MÓDULO 14
TÓPICOS ESPECIAIS
EM GERONTOLOGIA
Coordenação – Professora Célia Pereira Caldas
Ementa
Esta disciplina é a continuação do módulo Conceitos Bá-
sicos em Gerontologia. Fundamentada no campo teórico da Gerontologia,
pretende aprofundar a abordagem de cinco tópicos de fundamental
relevância para a compreensão e a abordagem do indivíduo que enve-
lhece: finitude e morte, violência e maus-tratos ao idoso, cuidado fami-
liar, cuidado de longa duração nas instituições e sexualidade. Esta disci-
plina pretende oferecer a oportunidade de discussão e aprofundamento
nestes tópicos para fundamentar uma visão na qual os idosos possam ser
considerados cidadão ativos e participantes.
Conteúdo programático e docentes
Tanatologia – Ligia Py. Psicóloga, coordenadora do Projeto de Va-
lorização do Envelhecer – PROVE/ UFRJ, doutora em Psicologia pelo
Instituto de Psicologia/ UFRJ.
Sexualidade e envelhecimento – Ana Cristina Nunes Barbosa. Psi-
cóloga, mestre em Sexologia, especialista em Saúde e Envelhecimento e
especialista em Sexualidade Humana.
Violência contra os idosos – Laura Machado. Psicóloga, represen-
tante do International Network for the Prevention on Elder Abuse
(INPEA) para a América Latina, mestre em Psicologia Clínica PUC/ RJ.
Cuidado familiar – Célia Pereira Caldas. Enfermeira, professora
adjunta da Faculdade de Enfermagem da UERJ, vice-diretora da UnATI,
doutora pela UFRJ.
320 MÓDULO 14
Instituições de longa permanência – Eliane Brandão Vieira. Psicó-
loga, membro do Comitê de Ética em Pesquisa da CGABEG, membro
titulado da SBGG, diretora do NUCLAI Consultoria Gerontológica, mes-
tre em Gerontologia PUC/ SP.
Ementas
z Tanatologia – Ligia Py
Finitude e morte. Tanatologia: condições sociais, conceito, constru-
ção epistemológica. Biotecnologia e questões bioéticas. Proposta da
Paliação e especificidade da equipe de Saúde. Cena da morte na velhi-
ce: o idoso, a família, os profissionais, a instituição. Luto: elaboração do
luto e luto antecipatório.
Sexualidade e envelhecimento – Ana Cristina Nunes Barbosa
z
Nesta aula, pretende-se abordar as principais mudanças fisiológicas
inerentes ao processo de envelhecimento. Ciclo de resposta sexual e
abordagens sobre disfunções sexuais comparativamente às demais faixas
etárias. Discussão acerca dos preconceitos. Mitos e crenças errôneas so-
bre a sexualidade do idoso. Objetiva-se reconhecer e valorizar a expres-
são da sexualidade na terceira idade; distinguir as diferenças na resposta
sexual do indivíduo na terceira idade em relação aos demais grupos
etários; refletir acerca dos preconceitos, crenças e valores em relação à
sexualidade do idoso; desenvolver habilidade para abordar empaticamente
questões sobre a sexualidade junto à clientela específica; identificar no
plano de diagnóstico as principais disfunções sexuais, com atuação nas
mais simples e encaminhamento das mais complexas para profissionais
especializados.
z Violência contra os idosos – Laura Machado
Definição de violência. Violência social. Violência intrafamiliar.
Violência institucional. Definição de maus-tratos, negligência, abandono.
Pesquisas mais recentes. Várias formas de maus-tratos. Indicadores de
maus-tratos. Fatores de risco para o idoso. Perfil da vítima. Perfil do
cuidador. Mortalidade por causas externas. A relação entre o lugar do
idoso na sociedade brasileira, a função do idoso na família brasileira e
maus-tratos familiares. Família e os cuidadores. Prevenção de violência.
Formas de intervenção. Legislação e o Estatuto do Idoso. Modelos de
assistência e normatização para instituições de longa permanência. Ser-
MÓDULO 14 321
viços de proteção aos idosos e sua eficácia. Capacitação de recursos hu-
manos. A educação gerontológica como prevenção de violência.
z Cuidado familiar – Célia Pereira Caldas
Nos últimos 50 anos houve mudança nas expectativas tradicionais
sobre as famílias nas sociedades industrializadas. Nesta aula, pretende-se
demonstrar a grande diversificação das formas familiares, normas e com-
portamentos que resultaram em uma heterogeneidade significativa na
situação dos indivíduos idosos dentro das relações familiares; os arranjos
familiares no Brasil; as necessidades e demandas da família para cuidar
do idoso dependente e a abordagem profissional da família com vista ao
cuidado do idoso.
z Instituições de longa permanência – Eliane Brandão Vieira
O objetivo desta aula é levar os alunos a rever os paradigmas
institucionais ao se considerar a estrutura social e familiar contemporâ-
nea, a demanda espontânea crescente por essa alternativa de assistência
e a necessidade de qualificá-la como equipamento social capaz de aten-
der a essa necessidade em todas as suas dimensões.
322 MÓDULO 14
AULA 1
TANATOLOGIA
Ligia Py
No período que se segue à Segunda Guerra Mundial, o
mundo atravessa uma fase de transformações intensas e atende às novas
necessidades sociais. Evidencia-se o fenômeno do envelhecimento das
sociedades industrializadas que prossegue e atinge os países em desen-
volvimento. A Gerontologia e a Tanatologia cursam a sua ascensão, em-
baladas nesse ritmo. O avanço científico acompanha o progresso da época,
inscreve-se e segue nos meandros das mudanças de paradigma que se
sucedem, derruba certezas e ilumina incertezas. Nas incertezas que avul-
tam, sentimos a perturbação da perplexidade frente ao nosso próprio
envelhecimento e às perspectivas para a nossa morte. E o que será das
gerações futuras?
A Gerontologia e a Tanatologia surgem no cenário das Ciências
Humanas com propriedades muito peculiares e guardam, entre elas,
analogias histórico-sociais e epistemológicas. Envelhecimento e morte são
preocupações que têm a idade da humanidade e permanecem
atualíssimas, nesta época de exacerbação e propagação da barbárie. Cir-
cunstância nossa de cada dia é viver a insegurança a que individualmen-
te estamos expostos; é assistir à violência internacionalizada das
"megamortes" de populações inteiras. Parece que vivemos sob o jugo de
uma campanha macabramente processada para desconsiderar a vida
humana, justamente quando a ciência e as sociedades anunciam a
longevidade prolongada (Py, 2004).
No campo epistemológico, Gerontologia e Tanatologia cursam ca-
minhos interdisciplinares, ambas se constroem nos cânones das interfaces
com outras disciplinas. A interdisciplinaridade é uma exigência da natu-
reza do estudo, da pesquisa e da intervenção no processo de envelheci-
mento. A ação interdisciplinar descreve duas dimensões: uma
MÓDULO 14 323
verticalidade, que dinamiza a integração de diversas áreas do conheci-
mento, e uma horizontalidade que busca, dentro de uma mesma área,
a compreensão do fenômeno em pauta em todas as suas nuanças. A
formação de recursos humanos em Gerontologia – e também em
Tanatologia – está, necessariamente, fundada na interdisciplinaridade
(Jeckel-Neto, 2000).
O termo Tanatologia é definido como um nome compreensivo
para designar os esforços realizados para investigar, sistematizar e aplicar
conhecimentos de múltiplos campos do saber à morte e ao morrer (Tor-
res, 2000). São três os pilares determinantes da construção epistemológica
da Tanatologia: a colaboração, a complementação e a revolução. Na co-
laboração está a incursão necessária desta ciência no conhecimento dos
progressos teóricos e metodológicos de outras áreas do saber que, evi-
dentemente, terão de se abrir ao saber tanatológico, em legítima inter-
relação. Na complementação se fundam as bases da diferenciação da
Tanatologia, que se apresenta como especialidade identificável e dispo-
nível para o entendimento com outras áreas, em torno de objetivos
comuns. Na revolução se cria a exigência da crítica ao poder hegemônico
instituído que, num lugar político conservador, não há como ser reali-
zada (Wass e Neimeyer, 1995).
A busca do conhecimento em Tanatologia é engendrada nas pre-
ocupações com o avanço vertiginoso da tecnologia biomédica que absor-
ve o sonho da imortalidade humana: as curas extraordinárias e o contro-
le alongado das doenças fatais são uma outra versão do milagre religioso
(Pessini, 2001). No caso do envelhecimento, esta evidência nos instiga
quando vemos as dificuldades de decisões no descontrole das interven-
ções médicas, numa grande confusão de questões essencialmente exis-
tenciais, como a chegada da morte de um ser humano velho e irreme-
diavelmente doente.
É aqui que se apresenta a Paliação, uma abordagem interdisciplinar
que objetiva o controle adequado dos sintomas presentes no avanço da
doença incurável de uma pessoa que está evoluindo para a morte. A
novidade trazida pelos Cuidados Paliativos provoca uma ruptura que
transforma a prática numa práxis, amplia o horizonte do campo da Saú-
de, enfatiza a relação profissional–idoso–familiares e traz, ousadamente,
para o centro da atenção, o ser humano na sua integralidade (Morrison
& Méier, 2003; Burlá, 2004; Burlá & Py, 2005). Assim, a Paliação, aliada
à Bioética, inaugura uma nova concepção de investigação e intervenção
324 MÓDULO 14
que, ao confrontar paradigmas estabelecidos e sacralizados na cultura
médica contemporânea, propõe novidades na competência de uma
Medicina mais humana (Drane e Pessini, 2005).
Mas, afinal, nada exclui a morte. E o ser humano terá de passar
por um luto pela perda de um dos seus. O luto se constitui num penoso
processo, implica na necessidade de elaboração psíquica do vínculo afetivo
com a pessoa falecida. Os familiares vivem as emoções decorrentes da
morte dos seus idosos. Múltiplos sentimentos eclodem no seu mundo
interno, articulam conteúdos de medo e ameaça frente à própria morte,
exacerbados pela história da relação que estabeleceram com o idoso.
Assim, não se trata apenas da amorosidade na iminência da perda de
uma pessoa, mas de todos os afetos envolvidos. Por exemplo, o ódio, que
pode estar figurado em diversas modalidades, como raiva, revolta, vin-
gança. A intervenção visa à livre expressão desses sentimentos, numa
dinâmica informativo-reflexiva, na qual se ofereça a essas pessoas, tanto
instrumentalização para lidar com o idoso quanto uma compreensão que
seja facilitadora de um trabalho psíquico, capaz de conduzi-las a uma
mudança na significação daquilo que as aflige (Py & Scharfstein, 2001).
A atenção ao luto é, em geral, destinada àqueles que sofrem a
perda de alguém. No entanto, há um luto antecipatório para a pessoa
que está morrendo, pois ela vive, com intensa angústia, um processo de
perdas sucessivas. É preciso atenção aos seus sentimentos de tristeza,
hostilidade, raiva, revolta e culpa, pois aí se manifestam aspectos ansiosos
e depressivos, como dimensões do sofrimento humano ao fim da vida
(Torres, 2000). A intervenção, acolhedora e calorosa, contempla uma
reflexão sobre a sua própria vida e o seu conseqüente desligamento. É
fundamental que se inclua a resolução possível das pendências do idoso
ao final da vida, para favorecer a ele um caminho de afastamento gra-
dual, regido pela realidade da sua morte.
Toda forma de intervenção profissional realizada com o idoso ao
fim da vida e seus familiares é um produto complexo, resultante da
relação profissional–idoso–familiares, para o qual convergem objetivida-
des e subjetividades de uma situação de ameaça à vida. A ação de inter-
vir é uma forma de compartilhar conhecimento e solidariedade, na busca
da qualidade dos cuidados ao fim da vida. Nos estudos de Singer e
Bowman (2002), encontramos três recomendações básicas para o de-
sempenho deste trabalho: a qualidade dos cuidados ao fim da vida é um
problema de Saúde Pública; é necessário promover a capacitação de
MÓDULO 14 325
profissionais para desempenharem ações de qualidade nos cuidados ao
fim da vida; é preciso desenvolver estratégias para a aquisição de conhe-
cimento nesta área.
Tratamos, aqui, da natureza humana. Vamos buscar a orientação
da lógica dialética, que compreende conteúdos de interação entre a
teoria e a prática perpassados pela singularidade do modo peculiar de
cada profissional administrar os próprios recursos internos que vão com-
por a ação de intervir (Bleger, 1980). Por isso, recorremos a Kosik (1976),
que nos ensina o processo ontocriativo da práxis fundante das possibili-
dades de compreensão do ser humano. Vivemos, então, com o idoso, a
ontocriatividade da práxis humana: se a determinação da nossa existên-
cia acontece em função das elaborações possíveis que fazemos das rea-
lidades nas quais nos encontramos, então, nessa relação profissional–
idoso, ao provocarmos a transformação do Outro, transformamos a nós
mesmos e, nesse mister, construímos juntos um novo modo de compre-
ender e de lidar com a realidade do processo saúde–doença, em que
ambos estamos incluídos.
Neste processo, perdemos os idosos para a morte e ganhamos opor-
tunidades inestimáveis de crescimento. Ausente da formação acadêmica,
torna-se pertinente uma sistemática de encontro em grupo para os pro-
fissionais que se destine não só a atender à aplicação de metodologias de
intervenção como a fundamentar a competência técnico-científica numa
base ética. A finalidade é a redução das tensões, possibilitada pela iden-
tificação dos conflitos, com o objetivo de transformá-los em problemas,
para os quais podemos buscar soluções (Bleger, 1980). Assim, nós, pro-
fissionais, como seres mortais que também envelhecemos, temos a opor-
tunidade de nos pôr a um trabalho psíquico sistemático de luto, em que
haja re-arranjos que nos favoreçam uma outra significação para a existên-
cia e para a qualidade dos cuidados que oferecemos aos idosos ao fim da
vida.
Referências bibliográficas
BLEGER, J. Temas de psicologia: entrevista e grupos. São Paulo: Martins Fontes, 1980.
BURLÁ, C. Lidando com a finitude e a morte. In: CALDAS, C.; SALDANHA, A.
(Orgs.). A saúde do idoso: a arte de cuidar. 2 ed. Rio de Janeiro: Interciência,
2004, p. 368-376.
BURLÁ, B.; PY, L. Decisões clínicas ao fim da vida. In: LIBERMAN, A. et al. (Eds.).
Diagnóstico e tratamento em cardiologia geriátrica. Barueri, SP: Manole, 2005, p.
326 MÓDULO 14
446-452.
DRANE, L.; PESSINI, L. Bioética, medicina e tecnologia: desafios éticos na fronteira do
conhecimento humano. São Paulo: Loyola, 2005.
JECKEL-NETO, E. A. Gerontologia e interdisciplinaridade. In: JECKEL-NETO, E.
A.; CRUZ, I. B. M. (Orgs.). Aspectos biológicos e geriátricos do envelhecimento. Porto
Alegre: EDIPUCRS, 2000. V. 2, p. 15-21.
KOSIK, K. Dialética do concreto. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.
MORRISON, R. S.; MEIER, D. Geriatric palliative care. Oxford, UK: Oxford University
Press, 2003.
PESSINI, L. Distanásia: até quando prolongar a vida? São Paulo: Loyola, 2001.
PY, L. Velhice nos arredores da morte. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004.
PY, L.; SCHARFSTEIN, E. A. Caminhos da maturidade: representações do corpo,
vivências dos afetos e consciência da finitude. In: NERI, A. L. (Org.). Maturi-
dade e velhice: trajetórias individuais e socioculturais. Campinas: Papirus, 2001.
p. 117-150.
MÓDULO 14 327
AULA 2
SEXUALIDADE E ENVELHECIMENTO
Ana Cristina Nunes Barbosa
O único ato sexual antinatural é aquele que você não pode executar.
Alfred Kinsey
Em recente revisão da literatura, observamos que ainda
não se discute o bastante sobre a vida sexual dos adultos mais velhos. Por
outro lado, a velocidade da mudança no mundo, com conquistas signi-
ficativas da Medicina, tem exigido maior suporte no que se refere a um
segmento da população que hoje não só sabe que vai viver mais como
quer ter respeitado seus direitos e desejos.
Segundo a World Association Sexuality (WAR), o total desenvolvi-
mento da sexualidade é essencial para o bem-estar individual e
interpessoal. Os direitos sexuais são direitos humanos universais baseados
na liberdade inerente, dignidade e igualdade para todos os seres huma-
nos. Saúde sexual é um direito fundamental, então, saúde sexual deve
ser um direito humano básico (Weston & Coleman, 2004).
Podemos acrescentar, então, que saúde sexual é o resultado de
um ambiente que reconhece, respeita e exercita estes direitos sexuais.
É saber que, independentemente da idade, as pessoas têm necessidades
afetivas e sexuais e é necessário que mais trabalhos sejam realizados com
esta população. Principalmente para não estranharmos quando estudos
demonstrarem prática sexual entre casais com demência ou Doença de
Parkinson (Ballard et al., 1997). Nessas observações, a manutenção da
vida sexual se dá pela presença e interesse dos parceiros. O que se
observa entre os que dizem não praticar sexo é o desconforto pela ima-
gem corporal pouco satisfatória ou pelos tremores, de forma que não se
sentem dignos da atenção dos parceiros (Beier et al., 2004).
328 MÓDULO 14
Em vários estudos sobre sexualidade e envelhecimento, percebe-
mos que aqueles que ultrapassam as possíveis barreiras relacionadas ao
envelhecimento não o fazem por serem excepcionais ou diferentes. E
sim porque foram informados sobre o que de fato poderia acontecer aos
seus corpos e receberam maior atenção direcionada para suas dúvidas e
inseguranças por parte dos profissionais que os assistiam.
A sexualidade é construída pela interação entre o indivíduo e as
estruturas sociais. Se estivermos dispostos a trabalhar com esta popula-
ção, podemos fazer muito pelo bem-estar no que diz respeito à sua vida
sexual. Educar e orientar em cursos e faculdades seria uma iniciativa
para que futuras atuações clínicas fossem menos preconceituosas como
ainda são atualmente.
Uma anamnese detalhada voltada para os fatores fisiológicos e psi-
cológicos é instrumental valioso para avaliação de pacientes mulheres
com queixas sexuais. Como na Antigüidade, foram necessários muitos
anos e avanços consideráveis na investigação das disfunções sexuais mas-
culinas para que os estudiosos e profissionais da área se preocupassem
com a complexidade das queixas femininas. Naquela época, por não
conhecerem o corpo feminino, os médicos generalizavam a partir de
dissecações feitas em macacas ou por meio das informações dadas por
parteiras (Rousselle, 1983).
Em relação à sexualidade masculina, quando foi lançado o Viagra
(sildenafil), de repente o país foi varrido por evidências de que muitos
adultos mais velhos estariam interessados em sexo. A mídia explorou
este fato de forma sensacionalista diante da corrida ao experimento
desta suposta maravilha. Por outro lado, a grande demanda por parte da
população idosa encontrou resistência entre os profissionais da área de
Saúde quando se manifestava o desejo de fazer uso do medicamento.
A existência de atitudes preconceituosas não é privilégio de uma
determinada área ou cultura. Até mesmo no setor médico, na qual exis-
tem centros de treinamentos sobre disfunção sexual, percebe-se esta
resistência. Numa clínica de andrologia em Palo Alto, Califórnia, os
residentes recebem treinamentos para tratamento de disfunção sexual
como parte de seu curso de especialização em envelhecimento. Prestam
assistência a pacientes entre 60 e 80 anos com problemas de função
sexual. Para o coordenador deste programa, esta interação ajuda a mudar
os estereótipos negativos sobre o envelhecimento nestes profissionais de
Saúde muito mais do que qualquer outra experiência na sua formação.
MÓDULO 14 329
"Você muda sua visão sobre a sexualidade de seus clientes, e até mesmo
de seus parentes, quando ouve uma cliente sua, de 80 anos, exaltando
o quanto aprecia o sexo oral" (Zeiss, 2005).
Entretanto, não é fácil para profissionais de Saúde interessados
neste tema encontrar treinamentos e informações de forma a aprender
mais sobre envelhecimento e sexualidade. Destaquem-se iniciativas como
a de Annon (1975), médico que criou o modelo Pilset, segundo o qual,
qualquer que seja a especialidade, o profissional poderá prestar ajuda ao
paciente desde que esteja disposto a três coisas: a) examinar seus pró-
prios sentimentos e reações – não adianta arregalar os olhos ou se mos-
trar surpreso com opções sexuais divergentes das suas. Na maioria das
vezes, ouvimos coisas completamente divergentes dos nossos próprios
valores e crenças; b) segundo, aceitar as metas desejadas pelo cliente.
Ele é quem vai determinar a seqüência do tratamento; e c) auxiliar os
clientes a ajudarem a si próprios.
É importante salientar que o tratamento deve conter uma explo-
ração exaustiva da queixa. Pomeroy (1966) coloca de forma interessante
um modelo de anamnese, por ele desenvolvido, no qual se obtém muito
mais informações, desde que as perguntas sejam formuladas de forma
que permitam que a pessoa se sinta à vontade para falar do seu proble-
ma que, para ela, é único e muito complicado e, muitas vezes, sem
solução. Por exemplo, em vez de perguntas do tipo: você tem relações
sexuais, ou você funciona ainda sexualmente bem?, perguntar: qual foi
a última vez que você teve alguma dificuldade em relação à sua vida
sexual? Ou ainda, qual foi a última vez em que você tentou alguma
prática sexual, como masturbação, por exemplo, e teve dificuldades? Isso
permite que a pessoa se sinta à vontade para falar do que quiser e do
que seja complicado para ela expor. Facilitará a expressão e o entendi-
mento de sentimentos negativos e a percepção de inadequação relacio-
nada aos seus sentimentos.
Uma edição recente da revista Modern Maturity divulgou os resul-
tados de um inquérito de âmbito nacional sobre as atitudes e práticas
sexual dos adultos com mais de 45 anos. Desde Masters e Johnson, com
sua complexa análise que precedeu os trabalhos de Kinsey, não tínha-
mos acesso a um estudo como este. Realizado pela AARP em 1999 e
revisto em 2004, contribuiu significativamente com dados atuais sobre a
sexualidade desta população. Nas conclusões destes trabalhos (Kinsey,
1948; Masters & Johnson, 1981; AARP, 2004), exalta-se a necessidade de
330 MÓDULO 14
entender o indivíduo na sua complexidade, fruto do meio social, logo,
sujeito aos preconceitos, medos e temores típicos de sua cultura. Portan-
to, não bastaria tratar as disfunções em si ou ter total conhecimento das
alterações fisiológicas no envelhecimento. É preciso também considerar
os fatores psíquicos e sociais.
Referências bibliográficas
BENNET, G.; KINGSTON, P.; PENHALE, B. The dimensions of elder abuse: perspective
for practitioners. London: MacMillan Press, 1997.
BRASIL. Lei n.º 10.741, sancionada em 1º de outubro de 2003, a qual "dispõe sobre
o Estatuto do Idoso e dá outras providências. Diário Oficial [da] República
Federativa do Brasil, Poder Executivo, Brasília, DF, 3 out. 2003.
______. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Política Nacional de Redução da Morbimortalidade
por Acidentes e Violências. Portaria MS/GM n. 737 de 16 maio 2001. Brasília:
Ministério da Saúde, 2001.
FREITAS, E. V. Tratado de Geriatria e Gerontologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan,
2002.
MACHADO, L. et al. Elder Abuse: a new challenge in Brazil. In: WORLD CONGRESS
ON GERONTOLOGY, 16, 1997. Adelaide. Annals ... Symposium on Action on
Elder Abuse and Neglect. Adelaide, 1997.
______. Report on Elder Abuse in Brazil. Genebra: Organização Mundial da Saúde,
2001 (No prelo).
MINAYO, M. C. S. A violência social sob a perspectiva da Saúde Pública. Cadernos
de Saúde Pública, v. 10, Supl. 1, p. 7-18, 1994.
MINAYO, M. C. S.; SOUZA, E. R. O impacto da violência social na Saúde Pública
no Brasil. In: MINAYO, M. C. S. Os muitos Brasis: saúde e população na década
de 80. São Paulo, Rio de Janeiro: Hucitec-Abrasco, 1995. p. 87-116.
OGG, J.; BENNETT, G. Elder Abuse in Britain. British Medical Journal, v. 305, p. 998-
999, 1992.
PILLEMER, K.; FINKELHOR, D. The prevalence of elder abuse: a random sample
survey. Gerontologist, v. 28, p. 51-57, 1988.
PODNIEKS, E. et al. National survey on abuse of the elderly in Canada. Toronto: Ryerson
Polytechnical Institute, 1989.
QUEIROZ, Z. P. V. Violência contra a velhice: considerações preliminares sobre
uma nova questão social. O mundo da Saúde, v. 21, n. 4, p. 204-207, 1997.
QUINN, M. J.; TOMITA, S. K. Elder abuse and neglect: causes, diagnosis and
interventions strategies. New York: Springer, 1986.
WHO/ INPEA. World Health Organization. Missing voices: views of older persons
on elder abuse. Geneva: WHO, 2002.
MÓDULO 14 331
AULA 3
VIOLÊNCIA CONTRA OS IDOSOS
Laura Machado
Definição
A maior parte dos autores classifica a violência contra os
idosos em maus-tratos físicos, psicológicos, financeiro, abuso sexual e
negligência (INPEA, 1998; WHO, 2001). A negligência pode ser ativa –
intencional – ou passiva – sem intencionalidade (Wolf & Pillemer, 1989;
Bennett et al., 1997). Os maus-tratos se manifestam em um ou mais
níveis, são independentes de raça, gênero ou classe social e ocorrem nos
ambientes onde se encontram os idosos: em casa, na comunidade, nos
centros de convivência, nos centros-dia e nas instituições de longa per-
manência. É freqüente a ocorrência de várias formas de maus-tratos
concomitantemente; por exemplo, maus-tratos físicos, psicológicos e
negligência.
Perfil da vítima e do agressor
Um levantamento dos principais estudos desenvolvidos nos Estados
Unidos sobre abusos contra idosos chegou ao seguinte perfil de vítima:
mulher com 75 anos e mais, viúva, fisicamente, emocionalmente ou
financeiramente dependente, na maioria das vezes reside com familia-
res, um dos quais é o seu agressor. Os agressores são, em sua maioria, os
filhos, em geral dependentes – muitas vezes financeiramente – da víti-
ma, e com problemas mentais ou dependentes de álcool ou drogas, ou
ambos. No perfil dos agressores também se encontram cônjuges e netos
que co-habitam com os avós.
Fatores de risco
z Ciclos recorrentes de violência familiar – Existem evidências de
que crianças submetidas a maus-tratos por adultos mais velhos podem
332 MÓDULO 14
causar maus-tratos a seus pais ou avós.
z Dependência física, emocional ou financeira do agressor em re-
lação à vítima.
z Estresse causado pelo ato de cuidar, o que inclui a falta de supor-
te de serviços comunitários.
z Problemas de saúde mental do cuidador, associado ou não a
consumo de álcool e drogas; incapacidade funcional do idoso depen-
dente, o que aumenta o risco e a vulnerabilidade para maus-tratos e
negligência quanto maior for o grau de dependência.
z Um mau relacionamento que perdura no tempo entre o idoso
e o seu cuidador também pode ser um indicador potencial de maus-
tratos, assim como um comportamento violento do idoso pode gerar um
comportamento de maus-tratos no agressor (Bennet et al., 1997).
Indicadores de maus-tratos
É de fundamental importância estar atento na anamnese a algu-
mas condições que podem ser manifestações de maus-tratos ou negli-
gência (Tabela 1).
Tabela 1 Indicadores de maus-tratos
Perda de peso, desnutrição, desidratação, palidez, olheiras.
Marcas, hematomas, queimaduras.
Lacerações, escaras, feridas.
Presença de úlceras de pressão, pouca higiene.
Falta ou má conservação de próteses - afastada a hipótese de ausência de condição
financeira.
Vestimenta descuidada.
Administração incorreta de medicamentos.
Acidentes inexplicáveis, lesões recorrentes e inexplicáveis.
Não tratamento dos problemas médicos, uso errado da medicação.
Demora entre o aparecimento da lesão ou doença e a busca de assistência médica.
História do idoso diferente da história do cuidador.
Indicadores no comportamento dos idosos
Passividade, retraimento, tristeza, desesperança, depressão.
Ansiedade, agitação, medo.
Medo de falar livremente.
MÓDULO 14 333
Violência nas instituições de longa permanência
A violência institucional pode ser definida quando os níveis de
cuidado estão com padrões abaixo do esperado: falta de privacidade,
higiene ruim, cuidado físico e qualidade de vida precários, condições de
trabalho ruins, esgotamento dos enfermeiros e auxiliares de Enferma-
gem. Deve-se suspeitar de maus-tratos em uma instituição de longa per-
manência quando se observa aumento do número de óbitos por mês
naquela instituição.
Quando um idoso dá entrada na emergência ou é hospitalizado
com sinais de maus-tratos, e se ele é residente em uma instituição de
longa permanência, deve-se inicialmente contatar a família e tentar ave-
riguar a possibilidade de mudança de instituição ou mesmo a viabilidade
de o idoso ir morar com um de seus filhos. Como a maioria dos idosos
asilados em nosso país não tem família ou foram abandonados por ela,
se houver suspeita de maus-tratos, deve-se denunciar à Vigilância Sani-
tária para que haja uma fiscalização e, em conjunto, seja avaliada a possi-
bilidade de mudança de instituição.
Intervenção e prevenção da violência contra idosos
A partir do Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741, 2003), pelo Artigo
19, passou a ser obrigatória a comunicação de suspeita ou confirmação
de maus-tratos pelos profissionais de Saúde aos órgãos competentes. Por-
tanto, sempre que houver suspeita ou identificação de maus-tratos, bus-
que avaliar e discutir uma estratégia de intervenção junto à equipe de
Saúde. Muitas vezes, a intervenção mais eficaz é uma avaliação familiar
que ofereça orientações em relação aos cuidados, sobretudo em casos de
demência, com vista à resolução de conflitos e de problemas.
Caso persista ou não seja possível uma intervenção direta na fa-
mília ou na instituição, denuncie à autoridade policial, ao Ministério
Público, ao Conselho Municipal, Estadual ou Nacional do idoso ou ao
SOS Idoso mais perto de você. Acompanhe a resolução do caso, pois
maus-tratos são uma questão de Saúde Pública, e caso o profissional de
Saúde não faça a comunicação, e reiteradamente o idoso sofra de maus-
tratos, ele responderá por tal crime.
Por outro lado, considera-se de fundamental importância estimu-
lar ações que promovam educação gerontológica para todas as faixas etárias,
em todos os níveis – na sociedade, na comunidade e nas famílias –, de
forma a se combater a forma de violência mais relatada pelos próprios
334 MÓDULO 14
idosos: o preconceito contra a velhice. Só assim será possível construir
uma sociedade que respeite e valorize o cidadão idoso e o mantenha
livre de qualquer forma de discriminação, negligência, maus-tratos, ex-
ploração e opressão.
Referências bibliográficas
ABDO, C. H. et al. Prevalence of sexual dysfunction and correlated conditions in
a sample of Brazilian women results of the Brazilian study on sexual behavior
(BSSB). Journal Impot Res., v. 16, n. 2, p. 160-166, Apr. 2004.
ACKARD, D. M.; KEARNEY-COOKE, A.; PETERSON, C. B. Effect of body image
and self-image on women's sexual behaviors. Journal Eat Disorders, v. 28, n. 4, p.
422-429. Dec. 2000.
ANNON, Jack. Tratamento comportamental dos problemas sexuais. São Paulo: Manole,
1975.
BALLARD, C. G. et al. Sexual relationships in married dementia sufferers. Journal
Geriatric Psychiatry, v. 12, n. 4, p. 447-451, Apr. 1997.
BEUTEL, M. E. et al. Sexual disorders in the aging male. Urology A., v. 43, n. 3, p.
285-290, Mar. 2004.
DAPP, U. et al. Active health promotion in old age: methodology of a preventive
intervention programme provided by an interdisciplinary health advisory team
for independent older people. Journal of Public Health Publisher, n. 16, Feb. 2005.
EDWARDS, W. M.; COLEMAN, E. Defining sexual health: a descriptive overview.
Archives of Sexual Behavior Publisher, v. 33, n. 3, p. 189-195, June 2004.
GOTT, M.; HINCHLIFF, S. How important is sex in later life? The views of older
people. Society of Science Med., v. 56, n. 8, p. 1.617-1.628, Apr. 2003.
JUNG, A.; SCHILL, W. B. Male Sexuality with advancing age. Journal Obstetric Gynecol
Reprod Biol., v. 113, n. 2, p. 123-125, Apr. 2004.
LARRY, W. Baum Sex, Hormones, and Alzheimer's Disease. The Journals of Gerontology
Series A: Biological Sciences and Medical Sciences, v. 60, p. 736-743, 2005.
MASTER, W.; JOHNSON, V. A conduta sexual humana. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1981.
ROUSSELLE, A. Pornéia – Sexualidade e amor no mundo antigo. São Paulo:
Brasiliense, 1984.
SCHOVER, L. R. et al. Erectile dysfunction after treatment for prostate cancer.
Archives of Sexual Behavior Publisher, v. 33, n. 5, p. 443-454, Oct. 2004.
ZEISS, A. M.; DAVIES, H. D.; TINKLENBERG, J. An observational study of sexual
behavior in demented male patients. Journals of Gerontology, Series A: Biological
Sciences and Medical Sciences, Nov. 1996.
MÓDULO 14 335
AULA 4
CUIDADO FAMILIAR
Célia Pereira Caldas
O envelhecimento populacional observado em quase to-
dos os países tem determinado transições demográficas que trarão im-
pacto na família. Existem três fenômenos que marcam estas modifica-
ções. O primeiro é o surgimento da estrutura vertical de família, ou seja,
a diminuição do número de filhos por mulher, o que resultou em famí-
lias compostas por sucessivas gerações com poucos componentes. O se-
gundo fenômeno é o aumento da duração dos papéis e relacionamentos
familiares, isto é, hoje em dia os pais permanecem cumprindo seus
papéis até muito mais tarde do que em tempos passados, pois os filhos
demoram mais a se tornar independentes. Os avós também assumem o
papel de avós por muito mais tempo, por viverem muito mais do que os
avós do passado. O terceiro fenômeno, que representa uma importante
transição demográfica, é a diversidade nas estruturas e papéis familiares
(Bengtson et al., 1990).
Em relação a esta terceira transição demográfica, destacamos o
surgimento de três padrões familiares. O primeiro é o padrão interge-
racional de idade condensada, que é o fenômeno das sucessivas gerações
de mães muito jovens. Este modelo gera uma sobrecarga para as gera-
ções mais idosas que, geralmente, se tornam responsáveis pela educação
de várias gerações entre filhos, netos e bisnetos. O segundo é o interge-
racional de espaçamento da idade, que ocorre quando sucessivas gera-
ções de mulheres decidem ser mães com mais idade – em torno dos 40
anos. O terceiro padrão é o fenômeno crescente de pessoas que decidem
não ter filhos, o que gera um contingente de pessoas que no futuro não
poderão contar com o cuidado familiar proporcionado pelos filhos.
Temos ainda um quarto padrão composto por uma estrutura
matrilinear intergeracional, que é ocorrência de sucessivas gerações de
336 MÓDULO 14
mulheres que criam filhos sem a presença dos pais. E um quinto padrão,
com a ocorrência cada vez mais freqüente dos padrastos e madrastas que
se tornam parte da família e entram na dinâmica familiar, como idosos
que precisam de cuidados.
Quanto ao casamento, é importante compreender o impacto do
envelhecimento nos padrões conjugais. De acordo com a maior parte
das pesquisas, os casados apresentam maiores níveis de satisfação de vi-
ver, de saúde física e mental, mais recursos econômicos, maior integração
social e suporte social, além de apresentarem menores taxas de
institucionalização. A viuvez traz efeitos negativos para a saúde, mas com
o tempo este efeito diminui. Os filhos são figuras-chaves nos sistemas de
suporte. O apoio dos amigos, dos vizinhos, dos irmãos e de outros paren-
tes depende da sociabilidade do viúvo. Os melhores indicadores para um
adequado envolvimento social na viuvez são boas condições econômicas
e de saúde.
Uma proporção desconhecida de idosos solteiros é homossexual –
tanto homens quanto mulheres. Esta população é totalmente negligen-
ciada pela pesquisa. Para os idosos solteiros, a família original é a prin-
cipal fonte de suporte. Geralmente têm relacionamentos mais intensos
com sobrinhos e irmãos.
Quanto à solidariedade intergeracional, observa-se que, com o
envelhecimento familiar, os laços podem ser até mesmo mais fortes por
causa do aumento do tempo compartilhado. Os avós são fonte de recur-
sos para a família: sociais, culturais e econômicos. O idoso sem filhos é
o que apresenta maior risco de institucionalização. Eles dependem mais
dos vínculos com a família de origem.
Bengtson et al. (1990) apresentam cinco tipos de solidariedade
intergeracional. A solidariedade associativa é relativa a atividades comuns
e encontros entre os membros da família; a solidariedade afetiva é a
interação e afetividade entre os membros; a solidariedade consensual é
a ocorrência de conflito, consenso e influência mútua; a solidariedade
funcional consiste nas trocas de assistência e apoio; e a solidariedade
normativa envolve a manutenção das regras familiares e expectativas
sobre contatos, afeto, consensos e assistência.
Os arranjos familiares são influenciados pelo estado civil, situação
financeira, estado de saúde, tamanho e estrutura familiar, tradições cul-
turais, laços de parentesco, valor que se dá a viver independentemente
ou com a família, disponibilidade de serviços sociais e de apoio, condi-
MÓDULO 14 337
ções de moradia e recursos das comunidades. Afetam a satisfação de
viver, a saúde, e determinam as chances de institucionalização. São dinâ-
micos, mudam ao longo do curso de vida, à medida que precisam se
adaptar às circunstâncias (Velkoff, 2001).
Tem sido observado um aumento no número de pessoas mais ve-
lhas que vivem sós na maioria dos países desenvolvidos. Tal fato tem sido
atribuído freqüentemente à melhoria dos recursos econômicos da popu-
lação mais velha que lhes permitiu assumir a sua preferência por viver
independente.
Johnson (1993) aponta quatro tipos de família: a família funcional;
a família potencial; a família como fonte de sentimentos e a família
atenuada. A família funcional tem uma estrutura observável e um siste-
ma bem definido de status e papéis. As relações familiares são manifes-
tas. Geralmente há normas explícitas com respeito a responsabilidades
familiares, e é esperado que os interesses familiares sejam colocados
acima de interesses individuais.
Na família potencial, os papéis são definidos de forma flexível e
latente. Só são ativados em tempos de necessidade ou para celebrações
rituais especiais. Quando necessárias, são ativadas as normas de recipro-
cidade e sentimentos de ligação que servem para consolidar as ações dos
membros da família.
Quando a família é uma fonte de sentimentos, as funções estão
principalmente nos significados que os indivíduos atribuem às relações
familiares. Neste tipo familiar, não existem funções instrumentais, os
papéis ficaram inativos e a reciprocidade está ausente. Assim, na maior
parte do tempo, a família persiste principalmente nas recordações dos
membros sobreviventes.
A família atenuada existe em casos nos quais os indivíduos sobre-
viveram às suas famílias. Estes indivíduos normalmente são solteiros e
sem filhos. Outros tiveram relações frágeis ou conflituosas com irmãos e
outros membros da família original, assim essas relações se acabaram
após a morte dos pais. Ou seja, não sobraram restos de estrutura familiar,
e não há nenhum papel familiar para executar.
O rápido crescimento da proporção de pessoas idosas na popula-
ção, a grande carga de doenças crônicas e limitações funcionais, o custo
da assistência permanente, a oferta dos serviços necessários para uma popu-
lação que envelhece e a falência do sistema previdenciário tornam a família
a principal fonte de recursos para o cuidado do idoso dependente.
338 MÓDULO 14
Por inexistir um programa de Governo direcionado para a popu-
lação idosa dependente, o cuidado tem sido prestado por um sistema de
suporte informal, em especial nos países em desenvolvimento. As polí-
ticas públicas de vários países, o que inclui o Brasil, reconhecem oficial-
mente a contribuição dos cuidadores informais, dos voluntários e do
setor privado para complementar a assistência pública. Com isso, o papel
da seguridade social tem sido transferido para as famílias. A seguridade
social, que objetiva garantir a saúde, a previdência e a assistência social
(Constituição de 1988) não tem conseguido cumprir seu papel. Por sua
vez, a família desse paciente idoso dependente, que recebe os baixos
benefícios previdenciários do paciente, não consegue arcar com os cus-
tos do cuidado.
Assim, a questão do financiamento do cuidado comunitário perma-
nece um desafio a ser enfrentado. Qual parcela cabe às famílias no
tratamento do paciente idoso dependente de cuidados? Qual é a parce-
la que cabe ao Estado? Para assumir o cuidado do idoso dependente, a
família tem necessidades materiais, de informação e de suporte. Os as-
pectos materiais incluem recursos financeiros, questões de moradia, trans-
porte e acesso a serviços de Saúde. As necessidades de informação dizem
respeito a como realizar os cuidados, inclusive a adaptação do ambiente
ao idoso. Em relação ao suporte, existe a necessidade de uma rede de
cuidados que ligue a família aos serviços de apoio e meios que garantam
qualidade de vida para os cuidadores principais.
Referências bibliográficas
BENGTSON, V. et al. Families and aging: diversity and heterogeneity. In:
BINSTOCK, R. H.; GEORGE, L. K. (Eds.). Handbook of aging and the Social
Sciences. San Diego, California: Academic Press, 1990.
CALDAS, C. P. Envelhecimento com dependência: responsabilidades e demandas
da família. Cad. Saúde Pública, v.19, n. 3, p. 733-781, jun. 2003.
______. O idoso em processo demencial: o impacto na família. In: MINAYO, M. C.
S.; COIMBRA JR., C. (Orgs.). Antropologia, saúde e envelhecimento. Rio de Janeiro:
Fiocruz, 2002. p. 51-71.
CARSTENSEN, L. Perspectives on research with older families: contributions of
older adults to families and to family theory. In: COWAN, P. A. et al. (Eds.).
Family, Self and Society: Toward a new agenda for family research. Hillsdale, New
Jersey: Lawrence Erlbaum Associates, Publishers, 1993.
FIELD, D.; MINKLER, M. The importance of family in advanced old age: the family
is "forever". In: COWAN, P. A. et al. (Eds.). Family, Self and Society: Toward a
MÓDULO 14 339
new agenda for family research. Hillsdale, New Jersey: Lawrence Erlbaum
Associates, Publishers, 1993.
IBGE. Perfil dos idosos responsáveis pelos domicílios no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 2000.
JOHNSON, C. L. The prolongation of life and the extension of family relationships:
the families of the oldest old. In: COWAN, P. A. et al. (Eds.). Family, Self and
Society: Toward a new agenda for family research. Hillsdale, New Jersey: Lawrence
Erlbaum Associates, Publishers, 1993.
VELKOFF, V. A. Living arrangements and well-being of the older population:
future research directions. Population Bulletin of the United Nations, n. 42/43,
2001.
340 MÓDULO 14
AULA 5
INSTITUIÇÕES DE LONGA PERMANÊNCIA
Eliane Brandão Vieira
A questão da institucionalização de idosos continua um
assunto delicado – já que sua aceitação como alternativa de assistência
válida ainda não é um consenso – embora seja indiscutível a demanda
espontânea crescente por esse tipo de assistência. Isso leva à necessidade
de diferenciarmos o perfil de idosos que têm um envelhecimento bem-
sucedido daqueles que apresentam algum tipo de complicação que de-
mande atenção profissional especializada. Como esse comprometimento
pode se dar em várias dimensões, como a biológica, a física, a funcional,
a psicológica, a cognitiva, a emocional, a familiar, a social, a financeira,
a cultural e a existencial, as propostas assistenciais devem considerar essa
variedade e especificidade. Nesse sentido, a Instituição de Longa Perma-
nência (ILP) representa uma das alternativas, para um perfil específico
de idosos.
Além das Políticas Nacional e de Saúde do Idoso, que traçam as
diretrizes da assistência em Gerontologia, temos documentos mais espe-
cíficos: a Portaria nº 810/GM, de 22 de setembro de 1989, do Ministério
da Saúde, define Normas de Funcionamento de Casas de Repouso, Clí-
nicas Geriátricas e Outras Instituições Destinadas ao Atendimento do
Idoso; o Manual de Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs),
elaborado pela SBGG-SP, propõe critérios e recursos necessários para o
bom funcionamento institucional; a Resolução nº SS-123, de 27 de se-
tembro de 2001, da Secretaria de Saúde de São Paulo, define e classifica
Modalidades e Formas de Organização da Assistência Institucionalizada
no Estado de São Paulo, e temos ainda o Estatuto do Idoso, nos Capítulos
VIII e IX – Título II.
Nesses documentos se encontram todas as propostas de regulariza-
ção para o setor de Gerontologia Institucional, com critérios, parâmetros
MÓDULO 14 341
e recursos necessários para o bom funcionamento das ILPIs, que devem
ser atendidos sob pena de fechamento, de acordo com a fiscalização pela
Agência de Vigilância Sanitária. A execução das ações de Vigilância Sa-
nitária está incluída dentre os campos de atuação do SUS – Inciso I,
alínea A, do Artigo 6º, e integra o Sistema Nacional de Vigilância Sani-
tária, definido na Lei nº 9.782, de 26 de janeiro de 1999, que criou a
Agência Nacional de Vigilância Sanitária.
Com o intuito de estreitar e unificar a linguagem, de forma a
definir melhor a missão de cada instituição, propõe-se uma divisão dos
diversos estabelecimentos e suas finalidades, conforme o grau de depen-
dência do idoso, como mostra o quadro abaixo.
Quadro 1 Modalidades e formas de organização
Modalidades Formas de organização
Modalidade I – Idosos dependentes Família natural X Acolhedora
Modalidade II – Idosos dependentes e Residência temporária
independentes Centro-Dia
Modalidade III – Idosos totalmente Centro de Convivência
dependentes Casa-Lar
República
Atendimento integral institucional
Essa diferenciação de modalidades se dá a partir do número de
Atividades de Vida Diária (AVDs) comprometidas, o que determina os
recursos necessários à assistência, e da identificação do perfil institucional
com o do usuário. No entanto, a prática, a rotina e a dinâmica
institucionais, somadas à variedade de comprometimentos possíveis, em
diferentes dimensões que se superposicionam, constituem-se em fatos
complicadores na aplicação desses parâmetros.
As tentativas de se criar documentos que permeiem sua prática, já
que ainda não temos um mapeamento, um perfil e diagnóstico sistema-
tizados das instituições geriátricas de longa permanência em nosso meio,
acabam fornecendo orientações – oriundas de se legislar sobre o desco-
nhecido –, baseadas em parâmetros equivocados, muitas vezes incompa-
tíveis com a realidade da dinâmica institucional.
Por isso, é fundamental considerar as dimensões conceituais, estru-
turais e circunstanciais nas quais as instituições geriátricas estão inseridas
e entender o seu momento sócio-histórico, já que é esse que redefine
as necessidades pessoais e coletivas.
342 MÓDULO 14
Na análise dos paradigmas institucionais em Gerontologia, não se
pode furtar ao fato de que os asilos reproduziam os abusos cometidos em
outras instituições de exclusão social – psiquiátrica e penitenciária –,
espaços de cultura manicomial. Se considerarmos a necessidade de
estruturação de novos equipamentos sociais que dêem conta das novas
necessidades de uma população que envelhece, parece que a institucio-
nalização de idosos caminha na contramão dos paradigmas institucionais
gerais.
Por outro lado, viver em comunidade é a expressão do desejo de
se ter uma vida plena, vivida em sua totalidade. Quando limitações físicas
e clínicas, neurofuncionais ou psico-emocionais, ou ambas, impedem
essa vivência, temos cidadãos sem acesso à cidade, e vice-versa, o que leva
à dialética da exclusão social versus inclusão perversa. Longe de
equacionarmos essa situação, o que se procura hoje parece ser uma
forma de relação e de convivência que permita a manutenção do sen-
timento de se estar vivendo em comunidade.
Por isso, ao se indicar a instituição de longa permanência como
alternativa de assistência geriátrica, o profissional de Gerontologia deve
considerar alguns aspectos. Em primeiro lugar, não se pode esquecer
que as questões suscitadas na família e na comunidade, em geral, são o
que dão origem à procura por esse tipo de assistência.
Portanto, é preciso avaliar e diferenciar demanda de necessidade
e como o idoso se coloca diante disso, para que possa haver uma ade-
quada oferta de serviço. Ou seja, adequar o que o idoso quer, com o que
ele precisa e o que a instituição pode oferecer, e assim facilitar o sucesso
da indicação, sempre medido pelo nível de adaptação, de bem-estar
geral e qualidade de vida do idoso.
Identificar de quem, porque e como surgiu essa demanda é fun-
damental no processo de legitimação do processo de institucionalização,
que só pode ser dada pelo próprio idoso. O ideal é que todos – família,
idoso, instituição – estejam unidos nessa tomada de decisão.
Em situações em que não há qualidade de vida domiciliar é fun-
damental analisar o custo e o benefício de mantê-lo em casa. Para isso,
elementos como motivação, grau de dependência física ou incapacidade
funcional, de privação social e psicológica, ausência de alternativas de
assistência, tornam-se critérios a serem usados na análise.
A prática tem mostrado que quanto maior a compatibilidade entre
o perfil da instituição e o do idoso, maior as suas chances de adaptação.
MÓDULO 14 343
O objetivo principal é desenvolver um sentimento de identidade local, a
partir da comunidade interna. O vínculo do idoso com os segmentos
social e étnico da instituição facilita muito o estabelecimento dessa iden-
tidade.
Atentos à constatação da irreversibilidade da posição que as insti-
tuições geriátricas assumiram em nosso meio, torna-se urgente e neces-
sário discutir mecanismos de gestão de instituições para idosos que conside-
rem o perfil, o fluxo, a dinâmica e a adequação das normas estabelecidas
para funcionamento de casas geriátricas, de forma que atentem para a
realidade e a sustentabilidade das mesmas.
Portanto, nossa perspectiva é congregar as ações, com vista ao
mapeamento, perfil e diagnóstico das instituições geriátricas de longa
permanência que possam subsidiar a mais adequada definição de indica-
dores de qualidade assistencial, num processo de credibilidade institucional
em Gerontologia.
Referências bibliográficas
GROISMAN, D. Asilos de Velhos: passado e presente. Porto Alegre: Universidade
Federal do Rio Grande do Sul, 1999.
VIEIRA, E. B. Instituições geriátricas: Avanço ou Retrocesso? Rio de Janeiro: Revinter,
2003.
______. Manual de Gerontologia. 2 ed. Rio de Janeiro: Revinter, 2004.
CAMARINHA, H. S., VIEIRA, E. B. (Orgs.). Prática Institucional em Gerontologia:
Gestão de Instituições Geriátricas de Longa Permanência. Rio de Janeiro:
Revinter, s.d. (No prelo).