O Ano 1000
O Ano 1000
O ANO
1000
A
R
ST
Q ua ndo E x plor a dor e s C onec t a r a m o
Mundo — E a Glob ali z aç ão Iniciou
O
AM
Valer ie Hansen
Nota da Autora 11
Prólogo 13
1. O Mundo no Ano 1000 21
A
2. Rumo ao Oeste, Jovem Viking 39
R
3. Rotas Pan-americanas do Ano 1000 65
4. Escravos Europeus 91
ST
5. O Homem Mais Rico do Mundo 123
6. A Ásia Central Se Divide em Duas 153
7. Viagens Incríveis 181
8. O Lugar Mais Globalizado do Planeta 209
O
Epílogo 237
Agradecimentos 247
AM
A
C uriosamente, nenhuma tecnologia nova foi a causa dessa gran-
de expansão nas viagens entre as regiões nos anos 1000. Ante-
R
riormente, as pessoas viajavam por terra, basicamente andando a pé,
montando animais ou usando carroças, e atravessavam rios e mares
em canoas, barcos a vela ou navios de madeira. O comércio entre as
ST
diferentes regiões aumentou no ano 1000 porque um excedente na
agricultura levou ao crescimento da população e permitiu que alguns
povos parassem de plantar por completo e passassem a fabricar produ-
tos para comercializar, tornando-se negociantes.
O
A
nuava crescendo, sendo estimada entre 35 e 40 milhões no ano 1000.
A população a oeste da Europa também aumentou quando os ha-
R
bitantes adotaram mudanças profundas na agricultura, que o historia-
dor britânico R. I. Moore chamou de “cerealização”. Eles plantavam
cada vez mais trigo e cevada. No norte da França e da Inglaterra,
ST
pela primeira vez os agricultores reconheceram que cultivar a mesma
plantação em certo campo anos seguidos reduzia sua produtividade;
tiveram, então, a ideia de deixar de um terço até metade de suas terras
para descansar.
O
22
A
Climática Medieval. Uma pesquisa em andamento sugere que, em-
bora algumas regiões, como a Europa, tenham tido um aumento na
temperatura, outras ficaram mais frias.
R
A distribuição populacional da Europa também mudou. A popula-
ção ao sul e ao leste da Europa (Itália, Espanha e Península Balcânica)
ST
aumentou em 50%. Mas, por causa de avanços nas técnicas agrícolas,
o crescimento a oeste e ao norte da Europa, a região da França e da
Alemanha atualmente, foi muito maior: a população aumentou três
vezes, de modo que quase metade dos habitantes da Europa vivia no
O
23
A
do Sacro Império Romano em 962, uma posição que seu filho e neto
sucederam também.
R
Oto III escolheu o papa Silvestre II (999–1003) para chefiar a igre-
ja romana. Um dos homens mais cultos de seu tempo, Silvestre sa-
bia um pouco de Álgebra, uma técnica matemática que os europeus
ST
aprenderam no mundo islâmico (a palavra “álgebra” vem do árabe
al-jabr, que se referia às manipulações necessárias para equilibrar os
dois lados de uma equação).
O ano 1000 ocorreu durante o reinado de Silvestre II, embora
O
esse ano não tivesse muito significado para os europeus porque bem
poucas pessoas usavam um calendário que contava os anos, iniciando
no nascimento de Jesus. Esses calendários já existiam desde os anos
AM
24
A
Embora os registros escritos em glifos maias tenham cessado antes
do ano 1000 (a última inscrição em um monumento de pedra data de
R
910), os maias em Chichén Itzá passaram por um renascimento, es-
tendendo seus contatos comerciais ao norte do Vale do Mississípi e na
região dos Quatro Cantos (onde se encontram Colorado, Novo Mé-
ST
xico, Arizona e Utah), e ao sul até Panamá e Colômbia. A metrópole
Chichén Itzá contém um enorme pátio redondo e um sofisticado ob-
servatório astronômico. A cidade era tão impressionante no ano 1000
que muitos governantes vizinhos enviavam mensageiros carregados
de presentes para visitar o governante maia.
O
que realizavam censos (como a China) do que aquelas que não man-
tinham registros, e as sociedades que praticavam a agricultura tinham
populações muito maiores do que as com rebanhos nômades. A Ásia,
o lar para China, Japão, Índia e Indonésia (todos grandes produtores
de arroz) detinha a maior parte da população mundial (mais de 50%,
ou aproximadamente 150 milhões de pessoas) e a Europa vinha em
seguida, com cerca de 20%. África ficava com os outros 20%, deixan-
do 10% ou menos para as Américas (a população da Oceania nunca
atingiu 1% do total no planeta).
Uma população mundial de 250 milhões representou um marco
na história. Quando exploradores partiam de seus países de origem e
iam para os territórios vizinhos, era mais provável que encontrassem
pessoas do que nos períodos anteriores, de menor população.
25
A
frequência objetos leves, como penas, peles de animais, belos tecidos e
remédios. Metais preciosos eram uma importante exceção; as pessoas
R
se dispunham a transportá-los por enormes distâncias.
Nessas mesmas sociedades, os excedentes agrícolas também davam
suporte a grandes burocracias alfabetizadas. Todas tinham seus pró-
ST
prios sistemas de escrita. Os maiores acervos de fontes sobre o mun-
do no ano 1000 estão em latim, islandês antigo, grego, árabe, persa,
sânscrito e chinês. Devido a registros escritos, sabemos mais sobre
as pessoas em seus redutos e seus vizinhos próximos do que sabemos
O
26
CG_MIOLO_the_year.indb 27
Principais Regiões
no Mundo em 1000
60°N
AM
Atlântico
Norte Europa Ásia Central
30°N
O África e China
OCEANO
Oriente Médio
Américas PA CÍ F I CO
0° 0°
1.000 MILHAS 0 1.000KM
19/08/2021 00:13:31
O ANO 1000
A
a escrever sobre a cidade por volta do ano 1000.
É certo que povoados grandes semelhantes existiram nas partes
R
menos documentadas do mundo, mas sabemos sobre eles apenas gra-
ças a escavações arqueológicas. Em muitos lugares, como nas Améri-
cas e na África Subsaariana, a arqueologia é nossa única fonte.
ST
No ano 1000, escritores em toda a Eurásia viviam em um mundo
muito diferente do nosso, no qual cada canto do planeta foi explorado e
mapeado em detalhes. Eles estavam interessados em lugares distantes e
registravam o que sabiam sobre as terras nos limites do mundo conhe-
O
28
A
dos chineses chegando antes de Colombo nas Américas é especulação.
A ideia de que os chineses chegaram primeiro é, até certo ponto,
R
atraente e intrigante: E se fosse verdade? É certo que a frota chinesa
capitaneada pelo almirante Zheng He viajou para o sudeste da Ásia,
ST
Índia, Península Arábica e leste da África nos anos 1400.
No entanto, não existe uma evidência clara indicando que as es-
quadras do almirante Zheng He passaram do Cabo da Boa Esperança e
seguiram para as Américas, Austrália ou polos Norte e Sul, todas afir-
O
29
falecido após 1040. Ele era famoso por suas pesquisas sobre calendário,
Astronomia, Geografia e a Índia. Afirmando que “Biruni descobriu
a América”, S. Frederick Starr sustenta que al-Biruni percebeu que
havia um continente no lado oposto do globo, tendo a Afro-Eurásia
como referência. Isso não é preciso.
Al-Biruni não sabia que as Américas existiam, mas reconhecia
que a Terra era uma esfera, conhecimento transmitido pelos antigos
gregos para os estudiosos que escreviam em árabe. Al-Biruni também
deduziu que as pessoas viviam apenas em uma fração da superfície
do planeta. Era frio demais para que seres humanos vivessem no Polo
A
Norte e quente demais ao sul da linha do equador. Ele suspeitava que
grande parte do lado oposto do globo, que era completamente des-
R
conhecido para os habitantes da Afro-Eurásia, era coberta por água,
mas ele era um pensador rigoroso o suficiente para não descartar a
possibilidade de terras habitadas. E mais, Al-Biruni nunca descobriu
ST
um continente, muito menos um chamado América.
Exceto por al-Biruni e outros estudiosos de destaque no mun-
do islâmico, poucas pessoas vivas no ano 1000 concebiam a ideia do
globo inteiro. O mapa-múndi mais completo, mostrando grande par-
O
30
A
era de marfim de morsa, que chegava à Europa em grandes quantidades
na época em que os vikings tinham mais atividade no Atlântico Norte.
R
Os viajantes modernos, acostumados com aviões, trens, carros e na-
vios tendem a exagerar as dificuldades para viajar nos períodos ante-
riores. Imaginamos como as pessoas conseguiam percorrer milhares de
ST
quilômetros a pé e esquecemos que a maioria delas podia andar 32km
por dia, por longos períodos. As pessoas no ano 1000 estavam acostuma-
das: um mensageiro percorria a pé mais de 4 mil km entre 1024 e 1026.
O historiador que registra essa longa viagem não menciona como
O
o mensageiro a fazia, mas podemos supor que ele, e a maioria dos ex-
ploradores neste livro, recebiam ajuda de guias locais, não importando
a dificuldade do terreno. Nos anos 1990, camponeses ajudaram um
AM
31
A
das, como a China, eram comuns estradas de terra e pontes sobre rios,
e o deslocamento era fácil. Em outras, existiam poucas estradas e os
R
exploradores tinham que encontrar seus próprios caminhos.
As condições das viagens por terra também determinavam a distância
ST
em que as pessoas podiam carregar produtos a granel. Por volta do ano
1000, os habitantes de Chaco Canyon, no Novo México, carregavam
regularmente milho por 150km e, às vezes, transportavam grandes tron-
cos de madeira a 275km de distância (Chaco não tinha árvores). Eles iam
ainda mais longe para conseguir produtos de luxo, como penas de arara.
O
32
A
gulares do oceano, chamadas giros, que são determinadas por padrões
eólicos, gravidade, calor do Sol e velocidade de rotação da Terra. Os
R
giros no Hemisfério Norte (Giros do Atlântico Norte e do Pacífico
Norte) seguem para a direita e os do Hemisfério Sul, para a esquerda.
Por causa da direção para a direita do Giro do Atlântico Norte, a
ST
viagem do Atlântico Norte até o Canadá era muito mais difícil do que
o retorno. Seguindo de perto a costa, os vikings pegavam a Corrente da
Groenlândia, mais lenta e fria, até a Islândia e a Groenlândia, e a partir
de lá pegavam a Corrente do Labrador até o Canadá. A viagem tinha
O
33
A
As distâncias no Pacífico eram muito maiores do que as do Atlânti-
co: em seu ponto mais largo, entre a Indonésia e a Colômbia, o Ocea-
R
no Pacífico se estende por 20 mil km, em comparação com 6.400km
do Atlântico. O Japão e a Califórnia distam um do outro cerca de
8.800km. Os primeiros navegadores aproveitavam o Giro do Pacífico
ST
Norte para continuarem sua expansão pelo Pacífico em canoas duplas
com velas; como os vikings, eles não usavam instrumentos de navega-
ção. Saindo de Samoa, chegaram ao Arquipélago da Sociedade por vol-
ta de 1025 e levaram mais dois séculos e meio para chegarem ao Havaí,
O
34
viajar mais rápido com vento que empurra por trás. Padrões climáticos
sazonais tinham grande impacto em certas regiões. Os mais conhecidos
são os ventos de monções, causados pelo movimento do f luxo de ar em
direção ao oceano quando a massa de terra da Eurásia aquece com a
aproximação da primavera, então retorna na direção oposta seis meses
depois. No ano 1000, os navegadores sentiam com precisão o momento
em que os ventos podiam levá-los entre os Oceanos Índico e Pacífico.
Como mencionou o grande historiador da navegação árabe
George F. Hourani (1913–1984): “Essa rota marítima, do Golfo Pérsi-
co até Canton [Guangzhou], era a mais longa e usada pela humanidade
A
antes da expansão europeia no século XVI, e merece atenção como um
feito notável.” As embarcações que seguiam a rota Golfo Pérsico–China
R
viajavam quase duas vezes a distância de Colombo; se fosse acrescentado
o trecho de Basra, no Iraque, a Sofala, em Moçambique, a rota seria três
vezes maior.
ST
Por volta do ano 1000, os Oceanos Índico e Pacífico testemunha-
ram uma intensificação do comércio entre os portos árabe, indiano,
sudeste da Ásia, leste da África e chinês. Nenhum marinheiro ia para
o leste das Filipinas, pois os chineses acreditavam que todas as águas
O
35