PODER CONSTITUINTE
PODER CONSTITUINTE ORIGINÁRIO: criação do Estado.
Força política capaz de estabelecer e manter o vigor normativo do texto. Fundamenta a validez da Constituição.
Sieyès: constituição é produto do poder constituinte originário, que gera e organiza os
poderes do Estado, sendo superior a eles. O poder originário tem onipotência, o povo é
soberano para ordenar o seu próprio destino e da sua sociedade, expressando-se por meio
da Constituição.
-É anterior a toda normação e abraça todos os demais poderes.
-Poder permanente e inalienável que depende apenas de sua eficácia.
3 CARACTERÍSTICAS BÁSICAS:
INICIAL: está na origem do ordenamento jurídico. O poder constituinte não pertence à
ordem jurídica, não está regido por ela.
ILIMITADO ou AUTÔNOMO: como não está incluído em nenhuma ordem jurídica, não será
objeto de nenhuma. O Direito anterior não o limita.
o Diz respeito à liberdade com relação a imposições da ordem jurídica que existia
anteriormente.
o Como o poder constituinte é a expressão da vontade política da nação, não pode ser
separado de valores éticos, religiosos e culturais. A constituição que hostilize esses
valores não será reconhecida como poder constituinte originário (crime).
INCONDICIONADO: não pode ser regido pelo Direito preexistente.
MOMENTOS DE EXPRESSÃO: o poder constituinte originário não se esgota quando edita uma
constituição, ele está apto para se manifestar a qualquer momento (poder permanente).
Momentos de viragem histórica, quando se forma um novo governo ou quando a estrutura
sofre transformação e quando há mudança de regime político.
Se exprime quando entende de mudar a estrutura constitucional do Estado. Na constituição
de 1988, houve a intervenção do poder const. originário.
FORMAS DE MANIFESTAÇÃO:
OUTORGADA: ato constituinte compete a uma única pessoa ou a um grupo restrito,
unilateral, sem intervenção de um órgão representante popular.
o Constituição de 1824 (império) e 1937 (ditadura Vargas).
PROMULGADA: é promulgada por uma Assembleia de representantes do povo. Sistema
clássico de elaboração de constituições democráticas (Constituição votada).
o Procedimento constituinte direto: projeto elaborado pela Assembleia obtém
validade jurídica por meio da aprovação direta do povo (plebiscito ou referendo).
o Procedimento constituinte indireto ou representativo: a participação do povo é nas
eleições de representantes para uma assembleia que vai elaborar e promulgar.
o Constituição de 1891 (transição monarquia-república), 1934 (Vargas), 1946 (queda
de Vargas-Dutra), 1967 (ditadura) e 1988 (atual).
PROBLEMAS PRÁTICOS:
Supremacia da Constituição: a constituição tem prevalência sobre as demais leis. A Carta
Magna é produto do poder constituinte originário, elevando-se a condição de obra suprema,
que inicia o ordenamento jurídico. Ato contrário à constituição sofre nulidade absoluta.
Recepção: normas anteriores à Constituição, que são compatíveis com seu conteúdo,
continuam em vigor.
Revogação ou inconstitucionalidade superveniente:
o Revogação: cancelar uma decisão tomada anteriormente, fazer perder a vigência
por ser substituída por outra lei ou por perder validade com o tempo.
o Inconstitucionalidade superveniente: uma lei que era constitucional, compatível
com a constituição da época, torna incompatível com a constituição vigente por
conta de uma alteração na constituição ou na interpretação de uma norma
constitucional. Não é admitido no Brasil, é apenas considerado a não-recepção da
lei.
Repristinação: a restauração da eficácia da lei é inviável. Não é permitido a repristinação,
em nome do princípio da segurança das relações.
Poder constituinte originário e direitos adquiridos: o constituinte é livre para dispor sobre
a vida jurídica do Estado como quiser. Se uma norma da CF proíbe determinada faculdade
ou direito, antes reconhecido, a norma constituicional nova nao precisa respeitar situações
anteriormente constituídas. Somente é direito o que com ela é compatível. Os efeitos
futuros de fatos passados são atingidos pelo novo preceito constitucional, respeitando
apenas os efeitos que ocorreram antes da vigência do novo texto constitucional. A norma
superveniente do poder constitucional originário tem aplicação sobre situações constituídas
antes da sua vigência.
PODER CONSTITUINTE DE REFORMA (DERIVADO):
A evolução dos fatos sociais pode reclamar ajustes na vontade expressa na CF. O próprio poder constituinte
originário prevê a possibilidade de um poder, por ele instituído, alterar a CF (mudanças pontuais).
As mudanças são previstas e reguladas na própria CF que será alterada.
O poder de reforma (artigo 3º ADCT), é criado pelo poder constituinte originário que lhe estabelece
o procedimento a ser seguido e limitações a serem observadas.
Não é inicial, incondicionado, nem ilimitado. Está subordinado ao poder constituinte originário.
CONSTITUIÇÕES RÍGIDAS E FLEXÍVEIS: o poder de reforma so ganha proeminência quando se trata
de constituição rígida.
RÍGIDA: somente são alteráveis por meio de procedimentos especiais.
o Mais estabilidade às instituições fundamentais e contribui para o conhecimento do
texto pela população.
o Ex: Brasil. Supremacia da CF, evita que o legislador ordinário seja contrário;
instituição de mecanismos de controle de constitucionalidade de leis como garantia
real da superlegalidade das normas constitucionais.
FLEXÍVEL: equipara-se às leis comuns, no rito de reforma.
Mistas (semirrígidas): combinado dos dois tipos. Apenas alguns preceitos do texto são
alteráveis por processo especial, enquanto outros podem alterar por processo legislativo
comum.
o Ex: constituição do Império.
LIMITES AO PODER DE REFORMA (revisão e reforma):
Restrições de ordem procedimental:
Quórum especialmente qualificado para a aprovação de emenda à CF: (art. 60 §2, CF).
o A proposta será discutida e votada em cada Casa do Congresso Nacional, em dois
turnos, considerando-se aprovada se obtiver, em ambos, 3/5 dos votos dos
respectivos membros.
Quem pode apresentar proposta de emenda à CF: (art.60, CF)
o Um terço, no mínimo, dos membros da Câmara dos Deputados ou do Senado
Federal;
o Presidente da República;
o Mais da metade das Assembléias Legislativas das unidades da Federação,
manifestando-se, cada uma delas, pela maioria relativa de seus membros.
Não se prevê a iniciativa popular de proposta de emenda.
Restrições circunstanciais (art. 60,§1, CF): emendas não podem ser aprovadas em:
o Intervenção federal (art. 34, CF): temporário, feita pelo presidente;
o Estado de defesa (art.136, CF): calamidade pública e instabilidade institucional;
o Estado de sítio (art. 137, CF): ineficiência do Estado de defesa e guerra (+ grave).
O poder constituinte originário pode estabelecer que certas opções são intangíveis (não
pode mudar) = CLÁUSULA PÉTREA (artigo da CF que não pode ser alterado, núcleo essencial
do projeto do poder originário).
o Os limites não devem ocasionar a impossibilidade de mudança da Constituição.
Se os poderes originário e de reforma são exercidos por representantes do mesmo povo, por que um está
subordinado ao outro?
-O poder originário é a expressão da vontade do povo, e as limitações que este impõe são para restringir a vontade
dos representantes do povo.
NATUREZA DAS CLÁUSULAS PÉTREAS:
3 correntes doutrinárias:
1) Disputam a legitimidade e eficácia jurídica;
Não tem diferença entre poder de revisão e poder originário, ambos são
formas de soberania do Estado, exercidos, num regime regime
democrático, por representantes do povo.
2) Admitem a restrição, mas a tem como relativa, sustentando que ela pode ser removida
pela DUPLA REVISÃO;
O sentido dos limites materiais seria de aumentar a estabilidade de certos
opções do poder originário, por meio do agravamento do processo de
substituição.
3) Aceitam a limitação material e a tem como imprescindível e incontrolável (BRASIL).
Se o poder de revisão enfrenta a lógica da Constituição , será desvio de
poder. O poder de revisão não é para criar uma nova Constituição, mas
ajustar. A reforma não pode afetar a continuidade e a identidade da
Constituição. Eliminar a cláusula pétrea é enfraquecer os princípios básicos
do projeto do constituinte originário.
FINALIDADE DA CLÁUSULA PÉTREA:
Prevenir um processo de erosão na Constituição. Inibir a tentativa de abolir seu projeto
básico.
ALCANCE DA PROTEÇÃO DA CLÁUSULA PÉTREA:
Não tem por objetivo proteger dispositivos constitucionais, mas os princípios. A mera
alteração redacional não importa, desde que não afetada a essência do princípio protegido
e o sentido da norma. Artigo 60 CF.
AS CLÁUSULAS PÉTREAS EM ESPÉCIE:
FORMA FEDERATIVA DO ESTADO.
SEPARAÇÃO DOS PODERES.
VOTO DIRETO, SECRETO, UNIVERSAL E PERIÓDICO.
DIREITOS E GARANTIAS INDIVIDUAIS: Artigo 5 CF.
DIREITOS SOCIAIS E CLÁUSULAS PÉTREAS: deve-se ler direitos sociais ao lado de direitos e
garantias individuais (valor social do trabalho, sociedade justa e solidária, erradicação da
pobreza e marginalização, redução das desigualdades sociais).
CRIAÇÃO DE NOVOS DIREITOS FUNDAMENTAIS: o poder de reforma não pode criar
cláusulas pétreas, mas é possível que uma emenda à Const. acrescente dispositivos sem que
esteja criando direitos novos. A emenda pode estar apenas especificando direitos já
concebidos pelo constituinte originário.
DIREITOS PREVISTOS EM TRATADOS SOBRE DIREITOS HUMANOS: configuram também
cláusulas pétreas. A emenda constitucional n. 45/2004 passou a admitir que os tratados
que forem aprovados em cada Casa do Congresso, em dois turnos, por 3/5 dos votos dos
respectivos membros, serão equivalentes à emendas constitucionais.
CLÁUSULA PÉTREA DA GARANTIA DO DIREITO ADQUIRIDO: o artigo 5º, XXXVI CF impede a
lei de prejudicar o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada.
PODER CONSTITUINTE DE REVISÃO (DERIVADO):
Adaptar a Constituição à realidade que a sociedade aponta como necessária (art. 3º ADCT): revisão à CF 88 após 5
anos de promulgação por voto de maioria absoluta dos membros do congresso em sessão unicameral.
OS LIMITES DO PODER CONSTITUINTE DE REFORMA TAMBÉM SERVE PARA O DE REVISÃO.
REVISÃO REFORMA
PROPOSIÇÃO (iniciativa de proposta (art.60, CF) O mesmo do de revisão.
de emenda constituicional-PEC) -Um terço, no mínimo, dos membros da
Câmara dos Deputados ou do Senado
Federal;
-Presidente da República;
-Mais da metade das Assembléias
Legislativas das unidades da Federação,
manifestando-se, cada uma delas, pela
maioria relativa de seus membros.
DELIBERAÇÃO (votação da PEC) (art.3º, ADCT) (art.60, §2, CF)
-Maioria absoluta; -3/5 dos membros;
-Sessão unicameral; -Cada Casa do Congresso;
-Turno único. -2 turnos.
PROMULGAÇÃO Mesa do congresso Mesa das câmaras dos deputados e
senado federal.
LIMITES TEMPORAIS 5 anos após a promulgação da CF Pode ser feita a qualquer momento.
(art. 3º ADCT)
PODER CONSTITUINTE DECORRENTE (DERIVADO):
Federação Estado constituição própria (estadual) produzida por poder constituinte próprio.
princípio da simetria (normas obrigacionais, proibidas e permitidas).
Art. 11 (ADCT). Cada Assembléia Legislativa, com poderes constituintes, elaborará a Constituição do Estado, no prazo de um ano, contado da
promulgação da Constituição Federal, obedecidos os princípios desta.
Parágrafo único. Promulgada a Constituição do Estado, caberá à Câmara Municipal, no prazo de seis meses, votar a lei orgânica respectiva, em
dois turnos de discussão e votação, respeitado o disposto na Constituição Federal e na Constituição estadual.
Art. 1º (CF). A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em
Estado democrático de direito.
Art. 18 (CF). A organização político-administrativa da República Federativa do Brasil compreende a União, os Estados, o Distrito Federal e os
Municípios, todos autônomos, nos termos desta Constituição.
Organização político-administrativa do Estado:
Princípio da não intervenção (regra).
o Exceções: hipóteses taxativas, ato polítivo do chefe do poder executivo, ente
político mais amplo intervem no menos.
É o Poder dos Estados Membros elaborarem suas Constituições, sempre respeitando a simetria com a Constituição
Federal.
O Poder Constituinte Decorrente se divide em:
Inicial: Poder de criar a nova Constituição dos Estados-Membros.
De Revisão: Tem a função de promover reformas na Constituição dos Estados- Federados.
Características: tal Poder é totalmente diferente do Poder Constituinte Originário, pois nos termos
do art. 25 da CF/88, o Poder Constituinte Decorrente é:
Direto;
Secundário;
Limitado;
Condicionado.
Art. 25. Os Estados organizam-se e regem-se pelas Constituições e leis que adotarem, observados os princípios desta Constituição.
§ 1º - São reservadas aos Estados as competências que não lhes sejam vedadas por esta Constituição.
§ 2º - Cabe aos Estados explorar diretamente, ou mediante concessão, os serviços locais de gás canalizado, na forma da lei, vedada a edição de
medida provisória para a sua regulamentação. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 5, de 1995)
§ 3º - Os Estados poderão, mediante lei complementar, instituir regiões metropolitanas, aglomerações urbanas e microrregiões, constituídas
por agrupamentos de municípios limítrofes, para integrar a organização, o planejamento e a execução de funções públicas de interesse
comum.
O Poder Constituinte Decorrente possui as mesmas limitações impostas à capacidade de auto-organização dos
Estados Membros.
NORMAS DE OBSERVÂNCIA OBRIGATÓRIA: por ser decorrente, o Poder Constituinte dos Estados-
membros deve observar o princípio da Simetria, ou seja, adotar as Normas Centrais (Normas de
Observância Obrigatória ou Normas de Reprodução), cujo conteúdo limita a forma de organização
do Estado federado, mantendo-o em harmonia com a nova ordem constitucional instituída pelo
Poder Constituinte Originário.
Não há na Constituição Federal de 1988 um rol das normas de observância obrigatória,
sendo que tais normas foram compiladas pela doutrina e jurisprudência e são:
o Normas referentes à organização, composição e fiscalização do Tribunal de Constas
(art. 75 da CF/88);
Art. 75. As normas estabelecidas nesta seção aplicam-se, no que couber, à organização, composição e fiscalização dos Tribunais de Contas dos
Estados e do Distrito Federal, bem como dos Tribunais e Conselhos de Contas dos Municípios.
Parágrafo único. As Constituições estaduais disporão sobre os Tribunais de Contas respectivos, que serão integrados por sete Conselheiros.
o Normas que estabelecem a competência de cada um dos Poderes (visando
assegurar ser eles independentes e harmônicos entre si);
o Os Princípios básicos do Processo Legislativo Federal;
o Os requisitos básicos para a criação das comissões parlamentares de inquérito (art.
58, §3º, C.F/88).
Art. 58. O Congresso Nacional e suas Casas terão comissões permanentes e temporárias, constituídas na forma e com as atribuições previstas
no respectivo regimento ou no ato de que resultar sua criação.
§ 3º - As comissões parlamentares de inquérito, que terão poderes de investigação próprios das autoridades judiciais, além de outros previstos
nos regimentos das respectivas Casas, serão criadas pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal, em conjunto ou separadamente,
mediante requerimento de um terço de seus membros, para a apuração de fato determinado e por prazo certo, sendo suas conclusões, se for
o caso, encaminhadas ao Ministério Público, para que promova a responsabilidade civil ou criminal dos infratores.
CLASSIFICAÇÃO DOS PRINCÍPIOS LIMITATIVOS: os limites ao Poder Constituinte Decorrente são:
Princípios Constitucionais Sensíveis: representam a essência da organização constitucional
brasileira e estabelecem limites à autonomia organizatória dos Estados-membros (art. 34,
VIII CF/88);
Art. 34. A União não intervirá nos Estados nem no Distrito Federal, exceto para:
VII - assegurar a observância dos seguintes princípios constitucionais:
a) forma republicana, sistema representativo e regime democrático;
b) direitos da pessoa humana;
c) autonomia municipal;
d) prestação de contas da administração pública, direta e indireta.
e) aplicação do mínimo exigido da receita resultante de impostos estaduais, compreendida a proveniente de transferências, na manutenção e
desenvolvimento do ensino e nas ações e serviços públicos de saúde.
Princípios Constitucionais Extensíveis: Consagram normas organizatórias para a União que
se estendem aos Estados (arts. 28 e 75 da CF/88);
Princípios Constitucionais Estabelecidos: consagrados de forma assistemática na
Constituição, limitam a capacidade Organizatória dos Estados federados. São divididos em
normas mandatórias e vedatórias, implícitas e decorrentes;
Normas de Preordenação: são normas constantes na CF/88 que se dirigem diretamente aos
Estados-membros trazendo regras a serem obrigatoriamente observadas em suas
constituições (arts. 27, 28, 37 a 42, 75 e 95);