29/11/2024, 12:06 CRIMINOLOGIA
CRIMINOLOGIA
Aula 1
INTRODUÇÃO AO ESTUDO
DA CRIMINOLOGIA
Introdução ao Estudo da
Criminologia
Olá, estudante! Nesta videoaula, você será apresentado aos
aspectos introdutórios relacionados à criminologia. Este conteúdo é
importante para a sua prática profissional, já que é imprescindível
conhecer o conceito e o objeto de estudo para, então, compreender
o fenômeno do crime e da criminalidade. Prepare-se para esta
jornada de aprendizagem! Vamos lá!
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Ponto de Partida
Olá, estudante! Receba as boas-vindas à aula de introdução ao
estudo da criminologia. Explorar a criminologia significa desvendar
os mistérios por trás do crime, bem como compreender os
mecanismos sociais e individuais que levam à transgressão da lei.
Além de uma metodologia e objeto próprios, a carga histórica no
âmbito da criminologia é essencial, pois essa ciência social é
moldada por ideologias ao longo dos anos. Escolas criminológicas,
como o iluminismo e a criminologia radical, refletem a interação
constante entre teorias e ideologias.
Para contextualizar o tema central desta aula, vamos, juntos,
analisar as seguintes questões:
Como a criminologia influencia políticas criminais?
Qual o papel da criminologia na construção de políticas
públicas eficazes?
Estamos juntos nesta jornada de aprendizagem. Vamos lá! Bons
estudos!
Vamos Começar!
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Para que um ramo do conhecimento se torne uma ciência
independente, é necessário que ele possua uma metodologia e um
objeto próprios. No entanto, no caso da criminologia, além desses
dois elementos, é crucial considerar uma carga histórica. Isso se
deve à natureza da criminologia como ciência social, sujeita a
influências de questões ideológicas inerentes ao seu
desenvolvimento.
Embora a história da criminologia seja relativamente curta, está
repleta de interpretações que buscaram se alinhar com diversas
perspectivas políticas e sociológicas que surgiram nos últimos 100
anos. Várias escolas criminológicas emergiram nesse período, cada
uma tentando identificar elementos vitais do crime e priorizando
determinados aspectos em detrimento de outros menos influentes.
Assim, a criminologia mantém uma interação constante com a
ideologia, e vice-versa.
É notável que as mudanças no foco das políticas criminais foram
amplamente influenciadas pela escola criminológica predominante
em certos períodos históricos. Enquanto o iluminismo (Escola
Clássica) abordava o crime por meio da lei, o positivismo
confrontava o delinquente.
A Escola de Chicago buscava alterar a realidade social, e o
interacionismo tinha a intenção de revisar as formas de reação ao
comportamento delituoso. Por fim, a criminologia radical propunha
uma transformação de perspectiva social e dos sistemas
econômicos, ao passo que a teoria da racionalidade delinquente
investigava questões relacionadas à redução das oportunidades sob
a ótica do criminoso.
Apesar de a doutrina contemporânea raramente considerar
características físicas como causas preponderantes para a
criminalidade, persistem discursos no imaginário popular, os quais
interferem em decisões políticas que tentam relacionar tratamentos
médicos com políticas de combate ao fenômeno delitivo.
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No entanto, é fundamental destacar que a caracterização de uma
conduta como criminosa vai além da identificação do
comportamento e do autor; é necessário realizar uma investigação
para coletar provas e promover um julgamento justo. O
conhecimento público de um fato delitivo, seja por meio da mídia ou
de outra fonte, é insuficiente para condenar alguém, de maneira que
se torna essencial contar com as instâncias formais de controle
social.
A criminalização envolve uma dose de subjetividade, dependendo
de agentes do Estado para avaliar se uma conduta é censurável. As
instâncias formais, que contemplam desde as casas legislativas até
o poder judiciário, funcionam como filtros que excluem condutas
menos lesivas ao padrão moral majoritário e condenam aquelas que
o ofendem. É crucial enfatizar que o crime é um fenômeno social
presente em todas as civilizações, o qual existe desde o surgimento
da sociedade e persistirá enquanto ela perdurar.
Conceito
A criminologia é uma disciplina voltada para a investigação das
origens do crime e das motivações que levam uma pessoa a
transgredir a lei. Essa abordagem se concentra no exame dessas
causas e razões por meio de métodos empíricos e da observação
de fenômenos sociais, incorporando a avaliação da vítima. Além
disso, a criminologia critica o modelo punitivo existente, sugerindo
aprimoramentos na política criminal do Estado. Apesar da natureza
variável do crime ao longo do tempo, a criminologia acredita que a
essência do delito permanece constante, sendo a conduta mais
prejudicial aos bens jurídicos tutelados em um determinado
contexto. Isso justifica o estudo de aspectos invariáveis e
recorrentes. A criminologia busca como meta a melhoria de todas as
nuances do direito penal.
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A origem da palavra “criminologia” é atribuída a R. Garofalo, embora
tenha sido utilizada anteriormente por P. Topinard. Inicialmente
associada ao estudo do crime, a criminologia evoluiu para englobar
a ciência geral da criminalidade, antes chamada de sociologia
criminal ou antropologia criminal (Nucci, 2021).
Existem diversas interpretações sobre a criminologia, cada uma
contribuindo para um conceito abrangente. Os objetivos principais
são entender profundamente o impacto da infração penal na
sociedade, saber os motivos que levam o Estado a punir
determinados comportamentos, além de garantir que as punições
estejam em conformidade com os direitos humanos fundamentais.
De acordo com Nelson Hungria, a criminologia é o estudo
experimental do fenômeno do crime, com o propósito de pesquisar
sua etiologia e encontrar formas de prevenção e correção. Garcia-
Pablos de Molina a define como uma ciência empírica e
interdisciplinar que aborda o crime, o infrator, a vítima e o controle
social do comportamento delitivo, oferecendo informações válidas
sobre a gênese, dinâmica e principais variáveis do crime (Nucci,
2021).
O direito penal, a criminologia e a política criminal formam os
alicerces das ciências criminais, representando um modelo
integrado de ciência conjunta. A criminologia estuda o crime e o
criminoso para avaliar a necessidade da punição, integrando a
infração penal ao contexto global e considerando suas
consequências para a sociedade.
Desde sua origem, a criminologia abrangeu a antropologia criminal,
a psicologia criminal e a sociologia criminal. A relação entre direito
penal e criminologia é indispensável, pois esta fornece dados
empíricos àquele, contribuindo para o entendimento do conceito
material de crime. A criminologia, priorizando o estudo, instrui o
direito penal, estabelecendo uma relação de necessidade entre
ambas as disciplinas.
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Siga em Frente...
Objeto
A criminologia pode ser caracterizada como uma ciência pré-jurídica,
pois se dedica a compreender fenômenos e conflitos sociais que
buscam integração no direito penal, dando origem a tipos penais
incriminadores e delineando a figura do crime e da pena associada a
ele.
Seu objeto de estudo engloba o ser humano, sua vida social, suas
ações e toda a sua evolução, tanto como espécie quanto como
indivíduo. Desse modo, a criminologia observa (por meio de
disciplinas como biologia, tipologia, psicologia, psiquiatria,
psicanálise, sociologia e ciências morais) e aplica (utilizando
medicina legal, criminalística e ciência penitenciária).
É possível estabelecer um paralelo entre criminologia e medicina,
pois combater uma enfermidade é mais eficaz quando ela ainda está
incubada, visto que é possível prevenir sua manifestação, mas
também agir quando já causou danos, na intenção de interromper e
reparar tais efeitos destrutivos. Da mesma forma, a criminologia
pode atuar tanto no contexto reativo ao delito quanto na prevenção,
eliminando as causas que impulsionam a ocorrência dessa
transgressão. A criminologia, de maneira semelhante à medicina
preventiva e reparatória, busca agir no cenário do crime.
Trata-se de uma disciplina que aborda diversos objetos, como o
crime, o criminoso, a vítima e a pena, podendo contemplar, ainda, a
política criminal. No estudo do crime, a criminologia o analisa como
fenômeno social, requerendo ações punitivas do Estado, e avalia o
repúdio da sociedade a determinados comportamentos, além de
examinar os meios para preveni-los ou repará-los.
No contexto do criminoso, é fundamental compreender o ser
humano em seus padrões naturais, considerando fatores
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sociológicos sem ignorar os etiológicos, relacionados a valores
psíquicos e biológicos. Em relação à vítima, deve-se avaliar a
interação com o agente criminoso, sua conduta anterior ao crime e
seus reflexos na vida comunitária. Quanto à pena, a criminologia
investiga, critica e sugere melhorias no mecanismo punitivo estatal.
Vale ressaltar, ainda, que a criminologia deve se voltar para a
política criminal do Estado, pois dela derivam muitas normas penais
que influenciam as relações na área criminal. Não se trata de um
esforço isolado do penalista a tarefa de avaliar crimes e suas
consequências punitivas; o criminologista deve analisar os tipos
penais incriminadores em vigor para sugerir alterações necessárias
e adaptar o ordenamento jurídico-penal à realidade.
Embora a criminologia seja distinta do direito penal, que valoriza a
realidade e a integra nas normas jurídicas, a colaboração entre
ambas as disciplinas é imprescindível. A criminologia, ao explicar a
realidade, orienta a política criminal para criar normas penais
alinhadas à sociedade. O estudioso do direito penal, por sua vez,
deve entender os postulados criminológicos para interpretar a norma
em consonância com a realidade. A convergência entre criminologia
e direito penal é enriquecedora.
A criminologia não é normativa, pois não cria leis; ao contrário,
busca o substrato fático do crime para informar os poderes públicos.
A transformação dessas informações em normas concretas ocorre
por meio da política criminal. No entanto, a criminologia não deve
abrir mão de verificar se as normas seguiram os informes prestados,
criticando o ordenamento jurídico de maneira empírica e
investigativa.
O conhecimento das causas do delito pela criminologia pode ajudar
a enfrentá-lo de modo racional, procurando reduzir a delinquência
ou, no mínimo, atenuar sua gravidade. Essa compreensão deve ser
abrangente, sem exclusividade quanto a uma teoria criminológica
específica.
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Vamos Exercitar?
Neste momento, vamos, juntos, resolver as questões de
problematização apresentadas no início desta aula, a fim de
compreendermos o tema de forma mais adequada.
Como a criminologia influencia políticas criminais?
Qual o papel da criminologia na construção de políticas
públicas eficazes?
A criminologia desempenha um papel crucial na formação e
transformação das políticas criminais ao longo do tempo. Vale
destacar que as mudanças no foco das políticas criminais estão
fortemente vinculadas às escolas criminológicas predominantes em
diferentes épocas. Cada escola, como o iluminismo, positivismo,
Escola de Chicago e criminologia radical, impactou a abordagem
estatal escolhida para tratar do crime. A criminologia não apenas
reflete as ideias ideológicas do momento, mas também sugere
aprimoramentos na política criminal, ressaltando seu papel influente
na orientação das práticas punitivas do Estado.
Trata-se de uma disciplina que exerce uma função crucial na
construção de políticas públicas eficazes, fornecendo um
entendimento aprofundado das origens do crime e das motivações
criminosas. Assim, a criminologia busca a melhoria de todas as
nuances do direito penal, questionando e criticando o modelo
punitivo existente. Ao incorporar métodos empíricos, observação de
fenômenos sociais e avaliação da vítima, essa ciência concede
informações valiosas sobre a gênese, dinâmica e principais
variáveis do crime. Tal base de conhecimento fundamenta a
formulação de políticas públicas que objetivam prevenção, correção
e tratamento mais eficientes do fenômeno criminal.
Saiba Mais
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Para que você possa aprofundar suas pesquisas sobre o objeto de
estudo da criminologia, faça a leitura do artigo de Bleichvel (2013):
Reflexões sobre a transformação do objeto de estudo da
criminologia.
Referências Bibliográficas
BLEICHVEL, M. A.; LEAL, R. J. Reflexões sobre a transformação do
objeto de estudo da criminologia. Revista Eletrônica de Iniciação
Científica, Itajaí, Centro de Ciências Sociais e Jurídicas da Univali,
v. 4, n. 4, p. 616-632, 2013. Disponível em:
[Link]
iniciacao-cientifica-
ricc/edicoes/Lists/Artigos/Attachments/962/Arquivo%[Link].
Acesso em: 26 jan. 2024.
NUCCI, G. de S. Criminologia. Rio de Janeiro: Forense, 2021.
PENTEADO FILHO, N. S. Manual de criminologia. 13. ed. São
Paulo: Saraiva Jur, 2023.
PRADO, L. R. Criminologia. 4. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2019.
Aula 2
EVOLUÇÃO HISTÓRICA
Evolução Histórica
Olá, estudante! Nesta videoaula, você será apresentado à história
da criminologia, suas principais escolas e teorias. Este conteúdo é
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importante para a sua prática profissional, já que é imprescindível
conhecer as escolas e teorias criminológicas para, então,
compreender a expansão da criminalidade. Prepare-se para esta
jornada de aprendizagem! Vamos lá!
Ponto de Partida
Olá, estudante! Receba as boas-vindas a esta aula sobre a história
da criminologia, suas principais escolas e teorias.
O debate sobre política criminal frequentemente parece restrito aos
líderes eleitos, mas a criminologia fornece a base essencial para a
formulação de leis eficazes. Nesta etapa de aprendizagem,
investigaremos desde as teorias clássicas, que categorizavam
criminosos, até abordagens contemporâneas, que veem o crime
como um fenômeno natural. Analisaremos, também, a influência da
psicologia humana sobre nossas ações diárias e de que maneira
estruturas de personalidade podem exercer impacto sobre a prática
delitiva. Por fim, examinaremos o crime sob as possíveis
perspectivas da vítima, tanto aquelas genuínas quanto as que
simulam a vitimização para obter vantagens.
Para contextualizar o tema central desta aula, vamos, juntos,
analisar as seguintes questões:
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Como a Escola Clássica de Criminologia concebe o crime e a
aplicação da pena? De que modo ela influenciou o surgimento
da criminologia como uma disciplina independente?
Como a transição da Escola Clássica para a Escola Positivista
de Criminologia, liderada por Lombroso, afetou as abordagens
metodológicas, o foco voltado à natureza do crime e a busca
por soluções para o problema da criminalidade?
Estamos juntos nesta jornada de aprendizagem. Vamos lá! Bons
estudos!
Vamos Começar!
Escola Clássica e Lombroso
A Escola Clássica marca o primeiro esforço para explicar o
fenômeno do crime, caracterizando um período na concepção
criminológica que ainda não possuía autonomia científica. A
criminologia como disciplina acadêmica surgiu posteriormente, com
o advento do positivismo, o qual estabeleceu critérios metodológicos
e objetos específicos, transformando os estudos sobre o crime (em
sentido material) em uma ciência independente.
O termo “escola clássica” foi inicialmente cunhado pelo antropólogo
Topinard e tornou-se tema central de uma obra publicada em 1885,
escrita pelo italiano Raffaele Garofalo. Esse período histórico é
permeado pela crença de que o crime não é um fenômeno natural, e
sim jurídico. A ciência criminal, nessa perspectiva, se apoia em dois
princípios: o direito serve para conter o abuso repressivo por parte
das autoridades; e o crime decorre do direito, não sendo uma
circunstância natural. Ou seja, não há um crime intrínseco, mas sim
uma conduta censurada de acordo com a compreensão social
expressa pela lei.
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Cesare Beccaria é um dos principais representantes dessa escola.
Ele argumenta que a sociedade civilizada depende do respeito a um
contrato aceito por todos, a fim de possibilitar a convivência pacífica.
A legitimidade da pena, segundo Beccaria, deriva do
descumprimento desse contrato por parte de um indivíduo
delinquente, sendo sua aplicação uma medida prática para dissuadir
outros de violarem o acordo que sustenta a convivência pacífica.
Posteriormente, emerge a Escola Positivista de Criminologia,
inaugurada por Lombroso em 1876 com a publicação do livro O
homem delinquente. Essa abordagem surge em resposta ao
descontentamento com os resultados obtidos pela Escola Clássica.
Durante o domínio dessa perspectiva, as taxas de criminalidade,
especialmente em relação à reincidência, aumentaram. A Escola
Positivista direcionou sua atenção para a análise da causa e
natureza do crime, afastando-se do enfoque anterior, voltado à
legitimidade e limitação da punição.
A vertente positivista adotou métodos empíricos, utilizando a
experimentação para validar premissas. Assim, tornou-se um meio
de a criminologia obter conhecimento e propor soluções para o
problema da criminalidade. Essa escola se destaca pela busca da
neutralidade do direito, na intenção de remover aspectos morais que
poderiam interferir na análise das causas, consequências do crime e
elaboração de instrumentos legais para conter atividades delitivas.
A teoria de Lombroso se fundamenta na ideia de que, ao observar
características físicas dos delinquentes, seria possível identificar
semelhanças biológicas transmitidas hereditariamente, indicando
uma maior ou menor propensão para a prática de crimes. Tal
abordagem é conhecida como teoria do atavismo, que define o
criminoso atávico como um indivíduo exteriormente reconhecível,
representando um homem menos civilizado que seus
contemporâneos, fato que é considerado um enorme anacronismo.
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Siga em Frente...
Modelos socialistas e Escola de Chicago
No final do século XIX, deu-se origem ao embrião do modelo
socialista de criminologia, o qual desencadeou diversas outras
escolas com um ponto comum: a crença de que o crime é resultante
do meio social e econômico no qual o delinquente foi criado.
A ideia predominante era a de que apenas com o desaparecimento
do sistema capitalista seria possível almejar a erradicação do crime.
Um dos proponentes notáveis dessa escola, W. Bonger, afirmou que
o capitalismo, ao valorizar o lucro, a competição e,
consequentemente, a acumulação de riqueza, induzia sentimentos
prejudiciais à convivência social, como o egoísmo e a hostilidade em
relação a comportamentos solidários.
A sociologia criminal americana, associada a essa corrente, via o
crime como uma conduta desviante inserida no âmbito dos “fatos
sociais”. Dentre suas vertentes, destacou-se a Escola de Chicago,
conhecida por sua teoria ecológica do crime, que, contrariamente ao
que o termo sugere, não se trata de crimes ambientais, e sim de um
fenômeno relacionado a uma área geográfica que cria condições
propícias para a prática criminosa, denominada “hábitats”.
Em sua formulação inicial, Chicago, como a segunda maior cidade
dos Estados Unidos, enfrentou desafios significativos com a
imigração maciça de famílias vindas de várias partes do mundo.
Durante essa época, os guetos foram particularmente afetados pela
criminalidade. Pesquisadores observaram que áreas desassistidas,
desprovidas de serviços estatais, apresentavam altas taxas de
infrações.
Essas regiões, comumente habitadas por imigrantes, tornaram-se
centros não apenas de prática criminal, mas também de transmissão
de métodos criminosos, independentemente da origem dos
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moradores. Em outras palavras, se a cultura criminosa já estivesse
estabelecida entre os residentes, ela seria transmitida para todos os
habitantes daquela região, sem embargo de suas nacionalidades,
consolidando-se como um fenômeno natural nessa área.
No contexto da criminologia nos países socialistas, os primeiros
estudos observaram uma liberdade para os cientistas investigarem o
fenômeno do crime. Entre 1917 e 1930, a ênfase estava no aspecto
psiquiátrico do criminoso. Na segunda fase do modelo comunista-
soviético, o Estado abandonou a criminologia, tomando apenas o
direito penal como instrumento de terror da política stalinista. Na
terceira e última fase, após a morte de Joseph Stalin, os estudos se
voltaram contra o modelo econômico capitalista, o qual é
considerado pelos pesquisadores socialistas como a origem da
cobiça, do individualismo, além de ser responsável pela produção de
miséria, marginalização dos excluídos e busca desenfreada pelo
lucro.
Criminologia crítica e outras
teorias
A partir de agora, trataremos da criminologia crítica, que apresenta
uma inovação central ao deixar de direcionar o foco ao criminoso ou
ao ato por ele praticado para analisar o sistema de controle em
relação à prática criminosa. Esse sistema é entendido como um
conjunto de agências ou instâncias responsáveis pela produção
normativa e julgamento do fato criminoso.
Nessa abordagem, a questão não é o que leva alguém a cometer
um crime, mas por que algumas pessoas são consideradas
criminosas, de que modo esse rótulo pode influenciá-las e qual a
legitimidade do Estado para definir o que é crime. Os adeptos dessa
corrente concluem que o crime seria uma conduta censurada pelos
grupos dominantes no poder, os quais, para manterem sua posição,
criminalizam condutas que ameaçam esse domínio.
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Nesse panorama, o direito penal estaria a serviço dos poderosos,
cujos valores não coincidem com a moral da sociedade em geral.
Assim, embora a sociedade seja plural, o direito impõe um padrão
único estabelecido pelos detentores do poder.
A abordagem do etiquetamento, ou labeling approach, sustenta a
noção de que o desvio de conduta não é uma conduta criminosa em
si, mas uma interpretação relativa baseada em questões morais
predominantes em determinado período e local. As instâncias
formais de controle, como órgãos de investigação, judiciário e
parlamento, criam rótulos entre pessoas socialmente desejadas e
não desejadas. Ao ser rotulada como não desejada, a pessoa pode
praticar atos que sejam considerados como crimes, confirmando a
categorização a que foi submetida. Esse etiquetamento exclui os
não desejados e, ao mesmo tempo, contribui para que esses
indivíduos continuem praticando crimes, justificando o rótulo que
lhes foi imposto.
Na criminologia radical, o direito, como forma de controle social, é
resultado de uma luta histórica entre classes sociais, representando
os valores dos grupos sociais vencedores. Essa estrutura não foi
elaborada para pacificar, mas opera como um instrumento de
controle dos mais fortes sobre os mais fracos.
Portanto, na teoria e na prática, um ato só seria considerado crime
se fosse praticado por indivíduos de classes mais baixas ou contra
os poderosos. Em contrapartida, se os detentores do poder
causarem danos aos mais pobres, essas ações serão consideradas
atípicas (sem previsão legal). Para a criminologia radical, combater
a criminalidade em uma sociedade capitalista é inviável, pois é o
próprio capitalismo que a provoca. Nesse sentido, a sociedade deve
repensar seus conceitos, como a acumulação de riqueza e a busca
pelo lucro, em vez de se concentrar na ressocialização do
delinquente.
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A crítica à criminologia radical aponta que os valores protegidos pelo
ordenamento nem sempre estão ligados à elite ou em favor de
classes historicamente privilegiadas. No Brasil, por exemplo, valores
conservadores são mais evidentes entre as classes mais humildes,
influenciadas por criações familiares rígidas ou questões religiosas
radicais.
Além disso, a criminalização de uma conduta não é relativista, mas
busca viabilizar a convivência entre todos, garantindo a máxima
liberdade individual com o menor sacrifício possível de sanções. A
crítica também rejeita a associação direta entre pobreza e
criminalidade, enfatizando que crimes cometidos pela burguesia
também ocorrem, com previsão legal e impunidade proporcional.
A abordagem pós-modernista, liderada por Michel Foucault, ressalta
que as instituições sociais e o discurso por elas transmitido,
incluindo conceitos, objetivos de vida e padrões morais, exercem
controle sobre os indivíduos. O poder, segundo Foucault, não está
concentrado em um único sujeito ou classe, e sim disperso,
controlando a todos.
A teoria da escolha racional alega que o crime resulta de uma
oportunidade percebida pelo delinquente ao avaliar as vantagens e
desvantagens de um ato criminoso. O foco, então, deve estar
voltado à redução das oportunidades que viabilizam a atividade
criminosa, aumentando o policiamento em áreas de maior incidência
de crimes e conscientizando a comunidade sobre os valores do
ordenamento. A legislação brasileira foi influenciada por essa teoria,
fortalecendo a proteção de grupos mais vulneráveis, como
mulheres, idosos e crianças.
Os teóricos pós-modernistas, como Michel Foucault, destacam que
a realidade que nos cerca não pode ser compreendida de forma
neutra e imparcial, pois nossa percepção é influenciada pela
linguagem. O pós-modernismo preocupa-se com o método de
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absorção da realidade pela linguagem e se opõe a discursos
tendenciosos.
O realismo de esquerda, desenvolvido na década de 1970, sugere
uma teoria que envolve o agente, a vítima, o controle formal e o
controle informal, sublinhando a importância da análise empírica no
entendimento do fenômeno criminoso. Por fim, a teoria da escolha
racional ressalta que o crime é o exercício de uma oportunidade
percebida pelo delinquente, e a atenção deve ser direcionada à
redução dessas oportunidades, a fim de coibir a prática delitiva.
Essa abordagem influenciou a legislação brasileira, reforçando a
proteção de grupos mais vulneráveis.
Vamos Exercitar?
Neste momento, vamos, juntos, resolver as questões de
problematização apresentadas no início desta aula, a fim de
compreendermos o tema de forma mais adequada.
Como a Escola Clássica de Criminologia concebe o crime e a
aplicação da pena? De que modo ela influenciou o surgimento
da criminologia como uma disciplina independente?
Como a transição da Escola Clássica para a Escola Positivista
de Criminologia, liderada por Lombroso, afetou as abordagens
metodológicas, o foco voltado à natureza do crime e a busca
por soluções para o problema da criminalidade?
A Escola Clássica, representada por Cesare Beccaria, concebe
o crime como um fenômeno jurídico, não natural,
fundamentando-se na crença de que o direito serve para conter
abusos repressivos e que o crime decorre do descumprimento
de um contrato social. A aplicação da pena, para Beccaria, é
legítima quando pretende dissuadir outros de violarem o
contrato que sustenta a convivência pacífica. Essa abordagem
influenciou o surgimento da criminologia ao estabelecer as
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bases para o estudo sistemático do crime como objeto de
análise científica.
Transição para a Escola Positivista
A transição da Escola Clássica para a Escola Positivista, liderada
por Lombroso, afetou as abordagens metodológicas ao adotar
métodos empíricos e a experimentação para analisar a causa e
natureza do crime. Enquanto a Escola Clássica se concentrava na
legitimidade e limitação da punição, a vertente positivista afastou-se
desses aspectos, direcionando a atenção para o entendimento das
origens biológicas e hereditárias do comportamento criminoso. Essa
mudança metodológica teve a intenção de oferecer conhecimento
científico para solucionar o problema da criminalidade, apartando-se
do enfoque moral anterior.
Saiba Mais
Para que você possa aprofundar suas pesquisas sobre a história da
criminologia, faça a leitura do artigo de Ribeiro (2017): Criminologia.
Referências Bibliográficas
NUCCI, G. de S. Criminologia. Rio de Janeiro: Forense, 2021.
PENTEADO FILHO, N. S. Manual de criminologia. 13. ed. São
Paulo: Saraiva Jur, 2023.
PRADO, L. R. Criminologia. 4. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2019.
RIBEIRO, M. dos S. Criminologia. [Link], 14 jul. 2017.
Disponível em:
[Link]
Acesso em: 22 jan. 2024.
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Aula 3
CRIMINOLOGIA CLÍNICA
Criminologia Clínica
Olá, estudante! Nesta videoaula, você será apresentado a uma das
áreas de estudo da criminologia: a clínica. Este conteúdo é
importante para a sua prática profissional, pois é fundamental
conhecer esse campo de estudo quando se deseja obter uma
melhor interpretação do crime e do criminoso. Prepare-se para esta
jornada de aprendizagem! Vamos lá!
Ponto de Partida
Olá, estudante! Receba as boas-vindas a esta aula sobre
criminologia clínica. No decurso desta etapa de aprendizagem,
examinaremos a criminologia clínica e os impactos da personalidade
do indivíduo na prática do crime. Para deixar claro, nesse contexto,
não faremos pré-julgamentos, mas exploraremos as características
psicológicas que podem contribuir para a ocorrência de crimes
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específicos. Vamos lá?
Para contextualizar o tema central desta aula, vamos, juntos,
analisar as seguintes questões:
Como a criminologia clínica se distingue da criminologia geral?
De que maneira ela utiliza o conhecimento teórico para abordar
casos práticos com o propósito de reabilitar ou prevenir a
reincidência criminal?
Diante das diferentes abordagens bioantropológicas modernas,
como endocrinologia e genética, e das teorias psicológicas,
como psicodinâmica e psicanálise, qual é a importância da
interdisciplinaridade entre psicologia, psiquiatria e criminologia
para obter uma compreensão mais abrangente do
comportamento criminoso, destacando a complexidade dos
fatores envolvidos e a necessidade de avaliações
individualizadas?
Estamos juntos nesta jornada de aprendizagem. Vamos lá! Bons
estudos!
Vamos Começar!
Criminologia clínica: conceito e reflexos
jurídicos
A categorização do objeto científico entre duas ou mais espécies
exerce a função de estabelecer uma ordem entre os semelhantes e,
ao mesmo tempo, criar padrões de comparação em meio aos
desiguais. No âmbito da criminologia, essa distinção não é exceção.
Vamos, então, diferenciar os dois principais gêneros dentro desse
campo de conhecimento: a criminologia geral e a criminologia
clínica.
A criminologia geral se destaca por moldar os elementos de estudos
abstratos e científicos por meio da sistematização, comparação e
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classificação das ciências criminais relacionadas ao objeto de
pesquisa, incluindo o criminoso, a vítima, o controle social e a
criminalidade. Por outro lado, a criminologia clínica é encarregada
de aplicar os conhecimentos desenvolvidos no plano teórico,
integrando-os ao plano prático, a fim de reabilitar ou prevenir a
ocorrência/reincidência do crime por parte do delinquente.
Podemos afirmar, portanto, que a criminologia clínica é a ciência que
instrumentaliza o conhecimento proveniente de diversas áreas na
intenção de proporcionar um tratamento adequado ao criminoso.
Com base no padrão de comportamento adotado, o exame clínico é
capaz de indicar o grau de periculosidade do agente (diagnóstico),
as consequências sociais dessa característica (prognóstico) e o
modelo de acompanhamento “psic-ológico”, “psiqui-átrico” ou
“psiqui-analítico” mais apropriado para reduzir a probabilidade de
ocorrência de eventos criminosos futuros (reincidência). Dessa
forma, a criminologia clínica avalia comportamentos anormais, ou
seja, aqueles que se desviam de um padrão predeterminado, a partir
do exame criminológico, considerando os diversos fatores internos e
externos que contribuíram para a consumação da conduta
criminosa.
É relevante observar que o destaque para o prefixo (psi+que) nos
adjetivos “psicológico”, “psiquiátrico” e “psicanalítico” feito
anteriormente foi intencional. Isso se deve ao fato de que esses
morfemas, em grego, significam “estudo da alma”. Cada uma
dessas ciências estuda a alma do indivíduo sob a dimensão
imaterial do ser, ou seja, da criatura que manifesta uma ação.
O exame criminológico utiliza esses estudos para avaliar o indivíduo
com base em características comportamentais específicas,
extraindo a verdade sobre a alma do delinquente. Assim, podemos
definir o exame criminológico como um procedimento pericial que
analisa a personalidade do agente na intenção de medir seu
respectivo grau de periculosidade em situações que despertam o
interesse do direito penal. Esse procedimento examina a
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personalidade do autor do crime, sua capacidade de compreensão
da realidade, grau de periculosidade, sensibilidade à pena e a
possibilidade de correção concreta.
É importante notar que não se trata de submeter um delinquente a
um exame de insanidade. Na verdade, o objetivo do exame
criminológico não é aplicar uma pena ou medida de segurança, e
sim oferecer bases científicas para a formulação de uma
probabilidade de comportamento criminoso futuro (reincidência).
Quanto à previsão desses exames em nosso ordenamento,
anteriormente havia um dispositivo na Lei de Execução Penal para a
progressão de regime. No entanto, em 2003, o legislador excluiu
esse critério subjetivo como condição para a mudança do regime de
cumprimento de pena, mantendo apenas critérios objetivos (tempo
cumprido) e o bom comportamento durante a execução.
Por outro lado, o Supremo Tribunal Federal (STF) estabeleceu a
súmula vinculante nº 26, que reintroduziu o exame criminológico
para a progressão do condenado em casos de crimes hediondos.
Desse modo, permite-se ao juiz competente avaliar a realização do
exame, desde que essa exigência seja devidamente fundamentada
na decisão.
Siga em Frente...
Análise biológica e social
Voltemos à exploração dos estudos sobre a expressão da
personalidade, que se desenvolve na essência do agente. É
amplamente conhecido o fato de que as teorias que direcionaram o
foco às características orgânicas do infrator foram completamente
excluídas das ciências criminais logo após a Segunda Guerra
Mundial. Tais teorias foram acusadas de contribuir de maneira
decisiva com a difusão de políticas racistas do início do século, as
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quais desencadearam a morte de milhões de pessoas que se
enquadravam em um perfil biológico indesejado pelos governos ou
pela maioria dominante.
O Holocausto, um plano de eliminação dos judeus, foi a
concretização de uma política baseada na falsa superioridade de
uma raça sobre outra. O governo nazista pressupunha que os
judeus eram moral, intelectual e fisicamente inferiores aos arianos
por questões exclusivamente biológicas. Assim, o Estado (Terceiro
Reich) assumiu o papel, inicialmente atribuído à natureza, de
selecionar, por meio de força e genocídio, a raça mais forte (ou
aquela considerada assim), com o objetivo de criar um povo mais
preparado para desafios naturais, sociais e econômicos.
No entanto, essa visão distorcida culminou em uma concepção
evolucionista, porém distorcida, já que a suposta superioridade
alemã só existia no âmbito da maioria política, enquanto os judeus
notoriamente formavam uma comunidade científica, artística e
filosófica tão robusta quanto qualquer outra. Personalidades como
Albert Einstein, Sigmund Freud, Steven Spielberg e diversos outros
vencedores de prêmios Nobel, Oscar e Olimpíadas eram judeus.
Não se nega que a antropologia e as ciências “psi” tenham
colaborado com a disseminação de políticas racistas e
escravocratas. Contudo, é crucial ressaltar que nenhum desses
ramos do conhecimento foi desenvolvido para justificar a hegemonia
de uma etnia sobre outra e, portanto, não merece ser abolido.
Houve uma grave distorção de seus ensinamentos para fins
pessoais por líderes do passado, que se aproveitavam de meias-
verdades para atingir objetivos inteiramente pessoais, como ocorreu
com o nazismo, o fascismo e o stalinismo.
A abolição de um conhecimento é uma atitude autoritária e típica de
governos totalitários. Assim, afirmamos que os estudos científicos
existem para nos ajudar a compreender a natureza das coisas e
controlá-las em nosso favor. As ciências da personalidade, do
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homem e da humanidade têm esse papel, embora tenham sido mal
aproveitadas em tempos remotos.
Logo, os exemplos históricos mencionados não devem ser utilizados
como estímulo à censura, e sim como um alerta para que não nos
deixemos seduzir por instrumentos de controle sustentados
principalmente por preconceito, frustrações e ganâncias pessoais,
disfarçados sob o pretexto de atender a interesses sociais e
científicos.
O ser humano não é o mero resultado do meio em que vive, mas
também não está acima dele. Existe uma interação entre o que
ocorre no campo psíquico e a realidade externa que o cerca. Somos
moldados pelo que vivenciamos, porém o que vivemos também é
resultado das nossas escolhas pessoais dentro de um conjunto de
opções, a partir do qual poderíamos ter tomado decisões diferentes.
Nesse sentido, é correto alegar que as condições externas podem
contribuir para que um grupo de pessoas, com uma identidade
compartilhada, torne-se mais vulnerável socialmente à prática de um
crime. Ao mesmo tempo, cada pessoa pode carregar uma
característica, decorrente de uma escolha própria, que a torne
propensa a manifestar um comportamento frente à situação
criminalizante.
Com isso, chegamos a uma conclusão crucial! O estudo da psique
humana é válido quando aplicamos os conhecimentos dessas
ciências na avaliação de casos particulares. Devemos analisar cada
pessoa individualmente para adotar soluções adequadas. De forma
alguma podemos generalizar a característica de um ser como se
fosse algo compartilhado por todas as outras pessoas que tenham
relação com ele. A interação entre a vulnerabilidade social e a
fragilidade pessoal é um fenômeno que cabe à psicologia,
psicanálise e psiquiatria explicar e fornecer elementos aos
criminólogos, com o objetivo de produzir soluções apropriadas para
os casos particulares. Isso não pode ser ignorado.
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Concordando parcialmente com a criminologia crítica, podemos
afirmar que a conduta criminosa é o reflexo de uma decisão pessoal,
apreendida entre várias outras no meio social, que só se realiza
diante da decisão própria do delinquente de respeitar a norma
elaborada por uma moral dominante, a qual censura o
comportamento adotado por ele. Por qual motivo, afinal, o infrator
pode desrespeitar a norma?
O estudo sobre as características individuais do delinquente sempre
recebeu, por parte dos cientistas, um tratamento especial na
investigação de causas relativas ao cometimento do crime. Nesse
cenário, a teoria bioantropológica surgiu como um ramo da ciência
cuja intenção é analisar elementos ou processos inerentes ao
organismo humano que favorecem a prática de determinadas
condutas, independentemente do ambiente em que o indivíduo
esteja inserido. Trata-se, portanto, de um dado que orientará a
conduta humana, mais do que um mero determinismo, já que pela
constituição do corpo será possível detectar uma predisposição do
agente (e não uma certeza) à adoção de uma atitude criminosa.
Não se pode confundir a teoria bioantropológica moderna com as
ideias que Lombroso defendia. De acordo com o estudioso italiano,
o criminoso seria provido de características externas que
sinalizariam a inferioridade biológica, acompanhadas de um
comportamento social anormal, pelo que suas ações seriam
incompatíveis com a civilização contemporânea. Atualmente,
existem dois ramos que investigam características biológicas
capazes de influenciar (e não determinar) um comportamento
violento/criminoso. Vamos conhecê-los?
Endocrinologia: estuda a relação entre o funcionamento
anormal de uma glândula hormonal específica e os
comportamentos do indivíduo. Esse funcionamento irregular
não é transmitido por fatores hereditários, e os hormônios não
definem diretamente o cometimento do crime, ainda que
possam exercer influência sobre esse aspecto. A anomalia
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pode ser tratada com medicamentos e, em alguns casos,
levada à cura.
Genética e hereditariedade: o atavismo voltou a ser tema de
discussão e pesquisa com o desenvolvimento do Projeto
Genoma. Concluiu-se que existe uma frequência maior entre
criminosos que compartilham da mesma ascendência do que
entre aqueles sem histórico familiar (biológico) no que diz
respeito à prática de certos crimes. Pesquisas foram realizadas
com famílias criminosas, gêmeos e adotados, como também
com indivíduos afetados por malformação cromossômica.
Ressalta-se que as modernas teorias bioantropológicas
abandonaram a ideia de uma relação definitiva entre um elemento
genético e a prática do ilícito. Segundo essas teorias, não existe um
vínculo de causalidade necessário entre a anomalia e o crime. A
reunião de fatores psicológicos, genéticos e fisiológicos pode
colaborar para uma reação delitiva dependendo do ambiente em
que a pessoa se desenvolveu.
Agora, vamos investigar as teorias que se debruçam sobre a
psicologia humana em sentido amplo. De acordo com a doutrina, as
três principais vertentes da psique abandonaram a ideia de um
elemento orgânico como fundamental para o fenômeno do crime,
diferenciando-se, assim, das teorias bioantropológicas modernas.
Além disso, as teorias psicológicas atestam que o modo de criação
cooperará com a formação de características mais propensas ou
não à iniciativa criminosa.
De acordo com esse entendimento, o crime não resulta de um
elemento físico presente no corpo, mas de uma característica
psicológica (em sentido amplo) responsável por controlar os
impulsos de condutas antissociais.
Os autores que seguem essas teorias afirmam que o homem, assim
como os demais animais, nasce moralmente neutro e dotado de
reações naturalmente selvagens diante de suas relações sociais.
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Isso representa uma predisposição comum a qualquer
comportamento, inclusive de violência. Não significa, porém, que o
homem seja o lobo do próprio homem, como afirmava Thomas
Hobbes, e sim que o homem, no estado selvagem, é como o lobo na
busca pela sobrevivência, isto é, neutro e amoral.
Teorias psicológicas
A capacidade humana de raciocinar e a necessidade de interação
levaram à criação de regras sociais para facilitar a convivência
pacífica entre indivíduos com valores e objetivos de vida distintos.
As normas morais e jurídicas representam a cultura civilizatória que
promove essa convivência. Elas são transmitidas pelo Estado,
família, amigos e ao longo das gerações em diversos contextos
territoriais.
No entanto, é evidente que algumas pessoas assimilam ou aceitam
essas normas com mais facilidade do que outras. A psicologia
desempenha um papel crucial ao investigar os processos de
aprendizagem ou suas deficiências, que podem determinar a
transformação de um indivíduo selvagem em alguém socialmente
adaptado ou, ao contrário, rebelde.
As explicações sobre o crime são desenvolvidas com uma relativa
facilidade nas escolas de psicologia, cada uma partindo de um
marco decisivo diferente. Algumas dessas teorias psicológicas são:
Psicodinâmica: considera o crime como resultado externo de
um conflito interno no indivíduo, permitindo que impulsos
naturais prevaleçam sobre modelos de resistência adquiridos,
principalmente durante a infância. A consciência (ou superego)
do infrator se mostra incapaz de impedir a vontade de
transgredir a norma.
Modelo psicanalítico: examina o crime tanto pela perspectiva
do delinquente quanto pela ótica da sociedade punitiva, que
cria e busca punir o crime. Essa teoria ressalta a importância
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da linguagem e dos símbolos, como o complexo de Édipo,
complexo de inferioridade, vontade de poder e libido.
Revelação do inconsciente: formada por instintos, repressões
e experiências traumáticas desde a vida uterina. De acordo
com essa perspectiva, a personalidade é moldada por três
instâncias (id, ego e superego), cada uma agindo de maneira
diferente. O id é irracional e inconsciente, guiado pelo princípio
do prazer. O superego atua como a “consciência”, controlando
os impulsos do id, enquanto o ego equilibra o hedonismo do id
com as exigências morais do superego.
Teoria do crime: argumenta que o homem nasce associal e
que o crime resulta de um processo de civilização malsucedido,
no qual o superego perde o controle sobre o ego, deixando o id
livre para agir conforme o prazer imediato. Nesse caso, a
personalidade seria moldada durante a infância.
Pena numa sociedade punitiva de acordo com a teoria
psicanalítica: busca legitimar a ordem para garantir a paz,
reforçando o ego com informações para cumprir os deveres
dirigidos pelo superego. Funciona como um método de
conscientização coletiva e identificação da sociedade com a
vítima ou o infrator.
Psiquiatria e psicologia criminal: a psicologia criminal aborda
a personalidade do indivíduo em relação a um padrão normal,
considerando elementos como fatores biológicos, ambiente e
aspectos sociais. Por sua vez, a psiquiatria criminal avalia
doenças mentais, demências, esquizofrenia e crises, como
transtornos da personalidade.
Psicopatologia: estuda e investiga a causa do adoecimento da
saúde mental, com atenção especialmente voltada às
estruturas clínicas de neurose, psicose e perversão. Cada
estrutura apresenta elementos e sintomas específicos, os quais
se refletem na personalidade do indivíduo.
Neurose: caracterizada por uma reação excessiva a uma
determinada experiência. Não se trata de loucura, e sim de
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uma conduta de vida desproporcional diante de uma situação
específica. Na delinquência neurótica, o indivíduo tem
consciência da realidade e está ciente de uma futura punição.
Perversão: representa uma estrutura clínica em que o
indivíduo transgride a norma de acordo com sua própria
vontade, marcada por falta de sensibilidade, egoísmo e
superestima de si mesmo. Pode gerar o estado de psicopatia,
caracterizado por insensibilidade extrema e transtorno de
personalidade antissocial.
Ao examinar as teorias psicológicas relacionadas ao crime,
observamos a interação complexa entre fatores biológicos,
psicológicos e sociais na formação da personalidade e no
comportamento criminoso. As diversas perspectivas, que englobam
desde a psicodinâmica até a psicanálise, oferecem insights sobre as
raízes do crime, destacando conflitos internos, influências da
infância e elementos do inconsciente.
A abordagem interdisciplinar entre psicologia, psiquiatria e
criminologia amplia a compreensão, contemplando aspectos
genéticos e ambientais. É crucial enfatizar a necessidade de uma
análise individualizada, a fim de evitar generalizações simplistas. O
estudo das estruturas clínicas pela psicopatologia sublinha as
complexidades do comportamento humano, reforçando a
importância de avaliações personalizadas para encontrar soluções
apropriadas.
Ao contemplar as teorias psicológicas sobre o crime, reconhecemos
a necessidade de uma metodologia holística que considere a
multiplicidade de fatores envolvidos, visando a uma compreensão
mais profunda e justa do fenômeno criminal.
Vamos Exercitar?
Neste momento, vamos, juntos, resolver as questões de
problematização apresentadas no início desta aula, a fim de
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compreendermos o tema de forma mais adequada.
Como a criminologia clínica se distingue da criminologia geral?
De que maneira ela utiliza o conhecimento teórico para abordar
casos práticos com o propósito de reabilitar ou prevenir a
reincidência criminal?
Diante das diferentes abordagens bioantropológicas modernas,
como endocrinologia e genética, e das teorias psicológicas,
como psicodinâmica e psicanálise, qual é a importância da
interdisciplinaridade entre psicologia, psiquiatria e criminologia
para obter uma compreensão mais abrangente do
comportamento criminoso, destacando a complexidade dos
fatores envolvidos e a necessidade de avaliações
individualizadas?
A criminologia clínica se diferencia da criminologia geral pelo fato de
se concentrar na aplicação prática do conhecimento teórico com a
intenção de reabilitar ou prevenir a reincidência criminal. Enquanto a
criminologia geral estuda elementos abstratos e científicos, a clínica
utiliza esses conhecimentos de maneira mais direta, integrando
teoria e prática para tratar criminosos de forma individual. Para
tanto, avaliam-se a periculosidade e o prognóstico do infrator, e
determinam-se métodos de acompanhamento psicológico,
psiquiátrico ou psicanalítico.
Quanto às abordagens bioantropológicas e teorias psicológicas
modernas, a interdisciplinaridade entre psicologia, psiquiatria e
criminologia é fundamental para a compreensão do comportamento
criminoso de modo abrangente. Essa abordagem reconhece a
complexidade dos fatores vinculados a essa questão, como
elementos biológicos, psicológicos e sociais. Enfatiza-se, assim, a
importância de avaliações personalizadas, a fim de evitar
generalizações. Vale ressaltar, ainda, que a interação entre essas
disciplinas oferece uma visão mais profunda e justa do fenômeno
criminal.
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Saiba Mais
Para que você possa aprofundar suas pesquisas sobre as teorias
bioantropológicas modernas, faça a leitura do artigo de Mendes e
Ibraim (2017): A criminologia etiológica contemporânea: visão
psicossocial do desenvolvimento para o crime versus a
predisposição genética para a delinquência.
Referências Bibliográficas
MENDES, D. J. D.; IBRAIM, J. V. A criminologia etiológica
contemporânea: visão psicossocial do desenvolvimento para o crime
versus a predisposição genética para a delinquência. Revista
Científica da FASETE, v. 11, n. 12, p. 111-124, 2017. Disponível em:
[Link]
nologia_etiologica_contemporanea.pdf. Acesso em: 22 jan. 2024.
NUCCI, G. de S. Criminologia. Rio de Janeiro: Forense, 2021.
[Minha Biblioteca]
PENTEADO FILHO, N. S. Manual de criminologia. 13. ed. São
Paulo: Saraiva Jur, 2023. [Minha Biblioteca]
PRADO, L. R. Criminologia. 4. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2019.
Aula 4
VITIMOLOGIA
Vitimologia
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Olá, estudante! Nesta videoaula, vamos conhecer uma importante
área das ciências criminais: a vitimologia. Este conteúdo é
importante para que você compreenda as diferentes classificações
de vítimas, como também o processo de vitimização. Prepare-se
para esta jornada de aprendizagem! Vamos lá!
Ponto de Partida
Olá, estudante! Receba as boas-vindas a esta aula sobre
vitimologia. Juntos, vamos analisar as particularidades do crime sob
a ótica daquele que é mais impactado por sua execução. Você
consegue identificar quem é esse sujeito? A resposta é simples: a
vítima! Nesta etapa de aprendizagem, examinaremos não apenas as
vítimas comuns, mas também aquelas que assumem o papel de
vítimas com o intuito de obter vantagens. Também abordaremos
uma nova dimensão da criminologia, dando destaque ao estudo da
condição da vítima no âmbito criminal e social. Para tanto,
levaremos em consideração o papel do Estado e da comunidade na
qual a vítima desenvolve sua identidade.
Para contextualizar o tema central desta aula, vamos, juntos,
analisar os seguintes questionamentos:
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Como a vitimologia, enquanto ramo da ciência criminal, ganha
notoriedade na análise do fenômeno criminoso sob a
perspectiva da vítima, considerando sua evolução histórica e a
incorporação de conhecimentos da psicologia e psiquiatria?
Explique a importância da classificação de vítimas como
inocentes, provocadoras e agressoras na compreensão das
complexas interações entre indivíduos em situações delitivas,
ressaltando como essa análise contribui para a formulação de
uma visão mais abrangente do fenômeno criminal e para o
aprimoramento das abordagens jurídicas e sociais.
Estamos juntos nesta jornada de aprendizagem. Vamos lá! Bons
estudos!
Vamos Começar!
As primeiras abordagens acadêmicas destinadas a investigar o
fenômeno criminológico concentraram-se quase exclusivamente no
crime e no infrator, negligenciando a vítima como um elemento
essencial dessa dinâmica criminosa e como a parte mais afetada
por suas consequências. No entanto, a prática no âmbito do direito
penal enfatizou a importância de examinar os efeitos de um ato
delitivo também no que diz respeito às pessoas contra as quais a
ação do delinquente é direcionada, seja intencionalmente (como no
caso de homicídio doloso) ou por acaso (como em um acidente
automobilístico).
Os estudos sobre as vítimas tiveram início em 1901, mas apenas
adquiriram um conteúdo sistemático a partir de 1940. Na década de
1970, a pesquisa nessa área recebeu um novo estímulo com o
desenvolvimento de estudos por criminologistas que identificaram
padrões comportamentais semelhantes entre as vítimas, com base
em conhecimentos das disciplinas de psicologia e psiquiatria.
Assim, a vitimologia pode ser definida como um ramo da ciência
criminal encarregado de examinar o crime sob a ótica da vítima,
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fazendo uso de saberes da biologia e da sociologia, conforme
proposto pelo autor Henri Ellenberger, citado por Penteado Filho
(2023).
Classificação das vítimas
Vamos conhecer a classificação das vítimas? Para que este estudo
não se torne tedioso, apresentaremos apenas um modelo de
categorização das vítimas. Recomendo, caso você se interesse pelo
tema, que consulte as referências desta aula e explore outras
classificações relacionadas aos ofendidos em atividades criminosas.
Confira, a seguir, algumas categorias:
Vítima inocente: refere-se à vítima que não desempenhou
qualquer papel na ocorrência do crime. Nesse caso, a pessoa é
genuinamente atingida pela atividade delitiva, sem que tenha
tomado qualquer ação que pudesse colaborar com a infração.
Como exemplos, podemos citar uma circunstância na qual uma
mulher bonita passeia tranquilamente no parque e é abordada
por um criminoso em uma tentativa de estupro, ou quando um
indivíduo é assaltado na rua ao voltar para casa portando
celular e carteira. É importante notar que, muitas vezes, somos
totalmente vítimas da situação, mesmo havendo sugestões de
que poderíamos ter adotado uma postura diferente para evitar
o crime. Isso é o que chamamos de vitimização terciária, um
conceito que estudaremos mais a fundo no final desta aula. Por
ora, vamos nos concentrar na ideia de que, objetivamente, a
vítima inocente não contribui para a consumação dos fatos.
Vítima provocadora: é aquela que instiga, de maneira
intencional ou imprudente, o ânimo do agente. Isso pode
ocorrer, por exemplo, no crime de corrupção entre agente
público e particular, quando este último sugere o pagamento de
propina ao representante do Estado, que, por sua vez, a aceita
imediatamente. Outro exemplo seria uma rixa entre torcidas de
futebol. Para que você entenda melhor, considere o contexto a
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seguir: um empresário que sonega tributos é abordado por um
fiscal da Receita quando este finaliza a verificação do livro de
lançamento de impostos. Ao perceber que o caso pode resultar
em um processo criminal, o fiscal propõe o pagamento de
propina, e o empresário aceita o movimento de corrupção em
troca do sigilo do crime.
Vítima agressora, simuladora ou imaginária: cria uma
situação para se beneficiar injustamente da ação criminosa
realizada por outra pessoa e direcionada contra ela mesma.
Vale ressaltar que, se a situação for devidamente investigada,
seu comportamento de pseudovítima ou vítima dissimulada
pode absolver o ato danoso, impedindo a punição do agente.
Um exemplo seria um caso de legítima defesa em que alguém
acerta um tiro e mata uma pessoa após ter sido injustamente
alvejado por ela. Para obter um entendimento mais sólido,
suponha que você esteja descansando em um hotel e, de
repente, um indivíduo com uma arma apareça para atacá-lo.
Por sorte, um segurança testemunha a cena e, antes que você
seja atingido, saca um revólver e acerta um tiro no agressor em
potencial, que morre imediatamente. Há um homicídio; a vida é
violada. Contudo, a pessoa que invadiu o hotel representava
um risco injusto à segurança dos demais presentes.
Em síntese, a análise das diversas categorias de vítimas no
contexto criminológico revela a complexidade das interações entre
indivíduos em situações delitivas. A assimilação das nuances que
envolvem as vítimas, seja na sua inocência, provocação ou mesmo
na criação de cenários, contribui para uma visão mais abrangente
do fenômeno criminal.
Ao explorar essas distintas perspectivas, torna-se possível não
apenas entender o impacto dos atos criminosos sobre os diferentes
tipos de vítimas, mas também questionar e aprimorar as abordagens
jurídicas e sociais na busca por uma justiça mais equitativa e eficaz.
A reflexão sobre o papel e a dinâmica das vítimas no contexto
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criminal é crucial para desenvolver estratégias preventivas e de
intervenção que considerem a diversidade de contextos em que
essas situações ocorrem, visando, assim, à construção de
sociedades mais seguras e justas.
Siga em Frente...
Política criminal e vitimização
A partir de agora, vamos investigar a temática da política de
tratamento em favor das vítimas. Um estudo conduzido pela
Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, como
afirma Penteado Filho (2023), revelou que o homicídio, quando
consumado, gera os piores impactos sobre a sociedade.
Além de as famílias perderem seus provedores e cuidadores, o que
culmina em uma desestruturação nas identificações e referências
familiares, a sociedade também experimenta desordem diante da
perda do conhecimento específico ou da qualificação profissional
que cada indivíduo carrega consigo.
A reflexão sobre a importância da vítima transcende uma análise
moralista ou eleitoreira. Trata-se de uma constatação prática,
estatística e pragmática: a sociedade pode substituir seus
servidores, mas números de mortes equivalentes aos vinculados a
guerras provocam efeitos devastadores nas famílias e na economia.
Isso exige considerações contínuas durante o exercício do mandato
eleitoral. A política criminal deve ser elaborada com base em
estudos estatísticos, compreendendo padrões de horários e locais
onde os crimes acontecem com maior frequência.
Ao comparar as políticas criminais em todo o mundo, notamos
diferentes abordagens nos Estados Unidos e na Europa, onde a
percepção popular da insegurança está ligada a atentados
terroristas. No Brasil, essa insegurança é influenciada, em certa
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medida, pelo fortalecimento das facções criminais. É evidente a
necessidade de políticas que se adaptem ao contexto local, seja
pela relativização de garantias do acusado, investimento em penas
mais severas ou pela valorização do papel da vítima, como
observado na Lei Maria da Penha, destinada à proteção das
mulheres vítimas de violência doméstica.
Quanto às formas de vitimização, embora o Código Penal e alguns
documentos doutrinadores não façam distinção entre elas, deve-se
apontar que há diferença entre os termos “vítima”, “ofendido” e
“lesado”. Vamos conferir?
Figura 1 | Nomenclaturas para vítimas
No sentido amplo, vítima é a pessoa que sofreu a ação criminosa de
um delinquente. Existem três grandes grupos de vitimização
(processo de se tornar vítima):
Vitimização primária: é a consequência imediata para a vítima
como resultado da ocorrência do crime, o que causa prejuízos
materiais, físicos e psicológicos.
Vitimização secundária: é o sofrimento sentido pela vítima em
virtude da apuração do crime por instâncias formais de
controle, como delegacias e tribunais.
Vitimização terciária: a vítima sofre com a falta de estrutura
do Estado para ajudá-la a superar o episódio, muitas vezes se
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sentindo desamparada pela família e pela sociedade, que a
desencoraja a prosseguir com o caso.
Vamos tornar isso mais fácil de entender com um exemplo? Imagine
que uma atleta profissional venha ao Brasil para treinar em um clube
esportivo às vésperas das Olimpíadas. Ao fazer uma compra com
um cartão clonado durante seu tempo livre, ela se torna vítima de
estelionato. O estelionatário faz inúmeras compras no nome da
atleta, fato que desencadeia uma dívida superior a R$ 5 mil
(vitimização primária). Ao descobrir o golpe, ela entra em contato
com o banco para cancelar o cartão de crédito e conta sua história
para a atendente, a qual sugere que a atleta vá até uma delegacia.
Lá, ao relatar a história novamente, o delegado tenta convencê-la a
desistir da notícia-crime, argumentando que a situação foi resolvida
com o cancelamento do cartão (vitimização terciária).
Não confunda as três modalidades de vítima com os três processos
de vitimização. No primeiro caso, a doutrina classifica a vítima pela
forma como ela colabora com a atividade criminosa. Os processos
de vitimização correspondem às consequências com as quais a
vítima se depara ao passar por um episódio delitivo. Na vitimização
primária, a vítima sofre com danos causados pelo próprio crime. Na
secundária, os danos são decorrentes dos sistemas de controle. Por
fim, na vitimização terciária, o problema está na omissão do Estado
quanto às estruturas para apoiar a vítima.
Vamos Exercitar?
Neste momento, vamos, juntos, resolver as questões de
problematização apresentadas no início desta aula, a fim de
compreendermos o tema de forma mais adequada.
Como a vitimologia, enquanto ramo da ciência criminal, ganha
notoriedade na análise do fenômeno criminoso sob a
perspectiva da vítima, considerando sua evolução histórica e a
incorporação de conhecimentos da psicologia e psiquiatria?
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Explique a importância da classificação de vítimas como
inocentes, provocadoras e agressoras na compreensão das
complexas interações entre indivíduos em situações delitivas,
ressaltando como essa análise contribui para a formulação de
uma visão mais abrangente do fenômeno criminal e para o
aprimoramento das abordagens jurídicas e sociais.
A vitimologia, como disciplina no âmbito da ciência criminal, se
destaca ao examinar o fenômeno criminoso sob a perspectiva da
vítima. Esse ramo da criminologia evoluiu historicamente desde
seus primórdios em 1901 e recebeu um conteúdo próprio e
sistemático a partir da década de 1940. Ao incorporar
conhecimentos da psicologia e psiquiatria, a vitimologia busca
compreender não apenas o crime e o criminoso, mas também os
efeitos do ato delitivo sobre a vítima.
A classificação das vítimas em categorias como inocente,
provocadora e agressora exerce uma função crucial na
compreensão das complexas interações entre indivíduos em
situações delitivas. Essa categorização permite uma visão mais
abrangente do fenômeno criminal, reconhecendo nuances nos
papéis desempenhados pelas vítimas e suas contribuições para o
crime. Essa análise colaborou significativamente para o
aprimoramento das abordagens jurídicas e sociais, viabilizando
estratégias mais informadas e eficazes na prevenção e intervenção
criminal.
Saiba Mais
Para que você possa aprofundar suas pesquisas sobre a vitimização
da mulher, faça a leitura do artigo de Mendes e Bitu (2018): Análise
da vitimização da mulher exposta a violência.
Referências Bibliográficas
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MENDES, J. R. L.; BITU, L. V. R. Análise da vitimização da mulher
exposta a violência. Revista Científica Semana Acadêmica,
Fortaleza, ano MMXVIII, n. 124, 2018. Disponível em:
[Link]
[Link]. Acesso em: 31 jan. 2024.
NUCCI, G. de S. Criminologia. Rio de Janeiro: Forense, 2021.
PENTEADO FILHO, N. S. Manual de criminologia. 13. ed. São
Paulo: Saraiva Jur, 2023.
PRADO, L. R. Criminologia. 4. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2019.
Encerramento da Unidade
CRIMINOLOGIA
Videoaula de Encerramento
Olá, estudante! Nesta videoaula, você relembrará os principais
aspectos acerca da criminologia, sua história, escolas, áreas de
estudo e vitimologia. Este conteúdo é importante para a sua prática
profissional, pois é imprescindível conhecer o estudo do crime e do
criminoso para a compreensão das motivações que levam à
criminalidade. Prepare-se para esta jornada de aprendizagem!
Vamos lá!
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Ponto de Chegada
Olá, estudante! Para desenvolver as competências associadas a
esta unidade de aprendizagem, que são “Conhecer os principais
aspectos acerca da criminologia, seu conceito e histórico” e
“Conhecer duas áreas de estudo: criminologia clínica e vitimologia”,
você deverá, antes de tudo, dominar os conceitos fundamentais
acerca da criminologia e vitimologia.
O desenvolvimento da criminologia como ciência independente
requer a consideração não apenas de uma metodologia e um objeto
específicos, mas também de uma carga histórica, dada a natureza
da disciplina como uma ciência social sujeita a influências
ideológicas. A história da criminologia, ainda que relativamente
curta, está marcada por diversas escolas criminológicas que
buscaram alinhar-se a várias perspectivas políticas e sociológicas
ao longo do tempo.
As mudanças nas políticas criminais foram notadamente
influenciadas pela escola predominante em diferentes períodos
históricos. Desde a abordagem da Escola Clássica, cujo foco se
direcionava à lei, até o positivismo, que se concentrava no
delinquente, e a Escola de Chicago, que buscava alterar a realidade
social, as perspectivas variaram amplamente. Além disso, a
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criminologia radical propôs mudanças sociais e econômicas,
enquanto a teoria da racionalidade delinquente explorou questões
relacionadas à redução de oportunidades para o criminoso.
É essencial reconhecer que a criminalização envolve subjetividade,
pois depende de agentes do Estado para avaliar a censurabilidade
de uma conduta. As instâncias formais, das legislativas até as
judiciárias, funcionam como filtros que distinguem condutas menos
lesivas das que ofendem o padrão moral preponderante. O
fenômeno do crime é intrínseco a todas as sociedades; ele existe
desde o surgimento da sociedade e persistirá enquanto ela perdurar.
A criminologia, como disciplina, dedica-se a investigar as origens do
crime, as motivações para transgredir a lei, além de criticar o modelo
punitivo existente, propondo melhorias na política criminal. Seu
objeto de estudo abrange o ser humano, sua vida social e ações, os
quais são investigados por métodos empíricos e observação de
fenômenos sociais, incorporando a avaliação da vítima. A
criminologia procura aprimorar todos os aspectos do direito penal.
A colaboração entre criminologia e direito penal é crucial. A
criminologia é uma ciência pré-jurídica que integra fenômenos
sociais ao direito penal, contribuindo para a compreensão do
conceito material de crime. Enquanto a criminologia fornece dados
empíricos, o direito penal interpreta essas informações de acordo
com a realidade, estabelecendo uma relação necessária entre
ambas as disciplinas.
O objeto de estudo da criminologia inclui o crime, o criminoso, a
vítima e a pena, além de abranger a política criminal. A criminologia
atua tanto na prevenção quanto no contexto reativo ao delito, com a
finalidade de agir no cenário do crime. A criminologia crítica inova ao
analisar o sistema de controle em relação à prática criminosa,
questionando não apenas o que leva alguém a cometer um crime,
mas também a razão pela qual algumas pessoas são rotuladas
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como criminosas e a legitimidade do Estado para definir o que é
crime.
Outras teorias, como o etiquetamento, a criminologia radical e a
abordagem pós-modernista, ressaltam a influência do poder na
definição do crime e na criação de rótulos. A teoria da escolha
racional enfatiza a avaliação de vantagens e desvantagens pelo
delinquente antes de cometer um crime, propondo a redução das
oportunidades para coibir a atividade criminosa.
Assim, a criminologia, ao longo de sua evolução, continua a
desempenhar um papel fundamental na compreensão, prevenção e
correção do fenômeno do crime, oferecendo uma visão abrangente
e interdisciplinar para enfrentar os desafios da sociedade relativos à
delinquência.
Agora, vamos avançar em nossos estudos para tratar da
criminologia clínica e da vitimologia. A categorização do objeto
científico em criminologia destaca duas vertentes principais:
criminologia geral e criminologia clínica. A criminologia geral se
concentra em estudos abstratos e científicos, classificando
elementos relacionados a criminosos, vítimas, controle social e
criminalidade. Por outro lado, a criminologia clínica aplica
conhecimentos teóricos à prática, com o propósito de reabilitar ou
prevenir crimes a partir de tratamentos adequados.
A criminologia clínica utiliza exames clínicos para avaliar a
periculosidade do agente e suas consequências sociais, bem como
para determinar o acompanhamento mais apropriado. Essa
abordagem considera fatores internos e externos que contribuíram
para a conduta criminosa. Os adjetivos “psicológico”, “psiquiátrico” e
“psicanalítico” são evidenciados nesse contexto, pois remetem ao
estudo da alma do indivíduo.
Ao longo da história, teorias criminológicas orgânicas foram
associadas a políticas racistas, como exemplificado pelo
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Holocausto. No entanto, a distorção dessas teorias não justifica a
abolição das ciências envolvidas nas conjunturas em questão. O
estudo da psique humana é válido para entender comportamentos
criminosos, considerando a interação complexa entre fatores
biológicos, psicológicos e sociais.
As teorias bioantropológicas modernas, como a endocrinologia e a
genética, abandonaram a ideia de determinismo genético,
reconhecendo a influência de diversos fatores. As teorias
psicológicas, por sua vez, ampliam a compreensão, destacando a
importância da análise individualizada.
A vitimologia, ramo da ciência criminal, examina o crime sob a
perspectiva da vítima, a qual pode ser classificada como inocente,
provocadora ou simuladora, o que revela a complexidade das
interações no contexto criminoso. A política criminal deve considerar
o impacto sobre as vítimas, visando a uma justiça mais equitativa.
Quanto aos seus processos de análise, a vitimização é classificada
em primária, secundária e terciária, representando os efeitos
imediatos do crime, o sofrimento decorrente da apuração e a falta de
apoio do Estado, respectivamente. A reflexão sobre a dinâmica das
vítimas é essencial para desenvolver estratégias eficazes na
prevenção e intervenção criminal, a fim de promover sociedades
mais seguras e justas.
É Hora de Praticar!
Para contextualizar sua aprendizagem, imagine a seguinte situação:
Lucas e Mariana cresceram em ambientes distintos, mas
compartilharam uma jornada acadêmica ao serem aprovados em
uma respeitável universidade pública. No entanto, o que deveria ser
um período de crescimento intelectual tornou-se um percurso
marcado por experiências traumáticas.
Mariana infelizmente tornou-se vítima de um crime contra a
liberdade sexual quando Gustavo tentou forçar uma relação não
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consensual. A intervenção de Lucas foi crucial para impedir que a
situação se agravasse.
Após o incidente, Mariana buscou tratamento psicológico, mas, ao
testemunhar em juízo, o fato de reviver a violência deixou sequelas
emocionais profundas. Autopenitência, autoflagelação e o uso de
substâncias transformaram-se em sintomas do trauma. A narrativa
da vítima foi questionada por colegas e vizinhos, levando a um
julgamento moral contínuo, mesmo após a condenação de Gustavo.
Nesse contexto, pode-se dizer que a vítima é culpada do crime que
sofreu? Existe alguma política que pode reduzir os efeitos nocivos
vivenciados pela vítima por causa da infração em questão?
Vamos analisar o caso!
Reflita
Para aprofundar seu entendimento sobre os assuntos estudados
nesta etapa de aprendizagem, é interessante que você reflita sobre
as seguintes questões:
Considerando a colaboração entre criminologia e direito penal,
quais são os principais desafios enfrentados na interpretação
de dados empíricos, por parte da criminologia, e em sua
tradução para políticas criminais eficazes, pelo direito penal?
Diante das implicações éticas na criminologia clínica, como
equilibrar a necessidade de compreender a psique do indivíduo
criminoso com o respeito aos direitos individuais e a prevenção
de discriminação?
Como garantir que a vitimologia contribua para uma justiça
mais equitativa, levando em consideração diferentes categorias
de vítimas?
Resolução do estudo de caso
A situação complexa descrita anteriormente levanta
questionamentos criminológicos e vitimológicos. Mariana,
enquadrada como vítima inocente, sofreu vitimização primária,
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secundária e terciária. A classificação da vítima como inocente,
provocadora e simuladora ressalta a complexidade das interações
no contexto criminológico.
No âmbito da vitimização, Mariana enfrentou danos imediatos
(vitimização primária) e adicionais pelo sistema de controle e
julgamento moral (vitimização secundária). Além disso, a falta de
apoio emocional e a descrença na narrativa resultaram em uma
vitimização terciária.
Na perspectiva criminológica, questiona-se se a vítima pode ser
culpada pelo crime que sofreu. Culturas de culpabilização da vítima
exigem mudanças. Em termos de políticas, torna-se fundamental
implementar estratégias para reduzir estigmas e fornecer apoio
psicológico. A reflexão sobre o papel da vítima é essencial para
desenvolver sociedades mais seguras e justas, considerando a
diversidade de contextos em que essas situações ocorrem.
Dê o play!
Assimile
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Figura | Síntese dos conteúdos abordados durante os estudos
Referências
NUCCI, G. de S. Criminologia. Rio de Janeiro: Forense, 2021.
PENTEADO FILHO, N. S. Manual de criminologia. 13. ed. São
Paulo: Saraiva Jur, 2023.
PRADO, L. R. Criminologia. 4. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2019.
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