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Psicanálise SBPdePA v19 n2 2017-12

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Estado limítrofe e

transtorno borderline:
diferenças e semelhanças.
A difícil questão do núcleo
psicótico
Antonello Correale1

Resumo: O autor, inicialmente define o conceito de estado limítrofe, principalmente a


partir das contribuições de André Green. Define, então, o transtorno borderline e sua li-
gação com o trauma. Considera que estado limítrofe e transtorno borderline são dois po-
los distintos, o primeiro conectado ao tema do núcleo psicótico e à questões vinculadas
ao pensamento, enquanto o segundo está conectado com a vasta temática do trauma.
Palavras-chaves: Estado limítrofe. Núcleo psicótico. Transtorno borderline. Trauma.

Introdução

Quem se aventura pela literatura psicanalítica no estudo do transtorno


borderline, não pode evitar uma sensação de desordem ou confusão. O termo
borderline vem sendo usado com uma multiplicidade de significados, inclusive
contrastantes entre si, e cobre uma notável variedade de situações clínicas. As
tentativas para colocar ordem nesse quadro tão variado, frequentemente não
fazem mais do que sublinhar ou trazer à tona com mais clareza contrastes,

1 Médico psiquiatra. Membro Ordinário da Sociedade Psicanalítica Italiana. Docente de


Psicologia da Universidade de Urbino (Itália).

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Estado limítrofe e transtorno borderline: diferenças e semelhanças. A difícil questão do núcleo psicótico

sobreposições, semelhanças e diferenças, sem que se chegue ao um ponto de


referência definitivo.
Pode-se dizer, com alguma segurança, que o diagnóstico borderline nasce
como um continente vasto que tende a abranger, num único quadro, todas as
situações no limítrofe entre psicose e neurose, sem identificar-se nitidamente
com nenhuma dessas duas configurações (Gunderson, 1984; Gabbard, 2001).
O nascimento do conceito em uma terra de fronteira fez com que tivéssemos
que distinguir, continuamente, entre os borderline mais próximos à psicose (as
personalidades como se, quadros quase delirantes ou sem delírios explícitos) e os
borderline mais próximos à neurose (quadros histéricos que levam à impulsividade,
perversões mascaradas e quadros narcísicos). A necessidade de reposicionar uma
área mais próxima à psicose e outra mais próxima à neurose, tornou obscuro o
conceito de borderline, o que clama por especificações mais precisas.
Poderíamos apresentar a questão nos seguintes termos: existiria um núcleo
psicótico operante, mas oculto, sem sintomas psicóticos evidentes (alucinações,
delírios paranóicos, delírios hipocondríacos, quadros esquizofrênicos), produzindo
áreas mentais com pouco conteúdo de simbolização, nas quais o pensamento,
ou melhor, a sua produção cai por excesso de accting e somatizações? Ainda, o
excessivo uso do conceito, fascinante mas confuso, núcleo psicótico, não correria
o risco de obscurecer as diferenças entre borderline e psicose, e de catalogar, sob o
termo psicose, fenômenos que não são psicóticos?
Se resenhamos o conceito de núcleo psicótico na literatura psicanalítica,
um eterno problema na opinião de Green (1991), ele parece ser reproposto,
continuamente, com poucas esperanças de ser resolvido definitivamente.
No interior desse quadro histórico que estou traçando em grandes linhas, foram
emergindo duas posições. A primeira poderia ser definida como uma tentativa
importante de inserir o conceito de borderline na categoria mais ampla de estado
limítrofe. Essa tentativa é muito difundida entre os psicanalistas influenciados
pela cultura francesa e encontra na coletânea de trabalhos de Andrée Green,
Psicanálise dos estados limítrofes (1991), que tem o subtítulo Loucura privada,
uma referência até hoje essencial e significativa.
O estado limítrofe consistiria, segundo essa concepção, em uma área mental
indeterminada, fluida, quase líquida, em que o excesso de acting e de somatizações
determinaria uma perda substancial da capacidade de pensar, concebendo-
se o termo pensar como a capacidade de obter representações para os próprios
desejos, impulsos e paixões. Essa área estaria coberta por um fundo pantanoso e
movediço sobre o qual se sobrepõe uma serie de identidades falsas, de falsos self,
de mecanismos como se, que serviriam para mantê-la sob controle. A um certo

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Antonello Correale

ponto do tratamento, essa área de loucura privada se manifestaria sob a forma


de uma paixão desenfreada, entendendo por paixão uma emoção que o sujeito
vive passivamente e em relação a qual aceita sucumbir sem lutar, e quase sem
consciência.
Essa definição de estado limítrofe se baseia, especialmente, no tema do
pensamento. Nesses pacientes, encontramos um contínuo vazio de pensamento,
substituído por construções fictícias (identidades emprestadas, falsos self e
posições ideológicas apriorísticas); portanto, uma condição de desinvestimento
do objeto externo com uma contínua oscilação entre investimento momentâneo
e brusca retirada de investimento.
Resta, novamente, o eterno problema: estamos diante duma quase psicose?
Devemos fazer a hipótese de que existe um vazio psicótico não preenchido pelas
produções psicóticas clássicas? A questão é importante não somente do ponto
de vista teórico, mas também clínico e terapêutico, porque o trabalho com a
fantasia e os elementos psíquicos é muito diferente se for conferido um estado
quase psicótico ou não.
Como veremos, o próprio Green, que sustenta mais fortemente o conceito
de estado limítrofe, oscila entre duas possibilidades, e mesmo parecendo mais
favorável a uma distinção, sustenta que o estado limítrofe poderia tornar-se
psicose, sem sê-lo desde o início.
A outra tendência, que veio a ser predominante no campo psiquiátrico e também
entre muitos psicanalistas, parece mais ligada às vertentes de investigação inglesa
e americana, encontra em Gunderson (1984) seu pesquisador mais aprofundado.
Segundo essa abordagem, não existe estado limítrofe, mas somente transtorno
de personalidade borderline. O estado emocional de fundo não consiste em uma
indeterminação fluida, em uma incapacidade caótica de posicionar-se diante da
vida e de suas escolhas, mas numa profunda insatisfação, uma busca insaciável dos
desejos, na procura contínua de um algo a mais, que se expressa na vida cotidiana
por uma tendência frequentemente perigosa à impulsividade, à ação imediata e
não pensada, e numa reatividade violenta e desesperada, em atos potencialmente
agressivos e pouco sintonizados com o outro. A simbolização está presente, mas é
descontinua; não há vazio, mas um constante preencher e esvaziar das áreas mentais,
usando como recurso atos, uso de substancias, sexo desregrado ou mecanismos
histéricos transitórios que dariam um momentâneo alivio à sensação de insatisfação
e de tédio que afligem esses pacientes. Mas, esse tédio não surge do vazio, e sim da
antecipação de uma contínua frustração que o objeto irá, por fim, infligir.
Um aspecto fundamental dessa concepção do transtorno borderline, é sua
conexão com o trauma; o transtorno seria, essencialmente, consequência de uma

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Estado limítrofe e transtorno borderline: diferenças e semelhanças. A difícil questão do núcleo psicótico

concepção traumática da vida, em que cada evento se propõe como disruptivo,


devastante ou humilhante, o que confirmaria o predomínio da injustiça e do mal
na ordem das coisas (Correale, 2010).
Essa segunda concepção - que tem origem em Gunderson, mas com muitos
representantes no mundo contemporâneo - é, no momento atual, a que prevalece,
e é a que eu proponho neste trabalho. Permanece, porém, o problema: que
relação existiria entre estado limítrofe e transtorno borderline? São duas maneiras
de descrever quadros semelhantes? Ou o transtorno borderline seria outro modo
de delimitar, no interior do grande quadro conceitual estado limítrofe, um tipo
mais preciso e identificável, utilizando o conceito de trauma como chave de
leitura ou fio condutor do discurso e da investigação? Sou pessoalmente favorável
a esta última resposta.
O conceito de estado limítrofe parece-me muito amplo e compreende quadros
muito diferentes, com fortes matizes perversos, que poderíamos atribuir mais à
área narcisista do que àquela que, em psiquiatria, é chamada de configuração
borderline. Além do mais, o onipresente discurso sobre o núcleo psicótico torna-
se mais reconhecível se abordado no campo borderline, enquanto que, no estado
limítrofe, arrisca manter um elevado nível de ambiguidade. Como espero poder
demonstrar, o transtorno borderline diferencia-se da psicose, enquanto em certos
quadros clínicos, como os descritos por Green, o núcleo psicótico desenvolve um
importante papel.
Estado limítrofe ou transtorno borderline tornam-se, portanto, dois polos
distintos do discurso. O primeiro, mais amplo e articulado, cobre uma parte
do discurso que abrange uma vasta gama de transtornos de personalidade (com
prevalência da dimensão narcisista) e relacionado ao tema do núcleo psicótico.
O outro, o transtorno borderline, mais definido, relaciona-se à vasta temática do
trauma - ele por si só ambíguo, se não for melhor especificado - e não parece ter
relação como o tema da psicose. Poderíamos definir melhor essa polaridade de
conceitos, recorrendo a alguns esclarecimentos. Talvez pudessemos dizer que a
emoção que prevalece no estado limítrofe é a apatia, mascarada por um atarefar-
se, aparentemente direcionado, mas que, na verdade, é compensatório do vazio
interior. No borderline, ao contrário, a emoção prevalente é a disforia, entendida
como o entrelaçamento inextricável de raiva, dor, desespero e protesto: uma
luta cega ou unilateral contra a injustiça do mundo. São quadros diversos que
requerem abordagens diversas.
Um modo de exemplificar é recorrer a dois personagens-tipo que representam
esses dois quadros. Se tivesse que escolher um sujeito para exemplificar o estado
limítrofe, não encontraria personagem melhor do que Sergej Pankeiev (O homem

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Antonello Correale

dos lobos), o mais célebre caso clínico de Freud (1914-1918). O homem dos
lobos oscilava entre a apatia e a paixão transitória e, desde Freud, toda literatura
problematizou se haveria nele, ou não, um núcleo psicótico. A questão ainda está
em aberto, mesmo que sua última psicanalista, Ruth Mack Brunswick (1928)
estivesse convencida de que haveria um núcleo psicótico, afastando-se, nesse
ponto, de sua necessidade de concordar com o pensamento do mestre.
Se quisesse exemplificar um quadro borderline, não encontraria ninguém
melhor que um dos mais notáveis personagens de Dostoievski - Dimitri
Karamazov - com sua mescla de impulsividade desregrada, generosidade e
violência, desejos suicidas e tendência à expiação. Certamente, não há apatia
nem indecisão, mas amor imprudente, leviano e impregnado de ódio para com o
outro, sempre procurado e sempre ilusório, e uma irrefreável ambivalência para
com a figura paterna.
Por fim, uma proposta. Poderíamos definir como borderless (Stoppa, 2011) o
quadro constituído pelo estado limítrofe com sua loucura privada: ausência de
fronteiras, indefinição, indecisão, uso de substâncias como consumo do tempo e
das escolhas. Poderíamos, por outro lado, reservar o termo borderline ao quadro
constituído por aquela intensa vitalidade disfórica, pela busca desesperada de
algo que se teme não encontrar nunca, mas que seguimos crendo existir, aquela
espécie de utopia desencantada e destrutiva que caracteriza estas figuras.
Mas é necessário ir ao ponto do nosso tema. Examinaremos, primeiro,
o conceito de estado limítrofe para aprofundar e chegar ao quadro borderline
propriamente dito, realçando as semelhanças e diferenças com a concepção
traumática deste transtorno.

O estado limítrofe

O estado limítrofe consiste, ao mesmo tempo, numa linha além da qual não
se pode ir, e na fronteira entre interno e externo; e o limítrofe além do qual não
se pode ir é o da linguagem insuficiente, por falta de uma atitude imaginativa
do ambiente. O estado limítrofe é, portanto, um estado fluido, no qual o
pensamento é danificado por excesso de projeções (identificações projetivas),
em que também o inconsciente é danificado, se entendermos por inconsciente
uma área da mente modificada pelos mecanismos da repressão (desinvestimento
fracionado, condensação, deslocamento, simbolização).
Esta concepção do estado limítrofe é muito potente e permite um
enquadramento amplo das vicissitudes da formação da mente. Evidencia-se,
especialmente, a importância dos mecanismos projetivos – Green (1991) fala em

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Estado limítrofe e transtorno borderline: diferenças e semelhanças. A difícil questão do núcleo psicótico

desincorporação - quando tais mecanismos projetivos estão em seu máximo, em


níveis quase insustentáveis. Essa é uma área em que há certa continuidade entre
o pensamento freudiano, kleiniano e bioniano.
Winnicott (1974) definirá melhor como esses mecanismos colocam em risco
o continente (a mãe-ambiente, prevalecendo sobre a mãe-objeto), ativando a
mudança catastrófica da qual Bion (1977) – neste caso muito próximo de
Winnicott – também havia falado.
Mas, antes de pôr em discussão alguns pontos cruciais desse conceito,
gostaria de enfatizar melhor algumas consequências clínicas dessa abordagem.
O predomínio dos mecanismos projetivos acarreta uma excessiva instabilidade
do mundo interno. Em que agarrar-se para construir um sentido possível de
continuidade da própria existência, se tudo escorrega para fora e não se consegue
reter nada?
Daqui vem a importância da idealização, entendida aqui como atribuição
de um valor particularmente intenso a certos fenômenos ou elementos da vida
psíquica. A idealização, porém, necessita de uma cisão para manter-se, e ai está
a importância da própria cisão. A cisão permite temporários momentos de
alívio, e instaura uma ordem possível no mundo, que, de outro modo, estaria
dominado pela desordem criada pela multiplicidade de objetos projetados e não
metabolizados.
Chegamos, aqui, a outra ideia importante do estado limítrofe: a impossibilidade
de julgar (Cimino, 2009). O estado limítrofe vive, portanto, a loucura privada
de grandes paixões e de precários julgamentos, de um mundo interno vazio e
de um mundo externo pouco compreensivo onde, porém, interno e externo
estão continuamente sujeitos a deslizamentos de um para o outro, conferindo,
assim, ao indivíduo uma experiência de contínua precariedade existencial.
A consequência clínica mais relevante dessa concepção, além da precariedade
existencial e da dificuldade de julgar, consiste, no meu entender, na ideia de
que o objeto externo oscila, continuamente, entre presença e ausência, entre
intrusividade e desaparecimento.
Nem o eu, nem o objeto possuem uma mínima estabilidade. O eu está
continuamente sujeito a vivências de perfuração e de hemorragia devidas à
prevalência dos mecanismos de exteriorização. O objeto está carregado de mal,
raiva, perseguição e se esforça por tornar-se presente com tais modalidades
intrusivas. Ao sujeito resta, portanto, um isolamento protetor – tendenciosamente
preenchido pelo uso de substâncias que dão prazeres momentâneos e, portanto,
continuamente repetidos; ou por uma relação de ódio-amor, de ambivalência
instável vivida com um objeto escolhido como relativamente estável ou, mais

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Antonello Correale

frequentemente, pela passagem de um investimento precário a outro em


decorrência de um tédio que nasce do fato de que nenhum objeto se instala
verdadeiramente no interior do sujeito. A eterna luta entre ausência e intrusão
torna-se, então, uma chave de leitura do estado limítrofe.

Psicose e representação

Agora, gostaria de propor algumas reflexões que conduzam a pontos


fundamentais do conceito de estado limítrofe. O primeiro ponto diz respeito
à psicose, especificamente ao núcleo psicótico do qual falamos no início. A
presença de mecanismos psicóticos já estaria contida na exteriorização maciça das
vivências, das percepções e das fantasias? A psicose, consistiria numa continuação
dos movimentos expulsivos que buscam aliviar a mente da dor, atacando a
possibilidade de formar pensamentos?
Podemos dizer que, na psicose, os mecanismos de exteriorização são
complicados pelo fato de que o objeto projetado e exteriorizado adquire
características novas, muito intensas por um lado, mas dotadas de uma existência
misteriosa e inatingível. Além disso, a exteriorização é somente a primeira parte
do processo. Na segunda parte, o objeto projetado retorna violentamente ao
sujeito numa forma diversa de quando partiu. É nesse retorno que se verifica
a psicose propriamente dita: o sujeito encontra partes mentais que eram suas,
mas que, ao permanecerem projetadas no exterior, modificam-se, tornando-se
estranhas, misteriosas, mágicas, surpreendendo de modo assustador e fascinante.
O debate a respeito do núcleo psicótico se insere nessa segunda parte.
É suficiente falar de exteriorização para fazer o diagnóstico de psicose? O vazio
fluido deixado pelo processo de exteriorização é uma condição psicótica? Ou será
que, para falar de psicose, é necessária a presença de estranheza, mistério, magia
que o sujeito sente quando suas partes mentais retornam, como se alguém as
tivesse criado?

Transtorno borderline e experiências traumáticas

Na concepção que estamos propondo neste texto, e que se difundiu,


predominantemente, no campo psiquiátrico, o transtorno de personalidade
borderline se caracteriza pelo domínio quase absoluto de um estado de ânimo
denominado por alguns autores como disforia (Rossi Monti, 2005) e que permeia
quase todos os momentos da vida psíquica. Tal estado caracteriza-se por uma
inquietação difusa, um estado de alarme e de espera de algo perigoso e violento,

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Estado limítrofe e transtorno borderline: diferenças e semelhanças. A difícil questão do núcleo psicótico

uma insatisfação profunda diante, inclusive, de prazeres intensos, que deixam,


sempre, o sinal de algo insaciável e incompleto (Ansemert & Magistretti, 2012).
Esse estado é acompanhado de uma intensa reatividade, que se manifesta
mesmo diante de frustrações aparentemente modestas, um comportamento
desafiante impregnado pelo desejo de transmitir uma mensagem de ser indomável,
e de não aceitar as regras sociais (Ruggero, 2012). Tal reatividade pode expressar-
se em atos violentos, crises de raiva e desespero, uso de substancias químicas para
livrar-se desse estado insuportável, impulsos de cometer atos potencialmente
irreparáveis e perigosos, tais como atividades sexuais imprudentes, desafio à
autoridade, busca de situações de risco, por exemplo, no trânsito.
Se observarmos tais pacientes, teremos a sensação de que estão tomados por
uma desilusão cheia de desafios e de provocação: o mundo é injusto, estúpido e
hipócrita, então eu serei assim, para mostrar ao mundo o quanto ele é falso e violento.
Entrevê-se, nesses sujeitos, uma espécie de nostalgia por um mundo utópico
onde os seres humanos são bons, gentis e respeitosos uns com os outros. Mas esse
mundo está perdido para sempre, e não há esperança de reconstruí-lo, mesmo
se, na dependência profunda e ambivalente que sentem por quem os cuida, eles
pareçam sonhar - sem acreditar - em reconstruir tal mundo.
Essa breve descrição leva em conta uma característica significativa desses
sujeitos, a qual poderíamos definir como uma intensa vitalidade. As fortes crises
depressivas, com frequentes fantasias, ou mesmo tentativas de suicídio, dão
lugar a uma raiva vital e potente que parece ser acompanhada por uma filosofia
violentamente restitutiva de um bem e de uma moral cercada por modalidades
quase terroristas. Creio que essa seja uma das aquisições mais significativas
da investigação desses últimos anos: ter relacionado esse estado à experiência
repetida de traumas, determinando, por vários caminhos, o quadro que descrevi
(Williams, 2009).
É necessário, agora, definir melhor o conceito de trauma, para que não fique
ambíguo. A literatura psicanalítica sobre o trauma é extensa e, aqui, podemos
apenas aproveitar alguns elementos essenciais. Primeiramente, é preciso distinguir
a ideia de trauma da ideia de desprazer e frustração. Nem toda experiência
negativa deve ser definida como traumática, sob o risco de fazer uso indevido do
termo. Creio que o termo trauma deva ser reservado às experiências nas quais o
sujeito vive a possibilidade de morte, psíquica ou física; não há trauma se não
houver experiência de morte (Lingiardi, 2008; Van der Kolk, 1996).
Por morte, entendo uma brusca descontinuidade do fluxo da vida psíquica,
uma modificação profunda por colapso e contração dos parâmetros espaço-
temporais da experiência, sentimento profundo e desesperador de ser dominado

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Antonello Correale

por algo, de ser passivo e inerme diante de forças internas e externas que não
deixam espaço a correções ou modificações. Poderíamos dizer que na experiência
de morte o tempo pára, o espaço se contrái e o sentimento de ser agente de si
mesmo é anulado.
Experiências semelhantes foram descritas amplamente na historia da
psicanálise. As mais importantes talvez sejam Fear of breakdown (Winnicott,
1974) e a mudança catastrófica de Bion (1977). Estes autores insistem, mais do
que na vivência de morte, na ruptura dos continentes psíquicos cuja função é
oferecer estruturas estáveis às atividades mentais. Mas não creio que seja arbitrário
chamar de morte esse tipo de vivência, pela irredutibilidade brusca e repentina
aos parâmetros vitais habituais.
É sabido que Freud perseguiu, por toda sua vida, o conceito de angústia,
e que em algumas das suas formulações, como veremos adiante, concebeu-a
deste modo. É possível pensar na angústia de morte que caracteriza a experiência
traumática de dois modos distintos, mas complementares. No primeiro modo,
a morte é representada por uma excitação apavorante e dominadora, por estar
violentamente atraída e repelida por algo que se propõe diante de nós como terrível
e sedutor ao mesmo tempo. Ferenczi (1932) descreveu, de modo insuperável, o
efeito da sexualidade adulta sobre a sexualidade infantil: como o surgimento de
uma língua estrangeira, com gestos e expressões, exercendo na criança, que fala
outra língua, um efeito de violenta e intrusiva fascinação.
Por outro lado, em sua insistência no trauma sexual, insistência que, no fundo,
Freud não abandonou completamente, mesmo quando se converteu à ideia do
predomínio das fantasias, ele quer sublinhar essa capacidade da sexualidade de
exercitar um impulso prepotente e incontrolável contra algo que domina e nos
transcende. A sexualidade adulta se impõe com a violência inusitada de uma
tempestade que abala uma pequena cidade e deixa marcas irreparáveis. Todas as
operações sucessivas, projeções, remoções, dissociações, lembranças encobridoras
e assim por diante, são tentativas para circunscrever tal tempestade descontrolada.
Outro modo de conceber o trauma, expresso de modo inequívoco em Inibição,
sintoma e angústia (1925), diz respeito à experiência de impotência. Existem
situações em que o sujeito vive a experiência de estar completamente dominado
por algo fora de si, algo que o mantém completamente à mercê, que responde a
leis próprias e desconhecidas e que não tem com o sujeito outra relação que não
a força brutal. Nesses casos, o ser humano se torna pura força, atividade física,
e não sujeito psíquico, algo como pedra, fogo, vazio, água, em suma, elemento
natural e não sujeito humano.
Aparentemente, os dois modos de pensar a experiência de morte traumática são

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Estado limítrofe e transtorno borderline: diferenças e semelhanças. A difícil questão do núcleo psicótico

inconciliáveis: por um lado, um fluxo de excitação amedrontador e destrutivo; do


outro, uma impotência paralisante mortífera. Num exame mais atento, porém,
os dois polos são mais próximos do que pode parecer num exame superficial. A
passividade nunca está privada de um poder obscuro de fascinação, e a excitação
se aproxima a um sentimento de estar à mercê de algo. Paradoxalmente, essa
obscura atração à passividade é o que determina um terror sem fim, uma paralisia
da vontade, colocando em movimento mecanismos compensatórios que são
típicos do borderline e que tornam-se compreensíveis se ligados à experiência
traumática de morte e à tentativa de livrar-se dela.
Podemos aprofundar esse ponto, enfrentando o tema do trauma desde três
pontos de vista, entre os tantos outros possíveis: o primeiro, poderia ser a relação
entre trauma e representação; o segundo, entre trauma e identificação; o terceiro
poderia ser definido como a dimensão metafísica do trauma.
A relação entre trauma e representação foi estudada em muitos âmbitos
psicanalíticos, e também não psicanalíticos, bastando lembrar a visão antiga,
mas sempre atual, de Jackson, baseada na ideia de que o trauma elimina o
funcionamento das funções cerebrais superiores, deixando uma via aberta para as
estrutura límbicas do cérebro emocional (Meares, 2000). O trauma determinaria
um excesso de emoções e uma redução de representações, um vazio psíquico onde
as capacidades de conexões, ligação e juízo são fortemente danificadas e as ações
que se empreendem são quase exclusivamente dominadas pela emoção. É possível
imaginar esse estado como um déficit de representações, mas também como
aquisições de outras capacidades cognitivas (como os cegos que desenvolvem, de
modo muito refinando, outros sentidos).
O borderline perde, efetivamente, no trauma, boa parte de sua capacidade de
julgar e, como consequência, o outro é percebido como algo físico, como uma
força, como um elemento quase meteorológico. A diminuição do julgamento
é acompanhada de uma espécie de empatia primitiva em que ficam colocadas,
em primeiro plano, as características emocionais do outro, seus impulsos mais
escondidos, os seus gestos inconscientes. Justamente porque o julgamento
lógico e psicológico se atenua, o outro se torna mais real, mais externo, menos
assimilável, mas mais existente como realidade em si (Cimino, 2011).
Não devemos nunca desvalorizar este tipo de empatia primordial que cansa o
terapeuta, porque o faz sentir-se sempre sob avaliação, mas que possibilita uma
visão mais profunda e perspicaz. Além disso, é preciso considerar que a perda
das representações nunca é total. O vazio nunca é completo e absoluto. A cena
traumática fragmenta-se deixando pedaços sensoriais, partes de cenas que depois
são modificadas pela fantasia e pelas lembranças encobridoras.

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Antonello Correale

O après coup, ou seja, o trauma atual, que continuamente chama e reativa


o trauma antigo, retoma e modifica continuamente a cena originária, mas
deixa operantes algumas invariantes que podem ser consideradas modalidades
relacionais fixas, repetidas porque nunca foram bem elaboradas e representadas,
os famosos modelos operativos internos da escola cognitivista.
Mas, o que temos que acrescentar é que o modelo operativo está impregnado de
lascas sensoriais que dão origem a fantasias, algumas originárias e outras adquiridas
ao longo do tempo e concretizam-se, como veremos em relação à identificação, em
fantasmas recorrentes. O modelo operativo é útil, mas reducionista, porque a ele
se chega somente por uma multidão de lascas sensoriais e fantasmas subjacentes.
Uma consequência importante da relação entre trauma e representação é o
fenômeno da dissociação, que consiste em uma profunda cisão vertical do Eu do
sujeito. A falta de representações disponíveis faz com que o sujeito seja tomado
por aspectos parciais da cena, que exercem sobre ele um efeito quase hipnótico.
Nesses momentos, o borderline dialoga somente com aspectos parciais - um
superego materno cruel, um pai abusador, o amigo falso e traidor - e só enxerga
esses aspectos. A captura pelo aspecto fascinante e cruel do objeto é tal, que
todo sujeito borderline cinde-se, tornando-se somente uma parte de si mesmo.
Isto pode induzir a ações violentas, cenas tempestuosas, estados de estupor ou
identificações histéricas com personagens secundários.
Se a relação entre representação e trauma nos ajuda a entender melhor os
fenômenos dissociativos tão frequentes no transtorno borderline, o problema da
identificação ajuda-nos a entender frequentes inversões que são típicas, como
aquelas entre vítima e perseguidor e perseguidor e vítima.
No trauma, se verifica um tipo particular de identificação que a psicanálise
clássica, na pegada de Ferenczi (1932) e de Klein (1921-1958), definiu como
incorporação. Essas identificações por incorporação não são sentidas como
pertencentes ao sujeito, permanecendo como estranhas. As coisas acontecem
como se, no turbilhão da impotência e da excitação, não restasse outra
possibilidade ao sujeito a não ser tornar-se o outro; mas isto é sentido como uma
submissão, ou como uma entrada de um demônio, ou de uma força externa.
Mas o demônio do borderline não é aquele do psicótico, impregnado de caráter
sagrado, de um estatuto quase sobrenatural; é um demônio físico, natural, como
um ferro ou uma rocha, que funciona segundo suas próprias leis, e não as divinas.
Comprende-se, aqui, porque se fala em identificação com o agressor, na esteira
de Anna Freud (Freud, 1937). Mas, certamente, o fenômeno é mais primário,
porque o outro não é sentido inteiramente como agressor, mas como o inevitável,
o necessário, aquilo do que não se pode fugir.

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Estado limítrofe e transtorno borderline: diferenças e semelhanças. A difícil questão do núcleo psicótico

Reconhece-se, agora, que o núcleo mais profundo da temática borderline, que


torna todo o resto mais legível ou claro é a relação de ódio – amor, vida – morte,
proteção – destrutividade, demanda-oferta e compaixão – intolerância entre o
sujeito borderline e um outro ao qual o sujeito sente-se ligado irreversivelmente,
como numa prisão. Conseguir desfazer, gradualmente, essa ligação, é a tarefa
mais importante da terapia.
É útil relacionar esse tema da identificação com aquele do fantasma. A
identificação traumática por incorporação dá origem a uma representação do
objeto traumatizante que pode ser definido como o fantasma. O fantasma é uma
personagem da vida mental que assume semblantes de um genitor ou da figura
determinante nas relações traumáticas do borderline. Porém, não é pura fantasia,
nem alucinação. Não tem o poder de uma alucinação e é mais forte do que uma
fantasia. Impõe-se ao sujeito como uma potência que o domina, força atrativa
que modofica o campo e o orienta. Identificar a ação predominante do fantasma
é tarefa fundamental da terapia.
Disso surge um outro ponto fundamental da temática borderline: a eterna
conexão entre trauma antigo e trauma atual. Cada experiência negativa, cada
frustração ou ausência, reativa o trauma antigo, e por isso os borderline são
exasperados e parecem histéricos; em realidade, reenfrentam o velho trauma em
modalidades extenuantes para o terapeuta.
Esse aspecto da identificação traumática comporta duas consequências
importantes. A primeira diz respeito à compulsão à repetição. O borderline
não somente repete ao infinito a mesma sequência, quando encontra o trauma
antigo, e até o busca, segundo uma modalidade traumatofílica (Correale, 2010).
Junto à disforia, à dissociação, à tendência a repetir modalidades semelhantes de
relacionamento, a tendência traumatofilíca é um fator recorrente e perturbante.
Um segundo aspecto diz respeito ao desejo. O tema da identificação pode
ser visto, também, como se a identificação fosse uma barreira ao desejo – se não
posso ter-te, serei como você ( Freud, 1921). Mas, se a identificação é parcial e
no seu lugar domina a incorporação, o desejo já não tem essa barreira; como se a
falta de identificação produzisse uma fome insaciável e raivosa do objeto.
O último ponto que vou tratar rapidamente, embora tenha importância
fundamental, diz respeito à dimensão metafísica do trauma. O trauma abre
caminho ao caos, à desordem, ao incontrolado; rompe as dimensões da
familiaridade entre as coisas; destrói o hábito, a ordem, a domesticação. O sujeito
se abre ao incontrolado, ao espaço infinito, às forças obscuras que o regulam.
Nessa abertura ao mundo externo desconhecido, existe uma grande força e uma
grande angústia; mas, sem dúvida, nessa abertura, criam-se condições para uma

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retomada do tema da moral. Se o mundo é dominado por forças obscuras e a


injustiça desilude os nossos sonhos utópicos infantis, onde dar lugar à escolha
moral? Por que ser moral em um mundo injusto e neutro?
Aqui, o transtorno borderline nos leva a temas fundamentais da filosofia e a
questões da moral. É importante não deixar de tratar estes temas, porque são
muito sentidos por eles; não se contentam com uma moral confeccionada ou
com respostas complascentes. Frequentemente, tornam-se intolerantes, quase
ideológicos, quando saem da fase repetitiva do trauma e acedem a esta temática.

State limit and borderline disorder: similarities and differences. The


difficult question of psychotic core

Abstract: The author first defines limit state mainly from Andrew Green’s contribu-
tions, based on the theme of thought. He then defines borderline disorder, as well as its
connection with trauma. He considers that limit state and borderline disorder are two
distinct poles of this discourse, and state limit is connected with the theme of psychotic
core, while borderline disorder is connected with a wide theme of trauma. He finally
defines the concept of trauma, distinguishing it from the idea of displeasure and frus-
tration.
Keywords: Borderline disorder. Limit state. Psychotic core. Trauma.

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Copyright © Psicanálise – Revista da SBPdePA


Tradução: Cristina Sommer e Marisa Mélega

Recebido em: 13/02/2017


Aprovado em: 14/08/2017

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