A FRAQUEZA E A INUTILIDADE DA LEI
“Portanto, por um lado, se revoga a anterior
ordenança, por causa de sua fraqueza e inutilidade
(pois a Lei nunca aperfeiçoou coisa alguma) e, por
outro lado, se introduz esperança superior, pela
qual nos chegamos a Deus” (Hb 7:18-19)
Pode a Lei evitar a idolatria? Quando Paulo chegou a
Atenas, “revoltava-se nele o seu espírito, vendo a cidade
cheia de ídolos” (At 17:16), mas ele não foi mostrar àquele
povo idólatra o que a Lei Mosaica dizia sobre a idolatria de
esculturas (Êx 20:4-6). O apóstolo simplesmente
apresentou-lhes o Deus Verdadeiro, supostamente honrado
pelos atenienses como “Deus Desconhecido”, e falou-lhes a
respeito do Cristo ressuscitado. Paulo era agora ministro de
uma nova aliança, não da letra, mas do Espírito; porque a
letra mata, mas o Espírito vivifica (II Co 3:6), e sabia que a
Lei não tem força contra o pecado, mas é a própria força do
pecado (I Co 15:56), por isso ela não evitou a idolatria (nem
qualquer outro pecado) nem em Israel, uma sociedade
absolutamente teocrática, que vivia sob o medo das duras
penalidades da Lei Mosaica.
Pode a Lei refrear a promiscuidade? Ela diz: “Nenhum
homem tomará sua madrasta, e não profanará o leito de
seu pai” (Dt 22:30). Mas qual foi a reação de Paulo ao tratar
desse exato pecado na igreja em Corinto? “Há entre vós
imoralidade, e imoralidade tal como nem mesmo entre os
gentios. Isto é, haver quem se atreva a possuir a mulher de
seu próprio pai” (I Co 5:1). Por mais inaceitável que seja
para o cristianismo legalista e meritório, o motivo da
indignação de Paulo foi porque o tal pecado era algo
incomum e imoral até entre os incrédulos, e não porque
estivesse na Lei Mosaica.
Ainda na igreja em Corinto, ao repreender duramente
alguns irmãos que saíram com prostitutas, Paulo não os
ameaçou com punições previstas na Lei Mosaica nem
sequer a mencionou como um referencial da vontade de
Deus. Mas lembrou-lhes de que nossos corpos são membros
de Cristo e que expor os nossos membros à prostituição é
literalmente expor os membros do próprio Cristo (I Co 6:15-
16).
Nova Aliança, novo referencial... “Cristo é tudo e em
todos” (Cl 3:11).
Teria o ex-fariseu (irrepreensível perante a justiça que
há na Lei - Fp 3:6) se esquecido dela? Foi um pequeno lapso
de memória? Ou a Lei (parâmetro de justiça própria
humana), anteriormente guardada com zelo supremo,
agora estava morta e enterrada para a nova criatura na
qual tornou-se o ex-fariseu?
Ora, todos os que são nascidos no Espírito de Deus
devem aprender a discernir o que convém (I Co 6:12,
10:23), independentemente do que diga a Lei, pois...
“... tudo que a Lei diz, aos que vivem na Lei o diz” (Rm
3:19)
“Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não
estais debaixo da Lei, e, sim, da Graça” (Rm 6:14)
Para o ex-fariseu Paulo, as coisas velhas já haviam
passado, tudo se havia feito novo (II Co 5:17), e ele agora
servia em novidade de espírito, e não na caducidade da
letra (Rm 7:6). Para ele, até os debates sobre coisas da Lei
eram absolutamente inúteis e fúteis (Tt 3:9), pois é o
Espírito – e não a Lei - que convence o mundo do pecado,
da justiça e do juízo (Jo 16:7-8).
O próprio Jesus, assim como Paulo, só usou a Lei contra
aqueles que nela confiavam para apresentarem-se como
justos. Com os demais pecadores, ele sempre enfatizou o
arrependimento e confiou no poder regenerador que há no
seu amor incondicional e no seu perdão gratuito e definitivo
(veja-se, por exemplo, o caso da mulher adúltera, que, pela
lei, deveria ser punida com apedrejamento - Jo 8:3-11).
Quem enxerga a si mesmo conforme nos revela o
Evangelho, sequer entra em inúteis debates sobre coisas da
Lei. O desejo ardente que nasce em seu coração é o de
entregar-se livremente à direção do Espírito, para caminhar
discernindo a Palavra e manifestando na vida do próximo
toda a sua gratidão pelo amor incondicional que recebeu de
Deus.
O propósito deste livro, por exemplo, não é discutir
sobre detalhes da Lei Mosaica, mas tão somente mostrar a
incompatibilidade entre Graça e Lei; o que, aliás, é o tema
central de todas as cartas do apóstolo dos gentios, fato que
permanece incompreendido por grande parte dos que se
dizem cristãos. E Paulo simplesmente anunciou a morte da
Lei, sem tentar dissecá-la nem fazer-lhe uma autópsia.
As palavras de Jesus aos fariseus (lei, para legalistas)
são sempre bem aceitas e muito repetidas em todo o meio
cristão, mas as palavras dele aos demais pecadores (Graça,
para pecadores confessos) não geram o mesmo interesse e
sempre incomodam mentes e corações ainda sob domínio
da Lei, mesmo que se digam convertidos ao Evangelho da
Graça.
A Lei foi abolida para os que estão em Cristo porque ela
é o parâmetro de justiça que separa os homens (Ef 2:14-
15), e o discípulo de Cristo, a fim de negar a si mesmo e
tomar para si a justiça do Calvário (Lc 9:23-24), considera a
sua justiça própria como perda e refugo, a fim de ser
achado não tendo justiça própria, que procede de lei,
senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que
procede de Deus, baseada na fé (Fp 3:7-9).
A Lei morreu porque Cristo já cancelou, removeu
inteiramente e encravou na cruz o escrito da dívida que
tínhamos para com Deus, referente à nossa justiça própria,
o qual constava de ordenanças, era contra nós e nos era
prejudicial, e assim despojou principados e potestades,
publicamente os expôs ao desprezo e triunfou deles na cruz
(Cl 2:13-15). Agora precisamos ser aperfeiçoados no amor (I
Jo 2:5-6), e a Lei, que é fraca e inútil, não serve para esse
fim, pois nunca aperfeiçoou coisa alguma (Hb 7:18-19).
A Lei é inútil porque as coisas velhas já passaram e tudo
se fez novo (II Co 5:17) e, quando se muda tudo, inclusive o
sacerdócio, há também necessariamente mudança de lei
(Hb 7:11-12). Quem está na Graça passou da lei de
mandamento carnal (Hb 7:16) para a Lei de Cristo (Gl 6:2).
A Lei é inútil porque é desnecessária como referencial
de conduta para aquele que é nova criatura em Cristo, pois
ele é guiado pelo Espírito (Gl 5:18) e sabe discernir o que
convém (I Co 6:12).
A Lei morreu para que o pecado não mais tenha
domínio sobre os que estão debaixo da Graça (Rm 6:14).
Portanto, estar debaixo da Graça e continuar alimentando
alguma forma de justiça própria diante de Deus para
obtenção de direitos pela obediência à Lei e seus derivados
sujeita a nova criatura a permanecer sob o domínio do
pecado.
A Lei morreu porque ela é o caminho da
autojustificação, e o nosso caminho é o da justificação em
Cristo (Jo 14:6). Nós, nascidos do Espírito (Jo 3:8), morremos
relativamente à Lei para pertencermos àquele que
ressuscitou dentre os mortos e, deste modo (mortos para a
Lei/justiça própria), frutifiquemos para Deus (Rm 7:2-4).
Fernando Carlos M. Rodrigues
Fortaleza-CE, jul/2009
nandocmr@[Link]