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Texto Da Rota 1 - Teoria Da Comunicação

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TEORIA DA COMUNICAÇÃO

AULA 1

Prof. Alexandre Correia dos Santos


CONVERSA INICIAL

Compreender os estudos diretamente nas suas fontes e origens é um


trabalho interessante à medida que conhecemos os teóricos, as correntes de
pensamentos e as principais teorias que surgiram dos debates travados dentro
das principais escolas de comunicação. Nossa principal tarefa é aprender, ainda
que linearmente, quais os ensinamentos e quem são os principais estudiosos
que deram origem aos objetos comunicacionais e que são debatidos em larga
escala até hoje, por todo o mundo.

CONTEXTUALIZANDO

Conhecer as escolas da comunicação é fazer regressar à origem dos


principais conceitos comunicacionais, dentro do seu berço, dentro das salas
centenárias das mais importantes universidades espalhadas pelo mundo. Nossa
tarefa é reconhecer o caráter evolutivo das teorias e teses, percebendo qual a
influência exercida por cada umas dessas escolas, e ainda, dando identidade e
autoria para os pais de cada um dos conceitos mais conhecidos e utilizados até
hoje pela comunicação. Procure guardar o nome de cada um desses
pesquisadores e quais suas contribuições para a área da comunicação social. É
uma tarefa gratificante pelo uso que deverão fazer dessas teorias na sua prática
cotidiana.

TEMA 1 – ESCOLA DE CHICAGO

A Escola de Chicago, pelos seus registros, foi fundada em 1892, com a


criação do Departamento de Antropologia e Sociologia em Chicago, Estados
Unidos, que tinha como objetivo principal pesquisar empiricamente – e
multidisciplinarmente – as relações sociais e seu entorno, buscando, assim, a
compreensão da vida em sociedade.
A Escola teve protagonistas na pesquisa comunicacional, grandes
teóricos que tiveram seus trabalhos mais reconhecidos entre 1910 e 1930. Estes
focaram principalmente a área de processos comunicacionais, porém, com forte
preocupação sociológica, uma vez que seus estudos apontavam para os
processos e seus efeitos sobre a população, a sociedade, mas com um viés
predominante e exclusivamente focado na cidade de Chicago (1833), situada no
estado de Illinois, Estados Unidos.
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Assim, a cidade, seus habitantes e suas relações se tornariam um
importante laboratório experimental, com suas próprias características, como a
alta taxa de crescimento e conceitos urbanísticos, mas que (como toda grande
cidade) também contava com mazelas, como as desigualdades sociais e todas
as suas consequências.
O Darwinismo, pelo seu sucesso nas ciências, foi a base dos primeiros
estudos nessa Escola, contribuindo para o desenvolvimento de uma visão
evolutiva que influenciava também práticas empíricas sobre os processos de
adaptação.
Outra forte característica da Escola de Chicago é o pragmatismo, que,
estudado primeiro na Filosofia, preconiza que a ação é a fundadora do
pensamento e, portanto, esse conceito não pode ser pensado isoladamente,
descolado dos sentimentos que conduzem as ações humanas. O pragmatismo
tem como principais pesquisadores e fundadores do conceito os filósofos
Charles Sanders Pierce, William James e John Dewey. Pierce (filósofo, 1838-
1914) é considerado o pai da semiótica e James (filósofo, 1948-1910) é
considerado o pai da filosofia norte-americana.
A linha de pesquisa da Escola de Chicago também ficou marcada pela
forte influência da sociologia, da filosofia e da antropologia (lembremos do
caráter multidisciplinar), demonstrando assim sua tendência de Escola que
buscava reunir diferentes áreas e ciências, não cabendo ou sendo razoáveis
estudos isolados sem levar em consideração sua forte capacidade de análise da
sociedade e do entorno, como fazia a igualmente descoberta Teoria da agulha
hipodérmica. Essa prática as diferenciava.
Em 1930, outros pesquisadores norte-americanos se uniram para trilhar
novas pesquisas e descobertas na área da mass comunication research, afinal,
a base de seus estudos empíricos – seu principal objetivo – também era a
pesquisa de campo ou a análise de dados concretos da sociedade em que a
instituição estivesse inserida. Assim, uma segunda grande Escola ganhou
espaço por seus estudos mais positivistas, quantitativos e instrumentais, geridos
por pesquisadores da Universidade de Colúmbia, porque seus resultados eram
mais efetivos e práticos que a Escola de Chicago.
Seu corpus (repertório de pesquisa) era a desorganização social, a
marginalidade, a aculturação, entre outras características inerentes aos terrenos
de observação praticados nos Estados Unidos. O estudo das concentrações

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urbanas e industriais fascinava os pesquisadores das diferentes correntes das
duas instituições.
A pesquisa norte-americana, como um todo, também se notabilizou pela
divisão de seus pesquisadores em grandes grupos, ou correntes, que
originaram, entre outras, importantes teses e teorias, como a Teoria Matemática
da Comunicação (ou Teoria da Informação), em que, para Wolf (1995, p. 19), a
comunicação passa a ser entendida “como um processo de transmissão de uma
mensagem por uma fonte de informação, através de um canal, a um
destinatário”, transformando a comunicação em um sistema e não mais em um
processo. Os autores dessa teoria são Claude Elwood Shannon (matemático,
1916-2001) e Warren Weaver (matemático, 1894-1978).
Essa teoria defendia que o verdadeiro problema ou razão da comunicação
é reproduzir em um ponto, de forma exata ou aproximada (sem ruídos), uma
mensagem selecionada em outro ponto. Assim, as mensagens têm um
significado e são emitidas por meio de um conjunto de mensagens possíveis.
Ainda, mais tarde, em Chicago, influenciada pelas escolas das ciências
biológicas, foram tratadas novas teses pela sua brilhante característica de
interdisciplinaridade acerca da ecologia, posteriormente tratada pela Escola
como Ecologia Humana, que visava aos estudos da segregação de grandes
grupos sociais desfavorecidos (negros, imigrantes, jovens) e sua relação com o
que chamavam de organismos sociais, direcionando as pesquisas para uma
compreensão de como essas camadas sociais eram impactadas pelas funções
da comunicação social.
Ao proporem pesquisas relacionando diferentes áreas como biologia,
sociologia e antropologia, sua aproximação com estudos focados nas pessoas,
em cidades e na comunicação de massa fizeram com que a Escola se
notabilizasse pelo abrangente escopo de análises e pesquisas.
A Teoria Funcionalista advém justamente de uma segunda parte da
Escola de Chicago, mais voltada para essas análises; assim, essa vertente tem
sua motivação diretamente nas pesquisas e nas funções exercidas e originadas
da comunicação de massa na sociedade, justamente porque os pesquisadores
abordavam hipóteses e objetos sobre a relação entre os indivíduos, a sociedade
e os meios.
Suas preocupações estavam inicialmente voltadas para o equilíbrio da
sociedade e de todos os seus componentes. Ainda, podemos identificar uma

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terceira – e não menos importante – vertente ou corrente de estudos acerca da
comunicação, que é aquela exclusivamente voltada aos estudos dos efeitos, em
que estudos que datam da década de 1920 tinham como principal característica
o lugar comum nas pesquisas. Audiências, efeitos de campanhas políticas, por
exemplo, eram encomendados aos pesquisadores para fins de otimização e
melhoria dos efeitos produzidos e alcançados. Aqui, a preocupação principal
passou a ser o sujeito.

1.1 Behaviorismo

É nessa fase que surgem estudos paralelos relacionados ao


departamento de psicologia de Chicago, os quais tem profundo impacto nos
estudos da comunicação: o behaviorismo ou estudos do comportamentalismo.
De origem nas teorias norte-americanas, o Behaviorismo, que trata dos estudos
relacionados ao comportamento do indivíduo, nega e refuta qualquer estudo que
resuma a introspecção ou a psique humana a qualquer tese que não possa ser
comprovada empiricamente.
Assim, o comportamentalismo refuta qualquer teoria que não possa ser
comprovada cientificamente. Messagi (2018, p. 33) cita como exemplo o id, o
ego, o superego, o inconsciente, o pré-consciente e o consciente, ou animus e
anima (Jung), conceitos que não são ciência (sob o ponto de vista behaviorista)
porque simplesmente não é possível observá-los diretamente, por se tratar de
tentar compreender o que acontece dentro de uma “caixa preta”. Em outras
palavras, sem o direto acesso aos sistemas, não existe a possibilidade de
compreensão do funcionamento (neste caso, da nossa mente), não favorecendo
um estudo empírico que seja comprovado cientificamente.
O pesquisador John Broadus Watson (psicólogo, 1878-1958) é
considerado o criador da Teoria do Comportamentalismo, ou como é mais
conhecida, Behaviorismo.
Como facilitador da compreensão do Comportamentalismo, basta
dizermos que todos os indivíduos têm comportamentos específicos e que isso
pode ser medido e virar dados estatísticos. Ou seja, nossos atos e ações podem
virar matéria mensurável porque, se analisados, podem virar estatística e servir
como embasamento para uma pesquisa de comportamento do consumidor, por
exemplo. Assim, essa corrente defende tudo que seja externo à mente e que
possa ser medido, aferido, contado.
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Por fim, a Escola de Chicago é um dos berços mais importantes da
comunicação porque é referência até hoje nos estudos de sociologia, filosofia e
antropologia pelas inquestionáveis contribuições para o campo científico
comunicacional.

1.2 Principais nomes da Escola de Chicago

 Harold Dwight Lasswell (sociólogo, 1902-1978): autor da Teoria da Agulha


Hipodérmica, surgida entre a Primeira e Segunda Guerra Mundial, que
apontava que a massa social era irracional, medíocre e manipulável e
que, quando exposta a estímulos da mídia, reagia tal qual a uma injeção
dada na hipoderme (subcutânea), e que reagia de forma homogênea,
individual e direta – sem falhas, sendo todos os indivíduos impactados de
uma mesma forma. Teoria também conhecida como Teoria da Bala
Mágica.
 Herbert Blumer (sociólogo, 1900-1987): foi um dos primeiros críticos da
Teoria da Agulha Hipodérmica, por acreditar que não era correto pensar
os meios de comunicação isoladamente do seu contexto social e cultural.
 George Herbert Mead (filósofo, 1863-1931): autor do interacionismo
simbólico, que, entre outros conceitos, prega que a comunicação é a
maior e melhor forma de interação social entre os sujeitos, interação esta
construída por meio de gestos significantes.
 Robert Ezra Park (sociólogo, 1864-1944): defendia que as lentes que
analisavam a cidade de Chicago, por exemplo, deveriam ser copiadas ou
baseadas nos estudos já realizados por antropólogos em tribos indígenas,
tendo como princípio os estudos de caso. Especializou-se no
comportamento humano e em suas relações no espaço urbano.
 Erving Goffman (sociólogo e antropólogo, 1922-1982): apesar de estar
muito ligado ao interacionismo proposto pela Escola de Chicago,
desenvolveu pesquisas singulares, mas influenciado pela visão
humanística, de interação e qualitativa, marcas principais de estudos da
Instituição.

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1.3 Outros nomes importantes da pesquisa norte-americana

 Claude Elwood Shannon (matemático, 1916-2001): coautor da Teoria


Matemática da Comunicação. A ele ainda são creditados o primeiro
projeto de computador digital e a criação dos circuitos digitais.
 Warren Weaver (matemático, 1894-1978): coautor da Teoria Matemática
da Comunicação.

TEMA 2 – ESCOLA DE FRANKFURT

Frankfurt fora formada essencialmente por pensadores independentes,


não necessariamente alocados na escola da comunicação alemã ou originados
dela, mas que alcançaram notoriedade por seus estudos em diversos campos
do saber, não se restringindo apenas aos fenômenos comunicacionais. Como já
falamos anteriormente, é fundamental a compreensão dos diferentes campos do
conhecimento que abarcam teorias da sociologia, da antropologia, da filosofia
etc. para a perfeita compreensão do todo.
Tais estudiosos analisaram os diversos processos civilizadores modernos
e versaram sobre eles, do histórico ao destino do indivíduo da técnica passando
por diversos campos como política, arte, literatura.
Assim, foram autores de diferentes teses acerca dos fenômenos da mídia,
da cultura, do mercado e da vida contemporânea. Desde sempre, defendiam que
os fenômenos comunicacionais não deveriam ser estudados isoladamente, mas
sim enquanto um “todo social” por se identificarem, antes de mais nada, com
mediações que precisam ser verificadas com a sociedade. Nietzsche, Marx e
Freud foram as bases ou as referências, os marcos de início de pesquisas. Marx
foi muito utilizado justamente pela sua tendência pessimista e crítica em relação
aos meios de comunicação. A maioria dos pesquisadores era da corrente
marxista.
Com base nas ideias defendidas por esses pensadores, os pesquisadores
da Escola de Frankfurt desenvolveram novas teorias, visando esclarecer as
novas realidades surgidas com o desenvolvimento do capitalismo no início do
século XX. Adorno e Horkheimer criariam juntos o conceito de indústria cultural,
propondo uma leitura mais profunda naquilo que definiram como “Dialética do
Iluminismo”. Wolf (2009) alerta que a pesquisa na área social, quando levada a

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efeito pela Teoria Crítica, é proposta justamente como tese de uma sociedade
compreendida pelo seu todo.
O objetivo principal dessas análises era justamente não fazer verificações
de partes ou setores da mídia, mas sim uma análise que englobasse os meios e
o contexto social como todo.
Para alcançar tais objetivos e intentos, os frankfurtianos defendiam a ideia
de que a dominação da técnica principalmente viria a se transformar
posteriormente na indústria cultural e, por consequência disso, se estabeleceria
a massificação da informação e do conhecimento, levando a arte, a literatura e
a cultura para o mesmo caminho, acabando assim com a força intrínseca de
cada uma dessas práticas, não perpetuando os seus próprios significados,
relegando todas as culturas a objetos de consumo.
E aí o problema não é apenas o fato de o conhecimento, a literatura e a
arte obstantes da própria figura do indivíduo, do ser humano, se tornarem um
produto de consumo. Para a Escola, a arte, a literatura e o indivíduo hoje são
criados, negociados e consumidos como bens não duráveis, descartáveis,
levando em conta princípios que antigamente eram reservados apenas para às
artes, às pessoas e aos pensamentos. Nesse caso, os maiores prejudicados são
os indivíduos, justamente porque, em todos os casos, como já previam os
frankfurtianos, os critérios econômicos sobrepujam todos os outros princípios.
Tais conclusões advêm das máximas de Marx, de onde se origina também
o conceito de indústria, visando compreender as produções culturais (que, na
visão deles, era fruto de uma grande cadeia produtiva). O indivíduo também
passou a ser manipulado como audiência até nos seus momentos de lazer e
entretenimento.
A comunicação, por exemplo, é um motor da indústria cultural –
praticamente a sua essência – desde que percebamos que, em última instância,
ferramentas contemporâneas como o marketing, por exemplo, fazem com
excelência o uso do todo das ferramentas e meios de comunicação, incentivando
o indivíduo ao consumo.
Hepp (2005) menciona que a produção de mercadorias culturais procede
de acordo com padrões, seu conteúdo derivando do mesmo modelo comum.
Assim, a ideia é mostrar que essa indústria não é formada espontaneamente
entre as massas ou a sociedade.

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Conhecidos como os primeiros marxistas de Cátedra, os pesquisadores
de Frankfurt, em 1934, precisaram realocar o Instituto de Pesquisa Social para
a Universidade de Columbia, em Nova Iorque (EUA). Isso porque o nazismo de
Hitler se espalhava fortemente na Alemanha e, aos olhos do governo, a Escola
de Frankfurt era “inimiga do Estado”. Em 1950, o Instituto encerrou
definitivamente suas atividades.

2.1 Principais nomes da Escola de Frankfurt

 Walter Benjamin (filósofo e ensaísta, 1892-1940): autor de A obra de arte


na época de sua reprodutibilidade técnica (1936), que serviu como ponto
de discussão e inflexão para as discussões correntes.
 Max Horkheimer (filósofo, 1895-1973): coautor de Dialética do
esclarecimento. Foi o autor do conceito de que ciência deveria ser
pensada como um sistema dedutivo, ou seja, uma nova teoria deveria
sempre ser derivada da experimentação de diversas formas e teses,
advindas de algumas poucas.
 Theodor Adorno (filósofo e sociólogo, 1903-1969): coautor de Dialética do
esclarecimento. Maior crítico da sociedade de mercado, na qual sua única
verdadeira razão é o progresso técnico em detrimento dos processos, da
sua criação e da arte envolvidas.
 Herbert Marcuse (psicanalista, 1898-1979): defensor e admirador da obra
de Freud, buscou sempre comprovar que o indivíduo humano está e
estará sempre em busca da solução dos seus desejos, justamente por
acreditar na satisfação dos desejos individuais das pessoas.
 Jurgen Habermas (filósofo e sociólogo, 1929): dedicou sua vida ao estudo
da democracia e às teorias do agir comunicativo.

TEMA 3 – INDÚSTRIA CULTURAL

Como vimos anteriormente, os frankfurtianos Horkheimer e Adorno


cunharam o conceito de indústria cultural, fortemente influenciados por estudos
e teses de Carl Marx. Isso se dá após inúmeros anos de análises críticas da
produção, que já defendiam como indústria de bens culturais, marcados
principalmente como movimentos globais de produção cultural, fortemente
identificados como mera mercadoria.

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Ou seja, em resumo, toda e qualquer produção (fosse ela cultural, literária,
artística) não passava de uma mercadoria, um mero produto, atingido um nível
de padronização de conceitos e formatos nunca visto anteriormente.
Na sua ótica, produtos culturais como revistas, filmes, programas, entre
outros, possuem ou ilustram uma racionalidade técnica, com esquemas
semelhantes de organização e planejamento econômicos. Por exemplo,
automóveis que são fabricados em série nas suas montadoras. Previu-se algo
para cada fim sem que ninguém pudesse escolher ou contestar. Os setores
dessa produção passam a ser uniformizados, com um ar extremamente notável
de semelhança.
Bens passam a ser padronizados, para primeiramente satisfazer às
numerosas demandas, que precisam responder às padronizações da
industrialização, nesse caso, a própria indústria cultural.
Adorno e Horkheimer (1985) já pregavam suas impressões: o terreno em
que a técnica adquire seu poder sobre a sociedade é o terreno dos que a
dominam economicamente. Nesse momento, ambos antecipavam uma clara
tendência na análise dos fenômenos culturais: a conjunção entre a arte e a
tecnologia. A reprodução da arte, por exemplo, para os autores, só tem razão de
existir no estágio literal da reprodução (no cinema, por exemplo) e não na
produção única.
O modo industrial de produção da cultura corre o risco de padronização
justamente pelos fins de rentabilidade econômica, e também, por tudo o que
vimos até aqui, pelo controle social. Assim, nas sociedades capitalistas mais
avançadas, Adorno e Horkheimer (1985) defendiam que a população passou a
ser mobilizada e, por consequência, passou a se engajar nas tarefas necessárias
para manter o sistema econômico e social por intermédio do consumo estético
massificado, sempre articulado, planejado e aplicado pela então indústria
cultural.
Para evitar uma conceituação simplista exagerada do termo “indústria
cultural”, cunhado em 1947 por Theodor Adorno, Messagi (2018) elenca mais
algumas contribuições dessa teoria para a comunicação, a saber:

a. Devemos enxergar a indústria cultural como parte do processo geral de


antidesmistificação;
b. Também como instrumento da repressão e da autorrepressão
organizada;

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c. Como agente principal da mercantilização da cultura;
d. Como técnica extra-artística, em geral, estranha à técnica intra-artística;
e. Finalmente, como causa, em última instância, do fim da autonomia
estética.

Antidesmistificação é um conceito que, em linhas gerais, impede que o


indivíduo seja incapaz de ser formado autonomamente, com seus próprios
valores e juízos, sendo, portanto, inapto a decidir conscientemente. A repressão
vem como ferramenta de acuação do indivíduo, uma vez que sua capacidade de
escolha estava limitada. A indústria cultural permitiria uma “mercantilização” de
todos os processos artísticos, uma vez que seria uma espécie de extra-artística,
fora das características inerentes ao fazer criativo ou artístico. Por fim, como
resultado de toda essa mercantilização industrial da cultura, tal prática aniquilaria
a autonomia estética e de criação dos indivíduos artistas, uma vez que estariam
fadados e condenados a produzir segundo determinada prática conceitual de
mercado padrão.
As tendências às crises de sistema ou apelos e ações individuais eram
combatidas por meio do mercantilismo da cultura, para a formação de uma
consciência prática.
Assim, o conteúdo livre, libertador, se vê completamente freado,
engessado nas suas partes. Essas vertentes, porém, viviam e experimentavam
grandes contradições à luz de suas teorias, porque muitos conflitos, crises
econômicas, angústias sociais, desde então desconhecidos pela sociedade,
foram de alguma maneira gerados pela necessidade de progresso econômico,
científico e tecnológico. Isso serviu de contraponto para as discussões mais
profundas em torno da indústria cultural, uma vez que se sabia que, para crescer,
teriam que abrir mão de alguns preceitos, teorias e teses de manipulação e
controle.
Essas contradições ainda mais fortes acabaram por definir sociedades,
conceitos sociais e culturais, ainda que beirassem à margem do que os
especialistas da época denominavam barbárie tecnológica.

TEMA 4 – ESCOLA CULTURAL BRITÂNICA

Os estudos culturais britânicos ganham força após a Segunda Guerra


Mundial, devido a uma profusão de meios de comunicação de massa, com clara

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predominância da indústria cultural representada pelos seus derivados de
cultura, indústria, democracia e arte, em que de fato o seu conhecido modo de
aplicação gerava uma gigante desigualdade social e cultural por toda a Grã-
Bretanha.
Ainda com forte herança do pensamento frankfurtiano, e com pesada
influência de teóricos como Gramsci – defensor da teoria da hegemonia –, seus
primeiros estudos focam e centralizam as atenções em como a cultura se
relacionava com a sociedade, sendo que os fenômenos sociais são abordados
por esses teóricos como conjuntos hierárquicos – porém controversos ou
antagônicos – de relações que abordam questões sociais e de sexo, raças,
etnias etc. apesar de, no princípio, não se aprofundarem em estudos que
fizessem distinção entre alta e baixa cultura, mas observando-a como um todo,
por meio das relações dessa sociedade com o Estado, com a sociedade, enfim,
com as questões socioculturais relevantes.
Depois, já sedimentada e com grande experiência, a escola britânica
passou a legitimar objetos menores, criando separações importantes que
designavam o culto e o popular, por exemplo, além de pesquisarem
profundamente o papel ativo da cultura na formação dos processos sociais, além
da sua real função e relação com o poder e a hegemonia.
Conhecida como Escola de Birmingham, dentro do Centro de Estudos da
Cultura Contemporânea Britânica (CCCS), foi marcada pelo lançamento de
obras dos seus três grandes pensadores: Raymond Willians, Richard Hoggart e
Edward Palmer Thompson.
É por intermédio das obras desses três pesquisadores que os estudos
culturais britânicos se aprofundam com orientação claramente marxista. No
entanto, tiveram nomes ainda mais representativos na sua sequência, como
Stuart Hall, que é considerado um dos maiores expoentes contemporâneos dos
estudos culturais no mundo. Assim, a pesquisa sobre Gramsci (hegemonia), a
política cultural e a cultura de massa ganham novas formas e contornos sob a
ótica dessa importante escola.
O contexto social e histórico britânico foi preponderante para alavancar os
estudos. Muito embora suas pesquisas corroborassem com métodos e teses da
Escola de Frankfurt, ambas divergiam, por exemplo, quando se tratava da
abordagem ou na forma como a indústria cultural, ainda que a serviço

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basicamente do capital, conseguia proporcionar oportunidades para a
criatividade individual e coletiva.
O próprio adjetivo “culto” que, em tese, separa a grande massa do exíguo
número de pessoas “cultas”, contribuiu para o surgimento de novos conceitos
como cultismo e cultura.
Assim, fica claro que os conceitos contribuem para a análise da produção
cultural e das mídias de forma completa, sendo o termo “cultura” o significado
central da sua formação.
Outro importante nome dos estudos britânicos é Raymond Willians,
defensor da tese de que é imprescindível a compreensão no campo do projeto
intelectual (no caso dos estudos culturais), mas principalmente entender como
isso se deu e quais os processos de formação desse projeto,
independentemente da origem (se de baixa ou alta) cultura.
O próprio conceito de cultura, defendido por Raymond Willians, preconiza
que a essa “comum ou ordinária” pode e deve ser vista como um modo de vida
em condições de igualdade de existência com o mundo das artes, literatura e
música.
Assim, os britânicos, sobretudo, defendem tanto que a alta cultura quanto
os diversos modos de baixa cultura devem ser analisados, entendendo que as
mensagens podem e devem ser interpretadas pela audiência e pelo público em
função dos seus aspectos culturais. O seu grande legado é o aprendizado de
que o estudo da cultura é a compreensão dos significados que adquirem
concretude, especialmente na experiência vivida.

4.1 Principais nomes da Escola Britânica – Escola de Birmingham

 Raymond Willians (sociólogo, 1921-1988): um dos mais importantes


pesquisadores do conceito de cultura e do seu impacto social (das
mudanças que a cultura pode causar em uma sociedade).
 Richard Hoggart (sociólogo, 1918-2014): contrário à industrialização da
cultura e pesquisador de classe, cultura, indústria e democracia, era
defensor também dos estudos relacionados com as classes trabalhadoras
e da presença disruptiva da anarquia advinda dessas classes.
 Edward Palmer Thompson (historiador, 1924-1993): foi um ferrenho
defensor da construção histórica baseada nas experiências,
principalmente das classes trabalhadoras.
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 Stuart Hall (sociólogo, 1932-2014): um dos principais estudiosos a incluir
raça e gênero nas pesquisas de cultura e reconhecido ao aceitar as
contribuições da Escola Francesa diretamente nos fenômenos
comunicacionais.

TEMA 5 – PESQUISA NA AMÉRICA LATINA

Seguindo ainda a mesma lógica da pesquisa nos Estados Unidos, por


meio da mass communication research, a qual os objetos principais de estudos
eram os impactos sociais dos meios de comunicação de massa, a pesquisa
comunicacional na América Latina, na sua grande maioria, foram originadas da
necessidade de se compreender e analisar todas as principais demandas
políticas e sociais da região.
Questões e tópicos como comunicação de massa, dominação, liberdade
de informação e resistências são os principais objetos de pesquisa do que
podemos chamar de Escola Latino-Americana de Comunicação. Questões
culturais como o próprio processo de comunicação massiva passou a ser
estudado segundo as características regionais do âmbito da escola, bem como
o desenvolvimento cultural dos países que a compõem e sua relação direta com
o capitalismo e com o mercado (expansão da televisão, do mercado publicitário,
da indústria musical latino-americana).
Em termos de marcas e registros históricos, as pesquisas ficaram
marcadas pelo caráter de extrema submissão ao sistema, mas também é
caracterizada pelos seus históricos de defesa e de luta pelos seus ideais. No
Brasil, a pesquisa no campo da Comunicação começou a ganhar forma e corpo
– além de reconhecimento – no início da década de 1990, pela qualidade de
seus pesquisadores e autores e pelo crescente desenvolvimento da indústria
midiática no país.
Porém, de forma geral, os estudos ganharam de fato notoriedade a partir
da segunda metade da década de 1980, tendo Néstor Garcia Canclini e Jesús
Martin-Barbero como seus grandes expoentes de pesquisas, ganhando
expressão mundial desde então.
Foi Martin-Barbero quem propôs que as análises e pesquisas passassem
a considerar as mediações (mais que as mídias) e que englobassem espaços de
experiência das pessoas e seus respectivos espaços e contextos sociais,
herança também da Escola de Chicago, em que compreender o indivíduo e seu
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entorno passa a ser o grande objetivo de pesquisa dessas correntes latino-
americanas.
Já Canclini se aprofunda ao versar sobre a relevância do poder do
mercado e de sua estruturação, segundo constituição e identidade local,
fortalecendo estudos de recepção com forte base e escopo no consumo cultural,
preconizando e adiantando que as mensagens e conteúdos veiculados pelos
meios eram efetivamente adaptados pela audiência ou público, contextualizados
pela sua própria realidade local.
Congressos como o IAMCR, realizado em 1988, em Barcelona, serviram
para “colocar na vitrine” pesquisadores nacionais até então pouco conhecidos,
ora pela baixa produção, ora pelos contextos históricos nacionais, como o pós-
64, quando notadamente só podiam circular pelos eventos internacionais autores
brasileiros que gozassem da simpatia dos militares.
Outro grande centro de pesquisa pioneiro na comunicação foi o Ciespal,
com sede em Quito, Equador, ou Centro Internacional de Estudos Superiores de
Periodismo para a América Latina, que surgiu com fortes tendências e influências
americanas por ter sido, na época, uma proposta de cooperação nos estudos de
mídia. Durante mais de vinte anos, o Centro foi referência para especialistas,
instituições e abrigou e sustentou importantes discussões acerca do tema.
Das mais diversas entidades existentes para a pesquisa da Comunicação,
podemos destacar: a Intercom – conhecida como a Sociedade Brasileira de
Estudos Interdisciplinares da Comunicação e considerada a organizadora dos
maiores congressos regionais e nacionais da área; a Associação Boliviana de
Investigadores da Comunicação (Aboic), que organiza há anos o Congresso
Ibero-americano de Ciências da Comunicação; a Federação Argentina de
Carreiras em Comunicação (Fadeccos); a Associação Mexicana de
Investigadores da Comunicação (Amic); e a Associação Chilena de
Investigadores da Comunicação (Acia). Podemos citar, ainda, a União Latino-
Americana de Economia Política da Informação, Comunicação e Cultura
(Ulepicc) e a Federação Latino-americana de Faculdades de Comunicação
Social (Felafacs).
Fazer parcerias com as entidades internacionais tem sido uma constante
na atuação dessas entidades, pois quanto mais informações puderem ser
trocadas, análises consolidadas e pesquisas realizadas, mais dados poderemos

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gerar para o embasamento científico dos produtos, objetos e processos
comunicacionais.
A pesquisa no Brasil, que não acompanhou – infelizmente – o crescimento
e o desenvolvimento da pesquisa em outro países latino-americanos, também
conta com bons pesquisadores brasileiros que fazem parte do desenvolvimento
desses centros citados anteriormente, contribuindo com suas pesquisas para a
ampliação das teorias e teses advindas dessa Escola: Maria Lucia Santaella
Braga, Margarida Kunsch, Maria Immacolata Vassallo Lopes, Carlos Eduardo
Lins e Silva, Cicila Peruzzo, Mauro Wilton de Souza, Luiz Gonzaga Motta, José
Marques de Melo, Marialva Barbosa e Maria Cristina Gobbi. Estes são alguns
dos nomes que figuram entre os grandes destaques brasileiros na Escola Latino-
Americana e que atualmente tem como base, aqui no Brasil, a cátedra Unesco,
sediada na Universidade Metodista de São Bernardo do Campo, que se destaca
como uma escola regional, mas que procura manter viva a memória dos estudos
desenvolvidos no Brasil.
Tais pesquisas exigem amadurecimento profissional e intelectual no
mercado e no campo acadêmico, criando um legado de investigação que pode
e deve gerar uma produção pragmática em torno dos movimentos sociais e
culturais da região, criando e possibilitando, para as nações da Escola, novos e
importantes canais de comunicação entre a sociedade e o Estado.

TROCANDO IDEIAS

O tema “escolas comunicacionais” é muito rico pela sua enorme


contribuição nos Estudos Sociais. Todas as instituições, ou a sua maioria, com
base no entorno ou na realidade social da comunidade à volta da Escola
serviram de laboratório para importantes teses e pesquisas. Com base nisso,
escolha um desses conceitos para discussão justamente para uma avaliação
mais profunda da importância da voz da sociedade, na construção dos conceitos
comunicacionais.

NA PRÁTICA

Os frankfurtianos sempre defenderam a ideia da “pasteurização” ou da


transformação em linhas produtivas de peças ou obras de arte, espetáculos,
livros, poesias, música, cinema etc., justamente pela necessidade de

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comercializar ou transformar algo cultural em um produto vendável, massificado.
Analise o cenário musical no seu estado (recorte menor que o do Brasil) e reflita
como as bandas locais e o cenário em que estão inseridas reagem a essa
massificação ou industrialização de suas obras musicais. Perceba como essas
mesmas bandas trabalham, divulgam-se, transformam suas obras em algo
conhecido do público. Veja até que ponto elas conseguem trabalhar
independentemente, sem – literalmente – se vender aos donos do mercado
musical no Brasil, à mídia, à grande audiência, ao mainstream. Ou ainda, se,
para sobreviver, precisam fazer justamente o contrário. Procure perceber a
influência da indústria cultural no cenário musical da sua cidade ou estado.

FINALIZANDO

Conhecer os principais teóricos e suas pesquisas, e suas contribuições


para o mundo comunicacional é fundamental para a construção de um bom
profissional. Memorize, realize fichamentos, resumos, de cada um desses
autores. Certamente isso será imprescindível para os seus estudos futuros.

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REFERÊNCIAS

ADORNO, T.; HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro:


Zahar, 1985.

DEUFLEUR, M. Teorias da comunicação de massa. Rio de Janeiro: Zahar,


2003.

HALL, S. Cultura, mídia e linguagem. Nova Iorque: CCCS, 1980.

_____. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: UFMG,


2003.

HOHLFELDT, A.; MARTINO, L. C.; FRANÇA, V. V. Teorias da comunicação.


Petrópolis: Vozes, 2008.

MATTERLART, A. História das teorias da comunicação. São Paulo: Loyola,


2009.

MCLUHAN, M. The medium is the message. New York: Bantam Books, 1967.

MESSAGI, M. Teorias da comunicação. Curitiba: InterSaberes, 2018.

WOLF, M. Teorias da comunicação de massa. Lisboa: Presença, 1995.

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