UOL MÍDIA GLOBAL
Texto original publicado em espanhol no La Vanguardia (Espanha), na edição
de 3 de dezembro de 2007.
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O assassinato da literatura, segundo Todorov
Tzvetan Todorov lamenta a concepção redutora das letras nas escolas, crítica
e autores
Justo Barranco
Em Barcelona
"Estamos assassinando a literatura." Ou "na escola hoje não se aprende de
que falam os livros, mas de que críticos falam." São duas das afirmações que
Tzvetan Todorov (nascido em Sófia, Bulgária, em 1939), um dos teóricos da
literatura com maior influência nas últimas décadas, lança em seu último
livro, "La literatura en perill" (editora Galáxia Gutenberg),
recém-apresentado junto com "Los aventureros del absoluto", um ensaio sobre
Wilde, Rilke e Tsvietaieva. Todorov diz que "La literatura en perill" não é
um "mea culpa", mas que se sente "um pouco responsável" pela situação atual.
"Nos anos 60 e 70 tentei equilibrar os estudos literários -então divididos
em países e séculos- contribuindo com uma abordagem mais interna da
literatura", de suas estruturas e formas.
A partir da situação da literatura na França de hoje, de seu ensino, seus
críticos e certas correntes dos escritores atuais que parecem não lhe
agradar muito, Todorov, que vive nesse país desde 1963, se interroga,
segundo diz, "sobre a própria identidade da literatura em nosso mundo
contemporâneo". "No livro estudo a evolução da literatura desde o século das
luzes até o presente, e essa evolução parece levar a uma separação entre a
literatura e a vida dos homens e mulheres comuns. E eu evidentemente defendo
a tese oposta: que a literatura está profundamente ligada à compreensão da
condição humana. Se não, já teria desaparecido", afirma.
"Os alunos na escola não compreendem por que têm estudos literários, de
letras, nos quais aprendem figuras de retórica ou procedimentos narrativos.
Pensam que os preparam exclusivamente para a profissão de professor de
literatura. E é absurdo que seja assim, porque a literatura não serve para
preparar professores de literatura. Ao contrário, é para um melhor
conhecimento do ser humano, e disso todos temos necessidade", lamenta.
Ele indica que "demonstra certa falta de humildade o fato de impor nossas
próprias teorias sobre as obras, em vez das obras em si". "Voltar a centrar
o ensino das letras nos textos corresponderia, sem dúvida, aos desejos
ocultos da maioria dos professores, que escolheram seu ofício porque amam a
literatura. É a literatura que está destinada a todo o mundo, e não os
estudos literários", reclama.
Escritores e críticos
Mas, diz Todorov, "a concepção redutora da literatura não se manifesta só
nas aulas das escolas ou das universidades; também é representada em
abundância entre os jornalistas que resenham os livros e inclusive entre os
próprios escritores". Nesse sentido, salienta, "houve uma evolução que faz
que os criadores dêem a impressão de escrever para a crítica, algo que
também acontece com a pintura e a arte conceitual".
E ataca três correntes de escritores: os formalistas, nos quais a literatura
só fala dela mesma, com construções engenhosas, simetrias e ecos diversos; a
corrente niilista, "segundo a qual os homens são estúpidos e malvados e a
destruição e a violência mostram a verdade da condição humana, vendo a vida
como o advento de um desastre"; e uma vertente do niilismo: o solipsismo, no
qual "quanto mais repugnante for o mundo mais fascinante é o eu". O autor
solipsista, diz Todorov, "descreve em todo detalhe suas mínimas emoções".
E o assunto, diz ele, "não é que a literatura seja uma técnica de cura
anímica, mas pode transformar cada um de nós por dentro". Acrescenta que "o
leitor comum, que continua buscando nas obras que lê algo que dê sentido a
sua vida, tem razão de se opor aos professores, críticos e escritores que
lhe dizem que a literatura só fala de si mesma, ou que só ensina a
desesperança". Porque, na opinião de Todorov, "o que os romances nos dão não
é um novo saber, mas uma nova capacidade de comunicação com seres diferentes
de nós". "E pensar e sentir adotando o ponto de vista dos outros, pessoas
reais ou personagens literários, é o único meio de caminhar para a
universalidade, e isso inclui os livros que o crítico profissional considera
com condescendência, , desde 'Os Três Mosqueteiros' até
'Harry Potter'".
Todorov "aconselharia [os professores] a partir de textos em que haja um
interesse evidente para os alunos e ir progressivamente para textos mais
distantes, de mundos que lhes sejam mais estranhos. E falar do que falam os
livros e não só do livro. Creio que todos os alunos podem se reconhecer nas
histórias de identidade, amor, depressão ou violência que os livros contam.
É preciso fazer que os alunos voltem a encontrar o interesse pela
literatura."
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves