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Tuxped Serviços Editoriais (São Paulo–SP)
N174m Namiuti, Cristiane; Gonçalves; Elisângela (org.).
Morfologia, Sintaxe e Interfaces
Organizadoras: Cristiane Namiuti e Elisângela Gonçalves.
1. ed. – Campinas, SP : Pontes Eitores, 2023;
figs.; tabs.; quadros.
(Coleção Linguística em Rede, v. 5).
E-book: 7Mb; PDF.
Inclui bibliografia.
ISBN: 978-65-5637-729-2.
1. Morfologia – Português 2. Sintaxe 3. Linguística
I. Título. II. Assunto. III. Organizadoras.
Bibliotecário Pedro Anizio Gomes CRB-8/8846
Índices para catálogo sistemático:
1. Morfologia. 469.5
2. Sintaxe. 469.5
3. Linguística. 410
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SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO 7
MOVENDO PREFIXOS: NOTAS SOBRE PREFIXAÇÃO (OU PRÉ-
FIXAÇÃO) EM PORTUGUÊS 12
Maurício Resende
A PALAVRA NA MORFOLOGIA E NA FONOLOGIA 34
Flaviane Romani Fernandes Svartman
Luciani Tenani
ESTUDO HISTÓRICO DO PADRÃO CONSTRUCIONAL LATINO
[[XNI]-(Ĭ)TŪDŌ]S E DE SEUS DESENVOLVIMENTOS [[XNI]-(I)DÃO]S E
[[XNI]-(I)TUDE]S NA LÍNGUA PORTUGUESA 59
Natival Almeida Simões Neto
DISCUTINDO A COMPOSICIONALIDADE DE PALAVRAS
COMPLEXAS FORMADAS POR COMPOSIÇÃO NO PORTUGUÊS
BRASILEIRO 78
Elisângela Gonçalves
Rebeca Silva do Nascimento Campos
PALAVRAS NEGATIVAS E DEPENDÊNCIA SINTÁTICA NO
PORTUGUÊS BRASILEIRO 97
Lilian Teixeira de Sousa
A ALTERNÂNCIA NA EXPRESSÃO POSSESSIVA NO SEMIÁRIDO
BAIANO: CONTRIBUIÇÕES PARA A COMPREENSÃO DO
CONTINUUM AFRO-BRASILEIRO DO PORTUGUÊS 115
Matheus Oliver Santos Oliveira
Mariana Fagundes de Oliveira Lacerda
Zenaide de Oliveira Novais Carneiro
O ESTATUTO GRAMATICAL DA SINTAXE DOS CLÍTICOS EM
DOIS AUTOS DO TEATRO DE GIL VICENTE: COMPETIÇÃO DE
GRAMÁTICAS OU QUESTÕES DE INTERFACE? 139
Cristiane Namiuti
Raiana Cristina Dias da Cruz
REMNANT MOVEMENT NO ESPANHOL MEDIEVAL: PRIMEIRAS
REFLEXÕES 166
Carlos Felipe Pinto
SOBRE OS AUTORES 185
APRESENTAÇÃO
O livro Morfologia, Sintaxe e Interfaces, o quinto da coleção
“Linguística em rede”, faz parte de um projeto de divulgação cientí-
fica do Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade
Estadual do Sudoeste da Bahia (PPGLin/UESB) e reúne capítulos
de especialistas nas áreas específicas da ciência Linguística que atuam
em diferentes instituições. Seus oito capítulos, inéditos, trazem ques-
tões de pesquisa envolvendo estudos gramaticais de línguas naturais
que contemplam as áreas da Morfologia e da Sintaxe, e também a in-
terlocução e/ou interface com outros níveis da gramática, como a fo-
nologia e a semântica.
O primeiro capítulo, intitulado Movendo prefixos: notas sobre
prefixação (ou pré-fixação) em português, de autoria de Maurício
Resende (UFMG), discute alguns fenômenos que envolvem prefixa-
ção no português brasileiro (PB), adotando a perspectiva de morfo-
logia baseada em morfemas da Morfologia Distribuída (MD) (HALLE;
MARANTZ, 1993). O autor assume a prefixação como um processo sin-
tático e explica determinadas relações de escopo semântico com base
em movimento sintático. Para a defesa de que as operações morfológi-
cas se aplicam a morfemas e de que as operações sintáticas devem es-
tar acessíveis à formação de palavras, Resende apresenta argumentos
de natureza fonológica (atribuição de acento), sintática (licenciamen-
to de itens de polaridade negativa) e semântica (escopo).
7
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Flaviane Romani Fernandes Svartman (USP/CNPq) e Luciani
Tenani (Unesp/CNPq), em seu capítulo A palavra na morfologia e na
fonologia, discutem dados do português brasileiro para comprovarem
a não isomorfia da palavra na morfologia e na fonologia. Para tanto,
baseiam-se em critérios prosódicos (o acento tônico) e morfológicos
(significado lexical ou o valor gramatical). Para a reflexão sobre a in-
terface entre fonologia e morfologia, analisam os compostos prosódi-
cos e morfossintáticos, como também os clíticos e os seus hospedeiros.
Ao diferenciar compostos morfológicos de fonológicos, consideram
o tamanho da palavra: seu domínio na morfologia é maior que na fo-
nologia. Por outro lado, enquanto os compostos morfológicos têm dois
acentos; os clíticos não têm nenhum, não se registrando marcas dos li-
mites entre ele e o seu hospedeiro.
No capítulo seguinte, Estudo histórico do padrão construcio-
nal latino [[XNi]-(ĭ)tūdō]S e de seus desenvolvimentos [[XNi]-(i)dão]
S
e [[XNi]-(i)tude]S na língua portuguesa, de Natival Almeida Simões
Neto (UEFS-DLA-PPGEL), o autor analisa, em uma abordagem baseada
na Morfologia Construcional (MC), mais especificamente, nos estudos
de Booij (2010; 2017; 2020), Gonçalves (2016), Soledade (2013; 2018;
2019) e Simões Neto (2017; 2021), os esquemas que integram o sufixo
latino -ĭtūdō e os sufixos portugueses -idão e -itude, que se desenvol-
veram a partir de -ĭtūdō, o primeiro, por via popular; o segundo, pela
via culta. O autor conclui que, ao passo que o sufixo -idão, que, no por-
tuguês arcaico e no medieval, foi muito pouco produtivo, estendendo
os seus significados apenas após esse período, o sufixo -itude sempre
foi pouco produtivo, sem muita inovação do latim para o português.
No capítulo Discutindo a composicionalidade de palavras
complexas formadas por composição no Português Brasileiro,
Elisângela Gonçalves (UESB/PPGLin/DELL) e Rebeca Silva
do Nascimento Campos (UESB/PPGLin) abordam trabalhos que se vol-
tam para o estudo de compostos e discutem os critérios estabelecidos
nesses trabalhos para delimitarem os tipos de compostos adequados
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LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
para o estudo do português contemporaneamente – ora compostos
formados por justaposição ora compostos morfossintáticos. As auto-
ras não negam a necessidade de se estabelecer o melhor levantamento
possível dos dados, visando à melhor qualidade da pesquisa; todavia,
chamam a atenção para não haver uma generalização dos dados, ob-
servando que, dentro de um mesmo tipo de composto, podem-se en-
contrar dados divergentes.
No capítulo Palavras negativas e dependência sintática
no Português Brasileiro, Lílian Teixeira (UFBA) descreve o compor-
tamento de palavras-n (nada, ninguém, nenhum) em relação à depen-
dência sintática e discute se a presença de determinados elementos
sem um licenciador aparente poderia indicar uma mudança na língua.
Ao contrastarem-se dados do PB com dados do espanhol europeu, con-
clui-se que, diferentemente do que acontece no espanhol, a presença
de palavras-n em posição pós-verbal sem marcador negativo no PB
não constitui um possível processo de mudança linguística, “em rela-
ção ao seu status de uma língua de Concordância Negativa não estri-
ta”, mas parece correlacionar-se a propriedades discursivas codifica-
das pela sintaxe: estrutura informacional, o que pode indicar que as
palavras-n nesse tipo de construção são deslocadas para uma posição
mais alta que a posição interna ao VP.
Em A alternância na expressão possessiva no semiárido
baiano: contribuições para a compreensão do continuum afro-
-brasileiro do português, capítulo de autoria de Matheus Oliver
Santos Oliveira (UFBA), Mariana Fagundes de Oliveira Lacerda (UEFS)
e Zenaide de Oliveira Novais Carneiro (UEFS), os autores revisam os da-
dos de variação entre estratégias de expressão de posse, com formas
analíticas inovadoras, competindo com as formas sintéticas, com base
nos pressupostos da Teoria da Gramática (cf. LIGHTFOOT, 1979; 1991;
1999; ROBERTS, 1993; 2007; 2020; KROCH, 1989; 2001; 2003; 2005).
A conclusão é a de que o estágio atual dessa variação “parece revelar
um resquício de uma competição entre duas gramáticas: uma adqui-
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LINGUÍSTICA EM REDE
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
rida por meio da exposição a modelos-estímulos da gramática do PE,
outra que se explica pela ASL imperfeita”. O emprego da estratégia
analítica tanto pode consistir em um uso “remanescente de uma época
em que os africanos, aprendendo o português como L2 em situação
emergencial, tenham feito processos de transferência e relexificação
de sua L1 para a L2 em processo de aquisição” como pode ser “um caso
de reanálise por falta de robustez ou clareza nos DLP recebidos nesse
processo aquisicional”.
Cristiane Namiuti e Raiana Cruz, no capítulo O estatuto grama-
tical da sintaxe dos clíticos em dois autos do teatro de Gil Vicente:
competição de gramáticas ou questões de interface?, questionam
o estatuto gramatical da ênclise encontrada nas falas das personagens
de Gil Vicente no Auto da Feira e na Barca do Inferno trazendo ele-
mentos para contribuir na discussão em torno da história gramatical
do português. Discutem as hipóteses antagônicas de Martins (2011)
e Galves (2015) sobre o estatuto gramatical da ênclise no teatro de Gil
Vicente à luz da teoria da Gramática (CHOMSKY, 1995) e de traba-
lhos que investigaram mudanças gramaticais na história da língua
portuguesa com enfoque na colocação pronominal átona (MARTINS,
1994; GALVES; BRITO; PAIXÃO DE SOUSA, 2005; GALVES; NAMIUTI;
PAIXÃO DE SOUSA, 2006, entre outros trabalhos). Com base no esta-
do da arte e na análise dos dados do fenômeno da variação ênclise/
próclise associado a outros fenômenos, como a interpolação e a posi-
ção do sujeito, as autoras concluem que a colocação pronominal átona
no Auto da Feira e na Barca do Inferno é compatível com a gramática
do período clássico, nos moldes de Galves, Namiuti e Paixão de Sousa
(2006), sendo a ênclise atestada nas falas das personagens do Auto
da Feira e da Barca do Inferno derivada de uma gramática proclítica
V2, também presente nos textos literários, cujo clítico é sensível à pri-
meira posição em um sintagma entoacional, reforçando assim a hipó-
tese de Galves (2015).
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LINGUÍSTICA EM REDE
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Por fim, no capítulo Remnant movement no espanhol medie-
val: primeiras reflexões, ao estudar as línguas românicas medievais
como línguas V2, tomando como base dados do espanhol medieval,
Carlos Felipe Pinto (UFBA) propõe que “os elementos em posição pré-
-verbal, seja qual for a sua quantidade, seriam o resultado de um movi-
mento remanescente (remnant movement) de todo ou uma porção do IP
após o movimento do verbo para a periferia esquerda”. A conclusão
inicial da argumentação é a de que há evidências de que os constituin-
tes em posição pré-verbal na ordem V>2 apresentam a mesma orde-
nação que teriam em posição pós-verbal, o que indicaria o movimento
remanescente de todo o IP para satisfação do efeito V2. O autor advoga
a existência de uma gramática V2 subjacente aos dados do espanhol
medieval, seja pela abordagem de competição de gramáticas ou pela
abordagem do movimento remanescente.
As organizadoras
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MOVENDO PREFIXOS:
NOTAS SOBRE PREFIXAÇÃO (OU PRÉ-
FIXAÇÃO) EM PORTUGUÊS 1
Maurício Resende
(UFMG)
INTRODUÇÃO
Na visão tradicional, dentre todos os processos de formação
de palavras, a prefixação é, à primeira vista, um dos fenômenos mais
transparentes da morfologia do português e pode ser caracterizado
da seguinte maneira: a derivação por prefixação envolve a adjunção
de um elemento à esquerda da base/palavra; esse elemento normal-
mente é um prefixo como no caso de pré-vestibular, pós-graduação etc.,
mas também é possível que seja uma base presa/raiz, como em biode-
gradável, ecoturismo etc.
Apesar de haver divergências de análise entre alguns autores,
descritivamente, seria possível associar a prefixação de raízes/bases
1 Gostaria de agradecer à Roberta Pires de Oliveira pela discussão de algumas das ideias que
eu desenvolvo neste capítulo. Agradeço especialmente também à Ana Paula Scher e à Beatriz
Pires Santana pela leitura prévia deste trabalho e por seus comentários e sugestões. Todos os
erros são meus.
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LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
presas à composição e a prefixação de prefixos à derivação. De todo
modo, essa separação é uma questão que se coloca apenas dentro
de uma visão tradicional, pois como mostrado a seguir, toda prefixa-
ção é, em um certo sentido, igualmente derivacional e composicional.
Por questão de espaço e escopo, neste capítulo, eu vou focar nos prefi-
xos (em detrimento das bases) e discutir alguns fenômenos relaciona-
dos a essa classe de morfemas no português brasileiro (PB).
O que eu estou chamando de “visão tradicional” recobre não ape-
nas a abordagem da Gramática Tradicional, mas também a visão assu-
mida por modelos de morfologia baseados em palavra ou que assu-
mem uma análise estritamente templática ou “linear” dos processos
morfológicos. Nesse cenário, um dos objetivos deste capítulo é mostrar
que essa visão não tem ferramentas adequadas para descrever ou ex-
plicar certos comportamentos interessantes e sistemáticos dos prefi-
xos em português, tais como movimento.
De maneira geral, a prefixação é um processo menos recor-
rente do que, por exemplo, a sufixação e, diferentemente da maioria
dos sufixos, os prefixos são unidades com maior identidade e autono-
mia fonológica (SCHWINDT, 2001), semântica (BASSANI, 2012) e sin-
tática (RESENDE, 2017), o que lhes permite assumir, em alguns casos,
um comportamento muito semelhante ao de formas livres, como mos-
trado a seguir.
Neste trabalho, eu vou assumir a visão de morfologia baseada
em morfemas da Morfologia Distribuída (MD) (HALLE; MARANTZ,
1993) e propor uma análise alternativa para alguns casos de prefixação
do português, com vistas a expandir tanto a cobertura empírica quanto
o debate teórico, no que tange à adequação observacional e descri-
tiva. Para tanto, este capítulo está dividido do seguinte modo: em §
1, eu apresento algumas propriedades fonológicas, morfológicas e se-
mânticas dos prefixos do PB, caracterizando os principais fenômenos
relacionados a esse processo. Em § 2, eu discuto o tratamento ofere-
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LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
cido pela visão tradicional de morfologia e mostro que ele enfrenta
dificuldades para lidar com certas características dos prefixos, como
dinamicidade sintática. Finalmente, em § 3, eu proponho uma análi-
se alternativa, que defende que a prefixação é um processo sintático
e que certas relações de escopo semântico podem ser satisfatoriamen-
te explicadas em uma análise que lança mão de movimento sintático.
1. OS PREFIXOS DO PORTUGUÊS
Do ponto de vista fonológico, Schwindt (2001) classifica os pre-
fixos em dois grupos, a saber, prefixos composicionais (PCs) e prefixos
legítimos (PLs). Segundo o autor, os PCs podem receber acento (pois
são monossílabos tônicos ou dissílabos) e podem ocorrer como formas
livres; por sua vez, os PLs não podem receber acento (são apenas mo-
nossílabos átonos) e são formas presas – daí serem prefixos legítimos.
Exemplos desses dois grupos aparecem em (1).
(1) (a) PCs: bi-, ex-, não-, pós-, pré-, anti-, contra-, semi-, vice-...
(b) PLs: con-, des-, in-, re-, sub-, trans-…
Na análise de Schwindt, por causa de sua autonomia fonológica
(ou seja, por serem palavras prosódicas), os PCs podem aparecer como
formas livres, como mostram os dados em (2).2
(2) (a) O João se dá bem com a sua ex-.
(b) A irmã do Pedro se assumiu bi-.
A respeito desse tipo de exemplo, porém, é preciso deixar cla-
ro que “poder receber acento” é condição necessária, mas não su-
ficiente para que os PCs sejam caracterizados como formas livres.
Primeiramente, alguns PCs acentuados (e semanticamente claros)
2 Cf. Gonçalves (2016) para uma análise alternativa, em que esses exemplos são tratados como
casos de “lexicalização de afixo”.
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LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
não podem aparecer como formas livres, como mostram os dados em
(3). Em segundo lugar, não parece ser adequado determinar aprioris-
ticamente se os prefixos são acentuados ou não; isso porque alguns
PLs que, a princípio, não poderiam receber acento aparecem como for-
mas livres em (4).
(3) (a) O cobre é um metal ferroso, e eu preciso de um que seja
*não-Δ3 (= ferroso).
(b) Não consigo trabalhar sem luvas, isso é algo muito *anti-Δ
(= higiênico).
(4) (a) Não preciso de um sistema sub-Δ ou sobregerador de dados
(= gerador).
(b) Deveria haver mais igualdade entre pessoas cis-Δ e trans-Δ
(= gênero).
Para Resende (2017), a ocorrência de prefixos como formas livres
depende – além de certas condições fonológicas e semânticas – de um
licenciamento estrutural específico, que deve permitir a recuperação
da base, a qual, segundo o autor, está elidida. Ainda assim, a despeito
da falta de isomorfia entre “palavra prosódica” e “forma livre”, essa
diferença de acento no domínio dos prefixos é crucial para a presen-
te análise. A questão, contudo, é que talvez essa diferença não possa
ser determinada antes que a estrutura já esteja definida.
Do ponto de vista morfológico, os prefixos normalmente são ti-
dos como itens que não alteram a categoria da base à qual se adjun-
gem, como ilustrado em (5) – o papel de mudança de classe está nor-
malmente associado aos sufixos. No entanto, como pode ser visto em
(6), alguns prefixos parecem, à primeira vista, alterar a categoria de sua
base – ainda que este não seja o caso prototípico.
(5) (a) [fazer]V re- → [refazer]V
3 O símbolo “Δ” equivale ao material que foi elidido (= não pronunciado) da estrutura.
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LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
(b) [sexual]A bi- → [bissexual]A
(6) (a) [ruga]N anti- → (creme) [antirruga]A
(b) [parto]N pós- → (depressão) [pós-parto]A
Outra propriedade morfológica dos prefixos é a de que, diferen-
temente dos sufixos, eles são recursivos, isto é, podem se concatenar
mais de uma vez à estrutura, podendo exercer escopo tanto sobre ou-
tro prefixo quanto sobre toda a estrutura prefixada, como mostram
os exemplos em (7)4 e (8).
(7) (a) João des-desmarcou o encontro de amigos na sua casa.
(b) Pedro re-reavaliou os documentos apresentados pelo
advogado.
(c) Carlos aderiu ao movimento anti-antifacista.
(d) Paulinho já se considera um pré-pré-adolescente.
(e) Ana ainda não decidiu o que fazer na sua fase
pós-pós-doutorado.
(8) (a) Marcos é o [ex-[ex-[namorado]]] do Caio (= um segundo
ex-namorado).
(a) Marcos é o [ex-[ex-namorado]] do Caio (= não é mais ex, é o
atual).
Por outro lado, ao passo que, para a sufixação, a concatenação
de sufixos diferentes é bastante produtiva e permite sucessivas apli-
cações (por exemplo, rel-a-cion-a-bil-idad-e), a concatenação de pre-
fixos diferentes a uma mesma base é mais restritiva e parece permitir
apenas dois elementos; a concatenação de um terceiro prefixo dife-
rente parece tornar as estruturas menos naturais, ainda que possí-
veis do ponto de vista semântico e fonológico. Se esse comportamen-
4 Exemplos (7a) e (7b) extraídos de Medeiros (2016, p. 57).
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LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
to resulta de uma restrição morfológica do português ou se é apenas
uma questão de processamento, é um tópico que permanece em aber-
to. Exemplos em (9).
(9) (a) um (?ex-) semi-vice-presidente
(b) um brinquedo (?semi-) indesmontável
(c) uma máquina (?pré-) autodesregulante
(d) uma bebida (?anti-) desintoxicante
(e) um móvel (?auto-) reencaixável
(f) uma medida (?pós-) contra-cooperação
Da perspectiva semântica, como indicam os exemplos em (1),
a maioria dos prefixos parece ter um papel semântico claro, mesmo
nos casos em que não é possível estabelecer, com precisão (do ponto
de vista sincrônico), a semântica da base, como mostram os dados em
(10) e (11) – cf. Zwarts e Basso (2016) para uma tipologia semântica
das diferentes leituras contradirecionais.5
(10) (a) leitura de retaguarda: recuar, repelir / *cuar, *pelir
(b) leitura retrógrada: reverter, regredir / #verter, *gredir
(c) leitura responsiva: reaver, recíproco / #aver, *cíproco
(d) leitura restitutiva: redimir, revogar / *dimir, *vogar
(e) leitura retornativa: rebuscado, regressar / #buscado,
*gressar
(f) leitura repetitiva: repetir, resistir / *petir / *sistir
(11) (a) desmanchar / #manchar
(b) desmantelar / *mantelar
5 Cf. Minussi e Bassani (2017) e Resende (2020) para uma discussão sobre esse tipo de raiz em
português e Bassani (2012, 2019) para uma análise sintático-semântica de alguns PLs apre-
sentados em (1b).
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LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
(c) desabar / *abar
(d) destruir / *truir
Dadas essas considerações, diante dessa descrição empírica,
a pergunta que emerge é qual a melhor maneira de explicar, à luz
de uma teoria de morfologia, esse comportamento.
2. UMA ABORDAGEM SINTÁTICA PARA A PREFIXAÇÃO
Como mencionado em § 1, a prefixação é um dos fenômenos
mais transparentes da morfologia do português, mas essa conclusão
está embasada em uma visão que considera palavras ou bases como
primitivos não apenas da morfologia, mas também da sintaxe. Essa vi-
são pode ser esquematizada em (12), em que “Y” é um prefixo, e “X”
é uma base/palavra a que esse prefixo se adjunge; “X” é da categoria
“α” e, depois da prefixação, pode tanto preservar a sua categoria (como
ocorre em (12a), exemplos em (5)) quanto alterá-la (como acontece em
(12b), exemplos em (6)).
(12) (a) Y [X]α → [Y [X]α]α
(b) Y [X]α → [Y [X]α]β
Nessa visão, tanto as propriedades do prefixo quanto da base
são pré-determinadas antes da prefixação; especificamente, a gramá-
tica deve saber, por exemplo, se “Y” é um PC ou um PL e também a que
categoria pertence “X” (nome, verbo, adjetivo etc.). Esse tipo de in-
formação prévia vai determinar se “Y” pode ocorrer como forma li-
vre, ou seja, “fora de uma base” e também determinar com que tipo
de categoria morfológica certos prefixos podem se combinar. Esse tipo
de tratamento está normalmente associado a duas assunções, a saber,
(i) os processos morfológicos se aplicam a palavras/itens lexicais e
(ii) os processos morfológicos são independentes de (e anteriores a)
os processos sintáticos.
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LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Porém, a seguir eu apresento um argumento fonológico, um sin-
tático e um semântico para defender tanto que as operações morfoló-
gicas se aplicam não a palavras, mas entre morfemas, quanto que as
operações sintáticas não só podem como devem estar acessíveis à for-
mação de palavras. Assim, com base nessa motivação empírica, em
§ 3, eu ofereço uma análise para a prefixação, assumindo o modelo
da Morfologia Distribuída, e mostro que essa teoria tem ferramentas
adequadas para explicar os fenômenos arrolados.
Como apresentado em § 1, uma classificação apriorística dos pre-
fixos como sendo composicionais ou legítimos, à luz de suas proprie-
dades acentuais, é falha em dois sentidos importantes, quais sejam:
(i) existem PCs que, apesar de receberem acento, não podem ocorrer
como formas livres e (ii) existem PLs que, em alguns contextos, po-
dem aparecer como formas livres, como exemplificado em (3) e (4)
respectivamente.
O problema desse tipo de análise jaz na conclusão de que, como
observa Marantz (1997), é necessário sempre construir a estrutura pro-
sódica a partir da estrutura sintática ou mapear a estrutura sintática
em uma estrutura prosódica. Nessa perspectiva, certos PLs que antes
não poderiam ser acentuados, passam a receber acento (e, portanto,
aparecem como formas livres), dado o contexto sintático apropriado,
como o da coordenação, como pode ser visto em (13), com PCs, e (14),
com PLs.
(13) (a) Atendimento pré- e pós-parto (cf. prever e posposição).
(b) Ponderar os prós e os contras (cf. proativo e contrapé).
(14) (a) Um sistema sub- ou sobregerador de dados.
(b) Pessoas cis- e trans-.
Nessa análise, a atribuição do acento ocorre depois de a estrutura
sintática já estar formada e, em uma estrutura de coordenação, o pre-
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LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
fixo “que não estiver prefixado a uma base” vai receber acento; do con-
trário, a derivação fracassa. Naturalmente, o licenciamento fonológico/
prosódico é apenas uma das condições necessárias para que os prefixos
apareçam como formas livres; é preciso levar em conta também o tipo
de estrutura (por exemplo, se é uma estrutura que licencia um dado
tipo de elipse na língua em questão) e o tipo de conteúdo semântico
do afixo (se a recuperabilidade do significado já está convencionaliza-
da como para ex-, bi-, trans- etc. ou se depende do contexto sintático
como sub-). Em todo caso, mantém-se o argumento fonológico: a atri-
buição de acento para os prefixos deve ocorrer pós-sintaticamente.
Um argumento adicional, também da fonologia, vem do item
não. Como mostrado em (3a), poder receber acento é condição neces-
sária, mas não suficiente, para que o prefixo não ocorra como forma
livre. Eu não vou entrar em detalhes a respeito das possíveis causas
(estruturais) da agramaticalidade de (3a); de todo modo, mantendo
a discussão no nível do acento, o fato é que não são todas as ocorrên-
cias de não que têm uma pronúncia tônica.
A rigor, a negação não tem duas pronúncias no PB: uma tônica
[‘nɐ̃ w] e uma átona [nũm]. No entanto, como observam Mioto, Figueiredo
Silva e Lopes (2013), essas duas realizações não estão em variação li-
vre: enquanto a forma tônica é a realização default de não, a pronúncia
átona está restrita a apenas um conjunto de contextos como, por exem-
plo, a negação verbal. Assim, é possível dizer no PB o João [‘nɐ̃ w] vem e
o João [nũm] vem, mas quando não é empregado em contextos não ver-
bais – por exemplo, em uma negação sentencial ou como prefixo –,
somente a pronúncia tônica está disponível, como pode ser constatado
em o João não vem, [‘nɐ̃ w]/*[nũm] e em esse é um metal [‘nɐ̃ w]/*[nũm]
ferroso.
Para Mioto, Figueiredo Silva e Lopes (2013), a realização átona
de não a caracteriza como um clítico (uma unidade prosódica diferen-
te do não tônico), de forma que ele seja pronunciado adjunto ao ver-
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
bo, do mesmo modo que outros pronomes como me e te – cf. Resende
(2021) para uma discussão detalhada desse caso. Assim, o estatuto
de não como palavra prosódica também depende da estrutura sintá-
tica. Naturalmente, alguém poderia argumentar que o “não” prefixo
é diferente do “não” partícula de negação e, portanto, essa diferencia-
ção fonológica poderia ser esperada.
Contudo, além de não haver motivação semântica para a postu-
lação de duas entradas para não, o comportamento sintático desse ele-
mento depõe contra a análise de que o “não” prefixo seja diferente do
“não” não prefixal – e isto constitui o segundo argumento contra as as-
sunções (i) e (ii). Figueiredo Silva e Mioto (2009), em um estudo sobre
a prefixação no PB, notam que itens de polaridade negativa (como nin-
guém, nada, nenhum) só podem aparecer precedidos por uma negação,
como exemplificado em (15); a sentença (15b) é agramatical, porque
o item ninguém não é precedido por nenhuma negação sintática.
(15) (a) Não ter avisado ninguém foi grave.
(b) *Ter avisado ninguém foi grave.
Porém, a sentença em (16a) mostra que não é capaz de licenciar
o item de polaridade negativa ninguém, diferentemente do prefixo in-
(que tem o mesmo significado) em (16b). Desse modo, Figueiredo Silva
e Mioto (2009) mostram que a negação em (16a) é sintática e não mor-
fológica/lexical. Nesta análise, esse fenômeno é interpretado como
evidência de que não há diferença entre não como prefixo e não como
partícula de negação sentencial; o que há é um único item não que
tem suas propriedades (como a realização tônica e átona) determina-
das depois da formação da estrutura sintática.
(16) (a) Considero o João não fiel a ninguém.
(b) *Considero o João infiel a ninguém.
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Para além do argumento fonológico (de acento) e do argumento
sintático (do licenciamento de itens de polaridade negativa), há ain-
da um argumento semântico (de escopo), que mostra que a prefixa-
ção não pode ser, no seu percurso derivacional, caracterizada sempre
da mesma forma; é o que mostram os exemplos em (17a) em contraste
com os casos em (17b).
(17) (a) pré-escola
pré-vestibular
pré-parto
pré-história
(b) preconceito
pretexto
pressentimento
prever
O que os dados em (17) mostram é que o prefixo pré- tem duas
realizações no PB: uma tônica. [‘pɾɛ], e outra átona, [pɾe], mas diferen-
temente do que acontece com o prefixo não, essa parece ser uma dife-
rença mais profunda e está mais relacionada com o percurso deriva-
cional da palavra. Apesar dessa diferença fonológica, semanticamente
/pre/ mantém o significado (a rigor) temporal de anterioridade – o que
já tinha sido notado por Villalva e Gonçalves (2016). Porém, diferen-
temente do que poderia parecer à primeira vista, embora /pre/ man-
tenha seu significado constante, não há uma única relação de escopo
semântico entre o seu significado e o significado do material a que
ele se adjunge.
Por exemplo, pré-vestibular significa antes do vestibular, e pré-
-escola significa antes da escola; a mesma relação de escopo se obser-
va quando o significado da base não é totalmente transparente, como
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
em pré-natal (“antes do nascimento”/*“antes do Natal”). No entanto,
“preconceito” não é algo anterior a um conceito, mas é um conceito an-
terior a alguma coisa (como ter informação/conhecimento); “pressen-
timento” não é algo anterior a um sentimento, mas é um sentimento
anterior a algo; “prever” não é um evento anterior a ver, mas sim, “ver
antes”. A própria palavra “prefixação” não significa algo que ocorre an-
tes da fixação, mas é a fixação de algo anterior a algo. Assim, ainda que
/pre/ mantenha seu significado constante, o escopo de anterioridade
muda, como no esquema em (18).
(18) (a) pré-estreia = intervalo de tempo antes da estreia: ___ estreia
(b) prematuro = intervalo de tempo antes de (estar) maduro:
___ maduro
(c) pré-requisito = requisito anterior a alguma coisa: requisi-
to ___
(d) pressentimento = sentimento anterior a alguma coisa: sen-
timento ___
O que esses dados mostram é que o escopo do prefixo, com o
mesmo significado, em ambas as suas formas (tônica e átona), muda
a depender da palavra, e esse comportamento não pode ser capturado
na visão tradicional. Em § 3, eu argumento que essa relação de escopo
pode ser capturada por uma regra de movimento sintático, que dá con-
ta de atribuir às estruturas as formas lógicas corretas. Pondo de lado,
por ora, a implementação teórica desse fenômeno, existem duas ou-
tras propriedades relacionadas ao prefixo /pre/ que devem ser leva-
das em conta. A primeira delas, também já observada por Villalva
e Gonçalves (2016), tem a ver com um certo número de instâncias de
“lexicalização” com o prefixo [pɾe]; para esses autores, por exemplo
“pretexto”, embora apresente o prefixo pre-, não tem nenhuma relação
com “texto”.
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
De todo modo, como já argumentado, o fato de não ser possível
uma recuperação “autônoma” do significado da base, como visto em
(10) e (11) e em pré-natal, não acarreta que não seja possível recuperar
o significado do prefixo, como pode ser visto nos exemplos em (19).
Com isso, eu não estou defendendo que todas as ocorrências do prefixo
são recuperáveis (na sincronia) ou que todas elas exibem um significa-
do composicional; minha proposta é apenas oferecer um tratamento
adicional (para um grande número de casos), em vez de simplesmente
listá-los como exceções.
(19) premeditar = decidir com antecedência; planejar (#meditar)
premonição = sensação, sonho ou visão do que está para ocor-
rer (*monição)
precaver = tomar medidas antecipadas para prevenir algo
(*caver)
prefácio = texto preliminar de apresentação (*fácio)
preceder = estar ou colocar antes de (#ceder)
preferir = escolher ou gostar mais de algo; pôr antes (#ferir)
Como mostram os exemplos em (19), casos comumente tratados
como lexicalização exibem, na verdade, um comportamento compo-
sicional com relação ao prefixo. A ideia de “anterioridade” é mantida
mesmo que o significado da base não possa ser sincronicamente recu-
perado. Listar como instâncias de lexicalização os exemplos em (19)
implicaria perder generalizações empíricas importantes.
Adicionalmente, outra propriedade interessante – também no-
tada por Villalva e Gonçalves (2016) – tem a ver com a relação entre
acento e leitura composicional. Como argumentam os autores, a lexi-
calização é uma característica das ocorrências da forma átona [pɾe],
mas não da tônica [‘pɾɛ]. Essa é uma generalização importante, que eu
vou incorporar à minha proposta em § 3: nesse caso, parece-se estar
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
diante de uma relação entre “ter realização átona” e “permitir signifi-
cado não composicional” (ou “lexicalizado”), de um lado, e “ter reali-
zação tônica” e “não permitir significado não composicional” de outro.
Essas generalizações, assim como a atribuição de acento nos pre-
fixos “livres” e as relações de escopo sintático e semântico, não po-
dem ser satisfatoriamente acomodadas em um sistema que considera
a formação de palavras diferente da formação de sentenças. Tampouco
pode um sistema que toma a palavra (mas não o morfema) como uni-
dade básica das operações morfológicas satisfatoriamente acomodar
essas propriedades sem recorrer a uma lista de exceções.
3. PREFIXAÇÃO E PRÉ-FIXAÇÃO: DERIVANDO PALAVRAS
NA SINTAXE
Em § 1, eu apresentei algumas propriedades dos prefixos em por-
tuguês e, em § 2, argumentei que alguns fenômenos (atribuição de acen-
to, não opacidade sintática e escopo semântico) não podem ser satis-
fatoriamente explicados à luz do pressuposto de que (i) as operações
morfológicas se aplicam a palavras e não a morfemas e (ii) regras mor-
fológicas são diferentes de regras sintáticas. Nesta seção, eu propo-
nho uma análise sintática para o fenômeno da prefixação, seguindo
o modelo da Morfologia Distribuída e mostro como uma análise nesses
termos é superior àquela oferecida pela visão tradicional.
Na MD, palavras (e bases) não são elementos primitivos; nesse
modelo, as unidades básicas são os morfemas. No que concerne aos pre-
fixos, eu vou assumir que eles podem ser predicadores (MEDEIROS,
2016; BASSANI, 2019) ou modificadores6. Como modificadores, eles
têm um valor adverbial e modificam o elemento a que se adjungem
sem alterar a sua categoria, como mostram os exemplos em (20) – de-
talhes irrelevantes omitidos.
6 Diferentemente de Villalva e Gonçalves (2016), para quem todos os prefixos são modificadores.
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Em (20a), vê-se o caso prototípico de prefixação: um nome como
escola (nP) recebe o elemento modificador (pré-), que não altera a sua
categoria (nP). Em (20b), o elemento modificado não é uma palavra ca-
tegorizada, mas uma raiz; portanto, a modificação ocorre antes da atri-
buição da categoria; essa manobra dá conta de capturar o fato de que,
em alguns casos, o prefixo mantém as suas propriedades semânticas
mesmo quando não é possível determinar o significado ou a categoria
de sua base, o que gera – também nesses casos – um tipo de derivação/
leitura composicional. Vale lembrar que, na MD, as raízes não são pro-
nunciadas ou interpretadas antes de serem categorizadas (EMBICK;
MARANTZ, 2008); assim, mesmos casos como (19) e (20b) seriam ins-
tâncias regulares de prefixação.
Em (20c), por sua vez, há uma dupla categorização: no primeiro
ciclo, há a formação do nome vestibular e, em seguida, a transformação
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
desse nome (nP) em um adjetivo (aP), o qual vai receber a modificação
do prefixo. Nessa análise, então, não é o prefixo que altera a categoria
da base, mas uma outra projeção funcional; ou seja, na presente aná-
lise, /pre/ não é um elemento categorizador - diferentemente do que
sugere a análise em (6).
Adicionalmente, esse tipo de análise prescinde do proble-
ma da negação prefixal não, já que, sendo manipulados pela sintaxe,
os morfemas funcionais podem estar acessíveis a certas operações sin-
táticas e a certas relações de escopo. No que diz respeito à ocorrência
como formas livres, como argumentado em § 2, alguns prefixos podem
aparecer “livres” desde que estejam no ambiente sintático apropriado
(RESENDE, 2017), e é esse ambiente sintático que vai, posteriormente,
licenciar a realização fonológica apropriada – tais como a atribuição
de acento (MARANTZ, 1997).
O último fenômeno arrolado em § 2, em favor da prefixação
na sintaxe, tem a ver com o escopo semântico do modificador /pre/.
Como mostrado, em alguns casos, o prefixo parece exercer escopo
sobre a peça morfológica a que se adjunge e, em outros, parece estar
sob o escopo da peça. Na esteira dos casos discutidos em § 2, pré-natal
é um período anterior ao nascimento, mas preconceito é um conceito
anterior a algo (um conceito “antecipado” ou “equivocado”), o que su-
gere duas estruturas sintáticas diferentes, como aparece em (21).
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Mais uma vez, omitindo detalhes adicionais, a ideia das estru-
turas em (21) – e, mais especificamente, do contraste entre (20b) e
(21b) – é capturar a diferença semântica de escopo, a qual é deriva-
da da estrutura sintática. No que tange à diferença de escopo, sendo
as estruturas derivadas na sintaxe, elas vão receber diferentes inter-
pretações, ou seja, vão receber em LF formas lógicas diferentes para
cada uma das estruturas. No caso prototípico, em que /pre/ significa
“intervalo de tempo anterior a”, o prefixo está em uma posição mais
alta, e sua interpretação pode ser formalizada como em (22a), em que
o prefixo denota uma função que tem como domínio um predicado
e retorna um predicado de tempo. Por seu turno, quando /pre/ está
em uma posição mais baixa, a interpretação não é mais a de um in-
tervalo de tempo, mas sim, de uma relação entre um predicado e uma
proposição, de modo que o predicado se sustenta em um intervalo
de tempo anterior à proposição, como formalizado em (22b).
(22) (a)∥pre ___∥ = λi.λi’.λP<i<e,t>>. i’ < i ∧ P(i).
(b)∥___ pre∥ = λi.λi’.λP<i<e,t>>.λφ<i, t>. i < i’ ∧ P(i) ∧ φ(i’).
Com base em (22a), “pré-escola”, por exemplo, significa um con-
junto de intervalos de tempo anterior ao intervalo de tempo da escola
– o mesmo vale para “prematuro”. Por sua vez, com base em (22b),
“pressentimento” significa um sentimento (= um predicado) que se
sustenta em um intervalo de tempo anterior à proposição (a “algo”) –
o mesmo se aplica a “pré-requisito”. Desse modo, é possível preservar
um único significado básico para o prefixo /pre/ – “anterioridade” –
e especificá-lo a partir da sua posição na estrutura.
Contudo, mesmo nesse sistema, duas questões ainda devem
ser explicadas. A primeira delas tem a ver com a observação óbvia
de que /pre/ é um prefixo, isto é, independentemente da sua interpre-
tação, ele aparece sempre à esquerda da base/raiz. Logo, a pergunta
remanescente é a de por que e como isso acontece.
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Como adiantado na introdução, eu sugiro que esse comporta-
mento pode ser explicado por uma regra de movimento pós-sintático
(EMBICK; NOYER, 2007), em MS, que vai mover o prefixo da sua posi-
ção baixa para uma posição mais alta, à esquerda da base/raiz. Uma vez
que essa regra se aplica em MS, na ramificação para PF, não vai ter in-
fluência na interpretação (pois a interpretação semântica é derivada
da estrutura sintática anterior à MS/PF), mas vai ter, por outro lado,
consequências diretas na realização fonológica das estruturas, ou seja,
/pre/ é sempre um prefixo. Todavia, ainda que esse tipo de movimento
seja possível na MD e dê conta de capturar o que acontece em termos
de escopo, a questão se desloca, então, para o que licencia/permite/
restringe esse movimento.
Como observa Mithun (2016), não há a priori uma motivação cla-
ra de por que as línguas recorrem a um tipo de afixação, em detrimento
de outro (prefixo, sufixo, infixo, circunfixo etc.), para codificar infor-
mações gramaticais ou lexicais das palavras. Ainda assim, Rice (2009)
chama a atenção para o fato de que as línguas exibem restrições (ou
preferências) fonológicas, sintáticas, semânticas e templáticas no que
tange à posição dos afixos; para a autora, “a ordem dos afixos pode
ser estipulada, não como consequência de algum princípio linguístico
geral, mas como uma questão de pura morfologia” (p. 34). Isso sugere
que “/pre/ ser um prefixo” é uma propriedade morfológica do portu-
guês; minha hipótese é a de que há uma restrição templática que de-
termina que /pre/ seja sempre um prefixo.
Rice (2009) conclui que “em algumas línguas, pelo menos para
alguns afixos, o ordenamento é estipulado por um templato. Eles po-
dem ser afixos que não interagem com outros, mas também podem
ser afixos que potencialmente entram em uma relação de escopo” (p. 49,
grifo meu). No bojo dessas considerações, eu defendo que o movimen-
to em MS, que dá conta de gerar a forma morfológica apropriada, é mo-
tivado por uma restrição templática do português – uma idiossincrasia
morfológica – de que /pre/ é sempre prefixo; logo, quando a estrutura
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
sintática chega em MS com /pre/ em uma posição mais baixa, a gramá-
tica lança mão de uma regra de movimento para anteder ao requeri-
mento de boa formação morfológica da língua.
Finalmente, um outro fenômeno a ser acomodado é o da atribui-
ção de acento. Como mostrado em (18), a forma prosódica do prefixo
não está associada a um único significado, isto é, ambas as realizações
– tônica e átona – aparecem com as duas leituras semânticas arroladas
– o que inviabilizaria, por exemplo, um tratamento em termos de alo-
morfia ou mesmo de homonímia. Nesse cenário, eu defendo que a atri-
buição do acento está ligada ao momento de adjunção do prefixo.
Na esteira de Marantz (2001) e trabalhos subsequentes, é no
domínio estrutural do primeiro categorizador que se negocia a forma
fonológica da estrutura; assim, eu proponho que /pre/ terá uma reali-
zação átona sempre que sua adjunção ocorrer abaixo do primeiro cate-
gorizador, mesmo nos casos em que o movimento é necessário. Assim,
com a adjunção de /pre/ antes de a estrutura fonológica da palavra
ser determinada, o prefixo comporá o material a ser computado para
a atribuição do acento, o que fará com que ele seja átono.
Motivação independente para essa análise é a observação de que,
como notado por Villalva e Gonçalves (2016), as formas “lexicaliza-
das” são sempre átonas. Essa análise é endossada pela teoria de fases
de Marantz (2001), na medida em que o significado especial também
é computado no nível da primeira categorização, e assim tem-se a pre-
visão de que o prefixo /pre/ só admite significado não composicional
(como em “pretexto”) se este for computado abaixo do primeiro cate-
gorizador, o que vai gerar uma pronúncia átona.
Nessa mesma visão, depois de a forma fonológica/prosódica
ter sido negociada (no primeiro ciclo), o prefixo /pre/ não pode mais
ser computado como parte (prosódica) da estrutura formada e, por-
tanto, receberá um acento próprio, o que gerará a forma tônica. Nessa
mesma perspectiva, a previsão é a de que a forma tônica sempre está
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
associada a um significado composicional, pois /pre/ se adjungiu
a uma estrutura cujo significado (e forma prosódica) já foi negocia-
do(a). Assim, mesmo em “pré-requisito”, em que (por hipótese), há o
movimento do prefixo, /pre/ só pode aparecer na sua forma tônica,
porque está fora do domínio estrutural do nP “requisito”. Desse modo,
essa análise dá suporte adicional para a conclusão de que a atribuição
de acento não pode ser determinada aprioristicamente.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste capítulo, tratei do fenômeno da prefixação do português,
focando nos prefixos. Primeiramente, eu apresentei algumas proprie-
dades fonológicas, morfológicas, sintáticas e semânticas dos prefi-
xos e, posteriormente, mostrei que alguns fenômenos relacionados
aos prefixos colocam um problema para a visão tradicional – inclusive,
para a observação de que a prefixação pode ser vista como um pro-
cesso “linear”. Em seguida, propus uma análise, dentro da Morfologia
Distribuída, para a prefixação e argumentei que alguns fenômenos
só podem ser acomodados em uma abordagem sintática para a forma-
ção de palavras.
Especificamente, defendi a hipótese de que diferentes leituras
de escopo relacionadas ao prefixo /pre/ podem ser capturadas lançan-
do mão de uma regra de movimento sintático, que é motivado por uma
condição templática de boa formação morfológica do português.
A princípio, essa análise defendida para o prefixo /pre/ pode ser esten-
dida para o prefixo /pos/, mas um tratamento mais acurado de outros
casos, bem como a investigação de certas postulações teóricas – in-
clusive no que concerne à derivação das estruturas e formas lógicas
– aguarda trabalhos futuros.
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
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LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
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LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
A PALAVRA NA MORFOLOGIA E NA
FONOLOGIA
Flaviane Romani Fernandes Svartman
(USP/CNPq)
Luciani Tenani
(Unesp/CNPq)
INTRODUÇÃO
A palavra é uma unidade linguística que, na tradição ocidental,
tem despertado o interesse de filósofos gregos e latinos desde a anti-
guidade clássica e a sua complexidade linguística continua a desafiar
os pesquisadores da linguagem na contemporaneidade. Dentre o leque
de abordagens dadas a esse objeto, lançamos luz àquela que proble-
matiza a não isomorfia necessária da palavra na morfologia e na fono-
logia. Nosso objetivo é tratar, na próxima seção, das noções de palavra
na morfologia e na fonologia, com base em dados do português brasilei-
ro (PB), apresentando evidências segmentais, rítmicas e entoacionais
desse domínio de análise. Na seção seguinte, aprofundamos a reflexão
sobre a interface morfologia-fonologia, sistematizando características
de compostos prosódicos e morfossintáticos, em uma subseção, e dos
clíticos e seus hospedeiros, noutra subseção.
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LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Os compostos podem ser definidos por um vocábulo formado
por dois ou mais semantemas1 que passam a constituir uma unida-
de de significação, como “gira” e “sol” > “girassol”. São especialmente
relevantes porque, fonologicamente, continuam a ser duas palavras,
por manterem seus acentos. Nesse caso, uma palavra na morfologia
corresponde a duas na fonologia. Os clíticos fonológicos são igualmen-
te relevantes para a problematização almejada porque se caracterizam
por não terem acento, uma propriedade que identifica a palavra na fo-
nologia, e, consequentemente, dependem de outra palavra que tem
acento, que passa a ser a palavra hospedeira do clítico. Essa relação
de dependência pode gerar dificuldades para o falante/ouvinte do PB
distinguir uma palavra de uma sequência de clítico e hospedeiro, como
em “com paixão” e “compaixão”, por haver uma configuração segmen-
tal e métrica muito semelhante entre essas estruturas. Esses são exem-
plos de não haver coincidência entre as fronteiras de palavras na mor-
fologia e na fonologia, tema que alinhava as reflexões deste capítulo.
1. A PALAVRA NA MORFOLOGIA E NA FONOLOGIA
Embora o uso do termo “palavra” seja cotidianamente comum,
defini-la não é uma tarefa simples, dado que podemos nos valer de di-
ferentes perspectivas para abordá-la.
Se tomamos como base a escrita, os limites da palavra podem
ser identificados por marcas gráficas que são separadores específicos,
como espaços em branco, quebras de linha, sinais de pontuação, le-
tras de traçado diferente ou consoante ocupando a posição final da pa-
lavra escrita (ROSA, 2011). Em português, além dessas marcas, o uso
de hífens também deve ser levado em conta na delimitação da palavra.
Por exemplo, o hífen pode diferenciar palavras compostas de pala-
1 De acordo com Monteiro (2002, p. 14-15), semantema é a parte da palavra em que se encontra
o significado lexical. Trata-se de uma espécie de morfema que concentra o núcleo significa-
tivo da palavra. Por exemplo, na palavra “belíssimas”, há o semantema [bel] e os morfemas
[íssim + a + s].
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LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
vras simples, embora também haja casos de palavras compostas cujas
fronteiras não são delimitadas por hífen, como em “girassol”. Em (1a),
os dois elementos delimitados por hífen formam uma palavra compos-
ta, já em (1b) os dois elementos separados pelo espaço em branco são,
cada um, uma palavra simples.
(1) a. guarda-chuva = 1 palavra composta
b. grande chuva = 2 palavras simples
Como observa Rosa (2011, p. 75), a palavra gráfica, como co-
nhecemos, é um artifício recente. Na escrita bustrofedônica dos gre-
gos (século VI a.C.), não havia qualquer separação entre palavras.
A escrita hieroglífica do Egito Antigo (5000 a.C. a 100 d.C.) delimi-
tava fronteira de palavra por um símbolo especial, o determinativo,
que tinha por função classificar as palavras. Nas escritas alfabéticas
(séculos I e II), as palavras eram delimitadas pelo uso de ponto entre
elas. Mesmo depois do uso de separadores, o seu emprego nem sem-
pre coincidiu com as fronteiras gráficas de palavras das escritas mo-
dernas. Preposições e palavras curtas eram unidas, de um modo geral,
às palavras seguintes (BISCHOFF, 1986, p. 173 apud ROSA, 2011, p.
76). Os separadores em textos antigos podiam refletir também está-
gios anteriores da língua, como no caso de formas como “tal vez” e
“por tanto”, grafadas separadamente mesmo depois de já serem con-
sideradas, respectivamente, como uma única palavra. Quanto ao as-
pecto gráfico, ainda cabe acrescentar que algumas palavras têm seus
significados reconhecidos por meio do registro ortográfico, como em
“seção”, “sessão”, “cessão”, que são três palavras distintas com a mes-
ma cadeia segmental e acentual, e, ainda, casos como em “com pressa”
e “compressa”, que também podem ter a mesma realização fônica, po-
rém a grafia favorece identificar que se trata de uma ou duas palavras.
Por outro lado, se tomamos como base a fala, como definimos
ou delimitamos a palavra? Os falantes conseguem depreender in-
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
tuitivamente a unidade “palavra” em um contínuo sonoro, com base
em estratégias prosódicas relevantes em sua língua, como através
da identificação do acento. Falantes do inglês segmentam o enunciado
em palavras com base no ritmo acentual. Uma vez que a maior parte
das palavras em inglês têm sílaba tônica inicial, os falantes dessa lín-
gua identificam a fronteira inicial da palavra. Já em português, o acen-
to ocorre sempre em uma das três últimas sílabas. Logo, os falantes
de português mais facilmente identificam a fronteira final das palavras.
A caracterização da palavra pode variar a depender do meio,
se falado ou escrito, e ainda se considerarmos as diferentes perspecti-
vas de estudo de suas características linguísticas: morfológica, fonoló-
gica ou sintática.
Neste capítulo, trataremos da concepção de palavra do ponto
de vista morfológico e fonológico.
1.1 A PALAVRA COMO UNIDADE DA MORFOLOGIA
A palavra como unidade da morfologia pode ser entendida
como elemento do vocabulário. No geral, palavra e vocábulo são ter-
mos utilizados para designar um conjunto de fonemas que expressam
um significado (MONTEIRO, 2002). Todavia, o termo “palavra” abrange
um significado específico em termos morfológicos, como um elemento
provido de significado lexical (MONTEIRO, 2002). Vocábulo, por sua
vez, é o termo utilizado para designar tanto elementos com significado
lexical, quanto elementos apenas com valor gramatical.
Os elementos com significado lexical são as chamadas “for-
mas livres”, que podem funcionar isoladamente como comunicação
suficiente (BLOOMFIELD, 1933; CÂMARA JR., 1967 apud CÂMARA
JR. 2011[1970]), formam enunciados com significação. São exemplos
de formas livres: nomes e verbos.
(2) O que você vai fazer?
a. Sair.
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Em (2a), o verbo “sair” é uma forma livre, pois forma enunciado
completo, com significação, em resposta à pergunta que o antecede.
Por sua vez, os elementos apenas com valor gramatical,
são as “formas dependentes” (CÂMARA JR., 1967 apud CÂMARA
JR. 2011[1970]), também chamados de instrumentos gramaticais
(MONTEIRO, 2002, p. 12). Câmara Jr. (1969, p. 37 apud CÂMARA JR.
2011[1970]) define “forma dependente” como “forma que não é livre,
porque não pode funcionar isoladamente como comunicação suficien-
te; mas também não é presa2, porque é suscetível de duas possibilida-
des para se disjungir da forma livre a que se acha ligada”. Preposições,
conjunções e determinantes são exemplos de formas dependentes. Em
(3), a preposição “de” é uma forma dependente, porque não pode for-
mar enunciado isoladamente para poder ser considerada uma forma
livre, e tem a função de relacionar gramaticalmente “gosto” e “café”.
Também não pode ser considerada uma forma presa porque pode apa-
recer disjunta da forma livre “café”, a que se encontra ligada fonolo-
gicamente, como ilustrado em (3b), onde aparece o elemento inter-
veniente “pouco” entre “de” e “café”; tão pouco está presa a “gosto”,
porque pode aparecer disjunta dessa forma livre, a que se encontra
ligada sintaticamente, como ilustrado em (3c), onde aparece o elemen-
to interveniente “muito” entre “gosto” e “de”.
(3) a. Gosto de café.
b. Gosto de pouco café.
c. Gosto muito de café.
Em suma, palavras são vocábulos do tipo “forma livre”, que são
providos de significação externa, concentrada no radical, vocábulos
providos de semantema. Vocábulos, também denominados “vocábu-
los formais ou mórficos”, conforme Câmara Jr., são formas não presas
mínimas, englobando formas livres (nomes e verbos) e formas depen-
2 Segundo Bloomfield (1933, p. 160 apud CÂMARA JR., 2011[1970], p. 69), formas presas só
funcionam ligadas a outras (como pro- de proscrever, prometer etc.).
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dentes (preposições, conjunções). Daí a conclusão de Monteiro (2002,
p. 12): “Toda palavra é vocábulo, mas nem todo vocábulo é palavra.”
1.2 A PALAVRA COMO UNIDADE DA FONOLOGIA
A palavra, como unidade da fonologia, é definida a partir de crité-
rios prosódicos, mais especificamente a partir de acento tônico. Assim,
a definição de palavra, em termos fonológicos, não se baseia na escrita
ou nos critérios utilizados na morfologia, como o significado lexical
ou o valor gramatical.
Câmara Jr. (2011)[1970] designa a palavra no domínio da fonolo-
gia como “vocábulo fonológico”, sendo esse resultante da divisão es-
pontânea na cadeia de emissão vocal, definido pela pauta prosódica,
determinada pelo acento tônico.3 Para o autor, é a unidade portadora
de um acento do nível 2 ou de um acento do nível 3, sendo o nível
2 correspondente ao acento principal de palavra e o nível 3 correspon-
dente ao acento principal de grupo de força.4 Nos exemplos em (4),
são vocábulos fonológicos “três”, portador de acento do nível 2, “ca-
dernos”, portador de acento do nível 3, além de “me deu” e “deu-me”,
ambos portadores de acento de nível 3.
(4) a. três cadernos
2 1 3 0
b. me deu
1 3
c. deu-me
3 0
3 “Assim, o vocábulo fonológico é uma unidade prosódica, caracterizada por um acento e dois
graus de atonicidade possíveis antes e depois do acento. Corresponde no plano mórfico à
“forma livre” de Boomfield.” – Câmara Jr. (1976, p. 37).
4 Notação da pauta acentual para Câmara Jr.: 0 = sílaba postônica; 1 = sílaba pretônica; 2 = síla-
ba portadora de acento principal de palavra; 3 = sílaba portadora de acento principal de grupo
de força. Quanto à expressão “grupo de força”, o autor a define como sequência de vocábulos
sem pausa.
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
A pauta acentual em (4b) e (4c) mostra a relação de dependência
fonológica das formas dependentes em relação às formas livres, na me-
dida em que “me”, com índices 1 e 0, tem o estatuto de sílaba pretônica
e sílaba postônica em “me deu” e “deu-me”, respectivamente, da mes-
ma maneira que, em (4a), “ca”, com índice 1, tem o estatuto de sílaba
pretônica e “nos”, com índice 0, tem o estatuto de sílaba postônica
na palavra “cadernos”. Portanto, conforme o conceito de vocábulo fo-
nológico de Câmara Jr., “me deu” e “deu-me”, expressões constituídas
por uma forma livre e uma forma dependente (proclítica e enclítica,
respectivamente, nos dois casos), formam um vocábulo fonológico.
Já as formas livres “três” e “cadernos” formam cada uma um único vo-
cábulo fonológico.
Outros termos que correspondem, em certa medida, ao conceito
de vocábulo fonológico são “palavra fonológica” ou “palavra prosódi-
ca”, doravante PW, do inglês “prosodic word” (NESPOR; VOGEL, 1986;
2007; SELKIRK, 1984; 1986; 1995). Tais denominações têm em comum
com o termo “vocábulo fonológico” o fato de se referirem a uma unida-
de fonológica que tem acento primário definido no léxico. Entretanto,
o arcabouço teórico envolvido na concepção desses termos é dife-
rente (estruturalismo no caso do vocábulo fonológico e gerativismo
no caso da palavra fonológica ou PW) e a delimitação deles também
pode ser distinta a depender da informação morfossintática que se
considera. Em (4b) e (4c), “me deu” e “deu-me” são considerados como
um único vocábulo fonológico, que abrange a forma dependente “me”
e a forma livre “deu”. Porém, se consideramos o critério de delimitação
de PW de Nespor e Vogel (2007), “deu” é PW, por ter acento, e “me”
é clítico prosódico, por ser desprovido de acento, e seu hospedeiro é a
palavra “deu”. O clítico “me” mais seu hospedeiro “deu” formam o do-
mínio prosódico denominado pelas autoras de grupo clítico: (meCl deu-
PW
)C5; (deuPW-meCl)C.
5 Cl: clítico (do inglês, clitic); PW: palavra prosódica (do inglês, prosodic word); C: grupo clítico
(do inglês, clitic group).
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Levando em conta o critério segundo o qual, para termos
uma palavra, do ponto de vista fonológico, é necessária a identifica-
ção de acento, nota-se a possibilidade de não isomorfia entre vocábulo
mórfico e PW.
Formas livres, ou seja, palavras (elementos com significado le-
xical), são vocábulos mórficos que consistem em palavras prosódicas
por possuírem acento lexical. Porém, formas dependentes (elementos
sem significado lexical, mas com valor gramatical) podem ser clíticos
fonológicos ou palavras prosódicas.
Em (5a), temos vocábulos mórficos que se distinguem em formas
livres (palavras) das classes dos nomes (“hospital”, “belo”) e dos ver-
bos (“hospitalizar”, “embelezar”) e, em (5b), formas dependentes clas-
sificadas como preposições (“a”, “de”, “para”, “sem”, “em” e “perante”)
e conjunções (“e”, “se” e “que”).
(5) a. hospital, hospitalizar, belo, embelezar
b. a, de, e, para, se, que, sem, em, nem, perante
Fonologicamente, independentemente da classificação morfoló-
gica, só são palavras os elementos que detêm acento lexical. Portanto,
do conjunto em (5) resulta o subconjunto em (6) contendo somente
palavras prosódicas.
(6) (hospital)PW, (hospitalizar)PW, (belo)PW, (embelezar)PW, (sem)PW,
(nem)PW, (perante)PW
Através da observação desse subconjunto, constata-se que for-
mas livres (palavras) são sempre palavras prosódicas, mas formas de-
pendentes podem ou não ser palavras prosódicas. Se possuem acento
lexical são palavras prosódicas, como “sem”, “nem” e “perante”, se não
possuem essa característica, são, como aparece em (7), clíticos fonoló-
gicos, correspondentes prosodicamente a sílabas átonas.
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
(7) (a)Cl, (de)Cl, (e)Cl, (para)Cl, (se)Cl, (que)Cl, (em)Cl
Mas como saber o estatuto prosódico da forma dependente,
ou seja, se tem ou não acento lexical? A resposta a esta pergunta está
no fato de as formas poderem ou não sofrer reduções. Formas de-
pendentes com estatuto de clítico fonológico estão sujeitas a redu-
ções; formas dependentes com estatuto de PW não sofrem redução.
Observemos os exemplos em (8):
(8) a. “sem” s[ẽj̃]m, *s[ĩ]m; “nem” n[ẽj̃]m, *n[ĩ]m
b. “em” [ẽj̃]m, [ĩ]m; “para” [paɾɐ], [pɾa], [pa]; “de” [de], [ʤɪ]; “e”
[e], [i]
Apenas “sem” e “nem” são formas dependentes que não podem
sofrer redução (respectivamente, *s[ĩ]m; *n[ĩ]m ) em (8), pois possuem
acento lexical e a sílaba que contém tal atributo não pode ser reduzida.
As demais formas dependentes são todas clíticos fonológicos por so-
frerem redução.
Essa é a primeira assimetria a se constatar quanto à classificação
de palavra do ponto de vista morfológico e palavra do ponto de vista
fonológico: formas dependentes não são consideradas palavras morfo-
logicamente, mas podem o ser fonologicamente, se forem detentoras
de acento lexical.
A segunda assimetria a ser notada entre fonologia e morfolo-
gia no que se refere à palavra é quanto ao tamanho. A PW não possui
necessariamente o mesmo tamanho do vocábulo mórfico, podendo
ser igual, menor ou maior que este.
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
A PW é do mesmo tamanho do vocábulo mórfico no caso de for-
mas livres (9a) e formas dependentes acentuadas (9b).6 Já é menor
que o vocábulo mórfico no caso de palavras compostas (9c) e de ele-
mentos que contém prefixos e sufixos portadores de acento próprio,
respectivamente, (9d) e (9e).7 Por sua vez, a PW é maior que o vocábulo
mórfico quando as palavras lexicais sofrem processo de ressilabifica-
ção (elemento em itálico em (9f)) ou no caso de clítico (forma depen-
dente não acentuada) mais hospedeiro (forma livre), (9g) e (9h). Cabe
notar que o caso de clítico mais hospedeiro se configura como um caso
de PW em concepções como a de Selkirk (1984; 1986) ou de Câmara
Jr. (2011)[1970], sendo que o termo utilizado por este último autor é
“vocábulo fonológico”. Na concepção de Nespor e Vogel (2007), clítico
e hospedeiro formam o domínio do grupo clítico, já referido anterior-
mente e a ser retomado na última seção.
(9) a. [(menina)PW]
b. [(sem)PW]
c. [(beija-)PW(flor)PW]
d. [(bi)PW(anual)PW]
e. [(hotel)PW(zinho)PW]
f. [mar] [aberto]; no nível pós-lexical: [(ma)PW] [([ɾ]aberto)PW]
g. ([cale]-[se])PW
h. ([a] [bola])PW
6 Sílabas em negrito: sílabas portadoras de acento primário (principal de palavra ou acento
lexical); colchetes “[ ]”: delimitam fronteira de palavra morfológica; parênteses “( )”: delimi-
tam fronteira de palavra prosódica; elementos sublinhados: prefixos ou sufixos.
7 É interessante notar que, nos casos de prefixos e sufixos com acento próprio, temos, muitas
vezes, formas presas que, portanto, não constituem um vocábulo mórfico, mas correspondem
a uma palavra prosódica.
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LINGUÍSTICA EM REDE
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Neste capítulo, detalharemos a assimetria entre a concepção
de palavra do ponto de vista morfológico e a concepção de palavra
do ponto de vista fonológico, levando em conta o caso dos compostos
(seção 2) e do clítico e o seu hospedeiro (seção 3). Todavia, antes cabe
mostrarmos a relevância da proposição da PW em português, como do-
mínio de ocorrência de processos fonológicos e independente da no-
ção morfológica de palavra ou de vocábulo mórfico.
A PW é o domínio da atuação de regras em PB, como: (a) eleva-
ção da vogal átona final; (b) harmonia da pretônica; (c) neutraliza-
ção das vogais médias em posição pretônica; e (d) atribuição de acen-
to tonal.
Os dados em (10) mostram que, em final de palavra, as vogais
médias-altas postônicas sofrem elevação, sendo /o/ realizado como [ʊ]
e /e/ realizado como [ɪ]. Mas o domínio de ocorrência dessa regra é o
final de PW e não de vocábulo mórfico, posto que as vogais médias-al-
tas no final do primeiro membro dos compostos (10b) também sofrem
elevação e não só as vogais na fronteira do vocábulo mórfico.
(10) a. ant[ɪ]s, men[ʊ]s, mesm[ʊ], surd[ʊ]
b. surd[ʊ]-mud[ʊ]; cin[ɪ]-club[ɪ]; aut[ʊ]-peças
Outra regra cujo domínio é a PW é a harmonia da pretônica
na variedade paulista do PB, dentre outras. As vogais médias-altas
pretônicas podem assimilar a altura da vogal da sílaba tônica adja-
cente. Os exemplos em (11) mostram que a harmonização se restringe
ao domínio da PW: em (11a), ocorre o alçamento das vogais médias-
-altas [e] e [o] em razão da vogal alta [i] na sílaba tônica; em (11b),
a vogal média-alta [e] de “semi” e “ex” não harmoniza em altura com a
vogal tônica [i] de “intensivo” e “tira”, pois “semi” e “ex” formam pa-
lavras prosódicas independentes; em (11c), também não há alçamen-
to da vogal pretônica [o] das formas verbais “p[o]deria” e “c[o]rreria”,
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
pois há uma fronteira morfológica importante – segundo Schwindt
e Collischonn (2004), o sufixo do futuro do pretérito “ria”, que tem vo-
gal alta, tem comportamento de PW, diferentemente do sufixo do pre-
térito imperfeito “ia”, que tem vogal alta também, mas não tem com-
portamento de PW, o que permite a harmonização vocálica, como
mostrado por e exemplificado em (11a).
(11) a. b[i]bida; f[i]rida; p[u]dia; c[u]rria
b. *s[i]mi-intensivo; *[i]x-tira
c. *p[u]deria; *c[u]rreria
Assim como as duas primeiras regras, a neutralização das vo-
gais médias pretônicas também tem como domínio a PW. Os dados em
(12) mostram que a vogal média-baixa sofre neutralização em posição
pretônica, (12a) e (12b), mas a neutralização se restringe ao domínio
da PW. Em (12c), a vogal média-baixa de “pré” não sofre neutralização,
pois forma PW independente de “nupcial”.
(12) a. b[ɛ]lo > b[e]leza
b. l[ɛ]ve > l[e]veza
c. pr[ɛ]-nupcial; *pr[e]-nupcial
Além de regras segmentais, como as apresentadas anteriormen-
te, também regras suprassegmentais têm o domínio da PW em por-
tuguês. O dado em (13), adaptado de Vigário e Fernandes-Svartman
(2010), mostra que a atribuição de acentos tonais tem como domínio
a PW na variedade paulista do PB, já que às sílabas tônicas de cada
um dos membros do composto “macro-endividamento” se encontram
associados acentos tonais (L* associado a “ma” de “macro” e H+L* as-
sociado a “men” de “endividamento”) e não apenas às sílabas tônicas
dos vocábulos mórficos. Se fosse assim, deveria ser encontrado acento
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
tonal associado apenas à sílaba tônica do segundo membro do com-
posto “macro-endividamento”.
(13) [(os homens)PW] [(temiam)PW] [(o macro-)PW(endividamento)PW]
| | | | |
L* H+L* L* H H+L*
Essas considerações gerais permitiram traçar o quadro complexo
sobre a noção de palavra, tendo sido apresentado um conjunto de evi-
dências da não isomorfia das fronteiras de palavra na morfologia e na
fonologia. Na próxima seção, detalharemos essa importante caracte-
rística observável nos compostos.
2. O COMPOSTO MORFOLÓGICO E O COMPOSTO PROSÓDICO
Do ponto de vista morfológico, o composto pode ser compre-
endido como um vocábulo formado por dois ou mais semantemas
(MONTEIRO, 2002) e, ainda, por dois acentos (sílabas em negrito em
(14)). Esses elementos, que passam a constituir uma unidade de signi-
ficação, podem aparecer graficamente unidos (14a), separados por hí-
fen (14b) ou separados por espaço em branco (14c). No entanto, cada
elemento mantém sua independência fonológica, como indicado em
(14a’, b’ e c’), o que configura a primeira assimetria entre os pontos
de vistas fonológico e morfológico a ser notada ao considerarmos
os compostos, a qual diz respeito ao tamanho: o domínio morfológico
da palavra é maior que o domínio fonológico, como demonstrado pela
delimitação da PW através dos parênteses e pela delimitação da pala-
vra morfológica através dos colchetes.
(14) a. passatempo a’. [(passa)PW (tempo)PW]
b. guarda-chuva b’. [(guarda)PW (chuva)PW]
c. Porto Alegre c’. [(Porto)PW (Alegre)PW]
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LINGUÍSTICA EM REDE
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
A partir da análise da variação gráfica dos exemplos em (14), cabe
o questionamento sobre a diferença entre um composto, um único vo-
cábulo formado por dois semantemas (15a), e uma locução, formada
por dois vocábulos (15b).
(15) a. guarda-chuva
b. grande chuva
Conforme Câmara Jr. (2011 [1970], p. 70), embora os exemplos
em (15a) e (15b) tenham a mesma pauta acentual, ou seja, em “guar-
da-chuva”, cada um dos elementos possui um acento, assim como em
“grande chuva”, “grande” possui um acento e “chuva” possui outro,
há diferenças entre eles no tocante à maior rigidez de construção. Entre
“grande” e “chuva” podem ocorrer elementos intervenientes e ambos
os elementos podem sofrer flexão de número, como pode ser visto em
(15’b). Já, como se atesta em (15’a), não é possível elemento interve-
niente entre “guarda” e “chuva” e o primeiro elemento de “guarda”
não pode sofrer flexão de número.
(15’) a. *guarda-muita-chuva; *guardam-chuvas
b. grande e estrondosa chuva; grandes chuvas de verão
Ainda quanto à rigidez da construção, como notado por Câmara
Jr., é possível a omissão, sem grande prejuízo de sentido, de um dos ele-
mentos em estruturas como em (15b), mas não como em (15a). Desta
forma, não há prejuízo de sentido ao se dizer “Peguei uma chuva”,
ao invés de “Peguei uma grande chuva”. Todavia, não é possível dizer
“Peguei o guarda” ou “Peguei a chuva” no sentido de “Peguei o guarda-
-chuva”. Levando em conta a rigidez estrutural e a definição de palavra
(ver seção 1 deste capítulo), podemos considerar morfologicamente,
no caso do composto, que estamos diante de apenas uma palavra.
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LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Essa mesma assimetria quanto ao tamanho da PW e o tamanho
da palavra morfológica é encontrada também em casos em que não te-
mos compostos do ponto de vista morfológico, mas elementos con-
tendo sufixos e prefixos com independência fonológica, ou seja, por-
tadores de acento. À semelhança dos compostos, no caso de vocábulos
formados por sufixos ou prefixos detentores de acento, a PW é menor
do que a palavra morfológica.8 Nos exemplos em (16), enquanto a pa-
lavra morfológica equivale respectivamente aos vocábulos “pré-es-
treia”, “ex-governador”, “supermercado”, “seriamente” e “cãozinho”,
a PW é menor que o vocábulo, pois equivale a cada domínio de acento.
Assim, temos as seguintes palavras prosódicas: “pré”, “estreia”, “ex”,
“governador”, “super”, “mercado”, “seria”, “mente”, “cão” e “zinho”.
(16) a. [(pré)PW(-estreia)PW]
b. [(ex)PW(-governador)PW]
c. [(super)PW(mercado)PW]
d. [(seria)PW(mente)PW]
e. [(cão)PW(zinho)PW]
Embora esses casos sejam semelhantes prosodicamente
aos compostos por envolverem dois acentos em um único vocábulo,
morfologicamente, estamos diante de elementos distintos. Os com-
postos são formados por composição, processo de formação de pa-
lavras diferente do processo de formação de palavras por prefixação
e sufixação, i.e., a derivação. Na composição, temos a formação de um
único vocábulo pela união de duas ou mais unidades de significação,
semantemas. Ao tomarmos os exemplos em (16d) e (16e), notamos
que os sufixos “-mente” e “-zinho” não tem o estatuto de semantema.
Isso posto, depreendemos que o composto na fonologia pode ser di-
8 Sobre prefixos e sufixos com estatuto de palavra prosódica em português, conferir, entre ou-
tros, Lee (1997), Schwindt (2000; 2001), Vigário (2003) e Toneli (2014).
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LINGUÍSTICA EM REDE
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
ferente do composto morfológico. Em ambos, sempre há mais de uma
PW, mas, diferentemente do composto morfológico, as palavras prosó-
dicas envolvidas na composição em fonologia não precisam consistir
em unidades de significação.
Quando estamos diante de compostos morfológicos, como
já dito, constituintes formados por mais de uma unidade de significa-
ção e mais de uma PW, questionamo-nos se o comportamento fono-
lógico desses elementos seria igual ao de locuções, nas quais também
temos mais de uma unidade de significação e mais de uma PW. Ainda
que locuções e compostos tenham a mesma pauta acentual, na medida
em que cada um dos elementos que os compõe possui acento próprio,
em português, há diferenças quanto à ocorrência de fenômenos fono-
lógicos envolvendo as palavras prosódicas no âmbito dos compostos
e as palavras prosódicas que constituem as locuções.
Vigário (2007; 2010) mostra que, em português europeu, pode
ocorrer elisão da vogal “e” da PW “grande” que forma a locução em
(17b) (indicado por: 0), mas não em (17a) (indicado por: *0), onde
a mesma palavra forma o composto, segundo Vigário (2007, p. 681).
(17) a. O golo foi marcado de fora da grande área! [j]/*0
b. Esse campo tem uma grande área de jogo *[j]/0
Em PB, Vigário e Fernandes-Svartman (2010) notam um com-
portamento diferenciado também para a atribuição de tons em pala-
vras prosódicas pertencentes a locuções e em palavras prosódicas per-
tencentes a compostos. A atribuição de acentos tonais é muito mais
frequente em palavras prosódicas não-cabeça9 quando compõem lo-
cuções (ex.: “engana malandros”; “menosprezava deslealdades”), in-
dependentemente do número de sílabas que compõem essas palavras,
9 Palavras prosódicas não-cabeça são aquelas que não portam o acento principal de dado do-
mínio prosódico.
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
do que em palavras prosódicas curtas (de até três sílabas) não-cabeça
quando compõem compostos (ex.: “o guarda-costas”; “minitorneios”).
Esse comportamento diferenciado entre palavras prosódicas
que compõem compostos e palavras prosódicas que compõem locuções
leva autores, como Vigário (2007, 2010) para o português, a postular
um domínio prosódico próprio, nomeadamente, o grupo de palavras
prosódicas, para dar conta dos fenômenos fonológicos que envolvem
compostos do ponto de vista fonológico, abrangendo elementos como
compostos morfológicos, vocábulos contendo prefixos ou sufixos acen-
tuados, numerais, siglas e acrônimos, entre outros.
Passemos agora à discussão de outro caso de assimetria entre
a concepção de palavra do ponto de vista fonológico e morfológico:
o domínio do clítico e seu hospedeiro.
3. O CLÍTICO E O SEU HOSPEDEIRO
A noção de palavra pode ser, como vimos, definida a partir de di-
ferentes arcabouços teóricos, considerados critérios linguísticos diver-
sos. Entre as definições, há, em comum, a propriedade de haver acen-
to para ser identificada palavra na fonologia. Essa propriedade tem a
consequência de gerar dois grandes grupos, no arcabouço da Fonologia
Prosódica (NESPOR; VOGEL, 1986): palavras acentuadas, rotuladas
como hospedeiro, e palavras não acentuadas, rotuladas como clítico fo-
nológico. Destaca-se que, em uma mesma classe de palavras, há aquelas
que podem ser palavras prosódicas e outras, clíticos fonológicos, como
exemplificado em (8) e há, ainda, comportamento variável de uma for-
ma, como a preposição “para”, que pode ter acento ou não: “para” >
“prá” > “pa” (MARCATO, 2014). Portanto, identificar processos foné-
tico-fonológicos e características morfossintáticas das palavras é um
campo de investigação bastante desafiador no escopo das relações en-
tre fonologia e morfologia.
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
É relevante salientar que o clítico fonológico é dependen-
te prosodicamente do hospedeiro, havendo evidências fonológicas
de que essa relação de dependência configura um domínio prosódico,
para abordagens que se assentam na linha do modelo relation-based
da Fonologia Prosódica (NESPOR; VOGEL, 1986). Nessa abordagem,
o clítico fonológico não é parte da PW necessariamente, consequente-
mente, haveria maior semelhança entre unidades da fonologia e mor-
fologia. Alternativamente, essa dependência é interpretada como par-
te da prosodização do enunciado, não havendo um domínio prosódico
específico, como previsto a partir do modelo end-based da Fonologia
Prosódica (SELKIRK, 1984; 1986), ou seja, o clítico fonológico pode
ser parte da PW ou de constituintes como sintagma fonológico e,
consequentemente, haveria menor coincidência entre as fronteiras
das unidades da fonologia e morfologia. Essa diferença de formaliza-
ção da prosodização dos clíticos está embasada no tipo de informação
sintática relevante para a formação do constituinte prosódico e em al-
ternativas de interpretação de processos fonológicos como evidências
de domínio prosódico. Soma-se que, em cada abordagem, há–ainda–
divergências específicas na formalização da prosodização dos clíticos,
como descreve Silva (2018).
Nesta seção, recortamos desse cenário de abordagens evidências
da distinção entre PW (de natureza lexical) e constituinte prosódico
formado por clítico e hospedeiro (de natureza pós-lexical). Uma evi-
dência dessa distinção é a janela de acentos no domínio da PW. O acen-
to não excede a terceira sílaba a partir da fronteira direita da PW, como
“falávamos”. Em sequência de hospedeiro e clítico, como “falávamo-
-nos”, a manutenção do acento na sílaba “la” é evidência de que o clí-
tico “nos” não faz parte da PW (VELOSO, 2012). Dito de outra forma:
entre “falávamos” e “nos” há uma relação de dependência prosódica,
mas permanece uma fronteira morfossintática entre elas.
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Outra evidência de que exista essa fronteira é a regra de neu-
tralização da átona final na fronteira da PW, apresentada por Bisol
(1996) e anteriormente exemplificada em (10a). Em (18), a neutraliza-
ção da vogal átona [e] ocorre tanto no pronome “me”, quanto na forma
verbal “leve”, o que sustenta a interpretação de o clítico não ser in-
corporado à palavra, constituindo-se uma fronteira morfológica en-
tre esse clítico e seu hospedeiro. A regra se aplica independentemente
da posição em que o clítico ocorre em relação ao seu hospedeiro, como
a comparação entre (18a) e (18b) mostra.
(18) a. me leve > m[i] lev[i]
b. leve-me > lev[i] m[i]
O sândi vocálico é, segundo Bisol (2000), a evidência principal
de que o clítico constitui com seu hospedeiro um domínio prosódico
pós-lexical, diferente do domínio da PW. O sândi vocálico é um proces-
so de juntura entre sílabas em fronteira de palavras, podendo resultar
em: degeminação, quando duas vogais iguais se fundem em uma sílaba
(“uma africana” > “um[a]fricana”); ditongação, quando duas vogais di-
ferentes são reestruturadas em uma sílaba (“no abajur” > “n[ua]bajur”);
elisão, quando uma de duas vogais diferentes é apagada (“uma opi-
nião” > “um[o]pinião”). A comparação entre os contextos de aplicação
da degeminação e elisão feita por Bisol (2000, p. 26) permite constatar
que: (i) a degeminação ocorre dentro de palavra entre fronteira mor-
fológica (19a), entre clítico e hospedeiro (19b) e entre palavras pro-
sódicas (19c); e (ii) a elisão da vogal /a/ não ocorre dentro de palavra
(19d), mas ocorre entre clítico e hospedeiro (19e) e entre palavras pro-
sódicas (19f). Portanto, a elisão não tem como domínio a PW, mas tem
como domínio fronteiras do clítico com seu hospedeiro ou fronteiras
de PWs. Vale acrescentar que a elisão da vogal /e/, em particular, é o
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
processo fonológico que se aplica, em PB, apenas na presença de um
clítico, como demonstrou Bisol (2005, p.175), por meio dos seguintes
exemplos: ocorre a elisão entre dois clíticos (19g), mas não entre clíti-
co e PW (19h), nem entre PWs (19i).
(19) a. reestabelecer > r[es]tabelecer
b. do oceano > [do]ceano
c. casa amarela > ca[za]marela
d. baunilha > *bunilha
e. uma hotelaria > u[mo]telaria
f. casa escura > ca[zes]cura
g. de um dia > “dum” dia
h. de amor > *[da]mor
i. cidade antiga > *cidadantiga
Por fim, problematizamos a relação de dependência fonológica
dos clíticos em relação ao seu hospedeiro, abordada na seção 2.2, e a
identificação de fronteiras de palavras, consideradas suas característi-
cas fonológicas e morfológicas. Se aplicada a pauta acentual, exempli-
ficada anteriormente em (4), ao substantivo “decoração” e ao sintag-
ma “de coração”, formado por preposição “de” e substantivo “coração”,
observamos (em 20a e 20b) que suas pautas acentuais são exatamente
iguais. Porém, apenas a preposição pode ter a vogal [e] alçada e a con-
soante [d] palatalizada, na variedade paulista do PB. O bloqueio desses
mesmos processos em (20a), em contraste com a aplicação em (20b),
permite a identificação da distinção entre cada estrutura gramatical.
Em contrapartida, observamos que o advérbio “depressa”, em (20c),
e o sintagma preposicionado “de pressa”, em (20d), são iguais quanto
53
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
à pauta acentual e à cadeia segmental, pois a preposição e a sílaba pre-
tônica sofrem os mesmos processos fonológicos. Nesses casos, Silva
(2018) demonstra, por meio de experimento de percepção, que o con-
texto sintático-semântico é a informação na qual os ouvintes se emba-
sam para identificar cada estrutura.
(20) a. decoração b. de coração c. depressa d. de pressa
11 1 3 1 1 13 1 3 0 1 3 0
Concluímos esta seção tendo problematizado algumas das prin-
cipais características dos clíticos em PB e deixamos de discutir, no en-
tanto, evidências da direção da prosodização dos clíticos, um tema
que tem relação com características morfossintáticas dos clíticos,
mas que foge ao escopo deste capítulo. Instigamos o leitor a aden-
trar nessas águas um tanto turvas em que os clíticos se encontram
ampliando a investigação sobre suas características morfossintáticas
e fonológicas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste capítulo, tratamos da complexidade da noção de palavra
na fonologia e na morfologia em PB com destaques a duas assimetrias
em torno dessa unidade linguística. A primeira assimetria diz respeito
à classificação de palavra do ponto de vista morfológico e do ponto
de vista fonológico: formas dependentes não são consideradas palavras
morfologicamente, mas podem o ser fonologicamente, se forem de-
tentoras de acento lexical. A segunda assimetria compreende o tama-
nho da palavra, podendo a palavra prosódica ser igual, menor ou maior
que a palavra morfológica. Fundamentalmente, é a propriedade de ter
acento que identifica palavra na fonologia, mas não na morfologia,
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
e que engendra essas assimetrias na medida em que os compostos
morfológicos têm dois acentos e os clíticos não têm acento.
Essas problematizações têm aplicação ao ensino fundamental,
tendo em vista a recorrência de hipossegmentações, como “denovo”
(de novo), “ajudime” (ajude-me), “pegalo” (pegá-lo). Essas grafias,
que se caracterizam pela ausência de marcas dos limites entre pa-
lavras na escrita, ocorrem predominantemente entre clítico e hos-
pedeiro, como demonstraram Fiel e Tenani (2018). Também hiper-
segmentações, como “tarde sinha” (tardezinha) e “vacarosa mente”
(vagarosamente) – cf. Tenani (2021) – estão especialmente relaciona-
das às reflexões que apresentamos sobre compostos, pois se caracteri-
zam pela presença do branco no limite de PWs que formam um com-
posto fonológico. Essas grafias dão pistas de que o acento de palavra
fonológica seja um critério importante em que alunos em processo
de aprendizagem das convenções ortográficas se embasam na produ-
ção textual em contraste com as convenções ortográficas que definem
as fronteiras gráficas da palavra a partir de informações morfossintá-
ticas principalmente.
Outra aplicação das questões apresentadas aqui diz respeito
às tecnologias relacionadas ao reconhecimento de fala (ASR – automa-
tic speech recognition), ou seja, programas computacionais que trans-
crevem a fala automaticamente. O aprofundamento do conhecimento
das características prosódicas que distinguem compostos de locuções
e que distinguem vocábulos simples do conjunto que inclui clítico pro-
sódico e seu hospedeiro é de grande valia, por exemplo, no aprimora-
mento futuro desses programas.
55
LINGUÍSTICA EM REDE
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
REFERÊNCIAS
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LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
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ESTUDO HISTÓRICO DO PADRÃO
CONSTRUCIONAL LATINO
[[XNI]-(Ĭ)TŪDŌ]S E DE SEUS
DESENVOLVIMENTOS [[XNI]-(I)DÃO]S E
[[XNI]-(I)TUDE]S NA LÍNGUA PORTUGUESA1
Natival Almeida Simões Neto
(UEFS-DLA-PPGEL)
INTRODUÇÃO
Neste capítulo, propõe-se uma análise construcional do esquema
que integra o sufixo latino -ĭtūdō (albĭtūdō ‘brancura, alvura’, bellĭtūdō
‘beleza’, grossĭtūdō ‘grossura, espessura’, mānsuētūdō ‘mansidão, doçu-
ra’) e dos esquemas que integram os sufixos portugueses -idão (escu-
ridão, podridão, vermelhidão, frouxidão) e -itude (amplitude, plenitude,
longitude, negritude), que se desenvolveram daquele primeiro elemen-
to latino. O -idão se desenvolveu de -ĭtūdō pela via popular, ao passo
1 Este trabalho traz resultados da pesquisa de pós-doutorado “Substantivos abstratos deadje-
tivais do latim ao português arcaico: uma abordagem construcional”, desenvolvida no âmbito
do Programa de Pós-graduação em Letras Vernáculas, da Universidade Federal do Rio Janeiro,
entre 2020-2021. Inscreve-se no âmbito do projeto “CONHPOR. Construcionário Histórico da
Língua Portuguesa: esquemas morfológicos e sintáticos do português em abordagens cons-
trucionais, relacionais e cognitivistas. Primeira etapa: o português arcaico (séculos XII-XVI)”
(CONSEPE-UEFS 116/2021).
59
LINGUÍSTICA EM REDE
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
que o -itude veio pela via culta. Cabe ressaltar que nenhum dos dois
desenvolvimentos goza de significativa produtividade no português
de uso corrente. Certamente por isso, receberam pouca ou nenhuma
atenção de estudiosos da morfologia da língua portuguesa.
Em relação ao paradigma construcional a ser adotado na análise,
opta-se pela vertente apresentada nos trabalhos de Booij (2010; 2017;
2020), Gonçalves (2016), Soledade (2013; 2018; 2019) e Simões Neto
(2017; 2021), que se inserem na Morfologia Construcional (MC). Nessa
abordagem, construções são pareamentos de forma e significado, e a
representação dessas é feita por meio de esquemas construcionais,
que unificam as dimensões formais (fonológicas, prosódicas, morfo-
lógicas e sintáticas) e funcionais (semânticas, pragmáticas e discur-
sivas) das construções. Um esquema é um recurso teórico que retrata
a habilidade dos falantes de, a partir de eventos de uso, abstraírem
e apreenderem padrões formais e semânticos recorrentes nas constru-
ções. Uma vez abstraído um dado esquema, os falantes são capazes
não só de interpretar realizações associadas a esse esquema, mas tam-
bém de criar novas realizações, mesmo que nunca as tenham ouvido
ou falado anteriormente.
Os formativos sufixais -ĭtūdō, -idão e -itude, objetos de estudo
deste capítulo, se adjungem a bases nominais, majoritariamente adje-
tivas, na formação de substantivos abstratos. Esse processo pode ser re-
presentado por meio de esquemas que têm as contrapartes formais
[[XNi]-ĭtūdō]S, [[XNi]-idão]S e [[XNi]-itude]S. Do ponto de vista semântico,
os substantivos abstratos derivados costumam apresentar um signifi-
cado genérico de ‘qualidade relacionada ao significado de XNi’, em que
XNi diz respeito às referidas bases nominais.
Os padrões construcionais [[XNi]-idão]S e [[XNi]-itude]S se inse-
rem em uma extensa rede que abarca outros padrões instanciadores
de substantivos abstratos denominais, tais como [[XNi]-eza]S (baixeza,
clareza, firmeza, safadeza), [[XNi]-ez]S (honradez, sensatez, timidez, estu-
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LINGUÍSTICA EM REDE
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
pidez), [[XNi]-ice]S (tolice, velhice, meninice, burrice), [[XNi]-iça]S (justiça,
injustiça), [[XNi]-ícia]S (malícia, pudicícia, blandícia), [[XNi]-ície]S (calví-
cie, imundície, crassície), [[XNi]-ia]S (alegria, teimosia, agrestia), [[XNi]-or]
S
(amargor, negror, ruivor) e [[XNi]-dade]S (simplicidade, felicidade, le-
aldade, bondade, obviedade). Essa rede existe desde a língua latina,
quando os formativos -idão e -itude existiam com a configuração -ĭtū-
dō, chega ao português arcaico2 e se preserva na língua portuguesa
contemporânea.
Feitos esses comentários iniciais, a estrutura do trabalho é a se-
guinte: (a) inicialmente, apresenta-se o que já foi o dito sobre o sufi-
xo -ĭtūdō; (b) no segundo momento, é feita a análise do padrão cons-
trucional [[XNi]-ĭtūdō]S, da língua latina, tendo os dados sido extraídos
dos dicionários bilíngues latim-francês de Gaffiot (2016) e latim-por-
tuguês da Porto Editora (2012); (c) o trabalho segue com a análise
dos padrões [[XNi]-idão]S e [[XNi]-itude]S, com base em palavras extra-
ídas do Dicionário Houaiss Eletrônico de Língua Portuguesa (DHELP),
de Houaiss e Villar (2009); (d) por último, são feitas considerações sobre
[[XAi]-idão]S no português arcaico (PA), com base em dados de Soledade
(2001, 2005), que trabalhou com a sufixação nominal no período arcai-
co, indo do século XIII a meados do XVI. Esse recorte específico permi-
te uma comparação mais acertada com os padrões [[XNi]-eza]S, [[XNi]-ez]
S,
[[XNi]-ice]S, [[XNi]-iça]S, [[XNi]-ícia]S e [[XNi]-ície]S, que foram estudados
por Simões Neto (2021) nesse mesmo arco temporal.
2 Entenda-se o português arcaico nos termos de Mattos e Silva (2008), que considera o seu
início do final do século XII e o seu término em meados do século XVI. A autora segue os
postulados de Ana Maria Martins e considera o texto Notícia de fiadores (1175) como o mais
antigo da língua portuguesa. O fim do período arcaico acontece ainda na primeira metade do
século XVI, quando começam as publicações das primeiras reflexões metalinguísticas sobre a
língua portuguesa.
61
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
1. O QUE JÁ FOI DITO SOBRE O PADRÃO [[XNI]-ĬTŪDŌ]S
As obras sobre formação de palavras em língua latina não são
abundantes. Entre os latinistas que se dedicaram a esse aspecto, des-
tacam-se White (1858), Cooper (1895), Olcott (1898), Maurer Júnior
(1959) e Väänänen (1968). Desses, apenas os três primeiros fizeram
menção ao sufixo -ĭtūdō. Seguindo a ordem cronológica, sejam toma-
dos inicialmente os comentários de White (1858), na obra Latin suffixes.
Esse autor apresenta o sufixo -(ĭ)tūdō junto com o sufixo -(ĭ)tas, suge-
rindo que eles façam parte de uma mesma rede semântica. São poucas
as considerações feitas por White (1858), essas se resumem em dizer
que: (a) o /ĭ/, que aparece em -ĭtūdo e -ĭtas, é uma vogal de ligação e não
faz parte do sufixo, pois há casos em que esse elemento não aparece,
como libertas ‘liberdade’, juventas ‘juventude’, honestūdō ‘honestidade’
e mansuētūdō ‘mansidão’; (b) os derivados com -(ĭ)tūdo e -(ĭ)tas tomam
como bases adjetivos e substantivos; (c) os significados que os sufixos
inserem nesses derivados são, na maioria dos casos, de ‘estado’, ‘con-
dição’ ou ‘qualidade’.
Cooper (1895), na obra Word Formation in the Roman Sermo
Plebeivs, retoma também a relação entre -(i)tudo e -(i)tas, mencionan-
do que os substantivos em -tudo são arcaísmos que foram mantidos
no latim vulgar e reapareceram na literatura pós-clássica, também
chamada de decadente. Segundo o autor, enquanto o latim clássico
lançou mão de formas com -(i)tas, o latim vulgar falado pelos plebeus
manteve o uso das formas em -(i)tudo. Esse uso, no entanto, nunca
foi abundante, mas sobreviveu na fala popular. Assim, desenvolvimen-
tos do sufixo -(i)tudo chegaram às línguas românicas, mesmo que em
uma quantidade pouco numerosa de palavras.
Por fim, as considerações de Olcott (1898), na obra Word
Formation of the latin scriptions–substantives and adjetives with spe-
cial reference to the Latin Sermo Vulgaris, vão no mesmo sentido que as
dos outros autores, reforçando o caráter arcaico do sufixo -tudo, que se
62
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
manteve na fala popular e na literatura pós-clássica, ainda que, nes-
sa última, segundo o autor, haja uma preferência pelo uso de formas
com os sufixos -or, -itia e -tas.
Em linhas gerais, os autores convergem na assunção de que
há uma origem arcaica e vulgar do sufixo -(i)tudo, que não foi muito
profícuo na produção literária clássica, mas que persistiu na passagem
do latim para as línguas românicas, o que inclui o português. Esse su-
fixo conviveu, desde o latim arcaico, com outros sufixos que formavam
substantivos abstrativos deadjetivais, como -or, -itia, -ities, -tas, -ia,
-ura, entre outros. Essa concorrência/coocorrência de afixos continua
a existir na língua portuguesa contemporânea.
2. O QUE PODE SER DITO SOBRE O PADRÃO [[XNI]-ĬTŪDŌ]S
EM UMA LEITURA CONSTRUCIONAL
Os esquemas morfológicos sufixais, nos termos da MC, devem
apresentar três propriedades essenciais: (i) a propriedade formal, res-
saltando o elemento morfológico recorrente na estrutura das palavras
derivadas; (ii) as classes de palavras envolvidas na derivação, sobretu-
do a do output; e (iii) a informação semântica. Para tratar dessas três
propriedades, sejam apresentadas as 89 palavras com -ĭtūdō, levanta-
das nos dicionários bilingues de latim. No excerto a seguir, são apre-
sentadas as palavras primitivas e as derivadas em -ĭtūdō, bem como
os seus significados entre aspas simples (‘’).
ăcerbus ‘acre, áspero’ → ăcerbĭtūdō ‘aspereza, amargura’
ācer ‘acre, amargo’ → ācrĭtūdō ‘amargor, amargura’
albus ‘branco, alvo’ → albĭtūdō ‘brancura’
ălĭtus ‘supernutrido, alimentado’ → ălĕtūdō/ ălĭtūdō ‘supernutrição’
altus ‘alto’→ altĭtūdō ‘altura, altitude’
amplus ‘grande’ → amplĭtūdō ‘grandeza’
63
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
angĕre ‘atormentar, sofrer’ → angĭtūdō ‘angústia, pesar’
ānxĭus ‘ansioso’ → ānxĭĕtūdō ‘ansiedade’
aptus ‘apto’ → aptĭtūdō ‘propriedade, atitude, aptidão’
ārēns ‘seco, árido’ → ārĭtūdō ‘aridez’
aspĕr ‘áspero’ → asprĭtūdō ‘aspereza’
ātĕr ‘preto, negro’ → ātrĭtūdō ‘negrura’
bĕātus ‘bendito, feliz’ → bĕātĭtūdō ‘felicidade’
bellus ‘belo’ → bellĭtūdō ‘beleza’
cānus ‘branco’ → cānĭtūdō ‘brancura’
castus ‘puro, casto’ → castĭtūdō ‘castidade’
cĕlĕr ‘célere, rápido’ → cĕlĕrĭtūdō ‘celeridade, rapidez’
celsus ‘elevado, alto’ → celsĭtūdō ‘elevação, altura’
certus ‘certo’ → certĭtūdō ‘certeza, certidão’
concinnus ‘proporcional, simétrico’ → concinnĭtūdō ‘simetria’
crassus ‘crasso, espesso’ → crassĭtūdō ‘espessura’
crēbĕr ‘espesso’ → crēbrĭtūdō ‘qualidade do que é espesso’
crispus ‘crespo, frisado’ → crispĭtūdō ‘crespidão’
dēlĭcātus ‘delicado’ → dēlĭcātĭtūdō ‘delicadeza’
dēsertus ‘deserto’ → dēsertĭtūdō ‘solidão’
dīrēctus ‘direito’ → dīrēctĭtūdō ‘direitura, alinhamento’
dĭsertus ‘eloquente, claro, expressivo’ → dĭsertĭtūdō ‘profanação,
eloquência’
dissĭmĭlis ‘dissemelhante’ → dissĭmĭlĭtūdō ‘dissemelhança’
dulcis ‘doce’ → dulcĭtūdō ‘doçura’
firmus ‘firme, sólido’ → firmĭtūdō ‘firmidão, firmeza, solidez’
fortis ‘forte’ → fortĭtūdō ‘qualidade de quem ou do que é forte’
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LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
gĕmĭnus ‘gêmeo’ → gĕmĭnĭtūdō ‘semelhança de gêmeos’
grăcĭlis ‘magro’ → grăcĭlĭtūdō ‘magreza’
grandis ‘grande’ → grandĭtūdō ‘grandeza’
gratus ‘grato’ → grātĭtūdō ‘gratidão’
gravis ‘grave’ → grăvĭtūdō ‘gravidade, peso’
grossus ‘grosso, espesso’ → grossĭtūdō ‘grossura, espessura’
hĭlăris ‘alegre, bem-humorado’ → hĭlărĭtūdō ‘alegria, bom humor’
hŏnestus ‘honesto’ → hŏnestĭtūdō ‘honestidade’
incertus ‘incerto’ → incertĭtūdō ‘incerteza’
ĭneptus ‘inapto’ → ĭneptĭtūdō ‘inaptidão’
ĭners ‘inerte’ → ĭnertĭtūdō ‘inércia’
ingrātus ‘ingrato’ → ingrātĭtūdō ‘ingratidão’
inquĭētus ‘inquieto’ → inquĭētūdō ‘inquietude’
intĕgĕr ‘íntegro, indiferente’ → intĕgrĭtūdō ‘integridade,
desinteresse’
in- + valēns ‘fraco, indefeso, impotente’ → invălētūdō ‘má saúde’
lætus ‘alegre’ → lætĭtūdō ‘alegria’
largus ‘abundante’ → largĭtūdō ‘abundância, generosidade’
lassus ‘exausto, cansado’ → lassĭtūdō ‘exaustão, lassidão, fadiga’
lātus ‘largo, amplo’ → lātĭtūdō ‘largura, amplitude’
latēns ‘latente, escondido’ → lătĭtūdō ‘latência’
laxus ‘largo, frouxo’ → laxĭtūdō ‘espaço largo, comidade’
lentus ‘flexível, indiferente, lento’ → lentĭtūdō ‘indiferença, apatia’
lēvis ‘leve’ → lēvĭtūdō ‘leveza’
magnus ‘grande’ → magnĭtūdō ‘grandeza’
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LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
mānsuēs ‘gentil, tratável’ → mānsuētūdō ‘doçura, bondade,
gentileza’
mĭsĕr ‘miserável, infeliz’ → mĭsĕrĭtūdō ‘miséria, pena, compaixão’
mollis ‘flexível’ → mollĭtūdō ‘flexibilidade’
multus ‘numeroso’ → multĭtūdō ‘multidão, número grande’
nĭgĕr ‘negro’ → nĭgrĭtūdō ‘negritude, negrura’
noxa ‘má ação, prejuízo, dano’ → noxĭtūdō ‘crime, culpa’
orbus ‘privado de um membro da família’ → orbĭtūdō ‘perda
dos filhos’
pænĭtēns ‘arrependido’ → pænĭtūdō ‘arrependimento, pesar’
perpĕrus ‘perverso’ → perpĕrĭtūdō ‘perversidade’
plānus ‘plano’ → plānĭtūdō ‘planura, planície, superfície plana’
plēnus ‘pleno’ → plēnĭtūdō ‘plenitude’
prōcērus ‘longo, alto’ → prōcērĭtūdō ‘alongamento, altura’
prōlixus ‘prolixo, difuso’ → prōlixĭtūdō ‘prolixidade, comprimento’
pulcher ‘belo’ → pulchrĭtūdō ‘beleza’
quĭētus ‘quieto’ → quĭētūdō ‘quietude’
rārus ‘espalhado, ralo, disperso’ → rārĭtūdō ‘fato de não estar
concentrado’
rēctus ‘reto, direito, justo’ → rēctĭtūdō ‘retidão, direitura, justiça’
salsus ‘salgado, espirituoso, sagaz → salsĭtūdō ‘sagacidade’
sānctus ‘santo’ → sānctĭtūdō ‘santidade’
scăbĕr ‘rude, áspero’ → scăbrĭtūdō ‘aspereza, rugosidade’
servus ‘servo’ → servĭtūdō ‘servidão’
sĭmĭlis ‘igual’ → simĭlĭtūdō ‘semelhança, analogia, similitude’
simplex ‘simples’ → simplĭcĭtūdō ‘simplicidade’
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LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
sōlus ‘solo, único’ → sōlĭtūdō ‘solidão’
sollĭcĭtus ‘solícito’ → sollĭcĭtūdō ‘solicitude’
sordēs ‘sujeira’ → sordĭtūdō ‘sujeira, sujidade’
spissus ‘espesso, denso’ → spissĭtūdō ‘espessura, densidade’
squālĭdus ‘esquálido, pálido’ → squālĭtūdō ‘esqualidez, palidez,’
tābēs ‘corrupção, putrefação’→ tābĭtūdō ‘corrupção, putrefação’
tæter ‘repulsivo, horrível’ → tætrĭtūdō ‘feiura, deformidade’
tardus ‘lento, arrastado’ → tardĭtūdō ‘lentidão, vagarosidade’
temĕre ‘ao acaso, sem pensar’ → tĕmĕrĭtūdō ‘negligência, irreflexão’
turpis ‘torpe’ → turpĭtūdō ‘torpeza’
valēns3‘forte, robusto’ → vălētūdō ‘estado de boa saúde’
Uma vez que os esquemas morfológicos na abordagem constru-
cional devem dar conta de demandas formais (fonológicas, morfos-
sintáticas etc.) e funcionais (semânticas, pragmáticas etc.), a análise
dos dados explicitados levará em consideração todos esses aspectos.
Em relação à contraparte formal do esquema, sejam feitas inicialmen-
te as considerações de ordem fonológica. Nesse sentido, o primeiro
fato que se pode afirmar é que o sufixo recorrente nas formações de-
rivadas é -tūdō, como observara White (1858). O /ĭ/ e o /ĕ/ que antece-
dem o formativo sufixal são vogais de ligação, que, por serem muito
frequentes nas derivações, acabam se incorporando ao sufixo. Essas
vogais são de duração breve, havendo dois casos de -ĕtūdō (ălĕtūdō,
ānxĭĕtūdō) e 82 de -ĭtūdō. Há outros cinco casos com a terminação
-ētūdō (inquĭētūdō, invălētūdō, mānsuētūdō, quĭētūdō e vălētūdō), po-
rém, nesses casos, o /ē/ integra ou se comporta como um resquício
da raiz da palavra base. Nesses contextos, entende-se que a variante
sufixal seja -tūdō, sem vogal de ligação. As razões para o uso da vogal
de ligação /ĕ/, em detrimento de /ĭ/, não são muito claras, mas, a partir
3 Particípio presente do verbo valēre, donde vem certamente o /ē/ da forma derivada.
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LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
da observação de ălĕtūdō e ānxĭĕtūdō, pode-se argumentar que houve
processos de dissimilação do /ĭ/, em face da presença de uma vogal /i/
(breve, média ou longa) na estrutura da palavra input.
Outro aspecto fonológico que merece comentário são os casos
de haplologia, metaplasmo por subtração que consiste na perda de seg-
mento medial, normalmente por causa da existência de um segmen-
to idêntico ou similar. Em português, os exemplos clássicos são ‘sau-
dade → *saudadoso → saudoso’ e ‘trágico-cômico → tragicômico’. Entre
os dados analisados do latim, são vistos ‘inquĭētus → *inquietĕtūdō →
inquĭētūdō’ e ‘quĭētus → *quietĕtūdō → quĭētūdō’. Há uma perda do seg-
mento /et/, que se repete na cadeia fonológica das palavras esperadas
como outputs do processo derivativo. A haplologia que acontece nesses
outputs previsíveis é posterior à derivação. A importância de ressaltar
esse aspecto se dá pelo fato de não haver necessidade de considerar
que, em ‘inquĭētus → inquĭētūdō’ e ‘quĭētus → quĭētūdō’, haja uma va-
riante sufixal -ūdō, que se somaria a -tūdō, -ĭtūdō~ e -ĕtūdō.
Também de ordem formal é a discussão acerca das categorias
de inputs e outputs nas formações estudadas. Pode-se notar que os
exemplos listados apontam sempre um output do tipo substantivo.
A categoria dos inputs pode variar, mas todas as possibilidades são ca-
tegorias nominais. A maioria dos inputs é adjetivo (mollis, -e → mollĭtū-
dō; nĭgĕr, -gra, -grum → nĭgrĭtūdō; plēnus, -a, -um → plēnĭtūdō). Os ou-
tros casos são de substantivo (sordēs → sordĭtūdō), partícipio passado
(salsus4 → salsĭtūdō) e particípio presente (valēns5 → vălētūdō), sendo
esses dois últimos formas nominais do verbo. Há um caso ainda de an-
gĭtūdō, que utiliza a raiz do verbo angĕre. Não foi encontrada forma no-
minal que pudesse ser elencada como base para essa realização. Assim,
excetuando esse caso único, os inputs são todos nominais, e os outputs
são todos substantivos. Face ao exposto, a contraparte formal do es-
quema pode ser apresentada da seguinte maneira: <[[XNi]-(ĭ/ĕ)tūdō]Sj>.
4 Particípio passado de sallĕre
5 Particípio presente do verbo valēre, donde vem certamente o /ē/ da forma derivada.
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LINGUÍSTICA EM REDE
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Em relação à contraparte semântica, não há razões para suge-
rir algo de diferente ao que já está posto por outros autores. O sig-
nificado do esquema está relacionado às propriedades abstratas de
“QUALIDADE/ESTADO/CONDIÇÃO” relacionadas ao significado
do input. Há um caso de ‘laxus → laxĭtūdō’, em que a forma derivada
apresenta o significado de ‘espaço largo, comodidade’, ou seja, algo
mais concreto. Sem ter, ainda, maiores explicações, não parece pro-
blemático aventar a possibilidade de que o significado possa ter se es-
tendido por metáfora ou metonímia, como aconteceu, no português,
com certidão, que significa tanto ‘certeza, precisão’ quanto ‘um docu-
mento oficial’. Face ao exposto até aqui, o esquema da construção lati-
na, enfim, pode ser sistematizado, como:
<[[XNi]-(ĭ/ĕ)tūdō]Sj ↔ [QUALIDADE/CONDIÇÃO/ESTADO
RELACIONADO A SEMNi]j>
Pode-se afirmar que o esquema latino era produtivo, em todos
os sentidos que esse rótulo possa assumir nas análises morfológicas.
Era produtivo no sentido de ser gerativo, uma vez que, mesmo sendo
um resquício do latim arcaico, o padrão seguiu formando novos itens,
nos períodos clássico e pós-clássico. Pode ser chamado de produtivo
também na medida em que o padrão se mostra passível de extensão
categorial e semântica. A classe preferencial do input é o adjetivo,
mas admitem-se, também, substantivo, particípio passado, particípio
presente e temas verbais. Pesa, ainda, o fato de os derivados serem
substantivos abstratos em sua maioria, mas havendo a possibilidade
de substantivos concretos, ainda que de maneira mais remota. Todas
essas possibilidades são reflexos da produtividade do esquema.
3. O QUE PODE SER DITO SOBRE OS ESQUEMAS
CONSTRUCIONAIS [[XNI]-IDÃO]S E [[XNI]-ITUDE]S
Os padrões construcionais [[XNi]-idão]S e [[XNi]-itude]S, do portu-
guês, mantêm as mesmas propriedades do esquema originário latino.
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LINGUÍSTICA EM REDE
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Foram coletadas, no DHELP, 62 formas em -idão e 41 formas em -itu-
de. Entre as formas com -idão, há 17 herdadas do latim e 45 criadas
no português. Sejam apresentadas essas formas:
heranças do latim: acridão – amplidão – aptidão – asperidão –
certidão – crassidão – crespidão – firmidão–gratidão – grossidão
– ingratidão – lassidão – lentidão – multidão – retidão – servidão
– solidão.
criações do português: amarelidão – bastidão – branquidão –
brusquidão – brutidão – densidão–devassidão – escravidão – escro-
tidão – escuridão – espessidão – exatidão – fortidão – fresquidão
– frouxidão – imensidão – inaptidão – ineptidão – inexatidão – la-
xidão – levidão – lobreguidão – longuidão – louridão – machidão
– mansidão – mornidão – mouquidão – negridão – podridão – pou-
quidão – pretidão – prontidão – relaxidão – robustidão – rouquidão
– roxidão – ruividão – sequidão – sobejidão – sofreguidão – vagui-
dão – vastidão – vermelhidão.
Em relação aos dados de -idão, nota-se que não há variantes
-edão e dão. Ou seja, a vogal de ligação /i/, que já aparecia no latim,
se integra ao sufixo português, não havendo dados que apontem para
o contrário. As categorias dos inputs são as mesmas do esquema latino.
A maioria dos inputs é adjetivo, mas há casos de palavras que osci-
lam entre substantivo e adjetivo (escravo → escravidão, escroto → es-
crotidão, macho → machidão) e verbo (relaxar → relaxidão). Do ponto
de vista semântico, o significado das construções com -idão é o mesmo
do esquema latino originário, havendo dados de extensão por metá-
fora ou metonímia, como certidão, multidão e escravidão, que podem
ir além da noção de ‘qualidade/condição/estado’.
Ainda sobre esses dados do DHELP, vale comentar que, mesmo
nos casos de palavras dadas como criações do português, há corres-
pondências com formas latinas. São os casos de pares como fortidão
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LINGUÍSTICA EM REDE
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
X fortĭtūdō e negridão X nĭgrĭtūdō. Como não está no escopo deste tra-
balho questionar a informação etimológica do referido dicionário, es-
ses casos são mencionados apenas a título de constatação.
Outro aspecto que merece ser mencionado em relação às formas
levantadas é que muitas delas estão em situação de variação morfoló-
gica (SIMÕES NETO, 2018), seja com a forma divergente e culta -itude,
seja com outros sufixos semanticamente relacionados. São os casos
de: amplidão X amplitude, aptidão X aptitude, asperidão X aspereza,
brutidão X brutalidade, espessidão X espessura, fresquidão X frescura,
grossidão X grossura, levidão X leveza, longuidão X longura, machidão
X macheza, negridão X negritude, sequidão X secura e vaguidão X vague-
za. Nesses exemplos, as duas formas complexas partem de um mes-
mo input e têm o mesmo significado, mas, em quase todos os casos
mencionados, a forma em -idão se mostra menos usual para o falante
do português6, o que sugere que, mesmo tendo sido criadas palavras
na língua, esse sufixo não é o mais comumente acionado para a criação
de formas com o significado de ‘qualidade/condição/estado’.
Com base nas considerações feitas, as construções com -idão po-
dem ser representadas com o seguinte esquema:
<[[XNi]-idão]Sj ↔ [QUALIDADE/CONDIÇÃO/ESTADO RELACIONADO
A SEMNi]j>
Sobre as 41 formas em -itude, nota-se a existência de 24 herda-
das do latim, 15 criadas no português e duas formas oriundas de lín-
guas românicas. São estas:
heranças do latim: acritude – altitude – amplitude – aptitude –
beatitude – celsitude – fortitude – habitude – inquietude – lassitude
– latitude–longitude – magnitude – mansuetude – negritude – ple-
6 O único caso em que a forma em -idão tem prevalência de uso é aptidão, em detrimento de
aptitude.
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LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
nitude – pulcritude – quietude–retitude – similitude – solicitude
– solitude–torpitude – vicissitude.
transmissões inter-românicas: atitude (< do italiano attitudine) –
platitude ( < do francês platitude)
criações do português: angelitude – completitude – completude
– concretitude – concretude – decrepitude – excelsitude – finitude
– ilicitude – incompletude – infinitude – licitude – quietitude–re-
quietude – verossimilitude
Tal como aconteceu com o -idão, a vogal de ligação se juntou,
via de regra, ao sufixo em -itude. Nas formas terminadas em -etude, o
/e/ integra o input, não se agregando ao sufixo. Dessa maneira, as úni-
cas variantes sufixais são -itude e -tude. Especificamente sobre as cons-
truções do português, nota-se que há uma recorrência do já comenta-
do processo de haplologia, com casos de formas duplas que reforçam
a existência do processo (completitude X completude; concretitude
X concretude)7. No geral, a forma em que há perda de segmento medial
é a mais conhecida, apresentando-se como uma constante (decrépito
→ *decrepititude → decrepitude; finito → *finititude → finitude; lícito →
*licititude → licitude). Esse processo fonológico, como já comentado,
deve ser entendido como posterior ao processo morfológico. Por isso,
não há a necessidade de considerar uma variante -ude para formações,
como finito X finitude.
Do ponto de vista da categoria do input, observa-se nas constru-
ções vernaculares a tendência de haver adjetivos como inputs, porém
há casos em que a base é um radical nominal preso, como em angelitu-
de. Não houve casos de inputs do tipo substantivo ou particípio. A ca-
tegoria do output é sempre um substantivo abstrato, com o recorrente
significado de ‘qualidade/condição/estado’.
7 Nesses exemplos de formas duplas, o próprio DHELP, de onde foram tirados os dados, aponta
que a formação de completude e concretude se deu por haplologia.
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LINGUÍSTICA EM REDE
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Entre as formas herdadas do latim, há casos em que o input, quan-
do não é opaco semanticamente, é pouco transparente no português.
São os casos de lassitude, mansuetude, pulcritude e vicissitude. As bases
dessas formações, embora pudessem ser deduzidas no latim, não são
facilmente detectadas no português. Isso se aplica também às formas
transmitidas por via inter-românica. Os inputs de atitude ‘comporta-
mento ditado por disposição interior; maneira, conduta’ e platitude
‘qualidade do que é uniforme, regular, monótono’ não são evidentes
no português, a ponto de garantirem uma perfeita interpretação de
‘qualidade/condição/estado’.
Com base nas considerações feitas, o esquema construcional
que integra -itude deve ser formalizado da seguinte maneira:
<[[XAi]-(i)tude]Sj ↔ [QUALIDADE/CONDIÇÃO/ESTADO RELACIONADO
A SEMAi]j>
Ressalte-se que, nesse esquema, o input é um adjetivo, e o /i/
é um elemento opcional que pode ou não aparecer, por isso está entre
parênteses. Semanticamente, não há diferenças entre esse padrão e o
que integra o sufixo -idão.
4. O SUFIXO -IDÃO NO PORTUGUÊS ARCAICO E A
COMPARAÇÃO COM OUTROS SUFIXOS
Os dados de Soledade (2001; 2005) sobre a sufixação no portu-
guês arcaico indicam que o -idão era um sufixo visto em poucas reali-
zações. Os 11 registros encontrados pela autora são:
certidoen ~ certydão; firmidõoes; ingratidões;
liuridom; mansidoen ~ mansidõe; multidão;
podridom; servidõoe; similidom; sobegidoen;
vermelhidoen.
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LINGUÍSTICA EM REDE
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
A variação gráfica no registro dos sufixos pode estar relacionada
tanto a decisões editoriais, por parte de quem fez a edição do texto-
-fonte, quanto à evolução fonética do sufixo, que inclui etapas, como
-itudine(m) > -idoen > -idom > -idão. Dessas 11 formas encontradas,
cinco são criações do português arcaico (liuridom; mansidoen ~ mansi-
dõe; podridom; sobegidoen; vermelhidoen) e seis são heranças da língua
latina (certidoen ~ certydão; firmidõoes; ingratidões; multidão; servidõoe;
similidom).
Se consideradas as datações das formas atestadas no DHELP, so-
mam-se ao conjunto de palavras em -idão no português arcaico as se-
guintes 15 palavras: amarelidão, asperidão, branquidão, crespidão, es-
curidão, espessidão, frouxidão, grossidão, ingratidão, lassidão, levidão,
negridão, ruividão, solidão e vaguidão. Dessas, asperidão, crespidão,
grossidão, ingratidão, lassidão e solidão são dadas como heranças lati-
nas. Considerando os dados do DHELP e os de Soledade (2001, 2005),
são encontradas, no período arcaico, 15 criações do português e 12 he-
ranças do latim.
Quando se compara o conjunto de palavras com -idão com ou-
tros conjuntos, como os de -eza, -ice, -ez e -iça, estudados por Simões
Neto (2021), fica visível que o padrão [XNi-idão]S não foi tão inventivo
quanto os outros no português arcaico. Nota-se que existiu introdu-
ção de novos itens no léxico do português, mas em pouca quantidade,
e sem extensibilidade do padrão. As formas inovadoras do português
arcaico se restringem a inputs do tipo adjetivo. Em fases posteriores
da língua, passaram a aparecer substantivos nessa posição. Assim,
o esquema com -idão no português arcaico deve ser representado
da seguinte maneira:
<[[XAi]-idão]Sj ↔ [QUALIDADE/CONDIÇÃO/ESTADO RELACIONADO
A SEMAi]j>
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LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Vale ressaltar, ainda, que Soledade (2001, 2005) não encontrou
registros da forma -(i)tude no português arcaico. Das formas atestadas
no DHELP, são datadas como palavras do período apenas decrepitude,
latitude e longitude, sendo essas últimas casos de latinismos cuja da-
tação está entre os séculos XV e XVI. As datas de entrada expressas
no DHELP indicam que a maioria das palavras em -itude entrou na lín-
gua a partir do século XVII, ou seja, fora do arco temporal do português
arcaico e com forte ligação a movimentos de tendência culta e literária.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os estudos sobre padrões improdutivos na morfologia do portu-
guês ainda são poucos. Em geral, os olhares se voltam a padrões que dis-
põem de grandes quantidades de realizações e que seguem profícuos
no português contemporâneo. Os formativos improdutivos, então,
recebem breves comentários que reforçam o seu rótulo, sem explicar
o porquê dessa improdutividade e o que está por trás desse conceito.
O trabalho apresentado neste capítulo partiu do esquema origi-
nal latino <[[XNi]-(ĭ/ĕ)tūdō]Sj>, mostrando que, mesmo com a sua ori-
gem arcaica e com a recorrência maior de outros esquemas relacio-
nados, este se manteve produtivo no latim clássico e pós-clássico.
O referido padrão, durante as fases de ouro e de prata da língua latina,
seguiu atualizando o acervo de itens lexicais, admitindo novos signifi-
cados e novas configurações formais.
Essa produtividade no latim não se viu de imediato no português
com o sufixo -idão. No português medieval, esse sufixo é visto em pou-
cas realizações, sendo muitas delas heranças da língua latina. Nas cria-
ções do período arcaico, observa-se uma tendência a inputs do tipo
adjetivo e um significado mais cristalizado. Somente depois o padrão
construcional com -idão admitiu outros inputs e estendeu os seus sig-
nificados. O padrão com -itude, por sua vez, sempre se mostrou pouco
produtivo, com pouca inovação do latim para o português.
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LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
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LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
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77
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
DISCUTINDO A COMPOSICIONALIDADE
DE PALAVRAS COMPLEXAS FORMADAS
POR COMPOSIÇÃO NO PORTUGUÊS
BRASILEIRO
Elisângela Gonçalves
(PPGLin/UESB)
Rebeca Silva do Nascimento Campos
(PPGLin/UESB)
INTRODUÇÃO
Em pesquisas que analisam a complexidade morfológica, mais
especificamente que se voltam para palavras formadas pelo proces-
so de composição, alguns autores optam por um tipo de composto
por considerá-lo mais adequado para que a análise dos dados seja
mais verossímil, considerando que um ou outro tipo de composto
não corresponda sincronicamente (na atualidade), de fato, a um caso
de composição. Com isso em vista, este trabalho discute a fiabilidade
dos critérios adotados em tais pesquisas, buscando com isso contri-
buir com os estudos sobre complexidade morfológica. Para alcançar
esse fim, discutimos (i) os conceitos de palavra simples e de palavra
complexa e a composicionalidade de palavras formadas pelo processo
de composição, (ii) a validade da escolha de determinado tipo de com-
78
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
posto (morfológico ou morfossintático, de justaposição ou de agluti-
nação) para direcionar a análise da complexidade morfológica.
Além desta breve introdução, o capítulo conta com uma seção
de revisão de trabalhos que debatem a composicionalidade de tipos
de compostos no português brasileiro (MEDEIROS, 2013; VELOSO;
MARTINS, 2011) e no português europeu (VILLALVA, 1994; 2003;
2008; VILLALVA; PINTO, 2018), que serve como base para uma breve
análise desse tema na seção seguinte a essa. Finalizamos o trabalho
com as considerações finais.
1. A COMPOSICIONALIDADE DE PALAVRAS COMPOSTAS
NO PORTUGUÊS
De acordo com Villalva e Pinto (2018, p. 154), os conceitos de
“palavra simples” e de “palavra complexa” ainda são problemáticos,
visto que nem todas as palavras simples são igualmente simples, assim
“[...] como nem todas as palavras complexas o são em igual medida”1.
No que diz respeito às palavras complexas, foco deste trabalho, ainda
é necessário lidar com a diferença entre palavras complexas compo-
sicionais e palavras complexas lexicalizadas. A composicionalidade,
em morfologia, segundo Villalva (2008, p. 22), “é uma propriedade
das palavras cujas forma e interpretação são funções directas da for-
ma e da interpretação dos seus constituintes” (livraria, bomba-relógio).
1 Embora Villalva e Pinto (2018) não apresentem a definição de “palavra” que subjaz essa di-
ferenciação entre “palavra simples” e “palavra complexa”, Villalva (2008, p. 15, grifos da au-
tora), em cujo trabalho as autoras se baseiam, define “palavras”, no domínio da morfologia,
como “[...] formas analisáveis em unidades menores a que se dá o nome de constituintes
morfológicos8. No Português, por exemplo, para que uma dada estrutura seja reconheci-
da como uma PALAVRA é necessário que ela contenha um RADICAL (simples ou comple-
xo, como veremos em seguida), um especificador morfológico, chamado CONSTITUINTE
TEMÁTICO9, e um (ou dois) especificador(es) morfo-sintáctico(s), que realiza(m) a FLEXÃO
MORFOLÓGICA10.”. Assim, as “palavras simples” seriam “as palavras constituídas por um ra-
dical e os seus especificadores temáticos e flexionais (se forem requeridos pelo radical)” e as
“palavras complexas” aquelas “que integram um ou mais afixos (derivacionais ou modifica-
dores) ou dois ou mais radicais.” (VILLALVA; PINTO, 2018, p. 154). As autoras reconhecem a
relevância dessa distinção, mas focalizam no texto o problema apresentado no início desse
parágrafo.
79
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Já a lexicalização, de acordo com Villalva (2008, p. 23), vai no senti-
do inverso, resultando na perda de composicionalidade, “[...] que ac-
tua de forma aleatória e imprevisível, sempre que pelo menos um dos
constituintes morfológicos sofreu alterações semânticas ou formais
ou é desconhecido para os falantes” (armação (de óculos), claraboia).
A relação entre som e significado se torna, assim, arbitrária (como
acontece com as palavras simples), tornando opaco o reconhecimento
da palavra complexa a partir das partes que a compõem.
Alguns pontos controversos com relação à noção de composicio-
nalidade presentes na tradição gramatical são apontados por Villalva
(1994). Um deles é o fato de, na tradição gramatical, a descrição
dos compostos se limitar, na verdade, à descrição dos compostos le-
xicalizados, o que gera uma confusão entre composição e lexicaliza-
ção. Ainda,
Em alguns casos, também se verifica um equívoco entre aná-
lise morfológica e convenção ortográfica, que toma a ine-
xistência de espaços em branco, ou a presença de um hífen,
como critérios para a identificação de compostos. Esta con-
fusão é assinalada, por exemplo, em Said Ali (1931, 1964:
259), afirmando o autor que «não há ortografia uniforme
para as palavras compostas; umas quer a convenção que se
escrevam reunindo os termos em um só vocábulo; outras
se representam interpondo o traço d’união; para outras fi-
nalmente é costume escrever os termos separadamente
como se não houvesse composição alguma» (o sublinhado
é da minha responsabilidade) (VILLALVA, 1994, p. 390-391,
grifos da autora).
Para a pesquisadora, essa compreensão da composição como
um processo de lexicalização leva a uma equivocada distinção en-
tre justaposição e aglutinação como dois tipos de composição, visto
que, segundo ela, são, na verdade, dois estágios, graus ou tipos de le-
xicalização (com maior ou menor perda fonológica): “os compostos
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LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
por justaposição sofrem apenas uma lexicalização semântica, enquan-
to, nos compostos por aglutinação, a lexicalização é não só semânti-
ca, mas também formal, ou seja, a estrutura morfológica do composto
é perdida (VILLALVA, 1994, p. 296)2. A autora cita Nunes (1919), para
quem, em português, a aglutinação é o processo geral de composição,
não havendo distinção entre um nome composto e um simples, tendo
ambos se originado nas mesmas circunstâncias, considerando-se o as-
pecto semântico. Villalva (1994, p. 296) conclui, assim, que “[...] o que
o autor considera como compostos são formas lexicalizadas, ou seja,
palavras que perderam a sua estrutura interna”. Said Ali (1931-1964,
p. 260 apud VILLALVA, 1994)3 assume um posicionamento um pou-
co diferente desse, ao afirmar que não devem ser consideradas no rol
de palavras compostas em determinada língua aquelas que precederam
a sua formação ou que sejam importadas de outra língua, já que estas
serão interpretadas na língua alvo como palavras simples – a exemplo
da palavra vinagre (que significava “vinho azedo”), emprestada do ca-
talão. A questão da etimologia das palavras, ou seja, o fato de algumas
palavras só serem reconhecidas como compostas devido à sua história
é debatida mais à frente neste capítulo.
Diante dessa discussão, Villalva (1994) propõe a substituição
da separação entre aglutinação e justaposição pelo contraste entre
compostos lexicalizados (os que perderam a sua estrutura interna
e uma interpretação semântica composicional) e não lexicalizados (os
que conservam a sua estrutura interna e uma interpretação semântica
2 Agradeço a uma colega que, nesse sentido, chamou a atenção para o fato de, apesar de haver
critérios semânticos e fonológicos na consideração da lexicalização de palavras compostas,
muitas vezes, estes são tratados como se fossem um só, isto é, como se toda palavra que ti-
vesse perdido identidade fonológica tivesse, consequentemente, perdido identidade semân-
tica, mas parece não ser necessariamente assim. Veja-se como exemplo o vocábulo corrimão,
cujo sentido dos termos que o compõem pode ser recuperado para a compreensão da palavra
como um todo, embora tenha sofrido alterações fonológicas (alguns falantes do português
brasileiro foram consultados a esse respeito). Dessa forma, poder-se-ia pensar na existência
de um contínuo; não em uma separação binária entre compostos que estão totalmente lexi-
calizados e os que não o estão.
3 ALI, M. S. Gramática Secundária da Língua Portuguesa. 3. ed. São Paulo: Melhoramentos,
1931-1964.
81
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
composicional)4, os quais constituem processos produtivos de compo-
sição. Diante disso, Villalva (1994, p. 297) propõe a seguinte definição
para os compostos: “unidades morfológicas constituídas por um nú-
mero mínimo de duas variáveis lexicais” (radicais ou palavras)5.
Essa abordagem sobre justaposição e aglutinação se faz perti-
nente neste trabalho, pois esse é um critério empregado para a aná-
lise da composicionalidade de palavras compostas. Medeiros (2013),
por exemplo, ao buscar verificar se há diferença na forma como re-
conhecemos palavras simples e compostas do português brasileiro,
por meio de testes de decisão lexical, exclui compostos por aglutinação,
como é o caso de corrimão, utilizando apenas os compostos por justa-
posição, como autor-compositor, pois, segundo ela, os primeiros teriam
perdido sua característica composicional:
Diferentemente das compostas utilizadas no trabalho
de Fiorentino & Poeppel (2007) as palavras compostas utili-
zadas no presente trabalho foram formadas por um proces-
so de composição por justaposição, ou seja, possuem um hí-
fen6. Foi feita essa opção devido ao fato de que as palavras
do PB formadas por aglutinação tendem a perder letras
ou fonemas e/ou são formadas por bases não recorrentes
na língua e com isso muitas acabam perdendo a identi-
dade de palavra composta (ex.: aguardente, arquipélago).
Seguindo esse raciocínio as compostas por justaposição
do PB se assemelham muito mais às compostas do inglês
4 Villalva (2008) aborda diferentes casos de lexicalização semântica, formal, morfológica.
5 São unidades lexicais “formas que compõem o léxico de uma língua: radicais e afixos, pala-
vras e sequências de palavras lexicalizadas.” (VILLALVA; PINTO, 2018, p. 152).
6 Essa é uma questão bem discutível, considerando, inclusive, a argumentação de Villalva ex-
posta neste capítulo de que não é pertinente considerar um critério ortográfico para consi-
derar o que vem a ser justaposição, dado que critérios ortográficos não retratam exatamente
processos morfológicos. Há palavras compostas cujos termos são separados por um espaço
em branco (olho gordo), outras com a presença de um hífen (guarda-roupa) e outras, ainda,
grafadas com os termos em um único vocábulo (contracheque). Trata-se de uma questão de
convenção, como mencionado por Said Ali (1931) citado por Villalva (1994). Sob o critério
apresentado por Medeiros (2013), com a aprovação do novo acordo ortográfico, implemen-
tado no Brasil no ano de 2016, palavras compostas que não são mais escritas com um hífen,
como antiácido e toxicodependente, deixariam de ser consideradas compostas?
82
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LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
que as formadas por aglutinação, pois nelas ambos os cons-
tituintes mantém [sic] todas as suas letras e são bases livres
(MEDEIROS, 2013, p. 24).
Outro critério estabelecido para o estudo da complexidade
em compostos é a distinção entre compostos morfológicos e compos-
tos morfossintáticos. Ao estudar esses tipos de compostos, Villalva
(2003) põe em xeque a distinção entre eles que tome o critério semân-
tico como base, dada a clara proximidade semântica entre ambos:
Quadro 1. Distinção entre compostos morfológicos e morfossintáticos sob o ponto
de vista semântico
Compostos morfológicos Compostos morfo-sintáticos7
Herbívoro papa-formigas
(= X que come ervas) (= X que come formigas)
Biblioteca guarda-jóias
(= depósito de livros) (= depósito de jóias)
luso-brasileiro surdo-mudo
(= português e brasileiro) (= surdo e mudo)
Fonte: Villalva (2003, p. 971).
A autora apresenta, assim, um critério morfológico para esta-
belecer essa distinção, tomando o núcleo como base (os compostos
morfológicos por modificação, por exemplo, possuem núcleo à direita,
lugar em que se aplicam as marcas de gênero e de número: cronôme-
tro/ cronômetros).
7 Embora, conforme a ortografia vigente do português, o vocábulo morfossintático seja grafada
sem hífen e com ss, todas as vezes em que fazemos citação direta (quadros 1 e 2 e exemplo
(1)), apresentamos a grafia da mesma forma que se encontra na fonte.
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LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Quadro 2. Distinção entre compostos morfológicos e morfossintáticos sob o ponto
de vista morfológico
Compostos morfológicos Compostos morfo-sintácticos
luso-brasileiro surdo-mudo
luso-brasileira surda-muda
cf. *lusa-brasileira cf. *surdo-muda
luso-brasileiros surdos-mudos
cf. *lusos-brasileiros cf. *surdo-mudos
Fonte: Villalva (2003, p. 971).
Assim, o composto morfológico é definido como aquele “que
concatena radicais segundo os princípios da formação morfológica
de palavras”, ou seja, é aquele cujas marcas de número e de gênero
são adicionadas no final e que requer uma vogal de ligação entre os ra-
dicais: “cidadãs luso-brasileiras” (VILLALVA, 2003, p. 971). Villalva
(1994) chama a atenção para o fato de esse tipo de composto ter baixa
produtividade no português, consistindo em empréstimos de outras
línguas, estando muito presentes no domínio das terminologias téc-
nicas e científicas. O composto morfossintático, por seu turno, é visto
como “um processo híbrido de formação de palavras, no qual se conju-
gam propriedades das estruturas sintáticas e propriedades das estru-
turas morfológicas” (VILLALVA, 2003, p. 971).
Villalva (2003, p. 975) distingue dois tipos de relação que se
dá entre os radicais dos compostos morfológicos: (i) de modificação
(formas com núcleo à direita: pirotecnia) ou uma relação de coordena-
ção (formas com relação equivalente: cidadão luso-brasileiro–“cidadão
que é cumulativamente português e brasileiro”). Os morfossintáticos,
por sua vez, apresentam três estruturas: (i) estrutura de adjunção,
em que o segundo elemento especifica o primeiro, como em bomba-
-relógio, que é um tipo específico de bomba que é acionada pela conta-
gem regressiva de um relógio, que teve um tempo programado para ex-
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LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
plodir; (ii) estrutura de conjunção, em que as palavras se encontram
coordenadas, todas se somando igualmente para o significado do todo,
como em autor-compositor-intérprete; (iii) estrutura de reanálise,
que se trata de uma palavra que carrega a noção de verbo-comple-
mento, como em porta-voz (“pessoa que fala pública e oficialmente
em nome de outra pessoa, de um grupo, país ou organização: por-
ta-voz da presidente emite comunicado oficial” – Dicionário Online
de Português (Dicio).
Villalva (2003) também estabelece uma distinção entre compos-
tos morfossintáticos e expressões sintáticas lexicalizadas (conforme
(1) a seguir):
(1) (a) compostos morfo-sintácticos
bomba-relógio
trabalhador-estudante
surdo-mudo
abre latas
(b) expressões sintácticas lexicalizadas
pés de galinha
ministro da educação
amor-perfeito
fita magnética
primeiro-ministro
curto-circuito (VILLALVA, 2003, p. 979)
A autora se vale do seguinte critério para estabelecer essa
distinção:
[...] qualquer sequência que possua uma estrutura idêntica
à de (2a) [(1a) neste capítulo] pode ocupar uma posição sin-
85
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
táctica terminal – estas sequências são compostos morfo-
-sintácticos; as sequências sintácticas estruturalmente idên-
ticas às formas de (2b) [(1b)] só ocupam posições sintácticas
terminais quando a sua interpretação semântica não é com-
posicional – estas sequências são expressões lexicalizadas
[...] (VILLALVA, 2003, p. 979).
Dois pontos que se destacam na discussão sobre os compostos
se relacionam aos compostos morfológicos. O primeiro diz respei-
to à sua baixa produtividade8 no português; o segundo está relacio-
nado à sua semelhança ou proximidade com palavras simples, o que
faz pesquisadores não atribuírem sentido à sua análise entre os com-
postos no português brasileiro contemporâneo, a exemplo de Veloso
e Martins (2011):
Tendo em mente (i) a limitação quantitativa do léxico forma-
do pelos “compostos morfológicos”, (ii) o caráter discutível
da sua representação composicional na maioria dos falan-
tes do português, (iii) o facto de a informação etimológica
só estar disponível em resultado de uma experiência cultu-
ral particular e, finalmente, (iv) que muitas destas palavras
entram já formadas no léxico português (como empréstimos
lexicalizados, diretamente importados do latim ou do grego
ou através de outras línguas), podemos considerar a “com-
posição morfológica” um processo escassamente produtivo
na formação de palavras em português (na medida em que
é diretamente responsável pela formação de uma quantidade
muito diminuta de entradas lexicais) (VELOSO; MARTINS,
2011, p. 568).
8 A produtividade é uma propriedade dos processos de formação de palavras que diz respeito
à medida da frequência do seu uso. Se um dado processo de formação de palavras é muito
frequentemente usado, então esse é um processo muito produtivo, se, pelo contrário, um
processo de formação de palavras for raramente usado, então será um processo muito pouco
produtivo.
A identificação do grau de produtividade de um processo de formação de palavras não é uma
operação fácil de definir, menos ainda de realizar e, no que diz respeito à morfologia do por-
tuguês, está absolutamente por fazer. (VILLALVA, 2008, p. 28).
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LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Os autores não deixam de considerar, todavia, que esse consiste
em um processo morfológico para um grupo minoritário de falantes9,
haja vista a criação de neologismos como os apresentados em (2):
(2) Palavras potenciais do português formadas por “composição
morfológica” e passíveis de processamento composicional em fa-
lantes com conhecimento explícito da história da língua:
[[sapato][logia]]
[[filo][grafia]]
[[fono][metria]]
[[helio][técnica]]
[[hipo][fobia]] (VELOSO; MARTINS, 2011, p. 568-569)
Villalva (2003) também aborda a questão da marginalidade
no emprego desse tipo de composto (por exemplo, as palavras orto-
grafia e sociocultural), afirmando que a tradição gramatical portuguesa
ou não os considera compostos ou os trata como compostos literá-
rios ou eruditos; lembra, todavia, o uso desses compostos na formação
de neologismos no português, tais como sambódromo a partir de sam-
ba e skatódromo a partir de skate, entre outras formas10.
Veloso e Martins (2011) aceitam como composicionais somen-
te os compostos morfossintáticos, sendo os compostos morfológicos
não composicionais, assim como as palavras simples.
9 Os pesquisadores recorrem à distinção feita por Chomsky (1981) entre gramática nuclear
e gramática periférica, para afirmar que os compostos morfológicos estão circunscritos na
última.
10 Villalva (1994, p. 391) faz a seguinte ressalva a esse respeito: “Ieda Alves (1990: 41), num
trabalho sobre neologismos no Português do Brasil, refere que «na imprensa contemporânea,
a formação de palavras pelo mecanismo da composição apresenta-se de maneira bastante
fecunda». Os exemplos citados–político-galã, empurra-êmbolo, média-metragem, (hotel)
cinco-estrelas, boca de urna, rítmico-harmónico, outono-inverno, (diálogo) governo-guer-
rilha, (relação) ídolo-fã, sambódromo, tropicologia, colarinho-branco, condomínio fechado,
entre outros – são, na generalidade, palavras atestadas também no Português Europeu, o
que permite admitir uma também crescente produtividade do processo nesta variante do
Português”.
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LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Outro elemento trazido para a discussão por esses pesquisadores
para justificar a exclusão de compostos morfológicos dos estudos so-
bre a composicionalidade é o fato de estes serem reconhecidos apenas
por sua etimologia: “Uma vez que a informação etimológica não faz
parte da língua-I dos falantes (explicitação do linguista), essas pala-
vras poderiam ser descritas como palavras morfologicamente sim-
ples.” (VELOSO; MARTINS, 2011, p. 558, tradução nossa)11.
Eles questionam a validade de determinadas propriedades es-
truturais das palavras recuperadas exclusivamente na evolução his-
tórica da língua para a sua descrição linguística sincrônica. Tomando
como base a noção de gramática internalizada, proposta por Chomsky
(1986), a língua-I do falante (objeto de descrição/explicitação do lin-
guista) não registra “a informação explícita acerca da etimologia
ou da história da língua”; logo, não sendo acessível à intuição lin-
guística do falante, dado que “não é comum a todos os falantes da lín-
gua” (VELOSO; MARTINS, 2011, p. 559, grifos dos autores). Ainda,
conforme exposto neste capítulo, compõe a sua gramática periférica,
por ser fruto de um ensino formal, além de não ser totalmente produti-
va (como já mencionado), ou seja, não se trata de um processo regular
e sistemático na criação de novas palavras no português.
Observando questões como as expostas nesta seção e, perceben-
do que essa pesquisa se justifica a partir de sua contribuição com a dis-
cussão sobre os estudos relacionados ao grau de composicionalidade
de palavras no português brasileiro em oposição à lexicalização de pa-
lavras compostas, na seção seguinte, trazemos algumas formas do por-
tuguês brasileiro que põem em dúvida os critérios adotados por au-
tores como Medeiros (2013) e Veloso e Martins (2011) para a análise
de palavras formadas pelo processo de composição nessa língua.
11 Since etymological information is not part of the speakers’ I-language (the linguist’s ex-
plicandum), these words should be described as morphologically simple words”. (VELOSO;
MARTINS, 2011, p. 558).
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LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
2. UMA BREVE REFLEXÃO SOBRE A COMPOSICIONALIDADE
DE PALAVRAS COMPOSTAS
Conforme discutido na seção anterior, pesquisadores que se de-
dicam a estudar a complexidade de palavras formadas pelo processo
de composição estabelecem critérios para a delimitação dos dados
a serem analisados, ora optando por compostos morfossintáticos
ora optando por morfossintáticos formados por justaposição. Nesta
seção, levantamos questionamentos acerca da análise que defende es-
ses critérios, discutindo algumas palavras que trazem problemas para
essas escolhas feitas por Medeiros (2013) e Veloso e Martins (2011).
As palavras complexas podem ser formadas por processos
de afixação, composição ou modificação (VILLALVA; PINTO, 2018).
Este trabalho se restringe a observar as palavras complexas formadas
por composição – processo que resulta da junção de dois ou mais radi-
cais ou palavras12 (VILLALVA, 2003). Trazemos as palavras em (3) e (4)
a seguir, a fim de debatermos o fato de que nem todos os compostos
parecem ter o mesmo nível de composicionalidade.
(3) Rádio-gravador
(4) Filosofia
No exemplo em (3), é evidente a presença de duas palavras (rádio
e gravador) e o significado de cada uma delas que resulta no significado
total da palavra composta–rádio-gravador é um substantivo que sig-
nifica “Aparelho constituído por um rádio associado a um gravador”,
de acordo como o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Em (4),
por outro lado, a separação entre os dois radicais não parece ser tão cla-
ra, menos ainda o seu significado separadamente. Possivelmente mui-
tos falantes do português contemporâneo não saibam se tratar de dois
12 Para muitos autores, a prefixação é um processo de composição, dada a dificuldade de encon-
trar critérios claros para diferenciar bases presas de prefixos.
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LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
radicais: filo (amigo) e sofia (sabedoria), noção que pode ser recuperada
etimologicamente: filósofo é tido como um amigo da sabedoria.
Estaria esse fator relacionado ao fato de (3) ser um composto
morfossintático, enquanto (4), um composto morfológico13? Para ve-
rificar essa questão, poder-se-ia, então, comparar dois compostos
de mesmo tipo, compostos morfológicos (respectivamente, de coorde-
nação e de modificação), como:
(5) Político-social
(6) Democracia
Neste par, a diferença entre opacidade e transparência14 não pa-
rece ser a mesma do exemplo anterior, com os constituintes de políti-
co-social (político + social) sendo mais facilmente retomados do que
os de democracia (demo + cracia). Da mesma forma que acontece
na comparação anterior; neste caso, a recuperação do sentido das par-
tes em político-social15 parece ser mais fácil do que a de democracia16,
cujos radicais demo e cracia significam, respectivamente, povo e força/
poder. Talvez atualmente o significado mais recorrente para os falan-
tes seja este, também retirado do Oxford Languages (on-line): “siste-
ma político em que os cidadãos elegem os seus dirigentes por meio
de eleições periódicas” e, por extensão, “país em que prevalece um go-
13 De acordo com a classificação proposta por Villalva (2003), rádio-gravador é um composto
morfossintático com estrutura de conjunção e filosofia é um composto morfológico do tipo de
modificação.
14 Trazemos os conceitos desses termos de Lopes (2020, p. 14), que estuda palavras formadas
pelo processo de afixação. De acordo com a autora, “palavras semanticamente opacas são as
cujo sentido nós não conseguimos conscientemente relacionar ao de sua raiz, como acontece
com ‘restaurante’, que atualmente não percebemos que vem de ‘restaurar’. Já palavras se-
manticamente transparentes são as cujo sentido conseguimos fácil e rapidamente relacionar
ao de sua raiz, como se passa em ‘restauração’, que temos completa noção de que vem de
‘restaurar’”.
15 De acordo com o Oxford Languages (on-line), político-social é um adjetivo de dois gêneros
que significa “que tem caráter político e social simultaneamente.”
16 Democracia é um substantivo feminino cuja definição é “governo em que o povo exerce a
soberania”, conforme o Oxford Languages.
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LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
verno democrático” (assim, entramos numa circularidade de definir/
compreender o sentido de democrático).
Dentro dessa perspectiva, portanto, os níveis de composiciona-
lidade/lexicalização não estariam ligados apenas ao tipo de composto,
uma vez que se observam diferenças de identificação dos radicais den-
tro da mesma categoria (tipo de composto).
No caso da palavra democracia, no português europeu, Villalva
(2003) trata da perda de tonicidade da vogal de ligação como marca
de lexicalização, o que também ocorreria na palavra automóvel; segun-
do a autora, dem[u]cracia e aut[u]móvel, respectivamente. Essa perda
de tonicidade, porém, não acontece no português brasileiro, pelo me-
nos não nas palavras exemplificadas. O estatuto dessas palavras seria,
assim, diferente para falantes do português europeu e do português
brasileiro? A identificação das partes que compõem a palavra dem[ɔ]
cracia, como produz-se no português brasileiro, e de seus devidos
significados por seus falantes seria mais fácil do que pelos falantes
do português europeu, podendo ser prontamente classificadas como
complexas por eles? Essas são questões que pretendemos investigar
posteriormente por meio de testes experimentais, mas que não serão
contempladas neste capítulo devido a seu escopo.
Conforme apontado neste estudo, para Veloso e Martins (2011),
apenas os compostos morfossintáticos (e as palavras formadas por afi-
xação) deveriam ser considerados composicionais, ficando aos com-
postos morfológicos a caracterização de não composicionais, assim
como as palavras simples. É possível questionar, porém, se os compos-
tos morfossintáticos corrimão e autor-compositor são percebidos pela
intuição linguística dos falantes como compostos, na mesma medida
(veja-se abordagem de Medeiros (2013) a esse respeito na seção ante-
rior). Ressaltemos que palavras como corrimão, artimanha, parapeito,
entre outras, são consideradas por Villalva (2003) como praticamen-
91
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
te irrelevantes na descrição da composição morfossintática do portu-
guês, por se tratarem de formas lexicalizadas.
Nessa perspectiva, conforme mencionado na seção anterior,
Medeiros (2013) considera apenas os compostos por justaposição,
como autor-compositor, visto que compostos por aglutinação, como
corrimão, não podem mais ser considerados compostos em decorrência
da perda de identidade fonológica.
Entretanto, uma das palavras compostas por justaposição uti-
lizadas por essa pesquisadora foi arco-íris, sobre a qual fazemos
o seguinte questionamento: “A composicionalidade dessa palavra
se mantém intacta?”. Acreditamos que o falante comum conseguiria,
muito provavelmente, recuperar o sentido de arco, mas perguntamos:
“Conseguiria fazer o mesmo com íris para, da soma de ambos, obter
o sentido da palavra composta ou perceberia a palavra como simples?”.
Nós, falantes do português, sabemos identificar um arco-íris como
uma forma que surge no céu, algumas vezes após chover, com um for-
mato de meia-lua e com cores variadas17.
Diante dos questionamentos aqui levantados, não consideramos
que a decisão sobre que tipo de composto – se apenas justaposição
(ressaltando que assumimos a ideia de Villalva (1994) de que justapo-
sição e aglutinação não são processos de composição), se apenas com-
postos morfossintáticos – considerar na análise da composicionalida-
de de palavras complexas seja algo simples e definitivo. Por exemplo,
um composto morfológico por estrutura de coordenação, como afro-
descendente não teria suas partes (forma) recuperadas para a constru-
ção do significado do todo? Por outro lado, compostos morfossintáti-
cos que têm uma estrutura de reanálise (verbo + complemento), como
bota-fora, fura-olho, mandachuva, ainda que possam ser reconhecidos
estruturalmente como palavras compostas, poderão ser interpreta-
dos a partir das partes que os compõem? Acreditamos que a resposta
17 A definição de arco está relacionada com uma forma curva, enquanto íris é definido como um
“espectro luminoso produzido pela difração da luz branca” (Oxford Languages).
92
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
a essa pergunta seja negativa. Por mais que sejam palavras corriquei-
ras no português brasileiro atualmente, seu significado não se dá com-
posicionalmente, mas de maneira arbitrária; logo sendo expressões
lexicalizadas, acessadas diretamente no léxico do falante (cf. VELOSO;
MARTINS, 2011). Nesse caso, entra em jogo a questão da etimologia,
pois, provavelmente, buscando-se a história da língua, encontraremos
uma correlação entre a expressão sintática botar fora e o significado
de bota-fora como “Festa de despedida feita a quem vai partir, acompa-
nhando esta pessoa até o momento de sua partida” (Dicionário Online
de Português - Dicio). Com a forma fura-olho, certamente, não virá
à mente de um falante nativo adulto do português a imagem de uma
pessoa literalmente empurrando o seu dedo no olho de outra pessoa.
Foi construído culturalmente o sentido de que “um/ uma fura-olho”
é um indivíduo “que trai a confiança de alguém, buscando alcan-
çar ou tomar o que lhe pertence; refere-se a quem tenta conquistar
uma pessoa comprometida [...]” (Dicionário Online de Português -
Dicio). Com relação a mandachuva a recuperação da parte para a atri-
buição de sentido ao todo parece ainda mais difícil, embora o falante
recupere suas partes–o verbo mandar e o substantivo chuva. Todavia
mandachuva não é alguém que vá fazer chover, mas, segundo o Oxford
Languages: “1. indivíduo com importância e influência; magnata. 2.
indivíduo que dá ordens, comanda, decide, lidera; chefe, maioral”.
Ressaltamos o fato de que todos esses casos (em que a soma das partes
do composto não é mais recuperável (bota-fora, fura-olho, mandachu-
va) consistem em expressões idiomáticas.
No concernente a excluir um tipo de composto por não fazer par-
te da gramática nuclear do falante (cf. VELOSO; MARTINS, 2011), acre-
ditamos que testes experimentais poderão contribuir para a discussão
sobre essa questão, justamente por trazerem para a pesquisa linguís-
tica o julgamento do próprio falante, não um julgamento do linguista
sobre qual será a sua intuição a respeito dos dados. Ademais, é possível,
através desses testes, analisarmos se há uniformidade ou não na per-
93
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
cepção dos falantes quanto ao grau de composicionalidade de algumas
palavras. Essa questão é levantada por Pederneira (2010, n.p) – ao es-
tudar o que chama de “desgramatização de prefixos” –, cuja percepção
era de que os falantes contemporâneos do português não reconhecem
a composicionalidade semântica de palavras como “[...] despencar
(cair) sem que percebamos mais o nome penca ou arrombar que pou-
cos ainda percebem o nome rombo”, o que levou a pesquisadora a op-
tar pela realização de um teste experimental, a fim de prover dados
empíricos que confirmassem ou refutassem sua hipótese. Nas palavras
da autora: “Com isto, a psicolinguística experimental dá sustento à hi-
pótese linguística de que palavras prefixadas cujas raízes, desprovidas
de prefixo, não ocorrem em outras combinações e significados na sin-
cronia, acabam sofrendo reanálise” (PEDERNEIRA, 2010, p. 89).
Ainda, com relação à questão da produtividade, podemos ques-
tionar se compostos morfossintáticos por conjunção são produtivos
no português contemporaneamente, dado que palavras formadas
por esse tipo de composição ora não são sequer mais encontradas
em dicionários on-line da língua portuguesa (autor-compositor(-in-
térprete), café-bar), ora se referem a utensílios não mais produzidos
na atualidade, como rádio-gravador. Acreditamos que não o sejam,
mas, apesar disso, são considerados nos estudos sobre composição
(enquanto os compostos morfológicos não o são sob a justificativa
de não serem produtivos)18.
Concluímos esta seção, reafirmando a necessidade de se olhar
cuidadosamente para as formas compostas, de modo a agrupá-las
de uma maneira que possa atender aos objetivos de estudo do pesqui-
sador, considerando-se nuances, como as que foram brevemente elen-
cadas neste trabalho.
18 Agradecemos a alguns colegas, que, gentilmente, fizeram a revisão deste texto, a atenção que
chamaram para a noção de produtividade, tal como apontam Resende e Ilari (2020), ao discu-
tirem alguns processos raros no português (transferência cohiponímica, antífrase, autoanto-
nímia, autoconversividade e mudança semântica analógica), os quais se baseiam em Rainer
(2005), segundo o qual não se encontram exemplos dos mesmos em decorrência da escassez
de casos; não em decorrência da sua não aplicação na língua. (RESENDE; ILARI, 2020, p. 253).
94
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A discussão que se pretendeu desenvolver neste capítulo não sig-
nifica que não acreditemos na necessidade de se delimitarem os dados
a serem analisados; apenas enseja apontar algumas lacunas deixadas
na escolha de dados para a análise da composicionalidade de palavras
complexas.
Essa discussão foi motivada também pela necessidade de se
terem fundamentos para o delineamento de pesquisa futura sobre
o reconhecimento de palavras complexas formadas por composição
por falantes do português na atualidade, com base em suas partes
constituintes ou como palavras simples (lexicalizadas). Para alcançar-
mos esse objetivo, pretendemos lançar mão de testes experimentais,
tais como de relacionamento morfológico e de priming com decisão
lexical.
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95
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
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96
PALAVRAS NEGATIVAS E DEPENDÊNCIA
SINTÁTICA NO PORTUGUÊS
BRASILEIRO
Lilian Teixeira de Sousa
(UFBA)
INTRODUÇÃO
Dependência sintática é um termo que tem sido usado para
tratar de elementos que são licenciados apenas em certos contextos,
como Itens de Polaridade Negativa (IPN) que são licenciados pelo mar-
cador negativo. Embora alguns autores (LAKA, 1990; DE SWART; SAG,
2002 etc.) definam palavras-n(egativas) como itens que também apre-
sentam dependência negativa, esses itens parecem apresentar sentido
negativo próprio, já que podem ocorrer como fragmento de respos-
ta e sem marcador negativo em configuração específica em línguas
de Concordância Negativa não-estrita (GIANNAKIDOU, 2002). Assim,
temos, pelo menos, dois tipos de elementos que se comportam de ma-
neira diferente em relação à dependência negativa: IPN’s e Palavras-n.
Há uma ampla literatura sobre o tema, mas apesar das especificida-
des de cada abordagem há três interpretações principais sobre as di-
ferenças entres estes itens: (1) a que trata palavras-n como quantifi-
97
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
cadores, que precisam ter escopo sentencial derivado pelo alçamento
para a posição de escopo; (2) a da ambiguidade lexical, que considera
que palavras-n são lexicalmente ambíguas entre quantificadores ne-
gativos e IPN’s; e (3) a que define palavras-n como indefinidos, o que
significa que palavras-n não teriam força quantificacional por si só e,
como indefinidos, apresentariam um requerimento de vinculação a um
operador apropriado.
O Português Brasileiro (PB) é frequentemente definido como
uma língua de concordância negativa não-estrita, porque, apesar de as
palavras-n coocorrem com o marcador negativo, em configurações es-
pecíficas elas funcionam como elementos negativos:
(1) Eu não abro exceção para ninguém
(2) Ninguém tefelonou.
(3) Eu nunca compro nada na Black Friday
Alguns autores (AGOSTINI; SCHWENTER, 2008; CAVALCANTE,
2012), no entanto, têm identificado um comportamento mais comple-
xo em palavras-n no português brasileiro (PB), já que essas palavras,
como afirmam, podem ocorrer em posição pós-verbal sem a presença
do marcador negativo em alguns casos:
(4) a. fiz nada hoje só dormir.
b. Beijei ninguém ainda.
c. Tenho amigos no twitter, mas aqui na cidade tenho nenhum.
Agostini e Schwenter (2008) eg. (7a-c)
A distribuição exibida acima não é esperada em línguas de con-
cordância negativa, já que em nenhum desses dados há um licenciador
visível. Assim, esses dados poderiam indicar, segundo as teorias vigen-
tes, uma ambiguidade lexical desses itens no PB, já que na maioria
dos casos um licenciador é necessário, ou uma nova configuração de li-
98
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
cenciamento. Partindo disso, o presente trabalho tem como objetivo
descrever o comportamento de palavras-n (nada, ninguém, nenhum)
no PB em relação à dependência sintática e levantar elementos para
discutir se a presença desses elementos sem um licenciador aparente
poderia indicar uma mudança na língua.
O texto está dividido da seguinte forma: Na seção 2, Palavras-n
e Concordância negativa, são apresentadas as principais características
de marcadores negativos (MN) e palavras-n na literatura e sua relação
com o fenômeno da Concordância negativa; na seção 3 são discutidos
os dados do PB em contraste com o espanhol europeu, que apresenta
palavras-n com ambiguidade lexical, e, por fim, a seção 4 apresenta
as considerações finais.
1. PALAVRAS-N E CONCORDÂNCIA NEGATIVA
O estudo da Concordância Negativa (CN) surge a partir da com-
paração entre línguas que se diferenciam quanto à interpretação re-
sultante da combinação entre múltiplos itens negativos numa mesma
sentença. Enquanto nas línguas românicas observa-se que o núme-
ro de elementos não interfere na interpretação negativa, nas línguas
germânicas, de forma geral, a combinação de itens negativos leva
a seu mútuo cancelamento, isto é, geram uma interpretação positiva
da sentença (Doubled Negation – DN). Se a abordagem mais tradicional
do tema trata de diferenças paramétricas, atualmente a argumenta-
ção tem se concentrado nas propriedades que os elementos negati-
vos apresentam e de como essas propriedades resultam em diferenças
entre línguas. De maneira geral, há duas propostas recorrentes na li-
teratura, algumas consideram os elementos de concordância negativa
como quantificadores e outra que os distingue em palavras-n e indefi-
nidos negativos.
Propostas que tratam palavras-n como quantificadores explicam
a distribuição desses itens a partir da noção de absorção (ZANUTTINI,
99
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
1991; HAEGMAN, 1995; ZANUTTINI; HAEGMAN, 1996; SWART; SAG,
2002; WATANABE, 2004). Segundo essa abordagem, uma vez que pa-
lavras-n são quantificadores, elas teriam que ter escopo sentencial
derivado sintaticamente a partir de seu alçamento da posição de com-
plemento para a posição de escopo pelo menos em Forma Lógica;
por serem também negativas, elas também precisariam concordar
com um núcleo negativo, assim, elas funcionariam da mesma forma
que perguntas-q múltiplas (Quem comprou o quê?). Enquanto todo
quantificador negativo vincula uma única variável, um único quantifi-
cador vincula um par de variáveis.
Collins e Postal (2014) também assumem uma abordagem
de quantificação em que a posição de escopo é uma posição adjunta
a uma sentença [S DPi S]. Nesses casos, a S encaixada contém um DP
ligado por DPi = [DP Di NPi] (na posição de escopo). S em efeito proveria
a representação sintática de uma sentença aberta definindo o argu-
mento de valor semântico do DPi quantificacional, onde NPi denota
a restrição do quantificador representado pelo Di. Em outras palavras,
um DP quantificacional vai ter sempre pelo menos duas ocorrên-
cias distintas, uma em uma posição de escopo e uma numa posição
de não-escopo (uma posição “argumento” em algumas abordagens).
Com isso, pode haver muitos DPs em posições de escopo de uma única
sentença, resultando em estruturas como [S DP1 [S DP2 [S DP3 S]]]. Já que
as relações entre múltiplos DPs em posição de escopo são hierarquica-
mente representadas, o fato de que alguns DPs quatificadores em uma
sentença têm escopo sobre outros vem da representação. Assim, as-
sumem que são princípios relacionando escopo sintático à semântica
correspondente.
Expressões quantificacionais numa árvore indicam escopo.
Por exemplo, na teoria dos princípios e parâmetros, o domínio de c-co-
mando de uma expressão quantificacional é identificado como seu es-
copo. Isto é, uma expressão quantificacional mais alta, por definição,
tem escopo sobre uma mais baixa:
100
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
(5) a. Myron saw no student.
b. [S <[no student]1>[S Myron saw DP1]]
Para Postal (2010), qualquer membro de um conjunto coinde-
xado de DPs poderia representar um sintagma único, cada ocorrência
de X marcando um arco separado partilhando como núcleo um único
sintagma representado pelo X. Como a posição de escopo nas propos-
tas de escopo sintático nunca são pronunciadas, há um certo cepticis-
mo em relação a elas. Klima (1964), no entanto, apresenta argumentos
relevantes ao relacionar essa posição com a negação a partir da identi-
ficação da ambiguidade equivalente entre as sentenças abaixo:
(6) a. I will force you to marry no one.
b. I won’t force you to marry anyone.
c. I will force you not to marry anyone.
Considerando esse tipo de abordagem, Collins e Postal (2014)
analisam diferenças de gramaticalidade envolvendo quantificadores
e negação:
(7) a. *Chloe ever tasted beer.
b. Chloe did not ever taste beer.
Na abordagem clássica de IPNs, a distinção na gramaticalidade
das estruturas acima é atribuída à ausência de um licenciador para
o ever. Colins e Postal (2014), no entanto, vão contra a ideia clássica
de licenciadores de IPNs. Segundo os autores, a negação faria parte
da estrutura do advérbio e, na verdade, ever e o correspondente negati-
vo never teriam como origem a mesma estrutura [[NEG SOME]]:
(8) a. Chole [NEG ever] tasted beer
b. Chloe [[NEG SOME] ever] tasted beer.
101
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Com isso, os autores argumentam que NEG precisa ser alçada
da forma adverbial para uma posição imediatamente adjacente ao Aux.
Assim, nesta proposta, a negação é alçada de sua posição interna ao DP.
Com isso, os autores rejeitam a concepção de negação sentencial e as-
sumem que NEGs podem modificar verbos (ou talvez sintagmas ver-
bais), adjetivos (ou talvez sintagmas adjetivais), DPs, Ds e NPs, assim
como sentenças. A ideia é que NEG pode modificar constituintes me-
nores que sentenças
Já dentre as abordagens que distinguem palavras-n e indefinidos
negativos, Zeijlstra (2004), por exemplo, afirma que a diferença entre
línguas DN ou CN estrita ou não estrita está nos traços negativos se-
mânticos ou formais e interpretáveis ou não interpretáveis das pala-
vras negativas. Para esse autor, palavras-n são indefinidos semantica-
mente não-negativos que carregam traços não interpretáveis [uNEG]
e que precisam estar numa relação de Agree com o operador negativo,
enquanto os indefinidos das línguas DN são semanticamente nega-
tivos. Ele também assume que nas línguas CN não estritas, ou seja,
aquelas em que as palavras-n em posição pós-verbal coocorrem com o
marcador, o elemento que carrega o traço interpretável é fonologica-
mente nulo. A proposta é resumida no quadro abaixo.
Quadro 1. traços dos elementos negativos
Marcador
Tipo Indefinidos
negativo
DN [Neg] [Neg] (Indefinidos Negativos)
CN estrita [uNeg] [uNeg] (Palavras-n)
CN não estrita [iNeg] [uNeg] (Palavras-n)
Fonte: Zeijlstra (2004)
Propostas como a apresentada acima tem muito a ver com a de-
nominada conjectura Borer-Chomsky, conforme formulada por Baker
(2008), segundo a qual a diversidade sintática é devida a um número
102
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
limitado de variações possíveis na especificação de traços dos itens le-
xicais envolvidos. No caso específico da negação, conforme salienta
Gianollo (2016), há a aplicação de um padrão complexo de interdepen-
dências restringindo o número de mudanças possíveis.
Também dentro da abordagem dos indefinidos negativos, Gianollo
(2016) aponta que um sistema de negação é um conjunto de elemen-
tos funcionais usados em uma língua para codificar a presença de um
operador negativo na representação lógica, sendo que esse conjunto
deve conter pelo menos um marcador negativo e alguns indefinidos
que mostram dependência formal em relação ao operador. Assim,
a posição de escopo de um operador negativo não necessariamente
coincide com a posição do marcador negativo. Além disso, em conso-
nância com a proposta de Zeijlstra, nem todos os elementos negativos
contribuiriam semanticamente com a negação, já que poderiam car-
regar apenas traços formais não-interpretáveis eliminados no curso
da derivação. Com isso, a autora assume que elementos que perten-
cem ao sistema negativo podem ser apenas sinais da presença de um
operador negativo, o que retoma a intuição de Jespersen (1917) de que
a substância fonológica de um marcador negativo tem influência sobre
o padrão de redobro de itens negativos observado em algumas línguas:
quanto menor o marcador negativo mais provável é a redobro por um
outro elemento marcado negativamente, ou seja mais provável é a
ocorrência de CN.
Tradicionalmente, na literatura gerativista, assume-se que o sta-
tus de núcleo de um marcador negativo está explicitamente relacionada
com a ocorrência de CN (HAEGEMAN; ZANUTTINI, 1996; ZEIJLSTRA,
2004, entre outros). Zeijlstra (2011), por exemplo, assume a generali-
zação de que núcleos negativos não estariam disponíveis em línguas
que não apresentam concordância negativa. De acordo com o autor,
não haveria nenhuma língua sem concordância negativa que exibi-
ria um marcador negativo como um núcleo sintático. Nessa proposta,
CN é uma forma de concordância sintática, ou seja, uma dependência
103
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
sintática, que constitui evidência crucial para a assunção de uma pro-
jeção funcional NegP, encabeçada por um marcador negativo, duran-
te a aquisição da linguagem. Se um marcador negativo não é um nú-
cleo, mas um XP, há a possibilidade de duas gramáticas: uma em que o
marcador é o especificador de NegP, engatilhando CN, e outra em que
o marcador não faz parte da projeção de NegP e, tal qual um advérbio,
se adjunge à projeção verbal.
Gianollo (2016) assume, assim como Zeijlstra (2004, 2011),
que indefinidos fazem parte do sistema de negação. Para a autora,
indefinidos negativos (INs) e palavras-n são mais ‘gramaticalizados’
para contextos negativos se comparados a IPN’s, que podem ocorrer
também em perguntas e sentenças condicionais não-negativas. Nessa
proposta, INs e palavras-n introduziriam uma variável que impõe
um requerimento de vinculação por um operador negativo, enquanto
IPNs seriam mais liberais em relação à natureza sintático-semântica
de seu vinculador. Por outro lado, a autora também distingue inde-
finidos e palavras-n: indefinidos (como nobody em inglês, niemand
no alemão) sempre contribuem com a semântica da negação, enquan-
to palavras-n são elementos de concordância e podem (CN não estrita)
ou devem (CN estrita) coocorrer com um marcador negativo:
(9) Nimeni nu a cumpărat cartea [Romeno – CN estrita]
Ninguém MN tem comprado livro-o
‘Ninguém comprou o livro.’
a. Non ha chiamato nessuno [Italiano – CN não estrita]
MN tem telefonado ninguém
b. Nessuno há chiamato
ninguém tem telefonado
Ambos: ‘Ninguém telefonou.’
104
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Segundo a autora, superficialmente, o valor negativo dos inde-
finidos é independente do contexto sintático, enquanto as palavras-n
em línguas CN não estrita é variável e depende da configuração sin-
tática, o que sugere diferentes condições de licenciamento. Zeijlstra
(2004; 2014) considera que indefinidos têm traços semânticos, mas não
formais, enquanto palavras-n têm um traço formal não-interpretável
[uNeg] que as força a uma relação de dependência sintática com um
operador. Assim, diferente de um Agree canônico, línguas CN, por apre-
sentarem múltiplas palavras-n, contariam com múltiplo Agree, o que
não seria possível para os indefinidos.
Uma questão em relação à abordagem apresentada acima, apon-
tada por Gianollo, é que o requerimento de valoração de traços [uNeg]
não parece levar ao deslocamento de palavras-n nas línguas români-
cas: se elas se movem para a fase CP-TP é por requerimentos indepen-
dentes. Uma forma de implementar isso, apontada pela própria autora,
é inspirada em Polleto (2008), em que se assume um paralelismo en-
tre a CN e o redobro de clíticos. Polleto propõe que, da mesma forma
que os clíticos se originariam de um grande DP e então alçados, os mar-
cadores negativos das línguas românicas se originariam de um grande
NegP, cuja estrutura interna é semanticamente motivada, que se alça-
ria para várias posições sentenciais. Em Gianollo (2016), o marcador
negativo carregaria o traço [uNeg] para a borda da fase vP e de lá para
o NegP na fase CP-TP, onde o operador está hospedado, dando origem
à concordância. O interessante dessas propostas é que as palavras-
-n estariam na borda do vP e de lá seriam alçadas por requerimentos
independentes – EPP, estrutura informacional, o que, como tentarei
mostrar, na próxima seção, pode explicar os dados de palavras-n pós-
-verbais sem MN no PB.
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LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
2. CONCORDÂNCIA NEGATIVA E O STATUS DAS PALAVRAS
NEGATIVAS NO PB
Como já bastante conhecido na literatura (MARTINS, 2000;
GIANOLLO, 2016; entre outros), o latim clássico exibia um sistema
em que cada elemento negativamente marcado em uma sentença apre-
sentava significado negativo próprio (leitura de Doubled negation), as-
sim como ocorre com o inglês moderno em que indefinidos negativos
como nobody ocorrem em distribuição complementar com o marcador
negativo (not ou n’t). Nas línguas neolatinas, por outro lado, as pala-
vras negativas (ninguém, nadie, nessuno, etc) passam a poder coocorrer,
a depender de sua posição sintática, com o marcador negativo:
(10) a. Não vi ninguém.
b. Non ha telefonato nessuno.
c. No havia nadie.
Da passagem do latim, uma língua doubled negation, para as lín-
guas românicas, que são de concordância negativa, houve períodos
em que as palavras negativas não ocorriam exclusivamente em con-
textos negativos. Elas apresentavam, segundo Bosque (1996), outros
contextos de legitimação, o que o levou a defini-las como itens de po-
laridade modal. Para Bosque (1996), enquanto itens de polaridade ne-
gativa são legitimados em contextos negativos, os itens de polarida-
de modal são legitimados em contextos modais, havendo em ambos
os casos um tipo de concordância de traços com restrições gramaticais
uniformes.
Partindo do trabalho de Bosque, Herburger (2001) apresen-
ta alguns contextos em que palavras-n no espanhol ainda aparecem
em contextos de legitimação não-negativa como complemento de pre-
posições negativas, predicados negativos encaixados, predicados emo-
tivos, comparativas e em coordenações pós-verbais não sentenciais.
106
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
E a partir desses dados, mostra que as palavras-n no espanhol são am-
bíguas, ora se comportando como indefinidos ora como IPNs. A autora
apresenta, então, a hipótese de que a mudança de IPNs para elementos
negativos (EN) – quantificadores, determinantes, marcadores e con-
junções negativas – ocorre em cinco etapas (12) e o espanhol estaria
na quarta.
(11) a. N-words are NPIs.
b. Palavras-n são IPNs e também ENs em contextos onde IPNs
não são licenciados.
c. Palavras-n podem ser usadas como ENs em contextos pré-
-verbais (contexto de IPN instável).
d. Palavras-n começam a ser usadas em posição pós-verbal,
mas apenas com escopo estreito.
e. Palavras-n começam a ser usadas com ENs em posição pós-
-verbal com escopo amplo e deixam de ser usadas também
como IPNs.
Como mencionado, o PB, apesar de ser definido como uma lín-
gua de concordância negativa, apresenta, em alguns casos, palavras-n
com significado negativo em posição pós-verbal. Se isso está correto,
o PB estaria na mesma etapa de mudança que o espanhol, por esse
motivo comparamos os dados do espanhol aos do PB, mas como vemos
abaixo os contextos de ocorrência de palavras-n em posição pós-ver-
bal e sem licenciador não são os mesmos nas duas línguas:
(12) a. Pedro compró el terreno sin contarselo a nadie.
a’. Pedro comprou o terreno sem contar para ninguém.
b. En lugar de intentar nada ahora, es mejor esperar a más tarde.
b’. *Em vez de tentar nada agora, é melhor esperar mais tarde.
c. Antes de hacer nada, debes lavarle las manos.
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LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
c’. *Antes de fazer nada, debe lavar as mãos.
(13) a. Dudo que vayan a encontrar nada.
a’. *Duvido que vão encontrar nada.
b. El jefe de la policía niega que hayan maltratado a ninguno
de los manifestantes.
b’. *O chefe da policía nega que tenham maltratado a nenhum
dos manifestantes.
c. Prohibieron que saliera nadie.
c’. *Proibiram que saísse ninguém.
d. Luis es contrario a recibir ningún tipo de consejo.
d’. *Luis é contra receber nenhum tipo de conselho.
d. Juan rehusó hacer nada.
d’. *João se recusou a fazer nada.
(14) a. Pedro ha perdido la esperanza de que salga elegido ninguno
de sus amigos.
a’. *Pedro perdeu a esperança de que saia eleito nenhum
de seus amigos.
b. Es horrible/estúpido/sorprendente/una locura que hable
con nadie de ello.
b’. *É horrível/estúpido/surpreendente/uma loucura que fale
com ninguém disso.
(15) a. Es la última vez que te digo nada.
a’. *É a última vez que te digo nada.
b. Juan há llegado más tarde que nunca.
b’. ?Juan chegou mais tarde que nunca.
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LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
c. Tu primo prefiere trabajar por su cuenta a estar bajo las órde-
nes de nadie.
c’. *Seu primo prefere trabalhar por sua conta a estar sob as or-
dens de ninguém.
d. Es demasiado tarde para ir a ninguna parte.
d’. *É tarde demais para ir a nenhuma parte.
(16) a. Me caso contigo o con nadie.
a’. Me caso com você ou com ninguém.
b. Entrevistaron al jefe y a nadie más.
b’. Entrevistaram o chefe e ninguém mais.
c. Compré rosas pero ningún clavel.
c’. Comprei rosas, mas nenhum cravo.
Como os dados acima mostram, os únicos contextos em que as pa-
lavras de concordância negativa podem ocorrer sem marcador negativo
em comum no PB e no espanhol são como complemento de preposição
ou coordenação. Em todos os outros contextos, as sentenças são agra-
maticais no PB. Assim, é mais plausível que haja uma explicação rela-
cionada a configurações específicas do PB para justificar as sentenças
com palavras negativas sem marcador em posição pós-verbal do que
se pensar que a língua esteja numa mesma etapa de mudança linguís-
tica que o espanhol.
Quando retornamos ao tipo de dados do PB levantados
por Agostini e Schwenter (2008), repetidos abaixo sob nova nume-
ração, percebemos que há uma interpretação enfática sobre os itens,
que poderiam perfeitamente vir antecedidos de ‘absolutamente’:
(17) a. fiz (absolutamente) nada hoje só dormir.
b. Beijei (absolutamente) ninguém ainda.
109
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
c. Tenho amigos no twitter, mas aqui na cidade tenho (absoluta-
mente) nenhum.
Schwenter e Johnson (2015), ao tratar especificamente de cons-
truções NEG-NADA no PB e no espanhol argentino, afirmam que esse
tipo de estrutura nas duas línguas indexa informação proposicional
anterior no modelo de discurso como alvo da negação e carregam o ato
de fala de negação da verdade da informação anterior. Para eles, a pa-
lavra nada provê um link estrutural com o conteúdo proposicional
já disponível no contexto discursivo. Alguns dos dados apresentados
pelos autores são disponibilizados abaixo:
(18) a. A: Eu acho que o pai dela já morreu.
B: (Não) morreu nada
(19) A: Creo que su padre ya murió.
B: No murió nada
(20) a. No comiste mucho nada.
b. Ricardo no habla mucho nada
(21) a. Não comeu muito nada
b. O Ricardo não fala muito/nada.
Schwenter; Johnson (4-5)
Também Cavalcante (2012) relaciona estruturas com o nada pós-
-verbal ([VP nada]) a um item não argumental que codifica ênfase:
(22) Q: Você fez o trabalho que eu pedi?
A: a. Fiz (o trabalho) nada!
b. [X’ nada [... [CP/TP fez o trabalho]]]
c. [XP [CP/TP fez o trabalho] [X’ nada [ ... tCP/TP ]]
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LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
O que os dados apresentados acima parecem evidenciar é que
a presença de palavras-n em posição pós-verbal sem marcador negati-
vo no PB não está exatamente relacionada com um possível processo
de mudança linguística segundo o qual itens negativos com depen-
dência sintática passam a funcionar como indefinidos sintaticamente
independentes. Ao que parece, esse tipo de estrutura na língua está
relacionado a propriedades discursivas codificadas pela sintaxe, o que
nos leva aos trabalhos de Poletto (2008) e Gianollo (2016), segundo
os quais o alçamento desses itens se dá por requerimentos indepen-
dentes – EPP, estrutura informacional. Assim, diferentemente do que
a estrutura superficial dessas construções parece indicar, o mais pro-
vável, em termos de derivação sintática, é que as palavras-n nesse tipo
de construção não está na posição interna ao VP, mas alçadas para
uma posição mais alta, assim como propõe Cavalcante para as constru-
ções do tipo [V nada]. Com isso, mantém a interpretação do PB como
uma língua de concordância negativa não estrita e, como já propõe
Teixeira de Sousa (2015; 2020), questões de estrutura informacional
estão relacionadas à presença de estruturas com itens negativos pós-
-sentenciais no PB.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste trabalho, apresentamos estudos que mostram a gramati-
calidade de sentenças com palavras-negativas em posição pós-sen-
tencial sem a presença do marcador negativo no Português Brasileiro.
Discutimos as implicações teóricas da interpretação de palavras-n
pós-verbais relativas a propriedades morfossintáticas que as caracte-
rizam e diferenciam de indefinidos em línguas de Doubled negation e,
especialmente, em línguas de Concordância Negativa. Por fim, con-
trastamos dados do PB com dados do espanhol e mostramos que, dife-
rente do que acontece no espanhol, construções do tipo [V palavra-n]
no PB estão relacionadas a configurações de natureza discursiva e não
111
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
a um processo de mudança na língua em relação ao seu status de uma
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114
A ALTERNÂNCIA NA EXPRESSÃO
POSSESSIVA NO SEMIÁRIDO
BAIANO: CONTRIBUIÇÕES PARA A
COMPREENSÃO DO CONTINUUM AFRO-
BRASILEIRO DO PORTUGUÊS
Matheus Oliver Santos Oliveira
(UFBA)
Mariana Fagundes de Oliveira Lacerda
(UEFS)
Zenaide de Oliveira Novais Carneiro
(UEFS)
INTRODUÇÃO
Em regiões do semiárido baiano, debruçando-nos sobre amos-
tras de língua falada (cf. ALMEIDA; CARNEIRO, 2008), foi possível per-
ceber uma reestruturação do sistema de marcação possessiva, de que
são exemplos as seguintes opções estruturais:
(1) No dia só Deus sabe, o dia de nós (…) (HGL)
(2) Escolheu o grupo da gente (…) (AO)
115
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
(3) Rapai, eu acho… tem horas que é decente morar c’um nossos
pai (…) (HGL)
Essa alternância entre estratégias de expressão de posse, com for-
mas analíticas inovadoras, como em (1) e (2), competindo com as for-
mas sintéticas, como em (3), já foi observada também em línguas
pidgins e crioulas de base lexical portuguesa (cf. LOPES DA SILVA,
1984; ALMADA, 1961; KIHM, 1994; FERRAZ, 1979; MINGAS, 1998;
MARLYSE, 2002; LUCCHESI, 2009; GALVES; AVELAR, 2014) e em co-
munidades isoladas representativas do português afro-brasileiro (cf.
LUCCHESI; ARAÚJO, 2009) – daí acreditarmos tratar-se de um resquí-
cio de uma época pretérita do português brasileiro (PB), em que os mo-
dos de adquiri-lo e transmiti-lo para gerações subsequentes levaram
a uma reestruturação do sistema pronominal possessivo. Ora, a falta
de semelhança entre PB e português europeu (PE) quanto ao referido
comportamento morfossintático dos possessivos torna ímprobo de-
fender que as mudanças atestadas no PB se devam a uma suposta deri-
va secular (cf. SILVA NETO, 1950; NARO; SCHERRE, 2007).
No presente capítulo, à luz da Teoria da Gramática (cf.
LIGHTFOOT, 1979; 1991; 1999; ROBERTS, 1993; 2007; 2020; KROCH,
1989; 2001; 2003; 2005), revisaremos os dados dessa variação já apre-
sentados na dissertação de mestrado de Oliveira (2016), orientada pe-
las profas. Dras. Mariana Fagundes (UEFS) e Zenaide Carneiro (UEFS),
de forma contrastiva com línguas pidgins e crioulas, mas aqui adicio-
naremos reflexões presentes na tese de doutorado de Oliveira (2022),
orientada pela profa. Dra. Tânia Lobo1. A ideia deste capítulo é tentar
lançar luz às seguintes questões: a) as formas residuais de expressão
de posse com estratégia analítica preposição + pronome reto (de eu,
de nós) revelam um perfil diacrônico aquisicional, de que falaremos
adiante, nos termos por Baxter e Lopes (2009) assim designados?; b)
1 Apesar de não assinar o capítulo, consideramos de irrefutável relevância as contribuições
da profa. Dra. Tânia Lobo (UFBA/PROHPOR) para o amadurecimento do trabalho que aqui
brevemente se apresenta.
116
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
em que medida os dados aqui discutidos contribuem para a hipóte-
se de Roberts (2020), segundo a qual o PB é uma gramática marginal2
no conjunto das línguas românicas, em função do contato massivo
do português, ao longo de séculos, com as línguas indígenas e, mais
especificamente, africanas? Ou, em outras palavras, em que medida
esses dados podem contribuir para a compreensão daquilo que Petter
(2009) denominou continuum afro-brasileiro do português?
O capítulo se divide em quatro partes: duas teóricas (sobre a re-
lação entre aquisição, contato e mudança e sobre o continuum afro-
-brasileiro do português), a análise de dados propriamente dita, a ex-
plicação da diferença de tratamento que fizemos metodologicamente
entre de nós e da gente e, finalmente, a conclusão do capítulo.
1. AQUISIÇÃO, CONTATO E MUDANÇA
A aquisição de uma língua por uma criança se dá num processo
de seleção de uma gramática a partir dos dados linguísticos primários
(DLP) e dos princípios da Gramática Universal (GU) – a teoria dos uni-
versais linguísticos biologicamente determinados, que tenta inferir
o que pode variar entre as línguas, os parâmetros, e o que é invariá-
vel, os princípios (cf. LIGHTFOOT, 1979; 1991; 1999; ROBERTS, 1993;
2007; KROCH, 1989; 2001; 2003; 2005).
Segundo Lightfoot (1979), embora as propriedades da GU perma-
neçam constantes de geração em geração, os DLP mudam. Isso faz com
que o input para uma geração não seja o mesmo para a próxima. Como
a gramática a ser adquirida é uma consequência da interação entre
propriedades da GU inatas aos falantes e a interação com o ambien-
te, e como o ambiente é constantemente modificado cultural, social
e pragmaticamente, a mudança ocorre de forma inevitável. Assim, ain-
2 Na tese de doutorado de Oliveira (2022), um trabalho sobre as ideologias linguísticas que
interpelaram e interpelam a Linguística Histórica brasileira, escolhas lexicais como essa são
problematizadas. Aqui, por razão de espaço e recorte, manteremos os termos como são mais
habitualmente utilizados na literatura.
117
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
da segundo o autor, é no processo de aquisição da linguagem que a
mudança pode ocorrer. Dessa forma, a mudança sintática é sempre
uma mudança no valor do parâmetro.
Lightfoot (1979) acredita que a gramática não é um objeto histo-
ricamente transmitido, mas é essencialmente descontínuo e tem de ser
recriado pelo indivíduo. Daí surgirem as mudanças de uma geração
para outra. O autor argumenta que a mudança sintática ocorre em vir-
tude da opacidade da gramática, que desencadeia reanálises que le-
varão à sua reestruturação para recuperar a transparência necessária.
Segundo Kroch (2003), a mudança linguística é por definição
uma falha na transmissão de traços linguísticos no devir temporal.
Para o autor, falhas na transmissão são falhas no aprendizado. Um das
razões apontadas por ele para isso ocorrer é a aquisição de segunda
língua (ASL) por adultos em situação de contato linguístico.
Assim, a mudança sintática surge quando acontece reanálise
de partes dos DLP, fato que tem como causas processos morfofono-
lógicos, ambiguidade estrutural de dados na expressão do valor pa-
ramétrico, inovações nos DLP, situações de contato linguístico, fatores
extralinguísticos, dentre outros (cf. LIGHTFOOT, 1991; KROCH, 2005;
ROBERTS, 2007). Para Kroch (2003, p. 5), não há dúvida de que adul-
tos aprendendo uma L2 fazem com que a transmissão linguística seja
imperfeita.
Esse modelo de transmissão linguística imperfeita é divergente
do cenário dito normal, quando a criança de quatro a cinco anos adquire
uma larga gama de itens gramaticais – o bastante para satisfazer os re-
querimentos estruturais impostos pela sintaxe inata (cf. BICKERTON,
1999). Esse modelo traz mudanças na gramática da língua-alvo (LA)
usada pelos adultos falantes de outras línguas. Para Bickerton (1999,
p. 57), essas mudanças justificam-se pela regramaticalização do pré-
-pidgin, entendido como restrito código de comunicação que se es-
tabelece entre dominados e dominantes, formado por um reduzido
118
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
elenco de itens lexicais da língua do grupo dominante e praticamen-
te desprovido de qualquer estrutura gramatical regular (cf. WEKKER,
1996; FIELD, 1997; SIEGEL, 2008). Essa regramaticalização do pré-pi-
dgin, para Bickerton (idem), acontece graças à ação do que ele chamou
de bioprograma de aquisição da linguagem, dispositivo mental comum
a todos os indivíduos da espécie humana, responsável pelo desenvol-
vimento gramatical da língua materna das crianças.
Opondo-se à visão de Bickerton, os defensores da hipótese
do substrato (cf. LEFÈBVRE, 1998; 2001; LUMSDEN, 1999; SIEGEL,
2008) acreditam que os falantes de outras línguas, ao se comunicarem
utilizando um conjunto reduzido de itens lexicais da língua do grupo
dominante, mobilizam os mecanismos gramaticais de suas línguas na-
tivas, criando as condições para a ocorrência do processo que Siegel
(2008) denomina transferência de mecanismos gramaticais de subs-
trato, ou para a ocorrência do processo de relexificação, formulado
por Lefèbvre (1998; 2001), em que os falantes usam um item lexical
da LA com as especificações gramaticais de um item similar da língua
nativa. Esses processos de transferência/relexificação seriam respon-
sáveis pela implementação da estrutura gramatical do pidgin, o que
possibilitaria a aquisição da língua materna pelas crianças nascidas
em situação de contato.
Independentemente de sua fonte (bioprogama de aquisição
da linguagem ou processos de transferência e relexificação), o fato é que
línguas adquiridas em situação de contato caracterizam-se pela re-
composição original de sua estrutura gramatical. Baxter (1992), Baxter
e Lucchesi (1993; 1997), Lucchesi (2009; 2015) etc. têm defendido
o conceito de transmissão linguística irregular do tipo leve, como a que
possivelmente ocorreu no Brasil, para explicar a existência de mudan-
ças decorrentes do massivo contato entre línguas, sem que as altera-
ções aí ocorridas “cheguem a configurar a emergência de uma nova en-
tidade linguística qualitativamente distinta” (LUCCHESI, 2009, p. 255).
A consequência mais notável dos processos de transmissão linguística
119
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
irregular do tipo leve é a erosão dos mecanismos gramaticais que não
têm valor informacional, como as marcas de concordância (que, para
nós, é uma das razões pelas quais se percebe a reestruturação do siste-
ma de marcação possessiva, no semiárido baiano).
O que defendemos pode ser assim sintetizado: os africanos –
que devem ter sido, em razão da demografia histórica do Brasil, os prin-
cipais formatadores e difusores do PB (cf. MATTOS; SILVA, 2004) –
que aprenderam, de maneira emergencial, o português (fora, portanto,
do período crítico de aquisição de uma língua) foram expostos a inputs
não muito robustos e estruturalmente complexos. Uma vez que os da-
dos da experiência relevantes para a aquisição precisam ser constituí-
dos de elementos robustos e estruturalmente simples (cf. LIGHTFOOT,
1991), a situação sociolinguística de aquisição da L2 levou os africanos
a duas direções: ora eles interpretavam os DLP, de maneira divergente
e, uma vez que a gramática nova diferia, no seu output, da gramática
original apenas levemente, os falantes de português L2 não notaram
a diferença e, então, não corrigiram seu erro (cf. KROCH, 2003) – isso
ocorre porque falantes adultos, fora da fase crítica de aquisição de uma
língua, são incapazes de adquirir traços das categorias funcionais pa-
rametrizadas (HAWKINS; CHAN, 1997; FRANCESCHINA, 2002; 2003)
– ora eles fixaram os parâmetros da L2 com base em seu conhecimen-
to da L1, por meio de processos de transferência ou relexificação (cf.
LEFÈBVRE, 2001; GALVES; AVELAR, 2014; SIEGEL, 2006; SCHWARTZ;
SPROUSE, 1994; SPROUSE, 2006). É por isso que se atestam, no corpus
com que se trabalhou em Oliveira (2016), usos (raros) da estratégia
preposição + pronome pessoal do caso reto (de eu; de nós, por exemplo),
presente em línguas crioulas (cf. LUCCHESI; ARAÚJO, 2009, p. 510).
O contato cada vez mais próximo entre as crianças africanas, fi-
lhas da primeira geração de africanos que aprendeu o português como
L2, e outros falantes de português L1 e o maior acesso à escola visto
nas últimas décadas certamente fez com que, no corpus, o uso da estra-
tégia de eu/de nós para expressar a posse seja tímido, com raríssimos
120
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
dados. A escassez dos dados, entretanto, não é uma férula à pesquisa,
mas algo importantíssimo para confirmar a hipótese de que, em épo-
cas pretéritas, no Brasil, deve ter sido usada essa estratégia para todas
as pessoas do paradigma pronominal. Os dados atestados, a nosso ver,
seriam um resquício dessa época.
Ademais, há que se ter em mente que o uso abundante de da
gente para expressar a posse referente a P4 pode ser resultado de uma
mudança encaixada (cf. WEIREICH; LABOV; HERZOG, 2006) à per-
da de morfologia flexional, característica geral das línguas afetadas
por contato interlinguístico (cf. GUY, 2005; LUCCHESI et al., 2009;
BAXTER, 2012 entre outros). Isso porque é possível que o uso da es-
tratégia preposição + pronome pessoal seja um modo de o falante evitar
o uso de plural, com a variante conservadora, como se verá no item 3.
2. O CONTINUUM AFRO-BRASILEIRO DO PORTUGUÊS
Petter (2009) defende a existência de um continuum entre
as variedades brasileira e africana do português. Argumenta a autora
(PETTER, 2009, p. 159-160) que, até aquela publicação, ainda não ha-
via uma análise exaustiva sobre a identidade do PB que o situasse
num conjunto maior – o dos países de fala portuguesa, em que se en-
contram outras variedades de português, não crioulas, faladas na África
(Angola e Moçambique) e na Ásia (Macau, Goa e Timor-Leste). Segundo
ela, tanto os trabalhos feitos no Brasil quanto aqueles feitos em África
seguiam inicialmente a mesma metodologia: comparar a variedade
sob análise ao PE, destacando-se particularidades, “erros”, e sempre
considerando o PE como a forma-padrão.
Para Petter (2009, p. 161):
Muito embora se reconheça que há uma ecologia linguís-
tica particular a cada um dos três países [Brasil, Angola
121
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
e Moçambique]3, evidenciada pelo multilinguismo dos fa-
lantes africanos, locutores de línguas do grupo banto; pela
diversidade das línguas em presença no Brasil (línguas afri-
canas, línguas indígenas e de imigrantes); pelo momento
histórico distinto do contato e do recontato com o português
(século XVI e final do século XIX em Angola e Moçambique,
quando realmente se deu a colonização portuguesa) – de que
decorre um estatuto linguístico específico para a língua por-
tuguesa –, tentarei destacar, em cada um dos níveis (foné-
tico-fonológico, lexical e morfossintático), aspectos que de-
notam uma continuidade entre as variedades linguísticas
faladas ao sul do equador e marcam uma ruptura com o PE.
A presença das línguas africanas em Angola e Moçambique,
predominantemente da família banto, é uma obviedade. Segundo
Gonçalves (2004, p. 30), apenas 3% da população moçambicana fa-
lam português como L1, e 40% como L2. Em Angola, segundo Inverno
(2005, p. 1), o português é L1 de menos de 20%.
É preciso notar que, em ambos os países, a situação de bilin-
guismo é evidente, o que suscita o debate sobre em que medida o tipo
de aquisição de português L1 a partir de modelos-estímulos (inputs)
diferentes (português L1, português L2, por exemplo) tanto para os fa-
lantes do português em emergência em África, quanto para os primei-
ros falantes do português no Brasil, e o tipo de transmissão linguísti-
ca (divergente do cenário normal, em que uma criança adquire sua L1
a partir de modelos-estímulos da L1 dos seus pais) que foram feitos
podem ser os grandes responsáveis pelas semelhanças linguísticas
encontradas. Acreditamos que essa é a melhor hipótese para explicar,
de um lado, as semelhanças entre o PB e o PA e entre o PB e algumas
outras línguas afetadas por massivo contato interlinguístico e, de ou-
tro lado, o afastamento entre PB/PA e o PE.
3 Sobre semelhanças encontradas entre o português falado no Brasil, em Angola e em
Moçambique, sugerimos a leitura de Laban (1999), Gonçalves (2004), Chavagne (2005) e
Inverno (2005).
122
LINGUÍSTICA EM REDE
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
E é na esteira dessa noção de que existe um continuum afro-bra-
sileiro entre PB e PA que Galves (2018) propõe a criação de um gran-
de corpus morfossintaticamente anotado, composto por documentos
organizados em torno de quatro dimensões não exclusivas entre si:
a dimensão temporal (localização no tempo), a dimensão espacial (lo-
calização no espaço), a dimensão aquisicional (primeira ou segunda
língua) e, finalmente, a dimensão textual (fala ou escrita). Para ela,
tal esforço pode fornecer suporte empírico sólido, com base no qual
se pode compreender as dinâmicas do efeito do contato interlinguís-
tico (desde os seus primórdios até a versão consolidada da norma bra-
sileira de hoje, passando por formas intermediárias desse processo)
na emergência de novas gramáticas, diferentes do PE. Essa proposta
é interessante, na medida em que, para a sua autora:
The Afro-Brazilian continuum can be seen as the manifesta-
tion of the successive points in the scale of effects of contact,
beginning with the direct effects of second language acqui-
sition, and ending with the sedimentation of new features
in the target language as the result of a long process of both
inclusion and exclusion, due to several factors such as nativi-
zation and social pressure (GALVES, 2018, p. 324).
Além disso, Galves (2018) defende que a morfologia do portu-
guês, no Brasil e na África, parece depender de educação formal, o que,
a nosso ver, suscita a possibilidade de afirmar que, a rigor, se as carac-
terísticas mais marcantes da gramática do PB e do PA diferem daquelas
do PE, então a hodiernidade tem à sua disposição, pelo menos, três
línguas diferentes, ainda denominadas português por questões menos
gramaticais, internas, do que políticas (cf. OLIVEIRA, 2022). Parece-
nos, pois, que a morfologia do PE faz parte, quando muito, de uma
periferia marcada (cf. CHOMSKY, 1988) nos falantes brasileiros – mes-
mo os representativos da chamada norma culta, como mostram Ribeiro
(2015) e Kato (2018 etc.) – e africanos.
123
LINGUÍSTICA EM REDE
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
As variedades extra-europeias de português podem ser interpre-
tadas de duas formas. A partir de um ponto de vista mentalista, isto é,
segundo uma concepção que vê língua como língua-I, essas variedades
derivam do filtro interpretativo imposto à segunda língua pela compe-
tência internalizada do falante. Na esteira de um ponto de vista social,
isto é, que relaciona língua à língua-E, essas variedades podem ser o
resultado de uma negociação entre os falantes, limitada pelas condi-
ções sócio-históricas dos contatos.
Galves (2018) propõe, então, revendo os conjuntos levantados
em Galves (2008), que as inovações brasileiras no português podem
ser amalgamadas em dois grupos: um que inclui características lin-
guísticas presentes em todos os dialetos do país e que, por isso, pode
ser considerado como o padrão falado no Brasil, e outro que contém
funcionalidades restritas a alguns dialetos brasileiros, a algumas áreas
geográficas ou comunidades linguísticas.
Para a autora, as propriedades gerais que caracterizam e singu-
larizam o PB no conjunto das línguas românicas, possibilitando conce-
ber essa língua como partícipe de um grande continuum afro-brasileiro,
nos termos de Petter (2009), são: (i) a concordância verbal e o domínio
pré-verbal, (ii) o sistema pronominal, (iii) a morfossintaxe dos sintag-
mas nominais, (iv) as preposições e os casos e (v) o domínio do CP
(complementizer phrase). Do ponto de vista da gramática gerativa, isso
corresponde às principais categorias funcionais e envolve os grandes
processos morfossintáticos de concordância e caso.
A seguir, a fim de dar contribuições – pequenas, como não po-
deria deixar de ser, é claro – à compreensão desse continuum afro-bra-
sileiro da língua portuguesa, passamos a analisar, contrastivamente,
o comportamento morfossintático das formas analíticas de expressão
possessiva, intentando responder: a alternância atestada hoje pode
ser considerada um resquício de uma época em que o uso não padrão
124
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
foi muito mais amplo? Em outras palavras: estamos diante de um fenô-
meno com perfil diacrônico aquisicional (cf. BAXTER; LOPES, 2009)?
3. A EXPRESSÃO DE POSSE NO SEMIÁRIDO BAIANO: ANÁLISE
CONTRASTIVA
3.1 BREVE RESUMO DOS RESULTADOS ESTATÍSTICOS
DA PESQUISA DE OLIVEIRA (2016)
Os resultados estatísticos da rodada de dados (cf. OLIVEIRA,
2016), à luz da Sociolinguística, sobre o fenômeno em análise podem
assim sintetizados:
Quadro 1. Contextos mais favoráveis ao uso da estratégia analítica na expressão
de posse referente a P4 em comunidades do semiárido baiano.
Variáveis Nº de ocor- Peso
Fator condicionador Frequência Hipótese
independentes rências/ total relativo
Distribuição da posse Posse distributiva 59/75 78% .64 Confirmada
Faixa etária Faixa II (39-58 anos) 54/81 66% .61 Confirmada
Referencialidade
Genérico 41/47 87% .77 Confirmada
do referente
Input = 0.623; Log likelihood = -101.087; Significance = 0.004
Destacamos, no Quadro 1, os contextos que mais favorecem
o uso da estratégia analítica para marcação possessiva, nas comuni-
dades rurais do semiárido baiano sobre as quais se debruçou a referida
pesquisa.
Conforme hipotetizamos, a utilização da estratégia analítica
para expressão de posse, nas comunidades analisadas, está encaixada
à tendência que línguas “afetadas” por contato interlinguístico têm de
reduzir a morfologia flexional. Isso fica claro quando se percebe, prin-
cipalmente, que, em contexto de posse distributiva (e não coletiva)
125
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
e de referente possuído múltiplo (e não único), os falantes dão prima-
zia significativa ao uso da estratégia analítica, ora com a forma de nós,
ora com a forma da gente, em lugar do uso da estratégia tradicional,
nosso e flexões – estariam eles evitando a marcação morfológica de plu-
ral. Quanto à faixa etária, o uso das formas não padrão na faixa etária
mais velha comprova que o fenômeno estudado é mais um que possui
perfil diacrônico aquisicional (cf. BAXTER; LOPES, 2009).
3.2 ANÁLISE CONTRASTIVA
As comunidades do semiárido baiano por nós estudadas dão pri-
mazia à marcação possessiva, na primeira pessoa do plural (contexto
com maior número de dados a serem rodados), com a estratégia pre-
posição + pronome pessoal do caso reto. Os resultados obtidos neste
trabalho e nos trabalhos de Araújo e Lucchesi e Araújo são bastante
parecidos, conforme mostra a Quadro 2.
Quadro 2. Análise contrastiva da expressão de posse no semiárido baiano e em
comunidades afro-brasileiras isoladas
De nós Da gente Nosso e flexões
Comunidades
03 ocorrências 109 ocorrências 79 ocorrências
rurais: semiárido
(1,7%) (57%) (41,3%)
baiano
A preferência pelas formas analíticas para expressão de
posse observada nos dois grupos de comunidades acima men-
cionados é perceptível também na norma popular da cidade de
Feira de Santana/BA, como se percebe na Quadro 3.
126
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Quadro 3. Distribuição geral das ocorrências de da gente e nosso (e flexões) na norma
popular de Feira de Santana/BA
Ocorrências/total Porcentagem
Da gente 29/46 63%
Nosso (e flexões) 17/46 37%
Fonte: Araújo (2009).
Por outro lado, na norma culta de Feira de Santana/BA, Da Silva
(2009) encontrou resultados opostos aos da norma popular baia-
na, como se percebe no Quadro 4.
Quadro 4. Distribuição geral das ocorrências de da gente e nosso (e flexões) na norma
culta de Feira de Santana/BA
Ocorrências/total Porcentagem
Da gente 20/59 33%
Nosso (e flexões) 39/59 66%
Fonte: Da Silva (2009).
A partir da comparação dos dados aqui expostos, é possível afir-
mar que, de fato, há, entre as normas popular e culta, assim como pos-
tulou Lucchesi (2001), uma polarização sociolinguística do português
do Brasil.
Essa bifurcada história sociolinguística do português do Brasil
é evidente nas estratégias de marcação de posse utilizadas nas comu-
nidades supracitadas. Ao passo que a norma culta de Feira de Santana
explicita uma maior proximidade com a norma-padrão, justificada pe-
los modelos culturais e linguísticos que, historicamente, sempre foram
buscados pelas camadas mais privilegiadas econômico e intelectual-
mente, a norma popular, tanto da própria cidade de Feira de Santana
quanto das demais comunidades rurais da Bahia, apresenta um com-
portamento que se caracteriza como vestígio de um período em que,
127
LINGUÍSTICA EM REDE
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
provavelmente, se utilizaram formas analíticas para todas as pessoas
do discurso (cf. LUCCHESI; ARAÚJO, 2009, p. 499). A forma da gente
deve ser remanescente desses usos.
Por fim, os resultados aqui obtidos são também similares aos de
pesquisas com línguas crioulas (cf. LOPES DA SILVA, 1984; ALMADA,
1961; KIHM, 1994; FERRAZ, 1979; MINGAS, 1998; MARLYSE, 2002;
GALVES; AVELAR, 2014 etc.), nas quais a estratégia preposição + pro-
nome pessoal do caso reto concorre com formas tradicionais, sintéticas,
por vezes, em todas as pessoas do discurso.
Os trabalhos de Lopes da Silva (1984) e Almada (1961) mostram
que, no crioulo de Cabo Verde, por exemplo, estruturas com um sin-
tagma preposicionado (SP) são 5, comuns para indicar a posse quan-
do se emprega um demonstrativo no sintagma nominal (SN), ao passo
que, com o emprego de numeral, mantém-se a estrutura análoga à da
língua-alvo, como revelam os exemplos abaixo (cf. ALMADA, 1961, p.
163):
(d) ês kaza de miña ~ meu ‘esta minha casa’
(e) ñas sinku kaza ‘minhas cinco casas’
O estudo de Ferraz (1979) sobre os pronomes no crioulo de São
Tomé mostra que o forro6 exibe estruturas bastante divergentes em re-
lação ao português, por consistir em uma das línguas de maior grau
de reestruturação gramatical, quando se trata de línguas crioulas
de base lexical portuguesa na África. A flexão de caso dos pronomes
pessoais foi praticamente eliminada nesse crioulo. Assim, para to-
das as pessoas, exceto para P1 e P3, um mesmo pronome pode indi-
car a função de sujeito, de objeto e o caso genitivo, como se observa
no quadro abaixo:
128
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Quadro 5. Pronomes pessoais no crioulo de São Tomé
FUNÇÃO SINTÁTICA
PESSOA sujeito objeto possessivo
P1 n~i(n) mu(n)~m mu(n)~m
P2 bo bo bo
P3 e~elê e~elê d(e)
P4 no no no
P5 nãse nãse nãse~nãsê
P6 iné(n)~né(n)~inê iné(n)~né(n)~inê iné(n)~né(n)~inê
Fonte: adaptado de Ferraz (1979, p. 62).
Outro aspecto do santomense é a possibilidade de SPs regidos
pela preposição di, que podem assumir um valor genitivo. Os exemplos
abaixo ilustram essa possibilidade:
(f) m’basu (di) pota ‘embaixo da porta’
(g) zozé sa ta sondu ni tlachi (di) zõ ‘José está sentado atrás de João’
(h) e sa livlu mu(n) ‘é o meu livro’
(i) e as ji mu(n) ‘é o meu’
Os exemplos (f), (g) e (h) mostram o caso genitivo como a norma
padrão prevê em português. Já no exemplo (i), o que se percebe é que,
no caso do apagamento do núcleo do SN, o pronome ji funde-se com a
preposição di. A tradução literal para o português seria “é de meu” ou
“é de eu”, estratégia atestada no português afro-brasileiro, no estudo
de Lucchesi e Araújo (2009) e também no semiárido baiano.
Essa breve, mas importante descrição do sistema de marcação
de posse em duas línguas crioulas de base lexical da África pode for-
necer subsídios interessantes sobre como a transmissão linguística
irregular pode ter afetado esse aspecto da língua. O resultado mais
radical seria a preservação de uma única forma do pronome pessoal
129
LINGUÍSTICA EM REDE
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
para indicar a função sujeito e objeto e o caso genitivo. Por outro lado,
é igualmente interessante perceber que, em línguas crioulas, se ob-
serva a possibilidade de se usarem formas analíticas com a preposição
de para expressar a posse, nos casos em que se apaga o núcleo do SN
ou se emprega o possessivo como predicativo do sujeito.
No caso das comunidades afro-brasileiras isoladas e também
das comunidades do semiárido baiano, não se observa o resultado
mais radical de utilização de uma única forma invariável também
com a função de genitivo, expressando, pois, a posse. Por outro lado,
verifica-se o uso de expressões como de eu e de nós, em lugar de meu,
nosso e suas flexões. Esses usos são exclusivos da norma popular do PB.
Isso revela que há uma relação entre essas formas linguísticas e os pro-
cessos de mudança induzidos pelo modo de aquisição do português
num contexto de contato interlinguístico.
4. OS DIFERENTES PERCURSOS DAS FORMAS DE NÓS E DA
GENTE
Para analisar os dados aqui apresentados, tomamos uma decisão
metodológica: separar o que era dado de da gente e o que era dado
de de nós, apesar de, na rodada, utilizarmos essas duas variantes como
uma mesma variável (o que se justifica por razões estatísticas e pelo
pouco número de dados de de nós, o que ocasionaria diversos kno-
ckouts). De fato, as duas formas analíticas utilizadas para expressar
a posse referente a P4, no semiárido baiano, têm histórias distintas.
Estudos sobre a variação no uso de pronomes possessivos refe-
rentes a P4 têm demonstrado que o aparecimento da forma possessi-
va da gente deve-se à gramaticalização da forma nominal a gente (cf.
NEVES, 1993; MONTEIRO, 1994; OMENA, 2003 etc.). Tratar-se-ia,
então, segundo esses autores, de uma mudança encaixada, nos ter-
mos de WLH (2006). Assim, a implementação da forma possessiva
130
LINGUÍSTICA EM REDE
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
da gente teria, ainda segundo esses estudos, razões internas ao sistema
linguístico.
Não obstante, não devemos perder de vista que as ocorrên-
cias residuais de formas crioulizantes como de nós e de eu, atestadas
em Lucchesi e Araújo (2009) e também em Oliveira (2016), parecem
anteriores à variação nosso ~ da gente, já que o uso dessa estratégia
analítica é comum na expressão de posse em línguas crioulas.
Por isso, concordamos com os trabalhos de Neves (1993),
Monteiro (1994) e Omena (2003), quando afirmam que a forma da gen-
te, que, diferentemente da forma de nós, aparece, inclusive, na fala
culta (cf. DA SILVA, 2009), é resultado de uma mudança encaixada
à gramaticalização da forma nominal a gente. No entanto, esse argu-
mento não invalida a hipótese de que a estratégia preposição + pro-
nome pessoal do caso reto seja típica de línguas formadas em contex-
to de contato interlinguístico e ASL imperfeita. Basta, para isso, notar
que, em Portugal, mesmo com a gramaticalização da forma nominal
a gente como pronome pessoal, não são encontrados dados de um pos-
sessivo da gente (cf. ARAÚJO; SILVA, 2014).
Portanto, a presença residual da expressão de nós na fala das co-
munidades rurais do semiárido baiano remete para um estágio de for-
mação dessas comunidades em que, em função do tipo de variação
e mudança que ocorre nos processos de transmissão linguística irregu-
lar desencadeados pelo contato massivo entre línguas, predominaram
as formas analíticas em detrimento das formas sintéticas com flexão
de caso. Porém, conforme afirmam Lucchesi e Araújo (2009, p. 511),
as formas analíticas, como de eu e de nós, estariam se perdendo, com o
avanço das formas sintéticas, como meu e nosso, e, no caso da 1ª pessoa
do plural, a substituição de nós por a gente, na função de sujeito, pos-
sibilitou a substituição de de nós por outra forma analítica: da gente.
Parece-nos claro que a grande vitalidade do SP da gente para ex-
pressar a posse no semiárido baiano, diferentemente do que se obser-
131
LINGUÍSTICA EM REDE
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
va na fala culta de Feira de Santana, por exemplo, pode ser explicada
pelo fato de a gramática dessas comunidades com que trabalhamos
já conter a possibilidade estrutural de expressão de posse por meio
de um SP com a preposição de, já que, provavelmente, em estágios an-
teriores, a forma de nós teve presença maciça (ou mesmo exclusiva).
A união, em nosso estudo, das variantes de nós e da gente se deu
também para testarmos o princípio do uniformitarismo (cf. LABOV,
1986). Ora, se é verdade que as mesmas forças que atuam, hoje,
na variação devem ter atuado, no passado, podemos dizer, então, que,
no passado, quando a estratégia analítica de marcação possessiva
era predominante no PB, o que estava em jogo era mesmo a tendência
de perda de morfologia flexional, típica de contextos de ASL imper-
feita, em situação de contato interlinguístico. Essa hipótese foi con-
firmada: conforme apresentamos, o controle das variáveis distribuição
da posse e quantificação do referente possuído comprova que a escolha
pela posse analítica se dá preferencialmente em contextos de posse
distributiva e referente múltiplo (isto é, em contextos em que o fa-
lante, através da marcação de posse com as formas de nós e da gente,
evitam a marcação redundante de plural, no sintagma nominal com o
elemento possessivo).
Os três dados de de nós encontrados nas comunidades do semiá-
rido baiano seguem abaixo:
(1) A gente saiu sem direiti. É Deus que eu tinha essa casinha aqui,
aí a gente ficou aqui. Aí eu tenho um pedacinho de terra ainda maisi
eu ...Mode a gente tirar um pinguim de mei pa comer, é longe a terra
de nós. (MJO)
(2) É. O avô de... de.../ faz um banho. E é difici tomém curador fa-
zer as coisa ne presença de nós, num é? (JF de S)
(3) No dia só Deus sabe, o dia de nós todo. (HGL)
132
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
O que mais nos chamou a atenção, além do próprio aparecimen-
to da forma de nós, no corpus, é que todas elas são de comunidades
majoritariamente formadas por africanos (Casinhas, Piabas e Matinha,
respectivamente) e todas elas apareceram em entrevistas com falantes
da faixa III (acima de 59 anos). É mais uma evidência de que a estru-
tura possessiva é, muito provavelmente, resquício de épocas pretéritas
do PB e de que o contato do português com as línguas africanas é cons-
titutivo do PB.
Em relação ao desaparecimento da forma de nós, nas comunida-
des do semiárido baiano estudadas, podemos afirmar que ele se justi-
fica por um “avançado processo de assimilação de padrões linguísti-
cos e culturais urbanos que se acelerou na segunda metade do século
XX que estaria eliminando as principais marcas decorrentes da forma-
ção multlíngue do PB” (LUCCHESI; ARAÚJO, 2009, p. 502).
Com o avanço dos processos de urbanização e industrialização,
no Brasil do século XX, devem ter desaparecido, na língua falada nas zo-
nas rurais do país, os seus traços mais peculiares, os quais são res-
quícios de processos de transmissão linguística irregular. Podemos,
assim, falar em target shift4 (cf. BAKER, 1982): os falantes, ao longo
do crescimento econômico do país, deixaram de ter como língua-alvo
aquela aprendida no seio da comunidade de fala e assimilaram padrões
de comportamento linguístico de cunho mais urbanos, mais prestigio-
sos socialmente. O desaparecimento de de nós e assimilação das for-
mas da gente e nosso devem-se, muito provavelmente, a isso.
CONCLUSÃO
O estágio atual da variação entre as estratégias de expressão
de posse, ora com formas analíticas, ora com formas sintéticas, pa-
rece revelar um resquício de uma competição entre duas gramáticas:
uma adquirida por meio da exposição a modelos-estímulos da gramá-
4 “Mudança de alvo”, em português.
133
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
tica do PE, outra que se explica pela ASL imperfeita, também verifi-
cável em línguas crioulas (cf. LOPES DA SILVA, 1984; ALMADA, 1961;
KIHM, 1994; FERRAZ, 1979; MINGAS, 1998; MARLYSE, 2002; GALVES;
AVELAR, 2014 etc.) e em comunidades afro-brasileiras isoladas (cf.
ARAÚJO, 2005; LUCCHESI; ARAÚJO, 2009).
É possível que a estratégia analítica esteja em uso por duas ra-
zões: ou se trata de um remanescente de uma época em que os africa-
nos, aprendendo o português como L2 em situação emergencial, te-
nham feito processos de transferência e relexificação (cf. LEFÈBVRE,
2001; SIEGEL, 2006; SCHWARTZ; SPROUSE, 1994; SPROUSE, 2006)
de sua L1 para a L2 em processo de aquisição ou se trata de um caso
de reanálise por falta de robustez ou clareza nos inputs recebidos nes-
se processo aquisicional. Isso é possível, na medida em que, segundo
Romaine (1988, p. 28), a substituição de formas sintéticas por formas
analíticas é uma constante em situações de contato entre línguas,
de modo que formas complexas são decompostas em seus componen-
tes. Segundo a autora, conforme dissemos, formas mais complexas e de
difícil decodificação (ou, em outras palavras, inputs não muito claros
para o aprendiz de L2) são substituídas por conjuntos de formas inde-
pendentes mais simples e cujo significado é mais transparente. Essa
explicação é altamente confiável quando se trata do raro uso das ex-
pressões de eu e de nós, no semiárido baiano.
No caso do uso de da gente, que acontece de forma predominante
na expressão de posse referente a P4 na norma popular, mas que tam-
bém aparece, timidamente, na norma culta, é preciso deixar clara ou-
tra questão: a gramaticalização da forma nominal a gente em pronome
pessoal do caso reto. Graças a esse processo, e com o desaparecimento
da forma estigmatizada socialmente de nós, houve a implementação
do possessivo inovador da gente.
Assim, acreditamos que a variação atestada no uso das estra-
tégias de marcação possessiva revela processos típicos de dinâmicas
134
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
de contato interlinguístico e, mais amplamente, de transmissão lin-
guística irregular. Esses usos divergentes da gramática do PE revelam,
para nós, a tendência de não realizar a morfologia flexional e também
alterações nas estruturas da língua-alvo graças às características tí-
picas de aquisição imperfeita de segunda língua (cf. ROBERTS, 2007;
HAWKINS; CHAN, 1997; FRANCESCHINA, 2002; 2003; SIEGEL, 2008;
KLEIN; PERDUE, 1997). Estamos dizendo, com isso, que acreditamos
que a mudança linguística, em geral, ocorre na aquisição, em virtu-
de de falhas na fixação dos parâmetros da língua em aquisição (cf.
KROCH, 2005).
Este artigo, portanto, dá contribuições, ainda que pequenas, para
a compreensão do perfil diacrônico aquisicional de muitos fenôme-
nos variáveis no PB e também para o alargamento dos estudos sobre
a existência de um continuum afro-brasileiro de português.
REFERÊNCIAS
ALMADA, Maria Dulce de Oliveira. Cabo Verde: contribuição para o estudo do
dialeto falado no seu arquipélago. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar,
1961.
ALMEIDA, N.; CARNEIRO, Z. (org.). Coleção amostras da língua falada no semi-
árido baiano. Feira de Santana: Universidade Estadual de Feira de Santana,
2008.
ARAUJO, Silvana Silva de Farias. Nosso, da gente e de nós: um estudo
sociolingüístico da expressão de posse no português rural afro-brasileiro.
224 f. Dissertação (Mestrado em Letras) – Instituto de Letras, Universidade
Federal da Bahia, Salvador, 29.04.2005.
BAXTER, Alan. A contribuição das comunidades afro-brasileiras isoladas para
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O ESTATUTO GRAMATICAL DA SINTAXE
DOS CLÍTICOS EM DOIS AUTOS DO
TEATRO DE GIL VICENTE: COMPETIÇÃO
DE GRAMÁTICAS OU QUESTÕES DE
INTERFACE?
Cristiane Namiuti
(UESB/FAPESB)
Raiana Cristina Dias da Cruz
(UESB/CAPES)
INTRODUÇÃO
Martins (2011), ao analisar o teatro de Gil Vicente, observou
a ocorrência de alta frequência de ênclise nas suas peças em um perí-
odo em que a próclise é predominante nos textos literários, o portu-
guês quinhentista, período clássico. Neste capítulo, discutimos a rela-
ção entre a sintaxe dos clíticos e o estatuto gramatical dessa sintaxe,
em dois autos de Gil Vicente: O Auto da Feira e a Barca do Inferno1.
1 O trabalho de pesquisa apresentado em recorte neste capítulo desenvolve-se no âmbito do
projeto temático Do português pré-clássico às variantes modernas: contribuições para o estudo
da Sintaxe e suas interfaces, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da
Bahia (FAPESB APP 0007/2016) e coordenado pela primeira autora do capítulo, com o apoio
também da CAPES através da bolsa de doutoramento da segunda autora.
139
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
A colocação pronominal átona na diacronia da língua portu-
guesa tem sido objeto de investigação para se chegar a hipóteses so-
bre gramáticas. Considerando os contextos de variação na colocação
dos clíticos em ênclise (01) e próclise (02) na história da língua (ora-
ções matrizes introduzidas por elementos neutros), a língua portugue-
sa era predominantemente enclítica em sua fase mais antiga, século
XIII, passou a ser predominantemente proclítica no período clássico,
século XVI, e voltou a ser a predominante enclítica no século XIX, sen-
do esse ambiente de histórica variação um ambiente de ênclise cate-
górica no Português Europeu (PE) atual (GALVES, NAMIUTI, PAIXÃO
DE SOUSA, 2006, p.53).
(01) [...] eu acho-me bem em caminhos chãos [...] (Chagas, 1631)2
(02) Ele me disse que pasmava [...] (Sousa, 1554)
A questão que se coloca, tomando como quadro teórico
a Gramática Gerativa (CHOMSKY, 1995), é qual o estatuto desta colo-
cação preferencial e a natureza da variação ênclise vs. próclise em cada
momento histórico; mais especificamente questiona-se se a variação
ênclise e próclise é permitida/explicada por uma única gramática in-
ternalizada ou é o reflexo de gramáticas em competição, que normal-
mente se equivale a forma nova e forma velha convivendo no uso.
Para Martins (1994), a alta frequência de próclise nas cartas
de Francisco Manuel de Melo e de Antônio Vieira, ambos autores nasci-
dos em 1608, não possuíam estatuto gramatical, mas de língua de cul-
tura, influenciada pelo espanhol nos anos de mil e seiscentos; prova
disso seria a alta frequência de ênclise nos Sermões de Antônio Vieira
que, para a autora, refletiria a língua falada na época e que já preconi-
zava o PE. Aqui é importante ressaltar que à época o português deno-
2 Os dados extraídos do texto de Galves, Namiuti e Paixão de Sousa (2006) são provenientes do
Corpus Tycho Brahe e a data de referência é a data de nascimento do autor. Paixão de Sousa
(2004), também Galves, Namiuti e Paixão de Sousa (2006) demonstram que quando os dados
são distribuídos no tempo pela data de nascimento do autor a distribuição parece mais coesa.
140
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
minado tradicionalmente de Português Clássico era pouco conhecido
em sua sintaxe, uma vez que não havia ainda, até o final da década
de 1990, um grande volume de dados dos séculos XVI e XVII descritos;
assim, não era possível defender, com base empírica robusta, qualquer
hipótese.
Com a iniciativa da construção do Corpus Histórico do Português,
Tycho Brahe (GALVES, 1997), o problema da escassez de dados foi solu-
cionado, e pesquisas com base em grande volume de dados do período
clássico começaram a ser publicadas, nelas a próclise se demonstrou
majoritária na grande maioria dos textos de autores nascidos entre
os anos de 1500 e 1800, e casos como o dos Sermões de Padre Antônio
Vieira se apresentaram como pontos fora da curva (GALVES, 2003).
De acordo com Galves, Namiuti e Paixão de Sousa (2006), é pos-
sível identificar na diacronia da língua três períodos gramaticais dis-
tintos entre o século XIII e o XIX. As autoras partem do quadro deli-
neado por Kroch (1989), segundo o qual “‘a variação’ nos textos não se
deve confundir com ‘variação nas gramáticas’” (GALVES; NAMIUTI;
PAIXÃO DE SOUSA, 2006, p. 49), a variação instanciada nos textos
pode refletir oscilação produzida por uma única gramática particular
ou competição entre gramáticas que se sucedem temporalmente (for-
ma antiga e forma nova) ou que convivem socialmente (bilinguismo
sociolinguístico). Nesse quadro, considerando que a mudança de gra-
mática na perspectiva gerativa afeta a gramática como um todo e não
apenas uma construção, modelar a variação é tarefa crucial para iden-
tificar sua natureza e elaborar hipóteses sobre gramática. Nesse sen-
tido, Galves, Namiuti e Paixão de Sousa (2006) demonstram que dois
fenômenos são chaves na diacronia da língua para se identificar
as gramáticas no tempo e seus pontos de intersecção (competição): (i)
a variação ênclise e próclise e (ii) a interpolação de constituintes en-
tre o clítico e o verbo em estruturas proclíticas (exemplo 03, extraído
de GALVES; NAMIUTI; PAIXÃO DE SOUSA, 2006, p. 52).
141
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
(3) [...] porque trazia peças, e brincos, que lhe êles deram.
(Couto, 1542)
Esses dois fenômenos associados à expressão e posição do sujei-
to (nulo, pré-verbal ou pós-verbal), à posição do verbo e às possibili-
dades de fronteamento de outros constituintes na periferia esquerda
da sentença entre o clítico e o verbo ou entre o operador proclisador
e o clítico nos contextos de próclise categórica que permitiam o fe-
nômeno da interpolação em variação com a próclise com adjacência
entre o clítico e o verbo (cl-V) deram pistas de três gramáticas geran-
do as estruturas superficiais instanciadas nos textos e dois períodos
de forte competição entre formas antigas e novas. O primeiro, loca-
lizado no século XV, e o segundo, no século XVIII. Surgem, nos sécu-
los XV e XVI, novos contextos para a interpolação da negação. O ‘não’
é encontrado interpolado em orações matrizes introduzidas por sujei-
to, a frequência de interpolação de outros elementos diminui, e a pos-
sibilidade de não-adjacência entre o operador proclisador e o clítico
nas orações subordinadas, em estruturas com interpolação da nega-
ção, aumenta (NAMIUTI, 2008). Nesse período, a próclise vai se tor-
nando preferencial nas orações matrizes, chegando à quase totalidade
dos casos em muitos textos entre os séculos XVI e XVIII. É só na se-
gunda metade do século XVIII que a ênclise ganha força, e também
é nesse período que surgem dados de ênclise com verbo em 3ª posição
(PAIXÃO DE SOUSA, 2004).
Esses e outros fatores levaram Galves, Namiuti e Paixão de Sousa
(2006, p. 68) a propor que a variação ênclise e próclise nos textos de au-
tores quinhentistas e seiscentistas (séculos XVI e XVII) deve ser com-
preendida como alternância possibilitada por uma única gramática,
denominada pelas autoras, naquele texto, de Português Médio, sendo
essa gramática a que geraria as estruturas do período conhecido tradi-
cionalmente por Português Clássico.
142
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Gil Vicente é um autor dessa época, um provável falante daque-
le Português Médio postulado por Galves, Namiuti e Paixão de Sousa
(2006), nascido em 1465, considerado o primeiro grande dramaturgo
português, escreveu peças de teatro entre o final do século XV e iní-
cio do século XVI. Suas personagens eram caracterizadas, identifica-
das também pela língua. Paul Teyssier em “A Língua de Gil Vicente”
(2005) destaca o valor dos traços linguísticos dos diferentes persona-
gens da obra de Gil Vicente, o que a coloca em um lugar de destaque
para testarmos as hipóteses sobre as gramáticas do português históri-
co, um terreno fértil para buscar mais pistas sobre o objeto escondido
por trás dos textos que o tempo nos deixou. Nesse sentido, Martins
(2011) observou a ocorrência de alta frequência de ênclise nos contex-
tos de variação entre próclise e ênclise, em autos de Gil Vicente, e pos-
tulou que a gramática popular era enclítica no período clássico e que,
portanto, haveria nesta época uma gramática erudita, culta, proclítica,
e que vemos nas obras literárias de diferentes gêneros, e uma gramá-
tica popular, enclítica, em competição, e que vemos na fala dos perso-
nagens populares nos autos de Gil Vicente.
Em um levantamento preliminar das sentenças com clíticos
nos cinco autos disponíveis no Corpus Tycho Brahe, Silva et al. (2021)
observou que a distribuição das ênclises e próclises seguiam, não uma
distribuição por tipo de personagem, uma vez que tanto personagens
populares quanto personagens alegóricos, figuras do clero e outros,
que podemos, grosso modo, enquadrar em cultos, atestaram êncli-
ses e próclises, mas uma distribuição por autos. Havia autos enclíti-
cos e autos proclíticos, o que nos levou a supor que o auto, a temática
do auto, poderia ser o fator determinante do favorecimento de uma
ou outra estrutura. Todavia, o levantamento dos autores considerou
apenas um pequeno conjunto de dados (orações matrizes com verbos
auxiliares).
O que buscamos questionar aqui é o estatuto da ênclise en-
contrada na fala das personagens de Gil Vicente. Se, de fato, pode-
143
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
mos estar diante de um período que contempla uma competição en-
tre uma gramática culta proclítica e popular enclítica, e se os dados
das falas das personagens de Gil Vicente revelam essa competição.
Se há uma gramática enclítica popular, outra questão precisa ser pon-
tuada: é preciso verificar se a gramática popular encontrada nos autos
do teatro de Gil Vicente ainda é enclítica, como no português antigo,
ou já é enclítica, como no PE moderno. Nossa hipótese segue a postu-
lada por Galves (2015), de que é possível que a ênclise no teatro de Gil
Vicente seja a ênclise do português clássico, derivada de uma gramá-
tica proclítica V2, cujo clítico é sensível à primeira posição em um
sintagma entoacional e, portanto, textos com determinadas temáticas
que favoreçam estruturas prosódicas V1 tenderiam a ser mais enclí-
ticos, a exemplo do que foi observado nos Sermões do Padre Antônio
Vieira, por Galves (2003), e retomado em Galves, Namiuti e Paixão
de Sousa (2006), entre outros trabalhos.
1. A ÊNCLISE NO PORTUGUÊS CLÁSSICO
Galves, Namiuti e Paixão de Sousa (2006), com uma base em-
pírica que contempla 24.974 sentenças com clíticos a verbos finitos,
pesquisados em 20 textos (851.619 palavras) escritos por autores nas-
cidos entre os séculos XVI e XIX, todos pertencentes ao Corpus Tycho
Brahe, constataram que a próclise é predominante nos séculos XVI e
XVII, sendo a ênclise bastante marginal. Na grande maioria dos tex-
tos, não chega a 10% a frequência de ênclise no período, com apenas
duas exceções: o texto de Manuel da Costa, nascido em 1601, com 31%
de ênclise, e os “Sermões” do Padre Antônio Vieira, nascido em 1608,
com 54% de ênclise. Apesar da alta frequência de ênclise nesses dois
textos, comparada à dos textos contemporâneos, a próclise ainda
se mostrou bastante frequente. Não obstante, é preciso entender a fre-
quência mais elevada da ênclise nestes textos.
144
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Considerando que a ênclise antiga não possui os mesmos con-
textos abstratos da ênclise moderna, a explicação para esses casos
de frequência de ênclise mais elevada no Português Clássico costuma
partir em duas direções para a interpretação estrutural para as cons-
truções enclíticas. Por um lado, é possível interpretar o padrão enclí-
tico do Português Clássico como uma antecipação de uma tendên-
cia moderna ou, por outro lado, como um caso de conservadorismo
do padrão antigo. Martins (1994) defendeu o advento da Gramática
Moderna do PE, que, para a autora, já estava evidenciada nesses tex-
tos. Todavia, uma terceiro caminho pode ser tomado para a explicação
da alta frequência de ênclise no período clássico e é o que faz Galves
(2003) e também Galves, Brito e Paixão de Sousa (2005), entre outros
trabalhos.
Galves, Brito e Paixão de Sousa (2005) estabelecem comparações
de construções com ênclises em variação com próclises em senten-
ças raízes introduzidas por sujeitos neutros (contexto SV). Para tanto,
selecionam textos representativos dos séculos XVII (Padre Antônio
Vieira) e XVIII (Marquesa de Alorna), com, respectivamente, 54%
e 51% de ênclises, nesses referidos contextos. E mostram que taxas
semelhantes encobrem padrões sintáticos diferentes.
Como já foi mencionado, a proporção de ênclise nos Sermões
de Vieira é alta em relação aos seus contemporâneos, inclusive a ele
mesmo em suas Cartas, em que é tão proclítico quanto seus contem-
porâneos. Nas Cartas, Vieira atesta 100% de próclise em contexto SV e
98% de próclise contra 2% de ênclise nos demais contextos de variação.
As ocorrências de ênclise nos Sermões são analisadas e explicadas pe-
las autoras como condicionadas por questões estilísticas que aparecem
nos textos e são compatíveis à sintaxe que subjaz aos textos dessa épo-
ca. Assim, elas descrevem que os sujeitos pré-verbais, seguidos de ên-
clises nos Sermões contrastam com outros termos da própria sentença
ou de um contexto próximo (como por exemplo, uma oposição ‘Deus’
versus ‘homens’; ou a contraposição ‘a revelação’ versus ‘as boas obras’
145
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
num contexto em que a questão da ‘salvação’ as coloca em paralelo).
Assim, como observam Galves, Namiuti e Paixão de Sousa (2006): “A
propriedade de contrastividade das construções enclíticas revela-se,
nos Sermões, sem nenhuma exceção” (p. 64). O exemplo (04), extraído
de Galves, Namiuti e Paixão de Sousa (2006, p. 64) ilustra essa relação.
(04) Elles conheciam-se, como homens, Christo conhecia-os,
como Deus. (Vieira, 1608)
Comparando com o citado texto de Alorna, as autoras (p. 65)
mencionam, citando Galves, Brito e Paixão de Souza (2005), que não
há evidência de condicionamento no texto de Alorna para as constru-
ções com ênclise. Além disso, as ênclises em Alorna podem acontecer
com sujeitos neutros e anafóricos.
(05) Esta resposta aclarou-me e, abolindo todos os meus anti-
gos princípios, conheci que na nossa Côrte é preciso pedir e de pouco
ou nada serve merecer. (Alorna, 1750)
Assim sendo, embora Vieira e Alorna tenham proporções seme-
lhantes de ênclise (54% e 51%, respectivamente), as ênclises de Vieira
estão demarcadas pelo discurso, enquanto, em Alorna, ela é generali-
zada em relação ao contexto discursivo. Para Galves, Namiuti e Paixão
de Sousa (2006), a relação entre ênclise e contrastividade que está
presente nos Sermões é relevante para a análise, uma vez que, segun-
do elas:
(...) às construções contrastivas do português pode se associar
uma estrutura de adjunção (fundamentalmente, uma estru-
tura na qual o elemento contrastado, ou “tópico contrastivo”,
está em uma posição externa à frase abstrata). Isso significa
dizer que nessas construções, o constituinte primeiro da fra-
se abstrata não é o elemento contrastado, mas o próprio ver-
bo. Ora, a ênclise é a opção característica das construções
verbo-iniciais em qualquer fase histórica do português fala-
do na Europa. (p. 14).
146
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Galves (2003) argumenta que o fato de Vieira, nos Sermões,
apresentar alta frequência de ênclise, se justifica pelo estilo barroco
da obra, que favorece construções contrastivas, que, por sua vez, favo-
recem uma estrutura discursiva que favorece construções sintáticas V1,
mesmo que superficialmente haja constituinte pré-verbal (V2), porque
o constituinte que aparece antes possui uma força informacional que o
coloca fora da sentença, para fazer o contraste com o restante. A auto-
ra constata que, nos contextos de variação, quando há oposição e con-
traste, a ordem comumente atestada nos sermões é a da ênclise, o que
sugere ser esta uma ordem marcada pelo discurso.
O caso da ênclise no teatro de Gil Vicente entra em cena
com Martins (2011) e merece um capítulo especial nesta história pela
natureza da obra.
Martins (2011), investiga as falas de 48 personagens populares
vicentinos (em 245 ocorrências, 177 casos, o que corresponde a 72,24%,
foram de ênclise, enquanto 78 casos, correspondentes a 27,76%, foram
de próclise). A partir do estudo do teatro de Gil Vicente, ela obser-
va que, no português quinhentista, em que a próclise predominava
nas frases finitas nos textos portugueses, uma outra gramática mais
enclítica também existia, próxima tanto do português antigo quanto
do português europeu contemporâneo. A partir disso, a autora propõe
repensar a colocação dos clíticos na diacronia da língua portuguesa,
e conclui uma coexistência de duas gramáticas distintas no período
quinhentista: uma proclítica, que seria erudita e que dominaria a pro-
dução textual; e uma enclítica, que seria utilizada pelas classes popu-
lares da sociedade, sem alfabetização e com acesso restrito à produção
escrita. Segundo a autora:
A desigual visibilidade das duas gramáticas nos textos qui-
nhentistas decorrerá do seu diferente estatuto sociolinguís-
tico. É a menos visível delas que podemos encontrar nas falas
dos personagens populares de Gil Vicente, e é essa a gramáti-
ca que constitui o “elo (quase) perdido” do percurso evolutivo
147
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
do português antigo ao português europeu contemporâneo.
A gramática quinhentista que domina a produção textual
decorre, por sua vez, de um caminho evolutivo que parece
ter sido comum a todas as línguas ibéricas, mas que não teve
continuidade em Portugal e na Galiza. Esta gramática a que
poderemos chamar “pan-ibérica” foi perdendo espaço a par-
tir do século XVII, até se extinguir, apesar da posição de van-
tagem que durante séculos manteve relativamente à gramá-
tica mais “enclítica” e popular. (MARTINS, 2011, p. 98).
Já Galves (2015), analisando os resultados de Martins (2011), ar-
gumenta que a distinção entre uma gramática erudita e outra popu-
lar deve ser repensada, pois a colocação dos pronomes clíticos seria
sensível à prosódia, estando relacionada a questões discursivas; des-
te modo, ter-se-ia a existência não de duas gramáticas contrapostas,
mas de uma única gramática da qual se faz diferentes usos. Galves
(2015) demonstra isso ao introduzir a distinção de dois grupos de con-
textos de variação entre ênclise e próclise. O primeiro deles é o grupo
de contextos de Variação I, em que “o verbo é imediatamente precedido
por um sujeito, um advérbio, ou um sintagma preposicional” (Galves
2015, p. 2) – no período clássico há aqui, no geral, um uso amplamente
maior da próclise. O segundo é o grupo de contextos de Variação II,
“em que o verbo é imediatamente precedido por orações dependen-
tes ou por conjunções de coordenação” (GALVES, 2015, p. 3) – aqui,
no período clássico, há frequências de ênclise de até 80%. Além dis-
so, conforme Galves (2015), neste caso a opção pelo uso da próclise
ou da ênclise varia demasiadamente de autor para autor, designan-
do uma questão antes de estilo do que de sintaxe. Assim, a autora ar-
gumenta que, em Gil Vicente, os personagens populares apresentam
a variação próclise/ênclise que se encontra em muitos autores con-
temporâneos a Gil Vicente: uso majoritário da próclise em contextos
de Variação I e uso majoritário da ênclise nos contextos de Variação II;
a diferença é que a frequência da ênclise é maior do que a que se en-
contra nos demais textos da época nos dois casos. A autora, ao separar
148
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
os dados levantados por Martins (2011) pelos contextos de Variação
I e Variação II, constata que, nos contextos de Variação II, a frequ-
ência da ênclise fica entre 92% a 100%, já no contexto de Variação I,
a ênclise é atestada em apenas 37,2% dos casos, frequência alta para
a época, mas ainda inferior à da próclise. (Cf. GALVES, 2015, p. 10- 11).
E conclui:
Na fala popular vicentina, encontramos uma conjunção des-
ses mesmos fatores favorecedores da ênclise, acrescentados
do caráter oral do gênero teatral. Pela ligação que a sintaxe
de colocação do PCl estabelece entre a ênclise e processos
de marcação, de ênfase, de contraste, é natural fazer a hipó-
tese de que a oralidade desse período é mais enclítica do que
a escrita. É o que Paixão de Sousa (2004) observa no estudo
dos textos setecentistas das ‘Mãos Inábeis’, de Marquilhas
(2001). Em resumo, não estamos frente a gramáticas distin-
tas mas a usos distintos da mesma gramática. Isso é coerente
com a observação de Martins (2011) de que a sintaxe de co-
locação das personagens populares de Gil Vicente é distin-
ta tanto do português arcaico quanto do português europeu
moderno. Isso decorre naturalmente do fato de que a gra-
mática do PCl é distinta tanto do português arcaico quanto
do português europeu moderno. (GALVES, 2015, p. 14).
O caso de Gil Vicente nos inspirou a analisar, observando a sin-
taxe e o discurso, dois autos disponíveis no Corpus Tycho Brahe, para
testar as hipóteses de Galves (2015) e Martins (2011): A barca do infer-
no e o auto da feira.
2. O TEATRO DE GIL VICENTE E OS AUTOS DA BARCA
DO INFERNO E DA FEIRA
De acordo com Teyssier (2005), é propriamente nos autos vi-
centinos que, com efeito, a linguagem ‘rústica’ aparece pela primei-
ra vez na literatura portuguesa. E somos levados a acreditar que Gil
149
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Vicente seja o fundador desse estilo. Como assegura Teyssier: ele “usa
como modelo, a linguagem do povo do seu tempo”. E ainda: “graças
à análise da linguagem rústica dos autos, podemos descrever e explicar
muitos traços do português popular falado na primeira metade do sé-
culo XVI”. (p. 89).
Mas não é só a linguagem rústica que tem espaço na obra de Gil
Vicente. Há espaço também para outras variantes da língua, uma vez
que é um teatro universal, com personagens de vários tipos, várias
condições, personagens alegóricas, divindades, religiosas, heroicas,
populares.
Para Teyssier, a obra de Gil Vicente é tão interessante em si
mesma, e se torna mais inteligível quando podemos conhecer o valor
dos traços linguísticos dos diferentes personagens.
O Auto da Feira é um auto de Natal, que foi representado para
o “mui excelente príncipe el-Rei Dom João III”, na cidade de Lisboa,
na manhã de Natal do ano de 1527.
As personagens podem ser divididas basicamente em dois gru-
pos. Alegóricas: Mercúrio, Tempo, Serafim, Diabo e Roma. Pastores/
camponeses/populares: os pastores Amâncio Vaz, Denis Lourenço,
com suas respectivas esposas Branca Anes e Marta Dias; e Justina,
Leonarda, Teodora, Môneca, Giralda, Juliana, Tesaura, Merenciana,
Dorotea, Gilberto, Nabor, Dionísio, Vicente, Mateus.
O Auto tem a natureza de ser um “auto de moralidade”, isto é,
possui uma temática religiosa, através da alegoria da “feira”. É tam-
bém uma alegoria do mundo, que é apresentado como uma feira, onde
um Serafim (que representa o Bem) e um Diabo (que representa o Mal),
vendem virtudes e vícios. Há, portanto, uma crítica ao mundo, visto
como um mercado das virtudes e dos vícios. Roma representa a corte
papal, que chega à feira para comprar a paz, em troca de indulgências,
perdão e bens materiais.
150
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Por fim, é também uma farsa, em sua parte final, com a chegada
de novos feirantes, em busca de comprar bens materiais.
Um fato relevante e que é pano de fundo para entender a crí-
tica social de Gil Vicente é o contexto histórico em que a obra está
inserida. Em 1517, Martinho Lutero promove a Reforma Protestante,
em um ambiente de questionamento intenso à postura da igreja ca-
tólica “exploradora” da fé, quanto à venda das indulgências. 10 anos
depois, em 1527, as tropas do imperador Carlos V invadem e pilham
a cidade de Roma. Há, portanto, um ambiente hostil e crítico ao clero
e à Santa Sé.
Segundo a classificação de Paul Teyssier, em relação às três ca-
tegorias de personagens (1. Parvos; 2. Camponeses realistas e ridícu-
los; e 3. Pastores de fantasia), as personagens de Auto da Feira estão
classificadas como ‘Pastores de fantasia’, especificamente na cena fi-
nal da Feira, de forma pouco caracterizada (p.90). Segundo Teyssier,
os pastores de fantasia são personagens de comédia, “meio reais, meio
poéticos, que lembram os heróis de Encina ou os primeiros autos saia-
gueses de Gil Vicente”3.
Já a Barca do Inferno foi representada para a Rainha Dona Maria,
em 1517. Trata-se de uma “prefiguração que os inimigos fazem sobre
todas as almas humanas, no momento da morte”, também é chamada
de auto de moralidade. Ela faz parte de uma trilogia, juntamente com a
barca do purgatório e a barca da Glória.
A visão da barca do inferno é maniqueísta e, portanto, vê o mun-
do a partir da dualidade bem x mal. De certo modo, não só essa vi-
são maniqueísta, mas certa “geografia do mundo pós-morte” perpassa
3 Juan del Encina (1468-1529) foi um poeta espanhol contemporâneo a Gil Vicente, comparti-
lha com este a paternidade do teatro iberícoda, está presente nas peças de Encina e nos autos
de Gil Vicente a região de Sayago, onde se falava o saiaguês uma variedade local do leonês,
língua romance histórica do antigo Reino de Leão, Astúrias e Extremadura, que sobrevive
nas Astúrias e em algumas zonas das províncias de León e Zamora e do distrito de Bragança
(RAMOS, 2010).
151
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
o imaginário medieval; a ideia de que existe um Paraíso, um Inferno
e um Purgatório.
Embora tanto o auto da Feira como a barca do inferno tenham
temática religiosa e tratem da questão da moralidade, a barca do infer-
no tem como temática principal o Juízo Final.
A cena inicial do auto conta com a presença de dois barqueiros:
o Anjo e o Diabo. Essas duas personagens recebem as “almas” dos pas-
sageiros que passam para o outro mundo. A cena se passa em um por-
to. Um dos barcos vai para a Glória, o outro para o inferno. As figuras
comparecem diante do Anjo e do Diabo.
A maioria das personagens entra na barca do inferno. Durante
suas vidas não seguiram o caminho de Deus, foram trapaceiras, ava-
rentas, interesseiras e cometeram vários pecados. Já duas dessas
personagens, que são: Joane, o parvo, que viveu de maneira simples,
e os quatro cavaleiros da Ordem de Cristo, que seguiam os preceitos
de Deus, vão para o céu.
A alegoria do juízo final é um recurso utilizado pelo dramaturgo
através de seus personagens (diabo e anjo). Além disso, cada persona-
gem possui uma simbologia associada à falsidade, ambição, corrupção,
avareza, mentira, hipocrisia, etc.
As personagens da barca do inferno representam diferentes ex-
tratos da sociedade portuguesa, são elas: Diabo, responsável pela barca
do Inferno; Anjo, responsável pela barca do Céu; Fidalgo, representan-
te da nobreza (vai para o inferno); Onzeneiro (espécie de agiota, usurá-
rio, que empresta dinheiro a juros), homem ganancioso e avarento (vai
para o inferno); Joane, o parvo, personagem que teve uma vida simples
(vai para o céu); Sapateiro, homem trabalhador, mas que trapaceou
seus clientes (vai para o inferno); Frade, representante da Igreja (vai
para o inferno), possuía uma amante, Florença, não seguiu os princípios
do catolicismo; Brísida Vaz, alcoviteira, praticava bruxaria e prostitui-
ção, (vai para o inferno); Judeu, personagem foi recusado pelo Diabo
152
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
e pelo Anjo por não ser adepto do Cristianismo (acaba indo para o in-
ferno); Corregedor e Procurador, representantes da lei, foram acusados
de serem manipuladores e utilizarem das leis e da justiça para o bem
e interesses pessoais (ambos vão para o inferno); Quatro Cavaleiros
da Ordem de Cristo, grupo de quatro homens que lutaram para disse-
minar o cristianismo em vida, e portanto, são absolvidos dos pecados
que cometeram (vão para o céu).
Gil Vicente, nessa peça, além de satirizar o juízo final, satiriza
também a sociedade portuguesa do século XVI, uma vez que os perso-
nagens chegam para o juízo final na mesma condição em que viveram
na terra, com sua personalidade, com seus vícios e virtudes, pecados
e retidão.
As temáticas desses dois autos de Gil Vicente muito se asseme-
lham com as temáticas dos Sermões do Padre Antônio Vieira, como
o Juízo Final e a moralidade.
Essa constatação nos dá suporte para estabelecer uma compa-
ração entre a ênclise do Teatro de Gil Vicente e a ênclise dos Sermões
de Antônio Vieira. Como destaca Galves (2015), na Gramática
do Português Clássico, a ordem dos clíticos é influenciada pelo discur-
so. A temática do Juízo Final e da moralidade, presente tanto nos au-
tos analisados quanto nos Sermões, favorecem estruturas contrastivas.
A Barca do Inferno traz a temática do Juízo final, e com isso o contraste
Bem versus Mal que também está presente no Auto da Feira, uma vez
que, como mencionado anteriormente, esse auto é um auto de morali-
dade, que estabelece uma crítica ao mundo, com suas virtudes e vícios,
e traz a representação dos contrapontos Bem versus Mal, nas figuras
do Serafim e do Diabo, respectivamente.
Como mostra Cruz (2019), a colocação de clíticos nos Sermões
(subida com ênclise, subida com próclise e não-subida) é sensível
à temática do sermão, estando o fenômeno relacionado a questões
discursivas/informacionais que favorecem, ou não, construções con-
153
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
trastivas. Segundo a autora, os sermões cuja temática é o “juízo final”,
como os da Primeira Dominga do Advento, são os que mais favorecem
a ênclise e os que mais possuem construções contrastivas, favorecendo
assim potenciais construções V1, com quebra prosódica entre o consti-
tuinte pré-verbal e o verbo que está fora da oração.
3. A COLOCAÇÃO DOS CLÍTICOS NO AUTO DA FEIRA E NA
BARCA DO INFERNO
A edição do Teatro de Gil Vicente utilizada para o levanta-
mento dos dados foi a versão disponibilizada no Corpus Histórico
do Português Anotado Tycho Brahe (http://www.tycho.iel.unicamp.
br/corpus/), e o levantamento dos dados para este trabalho foi reali-
zado através da leitura dos autos, uma vez que entendemos que para
se verificar as hipóteses levantadas se faz necessário entender a temá-
tica e mapear a estrutura discursiva.
Entre os aspectos observados para a tabulação e descrição dos da-
dos, estão os elementos que precedem o verbo; a colocação do clítico;
o tipo de predicado; o tipo de oração; e o tipo de clítico. Além desses
elementos sintáticos, foi também considerado e anotado o auto, a per-
sonagem e a temática discursiva.
Vimos que tanto o auto da Feira quanto a Barca do Inferno tra-
zem a temática da moralidade, a oposição bem e mal, vícios e virtudes,
e que, portanto, pode favorecer estruturas contrastivas uma estrutura
discursiva que favorece construções sintáticas V1, mesmo que superfi-
cialmente haja constituinte pré-verbal (V2), semelhante ao que aconte-
ce nos Sermões de Vieira. Todavia, apesar de a temática da moralidade
e do juízo final, no caso da Barca do Inferno, perpassar o texto dos autos,
esta não favorece estruturas contrastivas nas falas das personagens.
No auto da Feira, estruturas de apresentação e/ou exaltação
dos vícios e das virtudes tomam conta dos diálogos que buscam ofe-
recer os produtos dos feirantes, e convencer do bom negócio. A fala
154
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
do Tempo, a seguir, demonstra o estilo apresentacional das falas
no auto:
Entra o Tempo e arma ũa tenda com muitas cousas, e diz:
Em nome daquele que rege nas praças
de Anvers e Medina as feiras que têm,
começa-se a feira chamada das Graças
à honra da Virgem parida em Belém.
Quem quiser feirar
venha trocar, qu’ eu não hei de vender.
Todas virtudes que houverem mister
nesta minha tenda as podem achar
a troco de cousas que hão de trazer.
(GIL VICENTE, 1465, CTB: p. 31-32).
Neste trecho, o Tempo anuncia o início da feira e convida a todos
a feirar, não há na fala traços nem contraste no interior das sentenças,
mas atesta uma ênclise e uma próclise, ambas antecedidas por um sin-
tagma preposicional (PP, ‘prepositional phrase’). A ênclise reproduzida
em (05) é antecedida por um PP adjunto complexo, ou seja, contendo
muitas ramificações, encaixamentos, o que pode favorecer uma quebra
prosódica. Já a próclise tem como antecedente um PP que é argumento
(predicativo do objeto realizado pelo clítico) e na periferia mais à es-
querda temos um NP quantificado, um tópico, retomado pelo clítico,
estrutura que favorece fortemente a próclise no PCL.
(05) Em nome daquele que rege nas praças | de Anvers e Medina
as feiras que têm, | começa-se a feira chamada das Graças (TEMPO,
auto da Feira, p. 31)
(06) Todas virtudes que houverem mister | nesta minha tenda as po-
dem achar (TEMPO, auto da Feira, p. 32)
155
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Tanto a ênclise quanto a próclise atestada na fala da alegoria
tem motivações na sintaxe e são compatíveis com a estrutura pro-
posta por Galves, Namiuti, Paixão de Sousa (2006) e esquematizada
em Namiuti (2008).
[...] as formas XV com próclises e com ênclises na gramáti-
ca do período denominado de português médio por Galves
(2004) corresponderiam a estruturas diferentes: XV com ên-
clises corresponderia a um X externo à estrutura da frase;
e XV com próclises a um X interno.
i) [Sujeito/XP] # [V-cl]
ii) # [Sujeito/XP cl-V ]
Como nas línguas V2, a posição pré-verbal interna à oração
no PM está disponível para qualquer constituinte do sin-
tagma verbal seja focalizado ou não. Assim, diferentemente
das línguas SV, a posição pré-verbal é uma posição de “tópi-
co V2” e não uma posição apenas para afetivos. Desta forma
SV é um subconjunto de XV.
(NAMIUTI, 2008, p. 252).
Na Barca do Inferno estruturas de apresentação também estão
presentes, porém neste caso com o objetivo de acusar e/ou defender
os vícios e virtudes para fins de justificar o embarque e o não embarque
nas barcas da morte. Diferentemente do Auto da Feira, o auto da Barca
do inferno traz falas mais curtas, diálogos entre os barqueiros e os can-
didatos a passageiros estruturados em perguntas e respostas. O trecho
que se segue do diálogo entre o Anjo e o Fidalgo ilustra a estrutura
discursiva desta peça:
[...]
Fidalgo. Que me leixeis embarcar.
Sou fidalgo de solar
é bem que me recolhais.
Anjo. Não s’ embarca tirania
156
LINGUÍSTICA EM REDE
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
neste batel divinal.
Fidalgo. Não sei por que haveis por mal
que entre minha senhoria.
Anjo. Pera vossa fantesia
mui pequena é esta barca.
Fidalgo. Pera senhor de tal marca
não há ‘qui mais cortesia?
Venha a prancha e o atavio
levai-me desta ribeira.
Anjo. Não vindes vós de maneira
pera entrar neste navio,
[...]
(GIL VICENTE, 1465, CTB: p. 44).
O que caracteriza as estruturas sintáticas nestes autos vem do
gênero teatral que retrata um discurso direto. Observamos que o modo
imperativo está bastante presente nas falas das personagens, normal-
mente em estruturas claramente V1, como demonstra a fala do fidal-
go (07), V1 com conjunção coordenativa antecedendo o verbo, como
na fala do sapateiro (08), e com NP vocativo antecedendo o verbo,
como na fala do diabo (09):
(07) Pera senhor de tal marca | não há ‘qui mais cortesia? | Venha
a prancha e o atavio | levai-me desta ribeira. (FIDALGO, Barca
do Inferno, p. 44)
(08) Pois diabos que aguardais?| Vamos, venha a prancha logo | e le-
vai-me àquele fogo; (SAPATEIRO, Barca do Inferno, p. 46)
(09) Tu seu moço vai-te di que a cadeira é cá sobeja. (DIABO, Barca
do Inferno, p. 45)
157
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
A estrutura que subjaz aos dados acima poderia ser a mesma es-
trutura (i) representada na citação de Namiuti (2008, p. 252), com ver-
bo inicial (V1), sendo esta a estrutura da ênclise no PCl.
Não obstante, a ênclise com verbos no imperativo é categórica,
sendo produzida por todo tipo de personagem, como se pôde constatar
nos exemplos de (07) a (09). E, por ser categórica, a ênclise nas ora-
ções matrizes com verbo no modo imperativo, não foram consideradas
as orações imperativas para o cômputo da ênclise em contextos de va-
riação, ênclise e próclise.
Os dados foram classificados, seguindo a distribuição de Galves,
Brito e Paixão de Sousa (2005), em contextos de variação I (orações
matrizes com verbo antecedido por sujeito, advérbio ou sintagma pre-
posicional), como nos exemplos 10, 11, 12 e 13, e contextos de varia-
ção II (orações matrizes com verbo antecedido por orações adjuntas
ou conjunções coordenativas), como nos exemplos 14 e 15.
(10) porque quem bondade tem| nunca o mundo será seu| e mil can-
seiras lhe vêm (DIABO, Auto da Feira, p. 33)
(11) Giralda, eu achar-vos-ei | dois pares de passarinhos. (MATEUS,
Auto da Feira, p. 37)
(12) Eu vos direi que ele diz: | que fui bem aventurado (ENFORCADO,
Barca do Inferno, p. 48)
(13) mas quem há d’ estar no ar avorrece-lhe o sermão. (ENFORCADO,
Barca do Inferno, p. 49)
(14) Inda que mais nam levara desta feira em estremo | m’ alegrara
e descansara (BRANCA ANES, Auto da Feira , p.35)
(15) E como formos avindos | nos preços disto que digo, | vender-vos-
-ei como amigo | muitos enganos enfindos (DIABO, Auto da Feira,
p. 33)
158
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
É importante ressaltar que o sujeito pré-verbal (como em 10, 11 e
12) é pouco atestado nos autos, sendo o sujeito, na maioria dos casos,
nulo (como em 15 e 16) ou pós-verbal (como em 13). Os casos de sujei-
to pré-verbal (SV), apesar de raros, são atestados com próclise (6 dados
de próclise com SV no auto da Feira e 11 dados na Barca do Inferno).
O dado com SV, exemplificado em 11, é uma exceção, apresenta mesó-
clise, e é o único dado com sujeito pré-verbal em que a próclise não foi
atestada, o que nos leva a supor que o tempo futuro (contexto de me-
sóclise) pode ser um fator relevante para explicar a não-ocorrência
da próclise.
A distribuição dos dados de próclise e ênclise em contextos
de variação são semelhantes nos dois autos. Ambos atestam a ênclise
em patamares superiores aos encontrados nos textos do século XVI,
25% na Barca do Inferno e 26% no Auto da Feira, como se pode ver na
tabela 1, mas mantendo a preferência da próclise acima de 70%.
Tabela 1. Próclise e ênclise em contextos de variação (variação I e II)
Barca do Inferno Feira
Próclise 27 (75%) 39 (74%)
Ênclise 9 (25%) 14 (26%)
Total 36 53
Fonte: elaboração própria.
Vimos que, de acordo com Galves, Namiuti e Paixão de Sousa
(2006), a ênclise nos textos do PCL não chega a 10%, com apenas duas
exceções: o texto de Manuel da Costa, nascido em 1601, com 31%
de ênclise, e os “Sermões” do Padre Antônio Vieira, nascido em 1608,
com 54% de ênclise. E assim como nos autos aqui comentados, apesar
da alta frequência de ênclise nesses dois textos, comparada à dos tex-
tos contemporâneos, a próclise ainda se mostrou bastante frequente.
159
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Com relação aos personagens que atestaram os dados,
dos 9 dados de ênclise em contexto de variação atestados na Barca
do Inferno, 4 foram atestados em falas de personagens populares e 5
em falas de personagens cultos, eclesiásticos e alegóricos; dos 14 da-
dos de ênclise em contexto de variação no auto da Feira, 9 foram ates-
tados em falas de personagens populares e 5 em falas de personagens
alegóricos. Com relação às próclises, dos 27 dados de próclise em con-
texto de variação, atestados na Barca do Inferno, 22 foram atestados
em falas de personagens populares e 5 em falas de personagens cultos,
eclesiásticos e alegóricos. Dos 39 dados de próclise atestados no auto
da Feira, em contexto de variação, 23 foram atestados em falas de per-
sonagens populares e 16 em falas de personagens alegóricos. Não sen-
do, portanto, a ênclise ou a próclise características exclusivas de tipos
de personagens populares ou cultos nesses autos.
Destacamos o fato de o volume de personagens caracterizados
por Teyssier (2005) de “fala rústica” ser maior que a quantidade de per-
sonagens alegóricos e “cultos”, e ainda assim a próclise é bastante
atestada.
A princípio, a temática não favoreceu a ênclise, como nos Sermões
de Vieira, mas o tipo de variação sim. Ao separarmos por contexto
de Variação I e II, constatamos que as ênclises se concentram nos con-
textos de variação II, como podemos verificar nas tabelas 2 e 3, fato
que corrobora as considerações de Galves (2015).
Tabela 2. Próclise e ênclise em contextos de variação I
Barca do Inferno Feira
Próclise 25 (86%) 36 (92%)
Ênclise 4 (14%) 03 (8%)
Total 29 39
Fonte: elaboração própria.
160
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Tabela 3. Próclise e ênclise em contextos de variação II
Barca do Inferno Feira
Próclise 2 (29%) 4 (27%)
Ênclise 5 (71%) 11 (73%)
Total 7 15
Fonte: elaboração própria.
A ênclise em ambas as peças aqui estudadas apresenta os mes-
mos patamares observados nos demais textos do período clássico
por Galves (2015).
Na Barca do Inferno, tanto a próclise quanto a ênclise em con-
texto de variação I é produzida por personagens cultos e popula-
res. Atestam próclise: Anjo, Diabo, Onzeneiro, Cavaleiros da Ordem
de Cristo, Corregedor, Enforcado, Frade, Judeu e Brísida; atestam ên-
clise: Frade, Brísida, Enforcado e Cavaleiros da Ordem de Cristo.
O mesmo acontece no auto da Feira. Tanto a próclise quanto
a ênclise em contexto de variação I é produzida por personagens alegó-
ricos e populares. Atestam próclise: Mercúrio, Tempo, Diabo, Serafim,
Amâncio, Dênis, Branca, Môneca, Leonarda, Giralda e Tesaura. Atestam
ênclise: Tempo, Roma, Mateus e Giralda.
Também no contexto de variação II, no auto da Feira, tanto
a próclise quanto a ênclise são produzidas por personagens alegóricos
e populares. Atestam próclise: Mercúrio, Diabo e Branca. E atestam
ênclise: Mercúrio, Diabo, Amâncio, Dênis, Branca, Juliana, Vicente
e Mateus. Já na Barca do Inferno, a próclise no contexto de variação
II é produzida apenas por personagens alegóricos e cultos. Atestam
próclise: Diabo e Fidalgo, enquanto a ênclise é produzida por perso-
nagens alegóricos, cultos e populares. Atestam ênclise: Diabo, Fidalgo,
Onzeneiro, Sapateiro e Corregedor. Tais fatos podem sugerir que a ên-
clise no contexto de variação II é mais geral, e a próclise menos po-
pular nesse contexto. Todavia, nos parece evidente que nem a ênclise
161
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
nem a próclise sejam exclusivas de uma determinada categoria de per-
sonagens, seja na Barca do Inferno, seja no Auto da Feira, isso é: tan-
to personagens alegóricos quanto populares ou cultos podem realizar
próclise ou ênclise, em todos os contextos de variação. Com relação
às frequências, ambos os autos são proclíticos nos contextos de varia-
ção I, e na soma dos contextos de variação (cf. tabelas 1 e 2), apenas
nos contextos de variação II a ênclise supera a próclise, e este resul-
tado é equivalente ao encontrado nos textos representativos do PCL
por Galves, Brito e Paixão de Sousa (2003), e retomado em Galves
(2015).
Com relação ao fenômeno da interpolação, observamos que os
autos também apresentam os mesmos patamares de frequência obser-
vados por Namiuti (2008) e Galves, Namiuti e Paixão de Sousa (2006)
para o PCL. O Auto da Feira registrou 101 dados de próclise obrigató-
ria, sendo 83 em orações subordinadas. Destes, 3 atestaram interpola-
ção de constituintes, sendo eles o advérbio dêitico ‘cá’ e os pronomes
sujeitos ‘ele’ e ‘eu’ (16, 17 e 18). A frequência da interpolação no auto
da Feira não ultrapassou 3%; já a Barca do Inferno registrou 97 da-
dos de próclise categórica, sendo 38 em orações subordinadas. Destes,
2 atestaram a interpolação de constituintes, sendo eles o sujeito im-
precativo ‘Deos’ e o operador de negação sentencial ‘nam’ (19, 20).
A frequência de interpolação na Barca do Inferno não ultrapassou 5%.
(16) e quem me cá descendeu (MERCÚRIO, Auto da Feira, p. 30)
(17) no dia que s’ ele assina (MERCÚRIO, Auto da Feira, p. 31)
(18) Ò diabo que o eu dou (BRANCA, Auto da Feira, p. 35)
(19) Não há mercê que me Deos faça? (SAPATEIRO, Barca do infer-
no, p. 46)
(20) Porque se o nam tornais (PROCURADOR, Barca do inferno,
p. 48)
162
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
A equivalência da frequência de interpolação em ambas as peças
e da distribuição da ênclise pelos contextos de Variação I e II, com as
frequências atestadas nos textos dos autores nascidos entre o sécu-
los XVI e XVII por Galves, Namiuti, Paixão de Sousa (2006) e Namiuti
(2008), somada à expressão do sujeito VS e nulo, e a preferência de pró-
clise com SV reforçam a hipótese de que a gramática que subjaz às fa-
las dos personagens de Gil Vicente nestes dois autos é a do PCL ou por-
tuguês médio, para utilizar a denominação apresentada por Galves,
Namiuti, Paixão de Sousa (2006).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Buscamos questionar o estatuto da ênclise encontrada nas falas
das personagens de Gil Vicente no Auto da Feira e na Barca do Inferno
trazendo elementos para contribuir na discussão em torno da histó-
ria gramatical do português. Consideramos as hipóteses antagônicas
de Martins (2011) e Galves (2015) sobre o estatuto gramatical da êncli-
se no teatro de Gil Vicente. Enquanto para a primeira a ênclise na fala
das personagens populares de Gil Vicente é evidência de uma gramáti-
ca popular enclítica no período clássico, para a segunda a ênclise ates-
tada nas falas das personagens vicentinas é derivada de uma gramá-
tica proclítica V2, também presente nos textos literários, cujo clítico
é sensível à primeira posição em um sintagma entoacional e, portanto,
textos com determinadas temáticas que favoreçam estruturas prosódi-
cas V1 tenderiam a ser mais enclíticos, a exemplo do que foi observado
nos Sermões do Padre Antônio Vieira, por Galves (2003), e retomado
em Galves, Namiuti e Paixão de Sousa (2006), entre outros trabalhos.
Vimos que a distribuição dos dados de próclise e ênclise nos con-
textos de variação no Auto da Feira e na Barca do Inferno são seme-
lhantes nas duas peças. Há predominância da próclise (75% na Barca
do Inferno e 74% no Auto da Feira), mas a ênclise aparece em pro-
porções superiores às encontradas em textos contemporâneos (25%
na Barca do Inferno e 27% no Auto da Feira contra frequências abaixo
de 10% em outros textos).
163
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
A temática da moralidade e do juízo final não favoreceram a ên-
clise nas peças, mas o contexto de variação, sim. Como foi observa-
do, o contexto de variação II foi o que mais propiciou casos de êncli-
se, com os percentuais de 71% e 73% na Barca do Inferno e no Auto
da Feira, respectivamente. Tal fato corrobora a afirmação de Galves
(2015), segundo a qual, no período clássico, no contexto de variação II,
pode haver frequências de até 80% de ênclise nos textos de vários auto-
res do período em textos de gêneros distintos, afastando uma possível
hipótese de se tratar de uma ênclise derivada de uma gramática mais
antiga, pois as ênclises atestadas são compatíveis em contexto e frequ-
ência com as de outros textos quinhentistas e o fenômeno da interpo-
lação apresenta-se raro, com característica encontrada no português
clássico
Observamos também que nem a ênclise nem a próclise se res-
tringem a uma determinada categoria de personagens, em nenhum
dos dois autos pesquisados. Desse modo, tanto personagens alegó-
ricos quanto populares ou cultos podem realizar próclise ou ênclise,
nos contextos de variação I e II, fato que favorece a hipótese de não
se tratar de uma ênclise derivada de uma gramática popular.
Por fim, concluímos que a colocação pronominal átona no Auto
da Feira e na Barca do Inferno é compatível com a gramática do período
clássico, hipótese reforçada por outros fenômenos observados como
a forma de realização do Sujeito e o fenômeno da interpolação que exi-
bem, nas peças analisadas, comportamento semelhante ao atestado
nos demais textos do Português Clássico, reforçando assim a hipótese
de Galves (2015).
REFERÊNCIAS
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a variedade europeia dos séculos XVI a XX. Tese (Doutorado em Linguística) –
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CHOMSKY, Noam. The minimalist program. Nova York: MIT Press, 1995
164
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
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Pôster Apresentado no V Congresso Internacional de Linguística Histórica:
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TEYSSIER. Paul. A Língua de Gil Vicente. Imprensa Nacional. Lisboa, 2005.
165
REMNANT MOVEMENT NO ESPANHOL
MEDIEVAL: PRIMEIRAS REFLEXÕES1
Carlos Felipe Pinto
(UFBA)
INTRODUÇÃO
Pelo menos desde Greemberg (1966), numa perspectiva da ti-
pologia linguística, a ordem de palavras nas línguas humanas obteve
atenção especial. Considerando os constituintes “sujeito”, “verbo” e
“objeto”, Greemberg (1966) mostra que as línguas podem apresentar
as seguintes possibilidades: S-V-O, S-O-V (mais observadas); V-S-O,
V-O-S (observação intermediária); O-V-S, O-S-V (menos observadas).
O modelo gerativista, entendendo a sintaxe como os princí-
pios pelos quais sentenças são construídas em línguas naturais, co-
meça a explorar o tema da ordem de palavras, assumindo, a partir
1 Este texto é uma primeira versão escrita de ideias discutidas em diversos eventos nos quais
participei durante o ano de 2021. Agradeço especialmente a Charlotte Galves pelas ideias
e discussões iniciais durante a supervisão de um estágio de pós-doutoramento com bolsa
CAPES na UNICAMP entre 2019-2020. Dedico este texto a Ilza Ribeiro, como lembrança de
tudo o que fez para o desenvolvimento de pesquisa sobre línguas medievais no quadro gera-
tivista no Brasil, particularmente da minha própria; certamente, se estivesse entre nós, Ilza
seria minha maior interlocutora e ofereceria contribuições fundamentais para o desenvolvi-
mento da minha pesquisa.
166
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
de Chomsky (1981), a Teoria de Princípios e Parâmetros, que propunha
que todas as línguas possuíam algumas propriedades invariáveis (os
Princípios) e uma quantidade de propriedades abertas à variação (os
Parâmetros). Tanto Princípios como Parâmetros, nesse modelo, estão
restringidos pelas propriedades da Faculdade da Linguagem.
Nessa perspectiva, as línguas teriam como Princípio de que todo
sintagma é endocêntrico (cf. HERNANZ; BRUCART, 1987), ou seja, to-
dos os sintagmas teriam um núcleo. O que estaria aberto à variação
entre as línguas (o que seria uma opção paramétrica) é a ordem em que
o núcleo do sintagma teria em relação aos seus argumentos e adjuntos.
Assim, o japonês é uma língua com ordem O-V e o português uma lín-
gua com ordem V-O. O japonês fixaria o parâmetro do núcleo final en-
quanto o português fixaria o parâmetro do núcleo inicial.
A partir dos anos 1980 também, um punhado de línguas germâ-
nicas atuais começaram a ser estudadas e foi mostrado que, diferente-
mente de línguas como o inglês, que possuem a ordem S-V quase ca-
tegórica, esse grupo de línguas pode apresentar qualquer constituinte
em posição pré-verbal tendo como única exigência que o verbo finito
seja o segundo constituinte da oração, o que ficou conhecido como
“efeitoV2”.
Ainda no final da década de 1980, motivados pelo trabalho
de Lightfoot (1979) e o interesse comparativo do modelo paramétri-
co, uma série de estudos foi realizada sobre as línguas românicas me-
dievais e mostrou que o ordenamento de constituintes era diferentes
do das fases atuais e que, em suas fases medievais, as línguas români-
cas apresentam características de “línguas V2”. A principal diferença,
no entanto, entre as línguas germânicas atuais e as línguas românicas
medievais é que a restrição V2 não se mostrava tão rigorosa nas ro-
mânicas antigas como se mostra nas germânicas atuais: nas români-
cas antigas também se observava uma quantidade consideravelmente
grande de ordem linear V1 e alguns poucos dados de ordem linear V>2,
167
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
o que fez que alguns pesquisadores contestassem a hipótese V2 para
as línguas românicas medievais.
Neste trabalho, sem pretensões exaustivas, apresento apenas
um argumento novo para reforçar a análise de que as línguas româ-
nicas medievais (aqui, considero apenas dados do espanhol medie-
val) podem ser entendidas como línguas V2: os elementos em posição
pré-verbal, seja qual for a sua quantidade, seriam o resultado de um
movimento remanescente (remnant movement) de todo ou uma por-
ção do IP após o movimento do verbo para a periferia esquerda. Para
alcançar o objetivo proposto: faço uma breve apresentação sobre
o efeito V2 nas línguas germânicas atuais; mostro como o espanhol
medieval pode ser considerado dentro dessa perspectiva; apresento
a argumentação contrária à análise V2 com base em dados de ordem
V>2; discuto a nova perspectiva de remnant movement com base tam-
bém em orações com ordem V>2. A conclusão inicial da argumentação
é a de que há evidências de que os constituintes em posição pré-verbal
na ordem V>2 apresentam a mesma ordenação que teriam em posição
pós-verbal, o que indicaria o movimento remanescente de todo o IP
para satisfação do efeito V2.
1. O EFEITO V2
As línguas V2 são línguas em que o verbo finito aparece como
o segundo constituinte da oração, precedido apenas por um consti-
tuinte qualquer, independentemente de sua função sintática. Quando
o sujeito não é o primeiro constituinte, deve seguir imediatamente
o verbo. Os exemplos em (1) do africâner ilustram o efeito V2 em ora-
ções matrizes:
(1) a. André het gister die storie geskryf
André tem ontem a história escrito
b. Gister het André die storie geskryf
168
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Ontem tem André a história escrito
c. Die storie het André gister geskyrf
A história tem André ontem escrito
d. Nêrens praat mense meer Latyn nie
Em nenhum lugar falam as pessoas mais latim
e. Wat lees jy vandag?
Que lê você hoje? (BIBERAUER, 2002, p. 19)
O primeiro constituinte é: o sujeito em (1a), um advérbio em
(1b), o objeto direto em (1c), um sintagma preposicionado locativo
em (1d), um pronome interrogativo em (1e). Ainda, as línguas V2 não
são um grupo homogêneo. As orações subordinadas particularmente
estão abertas à variação, como ilustram os exemplos em (2-4) a seguir:
(2) a. Das Buch kauft Hans gestern. (alemão)
O livro comprou Hann ontem
b. ... dass Hans dans Buch gestern kauft
que Hans o livro ontem comprou (TORRES MORAIS, 1995,
p. 64)
(3) a. ...daβ er ihr etwas gasagt hat. (alemão)
que ele ela.DAT alguma coisa dito tem (HAIDER, 1986,
p. 54)
b. ...at Jens ikke skjØnte dette apØrmálet. (norueguês)
que Jean não entendeu esta questão ( TA R A L D S E N ,
1986, p. 8)
(4) a. Oyfn veg vet dos yingl zen a kats. (iídiche)
Na avenida vai o garoto ver um gato
169
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
b. oyb oyfn veg vet dos yingl zen a kats.
se na avenida vai o garoto ver um gato (SANTORINI,
1995, p. 54)
O exemplo em (2) mostra que, no alemão, há assimetria entre
orações matrizes e subordinadas: o efeito V2 acontece apenas em ora-
ções matrizes. O exemplo em (3), mostra que, nessas línguas assimé-
tricas, o verbo pode estar em posição final (3a) ou medial (3b). Por fim,
o exemplo (4) mostra que, no iídiche, há simetria entre orações matri-
zes e subordinadas, observando-se o efeito V2 em ambas.
Formalmente, desde Den Besten (1989), as orações V2 das lín-
guas assimétricas foram analisadas como instâncias de movimento
do verbo para CP nas orações matrizes e sem movimento nas subor-
dinadas. Considerando a simetria entre orações matrizes e subordi-
nadas, a partir de Thráinsson (1986), as orações V2 foram analisadas
nessas línguas como instâncias de movimento do verbo para IP tanto
em orações matrizes como em subordinadas2:
(5) O efeito V2 em línguas assimétricas (6) O efeito V2 em línguas simétricas
Vikner (1995), no entanto, faz uma revisão das análises propostas
para o efeito V2 e argumenta que, em qualquer tipo de língua, o efeito
V2 significa movimento do verbo para CP. Vikner (1995) mostra que há
evidências independentes para que seja assumida mais uma posição
no campo CP (por exemplo, orações com dois complementizadores)
2 Seguindo essas análises, nas línguas assimétricas, SpecCP é a projeção A-Barra e SpecIP é
uma posição A. Nas línguas simétricas, SpecIP é uma posição A-Barra.
170
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
e que a ordem dos constituintes em determinados tipos de oração
são claros exemplos de movimento do verbo para CP e que a posição
de SpecIP é exclusivamente uma posição A3:
SpecCP Cº SpecIP Iº SpecTP/SpecVP
(7) a. (nulo) — verbo finito — sujeito — (nulo) — (nulo) ...
b. (nulo) — verbo finito — tópico — (nulo) — sujeito ...
(8) a. Hafði Pétur þá ekki enn lesið bókina
Tem Pétur então não ainda lido o libro.DEF
b. *Hafði bókina Pétur þá ekki enn lesið
Tem o livro.DEF Pétur então não ainda lido
(VIKNER, 1995, p. 88)
A argumentação de Vikner (1995) é a seguinte: se a análise V2-IP
para as línguas simétricas estivesse correta, estruturas como (7a) e (7b)
seriam igualmente possíveis; caso contrário, ou seja, se SpecIP não fos-
se uma posição A-Barra, somente (7b) seria possível. Os exemplos em
(8) são das chamadas construções “V1 narrativo”, em que o verbo fini-
to está, segundo Vikner (1995) claramente em CP. A agramaticalidade
de apenas (8a) mostra que somente o sujeito pode estar imediatamen-
te após o verbo, o que indica que SpecIP é apenas uma posição A e
o verbo deve estar em CP em qualquer outro tipo de oração.
Nessa linha de pensamento, em Pinto (2011) propus uma análise
unificada para explicar a variação na manifestação do efeito V2 toman-
do como ponto de partida: a) a periferia esquerda da oração proposta
por Rizzi (1997) e trabalhos posteriores; b) efeito V2 implica movi-
mento do verbo para CP categoricamente seguindo Vikner (1995); c)
efeito V2 está relacionado com o traço EPP em FinP conforme indica
Roberts (2004); d) efeito V2 ocorre apenas em orações marcadas com o
3 Bobaljik e Jonas (1996) também demonstram que, no islandês, SpecIP é uma posição A.
171
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
traço [+asserção] de acordo com Julien (2010). Assim, minha proposta
pode ser resumida na estrutura em (9) a seguir:
(9) Variação na manifestação do efeito V2
A periferia esquerda da oração de línguas V2 estaria composta
apenas por três projeções funcionais. ForceP seria responsável pela
força ilocucionária e o traço de assertividade. FrameP seria a posição
que abrigaria alguns marcadores de cena e tópicos pendentes. FinP
seria a posição responsável pelo traço EPP. Em línguas assimétricas,
onde a ordem linear V2 é categórica e não é possível efeito V2 em ora-
ções subordinadas com a presença do complementizador, o efeito V2 é
realizado em ForceP (V-to-I-to-Fin-to-Force)4. Em línguas simétricas,
onde o efeito V2 se manifesta também em orações subordinadas com a
presença da conjunção e a ordem linear V2 não é tão restrita, obser-
vando-se algumas construções específicas com ordem V>2, o efeito
V2 se realizaria em FinP (V-to-I-to-Fin).
2. O ESPANHOL MEDIEVAL E O EFEITO V2
Fontana (1993) apresenta uma série de diferenças estruturais
entre o espanhol medieval e o espanhol atual e considera, dadas as se-
4 Observe-se que Den Besten (1989) mostra que o comportamento dos elementos adjacentes
à conjunção em orações subordinadas é idêntico ao comportamento desses elementos em
relação ao verbo nas orações matrizes.
172
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
melhanças com línguas germânicas, que o espanhol medieval era uma
língua V2 simétrica. Em Pinto (2011) encontro os mesmos tipos de da-
dos que Fontana (1993) usa para argumentar a favor de uma gramática
V2; porém não compartilho da análise V2-IP, reinterpretando os da-
dos numa configuração como a de (9) acima, assumindo, para o es-
panhol medieval, uma análise V2-CP. Os dados em (10-14) de Pinto
(2011) são evidências para defender uma gramática V2 no espanhol
medieval5:
(10) a. armas odiosas tomaste, matando a tu madre Clitemestra
ordem V2 linear
b. como agora fezieron el maestre don Pero Núnnez
(11) a. E esta carta otorga la abatíssima Sancha Garcíez,[...] ordem
O-V sem clítico
b. si corazon has.
(12) a. y así comienzo el espiritu por las medulas descender:
possibilidade
b. que no puede mi paciencia tolerar [...] de V-XP-V
(13) a. si el deudor otros bienes tuviese S-O-V – object shift
b. porque este cuerpo muchas lágrimas ha dejado a sus pa-
rientes: y amargos dolores.
(14) a. De todo crebantamiento de casa haya el quereloso el tercio.
V-S-XP
b. si non pagare yo, o mis herederos, las dichas tres carga
de pan.
Acima, os exemplos em (a) ilustram casos de orações matri-
zes e os exemplos em (b) casos de orações subordinadas. (10) mostra
5 No espanhol medieval não há registro de verbos com partículas nem relação da negação com
movimento do verbo (a negação sempre é pré-verbal sendo analisada por PINTO, 2001, como
um elemento clítico).
173
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
uma ordem linear V2, embora esta não seja exclusiva no espanhol me-
dieval; (11) mostra a ordem O-V sem duplicação clítica, o que indica
que o objeto foi movido (e não gerado na base) para a frente do verbo;
(12) mostra que o verbo modal está alto, localizando-se à esquerda
de diversos elementos, como o sujeito, separado do verbo lexical; (13)
ilustra construções de “object shift”, registradas em línguas V2 simétri-
cas como islandês e iídiche; (14) ilustra a inversão germânica, na qual
o sujeito segue imediatamente o verbo quando em posição pós-verbal.
Dessa forma, Pinto (2011) conclui que o espanhol medieval apresenta-
va uma gramática V2.
No entanto, como Salvi (2001) e Mesching (2012) também pon-
tuaram, havia paralelamente às construções V2, construções clara-
mente não V2. Em Pinto (2011) também registrei esses dados:
(15) a. El molino ganólo ell abade don Martino teniendo aquella casa.
b. por que este homenaje no lo pudieron hacer con enemigo
del rey.
(16) a. Por cierto, cosas nuevas son para mí.
b. dicen otrosi que un ortolano todo cuanto había daba por dios
en limosnas
(17) a. Y desde a poco hubo enfermedad el sacerdote de que murió.
b. y que fuese con el gonzalo Ruiz de atienza.
Os dados em (15) mostram construções de deslocamento à es-
querda clítico; os dados em (16) mostram orações com ordem linear
V>2; os exemplos em (17) ilustram a chamada inversão românica, a or-
dem V-XP-S.
A partir da constatação de construções claramente não V2 no es-
panhol medieval, surge a questão de como analisar essa língua. A solu-
ção inicial proposta por mim em Pinto (2011, 2021) é que no espanhol
174
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
medieval havia um processo de competição de gramáticas no sentido
histórico de Kroch (2001) e na perspectiva da aquisição de Yang (2002).
Contudo, Martins (2019) e Sitariou (2019), considerando da-
dos com ordem V>2, argumentam que o espanhol medieval não pode
ter sido uma língua V2. Os exemplos em (18) são os argumentos
de Martins (2019) e os exemplos em (19) os de Sitaridou (2019):
(18) Ya nunca [vos yo mas] veré! (MARTINS, 2019, p. 10)
(19) a. XP-XP-V (OK espanhol antigo; *Old High German)
En este logar d’esta razón tornó Moisén
b. Spro-XP-V (OK espanhol antigo; *Old High German)
E ellos cuando esta razón oyén a Noé riyén se d’ello (SITARIDOU,
2019, p. 136)
Para Martins (2019), o fato de haver mais de um elemento
não tópico em posição pré-verbal indica que mais de um elemento
foi movido para a periferia esquerda e que, portanto, seria uma opera-
ção não permitida em línguas V2, que somente exibiriam mais de um
elemento em posição pré-verbal quando o primeiro elemento é um
tipo de tópico.
Para Sitaridou (2019), a argumentação tem como ponto de parti-
da a comparação com o Old High German (a fase mais antiga da língua
alemã), na qual a ordem V>2 é muito rara, notando que muitas cons-
truções com essa ordem são possíveis no espanhol medieval, mas não
são possíveis no Old High German, o que não caracterizaria o espanhol
medieval como nenhum tipo de língua V2.
Podem ser destacados, entretanto, dois pontos fracos nas análi-
ses das autoras. Martins (2019) assume uma perspectiva de múltiplos
especificadores, o que já foi mostrado ser inadequado desde Cinque
(1999) para explicar a ordenação de constituintes. Sitaridou (2019) al-
tera, sem justificativa, a hierarquia das estruturas, propondo uma pro-
175
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
jeção de FocP entre FinP e TP para analisar uma construção não finita
com ordem O-V6.
Assim, na próxima seção, gostaria de propor uma alternativa
à análise de competição de gramáticas proposta por mim em trabalhos
anteriores (PINTO, 2011, 2018, 2021) para explicar a ordem V>2 no es-
panhol medieval dentro de uma perspectiva de gramáticas V2.
3. REMNANT MOVEMENT NO ESPANHOL MEDIEVAL
Argumentei em trabalhos anteriores, especialmente em Pinto
(2021), que a variação gramatical registrada no espanhol medieval
se deveu ao contato entre línguas dos povos românicos com os povos
germânicos considerando o panorama mais amplo numa perspectiva
sócio-histórica. Mostrei em Pinto (2011) que o efeito V2 encontrado
no espanhol medieval não restringia a primeira posição ao traço [+tó-
pico], como acontecia nas germânicas antigas de maneira mais restri-
ta e nas germânicas atuais de maneira mais generalizada. O espanhol
medieval exibia elementos neutros em primeira posição, particular-
mente na ordem O-V sem retomada clítica. Analisei essas construções
como o resultado de um processo de transmissão linguística irregular
ou aprendizagem imperfeita decorrente do uso do latim/romance/cas-
telhano em diferentes épocas como L2: os povos germânicos apren-
diam o léxico românico mas conservavam traços de sua gramática ger-
mânica, produzindo algumas construções germânicas com uma roupa
românica; como os povos germânicos tinham prestígio (cf. TUTEN,
2003), eram imitados pelos nativos da Península Ibérica num processo
de acomodação. Esse teria sido o input para as novas gerações.
6 O dado é “ca menester les era de consejo tomar” (SITARIDOU, 2019, p. 148). A autora analisa
a preposição “de” como um complementizador em FinP. No entanto, na explicação de Rizzi
(1997), nesses casos, o elemento focalizado precede o complementizador. Ademais, para
Rizzi (1997), FinP é a posição mais baixa da periferia esquerda e foco, como uma categoria
pragmático-discursiva, deve estar acima de FinP.
176
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
No entanto, é necessária uma explicação da gramática V2 para
o mais aguerrido gerativista que só compreende uma gramática como
um objeto mental, atemporal e ahistórico e não aceita opcionalidade
no sistema. A alternativa que gostaria de apresentar aqui, mesmo acre-
ditando que a proposta de gramáticas em competição é mais vantajosa
do ponto de vista sócio-histórico, para a manutenção de uma análise
V2 é a operação de remnant movement.
Basicamente, a operação de remnant movement consiste, como
discutido por Hinterhölz (2006), na extração de um constituinte
de dentro de uma projeção e no posterior movimento de toda a pro-
jeção remanescente, com a categoria vazia deixada pelo movimento
anterior, para uma posição mais alta. Ordóñez e Olarrea (2006) procu-
ram explicar a ordem Wh-S-V das interrogativas parciais do espanhol
caribenho nessa perspectiva:
(20) ¿Qué tú quieres?
a. [IP tú quieres qué] Merge e checagem até IP
b. [Op1 qué j [IP tú quieres t j] Movimento de “qué” para Op1
c. [GroundP [IP tú quieres]t i [qué j [t i] ] ] Movimento de IP sobre
Op1 para GroundP
d. [Op2 quéj [GroundP [IP tú quieres]t i [t j [t i] ] ] ] Movimento de
“qué” sobre GroundP para Op1
A derivação em (20) propõe que [IP tú quieres t j] seja movido após
o movimento do elemento WH para uma posição de operador mais alta.
A análise que gostaria de propor para o espanhol medieval segue
a mesma linha: após o movimento do verbo da posição mais alta de IP
para FinP, o IP remanescente é movido com o vestígio do movimento
do verbo para SpecFinP.
177
LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Foram analisadas as mesmas orações consideradas por Pinto
(2011), com orações coletadas de textos entre os séculos XII e XV
(Tabela 1) e agrupadas conforme a posição linear do verbo (Tabela 2):
Tabela 1. Número de orações finitas em cada século
Período Orações Finitas
Século XII 502
Século XIII 906
Século XIV 893
Século XV 904
Tabela 2. Distribuição geral da posição do verbo nas duas fases do espanhol em %
Século XII Século XIII Século XIV Século XV
V1 44,77 55,88 51,61 47,89
V2 42,18 40,04 42,06 43,68
V>2 12,93 3,74 5,55 8,70
A Tabela 2 indica que as orações V>2 significam uma pequena
porcentagem do corpus especialmente a partir do Século XIII, sugerin-
do que são, efetivamente, uma exceção.
As orações V>2 foram agrupadas em três tipos:
I) orações V>2 claramente compatíveis com uma gramática V2:
S-O-V:
(21) a. porque esta doncella mucha pecunia traxo consigo. (11YY)
b. Pues quelos contrariantes fiel tomaren, aquel fiel demues-
treles el plazo al qual apareçcan. (1218)
Adv-S(pro)-V:
(22) a. y dixo la enperatriz que nunca dios mandase que ella posase
con ella ala mesa (1340B)
b. antes ella dio causa a la obra que tú feziste; (1425)
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
II) orações V>2 claramente não compatíveis com uma gramática V2:
CLLD:
(23) a. sin embargo la manera de tu ensalzamiento a dios lo atribu-
yo. (11XX)
b. O rey la razon yo la puedo haber por mi: (12YY)
III) Orações V>2 sob análise:
XP-XP-V:
(24) a. E como la doncella stuuiese pensando que har’a de si. subita-
mente entro a ella su ama. (11YY)
b. El viernes siete de Diçiembre, saliendo el Rey nuestro señor
de su palaçio desta çibdad, […] salio vn hombre, que estaua
escondido aguardando al Rey, nuestro señor, y por las espal-
das tiró una cuchillada que alcanzó á su alteza en el pescuezo
(1492)
c. y conesta consideracion en solos vosotros tengo esperanza.
(1488)
S-XP-V (sub):
(25) en que tu ahora entras. (12YY)
A-OI-V:
(26) Mucho a dios avemus agradescer por que en natura de omes
nos hizo nacer :. (11XX)
XP-XP-S/O-V:
(27) a. porcuanto ahora en esta cama dos nobles nombres han pe-
rescido. (11YY)
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
b. Mas uos compliendo las conuenientias deuant ditas, nin-
gun abbat ni monge de Yrach non aya poder de toller uos las
deuant ditas heredades (1231)
c. si por ventura en alguna cosa el fuero no abastase (12XX)
S-XP-XP-V:
(28) La ama como oyese y entendiese esto: casi tornada loca dice.
(11YY)
XP-S-XP-V:
(29) a. E cuando vieron los monjes que hab’hanhemos llevado
el cuerpo que no lo podian enterrar uno de ellos a grandes voces
dijo (11XX)
b. Por ende todo el husofrucho que nos auemos ennas sobre-
dichas casas e bodega e cubas e tinas e vinnas e vuerto desde
vuey día en delantre de nuestro juro sea remouido e derrey-
gado (1279)
c. E otro día el confessor, aviendo coidado de la oveja que le
fue encomendada, viene syn ser llamado e dize a los de su
casa: (1411)
Os exemplos em (21-22) do grupo I mostram ordens possíveis
nas línguas V2 simétricas: o primeiro constituinte é o sujeito, podendo
ser analisado com um tópico pendente, e o segundo constituinte satis-
faria EPP em FinP; o mesmo para o caso do advérbio em primeira po-
sição, que pode ser analisado como um marcador de cena em FrameP.
O exemplo em (23) do grupo II é claramente impossível em gra-
máticas V2, sendo a evidência da marcação paramétrica oposta.
Os exemplos em (24-29) do grupo III são justamente as orações
que precisam ser analisadas dentro da perspectiva do movimento re-
manescente. Esses exemplos podem ser divididos em dois subgrupos:
(24-26) são orações com apenas dois constituintes pré-verbais; (27-
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
29) são orações com mais de dois constituintes em posição pré-verbal.
A questão crucial é isolar aqueles dados em que o primeiro constituin-
te, no caso do primeiro subgrupo, ou o segundo constituinte, no caso
do segundo subgrupo, não represente um marcador de cena ou um tó-
pico. O estatuto do constituinte mais próximo ao verbo é indiferente.
A hipótese esperada é que a ordem encontrada em posição pré-
-verbal seja a mesma observada em posição pós-verbal antes do movi-
mento do verbo:
(30)
Em (30), primeiro, V se move para Fin; em seguida, todo o IP
ou partes inferiores se move para SpecFinP.
A observação dos dados do grupo III mostra que, no corpus
de Pinto (2011), V>2 ocorre em geral: a) dois ou mais adverbiais (ad-
vérbios e orações adverbias); b) advérbios + argumentos: Adv-O =
OK V2 / O-Adv = OK V2 se O = HT (frame). Não se registram as ordens
de Martins (2019) com dois ou mais elementos não tópicos. Assim,
a favor da hipótese de remnant movement no espanhol medieval se en-
contram dados como:
(31) a. [Mucho a dios]i avemus agradescer ti (11XX)
b. en que [tu ahora]i entras ti. (12YY)
(31a) teria como ordem inicial “avemus agradecer mucho a dios”.
Aqui, após o movimento do verbo finito para FinP, [mucho a dios]
se move para SpecFinP. (31b) teria como ordem inicial “tú entras
ahora”. Após o movimento do verbo “entras” para FinP, [tú tj ahora]
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MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
se move para SpecFinP. O interessante de (31b) em relação a (31a)
é que em (31b) o verbo se localiza claramente entre o sujeito e o
adjunto, é movido e o seu vestígio mostra que todo o IP foi movi-
do para SpecFinP. Em (31a), como a porção remanescente já estava
na posição mais encaixada, esse efeito fica mais opaco. O exemplo
em (31a), por outro lado, teria a vantagem de que o primeiro consti-
tuinte é um elemento quantificado, não podendo atuar como um tó-
pico. Fica pendente para uma análise posterior a situação da ordem
V>2 com mais de dois elementos em primeira posição.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste breve texto, procurei discutir o fenômeno V2 no espanhol
medieval. O ponto central da discussão estava relacionado com a or-
dem V>2, que, embora seja muito pouco produtiva, é registrada em da-
dos do espanhol medieval, contrariando a análise de que essa fase
da língua tivesse apresentado uma gramática V2. Procurei argumen-
tar que, ou pela via da proposta de competição de gramáticas ou pela
via alternativa do movimento remanescente, é possível obter uma gra-
mática V2 subjacente aos dados do espanhol medieval.
Os dados analisados, com base no corpus inicial de Pinto (2011),
mostram que não se registram construções com vários itens não tópi-
cos e outros XP no corpus e que há construções que podem ser analisa-
das via remnant movement.
Ficam pendentes para uma análise posterior: a) a ampliação
do corpus para a observação de ordens V>2 com mais de um item
não tópico; b) análise das orações V>2 com mais de dois constituintes;
c) explicar quando e por que remnant movement acontece.
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LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
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LIVRO 5
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LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
SOBRE OS AUTORES
Carlos Felipe Pinto – É doutor em Linguística pela UNICAMP (2011),
onde também realizou estágio de Pós-Doutorado (2019-2020), bolsista
de Produtividade em Pesquisa (PQ2) do CNPq e professor da Universidade
Federal da Bahia. Lidera o Grupo de Estudios Gramaticales y Sociohistóricos
del Español Fontanella de Weinberg (UFBA/CNPq – https://fontanella.ufba.
br/) e coordena o Move! Núcleo de Estudos sobre o Movimento do Verbo
(https://cfcpinto.wixsite.com/move).
Cristiane Namiuti – É doutora em Linguística pela Universidade Estadual de
Campinas (UNICAMP) (2008) com estágio na Universidade de Lisboa (2006).
Fez parte das equipes fundadoras do Corpus Anotado do Português Histórico
Tycho Brahe (1998-2010). Atualmente é professora titular da Universidade
Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), professora do quadro permanente
do Programa de Pós-Graduação em Linguística (PPGLin/UESB), coordena o
Laboratório de Pesquisa em Linguística de Corpus (LAPELINC/UESB), integra
o grupo de pesquisadores do Laboratório Virtual de Humanidades Digitais
(LaViHD/USP) e faz parte de uma das equipes do C4AI–Centro de Inteligência
Artificial da USP (LaViHD-C4AI). Possui experiência na área de Linguística,
com ênfase em Linguística Histórica e metodologias automáticas de busca
de dados em textos escritos, atuando principalmente nos seguintes temas:
mudança linguística, história do português, sintaxe, linguística de corpus e
humanidades digitais.
Elisângela Gonçalves – É doutora em Linguística pela Universidade Estadual
de Campinas (2012), mestre em Letras e Linguística pela Universidade
Federal da Bahia (2004). Atualmente faz parte do corpo docente do Programa
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LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
de Pós-Graduação em Linguística (PPGLin/UESB) e é professora titular do
Departamento de Estudos Linguísticos e Literários, da Universidade Estadual
do Sudoeste da Bahia. É membro do Grupo de Pesquisa das Estruturas
Gramaticais e de Aquisição da Linguagem; (Uesb/CNPq), e do Grupo de
Pesquisa em Estudos da Língua(gem); (GPEL/Uesb/CNPq), do Grupo de
Pesquisa em Morfologia Distribuída: novos olhares (USP/CNPq) e do Grupo
de Estudos em Morfologia Distribuída, da USP, desde 2019. Tem experiência
na área de Linguística, com ênfase em Morfologia em interface com a Sintaxe
e com estudos do Léxico e em Linguística Histórica.
Flaviane Romani Fernandes Svartman – Possui graduação em Linguística
pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), doutorado em
Linguística pela mesma instituição, com período de estágio de doutorado na
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e pós-doutorado também pela
Unicamp. É docente do quadro permanente do Programa de Pós-Graduação
em Filologia e Língua Portuguesa (PPGFLP/USP) do Departamento de Letras
Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
da Universidade de São Paulo, bolsista de produtividade em pesquisa do
CNPq e vice-coordenadora do Grupo de Trabalho “Fonética e Fonologia” da
Anpoll. Suas investigações concernem ao estudo da fonologia e da fonética da
língua portuguesa, com especial interesse na prosódia, na interface sintaxe-
fonologia, na comparação entre variedades africanas, brasileiras e europeias
do português e no processamento de linguagem natural.
Lílian Teixeira de Sousa – Possui graduação em Letras pela Universidade
Federal de Ouro Preto (2004), mestrado em Estudos Linguísticos pela
Universidade Federal de Minas Gerais (2007), e doutorado em Linguística
pela Universidade Estadual de Campinas (2012) com período de sanduíche
na Universidade Livre de Berlim. Foi pesquisadora visitante na Universidade
de Cambridge (2018). Atualmente é professora adjunta da Universidade
Federal da Bahia, atuando na graduação e pós-graduação. Tem experiência
na área de Linguística, com ênfase em Teoria e Análise Linguística, atuando
principalmente nos seguintes temas: diacronia, sintaxe e interfaces.
Luciani Tenani – É professora associada na Universidade Estadual Paulista
“Júlio de Mesquita Filho” (Unesp), onde ministra disciplinas para licenciandos
em Letras e em Pedagogia e para pós-graduandos em Estudos Linguísticos.
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LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Fez mestrado e doutorado em Linguística na Unicamp, pós-doutorado em
Linguística Aplicada na USP e livre-docência na Unesp. É coordenadora do
Laboratório de Fonética, Unesp, e vice-líder do grupo de pesquisa “Estudos
sobre a linguagem” (CNPq/Unesp). É membro do Grupo de Trabalho “Fonética
e Fonologia” da Anpoll, tendo sido coordenadora do GT no período de 2018-
2021. Foi presidente do Grupo de Estudos Linguísticos do Estado de São Paulo
(2017-2019) e editora-chefe da Revista Estudos Linguísticos (2007-2009). É
bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq desde 2010. Integra o projeto
de internacionalização da pesquisa na Unesp, desde 2019, no âmbito do
convênio CAPES-Print.
Mariana Fagundes de Oliveira Lacerda – É doutora em Letras e Linguística
pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), em 2009, com estágio de
doutoramento no Centro Linguístico da Universidade de Lisboa (CLUL/
CAPES) é pós-doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos de
Linguagem (PPGEL) da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), em 2019. Na
Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), onde é Professora Titular,
coordena o Núcleo de Estudos de Língua Portuguesa (NELP) e o projeto
Corpus Eletrônico de Documentos Históricos do Sertão (CE-DOHS/FAPESB)
e é coeditora da revista A Cor das Letras. É membro do Projeto Nacional
para a História do Português Brasileiro (PHPB) e da Comissão Científica
Internacional do Projeto Pombalia – Pombal Global.
Matheus Oliver dos Santos Oliveira – Possui Graduação em Letras, Mestrado
em Estudos Linguísticos pela Universidade Estadual de Feira de Santana e
doutorado em Linguística pela Universidade Federal da Bahia. Debruça-se
sobre a pesquisa nas áreas de Linguística Histórica, Análise de Discurso e
História das Ideias Linguísticas. Coordena cursos de extensão universitária
no Programa Portal (UEFS). Possui experiência como professor de Língua
Portuguesa no ensino médio das redes pública e privada e como professor de
Linguística (PARFOR/UEFS). Integra os projetos de pesquisa Programa para
a História da Língua Portuguesa (PROHPOR) e a equipe baiana do Programa
Para a História do Português Brasileiro (PHPB-Ba), além do Tycho Brahe
(Unicamp). É membro da ABRALIN (Associação Brasileira de Linguística) e
da AOTP (American Organization of Teachers of Portuguese), da University of
Pittsburgh, nos Estados Unidos.
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LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Maurício Resende – Atualmente é professor de Teoria e Análise Linguística
na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Tem pós-doutorado em
Linguística pela Universidade de São Paulo (USP), é doutor em Linguística
pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), mestre em Linguística
pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e bacharel em Linguística/
licenciado em Letras Português pela Universidade Federal de Santa Catarina
(UFSC). Tem experiência no ensino de Português como Língua Estrangeira
(PLE) e no ensino de Latim e atua também como tradutor técnico inglês/
português na área de Linguística. Além disso, tem interesse por teoria e
análise linguística, trabalhando com o modelo da Morfologia Distribuída e de
Sintaxe/Semântica Formal; seus principais temas de interesse são: processos
de formação de palavras, aspecto, modalidade, aquisição de morfologia e
linguística diacrônica do português.
Natival Almeida Simões Neto – É doutor e mestre na área de Linguística
Histórica pelo Programa de Pós-graduação em Língua e Cultura, da
Universidade Federal da Bahia. Graduou-se em Letras Vernáculas na mesma
universidade. Realizou estágio pós-doutoral no Programa de Pós-graduação
em Letras Vernáculas, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É Professor
Assistente da Universidade Estadual de Feira de Santana, atuando na graduação
em Letras e no Programa de Pós-graduação em Estudos Linguísticos. Integra
o Programa Para a História da Língua Portuguesa (PROHPOR), realizando
pesquisas nas áreas de morfologia, lexicologia, onomástica e semântica.
Atuou na organização de coletâneas publicadas pelas editoras Mares (2016),
EDUNEB (2018, 2019) e EDUFBA (2021). É autor de artigos publicados em
livros e periódicos nacionais e internacionais.
Raiana Cristina Dias da Cruz – É doutoranda em Linguística, pelo Programa
de Pós-graduação em Linguística (PPGLin), Universidade Estadual do Sudoeste
da Bahia (UESB); mestre em Linguística (2019) pelo mesmo programa
(PPGLin) e universidade (UESB). Possui graduação em Licenciatura Plena
em Letras: Língua Portuguesa e Literatura portuguesa pela Universidade do
Estado da Bahia (2016). Faz parte da equipe de pesquisadores do Laboratório
de Pesquisa em Linguística de Corpus (LAPELINC/UESB) e do grupo de
pesquisa Estudos histórico-gramaticais baseados em redes de corpora digitais
anotados. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Linguística,
atuando principalmente nos seguintes temas: Sintaxe, Linguística Histórica,
língua portuguesa e pronomes clíticos.
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LINGUÍSTICA EM REDE
LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
Rebeca Silva do Nascimento Campos – É mestranda em Linguística pelo
programa de Pós-Graduação em Linguística (PPGLin/UESB) e licenciada em
Letras Modernas (Português/Inglês e respectivas literaturas) pela Universidade
Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Atuou como discente voluntária de
iniciação científica no Projeto de Pesquisa “Dados Orais da Microrregião de
Vitória da Conquista, Bahia: Construção de um Corpus Oral Digital Anotado”
e como bolsista no Projeto de Extensão “Orientação em Morfossintaxe para
Professores de Língua Portuguesa” nos anos de 2017 e 2018.
Zenaide de Oliveira Novais Carneiro – É doutora em Linguística (2005)
e Pós-Doutora em Linguística de Corpus (2010) pela Universidade Estadual
de Campinas (UNICAMP). Atualmente é Professora Plena da Universidade
Estadual de Feira de Santana (UEFS), onde coordena o projeto Corpus
Eletrônico de Documentos Históricos do Sertão (CE-DOHS/FAPESB). Integra
a equipe de pesquisadores do Projeto Nacional para a História do Português
Brasileiro (PHPB) e a Comissão Científica Internacional do Projeto Pombalia
– Pombal Global.
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LIVRO 5
MORFOLOGIA, SINTAXE E INTERFACES
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