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Neuropsicometria: validade e precisão de instrumentos neuropsicológicos e seu
papel na avaliação neuropsicológica
Mallo-diniz 20100
As neurociências surgiram a partir do interesse crescente em torno do
funcionamento do cérebro. Daniel Fuertes (2014) no livro Neuropsicologia teoria e
prática revelou que a neurociência é, por definição, multidisciplinar. Neste campo de
estudo percebeu-se então a aproximação de diversas disciplinas como anatomia,
embriologia, fisiologia, farmacologia e psicologia.
Não é possível determinar o exato momento do surgimento da Neuropsicologia
enquanto disciplina. Contudo, pode-se relacionar o início dos estudos no século XIX e o
surgimento do termo neuropsicologia no século XX. No âmbito metodológico dos
estudos em Neuropsicologia pode-se citar as principais abordagens metodológicas:
clássica, experimental, psicométrica, cognitiva e neuroimagem.
O estudo da neuropsicologia surgiu na perspectiva localizacionista, utilizando
estudos post mortem de necropsia para localizar a lesão cerebral de pacientes
relacionando aos sintomas clínicos. Método que possuía alguns problemas
metodológicos visto que existia um intervalo de tempo considerável entre o início da
avaliação clínica da doença e a necrópsia. Neste período poderiam ocorrer outros
comprometimentos cerebrais que poderiam mascarar as relações inicialmente propostas.
Em seguida, estudos na perspectiva da Psicologia Experimental foram sendo mais
difundidos a partir dos estudos de Wundt. Neste método o foco era estudar as relações
cerebrais a partir de tarefas experimentais, principalmente em animais. O método
possibilitava a estimulação elétrica de áreas cerebrais específicas e assim possibilitava
estudar processos emocionais e motivacionais específicos bem como processos de
atenção, memória e aprendizagem.
A próxima abordagem metodológica situada historicamente na evolução da
Neuropsicologia foi a abordagem Psicométrica. Originada da aliança entre as duas
últimas, acreditava que apenas observações clínicas e experimentais não constituíam
base de dados suficiente. Possuía ênfase na quantificação dos dados, generalização e
comparação entre os sujeitos. Seus estudos baseavam-se na criação e validação de testes
e escalas para avaliação de construtos psicológicos e cognitivos. Cenários e campos
foram frutíferos para o desenvolvimento da Psicometria tais como o contexto da
educação e o contexto da guerra (Hutz, 2015).
O uso de instrumentos para avaliar um comportamento ou desempenho se
estende a uma ampla gama de áreas. A avaliação se faz necessária para processos de
intervenção, e na neuropsicologia não poderia ser diferente. A avaliação
neuropsicológica é fundamental ao processo de intervenção neuropsicológica, e a
qualidade dessa avaliação é essencial para o sucesso da intervenção.
Sendo assim, no campo da avaliação neuropsicológica também há preocupações
relacionadas às características psicométricas. A mensuração que se pretende alcançar ao
utilizar testes e instrumentos de avaliação refere-se diretamente ao funcionamento
normal ou anormal do substrato neural ou módulos cognitivos.
A Psicometria relaciona-se ao estudo das características dos testes que visam à
mensuração das variáveis psicológicas. As principais características que definem a
adequação de um instrumento psicométrico são: validade e fidedignidade ou precisão.
Em psicometria validade refere-se a capacidade de um teste medir aquilo que ele
realmente se propõe a medir. Assim, um teste será válido quando seus itens refletirem
aspectos dos construtos psicológicos que pretendem medir. São exemplos de validade:
validade de face, de constructo, preditiva. Envolve desde a adequação semântica ao
teste de hipóteses por meio da análise fatorial. Um teste precisa passar por um processo
de adaptação quando não tiver sido construído no contexto cultural no qual está sendo
utilizado.
No contexto da psicometria fidedignidade é entendida como confiabilidade. Um
instrumento é fidedigno à medida que mantem estabilidade e consistência da medida
independente das condições externas. São exemplos de fidedignidade: teste-reteste;
interjuizes; consistência interna. A fidedignidade teste-reteste é obtida por meio da
aplicação de um instrumento à mesma amostra de sujeitos em duas ou mais ocasiões. A
fidedignidade interjuizes refere-se ao grau em que dois observadores especialistas no
tema concordam sobre a avaliação de itens de um teste. A análise da consistência
interna é medida pelo coeficiente de Cronbach, este teste calcula o quanto cada item
correlaciona-se com os demais itens do instrumento. O coeficiente final refere-se a
consistência média dos itens.
É necessário que o neuropsicólogo conheça as propriedades psicométricas dos
instrumentos com os quais trabalha, até para poder posicionar-se quanto ao potencial e
limitações do material utilizado.