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Apostila Caráter Rígido

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MÓDULO DE MARÇO DE 2023

Tema:
 Organização Caráteres Rígidos: Psicodinâmica, Funções,
Anatomia/Fisiologia, Somatizações, Leitura Corporal, Transferência e
Contratransferência e ética.

Bibliografia:
 LOWEN, Alexander. O Corpo em Terapia, p 217 a 254 (caráter histérico I e II)
 LOWEN, Alexander. O Corpo em Terapia, p 255 a 274 (caráter fálico narcisista)
 LOWEN, Alexander. Bioenergética, p 146 a 149 (estrutura de caráter rígido)
TEMAS CARACTEROLÓGICOS DO SELF NO SISTEMA
Johnson, Stephen M. Character Styles. N Y, Norton, 1994 (cap. 4)

A TEORIA PSICANALÍTICA CLÁSSICA remonta todos os sintomas neuróticos ao


conflito edípico e, ao analisar os distúrbios de personalidade, entendeu-os como sendo
tipicamente pré-edípicos na sua origem. A posição adotada aqui, consistente com muitos teóricos
psicanalíticos contemporâneos, é que essa visão dicotômica não é somente uma simplificação
demasiada, mas uma incorreção. Parece claro agora que a psicopatologia “neurótica” pode girar
em torno de um certo número de temas existenciais básicos que ocorrem ao longo de toda a
vida, embora eles possam ter uma importância diferenciada nos primeiros anos. Além do mais,
a constelação de sintomas ou situações problemáticas das pessoas que lutam com a etiologia
edipiana pode, em geral, ser definida com uma especificidade muito maior. Finalmente, a teoria
caracterológica do desenvolvimento daria importância tanto aos impulsos sexuais e de rivalidade
– incluindo as lutas internas que esses impulsos provocam –, quanto à habilidade do meio
ambiente em frustrar de modo ideal e condescender com a expressão infantil do interesse sexual
precoce e da rivalidade.
Nesse sentido, os impulsos edípicos não são essencialmente diferentes de qualquer
outra forma de auto expressão básica, inerente, que requer respostas ambientais apropriadas.
As constelações de sintomas que derivam do tema edípico podem ser complexas porque
envolvem tanto a sexualidade como a rivalidade, e porque é triádico, abrangendo antes um
sistema do que uma díade. Tais interações complexas podem igualmente ocorrer em outros
temas, mas sempre acontecem nos temas edípicos.
O tema edípico é aquele complexo clássico delineado originalmente por Freud, que
envolve amor, sexualidade e competição. A compreensão desse complexo de questões é
imensuravelmente ampliada se simplesmente o percebermos como similar – em seus aspectos
mais essenciais –, a todos os outros desafios do desenvolvimento compartilhados pelo indivíduo
e o seu meio ambiente. O complexo de Édipo, como os complexos esquizóide, narcísico ou
masoquista, provém da inabilidade do meio ambiente em ser indulgente e frustrar idealmente
demandas existenciais do indivíduo. Particularmente, acredito que a psicopatologia de uma
natureza edípica está relacionada ora à exploração, ora à resposta ansiosa, ameaçadora e, com
frequência punitiva que as crianças recebem ao apresentar o amor sexualizado e a competição.
Essa era certamente a posição original de Freud, e tanto a história social (p. ex., vide Miller,
1984) como um século de relatos de casos clínicos nos fornecem todas as razões para acreditar
nisso.
É verdade que os temas edípicos são, sob muitos aspectos, mais difíceis de manejar no
plano ideal do que alguns temas mais simples apresentados até aqui. Os temas edípicos
abrangem tipicamente três ou mais pessoas e podem interagir facilmente com outros temas que
os precederam no desenvolvimento, produzindo desse modo mais permutações e combinações
de fatores etiológicos, mas o que acontece essencialmente no caso edípico é que a sexualidade
da criança não é autorizada e suportada amorosamente através de uma frustração ideal que
coloque limites claros. Ela é antes explorada, punida, ou as duas coisas. Por exemplo, você pode
encontrar um dos provedores explorando a sexualidade e os ímpetos competitivos que a
acompanham, tanto para a sua satisfação sexual quanto para expressar indiretamente sua
hostilidade para com o outro provedor. Simultaneamente, o outro provedor pode se sentir
ameaçado diante de tal comportamento e agir - direta ou indiretamente- de maneira ameaçada
e retaliatória para com a criança. Um provedor também pode encorajar e explorar a sexualidade
e a competição, mas quando elas se tornam excessivas ou quando ameaçam a relação com o
parceiro, se retrair com relação à criança, a humilhar ou punir por esses comportamentos
previamente encorajados. Quando há somente exploração, as crianças podem temer a punição
e, de qualquer modo, receberão tal exploração de sua sexualidade como um peso esmagador.
Ao aprender que não é seguro amar sexualmente de coração aberto e experienciar a
competição humana natural, essas crianças recuarão, se bloquearão e impedirão aqueles
pensamentos e sentimentos através de quaisquer defesas disponíveis. No período em que esses
problemas edípicos são proeminentes, as crianças têm acesso a uma gama muito ampla de
manobras defensivas para repelir esses pensamentos e sentimentos perturbadores. Essa é outra
razão pela qual as constelações edípicas podem ser bastante complexas. Os indivíduos podem,
por exemplo, disciplinar o afeto como defesa e desenvolver uma habilidade para riscar a sua
experiência interna perturbadora através da superdramatização histriônica de qualquer
sentimento. Os indivíduos também podem se manter preocupados com comportamentos
compulsivos e/ou pensamentos obsessivos. As crianças têm um grande repertório de habilidades
para melhorar o processo de ajustamento a esse tipo particular de ferida narcísica. Não é
incomum, para esses indivíduos, buscar aceitação e evitar uma nova ferida tentando desenvolver
uma persona perfeita, atingir a perfeição em todas as áreas de desempenho.
Lowen (1958) associou a etiologia edípica a um certo número de expressões
caracterológicas, incluindo a histérica ou histriônica, a obsessivo-compulsiva, a passivo-feminina
e a fálico-narcisista. Algumas dessas constelações envolvem a interação do tema edípico com
outros temas pré-edípicos (isto é, o caráter fálico-narcisista é uma interação dos temas narcísico
e edípico, e o passivo-feminino é a interação dos temas edípico e masoquista). A mim me parece
que há duas adaptações caracterológicas básicas, que essencialmente fornecem o suporte para
outras permutações e combinações: a histriônica (anteriormente histérica) e a obsessivo-
compulsiva. A histriônica representa o pólo etiológico mais caracterizado por um encorajamento
inadequado e a exploração da sexualidade e da competição, e a obsessivo-compulsiva estaria
preponderantemente voltada para a punição dessas mesmas expressões. Embora a literatura
clínica classifique a mulher como histriônica com uma freqüência muito maior, os homens
também podem receber esse diagnóstico. Os homens são os únicos portadores do diagnóstico
fálico-narcisista de Lowen e, embora os comportamentos desse caráter difiram do histriônico, as
dinâmicas etiológicas são muitas vezes bastante similares.
É crucial observar aqui que o comportamento obsessivo-compulsivo, em particular, pode
ser uma derivação de outras constelações etiológicas. Está se tornando cada vez mais evidente
que o distúrbio obsessivo-compulsivo em si, distinto da personalidade obsessivo-compulsiva,
pode ser um problema neurológico. O comportamento obsessivo-compulsivo enquanto
estratégia pode manter à margem muitos sentimentos inaceitáveis e prover um tipo de estrutura
artificial, na ausência de uma estrutura autêntica, mas também é uma compensação neurótica
comum para os impulsos edípicos inaceitáveis e pode derivar dessa constelação etiológica. De
modo semelhante, certos tipos de dissociação, negação e defesas afetivas típicas do caráter
histriônico também podem ser vistos como resultado de outras circunstâncias etiológicas, mas
essas defesas são vistas em geral, como seqüelas das circunstâncias etiológicas do tema
edípico.

O Tema Edípico no Caráter Histriônico


A maioria das histórias de mulheres histriônicas na literatura está cheia de mães rígidas,
frias e rejeitadoras e pais sedutores, emocionalmente infantis. O seguinte caso (Horowitz, 1989)
é arquetípico:
“A mãe da Srta. Smith era rígida e moralista. A sua família achava que ela era triste e
apresentava muitas vezes depressão. Devotada à Igreja Católica, ela trabalhava no comitê de
pornografia e se preocupou toda a vida com o decoro social... O senhor Smith era incomum...
uma das suas maiores excentricidades era o nudismo. Ele insistia em praticar nudismo pela casa,
inclusive tomava seu café da manhã pelado. Ele assumia a função de despertar cada filha e
deitava-se despido nas suas camas em cima das cobertas até que elas levantassem. No começo
de sua adolescência, isto embaraçou e transtornou tanto a paciente que ela suplicou à mãe que
o fizesse parar. Sua mãe teria chorado e alegado que era impotente... Embora o pai
repreendesse abertamente a filha mais velha pelo seu comportamento sexual, se interessava
veladamente e implicava com detalhes. Mais tarde, quando a Srta. Smith estava na faculdade,
ele queria visitá-la para flertar com a sua arrumadeira.” (Horowitz, 1989, pg. 202-204)
Paul Chodoff (1978) relata outro caso típico de personalidade histriônica:
“Produto de um meio familiar de riqueza e elevada posição social dos dois lados, O. viveu
com a sua mãe - que percebia fria, distante e não doadora – depois que os seus pais se
divorciaram, quando tinha cinco anos. Seu pai agradável, “perfeito”, tornou-se o foco de seus
desejos e fantasias, os verões passados com ele o ponto alto de sua vida. Durante essas visitas,
ela relatou episódios em que acordava encontrando o seu pai ao lado da cama roçando suas
costas por baixo da camisola. Em sua vida, por duas vezes O. esteve em vias de alcançar alguma
autonomia - como estudante universitária de dezenove anos e, mais tarde, cuidando dela e dos
filhos depois do fracasso do primeiro casamento. O primeiro período foi encerrado por uma
convocação do pai para voltar para casa e terminar a faculdade morando com ele; e o segundo,
pela promessa do atual marido de que a socorreria e cuidaria dela totalmente.”
Nesses casos, o isolamento com relação à mãe e a relação especial com o pai,
sexualmente carregada, persistem freqüentemente por um bom tempo na vida adulta, com uma
dependência prolongada da filha com relação ao pai, avanços sexuais inadequados ou uma
interação tinta de sexualidade ocorrendo entre eles. Esses pais fazem coisas como estas
enquanto compartilham de suas vidas íntimas com as filhas, contam piadas apimentadas,
sedutoras, ou mantêm símbolos românticos de um relacionamento especial, mais apropriados a
namorados do que a uma relação pai-filha.
Semelhante às famílias em que o abuso sexual da criança vai muito além, a família do
histriônico é caracterizada pela negação e pela racionalização. Claro que a criança modela estas
estratégias, que protegem cada membro da família de se defrontar com a desconfortável
realidade de suas existências juntos. A criança, pega no meio desse drama incestuoso, deve
muitas vezes ir mais além para se distanciar de todas as emoções e pensamentos esmagadores.
Isto, então, pode conduzir àquilo que Shapiro (1965) denominou de “estilo cognitivo
impressionista do histriônico”, em que há uma “incapacidade para a concentração intelectual
persistente ou intensa”, uma “distraibilidade ou impressionabilidade que se segue a ela” e um
“mundo não factual em que vive a pessoa histérica” (Shapiro, 1965, p. 113). Essa orientação
cognitiva mais global se faz acompanhar por uma superatividade emocional, que pode ter o papel
de uma defesa afetiva e que, freqüentemente, serve para coagir o ambiente a assumir a
responsabilidade por ela e perpetuar a dependência.
As pessoas histriônicas freqüentemente vêem a elas mesmas como crianças e entram
em relações nas quais brincam de “bonequinha” do “papaizão”. As mulheres histriônicas muitas
vezes gravitam em torno de homens mais velhos que possam tomar conta delas, replicando a
relação pai-filha, em que o tomar conta é trocado por uma espécie de fator sexual. A conversão
histérica foi identificada primeiro por Breuer e Freud pelas suas reações de conversão, que eles
relacionaram tipicamente com a “belle indifférence”, ilustrando o seu estilo cognitivo e
ressaltando o propósito defensivo subjacente do sintoma. Episódios dissociativos também
podem ocorrer quando o estresse é forte demais para ser manejado com mecanismos de defesa
mais adaptativos.
Os relacionamentos dos histriônicos, como o seu pensamento, são freqüentemente
superficiais e têm uma qualidade de “como se”, em que parece que a pessoa está representando
um personagem. Também há uma forte hostilidade inconsciente subjacente contra o sexo oposto
que, na superfície, é tão valorizado. Os seus relacionamentos são marcados por uma
característica repetitiva, como um jogo, em que à sedução sexual segue-se ora uma submissão
sexual a uma força maior, ora a raiva, o insulto ou uma rejeição vigorosa. Um outro sintoma dos
relacionamentos é a cisão entre os parceiros que estimulam o incitamento sexual e aqueles que
estimulam uma afeição mais sincera. Essa cisão, em que as necessidades sexuais e afetivas
podem ser satisfeitas, porém somente se forem isoladas umas das outras, protege o indivíduo
de entrar na situação original vulnerável em que foi ferido.
O tratamento bem-sucedido da personalidade histriônica demanda uma relação humana
genuína, em que todas as manobras afetivas, comportamentais e cognitivas usadas para evitar
pensamentos e sentimentos proibidos e a intimidade temida sejam lentamente dissipados. A
pessoa histriônica precisa conhecer seus impulsos sexuais e competitivos, sua história de ter
sido explorada e privada de amor e sua hostilidade, resultante dessa exploração e dessa
privação. Ela precisa reaprender como abrir seu coração, ser real e vulnerável e amadurecer
sexualmente e nos relacionamentos. Mais do que isso, ela precisa abandonar a informação falsa
do falso self histriônico e o investimento no seu gosto particular pelo perfeccionismo, e reinvistir
essa energia em reivindicar o seu direito inato ao amor profundamente sentido e sexual.
Finalmente, ela precisa amadurecer nos seus relacionamentos com outras mulheres, de modo a
que a competição não seja dominante nem negada na sua experiência, mas se torne
simplesmente uma inclinação humana evoluída.
Como em qualquer outra estrutura, a histriônica trará “desafios” que encorajam o
terapeuta a se tornar uma figura participante no “sistema fechado de realidade interna”. Quando
esse gambito acontece, os terapeutas são seduzidos quer sexualmente, quer num “cuidar”
inadequado e antiterapêutico e em papéis de autoridade, que perpetuam o ajustamento
existente. O caráter histriônico derivado de uma situação edípica foi resumido na Tabela 9.

Tabela 9 - Caráter Edípico


1. Constelação etiológica geral: os provedores exploram ou reagem negativamente à
sexualidade e rivalidade naturais da criança. Freqüentemente, essas respostas bipolares
ocorrem ao mesmo tempo, com um provedor sendo sedutor e explorador enquanto o outro é
ameaçador, frio ou diretamente punitivo. Esta tendência dupla quanto à sexualidade e/ou
competição pode ser exercida pelo mesmo provedor. Esse condicionamento resulta em certo
número de estratégias afetivas, comportamentais e cognitivas para reprimir ou manter fora da
percepção respostas instintivas. Esta repressão ou este repúdio resultam da impossibilidade de
uma frustração ideal e de uma tolerância com relação a esses impulsos, de modo que eles não
amadurecem nem se tornam adequadamente integrados na personalidade adulta. Embora sejam
inúmeras as permutações destas constelações triádicas, evidenciam-se dois temas: (1) as
constelações de sintomas e de personalidade resultantes de uma exploração relativamente
maior da sexualidade e da rivalidade (p.ex., caráteres histriônico e fálico-narcisista) e (2) as
constelações de sintomas e de personalidade resultantes de uma punição e restrição
relativamente maiores desses comportamentos (p.ex., caráter obsessivo-compulsivo). Eles
serão delineados separadamente – o histriônico a seguir e o obsessivo-compulsivo na Tabela
10.

Histriônico
1. Constelação etiológica: pelo menos um dos provedores explora a sexualidade
natural e usa a criança como objeto sexual. O outro provedor é muitas vezes frio, distante ou
diretamente punitivo, particularmente no que diz respeito à sexualidade e/ou a competição, ou é
visto assim em função da culpa e projeções associadas da criança.
2. Constelação sintomatológica: reatividade demasiadamente emocional,
comportamento exibicionista e dramático, relacionamentos sexualizados com negação da
sexualidade, experiência emocional superficial, processos de pensamento globais e imprecisos,
atenção excessiva dirigida ao sexo oposto, reações de conversão, episódios dissociativos, alta
propensão ao acting-out, altamente distraído, com dificuldade para sustentar a concentração,
dificuldades sexuais – incluindo dificuldade para se excitar, síndrome pré-orgástica,
dismenorréia, ejaculação retardada ou prematura, orgasmos insatisfatórios (superficiais), etc.
3. Estilo cognitivo: processos de pensamento globais, não lineares e
predominantemente emocionais, que servem para manter os afetos e pensamentos “perigosos”
fora da percepção. O pensamento é com freqüência mais visual e impressionista, resultando em
julgamentos rápidos e superficiais a respeito do significado de eventos, idéias e sentimentos e
numa ausência de detalhes fatuais e discriminação baseada na realidade.
4. Roteiro de decisões e crenças patogênicas: “O sexo é ruim. A competição e a
rivalidade são ruins. Meu valor depende da minha sexualidade e do meu poder de sedução. Toda
a gratificação provém do sexo oposto. Não posso amar, ser sexual, ser competitivo, preciso ser
mais atraente. Se eu sentir amor plenamente: 1) serei explorado ou rejeitado, 2) ferirei meus
pais, ou 3) sentirei vergonha.”
5. Defesas: Negação, repressão, acting-out, conversão, dissociação, externalização,
pensamento global e impressionista.
6. Auto-representação: Imprecisa e fluída, com o auto-conceito tendendo a se apoiar
mais na aparência, na aceitação social e nas experiências imediatas do que em realizações e
outras bases mais estáveis.
7. Representações e relações objetais: Relacionamentos freqüentemente
sexualizados, impulsivos e caracterizados por comportamento superficial de “troca de papéis”.
Os indivíduos do sexo oposto são extraordinariamente importantes conscientemente, mas
inconscientemente são alvo de uma hostilidade considerável, expressa muitas vezes depois de
ter sido criada alguma desculpa estereotipada. Há, via de regra, uma competição inconsciente
com relação aos membros do mesmo sexo. Temas de vitimização e relações provedor-criança
desamparada são comuns em relacionamentos muitas vezes repetitivos, “semelhantes a um
jogo”1.
8. Características afetivas: Afetos superficiais, “como se”, demasiadamente
dramáticos. Um alto nível de titilação sexual com uma ausência de sentimentos sexuais
profundos e maduros. O indivíduo pode facilmente ser esmagado por estados afetivos, com
pensamentos bloqueados ou muito controlados por experiências impressionistas e afetivas. Há
uma tendência para o acting-out como resposta a sentimentos. Sentimentos hostis e
competitivos não são conscientes, mas são expressos em interações repetitivas, “como se fosse
um jogo”.

O Obsessivo-Compulsivo
O caráter obsessivo-compulsivo constituiu-se naquela primeira constelação de
personalidade descrita por Freud e, até recentemente, era claramente a síndrome que foi melhor
descrita. É também o distúrbio de personalidade diagnosticado com mais freqüência e atribuído
mais freqüentemente aos homens (Fences, 1986). De fato, é discutido e demonstrado em tantas
pessoas de maneira tão comum – pelo menos numa extensão mínima -, que tendemos a não

1 No original, “gamelike”.
dar importância ao seu estudo porque pensamos que sabemos o que significa. O tema realmente
justifica uma atenção mais séria do que essa, particularmente por parte dos profissionais, porque
a compreensão das nuances da história típica, da fenomenologia e dos processos psicológicos
envolvidos pode causar um impacto significativo na nossa empatia e na nossa eficácia junto a
pessoas que sofrem deste distúrbio.
David Shapiro (1965) me ajudou a entender esse distúrbio enfatizando o papel de uma
volição ou vontade distorcida, dirigida ao controle e a prescrição do que não pode ser prescrito
ou controlado, como os instintos, os interesses espontâneos e os afetos, por exemplo. Nas
palavras de Shapiro, “a orientação intencional foi distorcida do seu significado mais subjetivo
enquanto extensão e, por assim dizer, representação do próprio querer, para assumir uma
posição de precedência sobre as vontades, até para dirigi-las. O impulso, nessa ordem de coisas,
não é o fator desencadeante do momento pleno de orientação intencional e do esforço, mas o
seu inimigo.” (p.37)
Shapiro também assinala a intensidade com que o obsessivo-compulsivo experiencia
“seu próprio inspetor, emitindo comandos, diretrizes, advertências, avisos e admoestações” (p.
34) como algo exterior a ele. Os valores e diretrizes do inspetor são aceitos, mas não são
resultado de uma escolha livre. Particularmente, à medida que as obsessões ou compulsões
parecem mais neuróticas ou absurdas, o indivíduo sente-se confundido, incomodado, perturbado
por elas e as experiencia como realmente alheias a ele. Essa característica externa ou alheia do
“inspetor sentado atrás emitindo comandos” tem todos os sinais inequívocos de um outro
inassimilável introjetado. Mais do que isso, conduz à projeção fora do self dessa introjeção, como
Meissner (1988) assinalou de modo tão convincente. Isto explica porque o obsessivo-compulsivo
justifica seu comportamento alegando que se comporta do modo como faz para satisfazer uma
necessidade objetiva ou um imperativo social que nós não experienciamos de modo tão absoluto.
Essa fenomenologia do inspetor exigente é consistente com a experiência clínica
reiterada dos clínicos, que trazem o relato de pacientes lembrando e muitas vezes percebendo
seus pais como pessoas severas, exigentes, rígidas e presas a regras, de modo geral. Descobre-
se com freqüência que os pais desses indivíduos ficaram particularmente ameaçados ou
desagradados pela a natureza viva, animal da criança, e estavam interessados em produzir um
pequeno cavalheiro ou uma pequena dama perfeita. Não raro, a reconstrução ou até a
experiência corrente dos pais é a de ficarem ameaçados pela competição ou pelo sucesso, que
os diminuiria, caso fossem comparados.
Semelhante às outras constelações etiológicas gerais, nem todas essas descrições se aplicam
a todos os casos. Aqui e nas tabelas de resumo – incluindo a Tabela 10 para esse caráter – eu
usei deliberadamente certo número de palavras relacionadas (mas diferentes) para descrever os
fatores etiológicos em função de sua utilidade clínica. Em certo caso, as palavras “severo” e
“exigente” podem fornecer uma descrição exata do cliente e, portanto, serem bastante úteis. Em
outro caso, as frases “ameaçado pelo sucesso” e “desagradado com a própria natureza animal”
podem apresentar uma descrição mais precisa e proveitosa.
Assim, a teoria caracterológica do desenvolvimento para o obsessivo-compulsivo é
simplesmente a seguinte: a criança introjeta e se identifica com o provedor e as normas ou
valores do provedor; no curso do desenvolvimento estrutural, procura usar o poder de sua
vontade para satisfazer essas normas introjetadas e viver de acordo com esses valores
extraordinariamente rígidos, negadores da vida e alheios ao corpo. A vontade é usada para
bloquear as expressões organísmicas originais, bem como para promulgar um falso self, que
consiste na atitude e comportamento corretos necessários para alcançar alguma semelhança de
contato positivo com um provedor muito incerto e nem sempre muito positivo. Esse é um exemplo
claro de uma reprodução caracterológica, isto é, a parentagem obsessivo-compulsiva produzindo
uma criança obsessivo-compulsiva.
É crucial assinalar que uma pessoa com traços obsessivo-compulsivos nem sempre é
melhor compreendida pela sua etiologia mais “anal” e “edípica”, como expressou a linguagem
psicanalítica tradicional. Até Lowen (1958), que fornece o argumento mais claro da etiologia
edípica dessa síndrome, reconhece que esses traços serão vistos com freqüência nos caracteres
oral e masoquista, principalmente (p. 157). Eu acrescentaria que se pode perceber muitas vezes
uma extrema rigidez apresentada por indivíduos de baixo funcionamento, que têm um sentido
precário de self. Nesses casos, o comportamento obsessivo-compulsivo não é defensivo no
sentido clássico, mas protege literalmente a pessoa do vazio e da fragmentação de um self
fragilizado. Em outras palavras, o indivíduo realmente se encontra na sua sistematicidade ou na
sua moral rígida, nas suas crenças políticas ou religiosas, e organiza a vida para viver de acordo
com elas. Assim, a rigidez não serve de defesa contra impulsos inaceitáveis, mas antes como
uma estratégia para organizar uma estrutura desorganizada. O que ofereço aqui trecho é o
desenvolvimento de uma compreensão do comportamento obsessivo-compulsivo com base
numa etiologia de cunho mais edípico e servindo como função defensiva no seu sentido mais
clássico.
Quando é esse o caso, as compulsões comportamentais, obsessões cognitivas e
atividades menos sintomáticas consistentes com essa personalidade podem ser melhor
entendidas como tentativas do organismo para se precaver ou manter sob controle estes
impulsos inaceitáveis, que tendem a ser sexuais, agressivos, competitivos e afetivamente
espontâneos. Tais “atividades” incluem a tendência obsessivo-compulsiva de viver “sob a mira”
de uma tensão e uma pressão constantes, difusas, para que ele faça, sinta e pense a coisa certa.
Essa pressão constante o mantém ocupado nos níveis da cognição e do comportamento e sob
controle, no sentido de inibir qualquer expressão espontânea potencialmente errada ou perigosa.
De maneira similar, a sua atenção intensa e estreitamente focada particularmente nos detalhes,
assim como seu modo característico de isolar o pensar do sentir o mantêm ocupado e distante
de comportamentos, pensamentos e sentimentos verdadeiramente desencadeados pelo self,
que possam ameaçar, gerar raiva ou desagradar o outro. Do mesmo modo, a sua dúvida,
indecisão e protelação evidentes o impedem de se comprometer com um curso de ação que, em
última análise, reflete um compromisso e uma escolha pessoais.
Além do mais, o comportamento social do obsessivo-compulsivo, notado pela sua
empolação, pela ênfase na atuação correta do papel social e pelo seu modo de se apresentar
pedante, dono de si e inafetivo, o mantém distante de seus próprios impulsos repudiados e de
quaisquer sentimentos perigosos com relação aos outros. Finalmente, a tendência do obsessivo-
compulsivo para estar muito atento e responsivo aos outros na dimensão da submissão-
subjugação também pode ser entendida como uma derivação da organização global da sua
personalidade: os outros são vistos como a personificação dos imperativos externos, das regras
sociais e necessidades objetivas que o indivíduo deve cumprir, ou como subordinados, que
devem ser corrigidos por essas regras. Os outros também podem ser percebidos como
ameaçados ou feridos pela natureza competitiva do indivíduo ou pelos seus sucessos, como o
era o provedor na luta edípica. De novo, a preocupação com as regras corretas, o
comportamento adequado, as atitudes apropriadas e os efeitos possivelmente adversos das
ações interpessoais mantêm o indivíduo ocupado e os impulsos perigosos fora da percepção.
Sintomaticamente, a repressão, a auto-regulação e a contenção negadora da vida criam
a depressão. Quando o indivíduo é realmente pressionado por eventos estressantes e/ou pela
pressão crescente de impulsos não resolvidos, não expressos, as obsessões e/ou compulsões
podem se apoderar dele de tal maneira que o levam a níveis absurdos nas suas preocupações
obsessivas e comportamentos compulsivos. Não raro, o fracasso das defesas em administrar
tudo isto conduz com freqüência a pensamentos intrusivos de natureza sexualmente sádica,
senão hostil. Esses pensamentos são extraordinariamente ego-distônicos, claro, porque estão
muito longe daquela boa pessoa que o indivíduo está tentando ser.
O obsessivo-compulsivo também é muitas vezes perfeccionista. Embora possa haver
alguma semelhança com o perfeccionismo do narcisista, este é um bom exemplo de como a
teoria caracterológica pode ser útil na produção de uma compreensão mais acurada e empática
das pessoas. O perfeccionismo do obsessivo-compulsivo é antes conduzido por uma
determinação de fazer voluntariamente a coisa certa e evitar a coisa errada. É como se ele
tentasse agradar ou apaziguar aquela autoridade externa e evitar a sua punição. O
perfeccionismo é motivado para evitar a censura, controlar o que é ruim no self e manter sob
controle o que ameaçaria ou desagradaria o outro.
No caso da etiologia e orientação narcísicas, o perfeccionismo é melhor conceituado
como uma interrupção do desenvolvimento na grandiosidade. Tentar ser perfeito sustenta a
ilusão do falso self grandioso e protege o indivíduo de mergulhar na nulidade ou no vazio. Nesse
caso, um desempenho perfeito, uma conquista ou uma auto-afirmação melhoram a auto-estima.
Por outro lado, no caso do obsessivo-compulsivo, o perfeccionismo é antes dirigido às tentativas
do indivíduo de controlar seus próprios sentimentos e motivações, para que ele seja o tipo certo
de pessoa e não agrida. Essa posição é de longe mais passiva e defensiva do ponto de vista
interpessoal do que a do narcisista, melhor reconhecido pela sua capacidade de mobilizar a
agressão e impressionar os outros com um comportamento que ele mesmo experiencia muitas
vezes como superficial, insincero e falso.
A teoria caracterológica do desenvolvimento é importante no trabalho clínico porque,
entre outras coisas, auxilia o profissional sugerindo o que procurar na história, na estrutura de
crenças, na atitude, na auto-representação e na sintomatologia, ajudando-o na compreensão do
que subjaz à expressão observada e no auxílio ao cliente para que ele próprio compreenda isto.
Depois, a teoria do desenvolvimento possui algumas prescrições quanto ao modo como os
problemas podem ser resolvidos. No caso do perfeccionismo, o indivíduo precisa aprender que
seus impulsos sexuais, agressivos e competitivos são normais, humanos e corretos e que não
podem ser subjugados à vontade? Ou precisa aprender que o seu perfeccionismo é expressão
de uma grandiosidade não resolvida no desenvolvimento pregresso, que requer que ele aprenda
a ter uma auto-estima mais realista, melhor harmonizada, “constante”, baseada na integração
daquilo que é maravilhoso e daquilo que é limitado dentro dele?
Voltando agora ao problema do obsessivo-compulsivo, poderíamos perguntar: quando é
que tudo isso se desenvolve? Não é possível responder a essa pergunta completamente, como
gostaríamos. Entretanto, sabemos que as crianças de fato começam a operar com base em
normas com cerca de dois anos de idade (Gopnick & Meltzoff, 1984). A pesquisa experimental
do desenvolvimento indica que um certo número de fatores operativos dessa adaptação
específica não se desenvolve até um pouco mais tarde do que vimos nos temas caracterológicos
revisados até agora.
Por exemplo, as crianças não podem distinguir entre eventos físicos e mentais (Wellman
& Estes, 1986) até cerca de três anos de idade. É também por volta desse período que começam
a ser capazes de distinguir entre resultados intencionais e acidentais nos seus julgamentos de
histórias e o que acontece aos personagens (Yuill & Perner, 1988). Esta pesquisa é relevante
porque documenta o longo período da existência na infância durante o qual há confusão acerca
das relações realistas entre causas e efeitos. De mais a mais, não é antes dos seis anos de
idade que as crianças começam a usar estratégias puramente mentais para regular seus
sentimentos (Bengtsson & Johnson, 1987) e para levar a sério regras morais e convencionais
(Tisak & Turiel, 1988). Essas descobertas indicariam que a estratégia para viver sob essas regras
e a estratégia puramente mental de tentar regular instintos pela vontade se desenvolverão
relativamente tarde. Mais ainda, a observação naturalística tende a confirmar a posição original
de Freud, de que o interesse sexual, a sedução e o comportamento competitivo que as crianças
podem apresentar também não surgem até aproximadamente três anos de idade. Portanto,
quando o comportamento obsessivo-compulsivo é o resultado desses eventos edípicos, todas
as informações disponíveis tendem a indicar que esse tipo de adaptação começa a se
desenvolver relativamente tarde e continua se desenvolvendo por algum tempo.
Dito entre parênteses, também é provável que as estratégias a serviço de outras funções
(como, por exemplo, sustentar um self fragilizado) também sejam dominadas relativamente
tarde, embora possam ser motivadas por um dano no desenvolvimento ocorrido
consideravelmente mais cedo. Esse fenômeno de uma cobertura posterior de estratégias mais
sofisticadas para lidar com um complexo mais primitivo é bastante consistente com o tipo de
teoria caracterológica do desenvolvimento que estou tentando integrar aqui.
A peça final da teoria que precisa ser enfatizada é a extensão em que a solução
obsessivo-compulsiva sujeita o indivíduo ao provedor que é, nesse caso em especial,
supremamente incerto na sua resposta à criança. Quando a criança é muito boa, ela pode obter
elogios ou, pelo menos, ausência de críticas. Quando o provedor é muito exigente, no entanto,
a criança receberá um elogio qualificado, com uma observação sobre como ela poderia ter feito
um pouco melhor. Essa última resposta promove, é claro, o perfeccionismo da criança, que pode
alimentar a ilusão de que se ela fosse apenas um pouco melhor, poderia ter um contato positivo
menos qualificado com o provedor. Sendo assim, o ponto mais crítico a ser compreendido aqui
é que a adoção das normas dos pais pela criança e suas tentativas para cumpri-las estabelecem
a relação social e a identidade dentro dessa relação que todos nós queremos. Esse cumprimento
das normas familiares e ser o tipo de criança que se espera que você seja definem o self e
mantêm o contato necessário. A rigidez do modelo pode ser explicada pela combinação, nesse
caso tão óbvia, entre o evitamento da punição, a manutenção do contato e a identidade, através
do contato e da emulação. Então, é o medo de uma repetição da punição, assim como o medo
do isolamento – tanto do self do modo como foi definido pela família como da própria família –
que mantêm o modelo patológico, que em outro contexto poderia parecer tão absurdo até para
o próprio indivíduo.
Os temas terapêuticos são, é claro, a contestação gradual dessas defesas severas e a
gradual aceitação e expressão dos instintos, afetos e pensamentos repudiados. O insight sobre
a base dessas defesas rígidas, que requerem tanta segurança, é habitualmente muito proveitoso.
A construção da história completa que motiva esta necessidade extrema de controle e
funcionamento adequados em todas as dimensões pode produzir o tipo de compreensão
simpática do self que esses indivíduos absolutamente necessitam. O indivíduo precisa aprender
lentamente que essas garantias extremas de segurança não são mais necessárias e que padrões
de pensamento e comportamento novelescos, além de provocar ansiedade, não conduzem a
lugar nenhum próximo ao perigo, antecipado afetivamente. Ao longo desse processo, o indivíduo
precisa aprender a tolerar a ansiedade que o abandono das defesas e o alívio dos conteúdos
subjacentes provocarão, e uma boa aliança terapêutica, que não seja exclusivamente sóbria,
facilitará isso muitas vezes.
Em certo sentido, o obsessivo-compulsivo precisa ser dessensibilizado de seus próprios
sentimentos, e um processo gradual de desvendamento e frustração ideal é necessário para que
isto ocorra. Quase todos os especialistas nessa síndrome concordam que é importante manter
o cliente no aqui-agora desse processo e encorajar uma maior atenção aos sentimentos do que
aos pensamentos. Neste sentido, a relação terapêutica – transferencial, contratransferencial e
real – é uma escolha particularmente boa para o foco terapêutico, por causa de sua proximidade
e sua realidade potencial. O erro terapêutico mais comum nesse caso é o próprio terapeuta,
sendo ele mesmo um obsessivo-compulsivo, entrar em conluio com um modo de se relacionar
aos eventos e aos outros intelectualizado, distante, inafetivo, ou usar métodos que possam
facilmente desviar-se nessa direção (isto é, terapias cognitiva e comportamental e psicanálise
pedagógica).
Tabela 10 - Caráter Edípico: obsessivo-compulsivo
1. Constelação etiológica: Ocorre parentagem exigente, rígida, persistente, presa à
regras, especialmente em torno de treino para a socialização, controle de impulsos e
“domesticação” da expressão sexual, competitiva e agressiva. Não há, nesse controle, a invasão
e intrusão nos processos naturais do organismo nem a quebra da vontade que ocorrem no
masoquismo. A criança é antes encorajada, através da punição, do reforçamento e do exemplo,
a usar a sua vontade para domesticar todos os aspectos de seus impulsos animais, o
comportamento espontâneo, a natureza competitiva, os sentimentos suaves, etc. À medida que
o indivíduo atinge esse auto-controle e reserva exagerados, adquire o comportamento rígido,
sentencioso e pressionado que caracteriza esta personalidade. As obsessões e compulsões
servem para manter esta atitude emocionalmente restrita, precavendo o indivíduo contra os
afetos e instintos.
2. Constelação sintomatológica: Dominado por uma tensão dirigida e pressurizada
para fazer o que é correto, necessário ou imperativo. Essa imposição de necessidade objetiva
ou autoridade maior é constante e difusa, resultando numa vida de esforços contínuos
relacionados a propósitos sancionados. É difícil ter acesso a expressões espontâneas, escolhas
pessoais ou quaisquer sentimentos genuínos. São definidores a rigidez na postura corporal,
moral e outros julgamentos, ou a rotina nas atividades. Essa personalidade presa a regras fica
desconfortável com a liberdade; aliviar-se de uma preocupação conduzirá à ansiedade e à rápida
substituição por outra preocupação premente como tema de ruminação aflitiva. O perfeccionismo
e a protelação estão freqüentemente presentes e relacionados ao medo de fazer a coisa errada.
De modo similar, a dificuldade para tomar decisões reflete medos da expressão surgida dentro
do indivíduo e que, portanto, pode estar errada. O comportamento social pode ser pedante,
inafetivo e afetado, com uma ênfase na atuação correta do papel social. A depressão e os
pensamentos intrusivos, principalmente de natureza hostil ou sexual sádica, são, com
freqüência, problemáticos, aliados a pensamentos obsessivos perturbadores e comportamentos
compulsivos que, nesse nível sintomático, são experienciados como alheios e dominam o
indivíduo.
3. Estilo cognitivo: A atenção intensa, aguda, focalizada aos detalhes é associada a
uma tendência para perder as características essenciais das coisas. Um traço associado é o
isolamento entre entendimento cognitivo e significado emocional dos eventos, idéias ou
comportamentos. A atividade cognitiva pode persistir num padrão rígido, a despeito do fracasso
reiterado ou do absurdo do processo observado. Dúvida, incerteza e indecisão com freqüência
contaminam até as atividades mais simples.
4. Defesas: A ruminação, os rituais, a vida regrada servem para eliminar a necessidade
de ter acesso a impulsos ou desejos. Dúvida, indecisão, protelação, atenção mutável e postura
rígida, todas servem para esmagar o acesso cognitivo e afetivo aos conteúdos evitados.
5. Roteiro de decisões e crenças patogênicas: “Devo ter feito algo errado, preciso
fazer a coisa certa. Nunca mais cometerei outro erro. Preciso me controlar ou perderei totalmente
o controle.”
6. Auto-representação: Conscientemente, o indivíduo se percebe como consciencioso,
responsável, trabalhador, correto moralmente e em outras dimensões, tentando duramente ser
o tipo certo de pessoa. Ele se experiencia como preso ao dever de seguir um conjunto de regras
ou princípios determinados externamente, e não como uma agente livre com respeito pelos seus
próprios desejos e julgamentos. Inconscientemente, como ilustra o roteiro de decisões e crenças
patogênicas, ele abriga o sentimento de que fez algo terrivelmente errado e deve se manter sob
um controle severo, de modo a não transgredir novamente.
7. Representações e relações objetais: O indivíduo tende a ver os outros como a
personificação da autoridade a que ele está sujeito, ou como sujeitos de sua autoridade. Isso dá
um sabor de “em cima, embaixo” aos seus relacionamentos, que são freqüentemente formais,
com muita atenção à atuação adequada do papel como provedor, cônjuge, superior,
subordinado, etc. Lutas pelo poder muitas vezes caracterizam as relações, particularmente
quando as regras de relacionamento no papel exercido são de todo obscuras, ou quando pode
haver discordância quanto a tais regras. As pessoas acham esses indivíduos frustrantes, devido
à falta de conexão significativa ou comunicação real experienciados, rigidez de valores e
comportamento, afeto embotado e à aparentemente desnecessária pressão e tensão que eles
criam dentro de si e nos outros.
8. Características afetivas: Afeto excessivamente modulado conduzindo a um modo de
ser restrito e constrito, com pouco acesso ao sentimento. A pessoa experienciará ansiedade,
particularmente se as defesas fracassarem em contê-la efetivamente. A hostilidade subjacente
se expressa indiretamente ou através de pensamentos intrusivos, que podem ser sexualmente
sádicos ou violentos. O indivíduo separa idéias de sentimentos para que os pensamentos
perturbadores ou altamente positivos não produzam o impacto afetivo normal. Os sentimentos
suaves também são bloqueados e expressos indiretamente, se muito.
ESTRUTURA DE CARÁTER RÍGIDO
Fontes: Alexander Lowen, John Pierrakos, Susan Thesunga, Barbara Brennan, André Leites

Subtipos(1): Sexo masculino: fálico-narcisista, passivo-feminino.


Sexo feminino: histérico, masculino-agressivo.
Qualidades da essência: Paixão, liderança, dedicação, persistência, clareza.
Tarefa na vida: Colocar sentimento e compaixão em todas as atividades das suas vidas.
No relacionamento romântico, conectar o coração e os sentimentos sexuais.
Interrupção do desenvolvimento: Estágio genital. Forte emergência do conflito na
puberdade.
Trauma: Rejeição sexual, resultando em uma divisão entre a sexualidade e os
sentimentos do coração.
Sintomas apresentados: Sensação de desvalorização; um sentimento de falta algo na
vida, devido à falta de capacidade de sentir profundamente e/ou de estabelecer relacionamento
amoroso profundo.
Padrões físicos/energéticos: Alta energia. O intelecto e a vontade são muito ativos.
Tensões corporais/padrões de retenção: Muitos músculos com espasmos tônicos;
armaduras em placas ou rede trançada. Orgulho endurece o pescoço e retenção na mandíbula.
Circulação corporal: Pélvis fria.
Energia localizada: Na periferia e retirada da Essência. Energia na atividade e na
vontade, forte energia nas costas, ou centros da vontade, não no centro da receptividade ou do
coração.
Defesas energéticas primárias: Exibição de poder/vontade; limites de contenção;
histeria.
Distorções na sexualidade: Sexo com desprezo e ou fantasias sádicas ou
masoquistas; incapacidade de conectar sentimentos do coração com os genitais.
Padrões de personalidade: Tende a ser arrogante e distante. Usa a razão e a vontade
em detrimento dos sentimentos. Portanto, é com freqüência insensível aos sentimentos alheios.
É geralmente enérgico e bem-sucedido na carreira, o que é visto como mais importante que
relacionamentos pessoais íntimos. Assim, esta estrutura tende a ver as pessoas mais como
instrumentos que como indivíduos.
Defeito principal: Orgulho.
Exige o direito de: Ter sentimentos.
Injunção da máscara: “Eu estou bem; eu não preciso de nada”; “Eu sou melhor que
você”. Injunção do Eu Inferior: “Eu não vou amar você”.
Intenção negativa: “Eu não vou me entregar”; “Eu não vou abrir mão do controle”.
Conflitos por trás da intenção negativa: Sexo versus amor.

(1)Oscaráteres passivo-feminino (homem) e masculino-agressivo (mulheres) são descritos por


Lowen em “O Corpo em Terapia” como caráteres mistos. Possuem traços de rigidez combinados
com masoquismo e psicopatia. John Pierrakos aprofunda a compreensão deste subtipo em “A
Energética da Essência”, cap.15.
Injunção do eu superior: “Eu vou amar você”.
Precisa: Conectar o coração com a sexualidade; abrir mão do autocontrole e sentir mais.
Padrões interpessoais: Tende a evocar as seguintes reações não produtivas no
facilitador: competições; sentimentos de rejeição; intimidação; sedução.
Comunica-se por meio de: Afirmações ou qualificadores (Sim, mas...). Parecerá
escutar os outros, mas sempre defendendo os próprios limites.
Tipos de linguagem: Sedutora ou agressiva.
Duplo-vínculo no qual sente estar: Procurar em situação de terapia: Tremendo conflito
entre a sexualidade e os sentimentos – qualquer das escolhas está errada.
Qualidades necessárias no facilitador: Paciência; uma capacidade de não ficar
“enganchado” pelos desafios (sedução, desprezo ou agressão em relação ao facilitador) e
racionalizações que o caráter rígido utiliza para defender-se contra abandonar-se aos
sentimentos. Apoio gentil e confiável para os sentimentos vulneráveis à medida que emergem.
Disposição para manter o coração aberto para o paciente sem esperar nada em troca.
Consciência de que por sob a defesa, às vezes espinhosa e orgulhosa, existem feridas
profundas.
Qualidades da essência: Paixão, liderança, dedicação, persistência, clareza.
Técnicas de diagnóstico: Procurar forte autocontrole em combinação com a tentativa
de evitar mais profundo contato pessoal. Existe com freqüência uma sensação de que a estrutura
rígida de caráter possui uma muralha invisível, mas energeticamente palpável, à sua volta, que
não pode ser penetrada. Eles têm com freqüência uma carreira bem-sucedida e são em geral
muito ambiciosos. A queixa de que algo está “faltando” em suas vidas é comumente um
indicador. O sistema energético é forte e parece bem integrado. Mas os centros dos sentimentos
na frente do corpo tendem a estar fechados antes da pessoa ter feito algum trabalho, enquanto
que os centros da vontade nas costas estão abertos. Esse fenômeno pode ser sentido. Há muitas
vezes uma qualidade marcadamente resguardada na área do peito (para proteger o coração). A
musculatura é tensa e dá a sensação de uma armadura destinada a manter os outros de fora.
Métodos de trabalho: É bom trabalhar carregando o corpo enquanto se encoraja a
expressão de quaisquer sentimentos que surjam. É importante estabelecer tanta confiança
quanto possível com a pessoa, pois os sentimentos vulneráveis são uma experiência muito
assustadora para o caráter rígido. Ele foi traído antes e espera ser traído novamente se abaixar
a sua guarda. É comumente difícil para tal pessoa sentir-se suficientemente motivado para
assumir os riscos envolvidos em uma maior exposição emocional, vez que a maior parte da sua
vida está provavelmente “integrada”. Eles são com freqüência recompensados por sua posição
de poder e agressividade no mundo, sendo “bem-sucedidos”, tal como o mundo o define, um
mundo no qual a agressão é consistentemente utilizada como defesa e no qual sentimentos
ternos reais (em lugar do sentimentalismo ou Eros – amor romântico) raramente são valorizados.
Assim, o sucesso exterior da pessoa pode aprofundar tanto a negação de que algo esteja errado
no seu interior, quanto a confusão quando a pessoa sabe que algo está errado, mas que não é
compreendido pelos outros (com freqüência é até invejado pelos outros). Muitas vezes é
necessária uma crise para iniciar o processo de auto-exame. O facilitador precisa ajudar
constantemente a pessoa a compreender e sentir o preço pessoal a ser pago por sua rigidez e
defensividade. Um ponto de vista espiritual pode ser por fim necessário para que a estrutura
rígida compreenda o preço que é pago para manter uma atitude de orgulho e superioridade. Se
a pessoa tem um objetivo consciente de se abrir espiritualmente, de se unificar com os outros e
com toda a vida, então os rígidos limites de sua defesa podem ser mais claramente vistos como
um obstáculo – ao amor, à compaixão, à unificação. Mesmo assim, é uma estrada especialmente
difícil para essa estrutura, uma vez que o medo de tornar-se novamente vulnerável é imenso.

O CORPO RÍGIDO

"David", a obra considerada como esplêndida, "sobrepujava todas as demais estátuas antigas
e modernas, latinas ou gregas” (Michelangelo)

Puxando para trás2: Características Gerais


Em seu primeiro livro O Corpo em Terapia (1958), Lowen descreveu em detalhes três
diferentes representações da estrutura do caráter rígido. No livro Bioenergética (1975) ele
novamente classificou estes três tipos como rígidos: "O termo ‘caráter rígido’ foi adotado na
Bioenergética para descrever o fator comum em várias personalidades rotuladas de forma
diferente. Assim,” caráter rígido “inclui o homem fálico, narcisista, cujo foco está na potência da
ereção e o tipo Vitoriano da mulher de caráter histérico, que Reich descreveu no livro Análise de
Caráter, aquela que usa o sexo como defesa contra a sexualidade. O caráter compulsivo, já fora
de moda, também pertence a esta ampla categoria." Entretanto, conforme eu mencionei no
capítulo anterior, Lowen, no seu livro Narcisismo (1985), reclassificou o homem fálico narcisista
e a mulher histérica como o tipo narcisista de menor significado patológico. Nesta época Lowen
parece ter dado maior importância ao investimento egóico num falso self e na sua imagem (em
particular, na imagem sexual) nos indivíduos fálico- narcisistas e histéricos.
Neste capítulo eu tentei distinguir o que ainda hoje é considerado rígido na teoria
bioenergética, em comparação com as descrições físicas detalhadas dos tipos fálico- narcisista,
compulsivo e histérico registrados por Lowen em 1958. Felizmente, nos anos anteriores,
distúrbios narcisistas foram amplamente descritos na literatura psicanalítica. Lowen concentrou-
se mais em aspectos destes três tipos, que ainda hoje descrevem o corpo rígido. Se Lowen
estivesse trabalhando agora com pacientes como aqueles que ele descreveu em O Corpo em
Terapia, Lowen provavelmente iria perceber melhor do que efetivamente notou naquela época,
o maior deslocamento de energia para cima, para fora da pelve. Mas ele não descreveu este
padrão energético até 1975, quando introduziu no livro Bioenergética a estrutura do caráter
psicopático.

2 Pulling back = “puxando-se para trás” – energia dirigida para trás


A emergência da estrutura de caráter narcisista, que não foi percebida nos anos 50, está
sem dúvida relacionada com as mudanças sociais. Em primeiro lugar, parece que aumentou de
forma marcante a incidência dos distúrbios narcisistas. Com o desenvolvimento dos meios de
comunicação de massa, e seu alcance invasivo na nossa vida cotidiana, nós tendemos a julgar
nossos corpos e ações, comparando-os com o padrão daqueles que estão "acima" de nós por
sua fama, beleza, realizações, etc.: pessoas com as quais nós não temos nenhum
relacionamento real. À medida que a televisão, a partir dos anos 50, começou a absorver cada
vez mais tempo da vida das pessoas, estas dedicaram cada vez menos tempo se relacionando
com outras, quer em suas casas ou nas vizinhanças. A televisão e outras mudanças
tecnológicas, tais como a dependência cada vez maior das máquinas para o trabalho e dos
veículos para o transporte, também contribuíram para diminuir o tempo que as pessoas
despendem em atividades físicas, que facilitam a percepção do próprio corpo e o prazer que dele
podem derivar.
Um segundo aspecto é que os papéis sexuais mudaram desde 1950. Estas mudanças
afetaram a expressão da psicopatologia através do comportamento e do tipo de corpo e o que é
considerado patológico. Nos anos 50, a sociedade ainda era patriarcal. Os homens eram “os
responsáveis” em casa, na vida política e nas artes de cura. Antes do Movimento Feminista
ganhar força nos anos 70, eram os homens quem definiam o que é saúde mental e o que é
patologia. Até certo ponto, o narcisismo era considerado um comportamento masculino normal.
Hoje em dia o narcisismo, permanece em princípio considerado como uma estrutura de caráter
masculina. Mas algumas das suas expressões, como abuso infantil e conjugal, por exemplo,
passaram a ser caracterizados como patológicas, desde que as mulheres passaram a atuar nas
ciências sociais.
Pessoas que investem tremenda energia na construção de novos paradigmas
conceituais e que publicam amplamente suas opiniões, escrevendo muitos livros - Freud, Reich
e Lowen, por exemplo - podem muito bem ter por motivação o desejo de se “elevar” acima da
média, por meio do seu intenso trabalho intelectual. Minha intenção aqui não é menosprezar o
valor das idéias destes pensadores. No entanto, a pessoa que conscientemente está preocupada
em melhorar a vida dos outros muitas vezes não está consciente de sua necessidade de ocupar
uma posição controladora. Freud por exemplo, repetidamente "excomungava" discípulos quando
eles desenvolviam idéias que desafiassem as suas próprias.
Reich e Lowen descreveram o "rígido" como a menos patológica das estruturas de caráter, e
Lowen considerava-se dentro desta categoria. Ele escreveu: "Eu sempre me considerei um
caráter fálico-narcisista." (Lowen 1985). Reich parece ter-se considerado o saudável "caráter
genital" (Sharaf 1983). No entanto, livros escritos por e sobre Reich revelam um aspecto
megalomaníaco no seu desejo intenso de despertar uma revolução social por meio do seu
trabalho (Reich, 1973, 1988; Sharaf 1983). E Lowen admite que seu maior desejo quando jovem
era ficar famoso. "[Reich] disse-me: “Lowen, se você está interessado neste trabalho, só existe
uma maneira de penetrar nele, terá que submeter-se igualmente a uma terapia’. Sua afirmação
me desconcertou, porque eu ainda não pensado nisso. Eu disse a ele, "Eu estou interessado,
mas o que eu quero é me tornar famoso". Reich ......respondeu: "Eu o farei famoso” (Lowen 1975
). Na obra de Reich e nos primeiros trabalhos de Lowen, o deslocamento para cima parece ter
ficado inconsciente, à sombra das personalidades destes homens, devido a razões sociais e
pessoais. Como Lowen realizava o seu trabalho numa época em que o narcisismo era
reconhecido como um padrão psicopatológico cada vez mais importante, ele se tornou mais
consciente deste aspecto em seus pacientes e nele próprio.
Este acoplamento precoce, do que hoje se considera duas distintas estruturas de caráter,
ainda é evidente no livro Anatomia Emocional, de Keleman3 (1985). O sistema de classificação
dos tipos corporais de Keleman é um tanto diferente do de Lowen mas é interessante notar que,
dentro da sua categoria rígida, ele distingue dois tipos que têm diferentes "posturas anti-
gravidade": "rígido, puxando para trás, contido" e "rígido, puxando para cima, dominador".
(Keleman 1985, pg. 121-123-124; veja também pg 167, 2 ilustrações no canto inferior esquerdo).
A ilustração do tipo puxado para cima (puxado para cima), dominador, mostra um homem com
uma coluna reta e peito estufado sobre pernas e pelve estreitas. As flechas de força sobre todo
o seu corpo estão direcionadas para cima. Isto corresponde à estrutura de caráter do
"deslocamento para cima" da qual estivemos falando no último capítulo. A ilustração da estrutura
de caráter do tipo “contido” e “puxado para trás” (puxado para trás), também mostra um peito
razoavelmente inflado, mas as curvas cervical e lombar da coluna são exageradas, e a pelve, a
parte superior das costas e a cabeça são puxadas para trás. As flechas de força não se dirigem
exclusivamente para cima. Na altura do abdome existe uma flecha apontando para baixo; a
energia se move para baixo para dentro da pelve. Na altura da espinha lombar e dos pés, as
flechas são curvas e têm duas cabeças; o tipo “puxando para trás” permite que a energia se
mova tanto para cima como para baixo, apesar de menos direcionada do que se o “puxando para
trás” estivesse ausente.
Um diagrama simples no livro Bioenergética mostra "o fluxo de sentimentos do coração
através dos estreitamentos [pescoço e cintura] em direção aos órgãos periféricos do corpo"
(LOWEN 1975, pg. 131). Este fluxo segue "paralelamente ao fluxo do sangue, que transporta
oxigênio e nutrientes mantenedores da vida para todas as células do corpo." Neste diagrama, o
fluxo de sentimentos é representado por uma longa flecha de duas pontas com uma ponta na
cabeça e a outra na pelve. Lowen usa este diagrama para ilustrar o fluxo dos sentimentos no
corpo saudável: ele alcança e carrega plenamente de energia as duas extremidades do corpo.
(LOWEN 1975). No caráter rígido, também são carregadas ambas as extremidades do corpo.
Existe uma cisão (split) entre o coração e os genitais, mas não é o tipo acentuado de cisão que
é visualmente evidente em outras estruturas de caráter por nós estudadas (cisão cabeça- corpo
no esquizóide, e cisão da parte superior-inferior do corpo no tipo de narcisista com deslocamento
para cima, por exemplo)

3(*) N.T.: Bioenergética Alexander Lowen - Summus Editorial. Anatomia Emocional- Stanley Keleman-
Summus
Agora parece-nos oportuno analisar os diagramas de duplo triângulo (as “estrelas”) que
estão junto das descrições de estruturas de caráter no livro Bioenergética (Lowen 1975, pg. 131-
pg. 147). Trata-se de diagramas muito simplificados dos "fluxos" de sentimentos e energia que,
na vida real, são tão complicados que o intelecto humano não consegue compreendê-los
plenamente. O corpo humano pode ser representado como uma estrela com os braços e pernas
esticados, mas muitos dos processos de nossas vidas são melhor compreendidos quando
examinamos a estrutura tubular de nossos corpos. Entretanto, eu acho que estes diagramas em
forma de estrela (no livro Bioenergética pg. 122 e 123) são especialmente úteis quando mostram
o contraste entre a estrutura rígida de caráter e as demais estruturas de caráter. Compare, em
particular: (1) o bloqueio central em volta do "core" (núcleo) energético no esquizóide,
comparado com o bloqueio periférico do fluxo de energia no rígido; (2) o deslocamento para cima
da energia no psicopata comparada com a energia bem distribuída no rígido; (3) o
desalinhamento do formato corporal no oral e no masoquista (respectivamente: alongamento e
encurtamento) comparado com a ausência de distorção no rígido No rígido, "existe uma carga
bastante forte em todos os pontos periféricos de contato com o ambiente, o que favorece a
capacidade de testar a realidade antes de agir........ A retenção puxando para trás é periférica, o
que permite o fluxo do sentimento, mas limita a sua expressão". (LOWEN 1975). Em contraste
com as estruturas de caráter de baixa energia (esquizóide e oral), um forte core energético
alcança a periferia do rígido, de modo que ele pode interagir vigorosamente com o seu meio
ambiente. Em contraste com as outras estruturas de alta energia (masoquista e narcisista), a
direção do fluxo de sentimento não é distorcida (ou seja, dirigida para dentro, como na postura
de "alicate" do masoquista, ou puxada para cima), mas energiza todas as partes da periferia.
Estas comparações salientam os elementos mais aparentes da estrutura do caráter
rígido: o núcleo (core) de energia alcança e ativa a parte periférica do corpo, e o corpo é
“harmonioso nas suas partes”. (Lowen 1975). Mais adiante, vamos analisar as influências
ambientais que promovem o desenvolvimento da estrutura de caráter rígido; mas, como sucede
com todas as estruturas de caráter, nós precisamos também levar em conta uma influência
constitucional, genética. A criança que se torna rígida, nasce com músculos fortes e seu sistema
nervoso fornece boa coordenação para os seus músculos.
Embora nós possamos certamente ver "alguns elementos de distúrbios e distorções de
outras estruturas de caráter numa pessoa que é basicamente rígida, o corpo do rígido "é
proporcional e harmonioso em suas partes. O corpo parece ser, e sente-se integrado e
conectado" (Lowen 1975). Se você observar mais uma vez o "Alinhamento do Prumo Ideal" (Fig.
5 ), poderá ter uma idéia de um corpo “proporcional e harmonioso em suas partes”. Lá não
existem estreitamentos ou adensamentos indevidos em nenhuma área do corpo. Observe que
este rapaz não se encaixaria nos padrões atuais ideais da “mídia”, que acentuam o deslocamento
para cima.
A arte grega antiga, por outro lado, oferece muitos exemplos de corpos "bem
proporcionados" (Janson 1966 pg. 104-5, 115-7). As estátuas masculinas, esculpidas com
proporções clássicas, apresentam ombros e parte superior do tronco dotados de fortes músculos,
como acontece com os narcisistas dos dias modernos, mas eles se mantêm razoavelmente
largos na cintura e na pelve e têm pernas robustas. As figuras femininas têm uma cintura, mas
não é tão estreita como a preconizada pela mídia de hoje. Essas deusas denotam possuir carnes
macias em torno da cintura e nos quadris. Talvez você conheça as mais famosas obras de
Michelangelo, que também ilustram as proporções clássicas. A escultura O escravo agonizante
e a figura do Adão no teto da capela Sistina (Janson 1966, pp. 358, 360) são bem musculosas,
mas largas na cintura e na pelve. O David (Janson 1966, p.357) parece um pouco estreito na
cintura, mas isto é de se esperar nos jovens, cujos corpos não se desenvolveram completamente.
Seus quadris e coxas são também substanciais, não há ali nenhum estreitamento, e ele não está
puxado para cima pelo peito.
Uma forma de apreciar as diferenças energéticas entre o puxado para trás e o puxado
para cima é examinar novamente o continuum de Susto e Estresse (Keleman Summus, 1992
pg.88-89) que descrevi no Capítulo I. A primeira figura está em estado de alerta, consciente de
que há algo potencialmente ameaçador no seu meio ambiente. Ele levanta a mão num sinal de
"pare" mas seu corpo não está distorcido. Keleman (1985) comenta sobre esta figura: "A parede
exterior do corpo está comprimida, mas as cavidades permanecem sem nenhum distúrbio". Isto
é exatamente o que nós vemos num caráter rígido: existe uma contração crônica dos seus
músculos externos, mas os espaços internos do corpo não estão pressionados ou distorcidos.
Na próxima figura, a mão aparece num gesto de empurrar, enquanto a outra mão está com o
punho cerrado. É evidente o puxado para cima no contorno geral do corpo; a cintura é estreitada
e o peito está estufado. Agora as cavidades do corpo estão distorcidas. O espaço disponível para
os órgãos abdominais aparece estreitado e o diafragma (a parte inferior da cavidade torácica) foi
puxado para cima.
Embora não seja difícil notar as diferenças entre o corpo rígido, puxado para trás, e o
tipo de corpo narcisista puxado para cima, quando estamos observando estes desenhos planos,
já não fica tão fácil distinguir entre os dois quando temos a visão real tridimensional do corpo.
Lembre-se que, a partir de uma base muscular, não é possível distinguir completamente entre o
puxado para cima e o puxado para trás; e lembre-se também que, para permanecer eretos, os
humanos desenvolveram músculos posteriores que os puxam simultaneamente para cima e para
trás. Lembre-se ainda que o tipo sedutor do narcisista tem um de corpo mais normal, que não se
consegue distinguir do corpo rígido, no que se refere às suas proporções. O seu deslocamento
para cima, para dentro da cabeça e a sua auto-imagem ficam escondidos por detrás da sua
aparência de corpo dirigido para fora.
Existe uma variação de rigidez "desde o completamente saudável até o seriamente
neurótico" (Lowen 1958). Uma pessoa rígida menos severamente afetada era aquele paciente
fálico-narcisista de Lowen, dotado de "muita energia" e “um bem desenvolvida musculatura, com
bons tônus. Ele era bastante gracioso em seus movimentos e tinha bom desempenho nos
esportes...As partes distais das extremidades, pulso, mãos, tornozelos e pés, eram bastante
fortes." (Lowen 1958). Apesar de sua musculatura posterior ser "tensa e sem flexibilidade," sua
couraça geral não era tão forte a ponto de restringir sua agilidade de forma significativa. Uma
paciente (histérica) também era "fisicamente forte e ágil" (Lowen 1958). A força física e a
agilidade se refletem psicologicamente na capacidade destes indivíduos “para sentirem maior ou
menor segurança em suas relações com a realidade". Como resultado, eles se ajustam com
sucesso às exigências do trabalho e da vida social. Eles estão também "grounded genitalmente"
e tendem a ser sexualmente atraentes para os outros. Essa energia física permite a eles serem
"abertos para o mundo exterior, ambiciosos, competitivos e agressivos" (Lowen 1975).
Enquanto o grau de rigidez não é muito grande, o corpo tem uma aparência cheia de
vida. Os olhos são brilhantes, a cor da pele é boa, e os movimentos e os gestos são animados.
Quando a rigidez é maior, existe menos vivacidade: "os olhos perdem um pouco do seu brilho...o
tom da pele pode se tornar pálido ou acinzentado.... a coordenação e a leveza dos movimentos
ficam diminuídas...” (Lowen 1975). Nestes indivíduos a rigidez faz com que os movimentos do
corpo pareçam mais mecânicos, como numa moça que Lowen (1958) descreveu
detalhadamente. A adaptação dessa moça era fundamentalmente rígida, porque ela não
vivenciava as ansiedades das estruturas pré- genitais de caráter e ela era bem-sucedida em sua
profissão. De fato, o trabalho representava a sua adaptação, de modo que ela renunciou aos
anseios por amor e por auto- expressão criativa: "Ela relembrava seus anos de adolescência
como um período durante o qual ela só tinha se preocupado em alcançar alguma independência.
Ela era séria e quieta, não ria muito, não saía com rapazes. Ela queria ser atriz, mas quando se
formou no curso médio acabou optando por um emprego estável, por provar que era capaz de
se sustentar."
A história e a atual adaptação desta paciente revelam também, na verdade, elementos
esquizóides significativos: como "Sentia terror" ,"sentia isolamento, falta de contato com a vida",
e o corpo dela revelava algumas fragmentações típicas do caráter esquizóide". “O corpo dela,
especialmente as costas e os ombros, pareciam frágeis, como se pudessem quebrar quando
submetidos à força" (Lowen 1958). A rigidez do rígido é "como aço", a do esquizóide "como gelo,
quebradiça" (Lowen 1975). Esta paciente desperta a questão da distinção clínica entre a rigidez
do rígido e a rigidez do esquizóide. Eu já mencionei a diferença muscular entre a rigidez do
esquizóide e a do rígido, na minha explanação sobre a estrutura de caráter esquizóide.
Constituições genéticas, assim como experiências infantis precoces, irão influenciar qual tipo de
rigidez vai se desenvolver. Os músculos do corpo não funcionam como duas camadas
separadas, a superficial e a profunda; mas um exame visual e apalpação dos músculos poderão
indicar qual é o tipo de rigidez predominante.
O que pode servir de ajuda também é considerar as estruturas de caráter não somente
como "pré-genitais" e "genitais", mas também em termos de estado de desenvolvimento do
sistema muscular como um todo, à época em sofreu a dor maior que precipitou o distúrbio. De
fato, a capacidade de ser "genital" depende do bom funcionamento do sistema muscular. No
esquizóide, cuja existência não foi afirmada nos primeiros meses de vida, a dor maior aconteceu
quando os nervos que conduzem aos músculos eram ainda muito imaturos e a atividade motora
era quase completamente reflexa, e não voluntária. O sofrimento desencadeador mais
importante do caráter rígido da paciente ocorreu quando as habilidades motoras estavam
amadurecendo rapidamente, o que permitiu a ela uma resistência considerável frente ao seu
mundo. Assim, mesmo se a rigidez do caráter rígido se torna marcante, ela não se retira da
realidade como o esquizóide; ela usa a força dos músculos periféricos para se enrijecer mais
ainda, face à realidade. Você talvez consiga observar a diferença no seu próprio corpo. Se você
enrijece os ombros com a sensação de estreitamento de próprio corpo, como que o colocando e
retirando-o de um ambiente ameaçador, você sentirá um endurecimento dos músculos peitorais
e grande dorsal, os quais puxam os braços em direção ao peito e "os amarram" ao próprio peito.
Ao fazer isto, pressione os músculos de um antebraço com os dedos da sua outra mão. Eles
podem estar um pouco mais tensos que o normal, mas não de forma excepcional. Agora enrijeça
contra o ambiente ameaçador com um sentimento de resistência. Você sentirá os músculos
longos do antebraço - bíceps e tríceps – consideravelmente tensos. Você pode sentir esta
diferença na pelve e nas pernas também. O movimento de puxar para dentro e estreitar produz
um enrijecimento dos músculos ao redor das articulações do quadril, enquanto que o
enrijecimento endurece os músculos longos das pernas (quadríceps-isquiotibiais das coxas;
panturrilha e os músculos da canela) .
Lowen utiliza o paciente acima para ilustrar como as armaduras graves, do tipo rígido,
que "começam com os músculos superficiais", podem dirigir o “core” energético para bem longe
da periferia do corpo. Ele descreve os movimentos da sua paciente, como os do paciente
esquizóide, como movimentos aparentemente mecânicos. "Quando a frustração é muito grande
e a situação da vida é desfavorável, o organismo pode se tornar mais rígido, menos flexível, e o
processo então pode se estender até às profundezas. Enquanto a perda da elasticidade leva a
uma fragmentação, a extensão do processo de congelamento até as profundezas pode
realmente tocar o core com seus dedos gelados. Se disso resultar uma diminuição permanente
da formação dos impulsos, ocorre uma morte real no organismo." (Lowen 1958)
Muitas pessoas que tiveram uma adaptação rígida à vida, experimentaram, no entanto,
um trauma significativo na infância. Um dos meus professores de bioenergética observou que
muitas mulheres molestadas tiveram uma adaptação rígida, mas na terapia podem facilmente
colapsar de repente em temas precoces (Newlin 1990). Deste modo, o terror infantil que ocorreu
depois dos primeiros meses de vida pode causar um processo de "congelamento" ao redor do
core, que é rígido em sua origem; ele começa antes nos músculos periféricos, mais do que nos
músculos mais profundos, mas provoca alguns sintomas esquizóides.
Vamos agora observar as características anatômicas do processo de encouraçamento
periférico do rígido. "As áreas principais de tensão são os músculos longos do corpo. Espasmos
nos músculos extensores e flexores se combinam para produzir a rigidez" (Lowen 1975). No
Capítulo I vimos como as tensões crônicas nos conjuntos dos músculos antagônicos – por ex.
o bíceps, que flexiona o cotovelo, e o tríceps, que distende o cotovelo, produzem contrações
musculares que são fatigantes, mas improdutivas. Como você sabe, existem músculos longos
responsáveis pela flexão e extensão nos braços e nas pernas. Existem também músculos longos
no tronco que flexionam e alongam a espinha. É a tensão crônica nos extensores da espinha e
nos músculos abdominais (que flexionam o tronco) que produzem a característica "puxando para
trás" (Lowen 1975) no tronco. Dessa forma "puxando para trás" nas costas e "puxando para trás"
nos músculos dos membros são duas manifestações do mesmo problema muscular.
No livro O Corpo em Terapia (1958) Lowen discute em detalhes o processo geral de
encouraçamento. Há muito para aprender do que ele escreveu neste livro que se aplica ao
caráter do rígido como ele é compreendido hoje, apesar dos tipos histéricos e fálicos narcisistas
que ele descreveu serem hoje considerados sub-tipos do caráter narcisista. Talvez você ainda
se recorde que dissemos no capítulo anterior que Lowen também se refere a encouraçamento
no livro Narcisismo (1985). Tanto os indivíduos narcisistas como os rígidos apresentam uma
couraça, e isso os distingue das outras estruturas de caráter:
Toda a couraça é baseada na tensão muscular. Mas nem toda tensão
muscular é uma couraça. Esta depende da espasticidade: se ela serve para proteger
contra estímulos externos, e se ela efetivamente retém a ansiedade. As tensões
musculares graves, encontradas nos esquizofrênicos, no caráter oral e até no
masoquista, não constituem uma couraça. Indivíduos que sofrem destes distúrbios
são ao mesmo tempo sensíveis e super ansiosos. Qual é então a natureza exata de
uma verdadeira couraça muscular?
O estudo bioenergético da estrutura de caráter da histérica mostra que ela
é baseada numa total rigidez corporal. As costas são rígidas e não se flexionam. O
pescoço é rígido e a cabeça é mantida ereta. A pelve é mais ou menos retraída, e é
mantida em estado de rigidez. E o que é mais importante: a frente do corpo é dura.
A rigidez do peito e do abdome é que são essenciais para uma couraça. A parte da
frente é o aspecto suave e vulnerável do corpo, é o seu aspecto sensível, é o reino
dos sentimentos ternos. Se este aspecto estiver desprotegido, toda a assim
chamada couraça das costas não serve para nada. (Lowen 1958)
Enrijecer-se, com o objetivo de suportar a frustração é uma "reação de defesa natural
do organismo", mas o enrijecimento acaba se transformando numa couraça inflexível “quando
se torna caracterológica, isto é, quando fica sendo a única resposta que o indivíduo é capaz".
Então também o ego se torna inflexível (Lowen 1958).
Em seu estudo sobre o tipo histérico, Lowen (1958) também distingue dois tipos de
couraça, "rígida" e "flexível", sendo que esta última é marcada pelo "contorcer-se envergonhado”.
No entanto, nem sempre é possível caracterizar a couraça de uma pessoa como sendo esta ou
aquela, e na realidade "algum grau de contorcer-se envergonhado pode ser detectado em todas
as estruturas rígidas". No primeiro tipo há uma couraça em "placa" no peito e nas costas, que
diminui a agilidade e a vivacidade. No segundo tipo há um alto grau de vivacidade e uma aparente
falta de rigidez no plano físico: "Existe uma tensão muscular por toda parte, mas ela se revela
surpreendentemente flexível". Este tipo de couraça permite que mais energia seja produzida,
mas as sensações e expressões de impulsos ainda são limitadas. Lowen teoriza que energia é
desviada, neste tipo, dos genitais e do córtex cerebral por meio "de pequenos e constantes
movimentos do corpo que, se suprimidos, produzem ansiedade imediata", movimentos como
contorcer-se envergonhado, sorrir e rir (Lowen 1958). Reich tinha descrito este tipo de couraça
como "um tipo específico de agilidade corporal com uma nuance sexual muito acentuada" (citado
por Lowen 1958), que caracterizava a mulher histérica da sua época. Hoje em dia, num mundo
pós-vitoriano, abertamente sexualizado, uma mulher com uma "nuance sexual" acentuada em
seu corpo e no seu comportamento provavelmente não estaria inconsciente desse fato, como
sucedeu com as histéricas do tipo Freudiano, e provavelmente iria encaixar-se melhor na
categoria narcisista, com um superinvestimento de energia na sua imagem sexual.
Mesmo há 40 anos atrás, Lowen escreveu que "mudanças em nossos costumes sexuais
alteraram os aspectos superficiais dos tipos caracterológicos”. (Lowen 1958). Hoje em dia as
mudanças são ainda mais evidentes. Os papéis disponíveis às mulheres se ampliaram, e incluem
outras possibilidades para a expressão da rigidez, além do coquetismo constante. Nos dias de
hoje, a expectativa é de que uma mulher rígida seja menos do gênero "flerte", (que
definitivamente não é um meio seguro para alcançar o sucesso no mundo profissional moderno)
e mais o gênero "profissional", “mulher de carreira tensa”; ou ainda a mulher alegre, robusta e
atlética.
O corpo do tipo mulher histérica foi originalmente descrito por Lowen (1958) como "macio
e dócil" para baixo da cintura, "rígido e contido" acima dela. Lowen não menciona detalhes
específicos para homem/ mulher de caráter rígido no seu livro Bioenergética (1975), mas este
tipo de corpo feminino, ainda que continue sendo visto por aí até certo ponto, hoje em dia, não é
mais visto como "frio", nas palavras de um terapeuta atual (Jacques 1994). Desde que as
mulheres se integraram às forças produtivas, elas tiveram menor necessidade de "se submeter
para conseguir o amor e os favores do macho", (Lowen 1958) para assegurar a sua própria
sobrevivência econômica. Durante a infância as mulheres são cada vez mais estimuladas a
praticar atividades atléticas, e tomam mais iniciativas no estabelecimento de relações com
homens. Parece-me que as jovens rígidas que vejo por aí tendem a manter a pelve bastante
retraída, expressando assim menos submissão na área pélvica, e denotando maior assertividade
e teimosia. A suavidade da pelve feminina não está "na moda" hoje em dia: uma pelve mais dura,
musculosa, é preferida a uma pelve suavizada pela gordura. Mas o problema subjacente ao
rígido -- "os genitais dizem que sim, o coração diz que não" (Lowen 1958) - não mudou. Hoje em
dia uma mulher pode dar seu consentimento à atividade sexual muito mais agressivamente, mas
permanece a dificuldade principal, que é : o coração não pode participar.
Em seus primeiros estudos do caráter fálico-narcisista, Lowen (1958) descreve o corpo
rígido de um modo que permanece característico e nos ajuda ainda hoje em dia. Ele escreve que
no caráter rígido a camada muscular, tubular, exterior ao corpo, se torna rígida. Em
conseqüência, fica de certo modo prejudicada a natureza pulsátil do fluxo sangüíneo, o que
diminui até certo ponto a vitalidade natural do corpo. Tanto somática quanto psicologicamente, a
flexibilidade é diminuída. Além disso, a rigidez deste tubo muscular afeta a distribuição de energia
pelo corpo. "A natureza rígida em forma de tubo afunila a corrente de energia dirigida tanto para
o cérebro como para os genitais, freqüentemente sobrecarregando essas estruturas…. A
sobrecarga causa uma dificuldade para a corrente energética se alastrar nos seus "lagos"
naturais, antes de encontrar suas saídas de escoamento". Lowen considera a pelve e o cérebro
como reservatórios que impedem que os genitais e a cabeça sofram “sobrecarga ou
descarreguem a energia antes da hora." Na atividade sexual, se a pelve acima dos genitais não
consegue encher com sentimento, existe uma pressão para que descarregue rapidamente pelos
genitais. Da mesma maneira, na cabeça, "o cérebro atua como um reservatório para conter o
impulso, e possibilitar assim que ele seja submetido à apreciação crítica do ego. É impossível
conceber uma função de realidade sem esses reservatórios". (Lowen 1958)
Assim o caráter rígido é agressivo tanto no âmbito genital como no âmbito mental;
energeticamente, ele está voltado para a atividade sexual e para o sucesso mundano.
Infelizmente, embora esta rigidez de forma tubular “favoreça genialidade e realidade”, ela
também limita essas mesmas funções, e diminuiu a espontaneidade e a flexibilidade do caráter
rígido. Não consegue obter um alívio profundo ou uma satisfação profunda das suas atividades,
por causa da sua rigidez generalizada, e “por isso se vê compelido a continuar a busca e a
conquista”.(Lowen 1958).
Esta última frase de Lowen em relação à "conquista" seria mais característica no caráter
narcisista atual, do que do caráter rígido. No entanto o caráter rígido é também altamente
motivado para alcançar sucesso. Como mencionamos no último capítulo, o caráter narcisista
quer ser "o melhor de todos", enquanto o rígido quer ser "o melhor que ele puder ser" (Jacques
1994). Quando uma pessoa tenta satisfazer suas necessidades de grandiosidade através de
artimanhas ao invés de trabalhar duro, é fácil de se ver que ele é um narcisista, e não um rígido.
Mas nem sempre é fácil distinguir entre esses dois tipos. Assim como não se pode separar
anatomicamente por completo os tipos "puxando para cima" e “puxando para trás", o que nos
deixam com uma área cinzenta em que ambos ocorrem até certo ponto, existe também uma área
na qual as motivações rígidas e narcisistas podem aparecer misturadas. Há muita gente que
trabalha extremamente duro e sem distúrbios, para alcançar seus objetivos, no entanto há um
aspecto de grandiosidade nessa sua determinação: "Sou eu quem trabalha mais duro aqui", ao
invés de "eu dando o máximo que posso” (Tendências masoquistas também precisam ser
consideradas em pessoas obcecadas por trabalho, é claro, mas o resultado do trabalho
masoquista tende a ser menos bem-sucedido). No entanto, o indivíduo fundamentalmente rígido
"é capaz de obter gratificação de suas necessidades instintivas dentro do contexto de um todo
integrado de relações objetais" (Jacques 1994), enquanto que o indivíduo fundamentalmente
narcisista não consegue essa satisfação. A pessoa rígida tenta obter amor por meio de sua
realização. O narcisista é motivado não por um desejo de amor, mas por sua necessidade de
controlar os outros. Diferente do narcisista, o rígido possui um sólido sistema de valores que o
orienta. Sua auto-estima é bem regulada e, ainda que seja afetado pelas críticas, não é
esmagado por elas (Jacques 1994).
Embora o caráter compulsivo dos primórdios da literatura psicanalítica raramente seja
encontrado hoje em dia ( Lowen 1958), nós devemos extrair dos estudos de Lowen o que
permanece válido para o caráter rígido. Hoje em dia, os que trabalham "duro" são comumente
chamados "compulsivos" Seus colegas ou empregadores ao se referirem assim a eles, estão se
referindo à sua atenção aos detalhes, que freqüentemente incomoda aqueles que trabalham, ou
vivem com eles. Mas esta expressão significa atualmente muito pouco, em relação ao seu
significado psicológico original: "Compulsão: Psicol. a. Uma tendência ou impulso irresistível para
realizar um ato. b. Um ato ou uma série de atos assim executados (Funk e Wagnalls 1966). O
"compulsivo" de nossos dias se sente impelido a executar todo e qualquer ato relacionado com
o seu trabalho, não há mais aquela conotação de “executar o mesmo ato como um ritual,
repetidamente”. Mas o trabalhador "compulsivo" continua sendo o caráter rígido. Ele (a)
permanece ligado (a) à realidade, e apesar de perder espontaneidade, ele(a) freqüentemente
obtém um resultado quase perfeito, que garante seu sucesso.
Este tipo de compulsividade é muito procurado atualmente e é altamente recompensado
em muitos setores do mercado. Por exemplo, certa vez trabalhei num grande pronto-socorro,
onde trabalhavam vários médicos, que eram todos caracteres rígidos. Eles eram bons médicos
porque eram "compulsivos" no trato com os pacientes. Eles davam muita atenção aos múltiplos
detalhes das queixas de seus pacientes, exames físicos, raios-X, testes laboratoriais e planos
de tratamento. Eles até lavavam suas mãos entre um paciente e outro - mas apenas uma vez.
Eles eram diferentes em termos de personalidades individuais e na maneira como manifestavam
um continuum de rigidez:: um era bem rígido fisicamente por causa de sua couraça, outro era
ágil e atlético e um terceiro era rijo e tão energético que os outros o chamavam de "nervoso".
Nas suas vidas fora do ambiente de trabalho, alguns davam tanta atenção aos detalhes que de
certa forma amorteciam o sentimento de prazer; mas havia aqueles que tinham interesses
criativos, que lhes permitia combinar sua atenção aos detalhes com uma visão imaginativa, e
jovialidade, e lhes proporcionava um prazer real. Essa preocupação com detalhes certamente
marcava os seus relacionamentos pessoais, mas não chegava a arruiná-los. Eram médicos
cuidadosos, pais e cônjuges dedicados e amigos afetuosos.
A "personalidade compulsiva" típica seria muito mais inflexível do que esses médicos. A
rigidez desse compulsivo seria tão grande, que acabaria prejudicando a realização satisfatória
do seu trabalho, ou a sua capacidade de intercâmbio ("dar e receber”) nas relações pessoais.
Mas Lowen diz que, embora o homem fálico-narcisista o caráter compulsivo seja
"sintomaticamente diferente", ambos são estruturas "rígidas, encouraçadas, que diferem apenas
em grau...o comportamento compulsivo é a forma extrema de rigidez no plano psicológico. Essa
mesma rigidez excessiva, caracteriza a estrutura somática….O caráter compulsivo reprime seus
impulsos num grau elevado, que não se verifica em nenhuma outra estrutura de caráter." (Lowen
1958).
Devido a esse elevado grau de rigidez, o corpo do caráter compulsivo típico desenvolve
uma "solidez de pedra”, que confere uma impressão de dureza e força mas que “não permite
nenhum espontaneidade nos movimentos ou na expressão." (Lowen 1958). A postura "Tipo
Militar" (Fig. 8), é um exemplo desse tipo de rigidez corporal. Este é um tipo de masculinidade
geralmente idealizada nos filmes de guerra e nos filmes de “faroeste” das décadas passadas. Há
um bloqueio dos afetos, que se contrapõe à "intensa vida emocional" e à "carga altamente
prejudicada", da estrutura rígida de caráter originalmente descrita como fálico-narcisista. A
rigidez do caráter compulsivo "penetra mais profundamente em direção ao centro", semelhante
à séria rigidez de uma das pacientes femininas de Lowen, que estivemos descrevendo.
Movimentos e ações adquirem uma qualidade mais mecânica, forçada, "dirigida", porque o
movimento nessas condições "requer um grande esforço, (a nível inconsciente, é claro) para
vencer as resistências manifestadas pela dureza e pela solidez da estrutura". Este caráter
compulsivo, mais profundamente afetado pela rigidez, possui uma couraça mais semelhante às
"placas" do que às "malhas", e menos energia do que o tipo fálico- narcisista de rígido (tanto do
ponto de vista genital como falando de maneira geral) (Lowen 1958).
Ao procurar ilustrações para uma palestra sobre a estrutura de caráter rígido, deparei
com uma propaganda ("EU E MEU MOUSE" 1995) que capta perfeitamente uma situação da
infância de um indivíduo que será um provável futuro caráter rígido. Tratava-se do anúncio de
um novo programa de computador para gerenciamento de dados bancários, chamado "Microsoft
Money". Mostrava um rapaz de boa aparência, de óculos, sentado com as mãos no teclado de
um computador; no vídeo do computador, havia uma planilha colorida intitulada "Desempenho
dos Investimentos". No entanto, o homem não tem a cabeça voltada para a tela do vídeo, ele
está voltado sorridente para a sua filhinha. Esta também aparecia sorrindo, ao mesmo tempo em
que fazia uma pequena acrobacia: tirara os pés do chão, pendurando-se pelos braços, na cadeira
do pai. O que é mais fascinante nesta foto, é que a brincadeira da menina a colocou na pose
característica do rígido, pois ela está realmente "puxando para trás" sua coluna torácica e a
pelve, para poder equilibrar-se. Eu não considero uma coincidência o fato dos publicitários
colocarem pai e filha neste tipo de relação física. Imagine como seria diferente essa foto, se a
garota estivesse sentada no colo do pai e seus corpos estivessem em contato. Seria uma
situação muito descontraída (e erótica) que certamente iria desviar a atenção do pai no seu
trabalho. O tipo da situação que iria incomodar muitas pessoas, do tipo que organiza a sua vida
em função do trabalho, pessoas que teriam interesse por movimentação bancária via
computador. No entanto, o anúncio mostra que existe carinho nesta relação entre pai e filha, e
sugere que o pai a ama, além de ser um bom provedor, que a está ensinando a dar os primeiros
passos no busca do sucesso profissional. É exatamente isso que sucede na formação do caráter
rígido; durante o período Edípico (dos 3 aos 6 anos), é frustrado o “impulso da criança para obter
uma satisfação erótica" (Lowen 1958), e a sua energia erótica é canalizada para o trabalho. Na
tentativa de agradar os pais, a criança perde sua própria paixão, o que mais tarde irá prejudicar
os seus relacionamentos na vida adulta, bem como a sua criatividade.
Um pequeno detalhe desse anúncio, que eu não percebi inicialmente, é o emblema na
camiseta da garotinha: "AYSO". Como meus filhos foram durante anos membros da "American
Youth Soccer Organization" (Organização Juvenil Americana de Futebol), posso lhes dizer que
este é um terreno fértil para futuros rígidos na América. As crianças que têm sucesso no futebol
são ambiciosas, disciplinadas e amigáveis. São bons alunos, socialmente aptos e alimentam
altas metas para alcançar quando forem adultos. O futebol dá mais valor ao espírito de equipe
do que à gloria individual no campo; é uma experiência muito diferente das exibições de
patinação, ou de ginástica olímpica por exemplo. O futebol incentiva a atuação integrada com os
outros, e não a preocupação em “se destacar" acima dos outros, nessa disputa individual, que
prejudica tantos outros esportes atualmente. Por ser um jogo de estratégias complicadas, o
futebol requer muito pensamento (uma cabeça com alta carga de energia) e também muita
velocidade na corrida (uma pelve com alta carga de energia).
Meu filho caçula joga num time de futebol que tem ajudado muitos rapazes a obter bolsas
de estudos em escolas superiores. Ele e seus colegas de time têm hoje quinze anos, e é
interessante ver como esses garotos vão se transformando em jovens adultos rígidos. À medida
que sua capacidade para o pensamento abstrato melhora, eles jogam de forma cada vez mais
inteligente. E, com exceção de um único rapaz, num time de dezesseis, suas pelves estão se
tornando rígidas, arrebitadas para trás (e começando a mostrar os quadris enxutos e musculosos
que as garotas logo mais vão achar "uma graça").
Na outra ponta da trajetória que vai do útero ao túmulo, cito o anúncio de um clube para
aposentados. Em letras maiúsculas, começa com "Aposentadoria, cum laude" (do latim; com
glória), e continua: "Recomenda-se um Centro de Aposentados Whitney para o tipo de indivíduos
que encaram a vida com energia e estilo. Trata-se da primeira comunidade criada nesta região
para hospedar idosos, e fica próximo da Universidade de Yale. Oferecemos ótimas
oportunidades de enriquecimento intelectual e cultural. Nossos residentes são muito ativos e
interessados...muitos se formaram por alguma das melhores faculdades e universidades do país
("Retirement cum Laude" 1995.) A fotografia que ilustra esse anuncia mostra um casal bem
conservado, folheando um material escrito, juntos numa biblioteca - nada de espreguiçadeiras
ao sol para esses aposentados rígidos! Eles aparecem vestidos com suas roupas "desenhadas
para o sucesso": o marido de terno, camisa branca e gravata, ela com um vestido de corte
elegante. Ainda que o anúncio só mostre a parte superior dos corpos, o casal transpira energia
e motivação, que claramente os ajudou resistir à força da gravidade. Seus ombros ainda são
quadrados e suas colunas retas.
Emily Dickinson (1960) escreveu: "O Coração pede Prazer- primeiro-/ E depois - Evitar
a Dor". Quais foram as experiências vividas na infância, que fizeram uma pessoa sufocar o prazer
do coração, tanto durante a sua infância como na fase da aposentadoria, fazendo com que essas
pessoas se protejam contra mais sofrimentos, através de uma adaptação rígida? Mesmo que a
pessoa rígida tenha conseguido escapar dos "grandes traumas precoces que criam as posições
defensivas mais sérias", acabam ficando frustradas em sua "busca pela gratificação erótica,
especialmente no nível genital" (Lowen 1975) quando os pais proíbem masturbação, brincadeiras
sexuais e curiosidade sexual, ou quando os pais rejeitam os apelos eróticos da criança dirigidos
aos progenitores. (Lowen 1958). Embora o "conflito edípico" dentro da família contribua muito
para reprimir os impulsos genitais da criança, na cultura como um todo "a realidade da vida social
é antagônica ao seu impulso sexual... ,o impulso sexual da criança.... flui diretamente do coração
para os genitais... Nesse ponto, os sentimentos de ternura causados pelas sensações do coração
ficam unificados com as sensações genitais, numa única corrente de sentimento... Se essa
distinção for imposta à criança, acabará produzindo uma cisão do impulso unitário" (Lowen
1958).
Portanto a criança interpreta a rejeição ao seu impulso genital como sendo uma rejeição
ao seu amor. Ela fica com um "profundo sentimento de dor" que perdura durante toda a sua vida
(Lowen 1975). Mesmo que este sentimento de dor permaneça inconsciente, ele leva o indivíduo
a adotar uma atitude de orgulho e determinação, que expressam sua atitude, também
inconsciente, de que ele está decidido a não se deixar ferir outra vez. Mas a rigidez não contribui
tanto para diminuir a agressão disponível (como no caráter esquizóide, oral ou masoquista),
apenas contribuiu para imobilizá-la, "utilizando-a como uma função defensiva". O indivíduo sente
amor, mas a "traição sofrida em sua busca por amor" o leva a não mais buscar amor, a "se
reprimir" ao expressar amor. Esta é a origem do padrão de "puxado para trás" nos músculos
periféricos que o caráter rígido desenvolve (Lowen 1975).
Se os pais não se sentem bem diante das expressões eróticas da criança quando ela
atinge o estágio genital, eles tendem a direcionar a energia da criança para atos e realizações.
Quando a criança direciona a sua energia para realizar um trabalho, ela perde sua própria paixão,
e começa a trabalhar para manter o amor dos pais. (Newlin 1990). A criança acaba assumindo
responsabilidade demais e muito cedo. Lowen descreve um paciente masculino cujos ombros
muito enrijecidos eram para Lowen "um sinal de responsabilidade prematura". Este paciente era
motivado tanto pelo medo do fracasso, quanto pelas recompensas do sucesso.
O medo do fracasso está relacionado com este senso de
responsabilidade. O próprio paciente estava consciente de que sua vontade de ser
bem sucedido tinha como meta satisfazer os desejos dos pais e tinha como
motivação mais profunda o desejo de ganhar a aprovação e o amor de seus pais...
o paciente se lembrava de uma ocasião, durante seus primeiros dias de escola,
quando seu pai lhe contou que ficaria muito desapontado se o paciente não
obtivesse as melhores notas. O paciente recorda que ficou tão chocado ele com
essa afirmação, que resolveu que não voltaria para casa se falhasse na escola
naquele período letivo. (Lowen 1958).
O corpo do paciente mostrava o enrijecimento típico do rígido - "um maxilar contraído,
ombros duros, costas rígidas” - e suas atividades na vida refletiam seu corpo. Ele atribuía à sua
"persistência”, o poder de fazê-lo alcançar tudo o que queria, e essa persistência era o aspecto
psicológico de sua rigidez. Sua resposta adaptativa à pressão de seu pai não era nem fraca
(desistência) nem antagônica (provocativamente rebelde) mas um enrijecimento, uma
determinação de ser bem sucedido. Sua determinação era tanto uma tentativa contínua de
provara si mesmo que era merecedor do amor paterno, quanto uma teimosia em ser bem
sucedido, para que seu pai nunca mais pudesse ferir seu orgulho(Lowen 1958).
No livro "O Corpo em Terapia" Lowen discute em grandes detalhes a situação edípica
de cada um dos três tipos rígidos. Aqui vou mencionar apenas um outro traço comum aos três,
que contribui para o enrijecimento do rígido. Qualquer análise do conflito Edípico, tem que ser
considerada à luz do que hoje se conhece sobre a incidência do abuso infantil e seus efeitos
traumatizantes. mas Lowen reconhece o papel desempenhado na rigidez pelo medo que a
criança sente do genitor, bem como pela raiva dele resultante. Ele descreve uma mulher histérica
com um pai autoritário e uma ambivalência em relação ao sexo masculino que se estrutura como
rigidez no tronco da paciente. Sua necessidade de amor "é bloqueada pela raiva reprimida, e a
raiva é bloqueada pela necessidade reprimida de amor. A rigidez produzida pela repressão
desses impulsos antagônicos, um agindo pela frente e outro pelas costas do corpo, criam a
couraça rígida do caráter histérico. Cada repressão age como defesa contra os impulsos
antagônicos. A raiva não pode ser liberada enquanto o desejo sexual pelo pai ou o pai-
substituto... for reprimida. Raiva reprimida e orgulho bloqueiam o acesso ao anseio por amor"
(Lowen 1958).
De acordo com Lowen (1958), no sexo masculino, o medo do pai durante o período
edípico é o que basicamente produz o menos afetado dos tipos rígidos, o fálico-narcisista.
Embora já adulto, sua ambição agressiva é ainda motivada pelo desejo de superar o pai. Quando
uma mãe dominante é o genitor que mais frustrou durante o período edípico, o menino é
ameaçado por uma perda ainda maior do amor. Seu medo exacerbado, e sua raiva por estar
sendo ao mesmo tempo rejeitado e controlado, resultam na couraça mais grave do caráter
compulsivo. “O indivíduo compulsivo... submete-se e adapta seu comportamento às exigências
da autoridade. Ele evita a atividade genital, mas não renuncia à posição genital. Sua submissão
nunca é completa, pois ele não se rendeu, ele apenas se enrijeceu e se transformou num durão"
(Lowen 1958).

Orgulho: A Cabeça e Pescoço Rígidos


Se o grau de rigidez é leve, o rosto será "expressivo". (Lowen 1958). Como o resto das
partes periféricas do corpo, o rosto vai receber a energia do core, e terá por isso aspecto mais
radiante. Lembre-se que os músculos da face são um sistema interligado de pequenos músculos,
capazes de expressão muito sensível. (Fig. 11-12 e Tabela) Se houver pouca rigidez, os
músculos ao redor dos olhos serão vívidos, e a boca vai sorrir fácil e sinceramente. Se a rigidez
é maior, os músculos faciais terão menos mobilidade, pois estarão retendo impulsos de
expressão emocional. Uma vez que a “defesa do rígido se manifesta pela retenção dos os
impulsos para se abrir ou buscar afeto” (Lowen 1975), as expressões faciais de amor e de
necessidade afetiva serão limitadas por tensões nos músculos que ficam ao redor dos olhos e
da boca.
Na rigidez leve, os olhos propriamente ditos são "brilhantes" e vivos, ainda que "percam
um pouco do seu brilho” se a rigidez for mais séria." (Lowen 1975). Estes são olhos que fazem
contato com as outras pessoas de uma maneira ativa (DYCHTWALD, 1986 p.224 superior). Não
são olhos "mortiços" como no esquizóide, ou cronicamente carentes como no caráter oral, nem
inocentes ou parecendo estúpidos como no tipo masoquista, ou ainda olhos vigilantes e
desconfiados como no narcisista. A vivacidade dos olhos é uma função do bom funcionamento
dos músculos extra-oculares, que movem os globos oculares para a focalização. (Figura 12 B e
os músculos de expressão em volta dos olhos (Fig. 12 A). Além disso, olhos alegres são úmidos.
Mesmo que haja um pouco de retenção da expressão nos músculos ao redor dos olhos, o
músculo circular em torno dos olhos (orbicular dos olhos) não estará tão tenso a ponto de
impedir o fluxo das lágrimas da glândula lacrimal e de seus canais.
A escritora Maxine Hong Kingston possui olhos brilhantes, alertas. Em uma entrevista,
que acompanha sua foto (ROUNTREE 1991, pg. 175) ela faz um relato comovente de sua
batalha para chegar de uma juventude dominada pela rigidez a uma idade madura em que
conseguiu deixar-se guiar pelas verdadeiras emoções de seu coração.
Eu não sabia que poderia fazer o que eu realmente queria.... Eu perdi
tempo indo na direção oposta daquela que eu realmente queria. O que me daria
prazer seria escrever, pintar, passar tempo com coisas que eu realmente gostava
de fazer. Nós devemos fazer aquilo que gostamos, em vez de ficar pensando no
que deveríamos fazer, do tipo:" Eu preciso ganhar a vida " ou " preciso arrumar um
emprego sério".
Cuidar de mim mesma é um conceito completamente novo para mim. Eu
passei trinta, talvez quarenta anos, sem nunca tirar um dia de folga. Isto nunca me
ocorreu. Eu apenas trabalhava, trabalhava, trabalhava
Quando olho para minha mãe, eu ainda a vejo tentando me moldar. Para
a criança é uma batalha pela identidade, a luta para chegar a se tornar a sua própria
pessoa.
Um dia, fui visitar meu irmão, quando meu sobrinho tinha por volta de
cinco ou seis anos, e meu sobrinho me chamou para ver seus brinquedos. Então,
fomos para o quarto dele, onde me mostrou seus brinquedos, e então ele disse,
"Bom, onde estão os seus brinquedos?" e eu pensei: "Oh, meu Deus, eu não tenho
nenhum brinquedo." Esta foi uma pergunta realmente Zen: Onde estão meus
brinquedos?. O que aconteceu com eles? Eu não podia lembrar o que teria
acontecido com eles. Depois disso comecei a comprar carimbos e me diverti muito
carimbando tudo que via.(Rountree 1991)
Nesta luta para se encontrar a si mesma, e não ficar apenas mergulhada no trabalho,
para tentar agradar os pais, Kingston liberou a jovialidade, sua própria energia erótica para o
trabalho e para os relacionamentos. Sem dúvida os olhos dela foram se tornando cada vez mais
brilhantes e vivos, na medida em que envelhecia, não só porque aumentou a sua capacidade
para trabalhar ouvindo as preferências do seu coração, mas também porque ela procurou com
afinco o relacionamento amoroso com pessoas, mantendo um casamento de trinta anos,
exercendo a maternidade, cultivando amizades e envolvimento comunitário. Kingston também
ensina a arte de escrever com criatividade para estudantes universitários, e nos seus olhos doces
porém brilhantes eu vejo um desafio provocativo aos alunos, para que descarreguem suas
próprias paixões e sua jovialidade ao realizarem o seu trabalho.
O maxilar de Kingston é um pouco saliente e seus lábios estão sempre preparados para
sorrir, como se seu jeito brincalhão e a sua determinação pudessem co-existir e ainda assim
lutarem um contra o outro. Uma outra fotografia e entrevista do meu livro (Rountree 1991, pg.143)
nos oferece um exemplo de uma pessoa não tão comprometida em sair de um estilo de vida
rígido. Brooke Medicine Eagle é uma professora índia (Nativa Americana) e escritora, que diz:
"Sou uma "workaholic", pois minha vida gira em torno do trabalho". Em sua fotografia vemos uma
bela mulher com um queixo proeminente e determinado, característicos da pessoa rígida (Lowen
1958). Não há raiva ou amargura na expressão de sua boca, no entanto seus lábios entreabertos
não estão sorrindo. Tudo na pose que ela está fazendo expressa orgulho. Sua cabeça está
mantida para cima e o pescoço parece rígido, o cordão do seu músculo esternocleidomastóideo
aparece claramente, quando ela vira a cabeça e olha para o infinito.
Lowen escreve que o pescoço do rígido é tenso, a cabeça ereta. Existe um tipo natural
de orgulho, mas no caráter rígido o orgulho é "mais ou menos fundamental, inflexível e
determinado... .o orgulho se manifesta no pescoço enrijecido... a determinação aparece no
queixo saliente..." Essa tensão no pescoço e no maxilar atua como defesa contra a expressão
"dos profundos sentimentos de amor" que brotam no coração.(Lowen 1958). Para puxar a cabeça
para trás, mantendo-a bem tensa e ereta, são feitas contrações crônicas em numerosos
músculos do pescoço, inclusive os grandes e superficiais músculos trapézio e
esternocleidomastóideo ((Fig. 3, 4 e 11), e o intrincado sistema de profundos músculos
extensores do pescoço, que se situam ao longo da coluna cervical. Além disso existe também
tensão na garganta. A pessoa rígida tende a sentir o impulso para o choro, mas tem dificuldade
para liberar esse impulso. Um dos pacientes de Lowen "queria chorar, mas para ele isso era
doloroso. A dor era sentida na garganta como um forte espasmo". (Lowen 1958)
Já mencionamos a sobrecarga da cabeça do rígido, bem, como de seus genitais,
causada pela rigidez tubular do corpo nas costas, no peito e no abdome. Existem vincos verticais
proeminentes na testa de Brooke Medicine Eagle, entre suas sobrancelhas. Lowen relaciona
essa tensão da testa ao pensamento obsessivo, do qual o rígido é presa fácil. "O fenômeno da
obcecação é limitado às estruturas rígidas. Ele é percebido freqüentemente como uma tensão
na testa e representa, dinamicamente, uma sobrecarga dos lobos frontais... A obsessão é
causada por uma carga contínua da região frontal, quando ao mesmo tempo essa descarga é
bloqueada ou limitada. O paciente vivencia a obsessão como uma constrição ou tensão na testa"
(Lowen 1958)
Tal como Maxime Hong Kingston, Brooke Medicine Eagle , percebeu que em sua idade
madura ela está lutando para se livrar da rigidez, embora não tenha recuperado seu jeito
brincalhão e sua paixão na mesma extensão alcançada por Máxime. Por ter crescido pobre,
numa fazenda, ela começou a trabalhar desde muito cedo. Apesar de ter freqüentado uma escola
pobre da reserva indígena, Brooke ganhou uma bolsa de estudos integral para a faculdade. Ela
não se esquece de nos contar que se formou como Phi Beta Kappa. (que nos E.U.A significa
notas excelentes). Ela diz que trabalha com "um sentido de urgência" e decidiu não ter filhos,
devido principalmente ao seu comprometimento profissional. Agora, já entrando na fase da meia-
idade, ela escreve: "Por muitos anos, achei que tinha tido uma vida pessoal, mas quando
amadureci eu percebi que não a tivera. Não estava fazendo nada do que realmente gostaria de
fazer .... eu não me reconhecia como uma pessoa separada do trabalho que realizo..... falta na
minha vida um aspecto pessoal .... Depois de ter achado durante anos que eu não possuía um
lado artístico... estou tomando providências para realizar o meu self artístico.” No entanto, ela se
imagina vivendo os próximos trinta anos como uma professora "ambulante", num estilo de vida
que ela sente que causou danos à sua vida pessoal. Só na velhice ela planeja tornar-se artista!
Ela ensina aos outros que "as pessoas precisam encontrar um direcionamento dentro de si
mesmas para abrir seus corações" (Rountree 1991), no entanto a rigidez faz com que ela não
consiga agora ouvir seus próprios anseios reclamando descanso e criatividade jovial.

Coluna Puxada para Trás


Lowen (1975) explica a tendência dos rígidos em manter sua reserva como uma "defesa
contra o impulso de buscar prazer- de se entregar. "Para o rígido, entregar-se é o mesmo que
"submissão e colapso". Ele teme ser enganado ou usado, caso se entregue, e, portanto, se
mantém em guarda “retendo os impulsos para baixar a guarda e buscar afeto”.
Lowen (1975) também constata: "A rigidez se torna uma defesa contra uma tendência
masoquista subjacente". Vamos recordar como é a coluna do masoquista, ao começar este
estudo sobre a coluna do caráter rígido. O masoquista, você se lembra, é comprimido por uma
força "de alicate" no seu tronco. O tronco se encurta, e as extremidades se curvam para a frente.
Na coluna torácica há alguma cifose (não tão acentuada como no oral), e na coluna lombar há
uma retificação, que empurra a pelve para frente na posição submissa de rabo entre as pernas.
Se você estivesse tentando se defender contra essa postura de derrota, como você colocaria
sua coluna? Você retificaria sua coluna torácica tanto quanto possível - até mesmo super
retificando-a --e arrebitaria sua pelve bem para trás, desenvolvendo uma lordose na sua coluna
lombar. Esta é a postura da coluna do rígido. Infelizmente, como em todo desalinhamento
crônico, perde-se a flexibilidade - tanto física quanto emocional. O enrijecimento na coluna
manifesta o orgulho, mas um tipo de orgulho que exige um grande controle sobre os próprios
impulsos. "Defesa nas costas" (Lowen 1975) ou "Mantendo-se em estado de defesa” (Keleman
1985 ) são posturas que tornam difícil uma abertura para os outros ou a busca de afeto, como
veremos ao analisar os ombros.
A coluna do bebê recém-nascido curva-se como um C, e não como um S (Grant, 1991
pg. 202). A curva cervical se desenvolve quando o bebê começa a levantar a cabeça, a curva
lombar desenvolve-se quando ele começa a ficar de pé e caminhar. Talvez, em sua vida adulta,
você tenha passado por momentos em que, vencido pela vida e precisando muito de nutrição,
você tenha deitado sua cabeça num colo amado e tenha se enrodilhado na posição fetal, que se
parece com a coluna em forma de C que você teve ao nascer. O caráter rígido, com uma curva
lombar enrijecida e exagerada (lordose), tem fisicamente dificuldade para curvar assim a sua
coluna; e psicologicamente, também fica difícil para ele entregar-se à sua necessidade de
nutrição Tais carências e entrega lhe parecem muito infantis.
Hoje em dia é raro vermos uma coluna vibrante, flexível nos Estados Unidos; em parte
porque nosso trabalho se distanciou tanto do tipo de trabalho físico variado que se faz necessário
para o sustento da vida humana numa comunidade rural. Por estarmos sempre utilizando
máquinas, pouco exercitamos os nossos músculos espinais, eles não se desenvolvem e ocorre
uma epidemia de dor nas costas, muitas delas causadas por tensão nos músculos ao longo da
espinha. Mas também é verdade que esta sociedade tem sido "rígida" na promoção da ética
protestante de trabalho, e encorajou o controle -- a retenção - na expressão dos sentimentos
pessoais. Certas posturas puxadas para trás são observadas diariamente nos escritórios, no país
inteiro, e são associadas ao sucesso no campo profissional. O executivo parado de pé, ouvindo
alguém com os braços cruzados na frente do peito, e puxando a parte superior do tronco para
trás, para longe do espectador, está passando a mensagem de que será difícil convencê-lo, de
que ele não vai se render. (ATLAS 1995). Uma fotografia de Cokie Roberts, encantadora repórter
da Rádio Pública Nacional, mostra sua postura de "puxar para trás", numa daquelas cadeiras de
escritório que se inclinam para trás, encontradas por toda parte. (Rountree 1991, pg.155). O
conteúdo da entrevista que acompanha essa foto, bem como a boca e queixo cheios de
determinação, deixam claro que ela é um caráter rígido. Sua “amável e divertida família” é mais
importante para ela do que a própria carreira- "Eu acho que sucesso é ser uma pessoa plena" -
no entanto diz também: "para mim é muito importante fazer um bom trabalho" (Rountree 1991).
A tensão crônica necessária para "segurar-se" rigidamente através da coluna será
evidente nos pacientes de duas maneiras. Primeiro, a espinha não se moverá fluidamente e seu
espectro de mobilidade ficará diminuido. Fotografias recentes do agora idoso B.K.S Iyengar
mostram que ele é capaz de tocar os joelhos com a cabeça curvada para frente e executar uma
completa curvatura para trás e torções espinais. (IYengar 1985). Muitos de nós poderiam realizar
de movimentos igualmente ágeis com suas colunas, mas foram perdendo essa capacidade por
causa da inatividade e tensão. Segundo, você poderá sentir o enrijecimento nos músculos ao
longo da coluna do paciente, apalpando-os. Mas os pacientes talvez reclamem da dor, quando
você pressionar esses músculos.
Lowen (1958) descreve a coluna rígida como postura do que "recusa curvar-se" e "recusa
ceder". Puxando para trás a pelve e a coluna superior, puxa-se para trás tanto o coração como
os genitais. Esta postura, quando se torna habitual, enrijece não só os músculos das costas como
também os músculos da frente do tronco, com a finalidade de proteger o coração e os genitais
de novos danos por rejeição. "Tendo sido ferido na expressão de seu amor, a criança
gradualmente aprende a diminuir sua vulnerabilidade a esse tipo de dor. Realiza essa defesa
"enrijecendo-se", como a dizer, - "Eu não vou me render ao sentimento de amor por você, pois
você pode me ferir, rejeitando-me." Orgulho.... Expressa esse sentimento. O "enrijecimento"
ocorre nas costas, desde a base do crânio até o sacro. (Lowen 1958).
Minha professora de ioga sempre diz que as inclinações para frente são posturas de
entrega. Entregar-se é muito prazeiroso quando acreditamos que nosso amor por outras pessoas
é mútuo. Podemos encontrar paz ao inclinar nossas cabeças ou mesmo ajoelhar no chão para
nos rendermos em oração a uma divindade na qual temos fé. Os exercícios bioenergéticos de
grounding – inclinações para a frente - trazem sensações prazeirosas se formos capazes de
"entregar" nossas posturas eretas e "nos abandonarmos" ao longo dos músculos extensores das
costas. Mas o orgulho defensivo leva à teimosia, uma incapacidade para se entregar. Se você
diz: "Eu não vou ceder!", você vai provavelmente perceber que está puxando para trás a parte
superior da sua coluna e a cabeça. Lowen (1975) escreve que essa postura raramente leva à
hostilidade no rígido, porque a agressão fica assim imobilizada; mas a teimosia impede que ele
se entregue ao prazer. "Em parte está teimosia provém do seu orgulho; ele tem medo que, caso
se deixe levar, poderá parecer bobo, então ele se segura". Mas também é causada pelo medo
de que a submissão acarrete uma perda de liberdade". Curvar-se para frente, como na posição
fetal de se enrolar, será especialmente difícil para uma espinha puxada para trás. Se a flexão
(curvatura para frente) é limitada, um paciente não será capaz de entrar em posição de
grounding, com as mãos tocando o chão (enrijecimento dos quadris e músculos das pernas
também tornam esta posição difícil).
A rigidez também limita os outros movimentos da coluna. Se a extensão (curvar-se para
trás) é limitada, a posição do arco e o uso do "stool" (banco) bioenergético serão difíceis. Os
outros movimentos da coluna - curvar-se para o lado e a rotação - não são tão claramente
revelados pelas posições bioenergéticas específicas, mas eles certamente serão limitados nos
pacientes rígidos. Você pode observar isto em si mesmo, se assumir uma posição rígida com os
ombros retraídos e a pelve arrebitada para trás, então tentar curvar-se para o lado ou torcer o
seu tronco.

Puxando para trás: Ombros e Braços Rígidos


O caráter rígido sente "impulsos para se abrir e buscar afeto," mas os contém (Lowen
1975). Se a rigidez é leve ou do tipo em "malha", os ombros vão estar num bom alinhamento e
razoavelmente aptos para movimentos. Se a rigidez é mais grave, haverá um puxar para trás
mais acentuado, e maior inflexibilidade dos ombros (Lowen 1958). Como vimos em nossa análise
sobre a infância do caráter rígido, os impulsos da criança para buscar o afeto dos pais são
sufocados devido à ansiedade desses pais quanto à sua qualidade erótica. A raiva que a criança
sente por causa dessa atitude dos pais, que também precisa ser segurada, acaba provocando a
construção de uma couraça. "Desde que os braços estejam disponíveis para o ataque e a defesa,
não há necessidade de armadura…a armadura se desenvolve por causa da imobilização da
agressão da criança. A agressão não é direcionada para dentro, contra o self, como no
masoquista, mas é usada defensivamente…a couraça é sobretudo a expressão da atitude de
enrijecimento para enfrentar um ataque, e não um revide. (Lowen 1959).
Essa couraça defensiva resulta em tensão nos longos músculos flexores e extensores
dos braços (bíceps, tríceps e outros) e um puxar para trás dos ombros. Você pode criar essa
couraça defensiva nos seus próprios ombros e braços, ficando de pé e fingindo que você gostaria
de agredir alguém fisicamente, com raiva, mas está se contendo. É uma atitude diferente da
negação do sentimento experimentada pelo narcisista, que o deixa sem consciência quanto aos
movimentos agressivos (sejam fisicos ou mentais) para ferir outras pessoas. O caráter oral tem
medo de atacar, enquanto o masoquista ataca, mas depois se encolhe (Lowen 1958). O
esquizóide, é claro, não sente o impulso de atacar.
Lowen (1958) escreve que os ombros quadrados, retraídos, que vemos no rígido é um
"sinal de responsabilidade prematura," uma defesa para suportar uma carga muito pesada. O
rígido carrega a carga com sucesso; ele tem a energia para isso. Mas a energia que mantém os
ombros enrijecidos e tensos foi desviada da expressão tanto do amor, quanto da raiva. A
garganta apertada bloqueia as expressões de amor, e o puxar para trás na parte superior das
costas e no pescoço bloqueia o fluxo de raiva, impedindo que passe das costas para os braços
ou para a cabeça. (Lowen, 1958).
Lembre-se de como a posição das escápulas é determinada em parte pela configuração
da coluna torácica superior (a cifose faz ângulo com as escápulas lateralmente, para frente, etc.).
Tal como o gato levanta esta parte das costas enquanto rosna, para avisar que pode atacar se
continuar ameaçado, os humanos também sentem nesta área o impulso para agredir. Se a parte
superior das costas colapsa para frente em uma cifose, a pessoa passa a ter uma aparência
frágil e terá braços fracos. O rígido puxa essa parte da coluna para trás (isto também super estica
a coluna) e segura as escápulas para trás e para perto da coluna, em adução (Fig. 14C e 15,
abaixo à esquerda). Se você levar seu braço para trás, como se preparando para golpear, você
vai sentir sua coluna torácica se endireitar e a sua escápula se move em adução. No rígido, o
impulso para atacar atingiu essa área e foi levado até os braços. Mas o impulso não é liberado
pelo movimento dos braços para a frente, para atacar, então a coluna superior torácica e as
escápulas permanecem nessa posição puxada para trás e os braços permanecem tensos.
Os braços são uma avenida, para buscar afeto nos outros, mas também servem para
golpeá-los com raiva. Quando esses impulsos são frustrados na infância, os músculos longos
flexores e extensores dos braços ficam tensos. A garganta também representa um papel
importante no ato de se abrir e de buscar, primeiro na amamentação e no choro, mais tarde
através das expressões vocais de amor e de raiva. Sendo vizinhos do coração, os braços e a
garganta levam naturalmente os impulsos do coração para fora, para os outros. A expressão
"meu coração se abriu para ela" compreende uma ideia de abertura dos braços e da garganta e
expressões de ternura pelo outro. Expressar ternura com os braços ou com a garganta é difícil
para o caráter rígido. A ternura é comunicada pelos músculos relaxados que dissolvem para o
outro, ao invés de se enrijecerem contra ele.
Durante o período edípico, quando a criança expressa afeto para os outros de uma forma
naturalmente erótica, ela também está se tornando cada vez mais criativa em seus jogos. A
criança edípica que se sente segura no seu meio ambiente "faz amor" não só com seus pais,
mas com tudo o que é belo e precioso para ela ao redor. Este tipo de brincadeira lança as bases
para a criatividade da fase adulta, para a capacidade de se expressar por prazer, sem exigências
perfeccionistas sobre si mesma. Se a criança tem permissão para brincar de modo independente,
e não para agradar seus pais com os seus esforços, os músculos de sua garganta, braços e
mãos vão permanecer relaxados enquanto ela canta, desenha, constrói e assim por diante. A
medida que ela cresce, ela vai querer trabalhar na aquisição de novas habilidades, porque a
aprendizagem vai aumentar suas capacidades expressivas. Na sua fase adulta, brincadeira e
trabalho vão frequentemente estar unidos. Mas se ela tiver que trabalhar muito cedo, mesmo que
seja na forma de brincadeira, seus músculos vão se contrair e seu prazer diminuirá.
Por exemplo, quando minha mãe viu o quanto eu gostava de desenhar, ela me mandou
aos quatro anos para uma aula de artes onde quase todos os alunos eram adultos, aprendendo
uma pintura realista. Eu lembro até hoje como me sentia deslocada nesse lugar, como percebia
quão "ruim" eram meus desenhos comparados com os outros. Embora eu nunca perdido a
vontade de desenhar, atualmente só faço desenhos de vez em quando, e sempre com um
sentimento de que estou lutando para liberar minha visão contra inibições. E não se trata aqui
apenas de inibições “emocionais”; posso até sentir a tensão física nos meus ombros e nos
braços, bloqueando a livre expressão. Há alguns anos, depois de ter praticado bioenergética, o
que começou a abrir meu coração e os ombros, entrei para uma aula de tecelagem, e me
apaixonei por essa arte. Certo dia, pouco depois de ter aprendido a tecer, eu estava movendo
meus braços e mãos sobre o tear, para colocar nos devidos lugares o fio, quando vi cristalizar-
se em palavras um sentimento vago que eu vinha percebendo. As palavras eram estas: “Deixe-
me sózinha!” E elas atravessavam minha mente, repetidamente, enquanto meus braços
libertados iam se comprazendo na sua recém-adquirida felicidade.
Vivenciando minha excitação inicial com a tecelagem, eu cheguei a pensar em largar
minha profissão e me tornar uma tecelã profissional, mas um tecelão mais experiente disse-me:
“Se você sentar no tear por obrigação, acabará o prazer”. Então decidi continuar tecendo apenas
por prazer. Mas minha redescoberta do prazer no trabalho manual acabou trazendo mudanças
também para o meu trabalho profissional. Quando comecei o trabalho de desenvolvimento deste
currículo anatômico, eu tive finalmente a certeza de que não existia nenhum método obrigatório
para ensinar, seria o meu próprio processo criativo que iria propiciar um método que me
parecesse adequado.

Armadura: O Tórax Rígido


Dependendo do grau de gravidade, o caráter rígido pode respirar "sem dificuldade" ou
de forma insuficiente (Lowen 1958). O mecanismo normal da respiração não é interrompido,
segundo Lowen; em outras palavras, tanto a respiração diafragmática quanto a intercostal
ocorrem a cada respiração profunda. (Kendall, McCreary e Provance 1993 p. 326,327). É
sobretudo provocando a constrição dos músculos superficiais do tronco que a couraça rígida
diminui a respiração. "A couraça constringe a ansiedade ...reduzindo a respiração por meio de
um controle inconsciente sobre os músculos da frente do corpo. Ainda que o diafragma esteja
relativamente livre, a rigidez da estrutura total limita a entrada e a saída de ar" (Lowen 1958).
Como apontei no Capítulo 3, o "container" da respiração inclui o pescoço, os ombros, o peito, o
abdome, costas e assoalho pélvico. A couraça típica da rígida causa tensões musculares em
todos esses lugares.
Em alguns caracteres rígidos, no entanto, o funcionamento do diafragma ficará afetado.
Lowen não discute isto, mas se a pelve e os ombros estão tão puxados para trás, a lordose será
acentuada e a caixa torácica, coluna lombar e a pelve estarão desalinhadas (ROLF 1989, p.56)
A parte em forma de cúpula do diafragma, ligada às costelas, e os tendões centrais do diafragma,
ligados às vértebras lombares (Fig. 17), ficam distendidas, longe umas das outras, e isso irá
limitar a capacidade do diafragma para se contrair e encolher inteiramente. Também os músculos
abdominais (Fig.3) ficam tensos (eles estão ligados à caixa torácica e à pelve) e não conseguem
mover-se suficientemente para a frente, para permitir a descida completa do diafragma.
Localizado também no peito existe ainda o coração (Fig. 16). Os sentimentos do coração
do rígido não estão isolados da periferia, mas são controlados na periferia, por meio da couraça.
“Ele ou ela é uma pessoa que age com o coração, mas com repressão e controle do ego. O
estado desejável seria baixar esse controle e deixar que o coração assuma o comando” (Lowen
1975). Se liberar esse controle periférico, haverá uma ansiedade no caráter rígido. Se forem
despertados fortes sentimentos afetivos, com origem no coração, durante a atividade sexual, a
ansiedade que disso resultará pode afogar o desejo sexual, prejudicar a descarga sexual, ou
despertar raiva contra o parceiro (Lowen 1958). Os caracteres rígidos freqüentemente procuram
terapia por causa de seus problemas sexuais, como por exemplo infidelidade: A sexualidade lhes
parece muito incestuosa, ou ter um caráter de mero desempenho no relacionamento
comprometido do casamento (Newlin 1990). "Se os genitais deram o seu consentimento, o
coração diz "não"...De que a pessoa tem medo, uma vez que aceitou a relação sexual? A ameaça
perigosa é o envolvimento emocional profundo. Se o coração se permitir fluir seus sentimentos
maravilhosos para dentro do aparelho genital, este último vai desenvolver grave
ansiedade".(Lowen 1958).
Qual é a base anatômica para a cisão coração-genitais, que caracteriza o caráter rígido?
Depois de ponderar-se essa questão, eu percebi que para respondê-la completamente seria
preciso um longo tratado sobre a natureza do amor, pois o funcionamento do coração se torna
manifesto em cada aspecto do corpo e nos pensamentos, emoções e atos. É por isso que Lowen
acabou tendo que escrever (1988) um livro inteiro.Amor, Sexo e Seu Coração( Summus Editora)
sobre o assunto. Irei mencionar aqui a anatomia do que me parece constituir as facetas mais
importantes da cisão coração-genitais.
A couraça periférica do caráter rígido não permite a respiração profunda que é
necessária para que o amor “profundo” possa ser expresso, quando o coração e os genitais se
expandem simultaneamente por meio de um fluxo maior de sangue. A respiração profunda se
abre para alcançar e relaxa o assoalho pélvico, para possibilitar uma profunda experiência
sexual. O coração também responde à respiração. Por exemplo, se o seu coração está batendo
depressa porque você está ansioso, você poderá fazê-lo acalmar-se, e sentir-se mais relaxado,
por meio de uma respiração lenta e profunda. Assim a respiração saudável relaxa o coração e o
assoalho pélvico, e permite a união dos sentimentos do coração e da pelve, como acontecia na
fase da infância.
Uma outra informação sobre a cisão coração-genitais pode ser encontrada nas próprias
palavras de Lowen: “Se o coração derrramar seus grandes sentimentos no aparelho genital...”
Quando o coração fica excitado com o desejo de expressar o amor sexualmente, ele bate mais
depressa e se contrai com mais força. Ele derrama sangue de maneira muito enérgica por todo
o corpo. Mas a couraça em forma de tubo do caráter rígido impede que o coração se “abra” e se
expanda inteiramente. E os músculos periféricos enrijecidos impedem que a periferia do corpo
se abra, diminuindo o fluxo nos inúmeros vasos sangüíneos que percorrem os músculos para
atingir a pele. Se você cerrar uma mão fortemente por um minuto, irá perceber que a palma da
mão fica pálida por um ou dois segundos, quando abrir a mão. O coração do rígido não pode
comunicar completamente a sua paixão para fora, pela pele, para atingir o coração da pessoa
amada.
Como já mencionei anteriormente, o padrão de couraça em forma de tubo faz com que
a cabeça e os genitais sejam excessivamente estimulados; o próprio tubo forma uma cisão
coração-genital. O tronco rígido não consegue relaxar e expandir-se com o prazer sexual, e
assim a energia é expulsa da área do coração para a cabeça, durante a excitação sexual. A
pessoa rígida poderá deixar a realidade do seu parceiro sexual durante o intercurso amoroso, e
retirar-se para a própria cabeça, para alimentar fantasias; ou poderá preferir a pornografia como
estimulante (Jacques 1994).
Ainda não havíamos falado detalhadamente sobre a pele. Lowen (1975) escreve que o
caráter rígido tende a possuir uma “boa cor de pele”, embora nos casos de rigidez grave “o tom
da pele possa ser pálido ou acinzentado”. Nos casos de rigidez leve, os músculos periféricos
estarão apenas ligeiramente tensos, e o sangue conseguirá livremente atingir a pele. A pele é
muito bem regada pelos capilares (pequenos vasos sangüíneos). Existe um sistema de vasos
logo abaixo da epiderme (a camada superior da pele, onde as células produzem queratina, a
qual protege a pele contra danos) e uma segunda e mais profunda camada de vasos abaixo dos
folículos capilares (Seeley, Stephens e Tate, 1992, p. 137). Embora a cor da pele seja
relativamente fixada pela quantidade de melanina existente na pele, ela poderá mudar em
resposta a emoções (e certamente também pela exposição ao sol). Em situações de terror, pouca
quantidade de sangue chegará à pele, porque o sangue foge da superfície. Em situações de
raiva ou de embaraço, a pele da pessoa, sobretudo no rosto, fica vermelha. A cor da pele muitas
vezes fica mais saudável – menos pálida ou menos cinzenta – quando as tensões musculares
ficam relaxadas durante uma terapia. Amor, Sexo e Seu Coração analisa em grande detalhe a
relação unificada entre a pele em geral, as áreas sexualmente excitáveis da pele, e o coração.
“No prazer.... o sangue invade com força a superfície do corpo e durante o prazer erótico ele
excita fortemente as zonas erógenas. Por esta razão, o sangue é considerado como o
mensageiro de Eros” (Lowen 1988).
A pele também é muito rica em terminais sensoriais nervosos de vários tipos. Se os
músculos periféricos estão contraídos cronicamente, a capacidade da pele para sentir
estimulação prazerosa ficará diminuída. Lowen (1988) escreve: "Todo o contato prazeroso entre
dois corpos leva aos sentimentos amorosos." Estimulação tátil prazerosa - ser abraçado,
acariciado, etc.- é necessária para que uma criança na fase edípica se sinta amada com
segurança. Este é outro aspecto da cisão coração- genitais. O coração do caráter rígido não
consegue se abrir para ser inteiramente amado pelo outro se as sensações prazerosas da pele
tiverem sido separadas das sensações genitais, no período edípico.
Armadura: O Abdome Rígido
A rigidez do abdome não é funcionalmente separada da rigidez do peito. "A parte da
frente do corpo é dura. É a rigidez do peito e do abdome, essenciais para uma couraça. A frente
é o aspecto suave e vulnerável do corpo, é o seu aspecto sensível, o domínio dos sentimentos
de ternura. Se esse aspecto ficar desprotegido, toda a assim chamada couraça das costas não
servirá para nada” (Lowen 1958). Assim os músculos abdominais rígidos permanecem
contraídos de forma crônica. Mas ao mesmo tempo, a retração dos ombros e da pelve distende
estes músculos. Quando você fica de pé poderá observar como este tipo de couraça abrange
uma área bem extensa, experimente primeiro enrijecer seu abdome como se fosse receber um
soco (veja como automaticamente também vai se enrijecer a frente do peito); depois empurre
para trás os ombros e a pelve. A frente do tronco fica muito mais rígida quando você acrescenta
o movimento de empurrar para trás. Veja como fica difícil respirar fundo com esta couraça, e
como a parede peitoral na frente do coração se torna rígida.
O choro é “uma liberação convulsiva de tensão” (Lowen 1958). Embora os músculos
sejam até certo ponto relaxados por causa do movimento dos soluços profundos, são os
músculos do abdome e do peito que mais liberam a tensão crônica, para permitir a inspiração e
expiração profundas que acompanham o choro. Infelizmente, “a pressão, a responsabilidade e o
conflito causam um enrijecimento ou aumentam a rigidez”, do indivíduo encouraçado. O caráter
rígido fica preso num círculo vicioso: seu padrão de encouraçamento torna difícil o choro, mas
esse é o meio pelo qual ele poderia liberar a tensão contida na couraça. (Lowen 1958).

Contração: Pernas e Pelve Rígidas


Lowen (1958) acredita que a pelve saudável é mantida ligeiramente para trás, mas não
o bastante para chegar a causar lordose. Esta posição permite que a pessoa consiga reter uma
carga sexual leve, que é necessária para ter o desejo, não apenas o desejo de contato com
outras pessoas, mas também o desejo de se divertir, do belo, etc. Sem a capacidade de sentir e
de tentar satisfazer esses desejos, a pessoa não consegue fazer com que o próprio prazer se
torne “a autoridade máxima de sua vida” (Jacques 1994). A pelve ideal do ponto de vista
bioenergético deveria estar também inteiramente livre para mover-se, é claro.
A pessoa rígida consegue manter uma carga, muito bem até, porque a sua pelve é “mais
ou menos empurrada para trás e fica assim mantida, em tensão” (Lowen 1958). Com a pelve
mantida para trás, além da posição levemente empinada para trás, e não ficando livre para
movimentos, ela “retém para trás” o seu próprio prazer, num excessivo controle de seus próprios
desejos e permitindo que terceiros, a quem ela deseja agradar com o seu trabalho, continuem a
representar o papel de autoridade máxima em sua vida.
Os quadris ondulantes que Lowen (1958) designa como “uma exagerada movimentação
que é sem dúvida uma maneira de seduzir” conferiam “sex appeal” (poder de sedução sexual) à
mulher histérica de tipo clássico. Tais quadris são raros hoje em dia, e a pelve “macia” pode estar
saindo da moda, mas a mulher rígida de hoje ainda mantém a pelve empinada para trás. Esta
posição permite que carregue a pelve e descarregue esta energia até certo ponto, para que
consiga atingir o clímax sexual. Mas existem tensões musculares superficiais que limitam o
movimento da pelve e a plenitude de sua descarga. Lowen (1958) cita “os músculos vaginais”
(devem ser o pubcoccygeus e alguns outros músculos menores); Fig. 18) e os adutores da
coxa (Fig.3), que são os principais músculos que ficam muito contraídos na região pélvica da
mulher de caráter rígido. Os músculos glúteos (Fig.4) não ficarão muito contraídos (embora
eles detenham uma certa tensão); se ficassem contraídos iriam empurrar para a frente a pelve,
como acontece na estrutura masoquista. Uma boa parte da tensão que segura para trás a pelve
é exercida nos músculos extensores (para-espinhal) ao longo da coluna lombar lordal e do
sacro.
A satisfação sexual do homem rígido também é incompleta e não proporciona um prazer
pleno. A pelve retém considerável carga de energia, mas é mantida para trás por tensões
musculares, a fim de garantir a manutenção do controle. A pelve do caráter compulsivo retém
menos carga genital do que no caso do fálico-narcisista, mas nenhum dos dois tipos de homem
rígido sofre uma falha de ereção. No entanto é comum a ejaculação precoce. O homem fálico-
narcisista vai ficando insatisfeito com o seu parceiro e procura uma nova ligação, na esperança
de que venha a ser mais prazeirosa (Lowen 1958). Embora o caráter fálico-narcisista tenha sido
reclassificado como narcisista, parte do que Lowen escreveu sobre ele ainda permanece válido
para o homem rígido de hoje, que controla seus próprios impulsos, e não tanto as outras pessoas,
por meio da retenção. O homem rígido não tenta empurrar-se para cima, para fora de sua pelve,
como o caráter fálico-narcisista, mas existe ali uma “super-excitação dos genitais” que provém
da “falta de capacidade para descarregar a tensão, de modo que o pênis é facilmente
recarregado e tende a reter sua rigidez” (Lowen 1958).
Já abordei aqui a cisão coração-genital. Acrescento apenas que a pelve rígida, com a
sua posição de carga energética extreitamente contida, e suas tensões musculares contractoras,
não consegue ser relaxada com facilidade. Em conseqüência, os sentimentos de amor e de
entrega que iriam fluir para a pelve, vindo do coração, são retidos por esses músculos, como
acontece também em outras partes do corpo.
E como a cisão coração-genital do caráter rígido causa nele o medo de se apaixonar (-
fall in love, cair de amor), ele sofre também do “medo de cair, de uma forma geral, e este medo
de cair (de ceder, de se abandonar) se manifesta na rigidez das pernas”(Lowen 1958). As pernas
parecem “bastante tensas” porque a tensão nos longos músculos flexores e extensores das
coxas e da panturrilha (quadríceps, tendões e outros), mas os músculos são bem
desenvolvidos e parecem fortes. Serão bem proporcionados com relação ao resto do corpo, e
não finos como no narcisista puxado para cima, e não serão excessivamente desenvolvidos
como acontece no masoquista. Se a rigidez for leve ou do tipo “em malha” as pernas serão
bastante ágeis, mas quando há rigidez grave ou do tipo “placa” as pernas ficarão mais tensas e
não tão ágeis (Lowen 1958).
O caráter rígido tende a possuir “tornozelos e pés fortes” (Lowen 1958). Os tornozelos
serão bem eretos, e não colapsados (Fig.24, superior esquerda), e os pés terão um arco bem
formado (Dychtwald 1985, p.52). Algumas pessoas rígidas inclinam para trás o corpo inteiro,
colocando peso excessivo nos calcanhares, mas esta não é uma posição ereta muito estável.
Muito mais comum é as pessoas rígidas procurarem compensar os desalinhamentos da coluna
por uma excessiva extensão dos joelhos (Fig. 25, superior direita) e colocando muito peso nas
plantas dos pés. Se você experimentar essas duas posições eretas, verá que a segunda faz com
que os pés fiquem mais firmemente em contacto com o solo, e torna mais estável o equilíbrio do
corpo.

CARÁTER RÍGIDO
Character Styles - Stephen Jonhson pg. 230

Se dividem em 2 tipos: Histérico - couraça em rede. A criança explorada.


Obsessivo compulsivo - a criança disciplinada.

Histérico ou Histriônico
Temas: amor, sexo, rivalidade, traição e incesto.
Inicialmente Freud acolhia as vivências de experiências sexuais precoces de seus
pacientes histéricos (6 masculinos e 12 femininos) que diziam ter sido alvo da sexualidade de
adultos, em geral da figura parental do sexo oposto.
Mais tarde ele negou, dizendo que eram fantasias originadas pelo desejo da criança, com base
no Complexo de Édipo.
Freud notou que as pessoas reviviam cenas de sexualidade na infância com detalhes; a
emoção era retirada do relato embora “enquanto se lembravam sofriam as mais violentas
sensações, das quais se envergonhavam e que tentavam esconder. E mesmo tendo revivido a
cena tentam negar o fato, justificando que não tem nenhum sentimento quando lembram a cena”
(dissociação). Steph Jonhson, pag 231.

Histeria de Conversão (Pag. 233 S. Jonhson cita Freud)


“A pessoa tinha boa saúde mental, até que... seu ego se vê frente a uma experiência,
uma idéia ou um sentimento que levantam um afeto tão perturbador, que o sujeito decide
esquecer tudo, porque não confia na sua capacidade de resolver a contradição entre a idéia
incompatível e o ego, por meio do pensamento. .... Na histeria, a idéia incompatível é tornada
inócua, por meio de um mecanismo que transforma a somatória da excitação da idéia, em algo
somático. Para isto proponho o nome de conversão”. Freud 1896 pp. 47- 49.
Freud chamou a isso CISÃO DA CONSCIÊNCIA, mais tarde deu nomes de consciente
e inconsciente a estes dois aspectos cindidos.
Mais tarde ainda, esta cisão da consciência foi a origem do modelo de REPRESSÃO,
que requeria energia psíquica para mantê-la.
Essa energia psíquica que mantém a repressão pode ser manifestada na conversão
somática, expressão afetiva, obsessão cognitiva ou compulsões comportamentais observáveis.
A conversão somática compreende tanto o conteúdo reprimido quanto a energia usada na
repressão. Mas nem toda conversão somática está ligada a caráter histérico.
Expressão de afetos (dissociados como falar demais, rir, chorar ou explosões de ira)
Obsessão cognitiva ou compulsões observáveis no comportamento (pensamento obsessivo ou
compulsões de comprar, sexo, álcool, etc).
Na histeria há questões pré genitais em graus variáveis. Quanto maior a problemática
oral e esquizoide, mais frágil o ego para lidar com a elevada carga de energia sexual na fase
edipiana.
Os problemas surgem porque os adultos não lidam bem com as necessidades e atitudes
inocentes da criança, inclusive excitação e curiosidade sexual, necessidade de contato físico e
prazer no contato, necessidade de nutrição e atenção, inveja do aspecto exclusivo da relação
dos pais.
Vemos uma personalidade que apresenta super-emocionalidade, uma atitude “como se”
(atriz no palco), com estilo cognitivo global e difuso. Esse estilo está a serviço da repressão
porque impede que a profundidade do pensamento ou sentimento leve à resolução da cisão.
A maioria são mulheres devido ao estereótipo cultural.
Uma mulher que teve uma relação sexualizada ESPECIAL com uma figura paterna
sedutora.
A relação com a mãe: Descrita como fria, negligente e com rivalidade / competição,
brigas.
(Pg.240). Quando um dos pais é submisso, infantil, ausente, o lugar parental fica vago.
As fronteiras ficam nebulosas entre o subsistema parental e os filhos. Facilita um dos filhos ser
atraído (a) para o subsistema parental, para preencher o vazio.
(Pg. 244) “A filha sendo atraída para o conflito marital dos pais, no papel de rival da mãe,
sente-se profundamente dividida, sente que só pode agradar ao pai às custas de alienar a mãe.
Paga pelo seu lugar na família, sofrendo a inveja e ressentimento da mãe e, por vezes
dos irmãos”.
Envolve-se em triângulos amorosos – busca o parceiro não disponível. A dramatização e o alto
nível de excitação desses triângulos tem função defensiva, evitando contato com problemas reais
e sentimentos reais. É freqüente um traço de obstinação, exibicionismo, vaidade, promiscuidade
e inveja que servem ao propósito de ocupar o centro das atenções, manter o foco de atenção
(dela mesma e dos outros) em coisas externas.

Sistema Filhos
Autoimagem dupla: boa - princesinha do Papai. Inocente (tenta manter esta fachada).
Teme que emerja a mulher tentadora, prostituta, desprezível.
Má - que atrai o interesse do pai. E merece o ciúme da mãe. O mal
é a sexualidade.
Padrão de relacionamento com os homens: período de apaixonamento romântico
seguido de desapontamento e raiva. Procura o homem difícil, não disponível. Super valorizam
o homem, desvalorizam a mulher. Tem relações superficiais com mulheres.
Com a cisão, tentam neutralizar a culpa.

OBSESSIVO COMPULSIVO
Couraça rígida tipo placa. Adultos: traços infantis, animalescos, apaixonados, sensuais
ou de autoindulgência são mantidos sob estrito controle. Resulta comportamento obstinado –
passivo agressivo. Rebelião é difícil nessa família. Ênfase no controle e disciplina.
Existem 3 tipos de obsessivo compulsivo:
1 ) medo excessivo de sofrer danos físico (em si e nos outros) ou dano à propriedade.
Podem se preocupar a respeito de contrair AIDS, ou ter medo compulsivo de seus impulsos
hostis. Tais medos podem conduzir a rituais compulsivos como lavar-se ou verificar e checar as
coisas constantemente.
2 ) vago senso de desconforto em lugar de sentir verdadeiro perigo em face a situações
normais. Tem alto nível de excitabilidade psíquica, parecendo ansiedade generalizada, pode
conduzir a comportamentos obsessivos como arrumação excessiva, catalogar tudo, colecionar
objetos.
3 ) esforços de perfeicionismo e simetria. Podem por exemplo ter que amarrar os sapatos
com o mesmo grau de tensão, passar nas portas ficando exatamente no centro, etc. Sentem
muitos destes comportamentos como irracionais, embora o perfeicionismo muitas vezes seja
aceito e ego-sintônico.
Tenta fazer a coisa certa, aquilo que deve ser feito. Perde o contato consigo, com o que
deseja. Faz escolhas pelo que deveria ser certo, tem dificuldade de fazer escolhas. Para fazer
escolhas na vida, é necessário um contato sólido com as sensações cinestésicas, que falta ao
obsessivo. Encontra-se frequentemente às voltas com dúvidas quando tem que escolher e pode
fazer escolhas impulsivas para se livrar da ansiedade da dúvida.
Qualidades: Em áreas livres de conflito, tem pensamento organizado, racional,
detalhista. Podem ser excelentes em profissões como contador, advogado, tecnologia e
pesquisa.
Afeto: Sacrifica espontaneidade pelas exigências de ordem, eficiência e exatidão. Afetos
parecem ausentes.
Permanecem na periferia, focalizam em abstrações ou em contínuo conflito, para não
emergirem sentimentos ameaçadores.
O sentimento mais evidente para quem observa é a Raiva, que está encoberta na
obstinação, teimosia, persistência e rigidez típicas.

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