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Juizados Especiais Criminais: Lei 9099/95

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JUIZADOS ESPECIAIS CRIMINAIS

2ª EDIÇÃO/2023

1. INTRODUÇÃO 2
1.1. PRINCÍPIOS NORTEADORES DOS JUIZADOS ESPECIAIS CRIMINAIS 3
1.2. COMPOSIÇÃO E COMPETÊNCIA DO JUIZADO ESPECIAL CRIMINAL 6

2. DEFINIÇÃO DE CRIME DE MENOR POTENCIAL OFENSIVO 7

3. HIPÓTESES NAS QUAIS SÃO CABÍVEIS E INCABÍVEIS O PROCESSAMENTO PELO RITO SUMARÍSSIMO 11

4. MEDIDAS DESPENALIZADORAS DO JECCRIM 14


4.1. TRANSAÇÃO PENAL 14
4.2. SUSPENSÃO CONDICIONAL DO PROCESSO 18

5. PROCEDIMENTO 20
5.1. TERMO CIRCUNSTANCIADO 20
5.2. AUDIÊNCIA PRELIMINAR DE CONCILIAÇÃO 21
5.3. RITO SUMARÍSSIMO 23
5.3.1. AUDIÊNCIA DE INSTRUÇÃO E JULGAMENTO 24
5.3.2. SISTEMA RECURSAL 26
5.3.3. EXECUÇÃO 27

6. JURISPRUDÊNCIA EM TESES - SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA (Ed. 93 e 96) 27


6.1. EDIÇÃO 96 27
6.2. EDIÇÃO 93 28

1
1. INTRODUÇÃO

Inicialmente, cabe apontar que a lei dos juizados especiais tem sede Constitucional. Trata-se da

disposição do artigo 98, I, senão vejamos:

Art. 98. A União, no Distrito Federal e nos Territórios, e os Estados criarão:

I - juizados especiais, providos por juízes togados, ou togados e leigos, competentes para a conciliação, o

julgamento e a execução de causas cíveis de menor complexidade e infrações penais de menor potencial

ofensivo, mediante os procedimentos oral e sumaríssimo, permitidos, nas hipóteses previstas em lei, a

transação e o julgamento de recursos por turmas de juízes de primeiro grau;

Disposição semelhante inicia o capítulo dos juizados especiais criminais na lei 9099/95:

Art. 60. O Juizado Especial Criminal, provido por juízes togados ou togados e leigos, tem competência para a

conciliação, o julgamento e a execução das infrações penais de menor potencial ofensivo, respeitadas as

regras de conexão e continência. (Redação dada pela Lei nº 11.313, de 2006)

Parágrafo único. Na reunião de processos, perante o juízo comum ou o tribunal do júri, decorrentes da

aplicação das regras de conexão e continência, observar-se-ão os institutos da transação penal e da

composição dos danos civis. (Incluído pela Lei nº 11.313, de 2006)

🚨 JÁ CAIU
Na prova de promotor de justiça do MPE-PR (Ano: 2021 Banca: MPE-PR) foi considerada correta a seguinte

afirmação: Em conformidade com a Lei 9.099/1995 (Lei dos Juizados Especiais), no processo perante o Tribunal

do Júri, admite-se a aplicação da transação penal.

Nas palavras de Capez:

A ordem constitucional inaugurada em 1988 determinou ao legislador a classificação das infrações penais em

pequeno, médio e grande potencial ofensivo, recomendando resposta proporcionalmente mais severa aos

delitos de maior gravidade (CF, art. 5º, XLII, XLIII e XLIV). Assim, nos chamados crimes de maior potencial

ofensivo, ampliou-se a possibilidade da prisão provisória, mediante a proibição da concessão de fiança, a

obrigatoriedade do recolhimento à prisão para recorrer, a ampliação do prazo da prisão temporária e do

prazo para o encerramento da instrução em processo de réu preso, a obrigatoriedade do regime inicial

fechado para o cumprimento da pena, o maior requisito temporal para a obtenção da progressão de regime, a

proibição da anistia, graça e indulto e, em casos extremos, até mesmo a imprescritibilidade. Aliás, vale lembrar

2
que os crimes de racismo (art. 5º, XLII, da CF e Lei n. 7.716/89) e as ações de grupos armados, civis ou militares,

contra a ordem constitucional e o Estado democrático (art. 5º, XLIV, da CF e Lei n. 7.170/83), são os únicos

casos de imprescritibilidade em nosso ordenamento jurídico penal. Destaca-se que, em outubro de 2021, o

STF decidiu que ‘o crime de injúria racial configura um dos tipos penais de racismo e é imprescritível’1.

A Lei dos Juizados Especiais Criminais se aplica às infrações de menor potencial ofensivo e a lei

define este conceito através de um critério objetivo, qual seja: as contravenções penais e os crimes a que a lei

comine pena máxima não superior a 2 (dois) anos, cumulada ou não com multa.

Art. 61. Consideram-se infrações penais de menor potencial ofensivo, para os efeitos desta Lei, as

contravenções penais e os crimes a que a lei comine pena máxima não superior a 2 (dois) anos, cumulada ou

não com multa. (Redação dada pela Lei nº 11.313, de 2006)

Assim, todas as contravenções, também chamadas de crime anão ou infrações liliputianas, são

consideradas como infração de menor potencial ofensivo. Por outro lado, quanto aos crimes, deve-se observar

a pena máxima de pena privativa de liberdade, neste caso, não superior a dois anos.

Conforme aponta Diogo Luiz Victório Pureza:

Um dos objetivos foi afastar a morosidade do processo penal aos casos de menor complexidade e evitar,

sempre que possível, a aplicação de pena privativa de liberdade sobre o criminoso, evitando todos os seus

estigmas. Dessa forma, inspirada no princípio da intervenção mínima do Direito Penal, em 1995 surge a Lei

dos Juizados Especiais Criminais (Lei nº 9.099/95) com procedimento mais célere, simplificado e com a criação

de medidas despenalizadoras.2

Ademais, segundo a classificação do jurista espanhol Jesús-María Silva Sánchez, os Juizados Especiais

Criminais podem ser catalogados como integrantes do denominado “Direito Penal de Segunda Velocidade”,

tendo em vista que buscam alternativas à prisão para resposta a crimes de baixo potencial lesivo, tais como as

medidas despenalizadoras que veremos mais adiante.

1.1. PRINCÍPIOS NORTEADORES DOS JUIZADOS ESPECIAIS CRIMINAIS

A atividade no procedimento sumaríssimo se dá, nos termos do art. 62, da Lei nº 9.099/95, com

observância aos princípios da “oralidade, simplicidade, informalidade, economia processual e celeridade,

objetivando, sempre que possível, a reparação dos danos sofridos pela vítima e a aplicação de pena não

1
Capez, Fernando. Legislação penal especial. Disponível em: Minha Biblioteca, (17th edição). Editora Saraiva, 2022.
2
Pureza, Diego Luiz Victório; Garcia, Leonardo (coord.). Leis Penais Especiais - Coleção Sinopses para Concursos, vol. 04. Salvador: Juspodvim, 2021. p.
477.
3
privativa de liberdade.” Tendo em vista que a parte criminal da Lei nº 9.099/95 apresentou um novo modelo de

justiça, introduzindo os institutos da composição civil dos danos, transação penal e suspensão condicional do

processo ao nosso ordenamento, no lugar dos tradicionais princípios do processo penal, tais como

obrigatoriedade, indisponibilidade e inderrogabilidade, temos a introdução de uma nova visão, na qual

oportunidade, disponibilidade, discricionariedade e o consenso se sobrepõe à jurisdição conflitiva. Neste turno,

“o critério informativo dos Juizados Especiais Criminais reside na busca da reparação dos danos à vítima, da

conciliação civil e penal, da não aplicação de pena privativa de liberdade e na observância dos seguintes

princípios”3:

Tal princípio é de suma importância nos Juizados Especiais, sendo uma espécie de

instrumento para a realização de todos os demais princípios que norteiam o

microssistema. Através do incentivo e fortalecimento da realização dos atos de

maneira oral, o processo desenvolve-se de forma muito mais célere, sem contar
ORALIDADE
que não se declarará a nulidade de um ato que deixou de observar de forma

específica, mas atingiu sua finalidade. Ainda, os principais atos processuais serão

gravados, sendo facultado à parte fazer o mesmo; somente os essenciais são

transcritos e reduzidos a termo.

Este princípio tem estreita relação com a informalidade, pois ambos visam a

SIMPLICIDADE desburocratização do Juizado Especial. Ainda, a simplicidade é um instrumento da

informalidade.

Os atos processuais não serão cercados de rigor excessivo, de sorte que, caso

atinjam sua finalidade, não há que se cogitar em suscitação de nulidade. Exemplos:

INFORMALIDADE dispensa do relatório da sentença (art. 81, §3º), “a prática de atos processuais em

outras comarcas poderá ser solicitada por qualquer meio hábil de comunicação”

(art. 65, §2º)

Princípio-irmão da informalidade, traduz que os atos processuais devem ser


ECONOMIA
praticados no menor número possível, em curto espaço de tempo e de maneira
PROCESSUAL
menos onerosa às partes.

Tem por objetivo a rapidez na execução de atos processuais, por isso a sistemática

CELERIDADE peculiar do rito sumaríssimo, para suavizar as regras formais exigidas no Código de

Processo Penal.

FINALIDADE E “para que os atos processuais sejam invalidados, necessária se faz a prova do

3
Capez, Fernando. Legislação penal especial. Disponível em: Minha Biblioteca, (17th edição). Editora Saraiva, 2022.
4
PREJUÍZO prejuízo. Isso significa dizer que não vigora no âmbito dos Juizados Criminais o

sistema de nulidades absolutas do Código de Processo Penal, segundo o qual

nessas circunstâncias o prejuízo é presumido. Atingida a finalidade a que se

destinava o ato, bem como não demonstrada qualquer espécie de prejuízo, não há

falar em nulidade.”4

🚩 APROFUNDAMENTO PARA PROVAS DISCURSIVAS E ORAIS


A crise que atingiu a administração da justiça e que gerou o debate pela necessidade de efetividade do

processo, abriu debate para dois temas: A DEFORMALIZAÇÃO E A DELEGALIZAÇÃO.

A DEFORMALIZAÇÃO possui dupla faceta: (i) veicula a necessidade de um processo mais simplificado,

efetivo, econômico e de fácil acesso, é dizer: busca dar uma solução rápida e efetiva aos conflitos. Ligados a esta

faceta podemos apontar todos os princípios orientadores do JECRIM: oralidade, simplicidade, informalidade,

economia processual e celeridade; (ii) veicula a necessidade de deformalização das controvérsias com a busca

de equivalentes jurisdicionais, de vias alternativas ao processo e da busca por evitar o processo através de

instrumentos de mediação. Ligados a esta faceta estão os institutos da transação penal, composição dos danos

civis e audiência preliminar, todos presentes na Lei do JECRIM.

A DELEGALIZAÇÃO, por seu turno, subtrai a solução legal, busca submeter determinados conflitos a um

juízo de equidade.

A deformalização e a delegalização são finalidades da 9099/95 e o resultado disto é a busca por um

modelo de justiça consensual.

Ainda no que diz respeito aos objetivos do Juizado Especial Criminal, vamos lembrar que há a finalidade

de não aplicação da pena privativa de liberdade. Este objetivo é traduzido pela doutrina através do fenômeno

da DESPENALIZAÇÃO, chamada por Rogério Greco de DESCARCERIZAÇÃO. Por este fenômeno, apesar de haver

infração penal, a pena aplicada não será a pena privativa de liberdade. São medidas que buscam a

despenalização: a representação, a composição dos danos civis, a transação penal e a suspensão condicional do

processo. Todas as medidas mencionadas têm como finalidade evitar o processo.

⚠️ ATENÇÃO
Não se deve confundir despenalização, descriminalização e legalização. Na despenalização a conduta é

criminosa, mas a pena não será privativa de liberdade. Na descriminalização, a conduta deixa de ser infração

penal e passa a ser infração civil, como é o caso do adultério, que era considerado crime, mas que hoje se

restringe a uma hipótese de violação dos deveres do casamento. E, por fim, na legalização a conduta não é

infração penal nem infração civil – trata-se de conduta conformada à ordem jurídica.

4
Capez, Fernando. Legislação penal especial. Disponível em: Minha Biblioteca, (17th edição). Editora Saraiva, 2022.
5
1.2. COMPOSIÇÃO E COMPETÊNCIA DO JUIZADO ESPECIAL CRIMINAL

Nos termos do art. 60, da Lei nº 9.099/95:

Art. 60. O Juizado Especial Criminal, provido por juízes togados ou togados e leigos, tem competência para a

conciliação, o julgamento e a execução das infrações penais de menor potencial ofensivo, respeitadas as

regras de conexão e continência.

Parágrafo único. Na reunião de processos, perante o juízo comum ou o tribunal do júri, decorrentes da

aplicação das regras de conexão e continência, observar-se-ão os institutos da transação penal e da

composição dos danos civis.

Juízes togados são os magistrados de carreira, aqueles que ingressaram no Poder Judiciário através de

concurso público de provas e títulos, promovido pelo Tribunal de Justiça do Estado, Distrito Federal ou Tribunal

Regional Federal. Os juízes leigos, por sua vez, serão aqueles escolhidos por procedimento simplificado de

contratação, que será regulado de acordo com a Lei de Organização Judiciária da localidade. Ainda, no caso

específico do Juizado Especial Criminal, os juízes leigos poderão atuar unicamente na etapa de conciliação entre

a vítima e o autor do fato criminoso. Quanto ao ponto, veja-se o art. 73 da Lei dos Juizados:

Art. 73. A conciliação será conduzida pelo Juiz ou por conciliador sob sua orientação.

Parágrafo único. Os conciliadores são auxiliares da Justiça, recrutados, na forma da lei local, preferentemente

entre bacharéis em Direito, excluídos os que exerçam funções na administração da Justiça Criminal.

Indo adiante, conforme disposto na parte final do caput do art. 60, o Juizado Especial Criminal será

competente para promover a conciliação, o julgamento e a execução de infrações de menor potencial ofensivo,

respeitadas as regras de conexão e continência. No que diz respeito à definição de “menor potencial ofensivo”,

trata-se de matéria que estudaremos no próximo tópico; aqui, buscaremos explorar as regras para fixação da

competência do Juizado Especial.

Em primeiro lugar, destaca-se que a Lei nº 9.099/95, diferentemente do que ocorre no CPP, adotou

como critério de ratione loci o local da ocorrência da infração, onde este foi praticado, e não do implemento do

seu resultado:

Art. 63. [TEORIA DA ATIVIDADE] A competência do Juizado será determinada pelo lugar em que foi

praticada a infração penal.

6
Portanto, não confundir:

COMPETÊNCIA EM RAZÃO DO LUGAR DO CRIME (“RATIONE LOCI”)

NO JUIZADO ESPECIAL CRIMINAL Local da ocorrência da prática delitiva

(art. 62) - Teoria da Atividade -

NO CÓDIGO DE PROCESSO PENAL Local da implementação do resultado

(art. 70) - Teoria do Resultado -

Segundo a classificação da competência em razão da matéria (ratione materiae), trata-se o Juizado

Especial Criminal competente para o julgamento de infrações penais classificadas como de menor potencial

ofensivo.

Ainda, observar as causas de modificação da competência:

(i) Impossibilidade de citação pessoal daquele apontado como autor do fato: nos termos do

parágrafo único do art. 66, da Lei nº 9.099/95, “não encontrado o acusado para ser citado, o Juiz encaminhará as

peças existentes ao Juízo comum para adoção do procedimento previsto em lei.” A ratio essendi da regra diz

respeito com os contornos que o princípio da celeridade processual ganha nos Juizados Especiais; não sendo

localizado o autor do fato, a citação deverá ser promovida por outros meios, tal qual a citação por edital, que

não se coaduna com o rito sumaríssimo. Da mesma forma, caso o oficial de justiça desconfie que o agressor

esteja se ocultando para não receber a citação, deverá promover a citação por hora certa, com a respectiva

desclassificação do feito para uma Vara de rito comum ordinário, tendo em vista que este procedimento

também é incompatível com os Juizados Especiais;

(ii) Complexidade da causa: diz o art. 77, §2º, da Lei nº 9.099/95: “Se a complexidade ou

circunstâncias do caso não permitirem a formulação da denúncia, o Ministério Público poderá requerer ao Juiz

o encaminhamento das peças existentes, na forma do parágrafo único do art. 66 desta Lei.” Ou seja, se a lide

apresentada for muito complexa, não será compatível com os princípios do art. 62, de modo que também

haverá o encaminhamento para vara comum.

2. DEFINIÇÃO DE CRIME DE MENOR POTENCIAL OFENSIVO

Conforme nos ensina o professor Fernando Capez5:

“São consideradas infrações de menor potencial ofensivo e, por essa razão, estão submetidas ao

5
Capez, Fernando. Legislação penal especial. Disponível em: Minha Biblioteca, (17th edição). Editora Saraiva, 2022.
7
procedimento dos Juizados Especiais Criminais, tanto da Justiça Comum estadual quanto da Justiça Federal:

(i) todas as contravenções penais, qualquer que seja o procedimento previsto;

(ii) os crimes a que a lei comine pena máxima igual ou inferior a 2 anos de reclusão ou detenção, qualquer que

seja o procedimento previsto;

(iii) os crimes a que a lei comine exclusivamente pena de multa, qualquer que seja o procedimento previsto.

Com o advento da Lei n. 11.313, de 28 de junho de 2006, o art. 61 da Lei n. 9.099/95 passou a prever

expressamente que se consideram infrações de menor potencial ofensivo as contravenções penais e os crimes

a que a lei comine pena máxima não superior a 2 (dois) anos, cumulada ou não com multa.”

Abaixo segue uma tabela para facilitar na memorização:

CRIMES DE MENOR POTENCIAL OFENSIVO

■ Todas as contravenções penais previstas no Decreto-Lei nº 3.688/1941 - Lei das Contravenções Penais;

■ Os crimes a que a lei comine pena máxima igual ou inferior a 2 anos de reclusão ou detenção,

independentemente do procedimento previsto;

■ Os crimes a que a lei comine exclusivamente pena de multa (da mesma forma que na hipótese anterior,

independentemente do procedimento previsto).

Quando estamos diante de apenas um crime isolado, não há maior dificuldade na identificação da

competência do Juizado Especial Criminal em virtude da pena abstratamente prevista. Porém, quando

estivermos diante de concurso de crimes (seja formal ou material), causas de aumento ou de diminuição de

pena e de qualificadoras e privilegiadoras, vamos aplicar a denominada teoria da pior das hipóteses.

Segundo Diego Luiz Victório Pureza6:

“Segundo a mencionada teoria, as penas máximas deverão ser somadas (concurso material), ou exasperadas

(concurso formal e crime continuado). Na hipótese de exasperação - ou qualquer outra causa de aumento de

pena -, sempre será aplicada a maior fração. Na hipótese de causa de diminuição, adota-se a pena máxima do

crime, reduzindo-a da fração mínima. A finalidade é verificar se mesmo na pior das hipóteses o patamar

máximo da pena privativa de liberdade não ultrapassará os 2 (dois) anos. Se do resultado final a pena

máxima alcançar patamar superior aos 2 (dois) anos não será cabível o procedimento sumaríssimo e

demais institutos benéficos aplicáveis às infrações penais de menor potencial ofensivo, aplicando-se o

procedimento comum sumário, ordinário ou mesmo procedimento especial, conforme o caso.”

(Grifou-se)

6
Pureza, Diego Luiz Victório; Garcia, Leonardo (coord.). Leis Penais Especiais - Coleção Sinopses para Concursos, vol. 04. Salvador: Juspodvim, 2021. p.
479.
8
Em consonância com o acima estudado, vejamos ementa de acórdão proferido pelo Superior Tribunal

de Justiça em sede de Reclamação:

PROCESSUAL PENAL E PENAL. RECLAMAÇÃO CONTRA ACÓRDÃO PROLATADO POR TURMA RECURSAL

ESTADUAL. RESOLUÇÃO N. 12/2009 - STJ. CONCURSO MATERIAL DE INFRAÇÕES DE MENOR POTENCIAL

OFENSIVO. SOMA DAS PENAS SUPERIOR A DOIS ANOS. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA COMUM.

1. A Reclamação na hipótese prevista na Resolução n. 12/2009 do Superior Tribunal de Justiça somente

autoriza o ajuizamento do incidente para "dirimir divergência entre acórdão prolatado por turma recursal

estadual e a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, suas súmulas ou orientações decorrentes do

julgamento de recursos especiais processados na forma do art. 543-C do Código de Processo Civil."

2. Pacificou-se a jurisprudência desta Corte no sentido de que, no concurso de infrações de menor potencial

ofensivo, a pena considerada para fins de fixação da competência do Juizado Especial Criminal será o

resultado da soma, no caso de concurso material, ou da exasperação, na hipótese de concurso formal ou

crime continuado, das penas máximas cominadas aos delitos. Se desse somatório resultar um apenamento

superior a 02 (dois) anos, fica afastada a competência do Juizado Especial. Precedentes.

3. Hipótese em que Turma Recursal estadual manteve sentença que condenou o ora reclamante à pena

privativa de liberdade de 02 (dois) anos, 07 (sete) meses e 10 (dez) dias de reclusão, em regime semiaberto,

por infração ao que dispõem os artigos 329 (resistência) e 331 (desacato), ambos do Código Penal, assim como

à pena de advertência por infração ao artigo 28 da Lei 11.343/06.

4. Reclamação julgada procedente, para reconhecer a nulidade da decisão reclamada, ante a

incompetência do Juizado Especial Criminal para o julgamento de infrações de menor potencial

ofensivo imputadas ao ora reclamante, determinando-se a redistribuição do feito a uma das varas

criminais da Comarca de Araraquara/SP, para seu regular processamento. (Rcl n. 27.315/SP, relator

Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Terceira Seção, julgado em 9/12/2015, DJe de 15/12/2015.) (Grifou-se)

Além da hipótese na qual a pena máxima abstratamente cominada ultrapassar o limite de 02 anos

estipulado pelo legislador para processamento no rito sumaríssimo, há também que se ter atenção para as

hipóteses de conexão e continência de um crime de competência do JECCRIM, com outro de procedimento

comum ordinário ou até mesmo procedimento especial. Exemplo: “A” que comete o crime de maus-tratos

contra seu pai, mata “B”, seu vizinho, para assegurar a ocultação do primeiro crime, tendo em vista que a vítima

presenciou um ato de violência. Nesta hipótese, haverá cisão processual, sendo o crime de maus-tratos

processado no Juizado Especial Criminal, e o crime de homicídio frente ao Tribunal do Júri, ou ambos serão

processados neste último procedimento? Atualmente, temos o seguinte cenário processual: “(i) uma vez

praticada uma infração de menor potencial ofensivo, a competência será do Juizado Especial Criminal. Se, no

entanto, com a infração de menor potencial ofensivo, houverem sido praticados outros crimes, em conexão ou

continência, deverão ser observadas as regras do art. 78 do CPP, para saber qual o juízo competente; (ii) caso,

em virtude da aplicação das regras do art. 78 do CPP, venha a ser estabelecida a competência do juízo comum

ou do tribunal do júri para julgar também a infração de menor potencial ofensivo, afastando, portanto, o

9
procedimento sumaríssimo da Lei n. 9.099/95, isso não impedirá a aplicação dos institutos da transação penal e

da composição dos danos civis. Tal ressalva da lei visou garantir os institutos assegurados constitucionalmente

ao acusado, contidos no art. 98, I, da CF.”7

Ou seja, sempre que for necessário o processamento de crime cuja competência seria do Juizado

Especial Criminal, deve-se observar, sempre que possível, a aplicação das medidas despenalizadoras

da transação penal e composição dos danos civis.

Inclusive, o Supremo Tribunal Federal já decidiu pela competência relativa dos Juizados Especiais

Criminais, de modo que quando for necessária, haverá a declinação da competência dos crimes de menor

potencial ofensivo para outro juízo, respeitadas as regras de conexão e continência previstas no Código de

Processo Penal. Vejamos:

AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. CONSTITUCIONAL. PROCESSO PENAL. ARTS. 1º E 2º DA LEI N.

11.313/2006. ALTERAÇÕES NO CAPUT E NO PARÁGRAFO ÚNICO DO ART. 60 DA LEI N. 9.099/1995 E NO ART. 2º

DA LEI N. 10.259/2001. COMPETÊNCIA DOS JUIZADOS ESPECIAIS CRIMINAIS. INCIDÊNCIA DAS REGRAS

PROCESSUAIS DE CONEXÃO E CONTINÊNCIA. VIGÊNCIA DE OUTRAS PREVISÕES LEGAIS DE

DESLOCAMENTO DE COMPETÊNCIA DO JUIZADO ESPECIAL CRIMINAL. GARANTIA DE APLICAÇÃO DOS

INSTITUTOS DA TRANSAÇÃO PENAL E DA COMPOSIÇÃO CIVIL DOS DANOS NO JUÍZO COMUM. AÇÃO

DIRETA JULGADA IMPROCEDENTE. 1. É relativa a competência dos Juizados Especiais Criminais, pela qual

se admite o deslocamento da competência, por regras de conexão ou continência, para o Juízo Comum

ou Tribunal do Júri, no concurso de infrações penais de menor potencial ofensivo e comum. 2. Os

institutos despenalizadores previstos na Lei n. 9.099/1995 constituem garantia individual do acusado e

têm de ser assegurados, quando cabíveis, independente do juízo no qual tramitam os processos. 3. No §

2º do art. 77 e no parágrafo único do art. 66 da Lei n. 9.099/1995, normas não impugnadas, também se

estabelecem hipóteses que resultam na modificação da competência do Juizado Especial para o Juízo

Comum. Ação direta julgada improcedente. (ADI 5264, Relator(a): CÁRMEN LÚCIA, Tribunal Pleno, julgado em

07/12/2020, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-021 DIVULG 03-02-2021 PUBLIC 04-02-2021) (Grifou-se)

Para finalizar, mencionamos que a Lei nº 10.259/2001 também traz menção ao Juizado Especial

Criminal no âmbito da Justiça Federal, a saber:

Art. 2º Compete ao Juizado Especial Federal Criminal processar e julgar os feitos de competência da Justiça

Federal relativos às infrações de menor potencial ofensivo, respeitadas as regras de conexão e continência.

Parágrafo único. Na reunião de processos, perante o juízo comum ou o tribunal do júri, decorrente da

aplicação das regras de conexão e continência, observar-se-ão os institutos da transação penal e da

7
Capez, Fernando. Legislação penal especial. Disponível em: Minha Biblioteca, (17th edição). Editora Saraiva, 2022.
10
composição dos danos civis.

Trata-se do único dispositivo mais expressivo da Lei do Juizado Especial Federal, de modo que todas

as regras que estudaremos quanto à Lei nº 9.099/95 também serão aplicáveis ao procedimento sumaríssimo

nas causas cujo bem jurídico atingido for da União ou de suas autarquias e fundações públicas.

3. HIPÓTESES NAS QUAIS SÃO CABÍVEIS E INCABÍVEIS O PROCESSAMENTO PELO RITO


SUMARÍSSIMO

Já sabemos que é da competência do Juizado Especial Criminal a conciliação e, caso inexitosa, o

processo e julgamento de (i) todas as contravenções penais e (ii) crimes cuja pena máxima seja de até dois

anos ou que tenha como pena exclusivamente a condenação ao pagamento de multa. Quanto a esta segunda

hipótese, portanto, todos os crimes constantes na Parte Especial do Código Penal que se enquadrem nessa

categoria serão processados sob o rito da Lei nº 9.099/95. Exemplos: crimes contra a honra cometidos contra

pessoa particular, crime de peculato, crime de ameaça.

Porém, não podemos esquecer que há inúmeros outros crimes previstos em legislação penal

extravagante, que também podem ser processados sob o rito da Lei nº 9.099/95, ainda que ausente na

Comarca vara especializada. Abaixo seguem algumas hipóteses:

Por expressa disposição legal, a conduta é passível de processamento no rito

sumaríssimo do Juizado Especial Criminal (art. 48, §1º). Ainda, “ não se imporá

prisão em flagrante, devendo o autor do fato ser imediatamente encaminhado

POSSE DE DROGAS PARA ao juízo competente ou, na falta deste, assumir o compromisso de a ele

O CONSUMO PESSOAL comparecer, lavrando-se termo circunstanciado e providenciando-se as

(ART. 28, DA LEI Nº requisições dos exames e perícias necessários.” (art. 48, §2º). Este dispositivo já

11.343/2006) foi objeto de Ação Direta de Inconstitucionalidade junto ao Supremo Tribunal

Federal, que entendeu pela constitucionalidade do artigo, visto que o objetivo do

legislador é confrontar o usuário de drogas o mínimo possível com o ambiente

policial.

Vejamos o julgado:

AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. § 3º DO ART. 48 DA LEI N. 11.343/2006. PROCESSAMENTO DO

CRIME PREVISTO NO ART. 28 DA LEI N. 11.343/2006. ATRIBUIÇÃO À AUTORIDADE JUDICIAL DE LAVRATURA DE

TERMO CIRCUNSTANCIADO E REQUISIÇÃO DOS EXAMES E PERÍCIAS NECESSÁRIOS. CONSTITUCIONALIDADE.

INEXISTÊNCIA DE ATO DE INVESTIGAÇÃO. INOCORRÊNCIA DE ATRIBUIÇÃO DE FUNÇÃO DE POLÍCIA JUDICIÁRIA


11
AO PODER JUDICIÁRIO. AÇÃO DIRETA JULGADA IMPROCEDENTE. (ADI 3807, Relator(a): CÁRMEN LÚCIA, Tribunal

Pleno, julgado em 29/06/2020, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-201 DIVULG 12-08-2020 PUBLIC 13-08-2020)

Segundo o art. 94, da Lei nº 10.741/2003, “aos crimes previstos nesta Lei, cuja

pena máxima privativa de liberdade não ultrapasse 4 (quatro) anos, aplica-se

o procedimento previsto na Lei nº 9.099, de 26 de setembro de 1995, e,

subsidiariamente, no que couber, as disposições do Código Penal e do Código

de Processo Penal”. Ou seja, atenção: quando o crime estiver previsto no

Estatuto do Idoso, a pena máxima cominada abstratamente será de 04 anos,

e não de 02 anos, tal qual é a regra geral. E o segundo ponto, que merece

atenção redobrada, se trata do entendimento do Supremo Tribunal Federal

no sentido de que as medidas despenalizadoras constantes na Lei nº 9.099/95

não são aplicáveis aqui:

AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. ARTIGOS 39 E 94 DA LEI 10.741/2003

(ESTATUTO DO IDOSO). RESTRIÇÃO À GRATUIDADE DO TRANSPORTE COLETIVO.


CRIMES COMETIDO
SERVIÇOS DE TRANSPORTE SELETIVOS E ESPECIAIS. APLICABILIDADE DOS
CONTRA O IDOSO
PROCEDIMENTOS PREVISTOS NA LEI 9.099/1995 AOS CRIMES COMETIDOS

CONTRA IDOSOS. 1. No julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade

3.768/DF, o Supremo Tribunal Federal julgou constitucional o art. 39 da Lei

10.741/2003. Não conhecimento da ação direta de inconstitucionalidade nessa

parte. 2. Art. 94 da Lei n. 10.741/2003: interpretação conforme à Constituição

do Brasil, com redução de texto, para suprimir a expressão "do Código Penal

e". Aplicação apenas do procedimento sumaríssimo previsto na Lei n.

9.099/95: benefício do idoso com a celeridade processual. Impossibilidade de

aplicação de quaisquer medidas despenalizadoras e de interpretação

benéfica ao autor do crime. 3. Ação direta de inconstitucionalidade julgada

parcialmente procedente para dar interpretação conforme à Constituição do

Brasil, com redução de texto, ao art. 94 da Lei n. 10.741/2003. (ADI 3096,

Relator(a): CÁRMEN LÚCIA, Tribunal Pleno, julgado em 16/06/2010, DJe-164

DIVULG 02-09-2010 PUBLIC 03-09-2010 EMENT VOL-02413-02 PP-00358 RTJ

VOL-00216-01 PP-00204)

“o Tribunal Superior Eleitoral já decidiu no sentido de que ‘as infrações penais

definidas no Código Eleitoral obedecem ao disposto nos seus arts. 355 e


CRIMES ELEITORAIS seguintes e o seu processo é especial, não podendo, via de consequência, ser

da competência dos Juizados Especiais a sua apuração e julgamento (...)’.

Entretanto, o mesmo Tribunal admite incidência dos institutos da transação

12
penal e do sursis processual, ‘salvo para os crimes que contam com um

sistema punitivo especial, entre aqueles a cuja pena privativa de liberdade se

acumula a cassação do registro se o responsável for candidato, a exemplo do

tipificado no art. 334 do Código Eleitoral” (TSE, PAd 18.956/DF).’”8

Se forem classificados como crimes de menor potencial ofensivo, muito

embora não tramitem no Juizado Especial Criminal, neles poderão ser

aplicadas as medidas despenalizadoras da Lei nº 9.099/95.


CRIMES DE COMPETÊNCIA

ORIGINÁRIA DOS
⚠️ ATENÇÃO: para o art. 88, da Lei nº 9.099/95: “além das hipóteses do

Código Penal e da legislação especial, dependerá de representação a ação


TRIBUNAIS
penal relativa aos crimes de lesões corporais leves e lesões culposas.” Ou seja,

tais delitos são de competência do JECCRIM, desde que preenchido o requisito

de procedibilidade.

Ainda, é imperioso saber em quais hipóteses não é possível a incidência das medidas previstas no

procedimento sumaríssimo, seja por expressa previsão legal, ou por entendimento dos Tribunais Superiores.

Vejamos:

O art. 90-A, da Lei nº 9.099/95, afirma categoricamente que “as disposições


CRIMES MILITARES
desta Lei não se aplicam no âmbito da Justiça Militar.”

Muito embora sejam processados perante os Juizados Especiais, estes

autores do fato não terão direito à transação penal e à suspensão

condicional do processo.

CRIMES COMETIDOS POR ⚠️ CUIDADO: Súmula nº 243, do Superior Tribunal de Justiça: o benefício
PESSOAS REINCIDENTES da suspensão do processo não é aplicável em relação às infrações penais

cometidas em concurso material, concurso formal ou continuidade delitiva,

quando a pena mínima cominada, seja pelo somatório, seja pela incidência

da majorante, ultrapassar o limite de um (01) ano.

Nos termos do art. 41, da Lei nº 11.340/2006, “aos crimes praticados com
LESÃO CORPORAL DOLOSA violência doméstica e familiar contra a mulher, independentemente da pena
LEVE QUALIFICADA PELA prevista, não se aplica a Lei nº 9.099, de 26 de setembro de 1995.” Sob a
VIOLÊNCIA DOMÉSTICA inteligência da Súmula 536, do STJ, entende-se que “a suspensão condicional

do processo e a transação penal não se aplicam na hipótese de delitos

8
Capez, Fernando. Legislação penal especial. Disponível em: Minha Biblioteca, (17th edição). Editora Saraiva, 2022.
13
sujeitos ao rito da Lei Maria da Penha”.

4. MEDIDAS DESPENALIZADORAS DO JECCRIM

Conforme já dispomos na introdução deste Resumo Destacado, o Juizado Especial Criminal trata-se de

exemplo de Direito Penal de 2ª Velocidade, na classificação do jurista espanhol Jesús-Maria Silva Sanchez. O

professor nos ensina:

Uma primeira velocidade, representada pelo Direito Penal ‘da prisão’, na qual haver-se-iam de manter

rigidamente os princípios político-criminais clássicos, as regras de imputação e os princípios processuais; e

uma segunda velocidade, para os casos em que que, por não se tratar já de prisão, senão de penas de

privação de direitos ou pecuniárias, aqueles princípios e regras poderiam experimentar uma flexibilização

proporcional à menor intensidade da sanção.9

Veja-se que a “flexibilização” dita pelo autor não se trata de exclusão da competência do Poder

Judiciário de apreciar condutas que lesam bem jurídicos eleitos pelo legislador para ficar sob o manto de

proteção do Estado. Muito pelo contrário: o que se propõe é a legitimação do Estado para promover medidas

que coloquem a vítima e seus desejos no centro da discussão, assim como a ressocialização do indivíduo que,

por mais que não tenha cometido nenhum crime grave, deve responder pelo ato que cometeu.

Dessa forma, estudaremos a seguir os dois principais institutos que visam alternativas à prisão e que

foram introduzidos no nosso ordenamento pela Lei nº 9.099/95, a saber:

■ Transação Penal;

■ Suspensão Condicional do Processo.

Vejamos os principais aspectos de cada um deles.

4.1. TRANSAÇÃO PENAL

O instituto da transação penal tem natureza de acordo, firmado com a anuência do Ministério Público

(na figura estatal) e do autor do fato - que deve assentir com seus termos e ter ciência das suas implicações -

sempre acompanhado de procurador, que representa a assistência técnica, indispensável em alguns

(senão em todos) atos do processo penal. Assevera o art. 76, da Lei nº 9.099/95:

Art. 76. [TRANSAÇÃO PENAL] Havendo representação ou tratando-se de crime de ação penal pública

9
SILVA SANCHÉZ, Jesús-Maria. A expansão do direito penal: aspectos da política criminal nas sociedades pós-industriais. Trad. Luiz Otávio de Oliveira
Rocha. São Paulo: RT, 2002, p. 145.
14
incondicionada, não sendo caso de arquivamento, o Ministério Público poderá propor a aplicação

imediata de pena restritiva de direitos ou multas, a ser especificada na proposta

§ 1º Nas hipóteses de ser a pena de multa a única aplicável, o Juiz poderá reduzi-la até a metade.

§ 2º Não se admitirá a proposta se ficar comprovado:

I - ter sido o autor da infração condenado, pela prática de crime, à pena privativa de liberdade (PPL), por

sentença definitiva;

II - ter sido o agente beneficiado anteriormente, no prazo de 5 anos, pela aplicação de pena restritiva ou

multa, nos termos deste artigo;

III - não indicarem os antecedentes, a conduta social e a personalidade do agente, bem como os motivos

e as circunstâncias, ser necessária e suficiente a adoção da medida.

§ 3º Aceita a proposta pelo autor da infração e seu defensor, será submetida à apreciação do Juiz.

§ 4º Acolhendo a proposta do Ministério Público aceita pelo autor da infração, o Juiz aplicará a pena restritiva

de direitos ou multa, que NÃO IMPORTARÁ EM REINCIDÊNCIA, sendo registrada apenas para impedir

novamente o mesmo benefício no prazo de 5 anos.

§ 5º Da sentença prevista no parágrafo anterior caberá a apelação referida no art. 82 desta Lei.

§ 6º A imposição da sanção de que trata o § 4º deste artigo não constará de certidão de antecedentes

criminais, salvo para os fins previstos no mesmo dispositivo, e NÃO TERÁ EFEITOS CIVIS, cabendo aos

interessados propor ação cabível no juízo cível.

🚨 ATENÇÃO
O parágrafo 5º deste artigo: diferente da primeira medida despenalizadora, a composição civil dos

danos, a sentença que homologa a transação penal não é irrecorrível.

Primeiramente, cumpre asseverar que a medida despenalizadora deve ser oferecida pelo Ministério

Público antes do recebimento da denúncia ou da queixa. De acordo com o dispositivo transcrito, podemos

compreender que os requisitos que admitem o oferecimento da transação penal são:

a. Em caso de ação penal privada, haver representação pela vítima para o processamento do

feito, e, nas ações penais públicas incondicionadas, não ser caso de arquivamento;

🚨 JÁ CAIU
Na prova de promotor de justiça do MPE-RJ (Ano: 2022 Banca: MPE-RJ) foi considerada incorreta a seguinte

afirmação: O instituto da transação penal, previsto no art. 76, da Lei nº 9.099/95, não se aplica às ações penais

privadas, sendo previsto apenas para as ações penais públicas, condicionadas ou não à representação.

b. Não ter sido o autor do fato condenado, em sentença definitiva, pela prática de crime com pena

15
privativa de liberdade;

c. Que o agente tenha seus antecedentes, conduta social, personalidade e motivos e

circunstâncias indicando que a medida é suficiente e necessária para a reparação do dano e

resposta estatal.

⚠️ ATENÇÃO
“Nos crimes de ação penal pública condicionada e nos delitos de ação penal privada a fase

procedimental relativa à transação penal somente é alcançada se não houver prévia composição dos danos

cíveis. Isto porque, diversamente do que ocorre em relação aos crimes de ação penal pública incondicionada,

naqueles casos a composição civil implica renúncia ao direito de representação e de queixa, acarretando, por

consequência, a extinção do procedimento.”10

Continuando, conforme se infere do §3º do art. 76, tanto o autor do fato quanto seu procurador

devem aceitar a proposta de transação penal. Caso haja divergência entre eles, o que fazer? Há duas correntes

que disputam o tema na doutrina:

■ 1ª corrente: “há quem diga que deve prevalecer a opinião do advogado, já que este, mais do que o

réu, tem condições de antever a solução jurídica que melhor o aproveita. Defendem, ainda, para subsidiar tal

entendimento, a interpretação analógica da Súmula 705 do STF, dizendo que ‘a renúncia do réu ao direito de

apelação, manifestada sem a assistência do defensor, não impede o conhecimento da apelação por este

interposta’”.11

■ 2ª corrente: “se o autor do fato aceitar ou recusar a proposta de transação penal, esta deve ser a

vontade prevalente, e não a de seu advogado, cujo papel na audiência preliminar deve ser, simplesmente, o de

dar assistência jurídica ao seu patrocinado, orientando-o quanto à melhor solução para o desiderato da

demanda, mas não lhe impondo este ou aquele comportamento.”12

Há inúmeras decisões que reputam não ser a transação penal um direito subjetivo do réu; ou seja,

caso o Ministério Público não ofereça proposta, não há como o juiz interferir na decisão, pois se trata de

discricionariedade do Parquet.

Sendo aceita a transação penal, o acordo vai para o juiz, que poderá homologá-lo (cabendo recurso de

apelação dessa decisão), ou não, “caso entenda ausentes tais pressupostos ou inadequados os termos e

condições da proposta ao caso concreto (art. 76, § 3.º). Se, aceita a proposta pelo autor do fato, for ela

homologada pelo juiz, este aplicará a pena restritiva ou a multa estabelecidas na transação. Note-se que o

pronunciamento judicial quanto à homologação ou não do acordo deve ocorrer imediatamente após o

oferecimento da proposta, sendo defeso ao juiz condicionar a homologação do acordo ao seu efetivo

cumprimento.”13

10
Avena, Norberto. Processo Penal. Disponível em: Minha Biblioteca, (14th edição). Grupo GEN, 2022.
11
Avena, Norberto. Processo Penal. Disponível em: Minha Biblioteca, (14th edição). Grupo GEN, 2022.
12
Avena, Norberto. Processo Penal. Disponível em: Minha Biblioteca, (14th edição). Grupo GEN, 2022.
13
Avena, Norberto. Processo Penal. Disponível em: Minha Biblioteca, (14th edição). Grupo GEN, 2022.
16
Importa referir que a sentença homologatória de transação penal não faz coisa julgada material, de

modo que, se não cumprida a pena restritiva de direitos ou paga a multa imposta, o processo poderá seguir seu

curso, se assim reputar necessário o Ministério Público. Lembre-se do teor da súmula vinculante nº 35, do

Supremo Tribunal Federal:

Súmula vinculante 35: A homologação da transação penal prevista no artigo 76 da Lei 9.099/1995 não faz coisa

julgada material e, descumpridas suas cláusulas, retoma-se a situação anterior, possibilitando-se ao Ministério

Público a continuidade da persecução penal mediante oferecimento de denúncia ou requisição de inquérito

policial.

🚨 JÁ CAIU
Na prova de promotor de justiça do MPE-TO (Ano: 2022 Banca: CESPE/ CEBRASPE) foi considerada correta a

seguinte afirmação: De acordo com a jurisprudência majoritária e atual do STF, a homologação da transação

penal prevista na Lei dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais nº 9.099/1995 não faz coisa julgada material.

Descumpridas suas cláusulas, retoma-se a situação anterior, possibilitando-se ao Ministério Público a

continuidade da persecução penal mediante oferecimento da denúncia ou requisição de inquérito policial.

Ainda, vejamos o seguinte julgado, proferido em meados de 2015, mas ainda válido:

Em caso de transação penal, não se aplicam os efeitos do art. 91 do CP - As consequências jurídicas

extrapenais previstas no art. 91 do Código Penal são decorrentes de sentença condenatória. Tal não ocorre,

portanto, quando há transação penal, cuja sentença tem natureza meramente homologatória, sem qualquer

juízo sobre a responsabilidade criminal do aceitante. As consequências geradas pela transação penal são

essencialmente aquelas estipuladas por modo consensual no respectivo instrumento de acordo. STF. Plenário.

RE 795567/PR, Rel. Min. Teori Zavascki, julgado em 28/5/2015 (Info 787).14

A transação penal não implica em reincidência, bem como não constará na folha de antecedentes

criminais do acusado. Será anotada somente para fins de consulta interna do Poder Judiciário, tendo em vista

que tal medida alternativa à prisão pode ser concedida uma vez a cada 05 anos. Desse modo, caso o autor do

fato venha a praticar outro crime de competência dos Juizados Especiais Criminais dentro desse lapso temporal,

não poderá se valer da transação penal. E, com isso, passamos à análise do próximo instituto de Direito Penal

de Segunda Velocidade trazido pela Lei nº 9.099/95.

14
CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Em caso de transação penal, não se aplicam os efeitos do art. 91 do CP. Buscador Dizer o Direito, Manaus.
Disponível em: <https://www.buscadordizerodireito.com.br/jurisprudencia/detalhes/75b9b6dc7fe44437c6e0a69fd863dbab>.
17
CONSEQUÊNCIAS DA ACEITAÇÃO DA TRANSAÇÃO PENAL - RESUMO

■ Mitigação do princípio da obrigatoriedade da ação penal pública;

■ Não implica assunção de culpa porque não se discute se há ou não crime ou autoria;

■ Aplicação imediata de PRD ou multa para que o processo não prossiga;

■ Não gera reincidência;

■ Não gera antecedentes;

■ Não gera efeitos civis – cabe ao interessado propor ação no juízo civil caso queira reparação.

4.2. SUSPENSÃO CONDICIONAL DO PROCESSO

Nas hipóteses em que a transação penal não foi aceita ou não homologada, assim como quando ela

não é cabível, “estabelece o art. 89 da Lei 9.099/1995 que, se a pena mínima cominada ao crime for igual ou

inferior a um ano, o Ministério Público, ao oferecer a denúncia, poderá propor a suspensão do processo, por

dois a quatro anos, desde que o acusado não esteja sendo processado ou não tenha sido condenado por outro

crime, presentes os demais requisitos que autorizam a suspensão condicional da pena (art. 77 do Código

Penal).”15 Logo, são requisitos que possibilitam a suspensão condicional do processo:

1. Pena mínima cominada ao crime não ser superior a um ano;

2. O autor do fato não pode estar sendo processado por outro crime (contravenção penal não

impossibilita a incidência do instituto);

3. O acusado não pode ter sido condenado por outro crime - da mesma forma que no requisito

anterior, prevalece que a condenação por contravenção penal não resulta neste óbice;

4. Estejam presentes os requisitos dispostos no art. 77, do Código Penal, que tratam da

suspensão condicional da pena. São eles: (i) o condenado não seja reincidente em crime doloso;

(ii) a culpabilidade, os antecedentes, a conduta social e personalidade do agente, bem como os

motivos e as circunstâncias autorizem a concessão do benefício; (iii) não seja indicada ou

cabível a substituição prevista no art. 44 deste Código (pena privativa de liberdade por restritiva

de direitos).

“Na concepção dos Tribunais Superiores, a proposta de suspensão condicional do processo não é,

propriamente, um direito subjetivo do acusado, mas, sim, um poder-dever inerente ao Ministério Público, a ser

exercido quando presentes os pressupostos legais. Compreendendo não ser hipótese que autorize o benefício,

impõe-se ao Ministério Público aduzir em manifestação acostada à denúncia quais são os fundamentos deste

seu entendimento.”16

Ainda, vide a súmula 337 do STJ, que aventa outra hipótese de cabimento do instituto:

15
Avena, Norberto. Processo Penal. Disponível em: Minha Biblioteca, (14th edição). Grupo GEN, 2022.
16
Avena, Norberto. Processo Penal. Disponível em: Minha Biblioteca, (14th edição). Grupo GEN, 2022.
18
Súmula nº 337, STJ: É cabível a suspensão condicional do processo na desclassificação do crime e na

procedência parcial da pretensão punitiva.

Aceita a proposta pelo acusado e seu defensor, na presença do Juiz, este, recebendo a denúncia,

poderá suspender o processo, submetendo o acusado a período de prova, sob as seguintes condições (além de

outras que podem ser impostas pelo juiz, contanto que compatíveis com o fato e com a situação pessoal do

acusado):

1. reparação do dano, salvo impossibilidade de fazê-lo;

2. proibição de freqüentar determinados lugares;

3. proibição de ausentar-se da comarca onde reside, sem autorização do Juiz;

4. comparecimento pessoal e obrigatório a juízo, mensalmente, para informar e justificar suas

atividades.

HIPÓTESES DE REVOGAÇÃO DA SUSPENSÃO CONDICIONAL DO PROCESSO

REVOGAÇÃO OBRIGATÓRIA REVOGAÇÃO FACULTATIVA

Se, no curso do prazo, o beneficiário vier a ser Se o acusado vier a ser processado, no curso do

processado por outro crime ou não efetuar, sem prazo, por contravenção, ou descumprir qualquer

motivo justificado, a reparação do dano. outra condição imposta.

Expirado o prazo sem revogação, o Juiz declarará extinta a punibilidade, o que significa que a decisão

proferida terá natureza meramente declaratória, sendo considerada cumprida a suspensão condicional do

processo no momento do implemento de seus requisitos. Importante destacar também que, durante o período

em que o processo estiver suspenso, não correrá a prescrição penal. Caso o acusado não aceite as condições da

medida, o processo seguirá seu curso regular.

🚨 JÁ CAIU
Na prova de promotor de justiça do MPE-MG (Ano: 2022 Banca: FUNDEP) foi considerada correta a seguinte

afirmação: Nos crimes em que a pena mínima cominada for igual ou inferior a um ano, abrangidos ou não pela

Lei nº 9.099/95, o Ministério Público, ao oferecer a denúncia, poderá propor a suspensão do processo, por dois

a quatro anos, desde que o acusado não esteja sendo processado ou não tenha sido condenado por outro

crime, presentes os demais requisitos que autorizariam a suspensão condicional da pena.

19
5. PROCEDIMENTO

5.1. TERMO CIRCUNSTANCIADO

“O art. 69 da Lei n. 9.099/95, visando dar maior celeridade ao procedimento investigatório, dispensou

a instauração do inquérito policial para apurar as infrações de menor potencial ofensivo. Em seu lugar foi

instituído o termo circunstanciado que a autoridade policial deve lavrar assim que tomar conhecimento da

ocorrência do ilícito penal. A finalidade do termo circunstanciado é a mesma do inquérito policial, mas realizado

de maneira menos formal e sem a necessidade de colheita minuciosa de provas.”17

Vejamos o teor do dispositivo legal:

Art. 69. A autoridade policial que tomar conhecimento da ocorrência lavrará termo circunstanciado e o

encaminhará imediatamente ao Juizado, com o autor do fato e a vítima, providenciando-se as requisições dos

exames periciais necessários.

Parágrafo único. Ao autor do fato que, após a lavratura do termo, for imediatamente encaminhado ao

juizado ou assumir o compromisso de a ele comparecer, NÃO SE IMPORÁ PRISÃO EM FLAGRANTE, NEM

SE EXIGIRÁ FIANÇA. Em caso de violência doméstica, o juiz poderá determinar, como medida de cautela, seu

afastamento do lar, domicílio ou local de convivência com a vítima.

Sendo o termo circunstanciado equivalente ao inquérito policial, em termos de caderno investigativo

que fundamenta a Ação Penal, deverá apontar, no mínimo, as circunstâncias do fato criminoso e os elementos

colhidos quanto à autoria. Ainda, sempre que possível, deverá conter:

a. “a qualificação (dados pessoais, endereço etc) do pretenso autor da infração;

b. a qualificação da vítima;

c. a maneira como os fatos se deram, com a versão das partes envolvidas;

d. a qualificação das testemunhas, bem como o resumo do que presenciaram;

e. os exames que foram requisitados (não é necessário o resultado dos exames, mas tão somente

que conste quais foram requisitados); nos crimes de lesões corporais deverá constar ao menos

um boletim médico acerca das lesões (art. 77, § 1º, da Lei n. 9.099/95);

f. assinatura de todos os que participaram da elaboração do termo circunstanciado.”18

Ainda, poderá a Autoridade Policial acrescentar outros dados que entender pertinentes à elucidação

do fato. Recentemente, o Supremo Tribunal Federal entendeu pela possibilidade da lavratura do termo

circunstanciado ser realizada por policiais militares e bombeiros militares, não sendo somente prerrogativa da

Polícia Civil dos Estados (e do Distrito Federal):

17
Gonçalves, Victor Eduardo, R. e Alexandre Cebrian Araújo Reis. Esquematizado - Direito Processual Penal. Disponível em: Minha Biblioteca, (11th
edição). Editora Saraiva, 2022.
18
Gonçalves, Victor Eduardo, R. e Alexandre Cebrian Araújo Reis. Esquematizado - Direito Processual Penal. Disponível em: Minha Biblioteca, (11th
edição). Editora Saraiva, 2022.
20
Lei estadual pode autorizar que policiais militares e bombeiros militares lavrem TCO - É constitucional

norma estadual que prevê a possibilidade da lavratura de termos circunstanciados pela Polícia Militar e pelo

Corpo de Bombeiros Militar. O art. 69 da Lei dos Juizados Especiais, ao dispor que “a autoridade policial que

tomar conhecimento da ocorrência lavrará termo circunstanciado” não se refere exclusivamente à polícia

judiciária, englobando também as demais autoridades legalmente reconhecidas. O termo circunstanciado é o

instrumento legal que se limita a constatar a ocorrência de crimes de menor potencial ofensivo, motivo pelo

qual não configura atividade investigativa e, por via de consequência, não se revela como função privativa de

polícia judiciária. STF. Plenário. ADI 5637/MG, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 11/3/2022 (Info 1046).19

5.2. AUDIÊNCIA PRELIMINAR DE CONCILIAÇÃO

A parte final do art. 69, da Lei nº 9.099/95, determina que, uma vez finalizada a lavratura do termo

circunstanciado, autor do fato e vítima devem ser encaminhados ao Juizado Especial Criminal para imediata

realização de audiência preliminar, perante autoridade do Poder Judiciário. Porém, essa celeridade nem sempre

é possível, de modo que quando não se der esse encaminhamento imediato, os autos do termo circunstanciado

serão enviados à Secretaria do Juizado, que se encarregará de expedir intimação às partes da mencionada

audiência. Nesta oportunidade, o mandado de intimação para o autor da infração deverá conter a anotação da

necessidade de advogado e, na ausência de um, o Estado lhe designará um defensor público.

O art. 72, da Lei dos Juizados Especiais, traz um rol de pessoas que devem estar presentes para a

formalidade do ato. Vejamos:

Art. 72. Na audiência preliminar, presente o representante do Ministério Público, o autor do fato e a

vítima e, se possível, o responsável civil, acompanhados por seus advogados, o Juiz esclarecerá sobre a

possibilidade da composição dos danos e da aceitação da proposta de aplicação imediata de pena não

privativa de liberdade.

Prosseguindo, tanto nas hipóteses de Ação Penal Pública Incondicionada, Condicionada à

representação do ofendido ou Ação Penal Privada, o magistrado (ou o conciliador, sob a supervisão do

primeiro), iniciará os trabalhos esclarecendo sobre a possibilidade da composição civil de danos, bem como de

seus benefícios. Efetivada a composição, esta será homologada pelo juízo, em sentença irrecorrível, e consistirá

em título executivo judicial.

Caso não seja possível a composição civil dos danos, se o autor da infração não tiver comparecido à

audiência, se não estiverem presentes os requisitos da proposta de transação ou se o autor do delito tiver

recusado a proposta apresentada, o Ministério Público deverá oferecer denúncia oral, prosseguindo­-se na

19
CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Lei estadual pode autorizar que policiais militares e bombeiros militares lavrem TCO. Buscador Dizer o Direito,
Manaus. Disponível em: <https://www.buscadordizerodireito.com.br/jurisprudencia/detalhes/3799b2e805a7fa8b076fc020574a73b2>.
21
instrução criminal de acordo com o rito sumaríssimo, previsto nos arts. 77 e seguintes da lei.20

É importante destacar que, nas Ações Penais Públicas Incondicionadas, o implemento de acordo

quanto à composição dos danos civis não retira a possibilidade do prosseguimento da Ação Penal, com o

oferecimento da transação penal pelo Ministério Público ou o seguimento do feito nos trâmites legais. No

entanto, nas Ações Penais Privadas, se vítima e autor do fato chegaram a um consenso indenizatório, haverá

renúncia, por parte da vítima, ao direito de representação, com a consequente extinção da punibilidade do

agente. “Se forem dois os autores do crime e apenas um deles se compuser com a vítima quanto aos danos

provocados, apenas em relação a ele haverá a renúncia ao direito de representação. Não se aplica, nessa

hipótese, a regra do art. 49 do Código de Processo Penal, que estabelece que a renúncia em relação a um dos

autores do crime a todos se estende.”21

Quanto ao prosseguimento do feito, destacamos ainda o que aduz a doutrina22:

“Ressalte-se, ainda, que, nos termos da lei, é a homologação do acordo de composição civil que gera a extinção

da punibilidade do autor da infração, e não seu efetivo cumprimento. Assim, se o autor da infração,

posteriormente, não honrar o acordo, nada mais poderá ser feito em matéria criminal, restando à vítima

executá-lo na esfera cível, uma vez que o art. 74, caput, da Lei n. 9.099/95 lhe confere eficácia de título

executivo judicial.

Por outro lado, se resultar infrutífera a tentativa de composição dos danos civis ou se não houver dano a ser

indenizado, o procedimento terá andamento, estabelecendo o art. 75, caput, da Lei n. 9.099/95 que a vítima ou

seu representante legal poderá exercer o direito de representação oralmente na própria audiência. Se isso for

feito, a representação será reduzida a termo e assinada pela vítima, dando­-se prosseguimento ao rito, com a

verificação da possibilidade de transação criminal entre o Ministério Público e o autor da infração. Entretanto,

se a vítima disser que não quer representar, há renúncia expressa ao direito de representação, restando

extinta a punibilidade do agente.

De outro lado, se a vítima estiver na dúvida quanto ao interesse em oferecer a representação, poderá optar

por não o fazer de imediato na audiência, sem que isso implique decadência ou renúncia de seu direito, desde

que o exerça posteriormente no prazo de 6 meses a contar da data em que descobriu a autoria do crime,

conforme preceitua o art. 75, parágrafo único, da Lei n. 9.099/95, combinado com o art. 38 do Código de

Processo Penal.

Sendo oferecida a representação, o Ministério Público deverá analisar o termo circunstanciado. Não havendo

indícios suficientes de autoria ou materialidade, promoverá o arquivamento do feito. Havendo indícios, antes

de oferecer denúncia, analisará a possibilidade de proposta de imediata aplicação de pena de multa ou

restritiva de direitos (transação). Feita a proposta e sendo ela aceita pelo autor da infração, seguida de

homologação judicial, será imposta a pena avençada, que, uma vez cumprida, implicará a sua extinção. Por

outro lado, se o autor da infração não fizer jus à transação, se não estiver presente na audiência ou se não

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Gonçalves, Victor Eduardo, R. e Alexandre Cebrian Araújo Reis. Esquematizado - Direito Processual Penal. Disponível em: Minha Biblioteca, (11th
edição). Editora Saraiva, 2022.
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Gonçalves, Victor Eduardo, R. e Alexandre Cebrian Araújo Reis. Esquematizado - Direito Processual Penal. Disponível em: Minha Biblioteca, (11th
edição). Editora Saraiva, 2022.
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Gonçalves, Victor Eduardo, R. e Alexandre Cebrian Araújo Reis. Esquematizado - Direito Processual Penal. Disponível em: Minha Biblioteca, (11th
edição). Editora Saraiva, 2022.
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aceitar os termos da proposta feita, o Ministério Público oferecerá denúncia oral, que será reduzida a termo,

prosseguindo­-se com o rito sumaríssimo, nos termos dos arts. 77 e seguintes da Lei n. 9.099/95.”

5.3. RITO SUMARÍSSIMO

O rito sumaríssimo, disposto nos artigos 77 a 81, da Lei nº 9.099/95, só terá vez quando a transação

penal (i) não for aceita, (ii) não tenha sido possível, dado o não comparecimento do autor do fato na audiência

de conciliação ou (iii) este não aceitar os termos propostos pelo Ministério Público. Nestas hipóteses, a lei

determina que o Parquet apresente imediatamente a denúncia oral, exceto se houver necessidade de realização

de outras diligências consideradas indispensáveis. No que diz respeito à Ação Privada, se a vítima assim o

desejar, poderá fazê-lo de modo escrito, dentro do prazo decadencial que lhe cabe (seis meses).

⚠️ ATENÇÃO
Em nome dos princípios da celeridade, simplicidade e informalidade, nos crimes não transeuntes, o

corpo de delito pode ser substituído pelo boletim médico ou prova equivalente, a fim de comprovar a

materialidade.

Quando oferecida a denúncia ou queixa (nomenclatura utilizada para a peça inicial na Ação Penal

Privada) de modo oral em audiência, após sua redução a termo, o autor do fato receberá sua cópia, sendo que

neste ato considerar-se-á automaticamente citado. Ainda, as partes também já sairão intimadas para

comparecimento na próxima audiência, desta vez de instrução e julgamento.

Quanto à comunicação dos atos às partes, vide o art. 67, da lei de regência:

Art. 67. A intimação far-se-á por correspondência, com aviso de recebimento pessoal ou, tratando-se de

pessoa jurídica ou firma individual, mediante entrega ao encarregado da recepção, que será obrigatoriamente

identificado, ou, sendo necessário, por oficial de justiça, independentemente de mandado ou carta

precatória, ou ainda por qualquer meio idôneo de comunicação.

Parágrafo único. Dos atos praticados em audiência considerar-se-ão desde logo cientes as partes, os

interessados e defensores.

Art. 68. Do ato de intimação do autor do fato e do mandado de citação do acusado, constará a necessidade de

seu comparecimento acompanhado de advogado, com a advertência de que, na sua falta, ser-lhe-á designado

defensor público.

Conforme se percebe, no regramento jurídico do juizado especial criminal há previsão de intimação do

Defensor em audiência dos atos que nela forem praticados. Mas este regramento afasta a prerrogativa de

intimação pessoal prevista na LC 80/94?

A prerrogativa não se aplica no âmbito dos Juizados Especiais, havendo dois


POSIÇÃO MAJORITÁRIA
argumentos para esta conclusão: a) especialidade da lei 9099/95, que faz com

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que prevaleçam os princípios da celeridade e informalidade; b) caráter

simplesmente processual e não materialmente complementar dos dispositivos

da LC 80/94, que disciplinam as prerrogativas dos Defensores Públicos. Este é o

entendimento da Turma Nacional de Uniformização de Jurisprudência dos

Juizados Especiais Federal, do STJ e do STF.

A prerrogativa se aplica no âmbito dos juizados especiais em razão dos seguintes

argumentos:

(a) há um equívoco ao considerar que a especialidade da 9099/95 pode afastar as

prerrogativas dos membros da Defensoria Pública, isto porque a LC 80/94 é o

local adequado para tratar das prerrogativas de seus membros e não a Lei

9099/99, que disciplina apenas rotinas procedimentais;

(b) a prerrogativa de intimação pessoal não tem natureza simplesmente


POSIÇÃO MINORITÁRIA processual, mas se trata de importante instrumento na busca por melhor

desempenhar a função de assistência jurídica integral e gratuita aos

necessitados, ademais, a LC 80/94 não pode ser dividida em normas

materialmente e formalmente complementares, sob pena de se violar a

competência legislativa constitucionalmente reservada à LC (art. 134, parágrafo

1º, da CRFB);

(c) por fim, não há previsão expressa na 9099/95 que afaste as prerrogativas da

Defensoria Pública.

Prosseguindo, caso o autor do fato não tenha comparecido à audiência preliminar, sua citação se dará

de forma presencial, através de mandado. Neste documento, também deverá constar a advertência da

necessidade de comparecimento junto com advogado ou, na ausência deste, da designação de um defensor

público para acompanhamento do ato. “Caso seja feita a citação, o procedimento terá prosseguimento no

Juizado. Porém, se o autor da infração não for localizado para citação pessoal, o procedimento será enviado à

justiça criminal comum, para a adoção do rito sumário, nos termos do art. 66, parágrafo único, da lei, uma vez

que é incabível a citação por edital no Juizado. A atual redação do art. 538 do CPP expressamente dispõe que

nesse caso será adotado o procedimento sumário.”23

5.3.1. AUDIÊNCIA DE INSTRUÇÃO E JULGAMENTO

Em caso de localização do autor do fato, bem como na hipótese das partes comparecerem para a

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edição). Editora Saraiva, 2022.
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audiência de instrução e julgamento, o magistrado iniciará o ato tentando novamente a conciliação entre as

partes, tendo em vista que este é o principal objetivo do Juizado Especial. Sendo inexitosa, o juiz declarará

aberta a audiência de instrução, passando imediatamente a palavra à defesa, que, via de regra, responderá

oralmente à acusação (enaltecendo o princípio da oralidade).

Feitas a resposta à acusação, o juiz decidirá pelo recebimento ou não recebimento da denúncia. Nesta

última hipótese, caberá recurso de apelação para as Turmas Recursais, no prazo de 10 dias. Em caso de

recebimento da inicial acusatória, o feito prosseguirá, com a oitiva das pessoas, nesta ordem:

1. Vítima;

2. Testemunhas de acusação;

3. Testemunhas de defesa;

4. Réu.

🚨 JÁ CAIU
Na prova de promotor de justiça do MPE-PR (Ano: 2021 Banca: MPE-PR) foi considerada correta a seguinte

afirmação: Da rejeição da denúncia no processo sumaríssimo previsto na Lei 9.099/1995 cabe apelação.

No que diz respeito às testemunhas, as partes deverão depositar em cartório o rol daquelas que

pretendem inquirir com, no mínimo, 05 dias de antecedência. O legislador não especificou quantas

testemunhas podem ser ouvidas no âmbito criminal dos Juizados Especiais, de modo que a doutrina está com

seu entendimento dividido: uma corrente entende ser possível a inquirição de 3 testemunhas por cada parte,

ao passo que outra corrente entende que podem ser ouvidas até 05 testemunhas.

Continuando, “todas as provas serão produzidas na audiência de instrução e julgamento, podendo o

Juiz limitar ou excluir as que considerar excessivas, impertinentes ou protelatórias.” (art. 81, §1º). No ano de

2021, a Lei nº 14.245 introduziu na Lei nº 9.099/95 importante regra de tratamento, postura que deve ser

adotada em audiência por todas as partes, especialmente no trato com a vítima. Vejamos:

Art. 81. § 1º-A. Durante a audiência, todas as partes e demais sujeitos processuais presentes no ato

deverão respeitar a dignidade da vítima, sob pena de responsabilização civil, penal e administrativa,

cabendo ao juiz garantir o cumprimento do disposto neste artigo, vedadas: (LEI 14245/21)

I - a manifestação sobre circunstâncias ou elementos alheios aos fatos objeto de apuração nos autos;

(LEI 14245/21)

II - a utilização de linguagem, de informações ou de material que ofendam a dignidade da vítima ou de

testemunhas. (LEI 14245/21)

Realizadas as oitivas e o interrogatório do réu, se prosseguirá com os debates orais. Trata-se de

espécie de alegações finais, oportunidade em que as partes podem repisar seus argumentos e buscam

convencer o magistrado de que tem razão, pugnando pela procedência ou improcedência da denúncia/queixa

25
crime. Tempo: 20 minutos para cada (acusação e defesa), acrescidos de 10 minutos, se necessário.

Encerrada a instrução e respeitando o princípio da oralidade, a Lei determina que a sentença também

seja proferida no ato, de modo oral, da qual as partes já sairão intimadas ao final. Dispensado o relatório, o

decisum mencionará os elementos de convicção do Juiz. De todo o ocorrido na audiência será lavrado termo,

assinado pelo Juiz e pelas partes, contendo breve resumo dos fatos relevantes ocorridos em audiência e a

sentença.

5.3.2. SISTEMA RECURSAL

Primeiramente, se a parte entender que a sentença conter vício, poderá, ainda em audiência e de

modo oral, opor embargos de declaração para sanar obscuridade, contradição ou omissão. Caso queira opor o

recurso de forma escrita, terá o prazo de 05 dias para tanto, a contar da intimação da sentença.

Todavia, caso as partes queiram se opor diretamente contra as razões de fundo do julgado, da

decisão de rejeição da denúncia ou queixa e da sentença caberá apelação, que poderá ser julgada por turma

composta de três Juízes em exercício no primeiro grau de jurisdição, reunidos na sede do Juizado. A apelação

será interposta no prazo de dez dias, contados da ciência da sentença pelo Ministério Público, pelo réu e seu

defensor, por petição escrita, da qual constarão as razões e o pedido do recorrente. Apresentada a apelação, o

recorrido também será intimado para, no prazo de dez dias, apresentar sua resposta.

Ainda, “apesar de a Lei n. 9.099/95 somente fazer menção aos recursos de apelação e embargos de

declaração, não fica excluída a possibilidade do recurso em sentido estrito, uma vez que o Código de Processo

Penal se aplica subsidiariamente à legislação especial. Ex.: contra a decisão que reconhecer a prescrição de

infração de menor potencial ofensivo no Juizado (art. 581, IX, do CPP).”24

Também é permitido no âmbito dos Juizados Especiais Criminais, o manejo de habeas corpus,

mandado de segurança e revisão criminal, eis que são instrumentos oriundos diretamente da Constituição

Federal. Para tanto, basta estarem presentes os seus requisitos, tal qual estudados na série de Resumo

Destacados de Direito Processual Penal. Neste sentido, destacamos julgado do Superior Tribunal de Justiça que,

apesar de ser do ano de 2013, seu entendimento ainda persiste como válido:

Compete aos Tribunais de Justiça ou aos Tribunais Regionais Federais o julgamento dos pedidos de

habeas corpus quando a autoridade coatora for Turma Recursal dos Juizados Especiais - À Turma

Recursal compete rever decisão proferida no âmbito do Juizado Especial, inclusive quanto à alegada

incompetência do Juízo de primeiro grau e quanto à verificação de eventual ocorrência de prescrição da

pretensão punitiva. STJ. 6ª Turma. HC 218.040/DF, Rel. Min. Sebastião Reis Junior, julgado em 04/06/2013.25

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Gonçalves, Victor Eduardo, R. e Alexandre Cebrian Araújo Reis. Esquematizado - Direito Processual Penal. Disponível em: Minha Biblioteca, (11th
edição). Editora Saraiva, 2022.
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CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Compete aos Tribunais de Justiça ou aos Tribunais Regionais Federais o julgamento dos pedidos de habeas corpus
quando a autoridade coatora for Turma Recursal dos Juizados Especiais. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em:
<https://www.buscadordizerodireito.com.br/jurisprudencia/detalhes/af014918c07f6d322fd757f24de6858a>.
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Indo adiante, já referimos que o Colégio Recursal dos Juizados Especiais será composto por de três

Juízes em exercício no primeiro grau de jurisdição, reunidos na sede do Juizado. Nos Juizados Especiais

Criminais Federais, as Turmas Recursais serão instituídas por decisão do Tribunal Regional Federal, que definirá

sua composição e área de competência, podendo abranger mais de uma seção (art. 21, da Lei nº 10.259/2001).

As partes serão intimadas da data da sessão de julgamento pela imprensa. Se a sentença for confirmada pelos

próprios fundamentos, a súmula do julgamento servirá de acórdão.

Por fim, tal qual se dá no Juizado Especial Cível, é inadmissível a interposição de Recurso Especial

contra o acórdão proferido pela Turma Recursal, uma vez que a Constituição Federal exige que o julgado em

segunda instância seja proferido por Tribunal (e a Turma Recursal é composta por juízes com jurisdição no

primeiro grau). Porém, admitido o Recurso Extraordinário, nos termos da Súmula 640, do STF:

Súmula 640, STF: É cabível recurso extraordinário contra decisão proferida por juiz de primeiro grau nas

causas de alçada, ou por turma recursal de juizado especial cível e criminal.

5.3.3. EXECUÇÃO

No que diz respeito à pena de multa, quando esta for aplicada de modo exclusivo, seu cumprimento

far-se-á mediante pagamento na Secretaria do Juizado. Uma vez realizado, o Juiz declarará extinta a

punibilidade, determinando que a condenação não fique constando dos registros criminais, exceto para fins de

requisição judicial. Porém, não sendo efetuado, será feita a conversão em pena privativa da liberdade, ou

restritiva de direitos, nos termos previstos em lei.

Quando a pena aplicada for privativa de liberdade e restritiva de direitos, ou de multa cumulada com

estas, será processada perante o órgão competente, nos termos da lei. Desta forma, a matéria é regulada pela

legislação local, mas podemos concluir que não será da competência dos Juizados a execução nestas hipóteses.

6. JURISPRUDÊNCIA EM TESES - SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA (Ed. 93 e 96)

Para finalizar, tal qual fizemos quando estudamos os Juizados Especiais Cíveis, traremos abaixo as

teses consolidadas pelo Superior Tribunal de Justiça em duas edições distintas do seu “Jurisprudência em Teses”

que tratam especificamente de temas relacionados aos Juizados Especiais Criminais.

6.1. EDIÇÃO 96

1) A Lei n. 10.259/01, ao considerar como infrações de menor potencial ofensivo as contravenções e

os crimes a que a lei comine pena máxima não superior a 2 (dois) anos, não alterou o requisito objetivo exigido

para a concessão da suspensão condicional do processo prevista no art. 89 da Lei n. 9.099/95, que continua

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sendo aplicado apenas aos crimes cuja pena mínima não seja superior a 1 (um) ano.

2) É cabível a suspensão condicional do processo e a transação penal aos delitos que preveem a pena

de multa alternativamente à privativa de liberdade, ainda que o preceito secundário da norma legal ultrapasse

os parâmetros mínimo e máximo exigidos em lei para a incidência dos institutos em comento.

3) A suspensão condicional do processo não é direito subjetivo do acusado, mas sim um poder-dever

do Ministério Público, titular da ação penal, a quem cabe, com exclusividade, analisar a possibilidade de

aplicação do referido instituto, desde que o faça de forma fundamentada.

4) Se descumpridas as condições impostas durante o período de prova da suspensão condicional do

processo, o benefício poderá ser revogado, mesmo se já ultrapassado o prazo legal, desde que referente a fato

ocorrido durante sua vigência. (Tese julgada sob o rito do art. 543-C do CPC/73 - TEMA 920)

5) Opera-se a preclusão se o oferecimento da proposta de suspensão condicional do processo ou de

transação penal se der após a prolação da sentença penal condenatória.

6) O benefício da suspensão do processo não é aplicável em relação às infrações penais cometidas em

concurso material, concurso formal ou continuidade delitiva, quando a pena mínima cominada, seja pelo

somatório, seja pela incidência da majorante, ultrapassar o limite de um (01) ano. (Súmula n. 243/STJ)

7) A existência de inquérito policial em curso não é circunstância idônea a obstar o oferecimento de

proposta de suspensão condicional do processo.

8) A extinção da punibilidade do agente pelo cumprimento das condições do sursis processual,

operada em processo anterior, não pode ser valorada em seu desfavor como maus antecedentes,

personalidade do agente e conduta social.

9) É constitucional o art. 90-A da Lei n. 9.099/95, que veda a aplicação desta aos crimes militares.

10) Na hipótese de apuração de delitos de menor potencial ofensivo, deve-se considerar a soma das

penas máximas em abstrato em concurso material, ou, ainda, a devida exasperação, no caso de crime

continuado ou de concurso formal, e ao se verificar que o resultado da adição é superior a dois anos, afasta-se

a competência do Juizado Especial Criminal.

11) O crime de uso de entorpecente para consumo próprio, previsto no art. 28 da Lei n. 11.343/06, é

de menor potencial ofensivo, o que determina a competência do juizado especial estadual, já que ele não está

previsto em tratado internacional e o art. 70 da Lei n. 11.343/06 não o inclui dentre os que devem ser julgados

pela justiça federal.

12) A conduta prevista no art. 28 da Lei n. 11.343/06 admite tanto a transação penal quanto a

suspensão condicional do processo.

6.2. EDIÇÃO 93

1) Compete aos Tribunais de Justiça ou aos Tribunais Regionais Federais o julgamento dos pedidos de

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habeas corpus quando a autoridade coatora for Turma Recursal dos Juizados Especiais.

2) A aceitação pelo paciente do benefício da suspensão condicional do processo, nos termos do art. 89

da Lei n. 9.099/95, não inviabiliza a impetração de habeas corpus nem prejudica seu exame, tendo em vista a

possibilidade de se retomar o curso da ação penal caso as condições impostas sejam descumpridas.

3) No âmbito dos Juizados Especiais Criminais, não se exige a intimação pessoal do defensor público,

admitindo-se a intimação na sessão de julgamento ou pela imprensa oficial.

4) Não há óbice a que se estabeleçam, no prudente uso da faculdade judicial disposta no art. 89, § 2º,

da Lei n. 9.099/1995, obrigações equivalentes, do ponto de vista prático, a sanções penais (tais como a

prestação de serviços comunitários ou a prestação pecuniária), mas que, para os fins do sursis processual, se

apresentam tão somente como condições para sua incidência. (Tese julgada sob o rito do art. 543-C do CPC/73

TEMA 930)

5) A perda do valor da fiança constitui legítima condição do sursis processual, nos termos do art. 89, §

2º, da Lei n. 9.099/95.

6) A suspensão condicional do processo e a transação penal não se aplicam na hipótese de delitos

sujeitos ao rito da Lei Maria da Penha. (Súmula n. 536/STJ)

7) A transação penal não tem natureza jurídica de condenação criminal, não gera efeitos para fins de

reincidência e maus antecedentes e, por se tratar de submissão voluntária à sanção penal, não significa

reconhecimento da culpabilidade penal nem da responsabilidade civil.

8) A homologação da transação penal prevista no artigo 76 da Lei n. 9.099/1995 não faz coisa julgada

material e, descumpridas suas cláusulas, retoma-se a situação anterior, possibilitando-se ao Ministério Público a

continuidade da persecução penal mediante oferecimento de denúncia ou requisição de inquérito policial.

(Súmula Vinculante n. 35/STF)

9) O prazo de 5 (cinco) anos para a concessão de nova transação penal, previsto no art. 76, § 2º, inciso

II, da Lei n. 9.099/95, aplica-se, por analogia, à suspensão condicional do processo.

10) É cabível a suspensão condicional do processo na desclassificação do crime e na procedência

parcial da pretensão punitiva. (Súmula n. 337/STJ)

11) Nos casos de aplicação da Súmula n. 337/STJ, os autos devem ser encaminhados ao Ministério

Público para que se manifeste sobre a possibilidade de suspensão condicional do processo ou de transação

penal.

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