Apostila Caráter Rígido
Apostila Caráter Rígido
Tema:
Organização Caráteres Rígidos: Psicodinâmica, Funções,
Anatomia/Fisiologia, Somatizações, Leitura Corporal, Transferência e
Contratransferência e ética.
Bibliografia:
LOWEN, Alexander. O Corpo em Terapia, p 217 a 254 (caráter histérico I e II)
LOWEN, Alexander. O Corpo em Terapia, p 255 a 274 (caráter fálico narcisista)
LOWEN, Alexander. Bioenergética, p 146 a 149 (estrutura de caráter rígido)
TEMAS CARACTEROLÓGICOS DO SELF NO SISTEMA
Johnson, Stephen M. Character Styles. N Y, Norton, 1994 (cap. 4)
Histriônico
1. Constelação etiológica: pelo menos um dos provedores explora a sexualidade
natural e usa a criança como objeto sexual. O outro provedor é muitas vezes frio, distante ou
diretamente punitivo, particularmente no que diz respeito à sexualidade e/ou a competição, ou é
visto assim em função da culpa e projeções associadas da criança.
2. Constelação sintomatológica: reatividade demasiadamente emocional,
comportamento exibicionista e dramático, relacionamentos sexualizados com negação da
sexualidade, experiência emocional superficial, processos de pensamento globais e imprecisos,
atenção excessiva dirigida ao sexo oposto, reações de conversão, episódios dissociativos, alta
propensão ao acting-out, altamente distraído, com dificuldade para sustentar a concentração,
dificuldades sexuais – incluindo dificuldade para se excitar, síndrome pré-orgástica,
dismenorréia, ejaculação retardada ou prematura, orgasmos insatisfatórios (superficiais), etc.
3. Estilo cognitivo: processos de pensamento globais, não lineares e
predominantemente emocionais, que servem para manter os afetos e pensamentos “perigosos”
fora da percepção. O pensamento é com freqüência mais visual e impressionista, resultando em
julgamentos rápidos e superficiais a respeito do significado de eventos, idéias e sentimentos e
numa ausência de detalhes fatuais e discriminação baseada na realidade.
4. Roteiro de decisões e crenças patogênicas: “O sexo é ruim. A competição e a
rivalidade são ruins. Meu valor depende da minha sexualidade e do meu poder de sedução. Toda
a gratificação provém do sexo oposto. Não posso amar, ser sexual, ser competitivo, preciso ser
mais atraente. Se eu sentir amor plenamente: 1) serei explorado ou rejeitado, 2) ferirei meus
pais, ou 3) sentirei vergonha.”
5. Defesas: Negação, repressão, acting-out, conversão, dissociação, externalização,
pensamento global e impressionista.
6. Auto-representação: Imprecisa e fluída, com o auto-conceito tendendo a se apoiar
mais na aparência, na aceitação social e nas experiências imediatas do que em realizações e
outras bases mais estáveis.
7. Representações e relações objetais: Relacionamentos freqüentemente
sexualizados, impulsivos e caracterizados por comportamento superficial de “troca de papéis”.
Os indivíduos do sexo oposto são extraordinariamente importantes conscientemente, mas
inconscientemente são alvo de uma hostilidade considerável, expressa muitas vezes depois de
ter sido criada alguma desculpa estereotipada. Há, via de regra, uma competição inconsciente
com relação aos membros do mesmo sexo. Temas de vitimização e relações provedor-criança
desamparada são comuns em relacionamentos muitas vezes repetitivos, “semelhantes a um
jogo”1.
8. Características afetivas: Afetos superficiais, “como se”, demasiadamente
dramáticos. Um alto nível de titilação sexual com uma ausência de sentimentos sexuais
profundos e maduros. O indivíduo pode facilmente ser esmagado por estados afetivos, com
pensamentos bloqueados ou muito controlados por experiências impressionistas e afetivas. Há
uma tendência para o acting-out como resposta a sentimentos. Sentimentos hostis e
competitivos não são conscientes, mas são expressos em interações repetitivas, “como se fosse
um jogo”.
O Obsessivo-Compulsivo
O caráter obsessivo-compulsivo constituiu-se naquela primeira constelação de
personalidade descrita por Freud e, até recentemente, era claramente a síndrome que foi melhor
descrita. É também o distúrbio de personalidade diagnosticado com mais freqüência e atribuído
mais freqüentemente aos homens (Fences, 1986). De fato, é discutido e demonstrado em tantas
pessoas de maneira tão comum – pelo menos numa extensão mínima -, que tendemos a não
1 No original, “gamelike”.
dar importância ao seu estudo porque pensamos que sabemos o que significa. O tema realmente
justifica uma atenção mais séria do que essa, particularmente por parte dos profissionais, porque
a compreensão das nuances da história típica, da fenomenologia e dos processos psicológicos
envolvidos pode causar um impacto significativo na nossa empatia e na nossa eficácia junto a
pessoas que sofrem deste distúrbio.
David Shapiro (1965) me ajudou a entender esse distúrbio enfatizando o papel de uma
volição ou vontade distorcida, dirigida ao controle e a prescrição do que não pode ser prescrito
ou controlado, como os instintos, os interesses espontâneos e os afetos, por exemplo. Nas
palavras de Shapiro, “a orientação intencional foi distorcida do seu significado mais subjetivo
enquanto extensão e, por assim dizer, representação do próprio querer, para assumir uma
posição de precedência sobre as vontades, até para dirigi-las. O impulso, nessa ordem de coisas,
não é o fator desencadeante do momento pleno de orientação intencional e do esforço, mas o
seu inimigo.” (p.37)
Shapiro também assinala a intensidade com que o obsessivo-compulsivo experiencia
“seu próprio inspetor, emitindo comandos, diretrizes, advertências, avisos e admoestações” (p.
34) como algo exterior a ele. Os valores e diretrizes do inspetor são aceitos, mas não são
resultado de uma escolha livre. Particularmente, à medida que as obsessões ou compulsões
parecem mais neuróticas ou absurdas, o indivíduo sente-se confundido, incomodado, perturbado
por elas e as experiencia como realmente alheias a ele. Essa característica externa ou alheia do
“inspetor sentado atrás emitindo comandos” tem todos os sinais inequívocos de um outro
inassimilável introjetado. Mais do que isso, conduz à projeção fora do self dessa introjeção, como
Meissner (1988) assinalou de modo tão convincente. Isto explica porque o obsessivo-compulsivo
justifica seu comportamento alegando que se comporta do modo como faz para satisfazer uma
necessidade objetiva ou um imperativo social que nós não experienciamos de modo tão absoluto.
Essa fenomenologia do inspetor exigente é consistente com a experiência clínica
reiterada dos clínicos, que trazem o relato de pacientes lembrando e muitas vezes percebendo
seus pais como pessoas severas, exigentes, rígidas e presas a regras, de modo geral. Descobre-
se com freqüência que os pais desses indivíduos ficaram particularmente ameaçados ou
desagradados pela a natureza viva, animal da criança, e estavam interessados em produzir um
pequeno cavalheiro ou uma pequena dama perfeita. Não raro, a reconstrução ou até a
experiência corrente dos pais é a de ficarem ameaçados pela competição ou pelo sucesso, que
os diminuiria, caso fossem comparados.
Semelhante às outras constelações etiológicas gerais, nem todas essas descrições se aplicam
a todos os casos. Aqui e nas tabelas de resumo – incluindo a Tabela 10 para esse caráter – eu
usei deliberadamente certo número de palavras relacionadas (mas diferentes) para descrever os
fatores etiológicos em função de sua utilidade clínica. Em certo caso, as palavras “severo” e
“exigente” podem fornecer uma descrição exata do cliente e, portanto, serem bastante úteis. Em
outro caso, as frases “ameaçado pelo sucesso” e “desagradado com a própria natureza animal”
podem apresentar uma descrição mais precisa e proveitosa.
Assim, a teoria caracterológica do desenvolvimento para o obsessivo-compulsivo é
simplesmente a seguinte: a criança introjeta e se identifica com o provedor e as normas ou
valores do provedor; no curso do desenvolvimento estrutural, procura usar o poder de sua
vontade para satisfazer essas normas introjetadas e viver de acordo com esses valores
extraordinariamente rígidos, negadores da vida e alheios ao corpo. A vontade é usada para
bloquear as expressões organísmicas originais, bem como para promulgar um falso self, que
consiste na atitude e comportamento corretos necessários para alcançar alguma semelhança de
contato positivo com um provedor muito incerto e nem sempre muito positivo. Esse é um exemplo
claro de uma reprodução caracterológica, isto é, a parentagem obsessivo-compulsiva produzindo
uma criança obsessivo-compulsiva.
É crucial assinalar que uma pessoa com traços obsessivo-compulsivos nem sempre é
melhor compreendida pela sua etiologia mais “anal” e “edípica”, como expressou a linguagem
psicanalítica tradicional. Até Lowen (1958), que fornece o argumento mais claro da etiologia
edípica dessa síndrome, reconhece que esses traços serão vistos com freqüência nos caracteres
oral e masoquista, principalmente (p. 157). Eu acrescentaria que se pode perceber muitas vezes
uma extrema rigidez apresentada por indivíduos de baixo funcionamento, que têm um sentido
precário de self. Nesses casos, o comportamento obsessivo-compulsivo não é defensivo no
sentido clássico, mas protege literalmente a pessoa do vazio e da fragmentação de um self
fragilizado. Em outras palavras, o indivíduo realmente se encontra na sua sistematicidade ou na
sua moral rígida, nas suas crenças políticas ou religiosas, e organiza a vida para viver de acordo
com elas. Assim, a rigidez não serve de defesa contra impulsos inaceitáveis, mas antes como
uma estratégia para organizar uma estrutura desorganizada. O que ofereço aqui trecho é o
desenvolvimento de uma compreensão do comportamento obsessivo-compulsivo com base
numa etiologia de cunho mais edípico e servindo como função defensiva no seu sentido mais
clássico.
Quando é esse o caso, as compulsões comportamentais, obsessões cognitivas e
atividades menos sintomáticas consistentes com essa personalidade podem ser melhor
entendidas como tentativas do organismo para se precaver ou manter sob controle estes
impulsos inaceitáveis, que tendem a ser sexuais, agressivos, competitivos e afetivamente
espontâneos. Tais “atividades” incluem a tendência obsessivo-compulsiva de viver “sob a mira”
de uma tensão e uma pressão constantes, difusas, para que ele faça, sinta e pense a coisa certa.
Essa pressão constante o mantém ocupado nos níveis da cognição e do comportamento e sob
controle, no sentido de inibir qualquer expressão espontânea potencialmente errada ou perigosa.
De maneira similar, a sua atenção intensa e estreitamente focada particularmente nos detalhes,
assim como seu modo característico de isolar o pensar do sentir o mantêm ocupado e distante
de comportamentos, pensamentos e sentimentos verdadeiramente desencadeados pelo self,
que possam ameaçar, gerar raiva ou desagradar o outro. Do mesmo modo, a sua dúvida,
indecisão e protelação evidentes o impedem de se comprometer com um curso de ação que, em
última análise, reflete um compromisso e uma escolha pessoais.
Além do mais, o comportamento social do obsessivo-compulsivo, notado pela sua
empolação, pela ênfase na atuação correta do papel social e pelo seu modo de se apresentar
pedante, dono de si e inafetivo, o mantém distante de seus próprios impulsos repudiados e de
quaisquer sentimentos perigosos com relação aos outros. Finalmente, a tendência do obsessivo-
compulsivo para estar muito atento e responsivo aos outros na dimensão da submissão-
subjugação também pode ser entendida como uma derivação da organização global da sua
personalidade: os outros são vistos como a personificação dos imperativos externos, das regras
sociais e necessidades objetivas que o indivíduo deve cumprir, ou como subordinados, que
devem ser corrigidos por essas regras. Os outros também podem ser percebidos como
ameaçados ou feridos pela natureza competitiva do indivíduo ou pelos seus sucessos, como o
era o provedor na luta edípica. De novo, a preocupação com as regras corretas, o
comportamento adequado, as atitudes apropriadas e os efeitos possivelmente adversos das
ações interpessoais mantêm o indivíduo ocupado e os impulsos perigosos fora da percepção.
Sintomaticamente, a repressão, a auto-regulação e a contenção negadora da vida criam
a depressão. Quando o indivíduo é realmente pressionado por eventos estressantes e/ou pela
pressão crescente de impulsos não resolvidos, não expressos, as obsessões e/ou compulsões
podem se apoderar dele de tal maneira que o levam a níveis absurdos nas suas preocupações
obsessivas e comportamentos compulsivos. Não raro, o fracasso das defesas em administrar
tudo isto conduz com freqüência a pensamentos intrusivos de natureza sexualmente sádica,
senão hostil. Esses pensamentos são extraordinariamente ego-distônicos, claro, porque estão
muito longe daquela boa pessoa que o indivíduo está tentando ser.
O obsessivo-compulsivo também é muitas vezes perfeccionista. Embora possa haver
alguma semelhança com o perfeccionismo do narcisista, este é um bom exemplo de como a
teoria caracterológica pode ser útil na produção de uma compreensão mais acurada e empática
das pessoas. O perfeccionismo do obsessivo-compulsivo é antes conduzido por uma
determinação de fazer voluntariamente a coisa certa e evitar a coisa errada. É como se ele
tentasse agradar ou apaziguar aquela autoridade externa e evitar a sua punição. O
perfeccionismo é motivado para evitar a censura, controlar o que é ruim no self e manter sob
controle o que ameaçaria ou desagradaria o outro.
No caso da etiologia e orientação narcísicas, o perfeccionismo é melhor conceituado
como uma interrupção do desenvolvimento na grandiosidade. Tentar ser perfeito sustenta a
ilusão do falso self grandioso e protege o indivíduo de mergulhar na nulidade ou no vazio. Nesse
caso, um desempenho perfeito, uma conquista ou uma auto-afirmação melhoram a auto-estima.
Por outro lado, no caso do obsessivo-compulsivo, o perfeccionismo é antes dirigido às tentativas
do indivíduo de controlar seus próprios sentimentos e motivações, para que ele seja o tipo certo
de pessoa e não agrida. Essa posição é de longe mais passiva e defensiva do ponto de vista
interpessoal do que a do narcisista, melhor reconhecido pela sua capacidade de mobilizar a
agressão e impressionar os outros com um comportamento que ele mesmo experiencia muitas
vezes como superficial, insincero e falso.
A teoria caracterológica do desenvolvimento é importante no trabalho clínico porque,
entre outras coisas, auxilia o profissional sugerindo o que procurar na história, na estrutura de
crenças, na atitude, na auto-representação e na sintomatologia, ajudando-o na compreensão do
que subjaz à expressão observada e no auxílio ao cliente para que ele próprio compreenda isto.
Depois, a teoria do desenvolvimento possui algumas prescrições quanto ao modo como os
problemas podem ser resolvidos. No caso do perfeccionismo, o indivíduo precisa aprender que
seus impulsos sexuais, agressivos e competitivos são normais, humanos e corretos e que não
podem ser subjugados à vontade? Ou precisa aprender que o seu perfeccionismo é expressão
de uma grandiosidade não resolvida no desenvolvimento pregresso, que requer que ele aprenda
a ter uma auto-estima mais realista, melhor harmonizada, “constante”, baseada na integração
daquilo que é maravilhoso e daquilo que é limitado dentro dele?
Voltando agora ao problema do obsessivo-compulsivo, poderíamos perguntar: quando é
que tudo isso se desenvolve? Não é possível responder a essa pergunta completamente, como
gostaríamos. Entretanto, sabemos que as crianças de fato começam a operar com base em
normas com cerca de dois anos de idade (Gopnick & Meltzoff, 1984). A pesquisa experimental
do desenvolvimento indica que um certo número de fatores operativos dessa adaptação
específica não se desenvolve até um pouco mais tarde do que vimos nos temas caracterológicos
revisados até agora.
Por exemplo, as crianças não podem distinguir entre eventos físicos e mentais (Wellman
& Estes, 1986) até cerca de três anos de idade. É também por volta desse período que começam
a ser capazes de distinguir entre resultados intencionais e acidentais nos seus julgamentos de
histórias e o que acontece aos personagens (Yuill & Perner, 1988). Esta pesquisa é relevante
porque documenta o longo período da existência na infância durante o qual há confusão acerca
das relações realistas entre causas e efeitos. De mais a mais, não é antes dos seis anos de
idade que as crianças começam a usar estratégias puramente mentais para regular seus
sentimentos (Bengtsson & Johnson, 1987) e para levar a sério regras morais e convencionais
(Tisak & Turiel, 1988). Essas descobertas indicariam que a estratégia para viver sob essas regras
e a estratégia puramente mental de tentar regular instintos pela vontade se desenvolverão
relativamente tarde. Mais ainda, a observação naturalística tende a confirmar a posição original
de Freud, de que o interesse sexual, a sedução e o comportamento competitivo que as crianças
podem apresentar também não surgem até aproximadamente três anos de idade. Portanto,
quando o comportamento obsessivo-compulsivo é o resultado desses eventos edípicos, todas
as informações disponíveis tendem a indicar que esse tipo de adaptação começa a se
desenvolver relativamente tarde e continua se desenvolvendo por algum tempo.
Dito entre parênteses, também é provável que as estratégias a serviço de outras funções
(como, por exemplo, sustentar um self fragilizado) também sejam dominadas relativamente
tarde, embora possam ser motivadas por um dano no desenvolvimento ocorrido
consideravelmente mais cedo. Esse fenômeno de uma cobertura posterior de estratégias mais
sofisticadas para lidar com um complexo mais primitivo é bastante consistente com o tipo de
teoria caracterológica do desenvolvimento que estou tentando integrar aqui.
A peça final da teoria que precisa ser enfatizada é a extensão em que a solução
obsessivo-compulsiva sujeita o indivíduo ao provedor que é, nesse caso em especial,
supremamente incerto na sua resposta à criança. Quando a criança é muito boa, ela pode obter
elogios ou, pelo menos, ausência de críticas. Quando o provedor é muito exigente, no entanto,
a criança receberá um elogio qualificado, com uma observação sobre como ela poderia ter feito
um pouco melhor. Essa última resposta promove, é claro, o perfeccionismo da criança, que pode
alimentar a ilusão de que se ela fosse apenas um pouco melhor, poderia ter um contato positivo
menos qualificado com o provedor. Sendo assim, o ponto mais crítico a ser compreendido aqui
é que a adoção das normas dos pais pela criança e suas tentativas para cumpri-las estabelecem
a relação social e a identidade dentro dessa relação que todos nós queremos. Esse cumprimento
das normas familiares e ser o tipo de criança que se espera que você seja definem o self e
mantêm o contato necessário. A rigidez do modelo pode ser explicada pela combinação, nesse
caso tão óbvia, entre o evitamento da punição, a manutenção do contato e a identidade, através
do contato e da emulação. Então, é o medo de uma repetição da punição, assim como o medo
do isolamento – tanto do self do modo como foi definido pela família como da própria família –
que mantêm o modelo patológico, que em outro contexto poderia parecer tão absurdo até para
o próprio indivíduo.
Os temas terapêuticos são, é claro, a contestação gradual dessas defesas severas e a
gradual aceitação e expressão dos instintos, afetos e pensamentos repudiados. O insight sobre
a base dessas defesas rígidas, que requerem tanta segurança, é habitualmente muito proveitoso.
A construção da história completa que motiva esta necessidade extrema de controle e
funcionamento adequados em todas as dimensões pode produzir o tipo de compreensão
simpática do self que esses indivíduos absolutamente necessitam. O indivíduo precisa aprender
lentamente que essas garantias extremas de segurança não são mais necessárias e que padrões
de pensamento e comportamento novelescos, além de provocar ansiedade, não conduzem a
lugar nenhum próximo ao perigo, antecipado afetivamente. Ao longo desse processo, o indivíduo
precisa aprender a tolerar a ansiedade que o abandono das defesas e o alívio dos conteúdos
subjacentes provocarão, e uma boa aliança terapêutica, que não seja exclusivamente sóbria,
facilitará isso muitas vezes.
Em certo sentido, o obsessivo-compulsivo precisa ser dessensibilizado de seus próprios
sentimentos, e um processo gradual de desvendamento e frustração ideal é necessário para que
isto ocorra. Quase todos os especialistas nessa síndrome concordam que é importante manter
o cliente no aqui-agora desse processo e encorajar uma maior atenção aos sentimentos do que
aos pensamentos. Neste sentido, a relação terapêutica – transferencial, contratransferencial e
real – é uma escolha particularmente boa para o foco terapêutico, por causa de sua proximidade
e sua realidade potencial. O erro terapêutico mais comum nesse caso é o próprio terapeuta,
sendo ele mesmo um obsessivo-compulsivo, entrar em conluio com um modo de se relacionar
aos eventos e aos outros intelectualizado, distante, inafetivo, ou usar métodos que possam
facilmente desviar-se nessa direção (isto é, terapias cognitiva e comportamental e psicanálise
pedagógica).
Tabela 10 - Caráter Edípico: obsessivo-compulsivo
1. Constelação etiológica: Ocorre parentagem exigente, rígida, persistente, presa à
regras, especialmente em torno de treino para a socialização, controle de impulsos e
“domesticação” da expressão sexual, competitiva e agressiva. Não há, nesse controle, a invasão
e intrusão nos processos naturais do organismo nem a quebra da vontade que ocorrem no
masoquismo. A criança é antes encorajada, através da punição, do reforçamento e do exemplo,
a usar a sua vontade para domesticar todos os aspectos de seus impulsos animais, o
comportamento espontâneo, a natureza competitiva, os sentimentos suaves, etc. À medida que
o indivíduo atinge esse auto-controle e reserva exagerados, adquire o comportamento rígido,
sentencioso e pressionado que caracteriza esta personalidade. As obsessões e compulsões
servem para manter esta atitude emocionalmente restrita, precavendo o indivíduo contra os
afetos e instintos.
2. Constelação sintomatológica: Dominado por uma tensão dirigida e pressurizada
para fazer o que é correto, necessário ou imperativo. Essa imposição de necessidade objetiva
ou autoridade maior é constante e difusa, resultando numa vida de esforços contínuos
relacionados a propósitos sancionados. É difícil ter acesso a expressões espontâneas, escolhas
pessoais ou quaisquer sentimentos genuínos. São definidores a rigidez na postura corporal,
moral e outros julgamentos, ou a rotina nas atividades. Essa personalidade presa a regras fica
desconfortável com a liberdade; aliviar-se de uma preocupação conduzirá à ansiedade e à rápida
substituição por outra preocupação premente como tema de ruminação aflitiva. O perfeccionismo
e a protelação estão freqüentemente presentes e relacionados ao medo de fazer a coisa errada.
De modo similar, a dificuldade para tomar decisões reflete medos da expressão surgida dentro
do indivíduo e que, portanto, pode estar errada. O comportamento social pode ser pedante,
inafetivo e afetado, com uma ênfase na atuação correta do papel social. A depressão e os
pensamentos intrusivos, principalmente de natureza hostil ou sexual sádica, são, com
freqüência, problemáticos, aliados a pensamentos obsessivos perturbadores e comportamentos
compulsivos que, nesse nível sintomático, são experienciados como alheios e dominam o
indivíduo.
3. Estilo cognitivo: A atenção intensa, aguda, focalizada aos detalhes é associada a
uma tendência para perder as características essenciais das coisas. Um traço associado é o
isolamento entre entendimento cognitivo e significado emocional dos eventos, idéias ou
comportamentos. A atividade cognitiva pode persistir num padrão rígido, a despeito do fracasso
reiterado ou do absurdo do processo observado. Dúvida, incerteza e indecisão com freqüência
contaminam até as atividades mais simples.
4. Defesas: A ruminação, os rituais, a vida regrada servem para eliminar a necessidade
de ter acesso a impulsos ou desejos. Dúvida, indecisão, protelação, atenção mutável e postura
rígida, todas servem para esmagar o acesso cognitivo e afetivo aos conteúdos evitados.
5. Roteiro de decisões e crenças patogênicas: “Devo ter feito algo errado, preciso
fazer a coisa certa. Nunca mais cometerei outro erro. Preciso me controlar ou perderei totalmente
o controle.”
6. Auto-representação: Conscientemente, o indivíduo se percebe como consciencioso,
responsável, trabalhador, correto moralmente e em outras dimensões, tentando duramente ser
o tipo certo de pessoa. Ele se experiencia como preso ao dever de seguir um conjunto de regras
ou princípios determinados externamente, e não como uma agente livre com respeito pelos seus
próprios desejos e julgamentos. Inconscientemente, como ilustra o roteiro de decisões e crenças
patogênicas, ele abriga o sentimento de que fez algo terrivelmente errado e deve se manter sob
um controle severo, de modo a não transgredir novamente.
7. Representações e relações objetais: O indivíduo tende a ver os outros como a
personificação da autoridade a que ele está sujeito, ou como sujeitos de sua autoridade. Isso dá
um sabor de “em cima, embaixo” aos seus relacionamentos, que são freqüentemente formais,
com muita atenção à atuação adequada do papel como provedor, cônjuge, superior,
subordinado, etc. Lutas pelo poder muitas vezes caracterizam as relações, particularmente
quando as regras de relacionamento no papel exercido são de todo obscuras, ou quando pode
haver discordância quanto a tais regras. As pessoas acham esses indivíduos frustrantes, devido
à falta de conexão significativa ou comunicação real experienciados, rigidez de valores e
comportamento, afeto embotado e à aparentemente desnecessária pressão e tensão que eles
criam dentro de si e nos outros.
8. Características afetivas: Afeto excessivamente modulado conduzindo a um modo de
ser restrito e constrito, com pouco acesso ao sentimento. A pessoa experienciará ansiedade,
particularmente se as defesas fracassarem em contê-la efetivamente. A hostilidade subjacente
se expressa indiretamente ou através de pensamentos intrusivos, que podem ser sexualmente
sádicos ou violentos. O indivíduo separa idéias de sentimentos para que os pensamentos
perturbadores ou altamente positivos não produzam o impacto afetivo normal. Os sentimentos
suaves também são bloqueados e expressos indiretamente, se muito.
ESTRUTURA DE CARÁTER RÍGIDO
Fontes: Alexander Lowen, John Pierrakos, Susan Thesunga, Barbara Brennan, André Leites
O CORPO RÍGIDO
"David", a obra considerada como esplêndida, "sobrepujava todas as demais estátuas antigas
e modernas, latinas ou gregas” (Michelangelo)
3(*) N.T.: Bioenergética Alexander Lowen - Summus Editorial. Anatomia Emocional- Stanley Keleman-
Summus
Agora parece-nos oportuno analisar os diagramas de duplo triângulo (as “estrelas”) que
estão junto das descrições de estruturas de caráter no livro Bioenergética (Lowen 1975, pg. 131-
pg. 147). Trata-se de diagramas muito simplificados dos "fluxos" de sentimentos e energia que,
na vida real, são tão complicados que o intelecto humano não consegue compreendê-los
plenamente. O corpo humano pode ser representado como uma estrela com os braços e pernas
esticados, mas muitos dos processos de nossas vidas são melhor compreendidos quando
examinamos a estrutura tubular de nossos corpos. Entretanto, eu acho que estes diagramas em
forma de estrela (no livro Bioenergética pg. 122 e 123) são especialmente úteis quando mostram
o contraste entre a estrutura rígida de caráter e as demais estruturas de caráter. Compare, em
particular: (1) o bloqueio central em volta do "core" (núcleo) energético no esquizóide,
comparado com o bloqueio periférico do fluxo de energia no rígido; (2) o deslocamento para cima
da energia no psicopata comparada com a energia bem distribuída no rígido; (3) o
desalinhamento do formato corporal no oral e no masoquista (respectivamente: alongamento e
encurtamento) comparado com a ausência de distorção no rígido No rígido, "existe uma carga
bastante forte em todos os pontos periféricos de contato com o ambiente, o que favorece a
capacidade de testar a realidade antes de agir........ A retenção puxando para trás é periférica, o
que permite o fluxo do sentimento, mas limita a sua expressão". (LOWEN 1975). Em contraste
com as estruturas de caráter de baixa energia (esquizóide e oral), um forte core energético
alcança a periferia do rígido, de modo que ele pode interagir vigorosamente com o seu meio
ambiente. Em contraste com as outras estruturas de alta energia (masoquista e narcisista), a
direção do fluxo de sentimento não é distorcida (ou seja, dirigida para dentro, como na postura
de "alicate" do masoquista, ou puxada para cima), mas energiza todas as partes da periferia.
Estas comparações salientam os elementos mais aparentes da estrutura do caráter
rígido: o núcleo (core) de energia alcança e ativa a parte periférica do corpo, e o corpo é
“harmonioso nas suas partes”. (Lowen 1975). Mais adiante, vamos analisar as influências
ambientais que promovem o desenvolvimento da estrutura de caráter rígido; mas, como sucede
com todas as estruturas de caráter, nós precisamos também levar em conta uma influência
constitucional, genética. A criança que se torna rígida, nasce com músculos fortes e seu sistema
nervoso fornece boa coordenação para os seus músculos.
Embora nós possamos certamente ver "alguns elementos de distúrbios e distorções de
outras estruturas de caráter numa pessoa que é basicamente rígida, o corpo do rígido "é
proporcional e harmonioso em suas partes. O corpo parece ser, e sente-se integrado e
conectado" (Lowen 1975). Se você observar mais uma vez o "Alinhamento do Prumo Ideal" (Fig.
5 ), poderá ter uma idéia de um corpo “proporcional e harmonioso em suas partes”. Lá não
existem estreitamentos ou adensamentos indevidos em nenhuma área do corpo. Observe que
este rapaz não se encaixaria nos padrões atuais ideais da “mídia”, que acentuam o deslocamento
para cima.
A arte grega antiga, por outro lado, oferece muitos exemplos de corpos "bem
proporcionados" (Janson 1966 pg. 104-5, 115-7). As estátuas masculinas, esculpidas com
proporções clássicas, apresentam ombros e parte superior do tronco dotados de fortes músculos,
como acontece com os narcisistas dos dias modernos, mas eles se mantêm razoavelmente
largos na cintura e na pelve e têm pernas robustas. As figuras femininas têm uma cintura, mas
não é tão estreita como a preconizada pela mídia de hoje. Essas deusas denotam possuir carnes
macias em torno da cintura e nos quadris. Talvez você conheça as mais famosas obras de
Michelangelo, que também ilustram as proporções clássicas. A escultura O escravo agonizante
e a figura do Adão no teto da capela Sistina (Janson 1966, pp. 358, 360) são bem musculosas,
mas largas na cintura e na pelve. O David (Janson 1966, p.357) parece um pouco estreito na
cintura, mas isto é de se esperar nos jovens, cujos corpos não se desenvolveram completamente.
Seus quadris e coxas são também substanciais, não há ali nenhum estreitamento, e ele não está
puxado para cima pelo peito.
Uma forma de apreciar as diferenças energéticas entre o puxado para trás e o puxado
para cima é examinar novamente o continuum de Susto e Estresse (Keleman Summus, 1992
pg.88-89) que descrevi no Capítulo I. A primeira figura está em estado de alerta, consciente de
que há algo potencialmente ameaçador no seu meio ambiente. Ele levanta a mão num sinal de
"pare" mas seu corpo não está distorcido. Keleman (1985) comenta sobre esta figura: "A parede
exterior do corpo está comprimida, mas as cavidades permanecem sem nenhum distúrbio". Isto
é exatamente o que nós vemos num caráter rígido: existe uma contração crônica dos seus
músculos externos, mas os espaços internos do corpo não estão pressionados ou distorcidos.
Na próxima figura, a mão aparece num gesto de empurrar, enquanto a outra mão está com o
punho cerrado. É evidente o puxado para cima no contorno geral do corpo; a cintura é estreitada
e o peito está estufado. Agora as cavidades do corpo estão distorcidas. O espaço disponível para
os órgãos abdominais aparece estreitado e o diafragma (a parte inferior da cavidade torácica) foi
puxado para cima.
Embora não seja difícil notar as diferenças entre o corpo rígido, puxado para trás, e o
tipo de corpo narcisista puxado para cima, quando estamos observando estes desenhos planos,
já não fica tão fácil distinguir entre os dois quando temos a visão real tridimensional do corpo.
Lembre-se que, a partir de uma base muscular, não é possível distinguir completamente entre o
puxado para cima e o puxado para trás; e lembre-se também que, para permanecer eretos, os
humanos desenvolveram músculos posteriores que os puxam simultaneamente para cima e para
trás. Lembre-se ainda que o tipo sedutor do narcisista tem um de corpo mais normal, que não se
consegue distinguir do corpo rígido, no que se refere às suas proporções. O seu deslocamento
para cima, para dentro da cabeça e a sua auto-imagem ficam escondidos por detrás da sua
aparência de corpo dirigido para fora.
Existe uma variação de rigidez "desde o completamente saudável até o seriamente
neurótico" (Lowen 1958). Uma pessoa rígida menos severamente afetada era aquele paciente
fálico-narcisista de Lowen, dotado de "muita energia" e “um bem desenvolvida musculatura, com
bons tônus. Ele era bastante gracioso em seus movimentos e tinha bom desempenho nos
esportes...As partes distais das extremidades, pulso, mãos, tornozelos e pés, eram bastante
fortes." (Lowen 1958). Apesar de sua musculatura posterior ser "tensa e sem flexibilidade," sua
couraça geral não era tão forte a ponto de restringir sua agilidade de forma significativa. Uma
paciente (histérica) também era "fisicamente forte e ágil" (Lowen 1958). A força física e a
agilidade se refletem psicologicamente na capacidade destes indivíduos “para sentirem maior ou
menor segurança em suas relações com a realidade". Como resultado, eles se ajustam com
sucesso às exigências do trabalho e da vida social. Eles estão também "grounded genitalmente"
e tendem a ser sexualmente atraentes para os outros. Essa energia física permite a eles serem
"abertos para o mundo exterior, ambiciosos, competitivos e agressivos" (Lowen 1975).
Enquanto o grau de rigidez não é muito grande, o corpo tem uma aparência cheia de
vida. Os olhos são brilhantes, a cor da pele é boa, e os movimentos e os gestos são animados.
Quando a rigidez é maior, existe menos vivacidade: "os olhos perdem um pouco do seu brilho...o
tom da pele pode se tornar pálido ou acinzentado.... a coordenação e a leveza dos movimentos
ficam diminuídas...” (Lowen 1975). Nestes indivíduos a rigidez faz com que os movimentos do
corpo pareçam mais mecânicos, como numa moça que Lowen (1958) descreveu
detalhadamente. A adaptação dessa moça era fundamentalmente rígida, porque ela não
vivenciava as ansiedades das estruturas pré- genitais de caráter e ela era bem-sucedida em sua
profissão. De fato, o trabalho representava a sua adaptação, de modo que ela renunciou aos
anseios por amor e por auto- expressão criativa: "Ela relembrava seus anos de adolescência
como um período durante o qual ela só tinha se preocupado em alcançar alguma independência.
Ela era séria e quieta, não ria muito, não saía com rapazes. Ela queria ser atriz, mas quando se
formou no curso médio acabou optando por um emprego estável, por provar que era capaz de
se sustentar."
A história e a atual adaptação desta paciente revelam também, na verdade, elementos
esquizóides significativos: como "Sentia terror" ,"sentia isolamento, falta de contato com a vida",
e o corpo dela revelava algumas fragmentações típicas do caráter esquizóide". “O corpo dela,
especialmente as costas e os ombros, pareciam frágeis, como se pudessem quebrar quando
submetidos à força" (Lowen 1958). A rigidez do rígido é "como aço", a do esquizóide "como gelo,
quebradiça" (Lowen 1975). Esta paciente desperta a questão da distinção clínica entre a rigidez
do rígido e a rigidez do esquizóide. Eu já mencionei a diferença muscular entre a rigidez do
esquizóide e a do rígido, na minha explanação sobre a estrutura de caráter esquizóide.
Constituições genéticas, assim como experiências infantis precoces, irão influenciar qual tipo de
rigidez vai se desenvolver. Os músculos do corpo não funcionam como duas camadas
separadas, a superficial e a profunda; mas um exame visual e apalpação dos músculos poderão
indicar qual é o tipo de rigidez predominante.
O que pode servir de ajuda também é considerar as estruturas de caráter não somente
como "pré-genitais" e "genitais", mas também em termos de estado de desenvolvimento do
sistema muscular como um todo, à época em sofreu a dor maior que precipitou o distúrbio. De
fato, a capacidade de ser "genital" depende do bom funcionamento do sistema muscular. No
esquizóide, cuja existência não foi afirmada nos primeiros meses de vida, a dor maior aconteceu
quando os nervos que conduzem aos músculos eram ainda muito imaturos e a atividade motora
era quase completamente reflexa, e não voluntária. O sofrimento desencadeador mais
importante do caráter rígido da paciente ocorreu quando as habilidades motoras estavam
amadurecendo rapidamente, o que permitiu a ela uma resistência considerável frente ao seu
mundo. Assim, mesmo se a rigidez do caráter rígido se torna marcante, ela não se retira da
realidade como o esquizóide; ela usa a força dos músculos periféricos para se enrijecer mais
ainda, face à realidade. Você talvez consiga observar a diferença no seu próprio corpo. Se você
enrijece os ombros com a sensação de estreitamento de próprio corpo, como que o colocando e
retirando-o de um ambiente ameaçador, você sentirá um endurecimento dos músculos peitorais
e grande dorsal, os quais puxam os braços em direção ao peito e "os amarram" ao próprio peito.
Ao fazer isto, pressione os músculos de um antebraço com os dedos da sua outra mão. Eles
podem estar um pouco mais tensos que o normal, mas não de forma excepcional. Agora enrijeça
contra o ambiente ameaçador com um sentimento de resistência. Você sentirá os músculos
longos do antebraço - bíceps e tríceps – consideravelmente tensos. Você pode sentir esta
diferença na pelve e nas pernas também. O movimento de puxar para dentro e estreitar produz
um enrijecimento dos músculos ao redor das articulações do quadril, enquanto que o
enrijecimento endurece os músculos longos das pernas (quadríceps-isquiotibiais das coxas;
panturrilha e os músculos da canela) .
Lowen utiliza o paciente acima para ilustrar como as armaduras graves, do tipo rígido,
que "começam com os músculos superficiais", podem dirigir o “core” energético para bem longe
da periferia do corpo. Ele descreve os movimentos da sua paciente, como os do paciente
esquizóide, como movimentos aparentemente mecânicos. "Quando a frustração é muito grande
e a situação da vida é desfavorável, o organismo pode se tornar mais rígido, menos flexível, e o
processo então pode se estender até às profundezas. Enquanto a perda da elasticidade leva a
uma fragmentação, a extensão do processo de congelamento até as profundezas pode
realmente tocar o core com seus dedos gelados. Se disso resultar uma diminuição permanente
da formação dos impulsos, ocorre uma morte real no organismo." (Lowen 1958)
Muitas pessoas que tiveram uma adaptação rígida à vida, experimentaram, no entanto,
um trauma significativo na infância. Um dos meus professores de bioenergética observou que
muitas mulheres molestadas tiveram uma adaptação rígida, mas na terapia podem facilmente
colapsar de repente em temas precoces (Newlin 1990). Deste modo, o terror infantil que ocorreu
depois dos primeiros meses de vida pode causar um processo de "congelamento" ao redor do
core, que é rígido em sua origem; ele começa antes nos músculos periféricos, mais do que nos
músculos mais profundos, mas provoca alguns sintomas esquizóides.
Vamos agora observar as características anatômicas do processo de encouraçamento
periférico do rígido. "As áreas principais de tensão são os músculos longos do corpo. Espasmos
nos músculos extensores e flexores se combinam para produzir a rigidez" (Lowen 1975). No
Capítulo I vimos como as tensões crônicas nos conjuntos dos músculos antagônicos – por ex.
o bíceps, que flexiona o cotovelo, e o tríceps, que distende o cotovelo, produzem contrações
musculares que são fatigantes, mas improdutivas. Como você sabe, existem músculos longos
responsáveis pela flexão e extensão nos braços e nas pernas. Existem também músculos longos
no tronco que flexionam e alongam a espinha. É a tensão crônica nos extensores da espinha e
nos músculos abdominais (que flexionam o tronco) que produzem a característica "puxando para
trás" (Lowen 1975) no tronco. Dessa forma "puxando para trás" nas costas e "puxando para trás"
nos músculos dos membros são duas manifestações do mesmo problema muscular.
No livro O Corpo em Terapia (1958) Lowen discute em detalhes o processo geral de
encouraçamento. Há muito para aprender do que ele escreveu neste livro que se aplica ao
caráter do rígido como ele é compreendido hoje, apesar dos tipos histéricos e fálicos narcisistas
que ele descreveu serem hoje considerados sub-tipos do caráter narcisista. Talvez você ainda
se recorde que dissemos no capítulo anterior que Lowen também se refere a encouraçamento
no livro Narcisismo (1985). Tanto os indivíduos narcisistas como os rígidos apresentam uma
couraça, e isso os distingue das outras estruturas de caráter:
Toda a couraça é baseada na tensão muscular. Mas nem toda tensão
muscular é uma couraça. Esta depende da espasticidade: se ela serve para proteger
contra estímulos externos, e se ela efetivamente retém a ansiedade. As tensões
musculares graves, encontradas nos esquizofrênicos, no caráter oral e até no
masoquista, não constituem uma couraça. Indivíduos que sofrem destes distúrbios
são ao mesmo tempo sensíveis e super ansiosos. Qual é então a natureza exata de
uma verdadeira couraça muscular?
O estudo bioenergético da estrutura de caráter da histérica mostra que ela
é baseada numa total rigidez corporal. As costas são rígidas e não se flexionam. O
pescoço é rígido e a cabeça é mantida ereta. A pelve é mais ou menos retraída, e é
mantida em estado de rigidez. E o que é mais importante: a frente do corpo é dura.
A rigidez do peito e do abdome é que são essenciais para uma couraça. A parte da
frente é o aspecto suave e vulnerável do corpo, é o seu aspecto sensível, é o reino
dos sentimentos ternos. Se este aspecto estiver desprotegido, toda a assim
chamada couraça das costas não serve para nada. (Lowen 1958)
Enrijecer-se, com o objetivo de suportar a frustração é uma "reação de defesa natural
do organismo", mas o enrijecimento acaba se transformando numa couraça inflexível “quando
se torna caracterológica, isto é, quando fica sendo a única resposta que o indivíduo é capaz".
Então também o ego se torna inflexível (Lowen 1958).
Em seu estudo sobre o tipo histérico, Lowen (1958) também distingue dois tipos de
couraça, "rígida" e "flexível", sendo que esta última é marcada pelo "contorcer-se envergonhado”.
No entanto, nem sempre é possível caracterizar a couraça de uma pessoa como sendo esta ou
aquela, e na realidade "algum grau de contorcer-se envergonhado pode ser detectado em todas
as estruturas rígidas". No primeiro tipo há uma couraça em "placa" no peito e nas costas, que
diminui a agilidade e a vivacidade. No segundo tipo há um alto grau de vivacidade e uma aparente
falta de rigidez no plano físico: "Existe uma tensão muscular por toda parte, mas ela se revela
surpreendentemente flexível". Este tipo de couraça permite que mais energia seja produzida,
mas as sensações e expressões de impulsos ainda são limitadas. Lowen teoriza que energia é
desviada, neste tipo, dos genitais e do córtex cerebral por meio "de pequenos e constantes
movimentos do corpo que, se suprimidos, produzem ansiedade imediata", movimentos como
contorcer-se envergonhado, sorrir e rir (Lowen 1958). Reich tinha descrito este tipo de couraça
como "um tipo específico de agilidade corporal com uma nuance sexual muito acentuada" (citado
por Lowen 1958), que caracterizava a mulher histérica da sua época. Hoje em dia, num mundo
pós-vitoriano, abertamente sexualizado, uma mulher com uma "nuance sexual" acentuada em
seu corpo e no seu comportamento provavelmente não estaria inconsciente desse fato, como
sucedeu com as histéricas do tipo Freudiano, e provavelmente iria encaixar-se melhor na
categoria narcisista, com um superinvestimento de energia na sua imagem sexual.
Mesmo há 40 anos atrás, Lowen escreveu que "mudanças em nossos costumes sexuais
alteraram os aspectos superficiais dos tipos caracterológicos”. (Lowen 1958). Hoje em dia as
mudanças são ainda mais evidentes. Os papéis disponíveis às mulheres se ampliaram, e incluem
outras possibilidades para a expressão da rigidez, além do coquetismo constante. Nos dias de
hoje, a expectativa é de que uma mulher rígida seja menos do gênero "flerte", (que
definitivamente não é um meio seguro para alcançar o sucesso no mundo profissional moderno)
e mais o gênero "profissional", “mulher de carreira tensa”; ou ainda a mulher alegre, robusta e
atlética.
O corpo do tipo mulher histérica foi originalmente descrito por Lowen (1958) como "macio
e dócil" para baixo da cintura, "rígido e contido" acima dela. Lowen não menciona detalhes
específicos para homem/ mulher de caráter rígido no seu livro Bioenergética (1975), mas este
tipo de corpo feminino, ainda que continue sendo visto por aí até certo ponto, hoje em dia, não é
mais visto como "frio", nas palavras de um terapeuta atual (Jacques 1994). Desde que as
mulheres se integraram às forças produtivas, elas tiveram menor necessidade de "se submeter
para conseguir o amor e os favores do macho", (Lowen 1958) para assegurar a sua própria
sobrevivência econômica. Durante a infância as mulheres são cada vez mais estimuladas a
praticar atividades atléticas, e tomam mais iniciativas no estabelecimento de relações com
homens. Parece-me que as jovens rígidas que vejo por aí tendem a manter a pelve bastante
retraída, expressando assim menos submissão na área pélvica, e denotando maior assertividade
e teimosia. A suavidade da pelve feminina não está "na moda" hoje em dia: uma pelve mais dura,
musculosa, é preferida a uma pelve suavizada pela gordura. Mas o problema subjacente ao
rígido -- "os genitais dizem que sim, o coração diz que não" (Lowen 1958) - não mudou. Hoje em
dia uma mulher pode dar seu consentimento à atividade sexual muito mais agressivamente, mas
permanece a dificuldade principal, que é : o coração não pode participar.
Em seus primeiros estudos do caráter fálico-narcisista, Lowen (1958) descreve o corpo
rígido de um modo que permanece característico e nos ajuda ainda hoje em dia. Ele escreve que
no caráter rígido a camada muscular, tubular, exterior ao corpo, se torna rígida. Em
conseqüência, fica de certo modo prejudicada a natureza pulsátil do fluxo sangüíneo, o que
diminui até certo ponto a vitalidade natural do corpo. Tanto somática quanto psicologicamente, a
flexibilidade é diminuída. Além disso, a rigidez deste tubo muscular afeta a distribuição de energia
pelo corpo. "A natureza rígida em forma de tubo afunila a corrente de energia dirigida tanto para
o cérebro como para os genitais, freqüentemente sobrecarregando essas estruturas…. A
sobrecarga causa uma dificuldade para a corrente energética se alastrar nos seus "lagos"
naturais, antes de encontrar suas saídas de escoamento". Lowen considera a pelve e o cérebro
como reservatórios que impedem que os genitais e a cabeça sofram “sobrecarga ou
descarreguem a energia antes da hora." Na atividade sexual, se a pelve acima dos genitais não
consegue encher com sentimento, existe uma pressão para que descarregue rapidamente pelos
genitais. Da mesma maneira, na cabeça, "o cérebro atua como um reservatório para conter o
impulso, e possibilitar assim que ele seja submetido à apreciação crítica do ego. É impossível
conceber uma função de realidade sem esses reservatórios". (Lowen 1958)
Assim o caráter rígido é agressivo tanto no âmbito genital como no âmbito mental;
energeticamente, ele está voltado para a atividade sexual e para o sucesso mundano.
Infelizmente, embora esta rigidez de forma tubular “favoreça genialidade e realidade”, ela
também limita essas mesmas funções, e diminuiu a espontaneidade e a flexibilidade do caráter
rígido. Não consegue obter um alívio profundo ou uma satisfação profunda das suas atividades,
por causa da sua rigidez generalizada, e “por isso se vê compelido a continuar a busca e a
conquista”.(Lowen 1958).
Esta última frase de Lowen em relação à "conquista" seria mais característica no caráter
narcisista atual, do que do caráter rígido. No entanto o caráter rígido é também altamente
motivado para alcançar sucesso. Como mencionamos no último capítulo, o caráter narcisista
quer ser "o melhor de todos", enquanto o rígido quer ser "o melhor que ele puder ser" (Jacques
1994). Quando uma pessoa tenta satisfazer suas necessidades de grandiosidade através de
artimanhas ao invés de trabalhar duro, é fácil de se ver que ele é um narcisista, e não um rígido.
Mas nem sempre é fácil distinguir entre esses dois tipos. Assim como não se pode separar
anatomicamente por completo os tipos "puxando para cima" e “puxando para trás", o que nos
deixam com uma área cinzenta em que ambos ocorrem até certo ponto, existe também uma área
na qual as motivações rígidas e narcisistas podem aparecer misturadas. Há muita gente que
trabalha extremamente duro e sem distúrbios, para alcançar seus objetivos, no entanto há um
aspecto de grandiosidade nessa sua determinação: "Sou eu quem trabalha mais duro aqui", ao
invés de "eu dando o máximo que posso” (Tendências masoquistas também precisam ser
consideradas em pessoas obcecadas por trabalho, é claro, mas o resultado do trabalho
masoquista tende a ser menos bem-sucedido). No entanto, o indivíduo fundamentalmente rígido
"é capaz de obter gratificação de suas necessidades instintivas dentro do contexto de um todo
integrado de relações objetais" (Jacques 1994), enquanto que o indivíduo fundamentalmente
narcisista não consegue essa satisfação. A pessoa rígida tenta obter amor por meio de sua
realização. O narcisista é motivado não por um desejo de amor, mas por sua necessidade de
controlar os outros. Diferente do narcisista, o rígido possui um sólido sistema de valores que o
orienta. Sua auto-estima é bem regulada e, ainda que seja afetado pelas críticas, não é
esmagado por elas (Jacques 1994).
Embora o caráter compulsivo dos primórdios da literatura psicanalítica raramente seja
encontrado hoje em dia ( Lowen 1958), nós devemos extrair dos estudos de Lowen o que
permanece válido para o caráter rígido. Hoje em dia, os que trabalham "duro" são comumente
chamados "compulsivos" Seus colegas ou empregadores ao se referirem assim a eles, estão se
referindo à sua atenção aos detalhes, que freqüentemente incomoda aqueles que trabalham, ou
vivem com eles. Mas esta expressão significa atualmente muito pouco, em relação ao seu
significado psicológico original: "Compulsão: Psicol. a. Uma tendência ou impulso irresistível para
realizar um ato. b. Um ato ou uma série de atos assim executados (Funk e Wagnalls 1966). O
"compulsivo" de nossos dias se sente impelido a executar todo e qualquer ato relacionado com
o seu trabalho, não há mais aquela conotação de “executar o mesmo ato como um ritual,
repetidamente”. Mas o trabalhador "compulsivo" continua sendo o caráter rígido. Ele (a)
permanece ligado (a) à realidade, e apesar de perder espontaneidade, ele(a) freqüentemente
obtém um resultado quase perfeito, que garante seu sucesso.
Este tipo de compulsividade é muito procurado atualmente e é altamente recompensado
em muitos setores do mercado. Por exemplo, certa vez trabalhei num grande pronto-socorro,
onde trabalhavam vários médicos, que eram todos caracteres rígidos. Eles eram bons médicos
porque eram "compulsivos" no trato com os pacientes. Eles davam muita atenção aos múltiplos
detalhes das queixas de seus pacientes, exames físicos, raios-X, testes laboratoriais e planos
de tratamento. Eles até lavavam suas mãos entre um paciente e outro - mas apenas uma vez.
Eles eram diferentes em termos de personalidades individuais e na maneira como manifestavam
um continuum de rigidez:: um era bem rígido fisicamente por causa de sua couraça, outro era
ágil e atlético e um terceiro era rijo e tão energético que os outros o chamavam de "nervoso".
Nas suas vidas fora do ambiente de trabalho, alguns davam tanta atenção aos detalhes que de
certa forma amorteciam o sentimento de prazer; mas havia aqueles que tinham interesses
criativos, que lhes permitia combinar sua atenção aos detalhes com uma visão imaginativa, e
jovialidade, e lhes proporcionava um prazer real. Essa preocupação com detalhes certamente
marcava os seus relacionamentos pessoais, mas não chegava a arruiná-los. Eram médicos
cuidadosos, pais e cônjuges dedicados e amigos afetuosos.
A "personalidade compulsiva" típica seria muito mais inflexível do que esses médicos. A
rigidez desse compulsivo seria tão grande, que acabaria prejudicando a realização satisfatória
do seu trabalho, ou a sua capacidade de intercâmbio ("dar e receber”) nas relações pessoais.
Mas Lowen diz que, embora o homem fálico-narcisista o caráter compulsivo seja
"sintomaticamente diferente", ambos são estruturas "rígidas, encouraçadas, que diferem apenas
em grau...o comportamento compulsivo é a forma extrema de rigidez no plano psicológico. Essa
mesma rigidez excessiva, caracteriza a estrutura somática….O caráter compulsivo reprime seus
impulsos num grau elevado, que não se verifica em nenhuma outra estrutura de caráter." (Lowen
1958).
Devido a esse elevado grau de rigidez, o corpo do caráter compulsivo típico desenvolve
uma "solidez de pedra”, que confere uma impressão de dureza e força mas que “não permite
nenhum espontaneidade nos movimentos ou na expressão." (Lowen 1958). A postura "Tipo
Militar" (Fig. 8), é um exemplo desse tipo de rigidez corporal. Este é um tipo de masculinidade
geralmente idealizada nos filmes de guerra e nos filmes de “faroeste” das décadas passadas. Há
um bloqueio dos afetos, que se contrapõe à "intensa vida emocional" e à "carga altamente
prejudicada", da estrutura rígida de caráter originalmente descrita como fálico-narcisista. A
rigidez do caráter compulsivo "penetra mais profundamente em direção ao centro", semelhante
à séria rigidez de uma das pacientes femininas de Lowen, que estivemos descrevendo.
Movimentos e ações adquirem uma qualidade mais mecânica, forçada, "dirigida", porque o
movimento nessas condições "requer um grande esforço, (a nível inconsciente, é claro) para
vencer as resistências manifestadas pela dureza e pela solidez da estrutura". Este caráter
compulsivo, mais profundamente afetado pela rigidez, possui uma couraça mais semelhante às
"placas" do que às "malhas", e menos energia do que o tipo fálico- narcisista de rígido (tanto do
ponto de vista genital como falando de maneira geral) (Lowen 1958).
Ao procurar ilustrações para uma palestra sobre a estrutura de caráter rígido, deparei
com uma propaganda ("EU E MEU MOUSE" 1995) que capta perfeitamente uma situação da
infância de um indivíduo que será um provável futuro caráter rígido. Tratava-se do anúncio de
um novo programa de computador para gerenciamento de dados bancários, chamado "Microsoft
Money". Mostrava um rapaz de boa aparência, de óculos, sentado com as mãos no teclado de
um computador; no vídeo do computador, havia uma planilha colorida intitulada "Desempenho
dos Investimentos". No entanto, o homem não tem a cabeça voltada para a tela do vídeo, ele
está voltado sorridente para a sua filhinha. Esta também aparecia sorrindo, ao mesmo tempo em
que fazia uma pequena acrobacia: tirara os pés do chão, pendurando-se pelos braços, na cadeira
do pai. O que é mais fascinante nesta foto, é que a brincadeira da menina a colocou na pose
característica do rígido, pois ela está realmente "puxando para trás" sua coluna torácica e a
pelve, para poder equilibrar-se. Eu não considero uma coincidência o fato dos publicitários
colocarem pai e filha neste tipo de relação física. Imagine como seria diferente essa foto, se a
garota estivesse sentada no colo do pai e seus corpos estivessem em contato. Seria uma
situação muito descontraída (e erótica) que certamente iria desviar a atenção do pai no seu
trabalho. O tipo da situação que iria incomodar muitas pessoas, do tipo que organiza a sua vida
em função do trabalho, pessoas que teriam interesse por movimentação bancária via
computador. No entanto, o anúncio mostra que existe carinho nesta relação entre pai e filha, e
sugere que o pai a ama, além de ser um bom provedor, que a está ensinando a dar os primeiros
passos no busca do sucesso profissional. É exatamente isso que sucede na formação do caráter
rígido; durante o período Edípico (dos 3 aos 6 anos), é frustrado o “impulso da criança para obter
uma satisfação erótica" (Lowen 1958), e a sua energia erótica é canalizada para o trabalho. Na
tentativa de agradar os pais, a criança perde sua própria paixão, o que mais tarde irá prejudicar
os seus relacionamentos na vida adulta, bem como a sua criatividade.
Um pequeno detalhe desse anúncio, que eu não percebi inicialmente, é o emblema na
camiseta da garotinha: "AYSO". Como meus filhos foram durante anos membros da "American
Youth Soccer Organization" (Organização Juvenil Americana de Futebol), posso lhes dizer que
este é um terreno fértil para futuros rígidos na América. As crianças que têm sucesso no futebol
são ambiciosas, disciplinadas e amigáveis. São bons alunos, socialmente aptos e alimentam
altas metas para alcançar quando forem adultos. O futebol dá mais valor ao espírito de equipe
do que à gloria individual no campo; é uma experiência muito diferente das exibições de
patinação, ou de ginástica olímpica por exemplo. O futebol incentiva a atuação integrada com os
outros, e não a preocupação em “se destacar" acima dos outros, nessa disputa individual, que
prejudica tantos outros esportes atualmente. Por ser um jogo de estratégias complicadas, o
futebol requer muito pensamento (uma cabeça com alta carga de energia) e também muita
velocidade na corrida (uma pelve com alta carga de energia).
Meu filho caçula joga num time de futebol que tem ajudado muitos rapazes a obter bolsas
de estudos em escolas superiores. Ele e seus colegas de time têm hoje quinze anos, e é
interessante ver como esses garotos vão se transformando em jovens adultos rígidos. À medida
que sua capacidade para o pensamento abstrato melhora, eles jogam de forma cada vez mais
inteligente. E, com exceção de um único rapaz, num time de dezesseis, suas pelves estão se
tornando rígidas, arrebitadas para trás (e começando a mostrar os quadris enxutos e musculosos
que as garotas logo mais vão achar "uma graça").
Na outra ponta da trajetória que vai do útero ao túmulo, cito o anúncio de um clube para
aposentados. Em letras maiúsculas, começa com "Aposentadoria, cum laude" (do latim; com
glória), e continua: "Recomenda-se um Centro de Aposentados Whitney para o tipo de indivíduos
que encaram a vida com energia e estilo. Trata-se da primeira comunidade criada nesta região
para hospedar idosos, e fica próximo da Universidade de Yale. Oferecemos ótimas
oportunidades de enriquecimento intelectual e cultural. Nossos residentes são muito ativos e
interessados...muitos se formaram por alguma das melhores faculdades e universidades do país
("Retirement cum Laude" 1995.) A fotografia que ilustra esse anuncia mostra um casal bem
conservado, folheando um material escrito, juntos numa biblioteca - nada de espreguiçadeiras
ao sol para esses aposentados rígidos! Eles aparecem vestidos com suas roupas "desenhadas
para o sucesso": o marido de terno, camisa branca e gravata, ela com um vestido de corte
elegante. Ainda que o anúncio só mostre a parte superior dos corpos, o casal transpira energia
e motivação, que claramente os ajudou resistir à força da gravidade. Seus ombros ainda são
quadrados e suas colunas retas.
Emily Dickinson (1960) escreveu: "O Coração pede Prazer- primeiro-/ E depois - Evitar
a Dor". Quais foram as experiências vividas na infância, que fizeram uma pessoa sufocar o prazer
do coração, tanto durante a sua infância como na fase da aposentadoria, fazendo com que essas
pessoas se protejam contra mais sofrimentos, através de uma adaptação rígida? Mesmo que a
pessoa rígida tenha conseguido escapar dos "grandes traumas precoces que criam as posições
defensivas mais sérias", acabam ficando frustradas em sua "busca pela gratificação erótica,
especialmente no nível genital" (Lowen 1975) quando os pais proíbem masturbação, brincadeiras
sexuais e curiosidade sexual, ou quando os pais rejeitam os apelos eróticos da criança dirigidos
aos progenitores. (Lowen 1958). Embora o "conflito edípico" dentro da família contribua muito
para reprimir os impulsos genitais da criança, na cultura como um todo "a realidade da vida social
é antagônica ao seu impulso sexual... ,o impulso sexual da criança.... flui diretamente do coração
para os genitais... Nesse ponto, os sentimentos de ternura causados pelas sensações do coração
ficam unificados com as sensações genitais, numa única corrente de sentimento... Se essa
distinção for imposta à criança, acabará produzindo uma cisão do impulso unitário" (Lowen
1958).
Portanto a criança interpreta a rejeição ao seu impulso genital como sendo uma rejeição
ao seu amor. Ela fica com um "profundo sentimento de dor" que perdura durante toda a sua vida
(Lowen 1975). Mesmo que este sentimento de dor permaneça inconsciente, ele leva o indivíduo
a adotar uma atitude de orgulho e determinação, que expressam sua atitude, também
inconsciente, de que ele está decidido a não se deixar ferir outra vez. Mas a rigidez não contribui
tanto para diminuir a agressão disponível (como no caráter esquizóide, oral ou masoquista),
apenas contribuiu para imobilizá-la, "utilizando-a como uma função defensiva". O indivíduo sente
amor, mas a "traição sofrida em sua busca por amor" o leva a não mais buscar amor, a "se
reprimir" ao expressar amor. Esta é a origem do padrão de "puxado para trás" nos músculos
periféricos que o caráter rígido desenvolve (Lowen 1975).
Se os pais não se sentem bem diante das expressões eróticas da criança quando ela
atinge o estágio genital, eles tendem a direcionar a energia da criança para atos e realizações.
Quando a criança direciona a sua energia para realizar um trabalho, ela perde sua própria paixão,
e começa a trabalhar para manter o amor dos pais. (Newlin 1990). A criança acaba assumindo
responsabilidade demais e muito cedo. Lowen descreve um paciente masculino cujos ombros
muito enrijecidos eram para Lowen "um sinal de responsabilidade prematura". Este paciente era
motivado tanto pelo medo do fracasso, quanto pelas recompensas do sucesso.
O medo do fracasso está relacionado com este senso de
responsabilidade. O próprio paciente estava consciente de que sua vontade de ser
bem sucedido tinha como meta satisfazer os desejos dos pais e tinha como
motivação mais profunda o desejo de ganhar a aprovação e o amor de seus pais...
o paciente se lembrava de uma ocasião, durante seus primeiros dias de escola,
quando seu pai lhe contou que ficaria muito desapontado se o paciente não
obtivesse as melhores notas. O paciente recorda que ficou tão chocado ele com
essa afirmação, que resolveu que não voltaria para casa se falhasse na escola
naquele período letivo. (Lowen 1958).
O corpo do paciente mostrava o enrijecimento típico do rígido - "um maxilar contraído,
ombros duros, costas rígidas” - e suas atividades na vida refletiam seu corpo. Ele atribuía à sua
"persistência”, o poder de fazê-lo alcançar tudo o que queria, e essa persistência era o aspecto
psicológico de sua rigidez. Sua resposta adaptativa à pressão de seu pai não era nem fraca
(desistência) nem antagônica (provocativamente rebelde) mas um enrijecimento, uma
determinação de ser bem sucedido. Sua determinação era tanto uma tentativa contínua de
provara si mesmo que era merecedor do amor paterno, quanto uma teimosia em ser bem
sucedido, para que seu pai nunca mais pudesse ferir seu orgulho(Lowen 1958).
No livro "O Corpo em Terapia" Lowen discute em grandes detalhes a situação edípica
de cada um dos três tipos rígidos. Aqui vou mencionar apenas um outro traço comum aos três,
que contribui para o enrijecimento do rígido. Qualquer análise do conflito Edípico, tem que ser
considerada à luz do que hoje se conhece sobre a incidência do abuso infantil e seus efeitos
traumatizantes. mas Lowen reconhece o papel desempenhado na rigidez pelo medo que a
criança sente do genitor, bem como pela raiva dele resultante. Ele descreve uma mulher histérica
com um pai autoritário e uma ambivalência em relação ao sexo masculino que se estrutura como
rigidez no tronco da paciente. Sua necessidade de amor "é bloqueada pela raiva reprimida, e a
raiva é bloqueada pela necessidade reprimida de amor. A rigidez produzida pela repressão
desses impulsos antagônicos, um agindo pela frente e outro pelas costas do corpo, criam a
couraça rígida do caráter histérico. Cada repressão age como defesa contra os impulsos
antagônicos. A raiva não pode ser liberada enquanto o desejo sexual pelo pai ou o pai-
substituto... for reprimida. Raiva reprimida e orgulho bloqueiam o acesso ao anseio por amor"
(Lowen 1958).
De acordo com Lowen (1958), no sexo masculino, o medo do pai durante o período
edípico é o que basicamente produz o menos afetado dos tipos rígidos, o fálico-narcisista.
Embora já adulto, sua ambição agressiva é ainda motivada pelo desejo de superar o pai. Quando
uma mãe dominante é o genitor que mais frustrou durante o período edípico, o menino é
ameaçado por uma perda ainda maior do amor. Seu medo exacerbado, e sua raiva por estar
sendo ao mesmo tempo rejeitado e controlado, resultam na couraça mais grave do caráter
compulsivo. “O indivíduo compulsivo... submete-se e adapta seu comportamento às exigências
da autoridade. Ele evita a atividade genital, mas não renuncia à posição genital. Sua submissão
nunca é completa, pois ele não se rendeu, ele apenas se enrijeceu e se transformou num durão"
(Lowen 1958).
CARÁTER RÍGIDO
Character Styles - Stephen Jonhson pg. 230
Histérico ou Histriônico
Temas: amor, sexo, rivalidade, traição e incesto.
Inicialmente Freud acolhia as vivências de experiências sexuais precoces de seus
pacientes histéricos (6 masculinos e 12 femininos) que diziam ter sido alvo da sexualidade de
adultos, em geral da figura parental do sexo oposto.
Mais tarde ele negou, dizendo que eram fantasias originadas pelo desejo da criança, com base
no Complexo de Édipo.
Freud notou que as pessoas reviviam cenas de sexualidade na infância com detalhes; a
emoção era retirada do relato embora “enquanto se lembravam sofriam as mais violentas
sensações, das quais se envergonhavam e que tentavam esconder. E mesmo tendo revivido a
cena tentam negar o fato, justificando que não tem nenhum sentimento quando lembram a cena”
(dissociação). Steph Jonhson, pag 231.
Sistema Filhos
Autoimagem dupla: boa - princesinha do Papai. Inocente (tenta manter esta fachada).
Teme que emerja a mulher tentadora, prostituta, desprezível.
Má - que atrai o interesse do pai. E merece o ciúme da mãe. O mal
é a sexualidade.
Padrão de relacionamento com os homens: período de apaixonamento romântico
seguido de desapontamento e raiva. Procura o homem difícil, não disponível. Super valorizam
o homem, desvalorizam a mulher. Tem relações superficiais com mulheres.
Com a cisão, tentam neutralizar a culpa.
OBSESSIVO COMPULSIVO
Couraça rígida tipo placa. Adultos: traços infantis, animalescos, apaixonados, sensuais
ou de autoindulgência são mantidos sob estrito controle. Resulta comportamento obstinado –
passivo agressivo. Rebelião é difícil nessa família. Ênfase no controle e disciplina.
Existem 3 tipos de obsessivo compulsivo:
1 ) medo excessivo de sofrer danos físico (em si e nos outros) ou dano à propriedade.
Podem se preocupar a respeito de contrair AIDS, ou ter medo compulsivo de seus impulsos
hostis. Tais medos podem conduzir a rituais compulsivos como lavar-se ou verificar e checar as
coisas constantemente.
2 ) vago senso de desconforto em lugar de sentir verdadeiro perigo em face a situações
normais. Tem alto nível de excitabilidade psíquica, parecendo ansiedade generalizada, pode
conduzir a comportamentos obsessivos como arrumação excessiva, catalogar tudo, colecionar
objetos.
3 ) esforços de perfeicionismo e simetria. Podem por exemplo ter que amarrar os sapatos
com o mesmo grau de tensão, passar nas portas ficando exatamente no centro, etc. Sentem
muitos destes comportamentos como irracionais, embora o perfeicionismo muitas vezes seja
aceito e ego-sintônico.
Tenta fazer a coisa certa, aquilo que deve ser feito. Perde o contato consigo, com o que
deseja. Faz escolhas pelo que deveria ser certo, tem dificuldade de fazer escolhas. Para fazer
escolhas na vida, é necessário um contato sólido com as sensações cinestésicas, que falta ao
obsessivo. Encontra-se frequentemente às voltas com dúvidas quando tem que escolher e pode
fazer escolhas impulsivas para se livrar da ansiedade da dúvida.
Qualidades: Em áreas livres de conflito, tem pensamento organizado, racional,
detalhista. Podem ser excelentes em profissões como contador, advogado, tecnologia e
pesquisa.
Afeto: Sacrifica espontaneidade pelas exigências de ordem, eficiência e exatidão. Afetos
parecem ausentes.
Permanecem na periferia, focalizam em abstrações ou em contínuo conflito, para não
emergirem sentimentos ameaçadores.
O sentimento mais evidente para quem observa é a Raiva, que está encoberta na
obstinação, teimosia, persistência e rigidez típicas.