EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR DESEMBARGADOR PRESIDENTE
DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO MARANHÃO
Processo nº 0000308-77.2020.8.10.0035
LEOMAR DE JESUS DOS SANTOS, advogado, inscrito na OAB/MA sob o
nº 29337, com escritório profissional situado à Rua 7, nº 668, bairro Tamarineiro, CEP
65608-500, Caxias-MA, e-mail:
[email protected], onde recebe intimações, vem,
com fundamento nos artigos 647 e 648, do Código de Processo Penal, e art. 5º, LXVIII,
da CRFB, respeitosamente, à presença de Vossa Excelência, IMPETRAR o presente
HABEAS CORPUS PARA TRANCAMENTO DE PROCESSO CRIMINAL
em favor de YAGO RODRIGO SALOMÃO DA SILVA, brasileiro, solteiro,
Advogado, portador do RG 040802212010-6, SSP/MA, inscrito no CPF sob o n°
614327183-63, residente e domiciliado na Rua Parnarama, n° 1.378, Bairro Vila Lobão,
Caxias/ MA, CEP: 65605-501.
IMPETRANTE: LEOMAR DE JESUS DOS SANTOS
IMPETRADO: JUÍZO DA 2ª VARA CRIMINAL DA COMARCA DE COROATÁ
PACIENTE: YAGO RODRIGO SALOMÃO DA SILVA
ASSUNTO: AÇÃO PENAL SEM JUSTA CAUSA E COM EXCESSO DE PRAZO
1. DO CABIMENTO
Consoante dispõe a Constituição Federal em seu art. 5.º, inciso LXVIII:
"Conceder-se-á habeas corpus sempre que alguém sofrer ou se achar ameaçado de sofrer
violência ou coação em sua liberdade de locomoção, por ilegalidade ou abuso de
poder".
Nesse mesmo sentido dispõe o art. 647 do CPP. Ou seja, o habeas corpus sempre
será cabível quando houver lesão ou ameaça à liberdade de locomoção, como ocorre no
presente caso em que há ameaça à liberdade do réu, ante a um processo que há
recebimento da denúncia, mas não existem elementos de comprovação da materialidade
delitiva.
Nos termos do art. 654, § 2º do CPP:
"Os juízes e os tribunais têm competência para expedir de ofício
ordem de habeas corpus, quando no curso de processo
verificarem que alguém sofre ou está na iminência de sofrer
coação ilegal".
Portanto, diante da inequívoca lesão ao direito de liberdade do paciente, cabível
o presente habeas corpus.
2. DOS FATOS
Em 12 de março de 2020 o paciente foi acusado de cometer o crime do art. 147,
CP (ameaça), contra Sandy Gabriely Gomes, por meio do Termo Circunstanciado de
Ocorrência nº 064/2020, confeccionado pela Delegacia de Polícia Civil de Coroatá,
estado do Maranhão.
O referido procedimento criminal foi distribuído para a Primeira Vara da
Comarca de Coroatá em 18 de março de 2020.
Ocorre que, em 11 de novembro de 2021, ou seja, quase DOIS ANOS DEPOIS,
o Ministério Público, por meio do promotor da 1ª promotoria, se manifestou declinado
da competência e pedindo para remeter os autos para a 2ª promotoria.
Em 18 de janeiro de 2022, a Juíza da 1ª vara da comarca de Coroatá, Anelise
Nogueira Reginato, prolatou decisão se declarando incompetente e determinado a
remessa dos autos para a 2 ª vara de Coroatá.
Em 03 de fevereiro de 2022 os autos foram distribuídos à 2ª vara.
Apenas em 01 de abril de 2023, ou seja, quase 3 ANOS DEPOIS, o Ministério
de Público requereu “a devolução dos autos à delegacia de polícia, a fim de que a
Autoridade Policial instaure o devido inquérito policial e apure de forma detalhada
todos os fatos”.
Em 07 de fevereiro de 2024 a Ministério Público reiterou o pedido de
providências para a apuração dos fatos narrados.
Em 16 de setembro de 2024 o Juiz da 2ª vara da comarca de Coroatá, DUARTE
HENRIQUE RIBEIRO DE SOUZA, emitiu despacho deferindo requerimento
ministerial para devolução dos autos à delegacia de polícia.
Em 12 de dezembro de 2024 a 2ª vara criminal encaminhou novo ofício à
delegacia de polícia para novas diligências.
Logo, já se vão longos 05 anos de sofrimento ao paciente, que sem prova
alguma de autoria ou materialidade vem sendo vítima de arbitrariedade estatal.
03. DO DIREITO
O Paciente é Servidor Público há mais de 05 anos e advogado há 02 anos,
motivos pelos quais leva uma vida pacata e resguardada, pois são duas profissões que
exigem decoro e idoneidade moral ilibadas.
Contudo, estar sendo alvo de uma ação penal retira sua dignidade e mancha sua
reputação, uma vez que é possível que o processo seja pesquisado e acessado por seus
colegas de profissão, o que vem lhe causando sério constrangimento, pois são graves as
acusações.
Nada é mais constrangedor do que ter sida vida interferida pela polícia e ver
seu nome constar como “investigado” em Inquérito Policial. E para piorar essa
situação, quando a persecução é injusta e descabida.
EXCESSO DE PRAZO. PRINCÍPIO DA RAZOABILIDADE.
AUSÊNCIA DE JUSTA CAUSA. TRANCAMENTO DA
INVESTIGAÇÃO. SÚMULA 83/STJ. AGRAVO IMPROVIDO. 1. A
investigação criminal gera danos à pessoa, suportáveis pelo interesse
da apuração da justa causa, mas não passíveis de eternização. 2.
Tendo sido iniciadas investigações em 2012, e encontrando-se o
inquérito policial, injustificadamente, sem conclusão desde 2017,
porque não realizadas diligências requeridas pela acusação, e tendo
o feito ficado paralisado para manifestação acerca da prorrogação
do prazo para conclusão das diligências desde 06/04/2018, não
revela ilegalidade a decisão do Tribunal local de reconhecer o
excesso de prazo da investigação em junho/2018, já que constatada
clara mora e indevido dano estatal, a justificar a concessão de
habeas corpus para determinar seu trancamento. Incidência da
Súmula 83/STJ. 3. Agravo regimental improvido. (AgRg no AREsp n.
1.453.748/PR, Rel. Ministro Nefi Cordeiro, 6ª T., julgado em 10/3/2020,
DJe 16/3/2020.
A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, acertadamente, está
pacificando o tema, no sentido de que é possível o trancamento do inquérito
policial em virtude do excesso de prazo. Para tanto, se faz necessário analisar o
caso concreto para verificar a existência de situação particular que permita
concluir pela presença de um constrangimento ilegal na demora para a conclusão
do procedimento policial, senão vejamos:
AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. TRANCAMENTO
DE INQUÉRITO POLICIAL. INCABÍVEL. EXCESSO DE PRAZO.
COMPLEXIDADE DO FEITO. AUSÊNCIA DE ILEGALIDADE.
AGRAVO REGIMENTAL IMPROVIDO. 1. O trancamento do
inquérito policial por meio do habeas corpus é medida excepcional,
somente passível de adoção quando houver inequívoca comprovação
da atipicidade da conduta, da incidência de causa de extinção da
punibilidade ou da ausência de indícios de autoria ou de prova
sobre a materialidade. 2. É uníssona a jurisprudência desta Corte
no sentido de que o constrangimento ilegal por excesso de prazo só
pode ser reconhecido quando seja a demora injustificável, impondo-
se adoção de critérios de razoabilidade no exame da ocorrência de
constrangimento ilegal. 3. Em face da complexidade do feito, não se
verifica ilegalidade, pois apontado que o esquema criminoso é amplo e
bem-estruturado, com indícios do protagonismo das pacientes, e
envolvimento de diversos agentes, mais de uma centena de vítimas e um
estruturado esquema de fraudes. 4. Agravo regimental no recurso em
habeas corpus improvido. (AgRg no RHC n. 118.556/MT, Rel. Ministro
Nefi Cordeiro, 6ª T., julgado em 5/3/2020, DJe 9/3/2020) (g.n)
In casu, é cediço que o habeas corpus é uma ação mandamental de natureza
constitucional que ampara em regra a liberdade, e que pode em casos excepcionais
servir de instrumento a fim de declarar mediante análise de provas pré-constituídas a
ausência de justa causa podendo o processo criminal ser trancado.
Logo, a presente impetração, primo ictus oculi, denuncia patente ilegalidade por
parte do Juízo em determinar a continuidade do processo diante da clarividente ausência
de justa causa da denúncia, justa causa esta, por sua peculiaridade que confunde- se com
os requisitos de admissibilidade para instauração de persecução criminal.
Urge explanar: o impetrante não quer discutir perante este Tribunal matéria que
requeira análise de mérito, como ausência de prova para absolvição, tampouco se
interessa em debater questão de fundo que demande ilação/produção probatória própria,
oitiva testemunhal, em análise de cognição exauriente.
Em verdade, o impetrante pretende, em sede de HC de ataque colateral, a partir
do que consta no processo principal, demonstrar e pedir que seja declarado o
constrangimento ilegal da ação penal para que ao final seja arquivado o processo
criminal, pois, além de não haver provas da materialidade ainda se arrasta por um prazo
extremamente excessivo, já que depois de 05 anos sequer foi instaurado Inquérito
Policial.
04. DOS PEDIDOS
a) Seja conhecido o presente Habeas Corpus e concedida a ordem para que seja
trancado o processo em virtude da ausência de justa causa e excesso prazo.
Nestes termos,
Pede deferimento.
Coroatá, 02 janeiro de de 2024.
LEOMAR DE JESUS DOS SANTOS
OAB/MA 29337