ORIXÁ IKÙ
Segundo os mitos pretéritos da tradição nagô (itas), a morte tem o nome de
Iku e é considerada como uma divindade errante, que não fica em lugar algum.
Filho de Obatalá, iku foi o único que aceitou pegar na lama primordial, cabendo-
lhe, então, a incumbência de devolvê-la, sempre, ao mesmo local. Trata-se de uma
divindade masculina, designado por Olodumare para uma função derradeira.
Existem e são raríssimas, pessoas de Ikú que, evidentemente, não são iniciadas,
cumprem normalmente seu destino e tem funções específicas num Ilê. Iku é
apaziguado, mas não é iniciado. Icu é intimamente ligado a Nanã, Obaluaiê, Ogum,
Oiá, Egum e às Iami-Ajé. Iku se veste de branco, e deve ser respeitado, pois todos
o encontrarão um dia. Ikú vem buscar a pessoa no dia derradeiro e esteja nas
condições que estiver, para levá-la de volta ao interior da terra, ao ventre de Nanã.
Ao conduzir o ciclo da criação, vindo todos os dias ao Aiê para levar
homens e mulheres que já cumpriram sua missão ao Orum, Iku retira o emi (sopro
da vida), condição imposta para a renovação da existência, para que mais tarde
Olodumarê possa decidir sobre seus destinos novamente. A função de Iku faz com
que ele não seja amado, e consequentemente cultuado, muito menos
compreendido. Afinal, a Ele foi dada a missão de finalizar a existência dos seres
do plano terreno. Por motivos como medo do desconhecido, apego aos entes
queridos ou, simplesmente, falta de uma reflexão mais profunda, o ser humano
ainda não consegue entender a fundo sua tarefa. É necessário que as existências e
os acontecimentos se findem para que novos estágios de existências e situações
aconteçam.
Iku é o Senhor da Ancestralidade, não há para ele assentamento ritualístico,
não existe culto direto, o mesmo é lembrado através do ritual do Axexê e do culto
através dos mortos, masculinos ou femininos, por Orô ou Iyámi, por Egúngún ou
Elerikô. Iku também é conhecido por “Onicô”, que era seu nome quando humano,
mas pela ação de matar, que é a perda da vida de tudo que foi criado, incluindo o
homem, começaram a chamá-lo pelo que Onicô causava, e também por Obá
Ajogum (rei dos ajoguns).
Ikú cumpre rigorosamente sua função e somente aqueles que conhecem os
omo-odús de Oyekú Mejí, poderão conversar com a morte, por um breve tempo.
Somente através do Imolê Exú e num determinado Odú é e que se faz oferendas a
Ikú, estabelecendo pactos e acordos com Ikú para adiar e afastar a morte, aliado
aos bons ebós. As trocas não são eternas, chegará o dia que Ikú terá que cumprir
sua função e ainda exigirá oferendas, para garantir que só levará apenas um. Com
Ikú não se brinca, quando Ikú chega o Orixá já não está mais por perto, pois Ele
sabe que já cumpriu sua função e somente Orí acompanha a pessoa até o fim. Nos
contos de Ifá, o Meji Oyekú é entendido como primeiro caminho à terra, quando o
Odú Oyekú Mejí chegou à Terra, a morte ainda não existia. Orixá Ikú (morte) nasce
nesse caminho para cumprir sua função na Terra, Opirá (FIM). O odu Oyekú Meji
representa essencialmente a Morte, a profunda escuridão, representa também o
lado esquerdo, o este e o princípio feminino.
Falando em Axexê, sua celebração dentro do ritual comemora a volta do
homem ao todo primordial, reafirmando o grande mistério e possibilitando outras
vidas. As vestes brancas neste ritual simbolizam a verdade, morte e vida. Nas
religiões iorubás, a morte constitui o final de um ciclo, onde devemos sempre ter
em mente que a passagem no Aiê é temporária, e tem como propósito geral de
crescimento espiritual, resumindo-se na missão pessoal de cada indivíduo. Aquele
que tem medo da morte não entende a crença ou que a vida é um processo de
aprendizagem. A vida é uma experiência momentânea, que quando chega seu fim
é porque a aprendizagem está completa. A pessoa poderá assim regressar a seu
verdadeiro local de origem e constituir-se em um espírito protetor para seus seres
queridos, que permanecerem no Aiê. Para os yorubas, Iku não mata, ele somente
toca as pessoas e, assim, ocorre o desligamento.
No Brasil, para os iniciados nas religiões de matriz africana, os ritos
funerários são denominados Asèsè (Axêxê), ou seja, o retorno às origens. O
falecimento de um iniciado é marcado pela retirada, com o copo em seu ataúde, do
elemento central de sua iniciação, o osù. Obviamente é uma retirada simbólica, as
vezes fios de cabelo da região do Ori são cortados. Efun, Eyin (ovo), èiè eiyelé
(sangue de pombo), acassá, òwú (algodão) são outras substâncias usadas, as quais
são despachadas. Posteriormente o jogo de obi confirmará. Em alguns casos o
ritual é feito em cima de um igbá (meia cabaça). O manipulador deste ritual deve
ser sempre alguém com orô mais antigo que o falecido ou, pelo menos, com a
mesma expressão religiosa. Após o enterro, inicia-se uma sequência de
cerimonias noturnas, idênticas e diárias, as quais sacrifícios são realizados e o erù
éégún (carrego do morto). No último dia, denominado “arremate”, canta-se com o
raiar do dia. Somente no ritual de asèsè o ìpàdé é realizado à noite, com exceção
do último dia, quando este é feito de dia. Durante o asèsè, os toques são feito sem
um igbá ou akèrègbè (cabaça inteira). Somente no último dia é que se utiliza os
atabaques. Todos os presentes se vestem de branco, cobrindo toda parte de cima
do corpo até o pescoço.