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O Ano 1000

Enviado por

Mario Benevides
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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O ANO
1000
A
R
ST
Q ua ndo E x plor a dor e s C onec t a r a m o
Mundo — E a Glob ali z aç ão Iniciou
O
AM

Valer ie Hansen

Rio de Janeiro, 2021

CG_MIOLO_the_year_abertura | 23/04/20 | 17 agosto, 2021 23:48 | Carlos Bacci Jr


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Sumário

Nota da Autora 11
Prólogo 13
1. O Mundo no Ano 1000 21

A
2. Rumo ao Oeste, Jovem Viking 39

R
3. Rotas Pan-americanas do Ano 1000 65
4. Escravos Europeus 91
ST
5. O Homem Mais Rico do Mundo 123
6. A Ásia Central Se Divide em Duas 153
7. Viagens Incríveis 181
8. O Lugar Mais Globalizado do Planeta 209
O

Epílogo 237
Agradecimentos 247
AM

Quer Aprender Mais? 251


Notas 257
Créditos de Ilustrações e Fotografias 311
Índice 315

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CA PÍT ULO U M

O Mundo no Ano 1000

A
C uriosamente, nenhuma tecnologia nova foi a causa dessa gran-
de expansão nas viagens entre as regiões nos anos 1000. Ante-

R
riormente, as pessoas viajavam por terra, basicamente andando a pé,
montando animais ou usando carroças, e atravessavam rios e mares
em canoas, barcos a vela ou navios de madeira. O comércio entre as
ST
diferentes regiões aumentou no ano 1000 porque um excedente na
agricultura levou ao crescimento da população e permitiu que alguns
povos parassem de plantar por completo e passassem a fabricar produ-
tos para comercializar, tornando-se negociantes.
O

O lugar no mundo com a mais alta taxa populacional no ano 1000,


era, como agora, a China. Sua população chegou a 100 milhões. Ao
longo da história, os chineses constituíram entre um quarto e um
AM

terço da população do planeta. A economia cresceu durante a dinastia


Song (960–1276), conforme mercadores e embarcações chineses ne-
gociavam com o sudeste da Ásia e o sul da Índia, onde localidades que
cultivavam arroz também davam suporte às populações em expansão.
As populações das áreas produtoras de grãos no Oriente Médio e
Europa não eram tão altas quanto as da Ásia, mas ainda assim eram
significativas. De 751 a cerca de 900, o império Abássida controlou
uma grande faixa de território do norte da África na região oeste até
a Ásia Central no leste.
A unificação sob o domínio Abássida facilitou a circulação de
muitas colheitas no império. Algumas, como a soja, tiveram origem
no oeste da África; outras, como o arroz, vieram da Índia. O culti-
vo de plantas tropicais do Irã e da Índia transformou a vida de todo

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O ANO 1000

o reino Abássida, encorajando os fazendeiros a trabalhar durante


o verão (algo que não acontecia antes). Essa mudança trouxe uma
prosperidade contínua para o centro islâmico nos primeiros anos do
califado Abássida.
Mas após 900, o império se dividiu em dinastias regionais, cada
uma governada por um líder militar diferente. O califa em Bagdá
continuava sendo o chefe nominal da comunidade islâmica (os mu-
çulmanos continuavam mencionando-o em suas orações às sextas-fei-
ras em todo o antigo território da Abássida), mas o império não estava
mais unido. Todavia, a população das antigas terras da Abássida conti-

A
nuava crescendo, sendo estimada entre 35 e 40 milhões no ano 1000.
A população a oeste da Europa também aumentou quando os ha-

R
bitantes adotaram mudanças profundas na agricultura, que o historia-
dor britânico R. I. Moore chamou de “cerealização”. Eles plantavam
cada vez mais trigo e cevada. No norte da França e da Inglaterra,
ST
pela primeira vez os agricultores reconheceram que cultivar a mesma
plantação em certo campo anos seguidos reduzia sua produtividade;
tiveram, então, a ideia de deixar de um terço até metade de suas terras
para descansar.
O

Após o ano 1000, os fazendeiros começaram a alternar as planta-


ções. Uma rotação popular era nabos, cravos-da-índia e grãos, que
ajudavam a manter os nutrientes e a qualidade do solo. Essa prática, tão
AM

importante para aumentar a safra agrícola, se espalhou lentamente (ela


já era muito conhecida na China). Ao mesmo tempo, outras inovações
também aumentaram o resultado: arados puxados por cavalos, moi-
nhos de água, moinhos de vento e ferramentas de ferro que podiam
rasgar mais fundo o solo em comparação com as de madeira. Antes da
cerealização, grande parte da terra no oeste da Europa não era cultiva-
da regularmente, algo que ocorreria depois com a maioria delas.
Além de aumentar a população, essas mudanças contribuíram para
o surgimento de assentamentos na Europa. Antes de o cultivo de grãos
se difundir, muitos fazendeiros no oeste da Europa eram itinerantes,
mudando de lugar para trabalhar a terra e criar gado. Foi assim com
fazendeiros na Escandinávia e no leste da Europa, que seguiam suas
criações de porcos, cabras, ovelhas, gado e cavalos. Mas primeiro na

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O Mundo no Ano 1000

França, Inglaterra e Alemanha, depois no leste e no norte da Europa,


os fazendeiros começaram e construir casas e a se estabelecer em vilas,
graças à rotação de culturas e a outros avanços agrícolas.
A população da Europa quase dobrou, indo de menos de 40 mi-
lhões no ano 1000 para 75 milhões em 1340 (antes de a Peste Negra
assolar o continente em 1347). Esse incremento populacional coinci-
diu com o Período Quente Medieval, que iniciou em 1000, atingiu
o pico por volta de 1100 e terminou em 1400. Como os historiadores
climáticos não sabem ainda se a tendência de aquecimento ocorreu
no mundo inteiro, agora eles se referem ao período como Anomalia

A
Climática Medieval. Uma pesquisa em andamento sugere que, em-
bora algumas regiões, como a Europa, tenham tido um aumento na
temperatura, outras ficaram mais frias.

R
A distribuição populacional da Europa também mudou. A popula-
ção ao sul e ao leste da Europa (Itália, Espanha e Península Balcânica)
ST
aumentou em 50%. Mas, por causa de avanços nas técnicas agrícolas,
o crescimento a oeste e ao norte da Europa, a região da França e da
Alemanha atualmente, foi muito maior: a população aumentou três
vezes, de modo que quase metade dos habitantes da Europa vivia no
O

norte e no oeste do continente em 1340.


O movimento da população chinesa lembrava o da Europa, mas
na direção oposta: os chineses foram para o sul do Rio Yangtze para
AM

as áreas de cultivo de arroz precisamente ao mesmo tempo em que


os europeus foram para o norte, afastando-se do Mediterrâneo, em
direção ao Mar do Norte. Em 742, 60% da população de 60 milhões
viviam no sul da China, onde cultivavam arroz, uma cultura muito
mais produtiva do que os grãos do norte.
Em contraste com o que ocorria na China, submetida a um impe-
rador, não havia na Europa do ano 1000 um monarca que reinasse de
modo absoluto. No leste da Europa, o Império Bizantino era o poder
mais próspero, mas sua força bélica diminuía rapidamente. Embora o
exército bizantino estivesse a cada dia se enfraquecendo mais, forçan-
do o imperador a depender de mercenários ou exércitos estrangeiros,
Constantinopla (atual Istambul) era a cidade mais avançada na Euro-
pa. Quando os europeus ocidentais a visitaram, mal podiam acreditar

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O ANO 1000

na beleza de suas alamedas ou na sofisticação das construções, sobre-


tudo a magnífica catedral de Santa Sofia.
Na Europa Ocidental, Carlos Magno unificara as atuais França e
Alemanha, mas, após sua morte em 814, o reino foi dividido em três.
Nos anos 900, o rei Oto I da Alemanha, seu filho Oto II e o neto
Oto III (os três são conhecidos como otonianos), foram os governan-
tes mais poderosos no oeste da Europa. Oto controlava o território
da Alemanha e de Roma, mas não toda a Península Italiana, que
pertencia em grande parte ao Império Bizantino. O poder de Oto lhe
permitiu indicar o papa. Por sua vez, o papa coroou Oto I imperador

A
do Sacro Império Romano em 962, uma posição que seu filho e neto
sucederam também.

R
Oto III escolheu o papa Silvestre II (999–1003) para chefiar a igre-
ja romana. Um dos homens mais cultos de seu tempo, Silvestre sa-
bia um pouco de Álgebra, uma técnica matemática que os europeus
ST
aprenderam no mundo islâmico (a palavra “álgebra” vem do árabe
al-jabr, que se referia às manipulações necessárias para equilibrar os
dois lados de uma equação).
O ano 1000 ocorreu durante o reinado de Silvestre II, embora
O

esse ano não tivesse muito significado para os europeus porque bem
poucas pessoas usavam um calendário que contava os anos, iniciando
no nascimento de Jesus. Esses calendários já existiam desde os anos
AM

500, mas o sistema de datas ganhou terreno aos poucos, conseguindo


aceitação oficial da igreja apenas em 1500. A maioria das pessoas se re-
feria ao ano pelo reinado do rei ou do papa que governava, chamando
o ano 1000, por exemplo, de o segundo ano do reinado de Silvestre.
Poucos cristãos acreditavam que Cristo voltaria à Terra no ano
1000. Diversos pregadores itinerantes e reformadores da igreja afir-
mavam ser o messias e lideravam rebeliões, mas os movimentos ocor-
reram em séculos diferentes, nenhum chegando perto do ano 1000.
De todos os impérios agrários do mundo no ano 1000, os estudiosos
conhecem, pelo menos, os maias na Mesoamérica. Em algum momento
antes do ano 600, os maias já tinham começado a usar extensivamente
a irrigação para cultivar milho, que eles plantavam em campos elevados
na área central original onde ficam hoje México, Belize, Guatemala, El

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O Mundo no Ano 1000

Salvador e Honduras. Os maias chegaram ao seu apogeu em torno do


ano 700, quando sua população total atingiu milhões (uma estimativa
de 2018 sugere de 10 a 15 milhões). A cidade maia de Tikal, na atual
Guatemala, uma das maiores entre 600 e 800, tinha em torno de 60 mil
habitantes. No fim dos anos 700, várias cidades entraram em colapso e
foram abandonadas, possivelmente por causa do excesso de produção
agrícola e mudança ambiental. Após 830, ocorreram poucas construções
novas. Uma seca prolongada aconteceu entre 1000 e 1100, causando um
declínio acentuado da população, assim como uma migração em massa
para o norte de Iucatã, onde surgiu a nova cidade de Chichén Itzá.

A
Embora os registros escritos em glifos maias tenham cessado antes
do ano 1000 (a última inscrição em um monumento de pedra data de

R
910), os maias em Chichén Itzá passaram por um renascimento, es-
tendendo seus contatos comerciais ao norte do Vale do Mississípi e na
região dos Quatro Cantos (onde se encontram Colorado, Novo Mé-
ST
xico, Arizona e Utah), e ao sul até Panamá e Colômbia. A metrópole
Chichén Itzá contém um enorme pátio redondo e um sofisticado ob-
servatório astronômico. A cidade era tão impressionante no ano 1000
que muitos governantes vizinhos enviavam mensageiros carregados
de presentes para visitar o governante maia.
O

Qual era a população mundial no ano 1000? Estimativa aproxima-


da: em torno de 250 milhões. Sabemos muito mais sobre sociedades
AM

que realizavam censos (como a China) do que aquelas que não man-
tinham registros, e as sociedades que praticavam a agricultura tinham
populações muito maiores do que as com rebanhos nômades. A Ásia,
o lar para China, Japão, Índia e Indonésia (todos grandes produtores
de arroz) detinha a maior parte da população mundial (mais de 50%,
ou aproximadamente 150 milhões de pessoas) e a Europa vinha em
seguida, com cerca de 20%. África ficava com os outros 20%, deixan-
do 10% ou menos para as Américas (a população da Oceania nunca
atingiu 1% do total no planeta).
Uma população mundial de 250 milhões representou um marco
na história. Quando exploradores partiam de seus países de origem e
iam para os territórios vizinhos, era mais provável que encontrassem
pessoas do que nos períodos anteriores, de menor população.

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O ANO 1000

Em locais diferentes ao redor do mundo, nos quais a produção


agrícola explodiu e a população cresceu, algumas pessoas conseguiam
parar de plantar, passando a viver em cidades. As cidades europeias
entre 1000 e 1348 não eram as maiores do mundo: Paris tinha uma
população entre 20 e 30 mil e a Córdoba islâmica, 450 mil, ambas
menores que as capitais Kaifeng e Hangzhou da dinastia Song, cada
uma com, pelo menos, um milhão de habitantes.
Conforme as cidades cresciam, aumentava o número de merca-
dores. Os objetos incomuns que eles obtinham em terras distantes
estimulavam o desejo de mais. Os produtos negociados eram com

A
frequência objetos leves, como penas, peles de animais, belos tecidos e
remédios. Metais preciosos eram uma importante exceção; as pessoas

R
se dispunham a transportá-los por enormes distâncias.
Nessas mesmas sociedades, os excedentes agrícolas também davam
suporte a grandes burocracias alfabetizadas. Todas tinham seus pró-
ST
prios sistemas de escrita. Os maiores acervos de fontes sobre o mun-
do no ano 1000 estão em latim, islandês antigo, grego, árabe, persa,
sânscrito e chinês. Devido a registros escritos, sabemos mais sobre
as pessoas em seus redutos e seus vizinhos próximos do que sabemos
O

sobre lugares sem sistemas de escrita.


Este livro não cobre as partes isoladas da Terra sobre as quais não
há registros ou não se fazia negócios com as regiões vizinhas. Esse era
AM

o caso da Austrália, parte da África Subsaariana e diversas áreas nas


Américas. Em alguns desses lugares, os habitantes praticavam caça
e coleta, com um plantio intermitente. Eles plantavam sementes na
primavera e retornavam no outono para a colheita, sem cultivarem no
verão. Nos últimos anos, esteve em questão se a vida como caçador/
coletor era muito melhor do que trabalhar como agricultor cultivando
o campo. É uma possibilidade. Mas o caçador/coletor não produzia
excedentes suficientes para dar suporte a um crescimento populacio-
nal significativo. Nem a escrita surgiu em nenhuma dessas sociedades,
significando que sabemos pouco sobre elas, exceto o que conseguimos
aprender com a arqueologia. Muitos acreditam que a escrita surgiu
pela primeira vez nos grandes impérios agrícolas porque os governan-
tes precisavam controlar seus assuntos e registrar os impostos.

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CG_MIOLO_the_year.indb 26 19/08/2021 00:13:29
MAPA .

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Principais Regiões
no Mundo em 1000

60°N
AM
Atlântico
Norte Europa Ásia Central

30°N
O África e China
OCEANO
Oriente Médio
Américas PA CÍ F I CO

0° Equador Sudeste da Ásia e Pacífico


Sudeste da
Ásia e OCEANO
ST
Pacífico A TLÂ N TI C O OCEANO
30°N Í N DI C O
OCEANO PACÍFICO
R
Escala de Distância
(aproximada)
60° 60°
A

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60°S O L
30° 30°

0° 0°
1.000 MILHAS 0 1.000KM

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O ANO 1000

E mais, as áreas que tinham pouco contato com estrangeiros não


eram todas iguais. No oeste da África, a cidade Jenne-jeno fez com
que os estudiosos repensassem sua suposição básica de que apenas as
sociedades agrícolas assentadas podiam formar cidades. Lá, os nativos
eram pastores, movimentando seus rebanhos na maior parte do ano,
mas passavam a estação chuvosa em Jenne-jeno, quando a população
chegava a 20 mil. O local contém um depósito enorme de cerâmica
quebrada de 8m de profundidade, datando de antes de 300 a.C., quan-
do o maior assentamento já existia. O interessante é que os únicos
registros escritos sobre Jenne-jeno são de estrangeiros que começaram

A
a escrever sobre a cidade por volta do ano 1000.
É certo que povoados grandes semelhantes existiram nas partes

R
menos documentadas do mundo, mas sabemos sobre eles apenas gra-
ças a escavações arqueológicas. Em muitos lugares, como nas Améri-
cas e na África Subsaariana, a arqueologia é nossa única fonte.
ST
No ano 1000, escritores em toda a Eurásia viviam em um mundo
muito diferente do nosso, no qual cada canto do planeta foi explorado e
mapeado em detalhes. Eles estavam interessados em lugares distantes e
registravam o que sabiam sobre as terras nos limites do mundo conhe-
O

cido. Todos os autores clássicos que escreviam em chinês, grego e latim


descreviam entidades quase humanas que viviam por lá. Muitos auto-
res mais tarde registraram vislumbres de criaturas sem cabeças, sem os
AM

membros do corpo ou com outras características estranhas. Os primeiros


viajantes por volta do ano 1000 tinham apenas um conhecimento míni-
mo de seus vizinhos, e um poço aparentemente inesgotável de bravura.
Relatos em árabe fornecem muitos detalhes sobre moradores, pro-
dutos negociados, rotas e costumes de muitas sociedades anteriores à
escrita na Afro-Eurásia. Um oficial persa nos correios de Abássida e
serviço de inteligência chamado Ibn Khurradadhbih (820–911) escre-
veu o primeiro livro de Geografia que descrevia os diferentes países
ao longo de rotas específicas e os produtos produzidos por eles. De
modo apropriado, ele intitulou o trabalho como The Book of Routes and
Realms [O Livro das Rotas e dos Reinos, em tradução livre]. Os geó-
grafos posteriores que escreviam em árabe e persa usaram o mesmo
título para suas observações de diferentes lugares, textos de importân-
cia crucial para entender o mundo no ano 1000. Os chineses também

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O Mundo no Ano 1000

tinham uma longa tradição de escrita sobre lugares estrangeiros e suas


descrições dão informações igualmente valiosas.
Para julgar a veracidade de tais relatos, o melhor método é comparar
uma narrativa com outras fontes disponíveis e formar uma opinião para
saber se parecem reais.
Essa abordagem nos permite testar as diferentes teorias que afirmam
que certos viajantes chegaram às Américas antes de Colombo. Algumas
são bem confiáveis e receberam amplo apoio acadêmico; outras, muito
infundadas, levantaram profundo ceticismo. Por exemplo, ao passo que a
evidência das viagens dos vikings para a Terra Nova é irrefutável, o caso

A
dos chineses chegando antes de Colombo nas Américas é especulação.
A ideia de que os chineses chegaram primeiro é, até certo ponto,

R
atraente e intrigante: E se fosse verdade? É certo que a frota chinesa
capitaneada pelo almirante Zheng He viajou para o sudeste da Ásia,
ST
Índia, Península Arábica e leste da África nos anos 1400.
No entanto, não existe uma evidência clara indicando que as es-
quadras do almirante Zheng He passaram do Cabo da Boa Esperança e
seguiram para as Américas, Austrália ou polos Norte e Sul, todas afir-
O

mações apresentadas no livro 1421 de Gavin Menzies. O livro foi um


grande sucesso, superou todos os outros livros sobre a história chinesa,
embora pareça que nenhum estudioso sério da história chinesa aceite
AM

suas descobertas. Os problemas do livro são tantos que um acadêmico


importante da dinastia Ming queixou-se com os editores do livro por o
comercializarem como sendo de não ficção.
Exploradores muçulmanos também chegaram às Américas an-
tes de Colombo, ou assim afirmou o presidente da Turquia, Recep
Tayyip Erdogan, em um discurso em 2014. Suas evidências? Cristó-
vão Colombo registrou ter visto uma mesquita em Cuba. Na verdade,
Colombo escreveu em seu diário: “Uma delas [as montanhas locais]
tem outra pequena colina no topo, como uma delicada mesquita.” É
claro que Colombo estava descrevendo uma montanha em forma de
mesquita, não uma mesquita real.
Um historiador profissional fez uma afirmação parecida sobre
al-Biruni, um sábio brilhante da Ásia Central nascido em 973 e

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O ANO 1000

falecido após 1040. Ele era famoso por suas pesquisas sobre calendário,
Astronomia, Geografia e a Índia. Afirmando que “Biruni descobriu
a América”, S. Frederick Starr sustenta que al-Biruni percebeu que
havia um continente no lado oposto do globo, tendo a Afro-Eurásia
como referência. Isso não é preciso.
Al-Biruni não sabia que as Américas existiam, mas reconhecia
que a Terra era uma esfera, conhecimento transmitido pelos antigos
gregos para os estudiosos que escreviam em árabe. Al-Biruni também
deduziu que as pessoas viviam apenas em uma fração da superfície
do planeta. Era frio demais para que seres humanos vivessem no Polo

A
Norte e quente demais ao sul da linha do equador. Ele suspeitava que
grande parte do lado oposto do globo, que era completamente des-

R
conhecido para os habitantes da Afro-Eurásia, era coberta por água,
mas ele era um pensador rigoroso o suficiente para não descartar a
possibilidade de terras habitadas. E mais, Al-Biruni nunca descobriu
ST
um continente, muito menos um chamado América.
Exceto por al-Biruni e outros estudiosos de destaque no mun-
do islâmico, poucas pessoas vivas no ano 1000 concebiam a ideia do
globo inteiro. O mapa-múndi mais completo, mostrando grande par-
O

te da Afro-Eurásia, mas nada das Américas, foi feito em 1154 por


al-Idrisi, um cartógrafo da Sicília, Itália, um dos portais islâmicos para
a Europa. Trabalhando na corte do rei Rogério II, al-Idrisi, nascido
AM

em Ceuta, Marrocos, produziu um mapa-múndi sobre um disco de


prata com mais de 2m de diâmetro, junto a uma lista completa das
coordenadas latitudinais e longitudinais de todos os lugares mostra-
dos. Não é nenhuma surpresa o fato de o mapa original ter sido des-
truído (provavelmente derretido por causa da prata), porém a lista de
lugares de al-Idrisi e as pequenas descrições de cada localidade sobre-
viveram intactas, assim como os mapas feitos com base nas informa-
ções coletadas. Um deles aparece na capa deste livro.
Iniciando em 1000, conforme os europeus aprendiam a língua árabe
e traduziam os textos desse idioma, mais conhecimento do mundo islâ-
mico entrava na Europa. A Geometria de Euclides, de uma tradução ára-
be do original grego, foi traduzida em latim, e Fibonacci introduziu os
numerais arábicos (muito mais convenientes que os numerais romanos).

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O Mundo no Ano 1000

A transferência de conhecimento não se limitava aos campos intelec-


tuais. Os europeus também aprenderam novos jogos. O xadrez, criado
primeiro na Índia por volta do ano 600, espalhou-se pelo mundo islâ-
mico e ficou popular na Europa no ano 1000. O jogo ensinava sobre a
estratégia militar básica; os jogadores aprenderam que era mais inteligente
se mover com uma infantaria diversificada, ou peões, do que sozinho. À
medida que o xadrez entrava na Europa, algumas peças assumiram novas
identidades; os elefantes se tornaram bispos porque os artesãos confundi-
ram as duas presas do animal com as duas pontas da mitra de um bispo.
Certas peças do jogo eram feitas de marfim de elefante, mas a maioria

A
era de marfim de morsa, que chegava à Europa em grandes quantidades
na época em que os vikings tinham mais atividade no Atlântico Norte.

R
Os viajantes modernos, acostumados com aviões, trens, carros e na-
vios tendem a exagerar as dificuldades para viajar nos períodos ante-
riores. Imaginamos como as pessoas conseguiam percorrer milhares de
ST
quilômetros a pé e esquecemos que a maioria delas podia andar 32km
por dia, por longos períodos. As pessoas no ano 1000 estavam acostuma-
das: um mensageiro percorria a pé mais de 4 mil km entre 1024 e 1026.
O historiador que registra essa longa viagem não menciona como
O

o mensageiro a fazia, mas podemos supor que ele, e a maioria dos ex-
ploradores neste livro, recebiam ajuda de guias locais, não importando
a dificuldade do terreno. Nos anos 1990, camponeses ajudaram um
AM

grupo de pesquisa a vencer uma parte difícil dos Himalaias, mostran-


do-lhes várias rotas que não apareciam em nenhum mapa. Depen-
dendo da época do ano e da quantidade de neve, essas rotas tinham
níveis variados de dificuldade. Havia até uma rota gradual e plana
para mulheres grávidas.
Dados sobre a velocidade com a qual as pessoas viajavam a pé
sobrevivem de vários lugares e épocas. Se os emissários percorressem
etapas individuais de uma jornada e não carregassem nada, uma equi-
pe alcançava velocidades incríveis, até 240km em um único dia, como
os hispânicos relataram sobre os incas no início dos anos 1500.
É claro que os soldados que carregavam seu próprio alimento
e armas seguiam mais devagar. Os ritmos de viagem dos antigos
exércitos, inclusive do governante persa Xerxes, Alexandre o Grande

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O ANO 1000

e Aníbal, e até do exército mais moderno da rainha Elizabeth I da


Inglaterra, variavam entre 16 e 32km por dia. Ainda hoje, as diretrizes do
Exército norte-americano definem um ritmo normal de marcha de 32km
por dia. Qualquer coisa mais rápida é considerada uma marcha forçada.
Viajantes a cavalo são mais rápidos; um cavaleiro moderno na
Mongólia pode percorrer 480km em um único dia se muda de mon-
taria com frequência. No passado, os soldados mongóis conseguiam
percorrer 100km por dia por alguns dias durante campanhas intensas.
Boas estradas também podem aumentar drasticamente as velocida-
des. Havia muitas estradas no ano 1000. Nas sociedades mais avança-

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das, como a China, eram comuns estradas de terra e pontes sobre rios,
e o deslocamento era fácil. Em outras, existiam poucas estradas e os

R
exploradores tinham que encontrar seus próprios caminhos.
As condições das viagens por terra também determinavam a distância
ST
em que as pessoas podiam carregar produtos a granel. Por volta do ano
1000, os habitantes de Chaco Canyon, no Novo México, carregavam
regularmente milho por 150km e, às vezes, transportavam grandes tron-
cos de madeira a 275km de distância (Chaco não tinha árvores). Eles iam
ainda mais longe para conseguir produtos de luxo, como penas de arara.
O

No ano 1000, as distâncias terrestres não eram absolutas. Tempe-


ratura, terreno e a presença de obstáculos podiam aumentar ou dimi-
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nuir a velocidade das jornadas.


O mesmo acontecia com as viagens de barco, por rio ou no
oceano. O ritmo de viagem variava e, curiosamente, o tempo gasto
velejando ou remando era em geral menor do que por terra. Claro, era
muito mais fácil sentar em um barco do que andar no chão.
Os barcos vikings eram famosos por sua construção leve e f lexível,
velocidade e capacidade de aportar em águas rasas. As réplicas atin-
giam velocidades máximas de 27km/h ao velejarem, mas são difíceis
de sustentar em longos períodos. Bem mais lentas, as canoas duplas da
Polinésia, equipadas com velas triangulares, conseguiam metade dessa
velocidade com ventos normais. Ainda hoje, veleiros tradicionais e
bem construídos fazem em média 16km/h, enquanto os competidores
da America’s Cup atingem cinco vezes essa velocidade.

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O Mundo no Ano 1000

Barcos a remo ou canoas são bem mais lentos, chegando a 11km/h.


É difícil remar mais rápido, exceto em um curto arranque, mas esses
barcos podem seguir em qualquer direção, enquanto os veleiros não
podem ir diretamente na direção do vento. O remo foi essencial para
o sucesso dos vikings. Eles podiam velejar próximo da costa, remar
perto do litoral, atacar de surpresa e fugir rápido, independentemente
da direção em que soprava o vento.
As correntes oceânicas serviam de baliza para as jornadas que os
navegadores faziam no ano 1000, como acontece hoje. Os marinheiros
podiam avançar mais rápido se seguissem as correntes superficiais re-

A
gulares do oceano, chamadas giros, que são determinadas por padrões
eólicos, gravidade, calor do Sol e velocidade de rotação da Terra. Os

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giros no Hemisfério Norte (Giros do Atlântico Norte e do Pacífico
Norte) seguem para a direita e os do Hemisfério Sul, para a esquerda.
Por causa da direção para a direita do Giro do Atlântico Norte, a
ST
viagem do Atlântico Norte até o Canadá era muito mais difícil do que
o retorno. Seguindo de perto a costa, os vikings pegavam a Corrente da
Groenlândia, mais lenta e fria, até a Islândia e a Groenlândia, e a partir
de lá pegavam a Corrente do Labrador até o Canadá. A viagem tinha
O

seus riscos. A Corrente da Groenlândia encontra a Corrente do Golfo


muito mais quente no Cabo Farewell, o extremo sul da Groenlândia,
e a neblina e os ventos resultantes afundam os barcos com frequência.
AM

Provavelmente foi o que aconteceu com um navegador viking cha-


mado Bjarni Herjolfsson em 985 ou 986, que zarpou da Islândia em di-
reção à Groenlândia, onde esperava encontrar seu pai que tinha acabado
de se mudar para um novo povoado iniciado por Érico, o Vermelho.
Bjarni e seus homens navegaram por três dias da Islândia até a
Groenlândia. Então, diz a lenda que “o vento cessou e eles foram
atingidos por ventos do norte e pela neblina; por muitos dias eles não
sabiam por onde navegavam”. Quando o céu abriu, ele e seus homens
viram terra firme, mas Bjarni tinha ouvido histórias suficientes para
saber como era a Groenlândia, e o que viam não correspondia àquela
descrição. Depois de visitar outros dois lugares, eles mudaram o curso
e voltaram em segurança para a Groenlândia. Bjarni e seus homens
nunca aportaram lá, mas seu relato inspirou Leif Erikson, o primeiro

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O ANO 1000

viking reconhecido por chegar às Américas, a refazer seus passos no


ano 1000. Foi quando ele chegou ao nordeste do Canadá.
Quando voltavam para a Escandinávia, os vikings conseguiam pe-
gar a Corrente do Golfo, que faz parte do Giro do Atlântico Norte.
Navegar na Corrente do Golfo é como seguir um rio rápido em um
oceano lento. Ela segue ao norte, pela costa leste das Américas, então
desvia no Atlântico, perto da Terra Nova. Chegando ao Reino Uni-
do, continua ao norte pela Europa. Sua velocidade ultrapassa 160km
por dia e sua largura, visível porque tem uma cor diferente das águas
ao redor, é de 70km.

A
As distâncias no Pacífico eram muito maiores do que as do Atlânti-
co: em seu ponto mais largo, entre a Indonésia e a Colômbia, o Ocea-

R
no Pacífico se estende por 20 mil km, em comparação com 6.400km
do Atlântico. O Japão e a Califórnia distam um do outro cerca de
8.800km. Os primeiros navegadores aproveitavam o Giro do Pacífico
ST
Norte para continuarem sua expansão pelo Pacífico em canoas duplas
com velas; como os vikings, eles não usavam instrumentos de navega-
ção. Saindo de Samoa, chegaram ao Arquipélago da Sociedade por vol-
ta de 1025 e levaram mais dois séculos e meio para chegarem ao Havaí,
O

Ilha de Páscoa e Nova Zelândia.


Na verdade, se as condições fossem favoráveis, uma pessoa podia
cruzar o Pacífico se deslocando pelas correntes oceânicas sem velas,
AM

como 14 navegadores japoneses sem sorte descobriram. No dia 2 de


dezembro de 1832, o barco de pesca deles, feito de madeira, com 15m
de comprimento, zarpou de Nagoia na costa leste do Japão e seguiu para
Tóquio. Uma grande tempestade os tirou do curso e a nau sem mastro
foi arrastada primeiro pela Corrente Kuroshio, depois pela Corrente do
Pacífico Norte, ambas pertencentes ao Giro do Pacífico Norte.
A embarcação chegou à costa uns 14 meses depois, em janeiro
de 1834, na cidade de Ozette, Washington. Só três navegadores so-
breviveram coletando água da chuva, pescando e capturando pássaros
ocasionalmente. Como não tinham uma fonte de vitamina C, ficaram
vulneráveis ao escorbuto, que matou os outros 11 companheiros.
Os ventos dominantes facilitavam algumas viagens e dificultavam
outras. Como qualquer navegador experiente sabe, os barcos podem

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O Mundo no Ano 1000

viajar mais rápido com vento que empurra por trás. Padrões climáticos
sazonais tinham grande impacto em certas regiões. Os mais conhecidos
são os ventos de monções, causados pelo movimento do f luxo de ar em
direção ao oceano quando a massa de terra da Eurásia aquece com a
aproximação da primavera, então retorna na direção oposta seis meses
depois. No ano 1000, os navegadores sentiam com precisão o momento
em que os ventos podiam levá-los entre os Oceanos Índico e Pacífico.
Como mencionou o grande historiador da navegação árabe
George F. Hourani (1913–1984): “Essa rota marítima, do Golfo Pérsi-
co até Canton [Guangzhou], era a mais longa e usada pela humanidade

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antes da expansão europeia no século XVI, e merece atenção como um
feito notável.” As embarcações que seguiam a rota Golfo Pérsico–China

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viajavam quase duas vezes a distância de Colombo; se fosse acrescentado
o trecho de Basra, no Iraque, a Sofala, em Moçambique, a rota seria três
vezes maior.
ST
Por volta do ano 1000, os Oceanos Índico e Pacífico testemunha-
ram uma intensificação do comércio entre os portos árabe, indiano,
sudeste da Ásia, leste da África e chinês. Nenhum marinheiro ia para
o leste das Filipinas, pois os chineses acreditavam que todas as águas
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do oceano convergiam em um redemoinho perigoso, do qual ne-


nhum barco poderia escapar.
Havia um quê de verdade nessa crença. O Caudal Indonésio carrega
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as águas quentes do Oceano Pacífico para o Oceano Índico; a direção


do f luxo é predominantemente para o sul, passando pelo arquipélago
indonésio, então indo para oeste até o Oceano Índico. Essas correntes
colidem e se movem em todas as direções em torno das ilhas do sudeste
da Ásia, elevando o nível dos oceanos em 46cm acima de qualquer ou-
tro lugar no planeta. As correntes são tão rápidas e grandes que cientis-
tas tiveram que criar uma unidade, sverdrup, que tem um valor de um
milhão de metros cúbicos por segundo, para medir o f luxo. A direção
da corrente facilita que barcos e outros objetos f lutuem no oceano em
direção ao sul e a oeste no Oceano Índico, porém é muito mais difícil
para qualquer coisa seguir para o norte.
Como é mais fácil seguir para o sul, as pessoas viajavam de barco
para a Austrália inicialmente, há uns 50 mil anos, mas quase ninguém

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