PROMOTORIA DE JUSTIÇA DE IGUABA GRANDE
Processo: 0800749-97.2022.8.19.0069
PARECER FINAL
DO MINISTÉRIO PÚBLICO
O MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO, pela Promotoria de Justiça de Iguaba Grande, no
uso de suas atribuições constitucionais e legais, vem apresentar seu parecer final, nos termos que se segue.
Trata-se de mandado de injunção impetrado por RODOLPHO FERNANDES DE SOUZA em face do PREFEITO
DO MUNICÍPIO DE IGUABA GRANDE. Aduz o impetrante ser servidor público municipal, integrado aos quadros
da saúde. Alega que o plano de cargos e salários dos servidores com sua alteração produzida pela Lei
Complementar 148/18 não contempla ao requerente o direito ao adicional por qualificação, em que pese tal direito
ser reconhecido a categorias como a Guarda Civil Municipal e aos Profissionais da Educação. Afirma que fez
pedido de concessão da aludida gratificação, negada pelo Município por ausência de previsão legal. Pede no
mérito que seja declarada a mora legislativa no que toca à regulamentação do art. 39, § 2° da Constituição
Federal, determinando prazo para que a omissão seja sanada, bem como que seja determinada a aplicação, até
a ulterior edição de ato normativo, da legislação pertinente à Guarda Civil ou dos Profissionais da Educação.
A inicial foi instruída com os documentos de index 27165977, 27165979, 27165980, 27165982, 27165983,
27165984, 27165986 e 27165999.
Despacho determinando a notificação do impetrado e ciência ao órgão de representação judicial da pessoa
jurídica de direito público respectiva, index 44448920.
O Prefeito do Município de Iguaba Grande apresentou informações, index 48236859. Declara inexistir mora
legislativa, posto que há lei municipal regulamentadora do plano de cargos e salários dos servidores públicos e
que a concessão do adicional pretendido está no âmbito do poder discricionário da Administração Pública.
O órgão de representação judicial da pessoa jurídica de direito público informou não existir interesse em ingressar
no feito. Quando ao manejo do mandado de injunção, alega não ser qualquer omissão que autoriza o seu uso.
Afirma que a não há prejuízo ao exercício do direito invocado pelo impetrante e, por isso, não há sentindo do
mandando de injunção. Além disso, alega que o remédio constitucional não deve ser utilizado quando a
concessão do adicional é sujeita à discricionariedade administrativa.
Autos com vista ao Ministério Público.
É o sucinto relatório.
DO MÉRITO DA DEMANDA
Trata-se de mandado de injunção impetrado por servidor público municipal ao argumento de que o Município de
Iguaba Grande está e mora legislativa ao não regulamentar o adicional de qualificação supostamente previsto no
art. 39, § 2° da Constituição Federal.
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Tanto o Município de Iguaba Grande quanto à autoridade coatora informa inexistir a aludida mora e argumentam
que a criação do adicional de qualificação integra o poder discricionário da Administração Pública Municipal.
O mandado de injunção encontra previsão no art. 5º, inciso LXXI, da Constituição Federal e será concedido
sempre que a falta de norma regulamentadora torne inviável o exercício dos direitos e liberdades constitucionais e
das prerrogativas inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania.
No que tange ao objeto da presente demanda, aponta o impetrante a existência de mora legislativa em razão da
não regulamentação adicional de qualificação para todos os servidores públicos. Aponta a existência do adicional
para outras categorias de servidores municipais. Alega existir ausência de norma regulamentadora do art. 39, §
2º, da Constituição Federal.
Reputa o Ministério Público não existir a aludida mora legislativa.
Com efeito, o art. 39, § 2º, da Constituição Federal, não prevê a criação por norma infraconstitucional do adicional
de qualificação para todos os servidores públicos. Em verdade, dispõe o aludido dispositivo sobre a criação de
Conselho de Política de Administração com padronização de vencimentos e a criação de escolas de governo para
a qualificação dos servidores.
Art. 39. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios instituirão conselho de política
de administração e remuneração de pessoal, integrado por servidores designados pelos
respectivos Poderes
§ 1º A fixação dos padrões de vencimento e dos demais componentes do sistema
remuneratório observará:
I - a natureza, o grau de responsabilidade e a complexidade dos cargos componentes de cada
carreira;
II - os requisitos para a investidura;
III - as peculiaridades dos cargos.
§ 2º A União, os Estados e o Distrito Federal manterão escolas de governo para a
formação e o aperfeiçoamento dos servidores públicos, constituindo-se a participação
nos cursos um dos requisitos para a promoção na carreira, facultada, para isso, a
celebração de convênios ou contratos entre os entes federados.
Ou seja, o art. 39 e seus §§ 1º e 2º, não criam o adicional de qualificação. Dessa forma, não se pode dizer que o
adicional seja um direto constitucional cujo exercício dependa da vigência de norma regulamentadora.
O que na realidade pretende o impetrante é a concessão de um benefício e nesse aspecto o mandado de injução
não se mostra ser a via adequada.
MANDADO DE INJUNÇÃO. SERVIDOR PÚBLICO DO PODER EXECUTIVO ESTADUAL.
PRETENSÃO DE REGULAMENTAÇÃO DO ADICIONAL DE QUALIFICAÇÃO PREVISTO NO
ARTIGO 12, INCISO III, DA LEI ESTADUAL Nº 6.844/14. AUSÊNCIA DE DIREIRO
SUBJETIVO PREVISTO EM NORMA CONSTITUCIONAL. INADEQUAÇÃO DA VIA ELEITA.
INEXISTÊNCIA DE MORA LEGISLATIVA DO GOVERNO ESTADUAL QUANTO À REVISÃO
GERAL ANUAL DE VENCIMENTOS DOS SERVIDORES PÚBLICOS ESTADUAIS. TESE
FIXADA PELO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL NO JULGAMENTO DO RE 565089-SP,
SOB O TEMA 19. FUNDAMENTADA JUSTIFICATIVA DO PODER EXECUTIVO ESTADUAL.
EXTINÇÃO DO PROCESSO SEM RESOLUÇÃO DO MÉRITO EM RELAÇÃO À
REGULAMENTAÇÃO DO ADICIONAL DE QUALIFICAÇÃO OBJETO DO PRESENTE.
DENEGAÇÃO DA ORDEM QUANTO AO PEDIDO DE REVISÃO ANUAL DE VENCIMENTOS
DE SERVIDOR PÚBLICO. 1. O mandado de injunção pressupõe a existência de preceito
constitucional pendente de regulamentação por outra norma, de categoria infraconstitucional
e, ainda, a demonstração, no caso concreto, da inviabilidade do exercício dos direitos e
liberdades constitucionais por ausência da norma regulamentadora infraconstitucional. 2.
Sendo requisitos do mandado de injunção a existência de dever constitucional de
legislar e o reconhecimento de direito subjetivo à legislação, o que não se constata no
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presente caso, porquanto a pretensão diz respeito à edição de norma regulamentadora
do art. 12, III, da Lei Estadual nº 6844/14, que trata do adicional de qualificação dos
servidores da Fundação Santa Cabrini, constituindo pretensão mandamental de
concessão da gratificação e não de sua regulamentação, constata-se a inadequação da
via eleita. 3. Entendimento jurisprudencial assente no Supremo Tribunal Federal. 4.
Inexistência de mora legislativa do governo estadual quanto à revisão geral anual de
vencimentos dos servidores públicos estaduais, conforme inteligência da tese fixada pelo
Supremo Tribunal Federal no julgamento do RE 565089-SP, sob o tema 19, diante da
fundamentada justificativa do Poder Executivo Estadual para sua não realização no período
em questão. 5. Extinção do processo sem resolução do mérito com relação ao pedido de
regulamentação do adicional de qualificação previsto no artigo 12, inciso III, da Lei Estadual nº
6.844/14, nos termos do art. 485, IV, do CPC e denegação da ordem injuncional quanto ao
pedido de revisão geral anual dos vencimentos dos servidores estaduais” (TJ-RJ - MI:
00371358020198190000, Relator: Des(a). ELTON MARTINEZ CARVALHO LEME, Data de
Julgamento: 17/08/2020, OE - SECRETARIA DO TRIBUNAL PLENO E ORGAO ESPECIAL,
Data de Publicação: 19/08/2020).
Além da ausência de dever constitucional de legislar sobre o adicional de qualificação, impõe-se destacar que a
criação do aludido adicional integra o poder discricionário da administração pública. Significa dizer que cabe ao
Município o a avaliação da conveniência e oportunidade da criação do adicional para toda categoria profissional
de servidores municipais.
CONCLUSÃO
Ante o exposto, oficia o Ministério Público no sentido de julgado extinto o processo, sem resolução do mérito,
com relação ao pedido de regulamentação do adicional de qualificação, na forma do art. 485, inciso IV, do
CPC, e caso ultrapassada a preliminar que seja denegada a ordem injuncional.
Iguaba Grande, 31 de dezembro de 2023.
VAGNER DELGADO DE ALMEIDA
Promotor(a) de Justiça
Mat. 2383
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