NATHALIE
2 meses atrás…
Adentrei o hotel luxuoso, com uma decoração vitoriana, cheia de ostentação. Parei em uma
área mais vazia, próxima a recepção e retirei meus óculos escuros – mesmo estando de noite
–, os deixando no topo da cabeça. Chequei uma das orelhas vendo se o ponto de
comunicação ainda estava ali.
– Shalom, está me ouvindo? – sussurrei para minha melhor amiga.
– Sim – disse de volta – Ele está lá em cima te esperando, pode subir.
– Está bem. – respirei fundo.
O dia chegou, ou vai dar muito certo, ou vou acabar fodendo com tudo de uma vez. Vamos
manter o otimismo, é só o que me resta mesmo.
Arrumei minha postura, e engoli em seco. Me dirigi até a recepção, apertei o sininho no
balcão, e uma mulher loira dos olhos azuis gélidos se aproximou.
– Olá, boa noite – falei gentilmente – Vicenzo está me esperando no quarto 327, posso subir?
– Só um minuto. – ela se afastou e pegou um telefone.
Vicenzo é meu tio – não que eu o considere –, irmão de meu pai, que está morto junto a
minha mãe, pois o desgraçado fez o favor de os matar.
– Pode subir. – falou por fim.
– Obrigada. – dei um último sorriso e caminhei até os elevadores.
Vadia, não me disse nem um “boa noite”.
Apertei o botão chamando um dos elevadores, e olhei mais ao redor analisando os detalhes, é
uma bela decoração. As portas do elevador abriram e adentrei o mesmo, graças a Deus vazio.
Apertei o botão do décimo quinto andar, e suas portas começaram a fechar. Antes das portas
se fecharem totalmente vi Shalom passando, ela estava uniformizada, assim como os
funcionários do prédio.
Mordia o interior de minhas bochechas, ansiosa, impaciente, não sabendo se sairia satisfeita
daqui. Mas uma coisa é fato, eu só saio daquele quarto quando ele, ou eu estivermos mortos.
As portas do elevador finalmente abriram, o que durou alguns segundos pareceram horas.
Coloquei meus óculos no rosto novamente e sai do elevador, dando de cara com o quarto
327. Parei na frente do mesmo sentido um frio na barriga.
– Estou aqui, vou entrar. – falei baixo para Shalom.
– Boa sorte, se algo fora do planejado ocorrer avisa. – ela falou parecendo aflita.
Não a respondi mais, e bati na porta do quarto, mudando totalmente minha feição, não
deixando o nervosismo transparecer. Ouvi o barulho da porta sendo destrancada, e no
seguinte segundo aberta. A figura do homem de uns 50 anos apareceu, com um sorrisinho no
rosto.
Nojento.
Meu estômago se revirava, querendo colocar tudo para fora. Como um só ser causa tamanho
nojo em alguém?
– Nathalie – ele disse me analisando de cima a baixo – Está uma mulher. – ele pegou uma de
minhas mãos e a beijou.
Minha vontade foi de o agarrar pelos cabelos e bater com sua cabeça na parede.
– Tio Vicenzo, quanto tempo. – afastei minha mão de seu toque.
– Entre. – ele abriu mais a porta, me dando espaço.
Adentrei o quarto analisando tudo, como esperado, uma decoração luxuosa, assim como
todo hotel. Retirei meus óculos, e os coloquei dentro de minha bolsa. Ele fechou a porta e
passou por mim.
– Venha, vamos beber um bom vinho. – depositou uma mão nas minhas costas me guiando.
Me sentei em uma poltrona vermelha, cruzando minhas pernas, e ele se aproximou com uma
garrafa de vinho e duas taças. Ele nos serviu e se sentou na poltrona ao meu lado. Dei um
longo gole no líquido vermelho, me sentindo um pouco mais à vontade.
– Então, quais as novidades? – ele perguntou me olhando de uma forma nojenta.
– Ah, o senhor sabe, trabalhando, conseguindo conquistar minha liberdade financeira, sem
precisar mais mexer no dinheiro de meus pais – o alfinetei – E o senhor?
Ele se encostou na poltrona, cruzando as pernas, e deu de ombros.
– Cuidando dos negócios de seu avô, depois que o velho morreu sobrou tudo pra mim. – ele
soltou um riso, e me obriguei a fazer o mesmo.
Não tenho nem adjetivos o suficiente para descrever o ódio e nojo, que sinto por esse
homem. Nem todos os insultos existentes no mundo seriam o suficiente.
Depois de alguns minutos de conversa – me forçando a ser gentil –, ele foi ao banheiro. Tirei
uma pílula de minha bolsa e a abri depositando o pó em sua taça de vinho. É um sedativo na
verdade, vai derrubar ele por alguns minutos, o suficiente.
Mexi a taça para o líquido se misturar, e arrumei tudo como estava. Ouvi o barulho se
abrindo e em seguida Vicenzo saiu do banheiro. Ao vê-lo dei um sorriso, ele caminhou e se
sentou na poltrona ao meu lado novamente.
– E você Nathalie, já arrumou um namorado? — ele pegou a taça bebendo o líquido.
Isso!
– Ainda não – soltei um riso nasal, e ele acompanhou – Mas quem sabe um dia. – dei de
ombros.
Ele bocejou, e já não estava mais prestando atenção, isso é um bom sinal.
– Pode me dar um segundo? – balancei a cabeça e ele levantou, andando com dificuldade.
Opa… ele caiu.
Dei um sorriso, mas ainda sem cantar vitória. Chequei o ponto em meu ouvido para ver se
ainda estava ali.
– Shalom?
– Oi, posso ir? – ela parecia animada.
– Sim, seja rápida.
Shalom adentrou o quarto de hotel, e me deu as coisas que preparamos especialmente para
ele.
Será uma bela noite, não?
…
O quarto de hotel estava sufocante, com aquele cheiro do cigarro que Shalom fumava – me
deixando sedenta por um. As cortinas estavam fechadas, abafando qualquer som da rua. Era
melhor assim. Eu odiava distrações.
Ele estava ali, na minha frente, amarrado a poltrona vermelha. Ela já havia acordado, mas
ainda não disse nenhuma palavra se quer, parecendo confuso com a situação atual. O suor
escorria pela testa dele em filetes grossos. Seus olhos me seguiam, arregalados, implorando,
como se o simples fato de parecer mais miserável fosse me fazer parar. Eu já tinha visto isso
antes. Sempre acham que podem apelar para a humanidade. Não aprendem. Ele já entendeu
o que vai acontecer aqui, ele não é besta – até por que já fez muito isso, convenhamos.
Na mesa de centro entre nós, os objetos reluziam sob a luz amarelada da lâmpada. A tesoura
com sua lâmina impecavelmente afiada, a arma com sua presença pesada e ameaçadora, e a
corda, simples, mas versátil. Cada um deles contava uma história de dor que eu estava
prestes a escrever nele.
– Você tem uma escolha – eu disse, minha voz baixa, quase doce – tesoura, arma ou corda.
Qual você prefere que eu use primeiro?
– Eu vou te matar sua vadia louca! – disse ele.
– Não antes de eu te matar – dei um sorriso sarcástico – bom, nos veremos no inferno não?
Assassinato é pecado, tio, não te ensinaram isso? – cheguei mais perto – Ainda mais quando
se mata seu irmão, e sua cunhada – me afastei andando pelo quarto – ou quando você deseja
meninas novinhas, ainda mais quando são da família. – ouvi o riso de Shalom – Mas um dia
a conta chega para todos, você vai pagar pelo que fez com meus pais seu desgraçado. –
mantive a calma –Hoje você tem sorte que estou com paciência.
Ele não dizia mais nenhuma palavra se quer. Eu sabia que ele sabia de meus feitos – eu sei
que foram bons, até por que, meu histórico familiar ajuda.
– Vamos, escolha logo porra! – falei quase gritando, começando a ficar impaciente.
Ele gaguejou alguma coisa incompreensível, os olhos indo de um objeto ao outro. Patético.
De longe, ouvi o som de um riso abafado. Era Shalom. Encostada na parede, os braços
cruzados, ela parecia entediada, mas eu sabia que ela estava se divertindo. Sempre se
divertia.
Me abaixei até ficar na altura dele, pegando a tesoura. Passei a lâmina fria pelo lado do rosto
dele, apenas o suficiente para arrepiar sua pele.
– Escolha, querido. Ou eu escolho por você.
Ele respirou fundo, os lábios tremendo, até finalmente balbuciar algo. Meu sorriso aumentou
quando percebi que ele indicava a corda com um movimento quase imperceptível do queixo.
Interessante. Sempre acham que a corda é a opção menos dolorosa. Mas é porque eles não
sabem usá-la como eu sei.
– Boa escolha. – minha voz saiu carregada de um sarcasmo que só eu parecia perceber.
Joguei a tesoura de volta à mesa, pegando a corda e esticando-a entre as mãos. O som áspero
dela preenchia o silêncio do quarto.
Atrás de mim, ela deu um passo à frente, curiosa.
– E então? O que vai ser com a corda? – perguntou Shalom.
Não respondi. Apenas me aproximei dele, olhando bem nos seus olhos apavorados.
– Você pediu isso. – sussurrei, antes de começar a trabalhar.
A corda era áspera, pesada nas minhas mãos, com aquela textura que prometia arrancar a
pele se usada com a força certa. Eu a passei lentamente pelos ombros dele, ajustando a
posição como quem afivela um cinto de segurança. Ele tentou se afastar, mas a poltrona
rangeu, e os nós já amarrados o seguraram no lugar. Gostava desse momento, o instante em
que percebiam que não havia para onde correr.
Com movimentos precisos, comecei a enrolar a corda ao redor do tronco dele, prendendo-o à
cadeira. A cada volta, apertava mais, sentindo a tensão aumentar. As veias do pescoço dele
saltaram quando puxei a corda contra o peito, tirando-lhe parte da respiração. Ele tossiu,
lutando para recuperar o fôlego, mas não fiz nada para aliviar.
Isso era só o começo.
– Está desconfortável? Que pena. – falei com um sorriso no rosto, mas meus olhos estavam
fixos no trabalho.
A perfeição estava nos detalhes. Passei a corda por baixo da poltrona, criando uma alavanca,
e dei um puxão seco. A madeira gemeu, e ele gritou pela primeira vez quando o nó roçou na
pele já vermelha do pulso.
– Sua vagabunda! – gritou ele, e Shalom e eu rimos.
O próximo passo era nos joelhos. Inclinei-me, ignorando os tremores que percorriam o corpo
dele, e comecei a amarrar as pernas. A corda apertou contra a carne, e ele soltou um gemido
baixo. Usei os nós para travar os joelhos juntos, forçando a posição. Assim, ele não
conseguiria se mover nem mesmo para se debater.
– Não está tão ruim, ainda. – falei quase em tom de brincadeira, mas meu tom era cortante.
Atrás de mim, ouvi Shalom se mover, os sapatos fazendo um som seco contra o piso. Ela
estava gostando, podia sentir.
– O que vem agora? – ela perguntou com aquela voz despreocupada.
Olhei para ele, agora completamente imobilizado. A corda pressionava a pele, deixando
marcas profundas. O sangue parecia ter dificuldade de circular, e as extremidades das mãos
começavam a ficar pálidas. Inclinei-me, meu rosto a poucos centímetros do dele.
– Agora, querido, vamos testar sua resistência.
Peguei um pedaço extra da corda e comecei a torcê-la devagar ao redor do pescoço dele,
criando um laço que apertava com cada movimento meu. Não era para matá-lo. Não ainda.
Só o suficiente para deixá-lo sentir o desespero de cada segundo enquanto tentava puxar o
ar.
– Você disse que queria a corda – murmurei – então, vamos aproveitar ao máximo.
Ele começou a agonizar, eu podia ver em sua feição – qualquer um via. Mas a última coisa
que eu poderia estar sentindo era dó. Sentia um misto de emoções, um sentimento de missão
quase cumprida. Isso é pra vocês, pai e mãe.
Me afastei dele ficando de frente para ele. Peguei a arma e a engatilhei, com um sorriso de
orelha a orelha, apontando a arma para ele, Vicenzo arregalou os olhos, eles pediram que eu
tivesse piedade, mas já era tarde demais. Ele começou a se debater na poltrona.
– Não por favor, eu te imploro! – disse agoniado – Faço tudo o que você quiser, tudo que for
necessário!
Bang!
Atirei.
Acabei com aquilo.
Um tiro. Não precisa de mais que isso, basta mirar no lugar certo. Sangue espirrou e acabou
pegando em mim – nojento. Bem no meio da testa. Juro que nos últimos momentos pude ver
uma lágrima escorrer, mas foda-se, tarde demais.
– Caralho… – Shalom se aproximou sussurrando.
Trocamos um high five, e fui direto para o banheiro limpar os esguichos de sangue que
pegou em mim, enquanto Shalom juntava nossas coisas, para finalmente sairmos deste
lugar.
Um sentimento tão incrível me tomou, não sabia descrevê-lo. Me olhei no espelho e sorri
satisfeita comigo mesma, e com Shalom claro. Sem ela ao meu lado nada seria possível. Eu
amo essa garota.