Artigos Sábado 22.12.
2018 I O GLOBO
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ARTIGO
A lareira de
Roosevelt
RUBENS PENHA CYSNE
Como o na uma lição de Franklin D. Roosevelt.
á tempos o Brasil tem por vezes caminhado em presidente Ao contrário do que se pensa, não foi o
H círculos. Envelhece, mas pouco amadurece.
Prossegue, mas não progride. Pula, mas não salta.
americano fazia, Presidente Donald Trump que inaugu-
comunicação rou o uso de avanços tecnológicos para
Incha, mas não cresce. hoje no Brasil -se comunicar diretamente com o povo.
No que diz respeito à segurança pública, à saúde, requer Mas sim Roosevelt, entre 1933 e 1944,
ao saneamento e ao crescimento, o país tem se ali- aprendizado, ao iniciar suas famosas "conversas ao pé
mentado de migalhas. Muito distante do obtenível. planejamento da lareira".
Ou do desempenho de países congêneres. Roosevelt, como agora Trump, des-
A cada quatro anos, entretanto, ressurge uma confiava da intermediação da mídia, e usou com
chance de colocar o país nos rumos. O capital políti- maestria o rádio ( como Trump tenta usar o Twitter)
co provido pela população enche o pote da esperan- para angariar suporte político. Usou um avanço tec-
ça com mais de 5 7 milhões de votos. nológico para criar um método.
Tal capital, entretanto, além de limitado, é refém Falava diretamente com os americanos, eleitores
de expectativas cada vez mais exigentes e·impaci- ou não. Sua primeira "conversa ao pé da lareira", por
entes. Por ser limitado, deve escolher bem onde ser exemplo, foi crucial para restabelecer a confiança
usado. Por s~r refém de expectativas, costuma de- dos depositantes no sistema bancário americano.
cair rapidamente nos primeiros meses de governo. São muitas as diferenças de tecnologia, conteúdo, es-
Técnicos especializados e comparações internacio- tilo e periodicidade nas comunicações de Roosevelt e do
nais apontam claramente para a necessidade de re- presidente Trump. Roosevelt fez apenas 30 comunica-
formas. A da_Previdência, em particular. Antecipam- dos porrádio entre 1933 e 1944. A parcimônia no uso da
se dificuldades no Congresso. Nesse ponto, surgem o comunicação direta foi crucial para conferir à mesma a
caminho dos espinhos e o caminho das flores. necessária sobriedade e seu grande poder de persuasão.
O caminho das flores se curva às injunções do dia a Passando ao Brasil, nosso presidente eleito de-
dia. Se não passa uma reforma ampla como um todo, fa- monstrou domínio no uso das redes sociais. A co-
tie-se o todo. Encaminhe-se agora uma proposta e de- municação agora, entretanto, é de outra natureza,
pois outra. Se determinados grupos têm capacidade po,- mais técnica e temática. Como nas comunicações
lítica de resistir, evite-se mexer agora com tais grupos. E de R9osevelt, requer aprendizado, planejamento,
a vitória do que então se percebe como pragmatismo. direcionamento e parcimônia.
O caminho dos espinhos, alternativamente, ten- Sob a batuta do presidente, formadores de opini- ..
ão poderão também usar o método de Roosevelt pa-
ta usar de pronto e de todo o capital político con-
ra se comunicarem com as bases políticas do Con-
quistado. Apresenta uma reforma robusta e dura-
gresso. Terão a possibilidade de ajudar, dessa for-
doura. Defende os mais jovens, em particular aque- ma, a fazer o caminho dos espinhos preponderar
les que ainda não têm voto nem voz, e enfrenta dire- sobre o caminho das flores.
tamente os grupos de defesa de privilégios. É a vitó- Se esse movimento for suficiente para gerar um
ria do que então se percebe como u ma missão. ambiente favorável_a reformas mais amplas, em
A análise puramente econômica não terá dúvida consonância com as experiências internacionais
em indicar o caminho dos espinhos. A evolução das bem-sucedidas, o atual capital político terá sido
variáveis macroeconômicas e sociais é muito preo- aplicado de forma mais eficiente. Sob tal perspecti-
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cupante e requer pressa. Quando permeada com a va, resultados bastante positivos poderão surgir no
análise política, entretanto, a decisão não é clara. Brasil com muito maior brevidade.
Passa a depender do que se possa esperar da ação
processual e da ação legislativa. Rubens Penha Cysne é professor da FGV EPGE
Ocorre que, fato bem percebido pelo governo
vencedor das eleições, a reação do Legislativo não é
imutável. Ela responde à opinião pública. E, esta, às N. da R.: Acoluna de Merval Pereira
informações. Nesse ponto entra em ce- volta a ser publicada dia 27 de dezembro