”. As autoras concluem alertando que “as soluções para a habitação urbana
não podem ser a satisfação pessoal enquadrada na lógica individualista dominante, é preciso
fazer cidade, relacionar microespaços fechados com espaços abertos, fortalecer espaços
públicos como lugares de encontro cidadão e vida democrática” (Ibid., p. 178)
No Brasil, as denominações “enclaves fortificados” e “loteamentos fechados” são mais
utilizados no meio acadêmico enquanto “condomínios fechados” são mais empregados pelo
mercado imobiliário e pela população, em geral.
Teresa Caldeira (1997) formulou o conceito de enclave fortificado para definir espaços
exclusivos idealizados e materializados no contexto da pós-modernidade. Seu entendimento se
aproxima do “enclave excludente” formulado por Marcuse (1997), porém, guarda
particularidades. Para Caldeira, o enclave fortificado não se restringe a arranjos espaciais
residenciais, incorporando outros tipos de espaços.

Enclaves fortificados são espaços privatizados, fechados e monitorados para


residência, consumo, lazer ou trabalho. Esses espaços encontram no medo da
violência uma de suas principais justificativas e vêm atraindo cada vez mais aqueles
que preferem abandonar a tradicional esfera pública das ruas para os pobres, os
"marginais" e os sem-teto. Enclaves fortificados geram cidades fragmentadas em que
é difícil manter os princípios básicos de livre circulação e abertura dos espaços
públicos que serviram de fundamento para a estruturação das cidades modernas
(CALDEIRA, 1997, p. 155).

Caldeira (1997) argumenta que o padrão de segregação espacial em São Paulo, que toma
forma no decorrer das décadas de 80 e 90, precisa ser entendido a partir da combinação de
quatro processos de mudanças: a crise econômica nos anos 1980 (a “década perdida”),
consubstanciada na recessão econômica, inflação galopante, desemprego e aumento da
pobreza; o processo de abertura e consolidação democrática, com a organização dos
movimentos sociais urbanos na periferia que passaram a pressionar as administrações locais
por melhorias na infraestrutura, nos serviços públicos, além das demandas por regularização
fundiária; a reestruturação econômica em São Paulo, a partir dos anos 1980, acompanhando
outras metrópoles internacionais, com a predominância do setor terciário sobre o secundário,
com o deslocamento de serviços e comércio de áreas centrais para bairros da antiga periferia,
além da construção de grandes shopping centers; e por fim, o crescimento do crime violento e
do medo, que modificou profundamente a interação com o espaço público da cidade,
78

engendrando alteração nas estratégias de proteção, na paisagem urbana, nos padrões de


residência, na circulação, nas trajetórias cotidianas, nos hábitos e gestos relacionados ao uso
das ruas e do transporte público (Figura 16).

Figura 16 - Linha do tempo. Transformações ocorridas nas décadas de 1980 e 1990, no Brasil, identificadas
por Caldeira

Fonte: O autor (2020)

As transformações mencionadas pela autora se apresentam de forma explícita nas


barreiras que passam a delimitar frações do espaço da cidade, evocando um passado recente em
que a ligação entre os espaços públicos e privados se davam sem a mediação dos aparatos de
segurança: “São Paulo é hoje uma cidade de muros. Ergueram-se barreiras por toda parte – em
volta das casas, prédios de apartamentos, parques, praças, complexos de escritórios e escolas”
(CALDEIRA, 1997, p. 158). Porém, dentre todos esses tipos de espaços separados, o enclave
fortificado, segundo a autora é o que produz os efeitos mais deletérios para o desenvolvimento
urbano, por suas características de introversão autocentrada, isolamento, vigilância massiva,
autossuficiência, exclusão e alto grau de homogeneidade interna.
Caldeira (2000, p. 277) traçou ainda uma crítica às reflexões de Blakely e Snyder (1997),
apontando que os autores avaliam a vida dentro das gated communities a partir de um ideal de
comunidade pautado por sentimento de pertencimento e participação pública. Segundo a autora,
os dois autores “criticam as comunidades fechadas não pela segregação que elas podem impor,
mas basicamente por falharem em produzir boas comunidades”. E arremata: “seu conselho para
a substituição de portões tem como objetivo principalmente a criação de ‘comunidades
melhores’ e inclui receitas de ‘neotradicionalismo’ e ‘espaço defensivo’”.
79

Roberto Andrés (2021) destacou os efeitos deletérios da vida em condomínio fechado


para a consolidação da democracia brasileira na medida em que parte da população passa a
buscar o atendimento das suas demandas por segurança, lazer, transporte, educação e saúde,
exclusivamente no âmbito da esfera privada, reduzindo ou abandonando sua atuação na esfera
pública. De acordo com o autor, “a democracia não é um sistema de representação abstrato,
descolado da vida cotidiana. O sistema político moderno é alimentado também pela vida
democrática exercida no dia a dia das cidades, nas quais convivência, pluralidade e igualdade
em direitos e deveres são princípios constitutivos” (Ibid., p. 44).
As reflexões de Andrés (2021) retomam as contribuições dos antropólogos Teresa
Caldeira, Roberto Damatta e James Holston para afirmar que os enclaves fortificados seriam o
coroamento de um processo histórico de segregação urbana combinado com uma formulação
discursiva autóctone que distingue e hierarquiza pelo uso discricionário do poder o indivíduo e
a pessoa por meio da expressão “sabe com quem está falando?”: “enquanto o indivíduo é
submetido à aspereza das leis, a pessoa está além delas e merece o tratamento especial dos bem-
nascidos.” (Ibid., p. 42). Convergindo com a conceituação proposta por Teresa Caldeira, Andrés
contribui com a teorização dos enclaves fortificados apontando que:

O enclave fortificado é a concretização física da distinção entre indivíduos e pessoas.


Trata-se de demarcar com ferro, tijolos e cercas elétricas os dois regimes de tratamento
que, na prática, já existiam no país. Do lado de dentro dos condomínios e shopping
centers, as pessoas; lá fora, o mundo dos indivíduos, do cidadão qualquer. A
permeabilidade é funcional, já que aos indivíduos é permitido entrar, desde que seja
para jardinar, cozinhar, limpar, atender, vigiar, servir. (Ibid., p. 44)

Abordando a questão do enclausuramento nas cidades de modo articulado à conjuntura


política do país, na atualidade, o autor comparou o modus operandi do governo do presidente
da república em exercício e a lógica do condomínio fechado. O presidente residiu em um
condomínio fechado na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, até 2018: “ele e seus asseclas foram
capazes, como ninguém antes, de levar a lógica dos condomínios para o centro do poder, em
Brasília.” E continua:

O termo “cidadão de bem”, amplamente disseminado por certa direita que tem no
bolsonarismo sua expressão mais radical, atualiza a distinção entre pessoa e indivíduo,
tão cara ao país: contra a irrelevância do cidadão qualquer, tem-se os direitos
irrestritos de uma classe superior, a dos cidadãos de bem – e de bens. Essa distinção
é central na conduta do presidente. [...] Para Bolsonaro, as instituições da República
devem [...] punir exemplarmente os “de fora” e tratar “os seus” com um aviso
camarada, deixando a correção para o ambiente familiar.

Andrés (2021) conclui equiparando a segurança privada exercida no interior dos


loteamentos fechados às milicias sob a forma de “controle paraestatal de territórios”:
80

“deveríamos nos perguntar, aliás, por que essas quatro últimas palavras, geralmente aplicadas
à atividade miliciana, não são utilizadas para se referir aos loteamentos fechados, já que ambos
produzem ilhas regidas por leis especiais e controladas por agentes à margem do Estado”.
Dunker (2015, p. 50) estabeleceu uma diferenciação entre o caso americano e o
brasileiro, concordando com Caldeira quanto ao uso do termo “fortificação” para qualificar os
condomínios fechados no Brasil: “ao contrário das gated communities norte-americanas que se
baseiam no conceito de comunidade anterior, ou do condominum anglo-saxônico, derivado do
uso e da propriedade estabelecida, o estatuto português e brasileiro do condomínio provém do
conceito de defesa, cujo modelo é o forte de ocupação”.
Dunker discute o condomínio fechado no Brasil segundo uma abordagem situada no
campo da psicanálise lacaniana. O autor parte da hipótese de que a vida em forma de
condomínio caracteriza a inserção do mal-estar no capitalismo à brasileira, compreendo a lógica
do condomínio como uma redução dos problemas de saúde pública, mental e geral, a problemas
de gestão. “A lógica do condomínio surge, assim, como um capítulo e um sintoma da
modernidade brasileira” (DUNKER, 2015, p.42).
O autor chama a atenção para mecanismos de legitimação da vida em condomínio
propagados pelos meios de comunicação de massa. Se as novelas mostraram, e até certo ponto
instauraram, modos de vida nas grandes cidades, expressando de forma pasteurizada as
desigualdades sociais representadas na dicotomia entre o bairro rico e os subúrbios e favelas,
os modos de vida nos condomínios fechados são representados pelos reality shows.

Veiculados no Brasil de maneira maciça desde 2002, eles começam pela importação
de uma fórmula internacional que logo ganha fôlego por aqui. [...] O regime murado
é orientado para olhar o que se passa dentro dos muros. Recuperando nossa antiga
tradição da assistência ritual familiar à novela, a transmissão ao vivo desse
experimento psicológico pode ser considerada, enfim, o que faltava ao condomínio
para que ele encontrasse sua inscrição cultural cotidiana. [...] Os dramas banais são
agora universalizados como vivência coletiva. A fala prosaica e o cotidiano ordinário
mostra que qualquer um pode ser celebridade, pois ela é criada pelo olhar, não pelo
objeto. Uma manobra muito interessante, pois permite ao antigo morador do
condomínio ter acesso ao que lhe faltava: o olhar de inveja dos que ficaram de fora.
(DUNKER, 2015, p. 69).

Outra reflexão formulada por Dunker, instigante e perturbadora, diz respeito a estruturas
correlatas que antecederam os condomínios fechados. O autor aponta que a configuração
espacial desses espaços, juntamente com seus mecanismos de funcionamento remetem aos
antigos hospitais psiquiátricos.
81

O precedente mais claro de nossos modernos condomínios administrados, conforme


o uso higienista da razão, são, evidentemente, os grandes hospitais psiquiátricos
reconstruídos e expandidos em meados do século XIX. Uma visita a Salpêttière, em
Paris, ou a Steinhof, no entorno de Viena, até mesmo a Barbacena, em Minas Gerais,
ou a Franco da Rocha, no subúrbio de São Paulo, mostrará a similaridade irretorquível.
Retirem-se a pobreza e os sinais aparentes de loucura, e o que restará é um
protocondomínio arborizado, cheio de locais para meditação, centros de cuidados e
tratamento, regulamentos e rotas de circulação. (...) O apelo à vida em forma de
condomínio baseia-se, como os antigos leprosários e hospícios, na promessa de
recuperação e reconstrução da experiência perdida. A antiga noção de cura não tem
outro sentido que não a de reencontro de um lugar” (DUNKER, 2015, p. 52).

Essa reflexão de Christian Dunker converge com a observação do sociólogo britânico


Nikolas Rose (2004), sobre a transformação de antigos hospitais psiquiátricos vitorianos em
luxuosos condomínios fechados na Grã-Bretanha. Rose argumentou que, em razão da reforma
psiquiátrica, a obsolescência dos antigos manicômios vitorianos passou a ser objeto de
preocupação por parte das autoridades britânicas que procuravam uma solução para o problema.
As instalações hospitalares abrigavam grandes complexos de edifícios, circundados por espaços
amplos, jardins ornamentais, alojamentos, perímetro fortemente cercado por muros, portões,
guaritas e outros equipamentos físicos. Eles foram implantados na periferia das cidades, ao
longo do século XIX, mas com o avanço da ocupação urbana, na segunda metade do século XX
eles estavam situados em áreas privilegiadas e altamente valorizadas. Esse conjunto de atributos
despertou o interesse do mercado imobiliário, e os antigos manicômios foram vendidos pelas
autoridades para incorporadores que os transformaram em áreas residenciais de luxo, com
paisagismo exuberante e as torres de água ressignificadas como marcos arquitetônicos, como o
caso do Fairfield Hospital, transformado no Fairfield Park (Figuras 17 e 18).
82

Figura 17 - Fairfield Hospital, localizado em Bedfordshire, Inglaterra.

Fonte: [Link]

Figura 18 - Fairfield Park.

Fonte: [Link]

A ironia desse processo, segundo Rose, é que as mesmas instalações que anteriormente
se prestavam para reter o perigo dentro, agora são utilizadas para manter a ameaça fora. “Muros
altos, câmeras de vídeo de circuito fechado, guardas de segurança e similares agora podem ser
83

reenquadrados e representados como medidas que manterão a ameaça de fora em vez de mantê-
la dentro” (ROSE, 2004, p. 249).
A designação “condomínio fechado” foi largamente difundida nas peças promocionais
dos empreendimentos fechados por parte de construtoras e incorporadoras, em um passado
recente. No âmbito da produção acadêmica brasileira, alguns pesquisadores dotaram essa
denominação de conteúdo conceitual, utilizando-o em publicações científicas. Patriota de
Moura (2010, p. 209) discutiu a questão dos espaços residenciais fechados empregando o
conceito de “condomínio”:

essa configuração espacial, o “condomínio”, que também é, nesse caso, chamado de


condomínio horizontal, ou condomínio irregular, aponta para parcelamentos de solo
formados por unidades domiciliares, que muitas vezes se destacam de outros
parcelamentos por possuírem muros perimetrais comuns e áreas de circulação interna
próprias, de acesso restrito. Há também, em geral, associações de moradores que
impõem determinadas regras de conduta internas a esses espaços.

A autora também busca atenuar o foco na delimitação física dos empreendimentos,


chamando a atenção para as semelhanças entre os bairros de classes média e alta nas periferias
das cidades brasileiras – incluindo os espaços residenciais fechados – e as paisagens dos
subúrbios norte-americanos. “Mais do que compreender a proliferação de muros, o que me
intrigava era saber por que esses quintais gramados, sem muros frontais, passaram a representar
visões paradisíacas em nossas cidades” (PATRIOTA DE MOURA, 2010, p. 218).
Patriota de Moura (2010, p. 209) discutiu as diferenças entre as comunidades fechadas
norte-americanos e os “condomínios” brasileiros. A autora argumenta que, nos Estados Unidos,
prevalece um sentimento antiurbano a partir do qual as pessoas estabelecem uma associação
intrínseca entre os termos “community” (comunidade) e “small town” (cidade pequena),
entendidos como portadores de valores fundantes da sociedade norte-americana, tais como
individualismo, democracia e espírito comunitário. A autora atenta para as artimanhas do
marketing imobiliário norte-americano na promoção das comunidades fechadas utilizando o
apelo imagético representado na associação entre comunidade e cidade pequena:

O termo community, quando utilizado em propagandas imobiliárias nos EUA, é um


termo poderoso, que remete a uma gama de ideias e valores que se relacionam à vida
associativa, ao bem-estar da família nuclear, ao empreendedorismo individual e à
própria manutenção de valores democráticos igualitários. Porém, essas communities
que estão sendo vendidas não são aquelas pequenas cidades da Nova Inglaterra onde
os puritanos instituíram uma sociedade: são incorporações imobiliárias recentes, que
se situam em espaços onde se encontram justamente os suburbs que muitos norte-
americanos identificam como sendo um oposto da small town (PATRIOTA DE
MOURA, 2010, p. 211).
84

Patriota de Moura (2010, p. 214), em um esforço de generalização, elencou elementos


que possibilitaram agrupar os empreendimentos residenciais fechados de diferentes contextos
em uma caracterização mais ampla: “tratava-se de incorporações imobiliárias dirigidas às elites
e camadas médias surgidas, principalmente, a partir da década de 1990, localizadas às margens
de cidades de grande e médio porte, com vias de acesso restrito a moradores e um perímetro
delimitado por cercas ou muros além de um aparato de segurança privado”.
Andrade (2001) utiliza o conceito de “condomínio fechado” para discutir os fenômenos
de autossegregação na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), em particular nos
municípios de Nova Lima e Brumadinho, onde realizou sua pesquisa. A autora argumentou
que, para superar a abordagem dos condomínios fechados horizontais como excentricidades,
deve-se compará-los com outras realidades análogas presentes nos espaços urbanos,
considerando nuances como os aspectos construtivos, os serviços ofertados e a composição da
população residente.
Doralice Satyro Maia (2006, p. 156) utilizou o termo “loteamento fechado” para se
referir a essa modalidade de empreendimento residencial. Ela discutiu a etmologia do termo
loteamento, apontando que “lote” deriva da palavra francesa lot., com origem no termo alemão
Losz, que significa sorte, explicando porque o termo aparece na palavra “loteria”. Tomando por
base as reflexões de Murilo Marx, a autora argumenta que deriva daí o significado de repartição
por herança de uma parcela de terras por arbitragem ou por sortes, sendo os coerdeiros
denominados (do Latim) Consortes. Neste sentido, lote inicialmente significaria “quinhão que
cabe a alguém numa partilha” ou “objeto ou grupo de objetos leiloados de uma vez”.
A autora alerta para um aspecto importante ligado ao termo loteamento: desde o século
XIX, os dicionários o definem como “abertura ou prolongamento de logradouros públicos para
os quais tenham testada”. Nesse sentido, o loteamento não consiste apenas na produção de um
conjunto de lotes, mas também da rua. Aprofundando essa formulação, Maia (2006, p. 163)
afirma que a rua, enquanto elemento morfológico, antecede o lote, pois ela tem conformado as
cidades desde a antiguidade: “as ruas, portanto, são um elemento basilar para a compreensão
do processo de expansão das cidades e dos loteamentos”.
Abordando a questão dos loteamentos fechados, Maia (2006, p. 164) aponta que “as
ruas no interior dos loteamentos e condomínio fechados vão estar separadas da cidade por
muros, guaritas, segurança eletrônica e cerca elétrica. [...] A cerca ou muro que antes delimitava
os lotes individuais passa a circundar um conjunto deles.” E continua,

No caso dos loteamentos fechados, acirra-se a contradição entre o espaço público e o


espaço privado. Pois, as ruas que seriam a princípio, espaços públicos, tornam-se
85

privados, de acesso restrito, destinados unicamente ao uso dos proprietários ou das


pessoas permitidas por eles. Da mesma forma é o trato das praças ou áreas de lazer ali
contidas. Tal contradição torna-se mais latente quando se verifica que grande parte
dos loteamentos e condomínios fechados é aprovada pelas prefeituras municipais
enquanto loteamentos abertos. O que demonstra que os muros são erguidos, as cercas
elétricas são instaladas sem a aprovação do poder público. Estaria então se
constituindo mais uma versão da “cidade ilegal”? (Ibid., p.165)

A autora arremata que “a produção da cidade contemporânea a partir dos loteamentos


fechados configura-se na negação do espaço público, no aniquilamento da rua, da praça, do
encontro, da convivência” (Ibid., p. 166) e conclui: “o adjetivo – fechado – dado ao termo
loteamento dá-lhe uma outra qualidade além da separação, a segmentação. Nos loteamentos,
assim como nos condomínios fechados, nega-se a rua, elemento basilar para a existência das
cidades” (Ibid. p. 170).
Guénola Capron (2004) também problematizou a profusão de designações e conceitos
utilizados para definir os espaços autossegregados.
A autora apontou que, no continente americano, os conceitos referentes aos espaços
autossegregados se dividem em três grandes vertentes: (a) a norte-americana, centrada no
conceito de “gated community”, em que a noção “comunidade” evoca valores identitários
fundantes da nacionalidade naquele país, mobilizando sentimentos de pertencimento e de
partilha de ideais, de um território e de estruturas colaborativas; (b) a argentina, fundada no
conceito de “barrio cerrado”, remetendo a esse território profundamente inscrito no imaginário
urbano argentino, como lugar mítico de construção da cidade e da cidadania; e (c) a brasileira
e a mexicana, calcadas no conceito de “condomínio fechado” e “fraccionamiento cerrado”,
respectivamente, em que a tônica recai sobre o aspecto jurídico-legal do empreendimento. A
autora admoesta que “todos esses termos são produzidos e usados por incorporadores
imobiliários. Assim, “o ‘barrio’ ou a ‘community’ têm um poder evocativo, e sabemos que as
imagens participam da construção do real.”29 (CAPRÓN, 2004, p.99).
Apesar de não ter sido mencionado pela autora, o termo “condomínio” também
apresenta forte pregnância no imaginário coletivo, como pode ser demonstrado no emprego
desse termo pelos agentes do mercado imobiliário no contexto brasileiro.
A palavra “condomínio” parece ser utilizada, pelo mercado imobiliário, para compensar
a situação de ilegalidade que marcou a implantação dos loteamentos fechados no Brasil, por
mais de quatro décadas. A ausência de um marco legal que amparasse a implantação desses
espaços residenciais fechados no país, se não obstaculizou a difusão dessa modalidade, gerou

29
“Ces termes sont tous produits et utilisés par les promoteurs immobiliers. Ainsi, le «quartier» ou la
«communauté» ont un pouvoir évocateur, et l’on sait que les images participent à la construction du réel.”
86

constrangimentos e gastos adicionais de tempo e recursos por parte das assessorias jurídicas das
empresas ligadas ao setor imobiliário. Além do constrangimento legal, há o constrangimento
simbólico na medida em que, afirmada a separação física, a condição de ilegalidade alcança
tanto as ocupações urbanas por pobres como aquelas ocupadas pelos ricos, apesar dessa
condição se expressar de forma dramaticamente desigual nos modos de vida desses dois
segmentos.
O “condomínio” que, na modalidade edilícia esteve amparado desde a Lei Federal
4.591/1964, foi acionado pelas construtoras e incorporadoras como subterfúgio para simular
uma pretensa legalidade ao loteamento fechado, que lhe era vedada. Com a Lei Federal
13.465/2017, a regularização de espaços autossegregados foi possibilitada pela figura do
“loteamento de acesso controlado”, embora muitos empreendimentos ainda continuem
irregulares junto às administrações municipais. Além disso, o estatuto jurídico da maioria
desses empreendimentos residenciais localizados nas cidades brasileiras não é de condomínios.
Eles são projetados como loteamentos convencionais, são aprovados pelas administrações
municipais como tal, mas em seguida, os empreendedores fecham o loteamento com muros e
guaritas e transferem a administração para a associações de moradores. Nesses casos, o
fechamento é irregular, pois a execução se deu em desconformidade com o projeto original
como loteamento aberto, ou seja, os muros e as guaritas não foram autorizados pela
administração municipal.
Com o intuito de superar as designações produzidas pelo mercado imobiliário, Capron
(2004) realizou um exercício analítico buscando encontrar elementos úteis na construção de um
conceito genérico, que abarcasse as várias denominações, mas que fosse dotado de potencial
explicativo e de consistência do ponto de vista científico. Como resposta a essa necessidade, a
autora propôs o conceito de “ensembles résidentiels sécurisés” (conjunto residencial seguro).
O conceito de conjunto residencial seguro, proposto por Capron, desloca a ênfase no
fechamento físico, constituinte dos conceitos anteriores aqui explanados, para privilegiar os
aspectos do uso residencial e da segurança, de cunho mais qualitativo.

O ensemble résidentiel sécurisé, que designa um agrupamento de vários elementos


semelhantes, é um nome genérico que coloca a ênfase em dois aspectos essenciais: de
um lado, a função quase exclusivamente residencial, de outro, a segurança do habitat,
que é o fato novo, mais do que o fechamento. Por outro lado, vai além da escala das
moradias, ilhotas urbanas ou quarteirões (...) para envolver grandes partes privadas ou
privatizadas da cidade, às vezes de tamanho considerável (...) com consequências na
circulação de indivíduos. O ensemble résidentiel sécurisé abrange uma tipologia
diversa, entre formas herdadas cujo significado pode ter mudado com a injunção de
segurança e produto imobiliário recente criado ex nihilo e socialmente segmentado
pelo mercado, entre pequenos loteamentos e grandes domínios dotados de instalações
desportivas (CAPRÓN, 2004, p. 100).
87

O exercício de generalização proposto por Capron é consistente na medida em que


enfatiza o uso residencial, predominante nesses empreendimentos, além de desviar o foco do
elemento material, o cercamento, para destacar elementos simbólicos e abstratos: os
dispositivos e a sensação de segurança. Não obstante, incorre em novos problemas, uma vez
que o conceito conjunto residencial seguro supõe que tais empreendimentos residenciais são,
de fato, seguros. Conceituando-os assim, a autora acaba por corroborar o estratagema
propagandístico do mercado imobiliário que ela está problematizando. Além disso, essa
conceituação supõe a não ocorrência de transgressões em empreendimentos residenciais
fechados, contrariando evidências de crimes violentos cometidos dentro desses espaços.
A partir das contribuições de Capron, a questão que se coloca é se essas designações,
veiculadas pelo setor imobiliário, carregadas de estratégias de marketing, são adequadas para o
exercício analítico de compreensão desses empreendimentos e das realidades que eles
engendram. Corre-se o risco de incorporá-las no debate acadêmico sem que se proceda a um
exame crítico que permita desnudá-las e desconstruí-las. Faz-se imperativo questionar se as
“gated communities” são, de fato, communities; se os “barrios cerrados” são, de fato, barrios;
e, no caso brasileiro, se os “condomínios fechados” são, de fato, condomínios.
A escolha desses binômios pelo mercado imobiliário para designar os espaços
autossegregados parece estar assentada em estratégias propagandísticas que visam conferir
legitimidade a uma modalidade de empreendimento que suscita desconfiança, mesmo no senso
comum. É sintomático que a promoção dessa modalidade de empreendimento por parte do
mercado imobiliário omita o termo “fechado” nas peças de marketing, sendo divulgados apenas
como “condomínios” ou “residenciais” seguidos pelo nome fantasia, como pode ser observado
nas Figuras 19 e 20.

Figura 19 - Material promocional digital de um espaço residencial fechado em São Carlos-SP

Fonte: [Link]
88

Figura 20 – Material promocional digital de um espaço residencial fechado em Arapiraca-AL

Fonte: [Link]

O emprego do termo community, nos Estados Unidos, opera como um estratagema para
desviar o foco da descontinuidade espacial abrupta, além das possíveis rupturas causadas nas
relações com antigos vizinhos, com familiares e outros grupos, a partir da mudança para um
espaço autossegregado. A separação explícita por meio da utilização de barreiras, muros e
cercas; e implícita, na forma de evitação e controles de acesso, conformam um discurso que
afronta premissas de empatia social, identitária e nacional, representados nos ideais de
integração e coesão, ao mesmo tempo em que contraria princípios religiosos fundados na
partilha, na união e na fraternidade, que seriam as bases do conceito supracitado.
89

Deste modo, é importante reconhecer que os termos utilizados pelo mercado imobiliário
para promover os espaços residenciais fechados com casas e lotes são antes subterfúgios do que
propriamente conceitos, afinal, estamos tratando de gated communities que não são
communities, barrios cerrados que não são barrios e condomínios fechados que, em sua grande
maioria, não são condomínios. A questão que se coloca é: o que eles são? Parte da resposta
parece estar no que sobrou dos binômios anteditos – as adjetivações gated, cerrado e fechado
–, por mais decepcionante que poderia parecer, mas não só neles.
A partir dessa reflexão teórica, propõe-se o conceito de residencial horizontal fechado
(RHF) como categoria genérica que permite identificar e contemplar as demais designações
apresentadas nessa seção do trabalho. O termo residencial remete ao tipo de uso predominante
nesses empreendimentos, em convergência com Capron (2004), recusando a comparação com
edifícios de escritórios, shoppings centers, resorts e outros equipamentos de comércio e
serviços, que engendram dinâmicas socioespaciais muito diferentes, divergindo, portanto, do
conceito de enclave fortificado, de Caldeira (1997), e de urbanizações fechadas de Janoschka
e Glasze (2003). O termo horizontal se refere ao fato de que se trata de um conjunto de casas
ou lotes, estabelecendo a diferença com os edifícios de apartamentos, também fechados, uma
vez que a disposição horizontal produz impactos de natureza diversa do edifício vertical na
medida em que abrange grandes áreas, com baixas densidades, divergindo, portanto, da
equiparação entre RHF com a cidadela, conceituada por Marcuse (1998). Por fim, o termo
fechado conclui a denominação, atestando uma diferença fundamental com os residenciais
horizontais convencionais ou loteamentos abertos: eles encerram, nos seus domínios, áreas de
uso controlado por aparatos de segurança ou de acesso exclusivo para os moradores, condições
essas que só são possibilitadas pela materialização do fechamento.
Os RHFs, conforme a conceituação aqui proposta, contempla os quatro tipos observados
no caso brasileiro: (i) o condomínio fechado horizontal ou condomínio de lotes (Lei nº
4.591/1964 e Lei nº 13.465/2017); (ii) o loteamento de acesso controlado (Lei nº 13.465/2017);
(iii) as vilas urbanas; (iv) e o loteamento fechado. Os dois primeiros encontram, no momento,
respaldo na legislação brasileira, apesar das controvérsias em torno do assunto. As vilas urbanas
remetem a frações do espaço urbano que são fechadas depois de já consolidadas, de forma
regular, mediante consentimento do poder público – por meio de autorização, permissão ou
concessão de uso –, ou irregular, na falta da anuência da administração municipal. Por fim, os
loteamentos fechados não encontram amparo do sistema jurídico brasileiro e podem ser
imputadas transgressões do ponto de vista da clandestinidade (caso dos empreendimentos
implantados sem a aprovação da administração municipal) ou da irregularidade
90

(empreendimentos aprovados como loteamentos convencionais e, depois, fechados sem


anuência do poder público).
A lei federal 13.465/17 alterou o Art. 2º da Lei 6.766/79, criando a possibilidade da
regularização dos loteamentos fechados como loteamentos de acesso controlado e delegou ao
poder público municipal a regulamentação desse procedimento.

3.2 Tipologia de residenciais fechados em diferentes contextos urbanos

Nessa seção, serão abordadas as classificações tipológicas desenvolvidas por diferentes


autores, em diferentes contextos. O estudo desses tipos é necessário para compreender as
nuances que os espaços residenciais fechados adquirem em razão das condicionantes
socioeconômicas e culturais onde são implantados.
Blakely e Snyder (1998) elaboraram um estudo tipológico das comunidades fechadas
norte-americanas, dividindo-as em três grupos: as comunidades de estilo de vida, referentes
principalmente à segurança social; as comunidades de prestígio, atinentes à segurança de status
e as zonas de segurança, concernente à proteção contra a criminalidade.
As comunidades de estilo de vida foram os primeiros empreendimentos residenciais
fechados destinados ao mercado de massa. Os portões fornecem segurança e separação para as
atividades de lazer e amenidades internas. Essa categoria contempla três tipos de
empreendimentos: as “comunidades para aposentados”, que dispõem de clubes sociais e
atividades recreativas frequentes, similares a um cruzeiro de férias permanente; as
“comunidades de golfe e lazer”, com pórticos ostentosos, remetendo a prestígio e distinção, que
oferecem, além dos campos de golfe, quadras de tênis, complexos de piscinas e campos de polo;
e as “novas cidades”, empreendimentos fechados de grande escala, podendo reunir dezenas de
milhares de unidades residenciais, incorporando atividades comerciais, industriais e serviços
no espaço intramuros ou nas áreas adjacentes. As comunidades de estilo de vida ressaltam a
dimensão ambiental atrelada a ideias de liberdade e contato com a natureza, ainda que
artificializadas ou restritas no espaço intramuros (Figuras 21A e 21B).
91

Figura 21 - Comunidades de estilo de vida. (A) Mission Hills Country Club, Rancho Mirage, California; (B)
Hilton Head Island, Carolina do Sul
(A) (B)

Fonte: [Link] Fonte: [Link]

As comunidades de prestígio buscam responder às aspirações de distinção e


exclusividade. Esses empreendimentos dispõem de guaritas ostentosas, com o intuito de
projetar uma imagem e proteger o valor do investimento. O aparato de segurança serve mais
para demonstração de opulência do que por necessidade. Diferentemente das comunidades de
estilo de vida, não oferecem extensas instalações recreativas, mas fazem um rigoroso controle
estético e dispõem de tratamento paisagístico exuberante.
Esta categoria inclui os “enclaves para os ricos e famosos” e “comunidades executivas”.
Os primeiros são exclusivistas ao extremo, escondidos, fortemente protegidos e tomados como
modelo pelos demais empreendimentos fechados. O público-alvo são os 20% com maior renda
no país, incluindo executivos e gerentes seniores, além de profissionais de sucesso. Esses
empreendimentos abrigam casas suntuosas, construídas sob encomenda para assegurar
privacidade, exclusividade e prestígio (Figura 22A). Já as “comunidades executivas” são
destinadas à classe média, onde residem jovens profissionais e gerentes de nível médio,
“oferecem o selo de vida exclusiva para aqueles com rendas não exclusivas” (Ibid., p. 62), as
amenidades se restringem a uma entrada com portão e interfone 30 (evitando o custo com
porteiros), piscina ou quadra de tênis (Figura 22B). A dimensão privilegiada nesse tipo de
empreendimento é a socioeconômica, afirmada como prestígio de residir entre semelhantes,
situados na mesma classe social.

30
Interessante observar que nas cidades brasileiras, residenciais horizontais fechados raramente operam com
sistemas de interfone. Em Arapiraca-AL, desde os residenciais horizontais de padrão mais baixo até os de padrão
mais alto, todos, sem exceção, dispõem de porteiros 24 horas. Há duas razões possíveis que podem explicar essa
diferença entre o caso brasileiro e o norte-americano: a facilidade de contratação, em razão dos baixos salários
pagos aos porteiros aqui; e a função de vigilante, acumulada pelo porteiro, para coibir uma modalidade de assalto
muito comum no Brasil: a abordagem enquanto o motorista realiza manualmente a abertura do portão ou aguarda,
quando o portão é eletrônico.
92

Figura 22 - Comunidades de prestígio. (A) Enclave para ricos e famosos: Cotton Valley, Dallas, Texas; (B)
Enclaves para executivos: Jacaranda Pointe, Fort Lauderdale, Miami
(A) (B)

Fonte: [Link] Fonte: [Link]

Por fim, nas zonas de segurança, o medo do crime e de estranhos é o fator principal que
motiva o fechamento, levado a cabo pelos próprios residentes e não por incorporadores, como
nas categorias anteriores. Esta categoria inclui três subtipos: posto urbano (city perch), posto
suburbano (suburban perch) e o posto de barricada (barricade perch)31.
Os postos urbanos estão localizados em bairros ricos e pobres, as pessoas residentes
instalam portões como forma de conter o crime e o tráfego intenso. Impossibilitados ou
resistentes em se mudarem, os moradores se protegem no local. Nos postos suburbanos, os
moradores realizam o fechamento como estratégia preventiva, na medida em que observam os
problemas urbanos alcançando sua vida cotidiana, em especial, aqueles decorrentes do trânsito
(Figura 23). Quanto aos postos de barricada, não são comunidades totalmente fechadas, pois
estão entranhadas em bairros com vias públicas no seu interior. Os moradores instalam cancelas
sob a justificativa de desencorajar a entrada de gangues, evitar congestionamentos, além de
manter certo patamar de valorização da área, e assim assegurar a permanência da classe média
residente e de estabelecimentos “desejáveis”, tais como as agências bancárias.

31
A palavra perch também pode ser traduzida como “poleiro”, um lugar mais seguro para as aves contra
predadores, em razão da posição mais elevada em relação ao solo.
93

Figura 23 - Guarita do Brentwood Circle, no subúrbio de Los Angeles, implantada em 1995, após
autorização de fechamento em razão do aumento do tráfego na vizinhança

Fonte: [Link]
De acordo com o estudo classificatório realizado por Blakely e Snyder (1998) foi
possível sintetizar os tipos de comunidades no Quadro 2.

Quadro 2 - Tipos de comunidades fechadas, segundo Blakely e Snyder (1998).


Tipo de gated
Subtipos Características
communities
Aposentados Dimensão: ambiental. Os portões fornecem
Estilo de vida Golfe e lazer segurança e separação para as atividades de lazer e
Novas cidades amenidades internas.
Enclaves para os ricos e famosos
Dimensão: socioeconômica. Buscam atender às
Prestígio Top Fifth Communities
aspirações de distinção e exclusividade.
Comunidades executivas
Posto urbano (City perch) Dimensão: segurança. Áreas residenciais
Segurança Posto Suburbano (Suburban perch) consolidadas, fechadas pelos próprios moradores. O
Posto de Barricada (Barricade perch) medo do crime e de estranhos motiva o fechamento.
Fonte: O autor (2020)

Borsdorf (2002) elaborou uma classificação tipológica dos bairros fechados a partir de
estudos e observações realizadas em três capitais sul-americanas: Quito, Lima e Santiago. O
autor identificou quatro tipos de bairros fechados nas cidades pesquisadas: bairros fechados de
estilo de vida, bairros fechados de acesso exclusivo, bairros fechados de classe média e bairros
fechados populares.
Os bairros fechados de estilo de vida guardam estreita relação com as comunidades
fechadas norte-americanas. Dispõem de extensas áreas verdes com campos de golfe, country
club e simulam um paraíso rural em “contato com a natureza”, explorando recursos
paisagísticos como lagoas e outros atrativos. O estilo de vida nesses bairros é totalmente
globalizado, sem elementos da cultura local. São encontrados em diferentes cidades e recebem
também a denominação “country”. Os tamanhos variam de pequenos grupos de moradias até
extensas unidades autossustentáveis (BORSDORF, 2002) (Figura 24).
94

Figura 24 - Bairro fechado de estilo de vida. Arrayanes Country Club, Quito, Equador.

Fonte: Luigi Setti. [Link]

Figura 25 - Bairros fechados de acesso exclusivo. Asociación Las Casuarines, Lima, Peru

Fonte: [Link]
95

Nos bairros fechados de acesso exclusivo, o individualismo extremo aliada à afirmação


de um estilo pessoal por parte dos moradores se expressam através da arquitetura exclusiva, dos
cercamentos das unidades residenciais mesmo dentro do empreendimento fechado, da falta de
contatos sociais entre os vizinhos e do escasso uso das áreas comuns. São ocupados por
moradores de classe “arribista” (emergentes) e também de classe alta a exemplo de estrangeiros
norte-americanos ou europeus, embaixadores ou funcionários públicos de alto escalão (Figura
25) (BORSDORF, 2002).
Os bairros fechados de classe média são os que apresentam a maior diversidade em
termos de morfologia, contemplando desde conjuntos de casas individuais ou geminadas a
edifícios verticais (Figura 26); quanto em termos de tamanho, variando entre aqueles de
pequeno aos de médio porte. A infraestrutura comum, em geral, é limitada, embora alguns
edifícios verticais contem com serviços lavanderia, piscina, salas de cinema e espaços para
reunião. Nessa modalidade de bairro fechado, a demanda por segurança é a motivação central
para a autossegregação – em função da proteção das crianças – mais do que nos
empreendimentos destinados à classe alta.

Figura 26 - Bairro fechado de classe média. Condomínio em La Molina, Lima

Fonte: [Link]

Por fim, os bairros fechados populares são destinados à população de baixa renda, em
que a escolha deriva de motivações menos ligadas a prestígio e exclusividade e mais pela busca
de um maior grau de segurança e proteção contra crimes (Figura 27). A qualidade das casas e
das infraestruturas não distinguem essa modalidade de bairros fechados das demais
urbanizações de mesmo nível, sendo o único diferencial a existência dos muros. Essa
96

modalidade contempla também as iniciativas de fechamento de vias, levada a cabo pelos


próprios moradores, em áreas de ocupação urbana consolidada, além do cercamento de edifícios
verticais, ambos com a finalidade de controlar o acesso.

Figura 27 - Bairro fechado popular. Condomínio Los Libertadores, Puente Alto, Santiago.

Fonte: [Link]

No Brasil, Andrade (2001) estabeleceu uma tipologia a partir da diferenciação entre


condomínios observados na Região Metropolitana de Belo Horizonte. De acordo com o estudo
desenvolvido pela autora, os condomínios destinados às classes altas e médias se diferenciam
daqueles destinados às classes populares, quanto ao tipo de construção, aos serviços ofertados
e aos tipos de uso.
Quanto ao tipo de construção, são subdivididos em: (i) condomínios horizontais,
formados por casas edificadas segundo projetos individuais, como ocorre nos loteamentos
tradicionais; e em (ii) condomínios verticais, formados por blocos de edifícios de apartamentos.
Esses dois tipos podem reunir além do uso residencial, usos comerciais, de serviços e de lazer.
Quantos aos serviços, as semelhanças entre os dois tipos de condomínios são observadas na
oferta de segurança privada, áreas de lazer exclusivas e controle acesso que impede o contato
com “indesejáveis”.
Andrade (2001) destaca, em consonância com Blakely e Snyder (1997), Caldeira (2000)
e Bogus e Pasternak (2004), que a diferença fundamental entre os dois tipos supracitados é que,
nos condomínios horizontais, espaços públicos como ruas e praças, são privatizados. Quanto à
infraestrutura interna, os serviços referentes ao saneamento, à manutenção das vias e segurança
pode ser mantida integralmente pelo condomínio ou através de parceria com a administração
municipal.
97

Os condomínios para classes altas e médias podem ainda ser classificados em razão do
tipo de uso residencial: como condomínios de primeira residência, marcada pelo caráter
permanente; ou como condomínios de segunda residência, para lazer em finais de semana.
Andrade aponta que nos municípios onde realizou o estudo, muitos condomínios começaram
sendo ocupados com residências para fins de lazer e, aos poucos, foram se transformando em
condomínios com moradias permanentes.
Os condomínios voltados para as classes média baixa apresentam diferenças em relação
aos anteriores, na medida em que um projeto-padrão para as residências é oferecido pelas
construtoras, com reduzidas opções de intervenção pelos moradores. Outros estudos apontam
que as construtoras podem oferecer dois ou três padrões de projeto, diferenciadas com relação
à fachada e à configuração interna, sendo facultado ao morador, construir segundo projeto
próprio (ANDRADE, 2001).
Além dos elementos de diferenciação supracitados, a análise das mudanças quanto à
composição social nos condomínios horizontais ao longo do tempo é o elemento-chave, onde o
trabalho de Andrade (2001) ofereceu sua maior contribuição.
A partir da pesquisa empírica realizada na área de estudo, Andrade (2001) identificou
alterações no perfil dos moradores dos condomínios entre as décadas de 1970, 1980 e 1990: em
cada uma, predominou na ocupação dos condomínios um determinado estrato social. Os
moradores dos condomínios horizontais localizados em Nova Lima e Brumadinho eram, na sua
maioria, oriundos de Belo Horizonte, município polo da região metropolitana.
Na década de 1970, predominava o perfil que a autora denominou “pioneiros urbanos”
ou “aventureiros”, formado, em geral, por professores universitários e profissionais liberais.
Naquele momento, a busca por segurança não era o fator determinante, mas a procura por um
local de residência rodeado por matas, com espaços para lazer e outros fatores ligados ao que
se convencionou chamar “qualidade de vida”.
Na década de 1980, passou a prevalecer o perfil dos profissionais liberais, um segmento
da classe média que buscava nos condomínios horizontais um refúgio contra o estresse da vida
cotidiana na cidade e a insegurança, além da valorização da paisagem e dos preços dos terrenos
e imóveis, mais acessíveis que nos bairros abastados da metrópole. Até esse período, a ocupação
dos condomínios horizontais se deu predominantemente por segmentos de classe média, uma
vez que a classe alta preferia residir nos edifícios verticais em bairros abastados da capital, com
amplos apartamentos, porteiros e áreas de lazer. A opção por residir na cidade era visto por esse
segmento como signos de “civilização” e “modernidade”, rejeitando os condomínios
horizontais, até então localizados em regiões pouco habitadas e com pouca infraestrutura.
98

A década de 1990 constituiu uma inflexão quanto ao perfil dos moradores nos
condomínios horizontais. Com o provimento de melhorias na infraestrutura, instalação de
portarias e aparatos de segurança, proximidade com shopping center e outros estabelecimentos
comerciais, esses condomínios passaram a atrair moradores da alta sociedade, em busca de
segurança, áreas verdes privativas e outras amenidades não passíveis de acesso exclusivo nos
bairros abastados.
Com o ingresso do perfil de alta renda, os condomínios passaram a abrigar outros
conflitos, tanto tácitos quanto explícitos. As casas passaram a ser delimitadas com cercas e
muros, além de contarem com aparatos de segurança, mesmo estando dentro dos condomínios.
As relações de vizinhança ficaram ainda mais comprometidas, na medida em que os segmentos
de alta renda tendem a se abster de contatos interpessoais com os demais perfis de moradores.
O choque entre os “pioneiros” e os “novos residentes” foram mais evidentes, uma vez que os
primeiros pautavam seu modo de residir por valores como uso ativo, preservação do meio
ambiente e associativismo (ainda que elitista), enquanto os últimos buscam privacidade e
segurança, se restringindo mais ao espaço da casa.
Andrade concluiu apontando os impactos na participação política derivados da opção
pela residência em condomínios horizontais na região metropolitana em questão. Boa parte dos
moradores desses empreendimentos, localizados em municípios menores da região
metropolitana, mantém seus vínculos eleitorais com a metrópole. Não obstante, os “pioneiros”
constituem o grupo mais organizado. Nas eleições de 2000, esse grupo se articulou reunindo
moradores de diversos condomínios e elegeram um vereador, defendendo pautas
“ambientalistas” focadas em restrições de ocupação que buscam assegurar a qualidade
ambiental, mas em áreas atinentes aos arredores dos condomínios onde reside.
Os tipos de espaços residenciais fechados, tanto no caso norte-americano quanto no caso
sul-americano, permitem tecer algumas observações a partir de suas características e das
fotografias ilustrativas aqui apresentadas. Parece haver uma relação inversa entre o padrão do
residencial e a densidade construtiva: quanto mais alto é o nível socioeconômico dos moradores,
menor é o adensamento construtivo, ou seja, a distância física como afirmação de distância
social.
Outra observação é que parece haver uma preferência pela implantação de residenciais
fechados de alto padrão em localizações elevadas na topografia da cidade, geralmente, em
encostas de colinas. A elevação possibilita o efeito de mirante, oferecendo como amenidade a
ampla vista para a cidade, ao mesmo tempo em que o empreendimento é visto numa posição de
destaque no horizonte de visão dos não-moradores. Já os residenciais de alto padrão cujo
99

público-alvo busca privacidade e discrição são posicionados horizontalmente esparsos,


rodeados por vegetação e variações no relevo local. Quando são implantados para serem vistos,
os residenciais são posicionados em locais verticalmente elevados, como afirmação de
hierarquia, e quando são implantados para não serem vistos, são posicionados de forma esparsa
e afastados do resto da cidade, como afirmação de distanciamento social.
Por fim, o processo de busca na internet pelas imagens dos residenciais fechados
exemplificados tanto por Blakely e Snyder (1998), quanto por Borsdorf (2002), foi tanto mais
difícil quanto mais baixo era padrão do empreendimento. Essa dificuldade de acesso a
informações pode ter relação com o público-alvo dos empreendimentos: enquanto os segmentos
de alta e média-alta rendas tendem a usar a internet para buscar informações sobre ofertas do
mercado imobiliário, os segmentos de renda média-baixa teriam acesso mais limitado a esse
meio. Outro aspecto pode estar relacionado ao tempo de implantação desses residenciais. Ainda
assim, é possível afirmar que quanto mais alto o padrão dos empreendimentos, mais visíveis
eles estão, tanto no espaço material das cidades, quanto no espaço virtual da internet, e
permanecem online por mais tempo.

3.3 Residenciais horizontais fechados no Brasil: evolução e aspectos jurídicos

Bogus e Pasternak (2004) apontaram que as formas de morar, em São Paulo, até meados
dos anos 1970, se apresentavam de modo bem marcado em função da renda. Os apartamentos
em edifícios verticais, nas áreas centrais e pericentrais eram ocupados predominantemente por
segmentos de renda média. As mansões e outras tipologias de casas de alto padrão abrigavam
a população de alta renda, construídas tanto em lotes convencionais, localizados em bairros
nobres tradicionais da cidade, quanto nos condomínios horizontais fechados recém-
implantados. As famílias de baixa renda se distribuíram tanto pelas áreas periféricas, em
moradias autoconstruídas, quanto pelos cortiços e favelas, dispersos pelo tecido urbano da
cidade.
As duas autoras revelaram ainda uma diferença fundamental nas escolhas locacionais
para implantação dos empreendimentos verticais fechados e dos empreendimentos horizontais
fechados, por parte do setor imobiliário: os conjuntos verticais foram implantados em bairros
distantes do centro, como a região de Vila Andrade e Morumbi, enquanto os loteamentos
fechados foram implantados nas bordas da região metropolitana: nos municípios Barueri,
Santana do Parnaíba e Cotia.
100

O precursor dos condomínios horizontais fechados foi o Alphaville, implantado em


1973, em Barueri, na periferia da Região Metropolitana de São Paulo (Figuras 28A e 28B). No
contexto da implantação, a questão da segurança não foi o componente central na promoção do
empreendimento, mas sim “um novo estilo de vida”, valorizando a residência rodeada por áreas
verdes como alternativa aos problemas observados nas áreas centrais, como trânsito intenso,
ruído e poluição. Bogus e Pasternak (2004, p.13) afirmaram que o empreendimento quase
fracassou:
(...) o fato de supor o uso cotidiano do automóvel e de uma movimentada rodovia de
ligação com a cidade de São Paulo quase inviabilizou a venda dos terrenos, que
demoraram a ser comercializados e quase levaram à falência a companhia construtora
responsável pelo empreendimento. O grande impulso à ocupação e expansão de
Alphaville foi dado a partir de meados dos anos 80, quando no entorno do condomínio
passaram a instalar-se vários estabelecimentos de serviços essenciais, como escolas,
bancos, comércio, supermercados, etc.

Figura 28 - Implantação do Alphaville, em 1973, em Barueri-SP; (B) Alphaville Barueri, em 2020.


(A) (B)

Fontes: [Link]

Dunker (2015) estabeleceu uma analogia entre o emblemático condomínio Alphaville e


a narrativa do filme homônimo de Jean-Luc-Godard, utilizado como referência pelo
empreendimento32. O filme aborda, partir de uma perspectiva distópica, uma sociedade
paralela, situada em outro planeta, comandada por uma espécie de racionalismo extremado,
personificado no computador Alpha 60. Segundo Dunker (2015, p. 51),

em Alphaville, está proibida toda forma de amor, poesia ou emoção. Toda construção
interrogativa na forma por quê? foi banida e deve ser substituída pelo explicativo
porque. Os transgressores, quando não eliminados, são enviados para outras galáxias,
com o fim explícito de incitar revoltas, greves e perturbações estudantis. Em cada

32
“Em 1974, com nome inspirado na película de Godard, foi lançado o Alphaville Empresarial e o gigante de
tecnologia Hewlett Packard adquiriu uma área de 20.000 metros quadrados. Das conversas com os executivos veio
a ideia: criar uma área de casas para os funcionários. Surgia o embrião daquele que viria a ser o primeiro projeto
urbano brasileiro semelhante às “edge cities” americanas, cidades planejadas próximo às grandes metrópoles.”
(VEJA SÃO PAULO, 2011).
101

casa, há uma espécie de dicionário, continuamente atualizado, contendo as palavras


suprimidas em função de sua potencial conotação afetiva.33

Vladimir Safatle aponta outras analogias possíveis entre o argumento do filme dirigido
por Godard e o condomínio residencial fechado: “Alphaville é também o nome de um dos
primeiros condomínios fechados do Brasil, inaugurado como um lugar seguro e controlado, no
qual nossa humanidade meridional poderia voltar a aflorar sem precisar se confrontar com o
medo do caos social” (SAFATLE, 2015, p.9 [prefacio]).
No decorrer dos anos 1970, os empreendimentos residenciais fechados alcançaram as
cidades de porte médio paulistas. Em São José do Rio Preto, o primeiro residencial horizontal
fechado, o Condomínio Bourgainville, foi implantado em 1974. Em 2007, a cidade já contava
com 48 residenciais fechados, entre condomínios e loteamentos (BIZZIO, 2015). Em Marília,
o primeiro condomínio horizontal fechado, aprovado em 1977 foi o “Sítios de Recreio Santa
Gertrudes”. Em 2008, a cidade possuía 25 RHFs, somados os de pequeno e grande portes (DAL
POZZO, 2011). Em Ribeirão Preto, o primeiro foi o Quinta da Alvorada, condomínio de
chácaras implantado na década de 1950. Em 2008, o município já abrigava 61 empreendimentos
residenciais fechados e, em 2015, esse número passou para 92 (DAL POZZO, 2015). Em
Presidente Prudente, o Jardim Morumbi foi o primeiro condomínio residencial construído, em
1975, pela empresa imobiliária PROVENDA. Em 2010, quinze empreendimentos fechados já
estavam implantados em Presidente Prudente34 (DAL POZZO, 2015). São Carlos, por sua vez,
abrigou o primeiro loteamento fechado em 1976, o Parque Sabará. Em 2013, 37
empreendimentos fechados já estavam instalados no município, entre loteamentos e
condomínios (BIZZIO, 2015).
Sposito (2006, p. 175) realizou um estudo sobre residenciais fechados em cidades
médias paulistas, com foco nas formas de uso e apropriação dos espaços urbanos. A autora
argumentou que as mudanças nas formas de produção do espaço urbano, decorrentes da
passagem da cidade fordista para a cidade pós-fordista, difusa e fragmentada, constituem um
processo de reestruturação urbana que afeta não somente as cidades metropolitanas, mas
também as cidades de médio porte. O objetivo da autora foi compreender o que haveria de

33
No prefácio do mesmo livro de Dunker (2015), Safatle aponta na mesma direção, analisando a narrativa do filme
e estabelecendo uma analogia com os modos de vida no condomínio fechado: “em Alphaville, as singularidades
inexistem, as emoções são raras e ilógicas, pois estranhas a um princípio geral de produtividade e equivalência
que comanda o desenvolvimento social. Tampouco tem lugar a tristeza” (SAFATLE, 2015, p.9).
34
Em Presidente Prudente, está sediada a Dahma Urbanizadora, uma empresa com forte participação na
implantação de residenciais fechados no Brasil. Em Arapiraca, o Residencial Riviera do Lago, aprovado em 2014,
foi resultado da parceria entre a Dahma Urbanizadora e o empresário local, José Alexandre dos Santos, presidente
do Grupo Coringa.
102

universal nesse fenômeno, mas também identificar as especificidades com que se apresentam
nas cidades de porte intermediário, adotando como recorte analítico os RHFs, denominados
pela autora como loteamentos fechados. Segundo ela, “podemos afirmar que esses espaços
residenciais representam novos habitats urbanos, porque rompem com os princípios de unidade
e de integração socioespaciais que sempre marcaram a cidade” (SPOSITO, 2006, p.176).
O entendimento de que a cidade, ao longo de sua história, foi marcada por princípios de
unidade e integração aparece também nas reflexões de outros autores renomados, como Teresa
Caldeira (2000), mas é passível de problematização. Os conflitos fizeram parte do processo de
estruturação das cidades e, em convergência com as reflexões de Lacerda (2012), concorda-se
que a fragmentação espacial não é um processo novo, mas constituinte da formação das cidades,
desde suas origens. Segundo Lacerda (2012), o que altera ao longo do tempo são a natureza dos
fragmentos e a forma como eles são articulados para formar o espaço urbano.
De acordo com Sposito (2006, p. 179-180), o surgimento de loteamentos fechados é
parte do processo de reestruturação das cidades médias paulistas, observado na redefinição do
binômio centro versus periferia que caracterizava a cidade industrial: “à medida que os
loteamentos fechados começaram a aparecer nessas cidades, os conteúdos sociais e econômicos
da periferia passaram a se redefinir”.
O primeiro padrão observado por Sposito (2006) sobre a autossegregação é a
diversificação do cinturão periférico. Nas regiões metropolitanas, os RHFs se instalaram nos
municípios do entorno imediato da metrópole, a exemplo do Alphaville implantado no início
da década de 1970, em Barueri, município integrante da Região Metropolitana de São Paulo.
No caso das cidades médias, esses empreendimentos se instalaram nos bairros periféricos, antes
ocupados por conjuntos habitacionais e loteamentos ocupados por segmentos de baixa renda.

No anel periurbano formado por glebas não loteadas, muitas delas já sem usos de solo
rural, apareceram, nos setores melhor servidos por infraestrutura viária, esses novos
habitats urbanos, trazendo à periferia da cidade brasileira contemporânea uma
complexidade que não lhe era característica nas décadas de 1950 e 1960, quando se
generalizou o padrão geral de expansão urbana do tecido urbano, marcado pela
periferização (SPOSITO, 2006, p.181).

Outro aspecto observado por Sposito (2006, p.181) e, nesse caso se trata de uma
especificidade das cidades de médio porte, é o menor preço da terra não parcelada, quando
comparado às grandes cidades. O preço da terra tende a diminuir quanto maior for a distância
do centro e dos subcentros – onde há infraestrutura instalada, uso do solo diversificado e efeitos
de lugar (BOURDIEU, 2011) decorrentes da localização de equipamentos urbanos valorizados
(museus, parques, shoppings centers). Nas cidades médias, os bairros pericentrais e periféricos
103

tendem a dispor de amplas glebas a preços mais baixos. Segundo a autora, esse fator possibilita
a aquisição de extensas áreas para a implantação de grandes RHFs, relativamente próximas ou
mesmo inseridas em áreas urbanas já consolidadas.
Sposito (2006, p. 186) apontou outra especificidade das cidades de porte médio que
guarda relação com a anterior: a menor extensão territorial, se comparada às metrópoles. Esse
aspecto “possibilita que o tecido urbano se torne difuso, sem que as distâncias se tornem de
fato, um grande problema”. E continua, “aqui, a descontinuidade do tecido urbano pode se
realizar, sem que os custos econômicos e o dispêndio de tempo, decorrentes de deslocamentos
maiores, sejam, ainda, um entrave aos interesses fundiários e imobiliários dos agentes que
projetam, incorporam e comercializem os loteamentos fechados”.
Sobre essa última especificidade, Sposito (2006, p. 186) aciona as contribuições do
sociólogo francês Pierre Veltz sobre a relação entre espaço e tempo para formular uma reflexão
fulcral sobre as estratégias locacionais que definem a implantação de RHFs nas cidades.
Segundo Veltz (2001 apud Sposito 2006, p. 186) “[...] não é mais o espaço que estrutura o
tempo, mas os constrangimentos temporais que modelam os esquemas espaciais”. A partir
dessa formulação, Sposito (2006, p.186) arremata:

Tais agentes têm sido capazes de procurar localizações que, ao mesmo tempo,
possibilitam fluidez e diminuição do número e frequência dos deslocamentos
intraurbanos, visto que valorizam, em suas escolhas locacionais, a situação geográfica
da gleba a ser loteada em relação às vias que propiciam maior velocidade e em relação
à proximidade dos meios de consumo mais moderno. Em outras palavras, combinam
alta mobilidade com proximidade e identidade nas práticas de consumo (SPOSITO,
2006, p.186).

As especificidades identificadas por Sposito (2006) com que a autossegregação se


espacializa nas cidades paulistas de porte médio pode ser sintetizada no trinômio: baixo preço
da terra (dimensão econômica) – menores distâncias (dimensão espacial) – maior mobilidade
(dimensão temporal), sendo essas três dimensões, interdependentes.
Em Alagoas, o primeiro residencial horizontal fechado foi o Condomínio Aldebaran,
implantado entre 1985 e 1987 (SILVA, 2013), em Maceió (Figura 29). Em 2010, Maceió
contava com 33 empreendimentos horizontais fechados desde a implantação e outras 79 áreas
residenciais fechadas depois de consolidadas. Essas 112 áreas residenciais fechadas ocupavam
uma área total de 713 hectares, somando mais 7.700 lotes ou unidades residenciais em seu
interior, além de aproximadamente 200 hectares de áreas públicas delimitadas para uso
exclusivo dos moradores (CORRÊA, 2010).
104

Figura 29 - Condomínio Aldebaran (Ômega), Maceió-AL

Fonte: Marcelo Rocha Jr. [Link]

Em Arapiraca-AL, o primeiro loteamento fechado foi o Residencial Ouro Verde,


concluído em 2007, com 465 lotes e área total de 36 hectares (Figuras 30 e 31). Em 2010, o
município abrigava nove RHFs, ocupando uma área total de 85 hectares. Em setembro de 2019,
trinta e oito RHFs já estavam implantados em Arapiraca, ocupando uma área total de 415
hectares, somando mais de 9.750 lotes ofertados; destes, trinta e seis35 encerravam, no espaço
intramuros, aproximadamente 165 hectares de áreas públicas.

Figura 30 - Vista de Arapiraca-AL. No primeiro plano, residencial horizontal fechado Ouro Verde; no
segundo plano, o residencial vertical fechado Espace, ambos implantados pela mesma construtora.

Fonte: Tony Cavalcanti

35
O RHF Villa De La Roche e o Araville Alfa não foram considerados no cômputo, pois se tratam de condomínio
horizontal e, portanto, não dispõem de áreas públicas no seu interior.
105

Figura 31 - Guarita do Residencial Ouro Verde, Arapiraca-AL

Fonte: O autor (2020)

O debate sobre os RHFs, no campo do Direito, se estende por mais de quatro décadas,
desde que esse tipo de empreendimento começou a ser implantado nas cidades brasileiras, em
meados da década de 1970. Esse subcapítulo tem por objetivo situar historicamente as
principais controvérsias em torno dos RHFs na legislação brasileira. Para tanto, é importante
subdividir os embates sobre esse tema em dois períodos: (a) o debate em torno da dicotomia
loteamento fechado versus condomínio deitado (ou condomínio de casas), iniciada com a lei
federal nº 4.591, de 16 de dezembro de 1964, e aprofundada com a lei federal nº 6.766, de 19
de dezembro de 1979; (b) e o debate em torno das três modalidades de loteamento, instituídos
pela lei federal nº 13.465, de 11 de julho de 2017, aprovada para se constituir como o marco
regulatório dos empreendimentos horizontais fechados no país.
No meio jurídico, há uma profusão de termos atinentes ao tema – loteamento fechado,
loteamento de acesso controlado, loteamento condominial, condomínio deitado, condomínio de
lotes, condomínio horizontal, condomínio de casas etc. Essa multiplicidade de termos gera certa
confusão, pois diferentes autores usam designações semelhantes com significados divergentes.
Apesar da polissemia que perpassa esse debate, o cerne da questão esteve na legalidade ou não
desses empreendimentos à luz do ordenamento jurídico brasileiro. Há certo consenso de que a
querela em questão se encerraria com a aprovação de um marco legal específico, de âmbito
federal, que regulamentasse de forma cabal os RHFs no Brasil.
106

A lei federal 13.465/2017 teve por objetivo oferecer esse respaldo, porém, ela apresenta
controvérsias na forma como foi editada, via medida provisória; no conteúdo, já que altera
dispositivos de várias legislações atinentes ao tema 36; e também pelo contexto político, uma
vez que foi aprovada em meio a uma grave crise política37. O resultado é que pesa sobre a
referida lei, no presente momento, três Ações Diretas de Inconstitucionalidade em tramitação
no Supremo Tribunal Federal.
A celeuma sobre esses empreendimentos ficou conhecida no direito urbanístico por uma
confrontação entre os defensores e os opositores dos “condomínios deitados” (ou condomínios
de casas ou lotes) e dos “loteamentos fechados”.
O condomínio tradicional ou voluntário corresponde à forma mais comum de
copropriedade, caracterizado quando dois ou mais direitos de propriedade incidem,
simultaneamente, sobre um mesmo bem, seja ele móvel ou imóvel 38. O condomínio voluntário
é caracterizado pela a indivisão do objeto e divisão dos sujeitos (GOMES, 1988 apud SILVA,
2005, p. 10). Cada condômino é proprietário de um “percentual” (ou uma fração ideal) do bem,
sendo que essa fração tem conteúdo econômico, suscetível de alienação (OLIVEIRA, 2017 p.
3).
A lei federal nº 4.591, de 16 de dezembro de 1964, dispõe sobre o condomínio em
edificações e as incorporações imobiliárias e está enquadrada no campo do direito privado. A
lei de condomínios foi instituída no primeiro ano de governo do Marechal Castello Branco, oito
meses após o golpe militar que destituiu João Goulart da presidência da república. A finalidade
da lei era regulamentar a situação dos edifícios de apartamentos, uma modalidade de residência
em franca expansão nas grandes cidades brasileiras, desde os anos 1940, e das vilas ou

36
A extensa ementa da lei atesta essa controvérsia: “Dispõe sobre a regularização fundiária rural e urbana, sobre
a liquidação de créditos concedidos aos assentados da reforma agrária e sobre a regularização fundiária no âmbito
da Amazônia Legal; institui mecanismos para aprimorar a eficiência dos procedimentos de alienação de imóveis
da União; altera as Leis n os 8.629, de 25 de fevereiro de 1993 , 13.001, de 20 de junho de 2014 , 11.952, de 25
de junho de 2009, 13.340, de 28 de setembro de 2016, 8.666, de 21 de junho de 1993, 6.015, de 31 de dezembro
de 1973, 12.512, de 14 de outubro de 2011 , 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil), 13.105, de 16 de
março de 2015 (Código de Processo Civil), 11.977, de 7 de julho de 2009, 9.514, de 20 de novembro de 1997,
11.124, de 16 de junho de 2005, 6.766, de 19 de dezembro de 1979, 10.257, de 10 de julho de 2001, 12.651, de 25
de maio de 2012, 13.240, de 30 de dezembro de 2015, 9.636, de 15 de maio de 1998, 8.036, de 11 de maio de
1990, 13.139, de 26 de junho de 2015, 11.483, de 31 de maio de 2007, e a 12.712, de 30 de agosto de 2012, a
Medida Provisória nº 2.220, de 4 de setembro de 2001, e os Decretos-Leis n º 2.398, de 21 de dezembro de 1987,
1.876, de 15 de julho de 1981, 9.760, de 5 de setembro de 1946, e 3.365, de 21 de junho de 1941; revoga
dispositivos da Lei Complementar nº 76, de 6 de julho de 1993, e da Lei nº 13.347, de 10 de outubro de 2016; e
dá outras providências.”
37
O governo de Michel Temer teve sua legitimidade questionada por diversos setores da sociedade brasileira uma
vez que assumiu a presidência como resultado do controverso impeachment da presidente Dilma Housseff. De
acordo com parte dos juristas, o pedido de impedimento não apresentou uma acusação contundente de crime de
responsabilidade, estando ausente, portanto, a matéria jurídica necessária para a abertura do processo.
38
Disponível em: [Link] Acesso em: 17 dez. 2020.
107

conjuntos residenciais urbanos, com ruas particulares de dimensões restritas e configuração


descontinuada, com balões de retorno ou cul-de-sac nas extremidades de ruas sem saída.
Quando a lei foi aprovada, a proliferação de RHFs ainda não era uma realidade no Brasil. De
acordo com esse marco normativo:

Art 1º. As edificações ou conjuntos de edificações, de um ou mais pavimentos,


construídos sob a forma de unidades isoladas entre si, destinadas a fins residenciais
ou não-residenciais, poderão ser alienados, no todo ou em parte, objetivamente
considerados, e constituirá, cada unidade, propriedade autônoma sujeita às limitações
desta Lei.
§ 1º Cada unidade será assinalada por designação especial, numérica ou alfabética,
para efeitos de identificação e discriminação.
§ 2º A cada unidade caberá, como parte inseparável, uma fração ideal do terreno e
coisas comuns, expressa sob forma decimal ou ordinária (BRASIL, 1964, s/p)

De acordo com a referida lei, o estatuto jurídico do condomínio pressupõe que o


condômino seja o proprietário exclusivo da unidade privativa, que recebe uma matrícula própria
no registro cartorial de imóveis, e detenha a titularidade de uma fração ideal das áreas comuns.
Para que o condomínio se constitua, é imperativa essa condição de indissociabilidade entre a
posse da unidade privativa e a posse dessa fração ideal. A proporção de área que constitui a
fração ideal sob titularidade de cada condômino é definida pela convenção do condomínio,
documento indispensável que respalda a legalidade de esse estatuto jurídico (OLIVEIRA, 2017,
p. 3).
A lei federal nº 6.766, de 19 de dezembro de 1979, por sua vez, regulamentou o
parcelamento do solo urbano e está lastreada no regime jurídico de direito público. O Art. 2º da
referida lei dispõe que o parcelamento do solo urbano poderá ser feito mediante loteamento ou
desmembramento, observadas as suas disposições e aquelas derivadas das legislações estaduais
e municipais pertinentes. O parágrafo primeiro do mesmo artigo, define loteamento como “a
subdivisão de gleba em lotes destinados a edificação, com abertura de novas vias de circulação,
de logradouros públicos ou prolongamento, modificação ou ampliação das vias existentes”
(BRASIL, 1979, s/p.); e como desmembramento, “a subdivisão de gleba em lotes destinados a
edificação, com aproveitamento do sistema viário existente, desde que não implique na abertura
de novas vias e logradouros públicos, nem no prolongamento, modificação ou ampliação dos
já existentes (Ibid., s/p). Até a inserção do § 8º no Art. 2º pela lei 13.465/2017, não era
admissível pela lei o fechamento de glebas parceladas.
Entre meados dos anos 1970 até a aprovação da lei federal 13.465/2017, o debate sobre
os empreendimentos horizontais fechados foi travado por diversos autores, cujos argumentos
podem ser agrupados em três linhas discursivas.
108

O primeiro grupo abarcou os autores que imputaram ilegalidade tanto aos condomínios
de lotes, quanto aos loteamentos fechados, propugnando que tanto um como o outro não
estavam contemplados pela legislação vigente. Nesse grupo podem ser reunidas as
contribuições dos juristas José Afonso Silva e Toshio Mukai.
O segundo grupo contemplou argumentações cujos discursos advogaram que os
condomínios de lotes estavam respaldados pela lei federal nº 4.591/1964, enquanto os
loteamentos fechados não dispunham de legalidade no ordenamento jurídico brasileiro, pois
não estavam contemplados na lei 6.766/79 que regulamenta o parcelamento do solo urbano no
Brasil. Dentre os juristas que advogam essa perspectiva estão José Carlos de Freitas, Luís
Roberto Barroso, Eros Roberto Grau, além das contribuições de Vinícius Monte Custodio e
Elvira Maria Fernandes Barroso.
O terceiro grupo reuniu os argumentos defensores de que, tanto os loteamentos fechados
quanto os condomínios de lotes, dispunham de legalidade à luz do ordenamento jurídico
brasileiro, embora concordassem que não havia uma regulamentação específica sobre o tema
na legislação brasileira. Nessa linha argumentativa podem ser enquadradas as reflexões de
Carlos Antônio Bandeira de Melo, Eurico de Andrade Azevedo, Marco Aurélio S. Viana,
Elvino Silva Filho e Pedro Marino Bicudo.
Dentre os expoentes do primeiro grupo, o jurista Silva (2006, p. 352), aponta que o
condomínio de lotes não encontraria respaldo na lei federal nº 4.591/1964, uma vez que o Art.
8º dispõe como condição para a constituição do condomínio a existência de edificações
construídas, sejam elas “casas térreas ou assobradadas” (alínea “a”) ou “edifícios de dois ou
mais pavimentos” (alínea “b”)39. Deste modo, a formação de condomínios com lotes vazios não
seria permitida por essa norma.
Silva (2006, p. 352) entendeu como um equívoco a interpretação de que a lei federal nº
4.591/64 respaldaria a aprovação de condomínio de lotes, uma vez que ela não foi instituída
para essa finalidade, mas “para possibilitar o aproveitamento de áreas de dimensão reduzida no

39
Art. 8º Quando, em terreno onde não houver edificação, o proprietário, o promitente comprador, o cessionário
deste [sic] ou o promitente cessionário sobre [sic] êle [sic] desejar erigir mais de uma edificação, observar-se-á
também o seguinte: a) em relação às unidades autônomas que se constituírem em casas térreas ou assobradadas,
será discriminada a parte do terreno ocupada pela edificação e também aquela eventualmente reservada como de
utilização exclusiva dessas casas, como jardim e quintal, bem assim a fração ideal do todo do terreno e de partes
comuns, que corresponderá às unidades; b) em relação às unidades autônomas que constituírem edifícios de dois
ou mais pavimentos, será discriminada a parte do terreno ocupada pela edificação, aquela que eventualmente fôr
[sic] reservada como de utilização exclusiva, correspondente às unidades do edifício, e ainda a fração ideal do todo
do terreno e de partes comuns, que corresponderá a cada uma das unidades; c) serão discriminadas as partes do
total do terreno que poderão ser utilizadas em comum pelos titulares de direito sobre [sic] os vários tipos de
unidades autônomas; d) serão discriminadas as áreas que se constituírem em passagem comum para as vias
públicas ou para as unidades entre si (BRASIL, 1964, s/p).
109

interior de quadras, que, sem arruamento, permitam a construção de conjuntos de edificações,


em forma de vilas, sob regime condominial”.
O mesmo autor teceu uma dura crítica à implantação de condomínios de lotes que,
segundo ele, tomam a forma de “loteamentos fechados”, problematizando o porte desses
empreendimentos, sua ilegalidade diante do ordenamento jurídico brasileiro naquela ocasião e
sua utilização como subterfúgio por parte dos agentes do mercado imobiliário para fins de
especulação e descumprimento das obrigações impostas pela lei federal 6.766/79 (lei de
loteamentos).
Temos tido “loteamentos-fechados” até com mais de 1.000 casas de residência, com
arruamentos e tudo o mais que é próprio do processo de loteamento. As Prefeituras
deverão negar autorização para esse tipo de aproveitamento do espaço urbano,
exigindo que, se processe na forma de plano de arruamento e loteamento ou de
desmembramento, que não se admite sejam substituídos por forma condominial, como
se vem fazendo. Vale dizer: os tais “loteamentos fechados” juridicamente não
existem. Não há legislação que os ampare, constituem uma distorção e uma
deformação de duas instituições jurídicas: do aproveitamento condominial de espaço
e do loteamento ou do desmembramento. É mais uma técnica de especulação
imobiliária, sem as limitações, as obrigações e os ônus que o direito urbanístico impõe
aos arruadores e loteadores do solo (SILVA, 1984, p. 353).

O foco do dissenso sobre a legalidade do “loteamento fechado” à luz do ordenamento


jurídico brasileiro retoma o argumento de Maia (2006) apresentado anteriormente, e está
apoiado no que dispõe o Art. 22 da lei de loteamentos: “Desde a data de registro do loteamento,
passam a integrar o domínio do Município as vias e praças, os espaços livres e as áreas
destinadas a edifícios públicos e outros equipamentos urbanos, constantes do projeto e do
memorial descritivo” (BRASIL, 1979, s/p). Deste modo, o fechamento de um loteamento
urbano resultaria em restrição de acesso a áreas verdes, institucionais e vias que foram
transferidas para o domínio público, decorrendo daí a ilegalidade do ato de fechamento.
O segundo grupo de autores argumentou a favor da legalidade dos condomínios de lotes,
se observadas as condições prescritas na lei de condomínios, mas se posicionou contrária à
legalidade dos loteamentos fechados, uma vez que essa condição não estava contemplada na lei
de loteamentos.
Freitas (2002, p. 14) divergiu de Silva (2006) afirmando que a lei federal nº 4.591/64
conferiu legalidade ao condomínio de lotes, propugnando que a abrangência dessa norma não
se restringe às vilas e edifícios verticais, mas a qualquer forma de aproveitamento condominial
do espaço. O autor defendeu que a gleba é passível de aproveitamento condominial, se mantida
a indivisibilidade enquanto propriedade privada integral, a propriedade exclusiva dos
condôminos e a titularidade da fração ideal, sendo facultado a eles a prerrogativa de fechamento
do perímetro: “infere-se da análise da legislação específica que no condomínio previsto no art.
110

8º da Lei 4.591/64 há modalidade especial de aproveitamento condominial do espaço de uma


gleba, onde não existem ruas nem praças nem áreas livres públicas”. E continuou, “tudo que
integra o condomínio é de propriedade exclusiva dos condôminos, que não têm a obrigação
legal de trasladar os espaços internos comuns ao Município, quando da aprovação e do registro
do empreendimento”.
Mas Freitas (2002), convergiu com Silva (2006) no sentido de que o loteamento fechado
não gozava da mesma prerrogativa de legalidade, uma vez que a lei federal 6.766, de 19 de
dezembro de 1979, que regulamenta o parcelamento do solo urbano no Brasil, não permitia o
fechamento das áreas parceladas.

Como a lei federal [6.766/79] só trata dos loteamentos convencionais, abertos, com
espaços e áreas públicas franqueadas ao acesso de todos, a aprovação pelo Município
dos “loteamentos fechados” não é lícita, pois não lhe preside o princípio da legalidade,
nem a legislação municipal editada para tratar do assunto lhe dá foros de legitimidade,
porque a matéria, por sua natureza condominial, é da competência da União
(FREITAS, 2002, p. 20).

Elvira Maria Fernandes Barroso (2013, p. 57) também reconheceu a legalidade dos
condomínios de casas, destacando que “não é necessário fazer o parcelamento do solo para se
constituir um condomínio, todavia não há impedimento de que se faça um condomínio dentro
de um loteamento já constituído”. Porém, a autora alertou que esses condomínios horizontais
devem observar o que dispõe o Plano Diretor local, e recomendou que a legislação municipal
estabeleça limites para o tamanho dos condomínios. Para ela, o município deve disciplinar a
implantação dos condomínios horizontais em consonância com a lei de uso e ocupação do solo,
assegurando que a inserção desses empreendimentos observe o ordenamento territorial
estabelecido pelo município.
Contudo, Barroso (2013, p. 66) foi categórica ao contestar a legalidade dos loteamentos
fechados: “consideramos que são loteamentos fechados aqueles aprovados como um
loteamento comum, sob os moldes da legislação de parcelamento do solo urbano, Lei nº
6766/79 e que, posteriormente à sua aprovação, são fechados”. De acordo com a autora, a
proliferação desses empreendimentos se dava à margem da legislação e com anuência das
administrações municipais: “a permissão para o seu fechamento tem se dado de forma tácita,
pela inércia fiscalizatória do município, ou mesmo por um ato do poder público municipal, (...)
concedendo às áreas públicas existentes no loteamento para uso exclusivo dos moradores do
empreendimento” (Ibid., p. 67). E arrematou: “a criação de loteamentos fechados não encontra
amparo legal. Eles desvirtuam o instituto do loteamento definido na legislação de parcelamento
111

do solo e buscam implantar nas relações entre os moradores características de um regime


condominial, instituto este do Direito Privado” (Ibid., p. 67).
José Marcelo Tossi Silva (2005), embora não tenha questionado a legalidade da figura
do loteamento fechado, admitindo certa concordância com Silva Filho (1984), denunciou a
fraude do falso-condomínio. O autor teceu uma crítica contundente à prática perniciosa por
parte de certos agentes do mercado imobiliário que consiste no lançamento de empreendimentos
e comercialização de lotes como se tratasse de condomínio fechado, quando na realidade trata-
se de loteamento fechado: “Quando são atribuídos terrenos determinados a cada comprador,
eles não adquirem frações ideais, mas partes que foram destacadas da área maior” (SILVA,
2005, p. 11). O jurista advertiu que “apesar do nome indicado no contrato, a estrutura jurídica
aplicável é aquela adequada ao ato jurídico ou ao negócio jurídico efetivamente celebrado”
(Ibid., p. 11).
A prática da venda de unidades de loteamento disfarçado de condomínio atesta que este
último tem um apelo comercial maior do que o primeiro. Essa constatação parece guardar
relação com dois fatores: (i) o condomínio evoca ideais de exclusivismo de modo mais eficiente
do que o loteamento, possivelmente, por remeter aos estatutos dos edifícios de apartamento,
assimiláveis como signos de hierarquia e distinção; e (ii) sob a forma de condomínio, o
empreendedor se esquiva das obrigações prescritas na lei de loteamentos, tais como a
implantação de infraestrutura mínima e os requisitos quanto à documentação exigida.
O terceiro grupo advogou que tanto os condomínios de lotes quanto os loteamentos
fechados eram passíveis de legalidade, na medida em que uma interpretação integrativa e
dinâmica do marco legal asseguraria aos dois tipos de empreendimentos sua inclusão no
ordenamento jurídico brasileiro.
Bicudo (2007) defendeu que a questão dos loteamentos fechados, dada sua “ampla
aceitação como forma de organização coletiva e organização urbanística”, demandava uma
compreensão da lei enquanto norma inclusiva, com base na aplicação da analogia, dado que o
ordenamento jurídico brasileiro seria omisso no caso em questão. Além disso, Bicudo
argumentou que o processo de urbanização está em constante transformação, sendo necessário,
que o ordenamento jurídico acompanhe essa dinâmica de mudanças, atualizando o marco legal
à realidade vigente.
Eurico de Andrade Azevedo (1983 apud Bicudo, 2007, s/p), também preconizou a
legalidade dos condomínios deitados equiparando-os aos condomínios de edifícios verticais e
afirmando a natureza privativa das áreas de uso comum: “Trata-se de modalidade nova de
aproveitamento do espaço, em que se procura conjugar a existência de lotes individuais de uso
112

exclusivo com áreas de uso comum dos condôminos, à semelhança do que ocorre nos edifícios
de apartamento”. E continua, “não há vias e logradouros públicos; as áreas destinadas à
circulação e lazer não são transferidas ao Poder Público pois continuam a pertencer aos
proprietários da gleba, que sobre elas têm utilização privativa”.
Quanto aos loteamentos fechados, Bicudo (2007) chama a atenção para a interpretação
de Silva Filho (1983), argumentando que há certa unanimidade no direito administrativo no
sentido de admitir que áreas transferidas para o domínio do Município podem ser objeto de uso
privativo por particulares. Para isso, seria necessário a permissão, a autorização ou a concessão
de uso, o que possibilitaria, dentre outros procedimentos possíveis por parte da associação de
moradores, o fechamento do loteamento.
A tese de Silva Filho (1983) propugnou que o loteamento fechado estaria contemplado
no ordenamento jurídico brasileiro mediante o dispositivo de concessão de direito real de uso,
prevista no art. 7º do Decreto-Lei nº 271, de 28 de fevereiro de 1967, cujo conteúdo dispõe
que: “é constituída a concessão de uso de terrenos públicos ou particulares, remunerada ou
gratuita, por tempo certo ou indeterminado, como direito real resolúvel, para fins específicos
de urbanização, industrialização, edificação, cultivo da terra, ou outra utilização de interesse
social” (BRASIL, 1967, s/p).
Por fim, Bicudo justifica sua defesa em prol da legalidade dos loteamentos fechados
apontando que certos princípios devem ser priorizados em relação a outros, considerando o
teste da razoabilidade. De acordo com o autor, esse teste indicaria que “não havendo qualquer
prejuízo ao desenvolvimento da cidade – o que prestigia o princípio da função social da
propriedade e das cidades (...) –, deve prevalecer o princípio da segurança, em favor daqueles
que desejam o fechamento do condomínio deitado”. O autor desconsidera que o princípio da
segurança privilegia a proteção para aqueles que estão intramuros em detrimento do direito de
ir e vir para muitos.
Na virada do século XXI, iniciativas legislativas buscaram aperfeiçoar a lei federal
6.766/79 e rever alguns de seus dispositivos. A lei federal 9.785/99 incorporou alguns ajustes
pontuais como a supressão do percentual mínimo de 35%, que passou a ser regulamentado por
lei municipal, e o aumento de dois para quatro anos o prazo máximo do cronograma de obras
(BRASIL, 1999). Contudo, entidades e agentes ligados ao desenvolvimento urbano passaram a
cobrar uma revisão mais consistente da lei federal de parcelamento do solo (FERNANDES,
2004, s/p). Naquele contexto, foi proposto o Projeto de Lei 3.057/2000, cujo conteúdo trouxe
não apenas o aperfeiçoamento da lei federal de parcelamento do solo urbano, mas ampliou o
alcance abordando temas que aquela não tratou a contento (BRASIL, 2000).
113

Segundo Souza (2011, p. 2), a partir da criação do Ministério das Cidades, em 2003, ele
passou a participar das discussões atinentes à revisão da Lei 6.766/1979 e propôs que o
conteúdo do Projeto de Lei 3.057/2000 fosse estendido para tratar não apenas de parcelamento
do solo, mas também de regularização fundiária. Dessa iniciativa resultou o Projeto de Lei de
Responsabilidade Territorial Urbana (PL 20/2007) que “dispõe sobre o parcelamento do solo
para fins urbanos e sobre a regularização fundiária sustentável de áreas urbanas, e dá outras
providências” (BRASIL, 2007).
De acordo com Araújo (2008, p.236), o aperfeiçoamento da lei federal 6.766/79
proposto pelo Projeto de Lei de Responsabilidade Territorial visava solucionar lacunas como:
ausência de regulamentação mais consistente dos condomínios horizontais; indefinição sobre
exigência de infraestrutura que caberia ao empreendedor e ao poder público em cada
empreendimento; ausência de regras específicas para regularização fundiária de assentamentos
informais e parcelamentos irregulares; incompatibilidade entre a norma de parcelamento do
solo e a legislação ambiental no que tange à faixas não edificantes e limites de APP; e
desatualização frente aos instrumentos previstos no Estatuto da Cidade (2001) e ao Código Civil
(2002).
O PL 20/2007 reconhecia os condomínios horizontais como modalidade de
parcelamento do solo urbano, regulamentando esse tipo de empreendimento de forma mais
completa do que aquela prevista na lei condomínios (lei 4.591/1964). Quanto aos loteamentos
fechados, depois de três anos da entrada em vigor da lei de responsabilidade territorial, eles
deveriam observar os mesmos requisitos atinentes aos condomínios horizontais, a saber: gestão
plena como condição de licença, dimensão máxima, regras sobre contiguidade previstas em lei
municipal e exigência de um acréscimo de 10% de áreas públicas (ARAUJO, 2008, p. 244).
As divergências existentes entre os agentes públicos, agentes imobiliários e
registradores de imóveis impossibilitaram a aprovação do texto, que segue em trâmite
legislativo há mais de 20 anos. Ainda de acordo com Araújo (2008, p. 247), as principais
divergências explicitaram conflitos sobre o alcance da legislação ambiental em áreas urbanas,
sobre as responsabilidades e contrapartidas dos empreendedores na implantação dos
empreendimentos, sobre as normas de regulamentação dos condomínios horizontais, sobre a
admissibilidade ou não dos loteamentos fechados, sobre a regras em interface com o Código de
Defesa do Consumidor e sobre a gratuidade no registro da regularização de interesse social.
Durante quatro décadas, o debate em torno dos RHFs foi balizado pelo questionamento
da legalidade dos loteamentos fechados, ou dos condomínios deitados, ou de ambos. A
aprovação da lei federal nº 13.465/2017, apresentada ao Congresso Nacional por meio de
114

Medida Provisória, atropelou o processo legislativo atinente ao PL 2.057/2000. A lei federal


13.465/2017 foi instituída para se constituir como o marco regulatório dos RHFs no país, com
vistas a fechar as lacunas jurídicas que deixava na informalidade casas avaliadas em mais de
um milhão de reais, implantadas em empreendimentos residenciais nobres e, ao mesmo tempo,
conciliar interesses do setor imobiliário.
De acordo com Oliveira (2017), até a lei federal 13.465/2017, o Direito Civil conhecia
apenas duas espécies de condomínio: (i) o tradicional, regulamentado pelo Código Civil e (ii)
o edilício, regulamentado tanto pelo Código Civil quanto pela lei federal 4.591/1964. Com a lei
federal 3.465/2017, foram criados dois novos tipos de condomínio: (iii) o condomínio de lotes,
regulamentado pelo Código Civil e pelas novas redações dos arts. 2º e 4º, da lei federal
6.766/79; e o (iv) o condomínio urbano simples, disciplinado pelos arts. 61 a 63 da própria lei
federal 13.465/2017.
O condomínio edilício é aplicável a bens imóveis e é caracterizado, conforme antedito,
pela divisão em que cada condômino possui a propriedade exclusiva da unidade privativa, assim
como a titularidade de uma fração ideal do solo e das áreas comuns, de forma indissociada. O
condomínio edilício pode ser vertical, quando se refere a um edifício de apartamentos ou
horizontal quando se refere a um conjunto de casas, ambos disciplinados pelo art. 8º da lei
4.591/6440. No condomínio edilício, além da propriedade exclusiva do apartamento ou casa, o
condômino detém a titularidade de uma fração ideal da área de lazer, das vias de circulação
internas, da área ajardinada, do saguão de entrada, etc.
Com o intuito de superar a informalidade e os recorrentes questionamentos quanto à
legalidade desse tipo de empreendimento, a lei 13.465/2017 criou um novo tipo de
copropriedade, designado “condomínio de lotes”. Segundo Oliveira (2017, p.8), os dispositivos
que regulam essa nova espécie de condomínio foram inseridos no Código Civil, no art. 1.358-
A. Deste modo, o novo art. 1.358-A, dispõe que:

Art. 1.358-A. Pode haver, em terrenos, partes designadas de lotes que são propriedade
exclusiva e partes que são propriedade comum dos condôminos. § 1º A fração ideal
de cada condômino poderá ser proporcional à área do solo de cada unidade autônoma,
ao respectivo potencial construtivo ou a outros critérios indicados no ato de
instituição. § 2º Aplica-se, no que couber, ao condomínio de lotes o disposto sobre
condomínio edilício neste Capítulo, respeitada a legislação urbanística. § 3º Para fins
de incorporação imobiliária, a implantação de toda a infraestrutura ficará a cargo do
empreendedor. (BRASIL, 2002, s/p)

40
O jurista Caio Mário da Silva classifica os dois tipos de condomínios usando planos virtuais, ao invés da forma
das edificações. Essa classificação inverte a nomenclatura adotada aqui, uma vez que o condomínio em planos
horizontais corresponde aos apartamentos de um edifício, e o condomínio em planos verticais refere-se as
subdivisões simbólicas que separam casas.
115

Dessa forma, o art. 1.358-A do Código Civil passou a regulamentar o condomínio


formado por lotes, agora com o estatuto de unidade exclusiva e, assim como no condomínio
edilício, estão indissociados de uma fração ideal das áreas comuns, cuja proporção deve ser
definida pela convenção. Tal regulamentação atestou que ruas, praças e as outras áreas internas
ao condomínio de lotes são de uso exclusivo dos proprietários, não sendo, portanto, transferidas
para o Município.
O condomínio urbano simples foi criado pela lei 13.465/2017 e por ela regulamentado.
Segundo Oliveira (2017, p. 16), “trata-se, na realidade, de uma espécie de condomínio edilício
que dispensa algumas formalidades em razão da sua pequena dimensão” e “aplica-se a situações
de terrenos onde haja mais de uma construção e em que o seu titular queira tornar cada uma
dessas construções uma unidade autônoma de condomínio”. É permitido instituir o condomínio
urbano simples quando: (i) o terreno comporte várias edificações, a exemplo da “casa dos
fundos”; ou (ii) o terreno comporte uma edificação que dispõe de mais de um cômodo com
acesso próprio.
O próprio autor admoesta para problemas na redação do art. 61 onde consta “quando
um mesmo imóvel contiver construções de casas ou cômodos, poderá ser instituído (...)
condomínio urbano simples, respeitados os parâmetros urbanísticos locais, e serão
discriminadas, na matrícula, a parte do terreno ocupada pelas edificações, as partes de utilização
exclusiva e as áreas que constituem passagem para as vias públicas ou para as unidades entre
si” (BRASIL, 2012, s/p). O risco é de possibilitar a interpretação de que cortiço seja passível
de regularização, aumentando a oferta desse tipo de ocupação precária e insalubre nas cidades.
Por fim, a lei 13.465/2017 reconheceu o loteamento tradicional, aberto, e criou o
“loteamento de acesso controlado”, a partir da adição do § 8º ao art. 2º da Lei 6.766/79, com a
seguinte redação: “constitui loteamento de acesso controlado a modalidade de loteamento,
definida nos termos do § 1º deste artigo, cujo controle de acesso será regulamentado por ato do
poder público Municipal, sendo vedado o impedimento de acesso a pedestres ou a condutores
de veículos, não residentes, devidamente identificados ou cadastrados” (BRASIL, 1979 [2017],
s/p). Com esse dispositivo a lei procurou respaldar a regulamentação dos loteamentos fechados,
“entendidos como aqueles que, por qualquer meio (muros, portarias etc.) restringem o acesso
de terceiros à região loteada” (OLIVEIRA, 2017, p. 13).
No loteamento de acesso controlado, permanece o que estabelece a lei 6.766/79 em que
nesse tipo de parcelamento, os lotes constituem unidades autônomas, e não como unidades
condominiais. A autorização para controlar o acesso de veículos e pessoas depende de ato
116

administrativo do município. Oliveira (2017, p. 13) aponta que o destinatário da autorização


deve ser, preferencialmente, a associação de moradores, dada sua condição de pessoa jurídica,
mas ressalva que a lei não deixa claro esse pré-requisito. Esse tipo de lacuna abre brechas para
que novas áreas urbanas sejam fechadas de forma indiscriminada, por agentes com interesses
espúrios, uma vez que não se tem o devido controle sobre os direitos e os deveres a serem
observados pelo requerente.
A lei federal nº 13.465/2017 vem sofrendo críticas contundentes por diversos segmentos
sociais, órgãos e entidades, consubstanciadas nas três Ações Diretas de Inconstitucionalidade
(ADIs) ajuizadas contra ela.
A primeira ADI, 5771, foi ajuizada pelo então Procurador Geral da República, Rodrigo
Janot. De acordo com o procurador, a lei “tem o efeito perverso de desconstruir todas as
conquistas constitucionais, administrativas e populares voltadas à democratização do acesso à
moradia e à terra e põe em risco a preservação do ambiente para as presentes e futuras
gerações”41. Janot criticou também o fato da Medida Provisória 759/2016, que deu conteúdo à
lei federal nº 13.465/2017, alterar dispositivos de mais de uma dezena de leis ordinárias, muitas
delas respaldadas por processos legislativos que envolveram ampla participação popular: “Não
por acaso, 61 entidades ligadas à defesa do ambiente (...) apresentaram representação dirigida
à Procuradoria-Geral da República a fim de provocar o STF a declarar as múltiplas
inconstitucionalidades da lei” (Ibid.). Por fim, o procurador geral não viu pertinência na edição
de Medida Provisória sobre a matéria, uma vez que não estava configurado o motivo de
urgência. “Grilagem de terras e desmatamento atravessaram séculos até aqui, literalmente, sem
soluções de todo satisfatórias” (Ibid.). E continua “Não é concebível que, de um momento para
o outro, se transformem em problemas de tamanha urgência que demandem uso do instrumento
excepcional e urgente que é a medida provisória, com usurpação da função legislativa ordinária
do Congresso Nacional” (Ibid.).
A segunda ADI, 5787, foi ajuizada pelo Partido dos Trabalhadores sob o argumento de
que lei “impõe ônus à população de baixa renda, do campo e da cidade, que está sendo e será
prejudicada com as mudanças e revogações dos procedimentos de regularização fundiária
trazidos pela nova legislação, que desconsidera princípios constitucionais, e facilita a

41
Procurador-geral da República questiona lei sobre regularização fundiária rural e urbana. Disponível em:
[Link] Acesso em: 22 jul. 2019.
117

concentração fundiária, o que fatalmente contribuirá para o aumento dos conflitos fundiários,
em patente violação ao princípio da vedação ao retrocesso social”42.
A terceira ADI, 5883, foi a ajuizada pelo Instituto de Arquitetos do Brasil. O IAB
concentrou sua crítica ao conteúdo da lei referente à regularização fundiária urbana, sustentando
que “os dispositivos violam o modelo constitucional de política urbana, que atribui aos
municípios a competência para legislar, entre outros aspectos, sobre assuntos de interesse local
(Art. 30, inciso I), sobre o adequado ordenamento territorial (Art. 30, inciso VIII), além da
competência executiva em matéria urbanística e normativa atribuída ao plano diretor (Art.
182)”43.
Para Custódio (2017) a figura do “loteamento de acesso controlado” é claramente
inconstitucional na medida em que viola a liberdade de associação (art. 5º, inc. XX), dos
residentes do loteamento que não desejem associar-se ou permanecer associados; viola o
princípio da igualdade (art. 5º, caput) e contraria os direitos à intimidade e à vida privada (art.
5º, inc. X), uma vez que constrange não-residentes do loteamento a se identificarem perante
terceiros para adentrarem a localidade.
Durante quase cinco décadas os loteamentos fechados – portanto, aqueles não
condominiais – foram implantados às margens da legislação urbanística, sob flagrante
ilegalidade. O crescimento da violência urbana e a procura por ambientes urbanos distantes dos
congestionamentos e dos ruídos são utilizados com justificativa pela opção de moradia nesses
empreendimentos. A incompatibilidade entre o interesse individual e o interesse coletivo se
afirma, na medida em que para satisfazer seus anseios de segurança e qualidade de vida, os
moradores desses empreendimentos cerceiam o acesso a espaços públicos que deveriam estar
disponíveis a todos os munícipes.
A lei 13.465/2017, aprovada com o intuito de por fim à lacuna jurídica que lançava na
ilegalidade os RHFs não-condominiais, amplia a tensão e os conflitos tanto no campo quanto
na cidade, uma vez que dificulta a regularização de áreas ocupadas pela população de baixa
renda para fins de moradia. Ou seja, enquanto para as áreas residenciais para as classes média
e alta são oferecidos dispositivos de regularização, as ocupações para fins de moradia pelos
extratos menos favorecidos são lançadas na ilegalidade.

42
Partido questiona constitucionalidade de nova lei sobre regularização fundiária. Disponível em:
[Link] Acesso em: 22 jul. 2019.
43
Lei de regularização fundiária é alvo de nova ADI no Supremo. Disponível em: [Link]
Acesso em: 22 jul. 2019.
118

4 CENTRALIDADE REGIONAL E CONFIGURAÇÃO DO ESPAÇO


INTRAURBANO DE ARAPIRACA-AL

O presente capítulo foi subdividido em duas partes. A primeira trouxe uma discussão
sobre centralidade regional a partir do conceito de cidade média, uma explanação sobre os
critérios de classificação e uma análise com vistas a verificar se Arapiraca-AL pode ser
compreendida como tal. Em seguida, foi realizado um estudo sobre a formação histórica de
Arapiraca e uma análise da configuração intraurbana, examinando a expansão por loteamentos
urbanos com foco nos residenciais horizontais fechados.
Para o desenvolvimento do capítulo foi realizada uma pesquisa bibliográfica sobre o
conceito de cidade média e uma pesquisa documental com foco nos processos espaciais recentes
em Arapiraca, especialmente, na proliferação dos residenciais horizontais fechados, nos últimos
quinze anos. O resultado dessa etapa foi um estudo classificatório desses empreendimentos em
diferentes categorias, de acordo com o padrão.
Os procedimentos utilizados nessa etapa contemplaram: levantamento de documentos e
imagens relevantes para a história urbana de Arapiraca-AL; levantamento de dados sobre
loteamentos urbanos, junto à administração municipal e às concessionárias de serviços urbanos;
além do registro fotográfico in loco dos espaços públicos urbanos, de residenciais fechados e
de seus respectivos entornos. Os produtos dessa etapa foram: (i) discussão do conceito de cidade
média e classificação de Arapiraca como tal; (ii) análise da expansão urbana da cidade ao longo
do tempo; (iii) organização dos dados referentes aos loteamentos urbanos, com destaque para
os RHFs; (iv) mapeamento e classificação dos RHFs em cinco grupos, considerando
informações como tamanho médio do lote, condições da guarita de acesso, infraestrutura urbana
instalada, equipamentos de lazer oferecidos, valor de venda dos imóveis e desenho urbano do
loteamento.

4.1 Cidades de porte médio, cidades médias e cidades intermediárias

O debate em torno da conceituação de “cidade média” vem se prolongando há décadas,


com poucos consensos seja no âmbito acadêmico-científico, seja no meio técnico-institucional.
Desde que o termo apareceu com essa denominação, no âmbito das políticas de planejamento
119

regional na França44, no início dos anos 1970, diversos autores ressaltaram as dificuldades para
defini-lo de forma precisa e ao mesmo tempo abrangente.
Parte dos autores apontaram que as “cidades médias” são definidas mais pela negação
do que pela afirmação dos seus conteúdos. Ela seria, portanto, aquela que reuniria conteúdos
que não são próprios das cidades pequenas nem aqueles atinentes às grandes. Segundo Michel
(1977, p. 642) “sabemos muito bem o que é que a cidade média não é, mas dificilmente
podemos dizer o que ela é. O conceito é tão vago que nos questionamos se a cidade média não
é uma ilusão ou, no mínimo, uma noção com um interesse medíocre”45.
Amorim Filho e Serra (2001) mencionaram que não existe uma ideia consensual e
cristalizada do que seriam as cidades médias e que as definições correntemente utilizadas
revelam mais os objetivos dos pesquisadores e dos promotores de políticas públicas do que
propriamente um arcabouço teórico em si.
Na mesma direção, Roberto Lobato Corrêa (2007, p. 23) indicou que “trata-se de uma
expressão vaga, aberta a múltiplos significados e impregnada do idealismo que a concebe como
um ideal a ser alcançado, apresentando as vantagens da pequena cidade sem ter, contudo, as
desvantagens das grandes”.
Apesar dos avanços teóricos relativos ao tema, os autores têm rejeitado a perspectiva de
definir de forma absoluta e universal o conceito de cidade média. Monod (1974 apud MICHEL,
1977, p. 642) aponta que “parece inútil estabelecer uma definição científica, no entanto, a noção
de cidade média possui um conteúdo bastante real”46.
Essa afirmação de Monod suscitou uma problematização sobre o esforço teórico de
conceituação de “cidade média”. Se o conteúdo se apresenta de forma inteligível do ponto de
vista empírico, resta questionar se o estatuto epistemológico sob o qual o exercício teórico tem

44
As políticas de planejamento regional se consolidaram como políticas sistêmicas de Estado a partir do acelerado
processo de urbanização que se seguiu ao pós-Segunda Guerra, em que os temas relacionados às grandes
aglomerações urbanas dominaram os circuitos de produção intelectual europeus. O marco referencial do
planejamento regional enquanto política de Estado se constituiu, a partir dos anos 1950, na França, com as políticas
de desenvolvimento regional conhecidas como aménagement du territoire (ordenamento territorial). Segundo
Amorim e Serra (2000), três grandes problemas estiveram na raiz da preocupação com o tema das médias e
pequenas cidades: a) a exacerbação de problemas de desequilíbrios urbano-regionais; b) o agravamento da
qualidade de vida nas grandes aglomerações urbanas; e c) a frágil organização hierárquica das cidades, com
reflexos negativos sobre o funcionamento dos sistemas político-econômicos.
45
On sait très bien ce que la “ville moyenne” n’est pas. On peut difficilement dire ce qu’elle est. Le concept se
révèle si vague qu’on en vient à se demander si la “ville moyenne” n’est pas une illusion ou, à tout le moins, une
notion de fort medíocre intérêt. MICHEL, Michel. Ville moyenne, ville-moyen. Annales de Géographie, v. 86,
n°478, p. 641-685, 1977. No presente trabalho, a tradução desse texto foi realizada por Ana Luiza Cavalcanti
Mendonça, em 2020.
46
Il semble vain d’établir une définition scientifique et, pourtant, la notion de ville moyenne possède un contenu
bien réel.
120

sido realizado desde os anos 1970 seria o mais adequado. Em outros termos, é preciso
considerar a hipótese de que o problema referente à definição de “cidade média” esteja mais na
insuficiência das teorias para explicá-lo do que propriamente no objeto em si.
É possível que o conceito de “cidade média”, dado seu conteúdo transitório, heterogêneo
e fluido, não seja passível de uma definição clássica, objetiva e universal nos moldes de uma
epistemologia estruturalista ou pós-positivista, que influenciava o ambiente técnico-científico
na França, entre os anos 1950 e 1970, quando o conceito foi cunhado. É possível que o conceito
de “cidades médias” estivesse esgarçando os limites daquele arcabouço epistêmico dentro do
qual, ainda hoje, parte dos diversos campos do conhecimento têm ancorado o exercício teórico
em prol de sua definição.
Maria da Encarnação Sposito (2009, p. 51), contextualizando o problema, afirmou que:
“não há, no caso brasileiro, um debate conceitual suficientemente bem fundamentado no plano
teórico-conceitual, ainda que tenha havido avanços metodológicos, para designar as cidades
que desempenham papéis intermediários nas redes urbanas que compõem o sistema urbano
brasileiro.”
Juscelino Gomes Lima e Rogério Leandro Lima da Silveira (2017) argumentaram que
o termo “médio”, proveniente das ciências matemáticas, pode estar enviesando o exercício de
conceituação de “cidade média”, fortalecendo o determinismo demográfico e
consequentemente limitando-a a conteúdos de ordem quantitativa. Como alternativa à noção de
“cidade média” os autores propõem “cidades de comando regional”, com o objetivo de retirar
o enfoque no quantitativo populacional.
Essa reflexão formulada por Lima e Silveira (2017) alerta para uma preocupação
legítima e de suma relevância: a denominação do conceito, no âmbito semântico, pode estar
limitando seu alcance. Porém, o uso do conceito “cidades de comando regional” como
alternativa ou complemento ao de “cidades médias” merece algumas ressalvas. Oswaldo
Amorim Filho (2007), citando trabalho próprio, publicado em 1976, em que propôs um rol de
critérios para caracterização das cidades médias, chamou a atenção para um aspecto pouco
comentado no debate sobre o tema:

(...) a noção de “cidade média” não deve ser confundida necessariamente com a noção
de “centro de polarização regional ou microrregional”. A coincidência não ocorre
sempre. Além disso, as relações da “cidade média” com seu environnement nem
sempre são relações de “dominação”, podendo ser também relações de estímulo e de
dinamização (...) e, em certos casos, até de dependência (AMORIM FILHO, 2007, p.
74).
121

Essa contribuição de Amorim Filho expôs os limites de conceituar “cidades médias” a


partir de uma perspectiva exclusivamente hierárquica. Se as relações que a “cidade média”
estabelecem são de dependência, ela não comanda seu entorno regional, mas o contrário: é
comandada por ele. Além disso, a opção pela denominação “cidade de comando regional”,
apesar de rejeitar o determinismo demográfico, aceita o determinismo funcional-hierárquico,
não rompendo, portanto, com os postulados epistemológicos estruturalistas que limitam as
possibilidades de uma conceituação satisfatória de “cidade média”.
Segundo diversos autores (MICHEL, 1977; Ferrão et al., 1994; COSTA, 2002;
CORREA, 2007) o exercício conceitual de “cidade média” enfrenta dificuldades dentre as
quais: a superação do determinismo demográfico, a definição da escala espacial de referência
e; a definição de um lastro temporal determinado.
Quanto às críticas sobre o peso do critério demográfico na conceituação de “cidade
média” Michel (1977, p. 642) questiona: “não é uma contradição, ou mesmo uma ilusão, querer
travar um conceito essencialmente abstrato (este de média) em uma contestável limitação
quantitativa?” O autor considera que o porte populacional, apesar da necessidade de ser
relativizado, impregnou no debate conceitual sobre as cidades médias, na França, de forma
persistente:

A noção de cidade média repousa, primeiramente, e não importa o que se diga, em um


critério: o efetivo da população. Desde logo, a discussão, inevitável e, entretanto, vã,
trata frequentemente, dos limites extremos que devem ser dados a esta classe de
cidades. De acordo com os autores, a categoria cidades médias começa a partir de
20.000, 30.000, ou 50.000 habitantes. Ela acaba a 100.000 ou 200.000 habitantes. É
preciso destacar que este total populacional se refere à população da aglomeração e
não apenas a uma única cidade. 47

Eduarda Costa (2002, p. 105) afirmou que “a diversidade de valores propostos pelas
várias organizações internacionais e nos estudos levados a cabo em diversos países vem
demonstrar a insuficiência de um critério que assente exclusivamente na dimensão
populacional”. Mencionando diferentes relatórios elaborados por pesquisadores, comissões e
órgãos governamentais europeus, ela alertou sobre a existência de distintos níveis de
urbanização nos países, impossibilitando a definição de um critério quantitativo unificado para
todo o continente.

47
“La notion de “ville moyenne” repose, d’abord, et quoi qu’on en disse, sur le critère: effectif de la population.
Dès lors, la discussion, inévitable, et pourtant vaine, porte, le plus solvente, sur les limites extrêmes à donner à
cette classe de villes. Selon les auteurs, la catégorie “villes moyennes” commence à partir de 20, 30, ou 50 000
habitants. Elle s’achève à 100 ou 200 000 habitants. Cet effectif concerne, il faut le signaler au passage, la
population de l’agglomération et non celle de la seule ville.”
122

Amorim Filho e Rigotti (2002) também realizaram um estudo sobre a diversidade de


portes demográficos atribuídos às cidades médias em alguns países sul-americanos. Utilizando
dados do início dos anos 1990, os autores apontaram que as cidades identificadas como médias
no Chile apresentaram variação de porte populacional entre 56.067 (Ovalle) a 218.842 (Talca).
Na Argentina, o porte populacional variava entre 50 mil e 1 milhão de habitantes, a exemplo da
cidade de San Miguel de Tucaman, considerada como média, com porte populacional de
654.000 habitantes. Na Bolívia, as cidades caracterizadas como médias apresentavam portes
populacionais variando entre 3.037 (Tiquipaya) e 52.021 habitantes (Montero).
No Brasil, Andrade e Lodder (1979) operaram com a identificação de cidades médias
selecionando aquelas com população entre 50.000 e 250.000 habitantes. Milton Santos (1994)
argumentou que as cidades médias seriam aquelas com porte populacional não inferior a 100
mil habitantes.
A heterogeneidade de situações fica evidente na Tabela 5 elaborada a partir das
contribuições de diferentes autores comparando os portes demográficos atribuídos às cidades
médias em diferentes países e instituições.

Tabela 5 - Portes demográficos das cidades médias definidos em diferentes países e instituições
País/Instituição Cidade média País/Instituição Cidade média
Faixa de tamanho demográfico Faixa de tamanho demográfico
Alemanha 150.000 – 600.000 Itália 50.000-200.000 e 100.000-300.000
Argentina 50.000 – 1.000.000 ONU 100.000 – 3.000.000
Banco Mundial < 1.000.000 Paquistão 20.000 – 100.000
Brasil (IBGE) 100.000 – 500.000 Portugal 20.000 – 100.000
Dinamarca < 100.000 Irlanda 50.000 – 100.000
Espanha 30.000 – 300.000 Reino Unido 150.000 – 600.000
Estados Unidos 200.000 – 500.000 Suécia 50.000 – 200.000
França 20.000 – 100.000 União Europeia 20.000 – 500.000
Grécia 50.000-100.000 e 10.000-50.000
Fonte: elaborado pelo autor a partir das contribuições de Costa (2002); Amorim Filho e Rigotti (2002); Lima e
Silveira (2017).

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) desenvolveu estudos sobre as


regiões de influências das cidades em que aparecem cidades médias, funcionalmente, com
população inferior a 100 mil habitantes, como Pau dos Ferros-RN, com 30 mil. Parece que a
principal linha de conceituação é de média matemática, porém relativizando valores
qualitativos e contextuais. A média parece ser estabelecida entre as características de uma
cidade grande e aquelas de uma cidade pequena.
No início dos estudos sobre cidades médias no Brasil, Andrade e Lodder (1979, p. 36)
não apresentaram uma distinção conceitual para as diferentes denominações que acompanham
a noção: “estas cidades podem ser igualmente chamadas de centros intermediários, cidades
123

médias, de porte médio, centros urbanos médios, cidades de posição intermediária na hierarquia
urbana brasileira e cidades do estrato médio da distribuição urbana”. Os dois autores
justificaram a opção por definir “cidade média” a partir do porte populacional com a seguinte
argumentação:
(...) a escolha do critério tamanho demográfico resulta não só do objetivo de tornar
este estudo amplo o suficiente para permitir comparações com outros que adotam
critérios mais ou menos semelhantes, mas também da constatação de que estão
implícitas no tamanho populacional algumas das dimensões funcionais urbanas que
refletem o nível de complexidade e de complementaridade das atividades econômicas
nestes centros e os diferentes graus de interação da cidade com suas áreas de
influência, aspectos que, forçosamente, seriam objeto de consideração nos dois outros
critérios.

Sposito (2009, p. 51), remetendo aos estudos de âmbito nacional mais recentes, aponta
diferenças entre duas denominações fundamentais que envolvem a noção, em que uma
denominação teria por referência o porte demográfico, enquanto a outra privilegiaria a
dimensão funcional-hierárquica.

há um relativo consenso na adoção da expressão “cidades de porte médio” para


designar aquelas que têm tamanho populacional entre 50 mil e 500 mil habitantes e a
opção por reservar a expressão “cidades médias” para fazer referência àquelas que
desempenham papéis de intermediação entre as metrópoles e as cidades pequenas.

Outro desafio elencado pelos autores para conceituar “cidade média” diz respeito à
escala espacial de referência.
Michel (1977, p. 646) indicou que os estudos realizados até aquele contexto,
consideravam “a cidade média em relação a ela mesma ou em relação à estrutura urbana geral
da França. No entanto, também é preciso observá-la em relação ao nível intermediário da
região.” O autor alerta que a “cidade média”, ainda que seja observado exclusivamente o critério
demográfico, apresenta um peso muito diferente dependendo da região a qual pertence. Ele
exemplifica chamando a atenção para o caso de Limoges, com menos habitantes que
Dunkerque, mas que concentrava naquele contexto 23% da sua população regional, enquanto
Dunkerque concentrava apenas 5% na sua respectiva região.
Costa (2002) também chamou a atenção para a necessidade de considerar a escala
espacial de referência, alertando que uma cidade média localizada numa área despovoada não
desempenha o mesmo papel que outra localizada numa área fortemente urbanizada. Ou ainda,
uma cidade com porte populacional tacanho, localizada numa rede urbana esparsa, pode
desempenhar a função de cidade média com maior efetividade que outra com porte
populacional robusto, mas localizada em uma rede urbana altamente adensada.
124

Corrêa (2007, p. 26), na mesma linha, argumentou que “a cidade média deve ser pensada
segundo uma dada escala espacial, em relação à qual pode adquirir sentido”. Citando o caso de
Sergipe, Corrêa pondera que, na escala brasileira, Aracaju pode ser considerada uma cidade
média, mas na escala do estado, a mesma cidade se apresenta como uma macrocefalia.
A terceira dificuldade de conceituação de cidade média diz respeito à dimensão
temporal, ou seja, ela precisa ser situada no tempo.
Michel (1977, p. 643) ressaltou que “a classificação de uma aglomeração na hierarquia
urbana e, por portanto, seu pertencimento a esta ou aquela categoria estatística, varia com a
época. Uma cidade não nasce média e ela não permanece assim para sempre”. Comparando a
situação de Grenoble, o autor apontou que, em 1876, a cidade contava com cerca de 45.000
habitantes e constava no 31º lugar na hierarquia das cidades francesas, sendo considerada uma
“cidade média”. Cem anos depois, com 390.000 habitantes em sua aglomeração, ela passou a
figurar na 9º posição no sistema urbano francês, tornando-se uma “grande cidade”.
Inversamente, Amiens, uma “cidade grande” em 1876, cem anos depois, se apresentava como
uma “cidade média”, apesar de seu aumento demográfico.
Na mesma direção, Amorim Filho e Riggoti (2002, p.10) afirmaram que “deve-se
lembrar ainda que apenas um critério demográfico como o volume populacional pode implicar
em consideráveis modificações durante um dado período de tempo”. Os autores chamaram a
atenção para a elevada frequência com que as cidades, com o passar do tempo, ascendem ou
descendem na hierarquia relativa ao porte demográfico.
Corrêa (2007, p. 26) também destacou a necessidade de a conceituação de cidade média
adotar um recorte temporal de referência. O autor advertiu que “dado o rápido processo de
urbanização (...) é preciso considerar que 100.000 habitantes têm significados diferentes quando
referenciados a 1940, 1960, 1980 e 2000”. Corrêa alertou para a possibilidade de “uma cidade
tida como média em um passado recente, não seja mais assim considerada 20 ou 30 anos
depois”. (...) A “cidade média” pode ser, assim, considerada como um estado transitório” (Ibid.,
p. 26).
É importante constatar que, observando as argumentações dos diferentes autores, os três
desafios apontados para conceituar “cidades médias” se resumem ao primeiro: superar o
determinismo demográfico. Os outros dois derivam dele. Afinal, o que é relativizado no tempo
ou no espaço é o quantitativo populacional, ele é a medida a partir da qual o conceito de “cidade
média” é problematizado.
Desde os anos 1970, a perspectiva focada no determinismo demográfico apresentava
sinais de esgotamento. As cidades relés (do francês, villes relais), entendidas como pontos de
125

contenção da migração para as metrópoles de equilíbrio dão lugar ao conceito de cidades médias
(do francês, villes moyennes), valorizando critérios de natureza mais qualitativa, a exemplo de
indicadores das condições de vida para analisar as funções que desempenhavam na rede urbana.
No caso brasileiro, Amorim Filho (1976) propugnou que as cidades médias poderiam
ser definidas a partir da presença dos seguintes atributos: a) interações constantes e duradouras
tanto com seu espaço regional, quanto com aglomerações urbanas de hierarquia superior; b)
tamanho demográfico e funcional suficientes para oferecer um leque de bens e serviços ao
espaço microrregional onde está situada; c) capacidade de receber e fixar os migrantes de
cidades menores ou da zona rural, com oferta de oportunidades de trabalho, atenuando o
movimento migratório na direção das grandes cidades; d) dispor de condições necessárias ao
estabelecimento de relações de dinamização com o espaço rural microrregional que as envolve;
e) apresentar diferenciação no espaço intraurbano, com um centro funcional individualizado e
uma periferia dinâmica, com a multiplicação de novos núcleos habitacionais periféricos,
evoluindo segundo um modelo parecido com o das grandes cidades; e f) apresentar o
surgimento, embora em menor escala, de certos problemas semelhantes aos das grandes
cidades.
Os atributos propostos por Amorim Filho expõem uma caracterização que supera o
idealismo ancorado no senso comum de que as cidades médias reuniriam os melhores atributos
das cidades pequenas sem os problemas das grandes cidades. O leque de atributos listados pelo
autor deixa claro que a compreensão sobre as cidades médias passa, necessariamente, pela
identificação dos seus problemas, ainda que a natureza destes sejam mais explícitos nas grandes
cidades.
Correa (2007) apontou a necessidade de considerar, ainda que de forma preliminar, três
elementos para a construção de um quadro teórico para o estudo das cidades médias: a)
presença de uma elite empreendedora, que confira uma relativa autonomia econômica e política
à cidade, criando interesses locais e regionais e competindo em alguns setores com as grandes
cidades; b) localização relativa, que constitua a cidade enquanto nó de tráfego e de fluxos
diversos contemplando a circulação de pessoas, capitais, informações, mercadorias e serviços;
e c) interações espaciais, dotadas de intensidade, complexidade, em múltiplas direções e
escalas, sendo as interações extrarregionais aquelas decisivas para a identificação de uma
cidade média. As contribuições de Correa vão além dos atributos funcionais vinculados
exclusivamente à hierarquia urbana, incorporando aspectos de natureza sócio-política, como o
papel que as elites das cidades médias desempenham na inserção da cidade nas redes de âmbito
nacional e global.
126

Nos anos 1980, a hegemonia das políticas neoliberais, alavancadas pelos governos
Margareth Tatcher, na Inglaterra, e Ronald Regan nos Estados Unidos, somado ao advento da
globalização, produziram uma inflexão que afetou as mais diversas dimensões da vida humana,
inclusive a produção do conhecimento, nos mais variados campos disciplinares.
O debate conceitual em torno da noção de “cidades médias” ganhou outros contornos
em fins dos anos 1980, com a ressignificação de termos já teorizados nas décadas anteriores. A
obra de Michel Gault, “Villes intermediaires pour l'Europe”, publicado em 1989, requalificou
o papel de intermediação abordados por Lajugie (1974) e Michel (1977), em fins dos anos 1970.
No contexto da globalização, as cidades médias exerceriam outros papéis de intermediação, em
outras escalas.
Para Gault e seus seguidores, as funções de intermediação que as cidades médias
deveriam desempenhar no mundo globalizado seriam radicalmente diferentes daquelas que elas
exerciam nos sistemas urbanos europeus anteriormente. Enquanto nos anos 1960 e 1970, a
noção de equilíbrio estava ligada à busca de uma distribuição mais justa das populações, das
atividades econômicas e dos equipamentos sociais, segundo uma perspectiva de
desenvolvimento regional, a partir dos anos 1990, equilíbrio passa a denotar o desafio das
cidades em oferecer um ambiente estável e propício para os negócios.
Segundo essa abordagem, no capitalismo globalizado, as “cidades médias” deveriam se
adaptar às novas demandas da internacionalização da economia, com vistas a alcançar a alcunha
de “cidades intermedias/intermediárias”. A partir de então, diversos autores (FERRÃO et al.,
1994; COSTA, 2002; SANFELIU e LLOP, 1999, 2004) têm utilizado o conceito de “cidade
intermedia” (ou “cidade intermediária) para se referir, exclusivamente, a essa categoria de
cidades no contexto da globalização, diferenciando do conceito de “cidade média”, alusivo ao
contexto anterior, dos anos 1960 e 1970.
Amorim Filho e Rigotti (2002, p.4), remetendo a diferenças idiomáticas, destacou a
contribuição semântica do termo “intermedia”, apontando que ele contempla numa única
palavra o porte demográfico médio e as funções que essa categoria de cidades desempenha na
rede urbana: “(...) o termo ciudades intermedias, usado por nossos vizinhos hispano-
americanos, parece bem mais feliz que aquele usado comumente por franceses, alemães,
americanos e brasileiros.” Contudo, é importante alertar que a natureza da intermediação
defendida por Ferrão et al., Costa, Sanfeliu e Llop tem um conteúdo bastante específico, que
não se restringe ao plano semântico, embora se valha dele.
127

Para Sanfeliu e Llop (2004), gestores do Programa CIMES48, as funções de


intermediação dizem respeito ao papel que essas cidades desempenham em distintas escalas,
desde seu entorno imediato, até os âmbitos macrorregional e transnacional. Os autores chamam
a atenção para as características que definem as cidades intermedias: (a) centros servidores de
bens e serviços mais ou menos especializados para a população do mesmo município e de
outros, além de distritos urbanos e rurais; (b) centros de interação social, econômica e cultural;
(c) centros ligados a redes de infraestruturas que conectam as redes locais, regionais e nacionais,
além do acesso a redes internacionais (caso das cidades intermedias localizadas nas regiões
metropolitanas); (d) nós que articulam fluxos, pontos de referência e de acesso a outros níveis
da rede; (e) centros que abrigam órgãos descentralizados da administração regional e nacional
facilitando o acesso da população aos serviços públicos fundamentais;
Deslocando o debate da inserção regional para a inserção global, Sanfeliu e Llop (2004)
passam a definir quais seriam os requisitos necessários para que uma cidade média angariasse
a posição privilegiada de “cidade intermédia” na rede global. Qualquer semelhança com os
postulados de Saskia Sassen sobre as cidades globais não é mera coincidência.
Sposito (2009) problematiza a importação, para o caso brasileiro, das reflexões de
Saskia Sassen sobre as cidades globais, aplicáveis ao caso das cidades europeias, ainda que as
tendências apontadas pela socióloga holandesa guardem relação com alguns fenômenos
observados aqui. Sposito evita o uso do termo “cidades globais”, optando por conceituar as
cidades médias brasileiras mais inseridas nos fluxos financeiros da economia internacionalizada
como “cidades em globalização”.
Para Pontes (2006), as cidades médias estariam posicionadas sobre duas redes
superpostas: uma de âmbito regional, configurando um sistema de relações com áreas rurais,
com cidades próximas ou mais distantes, sobre as quais ela exerce uma condição de comando;
e outra, de âmbito global. “Portanto, a cidade média seria um centro urbano com condições de
atuar como suporte às atividades econômicas de sua hinterlândia, bem como atualmente ela
pode manter relações com o mundo globalizado, constituindo com este uma nova rede
geográfica superposta” (Ibid.., 334).
As reflexões aqui apresentadas sobre a contextualização e a conceituação de cidades
médias permitiram tecer as seguintes conclusões: (i) o conceito de “cidades médias” teria sido
teorizado na França, nos anos 1970, na segunda fase das políticas de ordenamento do território,

48
O Programa Ciudades intermedias y urbanização mundial (CIMES) foi alavancado nos anos 1990 pela Prefeitura
de Lérida (Espanha) e pela União Internacional de Arquitetos (UIA), em parceria com a UNESCO. Seu objetivo
principal, naquele contexto, foi formar uma rede de cidades intermediárias de âmbito global.
128

sendo precedido pela noção de “cidades relés” (villes relais), da primeira fase, entre os anos
1950 e 1960, e sucedido parcialmente pelo conceito de “cidades intermediárias” (ciudades
intermedias, villes intermédiaires, i-cities), cujo conteúdo é fortemente impregnado da
ideologia neoliberal; (ii) o porte populacional não deve ser considerado como o único critério
de classificação das cidades médias, sendo necessário considerar também a escala espacial de
análise e a dimensão temporal, embora o determinismo demográfico persista já que os autores
de referência abordaram as duas últimas dimensões pautando-as pela primeira; (iii) a diferença
entre cidade média e cidade intermédia/intermediária não se restringe ao plano idiomático e
semântico, mas apresentam significados e conteúdos teóricos distintos, sendo a última
propagada em escala mundial pelo Programa CIMES e pela ONU-Habitat; (iv) no Brasil, os
termos “cidade intermédia ou intermediaria” não foram incorporados de forma sistemática na
agenda de pesquisa sobre o tema, porém, o último REGIC, publicado pelo IBGE em 2018, traz
a noção de cidade intermediária como portadora das funções de caráter médio 49;
O Quadro 3 resume a distinção entre os conceitos. A conceituação de “cidades médias”
no contexto das décadas de 1960 e 1970, estava imerso em um ambiente acadêmico-
institucional que discutia o papel do Estado Nacional como agente promotor do
desenvolvimento regional, ainda que de forma articulada às administrações locais. As “cidades
médias” eram identificadas pelos atributos que já possuíam, cabendo às políticas de Estado
fortalecerem aquelas que não dispunham dos requisitos para alavancar o desenvolvimento da
região, via desconcentração e descentralização de atividades econômicas. No contexto da
globalização, as cidades “candidatas a intermedias” são avaliadas quanto aos requisitos que
devem cumprir, ditados pelo capitalismo globalizado altamente seletivo para a alocação de
investimentos. Diferente do contexto anterior, agora as cidades devem competir entre si para se
inserirem em redes de âmbito internacional, conforme os ditames do desenvolvimento local.

Quadro 3 - Quadro teórico-conceitual comparativo referente aos conceitos cidade de porte-médio, cidade
média e cidade intermédia
Conceito CIDADE
CIDADE DE PORTE
INTERMEDIÁRIA
MÉDIO CIDADE MÉDIA
(villes intermédiaires,
(cidades relés, ville (ville moyenne)
Elementos de ciudades intermedias,
relais)
Caracterização i-cities)
Contexto histórico Anos 1960 Anos 1970 - presente Anos 1990 - presente
Critério dominante Tamanho demográfico Funções urbanas Inserção global
Atividade dominante Industrial Ind., Comércio e Serviços Informacional

49
“Forma-se, então, uma hierarquização das cidades em função da oferta dos bens e serviços, com as funções mais
simples se espalhando por toda a rede urbana, as funções de caráter médio estando restritas às cidades
intermediárias e grandes e os produtos especializados e serviços avançados tornando-se disponíveis somente nas
grandes metrópoles” (IBGE, 2018, p. 69 [grifo meu])
129

Conceito CIDADE
CIDADE DE PORTE
INTERMEDIÁRIA
MÉDIO CIDADE MÉDIA
(villes intermédiaires,
(cidades relés, ville (ville moyenne)
Elementos de ciudades intermedias,
relais)
Caracterização i-cities)
Tipo de relação dominante Hierarquia Hierarquia Heterarquia (Catelan, 2013)
Interações espaciais Contínuas Contínuas Descontínuas/ Reticulares
Estratégia de ação Ordenamento Desenvolvimento Competitividade nacional
territorial regional e internacional
Teoria-suporte Teoria dos Polos de Teoria dos Lugares Organização Espacial em
Crescimento (F. Perroux) Centrais (W. Christaller) Rede (R. Camagni)
Objetivos principais A) Promover o A) Constituir centros de Promover: A) Boa rede de
crescimento econômico, emprego industrial e comunicações
melhorando as condições terciário alternativo às ii) Nível de instrução e de
de acumulação e grandes cidades; B) capacidade de inovação
distribuição da riqueza e; Oferecer habitação e acima da média
B) Corrigir distorções no equipamentos coletivos à iii) Ambiente residencial
ordenamento territorial, população migrante e atrativo para segmentos
com a desconcentração residente na cidade; C) qualificados;
das pessoas e das Ofertar serviços públicos iv) Diversidade de
atividades econômicas, via de educação, saúde, oportunidades de
deslocamento dos fatores cultura, desporto e lazer, emprego;
de produção. capazes promover v) Núcleo urbano central
qualidade de vida urbana; eficiente;
Autores: D) Assegurar a coesão vi) Apoio às atividades de
Rochefort, 1960; Santos, regional, incluindo espaço âmbito cultural;
1979. rural envolvente. vii) Empenho das
instituições públicas na
Autores: vida da cidade.
Lajugie, 1974; Amorim
Filho, 1976; Michel, 1977; Autores: Gault, 1989;
Sposito, 2009; Correia, Ferrão et al., 1994; Costa,
2007, 2002; Sanfeliu e Llop,
2004,
Fonte: O autor (2020), a partir das contribuições dos autores.

A globalização da economia, além de influenciar as mudanças no entendimento quanto


ao conceito de cidades médias tem produzido transformações no espaço. É possível cogitar que
os RHFs são a espacialização da ideologia neoliberal, fragmentos da cidade
intermédia/intermediária encastelados no espaço urbano das cidades médias. São nesses
fragmentos que as conexões com os padrões de consumo internacional são mais evidentes:
compras pela internet de vestuário, mobiliário e outros assessórios, carros importados e estética
residencial internacional com o uso de materiais de construção sofisticados, como telhas
gravilhadas e shingle, essas últimas amplamente utilizadas nos EUA, Europa e Canadá.
A internacionalização da economia parece ter disseminado um certo padrão de morar
ditado pelo modelo do subúrbio norte-americano, particularmente, aquele observado em Los
Angeles. A configuração espacial dos residenciais fechados, assim como os padrões
arquitetônico e paisagístico empregados nos espaços comuns e nas residências, guardam
relação com a paisagem urbana observada na metrópole californiana. Isso é tão evidente quanto
maior for o padrão do residencial fechado (Figuras 32A, 32B e 32C).
130

Figura 32 - Comparativo da configuração espacial de dois residenciais fechados localizados em Alagoas,


Brasil: (A) Residencial Morumbi, Arapiraca; (B) Residencial Aldebaran, Maceió; e (C) Rua no subúrbio de
Los Angeles.
(A) (B)

(C)

Fonte A: [Link]
Fonte B: [Link]
Fonte C: [Link]

Outro aspecto que indica importação cultural é o uso corrente de termos em língua
estrangeira, em geral inglês e francês, utilizados pelas incorporadas para divulgar as
modalidades de residência, os serviços e os equipamentos de lazer oferecidos nos RHFs. O uso
desses termos parece ser uma estratégia de propaganda que pretende vincular ao
empreendimento conceitos como requinte, status e distinção.
Um exemplo disso é a página da internet de divulgação de um RHF localizado no
Município de Arapiraca-AL, aprovado em 2019, com 570 lotes e área total de 249 mil metros
quadrados. O empreendimento destina-se a segmentos de renda média, e oferece como
equipamentos e serviços: dois salões de festas, townhomes (sobrados geminados),
brinquedoteca, espaço fitness (academia), fitness externo, pista de cooper (corrida), salão de
jogos, estacionamento para visitantes, piscina com raia, borda infinita e deck (deque) molhado,
piscina infantil, deck para mesas e solarium (jardim de sol), espaços gourmet (praça de
alimentação), quadra poliesportiva, campo society, streetball (basquete de rua) e quadra de
squash.
131

4.2 Cidades médias brasileiras

No Brasil, a produção do conhecimento sobre as cidades médias ganhou vulto na década


de 1970, no âmbito do debate sobre a necessidade de uma Política Nacional de
Desenvolvimento Urbano. A expansão urbana acelerada nas grandes cidades, às margens da
regulação e do planejamento, marcada pela periferização precarizada, com carências de
infraestrutura e prevalência da autoconstrução, explicitava os limites da política habitacional
dos governos militares para o enfrentamento do problema.
Tolosa (1972, p. 145) comparou dados referentes ao crescimento da população urbana
entre 1940 e 1970, a partir dos censos demográficos, destacando a relevância das cidades de
porte médio em relação aos demais tipos de cidades – metrópoles, grandes e pequenas. “(...) os
centros de porte intermediário apresentam o comportamento mais interessante. Tomadas
individualmente, as classes médias inferior e superior mostram participação levemente
crescentes. Porém, quando tomadas em conjunto a sua participação torna-se bem mais
significativa, crescendo de 27,5%, em 1940, para quase 37%, em 1970” (TOLOSA, 1972, p.
148).
O autor destacou, dentre os três perfis de cidades de porte médio, o desempenho do
estrato “médio superior”, com população entre 100 mil e 500 mil habitantes, que apresentou as
taxas anuais médias mais altas de todo o sistema urbano nas décadas de 1950 e 1960. Contudo,
Tolosa alertou que, naquele contexto, o crescimento registrado pelas cidades de porte médio
era resultante das relações de pertencimento ou proximidade com as regiões metropolitanas,
portanto, dos efeitos de polarização das metrópoles.
Outro estudo realizado com foco nas cidades médias foi realizado por Andrade e Lodder
(1979), pesquisadores do IPEA. Os autores buscaram identificar as principais características
das cidades medias no âmbito do sistema urbano brasileiro, a partir de uma abordagem
agregada, com o uso de dados secundários e ferramental estatístico. As análises realizadas no
estudo serviram de referência para diversos outros autores (AMORIM FILHO; SERRA, 2001;
CASTELLO BRANCO, 2006; SCHERER; AMARO, 2020) que se debruçaram sobre o tema.
Andrade e Looder (Idem) subdividiram o sistema urbano brasileiro, naquele contexto,
em quatro tipologias de cidades, de acordo com o tamanho da população urbana, segundo o
censo de 1970: as metrópoles, com população superior a 2 milhões de habitantes,
correspondendo àquelas de alcance nacional (São Paulo e Rio de Janeiro); as grandes cidades,
com população entre 250 mil e 2 milhões de habitantes, no total de 14 (incluídas as metrópoles
regionais); as cidades médias, com população entre 50 mil a 250 mil habitantes, no total de
132

9550; e as cidades pequenas, com população inferior a 50 mil habitantes, no total de 3.837. É
importante notar que a identificação de cidades médias no estudo privilegiou o porte
populacional como critério determinante.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) vem desenvolvendo, desde os
anos 1960, estudos sobre a rede urbana brasileira, a partir da perspectiva da hierarquia urbana.
Os relatórios foram publicados em 1972, 1987, 2000, 2007 e 2018 e tiveram como objetivos:
construir um quadro nacional, apontando as permanências e as modificações registradas na rede
urbana no Brasil; subsidiar o planejamento estatal e as decisões quanto à localização das
atividades econômicas de produção, consumo privado e coletivo; e prover ferramentas para o
conhecimento das relações sociais vigentes e dos padrões espaciais que delas emergem (IBGE,
2007).
Iniciando essa trajetória histórica, o primeiro conjunto de pesquisas foi desenvolvido
pelo IBGE entre 1968 e 1972 e resultaram nas seguintes publicações: “Divisão do Brasil em
micro-regiões homogêneas” (1968); “Divisão do Brasil em regiões funcionais urbanas” (1972);
“Subsídios à regionalização” (1968); “Esboço preliminar da divisão do Brasil em espaços
homogêneos e espaços polarizados” (1967). Esse primeiro grupo apresentou uma análise dos
componentes físicos, humanos e econômicos das regiões funcionais e a metodologia adotada
teve como base os estudos de Michel Rochefort para análise da rede urbana francesa. O objetivo
foi identificar os centros polarizadores da rede urbana, a dimensão da área de influência desses
centros e os fluxos que se estabeleciam nessas áreas. Os critérios adotados foram: análise da
distribuição de bens (produtos industriais) e de serviços (serviços ligados ao capital, de
administração e direção, de educação, de saúde e de divulgação) de forma complementar
(IBGE, 1972, 2007).

50
Andrade e Lodder (1979) subdividiram as cidades médias por eles selecionadas em três grupos: a) Componentes
de regiões metropolitanas: Olinda e Jaboatão dos Guararapes (PE); Nilópolis, Petrópolis, São João de Meriti,
São Gonçalo (RJ); Carapicuíba, Diadema, Guarulhos, Mauá, S. Bernardo do Campo, São Caetano do Sul e Mogi
das Cruzes (SP); Canoas, Novo Hamburgo, São Leopoldo (RS); b) Componentes de aglomerações urbanas: São
Luís (MA); Teresina (PI); Juazeiro do Norte/ Crato (CE); Natal (RN); João Pessoa (PB); Aracaju (SE); Itabuna/
Ilhéus (BA), Juazeiro (BA)/ Petrolina (PE); Ipatinga/ Cel. Fabriciano/ Timóteo (MG); Vitória (ES); Barra Mansa/
Volta Redonda (RJ); Americana, Guaratinguetá, Jundiaí, Sorocaba, São José dos Campos, Taubaté (SP);
Florianópolis (SC); Pelotas/ Rio Grande (RS); Anápolis (GO); c) Centros isolados: Santarém (PA); Macapá (AP);
Parnaíba (PI); Sobral (CE); Mossoró (RN); Campina Grande (PB); Caruaru e Garanhuns (PE); Maceió (AL);
Alagoinhas, Feira de Santana, Jequié e Vitória da Conquista (BA); Barbacena, Divinópolis, Governador Valadares,
Juiz de Fora, Montes Claros, Poços de Caldas, Sete Lagoas, Teófilo Otoni, Uberlândia e Uberaba (MG); Cachoeiro
do Itapemirim (ES); Campos, Nova Friburgo e Teresópolis (RJ); Araçatuba, Araraquara, Bauru, Barretos, Franca,
Limeira, Marilia, Piracicaba, Pres. Prudente, Ribeirão Preto, Rio Claro, São José do Rio Preto e São Carlos (SP);
Maringá, Ponta Grossa, Paranaguá e Londrina (PR); Blumenau, Criciúma, Itajaí, Joinville, Lajes e Tubarão (SC);
Caxias do Sul, Cachoeira do Sul, Passo Fundo, Santa Maria, Bagé e Uruguaiana (RS); Campo Grande e Cuiabá
(MT [os dados são do censo 1970, o desmembramento que criou o MS se deu em 1977]). Arapiraca não foi
selecionada dentre as cidades médias brasileiras nesse estudo.
133

O segundo conjunto de pesquisas foi desenvolvido entre 1978 e 1987 e seus resultados
foram publicados no relatório “Regiões de influência das cidades”. Este estudo tomou como
base conceitual a Teoria das Localidades Centrais, de Christaller, partindo do princípio que a
centralidade dos centros urbanos decorre do papel que eles desempenham na distribuição de
bens e serviços para a população. De acordo com esse estudo, a relação de subordinação foi
assim definida: “uma unidade está subordinada a um centro quando com este mantiver um
relacionamento de intensidade igual ou superior ao dobro dos relacionamentos com centros
alternativos de mesmo nível hierárquico” (IBGE, 1987, p. 20).
O terceiro conjunto de pesquisas, desenvolvido entre 1993 e 2000, abordou a rede
urbana brasileira, a hierarquia dos centros urbanos e suas áreas de influência. Os resultados
foram publicados no relatório “Regiões de influência das cidades – 1993”. Nesse terceiro
momento, os impactos da globalização e dos avanços nas telecomunicações passam a compor
os critérios adotados no estudo. As redes passaram a ser entendidas a partir do seu potencial
para viabilizar a circulação e a comunicação, na organização de um espaço onde interagem
elementos fixos e intercâmbio de fluxos. Na construção da rede de lugares centrais foi
considerada a “intensidade dos fluxos ou intensidade da demanda, a extensão ou alcance
espacial da área de influência de cada cidade, e a disponibilidade de equipamentos funcionais”
(IBGE, 2000, p. 24).
O quarto conjunto resultou na publicação “Regiões de Influência das Cidades – 2007”
e retomou a concepção utilizada nos primeiros estudos realizados no IBGE, consolidados no
relatório “Divisão do Brasil em regiões funcionais urbanas” (1972). Essa concepção
estabeleceu inicialmente uma classificação dos centros e, a seguir, delimitou suas áreas de
atuação. Nesse REGIC, foi dado destaque à dimensão da gestão do território. Foram realizados
estudos complementares com foco em diferentes equipamentos e serviços – atividades de
comércio e serviços, atividade financeira, ensino superior, serviços de saúde, internet, redes de
televisão aberta, e transporte aéreo. Na etapa seguinte, foram investigadas ligações entre
cidades, de modo a delinear as áreas de influências dos centros, e a esclarecer a articulação das
redes no território. A etapa final consistiu na hierarquização dos centros urbanos (IBGE, 2008;
FARIA et al., 2012).
Segundo o IBGE, ao comparar os resultados do relatório Regiões de Influência das
Cidades, publicado em 2008, com os resultados dos estudos anteriores, é possível observar
algumas permanências e modificações na rede urbana: a) a rede urbana apresenta notável
estabilidade no que se refere aos níveis hierárquicos mais altos, que, de modo geral, mantêm-
134

se os mesmos; b) as principais alterações acompanham o processo de ocupação do território e


as mudanças são mais frequentes nos níveis de hierarquia intermediária e baixa (IBGE, 2008).
No âmbito do alcance das redes foram observadas as seguintes alterações: a) grandes
transformações ocorreram nas Regiões Norte e Centro-Oeste: Brasília e Palmas; b) mudanças
devido ao adensamento ou à emergência de redes em territórios de ocupação anteriormente
rarefeita; c) o fortalecimento do papel das capitais estaduais em que as redes tendem a
acompanhar os limites estaduais; d) o surgimento de novos centros de nível intermediário
provocou subdivisão das áreas de influência dos grandes centros, no período entre 1966 e 2007;
e) Recife teve sua região de influência reduzida, ao mesmo tempo que Fortaleza ampliou a sua.
O quinto conjunto resultou na publicação do estudo mais recente, “Regiões de Influência
das Cidades – 2018”. Nesse REGIC, o IBGE adotou um referencial teórico-metodológico
inovador em relação aos estudos anteriores utilizando, além da Teoria das Localidades Centrais,
de Walter Christaller, a Teoria dos Fluxos Centrais, do geógrafo britânico Peter James Taylor
(IBGE, 2020). Com a incorporação das contribuições de Taylor, o IBGE realizou o estudo da
rede urbana, considerando não apenas as relações de hierarquia, que operam no espaço
contíguo, mas também aquelas de complementaridade, cujas bases de interação são as redes.
De acordo com o REGIC publicado em 2008, a rede urbana brasileira contava com 12
metrópoles, 70 capitais regionais, 169 centros sub-regionais, 556 centros de zona e 4.473
centros locais. No REGIC publicado em 2018, a hierarquização dos centros urbanos já
contemplava 15 metrópoles, 97 capitais regionais, 352 centros sub-regionais, 398 centros de
zona e 4.037 centros locais. Os níveis da hierarquia que permitem correlacionar, do ponto de
vista demográfico e funcional, os centros urbanos às cidades médias, são as Capitais regionais
B e C, uma vez que as Capitais regionais A abarcam capitais de estado, com porte populacional
e perfil funcional mais próximo das grandes cidades (Figura 33).
135

Figura 33 - Brasil. Regiões de Influência, segundo IBGE (2018)

Fonte: IBGE (2018) [adaptado pelo autor]

O relatório apontou que as capitais regionais B e C totalizavam 59 centros urbanos,


enquanto na publicação de 2018, esse quantitativo passou para 88, registrando um crescimento
de, aproximadamente, 50%. O crescimento mais significativo nesse intervalo foi registrado no
nível dos centros sub-regionais, que aumentou 108% entre 2008 e 2018. Esse aumento foi
acompanhado da redução do número de centros de zona e centros locais, indicando que, nesse
136

período de tempo, a evolução da rede urbana se mostrou de modo mais evidente nos centros
sub-regionais.
No âmbito da Região Nordeste, o REGIC 2018 apresenta alterações substanciais em
relação ao REGIC 2008, registrando a consolidação da área de influência de Recife sobre o Rio
Grande do Norte e ampliando sobre Sergipe, ao mesmo tempo em que se reduzem as áreas de
influência de Fortaleza e Salvador sobre os dois estados supracitados, respectivamente. O
fortalecimento da rede urbana pernambucana também alçaram Caruaru ao nível de Capital
regional B e Garanhuns ao nível de Capital Regional C, enquanto Campina Grande teve seu
nível anterior de Capital regional B reduzido ao de Capital Regional C.
Se comparados os estudos sobre a rede urbana no Brasil, realizados pelo IBGE, entre
1972 e 2018, constata-se que o número de níveis hierárquicos diminuiu. A explicação possível
para essa redução estaria nas transformações que o mundo atravessou nas últimas décadas. Na
transição do capitalismo para o regime de acumulação flexível, as relações de subordinação
calcadas nos fixos (hierarquia urbana) vêm perdendo relevância para as relações de
complementaridade, fundadas nos fluxos e nas redes (heterarquia urbana) (CATELAN, 2013).

A formação da rede urbana nordestina teve início no período colonial e atravessou


transformações estruturais em virtude dos ciclos econômicos e da evolução dos meios e das
infraestruturas de transporte.
De acordo com Coelho (1992, p. 76), o território que hoje é denominado “Região
Nordeste” era o centro da economia colonial, em razão do modelo agroexportador da produção
açucareira. O aparato da atividade canavieira consistia no transporte da produção para centros
portuários intermediários – Natal (RN), João Pessoa (PB), Goiana (PE), Porto Calvo e Penedo
(AL), São Cristóvão (SE) e Valença (BA) – que, por via marítima, escoavam a produção para
os dois principais centros comerciais-portuários: Salvador e Recife/Olinda. Em razão disso,
tanto os dois centros urbanos polarizadores quanto os centros secundários estavam
concentrados na faixa litorânea.
A ocupação do interior – o agreste e o sertão nordestinos –, teve início no século XVI,
com a economia de subsistência que se apoiava, exclusivamente, na pecuária extensiva. Essa
atividade desempenhou papel complementar e subordinado à região açucareira, conformando
dois setores na divisão do trabalho no âmbito da economia colonial agroexportadora. A
disparidade entre o valor agregado do que era produzido pelo setor de subsistência e o que era
137

comercializado pelo setor agroexportador, produziu uma dicotomia expressa na desigualdade


intrarregional, com efeitos deletérios sobre a rede urbana nordestina.
O ciclo do algodão, iniciado na segunda metade do século XVIII, reduziu a dependência
dos centros urbanos nordestinos em relação à cultura açucareira. A demanda do mercado
internacional pelo algodão, a partir da revolução industrial na Inglaterra, foi impulsionada pela
indústria têxtil. Segundo Coelho (1992), a cultura algodoeira intensificou o povoamento do
interior e, ao mesmo tempo, promoveu maior integração dessas áreas à economia de mercado,
fazendo emergir outros centros urbanos intermediários como Campina Grande (PB), Arcoverde
(PE), Crato (CE), Sobral (CE), Caicó (RN), Mossoró (RN), Caxias (MA), São Luís (MA) e
Juazeiro (BA).
O advento do transporte ferroviário atrelado à cultura algodoeira impulsionou Fortaleza
como novo polo de comando regional e fortaleceu centros como Quixeramobim (CE), Campina
Grande (PB), Caruaru, Garanhuns e Arcoverde (PE), Sobral (CE) e Mossoró (RN) em razão da
condição de “pontas de trilhos”. Por outro lado, os centros portuários secundários como
Mamanguape (PB), Rio Formoso e Goiana (PE), Porto Calvo (AL) e Valença (BA), não
contemplados com linhas férreas, foram alijados das suas funções de intermediação.
Nas últimas décadas do séc. XIX e início do séc. XX, as transformações no âmbito do
capitalismo afastaram a economia regional nordestina do mercado internacional. Ao mesmo
tempo, o fortalecimento da cultura cafeeira e a captura do poder político nacional por parte de
São Paulo e Minas Gerais enfraqueceram as oligarquias nordestinas, deslocando a base
produtiva agroexportadora para o Sudeste
A partir da década de 1930, a grande depressão e a Segunda Guerra Mundial levaram o
presidente Getúlio Vargas a priorizar o fortalecimento da indústria nacional e do mercado
interno, via substituição de importações. Segundo Coelho (1992, p. 83), “a transferência de
capitais paulistas do café para a atividade industrial [...] entre outros fatores, transformaram o
Centro-sul do País numa região fortemente polarizadora” e, particularmente, São Paulo.
A criação da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE) foi
importante para compreender os problemas estruturais da Região e enfrentá-los sob uma
perspectiva do planejamento regional estatal. Contudo, as ações planejadas pela SUDENE
foram frustradas devido ao foco na industrialização sem alterar a estrutura fundiária desigual e
concentrada; ao fracasso na implantação do centro autônomo de expansão manufatureira; ao
fracasso na promoção de uma industrialização de base regional ou de substituição de
importações; e ao crescimento industrial incompleto, subordinado e complementar à dinâmica
industrial do Sudeste (COELHO, 1992).
138

No tocante à história regional alagoana, Correa (1992) dividiu o processo de formação


da rede urbana em três fases, adotando como elemento-chave a evolução dos meios de
transporte e seus impactos na estruturação do território.
O primeiro estágio se estendeu de meados do século XVI à penúltima década do século
XIX. Ele correspondeu ao predomínio da navegação fluvial e marítima sobre a débil rede de
transportes terrestres. Porto Calvo, Alagoas (hoje, Marechal Deodoro) e Penedo emergiram
como vilas e povoados às margens dos rios e das lagoas e se consolidaram como pontos de
escoamento da produção açucareira, mas estabeleciam relações diretamente com Recife, o
principal porto de exportação. No início do século XIX, as exportações de açúcar e algodão
alavancaram o engenho Maceió como uma centralidade regional importante, ampliando as
ligações entre os centros urbanos alagoanos por caminhos terrestres (Figura 34) além da
navegação fluvial. Naquele contexto, destacaram as cidades como Pilar, Penedo, Coruripe, São
Miguel dos Campos, Porto Calvo, Palmeira dos Índios, Quebrangulo, Santana do Ipanema e
Piranhas dentre outros. Registra-se a ausência do povoado de Arapiraca no mapa, atestando sua
irrelevância no contexto regional, naquele período.
O segundo estágio teve início com a chegada da ferrovia, no final do século XIX e se
estendeu até a metade do século XX, alterando de forma substancial a vida urbana em Alagoas.
Na Zona da Mata, a instalação da ferrovia potencializou a importância de Maceió, destino final
da maior parte da produção açucareira e algodoeira. Por outro lado, centros urbanos que
prosperaram graças à navegação fluvial, mas preteridos na passagem da linha férrea, entraram
em decadência. A instalação progressiva da ferrovia impulsionou um crescimento populacional
e econômico das cidades “pontas de trilhos”, breve nos casos de União dos Palmares, Viçosa e
Quebrangulo, e mais duradouro no caso de Palmeira dos Índios (Figura 35), que ampliou sua
área de influência nos interiores alagoano e pernambucano. Em 1947, a ferrovia chegou a
Arapiraca, localizada no centro geográfico do estado (CORREA, 1992).
O terceiro estágio teve início a partir da Segunda Guerra Mundial, quando o transporte
rodoviário passou a predominar, provocando nova reestruturação do espaço regional alagoano.
A localização estratégica em relação a infraestrutura das estradas de rodagem pavimentadas
potencializou determinados centros urbanos em detrimento de outros. As relações entre as
cidades passaram a ser facilitadas assim como as ligações entre a rede urbana alagoana e as
metrópoles regionais Recife e Salvador. A passagem da antiga BR-26 (hoje BR-316), e o
cruzamento com a rodovia estadual que passa por Arapiraca, tornou Palmeira o nó rodoviário
mais importante do agreste alagoano, até a emergência de Arapiraca, na década seguinte.
Apesar de Palmeira dos Índios ter sido favorecida com a passagem da rodovia federal é
139

importante destacar Arapiraca como polo de confluência de importantes rodovias estaduais no


início da década de 1960, embora ainda não pavimentadas (Figura 36) (CORREA, 1992).
Segundo Onorina Fátima Ferrari (1990), a projeção de Arapiraca como o novo centro
polarizador no Agreste e Sertão Alagoanos, a partir da década de 1960, decorreu do surto de
crescimento econômico propiciado pela cultura fumageira, a policultura, a feira livre e as
atividades de comércio e serviços, bem como a chegada da ferrovia e a expansão da malha
rodoviária, ampliando as ligações da cidade com o entorno regional. Ao mesmo tempo,
Palmeira dos Índios sofreu um processo de estagnação econômica, perdendo a posição de
comando regional para Arapiraca.
Para Ferrari (1990), além da crise da cultura do algodão, o declínio de Palmeira dos
Índios na hierarquia urbana regional ocorreu devido: (i) à expansão da pecuária leiteira no
município, que unificou em grandes pastagens as terras antes utilizadas para a policultura,
reduzindo as condições de permanência da mão-de-obra no campo, resultando na migração de
parte da população rural para outros municípios; (ii) à dispersão dos estabelecimentos
relacionados ao comercio atacadista da produção agrícola (antes concentrados em Palmeira dos
Índios), para os municípios vizinhos, dotando-os de maior autonomia; (iii) ao insucesso na
competição com Arapiraca no tocante às atividades urbanas, dado o crescimento econômico e
populacional acelerado experimentado pela última cidade em razão da cultura fumageira; (iv)
ampliação da infraestrutura de estradas de rodagem em que Arapiraca despontou como nó; e
(v) a alteração na correlação de forças políticas em Alagoas, com a projeção dos grandes
proprietários de terras e multinacionais do fumo no interior do estado.
140

Figura 34 - Alagoas. Principais caminhos terrestres em 1871, segundo Bom Fim Espíndola

Fonte: Correa (1992)


141

Figura 35 - Alagoas. Expansão da rede ferroviária, entre 1884 e 1950

Fonte: Correa (1992)


142

Figura 36 - Alagoas. Plano Rodoviário Estadual, em 1961

Fonte: Arquivo Nacional do Brasil, s/d


143

Ferrari (1990) apontou que, apesar da cultura fumageira ter alavancado o crescimento
de Arapiraca, foi a expansão da atividade comercial que assegurou à cidade a ascensão
progressiva na hierarquia urbana regional, sendo possível categorizá-la como uma cidade
média, já naquele contexto.

O desenvolvimento da atividade comercial ligada à distribuição de bens de consumo,


(...) tem sua expressão mais ampla no próprio crescimento da cidade de Arapiraca. É
através do comércio distribuidor que a cidade de Arapiraca se afirma regionalmente,
assumindo o papel de capital regional do Agreste e Sertão alagoano, transformando-
se em um centro intermediário entre as grandes metrópoles ao País e a sua região de
influência, entre o capital industrial financeiro e seu capital comercial, entre o urbano
distante e o rural próximo (FERRARI, 1990, p.41)

Os atributos elencados por Amorim Filho (1976) que possibilitam identificar uma
cidade média, permitem enquadrar Arapiraca nessa categoria, desde o contexto dos anos 1970:
a) interações constantes e duradouras tanto com seu espaço regional, quanto com
aglomerações urbanas de hierarquia superior: a posição de Arapiraca como nó do
sistema rodoviário estadual permitiu a interligação com Maceió, Recife e com os
pequenos centros urbanos no eu entorno imediato;
b) tamanho demográfico e funcional suficientes para oferecer um leque de bens e serviços
ao espaço microrregional onde está situada: o crescimento econômico decorrente da
cultura fumageira gerou um incremento populacional robusto na década de 1970, além
do fortalecimento das atividades urbanas e da oferta de serviços públicos;
c) capacidade de receber e fixar os migrantes de cidades menores ou da zona rural, com
oferta de oportunidades de trabalho, atenuando o movimento migratório na direção das
grandes cidades: a cultura fumageira possibilitou o cultivo em pequenas áreas,
permitindo que Arapiraca absorvesse boa parte da mão-de-obra rural expulsa dos
municípios vizinhos pela atividade pecuarista, de base latifundiária;
d) dispor de condições necessárias ao estabelecimento de relações de dinamização com o
espaço rural microrregional que as envolve: a cultura do fumo expandiu a partir de
Arapiraca, dinamizando o espaço rural regional conformando a Região Fumageira de
Arapiraca.
e) Apresentar diferenciação no espaço intraurbano, com um centro funcional
individualizado e uma periferia dinâmica, com a multiplicação de novos núcleos
habitacionais periféricos, evoluindo segundo um modelo parecido com o das grandes
cidades: com os ganhos resultante da cultura fumageira sugiram novas industrias,
estabelecimentos e representantes comerciais (inclusive de âmbito internacional), além
144

da ampliação da oferta de serviços médicos e educacionais. A expansão da feira livre


associada ao fortalecimento do comércio formal e à modernização dos espaços públicos
dotou o centro de Arapiraca, na década de 1970, de uma forte polarização regional, para
onde afluíam parte da população dos municípios vizinhos. Essa força de polarização do
centro de Arapiraca persiste até os dias atuais, com certa perda de dinamismo em razão
do enfraquecimento da feira livre e da competição com o shopping center.
f) apresentar o surgimento, embora em menor escala, de certos problemas semelhantes
aos das grandes cidades: a proliferação de loteamentos na periferia da cidade, a
degradação ambiental, a carência de infraestrutura urbana e o surgimento de favelas
(Escorrego da Catita, hoje Manoel Teles) atestam que Arapiraca, na década de 1970, já
apresentavam problemas análogos àqueles dos grandes centros.
A dinâmica de reorganização dos centros urbanos no Agreste e Sertão alagoanos
corroboram as reflexões de Michel (1977) e Correa (2007) sobre a importância de considerar a
dimensão temporal na identificação de uma cidade como média. Uma cidade não nasce média
e permanece como tal de uma vez por todas. O que constitui uma cidade como média depende
tanto de fatores sistêmicos, quanto das particularidades regionais que, em um dado momento,
podem potencializar um determinado centro urbano e, em outro momento, impelir outro. A
história regional do Agreste e Sertão alagoanos confirma essa tese, na medida em que as funções
de comando regional e de intermediação, desempenhadas por Palmeira dos Índios na primeira
metade do século XX, passaram a ser desempenhadas por Arapiraca, a partir da segunda
metade.
Considerando os três conceitos mencionados na primeira seção deste capítulo, Arapiraca
pode ser classificada como uma cidade de porte médio, uma vez que que sua população
municipal está estimada em 233.047 habitantes (IBGE, 2020), dentro da faixa de 50 mil a 500
mil habitantes utilizada para identificar esse tipo de centro urbano. Arapiraca desempenha o
papel de cidade média no contexto regional alagoano, desde meados da 1960 até a atualidade.
Localizada no centro geográfico de Alagoas (Figura 37), Arapiraca é a segunda maior cidade
do estado e polariza todo o Agreste Alagoano, se constituindo em um entreposto de comércio
e serviços entre o Sertão e o Litoral, conforme o estudo “Regiões de Influência do IBGE –
2018” (Figura 38). Não é possível afirmar que Arapiraca seja uma cidade intermediária em
razão do alcance limitado da sua influência espacial e da sua inserção precária nas redes de
fluxo informacionais. Contudo, a gestão municipal e as elites locais almejam conferir à cidade
maior projeção, com a chegada de instituições de ensino superior, e maior atração de visitantes
e turistas, com a implantação do Planetário e do Centro de Convenções.
145

Figura 37 - Microrregiões de Alagoas. Em destaque, as três microrregiões que compõem o Agreste


Alagoano. Ao centro, a Microrregião de Arapiraca.

Fonte: Raphael Lorenzeto de Abreu. Creative Commons Attribution-Share Alike 3.0 Unported. [adaptado pelo autor]
Disponível em: [Link]

Figura 38 - Estado de Alagoas: Regiões de Influência das Cidades, 2018, com Arapiraca em destaque.

Fonte: IBGE, 2018 [adaptado pelo autor]


146

Nas últimas três décadas Arapiraca apresentou um crescimento contínuo da sua


população residente. A partir dos dados da Tabela 6 foi possível aferir que, entre 1991 e 2000,
a taxa de crescimento foi 12,3%; entre 2000 e 2010, a mesma taxa foi de 14,6%; e entre 2010
e 2020 (população estimada) a taxa alcançou 8,2%. A taxa de urbanização que era de 78,2%
em 1991, passou a 81,6% em 2000, chegando a 84,8% em 2010. Essas taxas foram maiores do
aquelas verificadas no estado de Alagoas e no Brasil. A população do Município, estimada para
2020, é de 233.047 habitantes.

Tabela 6 - Arapiraca – AL. População Total, Rural e Urbana.


% do % do % do População
População População População
População Total Total Total estimada*
(1991) (2000) (2010)
(1991) (2000) (2010) (2020)

População urbana 130.963 78,73 152.354 81,58 181.481 84,80 -


População rural 35.388 21,27 34.401 18,42 32.525 15,20 -
População total 166.351 100,00 186.755 100,00 214.006 100,00 233.047
Fonte: PNUD, Ipea e FJP
(*) As estimativas realizadas pelo IBGE têm como base a população total dos municípios. Os quantitativos de
população urbana e rural são levantados nos censos demográficos. O Censo de 2020 ainda não foi realizado.

Os dados apontam para um aumento de 63,8% na renda per capta entre 2000 e 2010.
Conforme a Tabela 7, esse aumento foi acompanhado pela redução da pobreza e da extrema
pobreza. Em termos comparativos a redução da pobreza em Arapiraca foi maior do que no
Estado de Alagoas, no intervalo de tempo. Contudo, é importante mencionar que o Índice de
Gini, que mede a desigualdade de renda, apresentou uma queda inexpressiva entre 2000 e 2010,
mostrando que a concentração de renda no Município de Arapiraca não alterou
significativamente no período em questão.

Tabela 7 - Alagoas e Arapiraca – AL. Renda, Pobreza e Desigualdade.


Alagoas Arapiraca
2000 2010 2000 2010
Renda per capita1 285,29 432,56 258,45 423,2
% de extremamente pobres2 31,95 16,66 22,74 11,15
% de pobres3 56,80 34,29 48,59 26,65
Índice de Gini 0,68 0,63 0,57 0,55
Fonte: PNUD, Ipea e FJP
(1) R$ de agosto/2010; (2) Com renda domiciliar per capta mensal inferior a R$ 70,00 de agosto/2010; (3) Com
renda domiciliar per capta mensal inferior a R$ 140,00 de agosto/2010.

A composição do Produto Interno Bruto (PIB) do Município de Arapiraca pode ser


observada na Figura 39, em perspectiva comparativa ao Brasil, à Região Nordeste e ao Estado
147

de Alagoas, considerando o ano de 2016. É possível constatar que os setores da agropecuária e


da administração pública apresentavam porcentagens maiores que as médias nacional e
macrorregional, mas menores que a estadual. No PIB municipal, o setor industrial apresentava
uma porcentagem menor se comparado às demais unidades geográficas. O destaque na
composição do PIB de Arapiraca é o setor de serviços, que apresenta participação maior se
comparada ao país, à região e ao estado.

Figura 39 - Participação setorial no PIB por unidade geográfica, Arapiraca – 2016

Fonte: BANCO DO NORDESTE, 2019 [adaptado pelo autor]

No tocante às condições de habitação, os dados do Censo (Tabela 8) mostram que


Arapiraca apresentou melhorias contínuas quanto ao acesso da população à água encanada 51
nas últimas décadas. Os dados referentes ao saneamento básico atestaram uma piora entre 1991
e 2000, retornando em 2010 a um patamar próximo dos anos 1990. Os dados referentes ao
fornecimento de energia e coleta de lixo mostram que esses serviços estavam próximos da
universalização na cidade.

Tabela 8 - Arapiraca – AL. Indicadores de infraestrutura urbana.


1991 2000 2010
% da população em domicílios com água encanada 54,18 69,33 94,68
% da população em domicílios com abastecimento de água e
13,30 26,40 12,40
esgotamento sanitários inadequados*
% da população em domicílios com energia elétrica 92,15 97,63 99,56
% da população em domicílios com coleta de lixo 84,19 96,82 97,38
Fontes: PNUD, Ipea e FJP; (*) Banco do Nordeste, 2015

51
É importante destacar que o acesso à canalização da água não repercute necessariamente em acesso à segurança
hídrica, dados os problemas de interrupção frequente no abastecimento de água por motivos diversos.
148

O Estado de Alagoas possuía, em 2010, um total de 842.804 domicílios particulares


permanentes e um déficit habitacional de 124.063 unidades, 14,6% do total. Esse déficit é
composto por 100.434 domicílios situados em áreas urbanas e 23.628 em áreas rurais do estado.
No mesmo ano, Arapiraca contava com 58.277 domicílios particulares permanentes e o déficit
habitacional perfazia 7.377 unidades, 12,7% do total de domicílios, sendo 6.693 localizados em
área urbana e 415 unidades em área rural (VIEIRA, 2016). A partir do Programa Minha Casa
Minha Vida, quatro conjuntos habitacionais foram implantados em Arapiraca: o Residencial
Brisa do Lago (2012), com 1.868 unidades habitacionais; o Residencial Nossa Senhora
Aparecida (2013), com 499 unidades; o Residencial do Agreste (2014), com 999 unidades; e o
Residencial Vale do Perucaba (2014), também com 999 unidades (Figura 40).

Figura 40 - Vista do Residencial Vale do Perucaba.

Fonte: [Link]

4.3. O espaço intraurbano de Arapiraca: configuração e autossegregação

Historiadores e estudiosos locais apontaram que as terras que hoje correspondem ao


município de Arapiraca eram conhecidas como “Alto do Espigão do Simão do Cangandu”.
Inicialmente, elas pertenciam a Marinho Falcão e, mais tarde, foram a vendidas a Amaro da
Silva Valente que, por sua vez, as cedeu para Manoel André Correia dos Santos, seu genro.
Manoel André teria vindo de Cacimbinhas – naquele contexto, um distrito subordinado a
Palmeira dos Índios – com a sua esposa Dona Maria Valente e se instalado na área, em 1848.
A presença maciça de uma espécie arbórea conhecida pelo nome popular “Arapiraca” teria
motivado a denominação para o povoado (GUEDES, 1999; MACEDO, 1998). A terra propícia
149

para o cultivo da mandioca e a existência de uma fonte de água doce proveniente do Riacho
Seco asseguraram as condições de permanência nesse período inicial da ocupação.
Em 1864, sob as ordens de Manoel André, foi erigida a Capela de Nossa Senhora do
Bom Conselho, sobre o local onde sua esposa, Dona Maria Valente, teria sido sepultada. Entre
1848 e 1865, o povoado cresceu com a vinda de familiares e pessoas próximas a Manuel André,
conformando o primeiro núcleo de ocupação – o “quadro” – formado pela capela e um
arruamento margeado por casas de taipa, com telhados em duas águas. Ao se deslocarem com
destino ao povoado, os viajantes afirmavam que iam para o “Quadro da Arapiraca”, dando
origem à primeira denominação desse arruamento (GUEDES, 1999).
A partir da formação do quadro, o processo de ocupação se deu de forma dispersa e
polinucleada. A formação dos assentamentos foi se dando em razão da disponibilidade de
recursos naturais, para fins de subsistência, e ao longo dos seguintes caminhos: a oeste, na
direção de Traipu, próximo ao rio Perucaba (atual bairro Cacimbas), em 1858, e na direção ao
Poço Frio (atual bairro Zélia Barbosa Rocha), em 1859; a leste, à margem direita do Riacho
Seco (atual bairro Canafístula), em 1860; a Noroeste, com o surgimento do sítio “Craíba dos
Nunes”52; a Nordeste, em direção ao Sítio Serra dos Ferreiras, um dos mais antigos
assentamentos; e a Norte, o sítio Caititus, em 1861 (ARAPIRACA, 2005).
Os primeiros núcleos de povoamento, formados em meados do século XIX, deram
origem aos bairros Centro, e aos primeiros bairros pericentrais: Alto do Cruzeiro (antigo Alto
da Boa Vista), Cacimbas e Baixão, que também abrigaram residências de famílias importantes
no contexto da fundação do povoado. No Centro, está localizado o marco zero da cidade, a
Praça Manoel André (antigo “Quadro”).
Em 1884, teve origem a Feira de Arapiraca, localizada no “quadro”. Segundo Guedes
(1999), a feira teria sido criada por iniciativa de Esperidião Rodrigues da Silva, uma liderança
política do povoado, naquele contexto. Para Nardi (2010) as motivações foram de ordem
econômica: a fome que alastrou na região no ano de 1884; a necessidade de troca do excedente
agrícola; e o fumo como indutor de encontros regulares entre os habitantes da região. Para
Guedes (1999) e Macedo (1998) a feira teria criado as condições para a expansão do fumo. Para
Nardi (2010), o fumo teria criado as condições para a formação da feira.
De acordo com Guedes (1999), o “quadro” preservava, em 1910, algumas características
do núcleo original. A casa do fundador Manoel André, falecido em 1890, ainda estava presente
e, ao lado, Capela de Nossa Senhora do Bom Conselho, como pode ser vista na Figura 41. “Ao

52
Núcleo da ocupação original do município de Craíbas, emancipado de Arapiraca, em 1962.
150

longo do ‘quadro’, na área do comércio, existiam diversos umbuzeiros e uma velha tamarineira,
em cuja sombra nasceu a feira e onde os trabalhadores penduravam a carne para vender”
(ARAPIRACA, 2005, p. 45).

Figura 41 - Arapiraca. Vista do “quadro” em 1910, atual Praça Manoel André; ao fundo, a casa de Manoel
André e a Capela de Nossa Senhora do Bom Conselho

Fonte: Guedes, 1999

O crescimento econômico e populacional do povoado de Arapiraca suscitou um


movimento local em prol da sua emancipação política. O processo de emancipação, iniciado
sob a liderança de Esperidião Rodrigues, em 1918, foi extenso e conflituoso. A aprovação da
Lei 1.009, em 30 de maio de 1924, oficializaria a emancipação, porém, as disputas políticas
atrasaram a publicação da lei no Diário Oficial, ocorrida em 30 de outubro daquele mesmo ano.
Em meados da década de 1920, os produtos agrícolas mais relevantes na região eram o feijão,
o milho, o algodão, a mandioca como a cultura predominante, e o fumo, que ainda não tinha a
projeção que alcançou nas décadas posteriores (GUEDES, 1999).
De acordo com a descrição de Guedes (1999), no contexto da emancipação política, o
traçado urbano de Arapiraca era formado por cinco logradouros públicos (Figuras 42 e 43): o
“quadro”, posteriormente designado como rua do Comércio, atual Praça Manoel André (Figura
44); a Rua Nova, atual Praça Marques da Silva (Figura 45A); a Rua Pinga Fogo, atual Rua
Aníbal Lima (Figura 46); a Rua Boca da Caixa, atual rua 15 de Novembro (Figura 47); e início
da Rua do Cedro, atual Av. Rio Branco (Figura 48).
Outros dois caminhos partiam desse núcleo original: o Beco dos Urubus, com origem
no centro do quadro em direção à Lagoa das Olarias, a área de várzea do Riacho Seco (onde
hoje está o Parque Ceci Cunha); e um prolongamento que partia da rua Nova em direção ao
cemitério (sobre o qual foi erigida a Concatedral) passando por um local onde existia um
matadouro (atual Largo D. Fernando Gomes). Outro logradouro relevante, mas não mencionado
por Guedes, foi a “Boca da Igreja” (atual Praça Bom Conselho) (Figura 49).
151

Figura 42 – Malha urbana em 1924, com os principais logradouros públicos e indicação hipotética dos
principais caminhos que ligavam a vila Arapiraca aos principais sítios, povoados e cidades localizados no
entorno; em marca d’água, o tecido urbano em 2019.

Fonte: O autor (2021). Mapa-base: Julio Cesar dos Santos.


152

Figura 43 - Detalhe da malha urbana em 1924, com os principais logradouros públicos e caminhos da Vila
Arapiraca. (1) Igreja de N. S. do Bom Conselho; (2) Paço Municipal; (3) Capela de São Sebastião; (4)
Segunda sede da Prefeitura Municipal; e (5) Cemitério.

Fonte: O autor (2021). Mapa-base: Júlio Cesar dos Santos.

Figura 44 - “Quadro da Rua do Comércio”, no final da década de 1930

Fonte: Câmara Municipal de Arapiraca

Na antiga Rua Nova, foi instalada uma cacimba para o abastecimento de água da
população local. Nesse logradouro foi construído, pelo comerciante Antônio Apolinário, o
primeiro sobrado do povoado. Chamado, à época, de Paço Municipal, o sobrado foi escolhido
para sediar a festa da Emancipação Política de Arapiraca, em 30 de outubro de 1924. Esse
edifício abrigou a Junta Governativa, enquanto se dava o processo eleitoral. Em seguida foi
instalada a primeira sede da Prefeitura Municipal, enquanto era concluído o novo edifício, na
Rua do Cedro (atual Av. Rio Branco). O sobrado abrigou ainda a primeira delegacia e, mais
adiante, o primeiro hotel da cidade: o Hotel Estrela (Figura 45B).53

53
Em 1952, o sobrado que abrigou o Paço Municipal passou para a iniciativa privada. Em 1970, foi demolido.
153

Figura 45 - (A) Vista parcial da Rua Nova, em 1918; ao centro, a cacimba; (B) Primeiro sobrado, que
abrigou o Paço Municipal e, na década de 1930, o Hotel Estrela (foto em detalhe)
(A) (B)

Fonte: Guedes, 1999

Figura 46 - Rua Pinga Fogo, década de 1950

Fonte: Câmara Municipal de Arapiraca

Figura 47 - Rua Boca da Caixa, atual Rua 15 de Novembro, em 1940

Fonte: Guedes, 1999


154

Figura 48 – (A) Rua do Cedro, atual Av. Rio Branco, em 1938; ao fundo à direita, a segunda sede da
Prefeitura Municipal; e (B) o edifício da Prefeitura Municipal em detalhe

Fontes: (A) Câmara Municipal de Arapiraca; (B) [Link]

Figura 49 - “Boca da Igreja”, atual Praça Bom Conselho, em 1945

Fonte: Câmara Municipal de Arapiraca

A Igreja de São Sebastião foi erigida em 1926, por José Zeferino de Magalhães, ao lado
da sua residência, em razão do pagamento de uma promessa feita na primeira década daquele
século, quando o povoado sofreu com uma a epidemia de tifo (GUEDES, 1999). Essa igreja foi
a única edificação daquele logradouro que permanece até os dias atuais (Figura 50).

Figura 50 - (A) Igreja de São Sebastião, em 1946. (B) A mesma Igreja, em 2020

Fontes: (A) Guedes, 1999; (B) O autor (2020)


155

A partir da década de 1930, a zona rural do município passou por relevantes


transformações. Até então, predominavam os latifúndios improdutivos. A cultura do fumo
passou a predominar sobre a cultura da mandioca como a principal atividade agrícola do
município, surgindo novos “currais de fumo” nas fazendas Ouro Preto, Seridó e Primavera.
No entorno do núcleo original formado pelo Centro e pelo Alto do Cruzeiro, havia sítios
que, a partir da segunda fase de expansão urbana, ao longo das décadas de 1930, 1940 e 1950,
foram sendo incorporados à cidade como bairros, são eles: Baixão, Cacimbas, Capiatã, Caititus,
Primavera, Ouro Preto e Poço Frio (atual Zélia Barbosa Rocha). Posteriormente, foi
incorporado o bairro Brasília (GUEDES, 1999).
Na década de 1940, a cultura fumageira, a feira e o comércio se constituíram nas três
forças motoras que passaram a impulsionar a economia de Arapiraca. A linha férrea foi
instalada em 1947 e inaugurada pela Great Western of Brasil Raillway (Figura 51). A
implantação da ferrovia conferia à Arapiraca, naquele contexto, a posição privilegiada de
“ponta de trilhos”. A linha férrea perpassou o território municipal de forma longitudinal e se
constituiu em um proeminente indutor de progresso e de modernidade (ARAPIRACA, 2005),
assim como um importante eixo de expansão urbana nas décadas de 1950 e 1960. Em 2020, a
estação estava em avançado estado de deterioração em razão do abandono. No final de 2021, a
administração municipal informou que o edifício seria reabilitado54.

Figura 51 – (A) Estação Ferroviária Arapiraca em construção; (B) o edifício, em 2020.

Fontes: (A) Câmara Municipal de Arapiraca; (B) O autor (2020)

Com a chegada da ferrovia e a expansão da economia fumageira, a cidade


experimentava, na década de 1950, um surto de modernização e progresso. A vegetação nativa
foi derrubada para dar lugar às plantações de fumo (GUEDES, 1999). A Feira de Arapiraca

54
Disponível em: [Link]
biblioteca-e-espacos-de-convivencia-urbana/. Acesso em: 10 jan. 2022.
156

ainda se restringia à antiga rua do Comércio. Sob a administração do prefeito Luiz Pereira Lima,
houve uma série de melhoramentos na área urbana, como a reforma do calçamento na Rua do
Comércio, realizando a pavimentação da via e implantando um canteiro central (Figura 52); a
construção do pontilhão que interligou a rua do Comércio ao bairro Alto do Cruzeiro); além do
calçamento e ajardinamento da Praça Dr. Durval de Góes Monteiro (atual Praça Marques da
Silva) (ARAPIRACA, 2005).

Figura 52 - Rua do Comércio, em 1949, após a reforma do calçamento e a pavimentação da via

Fonte: Macedo, 1994

Na década de 1960, a área comercial de Arapiraca expandiu para além das ruas Aníbal
Lima, XV de Novembro, Domingos Rodrigues e a Praça Bom Conselho. A feira livre, até então
restrita à rua do Comércio, se estendeu e passou a ocupar outros logradouros, se tornando a
maior feira do Estado de Alagoas (GUEDES, 1999).
Os bairros Cacimbas, Baixão, Cavaco e Centro, passaram a sofrer com problemas
decorrentes da poluição e de enchentes frequentes. Para mitigar o problema dos dois primeiros
bairros, foi construída na região do Poço Frio, a barragem do DNOCS, atual Lago da Perucaba
(Figura 53), em meados dos anos 1960, atraindo um vetor de crescimento da cidade para aquela
direção. Por ser salobra, a água do riacho Perucaba era imprópria para o consumo humano. A
construção da barragem trouxe como impactos a submersão do antigo Poço Frio, um ponto de
lazer tradicional da cidade e danos à vegetação nativa e à fauna aquática (ARAPIRACA, 2005).
157

Figura 53 - Açude do DNOCS, atual Lago da Perucaba

Fonte: [Link]

O rápido crescimento urbano sem o provimento de infraestrutura adequada, somado à


expansão da cultura fumageira no meio rural sem um plano de manejo, acarretaram problemas
ambientais decorrentes do uso de defensivos agrícolas e a poluição química dos cursos d’água
e dos lençóis freáticos (ARAPIRACA, 2005).
Em 1968, foi aberta uma artéria viária que redefiniu a malha urbana no setor leste da
cidade: a Av. Cel. Wilson Santa Cruz Caldas, mais conhecida como “Avenida do Futuro” (atual
Avenida Deputada Ceci Cunha). A abertura da avenida foi realizada na administração do
Prefeito João Lúcio da Silva, que conferiu a ela o cognome que permanece até os dias atuais.
De acordo com Souza (2012, p. 48), logo a após a sua abertura, a “avenida do futuro” se tornou
o principal acesso à cidade, interligando a área central com a rodovia AL-102 (atual AL-110),
já pavimentada naquele contexto (Figura 54). Até então, o acesso principal à cidade se dava por
uma via estreita, hoje denominada Rua Nossa Senhora da Salete.
Outros efeitos resultantes da abertura da avenida, segundo Souza (2012), foram a
valorização das terras ao longo da via, favorecendo proprietários fundiários; a expansão da área
urbana no setor leste da cidade; e a substituição progressiva das atividades rurais por atividades
urbanas, embora persistissem usos do solo rurais em propriedades lindeiras à avenida, conforme
observado por Souza no contexto da realização da sua pesquisa.
No decorrer das décadas de 1970 e 1980, o crescimento do transporte motorizado
transformou as estradas estaduais AL-14 (atual AL-115), AL-24 (atual AL-220) e a rodovia
AL-25 (atual AL-110) em importantes atratoras da expansão urbana na cidade. Nesses decênios,
a malha urbana expandiu para além dos bairros pericentrais. A noroeste, foi implantado o
primeiro conjunto habitacional da cidade, hoje conhecido como COHAB Velha. É importante
destacar que até meados da década de 1970, a malha urbana de Arapiraca se apresentava de
forma mais adensada dentro dos limites dados pelas rodovias estaduais.
158

Figura 54 - Malha Urbana de Arapiraca 1972, sobreposta ao tecido urbano atual, de 2019. (1) Estação
Ferroviária; (2) Açude do DNOCS (atual Lago da Perucaba); (3) Conjunto Habitacional COHAB Velha;
(4) expansão urbana ao longo da ferrovia; (5) expansão urbana na direção das rodovias.

Fonte: O autor (2021). Mapa-base: Julio Cesar dos Santos.

Nesses dois decênios, os logradouros públicos passaram por novo remodelamento. Com
a intensificação do tráfego decorrente do aumento da venda de veículos automotores, essa
modalidade de transporte passou a receber tratamento prioritário. Parte das calçadas e das
praças públicas perderam espaço para os leitos carroçáveis e os estacionamentos, conforme
pode ser constatado nas Figuras 55A e 55B.
159

Figura 55 - (A) Rua do Comércio, na década de 1970, destacando o grande número de veículos. (B) Praça
Dr. Góes Monteiro, com as calçadas reduzidas para prover área de estacionamentos

Fonte: Câmara Municipal de Arapiraca

Nos anos de 1970, a feira e o comércio formal da cidade estabeleciam uma relação de
interdependência. A feira promovia a concentração de pessoas que consumia tanto nas suas
instalações, como no comercio formal que, por sua vez, gerava divisas para o município por
meio da tributação (FERRARI, 1990). A expansão da feira entre os anos 1940 e 1980 pode ser
observada nas Figuras 56A e 56B.

Figura 56 - Feira de Arapiraca na Praça do Comércio. (A) em 1942; (B) na década de 1980

Fontes: (A) Câmara Municipal de Arapiraca e (B) [Link]

A década de 1980 foi marcada pela primeira gestão do prefeito Severino Leão, entre
1983 e 1988, que realizou obras de vulto tais como: o aterramento da Lagoa das Olarias e a
reconstrução do canal do Riacho Seco, parte em canalização aberta, parte fechada, recobrindo
o seu curso; a implantação de rede de esgotos em uma parte do Centro; e a urbanização da
favela Escorrego da Catita, com a pavimentação de parte das vias, construção de casas e a
implantação do canal que direcionou o escoamento das águas provenientes do Centro para o
Açude do DNOCS.
160

No entanto, a ausência de uma política habitacional que enfrentasse o problema da


moradia de forma sistemática e abrangente continuou levando as populações de baixa renda a
ocupar áreas ambientalmente vulneráveis. Ao longo do canal construído para a condução do
Riacho Seco, surgiram as favelas do Quiçassa e Caborge (Figura 57).

Figura 57 - Favela do Caborje, removida em 2007 para a implantação do Bosque das Arapiracas

Fonte: Arapiraca, 2004

Nos decênios 1990 e 2000, a malha urbana ultrapassou os limites das rodovias. Ao sul,
o Distrito Industrial, implantado em meados dos anos 1990, próximo ao entroncamento das
rodovias AL-115 e AL-485, se constituiu como um vetor de expansão naquele contexto. Ao
norte, a construção do Centro Administrativo às margens da AL-220 (Figura 58), em 2005, e a
implantação do Campus da Universidade Federal de Alagoas (Figura 59), em 2006, às margens
da AL-115, conformaram importantes vetores de expansão naquele decênio. O Arapiraca
Garden Shopping (Figura 60), implantado em 2013, em área pública cedida pela prefeitura55,
contígua ao Centro Administrativo; a nova Adutora do Agreste, instalada em 2014 em frente
ao Campus da UFAL, e a expansão da Mineração Vale Verde (Figura 61), em 2018, na divisa
com o Município de Craíbas, fortaleceram o vetor de expansão ao norte do município.

55
Leis municipais 2.590/2008, 2.693/2010, 2.699/2010 e 2.735/2011.
161

Figura 58 – Centro Administrativo Municipal Figura 59 – Campus da UFAL Arapiraca

Fonte: Prefeitura Municipal de Arapiraca Fonte: [Link]

Figura 60 – Arapiraca Garden Shopping Figura 61 - Mineradora Vale Verde

Fonte: [Link] Fonte: [Link]

As duplicações da AL-220, concluída em 2012, e da AL-110, iniciada em 2018, atraíram


investimentos principalmente de supermercados atacado varejistas. Quatro estabelecimentos
foram implantados às margens ou próximo dessas duas rodovias: Atacadão, Maxxi Atacado,
Assaí e Azul Atacarejo (Figura ). Os investimentos públicos em infraestrutura rodoviária
atraem, também, outro segmento: os construtores e incorporadores ligados à implantação de
residenciais horizontais fechados. A malha urbana da cidade, em 2020, com a localização dos
equipamentos supracitados, é apresentada na Figura 62.

Figura 62 - Supermercados Atacado-Varejistas instalados próximo a rodovias duplicadas

Fonte: [Link] Fonte: [Link]


162

Figura 63 - Malha Urbana de Arapiraca em 2019. (1) Distrito Industrial; (2) Centro Administrativo; (3)
Arapiraca Garden Shopping; (4) UFAL Campus Arapiraca; (5) Adutora do Agreste; (6) Mineradora Vale
Verde; (7) Supermercados Atacado Varejistas; (8) Bosque das Arapiracas; (9) Urbanização da Orla do
Lago da Perucaba.

Fonte: O autor (2021). Mapa-base: Julio Cesar dos Santos.

No tocante à área central da cidade, com a crise estrutural da cultura fumageira, na


segunda metade da década de 1990, o poder público municipal passou a apoiar o comércio
formal como estratégia de superação do desemprego e da estagnação econômica. Desde dentão,
o comércio formal passou a antagonizar com a feira e o resultado dessa disputa foi o
fortalecimento do comércio formal e o enfraquecimento paulatino da grande feira. No início do
163

século XXI, a administração municipal desmembrou a Grande Feira de Arapiraca, que ocorria
semanalmente às segundas, em feiras menores instaladas em diferentes bairros, em distintos
dias da semana.
Após o desmembramento, sob o argumento de que a feira tradicional criava problemas
para o tráfego de veículos no Centro, em 2004 a administração municipal deslocou-a para um
bairro pericentral, o Baixão, prejudicando o acesso, reduzindo o movimento de pessoas e,
consequentemente, prejudicando as vendas. Uma mobilização realizada pelos feirantes fez com
que a administração municipal recuasse e a principal feira da cidade retornou para o Centro,
mas o desmembramento enfraqueceu, em parte, a sua atratividade.
A supracitada disputa produziu transformações no espaço urbano da área central. O
comércio formal foi beneficiado com intervenções urbanas de “revitalização” na área do Centro
onde ele predomina, com a implantação de calçadões na Praça Manoel André e adjacências,
assegurando melhores condições de circulação para os consumidores.
O conjunto de intervenções urbanas na área central, chamada pelas administrações
municipais como “revitalização do Centro”, perdurou de 1993 a 201256 e contemplou as
seguintes obras públicas: remodelamento da Praça Marques da Silva (1994) implantação do
Parque Ceci Cunha (2000), remodelamento da Praça Manoel André e adjacências (2003),
remodelamento do Largo Dom Fernandes Gomes (2003), implantação do Parque Ceci Cunha
II (2006), implantação do Mercado de Artesanato Margarida Gonçalves (2007), construção do
Memorial da Mulher (2008), remodelamento da Praça Luiz Pereira Lima (2010),
remodelamento de Praça de Santa Cruz (2010), construção do Ginásio João Paulo II (2011) e
implantação do Bosque das Arapiracas, inaugurado em 2011 (Figura 64).57

56
Período que compreendeu a segunda gestão de Severino Barbosa Leão (1993-1996), os dois mandatos da prefeita
Célia Rocha (1997-2000 e 2001-2004) e os dois mandatos do prefeito Luciano Barbosa (2005-2008 e 2009-2012).
Célia Rocha e Luciano Barbosa foram secretários municipais de saúde e de educação, respectivamente, na segunda
gestão de Severino Leão.
57
Apesar do Bosque das Arapiracas, o Parque Ceci Cunha, o Memorial da Mulher e a Praça Santa Cruz não
estarem localizados no bairro Centro, podem ser mencionados como parte do conjunto de intervenções atinentes à
área central da cidade, dada a proximidade e as semelhanças funcionais que esses espaços têm com o Centro.
164

Figura 64 - Localização das principais intervenções urbanas na área central da cidade, entre 1993 e 2012.

Fonte: Google Earth [adaptado pelo autor]

As obras de remodelamento realizadas em determinadas praças públicas do Centro


implantaram calçadões, a partir do fechamento de vias para tráfego de veículos, que antes
circundavam esses logradouros, a exemplo da Praça Manoel André (Figura 65). Essas
intervenções favoreceram a parte do Centro que abrange desde o Parque Ceci Cunha até a Rua
São Francisco, onde predomina o comércio formal da cidade, em detrimento da outra parte, que
corresponde ao trecho que vai da Rua São Francisco até a linha férrea desativada, que não
contou com a mesma atenção e os mesmos investimentos.

Figura 65 - (A) Rua do Comércio, na década de 1960; (B) Praça Manuel André, em 2003, pós-revitalização

Fonte: Câmara Municipal de Arapiraca


165

Entre 2013 a 2020, houve uma redução das intervenções urbanas na área central, após a
última obra de vulto nessa fração da cidade, o Bosque das Arapiracas, inaugurado em 2011
(Figura 66). Essa grande intervenção teve início com a remoção das favelas do Caborje e
Quiçassa, deslocando as famílias para o conjunto habitacional Jardim das Paineiras, no bairro
Sen. Nilo Coelho, a quatro quilômetros de distância do local. De acordo com a justificativa do
projeto, as favelas estavam nas margens do riacho Seco, em área de risco.

Figura 66 - Bosque das Arapiracas

Fontes: (A) [Link]

Na última década, as intervenções no Centro foram de natureza muito pontual, com o


intuito de realizar manutenção e adaptações nos espaços públicos implantados na década
anterior. Apesar da grande maioria das intervenções se concentrarem na “revitalização” dos
espaços públicos da área central e na implantação de algumas praças nos bairros pericentrais e
periféricos58, a maior intervenção urbana realizada na periferia da cidade foi a urbanização da
orla norte do Lago da Perucaba.

58
Praça da Fumageira, no bairro Primavera (2012); Praça do Campus da UFAL Arapiraca, no bairro Bom Sucesso,
dentre outras.
166

Essa intervenção urbana foi recomendada pelo PDPMA, aprovado em 2006, com o
objetivo de oferecer um espaço público qualificado para fins de lazer dada a localização em
área de preservação ambiental. Para a execução da obra, foram mobilizados 20 milhões de reais,
no âmbito do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)59.
A intervenção consistiu na pavimentação da via e do estacionamento que dão acesso ao
empreendimento e na construção de um calçadão, parque infantil, quadras poliesportivas,
ciclovia, áreas ajardinadas, quiosques para bares e restaurantes, academia ao ar livre, biblioteca
pública digital, destinada ao público infanto-juvenil e um planetário como ponto de apoio às
escolas de tempo integral de Arapiraca. O planetário é o primeiro no Estado de Alagoas (Figura
67) e se tornou uma das principais atrações turísticas da cidade. Em meados de 2021, foram
iniciadas as obras do Centro de Convenções. A urbanização do Lago da Perucaba ampliou as
opções de lazer urbano fora do Centro da Cidade.

Figura 67 - Urbanização da orla norte do Lago da Perucaba, após a inauguração da primeira etapa, em
2009: (A) vista área, (B) quiosques e passarela principal e (C) espaço para eventos. (D) o Planetário,
inaugurado em 2012.

Fonte: [Link] Fonte: [Link]

Fonte: [Link] [Link] Fonte: [Link] [Link]

59
Disponível em: [Link]
perucaba/. Acesso em: 19 dez. 2021.
167

Arapiraca, nas últimas duas décadas, tem sido marcada por processos espaciais urbanos
que tem alterado a sua configuração. A descentralização urbana está em curso e pode ser
observada considerando dois aspectos: (i) político: com o deslocamento das instituições
administrativas, antes dispersas pela área central, para o Centro Administrativo, em 2005, que
reuniu em um só edifício a Prefeitura Municipal com todas as suas Secretarias no bairro Santa
Edwiges; e (ii) comercial, com a implantação do Arapiraca Garden Shopping, se constituindo
em um equipamento de consumo que reúne diversos estabelecimentos de comércio e serviços,
e dos supermercados atacado-varejistas. Os equipamentos mencionados estão localizados, em
maior parte, ao longo da AL-220.
A cidade experimentou também uma progressiva mudança do uso do solo, com
atividades rurais sendo substituídas por atividades urbanas. Não obstante, é comum na
paisagem da cidade extensas glebas lindeiras às rodovias com cultivo de fumo, mandioca e
outras culturas, constituindo grandes vazios urbanos. O uso do solo rural nessas áreas bem
servidas de infraestrutura parece ter como finalidade a especulação imobiliária. Nas franjas do
perímetro urbano, muitos terrenos são utilizados para plantio como meio de vida para pequenos
agricultores, indicando a transição no uso do solo.
Tem sido observada uma alteração na natureza do capital que comanda a economia do
município: o capital acumulado nas atividades agrícolas e industriais tem sido convertido em
capital imobiliário, com os industriais e empresários locais – antes vinculados à economia
fumageira – atuando, nas últimas duas décadas, como construtores e incorporadores
imobiliários.
O papel do poder público parece também ter sofrido alterações nessa transição da
atividade econômica, passando para uma gestão pública de base empresarial-corporativa. Os
investimentos públicos realizados na cidade têm priorizado a revitalização de espaços públicos
com a criação de novos espaços de lazer. Contudo, essas intervenções tem produzido uma
sobrevalorização da terra urbana, principalmente na área central, gerando uma acelerada
mudança do uso do solo observada na expansão das atividades comerciais e redução do uso
residencial no Centro.
No entorno do Lago da Perucaba, a implantação de equipamentos como Planetário e
Centro de Convenções, indica tendências próprias da cidade pós-moderna – serviços culturais
e turismo de negócios – sem, contudo, ter resolvido problemas elementares da modernidade
como o funcionamento de uma rede de esgotamento sanitário ao menos nos bairros mais
consolidados da cidade. As tubulações do sistema de esgotamento sanitário vêm sendo
instaladas desde 2014, mas imbróglios envolvendo a estação de tratamento de efluentes têm
168

impedido a entrada em funcionamento da rede. Com as obras inacabadas e abandonadas pelo


poder público, a área foi ocupada pelo Movimento Sem Terra60.
Dentre os processos espaciais em curso nesse período, a segregação urbana tem
produzido efeitos deletérios para o desenvolvimento urbano no município. A segregação pode
ser observada na cidade em suas três variantes: (i) espontânea, formada pelos assentamentos
precários constituídos por cortiços e favelas; (ii) programada, evidenciada pela implantação de
grandes conjuntos habitacionais em áreas distantes da malha urbana consolidada, alguns deles
precarizados por falta de manutenção e sem os equipamentos comunitários para atender os
moradores, alijando-os do direito à cidade; e (iii) voluntária, observada na profusão de
residenciais horizontais fechados nas franjas do perímetro, alguns deles constituindo ilhas de
prosperidade rodeadas por assentamentos habitados por uma população carente de recursos e
de serviços públicos urbanos.

O processo de implantação de residenciais horizontais fechados em Arapiraca-AL é


relativamente recente: teve início em 2006 e ainda está em curso. Essa particularidade oferece
uma oportunidade privilegiada para avaliar o fenômeno da autossegregação e suas implicações
nas transformações do espaço urbano, em uma cidade média, desde o começo da implantação
dos RHFs. O levantamento bibliográfico e documental foi importante para abordar o processo
de expansão urbana por loteamentos em Arapiraca-AL e as visitas de campo permitiram
identificar e registrar as transformações urbanas mais recentes.
Para realizar o mapeamento dos loteamentos em Arapiraca foram seguidos dois
procedimentos: (i) levantamento dos dados de localização, polígono e data de aprovação, junto
à plataforma geoweb61 do Setor de Georreferenciamento (GeoArapiraca) da Prefeitura
Municipal de Arapiraca, de todos os loteamentos urbanos aprovados na cidade; e (ii)
levantamento junto à Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente (SEDUMA), da

60
Disponível em: [Link]
de-estacao-de-tratamento-de-esgoto-vira-acampamento-de-sem-terra. Acesso em: 23 nov. 2021.
61
Antes de ser desativada, em 2019, a plataforma geoweb disponibilizava dados georrefenciados do município de
acordo com a seguintes estrutura: a) base político-administrativa: comunidades, hidrografia, limite de bairros,
limites municipais, linha ferrea, massas de água, rodovias; b) cadastro: áreas públicas, marcos geodésicos, padrão
construtivo, perímetros, setores cadastrais; c) dados demográficos: densidade demográfica, população por
aglomerado, população por setor; d) equipamentos: assistência social, educação, meio ambiente, outros órgãos,
saúde; e) serviços públicos: cemitérios, coleta de lixo, delegacias, infraestrutura, postes, rotas de ônibus, ruas
varridas; f) uso do solo: imóveis com habite-se, imóveis com poço, feiras livres, loteamentos, loteamentos de
interesse social, loteamentos regularizados, nascentes do piauí, postos de combustível, quiosques, uso e ocupação,
usucapião e zoneamento plano diretor 2016.
169

Prefeitura Municipal de Arapiraca, dos dados detalhados referentes aos loteamentos fechados,
contendo as seguintes informações: nome do loteamento, endereço, proprietário, ano de
aprovação, código/ano do alvará, número de lotes, área residencial e área total do loteamento.
A escolha dessas informações teve por motivação identificar os loteamentos, espacializá-los no
tecido urbano da cidade e analisar os percentuais de áreas públicas e privadas em cada
loteamento, possibilitando calcular o tamanho médio do lote – um dos critérios relevantes para
a construção da tipologia de RHFs que serviu de parâmetro para a aplicação do questionário
junto aos moradores.
Após a disponibilização dos dados por técnicos da SEDUMA, foi realizado um
procedimento de formatação, no software Microsoft Excel, de modo a organizar a base para
fins de cálculo e estudos comparativos. Realizou-se uma revisão detalhada dos dados com vistas
a sanar ocorrência de possíveis duplicidades ou inconsistências. Os técnicos da SEDUMA
prestaram os esclarecimentos necessários e enviaram algumas correções pontuais à planilha
original. Alguns dados foram complementados com um levantamento junto à Companhia de
Saneamento de Alagoas (Casal).
Os dados disponibilizados pela SEDUMA e compatibilizados com o GEOArapiraca e a
Casal possibilitaram a organização da planilha e a elaboração dos mapas, com vistas a
espacializar os loteamentos na malha urbana de Arapiraca. Os mapas foram confeccionados em
parceria com o arquiteto e urbanista Júlio César Santos, contratado para tal finalidade.
Os dados vetoriais de perímetros e localização de loteamentos utilizados para a
composição dos mapas foram obtidos através da plataforma geoweb da prefeitura de Arapiraca,
além da base de eixos viários da plataforma Open Street Maps (OSM). Todos os dados obtidos
foram georreferenciados ou convertidos para o Sistema de Projeção Cartográfica SIRGAS 2000
UTM 24/S. Em todos os procedimentos foi utilizado o software livre de Sistema de Informações
Geográficas (SIG) QGIS, versão LTR 3.10 – A Coruña. A seguinte sequência de procedimentos
foi adotada na elaboração dos mapas:
1. Inicialmente, os dados vetoriais foram inseridos no SIG, onde foi realizado a
geocodificação dos polígonos dos loteamentos. Os dados alfanuméricos dos
loteamentos (nome, data de aprovação, situação, etc) foram unidos às geometrias por
meio de uma chave de ligação.
2. Após constituída a camada vetorial de loteamentos, alimentada com os dados
previamente obtidos, se procedeu à estilização da camada de acordo com a sua
categoria, nesse caso, utilizando o campo de situação do loteamento (se aberto, fechado,
irregular, etc).
170

3. Configurado o estilo e as categorias da camada de loteamentos, realizou-se um filtro


para cada recorte temporal pré-definido: os decênios de 1961 até 2019 (por exemplo:
ano_aprovação &gt;= 1961 and ano_aprovação &lt;= 1980).
A partir de dados como nomes dos loteamentos e endereços foi possível espacializar os
empreendimentos na malha urbana de Arapiraca. Nos mesmos mapas foram informados os
polígonos correspondentes aos últimos cinco perímetros urbanos. Os empreendimentos
residenciais foram classificados em três categorias: loteamentos convencionais ou abertos,
residenciais horizontais fechados (RHFs) e conjuntos habitacionais.
O ano de aprovação possibilitou representar nos mapas a evolução da implantação dos
loteamentos em diferentes decênios: 1961-1970, 1971-1980, 1981-1990, 1991-2000, 2001-
2010, 2011-201962, agrupando-os em intervalos de vinte anos.
A análise da subdivisão atual dos bairros da cidade (Figura 68) juntamente com a
espacialização dos loteamentos urbanos aprovados pelo município entre 1961 e 2019 (Figuras
69, 70 e 71) permite constatar que os loteamentos localizados nos bairros pericentrais
apresentaram porte menor do que aqueles localizados nos bairros periféricos, convergindo com
Santos, Santos e Barbosa (2015). Essa discrepância pode guardar relação com a maior
disponibilidade de área e pelo menor preço da terra nos bairros mais afastados do Centro.
O levantamento dos dados indicou que o primeiro loteamento urbano implantado em
Arapiraca foi aprovado em 1962 e está localizado onde, hoje, estão situados os bairros Sen.
Teotônio Vilela e Caititus. Não foram encontrados, nos registros da Prefeitura, dados referentes
a outros loteamentos aprovados neste primeiro decênio analisado (1961-1970).
Na década de 1970, a maior parte dos loteamentos aprovados estava concentrada nos
bairros pericentrais – Alto do Cruzeiro, Brasília, Ouro Preto, Baixão e Manoel Teles – e em
menor número nos bairros Santa Esmeralda e Jardim Tropical, dada a atratividade exercida pela
estrada AL-220 (Figura 69). No início deste decênio foi implantado o primeiro conjunto
habitacional do município, a “COHAB Velha”, hoje localizado no bairro Jardim Esperança,
mas distante da malha urbana e do centro da cidade naquele contexto (ARAPIRACA, 2005).
A Rua Mal Deodoro da Fonseca se tornou uma importante artéria viária cumprindo a
função de interligar a rodovia AL-102 (atual AL-110) com a área central da cidade. Esse papel
de via conectora parece explicar a implantação de três loteamentos ao longo do seu percurso
nesse decênio. A “avenida do futuro”, aberta no final dos anos 1960, apresentava até o final da
década de 1970 usos predominantemente rurais.

62
A década de 1960 foi adotada como marco inicial em razão da base de dados fornecida pela Prefeitura. A
estruturação da base está sendo realizada pela equipe de georreferenciamento.
171

Figura 68 - Malha Urbana de Arapiraca, em 2019, com os limites e denominações dos bairros.

Elaboração: Julio Cesar dos Santos e Rafael Rust Neves


172

Figura 69 - Arapiraca. Loteamentos urbanos aprovados entre 1961 e 1980 sobre a malha atual, de 2019.

Fonte: O autor (2021). Mapa-base: Julio Cesar dos Santos.


173

Em 1979, foi elaborado o primeiro plano diretor63 da cidade. O plano foi enviado à
Câmara Municipal, porém, não foi aprovado. Ele incorporou o perímetro urbano disposto pela
lei municipal de 1975, que ampliou a área destinada à ocupação urbana para 1.530,3 hectares,
em que 614,3 hectares correspondiam à área urbana já consolidada e 916,0 foram hectares
destinados à expansão da cidade (Figura 70). Essa ampliação do perímetro com uma grande
proporção de vazio ao mesmo tempo em que limitou o aumento do preço da terra, favoreceu a
especulação imobiliária e o crescimento horizontal da malha urbana, sem o devido provimento
de infraestrutura adequada (ARAPIRACA, 2005).
Entre 1981 e 1990, dentre os bairros pericentrais, destacaram o Manoel Teles e Ouro
Preto, com três loteamentos implantados no interior dos seus limites, além do Eldorado, que
abrigou dois novos loteamentos, à época (Figura 70). A Rua Nossa Senhora da Salete, embora
tenha perdido para a “Avenida do Futuro” a função de principal à cidade, abrigou três
loteamentos ao longo do seu percurso nesse decênio. A expansão urbana nos anos 1980 foi mais
vigorosa nos bairros Santa Esmeralda, Novo Horizonte, Itapoã, São Luiz e Zélia Barbosa
Rocha. Além de abrigarem o maior número de loteamentos aprovados nesse período, estes
bairros receberam também parcelamentos de grande porte.
A lei municipal nº 1.387, de 09 de abril de 1984, redefiniu o perímetro e a área urbana
passou a ocupar o equivalente a 3.463,00 hectares (ARAPIRACA, 2005). Com esse perímetro,
a área destinada à ocupação urbana mais que dobrou, totalizando crescimento de 126% em
relação ao perímetro anterior (Figura 70).
No decorrer da década de 1980, o vetor de expansão norte transpôs a rodovia AL-220,
em direção ao bairro Planalto, que abrigou três empreendimentos, sendo um deles o conjunto
habitacional conhecido como “COHAB Nova”, aprovado em 1990. No bairro Jardim
Esperança, foi implantado o maior loteamento aprovado na década de 1980, com área em torno
de 23 hectares. O segundo maior loteamento aprovado nesse decênio, com área aproximada de
21,5 hectares, está ao localizado ao sul, no bairro São Luiz.
Entre 1991 e 2000, a cidade atravessou outro momento de transformações urbanas que
marcaram a paisagem da cidade até o presente momento. Em 1995, a Lei Municipal nº 1.911/95
ampliou novamente o perímetro, aumentando a área urbana para 3.942 hectares, totalizando um
crescimento de 14% em relação ao perímetro anterior, definido em 1984.
Em 1990, o número de grandes empresas atuando na comercialização do fumo caiu
significativamente (FREITAS; OLIVEIRA, 2018). A crise estrutural da cultura fumageira que

63
O Plano de 1979 foi dividido em três volumes, mas só o terceiro foi encontrado. No volume III são apresentadas
uma descrição do zoneamento, sem mapas, e as minutas de lei para o ordenamento urbano.
174

atingiu toda a Região Fumageira de Arapiraca, na segunda metade de década de 1990, gerou
um fluxo migratório intenso, em que contingentes da população rural do município, assim como
populações advindas dos municípios vizinhos, passaram a se instalar na zona urbana de
Arapiraca.
Entre 1991 e 2000, os loteamentos urbanos aprovados indicaram a intensificação do
vetor de expansão da cidade nas direções norte, nordeste e noroeste (Figura 70). O maior
número de loteamentos aprovados nesse período está localizado nos bairros Itapoã, Novo
Horizonte, Santa Esmeralda, Baixa Grande e Planalto, todos margeados pela rodovia estadual
AL-220, provavelmente, a maior indutora da expansão urbana, naquela ocasião. Nesse decênio
foram implantados dois parcelamentos de grande porte em área contígua, no bairro Zélia
Barbosa Rocha, nas imediações do Açude do DNOCS (atual Lago da Perucaba), totalizando
aproximadamente, 60 hectares de área ocupada.
175

Figura 70 - Arapiraca. Loteamentos urbanos aprovados entre 1981 e 2000 sobre a malha atual, de 2019.

Fonte: O autor (2021). Mapa-base: Julio Cesar dos Santos.


176

A década de 2000 foi marcada por transformações notáveis na configuração urbana da


cidade. Após a aprovação do Plano Diretor Participativo do Município de Arapiraca, em 2006,
o perímetro urbano foi novamente expandido por meio da lei municipal 2.470/2006, passando
a delimitar uma área de 6.517,57 hectares e estabelecendo um contorno de 35.041,51 metros
lineares (ARAPIRACA, 2006) (Figura 71).
No âmbito da habitação de interesse social, foi aprovada nesse decênio a implantação
dos conjuntos habitacionais Jardim das Paineiras (2007), Arapiraca (2008) e Brisa do Lago
(2009). O Jardim das Paineiras, localizado no bairro Sen. Nilo Coelho, foi viabilizado pelo
Programa Habitar Brasil BID (HBB), com a finalidade de abrigar 583 famílias que viviam em
áreas de risco nas favelas do Caborje e Quiçassa – removidas em prol da implantação do Bosque
das Arapiracas – e no bairro Manoel Teles. O Residencial Arapiraca, localizado no bairro
Massaranduba, teve como beneficiários 283 funcionários públicos municipais. Viabilizado com
recursos do Programa Minha Casa, Minha Vida, o Residencial Brisa do Lago foi aprovado em
2009, totalizando 1868 casas. Ocupando uma área de 68,97 hectares no bairro Olho D’água as
Cazuzinhas, ele consistiu no maior empreendimento residencial aprovado pela prefeitura
naquele decênio, definindo um vetor de expansão ao sul.
Quanto aos loteamentos convencionais, a expansão urbana conformou dois vetores: ao
norte, induzido pela implantação do Campus da Universidade Federal de Alagoas (Figura 71),
com uma concentração de parcelamentos nos bairros Bom Sucesso, Planalto e na Zona de
Expansão Urbana definida pelo PDPMA, em 2005; e ao sul, induzido pela AL-115, com a
profusão de loteamentos nos bairros São Luiz, Verdes Campos, Nova Esperança e Boa Vista.
177

Figura 71 - Arapiraca. Loteamentos urbanos aprovados entre 2001 e 2019, sobre a malha atual, de 2019.

Fonte: O autor (2021). Mapa-base: Julio Cesar dos Santos.


178

O bairro Cavaco, situado na periferia da cidade, a noroeste, abrigou três loteamentos


urbanos aprovados nesse decênio. É importante destacar dois grandes parcelamentos
implantados no bairro Planalto: o Residencial Ares da Serra, um loteamento aberto,
convencional, com área total de 26 hectares e 771 lotes, aprovado em 2005; e o Residencial
Ouro Verde, o primeiro loteamento fechado implantado em Arapiraca, com área total de 36
hectares e 465 lotes, concluído em 2007.
Depois do Residencial Ouro Verde, outros oito empreendimentos fechados foram
implantados em Arapiraca no final desse decênio: o Altaville Residence (2008), o Residencial
Belo Jardim (2008), o Residencial Colibri (2009), o Residencial Portal do Sol (2009), o
Residencial Bem Viver (2010), o Residencial Eldorado (2010), o Residencial Parc Ville (2010)
e o Residencial Morumbi (2010).
Na década de 2011-2019, a demarcação da área urbana da cidade foi expandida duas
vezes. Em 2011, a lei municipal 2.770 ampliou o perímetro urbano em 44,35%, considerando
o anterior, estabelecido em 2006, cinco anos antes. Com essa ampliação, a área urbana
demarcada atingiu 9.408,29 hectares, delimitada por um contorno de 54.114,02 metros lineares.
Em 2016, a lei municipal 3.238 ampliou novamente a área urbana para 9.899,50 hectares
circunscrita em um perímetro com 57.878,57 metros lineares (ARAPIRACA, 2016) (Figura
71). As sucessivas expansões do perímetro urbano ao longo dos últimos 40 anos geraram
grandes vazios nas franjas de ocupação urbana, sem que os vazios localizados em meio a áreas
consolidadas e providas de infraestrutura fossem devidamente ocupados. A especulação
imobiliária avançou sobre os bairros mais afastados do Centro.
Nesse período foram implantados grandes conjuntos habitacionais viabilizados pelo
Programa Minha Casa, Minha Vida: o antedito Residencial Brisa do Lago, aprovado em 2009,
mas inaugurado em 2012; o Residencial Nossa Senhora Aparecida (2013), com 999 casas,
localizado no bairro Massaranduba, justaposto ao residencial fechado Aroeiras; o Vale do
Perucaba (2014), composto de 999 unidades habitacionais, localizado próximo ao Brisa do
Lago; e o Residencial do Agreste (2014), também com 999 unidades habitacionais64, localizado
ao norte do município, fora do perímetro urbano naquela ocasião (Figura 69).
O vetor de expansão ao norte, impulsionado pelo Campus da Ufal na década anterior,
foi consolidado com a duplicação da AL-220 (2012), o Arapiraca Garden Shopping (2013), os

64
A repetição desse quantitativo de unidades habitacionais em diferentes empreendimentos indica uma estratégia
adotada pelas construtoras para não serem obrigadas a executar equipamentos comunitários, conforme dispõe a
Portaria nº 325, de 7 de julho de 2011, emitida pelo Ministério das Cidades.
179

supermercados atacado-varejistas e a Mineradora Vale Verde65 (2018) (Figura 72). O vetor a


sudeste foi impulsionado pela duplicação da AL-110 (2018) e pela abertura de outro
supermercado atacado varejista.
A opção pelos equipamentos de serviços e de consumo parece mostrar um panorama da
configuração socioespacial da cidade. Os equipamentos de serviço e estabelecimentos de
comércio mais utilizados pela população de baixa renda estão localizados no centro da cidade,
como o Hospital Regional, o Jomart Atacado e a Feira Livre. No anel periférico, próximo às
rodovias AL-220 e AL-110, estão os equipamentos e estabelecimentos mais utilizados pelos
segmentos de média e alta rendas como o Hospital Chama, o Arapiraca Garden Shopping e os
supermercado atacado-varejistas.
A concentração de instituições educacionais, equipamentos de saúde e estabelecimentos
comerciais valorizados nas margens das rodovias, fazem delas objetos de disputa nas escolhas
locacionais de RHFs. Conforme apontou Sposito (2006), a aproximação com as rodovias
assegura um deslocamento rápido com ligação a pontos de interesse sem a necessidade de
passar pelo Centro ou por áreas consideradas “indesejáveis” pelos moradores de RHFs. Os
parques e praças mais equipados estão localizadas na área central da cidade, com exceção da
urbanização da orla leste do Lago da Perucaba. Nas periferias, os segmentos de média e alta
rendas estão suprindo a demanda de praças de forma exclusivista, no interior dos RHFs.
As intervenções urbanas levadas a cabo pela administração municipal e pelo governo
do estado acabaram por favorecer a implantação de RHFs. O baixo preço da terra nos bairros
mais afastados do Centro, assegurada por múltiplas expansões do perímetro urbano; a dimensão
espacial atinente ao porte médio da cidade e a dimensão temporal, referente aos deslocamentos
rápidos pelas rodovias, asseguradas pelas duplicações têm transformado os bairros afastados na
“bola da vez” do capital imobiliário mobilizado para implantação de residenciais fechados.

65
A Mineração Vale Verde realizou [...] a abertura da Mina Serrote “a céu aberto para o beneficiamento e produção
do concentrado de cobre e exportação do minério majoritariamente para o mercado asiático. A expectativa é de
lavrar cerca de 4,1 milhões de toneladas por ano. A vida útil estimada da Mina Serrote é de cerca 14 anos [...].
Desde 2018, 100% do capital da empresa pertence à Appian Capital Advisory LLP”, com sede em Londres,
Inglaterra. Disponível em: [Link] Acesso em: 02 dez. 2021.
180

Figura 72 - Vetor de Expansão Norte. Arapiraca-AL.

Limite de Municípios:
Craíbas / Arapiraca

Mineração Vale
Verde

UFAL Campus
Arapiraca
Conjunto
Conjunto Habitacional N. S.
Habitacional Aparecida
Agreste

Complexo de
Residenciais Fechados
Residencial
Fechado Aroeiras

Fonte: Google Earth [adaptado pelo autor]


181

No decênio 2011-2019, a expansão urbana através de loteamentos apresentou uma


diversidade de situações que tornou ainda mais complexa a periferia da cidade. Sobre os
loteamentos urbanos convencionais, abertos, observa-se uma concentração desses
empreendimentos nos bairros Massaranduba e Nilo Coelho, ao norte, e Verdes Campos e Boa
Vista, ao sul.
É digno de nota o quantitativo e o porte dos loteamentos abertos aprovados no bairro
Senador Nilo Coelho nesse decênio. Os três maiores empreendimentos aprovados entre 2013 e
2015 – Luar de Arapiraca, Porto Vitória e Sonho Verde II –, ao longo da Rua Pedro Alexandre,
apresentaram uma oferta de lotes da ordem de 2.019 unidades e área total de 73 hectares (Figura
73). Observando a imagem de satélite e analisando registros fotográficos feitos in loco é
possível constatar que tais empreendimentos são dotados de ótimas condições de infraestrutura,
com ruas asfaltadas e bem sinalizadas, meio fio e rede elétrica instalada, porém registram uma
baixa ocupação dos lotes (Figuras 74A e 74B).

Figura 73 - Loteamentos abertos de grande porte com ocupação rarefeita no bairro Sen. Nilo Coelho.

Fonte: Google Earth [editado]


182

Figura 74 - Loteamento Colorado, bairro Sen. Nilo Coelho. (A) Alameda principal com lotes vazios nas duas
margens; (B) Pavimentação em asfalto com sinalização horizontal.

Fontes: O autor (2020)

Esse decênio foi marcado também pela proliferação de residenciais fechados, na cidade.
Os principais vetores de expansão dos residenciais fechados foram: ao norte, o bairro
Massaranduba, com a aprovação do Residencial Aroeiras (2011), Residencial Cerejeira (2011)
e Residencial Pedro Tertuliano I e II (2015 e 2016); e o bairro Sen. Arnon de Melo, com a
aprovação dos residenciais Sierra (2012), Alto Jardim (2012) e Jardim Alto (2014); a leste, o
bairro Canafístula, concentrando o maior número de residenciais fechados aprovado nesse
decênio: Monte Sinai (2011), Villa de la Roche (2013), Center Park (2013), Araville Alfa
(2014), Canafístula (2014), San Lorenzo (2015) e Novo Dia (2018); à oeste, no entorno do Lago
da Perucaba, com a aprovação dos empreendimentos incorporados pelo Perucaba Bairro
Planejado – Reserva Perucaba (2013), Jardins Perucaba I (2014), Jardins Perucaba II (2019) –
e do Residencial Riviera do Lago (2014). Outros residenciais fechados aprovados nesse período
estão distribuídos de forma dispersa pelos bairros Bom Sucesso, Planalto, Sen. Nilo Coelho,
Eldorado, ao norte, e São Luiz, Nova Esperança, Boa Vista, Guaribas e João Paulo II.
De acordo com os dados fornecidos pela SEDUMA, foram aprovados 129 loteamentos
em Arapiraca, entre janeiro de 2007 e julho de 2019. Desse total, 91 permaneceram como
loteamentos abertos e 38 foram murados, se tornando RHFs, perfazendo 29,5% do número de
loteamentos aprovados no período.
Dos 91 loteamentos abertos aprovados entre janeiro de 2007 e julho 2019, foi possível
encontrar dados completos de 85. A partir desses 85 empreendimentos, constatou-se que, foram
ofertados no mercado imobiliário de Arapiraca, 18.209 lotes, ocupando uma área de 591,63
hectares. A partir da área residencial dos loteamentos e o número de lotes ofertados, foi possível
estabelecer que o tamanho médio do lote ofertado pelos empreendimentos residenciais abertos,
aprovados nesse período, foi de 171,17 metros quadrados.
183

Os 38 RHFs ofertaram 9.507 lotes no mercado imobiliário de Arapiraca. A área


parcelada para fins residenciais nesses empreendimentos, considerando o período em questão,
ocupou 222,48 hectares. O tamanho médio do lote ofertado nesses empreendimentos
corresponde a 237,54 metros quadrados, quase 40% maior que o tamanho médio do lote
ofertado nos loteamentos abertos.
O primeiro RHF implantado em Arapiraca-AL foi o Residencial Ouro Verde, um
empreendimento fechado de alto padrão, concluído em 2007 (Figura 75). O nome do
loteamento é uma referência ao epíteto dado ao fumo que, no apogeu desta atividade em
Arapiraca, propiciou fortunas aos grandes fumicultores. O residencial conta com cerca
eletrificada em todo o perímetro murado, guarita de segurança com câmeras digitais, quadra de
tênis, playground, piscina para adultos e crianças, clube com pista de dança, praças arborizadas
e capela ecumênica.

Figura 75 - Residencial Ouro Verde, o primeiro loteamento fechado implantado em Arapiraca. (A) antiga
guarita de acesso; (B) piscina na área de lazer; (C) capela ecumênica; (D) residência; (E) vista a partir de
imagem de satélite de março/2019

Fonte: [Link] Fonte: [Link]

Fonte: [Link] Fonte: [Link]


184

Fonte: Google Earth [adaptado pelo autor]

Em 2010, o município abrigava nove RHFs. Em setembro de 2019, trinta e oito RHFs
já estavam implantados em Arapiraca, sendo que os RHFs Villa de la Roche e Araville Alfa
são condomínios horizontais. Considerando os outros trinta e seis, apenas três RHFs dispunham
de autorização de fechamento junto à Prefeitura Municipal, em setembro de 2019: o Residencial
Eloisio Lopes66, o Residencial Riviera do Lago e o Residencial Jardins Perucaba II. Os demais
RHFs estavam em situação irregular.
Os RHFs implantados em Arapiraca são muito heterogêneos, apresentando variações
em função do padrão do empreendimento. Para evitar a comparação entre residenciais muito
diferentes, foi realizado uma classificação dos empreendimentos, de modo a agrupar aqueles
que apresentam características semelhantes. Os critérios adotados para classificar os RHFs em
Arapiraca foram o tamanho médio do lote, o acesso principal, área de lazer, valor dos imóveis
(a preços de julho de 2021) e desenho urbano do loteamento. Dos 38 RHFs encontrados no
levantamento, o estudo classificatório contemplou aqueles cujos dados estavam completos,
conformando um conjunto de 32 residenciais, apresentados no Quadro 4 e mapeados na Figura
76.

66
Esse RHF não entrou no estudo classificatório em razão da incompletude dos dados encontrados.
185

Quadro 4 - RHFs implantados em Arapiraca entre 2007 e 2019, classificados em grupos.


ANO NOME DO SITUAÇÃO DE UNID. ÁREA AREA MED AREA
GR* PROPRIETÁRIO BAIRRO
APROV RESIDENCIAL FECHAMENTO LOTE RESID (m²) LOTES (m²) TOTAL (m²)
2011 1. Aroeiras Irregular Engenharq Ltda Massaranduba 624 81.036,60 129,87 125.043,69
2011 2. Cerejeiras Irregular Construtora Massaranduba Ltda Massaranduba 491 64.934,21 132,25 106.050,03
1 2014 3. Jardim Alto Irregular Uninvest Construções e Incorporações Ltda Sen. Arnon de Melo 130 17.986,97 138,36 32.723,89
2008 4. Belo Jardim Irregular EngenhArq Ltda Boa Vista 265 34.560,00 130,42 65.241,00
2010 5. Bem Viver Irregular SOCIPAR - Construir Construção Incorp. Ltda Boa Vista 625 84.332,65 134,93 152.814,23
2016 6. Jardim das Bromélias Irregular EngenhArq Ltda Bom Sucesso 103 17.028,58 165,33 27.099,09
2009 7. Colibri Irregular Construtora Massaranduba Ltda Massaranduba 232 38.659,50 166,64 57.728,50
2016 8. Taquari Irregular EngenhArq Ltda Planalto 88 14.561,31 165,47 24.082,45
2012 9. Alto Jardim Irregular Const. e Imobiliária Ouro Verde Ltda Sen. Arnon de Melo 520 76.540,06 147,19 145.200,00
2 2011 10. Monte Sinai Irregular JD Construtora Ltda Canafístula 217 41.499,48 191,24 75.683,29
2014 11. Canafístula Irregular Uninvest Construções e Incorporações Ltda Canafístula 603 82.762,75 137,25 146.000,00
2014 12. João Lopes Irregular Odaizo Barbosa Lopes e Cia Ltda João Paulo II 495 76.980,05 155,52 160.938,30
2011 13. Dona Carmélia Irregular Engenharq Ltda Boa Vista 73 11.770,70 161,24 24.055,00
2014 14. Pedra Azul Irregular José Ailton do Nascimento Guaribas 230 37.001,80 160,88 68.000,00
2015 15. Pedro Tertuliano Irregular Construtora Massaranduba Ltda Massaranduba 305 61.360,45 201,18 111.710,81
2009 16. Portal do Sol Irregular Construir Const. e Incorporação Ltda Sen. Arnon de Melo 36 8.831,50 245,32 12.474,75
3 2016 17. Recanto Real Irregular M F Construção Ltda Sen. Nilo Coelho 214 34.702,25 162,16 58.276,41
2019 18. Jardins Perucaba II Acesso Controlado Jardins Perucaba II Empreend. Imob. Ltda Zélia Barbosa Rocha 549 147.254,16 268,22 249.453,60
2019 19. Lorenzo Bernini Irregular Construcenter Eireli São Luiz 256 60.810,75 237,54 93.516,88
2008 20. Altaville Residence Irregular Solo Incorporações Ltda Canafístula 170 66.969,85 393,94 113.829,00
2014 21. Araville Alfa Condomínio Maceió Invest Consultoria e Construção Ltda Fazenda Pimenteira 175 86.460,12 494,06 136.137,00
2013 22. Center Park Irregular José Tenório de Menezes Júnior Canafístula 74 24.282,15 328,14 37.145,16
4 2010 23. Parc Ville Irregular Construtora Marinho e Empreend. SPE - Ltda São Luiz 74 18.085,00 244,39 29.768,04
2014 24. Riviera do Lago Acesso Controlado Parque das Águas Ltda Zélia Barbosa Rocha 501 182.754,40 364,78 484.680,19
2014 25. Jardins Perucaba I Irregular Jardins Perucaba Emp. Imob. Ltda - SPE Zélia Barbosa Rocha 447 146.453,42 327,64 244.768,84
2015 26. San Lorenzo Irregular Elineuza Barbosa Leite Menezes Canafístula 394 103.984,00 263,92 159.353,00
2012 27. Sierra Irregular Incorp. Alamedas Ltda Sen. Arnon de Melo 398 189.843,48 476,99 340.584,19
2007 28. Ouro Verde III** Irregular Uninvest Construções e Incorporações Ltda Sen. Arnon de Melo 212 97.747,12 461,07 147.078,99
2010 29. Morumbi Irregular Incorp. Alamedas Ltda Brasiliana 17 6.739,50 396,44 10.419,26
5
2010 30. Eldorado Irregular Eldorado Empreend. Imobiliários Ltda Baixa Grande 101 33.044,79 327,18 50.899,93
2013 31. Villa De La Roche Condomínio De La Roche Emp. Ltda Canafístula 59 23.748,31 402,51 36.300,00
2013 32. Reserva da Perucaba Irregular Urbis Perucaba Empreend. SPE- Ltda Zélia Barbosa Rocha 207 132.960,92 642,32 221.222,53
(*) Grupos resultantes do estudo classificatório dos RHFs.
(**) Os dados referentes ao Residencial Ouro Verde, disponibilizados pela SEDUMA, só contemplam a fase três do empreendimento.
Fonte: SEDUMA, GeoArapiraca e CASAL, 2020.
186

Figura 76 – Arapiraca: malha urbana, em 2019. Localização dos RHFs, conforme o estudo classificatório

Elaboração: Júlio Cesar dos Santos e Rafael Rust Neves


187

No Grupo 1 foram classificados os RHFs que contêm lotes com tamanho médio
variando entre 130,00 e 140,00 m² de área. São os residenciais fechados de padrão mais simples
implantados na cidade. O acesso se resume a uma pequena guarita sem cobertura sobre os
portões. As áreas de lazer oferecem, em geral, áreas ajardinadas, uma piscina pequena e um
salão de festas. Nesses RHFs, as casas são entregues construídas junto com o empreendimento.
O tipo padrão é a casa térrea, com área construída de, aproximadamente, 50 metros quadrados
com valor de venda variando dentre 90 mil e 135 mil reais. Uma vez adquirida a casa e, passado
o prazo de garantia do imóvel, os proprietários realizam alterações. A predominância quase
absoluta do muro frontal, com mais de 2,0 metros de altura, bloqueando o acesso à casa só é
observada nos RHFs desse grupo, não diferenciando do que se observa em loteamentos abertos.
Em termos de desenho urbano, o parcelamento se assemelha a de um conjunto habitacional
padrão, com extensas vias em linha reta e grandes quadras retangulares com poucas variações.
O RHF Aroeiras, exemplificado nas fotografias, foi construído em área contígua ao Conjunto
Habitacional N. S. Aparecida, separado pelo muro. A leitura da área por meio da imagem de
satélite permite observar que, em termos de desenho urbano, não há diferenças entre eles. No
grupo 1 foram classificados os RHFs Aroeiras (Figura 77), Belo Jardim, Bem Viver, Cerejeira
e Jardim Alto.

Figura 77 - Residencial Aroeiras, exemplo de RHF do Grupo 1. Guarita, área de lazer, tipos residenciais,
vista por imagem de satélite de março/2019.

Fonte: O autor (2020) Fonte: O autor (2018)


188

Fonte: O autor (2018) Fonte: O autor (2020)

Campus
da UFAL

Fonte: Google Earth, [adaptado pelo autor]

No Grupo 2 foram classificados os RHFs em que o tamanho médio do lote variou entre
aproximadamente 135,00 e 190,00 m² de área. O acesso conta com a guarita e uma pequena
cobertura sobre os portões. A entrada de moradores e visitantes, geralmente, não é separada. A
área de lazer dispõe de uma piscina mais ampla e um salão de festas mais confortável do que
as instalações do grupo anterior. Nesse tipo de RHF, alguns empreendimentos são entregues
com as casas já construídas, obedecendo padrões preestabelecidos, enquanto outros apresentam
possibilidades de variação entre as opções de casa térrea ou sobrado. Nesse grupo, parte dos
residenciais não permitem muros frontais bloqueando as casas, enquanto em outra parte, são
observadas casas com muros frontais tanto de meia-altura quanto maiores que 2,00 metros. O
valor de venda das casas variou, aproximadamente, entre 135 mil e 175 mil reais. Quanto ao
desenho urbano, não apresenta diferenças substanciais em relação ao Grupo 1. Nessa categoria
estão classificados os residenciais Canafístula, Colibri, Dona Carmélia, Alto Jardim (Figura
78), Jardim das Bromélias, João Lopes, Pedra Azul, Taquari e Monte Sinai.
189

Figura 78 - Residencial Alto Jardim, exemplo de RHF do grupo 2. Guarita, área de lazer, tipos residenciais,
vista por imagem de satélite de março/2019.

Fonte: O autor (2020) Fonte: [Link]

Fonte: [Link] Fonte: [Link]

Fonte: Google Earth


190

No Grupo 3 foram reunidos os RHFs que apresentaram tamanho médio do lote variando
entre 160,00 e 270 m² de área. Neste tipo, o acesso conta com a guarita, um jardim e um pórtico
que serve como cobertura sobre os portões, com faixas separadas para moradores e visitantes.
Esse elemento arquitetônico confere certa imponência, diferenciando dos grupos anteriores,
sendo constitutivo dos acessos dos RHFs dos grupos de maior padrão. As áreas de lazer contam,
geralmente, com mais de uma piscina, salão de festas, praça ajardinada com parquinho infantil,
e podem incluir quadra esportiva ou minicampo de futebol. As casas são construídas de modo
exclusivo, sem padrões preestabelecidos de planta e fachada. O valor de venda das casas variou
entre 175 mil a 350 mil reais, aproximadamente. As casas térreas predominam sobre os
sobrados. Quanto ao desenho urbano, o traçado geral não difere muito em relação aos grupos 1
e 2, mas os empreendimentos já contam com ruas sem saída e as quadras são mais largas em
razão da maior profundidade dos lotes. No grupo 3 foram reunidos os RHFs Pedro Tertuliano
(Figura 79), Recanto Real, Jardins Perucaba II, Portal do Sol e Lorenzo Bernini.

Figura 79 - Residencial Petro Tertuliano, exemplo de RHF do grupo 3. Guarita, área de lazer, tipos
residenciais, vista por imagem de satélite de março/2019.

Fonte: O autor (2020) Fonte: O autor (2020)

Fonte: O autor (2020) Fonte: O autor (2020)


191

Fonte: Google Earth [adaptado pelo autor]

No Grupo 4 estão contemplados os RHFs em que o tamanho médio do lote ficou na


faixa entre 230,00 e 500,00 m² de área. O acesso é composto pela guarita, jardim frontal, um
pórtico ornamentado cobrindo o portão – que nesse tipo de RHF é eletrônico – e faixas
separadas para moradores e visitantes. A maioria conta com área de lazer que as aproximam de
um clube social, com mais de uma piscina, amplo salão de festas, quadra esportiva, minicampo
de futebol, academia de ginástica, sala de jogos e outras amenidades. O tipo de casa guarda
semelhanças com o grupo anterior, mas aqui as residências do tipo sobrado dividem o espaço
do residencial com as casas térreas. O valor de venda das casas varia entre, aproximadamente,
350 mil e 800 mil reais. Nessa categoria estão os residenciais San Lorenzo (Figura 80), Altaville
Residence, Araville Alfa, Jardins Perucaba I, Parc Ville, Center Park e Riviera do Lago.

Figura 80 - Residencial San Lorenzo, exemplo de RHF do grupo 4. Guarita, área de lazer, tipos residenciais,
vista por imagem de satélite de março/2019.

Fonte: O autor (2020) Fonte: [Link]


192

Fonte: [Link] Fonte: [Link]

Fonte: Google Earth

No Grupo 5 estão os residenciais de padrão mais elevado implantados na cidade. Nesse


tipo estão reunidos os RHFs com tamanho médio do lote entre 320,00 e 650,00 m² de área. Os
acessos são imponentes com guarita, jardim frontal, um pórtico amplo para cobrir toda a área
de portões que abriga entradas segregadas para moradores e visitantes, incluindo, em alguns
casos, uma terceira faixa destinada a entregas e serviços. A área de lazer oferece piscinas com
hidromassagem, amplo salão de festas, academia, quadra poliesportiva, quadra de tênis,
minicampo de futebol, e a capela ecumênica, presente em todos os RHFs classificados nesse
grupo. Alguns contam com sauna, piscinas aquecidas, spas e espaços para trabalho
compartilhado. Um deles conta com uma trilha ecológica de 800 metros de extensão e um
heliponto para pouso diurno e noturno, regularizado pela Anac. O tipo residencial é
predominantemente o sobrado, atingindo valores entre 800 mil e 4 milhões de reais,
193

aproximadamente. O traçado urbano, projetado por arquitetos reconhecidos no mercado


imobiliário alagoano, já apresenta vias curvilíneas e ruas sem saída em quantidade maior que
os grupos anteriores. Nesse grupo estão classificados os residenciais Sierra (Figura 81),
Eldorado, Morumbi, Villa De La Roche, Ouro Verde III e Reserva Perucaba.

Figura 81 - Residencial Sierra, exemplo de RHF do grupo 5. Guarita, área de lazer, tipos residenciais, vista
panorâmica.

Fonte: O autor (2020) Fonte: [Link]

Fonte: [Link] Fonte: [Link]


194

Fonte: [Link]

Foi possível constatar que os residenciais fechados estão localizados em 13 dos 41


bairros da cidade. Os bairros Baixa Grande, Brasiliana, João Paulo II, Planalto, São Luiz e Sen.
Nilo Coelho abrigam, cada um, 1 residencial fechado. O bairro Bom Sucesso abriga dois
residenciais fechados e os bairros Boa Vista e Guaribas, 3 RHFs, cada um. Os bairros que
abrigam o maior número de residenciais fechados e também os maiores empreendimentos em
termos de área ocupada são o Zélia Barbosa Rocha, onde se localiza o “Bairro Planejado”,
abrigando 4 residenciais fechados; os bairros Massaranduba e Sen. Arnon de Mello, com 5
empreendimentos cada. O bairro Canafístula abriga o maior número desses empreendimentos,
totalizando 8 residenciais fechados, de diferentes padrões.
O vetor sudoeste da cidade apresenta um contraste bem marcado de diferenciação
socioespacial. O bairro Zélia Barbosa Rocha teve um surto de expansão com a implantação de
grandes RHFs às margens do Lago da Perucaba, após a intervenção que urbanizou parte da orla,
levada a cabo pela Prefeitura Municipal.
Os residenciais Reserva da Perucaba (2013), Jardins Perucaba I, e Jardins Perucaba II
compõem o empreendimento “Perucaba Bairro Planejado”, de inciativa da empresa Urbis
Perucaba Empreendimentos SPE Ltda. Os três residenciais dispõem de 1.203 lotes e ocupa uma
área total de 71,5 hectares, controlando o acesso a 28,9 hectares de áreas públicas (Figura 82).
O Residencial Reserva da Perucaba, aprovado em 2013, dispõe de 207 lotes e uma área
total de 221,22 mil metros quadrados, com tamanho médio do lote igual a 642 metros
quadrados. O empreendimento tem como público-alvo os segmentos de maior renda,
oferecendo amenidades como piscinas adulto e infantil, piscina com hidromassagem aquecida,
195

deck seco e molhado, quatro espaços gourmets, playground para crianças e bebês,
brinquedoteca, salão para jogos, salão de festas, academia, pista de caminhada, campo de
futebol, quadra poliesportiva, quadra de tênis, quadra de areia, capela ecumênica, sauna, spa
com banheira aquecida e cromoterapia e mirante par ao lago67.

Figura 82 - Perucaba Bairro Planejado. (A) Pórtico de acesso, (B) totem, (C) vista do Lago da Perucaba e
do entorno a partir de imagem de satélite (março/2019) e (D) maquete geral.

Fonte: O autor (2018) Fonte: O autor (2018)

Res. Riviera do Lago Urbanização da Orla

Área Universitária

Jardins Perucaba II
Reserva Perucaba Vila dos Pescadores
Jardins Perucaba I

Fonte: Google Earth [adaptado pelo autor]

67
Disponível em: [Link] Acesso em: 08 jun. 2019.
196

Fonte: O autor (2018)

O Residencial Jardins Perucaba I foi aprovado em 2014, dispõe de 447 lotes e uma área
total de 244,77 mil metros quadrados, com tamanho médio do lote igual a 327,64 metros
quadrados. Esse produto imobiliário tem como público-alvo a classe média, oferecendo
equipamentos e serviços tais como salão de festas, brinquedoteca, academia, salão de jogos,
estacionamento para visitantes, piscina com raia/ borda infinita/ deck molhado, piscina infantil,
quadra de futebol society sênior, quadra de areia, quadra poliesportiva, quadra de tênis, além
de espaço mulher, espaço de trabalho compartilhado, vista para o lago, quatro espaços gourmet
e gazebos68.
O Residencial Jardins Perucaba II, aprovado em 2019, dispõe de 549 lotes e uma área
total de 249,00 mil metros quadrados, com tamanho médio do lote igual a 268 metros
quadrados. O empreendimento oferece além, do lote, uma modalidade de residência em
sobrados geminados. O empreendimento tem como público-alvo segmentos de renda média e
oferece como equipamentos e serviços: dois salões de festas, brinquedoteca, espaço academia,
academia externo, pista de corrida, salão de jogos, estacionamento para visitantes, piscina com
raia, borda infinita e deck molhado, piscina infantil, deck para mesas e jardim de sol, espaços
praça de alimentação, quadra poliesportiva, campo society, streetball e quadra de squash69.

68
Disponível em: [Link] Acesso em: 22 jun. 2020.
69
Disponível em: [Link] Acesso em: 22 jun. 2020.
197

O Residencial Riviera do Lago, também localizado nas margens do Lago da Perucaba,


foi aprovado em 2014, mas não faz parte do Perucaba Bairro Planejado. A incorporação do
empreendimento envolveu agentes locais e de outras unidades da federação: o empresário local
José Alexandre dos Santos, fundador e presidente do Grupo Coringa Industrias Reunidas; a
Damha Urbanizadora Construtora Ltda, com sede em Presidente Prudente-SP; e a Terral
Incorporadora, com sede em Goiânia. A Damha Urbanizadora atua em âmbito nacional, no
ramo de implantação de residenciais fechados. A construtora tem empreendimentos instalados
em 20 cidades – a maioria de médio porte –, distribuídas em oito estados.
Numa pequena área às margens do lago, está localizada a Vila dos Pescadores, uma
ocupação datada de final dos anos 1960. Com a valorização da área e a implantação do
complexo de residenciais fechados, a Vila dos Pescadores passou a ser ameaçada de remoção
(Figura 83).
O processo de implantação do Perucaba Bairro Planejado transcorreu no mesmo período
em que o parque implantado pelo poder público se deteriorava. Enquanto os equipamentos de
lazer e praças privatizadas eram implantados pelo capital imobiliário na orla oeste do lago, para
os residentes e proprietários de lotes; os equipamentos culturais e esportivos, instalados no
espaço público na orla leste, se deterioravam e perdiam atratividade.
Esse cenário é sintomático do processo de transformação que a cidade está atravessando
nas duas últimas décadas, desde a chegada dos residenciais fechados: o espaço público, de uso
coletivo, é menosprezado e abandonado e o espaço privativo, de uso exclusivista, é
sobrevalorizado e requisitado. As duas margens do lago expressavam duas concepções de
cidade e de planejamento urbano, a decadência observada em uma margem e a opulência
observada na outra indicava qual das duas concepções está triunfando. No segundo semestre de
2021 foram iniciadas as obras de revitalização da orla do Lago pela administração municipal 70.

70
Disponível em: [Link]
mapa-turistico-do-nordeste/. Acesso em: 20 nov. 2021.
198

Figura 83 - Vista área do Lago da Perucaba e seu entorno. (1) Vila dos Pescadores; Conjuntos Habitacionais financiados pelo Programa Minha Casa, Minha Vida:
(2) Residencial Brisa do Lago e (3) Residencial Vale do Perucaba; (4) Intervenção urbana realizada pela Prefeitura; (5) Planetário e Casa da Ciência; (6) Empresarial
Zona Sul (loteamento fechado para uso corporativo); (7) Unimed Metropolitana do Agreste; (8) Residencial (fechado) Riviera do Lago; Perucaba Bairro Planejado:
(9) Residencial (fechado) Reserva Perucaba, (10) Residencial (fechado) Jardins Perucaba I e (11) Jardins (fechado) Perucaba II (não registrado na imagem)

2
3

1
10
9
4 11
6
5

Fonte: Renato Alves. Disponível em: [Link] [adaptado pelo autor]


199

5 AUTOSSEGREGAÇÃO EM ARAPIRACA: REGULAÇÃO E OFERTA

Para compreender o processo de implantação de residenciais horizontais fechados


(RHFs) em Arapiraca, do ponto de vista da regulação e da oferta, foram adotados dois
procedimentos metodológicos: a pesquisa documental e a realização de entrevistas. A pesquisa
documental reuniu e analisou, no âmbito da regulação, os principais instrumentos de
planejamento urbano da cidade: o plano diretor e a lei municipal de parcelamento do solo; e no
âmbito da oferta, a catalogação de materiais promocionais dos RHFs divulgados pelas
construtoras.
As entrevistas semiestruturadas realizadas junto aos agentes públicos foi realizada com
o objetivo de compreender como eles avaliam a implantação dos RHFs em Arapiraca-AL, quais
têm sido os desafios que os RHFs impõem ao planejamento urbano, as ações efetivas adotadas
pelo poder público para tratar essa questão e o prognóstico se mantida a tendência de
proliferação dos RHFs na cidade.
As entrevistas junto aos agentes imobiliários foram realizadas adotando um roteiro que
utilizou como referência o instrumento formulado por Barbosa (2014), e foi adaptado
considerando como enfoques direcionadores: tendências do mercado imobiliário local nos
últimos anos, o público-alvo das construtoras para os RHFs, os perfis de compradores que o
mercado imobiliário almeja, as motivações apresentadas pelos clientes para justificarem suas
escolhas por RHFs, as formas de aquisição de imóveis mais comuns nesse segmento e os
critérios locacionais considerados pelas construtoras/ incorporadoras para implantação desses
empreendimentos.

5.1 Os RHFs, em Arapiraca, do ponto de vista da regulação

O processo de elaboração do Plano Diretor Participativo do Município de Arapiraca


(PDPMA) transcorreu durante o ano de 2005 e foi aprovado em 23 de janeiro 2006 na forma
da Lei Municipal 2.424/2006. As bases para a mobilização e a formulação do plano diretor
foram dadas pela Agenda 21 Local e pelo Fórum de Desenvolvimento Local Integrado e
Sustentável (FDLIS), instituídos pela lei Municipal 2.229/2002, que vinham realizando, desde
sua criação, um debate sobre o desenvolvimento urbano e rural do Município. Em razão disso,
o PDPMA foi financiado pelo fundo nacional ligado ao Ministério do Meio Ambiente,
diferentemente da maioria dos municípios nos quais os planos foram financiados com recursos
200

provenientes do Ministério das Cidades. Deste modo, a tônica ambiental foi um componente
marcante na elaboração desse plano diretor.
Ancorado na Lei Federal 10.257, de 10 de julho de 2001, conhecida como “Estatuto da
Cidade”, o PDPMA adotou como princípios da política urbana do Município: (i) a função social
da cidade; (ii) a função social da propriedade urbana, (iii) a sustentabilidade e; (iv) a gestão
participativa (ARAPIRACA, 2006a).
O princípio da função social da cidade está conceituado no Art. 4º do PDPMA como o
direito à cidade para todos, o que compreende os direitos à terra urbanizada, à moradia, ao
saneamento ambiental, à infraestrutura e serviços públicos, ao transporte coletivo, à mobilidade
e acessibilidade, ao trabalho e ao lazer para as presentes e futuras gerações, para garantir a
inclusão social.
A função social da propriedade urbana teve o seu conteúdo dado pelo Art. 5º, dispondo
que esse princípio se exerce quando o interesse coletivo se sobrepuser ao interesse individual,
de forma que o uso e a ocupação do solo sejam compatíveis com a oferta de infraestrutura,
saneamento, serviços públicos e comunitários, levando em conta o respeito ao direito de
vizinhança, a segurança do patrimônio público e privado, a preservação e recuperação do
ambiente natural e construído, visando à garantia do direito da população excluída e
marginalizada de acesso à terra urbanizada 71.
O princípio da sustentabilidade foi definido no Art. 6º como o “desenvolvimento local
socialmente justo, ambientalmente equilibrado e economicamente viável, visando garantir
qualidade de vida para as presentes e futuras gerações”.
Por fim, a gestão participativa é elucidada no Art. 7º, onde consta que a gestão
democrática da política urbana no município de Arapiraca será participativa, incorporando os
diferentes segmentos da sociedade em sua formulação, execução e acompanhamento. O
parágrafo único desse artigo dispõe como instâncias de gestão participativa: a Conferência
Municipal das Cidades; o Conselho Municipal das Cidades; as audiências e consultas públicas.
No ano seguinte à aprovação do PDPMA, foi concluída a implantação do primeiro RHF
e, a partir dele, houve uma proliferação de empreendimentos dessa natureza na cidade. A
implantação de RHFs na cidade, nos últimos quinze anos, não observou os quatro princípios
anteditos do PDPMA.

71
De acordo com o parágrafo único do Art. 5º, “a propriedade imobiliária cumpre sua função social quando for
utilizada para: (i) a habitação; (ii) as atividades econômicas geradoras de emprego e renda; (iii) a proteção ao meio
ambiente; (iv) a preservação do patrimônio natural (ARAPIRACA, 2006, s/p).
201

A função social da cidade não foi contemplada com a implantação de RHFs na medida
em que a compreensão da cidade pautada por ideais de unidade e universalidade é fragmentada
e o direito à cidade, que deveria ser assegurado a todos, é desfigurado na forma de uma
apropriação exclusivista de determinadas frações, contrariando perspectivas de inclusão social.
Os direitos à moradia digna, à infraestrutura, aos serviços urbanos, à mobilidade, à
acessibilidade e ao lazer, que deveriam ser universalizados, passam a ser reservados àqueles
que dispõem de recursos para deles usufruir. Na lógica do RHF, os direitos são transformados
em privilégios e tais espaços se constituem em ilhas de prosperidade rodeadas por bolsões de
pobreza.
A função social da propriedade urbana também não é atendida pela lógica dos RHFs.
O confinamento de espaços públicos para usufruto exclusivo de moradores enclausurados é a
marca mais evidente da incompatibilidade deste princípio com esta prática, diferindo dos
residenciais fechados verticais que restringem sua ocupação a um lote ou a um conjunto de
lotes. Desse modo, a lógica do RHF assinala a prevalência do interesse individual sobre o
interesse coletivo. A apropriação de grandes áreas servidas de infraestrutura para a implantação
desses empreendimentos impossibilita a edificação de empreendimentos destinados à habitação
de interesse social (HIS) em áreas melhor localizadas. O resultado é a implantação de conjuntos
habitacionais em locais ainda mais distantes das áreas bem equipadas na cidade, negando o
direito da população excluída e marginalizada ao acesso à terra urbanizada.
A lógica dos RHFs debilita o princípio da sustentabilidade em duas dimensões: no
desrespeito ao zoneamento estabelecido pelo plano diretor; e na captura e na conversão da
sustentabilidade ambiental em simulacros nos espaços intramuros. Alguns RHFs foram
implantados em zonas de preservação ambiental e outros oferecem, no seu interior, grutas e
lagos artificiais para usufruto exclusivo dos moradores.
As bases para uma gestão participativa também são dificultadas pela implantação de
RHFs. Esses empreendimentos possibilitam a formação de grupos cuja atuação política tem
caráter introvertido, voltado para os interesses exclusivos dos moradores do residencial,
desconsiderando a população residente no bairro onde está situado.
Outra questão que afeta a gestão democrática guarda relação com o fato de que as
autorizações de fechamento de loteamentos concedidas pelas administrações municipais,
muitas vezes, se convertem numa espécie de terceirização do planejamento e da gestão urbana,
que passam a ser exercidos de forma fragmentada, pelas associações de moradores. Algumas
administrações municipais podem enxergar essa prática como algo vantajoso, uma vez que a
manutenção das vias, praças e algumas infraestruturas passam a ser executadas pelas
202

associações de moradores ou condomínios, resultando em redução de despesas para a prefeitura.


Ao mesmo tempo, a associação fica responsável por fiscalizar a cobrança de impostos
municipais no interior do residencial.
Contudo, essa terceirização incorre em problemas. O princípio da impessoalidade na
administração pública é de fundamental importância para assegurar a fiscalização e a imposição
de penalidades de forma imparcial e visando o bem comum. A transferência dessas
prerrogativas para associações privadas pode resultar em efeitos deletérios na medida em que
essas entidades tendem a não contrariar interesses dos seus associados, comprometendo o
controle da administração pública nesses espaços. Nesse sentido, a população é dividida entre
aqueles que estão sujeitos à fiscalização direta pela administração municipal e aqueles
fiscalizados de forma indireta com a intermediação de entidades associativas. Essa divisão
quebra a isonomia entre os munícipes, criando condições diferenciadas de sujeição ao
cumprimento da legislação que deveria incidir sobre todos, sem distinção.
Janoschka e Glasze (2003) chamaram a atenção para o fato de que as associações de
moradores e os condomínios residenciais tendem a substituir a administração municipal em
múltiplos aspectos, atuando como um poder alternativo ou paralelo. Ainda segundo os autores,
as instâncias decisórias implementadas nesses residenciais fechados não respeitam princípios
democráticos básicos, uma vez que, em muitos deles vigora o modelo de gestão empresarial
fundado na primazia do acionista majoritário: o direito à participação política é condicionado
pela propriedade. Nesse tipo de institucionalidade, um proprietário que detém muitos lotes (via
de regra, o construtor do empreendimento) tem o poder de influenciar mais o resultado das
votações – incluindo a eleição de presidentes de associação ou síndicos – do que aqueles que
possuem apenas o lote com a sua residência. O princípio democrático calcado na relação “um
cidadão, um voto” é desfigurado pela noção “uma propriedade, um voto”. Dessa forma, direitos
políticos e civis são redefinidos em função do poder econômico.
A existência dessas instâncias pouco democráticas foi observada em parte dos
residenciais fechados em Arapiraca e aparece como uma reclamação recorrente nas conversas
entre moradores: a prevalência sistemática dos interesses dos grupos ligados aos construtores,
dada a capacidade que eles têm de influenciar as votações, em razão da concentração de lotes
sob sua posse.
Outro risco para a gestão democrática é que a segregação urbana na escolha da
representação política seja institucionalizada (JANOSCHKA e GLASZE, 2003). Enquanto a
organização político-municipal representada pelas associações de bairros permite certa
heterogeneidade na composição social, quanto a seus presidentes e colaboradores, a
203

organização privatista adotada nos RHFs tende a apresentar um perfil social muito homogêneo
de seus dirigentes. Grandes complexos de residenciais fechados podem reunir um contingente
de moradores de tal magnitude que podem influenciar a escolha de um vereador ou até de um
prefeito para defender seus interesses. O resultado esperado desse processo tende a ser o
aprofundamento da primazia de pautas privatistas e de interesses de grupos econômicos em
detrimento de políticas sociais e dos interesses da maioria (JANOSCHKA e GLASZE, 2003).
Apesar do PDPMA, aprovado em 2006, dispor sobre a criação do Conselho Municipal
da Cidade como instância de gestão participativa, definindo nos Art. 134, 135 e 136 sua
composição, diretrizes para o regimento interno e suas competências, até o presente momento
esse órgão colegiado não foi instalado no município.
A não observância do zoneamento urbano estabelecido pelo PDPMA, no que tange à
oferta de RHFs, pode ser observada em diferentes bairros da cidade (Figura 84).
O caso dos RHFs implantados no bairro Senador Arnon de Melo, disposto no PDPMA
como Zona de Ocupação Dirigida é um exemplo. De acordo com o Art. 66 da Lei 2.424/2006,
que instituiu o PDPMA, as características da Zona de Ocupação Dirigida são: predominância
do uso residencial; ocorrência de uso agrícola; ocupação rarefeita; e vazios na zona de
expansão. No mesmo artigo, consta os seguintes objetivos para essa zona: (i) área para ocupação
restrita; (ii) intensificar a fiscalização; e (iii) conscientização da população para manutenção
desses espaços como melhoria da qualidade de vida. A implantação de três grandes RHFs foi
materializada em um bairro que o PDPMA definiu como área de ocupação restrita.
204

Figura 84 - Localização dos RHFs sobreposta ao Zoneamento Urbano definido pelo PDPMA.

Fonte: Arapiraca, 2006 [adaptado pelo autor]


205

Os bairros Planalto e Canafístula, onde estão implantados RHFs de diferentes padrões,


foram definidos como Zona de Recuperação Urbana no âmbito do PDPMA (Figura 84). O Art.
63 regulamenta essa zona dispondo como características principais (i) predominância do uso
residencial; (ii) alta densidade populacional pontual; (iii) carência de infraestrutura e
equipamentos públicos; e (iv) alta incidência de loteamentos irregulares e núcleos habitacionais
de baixa renda. A Zona de Recuperação Urbana tem como objetivos principais: (i) implantação
de áreas de preservação ambiental; (ii) criação de áreas verdes e de lazer; (iii) proteção do
patrimônio ambiental natural: a) da bacia hidrográfica do Riacho Seco; b) da bacia hidrográfica
do rio Perucaba; (iv) promover a regularização fundiária através de parcerias entre a Prefeitura
e o Registro Imobiliário; (vi) realizar estudos técnicos e científicos para relocação do matadouro
público; e (vii) conscientização da população para manutenção dos espaços públicos como
melhoria da qualidade de vida.
O PDPMA deixa claro que se trata de áreas com deficiência de infraestrutura e
equipamentos públicos, além de concentração de núcleos habitacionais de baixa renda. A
implantação de RHFs nessa zona indica o aprofundamento da segregação socioespacial, pois
eles cercam áreas públicas, oferecem áreas de lazer bem equipadas e infraestrutura avantajada
em locais onde esses equipamentos urbanos estão ausentes.
Outra concentração de RHFs está localizada em áreas que o PDPMA delimitou como
Zona de Reestruturação Urbana (Figura 84) cujas características principais e objetivos foram
estabelecidos pelo Art. 60. Com base nele, as características da Zona de Reestruturação Urbana
são: (i) predominância do uso residencial; (ii) carência de equipamentos públicos; (iii) carência
de acessibilidade e de transporte público coletivo; (iv) incidência de edificações não utilizadas
e terrenos subutilizados ou não utilizados. Os objetivos propostos para essa zona no mesmo
artigo foram: (i) estímulo à ocupação de áreas vazias; (ii) possibilidade de uso habitacional de
interesse social; (iii) implantação de áreas de lazer e de áreas verdes; (iv) proteção do patrimônio
ambiental natural: a) das bacias hidrográficas do Riacho Seco; b) das bacias hidrográficas do
rio Perucaba; e (iv) conscientização da população para manutenção dos espaços públicos como
melhoria da qualidade de vida. Ainda que os RHFs cumpram alguns esses requisitos, eles
permitem o acesso apenas aos moradores.
Nesse caso, a implantação de residenciais fechados também colabora para o
aprofundamento da segregação urbana, tanto em termos de localização – pelos mesmos motivos
destacados para a Zona de Recuperação Urbana –, mas também em termos de circulação, uma
vez que grandes empreendimentos murados obstaculizam a livre circulação, em razão do
fechamento de vias públicas.
206

O PDPMA também não foi considerado quando observa-se a implantação de


residenciais fechados em Zonas Especiais. O entorno do Lago da Perucaba corresponde a área
que o PDPMA elencou como Zona Especial de Interesse Ambiental ZEIA PN A2 e que, de
acordo com o Art. 77, seria uma Zona de Preservação Permanente (Figura 84). A intervenção
urbana na Orla Leste do Lago da Perucaba, levada a cabo pela administração municipal, foi
importante no sentido de descentralizar a oferta de espaços públicos para o lazer urbano, em
um local de fácil acesso para a população residente no bairro Manoel Teles, muito carente de
infraestrutura e serviços urbanos básicos. Contudo, a expansão do perímetro urbano em 2006,
englobando o Lago e seu entorno, sem a atualização do zoneamento estabelecido pelo PDPMA,
resultou na proliferação de RHFs naquela área.
De acordo com o Estatuto da Cidade, os municípios devem realizar a revisão dos seus
planos diretores, pelo menos, a cada 10 anos. Em 2016, houve uma iniciativa de revisão do
plano, com a realização de audiências públicas na Casa da Cultura onde foram abordados os
temas Meio Ambiente, Cultura, Desenvolvimento Social e Econômico, Mobilidade e Uso e
Ocupação do Solo72. Contudo, a revisão do plano diretor não foi aprovada pela Câmara
Municipal e, até o presente momento, passados dezesseis anos desde a sua aprovação, o
PDPMA consubstanciado na lei municipal 2.424/2006 segue vigente.
Outro descumprimento do zoneamento disposto pelo PDPMA diz respeito à instalação
de um residencial fechado sobre uma área delimitada como Zona Especial de Interesse Social
(ZEIS). De acordo com o Art. 76 do PDPMA, as ZEIS são “porções de terra destinadas à
produção de habitação de interesse social e a regularização fundiária” (ARAPIRACA, 2006,
s/p). No parágrafo primeiro do mesmo artigo consta que a ZEIS-C corresponde a vazios
urbanos, privados ou públicos, destinados à habitação de interesse social. Um RHF de padrão
médio-alto foi construído sobre a área delimitada como ZEIS-C3, que conforme menção
anterior, deveria ser reservada à implantação de empreendimentos de habitação de interesse
social (Figura 85). Esse residencial não apareceu nos dados disponibilizados pela Prefeitura
Municipal.

72
Disponível em: [Link]
plano-diretor/. Acesso em: 20 dez. 2021.
207

Figura 85 - Localização dos RHFs, sobreposta às Zonas Especiais definidas pelo PDPMA.

Fonte: Arapiraca (2006) [adaptado pelo autor]


208

Para elucidar como se deu o processo de implantação dos RHFs, sob o ponto de vista da
regulação urbana, foram realizadas entrevistas com agentes públicos municipais. O roteiro de
perguntas foi formulado com os seguintes enfoques direcionadores: a avaliação da implantação
dos residenciais fechados na cidade; os impactos da localização desses empreendimentos no
espaço urbano; os desafios que a implantação dos RHFs impõem ao planejamento urbano; a
irregularidade da maioria desses empreendimentos implantados na cidade; as ações efetivas
adotadas pelo poder público para tratar essa questão; e o prognóstico, se mantida a tendência
de proliferação dos RHFs na cidade. Para preservar o anonimato dos agentes públicos, seus
nomes foram substituídos por iniciais fictícias.
Considerando o primeiro enfoque da entrevista – a avaliação da implantação dos
residenciais fechados na cidade –, a agente pública C.F.Q. relatou que, “foi uma conformação
que foi sendo implantada... na conformação de uma tendência de mercado. Percebeu-se que,
em Arapiraca, se vende mais lotes e casas dentro de um residencial fechado do que em um
loteamento aberto”. A entrevistada complementou que “[...] as pessoas têm a necessidade de
ter esse sentimento de segurança e o mercado percebeu isso”.
A agente pública B.N.Y. ressaltou que, uma vez fechados, os empreendimentos não só
vendem mais lotes, mas o fazem por um preço maior. C.F.Q. complementou afirmando que o
fechamento dos loteamentos amplia o retorno financeiro ao empreendedor e agrega valor ao
empreendimento:
[o loteamento fechado] tem um investimento maior, [...] porque tem a área de lazer.
Eles têm que colocar, para ter o atrativo. Eles têm uma área de lazer que é um
investimento que você não faz em um loteamento [aberto]. Porém, o fato de estar ali
essa área de lazer e os muros, agrega valor, muito valor, por sinal. Então isso tem
sido um dos pontos iniciais, como um atrativo para os loteamentos. Foi assim que o
mercado, eu acho, se conformou.

A oferta da área de lazer é um aspecto importante porque, nos residenciais fechados, ela
é entregue pronta, junto com o restante do empreendimento. Nos loteamentos abertos, por outro
lado, as áreas verdes e institucionais são entregues na forma de parcela reservada de área,
portanto, não contam com ambientes para o lazer e com equipamentos comunitários entregues
de imediato. Seja a praça, a escola ou o posto de saúde, eles serão implantados por iniciativa do
poder público municipal, em prazo não estabelecido.
Além das amenidades oferecidas em termos espaciais, a procura pelo RHF tem um
componente de ordem temporal. O que está em jogo parece ser a disposição do morador em
pagar não apenas pelo que o espaço oferece, mas para usufruir imediatamente do que está sendo
oferecido. O morador que compra um lote em um RHF parece estar pagando para não ter que
209

esperar pela implantação da praça, pelos equipamentos de lazer, pela manutenção das
infraestruturas, dentre outros. Nesse aspecto, a compra de um imóvel em RHF e,
consequentemente, a adesão a uma associação de moradores, consiste numa contratação de um
“plano privado de serviços urbanos” e se assemelha, em alguns aspectos, à contratação de
planos privados de outra natureza. Neste sentido, o morador estaria pagando para não ter que
esperar na fila pelo provimento de infraestrutura por parte da administração municipal.
Contudo, há um contrassenso que tem frustrado as expectativas de muitos moradores
dos RHFs: os limites da capacidade gerencial dos presidentes e das diretorias das associações
de moradores. Enquanto parte dos prestadores de serviços privados dispõe de uma capacidade
gerencial profissional e centralizada, as associações de moradores, encarregadas do provimento
de serviços urbanos privados, são formadas, muitas vezes, pelos próprios moradores, na forma
de um trabalho não-remunerado e desgastante.
A contratação de empresas administradoras de residenciais tem sido realizada por
diversas associações de moradores, em Arapiraca, principalmente pelos residenciais de médio
e alto padrão. A iniciativa tem por justificativa profissionalizar e impessoalizar a gestão dos
residenciais, com maior transparência na organização financeira, através da divulgação dos
balanços contábeis e prestação de contas e na mediação de conflitos entre vizinhos por pessoas
não moradoras do residencial, sendo entendidas como uma instância pretensamente dotada de
maior neutralidade.
Ademais, as áreas de lazer dos RHFs são mais parecidas com clubes sociais do que com
praças públicas, ainda que parte desses empreendimentos fechados contenha esses dois tipos de
espaços coletivos. Elas oferecem, dentre outras amenidades, piscinas e espaços gourmet com
churrasqueiras, ou seja, ambientes que não são ofertados em praças e parques públicos, em
razão das dificuldades de manutenção ou de controle por parte das administrações municipais.
A agente pública F.K.V. avaliou a implantação de RHFs em Arapiraca argumentando a
partir da legislação urbanística:
Bem, esses empreendimentos, como a gente sabe, são regidos pela Lei Federal
6.766/79 e a Lei Municipal [de Parcelamento do Solo] aqui de Arapiraca, a Lei
2.770/11. A lei exige que, nesses empreendimentos, as vias de circulação, as áreas
verdes e equipamentos comunitários sejam de uso público, porém o que a gente
verifica, na realidade, em várias cidades e não só em Arapiraca, é que nesses locais
as áreas verdes e as áreas institucionais não oferecem o serviço ao público, e sim
apenas a quem reside naquele local. Então criou-se a cultura dos condomínios
fechados que [...] é importante, mas, também, precisa de uma regulamentação, o que
carece no município, como em outras cidades.

A entrevistada chama a atenção para a lei federal 6.766/1979 e para a lei municipal
2.770/2011, que regem o parcelamento do solo urbano no Brasil no Município de Arapiraca,
210

respectivamente. A lei federal 13.465/2017 adicionou, no Art. 2º da lei federal 6.766, o


parágrafo 8º, que criou a modalidade de parcelamento do solo conhecida como “loteamento de
acesso controlado”, pois, até então, os loteamentos fechados não encontravam respaldo no
ordenamento jurídico brasileiro, conforme visto no Capítulo 3.
Desse modo, os loteamentos fechados passaram a contar com a possibilidade de
regularização, mas a normativa estabeleceu que o reconhecimento dessa modalidade de
parcelamento urbano depende de regulamentação por ato do poder público municipal,
mencionada pela gente pública F.K.V. no seu relato. Diversos municípios estão no processo de
elaboração desse ato administrativo, inclusive Arapiraca. Foram criadas comissões com a
participação de membros do poder executivo e do poder legislativo com a atribuição de
formular essa norma, com vistas a regulamentar os requisitos para a aprovação dos novos
loteamentos de acesso controlado e regularizar os residenciais fechados existentes sob essa
modalidade.
A lei municipal 2.770, de 19 de outubro de 2011, dispôs sobre o parcelamento do solo
urbano no Município de Arapiraca. O Art. 1º da lei afirma que ela está alinhada com os preceitos
do Plano Diretor Participativo de Arapiraca (lei municipal nº 2.424/2006). De fato, as
referências espaciais estabelecidas no Art. 12 da lei municipal de parcelamento do solo estão
ancoradas no zoneamento urbano estabelecido no âmbito do PDPMA 73. Contudo, ela apresenta
inconsistências que serão explicitadas no decorrer dessa explanação.
O objetivo do parcelamento e da ocupação do solo urbano, de acordo com a lei
municipal 2.770/2011, é “desenvolver as diferentes atividades urbanas, com a concentração
equilibrada destas atividades e de pessoas no Município e, enquanto instrumento de política
pública, estimular e orientar o desenvolvimento urbano, rural e industrial no município,
mediante eficiente, eficaz e efetivo exercício de controle” (ARAPIRACA, 2011, p. 3).
Quanto às áreas públicas, a referida lei municipal dispôs que:

Art. 25. Os espaços livres de uso comum, as vias e praças, as áreas destinadas a
edifícios públicos e outros equipamentos urbanos, constantes do projeto e do
memorial descritivo, não poderão ter sua destinação alterada pelo loteador, desde a
aprovação do loteamento, salvo as hipóteses de caducidade da licença ou desistência
do loteador, sendo, neste caso, observadas as exigências do art. 23 desta Lei.
E ainda,

73
Art. 12. Para fins de Parcelamento de Solo Urbano, serão considerados as seguintes referências espaciais: I –
Vazios urbanos e ZEIS A, B, C conforme Mapa de Zonas Especiais, Prancha 04/11 do Plano Diretor Participativo
Municipal de Arapiraca; II – Perímetro urbano existente excluindo-se dele as áreas discriminadas nos itens A e C;
III – Zona de Ocupação Dirigida criada a partir da ampliação do perímetro Urbano; IV – Ilhas urbanas quando
criadas por lei específica.
211

Art. 26. § 4o Após o registro cartorial, o empreendedor escriturará em nome do


município as áreas públicas: vias, áreas verdes e institucionais.

No corpo propriamente dito da lei – formado por artigos, parágrafos e incisos – não há
menção a empreendimentos fechados. Eles são mencionados como “condomínios fechados”
apenas no final da lista de observações, no segundo quadro do Anexo II, “Requisitos Básicos”:

− Para Condomínios fechados, o percentual reservado a equipamentos comunitários


não poderá ser de uso exclusivo dos condôminos. A área reservada a equipamentos
comunitários é de uso comum a população e será obrigatoriamente doada à prefeitura
municipal de Arapiraca. Essa área não precisará ser em terreno contínuo ao
condomínio contanto que aprovada pela SEDUH.
− Para Condomínios fechados deverá ser prevista uma área única para a coleta de lixo
com acesso na área externa ao condomínio (ARAPIRACA, 2011, p. 14).

Apesar dessa menção, a lei municipal de parcelamento do solo urbano não especificou
o que considera como “condomínio fechado”, até porque não havia até aquela data, nenhum
RHF em Arapiraca com estatuto jurídico de condomínio. Não ficou claro se ela estaria
estabelecendo parâmetros para todos os RHFs ou apenas para os condomínios fechados que
fossem implantados a partir da aprovação da lei. Quando a lei municipal 2.770 foi aprovada,
em 2011, já haviam sido implantados 14 RHFs 74 na cidade. A lei parece estar denominando
como “condomínio fechado” os loteamentos fechados, pois em condomínios de fato e de direito
não haveria “percentual reservado a equipamentos comunitários”, indicando que há certa
confusão conceitual no conteúdo da norma.
Como a lei de parcelamento do solo não reconheceu de forma clara os RHFs, todos
aqueles que foram implantados até a aprovação da lei federal 13.465/2017 estavam em situação
de ilegalidade. Após a vigência da lei antedita, os empreendimentos passaram à situação de
irregularidade e nela permanecerão até que o ato administrativo que regulamenta esses
empreendimentos na forma de loteamentos de acesso controlado seja editado pela
administração municipal.
Para F.K.V., apesar dos problemas decorrentes do fechamento de áreas públicas, a
implantação dos residenciais horizontais é avaliada na cidade de forma positiva, uma vez que
responderiam a uma demanda de parte da população e, ao mesmo tempo, teriam contribuído
para o crescimento da cidade, juntamente com a criação de parques públicos e a implantação

74
Residencial Ouro Verde (2007); Altaville Residence (2008); Residencial Belo Jardim (2008); Residencial
Colibri (2009); Residencial Portal do Sol (2009); Residencial Bem Viver (2010); Residencial Eldorado (2010);
Residencial Morumbi (2010); Residencial Parc Ville (2010); Residencial Aroeiras (2011); Residencial Cerejeira
(2011); Residencial Dona Carmélia (2011); Residencial Eloisio Lopes (2011); Residencial Monte Sinai (2011)
212

do shopping center. No entanto, a agente pública alerta que a proliferação dos RHFs promoveu
uma expansão urbana centrífuga.

Entretanto, apesar dessa constatação, a avaliação desses empreendimentos em


Arapiraca é positiva. De fato, assim, com o crescimento populacional veio a reforma
das principais praças aqui, teve a construção do Bosque [das Arapiracas] e até o
próprio Shopping Center, demonstram o crescimento da cidade. Então a maioria dos
loteamentos são construídos em áreas periféricas da cidade, distantes do Centro,
desse modo, essa implantação difusa gerou um processo de dispersão urbana que fez
com que aumentasse, inclusive, o perímetro urbano. Então, eu vejo como um lado
positivo, entretanto, eu ressalto a importância de regulamentação.

A interpretação da agente pública F.K.V., indicou consonância com a corrente de


juristas que defendem uma legislação que responda às demandas da sociedade em termos de
soluções de moradia.
[...] Foi uma realidade que se construiu, né? Apesar da legislação prever que os
equipamentos fossem de uso público e comunitário, o que a gente vê na realidade é
diferente. Então a lei tem que se coadunar e compactuar com essa realidade. Então
foi até que surgiu, em 2017, a alteração no Código Civil permitindo os loteamentos
de acesso controlado, entretanto, depende de regulamentação do poder público
municipal, que ainda não existe em Arapiraca. Apesar de já ter sido formada uma
comissão para revisar a legislação que, eu acho, em um futuro próximo ocorrerá. É
o que a gente espera, né?

Com base nos relatos das agentes públicas entrevistadas, a implantação dos RHFs foi
uma realidade que se conformou a partir de uma tendência do mercado imobiliário, que viu
como mais vantajosa a venda de terrenos em loteamentos fechados.
O segundo tema da entrevista tratou dos impactos da localização desses
empreendimentos na cidade. O objetivo foi abordar a implantação dos RHFs considerando a
dimensão espacial.
O fechamento de áreas públicas foi entendido pelas entrevistadas como um dos impactos
negativos mais deletérios, principalmente o fechamento de áreas institucionais, que são
destinadas à construção de equipamentos comunitários como escolas, postos de saúde, centros
de assistência social e espaços públicos destinados a esporte, lazer e cultura. A implantação de
RHFs que encerram áreas institucionais dentro dos seus muros, próximos a comunidades
vulneráveis impossibilita o poder público municipal de oferecer equipamentos que promoveria
melhores condições de vida para a população residente naquela comunidade. Sobre os impactos
da localização desses empreendimentos, a agente pública B.N.Y. fez o seguinte relato:

Acho que isso tem sido uma das maiores angústias nossas, aqui. A gente tem visto em
relação à localização, geralmente [os loteamentos fechados são implantados] no
entorno de áreas periféricas e muito pobres. A gente tem alguns exemplos: ali no Frei
Damião [conjunto habitacional que se tornou um assentamento precário] que alguns
conhecem como Valentim, na Canafístula. Inclusive a gente estava fazendo uma visita
lá e a gente viu uma cena muito triste. Tem um condomínio fechado lá em um padrão
213

assim de classe média, ao lado de um conjunto que é de interesse social,


diagnosticado pelo Plano Diretor. [...] A gente estava circulando por lá fazendo uma
visita e a gente viu um menino do lado de fora, provavelmente era um menino da
comunidade, olhando para a área de lazer que estava dentro do condomínio e a gente
tem uma comunidade ali que não tem nada. Eles não têm nada relacionado a lazer e
esporte. Eles não têm nada assim. [...]. E o mais angustiante é saber que aquela área
de lazer está dentro de uma área pública. Então, assim, aquilo era para ser nosso,
né? Com certeza ele [o menino] não sabe disso, ele é uma criança, não sabe que
aquilo dali é uma área pública.

Sobre o caso do Conjunto Habitacional na Canafístula, C.F.Q. complementou: “esse do


Frei Damião, a gente está procurando exatamente um terreno para construir uma creche. Isso
é real! E a área pública está dentro desse condomínio. E aí como é que faz?”
Os relatos indicam como a segregação urbana se apresenta de forma excludente e
perniciosa. O RHF em questão foi implantado em uma área limítrofe ao Conjunto Habitacional
Frei Damião, classificado pelos estudos e planos referentes à habitação social em Arapiraca
como um assentamento precário, com condições inadequadas de infraestrutura e de oferta de
equipamentos comunitários.
A pavimentação da rua que dá acesso ao conjunto e ao RHF é interrompida a partir da
guarita do empreendimento fechado, embora o assentamento urbano continue para além dela
(Figura 86). A diferença no provimento de infraestrutura não se dá somente entre o que é
oferecido dentro dos RHFs em relação ao entorno, mas transborda para o espaço externo. Ao
mesmo tempo, em conversa informal com um ex-proprietário de lotes nesse RHF, a
comercialização dos terrenos e a construção de novas casas nesse empreendimento fechado
estão em ritmo lento e a valorização imobiliária estaria aquém do esperado pelos investidores,
provavelmente, em razão da proximidade com o conjunto habitacional. O preconceito social
estaria frustrando as expectativas de valorização imobiliária por parte de construtores,
investidores e especuladores com a terra urbana.
214

Figura 86 - Justaposição de RHFs e assentamentos precários no Bairro Canafístula. (A) Imagem de Satélite
mostrando a justaposição do RHF do grupo 2 com o Conjunto Habitacional Frei Damião. (B) A justaposição
observada ao res do chão; (C) Quando termina o muro RHF, acaba a pavimentação da via (seta indicativa);
(D) Rua do Conjunto Frei Damião, localizada em frente à (E) Guarita do Residencial.

Fonte: Google Earth [adaptado pelo autor]

Fonte: O autor (2019) Fonte: O autor (2019)

Fonte: O autor (2019) Fonte: O autor (2019)


215

Esta implantação de RHFs em área contígua a assentamento urbano vulnerável, do ponto


de vista social, não é um caso isolado em Arapiraca. Os RHFs estão sendo implantados em
diferentes bairros da cidade, próximos a assentamentos precários onde vive uma população de
baixa renda em condições muito vulneráveis, com acesso muito limitado a serviços urbanos
básicos. Sobre isso, B.N.Y. continua seu relato alertando que:

Até recentemente chegou uma demanda de um condomínio fechado ao lado da


comunidade das Mangabeiras. A gente vê claramente a questão da segregação. Ali no
Quati, também. O Quati é rodeado de condomínios fechados. Ali [...] no
Massaranduba. A gente está nessa discussão da revisão da legislação [...] de tentar
criar uma espécie de proteção, pelo menos no entorno dessas áreas, da proliferação
desses residenciais fechados.

É necessário destacar que a justaposição de espaços residenciais desiguais, em termos


de renda da população residente e de infraestrutura instalada, não se apresenta na cidade de
Arapiraca de forma extremada, com áreas muito carentes próximas de residenciais de alto
padrão. O que se observa são áreas com população residente de baixa renda justapostas a RHFs
destinados à classe média baixa. Essa reflexão é corroborada com a espacialização do Índice
Brasileiro de Privação nos setores censitários de Arapiraca. Em geral, os RHFs dos grupos 1 e
2 estão localizados em setores com status de privação muito alto, enquanto os RHFs dos grupos
3, 4 e 5 estão situados em setores com status de privação médio e alto (Figura 87).

Figura 87 - Arapiraca. Índice Brasileiro de Privação, por setor censitário.

Fonte: Cidacs/Fiocruz Bahia; Censo 2010 [adaptado pelo autor].


216

Além da justaposição do Residencial Canafístula com o Conjunto Habitacional Frei


Damião no bairro Canafístula, há também a justaposição dos Residenciais Colibri, Cerejeira e
Pedro Tertuliano com o Conjunto Habitacional Quati (Figura 88). A prática observada no Bairro
Canafístula se repete no Bairro Massaranduba: a via que dá acesso aos Residenciais Colibri e
Pedro Tertuliano estava75 pavimentada apenas até o trecho que dá acesso à guarita do primeiro
empreendimento. A partir deles, a via prosseguia a solo exposto.

Figura 88 - Justaposição de RHFs e assentamentos precários no Bairro Massaranduba. (A) Imagem de


Satélite mostrando a justaposição dos RHFs Cerejeiras, Colibri e Pedro Tertuliano com o Conjunto
Habitacional Quati e outros assentamentos precários próximos. (B) A justaposição observada ao res do
chão; (C) Depois da guarita do RHF Colibri, acaba a pavimentação da via (seta indicativa); (D) Conjunto
Habitacional Quati, à esquerda, e Residencial Pedro Tertuliano, à direita.

Fonte: Google Earth [adaptado pelo autor]

Fonte: O autor (2020) Fonte: O autor (2020)

75
Em outubro de 2021, a Rua Amélia Nunes Correia, que dá acesso aos Residenciais Colibri e Pedro Tertuliano,
foi pavimentada com paralelepípedos para além da guarita do primeiro residencial, estendendo até a Avenida Pedro
Tertuliano.
217

Fonte: O autor (2020)

Observando ainda o mapa (Figura 85) é possível cogitar que, em alguns bairros, o padrão
do residencial está relacionado à proximidade com assentamentos precários ou áreas de Zona
Especial de Interesse Social (ZEIS). No bairro Senador Arnon de Melo, esse fenômeno é mais
nítido: o padrão dos residenciais diminui à medida que se aproxima da ZEIS, onde está
localizado o Conjunto Mangabeiras (Figura 89).

Figura 89 - Justaposição de RHFs e assentamentos precários no Bairro Senador Arnon de Melo. Imagem
de Satélite mostrando a proximidade de RHFs com o Conjunto Habitacional Mangabeiras.

Fonte: Google Earth [adaptado pelo autor]

Com exceção do Residencial Center Park, nenhum dos RHFs de dos grupos 4 e 5 estão
localizados próximo a ZEIS ou assentamentos precários. Uma explicação possível para isso é
218

que os segmentos de renda média-alta e alta tendem a usar sua prerrogativa de escolha
considerando a inserção urbana do empreendimento. Para esses grupos, bolsões de pobreza são
vistos como áreas perigosas e degradadas. Conforme mencionado anteriormente, preconceitos
de classe tendem a associar de forma automática pobreza e criminalidade, que colocariam em
risco a integridade física de seus familiares e também a valorização do seu imóvel.
A agente pública C.F.Q. complementa o problema da perda de áreas públicas pela
administração municipal em razão do fechamento dessas parcelas pelos RHFs com a seguinte
explanação:
Para você ter noção de como o município está perdendo, a grande maioria desses
loteamentos hoje tem áreas públicas internas. Então eu tenho área institucional e
áreas verdes internas, né? Áreas verdes eu acredito que pela característica dela que
é de manter a natureza, pode até se permitir, em parte, né? Mas área institucional
para gente já é mais complicado, porque são áreas que a gente precisa em função de
equipamentos ou investir na comunidade ao redor que já não tem muito investimento,
como a grande maioria deles se conforma. Entendeu? Então existe aí um problema
social. Uma perda também. Por quê? Porque eu tenho muitos loteamentos perto de
áreas que são vulneráveis ou de interesse social ou áreas mais pobres.

Parece haver, por parte da agente pública C.F.Q., a compreensão de que o fechamento
de áreas verdes pelos RHFs é menos danoso para a gestão municipal do que o enclausuramento
de áreas institucionais. Contudo, o contato com a natureza, na forma de recursos hídricos e
matas ciliares, acaba por ser limitado ao usufruto dos moradores dos residenciais fechados. As
áreas verdes e áreas de preservação permanente deveriam receber tratamento similar às áreas
institucionais.
A agente pública C.F.Q. ainda chamou a atenção para a questão da segregação sob a
ótica do preço da terra: “hoje, a terra vale muito dinheiro. A terra ‘enricou’ e deixou pessoas
milionárias em Arapiraca. [...]. É complicado você regular a terra quando ela virou uma
mina”. A segregação é espacializada na medida em que o preço da terra é muito baixo em áreas
próximas a comunidades vulneráveis, motivado pelo preconceito social que criminaliza as
pessoas residentes nesses assentamentos ou pela proximidade com localizações indesejáveis
como lixões, terrenos alagadiços, e outras situações de risco.
O baixo preço dessa terra se torna atrativo para o setor imobiliário que tentará maximizar
o lucro com a venda de lotes implantando um RHF equipado com muros, área de lazer,
segurança privada e outros espaços e serviços, almejando como público-alvo segmentos de
média renda. O resultado desse processo é a segregação urbana, marcada pela justaposição
espacial de grupos com baixa e média rendas e posição social diferentes, a qual Manuel Castells
(2009, p. 250) definiu como: “a organização do espaço em zonas de forte homogeneidade social
219

interna e com intensa disparidade social entre elas, sendo essa disparidade compreendida não
só em termos de diferença, como também de hierarquia”. Sobre essa questão, C.F.Q. apontou:

Eu não tenho dúvida que [...] a construção de loteamentos perto de comunidades


vulneráveis está muito voltada, simplesmente, para o preço da terra. Isso é
basicamente o preço da terra. No caso do [Conjunto] Mangabeiras, é uma área
próxima ao lixão, um terreno muito barato e uma área próximo ao Mangabeiras que
é uma comunidade vulnerável. Então, assim, [o empreendedor pensa] “pera aí, eu
quero otimizar essa área, tem um preço baixo e vou fazer com que ela supervalorize”.
É basicamente isso: especulação imobiliária.

Para a agente pública F.K.V., a questão dos residenciais fechados deve ser pensada na
dimensão da oferta de moradia digna, com o provimento de serviços urbanos de qualidade para
a população de baixa renda, seja dentro dos RHFs destinados a esse segmento, seja para as
comunidades vulneráveis localizadas no entorno desses empreendimentos:

Eu entendo que, em relação aos impactos, tem sido justamente na realização, na


construção de condições dignas de moradia, uma vez que nem sempre são
condomínios de luxo, em localizações nobres da cidade. Não, às vezes, a maioria são
em lugares periféricos. Então, o poder público municipal deve oferecer escolas nas
proximidades, postos de saúde, o transporte público com acesso àquelas localidades.
O principal impacto é justamente isso: o poder público municipal chegar
implementando condições dignas de moradia nesses locais. Em muitos casos, são
apenas alguns serviços, apenas dentro dos loteamentos, onde fora são famílias muito
carentes, muito pobres. Então eu acho que os principais impactos são, justamente,
proporcionar condições dignas de moradia.

Os impactos da implantação dos RHFs em termos de localização afetam o


desenvolvimento urbano na medida em que produzem uma segregação socioespacial mais
contundente na justaposição de residenciais de médio padrão com conjuntos habitacionais e
assentamentos precários. Os RHFs encerram nos seus interiores áreas públicas que deveriam
estar à disposição do município para a implantação de equipamentos comunitários necessários
ao atendimento das comunidades carentes.
No que tange aos desafios que os RHFs impõem ao planejamento urbano, a agente
pública F.K.V. respondeu que esse questionamento complementa a pergunta anterior, sobre o
impacto da localização dos RHFs: “os desafios consistem exatamente em atender a população
com itens mínimos que garantam uma vida digna como água, escola, postos de saúde,
transporte público, lazer”. Ela exemplificou que “às vezes chegam as pessoas reclamando, [...]
algum loteamento que não oferece alguma condição mínima, então as pessoas que residem
naquele local comparecem até a gestão e reclamam”. Em resposta à demanda apresentada pelo
cidadão, F.K.V. mencionou que o órgão público agiu no sentido de acionar o loteador,
obrigando-o a cumprir com as suas obrigações. F.K.V. prosseguiu pontuando que “os desafios
são justamente esses: tentar compactuar este uso para a população com o crescimento da
220

cidade, que seja de uma forma satisfatória. Tudo bem, é importante, a cidade precisa crescer,
mas tem que crescer junto com as condições mínimas de moradia.”
Para C.F.Q.., os desafios ao planejamento urbano estão relacionados com os impactos
que os RHFs podem gerar para a segurança pública e a mobilidade urbana. Eu acredito que a
segurança, hoje, por exemplo [...] andar ao redor de um muro enorme daquele ali é um ponto
extremamente vulnerável, não só para mulher, quanto para homem, quanto para qualquer um.
Aqui, seria possível constatar um paradoxo: os muros que delimitam os RHFs promoveriam,
ao mesmo tempo, a sensação de segurança para quem está dentro e a sensação de insegurança
para quem está fora. Não obstante, o muro do residencial pode gerar insegurança para os
próprios moradores do empreendimento quando ele faz divisa com os fundos das casas. Foram
noticiadas ocorrências de furtos em casas que apresentavam essa condição76.
A entrevistada se lembrou de um evento em que ela participou, que contou com a
presença de policiais militares: “eu lembro que na época [...] o pessoal da Polícia Militar
queria participar [...] de alguma forma na aprovação desses loteamentos, porque eram nesses
pontos que tinha mais problemas de vulnerabilidade de segurança pública, entendeu?” A
iniciativa dos policiais atesta que a insegurança não é apenas sentida, mas real, nas áreas
adjacentes aos muros do lado de fora dos residenciais, comprovada pela frequência de
ocorrências policiais nesses logradouros.
A opacidade dos muros compromete a possibilidade da vigilância ativa pela vizinhança,
tornando o entorno dos residenciais fechados locais ermos e pouco seguros (Figura 90).
Ademais, os muros também são utilizados indevidamente para comportar instalações de água e
esgoto doméstico das residências internas ao empreendimento fechado, com o objetivo de
lançar parte das águas servidas na sarjeta da via pública.

76
SETE SEGUNDOS. Terreno abandonado facilita roubos em residencial de Arapiraca. Disponível em:
[Link]
residencial-de-arapiraca. Acesso em: 16 jan. 2022.
221

Figura 90 - (A) Via pública margeada pelos muros dos residenciais Cerejeira, à esquerda, e Pedro Tertuliano, à
direita; (B) Encanamentos expostos no muro do RHF, lançando esgoto doméstico na sarjeta da via pública.

Fonte: O autor (2020) Fonte: O autor (2020)

Do ponto de vista da mobilidade urbana, C.F.Q. relatou:

Eu acho que os desafios para o planejamento, hoje, estão muito voltados também
para a mobilidade, [...] o problema que tem esse monte de paredões, aqui do outro
lado da rodovia, de condomínios bloqueando acesso de loteamentos pequenos. [...]
Não existe um sistema viário que eu consiga chegar do [bairro] Arnon de Mello até
o [bairro] Planalto. Não tem! Por que? Porque eu tenho vários muros bloqueando
isso. [...] Hoje eu só consigo praticamente fazer esse acesso aos bairros do outro lado
pelas rodovias, isso gera um problema de trânsito, isso gera um problema de
acidentes de trânsito, de saúde pública, entendeu? Então, assim, é uma bola de neve
que vai só crescendo. [...] A gente, hoje não tem no município uma legislação... na
verdade só tem uma legislação para condomínio, mas não tem uma legislação que
diga: “você não pode bloquear vias”, “você vai ter que deixar uma via ao redor”.

De fato, os extensos muros dos RHFs geram problemas na medida em que restringem a
mobilidade e a acessibilidade a determinadas áreas da cidade. Considerando este aspecto, é
possível apontar outro paradoxo: os RHFs se valem das vias dos loteamentos abertos para
viabilizar seus acessos, interligando suas guaritas às vias de trânsito rápido. No vetor norte da
cidade isso é evidente, como bem explicitou a entrevistada. Os residenciais estão bloqueando a
interligação entre os bairros, induzindo o trafego na direção das rodovias, onde a velocidade é
maior e, consequentemente, há mais risco de acidentes.
Este problema também está presente em outras áreas da cidade. C.F.Q. relatou o caso
de um bairro no vetor sul da cidade: “por exemplo, no [bairro] São Luís tem um loteamento
[fechado] que corta o bairro onde tem vias interligando o bairro... ele passou o muro e cortou
o bairro”. E B.N.Y. complementou: “e levou todo mundo para a via principal”.
As grandes áreas fechadas por extensos muros e com acessos controlados prejudicam a
livre circulação, aumentando distâncias e tempos de deslocamento na cidade. Esses obstáculos
à mobilidade afetam principalmente a população de baixa renda, que depende do transporte
público, pois os ônibus trafegam com velocidade média reduzida em função das múltiplas
222

paradas para embarque e desembarque. Em visita de campo no Bairro Massaranduba foi


observado que o transporte público precisava fazer longos contornos ao redor dos muros e
quando fazia a última parada, ele ia até o ponto de ônibus ao lado da guarita do Residencial
Cerejeira e depois retornava, sendo que essa via continua na direção do interior do bairro, onde
residem famílias de baixa renda.
Outro desafio ao planejamento urbano, mencionado pelas agentes públicas, diz respeito
à forma como o setor imobiliário estaria operando: os empreendedores entram com o pedido de
aprovação do loteamento como um empreendimento convencional, aberto e, logo que é
aprovado, o loteamento é fechado com muros. F.K.V. afirmou que a atuação dos
empreendedores contrariou a aprovação dos projetos emitida pela prefeitura: “na realidade,
surgiram como loteamentos, entretanto, eles muram e viram verdadeiros residenciais
fechados”.
C.F.Q. fez ressalvas sobre a atuação do setor imobiliário local, comparando com
construtoras e incorporadoras que vem de outras regiões do país: “o mercado imobiliário aqui
é muito formado por pessoas que são daqui. São pessoas que são simples, que tem um espírito
empreendedor, mas não tem o planejamento urbano como uma via de regra que elas entendam.
Isso, para a gente, também é um problema.”
A agente pública B.N.Y. apontou que o mercado imobiliário em Arapiraca se
transformou no decorrer do tempo. Analisando o caso de um loteamento antigo, que comporta
hoje o Corredor Verde Dom Constantino, B.N.Y. lamentou: “[...] para você ver como a gente
[retrocedeu]. A gente vê um parcelamento ali que conformou mais ou menos o Bairro Novo
Horizonte. Você tem uma área verde que começa no [Bairro] Santa Esmeralda e vai até o
[Bairro] Itapoã: quase dois quilômetros de área verde. Aquilo ali foi fruto de um parcelamento
bem sucedido, eu posso dizer assim”. Sobre esse mesmo parcelamento, C.F.Q. acrescentou: “o
empreendedor era daqui, então, antigamente, no mercado, de certa forma, não existia essa
concorrência tão grande que existe hoje e essa corrida louca pelo capital”.
Ainda no tocante aos desafios para o planejamento urbano, C.F.Q. elencou elementos
que ela entendeu como importantes para que a cidade seja devidamente planejada, como um
sistema viário bem hierarquizado, a arborização urbana e a descentralização urbana com
fortalecimento de novos núcleos com oferta de comércio e serviços:

criar um sistema de arruamento para que sejam eixos viários, sejam anéis viários no
município de Arapiraca, criar uma rede de interligação de transporte público, criar
vias que eu consiga ter um transporte público adequado ou que priorize aquilo ali no
futuro, o que quer que seja, ou tentar criar uma malha urbana mais arborizada nas
áreas mais distantes, criar pontos de comércio, que a gente vê muito isso, essa
223

convergência para o Centro, criar lugares que sejam também pontos de comércio
distribuídos para que nem todo mundo vá para o Centro.

O papel que Arapiraca desempenha como cidade média na rede urbana regional
apareceu na fala da agente pública C.F.Q. como um aspecto importante, que precisa ser
considerado no âmbito do planejamento urbano. De acordo com ela, os impactos da polarização
que Arapiraca exerce sobre os municípios vizinhos seriam mais claramente “sentidos” no centro
da cidade:
Arapiraca tem uma convergência humana muito grande. A gente é um ponto de
atração de comércio e de serviços. Então a gente tem que começar a trabalhar isso.
Quando se fala em criar áreas comerciais disseminadas, meu Deus, é como se...
mexeu no comércio, pronto, vai quebrar o comércio e não é assim. Tanto é que hoje
está funcionando assim, o comércio está funcionando em pontos deslocados, a gente
já tem estudos de corredores mistos, são corredores que têm residências, mas são
pontos que têm muito comércio. [...]Eu acredito que hoje o Centro é mais para as
pessoas de fora do que para o povo de Arapiraca, porque o povo de Arapiraca sabe
que no bairro Baixa Grande eu tenho um comércio que consegue me atender e “eu
vou ao Centro em casos pontuais”; “que eu vou na Boa Vista e tem um comércio que
consegue me atender nas minhas necessidades diárias”, sem precisar ir para o
Centro... o Centro mesmo. E aí o Centro se transforma...

Outro desafio para o planejamento urbano está na questão da oferta dos serviços
públicos urbanos dentro de RHFs administrados por associação de moradores. De acordo com
o entendimento das agentes públicas, se o residencial é fechado, a coleta de lixo deve ser
realizada em um único ponto, de modo que o caminhão de limpeza urbana não adentre o
loteamento. Alguns empreendedores não observaram essa questão quando decidiram fechar o
loteamento. A agente B.N.Y. exemplificou com o caso de um loteamento aberto que foi fechado
sem a anuência da administração: “está com um problema gigante agora com a coleta de lixo,
porque ele não tem espaço adequado para fazer, para que o caminhão de lixo faça essa coleta
pelo lado externo, né? Porque a briga pelos serviços públicos é essa: o caminhão não tem que
entrar, né? Você tem que ter um espaço e tal ali fora para você botar o seu lixo para o
caminhão.”
O serviço de iluminação pública tem sido outro foco de conflitos. B.N.Y. alertou que os
moradores dos residenciais fechados estão cobrando a substituição de lâmpadas queimadas no
interior dos RHFs: “o pessoal está cobrando da prefeitura que faça essa troca das lâmpadas.”
C.F.Q. esclareceu os motivos que justificaram a negativa da prefeitura em fazer a troca das
lâmpadas:
A Cosip [Contribuição para o Custeio do Serviço de Iluminação Pública] é uma taxa
geral, você está pagando porque, de alguma forma, por onde você passa no
município, você está sendo beneficiado e não só na sua porta. Mas pelo fato de você
estar em um lugar fechado, você está sendo beneficiado pelo município e tem várias
outras pessoas pagando sem ser, aí sim está errado!
224

Sobre essa questão do pagamento pela energia consumida na iluminação pública, a


agente pública F.K.V. argumentou na mesma direção:

É justo que a energia seja paga por todos os arapiraquenses sendo que só está sendo
usufruído por quem mora naqueles residenciais? São alguns dos questionamentos. A
coleta de lixo, também. [...] porque, atualmente, quem está arcando com essas
despesas de iluminação, coleta de lixo é o município. Em contrapartida, as áreas
públicas que seriam de acesso a qualquer munícipe são limitadas a quem reside
naqueles condomínios, o que não é justo, a meu ver. Daí denota a importância da
regulamentação.

No segundo semestre de 2021, a prefeitura municipal deixou de fazer a substituição das


lâmpadas queimadas dos postes localizados dentro dos RHFs na cidade. Essa ação gerou
indignação por parte dos moradores dos RHFs sob a alegação de que eles pagam a taxa de
iluminação pública, mas não estariam sendo contemplados com a oferta adequada do serviço.
Esse embate explicita uma dimensão discutível da visão dos moradores dos RHFs sobre
os serviços urbanos. A contribuição de iluminação pública é paga por todos os residentes no
município para usufruírem da iluminação pública em toda a cidade, e não apenas para ter
iluminada à frente da sua residência ou as quadras próximas77. A partir dessa compreensão, se
o RHF não é acessado por todos residentes na cidade, por que os não-moradores dos RHFs
teriam que pagar pela iluminação daquele local?
A vivência do morador do RHF sob a lógica “pago por isso e tenho o direito de usufruir
agora” pode enviesar sua visão de mundo, induzindo uma compreensão fragmentária e
exclusivista dos serviços urbanos. Alguns RHFs já absorveram a atribuição de adquirir suas
próprias lâmpadas e realizar a troca nos postes localizados no interior do loteamento.
Os problemas que os RHFs fechados impõem ao serviço prestado pelo corpo de
bombeiros também foram colocados pelas agentes públicas. Parte dos RHFs tem guaritas com
entradas muito estreitas e rebaixadas, o que dificulta a passagem do caminhão de bombeiros.
B.N.Y. mencionou que os bombeiros alertaram a administração municipal sobre a dificuldade
que eles têm para passar com o caminhão pelas guaritas dos RHFs. Ela exemplificou que
ocorreu um incêndio numa casa localizada dentro de um RHF de alto padrão, e o caminhão de
bombeiros não conseguiu passar pela guarita. Por sorte, o RHF contava com um acesso
secundário, destinado à passagem dos caminhões que carregavam materiais de construção. O
caminhão de bombeiros só conseguiu adentrar o RHF por esse portão secundário. De acordo
com B.N.Y.:

77
No âmbito do direito, é pacífico o entendimento de que o serviço de iluminação pública é uti universi, indivisível,
de fruição coletiva, usufruídos por todos de forma indistinta. Disponível em: [Link]
servicos-uti-singuli-uti-universi-e-concessoes-de-servico-publico/. Acesso em: 21 nov. 2021.
225

Imagina o problema! A gente ter um grande incêndio em um negócio desses, como é


que faz? Eles não têm hidrantes, eles não fazem previsão para isso, entendeu? Então
isso é um problema sério! É porque nunca aconteceu uma coisa grandiosa assim [...]
como na boate Kiss, né? Aconteceu um grande incêndio e agora as boates todas têm
que se regularizar [...]. Quando acontecer alguma coisa muito séria, pronto, aí vão
lembrar dessas coisas. Mais um problema.

Quanto aos desafios ao planejamento urbano relacionados com a segurança, uma


possibilidade seria a oferta de lotes no espaço externo ao empreendimento de modo a evitar que
as residências internas “deem as costas” para a via pública. Deste modo, o muro ficaria
posicionado no limite dos fundos do lote interno ao residencial com os fundos do lote externo
ao mesmo. Outro ponto que poderia assegurar maior sensação de segurança no ambiente
externo seria estabelecer uma taxa de permeabilidade visual mínima para o fechamento.
Considerando a importância do acesso do caminhão do Corpo de Bombeiros ao interior dos
RHFs, é recomendável rever as dimensões das guaritas ou providenciar um acesso secundário
para essa finalidade.
Dentre os desafios que os RHFs impõem ao planejamento urbano e à gestão, foi
solicitado que as agentes públicas explanassem mais sobre a questão da legislação urbanística.
B.N.Y. abordou o problema dos limites da lei de parcelamento do solo aprovada em 2011,
ponderando:
É engraçado porque algumas coisas a gente foi procurar até numa lei de 70 [da
década de 1970] que foi a primeira lei de parcelamento do solo do município. [...]
Quanto foi feita a lei de 2011, ela não revogou a de 1970 [...] essa lei ainda está
vigente, mesmo ela tendo sido escrita manualmente, a gente não tem nem ela
[digitada ou datilografada] [...] Mas é engraçado, porque ela, em alguns pontos, é
muito mais completa do que a de 2011.

A agente pública C.F.Q. também fez suas considerações sobre a legislação urbanística
municipal vigente apontando os limites que ela apresenta e comparando com outras cidades
localizadas na Região Nordeste:

A nossa legislação está obsoleta. Eu acho que ela já nasceu obsoleta. Eu digo isso
porque quando eu vou analisar legislações que são anteriores a ela e de cidades com
o porte de Arapiraca... você vai olhar a legislação de Campina Grande, você vai
andar em Campina Grande, poxa Campina Grande é feita de vias largas, entendeu?
Então, assim, você percebe que Arapiraca parou no tempo. Se você for em Juazeiro
do Norte, meu Deus, eu fico impressionada como você vê claramente a evolução de
uma cidade. [...] porque tem vias largas, transporte público, vias para transporte
público, vias com canteiros, vias arborizadas, vias largas, vias que dão acesso para
lugares que estão crescendo. Aqui em Arapiraca a gente não consegue visualizar isso.
Em qualquer lugar que você for você vai ver um emaranhado de vias.

As observações de C.F.Q. recaem sobre a seção da lei municipal 2.770/2011 que


estabelece as larguras mínimas das vias, de acordo com a hierarquia. De acordo com essa lei,
as vias do tipo I, locais ou coletoras sem tráfego de ônibus, devem comportar largura entre os
226

lotes lindeiros de, no mínimo, 10,00 m de largura, sendo 7,00 m para a pista de rolamento e
1,50 m de passeio em cada lado. Para C.F.Q. vias com largura de 10 metros são insuficientes
para prover calçadas adequadas e uma pista de rolamento que possibilite a fluição do tráfego.
Sobre o Plano Diretor, C.F.Q. lamentou o quanto a necessidade de revisão está
impactando na atuação da administração municipal em termos de ordenamento e controle do
crescimento urbano: “a gente aqui, em termos de legislação, está defasado [...]. O Plano Diretor
[...] está tão obsoleto, os mapas, que tem hora que você vai questionar o cara e a cidade já
cresceu tanto para aquelas áreas que você perdeu aquele tempo ali.” O mapa apresentado na
Figura 91 indica que os RHFs estão sendo implantados nas áreas de expansão urbana não
regulamentadas pelo Plano Diretor, uma vez que a Lei 2.770/2011 e a Lei 3.238/2016
expandiram o perímetro urbano sem atualizar o zoneamento estabelecido pelo plano.
227

Figura 91 - Arapiraca. Sobreposição da malha urbana em 2006 (ano da aprovação do Plano Diretor), com
malha urbana em 2019 e a localização dos RHFs.

Fontes: indicadas na legenda do mapa.


228

C.F.Q. prosseguiu pontuando sobre o problema da defasagem da legislação:


Há muitos anos a gente vem sempre questionando [...] a gente sempre ficou
esperando [a revisão do] o plano diretor para que depois viessem [as leis], naquele
sistema de hierarquia, só que está chegando um ponto que a coisa está ficando aqui
tão exacerbada para a gente, já está tão massacrante que para a gente é melhor que
se tenha uma [lei] que bloqueie de fato algumas ações nesse sentido do que chegar e
ficar sempre esperando uma coisa que é muito maior.

O atraso na revisão do plano diretor, na atualização da lei de parcelamento do solo e no


fortalecimento do setor de fiscalização, cujos efeitos perniciosos para o planejamento urbano
foram relatados pelas agentes públicas, admite a interpretação de que essas inações não são
despropositadas. A obsolescência dos instrumentos de planejamento, incluindo a legislação
urbanística, pode ser entendida como útil ao setor imobiliário na medida em que não impõe
restrições à lógica do livre mercado. Desse modo, o enfraquecimento (via defasagem) dos
instrumentos de regulação do solo urbano opera como uma “inação em forma de ação” ou
“indecisão como estratégia calculada” impossibilitando os técnicos de atuarem à contento na
regulação do espaço urbano.
As agentes públicas C.F.Q. e B.N.Y. convergiram no sentido de que quando a lei
apresenta limites para balizar tomadas de decisão, elas operam com o que chamam de fator
técnico, balizando suas recomendações e análises nas normas técnicas que definem os
parâmetros de qualidade arquitetônica e urbanística. Nessa direção, C.F.Q. relata: “é o que eu
digo, quando não tem legislação, a gente vai para o fator técnico”.
As declarações das agentes públicas indicam que a obsolescência da lei de parcelamento
do solo e a desatualização do plano diretor fazem com que a atuação da gestão pública seja
pautada por ações de “contenção de danos”, com recomendações de natureza técnica para a
realização dos ajustes nos projetos dos empreendimentos: “enquanto a gente não tem esse
cenário ideal de revisão, a gente está tentando trabalhar coisas que a gente sabe que pode
contribuir para pelo menos minimizar o impacto quem tem sido gerado nas comunidades”.
C.F.Q. ponderou nessa mesma direção: “a gente vai fazendo esse tipo de coisa que eu acho que
vai pegando assim um senso social [...] tentando pegar do empreendedor e de quem venha
aqui, defender que ele consiga enxergar isso”. Sobre a legislação urbanística, C.F.Q. arrematou
afirmando que “a legislação, para a gente, [...] é ainda o nosso arcabouço, ela é a nossa defesa,
a nossa base de sustentação, mas para a dinâmica da cidade, hoje, ela se perdeu totalmente”.
Outro aspecto relatado pelas agentes públicas foi a necessidade de investir no
fortalecimento, na conscientização sobre a importância e na qualificação do setor de
fiscalização. Para B.N.Y., “a gente tem um problema sério que é mais administrativo no sentido
da formação dos próprios fiscais [...]. São pessoas de nível médio que, muitas vezes [...] não
229

conseguem ter essa visão de cidade, que aquilo pode gerar um impacto. [...] São pouquíssimos
e, muitas vezes, aprenderam no perrengue”. A fala de C.F.Q. convergiu com B.N.Y. nesse
sentido: “são poucos [fiscais] que tem essa visão mais urbanística. Isso não se cria assim, né?
Ele aprendeu no senso comum, de perceber que, de alguma forma, aquilo prejudicava a
população. [...]. C.F.Q. argumentou no sentido de que é preciso exigir uma formação maior
dos candidatos nos concursos para fiscal:

Porque a gente sabe que o pessoal passa no concurso como fiscal, mas ele pode ser
fiscal de posturas, do desenvolvimento urbano, do serviço econômico. Para a gente,
eu já tenho batido nessa tecla tem um tempo, a coisa só vai funcionar quando os
fiscais forem técnicos: arquitetos, engenheiros e tal. [...] esse empoderamento como
fiscal para eles quando não é técnico é muito difícil porque o cara [o empreendedor]
vem rebater você e ele sabe que você não é... [...] e ele chega para você e diz “sim, e
o que é que você sabe? Como é que você sabe?” A gente aqui é arquiteta e é o tempo
todo questionada, quanto à nossa formação, que “vocês não sabem de nada”, “vocês
não sabem disso”. A gente vive sempre nesse embate pessoal.

As agentes públicas C.F.Q. e B.N.Y. convergiram também na reflexão de que está


faltando uma atuação mais consciente e ética por parte dos profissionais que estão atuando
como projetistas de loteamentos. De acordo com C.F.Q., “os profissionais não se impõem. O
cara diz a quantidade de lotes que quer e não se analisa nem a legislação. Não analisa a
legislação de parcelamento do solo, nem a de código de obras. [...] A ideia de que o arquiteto
tem que pensar na população, isso está se perdendo”. A agente pública B.N.Y. analisou essa
questão de forma correlata: “para mim o pior é a falta de senso e de responsabilidade enquanto
profissional urbanista, sabe? O cliente é leigo, ele diz para o arquiteto que quer ‘quinhentos
mil lotes’ e o arquiteto vai lá e faz. Ele foi o quê? Ele se resumiu a um desenhista, apenas”.
Para enfrentar a defasagem da atualização, faz-se necessário, em primeiro lugar, a
revisão da lei municipal 2.770/2011, que dispõe sobre o parcelamento do solo, e da lei
municipal Lei nº 2.895/2013, que autoriza o município a aprovar projetos de condomínios de
lotes no perímetro urbano.
A revisão da lei 2.770/2011 é necessária para incorporar os avanços no campo da
mobilidade e acessibilidade urbanas e da qualidade urbanística, recomendando-se, por exemplo,
os seguintes parâmetros: (i) para as vias locais, as larguras mínimas entre os lotes lindeiros
devem ser de 13,00 metros para ruas sem saída e 14,00 metros para ruas convencionais, sendo
o mínimo de 2,50 metros para calçadas e pistas de rolamento com 8,00 e 9,00 metros,
respectivamente; (ii) para vias coletoras, 17,00 metros de largura entre os lotes lindeiros, sendo
a largura mínima de 3,5 metros e pista de rolamento com 10 metros; (iii) para as vias arteriais,
manter os parâmetros que constam na lei para as vias tipo III, mas alterar a largura mínima das
calçadas para 5,0 metros.
230

A lei municipal 2.895/2013 que trata dos condomínios de lotes deve ser revisada e
atualizada de modo a contemplar as alterações trazidas pela lei 13.465/2017. A execução das
calçadas, nos termos da lei, prevê a implantação das três faixas (serviço, livre e acesso) mas
define como largura mínima 1,5 metro (ARAPIRACA, 2013), inviabilizando a implantação.
É necessário realizar a revisão do plano diretor municipal com a mesma urgência, com
vistas a atualizar o zoneamento, e, principalmente, regulamentar no ato de aprovação do novo
plano os seguintes instrumentos previstos no Estatuto da Cidade: parcelamento, edificação ou
utilização compulsórios, IPTU progressivo no tempo, desapropriação com pagamento em
títulos da dívida pública, concessão de direito real de uso, concessão de uso especial para fins
de moradia; direito de superfície, direito de preempção, outorga onerosa do direito de construir
e de alteração de uso e transferência do direito de construir.
É recomendável, também, a elaboração e aprovação de uma lei municipal de uso e
ocupação do solo que, de modo conjugado ao zoneamento estabelecido pelo plano diretor,
estabeleça os diferentes usos em razão das particularidades de cada zona e estabeleça
parâmetros urbanísticos referentes às taxas de ocupação, taxas de permeabilidade do solo e
coeficientes de aproveitamento, considerando aspectos urbanísticos, sociais e ambientais.
Além da revisão da legislação, é pertinente o fortalecimento do setor de fiscalização,
concursando fiscais com formação em curso superior, oferecendo cursos de capacitação para
os fiscais de nível médio e melhorando as condições de trabalho. A revisão da legislação sem
o fortalecimento da fiscalização tenderá a ser um trabalho inócuo.
Considerando o quarto enfoque abordado na entrevista – a irregularidade de muitos
RHFs implantados na cidade de Arapiraca – a agente pública C.F.Q. retomou novamente a
questão da venda dos lotes.
Tem a situação da segurança, mas a proliferação deles aqui... pelo menos é o que o
mercado chega para a gente e diz é bem claro: “eu só consigo vender em loteamento
fechado”. As pessoas não querem mais comprar [em loteamento aberto]. E essa coisa
está se conformando tão absurdamente que a gente já chegou a ter aqui propostas de
loteamentos que são abertos, que são loteamentos com vias boas, com vias
pavimentadas, com pintura, com sinalização, todo bonito e o cara não consegue
vender.

A agente pública B.N.Y. exemplificou essa questão, mencionando o caso real de um


empreendimento: “é um loteamento de fato que foi aprovado como aberto, ele tinha toda
conexão com as vias que já existiam e ele murou. Provavelmente porque ele não teve o retorno
financeiro que ele esperava. Então ele fechou. Tipo assim, interrompeu um monte de coisa e
está lá, sem regularizar”.
231

F.K.V. argumentou na mesma direção, apontando que “a maioria dos residenciais


fechados implantados aqui na cidade estão em situação irregular porque, justamente, falta
uma regulamentação do Município de Arapiraca, para esses loteamentos”. A agente pública
prosseguiu, chamando a atenção para lei 13.465: “a partir de 2017, com a alteração no Código
Civil, foi determinado que o poder público municipal deverá regulamentar. Entretanto, no
Município de Arapiraca, ainda não tem a legislação regulamentando o uso desses condomínios
residenciais fechados. Então, por isso, a maioria se encontra em situação irregular.” Do ponto
de vista da ação do poder público municipal, F.K.V. afirmou que:

a gestão está estudando ainda a melhor maneira como irá regulamentar esses
condomínios, porque a partir do momento que tiver o ato do poder público
determinando a regulamentação, será para os condomínios lançados a partir daquele
momento. Aí vem a questão: e os condomínios que já existem? São vários, desde
2007, aí o poder público está estudando a melhor forma de regulamentar esses
condomínios a fim de que se tornem regulares.

O maior desafio dos RHFs, explicitado pelas agentes públicas entrevistadas está em
formular o ato administrativo de regularização, como loteamento de acesso controlado, dos
RHFs já implantados, e de regulamentação dos critérios de aprovação para os loteamentos de
acesso controlados futuros, considerando a lei 13.465/2017. Está em processo a formação de
duas comissões pelo poder público municipal: no âmbito do poder executivo, a comissão tem
o objetivo de formular essa normativa; no âmbito do poder legislativo, outra comissão foi
formada para fiscalizar a implantação de novos empreendimentos fechados na cidade. Segundo
a agente pública B.N.Y.: “o desafio da gente nessa nova questão do loteamento de acesso
controlado, que é o que a gente está tentando trabalhar e discutir para ver se a gente
regulamenta isso no município”.
Para a agente pública F.K.V., a regulamentação dos RHFs no município é urgente e
necessária: “quero ressaltar que é um desafio muito grande para a gestão, justamente porque
falta regulamentação. A gente precisa urgentemente regulamentar, mas é o desafio que vai
desde a discussão acerca da energia que é paga naqueles loteamentos, por exemplo, até a
coleta do lixo [...].”
Sobre a questão da regularização, as agentes públicas ratificaram que existe, em
Arapiraca, diferentes tipos de RHF segmentados por perfis de renda. De acordo com as visões
de C.F.Q. e B.N.Y., a regularização dos empreendimentos existentes, assim como a
regulamentação dos procedimentos de aprovação para os residenciais futuros, deve observar
essa diferenciação social que distingue os moradores de diferentes residenciais.
232

Como é que vai ser [o caso] dos [empreendimentos fechados] de baixo padrão? Como
é que vai ser [o caso] dos [empreendimentos fechados] de classe média baixa. [...]
Existe alguns que são bem populares, de pessoas de baixa renda, excluídas né? Como
é que elas vão contribuir? O município vai deixar de prestar o serviço ali dentro?
Como é que eles vão sobreviver naquele espaço? Vai virar uma favela? A gente vai
deixar de repor a lâmpada? Vai deixar de fazer a coleta de lixo porque eles não têm
condições de criar a lixeira do lado de fora? Então, não é só regularizar, vamos criar
parâmetros.

C.F.Q. chamou a atenção para outro aspecto que requer atenção no tocante à
regularização: os RHFs apresentam lastros temporais distintos em termos de aprovação,
implantação e grau de ocupação (consolidação). Tem RHFs que foram aprovados há mais de
dez anos, estão com baixa ocupação por moradores e ainda são administrados pelas
construtoras. Já outros, foram aprovados há poucos anos, estão praticamente consolidados em
termos de ocupação e são administrados pela associação de moradores. A agente pública
ponderou que:

Até um certo ponto eu achava que o processo de regularização ia partir do


empreendedor e prefeitura. Só que não é [...], tem loteamentos aí que já venderam
tudo, só tem moradores. Como é que agora você vai cobrar do empreendedor que ele
regularize e ele resolva os problemas que anteriormente não foram cobrados? Eu
digo: a gente tem que olhar esses problemas por todos os lados para quando chegar
no meio do processo, não virem com aquela história: “ah vocês vão ter que aprovar
e pronto” e deixar o passivo para outras gestões.

Há ainda as dúvidas sobre como proceder com a regularização dos RHFs com áreas
institucionais encerradas no interior dos muros e quais serão os parâmetros para os
empreendimentos fechados futuros nesse quesito.

Tem ainda o problema das áreas institucionais que é um problema grande para a
gente. Então como é que isso vai se resolver? Como é que hoje eu vou cobrar, vai
fazer demolição ou vai fazer permuta, ou seja, vai me dar uma área numa área
próxima ou numa área... como é que isso vai se desenvolver?

A penúltima pergunta foi: quais têm sido as ações efetivas que a prefeitura tem adotado
para lidar com essa questão dos loteamentos fechados? B.N.Y. argumentou que “a gente pensa
em um modelo ideal mas a gente sabe que a gente não vai chegar lá. A gente está trabalhando
na revisão de uma legislação que ajude a gente minimamente, sabe?” Já C.F.Q. fez uma
distinção entre o trabalho interno, de escritório, realizado pelos técnicos; e o trabalho externo,
de fiscalização, realizado pelos fiscais:

Assim, quando você fala prefeitura, as ações dos técnicos é: no momento em que a
gente percebe que o loteamento aberto ele tem uma conformação de delimitação por
lote, então a gente já evita liberar aquilo ali. A gente vai batendo naquela tecla de
que tem que deixar vias, interligar vias, não pode deixar lotes de costas para a rua...
é nesse sentido, principalmente em áreas que estão em expansão. A gente tem buscado
fatores técnicos para tentar paralisar isso. Sobre a construção do muro, é mais
complicado porque está lá fora. A gente aqui também vivencia, mas não é uma coisa
233

só dos arquitetos, existe uma rede de apoio, mas os meninos notificam, os meninos
embargam e a coisa continua construindo. Então, assim, às vezes vão para forças
maiores, que é utilizar o poder de polícia, que muitas vezes é negligenciado.

Com relação às ações efetivas tomadas pela administração municipal, F.K.V. assinalou
que está havendo a “formação de uma comissão a fim de que essa comissão revise toda a
legislação e crie a legislação faltante, a fim de que esses condomínios possam ser
regulamentados”. E arrematou: “eu acredito que em um futuro próximo ocorrerá e a gente
poderá caminhar para regulamentar a criação dos novos e ajustar a situação dos já criados”.
Conforme F.K.V. [...] “é uma comissão mista, na verdade, a moradia desencadeia vários itens
né, como saúde, educação...”
A última indagação pediu que as agentes públicas fizessem um exercício de prognóstico:
se a proliferação de RHFs continuar como está hoje, como elas vislumbram o futuro de
Arapiraca? Para B.N.Y., “uma colcha de retalhos, toda fatiada”. De acordo com C.F.Q. “a
gente vai ter prejuízos muito grandes com relação ao fator mobilidade e segurança,
principalmente segurança, porque na nossa legislação não existe parâmetro algum para
vedação. Não existe nenhuma obrigatoriedade de transparência. Se o cara quiser botar grade
ele bota, mas se quiser”.
Sobre esse prognóstico, F.K.V. alertou que
[...] se faltar a regulamentação eu acredito que o município, a gestão, poderá perder
o controle dessa dispersão urbana. Daí a gente percebe a importância da
regulamentação o quanto antes. De fato, foi uma mudança que, desde 2007, porque
antes eram loteamentos abertos, permitiam a livre circulação dos moradores, dos
visitantes. Passou de uma cidade com uma intensa relação de vizinhança que eram
aquelas conversas nas calçadas. Por exemplo, na minha infância, tenho várias
lembranças... conversando na calçada, que a gente não vê hoje, né? [risos] E, assim,
se forem só criando os loteamentos [fechados], também vai acabar com essa
aproximação comunitária. É importante ter os loteamentos, foram bem vindos sim,
precisam de regulamentação sim, mas também é importante a vida em vizinhança em
“ruas normais”. Se ficar só fragmentado em áreas isoladas, vai distanciar o convívio
com o espaço público, a diversidade da cidade... Enfim, é o que eu penso.

Como desfecho conclusivo da sua argumentação, C.F.Q. ponderou que


A problemática é grande[...], mas eu acho que tem como resolver na medida do
possível. Eu acredito que vai ter que ter um bom senso de todos, não só da gente. O
município também não pode chegar do dia para a noite e engolir goela abaixo. A
gente vai ter que ter essa parte de regularização, é tanto que a gente está tentando
fazer primeiro a legislação para chegar no ponto de como é que vai ser a
regularização, porque a coisa já está aí feita mesmo e não tem para onde correr. É
preciso ver como vai se dar essa regularização [...].
E arrematou:
A gente fica aqui e fica sendo cobrado o tempo todo para que isso se resolva,
entendeu? [...] A gente só vai aprovar, só vai regularizar, se estiver tudo ok. E aí a
gente vai ter que buscar uma forma mínima possível nos casos críticos que para mim
são os loteamentos de baixa renda, porque sim é um problema, mas os de médio e
alta, para mim não existe negociação, ou eles fazem as coisas do jeito que tem que
ser feito ou não acontece o processo de regularização.
234

É importante que a regularização dos RHFs existentes observe a ocorrência de passivos


ambientais e proponha formas de mitigação, à luz da legislação vigente. A regulamentação dos
loteamentos de acesso controlado (LACs) deve buscar a atualização de parâmetros e conceitos,
de modo a assegurar uma qualidade urbanística afinada às melhores práticas contemporâneas,
pautadas pelo enfrentamento das desigualdades socioespaciais urbanas, pela afirmação da
diversidade e pelo fortalecimento da democracia, que priorize uma cidade para todos.

5.2 Os RHFs, em Arapiraca, do ponto de vista da oferta

Nesse subcapítulo serão apresentados e analisados os resultados das entrevistas


semiestruturadas realizadas com dois agentes do mercado imobiliário com atuação no segmento
dos RHFs, em Arapiraca-AL. Os temas abordados foram: tendências do mercado imobiliário
local nos últimos anos, o público-alvo e os perfis de compradores que o mercado imobiliário
almeja, as motivações apresentadas pelos clientes para justificarem suas escolhas por RHFs; as
formas de aquisição de imóveis mais comuns nesse segmento; e os critérios locacionais
considerados pelas construtoras/ incorporadoras para implantação desses empreendimentos.
Para preservar o anonimato dos agentes imobiliários, seus nomes foram substituídos por iniciais
fictícias.
Quanto às transformações conjunturais, foi perguntado sobre quais foram as tendências
observadas no mercado imobiliário de Arapiraca-AL nos últimos anos, com foco no segmento
dos RHFs. O agente imobiliário S.M.R. iniciou explicando que o aquecimento do mercado teve
início entre os anos de 2007 e 2010, com a ampliação da oferta de crédito.

Um pouquinho antes de 2010, o mercado veio subindo porque aí o crédito imobiliário,


de modo geral, era ausente. Ele começou a subir em 2007, 2008, 2009, 2010, 2011 e
2012. De 2010 a 2012 até o terceiro trimestre de 2013, a gente teve uma grande
ascendência de preços e ofertas, e demandas, de um modo geral. [...] A gente tinha
muitos negócios nesse período. De 2013 para 2014 foi o período aí que a gente teve
uma grande estabilidade política a nível de país, que refletiu também nos números do
mercado imobiliário em geral, em especial de Arapiraca, como acompanhou o país
inteiro.

O entrevistado continuou explanando que, em 2014, o mercado imobiliário em


Arapiraca entrou em estagnação de preços devido à confluência entre instabilidade política no
país, aumento na taxa de juros SELIC resultando em crédito com piores condições de
pagamento e excesso de oferta de empreendimentos na cidade sem estudos prévios de demanda:
235

“de 2014 em diante, aí teve impeachment do governo, [...] e quando se atrela instabilidade
política a alta de juros e insegurança de compra, o mercado imobiliário cai, consequentemente.
O que acontece? Oferta demais, o mercado começou a estagnar, aí muitos preços caíram em
2016 e 2017.”
Para S.M.R., em 2018 o cenário era diferente. Apesar da continuidade da crise política
em razão de um processo de impeachment, o mercado imobiliário interpretou o cenário como
um “retorno à estabilidade”: “em 2018, entrou um novo presidente, independentemente de
partido ou não, mais deu uma chamada estabilidade política. [...] Em 2019, o país já estava
bem, os juros foram baixando, crédito aumentando e o estoque de 2013 e 2014 saindo.”
O último período, o atual, entre os anos de 2020 e 2021, o agente chamou a atenção para
os impactos da pandemia de COVID-19 no mercado imobiliário: “aí veio a pandemia [...] ela
meio que gerou algumas interrogações. No início foi um susto para todos os setores, mas com
os auxílios emergenciais [voltou] a presença do capital de bancos e do governo no mercado
imobiliário massivo”. O agente arrematou a análise declarando que: “2020 e 2021, que é o que
nós estamos, o mercado imobiliário deu uma subida [...] Esse crédito e esse dinheiro no
mercado fizeram com que esse estoque começasse a sair, mas é um estoque de seis anos atrás.”
O entrevistado S.M.R. destacou a importância que a polarização regional exercida por
Arapiraca tem para o mercado imobiliário local:

O mercado imobiliário de Arapiraca, nos últimos dez anos teve a particularidade de


muitas ofertas sem estudo de mercado [...] ficaram ali, estagnadas [...] mas por ser
uma cidade centro, uma cidade muito pujante, por ter circunvizinhas várias cidades
irmãs... Se você fizer um raio de [...] até 100 km, porque o pessoal de Santana [do
Ipanema] compra aqui, ou mora, ou estuda. O pessoal de Palmeira dos Índios,
Batalha, Jacaré dos Homens... isso a nível do sertão. Se você vai sentido Maceió, de
Campo Alegre... de São Miguel [dos Campos] para cá o povo abastece em Arapiraca.
Você tem São Miguel, Campo Alegre, Teotônio, Limoeiro [de Anadia]. Aí tem aqui
Belém, Taquarana, Coité do Nóia. Aí vem para cá, São Sebastião, Feira Grande,
Porto Real [do Colégio], Penedo. Quando você pega esse raio geral, todo esse
pessoal utiliza a cidade como comércio, e consequentemente, alguém vem morar em
Arapiraca para trabalhar, ou vem para [...] a própria universidade federal, vem para
trabalhar numa indústria em Arapiraca, ou no comércio de Arapiraca, ou estudar em
Arapiraca e aí ela termina sendo o centro da região nesse raio de 100 km. Quando
você soma tudo isso, faz com que o mercado ainda respire com essas demandas
vizinhas. Entendeu?

Os papéis desempenhados por Arapiraca como uma cidade média são importantes para
o mercado imobiliário, pois o papel exercido pela cidade no contexto regional a torna um polo
de atração de investimentos e serviços. O agente imobiliário reconhece que quando a demanda
por novos produtos imobiliários estagnou no âmbito interno, formado pela população residente
no município, a demanda externa puxada pela população residente nas cidades circunvizinhas
manteve o mercado imobiliário local com alguma dinamicidade.
236

De acordo com L.W.F., a procura por residenciais fechados seja horizontais ou verticais
indica uma tendência consolidada na cidade. “A gente vem notando, não só em Arapiraca, mas
aqui, especificamente, nesse período há uma procura maior por lotes e casas, unidades em
condomínio. Isso vem se intensificando nos últimos anos.” Ele prosseguiu apontando que:
“hoje, aqui, seja para aluguel ou para compra, cerca de 70 a 80% das pessoas que nos
procuram querem unidades em condomínios seja terreno, seja casa, seja apartamento. Então
existe uma procura maior por condomínios, loteamentos fechados, esse tipo de coisa.”
A segunda pergunta buscou lançar o foco sobre o segmento dos RHFs especificamente.
A questão direcionada aos agentes imobiliários teve por objetivo compreender quais são os
tipos de empreendimentos ofertados e quais são os mais procurados na cidade?
O agente imobiliário S.R.M. salientou o fato de que os “condomínios” são assim
denominados por serem de fato, mas não de direito, indicando que há a necessidade de
regularização desses empreendimentos na cidade, conforme abordado pelas agentes públicas
entrevistadas: os chamados “condomínios residenciais fechados” não são condomínios por lei.
São de fato, mas existe uma brecha e ausência de lei municipal que regularize esses
residenciais fechados e que muita gente intitula como “condomínios residenciais fechados”.
O agente L.W.F. também está ciente da diferenciação entre loteamento fechado e
condomínio. Não existia esse termo “loteamento fechado”, ou era loteamento ou era
condomínio. E aí tem suas particularidades. Hoje existe loteamento de acesso restrito que é o
loteamento fechado. Ou seja, você está ali em um condomínio que na verdade não é um
condomínio, é um loteamento de acesso restrito. Então isso já foi um avanço na lei [...]
De acordo com S.M.R., os residenciais podem ser classificados de acordo com a
infraestrutura que oferecem e o preço das casas e dos terrenos (Figura 92).

Vou começar de cima para baixo, em termos de valores, entendeu? Você parte tipo
assim o alto padrão AAA, que você tem casas [...] de 800 mil para cima, e também os
preços dos terrenos, até casas um pouco maiores de 3 ou 4 milhões [...]. Já uma classe
que é considerada média para médio-alto, [...] nesse perfil médio intermediário, que
eu considero de B até B+++ [...] você tem casas de 280, 300 a 500 mil, em média. E
acima de 500, de 500 a 800 a gente tem [...] outro nicho, também. Mas se considerar
de forma direta e de forma relativa em relação à quantidade de pessoas que
procuram, a gente parte para os residenciais populares, entendeu? Popular que eu
falo, por exemplo, [...] esses residenciais que foram feitos para casas de 95 a 150 mil
[reais], que é Casa Verde Amarela, certo? Todos esses, você vê que tem uma
classificação começando de 100 mil indo até casas de 1 milhão.
237

Figura 92 - Material promocional de RHFs do grupo 4, informando a infraestrutura oferecida, o aparato


de segurança e condições de pagamento.

Fonte: [Link] Fonte: [Link]


[adaptado pelo autor] [adaptado pelo autor]

Em seguida, S.M.R. comentou sobre as estratégias de nivelamento do conteúdo social


via poder aquisitivo nos residenciais por meio do estabelecimento de um padrão de construção
das residências que sirva de referência para os demais moradores. As construtoras que
implantam os RHF mantêm certo controle sobre o padrão das residências oferecendo aos
moradores a “comodidade” de, além de vender o lote, construir a residência considerando um
determinado nível de sofisticação expressos na concepção arquitetônica, incluindo na face
exterior, fachadas expressivas e no interior um padrão de acabamento igualmente sofisticado.

Quando você estabelece ali uma determinada construção inicial naquele


empreendimento, isso ajuda num povoamento uniforme, eu falo não exatamente igual,
mas pelo menos, médio de casas. Tipo assim, se você começa com um padrão inicial
de casas de 500 mil e você tem dez casas de quinhentos mil naquele local, não vai
chegar uma pessoa e fazer uma casa de 100 mil. Às vezes, porque o terreno já não
ajuda, porque já é caro, já tem um valor alto e puxa aquilo para cima,
consequentemente, você... como eu posso dizer, você meio que seleciona determinado
nicho de classe social para aquele local. Isso é fato.

Esse aspecto é chave para discutir o conceito de habitus. A estratégia de seguir o padrão
balizador estabelecido pelas construtoras e incorporadoras para os residenciais fechados de
médio-alto e alto padrão é útil como afirmação de distinção e hierarquia: “minha casa atendeu
(ou superou) o padrão construtivo pré-estabelecido, por isso eu serei aceito aqui”. A opulência
238

e o valor de troca do imóvel é o passaporte para o morador-proprietário entrar no “clube dos


escolhidos”.
O agente imobiliário explica de forma mais detalhada essa relação entre público alvo e
volume de procura: “não é que os mais caros são os mais procurados. Eles são procurados por
determinado nicho de público. Se considerar os mais procurados [...] são os mais populares,
né? Até por conta do acesso fácil em termos de unidades e quantidade”. O material
promocional dos RHFs do grupo 1, geralmente, traz a logomarca do Programa Minha Casa,
Minha Vida (Figura 93).

Figura 93 - Material promocional de RHF do grupo 1, informando a possibilidade de financiamento pelo


Programa Minha Casa, Minha Vida.

Fonte: [Link] [adaptado pelo autor]

Para o agente imobiliário L.W.F., “o mercado é regulado pela oferta e demanda. Como
a demanda por imóveis em condomínios, hoje e há alguns anos já vem sendo maior do que por
imóveis fora, então as empresas, os fornecedores de lotes, de casas e de apartamentos estão
voltando a visão para os condomínios.” O entrevistado ponderou que: “não é que deixaram de
lançar loteamentos, por exemplo, em novos bairros, abertos. Existe, porém esses lotes abertos,
por exemplo, ‘casa na rua’ a gente já vê que é um público que procura um segmento mais
popular. A maioria que procura casas abaixo de 150 mil [reais] [a preços de novembro de
2021] vai ter que comprar casa fora do condomínio [...]”. E ele finalizou: “é de médio padrão
239

para frente, no condomínio, né? E a iniciativa privada regula isso. Se a procura maior é por
condomínio, ela vai se voltando para aquilo ali.”
Nesse relato do agente L.W.F, é importante chamar a atenção para o uso da expressão
“casa na rua” para se referir às moradias localizadas em loteamentos abertos. Essa expressão
também aparece na fala dos moradores quando compararam a moradia anterior, fora do RHF,
como a moradia atual, dentro do residencial: “quando eu morava em casa na rua...”
Geralmente, essa expressão aparece de uma forma depreciativa, às vezes de forma inconsciente,
indicando a rua como espaço desvalorizado em contraponto ao uso do termo “áreas comuns”
quando se referem ao sistema viário interno dos empreendimentos fechados. Esta reflexão
corrobora a argumentação formulada por Maia (2006, p. 166): “nos loteamentos, assim como
nos condomínios fechados, nega-se a rua, elemento basilar para a existência das cidades”
Essa questão é importante, pois retoma o debate sobre como as construtoras e
incorporadoras se esforçam para aproximar, antes os loteamentos fechados e agora os
loteamentos de acesso controlado, do condomínio horizontal fechado, dada sua condição de
exclusividade e status. O condomínio horizontal fechado é o modelo perseguido pelos demais
RHFs. Contudo há uma diferença capital entre eles: as “áreas comuns” são termos utilizados
exclusivamente para denominar espaços de uso coletivo dentro dos condomínios, sejam eles
verticais ou horizontais. Nos loteamentos fechados, ou mesmo na condição de loteamento de
acesso controlado, não há áreas comuns, mas áreas públicas com acesso restrito. Portanto, nos
RHFs que não são condomínios, o sistema viário não é área comum, mas arruamento público,
como nos loteamentos abertos. Nesse sentido, o morador de um RHF que não seja condomínio
continua morando em “casa na rua”, com a particularidade daquela rua ter o acesso restrito às
pessoas que não residem ali.
Além disso, a rua é um espaço público de grande importância para a vida nas cidades,
enaltecida por urbanistas e estudiosos desde os anos 1960 (LYNCH, 1960; JACOBS, 1961),
em razão do potencial que ela tem para estimular a vitalidade urbana, o burburinho, o encontro
casual entre pessoas diferentes, a diversidade de usos e atividades, dentre outros. A rua é um
espaço de resistência, onde pulsa a cidade democrática e política. Ela é a espacialização da
esfera pública, e ao mesmo tempo, um espaço de contestação da cidade homogênea e
exclusivista. Talvez por isso, a rua seja uma espécie de persona non grata para os RHFs. A
questão do habitus ressurge aqui como uma afirmação de distinção por parte dos agentes
imobiliários e dos moradores dos RHFs em termos espaciais: a rua como espaço da barbárie e
as “áreas comuns” como os espaços da ordem.
240

O fechamento por muros não produz mudanças apenas no âmbito do espaço físico, mas
também no campo do simbólico. Ao interromper o sistema viário e impedir a conexão com as
demais ruas do bairro, o fechamento opera também no sentido ideológico, de desconstruir o
sistema viário interno como ruas. Uma vez fechados, as ruas enquanto conceito estão
“impedidas de entrar nos RHFs”. Poucos RHFs em Arapiraca solicitaram a denominação
interna das suas ruas junto à Câmara de Vereadores, via de regra os RHFs de padrão mais
simples78, talvez porque essa iniciativa expõe que não se tratam de áreas comuns por aqueles
que querem afirmá-las como tal, pois uma vez denominadas, a identificação dos logradouros é
precedida pelo termo Rua.
Quanto aos RHFs de alto padrão há duas exceções: o Macroloteamento Sol Nascente 79
e o Condomínio Villa de La Roche. O primeiro refere-se ao complexo de RHFs Perucaba Bairro
Planejado, em que a distância do empreendimento em relação à malha urbana consolidada e a
ideia do empreendimento se afirmar como “bairro” parecem justificar a denominação de ruas
internas como uma ação estratégica. O segundo é a exceção que “confirma a regra”: o
condomínio horizontal de alto padrão Villa De La Roche80. A administração deste condomínio
solicitou à Câmara Municipal a denominação como ruas as áreas comuns de circulação internas.
Eis o paradoxo: onde há ruas, são negadas como se fossem áreas comuns; onde há áreas comuns,
são denominadas como ruas.
Outra informação relevante dada pelo agente imobiliário L.W.F. foi que não tem havido
a procura por casas de alto padrão fora dos RHFs, em Arapiraca, nos últimos anos: “hoje, em
Arapiraca, você não tem mais [...] venda de casa de alto padrão fora de condomínio. Isso não
existe. As casas de alto padrão [fora dos condomínios] que existiam, hoje, os terrenos delas
são usados para fazer empreendimentos verticais ou entram em negócios.” O entrevistado
ressaltou, portanto, que: “você não vê casa acima de 1 milhão sendo vendida na rua para fins
de moradia, é muito difícil. É muito pouco. É mais para o segmento popular.”
A procura por RHFs pode indicar a influência do habitus na escolha de moradia pelos
segmentos de média-alta, média intermediária e média-baixa rendas. Como a classe de renda A
busca mais os RHFs e ela é a referência de status almejado pelas classes B, C e D, ela induz
ideia de que morar em um RHF é necessário para a afirmação de distinção e status, e isso reforça

78
Lei Nº 3138/2015 - Dispõe Sobre Nomes Das Ruas Do Loteamento Belo Jardim; Lei N 3053/2014 Sobre
Denominações Das Ruas Localizadas No Loteamento Monte Sinai; Lei N 2937/2013 - Denominações Das Ruas
Do Residencial Cerejeiras; Lei N 2757/2011 - Dispõe Sobre Denominações Das Ruas Do Loteamento Colibri.
79
Lei nº 3.225/2016 – Dispõe Sobre A Denominação De Cinco Ruas Do Loteamento Macrozoneamento Sol
Nascente
80
Lei N 3064/2014 - Dispõe Sobre Denominações Das Ruas Localizadas No Condomínio Residencial Vila De La
Roche
241

essa tendência. Isso soa como: “estou residindo em um empreendimento análogo àqueles
ondem mora a elite da cidade”. É claro que a oferta de equipamentos de lazer, do aparato de
segurança privada, a infraestrutura urbana instalada e o padrão arquitetônico e construtivo das
residências apresentam diferenças dos RHFs de maior padrão para os de padrão médio e baixo.
Contudo, parece ser a existência do muro e o controle de acesso na guarita os elementos que
permitem a identificação destes com aqueles.
Dando prosseguimento, é importante observar que a opção pelo RHF supõe abrir mão
de uma casa e um quintal mais espaçosos para morar em uma casa menor em um terreno
também de menor dimensão, em razão do preço da terra dentro desses empreendimentos
fechados. Sobre esse aspecto, L.W.F. argumentou da seguinte forma: por exemplo, tem uma
casa de alto padrão em um bairro que toma um quarteirão. Ela está há anos à venda. [...] Você
não tem procura mais por uma casa desse padrão fora de condomínio. [...] teve proposta para
lá, mas o cabra queria o terreno, não queria a casa. Ele queria fazer uma torre. Comparando
esse tipo de imóvel com os que são oferecidos nos RHF, o agente ponderou: Ah, tem uma casa
do mesmo tamanho e com as mesmas características dentro do condomínio? Não, não existe,
[...] pois seria um absurdo de caro, coisa que não cabe aqui. A opção pelos RHFs requer que
se abra mão de casas maiores em terrenos maiores para morar em casas menores em terrenos
menores: troca-se a extensão da área pelas amenidades oferecidas (Figura 94).
242

Figura 94 - Material promocional de um RHF do grupo 4 anunciando o padrão construtivo das residências,
a qualidade do projeto de arquitetura e as condições de pagamento.

Fonte: Digitalização de material impresso [adaptado pelo autor]

Outro enfoque da entrevista tratou dos perfis de moradores que procuram os


empreendimentos fechados. O agente imobiliário S.R.M. iniciou sua explanação abordando a
questão a partir do perfil financeiro. Essa opção não é acidental: um ramo que opera com
243

transações de longo prazo vai procurar minimizar seus riscos, assentada em garantias de
pagamento. Outro item adicionado ao perfil financeiro almejado pelo mercado imobiliário é a
organização ou disciplina financeira. Esse critério de delimitação do público-alvo é importante
na medida em que se estabelece uma linha de corte, afinal, para haver qualquer organização
financeira, é preciso que o cliente disponha de uma determinada renda. De acordo com S.M.R.,
ter a documentação em dia, ter um emprego com certo nível de estabilidade e um rendimento
fixo são condições sine qua non para “fazer parte desse jogo”:

Quando você parte para os residenciais fechados, casas em condomínios e coisas que
envolvem financiamento, é preciso uma organização, acho que é uma palavra
primordial para que a pessoa consiga dar esse passo. [...]ela tem que ter um CPF
organizado, com documentação. Ela precisa ter recebimento mensal, mês a mês, com
certa estabilidade além de tempo probatório de empresa que são os três a quatro
primeiros meses de empresa, com carteira assinada etc.

Para o agente imobiliário L.W.F., a definição do público-alvo das construtoras para os


RHFs adota como linha de corte inferior o segmento com renda média-baixa, diferenciando-o
da população de baixa renda stricto sensu.
Classe média-baixa para cima. Classe baixa, o cara que é pobre realmente, das
classes D e E, primeiro que se ele for comprar a casa, normalmente, será a única
casa que ele vai ter, então ele vai entrar em programa do governo, Minha Casa Minha
Vida, que hoje é o Casa Verde e Amarela, esse tipo de coisa. Essa faixa de preço não
é interessante para a iniciativa privada porque a margem é muito mais apertada.
Então ela prefere sair disso. Os que fazem, vão brigar por preço. É uma faixa
específica. Quem vai para residencial fechado é classe média-baixa para cima, por
conta do valor e por conta também da disposição em viver em condomínio. [...]

Em seguida, o relato do mesmo agente parece afirmar uma dicotomia entre pobre/casa
na rua/barbárie versus classe média/casa no condomínio/civilização. A visão do pobre como
menos esclarecido e menos propenso a viver em sociedade de acordo com regras estabelecidas
deve ser problematizada. Em muitas comunidades de baixa renda há uma vida comunitária
intensa que observa, sim, regras de convívio, estabelecidas não por regimentos internos, mas
por redes de colaboração e maior interação entre vizinhos do que em alguns RHFs, como será
mostrado no próximo capítulo. A ideia presente na fala do agente imobiliário é que RHFs são
espaços civilizadores, com normas que precisam ser seguidas por todos.

Mesmo em um condomínio de casas tem que ter uma norma de convivência. Se você
tem um esclarecimento um pouco menor de convívio em sociedade é mais complicado
você viver em condomínio. Tanto é que, por exemplo, se você for para um condomínio
de casas baratinhas, esses condomínios... há briga em eleição de síndico, a
convivência é muito mais complicada.

Sobre os perfis de ocupação dos clientes que procuram os residenciais, S.M.R. discorreu
que, além dos professores universitários, os profissionais que adquirem lotes ou casas nos RHFs
244

em Arapiraca “são gerentes comerciais, médicos, advogados, contadores, pessoas de modo


geral que têm a sua estabilidade financeira. Ela já tem uma profissão. Ele já tem uma
segurança que a aquela profissão [...] ele poderá pagar parcelas mensais.”
Continuando sobre a questão do perfil, L.W.F também tratou do aspecto financeiro
afirmando que “quem procura [...], quem tem uma condição financeira melhor é um pouco
mais bem planejado financeiramente. Não por ter a condição, mas pelo estudo, então se
organiza um pouco melhor, mas não tenho como opinar sobre isso.”
O mesmo agente imobiliário chamou a atenção para um perfil de cliente que tem
condições financeiras para adquirir imóvel em RHF, mas mesmo assim não o faz. Para o
entrevistado, os clientes que resistem em optar por essa modalidade de moradia teriam um perfil
singular: “essas pessoas que procuram casa fora de condomínio são as pessoas mais antigas
que moram aqui, que não se adaptam a isso ainda, que não tiveram acesso aos benefícios de
morar em condomínio. Isso ainda não entrou na cabeça deles.”
O entrevistado detalhou sua análise afirmando que esse perfil de cliente “acha que a
taxa de condomínio não vale a pena pagar, acha que é caro, que é um ‘aluguel para o resto da
vida’, quando na verdade, se você for fazer a conta dos benefícios que lhe traz ela sai mais
barata do que se você for manter a casa fora do condomínio. Seja com segurança, seja com
limpeza das áreas comuns, do quintal, reparo da frente, esse tipo de coisa.” Ele finalizou,
concluindo que “é aquela pessoa que não se acostuma em condomínio, que não tem um bom
convívio, por exemplo, em apartamento. Porque a pessoa para morar em apartamento tem que
ter uma série de regras de convívio e essas pessoas não procuram por isso. Elas procuram
mais liberdade, esse tipo de coisa... família maior, às vezes.”
Essa questão traz um aspecto interessante para a presente análise. De um lado, a
“sensação de liberdade” é usada como justificativa para a resistir à mudança para os RHFs, por
outro, ela é acionada justamente como motivação que impeliu a ida para esses
empreendimentos. Essa aparente contradição remete à dupla conotação que o uso desse termo
parece suscitar: quem resiste aos RHFs, entende a liberdade como estar menos submetido a
regras de convivência restritivas e dispor de uma propriedade maior, incluindo o quintal; quem
opta pelos RHFs, entende a liberdade como a possibilidade de ir e vir dentro do espaço fechado
com maior sensação de segurança (Figura 95).
245

Figura 95 - Material Promocional de um RHF enaltecendo o conceito de liberdade

Fonte: [Link] [adaptado pelo autor]

Com base no Dicionário Oxford, liberdade pode ser definida como: 1. grau de
independência legítimo que um cidadão, um povo ou uma nação elege como valor supremo,
como ideal; 2. conjunto de direitos reconhecidos ao indivíduo, isoladamente ou em grupo, em
face da autoridade política e perante o Estado; poder que tem o cidadão de exercer a sua vontade
dentro dos limites que lhe faculta a lei; 3. condição daquele que não se acha submetido a
qualquer força constrangedora física ou moral; [...] 7. possibilidade que tem o indivíduo de
exprimir-se de acordo com sua vontade, sua consciência, sua natureza; 8. licença, permissão;
9. atitude que revela confiança, familiaridade; 10. capacidade individual de optar com total
autonomia, mas dentro dos condicionamentos naturais, por meio da qual o ser humano realiza
a sua plena autodeterminação, organizando o mundo que o cerca e satisfazendo suas
necessidades materiais. 11. autonomia de que gozam certos grupos sociais; imunidades,
franquias.
Considerando esses diferentes significados, há aqueles que entendem o exercício da
liberdade como práticas do tipo estratégico, condicionadas por restrições legais arbitradas por
instituições, e outros que o entendem como práticas do tipo tático, atreladas à resistência
contestatória a uma ordem vigente ou a relações de familiaridade. Parece que o exercício da
246

liberdade propugnado pelos moradores de RHFs é do tipo estratégico, enquanto dos moradores
dos loteamentos abertos, são do tipo tático.
Outro ponto relevante: parece que as restrições ao preço da terra no interior dos RHFs
tendem a fazer desaparecer um espaço marcante na paisagem urbana em Arapiraca: o quintal.
Esse espaço, em muitas propriedades na cidade, representam a sobreposição do ambiente rural
sobre o espaço urbano, onde são criados animais tanto de estimação, quanto para o abate e
consumo da família. O desaparecimento dos quintais através da sua substituição por corredores
de fundos ou espaços gourmet nas residências em RHFs parece reforçar o entendimento desses
empreendimentos como locais de requinte e sofisticação e as restrições de espaço aos animais
de estimação também é um componente importante. Os impactos dessa substituição precisam
ser considerados também em relação à permeabilidade do solo.
Uma dimensão fundamental para entender a crescente procura por RHFs são as
motivações apresentadas pelas pessoas. Nesse sentido foi perguntado aos agentes imobiliários
quais são as razões apontadas pelas pessoas que buscam moradia nesses empreendimentos.
O agente imobiliário S.M.R. respondeu essa indagação exemplificando com as situações
que ele chamou “fatores determinantes” que, segundo ele, interferem de forma decisiva no
sentido do morador se mudar de uma residência em loteamento aberto para um residencial
fechado.
Alguns desses itens vou chamar fator determinante para ele ir para o residencial
fechado. Tem pessoa que já me procurou porque já foi assaltado... “ah, não moro
mais fora de condomínio de forma alguma, porque eu fui roubada e eu tenho pavor
de ficar em casa, meu marido viaja” etc. Aí a pessoa quer ir por conta da segurança.
Aí quando eu falo da infraestrutura... “ah minha rua é esburacada, eu moro em um
bairro que há anos e anos é esburacado, e eu para chegar em casa ou sair eu sujo o
meu carro e tudo mais”. Aí, ou seja, infraestrutura externa. Aí tem uns que dizem:
“minha casa, infelizmente, é uma casa mais baixa e entra água quando chove etc.
porque a rua... e o quarto não tem ventilação, não tem janela etc., “quero ir para
uma casa em um condomínio fechado”.

O agente imobiliário L.W.F. também apontou que a segurança é a motivação mais


mencionada pelos clientes que buscam moradia em RHFs. “Se você perguntar qual a vantagem
do condomínio para quem está procurando condomínio o cara diz: segurança. Ponto. Aí depois
vem localização, área de lazer também está entre os primeiros. Eu acho que está resumido a
esses três aí, os principais. E status também, tá? Há hoje quem mora em condomínio porque
ele traz um status. Mas isso está bem mais afastado daqueles três principais que eu falei antes”
(Figura 96).
247

Figura 96 - Material promocional de um RHF do grupo 4 chamando a atenção para a oferta de


infraestruturas de segurança e de lazer

Fonte: [Link] [adaptado pelo autor]

É importante salientar a menção do entrevistado ao status como uma das quatro


motivações, apesar da ressalva de que ele não é tão relatado como os outros três. Essa motivação
guarda relação com o habitus. Embora não apareça de forma explícita nas falas de alguns
moradores, ele está presente nas formas de um ato falho, um preconceito de classe velado, uma
afirmação de distinção em termos de hierarquia, dentre outros. O agente imobiliário também
percebeu isso.
Perguntado se os estratos sociais alegam motivações diferentes, L.W.F. respondeu que
sim. A classe A é muito status, ela vai para os condomínios de luxo da cidade, [...] onde moram
as “pessoas de referência” na sociedade [...]. Fato. Eles já entendem que o condomínio tem
que ter lazer e tem que ter segurança. Isso é o mínimo. Para eles, não é fator decisivo. O status
já decide. A classe média-alta e baixa, leva em consideração a localização, lazer e segurança.
Para eles pesa isso, organização do condomínio e se “cabe no bolso”. E a classe C a mesma
coisa, a segurança... o lazer talvez seja o mais importante para esta.
A busca dos moradores pelos condomínios de luxo onde moram “pessoas de referência
na sociedade” qualifica o status a que o agente imobiliário se referia no comentário anterior. E,
aqui, o habitus emerge novamente: a busca pelo RHF de alto padrão é uma estratégia de
projeção social lastreada em estar próximo daqueles que dispõem de capital simbólico
diferenciado no espaço social local. Não se trata de aproximar apenas de quem tem dinheiro,
mas sobretudo de quem tem poder. Nos materiais promocionais, a afirmação de status é
geralmente associada ao uso de termos como “estilo” e “sofisticação” (Figura 97).
248

Figura 97 - Material Promocional de um RHF exaltando o conceito de qualidade de vida atrelado a estilo.

Fonte: [Link] [adaptado pelo autor]

Ao complementar a resposta dada anteriormente, L.W.F. alertou que as motivações são


similares, mas apresentam graus de importância diferentes em razão do estrato social dos
moradores.
Na verdade, todas as classes esperam a mesma coisa, mas talvez em ordem diferente.
O mais rico espera primeiro o status, depois a segurança, depois o lazer. Aí você pega
a classe média: localização, lazer, status e segurança, talvez. E a classe C primeiro
é o lazer [risos], depois localização e segurança. Todos querem a mesma coisa, só
que em ordem diferente. Tanto é que você pode ver isso nos condomínios. Por
exemplo, a área de lazer de um condomínio é feita e pensada para o público-alvo e
para a quantidade de lotes, de habitantes que vai existir naquele condomínio [...].
Porém, se você pega um condomínio de classe A [...] se você for olhar a quantidade
de área de lazer que tem em relação ao número de lotes, ela é muito menor do que
em um de classe média, proporcionalmente. Os de classe média tem mais áreas de
lazer para “encher os olhos” da pessoa que chega. Já o popular não faz porque senão
fica caro, mas ele bota logo na entrada do condomínio. [...] Se você vai em um
condomínio mais popular ela é bem no começo que é para chamar a atenção. [...]
Então isso diferencia também: a localização dela e a quantidade de coisas que tem,
entendeu? Normalmente, os condomínios de luxo escondem mais a área de lazer,
quanto mais pobre é o condomínio mais aparecida é a área de lazer...quer mostrar
mais. Interessante isso, nunca eu tinha parado para pensar, mas é isso. Tem um caso
ou outro que vai fugir desse padrão, mas a grande maioria... A [localização da] área
de lazer é uma estratégia de venda.
249

Essa análise realizada pelo agente imobiliário L.W.F. foi perspicaz e corroborou os
estudos classificatórios dos RHFs realizados nos EUA (BLAKELY e SNYDER, 1998) e na
América Latina (BORSDORF, 2002), sobre os diferentes tipos de empreendimentos. Os ricos
e famosos tendem a buscar o RHF como um espaço que assegure privacidade. Já os executivos,
da classe média, buscariam afirmar ostentação e requinte, pois almejariam se aproximar dos
padrões de vida das “pessoas de referência”. Os moradores de renda mais baixa buscariam,
acima de tudo, maior segurança, além de terem a classe média como referência de status.
O grau de exposição da área de lazer confere certa ostentação para os moradores que
querem afirmar distinção e prestígio: “eu tenho e você não tem”. Esse aspecto apareceu nas
reflexões de Dunker (2015) aqui mencionadas, quando tratou dos reality shows como a
inscrição cultural cotidiana do condomínio fechado em que “a fala prosaica e o cotidiano
ordinário mostra que qualquer um pode ser celebridade, pois ela é criada pelo olhar, não pelo
objeto. Uma manobra muito interessante, pois permite ao antigo morador do condomínio ter
acesso ao que lhe faltava: o olhar de inveja dos que ficaram de fora” (DUNKER, 2015, p. 69).
Ver os que estão olhando de fora e ser visto dentro, usufruindo de algo exclusivo, é uma
afirmação cabal de distinção.
O agente imobiliário S.M.R. apontou que, além da insatisfação com a infraestrutura
deficiente e a sensação de insegurança, há também a insatisfação com a baixa qualidade das
casas fora dos RHFs, em termos de conforto térmico e lumínico.
O Código de Obras de Arapiraca é uma legislação defasada em termos de definição de
parâmetros. A pressão do mercado imobiliário sobre o poder público municipal impediu que
fosse aprovada uma legislação mais consistente e detalhada, que conferisse melhor qualidade
arquitetônica estabelecendo com precisão, as taxas de ocupação máximas, as taxas de
permeabilidade mínimas, os coeficientes de aproveitamento, além do dimensionamento das
aberturas.
O resultado disso é que a grande maioria das edificações construídas nos loteamentos
abertos são precárias em termos de habitabilidade e salubridade. Esse é um dos fatores que
impulsiona a mudança dos moradores dos loteamentos abertos para RHFs. Os regimentos
internos dos RHFs recomendam parâmetros para a construção que melhoram a qualidade da
implantação das residências. Embora eles sejam em parte desobedecidos, ainda assim o
resultado é melhor do que o que se observa fora dos muros. Essa questão aparece na fala dos
moradores de RHFs entrevistados (conforme abordado no Capítulo 6) no uso do termo
“organização”, que se refere tanto ao cuidado com as áreas externas à residência, quanto com
250

os afastamentos entre as residências assegurando um ambiente interno melhor. De acordo com


o agente imobiliário S.M.R.,

Quando eu falo do perfil social, geralmente são pessoas que procuram um imóvel
dentro de construções de regras técnicas de ventilação e de conforto, certo? São
pessoas que buscam isso, porque às vezes eles moram em casas que não foram
construídas dentro das normas técnicas da arquitetura e da engenharia. [...] às vezes
elas não têm uma ventilação devida, é uma casa com mofo, é uma casa que entra
água no inverno etc. O perfil social seria: eles querem essa infraestrutura tanto
externa quanto interna do imóvel, querem a segurança, certo? O perfil é de um cara
que quer segurança e eles querem o lazer. Então eu falei: segurança, lazer, [...]
normas técnicas, infraestruturas gerais e perfil financeiro e econômico. O perfil,
geralmente, encaixa todos esses itens aí.

Outro fator determinante mencionado por S.M.R guarda relação com a ausência de uma
legislação de uso e ocupação do solo no Município de Arapiraca. Há, no plano diretor, diretrizes
para o uso e ocupação do solo na cidade, mas não foram regulamentadas por lei específica. O
resultado disso é uma miríade de situações em que usos do solo contíguos, mas incompatíveis,
resultam em incômodos frequentes aos moradores da área central ou de loteamentos abertos
localizados em áreas periféricas. Sobre isso, S.M.R exemplificou mencionando as reclamações
relatadas a ele pelos clientes:

eu estou morando numa casa, mas a casa aqui do vizinho é a uma oficina mecânica,
eu acordo seis horas da manhã e o cara derrubando tudo, batendo zuada de oficina
e tal. Então, eu quero um local onde tenha residência, [...] onde o objetivo seja
residência. Eu vou estar dormindo e todo mundo ali vai estar sossegado, tranquilo.
Existe regras de convívio naquele local.” É um perfil de pessoas que busca uma
organização, segurança, lazer para família... Sim, áreas de convívio para família, que
é o lazer. Segurança, lazer, convívio social e econômico com pessoas ali do meio.
Saber que é residência e não vai ter problemas com questões comerciais vizinhas [...]
e você viver tranquilo naquele local. São pessoas que buscam tranquilidade, de um
modo geral.

O entrevistado S.M.R. abordou também a questão da almejada homogeneidade social


por parte dos moradores de RHFs. Isso transparece de passagem na fala do entrevistado, no uso
da expressão “convívio social e econômico”. Esse aspecto parece remeter ao habitus, uma vez
que o convívio é a um só tempo ditado por aspectos sociais e econômicos: morar em um RHF
pressupõe uma opção de residir próximo a pessoas com perfil social e econômico similar.
Porém, em parte dos residenciais, não é o que acontece. Principalmente naqueles de padrão
intermediário onde convivem segmentos de renda que variam de médio-baixo a médio-alto.
As contendas observadas nos grupos internos de whatsapp, relatadas por moradores e
administradores em conversas informais com o pesquisador, atestam conflitos de duas
naturezas: esses grupos aproximam virtualmente pessoas que não se conhecem pessoalmente;
mas também aproximam pessoas de classes sociais distintas. No primeiro caso, os conflitos são
251

gerados pela incapacidade de relevar, de compreender e de manter certos níveis mínimos de


empatia que viabilize o convívio, são desentendimentos de natureza pontuais. No segundo caso,
a querela é de ordem estrutural, pois o que entra em choque, nos diálogos, são visões de mundo
e valores internalizados – o habitus – e expressos pelos diferentes estratos sociais,
artificialmente aproximados no plano virtual. De acordo com Bourdieu,

Se o habitat contribui para fazer o habitus, o habitus contribui também para fazer o
habitat através dos costumes sociais mais ou menos adequados que ele estimula a
fazer. Vê-se, assim, inclinado a pôr em dúvida a crença de que a aproximação espacial
de agentes muito distantes no espaço social pode, por si mesma, ter um efeito de
aproximação social: de fato, nada é mais intolerável que a proximidade física
(vivenciada como promiscuidade) de pessoas socialmente distantes (BOURDIEU,
2011, p.165).

Sobre as motivações que impulsionam moradores de loteamentos abertos a buscarem os


RHFs, S.M.R. acrescentou a “liberdade”.
as motivações são essas: a segurança, o lazer, o convívio com... a liberdade que a
segurança traz... filhos, às vezes em alguns residenciais fechados, não em todos,
depende muito da gestão desses residenciais, às vezes você está em casa e seus filhos
podem passar o dia na rua brincando com os amiguinhos no parquinho uma coisa e
outra. As importunações que eles podem ter são das regras de convívio dali... que não
é nem importunação, são regras de convívio. Diferente de você estar em um bairro
fora e deixar o filho ir para uma pracinha. Ele pode estar ali e de repente ser
abordado por alguma coisa, ou uma rua tem alta velocidade e ter algumas
intercorrências perigosas, né? Em alguns residenciais fechados você tem a regra de
convívio, de velocidade, de segurança, com acompanhamento até de profissionais que
ajudam nessas fiscalizações que são os seguranças privados. E isso é uma demanda,
na verdade, que existe da população em cidades que houve uma certa ausência dessas
regras, desse convívio, dessa educação, não que outros locais não tenham... não é
isso. É porque quando você infringe o direito e a liberdade do outro, você cria regras
de convívio que vão pregando ali.

O paradoxo da vida dentro dos RHFs seria esse: para serem “livres”, os moradores
optariam por estarem “presos”. Mas não se trata de prisões no sentido de imposição de
desconforto. A desvantagem de estar numa prisão não está apenas no ato de estar preso em si,
mas sob em que condições. O indivíduo não pode dispor do seu tempo da forma como lhe
aprouver. Nisso talvez os RHFs se assemelhem em parte às casas de detenção: uma rotina rígida
de cumprimento de regras e horários cuja transgressão supõe a imposição de multas e
constrangimentos. O pesquisador esteve presente em uma assembleia realizada pela associação
de moradores de um residencial fechado, em Arapiraca-AL. A discussão exasperou quando
iniciou o ponto de pauta sobre o horário permitido para o uso da área de lazer. Um dos
participantes pediu a palavra, disse que ele era profissional da segurança pública e que nem nos
presídios o controle de horários era tão rígido quanto naquele residencial fechado.
O gatilho que dispara o movimento de mudança para um RHF, segundo S.M.R. é,
também, a propaganda feita por familiares e amigos que se mudaram, somada à visita que o
252

indivíduo faz a eles. Nessa visita, o potencial morador de RHF compara o que é dito com o que
é visto. Se as duas coisas casam, a mudança começa a ser operacionalizada.

Ela está aqui, ela viu um parente ou um amigo que foi morar no condomínio, ela vai
visitar esse parente ou esse amigo no condomínio, chega lá e vê aquela sensação de
liberdade, aquela casa solta, ventilada, e diz “eu quero para mim, também”. Aí ela
faz de tudo para de onde ela está, sair e ir para esse outro local, entendeu? [...] Ele
diz “vou ficar aqui sendo que eu indo para ali eu vou ter essa infraestrutura, essa
segurança, vou ter um convívio legal... eu vou para ali também”. Ele vendo um bem-
estar de um amigo, de um parente, de um irmão que seja, e onde ele mora às vezes
tem essas deficiências [ele pensa] [...] “eu vou para lá porque se fulano foi eu também
posso ir”. Isso acontece muito. É uma questão... eu acho que a sociologia explica isso
aí, um puxa o outro [risos].

É interessante perceber que, para alguns moradores entrevistados, a mudança para um


RHF representa uma “evolução”. Isso, em parte, pode justificar a resistência de vários
moradores de RHFs em se mudarem para opções de moradia fora dele: deixar de morar em um
RHF representaria um retrocesso individual e social, um rebaixamento da condição social que
ele teria alcançado. A mudança para o RHF é interpretada não apenas na dimensão espacial,
mas também como afirmação de ascensão social. O descolamento entre o lugar na hierarquia
social em que o morador efetivamente está e o lugar onde ele acha que está é duramente
criticada nos relatos dos moradores de um residencial de padrão intermediário, conforme será
visto no Capítulo 6. Para eles, este tipo de morador tem o “nariz em pé”.
Sobre as formas de negociação para compra de imóveis em RHFs, o agente imobiliário
S.M.R. afirmou que pouquíssimos clientes compram imóvel à vista. “Claro que acontece, [...]
mas eu acho que deve ser 2 ou 3%. Pessoas que têm 500 mil à vista para dar numa casa, 300
mil à vista para dar numa casa. Esses números eu falo isso com propriedade mesmo porque
vários negócios só acontecem com financiamento”.
O baixo percentual de compradores que adquirem imóveis à vista é corroborado pelo
agente imobiliário L.W.F. Ele fez uma diferenciação entre a aquisição de terreno e aquisição
de casa:
falando em lote, a grande maioria, 99% é por financiamento direto com a
construtora, sem envolver banco. [...] As compras à vista são casos esporádicos, por
exemplo, um construtor ou o cara que está comprando para investir eles querem
barganhar preço, então compram à vista. Mas normalmente se compra financiado
com a construtora. Quando se fala de casa, normalmente o financiamento não se faz
com construtora, são muitos raros esses casos, mas existe. Quando eu falo do público
mais elitizado, [...]as classes A e B, é muito pouco financiamento, uma boa parte das
negociações são feitas em compras com parcelamento curto ou com uma troca: um
carro, outra casa com um valor menor; e tem uma boa parte que é comprada à vista
[...]. Quando você pega a classe média, beleza existe a compra à vista, mas é um
percentual bem menor. Ela vai para aquisição e construção, vai para o financiamento
bancário, vai para esse tipo de coisa. Os [RHFs] mais baratos, quase que 100% das
vezes, é compra via financiamento bancário. Dá uma entradazinha e financia o resto.
253

O agente imobiliário S.M.R. indicou que a oferta bem sucedida de RHFs precisa
observar dois fatores fundamentais: internamente, o provimento de infraestrutura e serviços de
segurança melhores do que ofertados pelo poder público municipal e estadual; e externamente,
os critérios locacionais, pois a localização dos empreendimentos deve guardar proximidade
com obras de grande envergadura e grandes equipamentos de consumo ou de serviços: “estar
próximo de algo”.
Quando eu falo de infraestrutura é ruas calçadas, limpas, iluminadas, com
segurança, com lotes drenados sem ser alagados, próximo de locais com povoamento,
ou em zonas que tenham um benefício de estar próximo de algo. [...] Você tira aqui
pelo trecho da duplicação [das ALs 220 e 110], onde vê duplicação na cidade você
vê grandes lojas, hospitais... não tem muito o que fazer, onde [...] tem uma
infraestrutura grande que atende a uma logística grande de serviços, ela traz
demanda de pessoas e, consequentemente, valorização a tudo em redor dela.

A questão é que essas obras de vulto, que tornam possível atrair os grandes
equipamentos, sejam eles industriais ou de comércio e serviços, são custeadas pelo poder
público. Deste modo, o mercado imobiliário se beneficia do investimento público realizado fora
dos RHFs, ao passo que, dentro dos empreendimentos, ele acusa o mesmo poder público de
ineficiência, para se afirmar como a melhor alternativa na oferta de infraestrutura urbana.
Quanto aos critérios locacionais, S.M.R. respondeu: “basicamente, os critérios são
esses: os vetores de crescimento da cidade, âncoras e para onde a cidade tende a crescer,
sempre observando os próximos três a cinco anos.” Em seguida o mesmo agente imobiliário
detalhou:
“você imagina a cidade como um barco e o vento está soprando para um determinado
local, geralmente é muito assim. Aí você diz ‘ah, tem como esse empreendedor fazer
esse vento por conta própria?’ Sim, em determinadas situações. Porque em boa parte
das situações vai depender da coragem dele, da ideia que ele teve para aquela região,
mas para esse vento ser mais forte e ele ganhar força, isso está totalmente
relacionado aquilo que tem perto, à ‘ancoragem’.

Em outra passagem, S.M.R. explicou com mais detalhes o que ele chama de
“ancoragens”: [...] fatores comerciais, econômicos ou sociais externos grandes, que eu vou
chamar de “âncoras”, que se posicionam em determinadas cidades que termina sendo um
centro de convívio ali. O entrevistado exemplificou algumas “âncoras” e como elas geram
expectativas e desperta a atenção do mercado imobiliário, em particular, por trazer para a
cidade, um contingente de pessoas com perfil financeiro afim ao que o mercado almeja:

Quando eu falo ancoragem é, por exemplo, a UFAL é uma âncora; a Mineradora


Vale Verde é outra âncora; uma duplicação é uma âncora; indústrias é uma âncora,
porque se você tem empresas, se você tem âncoras como essas, você tem pessoas,
você tem vida, você tem convívio e aí vem as necessidades: necessidades de moradia,
necessidades de investir, necessidades de aluguéis etc.
254

O agente imobiliário S.M.R. prosseguiu argumentando sobre como as âncoras


constituem um corpus ocupacional de funcionários de diferentes escalões, com uma massa
salarial fixa e estável que passa a ser o público alvo potencial das construtoras e esse mesmo
corpus apresentaria demandas às quais o mercado imobiliário procurará atender. O aspecto-
chave que caracteriza o público-alvo almejado pelo segmento do mercado imobiliário que oferta
RHFs de médio e alto padrão é: o perfil financeiro que confere ao indivíduo uma capacidade de
escolha de onde e como ele quer morar:

Por exemplo, Arapiraca não tinha universidade federal, chegou a UFAL e,


consequentemente os professores e, consequentemente, os alunos. São pessoas que
vem com um perfil de outras regiões espalhadas na cidade. São pessoas de outros
locais e que passaram em um concurso público para vir trabalhar na cidade. O perfil
financeiro é bem parecido, com estabilidade financeira, organização, mas o perfil
cultural cada um traz de suas regiões. [...] Por exemplo, o Shopping, ele criou
gerentes comerciais e funcionários que tiveram estabilidade econômica e que
precisam de locais para viver e morar. O Atacadão, uma empresa de grande porte.
O próprio Coringa, outra empresa de grande porte. O Assaí, outra empresa de grande
porte. [...] E todo esse público profissional, que está atrelado a essas empresas, eles
têm estabilidade econômica e o nicho do salário dele faz com que ele escolha o
produto. Essa escolha de produto, geralmente... volto a dizer, eles buscam segurança,
buscam infraestrutura, buscam lazer e tranquilidade para ele e todo o convívio dele
com a família.

É importante observar que o Campus de Arapiraca da Universidade Federal de Alagoas


foi implantado em 2006, no âmbito do Projeto de Interiorização das Instituições Federais de
Ensino Superior81, coordenado pelo Ministério da Educação. Portanto, o campus da UFAL
entrou em funcionamento antes do primeiro RHF implantado na cidade, o Residencial Ouro
Verde, em 2007. Atualmente, diversos professores e técnicos-administrativos do Campus
moram em RHFs localizados na cidade.
Contudo, em um primeiro momento, se o Campus da Ufal foi uma âncora do ponto de
vista da oferta de clientes com perfil financeiro atraente para o segmento dos RHFs, em termos
locacionais, esse espaço universitário não parecia atrativo para a implantação de residenciais
de médio e alto padrão nas proximidades. A presença do Presídio Desembargador Luiz de
Oliveira Souza em área contígua ao campus operava como uma “barreira de contenção” à
valorização imobiliária no entorno do espaço universitário. Durante mais de uma década, a
expansão urbana na direção do campus se deu por meio de residenciais de padrão simples, como
no caso do Residencial Aroeiras e de conjuntos habitacionais, como o Residencial N. S.

81
A partir de 2007, os projetos de interiorização passaram a fazer parte do REUNI, o Programa de Reestruturação
e Expansão das Universidades Federais, também comandando pelo MEC.
255

Aparecida e o Residencial Agreste. Com a desativação da unidade prisional 82, em 2013, houve
um aumento de loteamentos abertos em áreas próximas, alguns regulares, outros clandestinos.
Foi a partir da implantação do curso de medicina, em 2015, que a atenção dos setores
do mercado imobiliário voltados para os RHFs de médio padrão se voltou para as áreas
próximas ao Campus. A partir desse momento, o Campus da Ufal em Arapiraca, de fato se
tornou uma âncora espacial para a implantação de RHFs de padrão mais elevado, com lote
padrão de 200 m² vendidos a 100 mil reais (preços de 2021), e do complexo de
empreendimentos formado por um setor comercial, com posto de combustível, conveniência e
hotel; um residencial vertical fechado, formado por blocos de apartamentos; uma extensa área
verde privativa, contendo um lago e uma ilha artificial; um RHF de padrão intermediário; e o
primeiro RHF em Arapiraca destinado à terceira idade. O público-alvo desses empreendimentos
são estudantes, técnicos-administrativos e professores vinculados ao Campus da UFAL,
aposentados e também funcionários da Mineradora Vale Verde, outra ancoragem que aguçou o
interesse do mercado imobiliário na direção do vetor norte da cidade (Figura 98).
Outro fator primordial para o sucesso do empreendimento é a capacidade de atração de
moradores. A afirmação do entrevistado admite a interpretação de que a especulação imobiliária
pode ser um problema também para o próprio mercado imobiliário.

82
A proximidade do Campus com a unidade prisional era conflituosa. As condições de superlotação do presídio
somadas às péssimas condições suscitavam constantes revoltas por parte dos reeducandos. Em diversas ocasiões,
os reeducandos realizavam fugas na direção do Campus e eram perseguidos pelos agentes com disparos de tiros
gerando uma tensão constante no ambiente acadêmico. Em 2012, após uma fuga de reeducandos e perseguição
por agentes tensionarem de forma crítica a comunidade acadêmica, ela se mobilizou e suspendeu as atividades até
que fossem asseguradas condições de segurança para o retorno das atividades. O Governo do Estado construiu
outra unidade prisional – o Presídio do Agreste, com 768 vagas, localizado em Girau do Ponciano – e assim que
foi inaugurada, desativou o Presídio Desembargador Luiz de Oliveira Souza, em 11 de novembro de 2013. Em 11
de agosto de 2014, a Prefeitura Municipal de Arapiraca transferiu a área e as instalações do presídio desativado
para a UFAL.
256

Figura 98 - Material promocional de um RHF enaltecendo o contato com a natureza e a proximidade com
a UFAL, Shopping, Centro Administrativo, Mineradora Vale Verde e supermercado atacado-varejista.

Fonte: Digitalização de material impresso [adaptado pelo autor]

A compra de terrenos “para investir”, que quer dizer “para especular” tem como
resultado “terra sem gente”. Há infraestrutura, há serviço de segurança, há áreas de lazer, mas
não há moradores, ou há apenas alguns moradores. Esse tipo de situação foi observado em
alguns residenciais localizados em Arapiraca, tanto fechados quanto abertos. Alguns
empreendedores celebraram as vendas de 100% dos terrenos em poucas semanas após a
lançamento, mas viram os preços dos lotes estagnarem em razão da baixa ocupação por
moradores. Quanto ao movimento de “remar na direção contrária ao vento” ditado pelos vetores
de crescimento urbano e pelas ancoragens, o agente imobiliário S.M.R. relatou o seguinte:

Ah, mas eu posso ir contra tudo isso e criar uma cidade? Pode, desde que tenha gente
[risos]. Imóvel sem gente não é imóvel. É imóvel, mas ele não [o entrevistado estala
os dedos] evolui. Imóvel precisa de pessoas para que isso gere convívio, gere vida,
gere demandas, gere necessidades, consequentemente, gera valorização, gera ofertas
naquela região, demandas naquela região.

O paradoxo dessa afirmação é que o mercado imobiliário busca atrair pessoas para os
RHFs, mas negando a importância do espaço público, onde as interações se dão de forma mais
intensa. Os empreendimentos com maior velocidade de consolidação na cidade são os
257

residenciais de padrão menos elevado. Nos RHFs do grupo 1, as casas são entregues prontas e
o financiamento via programas habitacionais do governo federal viabilizam a ocupação mais
rápida. Os RHFs dos grupos 2, 3 e 4 também vêm experimentando acelerado processo de
consolidação com muitas construções realizadas nos últimos anos, em especial, a partir da
pandemia de COVID-19. Alguns RHFs do grupo 5 apresentam velocidade de ocupação menos
intensa, apresentado ainda uma quantidade considerável de lotes vazios.
Os dois agentes imobiliários argumentaram que a alta procura pelos RHFs está
relacionada com as carências do município quanto à oferta de condições de moradia nos bairros
da cidade. S.M.R. argumentou centrando sua fala em duas dimensões que ele considera
importantes como atrativos para esses empreendimentos: “os residenciais fechados tiveram
sempre um destaque a mais, porque eles oferecerem uma infraestrutura que é ausente pelo
próprio estado em loteamentos abertos, entendeu? [...] Aí essa presença de infraestrutura, ruas
calçadas ou asfaltadas, drenagem de ruas que isso ajuda muito, evita alagamentos.”
Esse entrevistado relatou que a tendência de procura cada vez maior por RHFs seria
explicada pela ausência do poder público no provimento de infraestrutura e segurança
adequadas nos bairros periféricos. A dicotomia é apresentada, na fala do agente, com a seguinte
formulação: os RHFs alavancam ciclos virtuosos de valorização imobiliária e atratividade de
moradores, em contraposição aos loteamentos abertos, entendidos como abandonados pelo
poder público, como territórios-problema imersos em ciclos viciosos de desvalorização e
esvaziamento.
Os residenciais horizontais [fechados] têm uma valorização maior do que os
residenciais horizontais de fora; eles têm uma evolução maior de preços, de
povoamento e de investimentos privados nesses locais. Por que? Porque, às vezes,
[...] eu falo da ausência não por querer, eu falo em razão de conjunturas, você vai
pegando gestões anteriores que vão deixando deficiências naquela região, [...] as
casas são feitas sem fiscalização do município e aí gera uma certa resistência, aí gera
violência também, [...] porque você fez miniestruturas um pouco defasadas e aí não
tem saneamento, não tem uma coisa, não tem outra e isso termina [com as pessoas
pensando] “não vou morar porque não tem infraestrutura aqui, mas eu vou para aqui
porque esse tem infraestrutura e eu estou pagando por uma infraestrutura geral”. E
aí valoriza mais, todo mundo quer mais, consequentemente, tem mais demanda e o
pessoal, enfim, prefere estar naquela região. E aí aquela região gera mais pessoas
com rendas concentradas e compram ali perto e aí gera mais comércios e aquilo ali
vai sempre gerando um ciclo de evolução no médio e no longo prazo. Ou seja, teve
infraestrutura, teve serviços, [...] ela tem valorização.

O diferencial no provimento de serviços de segurança privada também é um fator de


suma relevância na visão do agente imobiliário. É interessante observar que há uma espécie de
setorização espacial e horizontes temporais no modo de atuação do mercado imobiliário,
explicitado na fala do agente através dos termos “região” e “prazo”. Quando o empreendedor
pega um terreno, mura, coloca cercas elétricas e contrata um serviço particular de segurança
258

ele pega uma determinada região e ele supre uma necessidade daquela região no médio e no
longo prazo [...]. Não é a segurança igual à do Estado, digo Polícia Militar etc., mas é uma
segurança que intimida e dá uma liberdade maior para você chegar em casa, poder viajar,
você ter alguém pelo menos olhando a sua casa, se vai ser assaltada ou não [risos].
É importante considerar que o espaço de disputas entre o capital imobiliário e a gestão
pública municipal é a periferia da cidade. Nos bairros tradicionais onde a administração
municipal implantou a infraestrutura mínima necessária, essas localizações apresentam níveis
de valorização maiores do que em alguns RHFs, segundo o próprio entrevistado.

Outra comparação é que, existe zonas também na cidade que já têm essa
infraestrutura do poder público há muito tempo, que são as localizações de centro e
bairros antigos com infraestrutura. Isso faz com que esses bairros também tenham
valorização e, às vezes, até mais do que alguns residenciais horizontais que estão
saindo agora. Por que? Porque, às vezes, nesses residenciais horizontais você não
planejou algumas infraestruturas e não [...] criou um ambiente de convívio naqueles
locais.

Essa reflexão do agente S.M.R., comparando os bairros tradicionais e alguns RHFs,


contemplou um aspecto-chave da valorização imobiliária dos primeiros em relação aos
segundos: os bairros antigos possuem vitalidade urbana, com uma oferta de espaços públicos
para convívio e uma diversidade de comércio e serviços próximos às residências. Em outro
momento do seu relato, esse mesmo agente imobiliário menciona essa problemática que
representa um desafio para o mercado dos RHFs: “dependendo se você vai fazer esse
residencial fechado com uma distância muito grande [...] você, de uma certa forma, dificulta
o acesso ao comércio e serviços [...] Por isso que determinados empreendimentos [operam
assim]... ‘vou fazer um comércio perto já para trazer esse benefício’”.
O agente imobiliário S.M.R. discorreu sobre uma dimensão importante que perpassa a
utopia da vida em RHFs: eles seriam um simulacro deslocado no espaço e no tempo. O que eles
simulariam? A vida numa pequena cidade interiorana, há décadas atrás. Esse simulacro
incorpora com facilidade conceitos como tranquilidade, sossego e liberdade. Foi interessante
observar que o entrevistado não concebe Arapiraca como um centro urbano médio, apesar de
ressaltar seu efeito polarizador sobre cidades vizinhas em relato anterior.
O agente S.M.R. arrematou a questão da tendência pela procura por RHFs estabelecendo
uma comparação entre a gestão privada e a gestão pública:

Se existe demanda e você faz esses residenciais fechados, esses condomínios


horizontais com essas infraestruturas é como se o comprador acreditasse mais no
empreendedor privado, isso é fato, de ter ali a segurança, mesmo que não seja a
segurança 100% do Estado. Mas ele acredita mais nessa segurança ali que ele tem,
naquela limpeza de rua, naquela infraestrutura de lazer, naquela convivência de
259

vizinhos, do que ele comprar em um local aberto, eu falo aberto é ruas sem...
confiando, até que se prove o contrário, na segurança do município ou do estado, na
limpeza e infraestrutura. Isso é fato. [...] Isso faz com que os residenciais fechados
tenham maior valorização, certo?

Segundo o relato do agente S.M.R., a crescente confiança dos moradores dos RHFs nas
gestões privadas desses empreendimentos seria alimentada pela crescente desconfiança desses
moradores das administrações municipais, sintetizadas na máxima: “eu confio na infraestrutura
e na segurança ofertadas pelo empreendedor privado até que me prove o contrário; e desconfio
da infraestrutura e da segurança ofertadas pelo poder público até que me prove o contrário”.
Retomando a diferença entre o condomínio e o loteamento de acesso restrito do ponto
de vista do provimento de serviços, L.W.F. discorreu: quando é um condomínio, todo o sistema
dentro é de responsabilidade do condomínio; quando é um loteamento de acesso restrito, não,
o poder público tem responsabilidade ali dentro e também tem crédito nisso, mas ele tem
responsabilidades. Coleta de lixo, por exemplo, no condomínio ele não é obrigado a fazer, mas
no loteamento de acesso restrito ele é obrigado a fazer. Iluminação pública, a mesma coisa.
L.W.F. denominou “loteamento de acesso restrito” o loteamento de acesso controlado
previsto na lei 13.465/2017. Contudo o loteamento de acesso restrito não é o loteamento
fechado, pois no último as áreas públicas tinham o acesso impedido para os não-moradores,
enquanto no primeiro, o acesso é monitorado. A lei 13.465/2017 não afirma a obrigatoriedade
da administração municipal em prestar o serviço de coleta de lixo e troca de lâmpadas nos
postes de iluminação pública nos loteamentos de acesso controlado, mas prevê que o controle
de acesso será regulamentado por ato do poder público Municipal. Ao mesmo tempo, se as
áreas internas permanecem sendo “públicas com acesso restrito” – um contrassenso criado pela
referida lei – a prefeitura teria responsabilidade em mantê-las porque seriam de domínio
público.
Essa incongruência criada pela lei federal 13.465/2017 gera uma confusão de ordem
jurídica que transparece na fala do agente. No condomínio você não é dono da sua unidade,
você dono de uma fração, envolve área comum e tudo mais. Então você tem obrigação,
realmente. Por exemplo, como é que vai dizer que eu sou responsável pelas áreas comuns do
condomínio se o poder público tem uma área de equipamento urbano lá dentro? Que foi doada
a ele, que é dele. Não faz sentido me cobrar pela manutenção de dentro, de tudo, não é verdade?
Aqui, a confusão entre condomínio fechado/áreas comuns e loteamento de acesso
controlado/áreas públicas aparece novamente. O agente se refere a áreas comuns quando, na
verdade, se trata de áreas públicas.
260

O agente imobiliário discorreu um pouco mais sobre essa questão mencionando a recusa
da administração municipal em realizar a troca das lâmpadas em RHFs localizados na cidade,
a partir do segundo semestre de 2021: “a visão da gestão atual, eu não sei se a visão dele está
correta ou não, é um ponto para refletir, mas ele está abrindo mão de fazer nos loteamentos
fechados essa manutenção para fazer na cidade”. Aspecto importante no relato que torna
possível interpretar que para o entrevistado os RHFs não fariam parte da cidade.
O agente L.W.F. continuou exemplificando com um caso: “o condomínio é um
loteamento de acesso restrito e tem um bocado de lâmpada queimada. Era para o poder público
fazer essa troca mas não está fazendo”. Ele prosseguiu afirmando que “está tendo esse impasse
aí: você não sabe se a responsabilidade é do condomínio, da associação [...] ou do poder
público, né? Nos condomínios de luxo você não percebe isso porque [...] Tem mais verba, então
faz. Nos condomínios de médio [padrão] está tendo esse desgaste. Nos condomínios mais
populares eu não sei lhe dizer como está, porque é relativamente novo esse problema.”
É interessante observar que o agente imobiliário já considera o RHF que ele
exemplificou como loteamento de acesso restrito, embora o município ainda não tenha
regulamentado essa matéria. No entendimento do entrevistado, a lei federal teria produzido um
efeito de regularização automática dos loteamentos fechados. No seu relato aparece uma
compreensão equivocada sobre a questão da contribuição da iluminação pública mencionada
pelas agentes públicas entrevistadas.
L.W.F. relatou ainda a questão dos serviços de infraestrutura, exemplificando a situação
de um RHF localizado na cidade: há um problema muito grande de água no bairro e
consequentemente no condomínio. É pior no condomínio do que no bairro, porque o
condomínio é no alto, então só chega água quando está com a pressão forte. Abastece o bairro
[...] todinho para depois chegar no condomínio. É curioso que, nesse caso, a topografia do
bairro inverte a condição de privilégio do RHF quanto ao abastecimento de água. O restante do
bairro, localizado nas áreas mais baixas é favorecido, enquanto o RHF, localizado em posição
de destaque na paisagem, nas áreas mais elevadas, é prejudicado.
O agente imobiliário L.W.F. apresenta insatisfações com a atuação do poder público
municipal, com a defesa enfática de uma perspectiva econômica de base liberal:

eu venho de uma empresa privada, mas a empresa privada não é maléfica para
população não. Pelo contrário, ela é benéfica. Gera emprego, gera renda, gera
riqueza. Então o poder público tem que andar caminhando com o poder privado. Eles
têm que caminhar juntos. Eu acho que a gestão [...] ela maltrata o empresário. [...],
ela dificulta a cidade de crescer. Eu não estou falando para liberar empreendimento
a torto e à direita, não. [...] Mas tem que ter uma regra clara. [...]Se você não quer
liberar empreendimento porque não está vendo vantagem para cidade, obriga o
261

empresário a fazer o saneamento daquela parte, ou doar uma praça, ou seja o que
for. Não é? Ou a área verde que tinha que ser dentro do condomínio, faça em outro
canto para ser um hospital, alguma coisa.... Tem que achar um mecanismo que
funcione. O que não poder é travar. [...] Obrigue ele a reverter um pedacinho para
cidade. É importante! Mas faça liberar as coisas. Não trava! [...]Os empresários
daqui que eu conheço estão expandindo para outra cidade. Ou seja, o capital que eles
geram aqui não está sendo reinvestido aqui. [...] Se o cabra tem dificuldade de fazer
um condomínio aqui e em Caruaru ele tem o mesmo mercado que absorve o
condomínio e lá o poder público libera, ele vai fazer o que? Brigar, bater, dar murro
em ponta de faca aqui ou vai pra lá? Vai pra lá.

O aspecto chave no relato conclusivo do agente imobiliário L.W.F. recai sobre a


necessidade de definição, por parte da administração municipal, do ato administrativo que
regulamentará a implantação dos RHFs na forma de loteamentos de acesso controlado. Essa
questão perpassou as entrevistas concedidas pelas agentes públicas da administração municipal.
Parece que o entrevistado se refere a isso quando menciona a importância de se definir “regras
claras”. Na declaração também transparece uma aceitação do fato de que os empreendedores
terão de dar contrapartidas ao município como mitigação dos impactos urbanísticos gerados
pela instalação dos loteamentos de acesso controlados.
Sobre quais seriam as perspectivas para o mercado imobiliário de Arapiraca, no ramo
dos RHFs, nos próximos anos, S.M.R. respondeu que:

[...] eu acredito que Arapiraca, nesses próximos três a cinco anos, falando
especificamente nos residenciais fechados, tem ofertas ainda nesses locais
residenciais para atender boa parte da população ainda com o que já existe em
termos de estoque [...] tanto de terrenos para serem construídos, quanto de casas que
estão à venda,

O agente entrevistado faz a diferenciação entre produto imobiliário para moradia e


produto imobiliário para investimento (Figura 99). Basicamente, no primeiro o imóvel é
considerado o valor de uso e, no segundo, o valor de troca.

Tem diferença entre moradia e investimento? O que é investimento pode ser moradia,
mas o que é moradia, dependendo da situação e do seu querer para aquele local, ela
fica inviável para investimento. Por que? Vou dar um exemplo a você. Você comprou
para investimento, você quer realizar o lucro daquilo ali, você quer ter retorno. Se
não, você deixaria seu dinheiro rendendo na poupança ou em alguma coisa lá. Aí
você compra um bem que daqui a cinco ou dez anos vai ser o mesmo valor. Então,
oxente, se eu botar a inflação eu perdi dinheiro [risos]. Então não foi um bom
investimento, foi um prejuízo. Mas se eu vou morar naquele local e não estou olhando
esses itens, a minha necessidade não é isso. A minha necessidade é estar naquele
local, criar minha família, utilizar o lazer e a segurança, e para mim se aquele valor
está justo, então é uma moradia. Ou seja, é moradia, mas não é investimento. Mas o
correto é: o que foi investimento, também tem que servir para moradia. Seria o ideal,
é o melhor...é o limiar do mercado imobiliário, é onde o empreendedor ganha
dinheiro, o setor comercial ganha seu dinheiro também e o morador, o comprador,
estar ali nesse limiar, ele está junto disso. Você tem o mercado... como eu posso
dizer... em equilíbrio.
262

Figura 99 - Panfleto de divulgação de um RHF destacando vantagens do investimento, segurança, contato


com a natureza.

Fonte: Digitalizado de material impresso [adaptado pelo autor]

Considerando esse estoque existente, S.M.R. alerta para uma questão importante da
dinâmica de mercado que pode afetar aqueles que especularam com a terra urbana.

Aí tem outra situação que vale muito salientar: a condição de pagamento. [...] nesses
residenciais que existem atualmente, os estoques [...] as vendas deles são
praticamente “em cash”, à vista. Por exemplo, a construtora vendeu para uma pessoa
parcelado, a cinco anos atrás, hoje ela quitou [...] e ela quer fazer dinheiro ou
realizar o lucro desse local. Ela, geralmente, só vai vender à vista, certo? Aí o que
acontece? [...] Ela demora um pouco mais pra vender. [...] mas o cara [um
empreendedor] leva aquela infraestrutura de um residencial fechado com
infraestrutura, segurança, lazer para aquele local e diz “oh, você não precisa ter 100
mil reais à vista para dar aqui nesse terreno. Você pode me pagar em 60 parcelas de
2 mil”, por exemplo.
263

Para que o mercado esteja em equilíbrio, S.M.R. indica que é necessário um “código de
posturas” em que todos ganhariam:

Porque, assim, se não houver equilíbrio e puxar só para um lado [...] acontece as
crises [...], às vezes você compra um produto muito caro, encharcou a cidade de
produto subiu, subiu, subiu e aí chegou ali, êpa! E agora para vender isso, se ninguém
compra? [...] Se o mercado disser “eu pago isso, só vale isso e pronto, acabou-se”,
você vai ter que vender. É a necessidade. Isso é a lei que rege o mercado. Para que
isso, a longo prazo, possa ter um equilíbrio, precisa muito desse olhar... eu falo até
dessa empatia [risos] vou assim dizer, tanto do empreendedor olhar o comprador
dele, quanto o comprador olhar o empreendedor.

A visão de que o mercado, seja ele qual for, alcançará equilíbrio por meio de uma atitude
empática e voluntarista por parte dos agentes, uns para com os outros, representa uma visão
idealista e, de certo modo, ingênua. O segmento de RHFs, em Arapiraca, é comandado por
poucas empresas, cujas atuações se concentram em determinados padrões de empreendimento.
O equilíbrio de mercado só seria possível em um regime de concorrência perfeita, e no caso de
Arapiraca, definitivamente, não se aplica.

5.3 A gestão no centro da cena: utopias e distopias, embates e conflitos

O último tema tratado na entrevista parece tocar em um aspecto central na discussão


sobre os RHFs. A pergunta final consistiu em indagar os entrevistados se havia algum aspecto
importante relacionado aos RHFs que não tenha sido abordado nas perguntas anteriores. O
agente imobiliário S.R.M. foi enfático ao responder: “a gestão do dia-a-dia, viu? Acho que é
importante sempre salientar, por mais que a empresa empreenda, por mais que ela crie toda
uma infraestrutura, por mais que ela tenha todo um contexto ali e entregue aquele produto...
porque ali, aquela entrega, aquele momento, [...] ela cumpriu a obrigação dela. Você comprou,
ela entregou. Ponto. Mas dali para frente também tem outras histórias. E essas outras histórias
estão totalmente ligadas ao dia-a-dia daquilo, à gestão do dia-a-dia. Essa gestão do dia-a-dia
é fundamental, que é a administração dos residenciais fechados.”
Enquanto S.M.R. aborda a questão da gestão dos RHFs na forma de uma alerta, o agente
imobiliário L.W.F avalia que a gestão interna dos residenciais tem evoluído bastante na cidade.
“Aqui em Arapiraca a gente enxerga que tem evoluído. Por que? Porque o público vai se
adaptando a morar em condomínio. [...]. Vou lhe dar um exemplo: hoje, o cara já entende que
se tiver uma taxa extra, tem que pagar, seja pelo bem geral, seja porque está precisando de
uma melhoria, ou está corrigindo alguma coisa no condomínio. Isso era impensável há sete ou
264

dez anos atrás. [...] Quando você compra no condomínio você já sabe que existe aquilo, que
você tem as suas obrigações e tal. Coisa antes que não era pensado.”
Esse ponto parece ser um assunto sensível no que tange à oferta dos RHFs pelas
construtoras. Os RHFs são vendidos como espaços idealizados, marcados por um discurso que
se compromete com a satisfação das expectativas dos moradores em múltiplos aspectos que, a
princípio, podem ser resumidos no trinômio: sensação de segurança, infraestrutura urbana e de
lazer e boa convivência entre os moradores.
A premissa que embasa o discurso do agente S.M.R. é de que a construtora entregou o
“paraíso”, se ele foi transformado em “caos”, é porque não foi bem administrado. Contudo,
cabe aqui a seguinte reflexão: os RHFs são, realmente, capazes de satisfazer as expectativas
que eles prometem? Talvez a gestão deles seja tão difícil justamente em razão dos limites dessa
utopia. Parece haver uma quarta expectativa, tão fundamental para o mercado imobiliário
quanto às outras três: a gestão privada dos residenciais precisa ser mais efetiva que a
administração pública municipal na resolução de problemas.

Se essa gestão, essa administração não houver, a coisa também, a pessoa começa a
se chatear, começa a ter problemas, você começa a dizer: “rapaz, não vou viver aqui
não. Não tem um segurança que presta, não tem uma segurança que funcione, a
limpeza não acontece nas áreas comuns, as ruas mal iluminadas... olha, esburacou e
o pessoal não se preocupa em ir atrás, os vizinhos são um pouco barulhentos e
ninguém toma providências”... não tem que fazer não. Isso defasa os residenciais.
Isso é ruim para o convívio e você termina criando certas resistências e más
referências. Essas resistências e más referências fazem com que não haja evolução
de demanda, não haja evolução de valores e de valorização e, infelizmente, defasa
mesmo.

Essa reflexão quanto ao conteúdo utópico comercializado de forma impregnada nos


RHFs se confirma analisando a fala do entrevistado, quando ele começa a se referir aos
residenciais fechados como modelo e, em seguida, hesita. A questão da boa convivência entre
vizinhos e da efetividade na resolução de conflitos reaparecem como expectativas que precisam
ser atendidas. A gestão privada não lida bem com conflitos e divergências, pois ela está apoiada
em formação de consensos e estabelecimento de uma ordem, por isso à menção aos conflitos
de forma extremada como brigas e tiroteios no relato a seguir. A ocorrência de embates,
discordâncias e querelas tendem a perturbar esse cenário utópico de felicidade idealizada e
satisfação plena de necessidades, consubstanciada numa ideia de comunidade de vizinhança
perfeita.
A dicotomia entre o interior civilizado e ordenado e o exterior bárbaro e caótico precisa
ser reificada na consciência dos moradores. Se o ambiente interno começa apresentar
características do ambiente externo, as desconfianças começam a aparecer.
265

[...]Eu acho que essa gestão do dia-a-dia [...] é fundamental. Porque é muito bom
você chegar em um local, sentir o local agradável, local em que você se sente bem,
convive bem. Você chega ali está sossegado, está tranquilo. [...] imagine, você traz
um amigo para sua casa e uma zoada, um tiroteio na casa vizinha, briga de vizinho e
você naquele meio ali. Você se sente desconfortável. Não é que a gestão do ambiente
vai evitar isso, mas você vai tomar as devidas providências quando isso daí puder
acontecer. Você vai estar mais presente, você vai ter pessoas que podem denunciar
as coisas erradas, você vai ter pessoas que podem ali reprimir com regras de
convivência e do dia-a-dia. Você está entendendo? [...]Porque volto a dizer: os
residenciais fechados são um modelo... não é modelo, mas eles são o que a sociedade,
de um modo geral, queria para ela. Ela queria estar ali bem com o vizinho bem e tal,
queria ser respeitada nas suas diferenças, independente de opinião, classe, cor etc.
Isso, geralmente, nos residenciais, acontece mais. E, as vezes, fora, não, fora o cara
não respeita o lado...“ah não, liga o som alto, deixa ele chamar a polícia” e aí gera
aquele atrito... “ah não, vamos andar com velocidade na rua, não vou respeitar a lei
do trânsito” aí pode atropelar ou bater em alguém. E aí começa. Essa ausência... eu
falo essa gestão do dia-a-dia que não acontece, isso prejudica.

O desfecho conclusivo do entrevistado sobre essa questão elucida a quarta expectativa


que impregna a concepção utópica dos RHFs: a gestão privada do espaço precisa ser
continuamente melhor avaliada que a gestão pública para que a idealização se mantenha de pé.
A ideia de consenso também é expressa nesse trecho do relato.

Se você parar para analisar [risos] está totalmente ligado à gestão pública de um
país, de uma cidade, só que isso é como você viesse diminuindo, entendeu: você pega
um país com má gestão; que divide para suas regiões com má gestão, com falta de
infraestrutura; que divide para os seus estados com má gestão; que chega nas suas
cidades com má gestão; chega nos bairros com má gestão, até chegar na casa
individual de cada pessoa [risos]. Não que tudo é gestão, mas tudo está totalmente
ligado se tivesse uma cultura ali... não é que todo mundo seria igual, as diferenças
tem que haver, mas o respeito às leis e às regras de um todo e o direito de um e de
outro fosse respeitado, tudo isso se converteria em um melhor convívio, entendeu?

A concepção de “bairro planejado” está ancorada justamente nessa afirmação: a gestão


privada substitui a gestão pública. O problema é que quando a gestão privada assume o
planejamento, apenas quem pode pagar irá usufruir dos benefícios. O planejamento deixa de
ser um direito do cidadão para se tornar um privilégio de moradores clientes. Outra chave de
problematização permite questionar se todo e qualquer planejamento é necessariamente
benéfico. Pode haver um “bom planejamento” ou um “mau planejamento” a depender das
prioridades elencadas e das estratégias adotadas.
Complementando essa questão, foi discutida a atuação das empresas que prestam
serviço de administração de residenciais fechados. O agente imobiliário entrevistado
recomenda a contratação de um síndico profissional para gerenciar os residenciais no lugar do
presidente da associação. A associação e seu presidente remetem a uma ideia de “instituição
política”, pautada por voto e debate. Ainda que similar, é diferente do condomínio e seu síndico.
266

A saída para os problemas da gestão privada levada a cabo pelo presidente e pela
diretoria da associação de moradores seria terceirizar a administração para uma empresa
especializada nessa tarefa. Se falha a empresa, a solução passa a ser a contratação de um síndico
profissional para essa finalidade. É curioso que a solução para os problemas da gestão privada
seja sempre outras formas de gestão também privadas, primeiro por uma empresa
(administradora), depois por um síndico profissional. A ideia parece ser: quanto menos pessoas
envolvidas na administração, menos problemas. Contudo, também haverá menos participação
coletiva e mais concentração de poder decisório nas mãos de uma liderança autocrática.

[...]Hoje você pode contratar um síndico profissional para um residencial desse. Isso
é maravilhoso, você tira aquela pessoalidade ali, de você morar em um ambiente e
você ter que chamar a atenção do seu vizinho, o que é chato, entendeu? Porque aí
você perde o convívio. Quando um cara é profissional e está sendo pago para aquilo,
ele tem, além da responsabilidade, a motivação de controlar aquilo ali. Ele é visto
como a pessoa que está ali para resolver, para escutar, para ter uma política legal
com todos, e ter um posicionamento que eu falo, meio... imparcial, que é o principal.
[...] Ele vai aplicar as regras que aquele pessoal escolheu para aquele ambiente.
Respeito à velocidade, se passou, “rapaz, por favor, respeite a velocidade”. Pessoas
nos ambientes de áreas comuns, piscinas etc. Regras de construção, “veja, a gente
estabeleceu aqui, por favor, siga isso”. Limpezas dos terrenos etc. Aí você pode
cobrar, né? Eu volto a dizer: é a gestão, o dia-a-dia, o passo-a-passo. Isso faz com
que o ambiente seja bem administrado e ele seja conduzido ali, em médio e longo
prazo, para um ambiente legal de convívio.

Quanto à contratação de empresas pelas associações de moradores que terceirizam a


administração interna dos residenciais, L.W.F afirma que ainda faltam empresas aqui em
Arapiraca que administrem condomínios. [...] Existem duas empresas aqui em Arapiraca que
trabalham com gestão de condomínio. [...] se está surgindo condomínio tem que ter alguém
para administrar. Essa administração está evoluindo, a gente vê que as pessoas já tem uma
visão melhor do condomínio.
Quando foi perguntado ao agente imobiliário L.W.F. se ele acharia importante abordar
algum assunto que não teria sido tratado nas perguntas, ele mencionou a questão dos
condomínios verticais em Arapiraca. Isso há cinco, dez anos atrás, era impensável. Hoje em
dia você já vê começando a aparecer empreendimentos verticais na cidade, mas se você for
olhar quem mora, quem investe nesses condomínios, não são as pessoas daqui. São os de fora,
que já vem com a mentalidade de morar em apartamento. [...] Vieram morar a trabalho.
Outra vantagem da verticalização seria os ganhos do investidor com a valorização do
imóvel: “um apartamento, você compra na planta, a margem que ele valoriza é muito maior
do que uma casa. [...] Um apartamento é mais fácil de alugar. A parte de manutenção é
infinitamente melhor. Mais fácil. Em uma casa, mesmo que você estiver dentro de um
condomínio, se você tiver um problema hidráulico, o responsável é você.”
267

Foi perguntado ao agente imobiliário L.W.F. se além dessa questão cultural, o que mais
ele observava como obstáculos à questão da verticalização na cidade. Segundo ele, “você tem
que ter um senso comum de morar em condomínio. Em apartamento isso é potencializado: é
parede com parede, teto com piso. [...] O uso da área comum também é muito rotativo. [...] Em
uma casa não, você tem sua área de lazerzinho ali.”
Ainda sobre esse mesmo tópico, o agente imobiliário prosseguiu sua argumentação:
“tem outros fatores também: econômicos, a topografia da cidade, isso também influencia para
dificultar a verticalização. Aqui a gente ainda tem muita área plana, tem muito terreno dentro
da cidade. Diferente de uma grande metrópole que você não acha mais terreno para fazer
condomínio de casa.” Outro fator, de acordo com o entrevistado é

aqui não existe saneamento! Como é que faz uma torre sem saneamento?! Aí você me
pergunta: e o Espace? [...] Fossa séptica. Cada torre tem uma fossa séptica que é
esgotada semanalmente. Isso dificulta aqui a verticalização da cidade, também, o
poder público. [...] Até porque o poder público, [...] para ele é melhor um
empreendimento vertical do que um horizontal. Transporte coletivo, está num lugar
só, esgoto, água, saneamento, lixo, está num local só. Então pra ele controlar é mais
fácil. [...]. É melhor do que expandir a cidade para os limites.

Os dados do Censo de 2010, apresentados no capítulo de introdução deste trabalho


atestam essa observação do agente imobiliário L.W.F. Comparada com as demais capitais
regionais B e C localizadas na Região Nordeste, Arapiraca apresenta a menor porcentagem de
domicílios do tipo apartamento e também a menor porcentagem de domicílios atendidos com
rede de esgotamento sanitário. É possível que haja uma correlação entre esses dois fenômenos.
As tensões entre o poder público e o mercado imobiliário ficaram evidentes nas
entrevistas. Enquanto as agentes públicas atribuem ao mercado imobiliário uma busca voraz
pelo lucro a qualquer custo, sem se preocuparem com o desenvolvimento urbano, o mercado
imobiliário, por sua vez, responsabiliza o poder público por falhar no provimento de
infraestrutura adequada e por travar a liberação dos empreendimentos.
O aspecto-chave pode ser colocado nestes termos: o que está em disputa é afirmação de
quem é mais eficiente em planejar o território e oferecer melhores condições de vida urbana aos
moradores. O poder público falha na regulamentação e no controle urbano nas áreas de
expansão da cidade, observada na carência de infraestrutura e nas condições precárias de
moradia nesses espaços. O mercado imobiliário atrai clientes oferecendo uma ideia de “fração
perfeita” da cidade, onde os sonhos se tornariam realidade, e falha quando vende o RHF como
essa utopia irrealizável, observada nas tensões internas e frustrações dos moradores, em
particular com as administrações internas, conduzidas pelas presidências das associações de
moradores.
268

6 AUTOSSEGREGAÇÃO EM ARAPIRACA: PRÁTICAS ESPACIAIS E HABITUS


DOS MORADORES DOS RESIDENCIAIS HORIZONTAIS FECHADOS

O presente capítulo abordou a relação que os moradores dos residenciais fechados


estabelecem com o espaço urbano, considerando suas práticas espaciais e o habitus, o que
constitui a questão central da pesquisa. Adotou-se como hipótese que parte das atividades
cotidianas desenvolvidas por moradores de RHFs indicam motivações exclusivistas, ancoradas
na afirmação de status, distinção e hierarquia.
Para Henri Lefebvre (2000/2006, p. 27)83, “a prática espacial consiste numa projeção
‘no terreno’ de todos os aspectos, elementos e momentos da prática social”. Para o autor, a
relação entre a prática espacial e o espaço é dialética, uma vez que a prática produz o espaço
conferindo a ele determinados usos, ao mesmo tempo em que ela é condicionada por ele, já que
o espaço pode possibilitar ou dificultar a realização de determinada prática.
Michel Certeau (1998, p.99) afirmou que as práticas espaciais podem ser analisadas
como estratégias ou táticas. As estratégias “são ações que, graças ao postulado de um lugar de
poder (a propriedade de um próprio), elaboram lugares teóricos (sistemas e discursos
totalizantes), capazes de articular um conjunto de lugares físicos onde as forças se distribuem.
[...] Privilegiam, portanto, as relações espaciais”. Já as táticas, “são procedimentos que valem
pela pertinência que dão ao tempo – às circunstâncias que o instante preciso de uma intervenção
transforma em situação favorável, à rapidez de movimentos que mudam a organização do
espaço, às relações entre momentos sucessivos de um ‘golpe’, aos cruzamentos possíveis de
durações e ritmos heterogêneos etc.”
Roberto Lobato Corrêa (2007, p. 68) estudou as práticas espaciais de cunho corporativo
definindo-as como “ações espacialmente localizadas, engendradas por agentes sociais
concretos, visando a objetivar seus projetos específicos. Constituem ações individuais, não
necessariamente sistemáticas e regulares, caracterizadas por uma escala temporal limitada”.
Para este autor, as práticas espaciais podem ser classificadas em termos de seletividade espacial,
fragmentação-remembramento espacial e antecipação espacial, advertindo que elas não são
mutuamente excludentes.
Marcelo Lopes de Souza (2013, p. 251) tem por foco as práticas espaciais insurgentes
enquanto práxis transformadoras da realidade do ponto de vista político. O autor classifica essas

83
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La
production de l’espace. 4 ed. Paris: Éditions Anthropos, 2000). Primeira versão: início - fev.2006
269

práticas insurgentes em seis tipos: a territorialização em sentido estrito, a territorialização em


sentido amplo, refuncionalização/reestruturação do espaço material, ressignificação de lugares,
a construção de circuitos econômicos alternativos, e a construção de redes espaciais. Enquanto
as práticas espaciais estudadas por Corrêa guardam relação com o que Certeau define como
estratégias, as estudadas por Souza estão relacionadas com o que o filósofo francês define como
táticas.
Quanto ao habitus, Bourdieu (2007; 2011) o define como um sistema de disposições,
ou seja, tendências incorporadas pelos atores em razão dos modos como o processo de
socialização é experimentado por eles, e que preside o universo de escolhas e as práticas sociais
desses atores. Para Norbert Elias (1994; 2001) o habitus é incorporado a partir da participação
dos indivíduos nas figurações, que podem ser definidas como formas de organização social
(família, escola, ambiente de trabalho, Estado, sociedade etc) que estruturam relações de
interdependência.
O habitus se constitui na interação social gerando uma lógica, uma racionalidade
prática, ao mesmo tempo em que classifica e organiza essa interação. O habitus é, ao mesmo
tempo, condicionante e condicionador das ações dos sujeitos. “O habitus constitui a nossa
maneira de perceber, julgar e valorizar o mundo e conforma a nossa forma de agir, corporal e
materialmente” (THIRY-CHERQUES, 2006, p. 33). As práticas espacializam determinados
habitus, na medida em que sua realização é influenciada por motivações valorativas não-
conscientes.
Para compreender o fenômeno da autossegregação do ponto de vista da demanda, foi
realizada uma pesquisa de campo junto a moradores de RHFs localizados em Arapiraca-AL,
objeto empírico da tese, e não-moradores desses empreendimentos, constituindo o grupo
controle. Essa pesquisa empírica consistiu nos seguintes procedimentos metodológicos:
observação não participante, entrevista semiestruturada e questionário online.
A observação estruturada não-participante teve por intuito examinar as práticas
espaciais e o habitus dos moradores, dentro do residencial horizontal fechado, tomando por
base elementos que apareceram nas entrevistas realizadas. Esse procedimento metodológico foi
realizado entre novembro e dezembro de 2021, contemplando dias úteis e dias de fim de
semana, nos três turnos: manhã, das 6h30 às 7h30; tarde, das 16h30 às 17h30; e noite, das 19h30
às 20h30. Os horários foram escolhidos observando os períodos de maior atividade na rotina
do local. O espaço selecionado para a observação das práticas e espaciais e do habitus foi a
praça interna de um RHF de médio padrão localizado em Arapiraca. O pesquisador ficou
posicionado ora de forma fixa, ora de forma movente nesse espaço de modo a realizar a
270

observação nos dias e horários pré-definidos. As observações foram registradas em descrições


textuais e imagens e, também, mapeadas. O roteiro da observação não participante consta no
Apêndice E.
As entrevistas semiestruturadas foram realizadas entre agosto e novembro de 2021,
contemplando 6 casais de moradores de um residencial fechado de médio padrão e 2 não-
moradores desses empreendimentos, constituindo o grupo controle da pesquisa. O grupo
controle foi entrevistado para saber se as tendências afirmadas pelos moradores de RHFs seriam
exclusivas dos seus modos de vida ou resultantes de um fenômeno mais geral, experienciada
por residentes na cidade, independentemente de serem moradores em RHF ou não. Para a
estruturação da entrevista e do questionário online, foi utilizado como referência o roteiro de
perguntas formulado por Dal Pozzo (2015). As entrevistas com moradores de RHFs foram
realizadas de forma presencial, em horário e local definidos por eles, enquanto as entrevistas
com os não-moradores foram realizadas por telefone.
Os temas e perguntas que nortearam a realização das entrevistas e a aplicação do
questionário online foram divididos em cinco seções. A primeira seção, “Perfil do(a)
entrevistado(a)”, colheu informações de cunhos demográfico e socioeconômico dos
entrevistados. A segunda seção, “Habitabilidade e inserção urbana”, abordou temas que
buscaram comparar o local da residência anterior e o local da residência atual, considerando as
condições da casa e a relação do morador com o bairro. A terceira seção tratou da infraestrutura
urbana, segurança e localização. A quarta discutiu as relações interpessoai – considerando
vizinhos, amigos e familiares –, e as motivações que induziram a mudança da residência
anterior para a atual. A quinta seção elencou temas relacionados às atividades de consumo e
lazer com o intuito de possibilitar a comparação entre as rotinas de compras e recreação antes
e depois de se mudarem para o RHF. A última seção suscitou uma avaliação do entrevistado
sobre o RHF onde mora e suas perspectivas futuras. O roteiro detalhado da entrevista consta no
Apêndice B.
O questionário online foi aplicado com o objetivo de contemplar uma amostragem
maior de moradores e com perguntas objetivas, buscando compreender como a mudança para
o residencial horizontal fechado afeta a relação do morador com diferentes espaços da cidade.
Esse instrumento permitiu, também, identificar os perfis dos moradores, compreender como
eles comparam a moradia e o bairro onde eles moravam antes com a moradia e o RHF onde
moram atualmente, a visão dos moradores sobre as gestões públicas municipais e as gestões
privadas dos RHFs sob diferentes aspectos e, também, identificar tendências e perspectivas
futuras dos respondentes. O roteiro detalhado do questionário online consta no Apêndice D.
271

Em razão das dificuldades impostas pela pandemia de COVID-19 e também pela


dificuldade de acesso direto a um perfil de morador mais reservado e reticente a abordagens
para fins de pesquisa, o questionário foi formulado na plataforma Google Forms para aplicação
online, em um formato para ser visualizado com facilidade em smartphones, o meio de acesso
à internet mais disseminado, atualmente. As opções de resposta para as perguntas foram
formuladas considerando conversas informais prévias que o pesquisador realizou com
moradores de RHFs próximos do seu círculo de convívio.
Após a aprovação do questionário online pelo Comitê de Ética da UFPE, o pesquisador
iniciou os preparativos para a disseminação do instrumento nos RHFs, fazendo contato com
moradores desses empreendimentos em Arapiraca-AL, a partir do seu círculo de contatos
pessoais. Essa interação resultou em uma rede de intermediadores diretos (colegas do
pesquisador que são moradores de RHFs) ou indiretos (colegas que não moram em RHF, mas
conhecem pessoas que moram). A divulgação foi planejada para alcançar moradores de RHFs
pertencentes aos cinco grupos, conforme o estudo classificatório realizado no capítulo 4. Os
RHFs selecionados para a aplicação do questionário foram aqueles os quais o pesquisador
conseguiu acesso via intermediadores diretos ou indiretos. Com base nesse procedimento,
foram selecionados 20 RHFs distribuídos nos 5 grupos:
Grupo 1: Aroeiras, Bem Viver e Cerejeiras;
Grupo 2: Alto Jardim, Canafístula, Monte Sinai, Jd. das Bromélias, Colibri, D. Carmélia
Grupo 3: Pedro Tertuliano e Recanto Real;
Grupo 4: Altaville, Jds. Perucaba, Araville Alfa, Parc Ville e San Lorenzo;
Grupo 5: Ouro Verde, Sierra, Eldorado e Villa De La Roche.
O questionário começou a ser aplicado no dia 16 de novembro de 2021, quando foi
enviado aos intermediadores diretos e indiretos a mensagem-convite e o link do questionário
online para que eles providenciassem a postagem nos grupos internos de Whats App dos RHFs.
Quando restavam 3 dias para o encerramento da coleta de dados, foi realizado um reforço na
divulgação do link com uma nova mensagem-convite, alertando que o prazo para responder o
questionário estava terminando. Em 30 de novembro de 2021, a aplicação foi encerrada. No
total, 125 pessoas responderam ao questionário.
Para divulgar esse instrumento de coleta de dados, o pesquisador enfrentou alguns
obstáculos. Alguns RHFs de padrão médio-alto (grupo 4) e alto (grupo 5) são administrados
por empresas terceirizadas encarregadas da gestão interna desses espaços. Em um deles, a
administradora impôs como condição para a divulgação do questionário aos moradores, a
realização de uma reunião por vídeo conferência entre o pesquisador e o gerente comercial para
272

explicar os objetivos da pesquisa. Além da guarita física, os RHFs de maior padrão também
dispõem de uma “guarita virtual” onde é preciso se identificar para ter acesso ainda que indireto,
ao grupo virtual dos moradores.
O acesso virtual aos residenciais do grupo 5, de alto padrão, foi difícil em termos de
divulgação – pois o pesquisador conhece poucos moradores nesses residenciais e as redes
sociais são gerenciadas por empresas administradoras – e em termos de retorno, resultando em
menor número de respondentes. Já aos RHFs do grupo 1, o acesso virtual foi fácil em termos
de divulgação, mas o número de respondentes foi proporcionalmente baixo. Os RHFs dos
grupos 2, 3 e 4 contribuíram com o maior número de respondentes. A maior participação de
moradores desses três grupos pode guardar relação com o círculo social do pesquisador, uma
vez que ele conhece mais pessoas residentes nesses RHFs. A distribuição percentual dos
moradores respondentes de acordo com o grupo ao qual o RHF pertence pode ser observado no
Gráfico 1.
Gráfico 1 - Composição dos moradores respondentes, por grupos de RHFs

Fonte: O autor (2021)

6.1 Perfil dos respondentes ao questionário

A primeira seção do questionário online forneceu uma caracterização demográfica e


socioeconômica dos moradores que responderam ao instrumento. Observando o Gráfico 2, é
possível constatar que a maioria dos moradores respondentes tem entre 30 e 44 anos e são do
gênero feminino. O maior percentual de respondentes com idade entre 18 e 25 anos mora nos
RHFs dos grupos 1 e 5, enquanto a maior fatia dos participantes com idade entre 45 e 60 anos
273

mora nos RHFs do grupo 4.


Gráfico 2 - Caracterização demográfica dos moradores respondentes: (A) Idade; (B) Gênero.

Fonte: O autor (2021)

Quanto ao perfil familiar, a grande maioria dos(as) respondentes tem companheiro(a) e


filhos ou crianças sob sua responsabilidade (Gráfico 3). O grupo 4 apresenta o maior número
de participantes casados (97%) e com filhos (80%), enquanto o grupo 1 apresenta a menor
proporção considerando essas mesmas variáveis, 47% e 52%, respectivamente. Esses resultados
para o grupo 1 reforçam que há nele uma representação expressiva estudantes, com idade entre
18 a 30 anos. A proximidade de dois RHFs nesse grupo com o Campus da UFAL e a influência
do círculo social do pesquisador também influenciaram nesses resultados.

Gráfico 3 - Perfil familiar: (A) Estado civil; (B) Tem filhos ou crianças sob sua responsabilidade

Fonte: O autor (2021)


274

O nível de escolaridade e a ocupação indicam que a maioria dos entrevistados tem pós-
graduação e é funcionário público (Gráfico 4). Esses resultados indicam a influência dos
intermediadores que compõem a rede de contatos do pesquisador, já que boa parte deles são
funcionários de Instituição de Ensino Superior, seja ela pública ou privada. Ao mesmo tempo
indica a participação dessa categoria como um segmento relevante para os RHFs, em Arapiraca.
Os respondentes moradores dos RHFs dos grupos 4, 3 e 2 são os que respondem pela maior
fatia com pós-graduação, totalizando 64%, 58 e 56%, respectivamente. No grupo 1 estão os
participantes com os menores níveis de escolaridade.

Gráfico 4 - Caracterização socioeconômica: (A) Nível de escolaridade; e (B) Ocupação.

Fonte: O autor (2021)

Outra informação relevante sobre os perfis dos moradores de RHFs em Arapiraca é o


bairro onde eles residiam antes de se mudarem para o empreendimento fechado. Esse dado
permite conhecer a mobilidade residencial interna ou externa à cidade. Os resultados do
questionário apontaram que 11,2% dos respondentes moravam em outra cidade antes de
residirem em RHFs, uma fatia maior do que qualquer bairro de Arapiraca considerado
isoladamente. Esse dado mostra o peso dos moradores “de fora” da cidade entre aqueles que
procuram os RHFs como opção de moradia. Quantos aos bairros, Canafístula e o Massaranduba,
localizados na periferia da cidade, abrigaram os maiores percentuais de respondentes que
passaram a residir em RHFs, seguidos pelos bairros pericentrais Alto do Cruzeiro e Brasília
(Gráfico 5).
275

Gráfico 5 - Em qual bairro de Arapiraca você morou antes de se mudar para a residência atual?

Fonte: Google Forms

Considerando a estratificação por grupos, os moradores de RHFs do grupo 1, vieram em


maior número de outra cidade e do bairro Bom Sucesso localizado na periferia da cidade, onde
está situada o Campus da UFAL; já os moradores dos RHFs do grupo 2 vieram de outra cidade
e dos bairros Brasília e Canafístula; do grupo 3, vieram de outra cidade e dos bairros
Massaranduba e Planalto; do grupo 4, vieram da Canafístula, Santa Esmeralda, São Luiz; do
grupo 5, moraram anteriormente no bairro Senador Arnon de Melo ou vieram de outra cidade.
O bairro Alto do Cruzeiro abrigou moradores de RHFs de diferentes grupos, sem uma
concentração específica em um deles. Há um padrão interessante de ser analisado nos casos dos
moradores dos RHFs dos grupos 1, 3, 4 e 5: a maioria dos respondentes moravam no mesmo
bairro ou em bairro vizinho onde está situado o RHF em que reside atualmente. Esse resultado
indica que os moradores parecem trocar o loteamento aberto por um RHF dentro do mesmo
bairro ou próximo a ele.
As entrevistas realizadas com moradores de um RHF de médio padrão, localizado em
Arapiraca, e com não moradores desses empreendimentos, possibilitaram uma abordagem mais
aprofundada e qualitativa dos temas tratados no questionário. Para preservar o anonimato dos
entrevistados, seus nomes foram substituídos por iniciais fictícias. Pelo mesmo motivo, a
primeira seção, com temas que abordam o perfil do entrevistado, não foi aplicada nas
entrevistas.
276

6.2 Habitabilidade e Inserção urbana

Esta seção teve como tema introdutório uma abordagem bem livre e aberta sobre como
era vida dos entrevistados quando moravam na residência anterior, situada fora do RHF, e como
passou a ser na residência na atual, situada dentro do empreendimento. Essa perspectiva inicial,
de âmbito mais geral, teve por intuito criar um ambiente de diálogo com os entrevistados e, ao
mesmo tempo, permitir que eles falassem sobre o que consideravam importante na comparação
da situação anterior com a atual, antes de entrar nos enfoques específicos pré-estabelecidos pelo
pesquisador. Os aspectos que suscitaram maior comparação foi segurança e possibilidades de
lazer (Figura 100).

Figura 100 - Área de lazer oferecida (A) por um loteamento aberto e (B) por um RHF que comercializa lotes
do mesmo tamanho

Fonte: O autor (2020) Fonte: [Link]

O morador M.Q.D. comentou sobre o tema indicando a localização na cidade: “a gente


morava em um bairro da periferia daqui de Arapiraca, o Senador Nilo Coelho, na divisa com
o Cavaco, por [...] 1 ano e 4 meses”. É interessante observar que o bairro onde está localizado
o residencial fechado em que os entrevistados residem atualmente, está mais distante do centro
do que o bairro onde eles residiam anteriormente, sendo, portanto, mais periférico do ponto de
vista físico-espacial. O entrevistado O.W.F., companheiro de M.Q.D., ressaltou, desde o início,
a importância que ele dá à sensação de segurança: “havia uma segurança na rua, mas era assim,
particular, só para quem pagasse. Para quem não pagasse, eles não olhavam casa, nada disso.
Então estávamos meio vulneráveis”.
277

Esses serviços de vigilância privados estão presentes em diversos bairros da cidade. Eles
contam com um motociclista que faz a ronda pelas ruas do bairro durante a madrugada,
portando um alto-falante que emite um som parecido com a sirene da polícia. Contudo, o
entrevistado não percebeu que no residencial fechado também é assim: para usufruir do serviço
de segurança é preciso se dispor a pagar por ele, com a diferença que, no RHF, a contratação
do serviço é feita de forma geral e centralizada, por parte do presidente da associação de
moradores, juntamente com seus diretores.
A confiança dos moradores de RHFs na segurança privada oferecida pelas empresas
contratadas pelas administrações se expressa de forma mais visível na ausência dos muros
frontais das casas relatado pelo entrevistado M.Q.D e também na despreocupação dos
moradores com trancar as portas e janelas durante o dia ou durante à noite. A relação entre
aberturas e fechamentos se apresenta de forma invertida quando se compara as casas e os
loteamentos: antes, a casa era murada estando localizada em um loteamento aberto; hoje, a casa
é aberta estando localizada em um loteamento murado. Os muros não desapareceram, eles
foram transpostos dos arredores da casa para os arredores do loteamento, e esse deslocamento
gera implicações para o espaço urbano e para os moradores no ambiente interno da casa.
A experiência do casal P.S.T. e R.B.I. é instigante: os dois moravam com a filha em um
conjunto habitacional e se mudaram para um RHF. Segundo P.S.T. “hoje é mais tranquilo, a
gente tem um ambiente mais aberto, mais livre, mais ventilado”. A “sensação de liberdade” ou
de abertura é repetida de forma recorrente por diferentes entrevistados como um aspecto
positivo oferecido pela vida em RHF, o que, a princípio, pareceria um paradoxo, já que o
residencial é cercado com muros em todo o seu perímetro. Contudo, o RHF parece suscitar,
internamente, essa sensação de abertura em razão da inexistência de muros nos limites do lote.
Assim como O.W.F., R.B.I. também mencionou a sensação de maior segurança como um
aspecto importante na mudança para o RHF: “[...] tem noite que ele passa no trabalho e eu e
ela [a filha] ficávamos sozinhas. Quando a gente veio para cá, sentimos muita diferença com
relação a isso. Eu sentia medo. [...]. Aqui a gente já chegou a dormir achando que tinha
fechado [a porta], mas não fechamos. Se fosse lá? Tudo isso foi uma mudança radical”.
O casal de entrevistados J.S.V. e A.T.H. morou anteriormente em um bairro na periferia
de uma metrópole situada no Sudeste. A entrevista com moradores de R.H.F. que vieram de
outra cidade foi incluída na pesquisa em razão do peso que esse segmento apresentou nas
respostas obtidas pela aplicação do questionário online. De acordo com A.T.H., “morávamos
em um sobrado, a nossa vida era extremamente diferente da daqui, né? Não tínhamos tanto
acesso ao ar livre, a parques, essas coisas assim. Vivíamos praticamente trancados, de casa
278

para o trabalho, do trabalho para a casa. Não tínhamos áreas verdes.” E continua, “na
mudança para cá, a gente sentiu muito assim essa questão da liberdade, a gente conseguia
descansar, por aqui ser um condomínio fechado. J.V.S. complementou relatando que, na
residência anterior,

não tinha muita liberdade. Engraçado, porque lá em [nome da metrópole], todas as


janelas têm grades. Todas! E portões altos, às vezes com cerca elétrica. Aí meio que
deixa você trancafiado dentro de casa. Você não tem um quintal maior ou coisa do
tipo e se você tem um filho e não consegue brincar, ele vai brincar ali naquele espaço.
Só que na rua onde a gente morava, como eu cresci lá [...], era mais tranquilo, porque
nós conhecíamos o bairro todo. Aí não tornava tão perigoso, mas mesmo assim, a
gente ficava desconfortável. Porque aqui, muitas vezes, a gente fica com os meninos
assim com a porta aberta, conversando na rua, e a gente não tem aquele receio de
ficar a toda hora olhando para o lado para ver se está vindo uma moto ou uma pessoa
diferente. Isso aí era bem complicado, mas fora isso era tranquilo.

O casal deixou claro que o lazer dos filhos foi um aspecto crucial que os levou a morar
em um RHF. Neste sentido, A.T.H. reitera: “aqui no residencial, os meninos conseguem brincar
na calçada, conseguem andar de bicicleta. [...] ele desce para brincar, tem contato com grama,
brinca na grama, vai pra piscina”. A questão da segurança também aparece como um fator
determinante: “então a gente sentiu um pouco mais de segurança, até mesmo na questão de
chegar na nossa casa. A gente saía de casa e, na volta, às vezes, a gente chegava tarde [...] e
eu ficava com receio de passar algum bandido, ser assaltada. Aqui, a gente fica um pouco mais
seguro. A fala da entrevistada indica que ela já se sente em casa assim que passa pelo portão e
adentra o RHF: [...] até chegar no portão a gente fica um pouco receoso, mas do portão para
cá, você está em casa. E lá não, a gente ficava meio que olhando para o lado para ver se estava
vindo alguém. Ela arrematou afirmando que: “aqui a gente conseguiu descansar mais e
sossegar mais com essa questão da segurança”.
O casal G.V.J. e C.T.P. teve a particularidade de residir no RHF em casa alugada, o que
é pouco comum em Arapiraca. G.V.J. mencionou que a mudança para o RHF repercutiu em
transformações na vida do casal: “a gente é sozinho [eles não têm parentes próximos e ainda
não tem filhos] e passa o dia fora de casa. A gente tinha problemas, por exemplo, com entregas
de encomendas. A gente chega em casa tarde e para passear com o cachorro, às vezes, não era
viável”. A comodidade propiciada pelo recebimento das encomendas pela portaria e a
segurança para usufruto do lazer foram os fatores que apareceram de forma mais enfática na
fala do entrevistado como resposta ao tema introdutório. Para C.T.P., a segurança também foi
um aspecto dominante: “eu me sentia mais insegura na casa onde a gente morava. [...] Logo
no começo, quando a gente se mudou para essa casa antiga, eu ficava até com medo de dormir.
Era uma rua aberta. Eu ficava preocupada se a cerca [elétrica] estava funcionando ou não
279

estava... ‘escutei um barulho, vamos ali atrás para ver o que é’”. G.V.J. complementou: “a
gente acordava várias vezes para ir ver”.
O casal T.R.C. e F.M.N. residiram antes em um bairro contíguo ao que moram hoje, que
abriga o RHF onde estão. T.R.C. relembrou a experiência de morar na residência anterior com
o seguinte relato: Antes a gente morava em um loteamento que não era um condomínio fechado,
mas acabava sendo semelhante, porque [a rua] era sem saída. Então você só tinha uma entrada
e uma saída para esse residencial. Inclusive os próprios moradores daquele espaço tinham
pensado em colocar um portão para ‘condominizar’. Na verdade, [...] a gente se sentiria mais
seguro se fizesse isso, se fechasse o loteamento”. Para F.M.N.,

a estrutura permitia a gente ter [...] um pouco mais de segurança. Como era uma
entrada e uma saída, a gente às vezes achava que ficava mais isolado. Então só
entrava quem realmente tivesse interesse. Porém lá, mesmo assim, sempre entrava,
às vezes, moto, carro que a gente não conhecia [...] a gente já ficava atento. Inclusive
já chegou sim a entrar moto e fazerem assalto lá dentro mesmo, o que acabava
deixando a gente um pouco mais receoso. Mesmo algumas casas da entrada da rua
tendo câmeras, a gente ficava tenso, porque não tinha como andar ou passear por
dentro do loteamento com tranquilidade. [...] Quando a gente precisava viajar, já
ficava receoso. Sempre pedia para alguém ir lá olhar a casa. Aqui, não, a gente já
fica bem tranquilo.

O tema seguinte abordou especificamente a comparação entre as duas casas, a anterior,


em loteamento aberto e a atual, no residencial horizontal fechado. A tendência observada em
Arapiraca acompanha uma dinâmica mais geral: a diminuição dos espaços internos das
moradias, justificada tanto por questões de ordem prática, como a facilidade de limpeza e de
manutenção, quanto de ordem econômica, pois o elevado preço da terra dentro dos residenciais
tende a reduzir o tamanho do lote e, consequentemente, a área ocupada pela residência,
conforme relato do agente imobiliário L.W.C. (Figura 101).

Figura 101 – Transformações na forma de morar. (A) Casa com área total de 930 m², em loteamento aberto,
sem pista pavimentada, à venda por 1,2 milhão de reais; (B) Casa com 280m², em RHF, com pista
pavimentada, à venda por 1 milhão de reais.
280

Fonte: (A) [Link] (B) [Link]

As respostas ao questionário indicaram que a maioria dos respondentes está mais


satisfeito com a casa atual, mas essa percepção varia de acordo com o grupo ao que o RHF
pertence. Para analisar o nível de satisfação dos respondentes de forma quantificada e
representar mais facilmente no gráfico de barras, foram atribuídos os seguintes valores
numéricos à escala Likert informada no questionário: piorou muito (1), piorou um pouco (2),
igual (3), melhorou um pouco (4) e melhorou muito (5). Em seguida, foram somadas as
respostas e o total foi dividido pelo número de respondentes em cada grupo, resultando em um
valor médio informado à frente de cada barra no gráfico84. O resultado desse procedimento
pode ser observado no gráfico de barras onde é possível avaliar que os maiores níveis de
satisfação com a casa atual foram observados pelos moradores dos RHF dos grupos 3, 4 e 5, e
os menores níveis de satisfação pelos moradores dos RHF dos grupos 1 e 2 (Gráfico 6).

Gráfico 6 - Ao comparar a residência atual com a residência anterior quanto à satisfação com a casa.

Fonte: O autor (2021)

Esse resultado era esperado na medida em que os RHFs de menor padrão são entregues
com casas já construídas com áreas internas muito reduzidas, variando de 35 a 60 metros
quadrados. Em uma conversa informal foi relatado o caso de uma família que deixou de morar
em uma casa com 100 metros quadrados, localizada na área rural, para residir numa casa de 45
metros quadrados, em um RHF do tipo 1.

84
Este mesmo procedimento foi adotado para outros temas.
281

Ao entrevistar M.Q.D., ele fez a seguinte descrição da casa onde morava anteriormente:
“a casa era grande, tinha três quartos, cozinha, garagem onde cabiam cinco ou seis carros
tranquilo. A casa era murada, tinha cerca elétrica e alarme. Ela ficava numa rua que não tinha
um bom saneamento básico, o esgoto passava pela frente da casa. Tinha muita barata”.
Essa dicotomia aparece de forma bem marcada na fala de diferentes entrevistados da
seguinte forma: a casa anterior, fora do RHF, era mais espaçosa, mas estava localizada em um
bairro com infraestrutura precária; a casa atual, dentro do RHF, é menos espaçosa, mas dispõe
de serviços urbanos de melhor qualidade. Esse aspecto é importante no sentido de afirmar a
dimensão da moradia, considerando não apenas a casa, mas as condições do espaço urbano
onde ela está situada. Ao mesmo tempo, esse axioma apresenta fragilidades como
constataremos a seguir.
Sobre a casa atual, situada no RHF, M.Q.D. relatou: “é uma casa também ampla, só que
ela não tem três quartos, ela tem dois quartos, só que ela tem uma área de lazer muito boa, que
a outra não tinha. Tem um escritório também, que a outra não tinha, a gente adaptou um quarto
para ser o ambiente de trabalho [...]. Já O.W.F. enfatizou: “aqui, por ser uma casa planejada
ela é bem dividida, tem dois banheiros. [...] A casa aqui é bem mais organizada, tem tomadas
em vários cômodos, isso facilitou bastante.” O uso de termos como “organização”,
“planejamento”, “ordenamento” são acionados por diferentes entrevistados para enaltecer a
situação atual e criticar a situação anterior, tanto em relação à casa, quanto ao bairro.
O uso de termos como “organização” e “ordenamento” com meio para afirmar
hierarquia e distinção pode ser resumida na frase: hoje moramos em um espaço
organizado/planejado; e antes, não. Deste modo, o RHF é entendido como o “espaço ordenado”,
enquanto os bairros são estigmatizados como “espaços caóticos”. Não por acaso, o complexo
de RHFs implantado no entorno do Lago da Perucaba, mencionado no capítulo 4, foi
denominado pela construtora como “Bairro Planejado”, de modo a deixar claro de que não se
trata do “bairro tradicional”, mas de um novo, implantado de forma “ordenada”.
A ideia de “ordem” vendida pelo capital imobiliário para promover os RHFs guarda
relação com a reflexão de Andrés (2021): ela se impõe sobre os “indivíduos” (os de fora, os
não-moradores, os trabalhadores) como restrição de acesso e desconfiança, enquanto para as
“pessoas” (os de dentro, os moradores) ela assegura “liberdades” e privilégios, ou seja, “aos
amigos, tudo; àqueles entendidos como inimigos, a lei”... e a ordem.
Outro aspecto que os moradores consideraram importante foi, novamente, a questão da
segurança. Sobre isso, M.Q.D. destacou: Ela [a casa] não é murada, porque como é no
condomínio, então ela é aberta, a frente dela é aberta, não tem muro. Não é à toa que ela não
282

tem alarme e nem tem cerca elétrica. A cerca elétrica é do próprio condomínio. O.W.F.
reforçou: a sensação de segurança é muito maior porque a gente sabe que tem a vigilância 24
horas.
A descrição da casa anterior feita por C.T.P. e G.V.J. guarda similaridade com a
caracterização feita pelos outros dois entrevistados. O casal residiu na casa anterior por 8 meses.
Segundo C.T.P., “a gente chegava, entrava pelo portão principal, tinha o jardim, do jardim
tinha a garagem, a casa. A casa tinha uma antessala e uma sala, a cozinha do lado esquerdo,
três quartos do lado direito, um banheiro social e um dos quartos era a suíte onde a gente
ficava. Aí nos fundos da casa tinha uma área gourmet, uma churrasqueira e eu acho que só.
Era uma casa bem espaçosa”. C.T.P. continuou seu relato afirmando que “no começo da
pandemia foi ok porque a gente não sentia [...] tão aprisionado porque tinha mais espaço. A
casa era alugada.”
Um aspecto importante mencionado pelos entrevistados foi a importância de estar
morando em uma casa espaçosa em um contexto de pandemia, pois o isolamento social
recomendado pelos órgãos de saúde pública como medida sanitária para conter a propagação
da COVID-19 fez com que as pessoas passassem mais tempo em casa, desenvolvendo
atividades de trabalho de forma remota, através da internet.
Quanto à residência atual, no RHF, C.T.P. ponderou: “ela é menor em termos de espaço,
mas bem mais aconchegante [risos]. Mais fácil de limpar, também [risos]”. G.V.J. chamou a
atenção para a sensação de segurança na nova residência, exemplificando com um
comportamento que é marcante na fala dos demais entrevistados e em conversas informais que
o pesquisador manteve com moradores de outros residenciais ao longo da pesquisa: “passa uma
segurança. Por exemplo, a gente relaxou tanto aqui que esquece a porta aberta, sem trancar.
A gente relaxou bem mais em relação a horário também, para sair com os cachorros. A
segurança.” A possibilidade de deixar a porta aberta, por decisão ou por esquecimento, na hora
de dormir são as traduções mais recorrentes da sensação de segurança e de tranquilidade por
parte dos moradores. O RHF é assimilado pelos moradores como um “espaço de
despreocupação”.
A questão dos horários de trabalho em período noturno também foi um componente que
reforçou a opção pelo residencial fechado como opção de moradia. O controle e a vigilância
feitos pela portaria, o serviço interno de ronda e a vigilância colaborativa por parte dos vizinhos
foram mencionados como aspectos positivos do RHF. Sobre essa questão C.T.P. declarou que
“meu trabalho também exige que, às vezes, eu precise sair de casa ou chegar em casa em
283

horários bem inadequados e acaba que aqui eu me sinto bem mais segura de fazer isso porque
eu sei que vai ter alguém, algum vigilante, sempre tem um vizinho ou outro.”
Ao serem perguntados como eles comparam a residência anterior com a atual, C.T.P.
respondeu: “eu não vejo malefício, eu só vejo benefício, realmente. É bem mais tranquilo em
questão, assim, de moradia, de segurança. Apesar da casa ter um espaço menor, isso não fez
falta para a gente por causa das coisas boas que sobrepuseram”. G.V.J. apontou um aspecto
interessante comparando a extensão espacial da residência anterior com a atual: “tinha um
espaço enorme na outra casa, mas aqui tem o espaço enorme do condomínio. Tem a praça...”.
Essa ideia das áreas públicas internas do RHF serem consideradas como extensão da área da
residência também apareceu em relatos de outros entrevistados.
O morador P.S.T. iniciou a comparação das duas residências descrevendo a casa
anterior, localizada no conjunto habitacional, de maneira afetuosa, mostrando que ele tinha uma
relação de identificação com ela.

Nós morávamos nos Verdes Campos, um bairro vizinho às Guaribas. Nós moramos
dez anos lá. Quando nós nos casamos fomos morar lá e pretendíamos ficar lá até
[risos] o dia que Deus quisesse, né? A gente não tinha pretensões de comprar uma
outra casa, porque a casa lá eu demorei uns dois anos para poder construir, fui
construindo aos poucos, quando eu era solteiro ainda. Fui me organizando e tal e fiz
assim, era uma casinha pequena, mas bem aconchegante porque eu fiz para morar,
bem bonitinha, eu usei todo o material de primeira. É uma casinha boa, pequena, mas
bem confortável.

Contudo, ao comparar com a residência atual, no RHF, a casa anterior foi qualificada
como insegura, abafada e apertada, contradizendo a afirmação de que a casa anterior era boa e
confortável. A dicotomia entre as duas realidades, a do conjunto e a do residencial, apareceu no
relato do entrevistado nas expressões “aqui dentro” versus “lá fora”.

Nossa residência anterior era pequena, com as casinhas coladas umas às outras,
todas fechadas porque para ter segurança tinha que que ter uma casa com muros
altos. A casa era muito pequena e abafada. Lá nós não tínhamos espaço para nossa
filha brincar por ser muito apertado e até por conta do perigo da rua, né? [...] Aqui
ela tem espaço para andar de bicicleta, pode sentar aí na porta para tomar um
arzinho, você pode até amanhecer o dia sentado aí, se quiser, o perigo de ser
assaltado é quase zero, praticamente, em relação a lá fora. Porque lá fora a qualquer
hora da manhã que você está na rua, com o celular ou com alguma coisa, você corre
o risco de ser assaltado. Então o condomínio proporciona essa qualidade de vida,
né? É uma segurança, você não pode dizer que é 100% porque não funciona assim,
mas a gente sabe que o risco de assalto aqui é muito pequeno então a qualidade de
vida é outra em relação à lá fora.

A residência anterior do casal J.S.V. e A.T.H. foi um sobrado alugado, localizado em


um bairro da periferia da capital, como foi relatado por eles no início da entrevista. Instigados
pelo pesquisador a detalharem um pouco mais a descrição do imóvel, J.S.V. fez a seguinte
284

explanação: “era de aluguel a casa, né? Lá era um terreno, porque lá em [nome da metrópole]
é muito comum isso, você ter um terreno grande ou não muito grande e colocar várias casas,
[...] ou cresce para cima ou cresce para os fundos. Nosso caso, era esse, a nossa era a primeira
casa, aí eram dois andares e tinha outras casas de outros vizinhos, né? Tinha o portão e o
corredor compartilhado, a escada, e aí tinha a nossa casa, o nosso quintal, que era só pra
gente, ele não era compartilhado.”
Em seguida, A.T.H. descreve o interior da residência: “tinha dois quartos, tinha uma
lavanderia enorme, um lavabo na lavanderia. [...] A cozinha era bem pequena, a sala era
enorme, era uma sala muito grande de jantar. E aí tinha a varanda que era também muito
grande e a gente conseguia ver a rua da varanda. Daí subia e tinha os quartos, dois quartos, e
um banheiro também minúsculo, muito pequeno. Assim que era a nossa casa. Muito, muito fria.
Com muita infiltração.”
Sobre a qualidade da construção, J.S.V. acrescentou: “tinha muita umidade, porque
geralmente é uma casa grudada na outra e se o vizinho não constrói direito [...] aí infiltra
água. Tanto que [...] tinha um lado da casa que era todo com azulejo, cerâmica na parede
toda! Desde a sala até o quarto [...] por causa da infiltração. Como não tinha como evitar, foi
mais fácil colocar azulejo. Mas aí, no frio, você via assim ele úmido de tanto frio que fazia.”
Outro incômodo com a casa anterior relatado pelo casal foi com as escadas. J.S.V.
reprovou afirmando que

era um sobrado, aí tinha uma escada para subir para a casa e, dentro de casa, a gente
também tinha uma escada [...] dos quartos até a sala e a cozinha. Era bem cansativo.
Era horrível, porque se você precisava pegar um copo de água tinha que descer
escada e subir de novo. Você comprava uma geladeira e para você subir era
complicado. Tanto que na nossa casa a gente dormiu umas duas semanas [com o
colchão] no chão, porque não conseguia subir a cama pela escada, não tinha espaço.
Esse era um ponto hiper negativo: escada dentro de casa. Falei para A.T.H.: ‘nunca
mais eu quero uma escada dentro de casa’, porque era bem complicado.

Comparando com a casa atual, própria, J.S.V. enfatizou “aqui é tudo térreo. É a melhor
coisa que tem, porque lá em [nome da metrópole] eu acho que 90% das casas [...] tem escada
ou dentro de casa ou para você chegar em casa. [...]Aqui é mais espaçoso. A sala é bem grande,
bem ampla, né. Tem um quintal bom e tem uma coisa que a gente sempre quis: uma
churrasqueira em casa. [...] Só ganhamos vindo de um lado para o outro.” A.T.H. completou
descrevendo a casa atual da seguinte forma: “é muito arejada. Tem três quartos, lá nós só
tínhamos dois. Tem garagem, a nossa casa lá não tinha garagem. O nosso quarto é com suíte,
lá nós não tínhamos suíte, o banheiro era compartilhado pelos dois quartos. [...] Aqui foi só
285

pontos positivos, nessa questão da mudança de lá para cá. E o melhor de tudo é que aqui é
nosso! [risos]”
Os relatos do casal de entrevistados afirmam como o adensamento populacional e
construtivo nos grandes centros urbanos, somada à ocupação de áreas com topografia
acidentada, afetam os níveis de conforto com a moradia, no dia-a-dia das pessoas,
principalmente nas periferias. Para as classes média-alta e alta, a verticalização e o adensamento
nas metrópoles não são problemas, porque a circulação em desnível é por elevadores. As
cidades médias tem sido um atrativo, pois algumas delas ainda dispõem de grandes áreas planas
não ocupadas, possibilitando a construção de imóveis empregando menos recursos e com maior
nível de conforto para os moradores.
Ainda sobre essa questão, um aspecto interessante é que nos RHFs de médio-alto e alto
padrão, em Arapiraca, predominam residências do tipo sobrado, portanto, com escadas internas.
Esses imóveis são vendidos a preços que variam entre 600 mil e 4 milhões de reais. Uma
interpretação possível para isso é o preço da terra dentro dos RHFs: como é muito elevado para
o padrão da cidade, os terrenos vendidos dentro dos RHFs são menores, conforme relatado pelo
agente imobiliário L.W.F. Nesse caso, se o morador quiser mais espaço interno para a casa, ele
precisará construir a residência com o pavimento térreo e mais um, superior.
Há, nesse caso, fatores relacionados com o âmbito do “simbólico”, que na teoria
sociológica de Bourdieu, diz respeito a questões de reconhecimento, legitimação e valor social.
Conforme o agente imobiliário S.M.R., as construtoras definem o padrão do RHF induzindo a
construção de casas com determinada quantidade de área construída e padrões de acabamento
que desencorajam a edificação de residências mais simples. Os sobrados, dentro dos RHFs em
Arapiraca, são expressões de opulência sob o signo da “elevação”: eles diferenciam das casas
térreas em termos de elevação da fachada, e ao mesmo tempo, distinguem seus moradores em
termos de elevação de status. Para alguns, o esforço realizado para deslocar-se verticalmente
no espaço físico da casa parece ser compensado pelo esforço empreendido para deslocar-se
verticalmente no espaço social.
A experiência do casal H.R.D. e D.M.B. diferencia dos anteriores pelo fato da moradia
anterior ter sido em apartamento, numa capital de estado no Nordeste. Segundo H.D.R.,
“quando a gente se mudou para cá, a gente veio já casados. Eu era solteiro e morava em [nome
da capital]. Ela ia frequentemente lá e eu morava em um apartamento. [...] Aí era bem
tranquilo, assim. Foi nossa primeira experiência morando em um residencial fechado, só que
era de apartamentos, né? Aqui, são casas”. Descrevendo um pouco mais a residência anterior,
286

H.D.R. complementou: “era um apartamento pequeno, de dois quartos, cozinha, uma área de
serviço pequena e uma sala de jantar e estar.”
Sobre a residência atual, H.R.D. iniciou afirmando que “a nossa casa, hoje, a gente pode
dizer que foi ‘um achado’. Porque a gente sempre procurou um lugar tranquilo onde a gente
pudesse construir uma família, né? E a gente conseguiu encontrar aqui, onde moram pessoas
que a gente vê que algumas são de bom poder aquisitivo e outras não, mas, no todo, são pessoas
que têm uma vida profissional e eu acho que isso evolui o local onde você mora, né? Você mora
em um local com pessoas que trabalham, que tem uma vida corrida assim nesse sentido. É bem
interessante para a gente, assim.”
Nessa declaração de H.R.D, a questão da distinção é manifesta de forma mais objetiva:
morar em um RHF significa estar próximo de um certo “nicho social interessante”, não em
termos de renda, apenas, é importante frisar. Quando a renda não é suficiente para afirmar
distinção, é preciso compensar com valores atrelados ao trabalho, mencionados pelo
entrevistado como “pessoas com uma vida profissional”, “pessoas que trabalham”, “pessoas
que têm uma vida corrida”.
H.R.D. prosseguiu, dizendo: “sem falar que a gente optou pela questão do
condomínio...” Nesse momento, ele foi interrompido por D.M.B. que completou: a segurança!
H.R.D. concordou, retomando: “pela questão da segurança. Eu, particularmente, já morei em
três estados e a gente vê que é complicado. Hoje, aqui, você vê, dá para andar de bicicleta na
rua, estar na porta conversando. D.M.B. acrescentou: fazer uma caminhada, né? H.R.D.
arrematou: “teve toda essa questão aí de segurança que foi o primordial”.
É fundamental observar que, embora todos os casais entrevistados destaquem a questão
da segurança como a motivação principal para morar em RHF, ela é afirmada de forma mais
enfática por um dos cônjuges. Em geral, nos casais heteroafetivos, a mulher afirma a questão
da segurança com maior ênfase do que o marido, enquanto nos casais homoafetivos, ela é
apontada de forma mais incisiva pelo cônjuge que se expressa com maior sensibilidade.
Os entrevistados T.R.C. e F.M.N. alegaram que a casa anterior se parecia com a atual
em termos de área, mas tinha um padrão construtivo menos refinado. Conforme T.R.C., “era
uma casa mais ou menos do tamanho dessa. [...] uma sala que já era conjugada, sala de jantar
e sala de estar, e já ia direto para cozinha. Era um espaço aberto só. Três quartos, um deles
era suíte. Tinha um banheiro, um quintal. Garagem para dois carros, apertado. Não tinha
jardim e tinha muro. Tudo térreo. Não era primeiro andar.
Já F.M.N. estabeleceu a caracterização em termos de padrão construtivo: “o padrão da
casa era razoável. Ela não chegava a ser o padrão daqui, do condomínio. Ela não chegava,
287

também, a ser um padrão de uma casa popular, [...] porque ela já tinha até seu projeto
arquitetônico, até mesmo o material que era utilizado, inclusive o piso era porcelanato. Já saía
daquele padrão cotidiano. Ela já estava um pouco mais elevada, mas não chegava a ser o
padrão da casa que a gente tem hoje.”
Prosseguindo com a comparação entre a residência anterior e a atual, T.R.C. salientou:
“Aqui é, em tudo, melhor do que lá.” Na mesma direção, F.M.N. concordou: “Rapaz, eu acho
que não tem nada que aqui não tenha superado [risos]. Eu acho que em tudo. Porque a gente
tinha alguns problemas. Por exemplo, lá [...], às vezes, tinha falta de água e a gente utilizava
poço. E às vezes o poço já não era tão bom”. T.R.C. reforçou: “a água do poço era horrível!”
A questão da segurança apareceu na fala de um dos cônjuges com maior ênfase, atrelada
à preocupação com os momentos de entrar e sair de casa. Sobre isso, T.R.C. apontou que “tinha
a questão de toda a vez, [...] estar abrindo o portão e fechando o portão. E mesmo abrindo o
portão, a gente sempre dava uma olhada para ver se estava vindo alguém [...]. Mas em todos
os sentidos aqui é muito melhor. Estrutura de casa, de ventilação da casa, de liberdade.
Em seguida, T.R.C. se lembrou de um aspecto que a casa anterior era melhor: “o defeito
que eu acho nessa casa é que ela é muito quente. Ela é voltada para o sol.” F.M.N. ratificou
essa comparação: “é, tem essa questão. Lá não. A casa era um pouco quente, mas a gente não
tinha essa situação não.” Com a ida para o residencial fechado, o casal optou por mais
segurança em prejuízo do conforto ambiental da residência. O mesmo morador prosseguiu se
lembrando de mais um ponto positivo da casa anterior em relação à atual:

Tem uma coisa, sim, que lá eu gostava mais do que aqui. [...]Porque como lá era tudo
murado, tinha um portão, [...] tem os bichos da gente. A gente tem uma cachorra e
três gatos [...]. Eles não saíam. Aqui não. Quando a gente teve que vir morar aqui, a
cadela da gente teve que ficar morando com minha mãe e a gente trouxe os gatos.
Por mais que a gente tente prender, mas você sabe que não tem jeito. Vai, não, vai a
gente tem essa preocupação dos gatos não fazer xixi ou cocô fora, no jardim do outro.
A gente fica meio temeroso. Mas assim, é só uma das coisas que a gente fica um pouco
cismado em relação ao condomínio. Porque como ele acaba sendo mais aberto, então
os gatos também têm essa liberdade de estar em um ambiente mais aberto, aí às vezes
eles acabam incomodando. Só isso que a gente fica um pouco mais receoso.

Essa é uma questão importante que tensiona a vida cotidiana dentro dos RHFs: os
animais de estimação. A maioria das reclamações e atritos entre moradores de RHFs está
relacionada com cachorros e gatos de estimação soltos fazendo dejetos nas áreas públicas
internas e nas dependências das casas de outros moradores ou representando risco de ataque às
crianças e vizinhos. Os donos de animais são frequentemente relembrados de suas obrigações
pela administração dos RHFs, embora o problema dos dejetos em áreas de uso coletivo sejam
288

ainda um problema muito comum. Outro axioma que é possível formular sobre os espaços
internos dos RHFs seria: moradores mais livres e animais de estimação mais presos.
A imposição de algumas restrições para convívio interno entre moradores nos RHFs
entra em conflito com a “sensação de liberdade” afirmada pelos entrevistados. A experiência
de morar em RHF traz maior tranquilidade e despreocupações para algumas situações como
dormir sem trancar as portas e janelas, enquanto para outras, suscita maior tensão e mais
preocupações, como o caso dos animais de estimação.

6.3 Infraestrutura urbana, segurança e localização

As respostas com a avaliação dos moradores dos cinco grupos de RHFs referentes a
abastecimento de água, esgotamento sanitário, drenagem de águas pluviais, pavimentação de
vias, fornecimento de energia elétrica domiciliar e iluminação pública foram agregadas sob a
denominação “infraestrutura urbana” e podem ser observadas no Gráfico 7.

Gráfico 7 - Ao comparar a residência atual com a residência anterior em termos de infraestrutura urbana.

Fonte: O autor (2021)

É possível constatar que quase 50% dos moradores respondentes ao questionário online,
não viram diferença entre a infraestrutura urbana que tinham na residência anterior, em
loteamento aberto, e aquela que os atende na residência atual, dentro do RHF. Contudo, aqueles
que atribuem melhora nas condições de infraestrutura correspondem ao dobro dos que os
avaliam como piora. Para uma análise mais detalhada das avaliações, os dados foram
289

desagregados diferenciando-os tanto em termos de cada infraestrutura, isoladamente, quando


por grupos de RHFs.
Conforme o procedimento relatado anteriormente, a escala Likert que varia de “piorou
muito” a “melhorou muito”, foi substituída por valores numéricos de 1 a 5, respectivamente.
As médias estão informadas em frente às barras no gráfico. Os resultados apontaram que os
respondentes que são moradores de RHFs do grupo 1, de padrão mais simples, avaliaram que
as infraestruturas de abastecimento de água e esgotamento sanitário melhoraram de forma mais
significativa com a mudança para os RHFs. Os acessos à água encanada, com menor
dependência dos poços; e à fossa séptica, em comparação com fossas rudimentares, podem
explicar essa melhora na avaliação. Já a iluminação pública apresentou uma avaliação menos
positiva por parte desses moradores, acompanhados pelos respondentes dos RHFs dos grupos
2 e 3 (Gráfico 8).
290

Gráfico 8 - Avaliação dos moradores sobre as condições da infraestrutura urbana considerando os


diferentes grupos de RHFs.

Fonte: O autor (2021)

Os moradores dos RHFs pertencentes ao grupo 2 foram os respondentes que avaliaram


pior as condições de infraestrutura quando compararam a residência atual com a anterior. As
respostas obtidas de moradores de RHFs do grupo 3, indicam que eles não observaram
melhorias substanciais em nenhuma das infraestruturas, já que os valores se mantiveram
próximos de 3 em todas elas.
Os respondentes que moram em RHFs de padrão mais sofisticado, dos grupos 4 e 5,
avaliaram que a mudança para o residencial repercutiu em infraestruturas melhores quanto à
pavimentação das vias, à drenagem das águas pluviais e à iluminação pública. É pertinente
mencionar que, apenas nesses grupos, houve médias que alcançaram valores maiores do que 4.
Comparando a infraestrutura urbana oferecida no bairro onde morava antes, com o RHF
onde reside atualmente, M.Q.D. discorreu que “água nunca faltava porque a tubulação central
291

da CASAL [Companhia de Saneamento de Alagoas] passa por lá, então a água era 24 horas.
[...] A pressão era tão forte que a gente tinha que fechar o registro ou então perdia a boia”.
Por outro lado, O.W.F. salientou: “mas as quedas de energia eram constantes, constantes!” e
M.Q.D. ratificou: “todos os dias, toda semana faltava energia duas, três vezes”. O mesmo
entrevistado relatou os incômodos com as interrupções no fornecimento de energia no bairro
onde residia anteriormente: “a gente passou uma noite acordado porque faltou energia e, com
as muriçocas, não conseguimos dormir. No outro dia, quando a gente ia trabalhar, faltou
energia de novo. Aí a gente preferiu sair para dormir em um hotel para descansar e poder, no
outro dia, trabalhar”. E continuou, “sem contar as outras vezes que a gente saía de casa sem
a chave do motorzinho do portão elétrico, quando a gente chegava e não tinha energia, a gente
tinha que ficar dentro do carro esperando a energia voltar para entrar em casa”.
Na casa atual, no RHF, o problema da falta de água parece ser recorrente, mas o
entrevistado O.W.F. relativizou, resistindo em reconhecer isso de forma mais enfática:
“acontece, mas lá como era um ambiente mais baixo em relação a outras regiões da cidade, a
água realmente nunca faltava, mas aqui, é um dos defeitos também, daqui”. O casal de
entrevistados parece entrar em acordo que o abastecimento de água era melhor na casa anterior,
no loteamento aberto, ao passo que o fornecimento de energia é melhor na casa atual, no RHF.
De todo modo, a dicotomia começa a apresentar fragilidades na medida em que a expectativa
de mudança para o RHF suporia a melhoria da infraestrutura em todos os sentidos.
Sobre a drenagem e o lixo, M.Q.D. discorreu que: O escoamento da água de lá quando
chovia, a água fluía parecendo um rio assim passando pelo lado descendo, no acesso principal
da casa. [...] Tinha tipo um terreno baldio que o povo fazia até de lixão, muitas vezes.
Colocavam lixo do lado da casa. Aí tinha burro, cavalo, tudo por ali também. O.W.F.
comparando os dois locais, alegou: “o que eu percebo é, a estrutura favorece mais aqui, no
condomínio, do que lá. Era bom também, mas aqui é bem melhor. M.Q.D. arrematou: mais
organizado! Aqui a ideia de “organização” é acionada para atribuir vantagem não
especificamente à casa, mas ao RHF em seu conjunto, em comparação com o loteamento aberto.
P.S.T. e R.B.I. recordaram, avaliando a infraestrutura instalada no conjunto, que as ruas
são bem estreitas, não é uma largura padrão como no geral, de 7 metros, lá só tinha 5 metros
e meio. Então quando parava um carro, para passar outro já ficava meio difícil, né?
O entrevistado relembrou os problemas decorrentes desse subdimensionamento das
vias, ironizando a intenção dos engenheiros responsáveis pelo empreendimento: Lá é um
conjunto. Foi obra do governo federal, parceria dele com a Caixa. Só que os engenheiros, as
pessoas que fizeram, não sei porque, acho que acharam que quem ia morar talvez lá fossem
292

pessoas que só tivessem uma carrocinha de burro ou uma bicicleta [risos] aí eu acho que eles
fizeram pensando nisso. Até no início, para entrar a coleta de lixo lá era uma briga. R.B.I.
complementou, recordando que “não passavam os Correios. Quando chegava as nossas
correspondências tinham que ir para a casa da mãe dele ou da minha”. As falas dos
entrevistados evidenciam como inadequação do sistema viário implantado no conjunto
habitacional comprometeu a prestação dos serviços urbanos.
P.S.T. ponderou que o conjunto habitacional dispunha de melhor localização que o
RHF, apesar da infraestrutura de pavimentação das vias ser mais precária:

O bairro lá não fica assim tão longe do Centro, acho que lá, talvez, fique até um
pouco mais perto do que aqui, só que o conjunto lá não era calçado. Ele tinha toda a
estrutura de saneamento, foi feito tudo, mas houve uma enrolada lá entre a prefeitura
e a empresa construtora e eles [...] calçaram as duas primeiras ruas e o restante ficou
“no barro”. Então, quando era no inverno, eu vinha com o carro ou a moto, na época,
aí era horrível, né? Muita lama, muito buraco. Aí quando passava o inverno vinha a
poeira. Ela [a esposa] limpava a casa de manhã e à tarde tinha que limpar de novo
por conta daquela poeira.

Comparando de forma objetiva o conjunto habitacional e o RHF, P.S.T. afirmou que,


em termos de estrutura, aqui não tem nem comparação, aqui está tudo calçado, você sai e não
tem a lama, não tem a poeira e tal. A poeira tem só das construções, mas é normal, é só um
período que vai passar. O local em si ofereceu um conforto diferente em relação ao bairro lá.
A reclamação de P.S.T. sobre a atuação da administração municipal prefeitura
corroborou a fala do agente imobiliário S.M.R. sobre a precariedade da oferta de infraestrutura
nos loteamentos abertos (Figura 102) e os problemas decorrentes da não implantação de praças
nas áreas públicas: era um bairro em que a prefeitura não dava aquela assistência que devia,
né? [...] Muitas vezes eu fiz mutirão e eu mesmo limpei os matos lá do local que era para fazer
a praça que eles não fizeram. Então tinha muito mato, muito lixo e eu me incomodava muito
com isso. Foi uma das coisas também que me fez sair de lá.
293

Figura 102 – Infraestrutura urbana: (A) em rua do bairro Planalto (B) em rua de um RHF do grupo 2.

Fonte: O autor (2021) Fonte: [Link]

Sobre a iniciativa de formar o mutirão de limpeza da área, o entrevistado reclamou do


comportamento dos vizinhos que moravam no conjunto habitacional:

aí fazia um mutirão lá [...] a gente limpava tudo e às vezes eu chegava do trabalho e


ficava até meia-noite, uma hora da manhã na rua lá limpando e juntando o mato [...]
pintava o meio-fio, só que, com poucos dias, eu observava que o pessoal jogava lixo
de novo e tal. [...] levava ofício na Prefeitura para trocar as lâmpadas [...] eu e outro
rapaz a gente colocou placa, nome e número nas casas todas para ver se o Correio
passava. Depois de tudo pronto não adiantou nada porque o correio nunca passou.
[...] Então tudo isso foi somando, foi juntando, acumulando aquilo ali e chegou um
momento que eu disse “ah, não dá para a gente ficar aqui mais não, vamos procurar
um lugar mais interessante onde a gente possa ter um pouquinho de paz e de conforto
também”. Então terminou a gente vindo para aqui e hoje estamos aqui.

O morador tentou organizar seu local de moradia com esforço próprio e dos vizinhos,
mas desistiu. De forma objetiva, os fatores relacionados com a moradia no conjunto
habitacional que influenciaram de forma decisiva a mudança com a sua família para o
residencial fechado, segundo o relato de P.S.T., foram: a insatisfação com a construtora, em
razão da entrega das obras inacabadas e vias subdimensionadas, sem pavimentação;
insatisfação com poder público municipal, decorrente da não-implantação da praça, da falta de
assistência e da manutenção na área; a insatisfação com a prestação de serviços por parte dos
Correios, dificultada pelas precariedades anteditas; e, também, a insatisfação com os vizinhos,
que não colaboravam com a limpeza ou colocavam os carros na frente da garagem do
entrevistado (fato mencionado em outro trecho da entrevista).
Sobre as infraestruturas de abastecimento de água e fornecimento de energia domiciliar,
P.S.T. não viu diferença ao comparar o conjunto habitacional com o RHF. Porém, quanto à
iluminação pública, tanto no conjunto quanto no RHF o entrevistado avalia como deficitário: o
que deixava a desejar era a questão da prefeitura, porque nós passamos um período lá no
294

escuro, praticamente. As luzes dos postes queimavam e para eles irem trocar era uma guerra.
Passava, às vezes, um mês, dois meses e o pessoal reclamando na rádio e tal. [...] O que eu
vejo que está faltando aqui entra a questão da prefeitura de novo, né? É a questão da
iluminação [pública] lá fora, porque até eu ouvi, não sei se procede, uma conversa em que o
prefeito disse que não ia mais trocar nada aqui, né?
A crítica à Prefeitura por recusar fazer a troca das lâmpadas nos postes dentro dos
residenciais horizontais fechados volta à cena e com o mesmo discurso: “Só que ele não pode
fazer isso, porque nós pagamos todo mês um absurdo de taxa de iluminação pública. A minha,
todo mês, vem 30 ou 40 reais, e aí como é que ele diz que não vai oferecer o serviço? Então o
condomínio pode entrar na justiça. Então tira essa taxa do nosso... que dava para a gente
manter isso aqui. Com essa taxa que a gente paga, deixava isso aqui igual a uma cidade, tudo
iluminado porque é um absurdo o que você paga e na hora de você trocar uma lâmpada eles
ficam botando dificuldade.
O entendimento do morador é que a taxa de iluminação pública que ele paga é só para
a iluminar o local onde ele mora, quando na verdade a taxa serve para iluminar todos os locais
por onde ele passa na cidade, conforme o texto constitucional e o entendimento apresentado
pelas agentes públicas entrevistadas. É pertinente observar que a “solução” apresentada pelo
entrevistado seria transferir a taxa cobrada pelo poder público para o âmbito da administração
privada do residencial fechado, convertendo-a em melhorias internas. Essa compreensão
explicita a visão privatista e fragmentária da gestão urbana por parte de moradores de RHF,
segundo a qual, a cidade é reduzida ao entorno imediato da residência de cada um, até o limite
dos muros do residencial.
Sobre a comparação entre o provimento de infraestrutura no bairro onde morava antes,
na periferia de uma grande cidade, com aquela ofertada em Arapiraca e no RHF, J.S.V. advertiu
que “uma coisa que a gente notou muito é o valor da energia. Aqui é muito mais caro do que
em [nome da metrópole]. [...] Não dá para entender . E a água também. Aqui eu acho a
qualidade, não da água em si, mas do serviço, péssima. Tipo, de 10 eu dou [nota] 1,5, no
máximo. Porque lá em [nome da metrópole] [...] tinha casa que tinha vinte metros de altura,
[...] e a água chegava lá na caixa lá em cima. E aqui, às vezes, a água está fraca e ela não
consegue abastecer a caixa d’água [em casa térrea]. Então, isso para mim, é péssimo. Eu fico
muito chateado com isso. Eu falo com ela [a esposa]: não é possível, a gente paga água e não
tem isso aqui.
Complementando o relato anterior, A.T.H. lamentou: “e a gente tem o Rio São
Francisco, né? Isso entristece muito, essa questão do abastecimento de água aqui, eu acho que
295

é muito precário. Eu acho isso um ponto negativo que deixa muito a desejar. E, também, eles
cobram não o que é justo porque eu acho que não é justo a gente pagar por [...] fornecimento
de água e eles não devolverem para a gente o justo do que a gente paga. É inferior. Isso eu
acho um ponto negativo. A questão da luz também, eu pelo menos, particularmente, acho um
ponto negativo porque a gente lá pagava bem mais barato e tinha um consumo bem maior de
luz. Aqui a gente usa menos e o custo é bem mais alto.
A diferença da qualidade dos serviços urbanos oferecidos na periferia da metrópole em
relação àquela oferecida no município de Arapiraca, uma cidade média no interior de Alagoas,
é sentida de forma acentuada pelo casal de moradores. Se, na moradia anterior, a localização
impunha um adensamento populacional e construtivo além de uma topografia acidentada que
incomodava com o desconforto de subir e descer as escadas, na moradia atual a precariedade
dos serviços de infraestrutura aparece de forma mais marcante.
É oportuno observar que a topografia mais plana observada em Arapiraca favorece a
construção de casas em terrenos sem grandes aclives ou declives, mas não chega a possibilitar
um serviço de abastecimento de água mais eficiente. Em diversos bairros localizados em áreas
com cotas um pouco mais elevadas, a pressão da água não é suficiente para encher as caixas
d’água. Isso explica o fato de muitas residências na cidade disporem de poços artesianos ou
cisternas para abastecimento complementar.
O novo Sistema Adutor do Agreste, cuja estação de tratamento está localizada em frente
Campus da UFAL, foi inaugurado em 2014 para resolver os problemas frequentes de
interrupção no abastecimento que atingia cerca e 400 mil pessoas no interior do Estado de
Alagoas. Contudo, os problemas no abastecimento de água persistem em diversos pontos da
cidade. Nas regiões mais altas, o problema é crítico. O sistema adutor foi implantado por uma
parceria público-privada entre governo do estado e Mineradora Vale Verde, que demanda um
grande volume de água bruta para a atividade minerária.
Em consonância com P.S.T, a moradora A.T.H. também reclamou da atuação da
prefeitura sobre a contribuição para a iluminação pública: “Essa questão de taxa de iluminação
pública, também, eu acho um absurdo, porque a gente paga a taxa e eles não devolvem para a
gente o que eles têm que devolver [...]. Aqui dentro do residencial mesmo o que mais tem é
poste com lâmpadas queimadas, sem luz. Sobre isso, J.S.V. comparou: Lá em [nome da
metrópole] a gente não tinha isso. Se queimasse a luz do poste, na mesma hora eles já estavam
lá. Concluindo, os dois entrevistados resumiram a comparação nos seguintes termos: “aqui a
energia oscila mais do que lá. [...] Aqui falta muito a água. Lá a gente nunca teve problema
com falta de água”. “Aqui eu percebi que a gente não paga esgoto. Lá em [nome da metrópole],
296

a gente pagava esgoto, o esgoto era tratado e aqui não é. No residencial não, mas em muitos
lugares que eu ando aqui, eu vejo que o esgoto é a céu aberto, não tem um saneamento básico.”
É contundente a forma como a dicotomia inverte completamente quando se comparava
a casa anterior e atual e quando se compara a infraestrutura anterior e a atual: os “lás” e os
“aquis” assumem valores opostos. Essa questão é avaliada nos termos dos serviços prestados
no âmbito da cidade de uma metrópole como um todo e à cidade de Arapiraca como um todo.
De todo modo, é relevante observar que o RHF de padrão intermediário, em Arapiraca, onde
moram os entrevistados, não oferece uma infraestrutura tão diferenciada em relação ao conjunto
da cidade, a não ser quanto ao esgoto a céu aberto. A fala dos moradores permitem considerar,
também, que um RHF de padrão intermediário, em Arapiraca, não oferece uma infraestrutura
urbana melhor daquela que atende a periferia de uma metrópole.
A mesma pergunta foi respondida por C.T.P nos seguintes termos: A infraestrutura do
bairro [São Luiz] é um pouquinho precária. A rua onde a gente morava não era calçada, era
de terra. [...] A rua ficava muito esburacada, era horrível para se locomover. Uma bicicleta
passava mais rápido do que um carro [risos]. Muita poeira na casa porque a rua era de terra.
G.V.J. concordou com o relato da esposa acrescentando que “em tempos de chuvas e trovoadas,
sujava demais a casa [...]. Em época de colheita de fumo a casa ficava coberta de fuligem e
um cheiro forte, também”.
C.T.P. ressaltou como os problemas de infraestrutura amplificam a sensação de
insegurança nos loteamentos abertos: “a gente dependia muito da máquina passar na rua para
garantir que a gente chegasse em casa mais rápido. E, às vezes, isso gerava um certo medo,
quando a gente chegava em casa de madrugada e precisava andar um pouco mais rápido
[risos] [...] e não conseguia por conta da rua toda esburacada.
Outro problema relatado por C.T.P. era com o fornecimento de energia: vez ou outra a
gente tinha problemas para ligar o chuveiro elétrico, porque a gente sofria choque. [...] a gente
não sabe se é do bairro como um todo ou da casa específica. A questão de água acho que nunca
faltou e tinha muita infiltração assim na casa.
Sobre a inserção urbana do bairro no que tange a mobilidade e acesso a serviços, os dois
entrevistados ponderaram que: “com relação ao bairro, assim, era mal localizado para a gente
porque nosso trabalho é em outro canto da cidade. [...] Para ir ao shopping, também era um
pouquinho mais longe. Tinhas uns problemas de acesso, de localização, o bairro em si tinha
padaria, acho que era bem...”. Na mesma direção, C.T.P. colocou que; “tinha coisas essenciais
próximas, mas a questão do acesso a depender do tempo era um pouquinho mais chato por
conta da chuva.”
297

A questão da proximidade com estabelecimentos de comércio e serviços é um aspecto


chave quando se compara o loteamento aberto com o RHF. A facilidade com que se acessa
padarias, farmácias, mercados quando se mora em “casa na rua” é maior do que quando se mora
em RHF, talvez porque a rua seja o local por excelência onde se distribuem diversos usos e
possibilidades. O uso do solo exclusivamente residencial remonta ao zoneamento
monofuncional do urbanismo modernista, preconizado na Carta de Atenas, em que cada região
atenderia uma das quatro necessidades do indivíduo-tipo (habitar, trabalhar, circular e desfrutar
do lazer) e, logo, cumpriria uma função específica. Esse disparate, amplamente condenado
pelos estudiosos da cidade no decorrer das últimas seis décadas, volta sob o signo dos RHFs
como um deja vù.
Comparando a localização da moradia anterior com a atual, o casal de entrevistados
disse que “para a gente ficou bem melhor, bem melhor mesmo, em questão de acesso. Até para
ir ao nosso trabalho ficou bem mais perto, [...] da saída para os meus outros trabalhos. Então
ficou bem mais próximo. A questão da infraestrutura a gente também acha bem melhor, né?
Assim, não tem problemas na rede elétrica, não tem problema de faltar água (G.V.J.). Embora
seja uma reclamação recorrente dos moradores de diferentes RHFs localizados em Arapiraca,
para esse casal de entrevistados, o residencial fechado onde eles passaram a morar fica próximo
de estabelecimentos comerciais que atendem às necessidades deles: “aqui tem dois ou três
mercadinhos nessa rua principal, de modo que o que precisar, tem perto. Na outra [rua] lá tem
farmácia, tem mercadinhos também” (G.V.J.).
Sobre a iluminação pública, G.V.J. afirmou que no bairro onde moravam antes, a gente
não andava muito à noite por causa do serviço e dos problemas de segurança. A gente não se
sentia seguro para isso. Mas não tenho recordação de achar escuro demais, não. Comparando
com o RHF, o entrevistado não menciona as lâmpadas dos postes queimadas que não são
substituídas. Aqui, eu ando nas ruas e já cheguei a andar de madrugada aqui, meia-noite. A
questão da segurança, novamente, é acionada na fala do entrevistado sob a forma de
“despreocupação”. C.T.P. concluiu dizendo que “a gente acha bem localizado. De um modo
geral, a gente gosta de morar aqui.”
H.D.R, que residiu em um edifício de apartamentos, comentou sobre a infraestrutura
que atendia a residência anterior: “era um bairro bem localizado lá em [nome da capital]. Era
próximo ao shopping center, rodoviária, posto de saúde, terminal rodoviário. A estrutura ainda
estava meio precária, porque lá era um bairro que estava em expansão, né? Na época eles
ainda estavam terminando algumas pistas, algumas coisas, mas era bem interessante. Instigado
a falar sobre a infraestrutura de saneamento, H.D.R. prosseguiu: “lá essa parte era bem
298

tranquilo, também. Só que lá tem a questão de esgoto em que você paga uma taxa e tudo. Essa
parte eu não sei lhe dizer se era bem investido esse valor, não. A gente pagava um valor
considerável. Praticamente a metade da nossa conta de água era para a questão do esgoto.
Ao serem perguntados sobre a infraestrutura urbana do RHF onde moram, D.M.B.
respondeu: “aqui eu acho melhor do que lá fora”. Já H.D.R. declarou: “Lá eu achava melhor,
entendeu? Porque lá, como é uma capital, a questão de condomínio é bem melhor trabalhada
porque as pessoas estavam mais habituadas. Aqui em Arapiraca, a gente vê que é um conceito
que ainda está engatinhando, mas tem tudo para prosperar, também. Porque em termos de
estrutura física eu acho que aqui a gente está bem servido, falta mais uma questão de as pessoas
compreenderem como é essa dinâmica de viver nesse tipo de sociedade.”
As respostas do casal desencontraram porque os cônjuges estavam comparando
situações diferentes: D.M.B. estava se referindo à infraestrutura dentro e fora do residencial,
em Arapiraca, ao passo que H.D.R estava comparando a infraestrutura do RHF em Arapiraca
com a do edifício vertical, na capital de estado. Os relatos dos moradores que residiram fora de
Arapiraca antes de irem morar em RHF indicam uma convergência: as infraestruturas
oferecidas nas cidades maiores, seja numa capital no Sudeste, seja numa capital no Nordeste,
ainda que em áreas de periferia ou de expansão urbana, são melhores do que aquelas oferecidas
no RHF de padrão intermediário, em Arapiraca.
T.C.R. e F.M.N. moravam antes em um bairro contíguo ao que está situado o RHF, onde
moram hoje. Esse fato também apareceu nos resultados da aplicação do questionário. Muitos
moradores de RHF moravam antes no mesmo bairro ou em um bairro próximo daquele onde
residem atualmente. Comparando o loteamento aberto onde moravam antes com o RHF onde
moram atualmente, em termos de localização e infraestrutura, o casal respondeu de forma
taxativa. De acordo com F.M.N., “a localização lá era melhor, mais próximo da pista,
supermercado próximo, posto de gasolina também era mais próximo”. Para T.R.C., “mas a
infraestrutura daqui nem se compara”.
O entrevistado T.R.C. detalhou mais a descrição, explicando porque avalia melhor a
infraestrutura do RHF em relação ao loteamento anterior, enfatizando a dicotomia “lá, precário”
versus “aqui, resolvido”: “quando nós chegamos, a rua nem calçada era. A rua era no barro.
Aí foi depois que passaram saneamento e calçaram a rua. Foi uma época de inferno. Porque
tudo era sujo, a gente não conseguia entrar com o carro. Foi horrível, terrível a gente passar
por essa transição. Aqui não, a gente já chegou e tem tudo pronto”.
Uma questão que escapou à avaliação de T.R.C. foi que no loteamento aberto foi
instalada a rede de esgotamento sanitário – que ainda não entrou em funcionamento em razão
299

de pendências na estação de tratamento – enquanto que no RHF onde passaram a morar, a


solução de esgotamento adotada é a fossa séptica – cada casa conta com a sua. Nas cidades com
melhores condições de infraestrutura, as fossas sépticas são adotadas como solução alternativa
à rede geral de esgoto, quando as tubulações não passam pelo local. Em Arapiraca, a fossa
séptica é empregada como solução de esgotamento sanitário em RHFs inseridos no tecido
urbano da cidade. Em alguns RHFs, foi implantado sistema autônomo de coleta e tratamento
de esgoto, porém a manutenção desse sistema deve ser realizada pela Companhia de
Saneamento de Alagoas (CASAL), o que não é feito de forma sistemática, gerando conflitos e
reclamações.
O entrevistado F.M.N. acrescentou que, no loteamento aberto, “tinha uma área próxima
que estava sendo preparada para fazer uma área verde, uma praça. Porém, bem abandonada
porque ninguém usava[...], ninguém tomava iniciativa de cuidar daquela área. Mas assim, era
um espaço bem legal, que dava para ser bem aproveitado. A descrição de F.M.N. convergiu
com a de P.S.T. ilustrando que nos bairros mais afastados da cidade prevalece o abandono por
parte das construtoras – que entregam o loteamento com obras inacabadas, principalmente a
pavimentação –, e do poder público que não implanta praças nas áreas públicas.
Em termos de iluminação pública, energia elétrica domiciliar e abastecimento de água,
o casal de entrevistados informou que a iluminação pública “era razoável, mas eu acho que
ainda era um pouquinho mais claro do que aqui, viu? [risos]. A iluminação dentro daqui do
condomínio, eu acho ela pouca. [...] só que não incomoda porque como a gente tem essa
sensação de segurança aqui dentro, então acaba se tornando essa meia luz fora, mais
confortável. [...]. Dá para gente andar tranquilo. Mas lá era um pouco mais claro, mas
necessitava mesmo por conta de ser aberto”. Eles afirmaram que no bairro onde moravam antes
não havia falta de energia e que o abastecimento de água era por poço, mas a “água do poço
era horrível”.
Quanto às respostas obtidas através do questionário online, 80% dos moradores de RHF
que participaram da pesquisa avaliaram que a segurança melhorou com a mudança para o
residencial, aspecto este corroborado pelas entrevistas, e mais de 70% observaram melhoria
quanto aos incômodos com perturbação do sossego (Gráfico 9).
300

Gráfico 9 - Ao comparar a residência atual com a anterior em termos de:


(A) Segurança; e (B) Perturbação do sossego.

Fonte: O autor (2021)

A sensação de segurança, repetidamente mencionada pelos moradores entrevistados,


parece ser acionada por eles com um sentido de despreocupação, talvez por isso a opção
“tranquilidade” tenha sido a segunda motivação mais marcada pelos respondentes no
questionário online, como será visto mais à frente. De acordo com o dicionário Oxford,
“preocupação” tem como significados: “1. prevenção, opinião antecipada, ou a primeira
impressão que uma coisa fez no ânimo de alguém; 2. ideia fixa e antecipada que perturba o
espírito a ponto de produzir sofrimento moral” (Figura 103).

Figura 103 - Guarita de um RHF do grupo 4; (A) visão geral; (B) em detalhe, a placa pedindo identificação.

Fonte: O autor (2020) Fonte: O autor (2020)

A insegurança subjetiva parece não vir de um fato objetivo e detectável como: me sinto
inseguro por ter sido ameaçado ou me sinto inseguro por estar sendo perseguido. Ela é movida
por uma possibilidade: me sinto inseguro porque posso ser assaltando, ou meu filho pode ser
301

sequestrado, ou minha casa pode ser arrombada, meu corro pode ser roubado. Nesse sentido, a
sensação de insegurança tem um viés de ansiedade. De acordo com o dicionário Michaelis,
“ansiedade” tem como significados: “1 Sofrimento físico e psíquico; aflição, agonia, angústia,
ânsia, nervosismo. 2 Estado emocional frente a um futuro incerto e perigoso no qual um
indivíduo se sente impotente e indefeso. [...] 4 Sentimento e sensação de intranquilidade, medo
ou receio”. Parece que a procura por RHFs se move pela busca de maior sensação de segurança
assimilada pelos moradores como uma “vida sem preocupações” como forma de contornar a
ansiedade.
Essa ideia de segurança como algo difuso e subjetivo corroborou as reflexões
formuladas por Maldonado-Gómez e Rincón-Salazar (2007) na pesquisa em residenciais
fechados localizados em Cali, na Colômbia. Segundo as duas autoras, o uso do termo
“segurança” pelos moradores admite significados mais abrangentes do que aqueles referentes à
proteção da integridade física e patrimonial strictu sensu, admitindo conotações como
“proteção de vida e intimidade”, “tranquilidade”, “convivência” e “qualidade de vida”.
Quando a comparação recai sobre a questão da facilidade de deslocamento, a avaliação
de que piorou aparece com um pouco mais de expressão, e no caso do acesso à comércio depois
da mudança para o RHF, os moradores que avaliaram negativamente foram o quase o dobro
dos que avaliaram positivamente (Gráfico 10).

Gráfico 10 - Ao comparar a residência atual com a residência anterior em termos de:


(A) facilidade de deslocamento; e (B) Acesso a comércio.

Fonte: O autor (2021)


302

6.4 Relações interpessoais e motivações para a mudança de residência

As relações interpessoais com vizinhos e familiares foram o tema seguinte abordado na


pesquisa empírica. Para menos de 50% dos moradores que responderam ao questionário online,
a interação com os vizinhos melhorou com a mudança para o RHF. Esse quesito não foi tão
bem avaliado quanto segurança, embora também seja um componente essencial na utopia
vendida pelo mercado imobiliário: “a vizinhança como comunidade”. A opção “igual” foi a
mais assinalada no questionário e uma fatia bem menor, respondeu que a interação com os
vizinhos piorou depois da mudança (Gráfico 11).
Com relação às interações com a família, a grande maioria disse que não mudou e para
mais de 1/4 dos respondentes, teria melhorado. Contudo, os resultados obtidos no mesmo
questionário quando perguntados sobre as atividades de lazer, apontam que a visita a familiares
teria reduzido com a mudança para o RHF. Esse descolamento pode estar relacionado com o
fato de que, depois de se mudarem para o RHF, os moradores passaram a receber mais visitas
dos familiares do que sair para visitá-los.

Gráfico 11 - Ao comparar a residência atual com a residência anterior em termos de:


(A) interação com os vizinhos; e (B) interação com familiares

Fonte: O autor (2021)

M.Q.D. afirmou que na residência anterior, “só conhecíamos um vizinho, mas mal
conversávamos”. O.W.F. confirmou, tinha um vizinho próximo, assim, que também era “oi oi,
tchau tchau”, não tinha proximidade. Comparando com a residência atual, O.W.F. afirmou que
no condomínio não, tanto pela proximidade das casas, temos vizinhos próximos, e por conta
de não ter muros, a gente tem uma proximidade maior, como também pelo fato de termos
303

amigos nossos que moram aqui no condomínio. Então a gente [...] tem um acesso melhor a
essas pessoas e a gente tem um convívio muito legal. Mas os vizinhos que a gente conheceu,
que são do condomínio, a gente tem um relacionamento maravilhoso. São pessoas muito boas.
Para o entrevistado, o fato de não haver muros bloqueando o acesso às residências criaria
condições melhores para a aproximação entre os vizinhos.
O relato de O.W.F. aponta que houve uma melhora substancial na interação com os
vizinhos depois da mudança para o RHF, pois amigos que eles tinham passaram a ser vizinhos
e vizinhos que eles não conheciam passaram a ser amigos. É importante destacar um aspecto
relevante no relato de O.W.F. a seguir: “uma coisa também que eu acho bastante interessante
é que todos eles têm um objetivo de moradia muito semelhante que é paz, calma, sossego e
amizade. Nunca vi e até hoje não tive problema com nenhum dos meus vizinhos”. Há na relação
um componente de identificação que estabelece critérios de aproximação relacionados com
“tranquilidade”. A interação do casal com os vizinhos é tal que M.Q.D. chegou a afirmar: “a
gente vive mais na casa dos vizinhos do que na própria casa da gente [risos]”. Aqui, a
dimensão da despreocupação aparece no âmbito das relações interpessoais.
Com relação à interação com familiares, M.Q.D. e O.W.F. alegaram que não houve
grandes alterações, em razão deles serem naturais de outras cidades e as famílias residirem
nelas. M.Q.D.: Não, em relação a isso não, porque [...] nós somos de [nome do estado] e
estamos morando aqui, então a relação com a família não foi tão diferente. O.W.F. acrescentou
afirmando que a frequência com que recebem a família não mudou, mas o RHF oferece um
atrativo a mais que a residência anterior: mas uma das coisas que agrega também, por ser no
condomínio, por exemplo... tem a área de lazer. Eles já vêm sabendo que vai ter um lazer aqui,
que tem uma segurança. [...] Eles gostam bastante daqui por conta disso. M.Q.D. ratificou:
“principalmente as crianças que ficam querendo ir para a piscina.”
A percepção de P.S.T. e R.B.I. com relação às relações entre os moradores dentro dos
RHFs é radicalmente diferente. Conforme P.S.T., “os vizinhos o que eu percebo é o seguinte:
lá fora eu achava o pessoal mais... vamos dizer assim... mais aberto, né? Assim, um pessoal
mais humilde, entendeu? Em termos de conversar com o vizinho e tal. Aqui, os vizinhos
próximos à gente [...] a intimidade mesmo que a tem aqui mais é com os meninos da frente e o
outro vizinho aqui. Mas o outro vizinho a gente praticamente não vê [o entrevistado reduziu a
altura da voz]. R.B.I. complementou: só quando chegam e a gente vê, eles dão um bom dia,
boa tarde, boa noite. P.S.T retomou: “a gente está sempre sentado aqui na porta, numa
cadeira, conversando e tal.”
304

Em Arapiraca, nos bairros mais tradicionais ou de ocupação recente, onde mora uma
população de menor renda, é comum as pessoas colocarem uma cadeira na calçada e se
sentarem para conversar com os vizinhos nos fins de tarde ou no início da noite. Se forem
comparados os RHFs de padrão mais simples e os bairros populares em Arapiraca, observa-se
que: nos primeiros, apesar de contarem com a guarita e o fechamento do perímetro, as casas
são muradas, equipadas com cercas elétricas e as interações entre os moradores no espaço da
rua, nos fins de tarde, são menos frequentes que nos segundos, conformados por loteamentos
abertos. É possível observar que, ao se mudarem para RHFs do grupo 1, os moradores de classe
média baixa tendem a reduzir a interação com os vizinhos e não usufruírem da sensação de
segurança que essa modalidade de moradia pretensamente ofereceria (Figura 104).

Figura 104 - Vista de uma rua em um fim de tarde em dia de semana (A) no bairro Massaranduba; e (B)
em um RHF do grupo 1.

Fonte: O autor (2021) Fonte: O autor (2020)

Comparando a qualidade da convivência entre vizinhos no conjunto habitacional com


aquela que o entrevistado observou dentro do residencial, a dicotomia é invertida na forma de
uma distopia: “você pode observar, raramente você vai encontrar alguém na porta, assim. O
pessoal está sempre trancado dentro de casa. [...] Eu vejo aqui na rua tem o pessoal que gosta
de tomar uma cervejinha, vêm alguns amigos e fica lá aquela coisa e tal, mas só se tiver isso,
fora isso, não... tipo ‘agora à noite está muito quente, vou sentar na porta para tomar um
arzinho’, praticamente você não vê isso.
Os paradoxos desse tipo de comportamento observado por P.S.T. e R.B.I. no ambiente
interno de um RHF são evidentes: no conjunto habitacional as casas eram fechadas (com muros
frontais) e os moradores eram abertos, no residencial as casas são abertas (sem muros frontais)
e os moradores são fechados. Saindo da dimensão física dos muros para a questão da segurança:
nos residenciais fechados, onde a sensação de segurança é maior, os moradores são reticentes
305

à interação; enquanto nos loteamentos abertos, onde a sensação de segurança é menor, os


moradores são mais abertos à interação. A sensação de segurança não potencializa a relação de
abertura entre os moradores, indicando que há outros fatores que influenciam a decisão de ir
para o RHF. O fechamento do residencial pode não resultar em maior abertura ao contato no
espaço intramuros. Seria oportuno considerar que os residenciais fechados produziriam
moradores também fechados? Ou esses empreendimentos são atratores de pessoas com esse
tipo de comportamento, concentrando-as em um mesmo (não-)lugar? Ou esses espaços
potencializam esse comportamento de evitação, aprofundando tensões sociais internas nas
relações entre vizinhos?
O casal relatou que, em geral, no RHF os moradores são arrogantes, reticentes ao
contato, isolados, pouco empáticos e pouco cordiais no trato cotidiano. Há um tom de frustração
na fala dos entrevistados, pois esperavam que em um residencial fechado experimentariam uma
sensação de pertencimento a uma comunidade e isso não se realizou. Os contatos mais estreitos
e frequentes se resumem aos vizinhos mais próximos.
P.S.T. chamou a atenção para um comportamento que traduziria o isolamento ou
fechamento individualista de parte dos moradores do residencial:

Eu observo muito quando estou aqui... pronto, quando eu entro no condomínio, eu já


abaixo os vidros do meu carro, porque se eu estou entrando no lugar onde moro, eu
não preciso me esconder de ninguém. Mas eu observo muito aqui, tem pessoas aqui
que eu não sei nem quem são, eu nunca vi, porque entra com os vidros fechados e
saem com vidros fechados. Eu não sei se se sente superior aos outros ou não quer
falar, entendeu? Então eu acho que essa parte deixa muito a desejar em termos de
condomínio e lá fora. Eu acho as pessoas lá mais humildes, né? Aqui as pessoas são
meio, assim, “sapato alto” e tal, meio arrogantes, como se fossem querer ser
melhores do que você.

Essa mesma percepção aparece nos relatos de outros entrevistados: a postura de


distanciamento de parte dos moradores em relação aos outros no mesmo residencial. Há os
vizinhos mais simples e humildes que interagem mais, e há os vizinhos “mais reservados” e
“nariz em pé” que não se relacionam com os outros. Essa dimensão das relações interpessoais
reforça os RHFs como sistemas de aberturas e fechamentos: não há apenas uma guarita física
que controla o acesso de quem está fora dos muros, há outras “guaritas”, de cunho simbólico,
“erguidas” dentro do espaço intramuros como forma de afirmar distinção e hierarquia entre os
próprios moradores.
O habitus aparece aqui justamente nessa ausência de relação, nesse “silêncio que fala”,
na evitação, no contato reduzido a cumprimentos formais, quase obrigatórios para quem se
dispõe à vida em sociedade. Contudo, R.B.I. lamentou que, em certos casos, nem os protocolos
mínimos de boa educação são observados pelos moradores do RHF: às vezes até quando
306

estamos fazendo caminhada, a gente passa, dá um boa tarde, um bom dia, um boa noite, quando
alguém passa, né? Acho que seja educação isso e, às vezes, as pessoas passam e não...
entendeu?
P.S.T. corroborou a fala anterior da esposa, dizendo que o morador de “sapato alto”, que
age dessa forma, “não faz muita questão de ser cordial, né? Um boa noite, um boa tarde, eu
acho que eu mesmo, onde eu passar [...] não é obrigado o cara te dar uma boa noite e você ter
que conversar com ele, né? Não, um boa tarde, um boa noite eu acho que é uma questão de
educação, de cordialidade. Até porque se você vive em um condomínio dá a entender que as
pessoas deveriam viver em comunidade, né?
Outra utopia do RHF como “um espaço de convivência entre semelhantes” é posta em
xeque pelos muros abstratos internos. As casas não são muradas fisicamente, mas o são
simbolicamente: os muros das residências são invisíveis e parte dos moradores levam os muros
abstratos consigo enquanto caminham pelo residencial. Os muros simbólicos se mostram
através do comportamento de evitação ou do contato mínimo impostos pelos moradores de
“sapato alto” que reduzem a interação com os outros ao nível do “oi oi, tchau tchau”, ou nem
isso. A evitação parece ser sentida por P.S.T. e R.B.I. como uma espécie de discriminação
social.
Por se tratar de um RHF de padrão intermediário, essa questão aparece como uma
divisão entre os moradores que se veem como aqueles que ascenderam socialmente e
conquistaram o direito de morar ali, e os moradores que residem ali, mas não se reconhecem
como tal, pois se veem com perfil para estar morando em um residencial de padrão mais
elevado. Essa reflexão converge com a observação de P.S.T. quando ele afirmou:

Eu acho que não é só aqui, não. [...] Acho que na maioria dos condomínios,
principalmente em um [nome de um RHF de alto padrão], aquele outro lá [nome de
outro RHF de alto padrão], talvez seja pior do que aqui, né? Porque parece que
quanto mais as pessoas têm poder aquisitivo, mais elas se fecham. Elas não gostam
muito de conversa, de amizade, eles têm aqueles grupinhos deles lá que estão na
mesma posição social dele, então ‘eu me relaciono com aquele, com esse aqui eu
não...’. Então aqui eu vejo também essa situação [...] mas ao mesmo tempo eu acho
que se você tem uma condição financeira melhor você procuraria um condomínio
melhor. Então eu vejo muita gente como que quisesse ser melhor do que o outro. É
uma parte que fica meio difícil você entender porque as pessoas agem dessa maneira.

A fala do entrevistado indicou uma incongruência na prática dos “moradores esnobes”:


se eles moram em um residencial de padrão intermediário, então eles não dispõem de capital
social suficiente para evitar os outros moradores. Para ele, esse tipo de postura só é concebível
para os moradores de residenciais de padrão superior. Tomando os conceitos de campo, em
Bourdieu, e de figuração, em Elias, o “morador esnobe” pertenceria a outro espaço social e
307

estaria deslocado no espaço físico ou estaria resistente em reconhecer que aquele espaço físico
onde reside corresponde ao espaço social ao qual pertence.
Concluindo sua reflexão, o morador P.S.F. cravou a comparação entre aquela relação
com os vizinhos no conjunto habitacional e a atual, experimentada por ele no interior do RHF
onde passou a morar: “então eu vejo essa diferença. Eu sempre comento com ela [a esposa]
essa questão de as pessoas quererem se isolar, se blindar... não sei se esse é o termo certo...
dos outros, mas infelizmente acontece”.
É importante salientar que os moradores de RHFs optaram por uma experiência de
isolamento ao se mudarem para esse tipo de empreendimento. Contudo, eles parecem imaginar
que o residencial fechado ofereceria uma experiência de isolamento coletivo, horizontal,
voluntário e compartilhado; mas o que eles encontram, muitas vezes, é uma experiência de
isolamento particular, hierarquizado, impositivo e excludente. O preconceito social que
transpassa o comportamento de evitação por parte do morador esnobe é constitutivo do seu
modo de agir (modus operandi) porque está entranhado no seu sistema de valores (habitus).
Sobre as relações familiares, o casal declarou que intensificou depois que se mudaram
para o RHF, pois o tempo de contato aumentou e a permanência dos familiares passou a ser
mais prolongada em razão da melhoria das condições da casa e do local. O residencial propicia
espaços mais arejados e abertos e, portanto, mais agradáveis:

Como a gente tem mães idosas com a idade já avançada, nos finais de semana,
ultimamente, [...] um dia nós dormimos na casa da minha mãe e, no outro, na casa
da mãe dela. [...] Às vezes eu trago a minha mãe aqui, para respirar um arzinho
diferente. A mãe dela também, às vezes, ao invés de dormir lá, trazemos ela para cá.
Às vezes ela não quer vir, mas vem e quando chega aqui sempre gosta porque o
ambiente é bem arejado. A gente leva ela para a área de lazer [...]. Melhorou também
em termos daqui em relação onde a gente morava antes né? Porque lá era tudo
pequenininho, você levava eles para lá, mas tinha que ficar trancados dentro de casa.

Sobre a visita das mães, R.B.I. acrescentou que: “aqui elas ainda vêm dormir, lá elas
não iam. Elas achavam a casa muito abafada”.
J.S.V. e A.T.H. também fizeram uma reflexão sobre as relações entre os moradores do
RHF análoga a de P.S.T. e R.B.I. As experiências de morarem nas periferias de cidades e
interagirem com vizinhos em bairros populares, seja em Arapiraca, seja em uma metrópole no
Sudeste, parecem ter propiciado a esses dois casais uma compreensão mais aguçada do espaço
social dos RHFs. Na visão de J.S.V, “o único ponto que eu acho negativo, que eu até comento
com ela, é que eu nunca morei em residencial, em condomínio, então eu tinha muitos amigos
na rua. Então o que eu vejo aqui é que o pessoal é muito reservado, cada um na sua casa”.
308

É interessante observar que, nas duas falas sobre o comportamento fechado dos
moradores do RHF, os entrevistados mencionaram que comentaram com o cônjuge, dando a
entender que é um assunto tratado de forma privada e particular, com alguém de confiança. A
expressão “tinha muitos amigos na rua” é importante, pois a rua aparece novamente aqui como
o contraponto ao espaço interno dos RHFs. A rua é afirmada como o lugar do encontro, da
conversa, do burburinho e do contato, enquanto o espaço interno do residencial fechado é o
espaço da formalidade, da evitação, da reserva e “cheio de não-me-toques”, corroborando as
reflexões de Maia (2006). Prosseguindo a comparação entre o RHF e o bairro anterior onde
morou, em uma metrópole, J.S.V. afirmou:

Lá na rua não, quando a gente morava, às vezes ela tinha que ir lá me chamar, porque
eu já estava lá há uma hora ou duas conversando com o pessoal da rua, com os
tiozinhos da rua, com os meus amigos de infância, meus primos e eu ficava lá por
horas e horas e nem percebia. Aí às vezes ela [chamava]: “e aí, você não vai trazer
o pão? Estou esperando. Cadê você? O que aconteceu? [Eu respondia]: “desculpa,
eu esqueci, é que eu estava conversando com o povo aqui”. Isso é uma coisa que aqui
eu sinto falta. Porque, como eu disse, o pessoal aqui é muito mais reservado, né?
Apesar daqui ser muito livre, não ter portões, mas o pessoal é muito reservado. É
mais dentro de casa. Foi o único ponto negativo que eu achei de morar em um
residencial. E também porque tem que pagar o condomínio porque é chato [risos] né,
ninguém quer pagar, mas fazer o quê? [risos]... estou brincando. Tem a parte de
segurança que é importante, a parte do lazer, só pontos positivos. Só o que me deixa
mesmo assim é o contato com as pessoas, que aqui deu uma freada. Talvez assim com
o tempo a gente vai arrumando mais amizade, vai começar a ter mais essa cultura de
conversar com os vizinhos, né?

O entrevistado percebeu o paradoxo entre os espaços abertos e os moradores fechados.


O saudosismo com que ele fala sobre as interações espontâneas e divertidas com outros
moradores no bairro em uma metrópole, freadas com a mudança para o RHF em Arapiraca é
sintomático de uma certa insatisfação. Outra reflexão que pode ser formulada, ainda que em
tom jocoso: considerando os estereótipos regionais ditados pelo senso comum no Brasil, o
“sudestino médio”, à exceção do carioca, é visto como mais reservado, enquanto o “nordestino
médio” é tido como mais extrovertido. Não deixa de ser curioso o fato de que, no caso em cena,
os estereótipos se inverteram: o sudestino que veio morar no Nordeste acha os moradores do
local onde ele reside, reservados.
Não obstante, a reflexão de J.S.V. sobre o comportamento geral dos moradores, A.T.H.
ressaltou o convívio afetuoso que eles têm com os vizinhos mais próximos: “a gente foi
premiado, né? [...] nós não temos vizinhos, temos irmãos. São os nossos melhores amigos,
mesmo porque no momento em que a gente mudou eles não só nos aceitaram, eles se jogaram!
[...] E eles são pessoas que tudo que a gente precisa a gente pode contar. Então, se eu preciso
309

levar meu filho ao médico e tenho que deixar o outro com eles, eu deixo. [...] Então assim, tem
os pontos negativos e os pontos positivos”.
A entrevistada C.T.P., por sua vez, alegou que na casa anterior, o casal não conhecia os
vizinhos: “na nossa casa antiga, a gente nem sabia o nome dos vizinhos. A gente nunca nem
viu a cara do vizinho, assim. Era uma coisa bem fechada mesmo. Para ela, a relação com os
vizinhos não mudou muito quando se mudaram para a residência atual, no RHF, pelo seguinte
motivo: nossa casa não tem vizinhos, nem de um lado nem de outro [risos]. Aí a gente não
encontra muito com os vizinhos, mas os que encontramos é sempre todo mundo muito tranquilo.
Problema mesmo é só no grupo [risos]. O grupo de WhatsApp do residencial fechado onde
mora a entrevistada é muito agitado, com troca de farpas entre os moradores e muitas
reclamações. G.V.J. fez ressalvas à fala de C.T.P. argumentando que as interações com os
moradores não se dão na vizinhança imediata da casa, mas no transitar pelo residencial: “na
verdade, existe mais esse contato [do que na residência anterior]. Por exemplo, quando eu
ando com o cachorro, as crianças todas conhecem o cachorro da gente, param, brincam.
Alguns adultos também param para conversar sobre o cachorro. C.T.P. concordou: as mães
das crianças, os donos de outros cachorros... até a gente convive mais, assim. É mais
conveniente essa parte.
Continuando a comparação com o bairro onde moravam antes G.V.J. advertiu: a gente
mudou há um ano, lá a gente passeava com muita frequência, passeava até mais cedo, mas não
havia contato com ninguém. C.T.P. complementou: na casa anterior, quando nós passeávamos
com os cachorros nem nos deparávamos com muitas pessoas e com as que nós deparávamos,
não interagiam. G.V.J. retomou afirmando: “aqui dentro, as pessoas se sentem mais seguras
para conversar com estranhos”.
Por fim o entrevistado concluiu sua resposta à pergunta ponderando: “acho que é
natural, tem até o grupo [de WhatsApp] também no condomínio e você acaba... não com todo
mundo [risos], mas você acaba tendo um contato mais fácil com um ou com outro. Essa parte
social é mais forte aqui.
Quanto à interação com vizinhos, dois padrões opostos podem ser observados nos
relatos de M.Q.D./O.W.F. e C.T.P./G.V.J. de um lado, e de P.S.T./R.B.I. e J.S.V./A.T.H., de
outro. Os dois primeiros casais vieram de um loteamento aberto de classe média, onde os
vizinhos eram mais fechados e reservados; eles passaram a morar em RHF e acharam, a
princípio, os moradores mais abertos e receptivos. Já os dois últimos casais vieram de um
conjunto habitacional e de um bairro popular abertos, respectivamente, e quando passaram a
morar em RHF, acharam os moradores mais fechados e reservados. Parece haver um
310

componente de classe social que predispõe à maior ou menor abertura, independente do


morador estar ou não dentro de um RHF, atestando a influência do habitus. Contudo, os
moradores de classe média em loteamentos abertos poderiam justificar sua introversão alegando
sensação de insegurança, enquanto aqueles que moram em RHF não dispõem desse pretexto:
as práticas espaciais introvertidas dentro dos RHFs seriam, portanto, injustificáveis. Com base
no exposto, a hipótese da pesquisa permanece.
H.R.D. afirmou que as interações com vizinhos no edifício de apartamentos eram menos
frequentes: “era mais isolado, porque lá como é capital, em apartamento, você vê menos
pessoas. Você vê mais no corredor, naquela passagem rápida. Aqui, não, como aqui tem uma
praça, tem uma área de lazer, tem quadra e passa mais tempo aqui, então a gente tem mais
convívio social. Você está na porta e vê uma pessoa fazendo caminhada ou uma pessoa
passeando com o cachorro... D.M.B complementou: Aí você fala “bom dia”, “boa tarde”, né?
Também na fala dessa entrevistada, cumprimentos protocolares são entendidos como uma
demonstração mínima de educação e ela faz questão de se colocar dentro do grupo de moradores
que estaria atento a isso. E H.R.D. arrematou: Então você vai agregando amigos, né? Eu posso
dizer isso. É importante ponderar que estar numa grande cidade não determina a redução das
interações entre vizinhos: J.S.V. morava em uma metrópole e tinha uma interação comunitária
maior do que em Arapiraca, uma cidade de porte médio, bem menor. Mas a experiência de
moradia em apartamento, de fato, reduz as possibilidades de um convívio mais próximo entre
moradores.
No tocante à relação com os familiares, H.R.D. afirmou que após a mudança para o
residencial fechado, “no nosso caso até melhorou porque na nossa família... eu acho que nós
fomos os pioneiros a vir residir em um residencial né?” Esse é um aspecto importante atinente
ao fato de que em Arapiraca, a implantação de RHFs é uma tendência recente, muitos
moradores são os primeiros da família a residir nesse tipo de empreendimento. A satisfação
deles com essa opção de moradia encoraja outros familiares a optar por residenciais fechados
também, corroborando a fala do agente imobiliário S.M.R. de que o melhor marketing quem
faz são os amigos e familiares satisfeitos com a moradia nesse tipo de empreendimento.
H.R.D. prosseguiu o relato:

as nossas famílias são do interior, então eles têm mais aquela noção de morar na
casa na rua tradicional. Eles, quando vêm para cá, eles notaram a diferença, a não
ser os avós dela [da esposa] que são mais velhos, [...] eles acham que o importante
para eles é morar próximo ao centro, mas o resto da família todos adoraram, né,
porque vê essa questão da tranquilidade, você ter essa comodidade de algumas coisas
que na rua você não tem, essa liberdade. A mãe dela mesmo, passou aqui na época
311

do resguardo dela e ficava agoniada [dizendo] ‘vocês deixam as portas abertas, as


janelas abertas, carro aberto, chega de moto e deixa a chave na moto.

Essa declaração do entrevistado guarda relação com a fala do agente imobiliário L.W.C.,
no sentido de que, quem não opta por morar em RHF na cidade, ou é antiquado ou é antissocial.
A alta proporção de moradores respondentes ao questionário com idade entre 30 e 45 anos
corrobora essa ideia de que a utopia do RHF, em Arapiraca, é consumida por casais de jovens-
adultos e de meia-idade.
D.M.B. ratificou: “ela ficava preocupada. [...] porque tinha casa em rua e ela não deixa
de jeito nenhum. [...] [Eu dizia] ‘não, pode deixar aberto tudo, não se preocupe’. Porque aqui
eu já cansei de dormir... Ontem mesmo a gente deixou janela e porta abertas e ninguém entra.
Pode entrar o quê? Um gato, se entrar. Novamente, a casa em loteamento aberto ou localizada
no centro da cidade é chamada pelos diferentes entrevistados como “casa em rua”, “casa em
rua”. A dicotomia é afirmada na oposição entre “casa na rua” versus “casa em condomínio”. O
RHF como “espaço de despreocupação”/ “aqui eu posso”, é contraposto à “casa em rua” que
seria o “espaço da preocupação”/ “lá eu não posso”.
Quando moravam na casa anterior T.R.C. e F.M.N. afirmaram que mal conheciam os
vizinhos, mesmo tendo residido lá por quase cinco anos. Segundo T.R.C., “a gente tinha contato
muito pouco com os vizinhos, cada um entrava na sua casa. Sair, a gente só saía de carro, só
chegava de carro. Então, praticamente, não via os vizinhos. Apesar de que os vizinhos
conheciam a gente. Todos os vizinhos sabiam quem a gente era. Uma vez a gente deixou o
portão aberto, não foi? Aí os vizinhos ligaram para ele para dizer que o portão estava aberto,
enfim, que era para ele fechar.
A interação reduzida com os vizinhos da residência anterior foi exemplificada por
F.M.N. com um fato inusitado: “mesmo assim, para você ter ideia, na mesma rua, duas casas
depois, morava uma menina que também trabalha no mesmo lugar que a gente. Porém, a gente
não se encontrava. A gente se encontrava no emprego, no trabalho, mas nunca se encontrava
lá. Até porque a gente sempre foi mais restrito. A gente chegava, entrava dentro de casa, saía
esporadicamente.
A partir da mudança para o RHF, T.R.C. dispôs que o contato com os vizinhos passou
a ser maior: “aqui a gente tem um contato um pouco maior porque a casa de todo mundo é
aberta, né? Não tem muro. A gente passa, vê os vizinhos [...] passeando com os animais, com
as crianças aqui na rua, então tem uma relação mais próxima com os vizinhos hoje do que
quando morava lá.” O fato de ver os vizinhos não significa, necessariamente, estabelecer uma
relação mais próxima. No relato de P.S.T., por exemplo, ele via os moradores, mas os
312

moradores “não o viam”. F.M.N. declarou que, quando foram morar no residencial, eles já
conheciam três pessoas: “então, a gente conhecia três pessoas aqui, quando a gente veio. [...]
Vieram outras pessoas morar aqui e a gente acabou conhecendo. A gente não anda na casa de
ninguém, de vizinho, mas pelo menos a gente ainda tem um contato”.
Quanto à relação com a família, T.R.C., afirmou que a mudança para o RHF não afetou
a interação, pois sua família não mora em Arapiraca. Para F.M.N., a mudança para o RHF
melhorou a interação com a família já que implicou em um movimento que aproximou a casa
da sua mãe da dele:
Já a minha fez muita diferença. [...] A gente acabou comprando uma casa para minha
mãe aqui, em frente ao condomínio, e aí ela vem mais vezes e, também, eu vou mais
vezes na casa dela. Como ficou mais próximo também estreitou muito o laço da
família. Outra coisa também, os meninos sempre estão aqui, então acabam fazendo
caminhada aqui dentro, entendeu? Às vezes na área de lazer, [...] então acabou
estreitando esse laço entre eu e meus sobrinhos que moram com minha mãe. E às
vezes até minha mãe vem fazer caminhada pelo condomínio mesmo, porque é mais
seguro. Por ser idosa. [...] Mesmo a família do F.M.N. vindo menos, quando vem já
se torna mais agradável, por que? Porque a mãe dele já faz caminhada aqui mesmo,
[...] já usa a área de lazer. Mas como [a mudança para o residencial] foi muito
próximo da pandemia, acabou também diminuindo as viagens. Até por conta do
distanciamento, do isolamento.

A pesquisa empírica abordou outros dois aspectos importantes: o processo de mudança


da residência anterior para a atual e as motivações que induziram os moradores a optar pelos
RHF. A primeira pergunta do questionário abordou o tempo de moradia do respondente no
residencial horizontal fechado. A grande maioria dos que participaram (quase 70%) informou
que mora em RHF a mais de 2 anos (Gráfico 12). É importante considerar que 19% dos
respondentes se mudaram para o RHF a menos de 2 anos, portanto, já no período da pandemia
de COVID-19.

Gráfico 12 - Há quanto tempo você mora na residência atual?

Fonte: O autor (2021)


313

Sobre as motivações para a mudança, a grande maioria afirmou que a razão principal
que fundamentou a opção pelo RHF foi segurança – confirmando o que já era esperado –,
seguida por tranquilidade, estilo de vida e localização (Gráfico 13). As motivações escolhidas
em segundo lugar na ordem de importância apresentaram uma fragmentação maior sem uma
predominância tão marcante como no caso anterior e foram destacadas pelos respondentes:
tranquilidade, segurança, área de lazer, estilo de vida e comodidade. As motivações apontadas
em terceiro lugar apresentaram estratificação ainda maior, despontando com as mais escolhidas:
tranquilidade, área de lazer, estilo de vida e comodidade.

Gráfico 13 - Motivações apresentadas pelos moradores que justificaram a opção por RHFs:
(A) em primeiro lugar; (B) em segundo lugar; e (C) em terceiro lugar.

Fonte: O autor (2021)

A predominância das motivações segurança e tranquilidade indica que pode haver uma
estreita relação entre as duas, corroborando a ideia do RHF como “espaço de despreocupação”
em que a opção por este local de moradia estaria mais relacionada com a redução dos níveis de
ansiedade do que propriamente com um sentido reativo. As motivações escolhidas na terceira
314

ordem de prioridade são aquelas que, de fato, permitem diferenciar os grupos de RHF de forma
mais marcada. Nesse sentido, é de suma importância para os objetivos desse trabalho ressaltar
a posição ocupada pela motivação “estilo de vida” na hierarquia das respostas obtidas. Essa
motivação parece guardar uma relação mais estreita com práticas espaciais e habitus de cunhos
mais exclusivistas.
Para a Organização Mundial da Saúde (2004, p. 37), estilo de vida é “o conjunto de
hábitos e costumes que é influenciado, modificado, encorajado ou constrangido pelo processo
de socialização ao longo da vida”85. De acordo com Porto (2015, p. 7), “estilo de vida é uma
expressão moderna que se refere à estratificação da sociedade por meio de aspectos
comportamentais, expressos geralmente sob a forma de padrões de consumo, rotinas, hábitos
ou uma forma de vida adaptada ao dia a dia”. Nesse sentido, “estilo de vida” pode significar
um conjunto de práticas espaciais de consumo e de lazer em estabelecimentos e ambientes
sofisticados que pode indicar maior seletividade para afirmar distinção, ainda que não-
consciente.
Ao desagregar os dados separando os RHFs por grupos, é sintomático que os moradores
respondentes dos RHFs do grupo 5, de maior padrão, atribuam à motivação “estilo de vida”
maior peso, se comparados aos outros quatro grupos (Quadro 5). A correlação entre estilo de
vida e exclusivismo pode ser considerada retomando o relato do agente imobiliário L.W.C.
quando ele menciona o status como uma das motivações que subjazem a opção pelos RHFs de
alto padrão. Quanto aos RHF de médio padrão, reunidos nos grupos 2, 3 e 4, a área de lazer
tem um peso considerável dentre as motivações, também corroborando a impressão de L.W.C.
Nos RFHs do grupo 1, de padrão mais simples, as áreas de lazer não são bem equipadas em
razão dos custos de instalação e de manutenção. Nesse último caso, a motivação “comodidade”
apareceu na terceira posição.

Quadro 5 - Motivações apresentadas pelos moradores de acordo com a ordem de prioridade


Em primeiro lugar Em segundo lugar Em terceiro lugar
Grupo 1 Segurança (47,4%) Tranquilidade (33,3%) Comodidade (20%)
Grupo 2 Segurança (75,0%) Tranquilidade (40%) Área de lazer (22,7)
Grupo 3 Segurança (74,3%) Tranquilidade (68,7%) Área de lazer (25,1%)
Grupo 4 Segurança (74,2%) Área de lazer (26,9%) Tranquilidade (42,3%)
Grupo 5 Segurança (78,6%) Tranquilidade (41,7%) Estilo de vida (27,3%)
Fonte: O autor (2021)

85
Lifestyle. The set of habits and customs that is influenced, modified, encouraged or constrained by the lifelong
process of socialization. These habits and custos include the use of substances, such as alcohol, tobacco, tea or
coffee; dietary habits; and exercise. They have important implications for health and are often the subject of
epidemiological investigation.
315

Sobre o processo de mudança da residência anterior para a atual, o entrevistado M.Q.D.


discorreu que “isso não foi nem um processo, foi abrupto. [...]A gente sempre quis ter a casa
da gente, do jeito que a gente queria, só que a gente não estava querendo fazer isso tão cedo.
Isso era um plano futuro, até porque tínhamos outras prioridades. A gente sempre passava em
frente a um condomínio em construção, saindo de casa ou chegando em casa. As casas de lá,
a gente via por fora, eram muito bonitas. A gente falava “vamos ver, só para saber a média de
preço para ter uma casa aqui em Arapiraca”.
A qualidade da arquitetura e o padrão de acabamento das residências construídas dentro
dos RHFs chamam a atenção como uma espécie de marketing espontâneo. Apesar do
fechamento físico, com muros e guarita, as casas são avistadas parcialmente, como que por uma
cortina entreaberta na paisagem urbana. De certa forma, os moradores dos RHFs querem ser
vistos através das suas residências. A combinação entre não poderem ser acessadas fisicamente
e, ao mesmo tempo, serem avistadas de forma dissimulada na paisagem da cidade parece se
constituir um fetiche estimulado pelos RHFs.
M.Q.D. prosseguiu contando que a opção por morar em RHF comprometeu o orçamento
doméstico com dívidas maiores do que o casal estava disposto a assumir, naquele momento:

Aí a gente entrou para ver só essas casas, mas as casas estavam com um valor muito
alto para o nosso orçamento, só que o corretor falou que tinha outra casa, mais em
conta que ficaria no caso aqui no condomínio e que podia trazer a gente sem
compromisso para ver. Como a gente já estava lá, decidiu vir. A gente veio para cá,
viu a casa, gostou, mas não podia comprar porque tinha que dar a entrada e tudo o
mais. [...] a gente entrou em uma dívida de consignado, que a gente fez para dar
entrada na casa, para quitar o carro que ainda estávamos pagando e para comprar
alguns mobiliários também para a casa.

O entrevistado O.W.F. destacou as motivações que pesaram na decisão de se mudarem


para o residencial fechado.
Nós sempre quisemos um lar nosso. Então, quando a gente pensou em comprar, a
gente decidiu que no condomínio seria mais viável por conta da segurança, da
possibilidade de você, aqui, caminhar à noite, fazer exercícios físicos, criar seus
filhos e não ter medo assim, de assalto, nem de outro problema. [...] Como a gente
viaja com frequência, a gente deixa a casa sozinha. E aqui a gente sabe que ela ficaria
guardada. Tanto que até hoje, já são três anos morando aqui e nunca aconteceu nada,
nunca, nunca. A gente sempre deixa a casa e quando volta ela está do mesmo jeito.
Então, em relação a essa questão da mudança, para a gente, foi bem melhor. E assim
a gente realizou um sonho, né? Termos uma casa muito boa, muito ampla. E com
segurança, principalmente. Principalmente! [enfatizou]. Porque no mundo em que a
gente vive hoje, né? É isso: segurança.

M.Q.D. concluiu relatando que “quando a gente chegou aqui no condomínio, a gente
era a décima terceira casa com gente morando e a gente conseguiu ver um pouquinho da
evolução do condomínio, tanto na questão de infraestrutura, quanto na questão da organização
316

dos serviços prestados, da área de lazer, do serviço de segurança, tudo isso [...]. Pode melhorar
bastante? Pode melhorar. Sempre pode melhorar, mas está bom”.
P.S.T. afirmou que, a princípio, a primeira opção dele e de R.B.I. não era a aquisição de
casa em residencial fechado: “a nossa concepção era que no condomínio o valor devia ser
muito caro, né? Aí tem a questão do condomínio que tem que pagar todo mês e tal. Quer queira,
quer não é uma despesa a mais. Então nós procuramos um residencial aberto, como lá onde
nós já morávamos. Inclusive lá próximo tinha umas casas boas, também. Casas grandes, soltas
e bem arejadas. Só que, depois que a gente começou a olhar, [...] aí nós começamos a pensar
na nossa filha, porque não ia mudar muita coisa. Ia ser uma casinha maior, mas a questão da
segurança não ia ajudar em muita coisa, né? A segurança e lazer da filha pequena influenciou
de forma decisiva na opção por casa em residencial fechado.
Outro aspecto foi a aceitação em pagar a taxa de manutenção da associação de
moradores: “tem a taxa de condomínio e tal, mas quando você vem morar você vê o benefício,
né? Porque tem uma área de lazer que você pode usar todos os dias se quiser. Você tem uma
segurança melhor, coisa que você não vai ter lá fora, né? Se você mora numa rua você tem que
colocar uma cerca elétrica, você tem que investir em câmeras e tudo e aqui você já não tem
essa preocupação. Então uma coisa acaba compensando a outra”. Esse relato de P.S.T. tem
relação com a reflexão dos agentes imobiliários S.M.R. e L.W.C. sobre o cálculo que os
moradores fazem do custo-benefício de pagar a “taxa de condomínio”: resolvem de forma
coletiva o que antes seria custeado e gerido de forma individual.
Em seguida, P.S.T. contou sobre o tempo de procura pela casa em RHF deixando claro
quais foram os critérios observados por eles na escolha:

então nós resolvemos visitar alguns condomínios, sem compromisso, se


encontrássemos alguma coisa que coubesse no nosso orçamento a gente poderia ver
até a possibilidade. Fomos lá naquele, no [Posto] Divã para lá, mas a gente achou
muito grande, muitas casas, muita coisa, aí a gente disse “não, aqui não dá certo
não”. Aí fomos lá para o [bairro] Cavaco, [...]. Na época quando nós chegamos lá
não tinha nada construído ainda, nenhuma casa, nada, eles estavam ainda fazendo a
área de lazer. Não, aí a gente pensou: a gente quer uma coisa mais rápida, né?
Porque daqui até construir isso aqui vai ser muito tempo, entendeu? Só que foi mais
rápido do que aqui. Nós voltamos lá, por incrível que pareça, com pouco tempo lá já
estava tudo construído, [...] as casas lá também são do padrão como essas daqui.
Umas casas boas também.

É importante constatar o quanto a ocupação ou a consolidação (ou povoamento, segundo


a fala do agente imobiliário S.M.R.) do residencial fechado é um fator que pesa na escolha:
quanto mais casas construídas e gente morando, mais atrativo. Mas o padrão das casas também
é observado, deixando claro que se quer aproximar de um segmento social com poder aquisitivo
317

semelhante ao seu ou com o qual o morador quer se assemelhar. Nesse sentido, a busca pelo
residencial é, ao mesmo tempo, uma opção pela separação em relação aos “diferentes”, e
“aproximação” com relação aos iguais, ou com os quais se quer igualar. Contudo, esse
movimento é mais complexo no espaço social do que no espaço físico – não há um rebatimento
direto e automático de um espaço para o outro – como mostram as falas de P.S.T. e R.B.I. sobre
o comportamento de evitação social. Estar no mesmo espaço físico não significa que se está no
mesmo espaço social, ainda que esse espaço social seja simulado, falso. De acordo com
Bourdieu:
Se o habitat contribui para fazer o habitus, o habitus contribui também para fazer o
habitat através dos costumes sociais mais ou menos adequados que ele estimula a
fazer. Vê-se, assim, inclinado a pôr em dúvida a crença de que a aproximação espacial
de agentes muito distantes no espaço social pode, por si mesma, ter um efeito de
aproximação social: de fato, nada é mais intolerável que a proximidade física
(vivenciada como promiscuidade) de pessoas socialmente distantes (BOURDIEU,
2011, p. 165).

P.S.T. continuou a descrição da visita aos RHFs com o objetivo de escolher aquele onde
eles iriam residir.
A gente foi também lá na Baixa Grande, é um bem pequeno que tem lá. Só que lá só
tem uma rua, né? Uma rua e assim na frente era um paredão de pedra, aí eu disse
“não, para a menina isso aqui deve ser muito quente, porque era só calçamento e
aquelas pedras e tal, aqui não vai dar certo não”. [...] E outra coisa, também lá não
ia ter portaria, né? Ele disse “olha, aqui é o seguinte: pelo dia, o rapaz que vai ficar
tomando conta da área de lazer é o que vai ficar tomando conta aqui da portaria; à
noite, cada morador vai ter o seu controle”. Aí nós pensamos: “a gente vai dormir e
chega um [...] morador desse aí e toma ‘uma pesada’, aí entra e esquece de fechar o
portão, aí os vagabundos entram aí e assaltam todo mundo, não vai dar certo,
também?

R.B.I. relatou que, depois de um tempo, esse RHF contratou o serviço de portaria 24
horas, possivelmente porque a ausência dessa “comodidade” estaria inviabilizando a venda dos
lotes e das casas. A fala de P.S.T. permite interpretar que, na sua visão, a segurança do
residencial não pode ser delegada aos próprios moradores.
P.S.T. ainda procurou em mais um RHF antes de se decidir por aquele onde ele mora
atualmente. O fato de já ter alguém da família morando pesou também na decisão por esse
residencial, por isso a consolidação é muito importante: quanto mais moradores, mais
“atratores” de pessoas para o residencial:
nós fomos em mais alguns por aí, fomos lá na Rua Estudante, que é um pequeno lá,
também. Não tinha nada e até hoje se construiu muito pouco lá. Acho que tem um
problema lá com documentação ou não sei o quê e também não deu certo. Aí nós
viemos visitar esse aqui, o sobrinho dela já morava aqui e ele disse “ah, vamos lá dar
uma olhada e tal”. [...] Foi quando a gente veio a primeira vez, olhamos essa casa
do outro lado e que não deu certo. Aí voltamos depois de um tempo, gostamos daqui
e começamos a conversar sobre a questão de preço com os construtores. O construtor
comprou o terreno e começou a construir e a gente adiantou uma parte para dar
318

segurança para ele. Quando ficou pronto a gente foi para a Caixa e financiou. Pronto,
assim passou mais ou menos 1 ano para a construção e a documentação.

A mudança para o residencial fechado não foi rápida e tranquila. Uma vez resolvidos o
processo de construção e o trâmite da documentação, houve a demora na efetiva ligação dos
serviços de água e energia. Sobre essa situação, R.B.I. lamentou: “aí levou dois meses para vir
ligar [a água]. Um absurdo!” P.S.T. concordou:
Foi, quase dois meses. A gente quase mudou sem água porque estava complicado.
Uma fase difícil, a [Companhia distribuidora de água] não estava dando o suporte e
a gente sofreu muito para eles virem ligar. Fiz várias viagens para lá, foi bem
estressante. Eu pensei até em cavar um poço. Eu até hoje tenho em mente cavar um
poço artesiano e me livrar da Companhia. Penso também em colocar energia solar
para também me livrar da [Companhia distribuidora de energia].

Se no conjunto habitacional, P.S.T. e R.B.I. estavam insatisfeitos com os serviços da


construtora que deixou as obras inacabadas, com a prefeitura pela demora na troca das lâmpadas
e com os Correios que não entregavam correspondências e encomendas na rua onde moravam;
ao se mudarem para o RHF, tiveram problemas com o atendimento da companhia estadual de
saneamento e da empresa privada que assumiu o fornecimento de energia no estado de Alagoas.
Essa insatisfação faz com que os moradores pensem em resolver seu abastecimento de água e
seu fornecimento de energia utilizando soluções autônomas.
O processo de mudança de J.S.V. e A.T.H. da periferia de uma metrópole para um RHF
em Arapiraca é perpassado por acontecimentos singulares, alguns tristes, outros alegres, outros
inusitados. A.T.H. afirmou que

a nossa vinda para Alagoas foi algo que a gente não planejou. Ele [J.S.V.] sempre
falava que jamais moraria no Nordeste, porque é muito quente e ele gostava do frio,
do ritmo de vida e porque ele falava que ‘precisava da poluição de [nome da
metrópole] para viver’ [risos]. [...]Ele conversou com o colega da gente que é louco
para morar aqui, mas mora lá. Aí um belo dia ele me perguntou se a gente moraria
aqui em Alagoas. E aí eu falei: “o quê?! Eu sou de lá, eu adoro, vamos hoje!” Mas
foi uma ideia que ele falou, mas não tinha amadurecido. Só falou. E aí, veio a
pandemia e veio o nascimento do nosso filho. Ele voltou a falar sobre o assunto, mas
eu não acreditava muito que ele viria [...]. Com a pandemia, [...] a avó dele faleceu
e reforçou a nossa vinda para Alagoas, porque ficou muito triste. Éramos vizinhos.

J.V.S. confirmou: “ela morava parede com parede. Tanto que eu aluguei uma casa ao
lado da casa da minha avó, porque eu não queria sair de lá. Foi ela que me criou. Ele alegou
que eles já tinham iniciado a compra de um imóvel na capital onde moravam:

a gente tinha comprado um apartamento lá em [nome da metrópole], de 46, 47 metros


quadrados, mais ou menos, a 305 mil [reais]. Assim, um dinheiro muito alto por um
cubículo. Aí eu resolvi entregar [...], 40 mil reais foi o que a gente perdeu. Algo dizia
que era para eu entregar porque ali não era o meu lugar. Eu falei isso para ela, mas
ela não acreditou. [ela disse] “não, você está ficando doido, não é possível, você está
querendo jogar o nosso dinheiro fora”. [Mas eu respondi] “não, mas eu não quero
mais”. Algo me dizia. Deu a louca, assim. Deu um estalo na minha cabeça. Aí eu
319

comecei a olhar as casas em Arapiraca. Em Maceió eu não moraria, porque é uma


[nome da metrópole], só que menor e com os mesmos problemas. A diferença é que
tem uma praia. Lá eu não moro, eu prefiro continuar em [nome da metrópole] ou ir
para o interior.

O desconforto com as condições de moradia e com o custo de vida nas grandes cidades
é uma das motivações que induz a procura pelas cidades de menor porte. O preço dos imóveis
em Arapiraca surpreendeu J.V.S.: “aí eu peguei e fiz isso, fui lá e olhei as casas e falei ‘meu,
que barato as casas lá. Muito barato! Muito diferente!’ Eu falei para ela: ‘eu só moro lá em
Arapiraca se for em condomínio’. Se não for, eu não moro, porque eu não conheço ninguém!
Como eu não conheço o bairro, não conheço ninguém, quem eu vou poder chamar? Com quem
eu vou poder contar? Vamos para um condomínio. Ela disse: “está bom!” Aí essa foi uma das
primeiras casas que a gente viu, né?”
A.T.H. corrigiu dizendo que “na verdade, essa foi a segunda. A primeira que a gente
viu foi em outro condomínio, porém a gente achou um pouco longe [...]. Como a gente mudou
sem carro, aí a gente falou ‘não, não vamos ficar’. Aí o corretor nos deu essa segunda opção
que era aqui [...]. Como era no caminho que é a nossa rota por conta do trabalho, aí a gente
resolveu ficar. E aí ele falou: ‘olha, tem mais duas construindo, é no mesmo condomínio, mas
no fim’. Aí a gente falou: ‘não, vamos ficar com essa, está tudo certo’”.
A ideia de que o RHF seria uma comunidade de vizinhos abertos a ajudar em momentos
de necessidade, ou como uma rede de apoio, pode ser um fator que explique porque muitas
pessoas que vêm de outras cidades para morar em Arapiraca, optam por esses
empreendimentos. A sensação de segurança que os moradores acreditam que os RHFs ofereçam
não se restringe à segurança patrimonial, ou de proteção à integridade física, mas também de
proteção social no sentido de poder contar com os vizinhos em caso de emergência.
Contudo, foi um atributo específico da primeira casa que arrebatou J.S.V.:

mas aí o que me atraiu mesmo nela foi a churrasqueira, na casa. Porque eu sempre
quis uma casa com churrasqueira. Eu gosto muito de churrasco e lá em [nome da
metrópole] eu não tinha. Aí eu falei: ‘não, vai ser essa casa. Tem até churrasqueira.’
Aí ela disse: ‘não, vamos ver outras mais baratas’. Eu falei ‘não, eu quero essa casa’
[risos]. Aí ela falou ‘eu também quero’. E eu [disse]:‘então, bora’. Aí a gente fez a
papelada e graças ao Senhor Jesus passou. Aí, o que é engraçado, coisa de Deus, né?
Antes de a minha avó falecer eu mostrei a casa para ela, [...] só mostrei: ‘vó, essa
casa aqui, o que a senhora acha?’ Ela olhou assim e disse ‘nossa, filho, que casa
bonita, né? Muito chique, casa de rico!’. [Eu disse]: ‘é, né, vó, muito bonita!’

O preço da terra e dos imóveis em Arapiraca possibilitou a família sair da periferia da


metrópole e morar em um RHF numa cidade média, no interior de Alagoas. O signo de ascensão
social fica explicitada na fala da avó: “casa de rico”. Ainda que as condições de infraestrutura
320

sejam inferiores, seria impossível adquirir uma residência similar em uma metrópole pelo preço
que ele encontrou em Arapiraca.
O falecimento da avó de J.S.V. foi o fator determinante para a mudança: “

depois ela ficou doente, pegou COVID, aí começou o pesadelo da nossa vida. Foram
meses assim e aí quando ela faleceu eu olhei para A.T.H. e disse ‘eu não quero mais
ficar aqui, eu quero embora. A gente vai para Alagoas ou vai para outro canto, mas
aqui eu não moro mais.’ Aí a gente já estava com essa casa meio que engatilhada e
conversando com o corretor. Aí o problema era o meu trabalho, porque na época eu
[...] não podia ficar 100% remoto. Eu estava remoto porque tinha um recém-nascido
em casa. Aí, como eu falo, tudo que a gente tem aqui foi obra de Deus. [...]Na mesma
semana o meu antigo chefe me ligou perguntando se eu queria trabalhar para ele.
[...] Aí eu conversei com ela e falei para ele: ‘só rola para mim se for remoto, porque
estou pensando em me mudar’. Aí ele me falou: ‘é 100% remoto’ [...] Eu disse: ‘então,
tudo certo’.

Nesse momento da entrevista, A.T.H. relatou que o casal tomou uma decisão
surpreendente: “a gente comprou a casa pela internet, sem nem entrar dentro dela [risos]!”
J.S.V. confirmou: “fechei negócio pela internet.” A.T.H. apresentou mais detalhes de como a
compra se deu: “pegamos as fotos com o corretor. Ele fez uma chamada de vídeo e mandou a
perspectiva pela internet. Daí a gente falou: ‘a gente quer ver como é aí à noite, no
condomínio’. Aí ele veio andou pelo condomínio à noite, apresentou um vizinho que estava
fazendo caminhada e aí gente falou ‘tá bom, então como que a gente faz?’ Aí ele falou, vocês
têm que dar um sinal para a gente não vender a casa para mais ninguém.”
Antes de fechar a compra, J.S.V. adotou um último procedimento como precaução:

A.T.H., é o seguinte, vamos falar para o meu pai ir lá’. Aí eu falei para o meu pai vir
para cá. Meu pai mora em [cidade próxima à Arapiraca] aí o corretor passou lá no
[empresa onde o pai do entrevistado trabalha] e trouxe meu pai aqui. Aí meu pai me
ligou e disse: ‘pode comprar, se eu tivesse dinheiro eu comprava, porque a casa é
linda, tudo de primeira’. Aí eu falei: ‘então está certo’. Aí eu comprei. Basicamente
a gente comprou a casa pela internet, sem nunca ter entrado. Quando a gente entrou
na casa, a gente já tinha comprado. Não dava nem para se arrepender [risos]. Porque
já tinha assinado a papelada. Aí por isso que eu digo que a gente está aqui por obra
de Deus. Porque tudo conspirou para a gente estar aqui. Tudo!

O casal C.T.P. e G.V.J. relatou que o processo de mudança foi um tanto atabalhoado em
razão das circunstâncias em que se deu. Segundo C.T.P. “a gente estava desesperado [risos],
porque a gente morava numa casa e aí o dono da casa avisou pra gente no primeiro dia de
dezembro que ele gostaria de ter a casa de novo em janeiro. [...] Então a gente ficou com um
período muito curto para procurar um lugar para se mudar. E aí a gente encontrou essa casa
de hoje através da [nome da pessoa]. Eu disse para ela: ‘pelo amor de Deus, sabe de uma casa
para alugar? [risos] Minha situação está assim, assim’. [...] Foi quando ela falou: ‘a gente
321

está com intensão de se mudar, a casa provavelmente vai ficar disponível, se você quiser a
gente cede para aluguel e tal’”.
G.V.J. complementou dizendo que “a oferta de casas para alugar é muito rara”. Ao
que C.T.P. acrescentou: “tem mais casa para vender. Para alugar é difícil.” Em razão disso,
G.V.J. mencionou que “restam poucas opções. A gente não tinha nenhuma seleção assim, nem
um critério, nenhuma preferência na época. C.T.P. completou: Era o que viesse porque a gente
precisava se mudar. G.V.J. arrematou: Hoje, se a gente se mudar, eu tenho a preferência por
condomínio fechado. E C.T.P. concordou: Hoje a gente já procura um condomínio fechado.
O quinto casal entrevistado mencionou que o processo de mudança para o RHF, no
início, também foi tumultuado, mas por razões diferentes do caso anterior. D.M.B. relatou que

foi bem complicado, viu, porque eu não queria sair da casa onde eu morava. Eu já
estava acostumada. Achava aqui tudo mais distante e eu ficava colocando empecilho.
Então ele comprou a casa e eu ainda passei um ano para me mudar. Aí eu engravidei
e foi quando ele disse: ‘quando você sair do hospital, você vai direto para a casa
nova’. Aí eu saí do hospital e vim direto para a minha casa nova. Depois fui me
adaptando. Eu gosto muito daqui, da vizinhança, do espaço. Aqui, me identifiquei
muito mesmo. E assim, eu penso no futuro do meu filho porque aqui é uma segurança,
a infraestrutura, tudo aqui para mim... eu acho muito, realmente, boa.

O casal contou que eles chegaram a olhar um terreno em um loteamento aberto, mas o
negócio não avançou porque não conseguiram um lote na posição que gostariam. De acordo
como H.R.D., “na época, a gente tinha o interesse em um local aqui em Arapiraca para morar,
porque a gente achava o local bonito, legal e tal que era aquele [nome do loteamento aberto
localizado na Serra de Mangabeiras], [...] só que a gente teve uma dificuldade de encontrar
um terreno que desse vista para Arapiraca [...]. A gente encontrou alguns construtores, mas a
gente não tinha boas referências desses construtores. A gente ficou com o pé atrás”.
Eles também sondaram casas e terrenos em outros RHFs, em Arapiraca, antes de optar
por esse, onde moram. Segundo D.M.B., “a gente olhou em outros condomínios. [...] Só que a
gente gostou muito daqui. Ele [H.R.D.] gostou da localidade. Eu achava tudo longe [e ele
dizia] ‘não, aqui é mais perto’.” A resistência da entrevistada em se mudar tem relação com a
localização do RHF, mal avaliada por ela quando comparada com a residência onde ela morava.
H.R.D. afirmou que outros dois fatores determinantes para a escolha desse RHF foi a
opinião de um construtor de confiança do casal e também a estimativa de valorização do imóvel.

aqui teve, também, a questão da pessoa que construiu a nossa casa, porque é uma
pessoa que tem um certo parentesco com a minha esposa. Então era uma pessoa de
confiança e ele passou boas indicações daqui, tanto da localização como da questão
da construção, né? Porque a gente vê que tem outros condomínios aí que não é tão
legal a valorização como é nesse. A gente viu que em pouco tempo, assim, o nosso
imóvel valorizou muito. Então isso aí foi primordial tanto porque a gente gostou, mas,
322

também, por essa indicação dessa pessoa, também. Porque ele é construtor que
conhece bem mais do que a gente. A gente não conhece muito de construção. Então
esse foi um fator que para a gente acabou sendo aquela chavezinha para escolher.

A conciliação entre o valor de uso e o valor de troca do imóvel foi um aspecto


mencionado pelo agente imobiliário S.M.R. quando ele comparou qual era a intenção do
comprador, se era imóvel para investimento ou imóvel para moradia. Nesse caso, em específico,
o imóvel como investimento foi pensado de forma atrelada ao imóvel como moradia.
As circunstâncias que induziram T.R.C. e F.M.N. a procurarem outra casa para morar
foram similares àquelas relatadas por C.T.P. e G.V.J.: a urgência de sair da casa que era alugada,
a pedido do proprietário. T.R.C. discorreu que “a casa anterior era alugada e a dona ia precisar
da casa. Então a gente saiu procurando. A princípio, a gente ia procurar para alugar, não ia
procurar para comprar. Aí um colega de trabalho, que é [...] cunhado do construtor, disse que
ele tinha umas casas para vender, recém-construídas, e veio mostrar. Eu nem sabia que esse
condomínio existia. Aí eu vim com ele e olhei as casas. Gostei da casa aí falei para ele [F.M.N.,
o companheiro]. Coincidentemente, foi quando eu descobri que era o mesmo condomínio em
que ele já tinha comprado um terreno, mas não tinha construído a casa”.
F.M.N. corroborou o relato de T.R.C. afirmando: “foi assim: tinha o terreno, mas era
só mais para investimento. Eu acabei comprando e ficou aqui de boa, sem nem usar. Aí quando
T.R.C. veio [ele disse]: ‘ah, é no condomínio onde tem um terreno da gente!’ [...] Ele entrou
nas duas casas, nessa e na casa [ao lado, que hoje é] da vizinha”. T.R.C. relatou que tomou a
decisão de forma quase instantânea: “eu gostei dessa, pronto! Disse: é essa!”
F.M.N. contou que, tanto na compra da casa, quanto na mudança, houve uma
coincidência inusitada: “ele [T.R.C.] gostou dessa. A vizinha também veio praticamente no
mesmo dia, só que ela gostou da outra. Então, ficou assim: ela gostou da outra, ele gostou
dessa. Ela comprou num dia, a gente comprou no outro. Ela se mudou num dia, a gente se
mudou no outro. [...] Por incrível que pareça, ela tinha estudado com ele na faculdade.”
Nesse momento da entrevista, o casal apresentou pontos de vista diferentes sobre o
imóvel. F.M.N. alegou que gosta, mas com ressalvas: “eu já gostei da casa, mas ainda não é a
casa que eu sempre sonhei, né? Porque eu gosto de casa com mais espaço[...], não
necessariamente do espaço da casa em si, mas eu gostaria muito espaço entre as casas. Aí ele
fica dizendo: então você ia adorar morar nos Estados Unidos [...]. Eu sou mais amplo, eu gosto
de espaço mais aberto. [...] Por mim, teria comprado três terrenos, construído uma casa no
meio e ter lugar solto dos dois lados.”
323

Sobre essa questão de espaço versus comodidade, T.R.C. alegou que “o que motivou a
vir para o residencial fechado foi mais a opinião dele [de F.M.N.]. Por mim, eu teria escolhido
um apartamento. Eu gosto de apartamento, eu gosto de torre, eu gosto daquela coisa compacta.
Ele não ia se adaptar. Então assim, o que eu pensei. Qual é o meio termo? Se dependesse dele,
ele moraria numa fazenda, numa chácara. Aí o termo que eu encontrei. Uma coisa que é mais
padronizada, né? Um condomínio fechado. É uma casa, do jeito que ele gosta e tem um pouco
mais de organização. Tem um pouco mais de padronização que é o que eu busco. É feito por
uma construtora. Enfim, é tudo feito de uma maneira, é isso: padronizada. Então foi isso o que
me motivou”.
Essa questão é um aspecto-chave e apareceu também nas respostas obtidas pela
aplicação do questionário online. Há uma parcela de moradores de RHFs que optariam por
moradia do tipo apartamento, se a cidade criasse condições para a implantação de edifícios
verticais com mais opções de apartamentos. Os residenciais verticais fechados oferecem
serviços de segurança e de portaria tão eficientes quanto nos RHFs. Conforme o relato do agente
imobiliário L.W.C., a verticalização não avança na cidade, em parte, por questões culturais, já
que os habitantes naturais da cidade não se identificam com essa modalidade de moradia; em
parte, pela disponibilidade de terras em áreas planas e a baixo custo; e em parte, devido à falta
de infraestrutura de saneamento mínima que assegurasse condições de adensamento.
A rede de esgotamento sanitário foi implantada em boa parte da cidade nos últimos anos,
mas a estação de tratamento segue inoperante o que inviabiliza o funcionamento do sistema.
Todos os edifícios verticais implantados na cidade operam, até o momento, com fossas sépticas,
que precisam ser esgotadas frequentemente, gerando transtornos recorrentes para os moradores.
Além desses fatores, a oferta de apartamentos em Arapiraca é restrita e pouco diversificada: as
unidades variam de 45 a 70 metros quadrados, no máximo, com sala de estar e jantar conjugadas
e cozinhas americanas. Poucos fogem a esse padrão.
Quanto às outras motivações apresentadas pelo casal, que influenciaram a opção pelo
RHF, F.M.N. alegou que “na época, a gente ainda viajava muito. Até então, porque
praticamente todo fim de semana a gente ainda ia para Maceió. A gente também tem uma casa
lá, em condomínio fechado. Porém a sensação de morar em condomínio fechado lá não tinha
sido muito agradável. Por ser um condomínio menor, pela administração ter uns conflitos. [...].
Não necessariamente a gente procurava uma [casa] em um condomínio fechado. Às vezes tinha
essa questão de ter ou não ter, nunca foi tipo, o foco não. A gente já tinha discutido a respeito
de comprar a casa da gente, para não ter que ficar alugando, mas tipo assim, foi uma questão
de, surgiu, gostou e de repente começou a morar e, a gente, tipo assim, se apaixonou”.
324

O entrevistado arrematou sua declaração afirmando sua satisfação de morar no RHF,


elencando como razões duas já afirmadas antes e uma terceira que apareceu também nas falas
dos outros entrevistados nos temas seguintes: “eu, particularmente, eu amo, eu amo morar aqui.
Gosto, gosto, gosto muito. Por essa sensação de liberdade, por essa sensação de segurança
também. Outra coisa que a gente, assim, não pode nem reclamar foi a questão do pessoal da
portaria. É um pessoal muito solícito, entendeu? Um pessoal muito educado. Principalmente
os meninos que ficam durante o dia que, assim, dá uma assistência muito grande. Então, às
vezes, a gente não se preocupa de fazer uma compra e de chegar, eles estão ali para receber a
encomenda. Então isso também dá uma certa liberdade”.
O trabalho dos porteiros é fundamental para o bom funcionamento de um RHF. São eles
que gerenciam todo o controle de entradas e saídas seja dos moradores, dos visitantes, dos
funcionários do residencial, dos trabalhadores das obras, dos entregadores, dos caminhões com
equipamentos e materiais de construção, além de receberem as encomendas, informar a entrada
da coleta do lixo, informar os itens achados e perdidos, dentre outros.
Em um episódio recente em um RHF em Arapiraca, o ar condicionado da portaria parou
de funcionar e, apesar das sucessivas reclamações dos porteiros e dos moradores, nada foi feito
pela administração. A situação só foi resolvida depois da iniciativa individual por parte de um
morador que despendeu recursos próprios para consertar o equipamento. Outro axioma que
qualifica a gestão nesses empreendimentos: compromisso com o conforto dos moradores e
descompromisso com o conforto dos funcionários. Além da portaria, a qualidade dos espaços
internos dos residenciais, insistentemente divulgada pelas construtoras nas peças de marketing,
é resultado direto do trabalho contínuo exercido pelos funcionários (Figura 105).

Figura 105 – Jardins e área de lazer em um RHF do grupo 4.

Fonte: O autor (2018)


325

6.5 Práticas espaciais de consumo e lazer

A pesquisa de campo abordou como tema-chave as práticas espaciais de consumo e


lazer – também em termos comparativos entre a residência anterior e a atual. As práticas
espaciais de consumo foram subdivididas em compras de alimentos e compras de vestuário,
tomando como referência a abordagem de Dal Pozzo (2015). Os resultados obtidos sobre os
locais e frequências de compras de alimentos a partir das respostas ao questionário estão
disponíveis nos Gráficos 14 e 15.

Gráfico 14 - Onde você fazia compras de alimentos quando morava na residência anterior?

Fonte: O autor (2021)

Gráfico 15 - Onde você passou a fazer compras de alimentos depois que se mudou para a residência atual?

Fonte: O autor (2021)

A análise dos resultados permite comprovar que, a partir da mudança para o RHF, a
frequência de compras de alimentos nos locais mais tradicionais da cidade – o centro e as feiras
– reduziu, enquanto a procura por grandes estabelecimentos de consumo aumentou. Não
obstante, a alta procura por supermercados atacado-varejistas parece ser uma tendência geral,
não específica dos moradores de RHFs.
326

Ainda assim, esse fato indica a adoção de práticas espaciais de consumo de cunho mais
exclusivista. A redução da frequência de compras em supermercados convencionais por parte
dos moradores de RHFs só não foi maior em razão de alguns deles terem se especializado na
oferta de itens mais sofisticados – como produtos diet & light, alimentos sem glúten e sem
lactose, além da maior variedade de queijos, vinhos e cervejas artesanais – que não são
encontrados com facilidade nos supermercados atacado-varejistas.
Sobre o consumo de vestuário a tendência se repete ainda que os tipos de
estabelecimentos de consumo sejam diferentes (Gráficos 16 e 17). Contudo, o impacto sobre o
comércio no centro da cidade, neste caso, é maior, pois lá está concentrada a maioria das lojas
pertencentes a esse segmento na cidade, inclusive aquelas que são de grife.

Gráfico 16 - Onde você fazia compras de roupas quando morava na residência anterior?

Fonte: O autor (2021)

Gráfico 17 - Onde você passou a fazer compras de roupas depois que se mudou para a residência atual?

Fonte: O autor (2021)

Houve, também, uma redução na frequência de compras nas lojas de bairro, indicando
perdas para o pequeno comércio. O aumento da frequência de compras no shopping center e
pela internet indica práticas espaciais de consumo mais seletivas, ainda que o centro da cidade
327

ainda se apresente pujante em termos de vitalidade urbana e como opção preferencial por parte
dos comerciantes86.
O entrevistado O.W.F. afirmou que quando morava na residência anterior, a localização
era melhor, mas o costume do casal é fazer a compra mensal de alimentos. Como eles dispõem
de transporte próprio, continuaram optando pelos supermercados atacado-varejistas: “por conta
de que a outra casa apesar de que estava em um bairro onde tinha mercadinho e tudo o mais,
tinha mais facilidade para comprar, a gente tem o costume de fazer compras grandes. Então a
gente saía para um mercado que tinha um preço melhor, como esses grandes atacados, né?
[...] Quanto a essa mobilidade de sair para fazer compras, para a gente, não mudou muito.”
Para algumas compras do dia a dia, M.Q.D, afirmou que o critério adotado é a
proximidade do estabelecimento, então, com a mudança da casa, mudou também esses locais
de compra. Embora essas compras sejam feitas mediante entrega pelo próprio comerciante, o
que altera é o tempo da entrega em razão da distância: “em relação à compra de outros
materiais, como água mineral e gás de cozinha, lá a gente comprava no mercadinho do bairro
e aqui também a gente compra no mercadinho do bairro. A gente liga, pede e eles trazem. Pelo
menos essa rotina de compras não mudou.” Há um item na compra do dia a dia que permaneceu
sendo feita no mesmo estabelecimento, apesar da mudança de residência. Segundo M.Q.D.:
“inclusive, o próprio pão francês a gente ainda compra no mercado onde a gente comprava
antigamente, porque a gente gosta do pão de lá.”
Quanto às compras de vestuário, o casal disse que também não houve grandes alterações
com a mudança da residência em loteamento aberto para o residencial fechado, pois parte das
compras é realizada fora de Arapiraca. Segundo O.W.F., “nesse aspecto, se repete. Mesma
coisa, não mudou. A gente sempre comprava fora e continuou comprando nos mesmos lugares.
Porque a cidade, apesar de ser no interior é uma cidade grande, mas não chega a ser tão
distante dos lugares onde a gente fazia compra de roupas.
Os relatos dos dois entrevistados deixaram entrever que os locais de preferência para
compra de roupas estão fora de Arapiraca. Instigado pelo pesquisador a dizer onde
especificamente eles compram roupas em Arapiraca, O.W.F. respondeu: “na cidade, é
geralmente no Centro ou no Shopping”. M.Q.D. especificou um pouco mais: “normalmente é
no shopping. No centro a gente compra também, mas é com mais frequência no shopping.
Comprava antes e continua comprando.”

86
O pesquisador observou que algumas lojas que fecharam no shopping center foram reabertas na área central de
Arapiraca-AL, principalmente aquelas que pertencem a franquias.
328

Quanto às compras feitas na cidade, a opção pelo shopping ao invés do Centro ou das
lojas de bairro pode ser um indicador de maior seletividade espacial e social, na medida em que
os preços dos itens de vestuário no shopping são mais elevados do que nos estabelecimentos
localizados fora dele. Embora o shopping center, em Arapiraca, não seja um local que restrinja
o acesso à população de baixa renda para fins de passeio nas suas dependências, os preços
praticados internamente selecionam os compradores pela renda.
Outra questão que alterou de acordo com M.Q.D. foi com relação à saúde do cachorro:
“o hospital veterinário onde a gente levava era um e aqui a gente começou a levar para outro.
Mas acredito que não foi nem tanto pela mudança da casa em si, foi mais pela demanda, pela
qualidade do serviço. [...] o hospital veterinário que a gente levava cobrava um valor muito
alto e a gente achou outro, inclusive, aqui, conversando com os vizinhos, né, foi que a gente
achou outro com um preço muito mais acessível. Nos grupos de whatsapp internos, dos quais
participam a administração e os moradores dos RHFs, formam-se redes de colaboração úteis
para a indicação de profissionais, estabelecimentos e serviços, com melhores preços e padrões
de qualidade (custo-benefício).
Já P.S.T. realizou parte da sua compra de alimentos na feira livre: “eu sempre vou ali
para a Rua Brasília porque lá você encontra tudo. Eu sou vegano e ela [R.B.I.] vegetariana,
então com essa questão da alimentação a gente sempre tem uma certa preocupação. Então eu
sempre vou para essa feira no dia de quinta-feira. Quando eu estou trabalhando e coincide
com o dia da feira, aí não tem jeito, eu vou no Mercado Público [no Centro].
Sobre as compras de frutas e verduras, o entrevistado afirmou que continua indo no
mesmo dia e na mesma feira livre depois de mudar para o RHF, “porque aqui próximo não tem
uma feira de frutas, de verduras, com a variedade que eles têm lá. E como eu pego essa reta,
[...] eu já saio lá na “folhinha” [monumento de referência ao fumo, no cruzamento da AL-220
com a Avenida Ceci Cunha, um marco importante na cidade] [...]. Eu acho lá bem interessante
porque, geralmente, uma feira livre tem tudo fresquinho e tal. O peixe, elas comem peixe, aí
tem um rapaz lá com uma banca enorme daqui para o outro lado da rua, só de peixes.
O relato do entrevistado é importante no sentido de indicar o impacto que a mudança
para o RHF pode estar gerando na rotina de compras de alimentos no Centro e nas feiras,
conforme evidenciado nas respostas ao questionário online. O entrevistado adota uma prática
alimentar que requer maior atenção com a qualidade dos alimentos, o que resulta em um
consumo mais consciente, e ainda assim, a questão da mobilidade aparece no seu relato como
um aspecto relevante.
329

A mudança para esses RHFs, geralmente localizados em áreas mais distantes do Centro
e dos bairros tradicionais onde ocorrem as feiras livres semanais, pode estar reduzindo a procura
por esses locais para a compra de alimentos. Além da qualidade dos alimentos vendidos nas
feiras livres, elas são atrativas também em razão dos preços mais baixos. Se os locais de moradia
ficam mais distantes, os consumidores passam a ter que lidar com a piora das condições de
mobilidade e com os custos decorrentes dela, anulando a vantagem dos menores preços
praticados nas feiras livres. Nesse sentido, o distanciamento do local de moradia tende a afastar
os consumidores das feiras livres, especialmente os segmentos de classe média-baixa que
tendem a usar o transporte público com mais frequência.
Quanto à compra mensal, segundo o casal, ela é feita em supermercado atacado-varejista
considerando a proximidade do estabelecimento em relação à residência: As feiras de
supermercado a gente sempre faz no [nome do estabelecimento] e [nome do outro
estabelecimento] onde você encontra uma variedade maior, né? Então, assim, essa parte não
mudou muita coisa. [...]Eu ia mais para o [nome do estabelecimento], que era mais próximo
de lá. Hoje eu vou mais ao [nome do outro estabelecimento], porque fica mais próximo daqui,
porque às vezes você encontra alguma mercadoria com o preço melhor lá [no anterior], mas
aí tem a questão do combustível né? Aí uma coisa acaba compensando a outra.
Quanto ao vestuário, P.S.T. afirmou que não houve muitas alterações na rotina de
compras com a mudança para o residencial fechado, uma vez que o novo bairro não oferece
opções nesse sentido: “desse lado de cá a gente não tem muita opção de lojas e de roupas e tal,
a não ser o shopping que já está aí e a gente procura quando tem alguma coisa interessante.
O shopping a gente frequentava [quando morava] lá e aqui, também. Aqui acho que ficou um
pouco mais perto. Então a gente vai, sempre que precisa de alguma coisa, não tudo, mas uma
boa parte a gente vai ao shopping e as outras coisas a gente vai ao Centro mesmo. Tanto
quando a gente morava lá ia ao centro e hoje também a gente procura mais as lojas do centro.
Para vestuário, é basicamente nos mesmos lugares, das lojas que a gente já era cliente e tal.”
Apesar do entrevistado relatar que não houve mudanças substanciais na rotina de
compras, os efeitos de proximidade e distanciamento são invertidos a partir da mudança para o
RHF: o Centro e as feiras livres ficam mais distantes e inacessíveis ao passo que o shopping
center fica mais próximo e acessível, pelo menos do ponto de vista físico-espacial. A pergunta-
chave é: até que ponto a proximidade física compensaria a diferença dos preços? Nesse sentido,
o preço dos combustíveis é um dos fatores determinantes, mas não só ele. A influência do
habitus sobre práticas de consumo mais exclusivistas também deve ser considerada.
330

Para J.V.S. e A.T.H. a mudança de uma metrópole para Arapiraca resultou em alterações
consideráveis na rotina de alimentação da família. De acordo com A.T.H.: posso dizer que hoje
nós somos mais saudáveis [risos]. Antes a gente comprava muita bobagem na questão da
alimentação, muita coisa que não nos fazia bem e, normalmente, nós não comíamos em casa.
Nos finais de semana sempre a gente pedia ou comíamos fora. Então a gente comia em casa
três ou quatro dias no máximo durante a semana. Com a vinda para cá a gente teve uma pessoa
em casa que cozinha e nos ajuda. É importante mencionar que a redução do custo de vida na
cidade média, em relação à grande cidade, possibilita a contratação de diaristas a valores mais
módicos do que nas capitais. O empregado, na grande cidade, se torna patrão na cidade média,
e o impacto dessa inversão no habitus não pode ser negligenciado.
Segundo J.S.V. “a gente começou a comer menos besteira. Lá em [nome da metrópole]
a gente acabava comendo mais salada, legumes porque o acesso lá a determinadas coisas era
mais fácil, mas aqui a gente come melhor”. Com comida a gente gasta mais, porque lá em
[nome da metrópole] eu saía [para trabalhar], aqui eu estou em casa. Meu trabalho é remoto
então eu fico o dia todo em casa [...].
Instigados a falar sobre em quais locais ou estabelecimentos eles fazem compras de
alimentos, J.V.S. respondeu “no [nome do supermercado atacado-varejista], pela variedade, e
a parte de legumes, frutas e verduras a gente compra na feira em [município limítrofe]. Pelo
valor lá e por ser mais fresco, porque geralmente são produtores da região, então eles sempre
têm verduras e legumes mais frescos, né? [...] A feira lá acontece em dia de sábado. Carne
também a gente compra lá, porque os açougues daqui eu acho muito caros. [...] E quando a
gente quer alguma coisa diferente a gente vai no [nome do supermercado varejista tradicional
em Arapiraca que, a partir da chegada dos grandes atacados, passou a ofertar produtos mais
sofisticados, para compradores mais seletivos].
A mudança de uma metrópole para uma cidade média acabou por alterar também a
rotina de consumo de alimentos do casal, sendo a mudança mais substancial a compra de frutas,
verduras, legumes e carnes na feira livre em um município circunvizinho. Contudo o consumo
de cunho mais exclusivista é mantido quando se quer encontrar, em Arapiraca, produtos que
eram mais facilmente acessados na metrópole.
Sobre a compra de itens de vestuário, os relatos do casal de entrevistados indicam uma
prática de consumo muito comum nas cidades interioranas, não só em Alagoas: a aquisição de
peças de roupas com fornecedores específicos que fazem a venda domiciliar, observando o
perfil do comprador. Geralmente, são familiares ou amigos próximos dos compradores. Alguns
atuam no ramo como lojistas na própria cidade ou em cidades vizinhas, outros são sacoleiros
331

que compram em lugares distantes e vendem na região. Esses fornecedores levam um


determinado conjunto de peças de roupa até o comprador.
J.S.V. relatou que “a irmã dela tem uma loja, a gente compra no shopping e, às vezes,
no Centro, também. Sobre a compra domiciliar, A.T.H. detalhou um pouco mais sua
experiência: “eu gosto muito de comprar com a minha irmã [risos]. Ela tem uma loja no
interior [...]. Eu gosto muito porque ela também tem diversidade e são coisas de marca, tem
uma durabilidade muito grande. O preço é acessível, cabe no meu bolso. Eu amo as roupas de
lá e também tem essa questão dos descontos, né? [risos]. A preferência por roupas de marca é
um indicador de seletividade, pois além da suposta qualidade, há o apelo da exclusividade.
J.S.V. alegou que, no shopping a gente frequenta muito uma loja específica:

eu gosto de comprar na [nome da loja] porque eu tenho problemas com calça jeans.
Lá em [nome da metrópole] eu usava uma calça jeans e durava uns três meses. [...].
Tanto que eu sempre comprava calça cara, porque a durabilidade era maior. Eu
usava, todos os dias, calça jeans. Aqui não, eu compro uma calça a cada um ano. A
A.T.H. comprou duas calças para mim em um ano e, lá em [nome da metrópole], já
teria comprado umas cinco. Então assim, a gente gasta menos.

A.T.H. confirmou relatando que “lá a gente passava a maior parte do tempo de sapatos.
Ela prosseguiu, afirmando que, no shopping, eles compram tanto em uma loja de grife local,
quanto em lojas de departamento. Essa loja de grife foi mencionada também em outros relatos
e ela aparece como um aspecto de distinção, principalmente nas falas das entrevistadas. Quanto
às compras de roupas infantis, J.S.V. afirmou que “lá no Centro tem umas lojas mais baratas,
né? Roupa de criança tem que comprar roupas baratas, porque a criança cresce muito rápido,
então perde rápido. Esse negócio de comprar tênis de marca para criança, para bebê, é
besteira”.
C.T.P. e G.V.J. afirmaram que a rotina de compras de alimentos alterou com a mudança
para o RHF, mas as compras de roupas, não. As compras de alimentos pelo casal são feitas em
mercados de bairro ou em supermercado atacado-varejistas, considerando a relação de
proximidade com a residência, mesmo que parte das compras sejam feitas na forma de entrega
em domicílio. Como o RHF para onde eles se mudaram fica distante da casa anterior, os locais
de compra alteraram também. Segundo G.V.J.: “a gente pede muito, a gente usa muito o
delivery. Mas o supermercado, o restaurante e o mercadinho, que a gente usa muito mais, e
farmácia, tudo o que tem em volta assim, mudou.”
Ele continuou o relato alegando que “a gente ia muito à padaria que tinha perto e aí,
como era no pico da pandemia, o supermercado era muito pedindo, mas eu ia também no
[atacado localizado próximo da residência anterior]. Agora eu vou mais ao [nome do atacado
332

mais próximo da residência atual], fica mais perto de casa também. No dia-a-dia é nos
mercadinhos próximos, farmácia. O posto também mudou, não vou mais para as bandas de lá
para abastecer, apesar de eu achar que o posto de lá era melhor.” A localização interfere
muito na escolha dos locais de compra, principalmente quando a frequência é maior. Nesse
sentido, a procura cada vez menor por casas em loteamentos abertos tenderá a impactar as
vendas no pequeno comércio localizado nesses bairros.
Quanto à compra de roupas, G.V.J. foi taxativo: “Ah isso não mudou não. [...] Na rua
do trabalho dela tem lojas, é mais essas que ela frequenta e eu só compro roupas quando [as
minhas] estiverem rasgadas mesmo [risos]. [...]. São nos mesmos lugares. G.V.J. acrescentou
que “nessa mesma loja tem uma seção masculina, é a mãe dela que compra para mim [risos]”.
É comum nos relatos dos maridos nos casais heteroafetivos entrevistados a afirmação de que
eles delegam às esposas ou às sogras a incumbência de escolherem e comprarem suas roupas.
A entrevistada C.T.P. acrescentou que a compra de roupas também se dá na forma da
venda domiciliar como relatado por A.T.H.: tem essa comodidade porque elas mandam trazer
aqui. E aí é até bom isso porque, a questão da diferença entre as casas né, antes tinha que ter
alguém lá para receber. Hoje em dia, o porteiro já conhece, já deixa entrar. O pessoal deixa
na garagem a sacola e quando eu chego eu vejo que está a sacola lá [risos]. É bem legal.
G.V.J. por fim incluiu: “eles trazem um pacote de roupas, ela escolhe o que quer, e devolve o
resto. Como já tem esse laço com a loja, aí criou esse modo de venda, também.”
As compras domiciliares de roupas ou por entrega em domicílio, no caso dos alimentos,
é facilitada nos RHFs uma vez que os porteiros podem receber as encomendas, em caso de
ausência dos moradores. Eles também impedem a entrada de “falsos entregadores” e alguns
residenciais ainda dispõem do serviço de vigilância com rondas, que fazem o acompanhamento
dos entregadores até as residências. Nesses últimos, o constrangimento aos entregadores é
evidente, já que o acompanhamento pelo vigilante indica uma postura de desconfiança em
relação a eles, na forma de um preconceito social que desqualifica o trabalhador como
criminoso em potencial, embora não seja raro, entre moradores desses empreendimentos, em
diferentes regiões do país, a presença de contraventores87.
H.R.D. e D.M.B. relataram também que, após o casamento, eles passaram a se alimentar
com mais qualidade: a gente pode dizer que nossa questão de alimentação mudou muito porque
a gente era solteiro e nossa alimentação era menos saudável do que é hoje. Era lanche, pizza,
cachorro-quente, sanduíche. Mas a rotina de compras de alimentos com a mudança da capital

87
MIRANDA, Ricardo. Classe média no tráfico. Revista Istoé, São Paulo, Ago. 2002. Disponível em
[Link] Acesso em: 18 out. 2021.
333

de estado para o RHF em Arapiraca não mudou, lá eles faziam as compras mensais em
supermercados atacado-varejistas e continuou fazendo em Arapiraca nesse mesmo tipo de
estabelecimento.
Quanto à compra de roupas, H.R.D. relatou que não houve mudanças nessa rotina
também, pois quem cuida dessa parte é a esposa: “aqui, geralmente, ela que faz essas coisas.
Eu sou meio desligado para negócio de roupa. Ela que faz compras disso, aqui.” D.M.B.
afirmou que depois de se mudarem para o RHF manteve os mesmos locais onde compra roupas:
os mesmos, [nome da loja]. Compro muito pela internet. No Shopping também, na [loja de
grife local]. Dentre os locais de compra constam algumas lojas de grife locais.
Ao falar sobre as mudanças em termos de consumo de alimentos e vestuário depois que
se mudaram, T.R.C. retomou o tema da localização desvantajosa do RHF em relação à
residência anterior:
Mudou! Nisso eu tenho o que reclamar. É uma coisa que eu, particularmente, não
gosto. Na verdade, eu detesto. Supermercado é longe. Farmácia. Se tiver com uma
dor de cabeça, para comprar dipirona não tem uma farmácia aqui perto que dê para
ir a pé. Eu, particularmente, gosto de andar a pé. Eu gosto da sensação de sair de
onde estou, [...] do local onde eu moro, sair para calçada, andar poucos metros e
encontrar um comerciozinho local. E aqui não tem! Então, assim, se eu precisar de
um mínimo que seja, eu tenho que ir até um supermercado, a mais de um quilômetro
daqui, para comprar alguma coisa, voltar. Ter que depender de um carro. Não tenho
como ir a pé. Isso é uma desvantagem que eu tenho que admitir. Isso eu acho muito
ruim.

F.M.N. relativizou a fala de T.R.C. ponderando que existe estabelecimentos de comércio


próximos, mas que eles não atendem ao padrão de consumo do casal: “na verdade, tem até
supermercado próximo. Até que tem. Só que, infelizmente, a gente sabe que, o supermercado
que a gente tem próximo é de um padrão mais popular. E a gente sabe que, às vezes, a gente
que acaba tendo uma condição de vida um pouco melhor, o tipo de alimento que a gente
consome, a gente começa a ter preferência por algumas marcas, né? E, às vezes, não é o que
normalmente tem. Então, isso também faz com que a gente acabe indo para um maior.
As duas explanações dos entrevistados tocam em outro aspecto-chave da mudança para
RHFs: a segregação urbana traduzida nas práticas de consumo. Embora os RHFs de alto padrão
estejam localizados em áreas não tão carentes da cidade, a realidade daqueles de médio padrão
não é a mesma. No caso do RHF onde mora o casal T.R.C. e F.M.N., ele está localizado em um
bairro onde grande maioria da população residente é de baixa renda. Os estabelecimentos de
comércio localizados no bairro têm como público-alvo a maioria dos moradores, ou seja,
aqueles que residem nos conjuntos habitacionais, e não a minoria, que mora em residencial
fechado.
334

Apesar do mercado mais próximo estar a apenas 240 metros da guarita do RHF onde
mora, T.R.C. afirmou que não tem estabelecimento de comercio ali e F.M.N afirmou que existe,
mas não atende o padrão de consumo do casal. Nesse caso, as práticas espaciais de consumo
guardam relaçao com o habitus: a afirmação “não tem”, relatada por T.R.C. não quer dizer “não
existe”, quer dizer que ele não considera a compra nesse mercado como uma possibilidade. A
distância simbólica entre o tipo de consumo que aquele mercado proporciona e aquele que
constitui o padrão pelo casal é de tal ordem que ele exclui a possibilidade de comprar lá. O
entrevistado traduz a distância social em termos de distância física: para ele o mercadinho está
“mais distante” dele dos que os supermercados atacado-varejistas situados nas rodovias, a pelo
menos 3 quilômetros da sua casa.
O entrevistado T.R.C. prosseguiu abordando a incongruência entre o bairro onde está
morando e o tipo de estabelecimento que ele gostaria que o comércio local oferecesse: “outra
coisa, não tem um restaurante, uma cafeteria. Não tem.” F.M.N. tentou relativizar novamente:
“na verdade, Arapiraca quase toda não tem, né?” Mas T.R.C. reafirmou: “não, em alguns
lugares tem, mas aqui próximo não tem. Não tem restaurante, não tem cafeteria, não tem uma
lanchonete legal. Não tem.” O descolamento socioespacial entre onde se mora e onde se compra
é notório. O RHF oferece um determinado padrão de residir que atrai moradores com um padrão
de consumo mais elevado, e o bairro onde o empreendimento está localizado não atende a essa
demanda por produtos diferenciados. Esse deslocamento entre prática espacial de consumo e
habitus pode ser traduzido no axioma: moro onde não compro, compro onde não moro.
F.M.N. buscou relativizar mais uma vez afirmando que eles estão conscientes das
desigualdades sociais presentes no entorno e que eles têm a preocupação com o
desenvolvimento do comércio no local. No entanto, o relato do morador indica que o comércio
local deverá se adaptar ao padrão de consumo dos moradores do RHF e não o contrário.
A gente sempre fala o seguinte, é uma característica que tanto ele quanto eu, a gente
tem. A gente gosta muito dessa questão de preservar o comércio local. Eu acho que,
se a gente pode comprar aqui perto, para contribuir para melhorar aqui, então a
gente vai acabar comprando aqui. A gente acaba deixando para comprar alguma
coisa fora se a gente não encontrar aqui, mas isso é uma característica já nossa.
Independentemente de ser no bairro. Óbvio que se a gente pudesse, tinha que ser no
bairro. Mas se, por exemplo, se tiver uma padaria boa aqui, a gente preferir comprar
aqui, se tiver um local onde a gente possa comprar um laticínio aqui próximo, a gente
vai dar prioridade aqui. Justamente porque a gente sabe que, se a gente começa a
movimentar, desenvolve localmente. Aqui, a rua principal, a gente sabe que tem
alguns pontos de comércio ainda muito simples, mas que a tendência com esse
aumento de casas aqui, a tendência é ele começar a estar mudando também. Então,
eu acho que até mesmo, aumentando as casas aqui, com esses outros condomínios
que estão construindo próximo, aí o nível de exigência para esse comércio local,
começa a mudar também e eles acabam se adaptando. Então isso, a tendência é
acabar mudando também. Eu acho que é um pouco lento, porque ainda o forte [...]
do comércio ainda é uma população mais carente, pobre, mas a gente já começou
335

também a perceber. Às vezes, até a lojinha já começa a botar uma vidracinha, né?
Para mostrar que tem um perfumezinho vendendo [marca famosa de cosmético],
vendendo ali [outra marca famosa de cosmético]. Então isso, às vezes, a gente
começa a perceber também.

Quanto ao tipo de estabelecimento onde eles fazem compras de alimentos, o casal diz
que não mudou. Segundo F.M.N.: a gente acaba indo ao supermercado que a gente tem mais
costume de ir. Quanto ao tipo de supermercado, T.R.C. respondeu: “convencional. Porque a
gente compra pouco também. Não vale a pena a gente ir para atacado, a gente não compra em
quantidade”.
Quanto às práticas de consumo de vestuário, T.R.C afirmou que adota uma postura
exigente, tanto em termos estéticos quanto de consumo consciente: “eu compro roupas em
viagem. Porque, assim, eu sou muito criterioso para roupa. Então, eu preciso ver qual
fabricante, se ele tem uma fabricação ética com relação aos trabalhadores, né? Eu não compro
de marca que já esteve envolvida em escândalos trabalhistas. A matéria prima, de onde vem.
Eu tenho que ver também o caimento, se é o tipo de corte que me favorece. [...] Eu pesquiso
muito para comprar. Eu tento pesquisar marca, pesquisar o material, tenho que provar. Então
eu não tenho um local específico e certo para comprar roupa.
Já F.M.N. alegou não ser tão exigente com a compra de roupas: “eu não tenho não essa
questão de onde vai comprar não. Normalmente é o que eu gosto. Eu também não tenho essa
questão de marca. Nunca tive. Então assim, se eu passar numa loja de bairro e eu ver uma
camisa e gostar, eu vou comprar desde que caia bem. Se eu estiver no shopping e eu ver uma
camisa, também, eu vou estar usando.”
Mas sobre essa questão F.M.N. fez a seguinte ressalva: [...] às vezes, quando a gente
vai para um local diferente, a gente quer uma roupinha diferente, aí na viagem a gente acaba
comprando. Fazendo algumas compras. Acho que na maioria das vezes a gente compra mais
na viagem. As compras de roupas realizadas pelo casal parecem ser esporádicas e os itens são
adquiridos geralmente em viagens. Se na compra de alimentos os entrevistados não são
atendidos pelo comércio de bairro, na compra de vestuário eles não são atendidos pelo comércio
da cidade, corroborando o axioma anterior, mas em uma escala mais abrangente. Nesse caso,
se trata de moradores com perfis de consumo altamente seletivos que os RHFs também tendem
a atrair.
Outro aspecto-chave que confirmou a hipótese da pesquisa foi a alteração das práticas
espaciais de lazer a partir da mudança dos respondentes e entrevistados de um loteamento
aberto para um RHF. No questionário online foram feitas duas perguntas sobre esse tema:
“quais atividades de lazer você realizava com mais frequência quando morava na residência
336

anterior?” e “quais atividades de lazer você passou a realizar com mais frequência depois que
se mudou para a residência atual? As opções oferecidas como respostas às duas perguntas foram
as mesmas e os respondentes puderam marcar mais de uma opção. As respostas obtidas foram
agrupadas considerando antes e depois da mudança de residência (Gráfico 18).

Gráfico 18 - Atividades de lazer realizadas pelos moradores antes e depois de se mudarem para RHFs

Fonte: O autor (2021)

A partir das respostas obtidas, é possível constatar que houve uma pequena redução das
práticas de atividades físicas em espaços públicos urbanos depois da mudança para o RHF. Em
Arapiraca, a administração municipal tem investido na qualidade dos espaços públicos urbanos
através da implantação de novas praças e parques ou da “revitalização” dos existentes,
disponibilizando academias ao ar livre, pistas para corrida ou caminhada e algumas ciclovias
(Figuras 106 e 107). Talvez isso explique o menor impacto da mudança para os RHF
considerando esse tipo de atividade: os moradores não encontram dentro dos muros espaços
para atividades físicas ao ar livre melhores do que aqueles que são oferecidos fora.
337

Figura 106 - Vista do Parque Ceci Cunha II, com pistas para corrida e academia ao ar livre.

Fonte: [Link]

Figura 107 - Vista do Bosque das Arapiracas, com ciclovia, pistas para corrida e academias ao ar livre.

Fonte: [Link]
338

Contudo, o crescimento registrado da atividade física realizada em academia particular


foi expressivo. A prática de atividades físicas em academias foi mencionada como uma
atividade de lazer importante por parte dos moradores de RHF. O pesquisador também
observou, em conversas informais com moradores de diferentes RHF em Arapiraca, que depois
de a pessoa passar a morar em RHF, ela começa a se exercitar mais, seja com o cônjuge, seja
com os amigos, ora em caminhadas e outros exercícios físicos dentro do residencial, ora fora
dele, em academias particulares. Essa questão pode estar relacionada a um componente
específico do estilo de vida: o cuidado com a saúde do corpo.
O abandono do espaço público é mais nítido quanto ao lazer do tipo passeio. O ato de
se divertir caminhando pelos espaços públicos da cidade apresentou uma redução significativa
depois da mudança para o RHF, considerando as respostas obtidas. A figura da rua, da praça e
do parque público perdem relevância enquanto espaço de lazer contemplativo e de diversão
familiar. É preciso considerar as implicações disso, pois está sendo enfraquecida a relação das
crianças com esses lugares, ao passo que se fortalecem os vínculos com os parquinhos das áreas
de lazer privadas, internas aos RHFs. Outro impacto disso é o encolhimento da esfera pública,
com prejuízos de ordem sociocultural e política na medida em que os espaços públicos urbanos
são fundamentais para possibilitar o encontro entre diferentes, a afirmação da diversidade, as
manifestações artísticas, o debate político, os atos reivindicatórios de direitos, dentre outros.
Ao mesmo tempo, os resultados apontam que o passeio no shopping center aumentou
com a mudança para o RHF, expandindo o lazer enquanto entretenimento pago. Uma reflexão
possível é que a experiência privatista vivenciada dentro residencial fechado pode estar
contaminando outras práticas espaciais dos moradores, inclusive as de lazer, expandindo a
esfera privada ao passo em que é restringida a esfera pública.
As práticas de esportes em parques públicos apresentaram um leve aumento depois da
mudança dos respondentes para o RHF. Isso pode ser explicado pelos motivos apresentados
anteriormente quanto às atividades físicas: a qualidade dos espaços públicos oferecidos na
cidade. Contudo, essas atividades são geralmente desenvolvidas por jovens e adultos. O lazer
das crianças está cada vez mais circunscrito dentro dos muros dos RHFs, e as implicações disso
não podem ser menosprezadas.
As visitas a familiares e amigos também apresentou redução com a mudança para o
RHF. Pode ser que os respondentes passaram a receber mais as pessoas depois que se mudaram,
ao invés de irem ao encontro delas; ou tenham se tornado menos abertos a receber pessoas em
suas casas. Os dois casos apareceram nas entrevistas realizadas.
339

A atividade de lazer correspondente a assistir à televisão foi a escolhida pelo maior


número de respondentes e não sofreu alteração substancial com a mudança para o RHF. Apesar
desses espaços fechados oferecerem áreas de lazer equipadas e praças internas para recreação
dos moradores, a TV – entretenimento particular e interno à residência –, mantém sua relevância
de forma quase inalterada. A atividade de ir ao cinema, que supõe o deslocamento ao shopping
e uma experiência mais coletiva de acesso à cultura, também não apresentou alteração
significativa.
Já o tipo de lazer relacionado à ida a bares ou restaurantes teve uma redução
considerável com a mudança para o RHF. O fato da pesquisa ter sido realizada em período de
pandemia pode ter afetado esse resultado. Contudo, nas entrevistas foram obtidos relatos
indicando que depois da mudança para os RHFs, os moradores passaram a usar mais os serviços
de entrega, outros se veem mais caseiros e outros, ainda mais seletivos. Se a tendência de
mudança para os RHFs se consolidar de forma ainda mais intensa, é preciso considerar os
impactos nos empregos formais oferecidos nesses estabelecimentos para atendimento
presencial.
M.Q.D. relatou que a expectativa que ele tinha com o RHF em termos de usufruir mais
do lazer não mudou como ele esperaria. O descolamento entre as “possiblidades” que o RHF
ofereceria, tanto em termos de oportunidade, quanto em termos de equipamentos físicos, e o
parco usufruto real dessas possibilidades, transpareceu no relato de M.Q.D. como uma
frustração. Segundo ele, há uma diferença entre:

o que você pensa e o que realmente acontece. A gente acreditava que quando estava
vindo para cá, a gente ia mudar a rotina no sentido de que, como tem uma área
murada e fechada, a gente ia caminhar mais pelo condomínio, ia passear com os
cachorros, ia estar nadando na piscina, fazendo atividade física, mas foi “fogo de
palha”. Quando a gente chegou aqui a gente viu que não é assim que acontece, a
preguiça é a mesma, a água [da piscina] sempre está gelada. Então, assim, a gente
achava uma coisa, mas é outra. A gente até começou direitinho e ainda tenta, vez ou
outra bate uma inspiração e a gente começa a fazer uma caminhada, mas não dura
muito tempo, não. A gente caminha três ou quatro dias e para e fica dois, três meses
parados.

O pressuposto de que o novo espaço teria, por si mesmo, o poder de alterar as práticas
dos moradores a partir da oferta de equipamentos e oportunidades – muitas vezes
propagandeado pelas construtoras – não se traduz em um uso real por parte deles. O habitus
muitas vezes cultivado por moradores e estimulado de forma tácita pelo espaço autocentrado e
introvertido dos RHFs contrasta com as possibilidades ofertadas da porta da casa para fora. A
ideia de que o indivíduo, uma vez que se torna morador do RHF, irá usufruir de tudo que lhe é
oferecido e de forma contínua no tempo e no espaço, parece ser frustrada em razão desse
340

fenômeno: aquilo que o RHF oferece em termos espaciais, como equipamentos para recreação
e práticas de atividades físicas, ele retira em termos de sociabilidade, devido aos
comportamentos de evitação adotados por uma parte dos moradores.
Sobre esse tema, o casal apresentou uma divergência marcante. O.W.F. discordou,
afirmando: “Eu acho, na verdade, que isso é muito individual. Eu discordo bastante disso,
assim, no meu caso. [...] tem a questão do tempo, chovendo direto, então você não tem
motivação, realmente. Um frio muito grande, mas em outras épocas a gente fica mais ativo,
sim.” Mas M.Q.D. reforçou sua posição: “Eu acho não. Acho que a gente pensava que mudaria
mais, mas na prática... Eu até achava ‘eita, tem uma pracinha aqui, vou patinar’. Nunca patinei
aqui.” O.W.F. retomou a divergência: eu nunca saí com os cachorros na outra casa e aqui eu
saio. Sobre o passeio com o cachorro na residência anterior e na atual, o relato de M.Q.D. trouxe
outro aspecto importante: “eu soltava e deixava ele solto na rua e ficava vigiando. Em frente à
casa, quando ele saía assim atrás de um bode, eu dava uns gritos e ele voltava para casa, mas
passeava com ele solto. Aqui não, quando a gente passeia com ele aqui, quando passeia,
passeia na coleira.”
Nos RHFs há regras que disciplinam o passeio com animais de estimação. Os cães
devem ser conduzidos sempre na coleira. A dicotomia liberdade dentro versus restrições fora
aparece invertida em certos aspectos e a questão dos animais é um deles. Os animais de
estimação vivem mais presos dentro dos RHFs do que fora deles e talvez isso seja sintomático
de que o mesmo pode estar acontecendo com as pessoas. Os animais representam para alguns
moradores de RHF uma ameaça interna à segurança que se expressa na forma de preocupações
como “pode me atacar”, “pode atacar o meu filho ou minha filha”, “pode atacar o meu animal
de estimação”. Eles tencionam o espaço interno como “espaço de despreocupação”.
Há outra questão que também ilustra comportamentos derivados da afirmação dos
espaços internos dos RHFs como espaços de despreocupação, representada em uma frase muito
comum, informada em placas de sinalização nesses empreendimentos: “aqui as crianças
brincam livres”, que pode ser traduzida como: “aqui os pais vivem despreocupados”. A
velocidade máxima sinalizada dentro de alguns residenciais é de 20 km/h, embora nas vias
locais, a velocidade máxima permitida seja de 30 km/h. A velocidade dos veículos se apresenta
como outra ameaça interna à segurança nos RHFs.
Ainda no tocante à questão da velocidade, o pesquisador teve a oportunidade de
observar, dentro de um RHF, crianças com menos de 5 anos atravessando a rua em direção às
áreas públicas sem a companhia dos pais. Ainda que o controle de velocidade seja importante
e necessário, com vistas a priorizar o pedestre e o ciclista, parece haver um comportamento
341

imprudente por parte dos pais em deixar crianças muito pequenas transitarem sozinhas no
arrumamento interno dos RHFs.
Comparando o lazer da família antes e depois de se mudarem para o residencial
horizontal fechado, P.S.T. discorreu que

assim, a questão de lazer lá nós não saíamos, não tínhamos muita opção, né? Clube,
eu passei uma época quando era solteiro, andava a beber e tal, mas depois quando
nós nos casamos, em pouco tempo, nós nos convertemos e nos tornamos cristãos. [...]
Porque hoje em Arapiraca, a não ser para quem bebe, toda esquina tem um bar, mas
para você que não bebe, se você não procurar viajar para uma praia ou para um
outro lugar... E aqui [no residencial] não, se você [....] quiser levar a sua [filha]
pequena para a piscina, no final de semana, no sábado ou no domingo você tem né,
um local tranquilo, sem você precisar sair, né? Sem você precisar ir lá pra fora.

A prática espacial de concentrar cada vez mais o lazer dentro dos RHFs também foi
observada nas respostas ao questionário online analisadas anteriormente. Os moradores de RHF
têm, cada vez mais, substituído os espaços públicos pelos espaços privados internos ao
residencial para realização das atividades de recreação e divertimento. Essa troca aparece no
relato de P.S.T. na expressão “sem você precisar ir lá pra fora”. Apesar dos investimentos
realizados pelas administrações municipais nos espaços públicos urbanos, equipando-os com
parquinhos infantis, academias ao ar livre, ciclovias, pistas para caminhada, ambientes para
descanso, contemplação e recreação, as áreas de lazer internas oferecidas pelos RHFs estão se
transformando em clubes sociais para os moradores, em que o lazer privado toma o lugar do
lazer público.
Finalizando a comparação, P.S.T. concluiu que: “Então, em termos de lazer eu acho que
melhorou também, em relação a lá fora, né? [...] A minha profissão, eu trabalho bastante e eu
não tenho muito tempo para viajar. Eu não posso me ausentar. [...] E como a gente mudou
recentemente, a gente está se organizando, veio essa pandemia e mudou muita coisa...
aumentou tudo, dobrou o preço de tudo, né? Então, a gente se limita mais a ficar aqui mesmo.
Aí tem um conforto, tem uma área de lazer boa e dá para você tirar um pouquinho do estresse,
na piscina, tomar um banho, alguma coisa assim.”
A comparação feita por A.T.H. e J.S.V. entre o lazer em um bairro da zona sul de uma
grande metrópole e no RHF em Arapiraca foi relatada da seguinte forma: “nosso lazer lá em
[nome da metrópole] era só shopping, ou barzinho ou casa da família”. J.S.V. complementou:
“às vezes, o barzinho ficava dentro do shopping”. A.T.H. prosseguiu: “a gente não ia à praça,
não ia à praia. Na praia a gente foi só na nossa lua de mel, porque fica a três horas da nossa
casa [...]. Sempre era shopping, shopping, shopping... ‘ah, abriu um shopping novo, vamos lá
conhecer’. O máximo que a gente fazia era boliche, cinema, barzinho e comida, mas era tudo
342

dentro do shopping [risos].” J.S.V. brincou dizendo que “a praia do [naturalidade do


entrevistado] é o shopping [risos]. É o que dizem, né?” A médio prazo, se persistir a tendência,
o shopping será a “praia” do arapiraquense, também.
Outra atividade de lazer da família, mencionada por A.T.H. é a prática confessional.
Ainda de acordo com o relato dela, é possível perceber a substituição da praça pública externa
pela praça “pública” interna aos muros do RHF para o lazer infantil acompanhado pelos pais.

lá também a gente ia muito à igreja, mas aqui vamos com mais frequência porque
somos cristãos e moramos próximo da igreja que a gente congrega. Então vamos dois
dias por semana e a gente considera isso também como um lazer, uma renovação
espiritual, para a gente é muito importante. Eu acho que é a principal coisa. O fato
de ter clube, piscina aqui no condomínio, ter a praça, então a gente vem para a praça
à noite com os meninos, não diariamente, mas umas duas vezes por semana. A gente
desce com o [filho mais novo] no carrinho, ele brinca. O [filho mais velho] anda de
bicicleta, joga bola. O J.S.V. vai na quadra com os meninos.

J.S.V. acrescentou: “Nosso lazer é aqui dentro mesmo. [...] O lazer lá [na residência
anterior] era assistir filme em casa e jogar vídeo game. [...] E agora tem a academia também,
né?” Sobre a prática de atividades físicas, A.T.H. complementou: “lá nós não íamos à
academia, aqui nós vamos”. Depois que se mudaram para o RHF, o casal passou a frequentar
uma academia particular na cidade. A questão da atividade física aparece como um dos
componentes do estilo de vida.
Nos relatos apresentados é possível constatar que, boa parte do lazer, o casal realiza
dentro do próprio residencial frequentando a piscina, a quadra e a praça interna.
Esporadicamente eles vão a um dos parques públicos da cidade. Mas comparativamente com a
residência anterior, localizada em uma grande cidade, a mudança para a cidade média melhorou
as possibilidades de lazer. O custo de vida mais baixo possibilita o usufruto do lazer com menos
despesas. A entrevistada A.T.H. concluiu sobre sua percepção quanto ao lazer da família
declarando que:

na questão do lazer nossa vida aqui melhorou 90%. Vamos à praia com mais
frequência do que lá [...]. Vamos frequentemente à piscina, vamos muito ao parque,
como por exemplo, no Bosque [das Arapiracas], levamos os meninos para brincar,
vamos caminhar lá, vamos correr. A gente vai muito para o sítio da nossa família. E
o custo de vida aqui, para o lazer, é muito mais econômico do que lá em [nome da
metrópole] [...] isso faz com que eu tenha um pouco mais de lazer com os meus filhos
e até mesmo com o marido, né? Então podemos dizer que aqui nós respiramos!
Porque lá era só trabalhar.

J.S.V. concordou com a afirmação da esposa que “a parte de lazer aqui é bem melhor,
porque não precisa de dinheiro para você sair aqui. Você vai a um parque, você toma um
sorvete ou alguma coisa. [...] Aqui a gente se diverte mais, muito mais. Tem a casa da família,
né? Aqui, a parte do lazer não tem nem comparação com [nome da metrópole]. Só a parte de
343

alimentação... às vezes eu quero comer às quatro horas da manhã e está tudo fechado [risos]”.
Nas cidades interioranas as possibilidades de lazer são mais acessíveis em termos de espaço e
de recursos, porém são mais limitados em termos de tempo ditado por períodos mais limitados
de funcionamento.
Para G.V.J. e C.T.P o lazer “mudou porque quando a gente morava lá, foi mais no pico
da pandemia, então a gente ficava muito em casa. O lazer era em casa mesmo. E agora a gente
já está indo mais ao shopping para jantar, saindo, indo no Bosque [das Arapiracas]”. C.T.P.
acrescentou, dizendo que “a gente sente vontade de ir mais também, porque antes era mais
longe da nossa casa e aí a gente não tinha tanta vontade, né? Mas agora que é mais próximo
quando a gente passa ‘vamos ao shopping’, ‘vamos comer alguma coisa’”. G.V.J. brincou,
afirmando que “eu sou preguiçoso para sair de casa [risos]”. O casal mencionou que, além do
passeio com o cachorro (relatado em temas anteriores da entrevista), as atividades de lazer que
eles realizam fora do RHF são em locais próximos: o lazer privado como a ida ao shopping e o
lazer no espaço público como a ida ao Bosque das Arapiracas.
H.R.D. alegou que as atividades de lazer da família não alteraram muito com a mudança
para o RHF e que a infraestrutura de recreação do residencial apenas introduziu novas
possibilidades à rotina que eles já tinham: “não mudou muito não, permaneceu. A única coisa
que agregou foi a questão do condomínio mesmo, ter uma área de lazer, uma praça, alguma
coisa. Foi a única coisa que acrescentou, agora, de resto não. A gente já tinha a frequência de
ir às praias, a gente frequenta a AABB porque a gente é sócio de lá. É um clube que a gente
gosta e tudo. A única coisa que acrescentou na nossa rotina de passeios foi a estrutura do
condomínio”.
O pesquisador perguntou se a família manteve a mesma frequência de idas ao clube
depois que passou a morar no RHF. H.R.D. respondeu: “Não, porque teve também a questão
da pandemia, né? Nessa pandemia a gente mudou muita coisa. A gente passou a ter uma rotina
mais caseira. Basicamente a nossa rotina é trabalho, a nossa casa e a casa dos pais dela. É só
essa rotina assim posso dizer”. É pertinente ponderar que, pela fala do entrevistado, a oferta da
área de lazer do condomínio não produziu uma grande transformação na rotina das atividades
de recreação da família. Contudo, há outro aspecto-chave: o entrevistado afirmou que a família
se tornou mais caseira e atribuiu essa alteração à pandemia de COVID-19.
F.M.N. contou que o lazer do casal sofreu alterações significativas após a mudança para
o RHF: “mudou, mudou muito. Antes a gente fazia mais jantar em casa, a gente recebia mais
amigos. E mesmo antes da pandemia a gente já tinha reduzido. A gente adotou um método mais
clean, menos gente dentro de casa, a gente tem usado mais isso. Em matéria de sair também,
344

a gente reduziu”. Nesse caso, o entrevistado fez questão de enfatizar que eles se tornaram mais
caseiros mesmo antes da pandemia e também se tornaram menos abertos a receberem visita em
casa, corroborando os resultados apontados pelo questionário.
T.R.C. ratificou a afirmação de F.M.N. explanando: “a gente está saindo menos e,
quando sai, é só praticamente para restaurantes, não vai para shows. [...] normalmente, a
gente sempre vai aos mesmos locais. A gente tem uma característica meio de fidelização dos
locais que a gente anda, né?” Segundo T.R.C.: “os locais são parecidos com a gente, né?”
F.M.N. concordou: “bem parecidos com a gente. É tanto que os locais que eu ando, o pessoal
já sabe até o que eu como, o que eu bebo. Já pergunta: é o de sempre? [risos]. Mas uma das
coisas que a gente sente muita falta, agora isso é em geral, a nível de cidade, são cafés. Às
vezes, a gente quer tomar um café, entendeu? Comer um croissant bom, comer uma torta boa,
né? Uma coisa assim. Às vezes, a gente não tem”. A questão habitus aparece ora de forma sutil,
ora de forma mais evidente nos relatos dos entrevistados apresentando demandas próprias de
um público mais seletivo.
F.M.N. continuou, “quando a gente vai a Maceió, também sempre tem (risos) os locais
preferidos. Às vezes a gente vai conhecer um ou outro, né? E aí quando a gente vai
experimentar, aí eu sou mais crítico em relação à comida. Eu quando eu como, eu como
sentindo o sabor. Então eu já sei com o que foi temperado, o tipo de tempero que utilizou, se
ele foi flambado, se ele foi no azeite, se ele foi na manteiga. Então eu tenho uma questão, assim,
mais aguçada por ter certa habilidade de cozinha”.
Os critérios de seleção utilizados pelo entrevistado apontam para aspectos de distinção
atrelados à qualidade da gastronomia e ao refinamento da ambientação. Esses aspectos são
exemplificados quando casal mencionou uma vinhoteca que abriu em Arapiraca. Segundo
F.M.N., “a gente gosta muito de vinho, né? É tanto que abriu até uma vinhoteca, né? Só que a
gente foi uma vez quando abriu, nem tinha ainda inaugurado direito”. Perguntado pelo
pesquisador onde fica o estabelecimento. F.M.N, respondeu: “na avenida Ceci Cunha. É um
local pequeno. Eu acho que tem 4 mesas só. Eles servem uns queijos para degustação. Às vezes
eles abrem para fazer noites de degustação de vinhos”.
A localização do estabelecimento supracitado é relevante, pois a Av. Ceci Cunha se
tornou um dos endereços com o metro quadrado mais caro da cidade. A via vem se
transformando ao longo das últimas duas décadas. Os casarões edificados nos lotes lindeiros
vêm dando lugar a estabelecimentos de comércio e serviços mais sofisticados em relação
aqueles oferecidos no centro da cidade, tais como clínicas de estética, escritórios de advocacia,
lojas refinadas de decoração, restaurantes mais sofisticados dentre outros. Os conceitos de
345

seletividade e exclusividade relacionados à vinhoteca são evidenciados pelos entrevistados


quando é mencionado o pequeno porte e o interior do estabelecimento.
Os entrevistados ofereceram mais detalhes sobre o local: “é uma proposta de variedade
de vinhos boa. É aconchegante, super bem decorado. A dona é uma simpatia. Eu adorei o
local.” F.M.N. continuou: “você vai encontrar vinhos de R$60,00 a R$1.000,00. Quem vai
mandar é o seu bolso. [...] É super legal. Assim, tranquilo. O ambiente, agradabilíssimo. Tipo
assim, é o tipo de coisa que a gente gostaria que Arapiraca tivesse mais. Não só do ponto de
vista de vinho, pelo contrário. Mas que os ambientes de Arapiraca, começassem a ter essa
classe que eles trouxeram lá”. T.R.C. concordou: “é um ambiente esteticamente muito
agradável. Uma decoração bem clean, bem minimalista, mas de muito bom gosto”.
Os entrevistados chamaram a atenção para um movimento que estaria havendo em
Maceió no sentido de que os espetinhos de bairro estariam se tornando mais refinados
esteticamente: “lá eles começaram a pegar esses espetinhos de esquina e deixar o ambiente
mais agradável, servindo em um móvel esteticamente mais agradável”. T.R.C. acrescentou:
“iluminação”. F.M.N. concordou e concluiu:

Iluminação! Arapiraca ainda tinha essa falha. Tinha até o local, mas esteticamente
não era agradável. E agora não. A gente consegue observar que a cidade em si, ela
já está mudando a cara, né? Então, por exemplo, até uma barbeariazinha que antes
era só a cadeira, o espelho e o cara lá cortando o cabelo. Hoje não. [...] ele já tem
onde tomar uma cervejinha, onde o cara ouve uma música. Se tiver espaço, bota uma
sinuca. Por que? Porque ele começa a entrar nessa competição de deixar mais
agradável e vai chamando a atenção. T.R.C. já gosta mais assim. Eu não. [...] Mas a
gente vê e a gente gosta quando isso vai acontecendo, porque vai dando uma certa
classe, né? [...] Outro defeito que Arapiraca tinha antigamente... como eu já moro há
longos anos, sempre tinha isso... quando aparece alguma coisa melhor, esteticamente
bonita, arrumada, sempre era muito caro. Então, raramente, ia para frente.

O casal relatou que a cidade está avançando no sentido de oferecer estabelecimentos


comerciais e de serviços mais refinados e contemporâneos àqueles próprios dos grandes
centros. Assim, segundo eles, os RHFs poderiam ser vistos como uma expressão dessa
sofisticação, que deveria ser acompanhada pelos estabelecimentos de consumo localizados na
cidade.
A hipótese de que as práticas espaciais de lazer estariam cada vez mais restritas aos
espaços intramuros foi confirmada pelos resultados da aplicação do questionário online e da
realização das entrevistas. Para entender se os moradores estão realizando nos espaços internos
dos RHFs atividades de lazer que poderiam ser feitas nos espaços públicos abertos, foi realizada
observação não participante em uma praça pública interna de um RHF de médio padrão,
localizado em Arapiraca, tomado como estudo de caso. As práticas foram registradas, mapeadas
346

e reconstituídas com imagens que combinaram a fotografia do local sobreposta com figuras
humanas realizando as atividades observadas. As práticas observadas em dias de semana foram
identificadas no mapa com a letra “S” e aquelas realizadas no fim de semana, com a letra “F”.
Pelas manhãs, nos dias de semana, foram observadas as seguintes práticas: chegada dos
trabalhadores (S1), caminhada ou corrida praticada pelos moradores (S2), brincadeiras das
babás e mães com as crianças (S3). Na manhã do sábado, foi observada a manutenção realizada
pelos funcionários (F1), e na manhã do domingo não foi observada nenhuma atividade no local
(Figura 108).

Figura 108 – Práticas espaciais observadas no período da manhã, nos dias de semana e de fim de semana.

Fonte: O autor (2021)

O maior fluxo observado nas manhãs dos dias de semana no espaço interno do
residencial é a chegada dos trabalhadores nas construções das casas (Figura 109). Eles
chegavam por volta das 06h40 e ficavam do lado de fora da guarita, aguardando o horário em
que era autorizada a entrada. Alguns esperavam em pé, outros sentados no meio-fio e outros
encostados nas suas motos e bicicletas. Às 06h50 o portão era aberto e os trabalhadores
adentravam o residencial. Esse fluxo está representado na Figura 108 com código “S1”. A
347

maioria das motos e bicicletas tem uma caixa plástica de supermercado acoplada na traseira
para levar itens de necessidade. As motos entram tanto com condutores sozinhos, quanto com
um carona, na garupa. Outra parte dos trabalhadores se desloca por bicicleta e a pé, esses
últimos sempre vêm conversando com um colega na bicicleta. Com base na observação,
aproximadamente 40 motos (10 com carona), 20 bicicletas e 5 caminhantes adentram o
residencial nos dias de semana para labutar nas obras, totalizado 75 trabalhadores.
Uma prática espacial comum na praça interna do residencial é a caminhada ou a corrida,
realizada pelo morador ou moradora, de forma individual, ou junto com o cônjuge (Figura 110).
Essa atividade é muito frequente nos dias de semana, nesse residencial, tendo sido observada
nos três turnos. Pela manhã é mais comum a caminhada, enquanto à tarde e à noite, a corrida é
mais frequente. Geralmente, os caminhantes ou corredores dão duas ou três voltas usando a
calçada em torno da praça. Essa calçada, por ser estreita (com apenas um metro e meio) é
disputada pelos usuários do espaço e foi observada uma certa separação hierarquizada no seu
uso. Se tem crianças brincando na calçada, os moradores adultos vão pela pista de rolamento;
mas quando são as diaristas passando por ali e tem moradores caminhando ou correndo pela
calçada, elas andam pela pista.

Figura 109 – Manhã: prática espacial S1 Figura 110 – Manhã: prática espacial S2

Fontes: O autor (2021) editadas com figuras humanas disponíveis em [Link]

Ainda pelas manhãs, nos dias de semana, é comum as babás levarem os bebês no
carrinho, se assentarem no gramado em áreas sombreadas e brincarem com eles (Figura 111).
É interessante observar que somente as babás se assentavam no gramado, as mães se
assentavam nos bancos e ficavam olhando os filhos brincarem em volta. Esse aspecto também
indica uma certa afirmação de distinção no espaço, na medida em que as mães parecem não
adotar certas práticas das babás para não serem confundidas com elas.
348

No fim de semana, a praça interna parece ter um fluxo menor de usuários nos três turnos.
Isso pode ser explicado pelo fato de os moradores preferirem usar a área de lazer do residencial
aos sábados e domingos. Na manhã do sábado, a práticas mais observadas na praça são
realizadas por dois funcionários do residencial: a varrição do gramado, o recolhimento de
alguns recicláveis deixados ali, a destinação desses resíduos ao ponto de coleta e a poda das
árvores (Figura 112).

Figura 111 – Manhã: prática espacial S3 Figura 112 – Manhã: prática espacial F1

Fontes: O autor (2021) editadas com figuras humanas disponíveis em [Link]

O final da tarde, nos dias de semana, é o período em que a praça interna é mais utilizada
(Figura 113). Em diferentes dias, foi observada a manutenção da praça pelos funcionários do
residencial: a varrição do gramado (S1) e jardinagem (S2). No pôr-do-sol, as babás costumavam
levar os bebês para a praça (S3), no carrinho (Figura 114). Geralmente, outras babás se
aproximavam com outras crianças (S4) e ficavam conversando entre elas. As babás se
assentavam ora no gramado, ora nos bancos (S5), tiravam os bebês do carrinho e brincavam
com eles. As mães também começavam a vir com seus filhos para a praça nesse horário (S6),
mas elas tendiam a se assentar em um banco, às vezes próximo, às vezes, distante das babás,
ou ficavam em pé. Outras crianças um pouco maiores se juntaram na praça e começavam a
brincar no parquinho (S7) (Figura 115).
349

Figura 113 - Práticas espaciais observadas no período da tarde, nos dias de semana e de fim de semana.

Fonte: O autor (2021)

Figura 114 – Tarde, prática espacial S3 Figura 115 – Tarde: prática espacial S7

Fontes: O autor (2021) editadas com figuras humanas disponíveis em [Link]

Por volta das 17h00, em diferentes dias, uma diarista levava dois cachorros na coleira
(S8), um em cada mão, para passear ao redor da praça (Figura 116). Um morador chegava para
fazer sua corrida mais ou menos neste horário (S9), ao redor da praça. Ele corria pela calçada e
a diarista passeava com os cachorros pela pista, ratificando a observação sobre a calçada como
espaço de disputa, com a primazia do morador em relação aos trabalhadores. Entre 17h00 e
350

17h30 há o fluxo de saída dos trabalhadores das obras, que se dava de forma mais esparsa do
que a entrada no início da manhã.
Nos fins de semana, a praça fica relativamente vazia, pois os moradores tendem a usar
mais a área de lazer: aos sábados, os pais jogam futebol na quadra e as mães ficam com os filhos
nas piscinas; aos domingos, tanto os pais quanto às mães, vão para as piscinas com os filhos. A
única prática observada na praça interna, nesse turno, no final de semana, foi pais passeando
com seus filhos e com os cachorros de modo esporádico (F1) (Figura 117).

Figura 116 - Tarde: prática espacial S8 Figura 117 - Tarde: prática espacial F1

Fontes: O autor (2021) editadas com figuras humanas disponíveis em [Link]

Nos dias de semana, enquanto as mães e as babás brincavam com as crianças pela manhã
(com menor frequência), e no final da tarde (com mais recorrência), à noite, eram os pais que
costumavam passear ou brincar com os filhos na praça interna do residencial (Figura 118).
Entre 19h30 e 20h30 foram observados, em diferentes dias, um pai que jogava futebol
com seu filho e o amigo dele (S1), um pai que caminhava com o bebê no colo pela calçada da
praça (S2) (Figura 119) e outro pai que passeava com a filha pequena ao seu lado na calçada
das residências (S3). Foi observado também casais de moradores praticando corrida ao redor
da praça no período noturno (S4) (Figura 120). Essa atividade física é uma prática espacial de
lazer observada com muita recorrência na praça interna do residencial. Dois grupos de crianças
costumavam brincar na calçada da praça, duas meninas brincavam de boneca e dois meninos e
uma menina jogavam com perguntas e repostas.
351

Figura 118 - Práticas espaciais observadas no período da noite, nos dias de semana e de fim de semana.

Fonte: O autor (2021)

Figura 119 - Noite: práticas espaciais S1 e S2 Figura 120 - Noite: prática espacial S4

Fontes: O do autor (2021) editadas com figuras humanas disponíveis em [Link]

No final de semana, o perfil dos usuários da praça muda no período da noite, entrando
em cena os adolescentes. Eles tendem a se concentrar em um mesmo lugar (F1) para conversar
ou namorar (F2) (Figura 121). De acordo com as observações realizadas, o banco linear onde
os adolescentes se concentraram em F1 foi o local mais frequentado por diferentes grupos de
usuários, em diferentes dias, nos horários da tarde e da noite. Uma explicação possível para isso
352

seria que nesse ponto se tem uma vista desobstruída para a maior parte da praça. Ainda que o
RHF ofereça maior sensação de segurança, posicionar-se de forma a ter uma ampla visão do
entorno é um comportamento típico de quem se sente inseguro.
Nos fins de semana, à noite, são mais comuns as entregas de pratos e refeições pedidas
pelos moradores. A partir das 19h00, os entregadores passavam a ser acompanhados pelo
serviço de ronda até realizarem a entrega na casa do morador (F3) (Figura 122). Essa prática
espacial está impregnada de preconceito social pois a desconfiança sobre o entregador fica
evidente: ele é acompanhado porque pode ser um “assaltante disfarçado”.

Figura 121 - Noite: prática espacial F1 Figura 122 - Noite: prática espacial F3

Fontes: O autor (2021) editadas com figuras humanas disponíveis em [Link]

A observação não participante identificou que a praça interna é utilizada com mais
frequência pelas crianças, em especial, o parquinho, a calçada e os caminhos para andar de
bicicleta. A recorrência com que as crianças estão usando a praça interna para brincar pode
indicar aquilo que as respostas ao questionário apontaram: a prevalência da recreação infantil
nos espaços fechados dos residenciais. A prática das mães e babás passearem com os filhos às
tardes e os pais, à noite, também indicam que a praça interna esteja substituindo os espaços
públicos abertos enquanto local preferido para esse tipo de recreação.
A observação das práticas espaciais do tipo atividade física, tais como corridas,
caminhadas e futebol também corroborou os resultados da aplicação do questionário: a
preferência dos moradores pelos espaços internos do RHF para essa finalidade. Esses resultados
reforçam que os espaços públicos estão sendo abandonados pelos moradores de residenciais
fechados enquanto lugares para o lazer, especialmente para a recreação infantil. As implicações
dessa recreação introvertida para a formação humanística e cidadã das crianças precisam ser
escrutinadas em outros estudos.
353

6.6 Grau de satisfação com o RHF e perspectivas futuras

A última seção da pesquisa empírica abordou como temas: o grau de satisfação ou


insatisfação dos moradores com o RHF onde residem; perspectivas futuras em termos de opção
de moradia caso se mudem do RHF onde estão hoje; e colocações finais sobre algum aspecto
que os moradores consideram importante e que não tenha sido tratado no questionário ou na
entrevista.
A avaliação dos respondentes ao questionário quanto ao atendimento das expectativas
com o RHF consta no Gráfico 19. O entendimento de que os RHFs não corresponderam
totalmente às expectativas que eles geraram somou mais de 50% das respostas, demonstrando
uma certa desilusão com o modelo por uma parte considerável dos moradores que responderam
ao instrumento de pesquisa. Essa constatação é importante na medida em que vão ficando
evidentes a conversão das utopias em distopias, principalmente em termos de localização,
acesso a comércio, infraestruturas pouco diferenciadas em relação ao restante da cidade,
convivência difícil entre moradores dentre outras. Contudo, quando colocados diante de uma
suposta mudança do RHF onde estão hoje para outro local, considerando cinco opções de
moradia, a grande maioria afirmou que se mudaria para casa em outro RHF.

Gráfico 19 – Respostas obtidas para: (A) As expectativas que você tinha com a mudança para o residencial
fechado; e (B) Se você decidisse mudar do residencial fechado, você optaria por.

Fonte: O autor (2021)

Esse aspecto indica que, apesar dos RHFs não estarem atendendo a contento as
expectativas que eles estão gerando, os moradores não encontram opções melhores na cidade
considerando as outras quatro possibilidades de moradia. Este resultado parece apontar,
também, que a opção pelos RHFs se deve à falta de alternativas, considerando os fatores
354

entendidos pelos moradores como relevantes na escolha do local e do tipo de moradia. Esse
cenário indica que, se mantida essa tendência, Arapiraca abrigará um número cada vez maior
de RHFs dispersos pela malha urbana. Adicionalmente, quanto piores forem as condições de
moradia nos espaços externos, menor será o nível de exigência dos moradores dos RHFs nos
espaços intra-muros.
Quanto às perspectivas dos entrevistados, O.W.F. afirmou que está satisfeito com o RHF
onde mora, mas observou pontos que precisavam ser melhorados: “eu acho bem satisfatório,
aqui, pela organização do condomínio que ainda tem muito a melhorar. O condomínio é
relativamente novo [...], mas eu avalio de uma forma bem positiva. Porque de fato a gente
mora em uma rua que não tem buraco, que tem uma manutenção, o condomínio se preocupa
com essas questões mais básicas, para resolver mais rápido.”
Quanto às falhas notadas, O.W.F. apontou que: “a gente esperaria [...] que houvesse
uma ronda maior, que a gente sabe que existe, mas ela não é tão constante, apesar de que o
condomínio também instalou câmeras. Tem a questão da cerca elétrica, só não sei se essa cerca
elétrica realmente é tão eficaz. [...] Mas quando a gente avisa, de imediato, eles já procuram
resolver. [...] o condomínio deveria ter uma fiscalização maior quanto às obras, porque tem
construtores aqui que ultrapassam um pouco do tempo ou iniciam antes do horário e aí causa
todo um transtorno para os moradores”.
Quanto às melhorias que M.Q.D. gostaria que fosse implementada no RHF ele
mencionou: “pavimentação da rua, que não é pavimentado ainda. A questão também da área
de lazer que demorou muito tempo, mas agora entregaram a quadra”. A pavimentação das
ruas no RHF onde M.Q.D. mora foi executada com paralelepípedo rejuntado, por isso ele parece
se referir à ausência de pavimentação asfáltica. Na abordagem desse tema, o entrevistado
apontou para outro aspecto-chave que altera quando se tornam moradores em RHFs:

Eu acho outra coisa também. Quando a gente não mora em condomínio sempre tem
na vizinhança obra que começa muito cedo, [...] vizinho que fica escutando música
alta [...]. Só que pelo fato de estar num condomínio as pessoas não levam isso como
algo natural. Então elas acham que tem que ter horário mesmo, que tem que dar
multa. Eu concordo que tem que ter horário mesmo, mas não concordo que tenha que
ter horário pelo fato de estar em um condomínio. Eu acho que tem que ter um horário
para manter uma boa convivência, independentemente de estar no condomínio ou
estar fora. A pessoa tem que ter um horário para começar uma obra, para terminar
uma obra, para pensar no coletivo. [...] muita gente, pelo fato estar vindo para o
condomínio começa a cobrar algo que não cobrava antes. Não estou dizendo que está
errado você cobrar isso. Mas só pelo fato de estar no condomínio, estar pagando
aquela taxa, aí você se sente no dever e no direito de cobrar com mais veemência que
aquilo seja cumprido. [...] Se você veio para o condomínio sabendo que ia ter essas
normas. Então o mínimo é você querer que essas normas sejam cumpridas.
355

Esse relato de M.Q.D. exemplifica como a ida do morador para o RHF opera uma
internalização de que ele deixa a condição de cidadão (“é meu direito, por isso, deve ser
garantido”), para a condição de cliente (“eu pago, por isso, exijo que seja cumprido”). A questão
da distinção opera nessa transformação afirmando residencial fechado como um espaço físico
e social “civilizador”. A experiência de P.S.T. é muito ilustrativa desse movimento: no conjunto
habitacional ele organizava um mutirão de limpeza, juntava o lixo, pintava o meio-fio e
sinalizava as vias; no RHF, ele paga para que tudo aquilo seja feito sem precisar se preocupar
com a limpeza do local.
Colocados diante da suposição de se mudarem para outro local e oferecidas como
opções “casa em sítio como primeira residência”, “casa em loteamento aberto”, “imóvel no
centro da cidade”, “apartamento em edifício vertical” ou “casa em um outro residencial
horizontal fechado” M.Q.D. respondeu: “eu acredito que a gente iria para outro condomínio.
Embora a gente goste muito também de ambiente rural, sítio, chácara, [...] mas não como
primeira moradia. Para moradia, eu acho que a gente quer continuar morando em condomínio.
O.W.F. concordou e afirmou, com maior ênfase: “se saíssemos daqui, a gente, com
certeza, ia querer uma casa em outro condomínio. [...]seria mais fácil inclusive a gente ir para
um apartamento em um prédio que tenha vigilância do que ir para uma casa em um lugar que
não tenha. M.Q.D. apresentou uma discordância: “apartamento é uma coisa que a gente já
chegou à conclusão que a gente não quer mais voltar. A gente morou muitos anos em
apartamento. [...]. E é horrível. A gente já morou no terceiro andar, no segundo andar, no
primeiro andar... até no subsolo a gente já morou...
O.W.F. relativizou: “na verdade, o que era ruim, é que a gente nunca morou em prédio
que tivesse elevador. Então a gente tem uns traumas relacionados a subir e descer escadas,
fazer mudanças [...]. Nunca a gente passou por nada negativo em apartamento, não. Esse
impasse se repetiu quase como um padrão para diferentes casais de entrevistados: a opção por
apartamento é vislumbrada como possibilidade por um dos cônjuges, mas negada
veementemente pelo outro.
Perguntados se haveria alguma outra alteração importante na vida do casal que a
mudança para o RHF teria gerado e a entrevista não teria contemplado, O.W.F. respondeu “não,
[...] é mais questão de segurança mesmo, conforto, lazer, todos esses pontos”. Para M.W.D.
“também não. Todas as mudanças a gente já contemplou na fala”.
De acordo com P.S.T., as mudanças que ele gostaria de ver no RHF passaria pelo

condomínio asfaltado, que eu acho que a gente está um pouquinho longe. A questão
da organização, a questão do síndico, essas coisas, eu também senti que está
356

deixando a desejar. Tem muita coisa aí que está faltando, né? Mas, assim, são coisas
que eu acho, com o tempo... depois que nós chegamos foram construídas muitas
casas. [...]. Chegou muita gente. [...] Então a gente vê que as coisas vão se ajustando,
né? E ainda tem muita coisa que precisa ser ajustada. Mas, no geral, a gente continua
mantendo a expectativa que nós tínhamos. Não deixou a desejar, não. Faltam
algumas coisas ainda tipo uma academia que nós não temos aqui. A gente, antes de
morar aqui, fazia pilates [...] e a gente veio para aqui e ficou distante.

A pavimentação asfáltica também aparece na fala desse entrevistado como uma questão
importante, além da academia. Na visão do morador, se um serviço ficou distante em razão da
mudança para o RHF, então esse mesmo serviço deveria ser oferecido dentro do
empreendimento. Essa lógica dos RHFs como microcosmo, onde todas as suas demandas
enquanto citadino vão sendo satisfeitas, é chave para entender como é reproduzida a
compartimentação da vida urbana por esse tipo de empreendimento.
O círculo vicioso então se fecha nesse movimento autorreferente: os RHFs são
implantados em lugares distantes das áreas com maior oferta de serviços na cidade e, como
falsa solução para isso, passam a ofertar os mesmos serviços dentro do espaço fechado como
substituição daqueles disponíveis nos espaços abertos justificando que aqueles estão distantes.
Outro aspecto mencionado pelo morador diz respeito à gestão do RHF onde ele mora. As
críticas à gestão é um aspecto-chave da distopia dos RHFs e serão retomadas mais adiante
Sobre as opções de moradia, caso se mudassem do RHF, P.S.T. respondeu:
Hoje, eu iria para um outro residencial, porque eu me sinto bem aqui, me sinto
protegido em relação a lá fora, me sinto à vontade. [...] É como se você tivesse uma
outra vida. Você vai trabalhar e volta, é como se você tivesse aquele mundo seu ali.
E lá fora você chega tem aquela preocupação, para o carro na porta, tem que fechar
os vidros e conferir se está tudo seguro [...]. Aqui não, às vezes o carro aqui dorme
aberto. Entrou no condomínio você já se sente tranquilo, não tem mais aquela coisa
de ficar aperreado olhando a rua e tal se tem alguém te seguindo, se está... entendeu?
A sensação de segurança para mim é bem interessante. Então eu não iria morar mais
de jeito nenhum lá fora, eu acho que eu não iria me acostumar mais não, em voltar,
vamos dizer assim, para a selva, né? [...] Esse aqui para mim, graças a Deus, supre
as minhas necessidades. De acordo com as minhas possibilidades financeiras, para
mim está ótimo. Bom demais. Pretendo ficar aqui até o dia que Deus pretender nos
levar [...].

O efeito de “simulação de uma realidade paralela” é outra utopia comercializada pelos


RHFs. Esse efeito é assimilado pelo entrevistado e isso se torna perceptível na sua fala. A utopia
do RHF como “espaço de despreocupação” também foi reafirmada pelo entrevistado. A
dicotomia “aqui dentro versus lá fora” ganha aqui contornos extremos: “o paraíso no interior”
versus a “selva no exterior”, corroborando a reflexão de Diken (2004, p. 98) “quando a cidade
é dissolvida (...) o vínculo arquetípico entre civilização e barbárie é invertido. E aqui temos a
fantasia subjacente da vida urbana contemporânea: a cidade é um local de sobrevivência
imprevisível e perigoso, uma ‘selva’”. Ao mesmo tempo, a mudança para o RHF é internalizada
357

pelo morador como um signo de evolução civilizatória e, nesse caso, voltar a morar em
loteamentos abertos é interpretado como um retrocesso, um “retorno à barbárie”.
Perguntado se teria havido outra mudança que não tinha sido tratada na entrevista, P.S.T.
disse “que eu lembre, não. Eu acho que, para mim, o primordial dessa mudança foi a liberdade
que a minha filha tem para brincar, a sensação de segurança que eu sinto aqui dentro, o
conforto em si da casa e tudo, a casa solta bem ventilada. [...] A tranquilidade, de uma maneira
geral, que eu não tinha lá fora eu encontrei aqui dentro. A única coisa que eu acho, como a
gente já comentou anteriormente, o diferencial aqui é a questão das pessoas, da relação com
as pessoas, né? Sempre procuro fazer o melhor para viver bem, para não ter problema com
ninguém. Na conclusão da sua resposta, o morador elogiou os aspectos positivos que ele vê no
RHF e reafirmou como ponto negativo o comportamento arrogante, de evitação social, por parte
de alguns moradores, reforçando isso como um aspecto negativo desses espaços.
Para J.S.V. e A.T.H. o residencial horizontal fechado onde moram correspondeu em
parte às suas expectativas. De acordo com J.S.V. “eu gosto bastante dele, mas o que me deixa
bem insatisfeito é a falta de transparência da administração. Isso me deixa doente. A
desorganização. Porque lá em [nome da metrópole] a gente tinha parentes, minha mãe mesmo
morava em um condomínio que era 10 vezes maior do que esse aqui [...] tinha mais de 3 mil
famílias e não era tão desorganizado como aqui. A.T.H. apontou para a mesma direção:

eles falam que tem muita inadimplência, porém eu acho que o dinheiro que entra não
é bem distribuído. Eu não entendo muito do financeiro mas algumas pessoas
comentaram que foram até o plantão lá e pediram para ver essa questão dos valores
e tudo batia e ainda sobrava dinheiro para o caixa. [...] Eu acho que o condomínio
tem um potencial muito grande para crescer, muito grande porque tem muitas pessoas
do bem, pessoas que estão dispostas a ajudar, [...] pessoas guerreiras, que buscam,
que dão o melhor, que dão o gás, [...] O que falta mais é a questão da administração
ter transparência para conosco e organização no próprio condomínio.

Uma boa “gestão do dia-a-dia”, conforme a fala do agente imobiliário S.M.R., parece
ser o que dá sustentação à outra utopia da vida em residencial fechado vendida pelas
construtoras, atrelada aos conceitos de “organização” e “planejamento”. Essa utopia está
apoiada na prevalência da gestão privada sobre a gestão pública em termos de efetividade,
transparência e boa aplicação dos recursos. Contudo, se os dois modelos de gestão começam a
se assemelhar nas mentes dos moradores o “castelo de cartas” começa a desmoronar. Por isso
a gestão dos residenciais é um aspecto-chave, sensível para as construtoras que vendem essa
modalidade de empreendimento.
Outra reclamação dita por A.T.H. diz respeito ao descompromisso com a saúde pública
no interior do RHF onde ela mora: “o terreno ao lado da nossa casa estava cheio de larva de
358

mosquito da dengue.” J.S.V. confirmou com mais detalhes: “o agente de endemias esteve lá e
falou: ‘olha, tem que pedir alguém para vir aqui porque tem um monte de larva aqui no terreno.
Inclusive, em todos os terrenos aqui, que estão vazios, encontrei larvas’. Aí a gente já foi falar
com a administração, abriu o chamado e [...] eles falaram que não ia e que quem tem que
cortar é o dono do lote. [...] Eu acho que deveria partir do condomínio isso daí.
A questão da manutenção dos lotes é sempre conflituosa, pois os proprietários de lotes
pagam a mesma taxa de manutenção cobrada dos moradores, mas eles alegam que não usufruem
dos espaços do residencial com a mesma frequência e intensidade. A realização da limpeza dos
lotes por parte da administração seria uma espécie de justificativa para a equiparação da
cobrança.
O ponto da participação nas assembleias também é criticado pelo casal. Para J.S.V.,
“eles cobram da gente para ir lá nas reuniões, mas para mim todas são perda de tempo. [...]
Já fui em três e nunca chega a um consenso”. A.T.H. ressaltou “a rua onde a gente mora, como
é a principal, por onde todo mundo passa, eles dão uma ajeitada a mais, né? Eles tentam dar
uma organizada. Nas outras ruas, eu vejo no grupo ‘oh, quebrou não sei o quê’, ‘oh, tem não
sei o quê aqui’. Que bagunça aqui. Aqui é muito bagunçado e nem tem tanta família assim.”
As reclamações dos moradores direcionadas à “gestão do dia-a-dia” pelas
administrações dos RHFs parecem apontar para o “calcanhar de Aquiles” do sistema. A
promessa vendida pelo mercado imobiliário da vida em residencial fechado como a “visão do
paraíso” é contestada pelos moradores quando avaliam mal a gestão interna desses espaços. Na
inversão da dicotomia, o “aqui dentro” vendido pelas construtoras como “outro mundo”,
“planejado” e “organizado” é chamado pelo casal de moradores de “fim de mundo”, “sem
lógica” e “bagunçado”.
A ausência da pavimentação asfáltica é sentida também pelos dois entrevistados quando
comparam com outros residenciais apontando uma pretensa má aplicação dos recursos por parte
da administração: “em questão de infraestrutura. Aí você vê que o condomínio em que as casas
são mais simples e a rua é toda com asfalto e aqui não tem asfalto. [...] Eu aposto que eles
pagam menos condomínio que a gente”.
Contudo, quando o casal de moradores foi perguntado sobre qual opção de moradia eles
escolheriam caso se mudassem do RHF onde estão, a resposta foi unânime. Conforme A.T.H.
“para outro residencial fechado. Nós não optaríamos mais, mesmo a agente já ter morado em
loteamento aberto, não optaríamos voltar mais para lá, pela questão da segurança e do lazer
das crianças. [...] Em apartamento, está fora de cogitação total. J.S.V. reforçou: “em
359

apartamento, nem pensar. É muito pequeno”. A.T.H. continuou: “em sítio não ia dar muito
certo, J.S.V. precisa de acesso à internet muito rápida por conta do trabalho dele.”
Quanto às expectativas com o RHF, G.V.J. falou sobre alguns aspectos que põem em
xeque algumas utopias do RHF atrelados à “organização” e “liberdade”: “teve uma confusão
por causa do uso da churrasqueira, com alguém chegando oito da manhã e o cara que chegava
mais tarde não tinha churrasqueira nenhuma. O cara começa a reservar. Eu acho que faltou
organização nesse sentido”. Em outro momento, o entrevistado mencionou “eu vejo o pessoal
reclamando de cachorro na praça e eu fico até com receio de andar com o meu cachorro. As
crianças vêm brincar com ele e talvez uma mãe não goste, fique achando perigoso e tal. Tem
um lado positivo esse social mais próximo, mas me criou também essa imagem, essa sensação
de estou sendo vigiado, às vezes.”
Contudo, quando perguntados sobre qual opção de moradia eles escolheriam caso se
mudassem dali, C.T.P. respondeu “a gente não sabia o que esperar. A gente nunca teve antes
essa experiência de condomínio fechado [...]. Hoje a gente, realmente, prefere. É incomparável
morar em um condomínio fechado para os outros tipos. G.V.J. concordou relatando que “foi
uma diferença gritante. A gente, antes de vir para cá, morava em prédio, aí foi casa de rua e
agora condomínio horizontal. A gente meio que teve as três experiências e o condomínio
fechado horizontal, com certeza, foi a melhor”.
C.T.P. retomou e arrematou: “foi a melhor experiência. A questão da segurança e tudo.
Como eu estou grávida, [...] eu acho que se eu estivesse na outra casa eu estaria bem mais
paranoica, mais preocupada com algumas pequenas coisas que hoje eu posso relaxar mais
porque eu estou morando em um lugar que me dá mais sensação de segurança”. Novamente,
o RHF é entendido como local de despreocupação e de relaxamento atrelados à sensação de
segurança.
O casal H.R.D. e D.M.B. avaliou o grau de satisfação com o RHF também acionando
elementos importantes para a corrente análise. H.D.R. avaliou que
a minha esposa disse nota, 10. Eu não sou assim tão otimista como ela, mas eu digo
que está próximo de 10. De 8 a 9. Eu acho que faltam algumas coisas. [...] A gente
também vive em um momento complicado, onde as pessoas às vezes levam as coisas
para o lado pessoal. [...] Cada pessoa tem a sua maneira de pensar, tem a sua
história, tem o seu convívio, então é complicado você mudar isso. Eu penso isso, que
as pessoas vivem em um mundo hoje que tudo é “8 ou 80” e, às vezes, a vida não é
assim. [...] Então eu acho que o maior problema no nosso residencial são essas
relações – não sei se é o termo correto – interpessoais, né? Eu vejo que falta isso
para a gente evoluir como comunidade. Eu levo aqui como uma comunidade.
360

D.M.B. corroborou exemplificando: “a gente tira pelo grupo [de Whats App] da gente,
do condomínio. Do nada, você não pode falar alguma coisa e acontecer alguma coisa que já é
aquele problema.”
A premissa de que um conglomerado de moradores em um RHF seria uma comunidade
é outra utopia vendida pelo mercado imobiliário. Uma comunidade se forma a partir de uma
integração social pautada por relações afetivas e duradouras e não apenas por residirem em um
espaço contíguo. Outro aspecto atrelado a essa utopia diz respeito à ideia de que em uma
comunidade não há atritos, conflitos e dissensos. O RHF aproxima pessoas que não se
conhecem, não participam de um mesmo movimento ou organização seja de base sociocultural
ou política. Não há, portanto, uma base identitária prévia que aglutine os moradores em um
ambiente comunitário. O fato de participar de uma associação de moradores não constitui essa
identidade de forma automática, embora essa seja a aposta do mercado imobiliário.
E ainda que houvesse um fator identitário previamente construído que integrasse
minimamente os moradores, ele não estaria imune a embates e conflitos. A questão, aqui, é que
a tônica mercadológica que dita a experiência de morar em RHF é despolitizada, avessa à
conflitos, pois se pauta, assim como nas empresas, pelo consenso. Em um espaço assim,
discordâncias e divergências são interpretadas como desrespeito, e que seria preciso encontrar
um “meio-termo” ou um “ponto de equilíbrio”. O entrevistado chamou a atenção para o fato
dos moradores quererem impor sua visão particular sem respeitar a decisão da maioria. Talvez
essa crítica do entrevistado remeta a um vício de origem que a própria utopia dos RHF tende a
estimular:
porque, às vezes, você sai da sua casa e está morando na rua [casa em loteamento
aberto], você tem mais autonomia. Quando você opta por morar em um condomínio,
você deixa de lado essa sua autonomia em virtude de outras pessoas. Então eu vejo
que às vezes falta isso, uma compreensão maior. Porque às vezes a pessoa pensa de
uma forma, aí o outro discorda e então já vira um atrito, quando eu acho que não é
necessário um atrito, o cara pensa de uma maneira diferente e tem que achar um
meio-termo. Hoje a gente vive em um mundo que pede muita democracia, mas se
esquece que numa democracia não é o que eu quero, é o que a maioria quer e a
maioria pode ser contrária à minha opinião. [...] não é porque eu não quero que não
é democracia. [...] Eu acho que essas questões políticas hoje estão influenciando mais
as pessoas

Colocados diante das cinco opções de moradia caso se decidissem se mudar, H.R.D.
respondeu: “a gente optaria por outro residencial fechado. [...] A gente acredita que sair de
um local fechado assim como a gente está para um local aberto seria um retrocesso para a
nossa família. E a gente até tem planos assim para o nosso filho também nesse sentido aí. A
gente não se vê morando fora de um residencial fechado. E apartamento [...] eu não veria
361

problemas não, contando que seja fechado, mas minha esposa não quer não morar em
apartamento”.
Novamente a mudança para o RHF é interpretada como uma ascensão social percebida
sob a forma de “evolução”. Ir para outro loteamento aberto seria retroceder. Também aqui, o
casal se divide entre o cônjuge que vê a mudança para um apartamento como uma possibilidade,
desde que o edifício seja um residencial vertical fechado, e o outro que rechaça essa opção
completamente.
Perguntados se gostariam de acrescentar algo sobre alguma outra alteração na vida do
casal que não tenha sido abordado na entrevista, H.R.D. respondeu: “Não, acho que a gente
passou hoje a ter um convívio assim, como e diz, social e de lazer mais na nossa casa. Quando
a gente não morava em condomínio geralmente a gente ia para outro local, às vezes na casa
de amigos, e hoje não, a gente chama nossos amigos para cá. [...] porque aqui a gente tem
mais espaço, uma coisa ou outra”.
Esse aspecto é chave: quando a pessoa se muda para um residencial fechado ela tende a
se tornar mais caseira, ela passa mais tempo em casa e sai menos. D.M.B. atribuiu essa
introversão maior ao nascimento dos filhos: “quando a gente tem filhos tudo muda. Para eu
sair com ele à noite, é muito difícil, porque ele dormia muito cedo. Então em casa eu acho
melhor”. Com a mudança para o RHF, alguns moradores passaram a receber mais visitas de
familiares e amigos e sair menos para visitá-los. Sobre isso H.R.D. relatou que: “até os amigos
gostam daqui, acham o local legal. Praticamente eles se oferecem: ‘vamos para a sua casa’”.
D.M.B. concordou: “É, na sua casa, não sei o quê [risos]. A gente já até está acostumado com
isso [risos].”
Sobre o lazer em espaços públicos, H.R.D. afirmou “teve essa mudança, né? Até uma
coisa, a gente nunca teve esse negócio ‘vamos para uma praça’, hoje a gente já vai aqui para
a praça [interna do residencial fechado]”. A residência do casal fica próxima à praça interna
do RHF onde eles moram. A proximidade é traduzida em comodidade.
T.R.C. avaliou que a expectativa com o RFH foi atendida parcialmente.

Falta a interação com as pessoas, com os espaços de convivência. A gente aqui dentro
do residencial mesmo, não tem uma área verde estruturada. As ruas têm poucas
árvores ainda, isso torna o residencial muito quente e a gente não tem esses serviços
que a gente falou: serviços de café, lanchonete, restaurante, não tem! É só realmente
a casa. As casas e só. Então poderia melhorar nesse sentido.

F.M.N. concordou e acrescentou: “a gente fala muito sobre isso também. Eles deixaram
pouco espaço para área verde. Mas isso é uma característica da própria cidade também, da
Região Nordeste que, às vezes, o pessoal parece que tem pena de investir no verde, né? Mas a
362

gente, pelo menos aqui, achou que se tivesse mais espaço como esse, teria deixado o
condomínio muito melhor.”
As calçadas do loteamento são estreitas, com 1 metro e meio de largura, e foram
implantadas em atendimento ao mínimo que recomenda a lei 2.770/2011, que rege o
parcelamento do solo urbano no Município de Arapiraca. Esse parâmetro atesta uma qualidade
urbanística precária do ponto de vista da acessibilidade e do espaço público para o pedestre,
inviabilizando o plantio de árvores e a instalação adequada de mobiliário urbano nas calçadas.
Perguntados sobre as opções de moradia caso se mudassem do RHF, T.R.C. respondeu:
“na minha visão, eu ficaria entre duas aí: ou um apartamento ou um apartamento no centro,
porque eu gosto dessa ideia de proximidade com o comércio local. Residência no sítio seria a
última, aliás, não seria nem uma opção para mim”. Já F.M.N. relatou que “eu gosto dessa
alternativa sim, mas [...] na verdade, um casal homoafetivo, você morar em sítio, em fazenda,
por conta do risco que a gente tem da violência... A gente também fica com um pé atrás. Mas
às vezes a gente até pensa de ter [...] Não é muito a cara de T.R.C. não, mas às vezes é a minha
de conseguir ter um local como esse, mais aberto. [...] Apartamento em si, eu não gosto. É uma
característica minha [...]. Eu gosto mais dessa sensação de casa”.
Retornando à pergunta, F.M.N. afirmou que

se fosse sair daqui eu preferiria ainda uma outra casa em condomínio. Infelizmente,
a gente precisa estar preso para se sentir livre. [...] Às vezes, quando a gente pega
um Uber [...] a gente acaba descendo na própria portaria e vem andando. Que é uma
coisa que a gente gosta de fazer. Então, assim, você andar sem ter que se preocupar
de estar olhando para trás. [...] Então isso acaba deixando você mais confortável.
Então me deixa menos estressado do ponto de vista de moradia. Então isso é uma das
coisas que em um loteamento aberto, ou em um local aberto, a gente não ia ter nunca.

Concluindo sua resposta, F.M.N. ressaltou: “eu acho que esse é o ponto principal. Mais
do que a casa, mais do que localização, eu acho que essa sensação de estar livre, quando na
verdade você está preso, é que vai deixando a gente mais confortável. Dá um certo conforto. O
que às vezes muita gente pode achar que é luxo morar em condomínio fechado, a gente só sente
mais essa sensação de liberdade”. A utopia do RHF como espaço de tranquilidade e conforto
novamente é sintetizado pela ideia de “espaço de despreocupação”. O pretenso paradoxo do
“estar livre quando se está preso” é desconstruído no trecho do relato em que o morador diz se
sentir confortável e despreocupado. Ora, a condição de estar preso implicaria justamente o
contrário: desconforto e preocupação.
No encerramento da entrevista foi questionado se havia alguma outra alteração na vida
do casal a partir da mudança para o RHF, que não tinha sido abordada, T.R.C. frisou: “mudou,
com certeza a gente ficou mais seletivo [...] em relação a tudo. Outra coisa que mudou. Aqui a
363

gente se sente à vontade para colocar energia solar. [...] Por ser em condomínio fechado, a
gente não tem medo que roubem as placas solares, né? É um equipamento caro. Se fosse numa
casa em loteamento comum, podia sair de manhã, chegar à noite e cadê as placas?”
F.M.N. concordou: “foi, também teve isso. [...] Aí a gente já vê relação por ter morado
de aluguel. A gente acaba não tendo por medo de investir na casa. Quer conforto, mas tem
receio. Então quando a gente comprou a casa, e a gente disse assim: já que a casa é nossa,
[...] a gente gosta da casa, a gente gosta do local, a gente se sente bem, então a gente não abriu
mão de colocar coisas que a gente gostava mais. [...] Então a energia solar deixa a casa toda
climatizada, mesmo sendo de frente para o sol, e a casa sendo muito quente, hoje a gente não
sofre.
O conceito do habitus, tal como teorizado por Bourdieu e Elias aparece nos relatos do
casal como um grifo. A mudança para o RHF tornou o casal de moradores mais seletivo com
relação às práticas espaciais e mais introvertido com relação à interação com as pessoas. Outro
ponto: a opção pela moradia em RHF torna possível individualizar, com menos preocupação –
novamente – até as soluções de infraestrutura.
O casal concluiu relatando seu espanto com a rápida valorização das casas no
residencial. Segundo F.M.N., “o condomínio,[...] foi uma valorização absurda, acima do que
a gente esperava. Quando a gente comprou a casa, a casa ainda era uma das mais caras que
tinha para vender.” T.R.C. complementou: “hoje, nem a mais barata está no preço”.
F.M.N. também observou uma elevação do padrão arquitetônico e construtivo das casas
no residencial onde ele mora: “até as casas que estão construindo, a gente já observou que eles
estão caprichando mais. [...] a estrutura não, mas mais casas luxuosas. Então, assim, acaba
valorizando o condomínio com um todo. Ninguém quer fazer uma casinha, [...] então é todo
mundo, a frente da casa, quer ser luxuosa.”
Por fim, F.M.N. notou a rapidez com que as casas são construídas e vendidas dentro do
empreendimento: “a gente contou, foram 45 em um ano [...]. Outra coisa que a gente percebeu
foi que assim, algumas casas, quando bem construídas, se tornou mais rápido a venda. A casa
terminou de ser construída, aí a gente passou. Quando foi no outro dia: vendida. Aí eu disse:
oxe, essa acabou de ser construída! O cara passou a noite, no outro dia já estava lá,
praticamente vendida.”
O grupo controle consistiu em dois entrevistados que não são moradores de RHFs. Esse
procedimento metodológico teve por objetivo verificar se há tendências em curso na cidade que
não são decorrentes propriamente da mudança para residenciais fechados, mas generalizadas
aos moradores dos loteamentos abertos ou da área central da cidade. Os nomes dos
364

entrevistados que formaram o grupo controle também foram substituídos por iniciais fictícias
para preservar o anonimato.
O grupo foi formado por dois entrevistados: R.J.T., que foi morador do bairro Alto do
Cruzeiro e, atualmente, mora em um conjunto residencial aberto, no bairro Planalto, na periferia
norte da cidade; E.W.N., foi moradora do bairro Santa Esmeralda e, hoje, mora na área central
da cidade. Os dois entrevistados moravam na residência anterior com os pais e, após se casarem,
passaram a morar com seus respectivos cônjuges.
Ao descrever sua casa, R.J.T. relatou: “minha casa tem garagem, dois quartos, sendo
uma suíte, sala, cozinha, tem um quintal. Nessas casas a gente vê que o quintal é pequeno.
Antigamente, tinha uns quintais maiores, né? A casa é solta, a lateral é solta. Tem um espaço
na frente. Foi o único dentre todos os entrevistados que mencionou o quintal ao descrever sua
casa. Isso confirma a reflexão feita no capítulo anterior sobre a importância dos quintais como
um signo cultural presente na cidade e que a mudança para os RHFs está fazendo desaparecer.
Ao descrever sua casa, E.W.N afirmou “eu continuo a dizer que, assim, é a casa que eu
quero morar para sempre, mesmo que eu me mude para um condomínio, ela será planta da
minha casa de condomínio. Porque assim, é perfeita a morada”. É evidente na fala da
entrevistada sua satisfação com a casa em termos de valor de uso. Em momento algum ela
menciona aspectos relacionadas com o preço de compra ou de venda.
Perguntados sobre como eles comparam a infraestrutura no bairro onde residem
atualmente com o bairro onde moravam antes, R.J.T. respondeu:

rapaz, falando de água, onde eu moro não falta tão frequentemente igual faltava lá
no Alto do Cruzeiro, que é direto. Acho difícil uma semana que não falte água no Alto
do Cruzeiro. Onde eu moro, é adutora nova, é um conjunto novo, né? Demora a faltar.
Falta né, mas o cabra não sente também. [...] Aí o negócio de esgoto, não tem
saneamento básico, nem no Alto e nem lá no Casa Forte. Agora, iluminação, o Alto
está melhor. Agora lá no Casa Forte tem umas falhas lá, né? No loteamento, eu
sempre vejo um par de luzes apagadas, queimadas. E o problema lá é que as ruas são
projetadas. Não tem nome de rua. Aí você liga para lá, para os caras acertarem para
ajeitar a iluminação é complicado.

O paralelo entre os problemas de manutenção da iluminação pública relatados por R.J.T.


com aqueles mencionados por P.S.T. no conjunto habitacional onde ele morava, é claro.
Independentemente se o morador reside no vetor sul ou no vetor norte de expansão da cidade,
se ele está na periferia, este problema se repete. Quando ao saneamento básico, o abastecimento
de água é melhor na periferia do que nos bairros pericentrais, provavelmente devido a fatores
topográficos em razão da baixa pressão com que a água flui pelas tubulações da rede.
De acordo com E.W.N., a casa onde morou com os pais é muito confortável e isso
compensava a ausência de pavimentação na via que dava acesso à residência:
365

na casa do Santa Esmeralda a rua não é calçada até hoje. E aqui no centro onde eu
moro é calçada, a iluminação também é boa. Eu não tenho do que me queixar. Na
questão no Bairro Santa Esmeralda era só isso. No período de chuva que não tinha
uma estrutura confortável até chegar ao local, mas mesmo assim compensava. [...]
não faltava água no Santa Esmeralda porque meus pais fizeram assim, uma estrutura
de abastecimento com uma quantidade considerada assim, boa. A gente até fornecia
água para os vizinhos durante a falta de água. [...]. E hoje, no Centro, em relação ao
abastecimento, nós temos também uma reserva boa, mesmo quando falta, que é mais
raro faltar no centro, nós não temos dificuldade.

Sobre a relação com os vizinhos, R.J.T. disse que não mudou depois que ele foi morar
no bairro Planalto. Tudo bem, graças a Deus. Problema nenhum. Tanto no anterior quanto no
atual. [...] Na casa anterior é quase todo dia, constante. [...]. Aí já lá onde eu moro, os amigos,
é mais final de semana, quando eu estou de folga. Seja sábado e domingo.”
Para E.W.N. “a relação hoje no centro, tanto antes no Santa Esmeralda, é bem
agradável mesmo. Conhecemos as pessoas da rua. Sempre são solícitas. A entrevistada
continua, relatando que “lá no Santa Esmeralda mesmo, sempre existia um critério de que tipo
um [vizinho] planta uma árvore e vai guardando as mudinhas para que os outros plantem
também em suas residências. Hoje, inclusive, a rua está bem arborizada porque assim, os
vizinhos eles mesmos tomam a iniciativa”. E.W.N. complementa que “se tem alguma coisa
acontecendo de estranho, um vai falando com o outro, se reunindo para que [resolva?] essa
situação na rua, no Santa Esmeralda”. No Centro “nós também não temos nenhum problema,
apesar de poucos vizinhos. [...] Tem também comércio ao redor, mas mesmo assim os vizinhos
são solícitos. Sempre que acontece alguma coisa, já vão olhar nas câmeras, um ajudando ao
outro para ver o que aconteceu. Então é muito agradável mesmo, a convivência”.
Quanto à descrição das relações com a vizinhança transparece que há uma proximidade
maior na fala de E.W.N. com um senso de vida comunitária mais consistente.
Quanto às rotinas de compras, R.J.T. responde que mudou porque “sempre foi em
mercadinho, assim. Como chegou a rede de atacados, agora a gente está fazendo mais em rede
de atacado. Sempre que faltam os produtos de cesta básica, aí complementa em mercadinho
de bairro”. Quanto à compra de vestuário, ele afirma que não mudou, pois faz “no bairro
Centro. Em loja de bairro eu acho que, se eu comprei, foi uma vez ou duas só”.
E.W.N. afirmou que as compras de alimentos não mudaram muito, depois que passou a
morar no Centro, “porque no Santa Esmeralda, a gente tinha acesso mais aos supermercados
do centro ou das regiões mais vizinhas. Como hoje eu moro no centro, a rotina não mudou. Os
supermercados frequentados, anteriormente, são os mesmos”. Ela continuou, detalhando um
pouco mais, a rotina de compras de alimentos: “frequentamos feira, atacado e supermercados
no bairro mais próximo que é o Alto do Cruzeiro. E quitandas, também. A gente tem muito esse
366

hábito de ir em quitanda. Ou pessoas de banquinhas que a gente já tem o contato, liga e eles
já trazem até a residência”.
Quanto à rotina de compras de roupas, E.W.N. contou que “meus pais tinham uma loja
de roupas. “Aí antes, a gente, uma irmã minha viajava, fazia as compras e a gente acabava
agregando. Hoje, acabamos fazendo a opção de delivery, ou da própria cidade, ou mesmo via
internet. [...] O pedido é mais de loja do centro ou do shopping, porque assim é uma facilidade:
às vezes, o shopping oferece alguns preços legais ou as próprias lojas do Centro, também.”
As rotinas de compras dos entrevistados permitem constatar que a opção por compras
de alimentos em atacado não é uma prática espacial restrita aos moradores de RHFs, mas uma
tendência geral na cidade. A fala de E.W.N. deixa claro o quanto a proximidade com áreas bem
servidas de comércio e serviços oferece em termos de opções e possibilidades que os moradores
de RHFs não dispõem.
Quanto às atividades de lazer, R.J.T. afirma que “mudou quase nada, também. Lazer
aqui, no final de semana, é para casa dos meus pais. Sempre vem parentes. Na minha casa
também, sempre vão: meu pai, meu irmão e minha cunhada. [...] Aí tem uma cerveja, um
churrasco em casa”. Ao perguntar se ele sai de casa para fins de lazer ele respondeu que “é
difícil sair, só de vez em quando para o parquinho com o menino, ou para o shopping ver um
filme. Gostava de show, né? Mas aí veio a a pandemia e deu uma parada. Está voltando agora
aos poucos, mas não eu estou muito confiado de ir ainda não”. Questionado pelo pesquisador
sobre o lugar que ele prefere levar o filho para passear, ele respondeu: “no shopping, por
questão de segurança. Porque no espaço público ultimamente está dando muita bagunça.
Infelizmente, né?”
Sobre o lazer, E.W.N. relatou que “a gente busca sempre mais o conforto na residência,
porque a gente sempre busca mais coisas em família, entendeu? [...] Uma vez ou outra sai para
almoçar fora, fazer uma viagem ou mesmo pede pizza para todo mundo comer em casa,
brincadeiras, andar de bicicleta. Andar de bicicleta é o campeão”.
As atividades de lazer dos entrevistados que compõem o grupo controle são realizadas
mais em casa, na companhia da família. Parece que a interação com a família é maior entre os
não-moradores de RHFs. A recusa ao espaço público como local para passeio com as crianças
também apareceu na fala de R.J.T. demonstrando que pode ser uma tendência que extrapole o
universo dos moradores de RHFs.
Por fim, colocados diante de uma suposta mudança de residência para outro local, foi
oferecido como opções as mesmas mencionadas aos moradores de RHFs. De acordo com
R.J.T.,
367

Se tivesse assim, opção, acho que um residencial murado, porque sempre tem um
parque para criança, tem segurança, tem infraestrutura. Tem um lazer a mais sem
precisar sair, assim. Tem a questão de segurança, né? Que o residencial trás hoje,
né? Tem segurança na guarita, entra só com autorização. Murado, cerca elétrica. E
o sítio, ultimamente, estão fazendo muito chácaras e só dá bagunça [risos]. Acabou
o sossego no sítio [risos]. Rapaz, na região aqui de Arapiraca, geralmente, onde tem
chácara o pessoal está vendendo as casas, porque é barulho demais no final de
semana.

A entrevistada E.W.N. também escolheu, entre as opções dadas, a “casa em condomínio


fechado, pela questão hoje mais por conta dos filhos. Por uma questão mais de segurança.
Questão de filhos e segurança”. Questionada se ela se sente segura morando no Centro, ela
respondeu: “gosto muito da morada. Eu acho segura, mas a gente tem a questão de pagar
segurança particular. Tem a questão de cerca elétrica na casa toda e alarme, né?”
Finalizando a entrevista, os entrevistados foram indagados se haveria alguma coisa que
mudou na rotina deles depois da mudança da residência anterior para a atual que não tinha sido
abordado nas perguntas. E.W.N. respondeu que não. Já R.J.T. respondeu “no Alto do Cruzeiro
é praticamente no Centro, né? E o Planalto é um pouco afastado do Centro, aí alterou muito o
local. [...] Aí é mais correria, porque às vezes, você se atrasa, aí tem que deixar a mulher no
trabalho, menino na casa da minha mãe. Aumentou mais, assim, a correria do dia a dia.”
A partir das entrevistas realizadas com moradores e não moradores de RHFs, foi
possível constatar que a vida “em condomínio” é vista por quem passou a morar no espaço
intramuros como sinal de “liberdade” e “tranquilidade”. O sentimento de segurança tem a ver
com o sentimento de despreocupação com ameaças vistas como latentes do lado de fora.
A hipótese lançada pelo trabalho foi confirmada na medida em que a mudança para o
RHF tornou os moradores mais seletivos na relação com a cidade e suas práticas espaciais estão
mais compartimentadas e exclusivistas. O espaço público está perdendo relevância como opção
de lazer na cidade, principalmente no tocante ao passeio com as crianças. Esse fenômeno pode
impactar nas futuras gerações na medida que as crianças não vivenciam os espaços abertos para
brincarem com outras, diferentes daquelas com quem elas interagem no seu ciclo social, no
espaço intramuros.
368

7 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente trabalho propugnou que a autossegregação induz uma mudança na relação


que os moradores dos residenciais horizontais fechados (RHFs) estabelecem com a cidade, e
não apenas no ambiente intramuros, implicando em um modo de vida urbana mais
compartimentado e seletivo. O objetivo geral da pesquisa foi identificar e analisar as mudanças
nas práticas espaciais realizadas pelos moradores de RHFs e suas implicações para a vida
urbana em cidades médias, adotando como hipótese que há um aprofundamento da
compartimentação da vida urbana, em Arapiraca-AL, em virtude da escolha pela moradia em
residencial fechado.
As práticas espaciais dos moradores de RHFs são a expressão mais visível de
disposições mais subjetivas que comandam suas preferências e atribuições de valor: o habitus.
A autossegregação engendra uma alteração nos modos de pensar e de se relacionar com o
espaço urbano. A mudança para o RHF é assimilada por parte dos moradores como um conjunto
de dicotomias entre “aqui dentro” e “lá fora”, ora privilegiando um polo, ora outro.
Os conceitos de práticas espaciais e habitus foram discutidos e aplicados na análise dos
modos de vida dos moradores de RHFs e das relações que eles estabelecem com a cidade. Essa
análise revelou que as motivações “segurança” e “qualidade de vida”, usadas como
justificativas pela opção por moradia em RHFs, são categorias genéricas e, portanto,
insuficientes para elucidar o fenômeno. Essas duas motivações estão associadas à ideia de
“tranquilidade”, que subjaz a opção por esses empreendimentos. Esse ideal está apoiado em
uma utopia vendida pelo mercado imobiliário que afirma o RHF como “espaço de
despreocupação”. Essa utopia é incorporada pelos moradores e passa a ditar suas práticas
espaciais e visões de mundo, operando transformações no habitus.
Considerando os três conceitos discutidos no capítulo sobre cidades médias, Arapiraca
pode ser classificada como uma cidade de porte médio, pois abriga uma população municipal
estimada em 233.047 habitantes (IBGE, 2020). Ela pode, também, ser classificada como uma
cidade média considerando, como recorte espacial, o Estado de Alagoas; e como recorte
temporal, o período que corresponde a meados dos anos 1960 até a contemporaneidade.
Arapiraca ainda não dispõe dos atributos que permitam classificá-la como uma cidade
intermediária, pois sua capacidade de polarização é limitada ao Agreste e parte do Sertão
Alagoano e sua inserção nas redes globais é precária. A implantação de instituições de ensino
superior e futuros centros de pesquisa; de equipamentos culturais, como o Planetário e outros;
e de estruturas de apoio para o turismo de negócios e eventos, como o Centro de Convenções,
369

podem conferir à cidade maior projeção à cidade neste sentido. Não obstante, a inserção em
redes globais só deve ser considerada estratégica se estiver subordinada ao objetivo central
pautado na promoção de um desenvolvimento urbano socialmente justo e inclusivo, que ofereça
condições de moradia digna a todos os moradores da cidade.
Quanto à autossegregação, é importante destacar que se trata de um conceito abstrato,
útil para a compreensão do fenômeno do ponto de vista teórico. Do ponto de vista prático, nem
todos os moradores de RHFs têm consciência de que estão autossegregados. Outros, porém,
têm consciência da autossegregação, mas nem sempre a tem como intenção. Por último, tem
aqueles que estão conscientes, adotam a autossegregação com intencionalidade, mas não
afirmam isso de forma explícita.
Quanto às particularidades da autossegregação observadas em cidades médias, algumas
se aplicam a Arapiraca, como as facilidades para acessar boa localização, em razão do menor
porte da cidade e do preço mais baixo da terra; e deslocamento rápido por veículo individual
motorizado, uma vez que as construtoras se valem dos investimentos públicos e ancoragens
para posicionar os RHFs ao longo das rodovias. Em décadas passadas, nas metrópoles, morar
em um residencial era uma exclusividade dos segmentos de alta renda, em razão dos custos que
este modo de vida impõe. Atualmente, seja nos grandes centros, seja nas cidades médias, o
morador encontrará um residencial fechado que “caberá no seu bolso”.
No caso de Arapiraca, a oferta de infraestrutura é precária se comparada às demais
cidades médias nordestinas e essa deficiência não está presente apenas nas áreas de expansão
da cidade, mas também nos espaços com ocupação consolidada. As entrevistas permitiram
elucidar casos de moradores que residiram anteriormente em periferias de grandes centros
urbanos e que, ao se mudarem para um RHF de padrão intermediário localizado em Arapiraca,
se depararam com condições de infraestrutura no espaço intramuros piores do que nas cidades
de onde vieram.
A autossegregação foi caracterizada a partir de um estudo classificatório que distribuiu
os RHFs localizados em Arapiraca em cinco grupos. A espacialização dos RFHs combinada
com Índice Brasileiro de Privação tornou possível constatar que os RHFs dos grupos 1 e 2, de
padrão mais simples, estão implantados em setores censitários que apresentaram as piores
condições de privação, indicando que esses RHFs não estão imunes à segregação urbana, mas
também sinaliza que parece haver uma segregação entre os segmentos de renda mais baixo.
Este aspecto demanda a realização de novas pesquisas para investiga-lo. Já os RHFs dos grupos
3, 4 e 5, de padrão intermediário, médio-alto e alto, respectivamente, estão situados em áreas
com status de privação menos elevados, considerando o contexto socioeconômico de
370

Arapiraca-AL, indicando que esses empreendimentos disputam as localizações mais bem


servidas de infraestrutura urbana, via de regra, implantada pelo poder público.
A proliferação de RHFs em Arapiraca é alimentada pela conjugação de fatores como a
baixa diversidade de opções na oferta de moradia por parte do mercado imobiliário local; e a
ausência de um sistema de esgotamento sanitário na cidade, que inviabiliza o adensamento
populacional e construtivo por meio de edifícios verticais. A gestão do cotidiano dos RHFs é
um tema sensível para o setor imobiliário. De acordo com os agentes imobiliários, os RHFs
seriam modelos de comunidade de vizinhança, constituindo uma espécie de utopia. As
dificuldades de gestão enfrentadas pelas associações de moradores podem guardar relação com
a impossibilidade de entregar aos moradores, no dia-a-dia, aquilo que foi prometido a eles, no
ato da aquisição do imóvel em RHF.
Os RHFs, ainda que passíveis de regularização a partir da lei federal 13.465/2017, não
convergem com os princípios estabelecidos pelo Estatuto da Cidade, em especial a função social
da cidade e a sustentabilidade. No caso de Arapiraca, o plano diretor não é observado em seus
princípios e o zoneamento não é devidamente considerado pela lógica da proliferação desse
tipo de empreendimento. A implantação de RHFs de médio padrão, justapostos a assentamentos
precários, impõem obstáculos ao atendimento às comunidades carentes de serviços públicos,
uma vez que encerra, dentro dos muros, áreas públicas que deveriam estar à disposição da
administração municipal para atender a população.
Avaliando os RHFs do ponto de vista da regulação, foi possível constatar que a
persistência de uma legislação de parcelamento do solo obsoleta, de um plano diretor
desatualizado, da ausência de controle social do espaço urbano por órgão colegiado e da
necessidade de um setor de fiscalização mais habilitado constituem os principais obstáculos
para o planejamento urbano municipal, no tocante ao controle da proliferação de RHFs, na
cidade.
Quanto às atividades cotidianas realizadas pelos moradores de RHFs, foram detectadas
motivações exclusivistas nas falas de alguns moradores entrevistados. Analisando os resultados
do questionário, essas motivações parecem estar associadas ao conceito de “estilo de vida” que
remete a ideais de afirmação de status e distinção. Esse conceito apareceu com maior frequência
nas repostas obtidas por moradores de RHFs de padrão mais sofisticado, corroborando a
observação de um dos agentes imobiliários entrevistados: o status é apresentado como
motivação de modo mais recorrente pelos segmentos de maior renda.
Não obstante, foi relatado nas entrevistas com moradores de RHF de padrão
intermediário em Arapiraca que certos vizinhos adotam atitudes de evitação nos espaços
371

internos do empreendimento, pautadas por comportamentos de indiferença, introversão e


reserva. Ao mesmo tempo, tais motivações exclusivistas não parecem ser constitutivas das
práticas e do habitus de moradores de RHFs de padrão mais simples. Neste sentido, a hipótese
de que a afirmação de status seria uma motivação para todos os moradores de RHFs não foi
confirmada.
Ao analisar a relação que os moradores dos RHFs estabelecem com o espaço urbano de
Arapiraca-AL, a partir de suas práticas espaciais e do habitus, foi possível observar que a
mudança para os RHFs tornou os moradores mais introvertidos quanto às práticas de lazer, na
medida em que eles buscam resolver todas as suas demandas dentro do próprio residencial. As
práticas de consumo também indicam uma maior seletividade e compartimentação, pois o
morador de RHF começa a substituir o Centro e as feiras, como locais de compra, por grandes
equipamentos de consumo, como o shopping center e os grandes atacados, e por sites de
compras na internet.
Os axiomas formulados a partir da análise das entrevistas permitiram sintetizar alguns
aspectos dos modos de vida dos moradores e como eles percebem os espaços da casa, do bairro
e da cidade. Nos relatos, ficou claro que a mudança para o RHF resultou na redução da área da
residência e, ao mesmo tempo, na melhoria das condições de infraestrutura. Essa reflexão é
importante pois o morador se dispõe a trocar uma casa espaçosa por um melhor atendimento
quanto aos serviços urbanos.
Sobre a questão das aberturas e fechamentos, a síntese foi formulada nos seguintes
termos: na residência anterior, o loteamento era aberto e casa era murada; no residencial, o
loteamento é murado e a casa é aberta. Embora a segunda combinação pareça vantajosa, na
prática ela não se verifica em termos de melhoria da sociabilidade no espaço intramuros. Os
comportamentos de evitação mostram que os muros das casas continuam presentes no plano
simbólico, e os moradores “levam seus muros” consigo enquanto transitam nos espaços
internos. Uma ponderação relevante sobre os resultados das entrevistas permite inferir que a
pretensa “sensação de segurança” não produz, como efeito, uma aproximação maior entre os
vizinhos. Outras questões observadas na pesquisa foram o descolamento entre os locais de
compras e o local de residência, os conflitos entre mais liberdade para as pessoas e mais
restrições para os animais de estimação e as demandas dos moradores por mais transparência
nas gestões dos RHFs.
Por fim, foi observado que a prática de atividades físicas por parte dos moradores ainda
ocorre fora dos residenciais, indicando que os espaços públicos localizados na área central ainda
competem com os espaços internos dos RHFs nesse quesito. Contudo, o passeio com a família
372

nas praças e nos parques públicos tem sido cada vez menos frequente e o resultado disso é que
o lazer infantil está sendo enclausurado nos espaços internos dos RHFs. As implicações dessa
redução do contato das crianças com outras de fora do seu ciclo de convivência, pode tornar as
futuras gerações mais intolerantes e introvertidas no contato social. Esse resultado indica a
necessidade de outras pesquisas que abordem a questão do lazer infantil em espaços de lazer
privados e as implicações disso para a esfera pública.
373

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APÊNDICE A – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO


ENTREVISTA
(PARA MAIORES DE 18 ANOS OU EMANCIPADOS)

Convidamos o(a) Sr.(a) para participar como voluntário(a) da pesquisa “Autossegregação em


cidades médias: configuração intraurbana e práticas espaciais dos moradores de residenciais horizontais
fechados em Arapiraca-AL”, sob a responsabilidade do pesquisador Rafael Rust Neves, que pode ser
encontrado na Universidade Federal de Alagoas - Campus de Arapiraca, Av. Manoel Severino Barbosa,
s/n, Bom Sucesso, Arapiraca - AL, CEP: 57309-005, telefone (82) , e-mail
. A pesquisa está sendo desenvolvida sob a orientação do Prof. Dr. Ruskin
Fernandes Marinho de Freitas, telefone (81) , e-mail .
Todas as suas dúvidas podem ser esclarecidas com o responsável por esta pesquisa. Apenas
quando todos os esclarecimentos forem dados e você concordar em participar da pesquisa, pedimos que
rubrique as folhas e assine ao final deste documento, que está em duas vias. Uma via lhe será entregue
e a outra ficará com o pesquisador responsável.
Caso não aceite participar, não haverá nenhum problema, desistir é um direito seu. Será possível
o(a) Sr.(a) retirar o consentimento em qualquer fase da pesquisa, também sem nenhuma penalidade.

INFORMAÇÕES SOBRE A PESQUISA:

• Arapiraca-AL tem passado por uma série de transformações urbanas nas últimas décadas e, entre
elas, o aumento do número de residenciais fechados, implantados em diversos bairros da cidade. A
pesquisa busca compreender como a mudança de um loteamento aberto para um residencial fechado
altera a vida do morador e a relação dele com os espaços da cidade.
• A coleta de dados será realizada por meio de entrevista individual, de forma presencial (observando
os cuidados recomendados pela OMS em razão da pandemia de COVID-19) ou virtual (por meio de
ligação telefônica ou por comunicação por vídeo), de acordo com a escolha do voluntário. A
entrevista será realizada uma única vez, com tempo estimado entre 1 (uma) e 2 (duas) horas. Será
solicitado que o(a) Sr.(a) responda as perguntas do roteiro ou conte sua história de vida. O(a) Sr.(a)
é livre para não responder perguntas ou não falar sobre temas que não queira.
• A participação na pesquisa pode oferecer o(a) Sr.(a) os seguintes riscos: (i) cansaço pelo tempo
dedicado à entrevista; (ii) desconforto com lembranças de experiências passadas; (iii) quebra de
confidencialidade, caso o(a) Sr.(a) diga a outras pessoas que foi entrevistado(a) e, tornada pública a
tese de doutorado, essas pessoas o(a) identifiquem pelo conteúdo da sua fala. Para minimizar esses
riscos, o pesquisador: (i) evitará que a entrevista dure mais que duas horas; (ii) ouvirá, com
acolhimento e respeito, o relato da experiência desconfortável vivenciada pelo entrevistado, evitando
se deter nesse evento; e (iii) esclarecerá sobre os cuidados para manter a confidencialidade da sua
participação na pesquisa.
• Quanto aos benefícios diretos, a participação nessa pesquisa pode oferecer: (i) um ambiente de
diálogo para o(a) Sr.(a) falar sobre si e sobre o que pensa; (ii) uma reflexão construtiva sobre si
mesmo e sobre sua relação com outras pessoas; (iii) um sentimento de reconhecimento pessoal ou
profissional; e (iv) uma satisfação pessoal por adotar uma postura solidária e colaborativa. Quanto
aos benefícios indiretos, as informações fornecidas poderão contribuir com o aperfeiçoamento do
planejamento urbano e do mercado imobiliário, propiciando uma cidade com mais qualidade de vida
para todos.
Esclarecemos o(a) Sr.(a) tem plena liberdade de se recusar a participar do estudo e que esta
decisão não acarretará penalização por parte dos pesquisadores. Todas as informações desta pesquisa
serão confidenciais e serão divulgadas apenas em eventos ou publicações científicas, não havendo
identificação dos voluntários, a não ser entre os responsáveis pelo estudo, sendo assegurado o sigilo
sobre a sua participação. Os dados coletados nesta pesquisa (documentos e áudios das gravações) ficarão
armazenados no computador pessoal do pesquisador, sob a sua responsabilidade, no endereço acima
informado, pelo período mínimo de 5 anos após o término da pesquisa.
386

Nada lhe será pago e nem será cobrado para participar desta pesquisa, pois sua aceitação é
voluntária, mas fica também garantida a indenização em casos de danos, comprovadamente decorrentes
da participação na pesquisa, conforme decisão judicial ou extra-judicial. Se houver necessidade, as
despesas para a sua participação serão assumidas pelos pesquisadores.
Em caso de dúvidas relacionadas aos aspectos éticos deste estudo, o(a) senhor(a) poderá
consultar o Comitê de Ética em Pesquisa Envolvendo Seres Humanos da UFPE no endereço: Avenida
da Engenharia s/n – Prédio do CCS – 1º Andar, sala 4 – Cidade Universitária, Recife-PE, CEP:
50740-600, Telefone: (81) 2126.8588 – e-mail: [Link]@[Link].

___________________________________________________
(assinatura do pesquisador)

CONSENTIMENTO DA PARTICIPAÇÃO DA PESSOA COMO VOLUNTÁRIO (A)

Eu, __________________________________________________________________________, CPF


______________________, abaixo assinado, após a leitura (ou a escuta da leitura) deste documento e
de ter tido a oportunidade de conversar e ter esclarecido as minhas dúvidas com o pesquisador
responsável, concordo em participar do estudo “Autossegregação em cidades médias: configuração
intraurbana e práticas espaciais dos moradores de residenciais horizontais fechados em Arapiraca-AL”,
como voluntário(a). Fui devidamente informado(a) e esclarecido(a) pelo(a) pesquisador(a) sobre a
pesquisa, os procedimentos nela envolvidos, assim como os possíveis riscos e benefícios decorrentes de
minha participação. Foi-me garantido que posso retirar o meu consentimento a qualquer momento, sem
que isto leve a qualquer penalidade.
Local e data: ______________________________________________________________________
Assinatura do participante: ___________________________________________________________
387

APÊNDICE B – ROTEIROS DE ENTREVISTAS

GRUPO 1: REPRESENTANTES DA GESTÃO PÚBLICA

1. Como você avalia a implantação dos residenciais fechados em Arapiraca-AL, desde o primeiro
empreendimento, em 2007, até o presente momento, em 2020?
2. Quais têm sido os impactos da localização desses empreendimentos para o conjunto do espaço
urbano da cidade?
3. Quais são os desafios que a implantação de residenciais horizontais fechados impõe ao planejamento
e à gestão urbana, em Arapiraca-AL?
4. Por que a maioria dos residenciais fechados implantados na cidade estão em situação irregular?
5. Quais foram as ações efetivas adotadas pela administração municipal relativas à implantação de
residenciais horizontais fechados na cidade?
6. Como será o futuro de Arapiraca, se persistir a tendência de proliferação dos residenciais horizontais
fechados na cidade?

GRUPO 2A: SETOR IMOBILIÁRIO [CONSTRUTORES E INCORPORADORES]

1. Quais são os fatores que motivaram o investimento em residenciais horizontais fechados?


2. Quais são os critérios para a escolha da localização desses empreendimentos?
3. Quais são as formas de captação de recursos financeiros para a realização desses empreendimentos?
4. Quais são os públicos-alvo que a empresa visa com o lançamento de residenciais horizontais
fechados?
5. Quais são as técnicas de prospecção de vendas e as ideias-força do marketing?
6. Quais são as formas de financiamento para o cliente final?
7. Quais são as especificidades de cada empreendimento lançado?
8. Como é a relação da empresa com o poder público no tocante à implantação desses
empreendimentos?
9. Como é a relação da empresa com as associações de moradores dos residenciais?

GRUPO 2B: SETOR IMOBILIÁRIO [CORRETORES IMOBILIÁRIOS]

1. Quais são as tendências observadas no mercado imobiliário de Arapiraca-AL, nos últimos dez anos?
2. Quais são os tipos de residenciais horizontais fechados mais procurados na cidade?
3. Quais são os perfis dos moradores que procuram cada tipo de empreendimento?
4. Quais são as motivações que seus clientes apresentam para justificar a opção por residenciais
fechados?
5. Você observa mudanças nos perfis dos moradores desses empreendimentos ao longo do tempo? Caso
sim, quais?
6. Quais são as formas de aquisição mais utilizadas por compradores de imóveis em residenciais
fechados?
388

GRUPO 3: MORADORES DE RESIDENCIAIS HORIZONTAIS FECHADOS

Seção 1 – Perfil do(a) entrevistado(a)


• Idade
• Profissão
• Situação civil
• Posição na família (pai, mãe, filho, etc.)
• Faixa de renda aproximada
• Nível de escolaridade (fundamental incompleto, fundamental completo, ensino médio incompleto,
ensino médio completo, ensino superior incompleto, ensino superior completo, mestrado, doutorado).

Seção 2 – Inserção urbana, habitabilidade e relações interpessoais


• Aspectos gerais: localização (cidade e bairro); tipo de residência (casa ou apartamento); condição de
ocupação do imóvel (próprio ou alugado); tempo de ocupação.
• Habitabilidade e infraestrutura: avaliação das duas residências termos de: condições da casa,
localização, facilidades de deslocamento, infraestrutura urbana (água, esgoto, coleta de lixo, energia,
drenagem) e segurança.
• Relações interpessoais: relação com vizinhos, familiares e amigos; participação em associação de
moradores; existência de amizade prévia com algum morador do residencial fechado.

Seção 3 – Processo de mudança de residência


• Motivações: motivações para a mudança; opções consideradas de residência e localização; razão da
escolha por casa em um residencial fechado; expectativas sobre a vida em residencial fechado, antes de
se mudarem.
• Processo de compra/construção: processo de venda da casa anterior e compra ou construção da casa
atual, no residencial fechado.

Seção 4 – Atividades de consumo e lazer (antes e depois da mudança de residência)


• Rotina de compra de alimentos: descrição da rotina; estabelecimentos escolhidos; motivos para a
escolha dos estabelecimentos; forma de deslocamento até os estabelecimentos.
• Rotina de compras de vestuário: descrição da rotina; estabelecimentos escolhidos; motivos para a
escolha dos estabelecimentos; forma de deslocamento até os estabelecimentos.
• Rotina de acesso a serviços: descrição da rotina de acesso a serviços de educação e saúde;
estabelecimentos escolhidos; motivos para a escolha dos estabelecimentos; forma de deslocamento até
os estabelecimentos
• Rotina de lazer: descrição da rotina; opções de lazer (atividade física, esporte, restaurante, cinema,
shopping, parque, bares, shows, viagens); estabelecimentos escolhidos; motivos para a escolha dos
estabelecimentos; forma de deslocamento até os estabelecimentos.

Seção 5 – Avaliação da situação atual e perspectivas futuras.


Os temas listados para essa seção são os seguintes: satisfação com o residencial fechado, com o bairro
e com a cidade; sugestões de melhorias para o residencial fechado, para o bairro e para a cidade; intenção
de mudança e possibilidades de residência e localização consideradas e rejeitadas; considerações finais
e acréscimos ao que foi relatado.
389

GRUPO 4 (CONTROLE): NÃO-MORADORES DE RESIDENCIAIS HORIZONTAIS FECHADOS

Seção 1 – Perfil do(a) entrevistado(a)


• Idade
• Profissão
• Situação civil
• Posição na família (pai, mãe, filho, etc.)
• Faixa de renda aproximada
• Nível de escolaridade (fundamental incompleto, fundamental completo, ensino médio incompleto,
ensino médio completo, ensino superior incompleto, ensino superior completo, mestrado, doutorado).

Seção 2 – Inserção urbana, habitabilidade e relações interpessoais


• Aspectos gerais: localização (cidade e bairro); tipo de residência (casa ou apartamento); condição de
ocupação do imóvel (próprio ou alugado); tempo de ocupação.
• Habitabilidade e infraestrutura: avaliação da residência em termos de: condições da casa, localização,
facilidades de deslocamento, infraestrutura urbana (água, esgoto, coleta de lixo, energia, drenagem) e
segurança.
• Relações interpessoais: relação com vizinhos, familiares e amigos; participação em associação de
moradores

Seção 3 – Atividades de consumo e lazer


• Rotina de compra de alimentos: descrição da rotina; estabelecimentos escolhidos; motivos para a
escolha dos estabelecimentos; forma de deslocamento até os estabelecimentos.
• Rotina de compras de vestuário: descrição da rotina; estabelecimentos escolhidos; motivos para a
escolha dos estabelecimentos; forma de deslocamento até os estabelecimentos.
• Rotina de acesso a serviços: descrição da rotina de acesso a serviços de educação e saúde;
estabelecimentos escolhidos; motivos para a escolha dos estabelecimentos; forma de deslocamento até
os estabelecimentos
• Rotina de lazer: descrição da rotina; opções de lazer (atividade física, esporte, restaurante, cinema,
shopping, parque, bares, shows, viagens); estabelecimentos escolhidos; motivos para a escolha dos
estabelecimentos; forma de deslocamento até os estabelecimentos.

Seção 4 – Avaliação da situação atual e perspectivas futuras.


Os temas listados para essa seção são os seguintes: satisfação com a residência, com o bairro e com a
cidade; sugestões de melhorias para o logradouro, para o bairro e para a cidade; intenção de mudança e
possibilidades de residência e localização consideradas e rejeitadas; considerações finais e acréscimos
ao que foi relatado.
390

APÊNDICE C – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO


QUESTIONÁRIO ONLINE
(PARA MAIORES DE 18 ANOS OU EMANCIPADOS)
Convidamos o(a) Sr.(a) para participar como voluntário(a) da pesquisa “Autossegregação em
cidades médias: configuração intraurbana e práticas espaciais dos moradores de residenciais horizontais
fechados em Arapiraca-AL”, sob a responsabilidade do pesquisador Rafael Rust Neves, que pode ser
encontrado na Universidade Federal de Alagoas - Campus de Arapiraca, Av. Manoel Severino Barbosa,
s/n, Bom Sucesso, Arapiraca - AL, CEP: 57309-005, telefone (82) , e-mail
. A pesquisa está sendo desenvolvida sob a orientação do Prof. Dr. Ruskin
Fernandes Marinho de Freitas, telefone (81) , e-mail .
Todas as suas dúvidas podem ser esclarecidas com o responsável por esta pesquisa. Esse termo
deve ser arquivado sob a posse do participante. Caso não aceite participar, não haverá nenhum problema.
Desistir é um direito seu. Será possível o(a) Sr.(a) retirar o consentimento em qualquer fase da pesquisa,
também sem nenhuma penalidade.

INFORMAÇÕES SOBRE A PESQUISA:

• Arapiraca-AL tem passado por uma série de transformações urbanas nas últimas décadas e, entre
elas, o aumento do número de residenciais fechados, implantados em diversos bairros da cidade. A
pesquisa busca compreender como a mudança de um loteamento aberto para um residencial fechado
altera a vida do morador e a relação dele com os espaços da cidade.
• A participação na pesquisa pode oferecer o(a) Sr.(a) os seguintes riscos: (i) cansaço pelo tempo
dedicado a responder ao questionário; (ii) desconforto com lembranças de experiências passadas.
Para minimizar esses riscos, o pesquisador: (i) limitou o número de perguntas para que o tempo
dedicado a responder fosse de 5 a 10 minutos; (ii) evitou perguntas que suscitassem possíveis
experiências desconfortáveis vivenciadas pelo participante.
• Quanto aos benefícios diretos, a participação nessa pesquisa pode oferecer: (i) um espaço para o(a)
Sr.(a) expressar sua opinião e o que pensa; (ii) uma reflexão construtiva sobre si mesmo e sobre sua
relação com outras pessoas; (iii) um sentimento de reconhecimento pessoal ou profissional; e (iv)
uma satisfação pessoal por adotar uma postura solidária e colaborativa. Quanto aos benefícios
indiretos, as informações fornecidas poderão contribuir com o aperfeiçoamento do planejamento
urbano e do mercado imobiliário, propiciando uma cidade com mais qualidade de vida para todos.
Esclarecemos o(a) Sr.(a) tem plena liberdade de se recusar a participar do estudo e que esta
decisão não acarretará penalização por parte dos pesquisadores. Todas as informações desta pesquisa
serão confidenciais e serão divulgadas apenas em eventos ou publicações científicas, não havendo a
identificação dos voluntários. Os dados coletados nesta pesquisa ficarão armazenados no computador
pessoal do pesquisador, sob a sua responsabilidade, no endereço acima informado, pelo período mínimo
de 5 anos após o término da pesquisa.
Nada lhe será pago e nem será cobrado para participar desta pesquisa, pois sua aceitação é
voluntária, mas fica também garantida a indenização em casos de danos, comprovadamente decorrentes
da participação na pesquisa, conforme decisão judicial ou extrajudicial. Se houver necessidade, as
despesas para a sua participação serão assumidas pelos pesquisadores.
Em caso de dúvidas relacionadas aos aspectos éticos deste estudo, o(a) senhor(a) poderá
consultar o Comitê de Ética em Pesquisa Envolvendo Seres Humanos da UFPE no endereço: Avenida
da Engenharia s/n – Prédio do CCS – 1º Andar, sala 4 – Cidade Universitária, Recife-PE, CEP:
50740-600, Telefone: (81) 2126.8588 – e-mail: [Link]@[Link].
Após os esclarecimentos aqui prestados, se o(a) Sr.(a) aceitar participar desse estudo, deve
marcar o campo "li o TCLE e concordo em participar da pesquisa" e responder ao questionário.

___________________________________________________ Data: ________________


(assinatura do pesquisador)
391

APÊNDICE D – ROTEIRO DO QUESTIONÁRIO ONLINE


[Link]

* Resposta obrigatória
392

Seção 1. Perfil

1.1 A sua idade está entre:*


( ) 18 a 24 anos ( ) 25 a 29 anos ( ) 30 a 44 anos ( ) 45 a 59 anos ( ) 60 anos ou mais

1.2 Qual é o seu gênero?*


( ) Masculino ( ) Feminino ( ) Outro:______________

1.3 Qual é o seu estado civil atual?*


( ) Casado(a) ( ) Em união estável ( ) Separado(a) ou Divorciado(a) ( ) Viúvo(a) ( ) Solteiro(a)

1.4 Você tem filhos(as) e/ou crianças sob sua responsabilidade?*


( ) Sim ( )Não

1.5 Qual é o seu grau de instrução?*


( ) Nenhum grau de instrução
( ) Fundamental incompleto
( ) Fundamental completo
( ) Médio incompleto
( ) Médio completo
( ) Superior incompleto
( ) Superior completo
( ) Pós-graduação

1.6 Qual é a sua ocupação?*


( ) Aposentado(a)
( ) Autônomo(a)
( ) Empresário(a)
( ) Empregado(a)
( ) Desempregado(a)
( ) Estudante
( ) Funcionário(a) público(a)
( ) Profissão do lar

1.7 Em qual bairro de Arapiraca você morou antes de se mudar para a residência atual?* [lista suspensa]
1. Morava em outra cidade 16. Centro 30. Ouro Preto
2. Alazão 17. Deputado Nezinho 31. Padre Antônio Lima
3. Alto do Cruzeiro 18. Eldorado 32. Planalto
4. Baixa Grande 19. Guaribas 33. Primavera
5. Baixão 20. Itapoã 34. Santa Edwiges
6. Batingas 21. Jardim de Maria 35. Santa Esmeralda
7. Boa Vista 22. Jardim Esperança 36. São Luiz
8. Bom Sucesso 23. Jardim Tropical 37. São Luiz II
9. Brasília 24. João Paulo II 38. Senador Arnon de Melo
10. Brasiliana 25. Manoel Teles 39. Senador Nilo Coelho
11. Cacimbas 26. Massaranduba 40. Senador Teotônio Vilela
12. Caititus 27. Nova Esperança 41. Verdes Campos
13. Canafístula 28. Novo Horizonte 42. Zélia Barbosa Rocha
14. Capiatã 29. Olho D’ Água dos Cazuzinhos 43. Povoado ou Zona Rural
15. Cavaco
393

1.8 Em qual das alternativas abaixo está o residencial fechado onde você mora atualmente?* [lista
suspensa]
1. Altaville, Jds Perucaba I, Araville Alfa
2. Alto Jardim, Canafístula
3. Aroeiras, Bem Viver, Cerejeira
4. Colibri, Dona Carmélia
5. Eldorado, Villa De La Roche
6. Monte Sinai, Jardim das Bromélias
7. Ouro Verde, Sierra
8. Parc Ville, San Lorenzo
9. Pedro Tertuliano, Recanto Real

Seção 2. Condições da moradia, infraestrutura urbana e acesso a serviços

Ao comparar a residência atual com a residência anterior, em termos de:

2.1 Satisfação com a casa*


( ) Piorou muito ( ) Piorou um pouco ( ) Igual ( ) Melhorou um pouco ( ) Melhorou muito

2.2 Abastecimento de água*


( ) Piorou muito ( ) Piorou um pouco ( ) Igual ( ) Melhorou um pouco ( ) Melhorou muito

2.3 Esgotamento sanitário*


( ) Piorou muito ( ) Piorou um pouco ( ) Igual ( ) Melhorou um pouco ( ) Melhorou muito

2.4 Coleta de lixo*


( ) Piorou muito ( ) Piorou um pouco ( ) Igual ( ) Melhorou um pouco ( ) Melhorou muito

2.5 Pavimentação das vias*


( ) Piorou muito ( ) Piorou um pouco ( ) Igual ( ) Melhorou um pouco ( ) Melhorou muito

2.6 Drenagem urbana*


( ) Piorou muito ( ) Piorou um pouco ( ) Igual ( ) Melhorou um pouco ( ) Melhorou muito

2.7 Fornecimento de energia domiciliar*


( ) Piorou muito ( ) Piorou um pouco ( ) Igual ( ) Melhorou um pouco ( ) Melhorou muito

2.8 Iluminação pública*


( ) Piorou muito ( ) Piorou um pouco ( ) Igual ( ) Melhorou um pouco ( ) Melhorou muito

2.9 Segurança*
( ) Piorou muito ( ) Piorou um pouco ( ) Igual ( ) Melhorou um pouco ( ) Melhorou muito

2.10 Perturbação do sossego por ruído/barulho*


( ) Piorou muito ( ) Piorou um pouco ( ) Igual ( ) Melhorou um pouco ( ) Melhorou muito

2.11 Facilidade de deslocamento*


( ) Piorou muito ( ) Piorou um pouco ( ) Igual ( ) Melhorou um pouco ( ) Melhorou muito

2.12 Acesso a comércio*


( ) Piorou muito ( ) Piorou um pouco ( ) Igual ( ) Melhorou um pouco ( ) Melhorou muito
394

Seção 3. Relações interpessoais e participação comunitária

Ao comparar a residência atual com a residência anterior, em termos de:

3.1 Interação com os vizinhos*


( ) Piorou muito ( ) Piorou um pouco ( ) Igual ( ) Melhorou um pouco ( ) Melhorou muito

3.2 Interação com os familiares*


( ) Piorou muito ( ) Piorou um pouco ( ) Igual ( ) Melhorou um pouco ( ) Melhorou muito

3.3 Interação com os amigos*


( ) Piorou muito ( ) Piorou um pouco ( ) Igual ( ) Melhorou um pouco ( ) Melhorou muito

3.4 Participação em associação de moradores*


( ) Piorou muito ( ) Piorou um pouco ( ) Igual ( ) Melhorou um pouco ( ) Melhorou muito

Seção 4. Mudança para o loteamento residencial fechado: motivações e expectativas

Há quanto tempo você mora na residência atual?*


( ) Menos de 1 ano
( ) Entre 1 e 2 anos
( ) Entre 2 e 4 anos
( ) Entre 4 e 8 anos
( ) Mais 8 anos

4.1 Quais foram as três motivações, em ordem de importância, que levaram você a se mudar da
residência anterior para a atual, no residencial fechado? (Escolher apenas três respostas, marcando uma
em cada coluna)* [grade de múltipla escolha]
Em primeiro lugar Em segundo lugar Em terceiro lugar
Áreas verdes ( ) ( ) ( )
Áreas de lazer ( ) ( ) ( )
Estilo de vida ( ) ( ) ( )
Exclusividade ( ) ( ) ( )
Comodidade ( ) ( ) ( )
Infraestrutura urbana ( ) ( ) ( )
Localização ( ) ( ) ( )
Morar entre semelhantes ( ) ( ) ( )
Segurança ( ) ( ) ( )
Sofisticação ( ) ( ) ( )
Tranquilidade ( ) ( ) ( )
Outra ( ) ( ) ( )
395

4.2 As expectativas que você tinha com a mudança para o residencial fechado:*

( ) Não foram atendidas


( ) Foram atendidas parcialmente
( ) Foram atendidas plenamente
( ) Superou as expectativas

4.3 Se você decidisse mudar do residencial fechado onde mora hoje, você optaria por:*
( ) Apartamento
( ) Casa em loteamento aberto
( ) Casa no centro da cidade
( ) Casa em sítio
( ) Casa em outro loteamento residencial fechado

5. Atividades de consumo e lazer

5.1 Onde você fazia compras de alimentos quando morava na RESIDÊNCIA ANTERIOR?* [grade de
múltipla escolha]
Sempre Às vezes Nunca
Centro ( ) ( ) ( )
Feiras ( ) ( ) ( )
Mercado de bairro ( ) ( ) ( )
Supermercado convencional ( ) ( ) ( )
Supermercado atacado-varejista ( ) ( ) ( )

5.2 Onde você passou a fazer compras de alimentos depois que se mudou para a RESIDÊNCIA ATUAL?*
[grade de múltipla escolha]
Sempre Às vezes Nunca
Centro ( ) ( ) ( )
Feiras ( ) ( ) ( )
Mercado de bairro ( ) ( ) ( )
Supermercado convencional ( ) ( ) ( )
Supermercado atacado-varejista ( ) ( ) ( )

5.3 Onde você fazia compras de roupas quando morava na RESIDÊNCIA ANTERIOR?* [grade de
múltipla escolha]
Sempre Às vezes Nunca
Centro ( ) ( ) ( )
Feiras ( ) ( ) ( )
Lojas de bairro ( ) ( ) ( )
Shopping ( ) ( ) ( )
Internet ( ) ( ) ( )
396

5.4 Onde você passou a fazer compras de roupas depois que se mudou para a RESIDÊNCIA ATUAL?*
[grade de múltipla escolha]
Sempre Às vezes Nunca
Centro ( ) ( ) ( )
Feiras ( ) ( ) ( )
Lojas de bairro ( ) ( ) ( )
Shopping ( ) ( ) ( )
Internet ( ) ( ) ( )

5.5 Quais atividades de lazer você realizava com mais frequência quando morava na RESIDÊNCIA
ANTERIOR?* (pode marcar mais de uma opção) [caixas de seleção]

( ) Atividade física em praças e parques públicos


( ) Atividade física em academia particular
( ) Passeio em praças e parques públicos
( ) Passeio no shopping
( ) Prática de esportes em praças e parques públicos
( ) Prática de esportes em clubes ou em áreas de lazer privadas
( ) Visitas a amigos e familiares
( ) Assistir à televisão
( ) Ir a bares ou restaurantes
( ) Ir ao cinema
( ) Outra:_________________________

5.6 Quais atividades de lazer você passou a realizar com mais frequência depois que se mudou para a
RESIDÊNCIA ATUAL?* (pode marcar mais de uma opção) [caixas de seleção]

( ) Atividade física em praças e parques públicos


( ) Atividade física em academia particular
( ) Passeio em praças e parques públicos
( ) Passeio no shopping
( ) Prática de esportes em praças e parques públicos
( ) Prática de esportes em clubes ou em áreas de lazer privadas
( ) Visitas a amigos e familiares
( ) Assistir à televisão
( ) Ir a bares ou restaurantes
( ) Ir ao cinema
( ) Outra:_________________________
397

APÊNDICE E – ROTEIRO DE OBSERVAÇÃO ESTRUTURADA NÃO-


PARTICIPANTE

Residencial:

Ponto de observação:

Dia / Horário: ( ) Manhã ( ) Tarde ( ) Noite


______ /______/_________ ________ - ________ ________ - ________ ________ - ________

Questões norteadoras para anotações descritivas:

1. Quem faz? (identificação dos grupos/perfis que realizam atividades na área de estudo)
2. O que faz? (identificação das atividades realizadas pelos diferentes grupos)
3. Como faz? (formas, modos e condições em que a atividade é realizada)
4. Onde faz? (dimensão espacial: microlocal onde a atividade é realizada)
5. Quando faz? (dimensão temporal: dia, horário e frequência em que a atividade é realizada)
6. Por que faz? (dimensão subjetiva: motivações, valores e inclinações)

Questões norteadoras para anotações reflexivas:

a) Descrição da área de estudo e do local observado no dia da observação (clima, entorno...);


b) Autoanálise do pesquisador relatando o que experiencia no local da observação;
c) Relação entre o local observado e o entorno;
d) Os grupos são homogêneos ou heterogêneos em termos de idade, gênero, cor ou raça e condição
socioeconômica?
e) O número de pessoas é constante ou variável conforme o local, o dia e o horário?
f) As atividades realizadas se repetem ou variam conforme o local, o dia e o horário?
g) Os pontos de concentração pessoas são constantes ou variam conforme o dia e horário?
h) Os usos do espaço pelos diferentes grupos são integrados ou segregados?
i) As práticas realizadas são de cunho recreativo, esportivo, contemplativo ou associativo?
j) As práticas são conflitantes, complementares ou independentes? (avaliar no espaço e no tempo)
k) Há práticas espaciais diferentes daquelas pré-estabelecidas para a área de estudo?
l) Há práticas espaciais em desconformidade com as normas estabelecidas para a área de estudo?
m) As práticas espaciais realizadas no local observado, em relação ao que o espaço oferece:
(i) correspondem, (ii) adaptam, (iii) resistem, (iv) contrariam.
n) A área de estudo impõe restrições ou favorecem as práticas espaciais nela observadas?
o) O ambiente da observação é rotineiro ou foi marcado pela ocorrência de eventos singulares?
p) Há ocorrência de eventos na área de estudo que modifica os usos?

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