As Etapas do Pensamento Sociológico Raymond Aron
MAX WEBER
As obras de Weber podem ser classificadas em quatro categorias: estudos de
metodologia, crítica e filosofia; obras históricas, que estudam a produção agrícola na
antiguidade; trabalhos de sociologia da religião; e seu tratado de sociologia Economia e
Sociedade;
TEORIA DA CIÊNCIA
- Weber distingue quatro tipos de ação;
- Ação racional com relação a um objetivo: o ator concebe seu objetivo e
combina os meios disponíveis para atingi-lo (como um engenheiro que constrói uma
ponte); esse conceito aproxima-se da ação lógica de Pareto; este, no entanto, concebe que,
quando o ator têm conhecimentos inexatos para atingir seu objetivo, a ação é não-lógica;
para Weber, “a racionalidade com relação a um objetivo é definida em função dos
conhecimentos do ator, e não do observador” (p. 464);
- Ação racional com relação a um valor: a ação do ator é racional, mas ele
aceita todos os riscos para permanecer fiel à sua idéia de honra, e não para obter um
resultado extrínseco (como um capitão que afunda com seu navio);
- Ação afetiva ou emocional: a ação é ditada pelo estado de consciência ou
humor do sujeito (como uma mãe que bate na criança quando esta tem uma atitude
insuportável);
- Ação tradicional: é ditada por tradições, hábitos ou costumes;
- Sociologia: “procura compreender a ação social, a compreensão implica a
percepção do sentido que o ator dá à sua conduta. (...) A compreensão dos sentidos
subjetivos implica uma classificação dos tipos de conduta e leva à percepção da sua
estrutura inteligível”;
- Sociedade contemporânea: seu traço característico é a racionalização,uma
ampliação da esfera da ação racional com relação a um objetivo; dessa forma, o problema
filosófico do nosso tempo consiste em delimitar o setor da sociedade onde deve subsistir
outro tipo de ação;
- A classificação dos tipos de ação está associada também com o centro da
reflexão de Weber: a relação entre ciência e política;
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- Ação científica: combinação da ação racional em direção a um objetivo
(envolve proposições factuais, relações de causalidade e interpretações compreensivas) e da
ação racional em relação a um valor (o objetivo é determinado por um juízo de valor);
assim, a racionalidade é resultado do respeito pelas regras da lógica e da pesquisa;
- “Tal como Weber entende, a ciência é um aspecto do processo de racionalização
característico das sociedades ocidentais modernas” (p. 466);
- Duas características que comandam o significado da verdade científica: a
objetividade (validade universal e rejeição de juízos de valor) e o não-acabamento essencial
(a ciência tende a um objetivo situado no infinito, renovando a todo tempo as indagações);
- A validade universal da ciência não permite que o cientista projete seus valores
na investigação científica, não a contaminando com preferências estéticas ou políticas;
- Embora tenham a mesma inspiração racional, as ciências da história e da
sociedade diferem das ciências naturais por três características: são compreensivas,
históricas e se orientam para a cultura;
- Fenômenos naturais: é necessário explicá-los por meio de proposições
confirmadas experimentalmente, para compreendê-las;
- Conduta humana: a compreensão é imediata, no sentido de que elas têm uma
inteligibilidade intrínseca, pois os homens são dotados de consciência; isso não significa
que os sociólogos ou historiadores compreendam essas condutas intuitivamente, pelo
contrário, eles as reconstroem com base em textos e documentos; assim, o sentido subjetivo
é, ao mesmo tempo, imediatamente perceptível e equívoco; dessa forma, é mais apropriado
falar em inteligibilidade intrínseca do que imediata, pois “o ator nem sempre conhece os
motivos de sua ação; o observador é menos capaz ainda de adivinhá-los intuitivamente.
Precisa investigá-los, para poder distinguir o verdadeiro do verossímil” (p. 468);
- Como somos capazes de compreender, podemos explicar fenômenos singulares
sem a intermediação de proposições gerais e, como compreendemos o singular, a dimensão
histórica assume, nas ciências humanas, uma importância que ela não pode ter nas ciências
naturais;
- Nas ciências humanas, Weber distingue duas orientações: uma no sentido da
história (aquilo que não acontecerá pela segunda vez) e outra no sentido da sociologia (a
reconstrução conceitual das instituições sociais);
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- Para Weber, portanto a ciência é um esforço destinado a compreender e a
explicar os valores aos quais os homens aderiram, e as obras que construíram, com o
objetivo específico da validade universal; assim, a ciência é uma conduta racional cuja
finalidade é atingir julgamentos universalmente válidos;
- No trabalho científico, Weber distingue julgamento de valor (afirmação moral)
de relação de valores (procedimento científico de seleção que relaciona a matéria estudada
com um valor);
- A distinção entre os dois conceitos permitia a Weber, ao mesmo tempo, marcar a
diferença entre a atividade do cientista e a do político, e a semelhança de interesses entre
elas;
- “Se admitíssemos a ciência como acabada, chegaríamos, no caso das ciências da
natureza, a um sistema hipotético-dedutivo que poderia explicar todos os fenômenos a
partir de princípios, axiomas e leis. Este sistema hipotético-dedutivo não nos permitiria
contudo determinar como e por que, em todos os detalhes concretos, se produziu uma
explosão em determinado espaço do tempo e do espaço. Haverá sempre um hiato entre a
explicação legal e o acontecimento histórico concreto. No caso das ciências da cultura e da
histórica, chega-se não a um sistema hipotético-dedutivo, mas a um conjunto de
interpretações, todas seletivas e inseparáveis do sistema de valores escolhido”;
- Assim, o autor defende a idéia de que o interesse das respostas dependeria do
interesse das questões que os cientistas humanos dirigiriam à realidade; o que Weber tenta
superar é o fato de que o cientista que se apaixona pelo objeto de sua pesquisa deixa de ser
imparcial e objetivo;
- A saída que Weber encontra é a seguinte: o cientista deve ter senso do que se
vivenciou para poder compreender, mas deve distanciar-se do próprio interesse para chegar
a uma resposta universalmente válida;
- A sociologia weberiana está relacionada com uma filosofia existencialista que
parte de uma dupla negação: a ciência não pode dizer aos homens como devem viver; a
ciência não pode ensinar à sociedade como devem se organizar;
- “... os resultados científicos devem ser obtidos a partir de uma escolha subjetiva,
por procedimentos sujeitos à verificação, que se imponham a todos os espíritos. Esforça-se
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por demonstrar que a ciência histórica é racional, demonstrativa; que só procura enunciar
proposições do tipo científico, sujeitas a confirmação”;
- Weber concorda com Pareto ao afirmar que quem pretende apreende a essência
de um fenômeno deve ir além da ciência, pois as proposições históricas e sociológicas
tratam dos fatos observáveis, visando atingir uma realidade definida;
- As idéias dos autores convergem também na consideração de que a sociologia é
uma ciência da conduta humana na medida em que esta conduta é social;
- “O sociólogo se esforça para compreender como os homens viveram
inumeráveis formas de existência, que só se tornam inteligíveis à luz do sistema próprio de
crenças e de conhecimentos de cada sociedade considerada” (p. 474).
HISTÓRIA E SOCIOLOGIA
- Além de interpretar o sistema de crenças e condutas das coletividades de
maneira compreensiva, as ciências humanas pretendem explica-los causalmente, garantindo
a validade universal dos resultados científicos;
- Causalidade sociológica: pressupõe a determinação regular entre dois
fenômenos;
- Causalidade histórica: determina as circunstâncias únicas que provocaram um
acontecimento; para determinar os papéis dos antecedentes na origem de um
acontecimento, Weber propõe quatro passos:
1) Constituir a individualidade histórica das causas que se quer determinar,
definindo com precisão as características do indivíduo histórico que se quer explicar;
2) Analisar o fenômeno histórico em seus elementos, pois a relação causal é
sempre uma relação parcial construída entre certos elementos do indivíduo históricos e
dados anteriores;
3) Pressupor por experiência mental que um desses elementos não se
produziu, ou ocorreu de forma diferente;
4) Comparar o resultado irreal do passo anterior com a evolução real, para
poder concluir que o elemento modificado no pensamento foi realmente uma das causas do
indivíduo histórico;
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- A proposta de se supor a alteração de um dos elementos foi muito criticada, mas
Weber defendia que qualquer narrativa histórica comporta implicitamente esse tipo de
questões e respostas;
- Teoricamente, a possibilidade de uma explicação é a mesma, tratando-se de
passado ou de futuro; contudo, é impossível conhecer com certeza o futuro pelo mesmo
motivo que não podemos chegar a uma explicação necessária ao realizar uma análise causal
do passado, pois os acontecimentos complexos resultaram sempre de um grande número de
circunstâncias simultâneas;
- “A análise causal retrospectiva tende a distinguir o que foi, num momento dado,
a influência das circunstâncias gerais e a eficácia de um certo acidente, ou de certa pessoa.
Como os indivíduos e os acidentes exercem um papel na história e a direção no futuro não é
pré-fixada torna-se interessante fazer uma análise causal do passado, para determinar as
responsabilidades assumidas por certos homens, para encontrar a hesitação do destino, no
momento em que, segundo a decisão que tivesse sido tomada a história teria se orientado
numa ou outra direção. Essa interpretação do devenir histórico permitia a Weber respeitar o
sentido da grandeza dos homens de ação. Se os homens não podem deixar de ser cúmplices
de um destino fixado antecipadamente, a política é uma atividade miserável. Mas, como na
verdade o futuro é incerto, e alguns homens podem forja-lo, a política é uma das atividades
mais nobres da humanidade” (p. 477) ;
- Weber defende a idéia de que, em uma situação histórica, basta um
acontecimento, como uma vitória ou derrota militar, para decidir a evolução de uma cultura
em determinado sentido; interpretando-se de tal maneira, devolve-se às pessoas e aos
acontecimentos sua eficácia, mostrando que o curso da história não está determinado
antecipadamente, e que os homens de ação podem alterá-lo;
- Há uma solidariedade estreita entre causalidade histórica e causalidade
sociológica, ambas expressas em termos de probabilidade; uma fórmula de causalidade
histórica poderia ser a afirmação que, em função da situação geral francesa, em 1848, a
revolução era provável e, dessa forma, muitos acidentes, de todos os tipos, poderiam
provoca-la;
- De um modo geral, o pensamento causal de Weber é expresso em termos de
probabilidades ou de oportunidades, por exemplo: autores liberais afirmam que a
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planificação econômica impede um regime democrático, enquanto marxistas defendem que
a propriedade privada resulta na concentração do poder político nas mãos dos proprietários;
para Weber, essas determinações de um elemento por outro devem ser expressas em termos
de probabilidade, ou seja, um certo regime econômico torna mais provável um tipo de
organização política;
- Não há uma determinação unilateral do conjunto da sociedade por apenas um
elemento, seja ele econômico, político ou religioso; as relações causais da sociologia são
parciais e prováveis; assim, excluí-se a possibilidade de que o conjunto da sociedade futura
seja determinado por certas características da sociedade presente;
- “Analítica e parcial, a filosofia weberiana proíbe prever em detalhes o que será a
sociedade capitalista do futuro, ou o que será a sociedade pós-capitalista. Não é que Max
Weber julgue impossível prever certas características da sociedade do futuro. Ele estava
convencido, por exemplo, de que o processo de racionalização e burocratização continuaria
inexoravelmente. Para ele, esta evolução não parecia suficiente para determinar a natureza
exata dos regimes políticos, nem a maneira de viver, de pensar e de crer dos homens de
amanhã” (p. 481);
- Há uma relação próxima entre a análise dos acontecimentos e a formulação de
proposições gerais e, assim, a história e a sociologia marcam duas direções da curiosidade,
pois a compreensão histórica exige a utilidade de proposições gerais, e estas só podem ser
demonstradas a partir de comparações históricas;
- Esta relação próxima entre história e sociologia aparece claramente na
concepção do tipo ideal;
Tipo ideal
- Está ligado à noção de compreensão: todo tipo ideal é uma organização de
relações inteligíveis próprias a um conjunto histórico;
- Está associado ao processo de racionalização: a construção do tipo ideal é uma
expressão do esforço das disciplinas científicas para tornar a matéria inteligível;
- Vincula-se à concepção analítica e parcial da causalidade: permite perceber
indivíduos históricos ou conjuntos históricos, sendo uma percepção parcial de um conjunto
global;
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- O autor pretende distinguir a tendência idealtípica dos conceitos das ciências da
cultura das espécies definidas de tipos ideais que Weber propõe implicitamente;
- Tendência idealtípica dos conceitos das ciências da cultura: os conceitos
mais característicos das ciências da cultura comportam um elemento de estilização ou de
racionalização, sendo a tarefa dos sociólogos tornar a matéria social mais inteligível do que
ela foi na experiência daqueles que a viveram; a sociologia é, portanto, uma reconstrução
que tende à inteligibilidade das existências humanas;
- “Um conceito histórico não retém as características que todos os indivíduos
incluídos na extensão do conceito apresentam e, menos ainda as características médias dos
indivíduos considerados: visa o típico, o essencial. (...) o conceito não será definido nem
pelas características comuns a todos os indivíduos nem pelas características médias. Será
uma reconstrução estilizada, um isolamento dos traços típicos” (p. 483);
- Weber chama de tipo ideal três espécies de conceitos:
1) Tipos ideais de indivíduos históricos: reconstrução inteligível de uma
realidade histórica global e singular (exemplo: capitalismo), sendo uma reconstrução
parcial, pois o sociólogo seleciona, no conjunto histórico, um certo número de
características, para constituir um todo inteligível;
2) Tipos ideais que designam elementos abstratos da realidade histórica,
que não cobrem toda uma coletividade e são encontrados em diferentes momentos da
histórica (exemplo: burocracia); estes tipos ideais são divididos em três níveis de abstração:
no nível inferior, encontramos conceitos como burocracia e feudalismo; num nível mais
elevado, encontramos a classificação dos tipos de dominação racional (justifica-se por leis e
regulamentos), tradicional (justificada pelo costume) e carismática (virtude excepcional
atribuída ao chefe); no terceiro nível temos os tipos de ação, já explicados;
3) Reconstrução racionalizantes de condutas de um tipo particular: “O
conjunto das proposições da teoria econômica, segundo Max Weber, não passa da
reconstrução idealtípica, do modo como os sujeitos se comportariam se fossem sujeitos
econômicos puros” (p. 484).
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AS ANTINOMIAS DA CONDIÇÃO HUMANA
- A relação de causalidade é histórica (visando pesar a eficiência causal dos
antecedentes de um indivíduo histórica) ou sociológica (procurando estabelecer relações de
sucessão que se repetiram ou que podem se repetir);
- O tipo ideal é o meio utilizado para o objetivo de se compreender os sentidos
subjetivos, ou seja, a significação que os homens atribuem a sua existência;
- “A existência histórica é, por essência, criação e afirmação de valores. A ciência
da cultura é a compreensão dessa existência, e sua abordagem é a relação com os valores. A
vida humana é feita de uma sucessão de escolhas pelas quais os homens edificam um
sistema de valores. A ciência da cultura é a reconstrução e a compreensão das escolhas
humanas pelas quais um universo de valores foi edificado” (p. 485) – inspiração para
Geertz.
- Weber inspira sua filosofia de valores na filosofia neokantiana, que parte da
distinção radical entre os fatos e os valores; estes são criados pelas decisões humanas, que
diferem dos atos pelos quais o espírito percebe o real;
- Para Weber, a ciência é a sujeição da consciência aos fatos, enquanto a essência
da ordem dos valores é o livre arbítrio e a livre afirmação;
- A criação de valores é social e histórica, simultaneamente; o universo de valores
a qual cada um adere é uma criação, ao mesmo tempo, individual e coletiva, pois resulta da
resposta da nossa consciência a um meio;
- Como filósofo político, Weber buscou elaborar as antinomias da ação; como
sociólogo, ele refletiu sobre as diferenças religiosas e a influência que exercem sobre a
conduta dos homens;
- A antinomia fundamental é a distinção da moral da responsabilidade e moral da
convicção;
- Moral da responsabilidade: ordena a se situar numa situação, prevendo as
conseqüências das possíveis decisões e interpretando a ação em termos de meios-fins e,
assim, se define pela escolhas dos meios adequados ao fim que se pretende; no entanto,
essa moral não basta a si, pois os objetivos permanecem indeterminados; tornamo-nos
obrigados a escolher entre valores que são incompatíveis entre si, do que resulta que há
escolhas que implicam sacrifícios;
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- Moral da convicção: nos incita a agir de acordo com nossos sentimentos, sem
referência às conseqüências; Weber fala do pacifista absoluto, que se recusa ir à guerra,
mesmo sabendo que isso não adiantará muito ou que seu país pode se prejudicar com essa
recusa; ele recusa porque prefere ser preso do que matar seu semelhante;
- A moral da responsabilidade exige uma inspiração em convicções, pois esta
moral é uma procura de eficácia, que requer um objetivo;
- “A ação baseada na razão inspira-se ao mesmo tempo nestas duas atitudes. Mas
é útil, e na minha opinião esclarecedor, enunciar rigorosamente os tipos ideais das duas
atitudes entre as quais oscilamos: a do homem de Estado, certamente mais inclinado à
responsabilidade, quando menos para se justificar, e o cidadão, mais propenso à convicção,
talvez apenas pra criticar o estadista. Max Weber afirmava: ‘As duas máximas éticas se
opõem num antagonismo eterno, que é absolutamente impossível de superar com os meios
de uma moral fundamentada em si mesma’ e também que ‘A ética da convicção e a ética da
responsabilidade não são contraditórias, mas se completam mutuamente, constituindo,
juntas, o homem autêntico, isto é, um homem que pode pretender à vocação política’” (p.
491).
A SOCIOLOGIA DA RELIGIÃO
- A moral da convicção é uma das expressões possíveis da atitude religiosa; no
caso do cristão, trata-se da moral do Sermão da Montanha; “O cristão que por um esforço
de vontade deixa de responder a uma ofensa está agindo com grandeza; aquele que faz o
mesmo por fraqueza, ou medo, é desprezível” (p. 491);
- A análise desse tipo de moral leva a uma sociologia da religião;
- Para compreender qualquer atitude, inclusive o comportamento econômico,
exige-se a percepção da concepção global da existência na qual o ator vive; partindo disso,
o autor questiona em que medida as concepções religiosas influenciam o comportamento
econômico das diferentes sociedades;
- Os dogmas religiosos e sua interpretação fazem parte da concepção de existência
aderida pelo ator, por isso, é importante entendê-los para compreender o comportamento
econômico dos indivíduos;
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- Dessa forma, Weber dedicou seu estudo sobre as relações entre o espírito do
capitalismo e a ética protestante;
- Weber pretende, portanto, identificar o indivíduo histórico ao qual a expressão
“espírito do capitalismo” se aplica de modo sensato; assim, é valido construir um tipo ideal
do capitalismo;
- “Segundo Max Weber, o capitalismo é definido pela existência de empresas
(Betrieb) cujo objetivo é produzir o maior lucro possível, e cujo meio é a organização
racional do trabalho e da produção. É a união do desejo de lucro e da disciplina racional
que constitui historicamente o traço singular do capitalismo ocidental. (...) Um
empreendimento capitalista visa o lucro máximo por meio de uma organização burocrática.
A expressão ‘lucro máximo’, aliás, não é inteiramente justa. O que constitui o capitalismo
não é tanto o lucro máximo quanto a acumulação indefinida” (p. 492);
- O capitalismo é mais identificado com o conceito de dominação, no sentido
racional, do que pela avidez por ganho sem limites, em si mesma; o capitalismo se
identifica com a procura de um lucro sempre renovado, numa empresa contínua e racional;
dessa forma, a ação racional capitalista se fundamenta na expectativa do lucro pela
exploração das possibilidades de troca, ou seja, a ação utiliza materiais e serviços pessoais
como meio de aquisição e, assim, o balanço da empresa deverá exceder o capital;
- Nesse sentido, houve em todos os países civilizados um capitalismo baseado
numa racionalização aceitável das avaliações de capital;
- “Nos tempos modernos, porém, o Ocidente conheceu propriamente uma outra
forma de capitalismo: a organização racional do trabalho (formalmente) livre, do qual em
outros lugares só são encontrados vagos esboços... Mas a organização racional da empresa,
associada às previsões de um mercado regular e não às oportunidades irracionais ou
políticas especulativas, não é a única particularidade do capitalismo ocidental. Não teria
sido possível sem dois outros fatores importantes: a separação entre a família e a empresa,
que domina toda a vida econômica moderna; e a contabilidade racional, que lhe é
intimamente relacionada” (p. 493);
- Burocracia: não é singularidade das sociedades ocidentais (esteve presente no
Império Chinês e na Igreja Católica, por exemplo), é caracterizada por Weber pelos
seguintes traços: organização permanente da cooperação entre numerosos indivíduos; cada
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indivíduo exerce uma função especializada; a profissão do burocrata é separada da sua vida
familiar (impessoalidade); assegura a todos os que trabalham no seu seio uma remuneração,
de acordo com certas normas;
- Assim como Marx, Weber insiste na presença de trabalhadores juridicamente
livres que alugam sua força de trabalho aos proprietários, cujas empresas utilizam meios
cada vez mais poderosos para acumular lucros suplementares; a forma moderna do
capitalismo teria sido determinada pelo desenvolvimento das possibilidades técnicas, de
forma que, hoje, sua racionalidade está relacionada da possibilidade de avaliar os fatores
técnicos mais importantes;
- “A diferença entre Marx e Weber está em que segundo este a principal
característica da sociedade moderna e do capitalismo é a racionalização burocrática, que
não pode deixar de ser procurada, qualquer que seja o estatuto da propriedade dos meios de
produção. Max Weber evocava de bom grado a socialização da economia, mas não a
considerava uma transformação fundamental. A necessidade da organização racional para
obter a produção com o melhor custo, subsistiria depois da revolução que tivesse dado ao
Estado a propriedade dos meios de produção” (p. 495); além disso, Weber temia os
progressos da sociedade que poderiam reduzir a margem de liberdade de ação do indivíduo;
- Hoje, não há mais necessidade de uma motivação moral para que os indivíduos
se conformem ao capitalismo, pois o sistema funciona e comanda os comportamentos
econômicos; apesar do ascetismo religioso ter fugido da gaiola, como diz Weber, ele busca
resolver o problema de como o regime foi instituído, e o autor trás a hipótese de que uma
certa interpretação do protestantismo motivou a formação do capitalismo;
- Em várias pesquisa por todo mundo, Weber busca saber em que medida as
diferentes condições sociais e religiosas seriam favoráveis ou desfavoráveis à formação do
capitalismo do tipo ocidental e, como em nenhum outro lugar se desenvolveu esse tipo de
capitalismo, Weber investigou em que medida uma atitude específica em relação ao
trabalho, determinada por crenças religiosas, teria sido o fato capaz de explicar o rumo
singular do capitalismo ocidental;
- Weber parte da ética protestante calvinista, que se resume em cinco proposições:
1) Existe um Deus absoluto, criador do mundo, que não pode ser percebido
pelo espírito humano;
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2) Esse Deus predestinou a todos à salvação ou condenação, sem que isso
possa ser modificado por nossas obras;
3) Deus criou o mundo para sua glória;
4) Todo homem tem o dever de trabalhar para a glória de Deus;
5) As coisas terrestres, da natureza humana, pertencem ao pecado e à morte;
a salvação só poderá ser para o homem um dom gratuito da graça divina;
- Essa crença, portanto, exclui o misticismo e é contrária à idolatria, tornando-se
indiretamente favorável ao desenvolvimento da investigação científica;
- “O calvinista não pode saber se será salvo ou condenado, o que é uma conclusão
que pode se tornar intolerável. Por uma inclinação não-lógica, mas psicológica, procurará
no mundo os sinais da sua escolha. Max Weber sugere que é assim que certas seitas
calvinistas terminaram por ver no êxito econômico uma prova dessa escolha de Deus. O
indivíduo se dedica ao trabalho para vencer a angústia provocada pela incerteza da
salvação” (p. 498);
- É preciso considerar os seguintes pontos: considerar-se eleito era um dever; a
dúvida era vista como uma tentação do demônio, sendo necessário conquistar uma certeza
subjetiva da própria eleição; o meio recomendado para ter confiança em si é o trabalho sem
descanso;
- Essa derivação psicológica da teologia calvinista favorece o individualismo: o
trabalho racional e constante é interpretado como obediência a Deus, enquanto o sentido de
comunhão com o próximo e o dever com os outros se enfraquece;
- Ocorre, assim, uma convergência entre a moral protestante e a atitude capitalista:
“A ética protestante convida o crente a desconfiar dos bens deste mundo, e a adotar um
comportamento ascético. Ora, trabalhar racionalmente tendo em vista o lucro, e não gastá-
lo, é por excelência uma conduta necessária ao desenvolvimento do capitalismo, sinônimo
do reinvestimento contínuo do lucro não consumido. (...) O Capitalismo pressupõe a
organização racional do trabalho; implica que a maior arte do lucro não seja consumida,
mas sim poupada, a fim de permitir o desenvolvimento dos meios de produção. (...) De
acordo com Max Weber, a ética protestante proporciona uma explicação e uma justificativa
desse comportamento estranho, de que não há exemplo nas sociedades não ocidentais, a
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busca do lucro máximo, não para gozar a vida, mas para a satisfação de produzir cada vez
mais” (p. 500);
- O objetivo de Weber é apreender a atitude global dos indivíduos ou grupos; ele
torna evidente essa necessidade de abranger o conjunto dos comportamentos, pois a
verdadeira compreensão deve ser global; ele busca mostrar que, fora da ciência, há mais
que loucura e arbitrariedade, havendo organizações inteligíveis de pensamento e existência,
mesmo não sendo científicas;
- Weber não vê sentido na oposição entre a explicação pelo interesse e a
explicação pelas idéias, o que ele demonstra é que a direção do interesse de cada um é
orientada pela sua visão de mundo; isso não significa que ele pretendesse substituir a
causalidade da economia, própria do materialismo histórico, pela causalidade das forças
religiosas;
- “O que quis demonstrar é que a atitude econômica pode ser orientada pelo
sistema de crenças, tanto quanto o sistema de crenças pode ser comandado, num dado
momento, pelo sistema econômico. (...) Max Weber incita seus leitores, portanto, a admitir
que não há determinação das crenças pela realidade sócio-econômica, ou pelo menos não é
legítimo postular como ponto de partida uma determinação desse tipo” (p. 501-502);
- Weber dedica seus outros estudos de sociologia religiosa à China, à Índia e ao
judaísmo primitivo, constatando que na civilização chinesa, por exemplo, havia muitas das
condições necessárias ao desenvolvimento do regime capitalista, mas a variável religiosa
estava ausente; ele busca confirmar que a representação religiosa da existência e a conduta
econômica decorrente dela constituíram uma das causas do regime capitalista, sem a qual
ele não se desenvolveu fora do mundo ocidental;
- Para ele, o conceito de racionalidade material é próprio da concepção chinesa,
mas esta é contrária ao desenvolvimento do capitalismo típico