0% acharam este documento útil (0 voto)
49 visualizações37 páginas

Mercados Digitais

Enviado por

pernitas
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
49 visualizações37 páginas

Mercados Digitais

Enviado por

pernitas
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

Publicação disponível em: [Link]

pt/publications/publication/a4ff7eceba14/

INTRODUÇÃO À PROPOSTA DO
REGULAMENTO DOS MERCADOS DIGITAIS
BEATRIZ DE MACEDO VITORINO JOÃO PINTO RAMOS

REVISTA DE DIREITO E TECNOLOGIA, VOL. 3 (2021), NO. 1, 105-139

©Revista de Direito e Tecnologia Obtido a: 28.04.2024 20:21


beatriz de macedo vitorino
Assistente Convidada da FDUL. Investigadora do CIDP

joão pinto ramos


Assistente Convidado da FDUL. Investigador do CIDP.
Advogado Estagiário da VdA

Introdução à proposta do Regulamento


dos Mercados Digitais

Introduction to the proposal for the Digital Markets Act

Resumo: O presente artigo visa proceder a uma análise introdutória do regime


jurídico constante da proposta do Regulamento dos Mercados Digitais (Digital
Markets Act), elencando as principais alterações propostas e procurando pro-
blematizar alguns aspetos do regime.

Palavras-chave: (i) mercados digitais; (ii) Big Tech; (iii) regulamento euro-
peu; (iv) serviços essenciais de plataforma; (v) direito da concorrência.

Abstract: This study aims to make an introductory analysis of the legal


framework contained in the proposal on the Digital Markets Act, listing the
main changes proposed and attempting to discuss some aspects of this legal
framework.

Keywords: (i) digital markets; (ii) Big Tech; (iii) European regulation; (iv)
core platform services; (v) antitrust law.

1 RDTec (2021) 105-139


106 | Beatriz de Macedo Vitorino, João Pinto Ramos

Sumário: 1. Introdução; 2. Breve Contextualização; 3. Objetivos Genéri-


cos do DMA; 4. Estrutura da Proposta; 5. Entidades Visadas pela Proposta;
6. Obrigações Decorrentes do DMA; 7. Investigações de Mercado; 8. Execução
do Regulamento e Imposição de Sanções; 9. Síntese conclusiva.

1. Introdução

Em 15 de dezembro de 2020 foi apresentada ao Parlamento Euro-


peu e ao Conselho, pela Comissão Europeia, a proposta do Digital
Markets Act ou, em Português, Regulamento dos Mercados Digi-
tais ou Regulamento do Parlamento Europeu e do Conselho relativo
à disputabilidade e equidade dos mercados no setor digital (dora-
vante, “Proposta”, “Regulamento Proposto” ou “DMA”), juntamente
com a proposta do Digital Services Act (“DSA”) ou Regulamento dos
Serviços Digitais. A Proposta foi preparada por Margrethe Vesta-
ger, Vice-Presidente Executiva da Comissão Europeia para uma
Europa Preparada para a Era Digital, e por Thierry Breton, Comis-
sário Europeu para o Mercado Interno.
Em termos que serão explorados adiante, a Proposta visa impe-
dir que entidades que prestam serviços essenciais de plataforma
(sejam motores de busca, mercados online, redes sociais, ou outros),
com impacto significativo e duradouro no mercado digital, possam
impor condições injustas no acesso ao mercado a profissionais que
fazem uso daqueles serviços ou que pretendem com eles compe-
tir, complementando a atual legislação em matéria de concorrên-
cia, com vista a assegurar que os mercados digitais permanecem
abertos e contestáveis, bem como justos face aos utilizadores finais
(sejam estes consumidores ou profissionais que utilizam as plata-
formas para divulgar ou mesmo prestar os seus serviços, indepen-
dentemente de estes serem ou não por natureza digitais).
Por outras palavras, o DMA surge num contexto em que se reco-
nhece que algumas plataformas de grande dimensão são aptas a
atuar enquanto “controladores de acesso” (gatekeepers) relativa-
mente à sua concorrência, aos utilizadores profissionais e aos con-
sumidores, originando situações de dependência significativa susce-
tível de conduzir a problemas associados à falta de disputabilidade
dos respetivos serviços, bem como a potenciais práticas desleais.

1 RDTec (2021) 105-139


Introdução à proposta do Regulamento dos Mercados Digitais   | 107

O presente artigo visa sobretudo dar a conhecer o conteúdo do


Regulamento Mercados Digitais, os seus objetivos no contexto do
mercado interno da União Europeia, quais as entidades visadas por
aquele e os critérios para as apurar, quais as vinculações que dele
decorrem e quais os mecanismos previstos para fiscalizar, prevenir
e punir condutas desconformes com o Regulamento Proposto.

2. Breve contextualização

De assinalar que esta proposta de regulamento, e bem assim a


relativo a serviços digitais, não são o primeiro passo dado na direção
de restrição e regulação de práticas anticoncorrenciais e desleais
por parte de empresas de Big Tech. Vários ordenamentos jurídicos
têm tido a preocupação de limitar os referidos poderes de “controlo
de acesso” das plataformas de grande dimensão, conforme demons-
tram os recentes, e ainda em aberto, processos de antitrust inten-
tados por entidades reguladoras norte-americanas contra empresas
Big Tech, tais como a Google1 e o Facebook2. Em particular, repa-
re-se que, se a ação intentada contra o Facebook for procedente,
o Facebook será forçado a vender as redes sociais Instagram e

1
No comunicado de imprensa do Department of Justice norte-americano, lê-se que a ação
instaurada contra a Google em 20 de outubro de 2020 visa “inibir a Google de manter
monopólios ilicitamente através do exercício de práticas anticoncorrenciais e de compor-
tamentos de exclusão nos mercados de motores de busca e de busca de publicidade, bem
como forçá-la a remediar os danos que gerou”. Neste sentido, cf. Comunicado de Imprensa
n.º 20-1124 do Department of Justice (tradução livre). Acessível em Justice: [Link]
[Link]/opa/pr/justice-department-sues-monopolist-google-violating-antitrust-laws (con-
sultado a 13 de abril de 2021).
2
Quanto à ação instaurada contra o Facebook, argumenta-se que a manutenção pelo Face-
book de um monopólio no mercado de redes sociais, nomeadamente através da aquisição
em 2012 do Instagram e em 2014 do WhatsApp, bem como através da imposição de condi-
ções restritivas ao acesso ao mercado, acaba por resultar na negação aos consumidores dos
“benefícios da competição”, nomeadamente a nível de inovação. Neste sentido, cf. Comuni-
cado da Federal Trade Commission, (9.12.2020), que dá conta da ação instaurada contra
o Facebook. Acessível em FTC: [Link]
ftc-sues-facebook-illegal-monopolization (consultado a 13 de abril de 2021).

1 RDTec (2021) 105-139


108 | Beatriz de Macedo Vitorino, João Pinto Ramos

WhatsApp. A medida de cisão de empresas monopolistas é vista


como a opção “nuclear” 3, de último reduto, mas não é totalmente
sem precedente: como exemplo, nos E.U.A., já no século XX foi apli-
cada esta medida, com base no Sherman Antitrust Act de 1890, às
empresas Rockefeller’s Standard Oil e American Tobacco4. Como se
verá, também o DMA prevê esta possibilidade.
Ainda nos Estados Unidos da América, em fevereiro do ano cor-
rente, quatro senadores estadunidenses propuseram uma nova lei
anti-trust (“S. 225 – Competition and Antitrust Law Enforcement
Reform Act of 2021”)5 que viria alterar o Clayton Antitrust Act de
1914 em três frentes que visam sobretudo influenciar a conduta das
empresas Big Tech: (i) reduzindo o standard exigido para uma aqui-
sição ser considerada anticoncorrencial e criando uma presunção
legal de que é anticoncorrencial uma operação de M&A no valor de
cinquenta milhões de dólares americanos ou mais, por uma empresa
com um total de bens, vendas anuais líquidas ou capitalização bol-
sista valorizados acima de 100 mil milhões de dólares americanos;
(ii) diminuindo o ónus da prova de comportamentos de exclusão de
concorrência; e (iii) aumentando os poderes do Department of Jus-
tice e da Federal Trade Commission no que respeita à imposição de
coimas em face de comportamentos antitrust.
De igual modo, na China, em 2020, a entidade supervisora com-
petente propôs regras que visam limitar o poder monopolístico dos
gigantes tecnológicos, tendo ainda sido ordenado o pagamento de
coimas por parte de várias empresas devido a práticas anticoncor-
renciais, o que resultou na descida do valor das ações de empresas
como Alibaba, Tencent e Meituan6.

3
Cf., Sandra Marco Colino, Towards a Global Big Tech Clampdown? (28-jan.-2021). Acessí-
vel em SSRN: [Link] (consultado a 13 de abril de 2021), 3.
4
Colino, Towards cit.,3.
5 Acessível em Congress: [Link]

(consultado a 13 de abril de 2021).


6
Cf., Reuters Staff, China steps up Internet sector scrutiny, fines deals involving Alibaba,
Tencent (14-dez.-2020). Acessível em Reuters: [Link]
-antitrust-idUSKBN28O0CQ (consultado a 13 de abril de 2021).

1 RDTec (2021) 105-139


Introdução à proposta do Regulamento dos Mercados Digitais   | 109

Por seu turno, a Comissão Europeia tem adotado desde há quase


uma década uma estratégia coerente no que respeita ao combate
às práticas anticoncorrenciais dos chamados gigantes tecnológicos,
nomeadamente tendo já ordenado o pagamento de coimas à entida-
de-mãe da Google, Alphabet Inc., no valor de 8.25 mil milhões de
euros7, bem como ao Facebook, no valor de 110 milhões de euros8.

3. Objetivos genéricos do DMA

A Proposta assume como objetivos genéricos, conforme decorre


da respetiva Exposição de Motivos, a promoção dos benefícios que
os serviços digitais originam para os utilizadores e para a criação de
oportunidades de negócio e da facilitação do comércio transfrontei-
riço, bem como a garantia de que os serviços digitais se assumem,
como para tanto têm aptidão, como potenciadores da participação
civil na sociedade, oferecendo mais escolhas aos consumidores e
melhorando a eficiência e competitividade da indústria.

7
Foram três os processos instaurados contra a Google pela Comissão Europeia que resul-
taram na imposição do pagamento de coimas: o caso Google Search (Shopping) (caso n.º
AT.39740), acessível em [Link]; o caso Google Android (caso n.º AT.40099), aces-
sível em [Link]; o caso Google Search (AdSense) (caso n.º AT.40411), acessível em
[Link].
8 No âmbito do Caso Facebook/WhatsApp (caso n.º COMP/M.7217), decidiu-se em 2014 ser

de admitir a aquisição do WhatsApp pelo Facebook. Acessível em: [Link]


petition/mergers/cases/decisions/m7217_20141003_20310_3962132_EN.pdf (consultado a 13
de maio de 2021). À mesma decisão se chegou no âmbito do Caso Facebook/WhatsApp (caso
n.º COMP/M.7217). Acessível em: [Link]
m7217_20141003_20310_3962132_EN.pdf (consultado a 13 de abril de 2021). Contudo, no
âmbito do Caso Facebook/WhatsApp (caso n.º M.8228), ficou claro que o Facebook teria
fornecido falsas informações, desrespeitando o Regulamento (CE) N.º 139/2004 do Conse-
lho de 20 de janeiro de 2004 (Regulamento das concentrações comunitárias), motivo pelo
qual lhe foi imposto o pagamento de 110 milhões de euros. Acessível em European Com-
mission: https:// [Link]/competition/mergers/cases/decisions/m8228_493_3.pdf
(consultado a 13 de abril de 2021).

1 RDTec (2021) 105-139


110 | Beatriz de Macedo Vitorino, João Pinto Ramos

Na comunicação de 19 de fevereiro de 2020 intitulada “Cons-


truir o futuro digital da Europa”9, a Comissão Europeia, compa-
rando a atual evolução digital à revolução industrial, já havia consi-
derado poder ser necessária a criação de regras adicionais com base
na lógica do mercado único, nomeadamente considerando a neces-
sidade de funcionalizar a nova economia digital à prossecução de
objetivos de sustentabilidade ecológica, para o que é necessário que
todos os cidadãos e comerciantes tenham a oportunidade de bene-
ficiar desta economia. A Comissão, no comunicado, proclama a sua
intenção de a evolução digital do mercado a nível europeu não ser
desacompanhada da prossecução dos objetivos da União Europeia
e do respeito pelos seus valores, declarando a necessidade de um
enquadramento legal que permita aos agentes económicos iniciar,
crescer, partilhar e usar dados com vista à inovação e à competição
ou cooperação em termos justos, seguros e transversais a todos os
cidadãos da União, com consequente melhoria de qualidade de vida.
Para prosseguir tais objetivos, a Comissão afirma que a União Euro-
peia tem de se afirmar como um “agente digital forte, independente
e intencional”10. Por sua vez, em sede de comunicado de imprensa de
15 de dezembro de 2020, Margrethe Vestager afirmou que as duas
novas propostas de regulamentos partilham dos mesmos objetivos,
os quais consistem em (i) garantir que os utilizadores têm acesso a
uma vasta escolha de produtos e serviços on-line e (ii) garantir que
as empresas que operam na Europa podem competir livremente e

9
Acessível em European Commission: [Link]
nication-shaping-europes-digital-future-feb2020_en_4.pdf (consultado a 13 de abril de 2021).
A Comissão indicava, no mesmo comunicado, os pilares sobre os quais a “Europa digital”
se deverá erguer: “Esta Europa digital deve refletir o melhor da Europa – aberta, justa,
diversificada, democrática, confiante” (tradução livre), prometendo concentrar-se em três
objetivos-chave até 2025: (i) a funcionalização da tecnologia às pessoas; (ii) uma economia
competitiva e justa, (iii) uma sociedade sustentável, democrática e aberta.
10 Nomeadamente, investindo em pesquisa e inovação, promovendo a transformação digi-

tal das administrações públicas europeias e na disseminação do 5G, de modo a atingir os


objetivos de conectividade da UE para 2025, e criando um mercado único digital que não
esteja sujeito a fricções nacionais que onerem administrativamente as pequenas e médias
empresas e garantindo a mesma proteção aos consumidores e comerciantes que existem
off-line também on-line.

1 RDTec (2021) 105-139


Introdução à proposta do Regulamento dos Mercados Digitais   | 111

de forma equitativa on-line. Os dois regulamentos visam fortalecer


o mercado interno, tendo por base legal o art. 114.º do Tratado sobre
o Funcionamento da União Europeia (“TFUE”), relativo à constru-
ção do mercado interno e não, somente, regras relativas à proibição
de práticas anticoncorrenciais.
A Proposta visa, então, complementar o Regulamento (UE)
2019/1150 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 20 de junho
de 2019, relativo à promoção da equidade e da transparência para
os utilizadores profissionais de serviços de intermediação em linha
(também conhecido por Regulamento P2B, devido à expressão
inglesa “plaftorm-to-business”). O DMA visa também complemen-
tar as normas de fonte comunitária em vigor em matéria de concor-
rência, nomeadamente os arts. 101.º e 102.º do TFUE, que, segundo
a Comissão, apenas visam situações relativas ao abuso do poder
de mercado e a práticas anticoncorrenciais a posteriori. A Proposta
ambiciona operar pela vertente preventiva e não aposteriorística11,
o que se compreende, uma vez que as coimas impostas aos prevari-
cadores12, não têm persuadido suficientemente outras entidades de
não adotar práticas anticoncorrenciais e de abuso de posição domi-
nante. Mais ainda, o DMA procura conjugar preocupações concor-
renciais com preocupações relativas à proteção dos consumidores e

11
Como bem observa Alexandre De Streel, esta opção vai ao encontro da tendência euro-
peia em adotar medidas de regulação ex ante que complementam as políticas de anti-trust,
de natureza ex post, quando estas não se afiguram suficientes. Cf., Alexandre de Streel,
Digital Markets Act: Policy Choices and Conditions for Success (13-jan.-2021). Acessível
em Promarket: [Link]
ropean-regulation-big-tech/ (consultado a 13 de abril de 2021). Medidas deste tipo já foram
adotadas pela União Europeia, por exemplo, no âmbito do setor das telecomunicações e
dos serviços de pagamentos, no que concerne as regras aplicáveis aos mercados grossis-
tas de itinerância (roaming) – Regulamento (UE) 2017/920, do Parlamento Europeu e do
Conselho, de 17 de maio de 2017 –, bem como as regras relativas às taxas de intercâmbio
aplicáveis a operações de pagamento baseadas em cartões – Regulamento (UE) 2015/751,
do Parlamento Europeu e do Conselho, de 29 de abril de 2015.
12
Veja-se o exemplo da Google, referido no comunicado da Comissão relativo à coima de 1.49
mil milhões de euros que aplicou a esta empresa em 2019 devido a práticas abusivas no que
respeita à publicidade on-line. Acessível em European Commission: [Link]
eu/commission/presscorner/detail/pt/IP_19_1770 (consultado a 13 de abril de 2021).

1 RDTec (2021) 105-139


112 | Beatriz de Macedo Vitorino, João Pinto Ramos

dos respetivos dados pessoais, densificando a legislação em matéria


de proteção de dados, sobretudo no que respeita às práticas de deep
profiling, ou seja, de definição de perfis exaustivos dos consumi-
dores, complementando o Regulamento Geral sobre a Proteção de
Dados (“RGPD”). O European Data Protection Supervisor (“EDPS”),
aliás, já emitiu uma opinião acerca da Proposta, concordando com o
tratamento conjunto das matérias referidas supra13.

4. Estrutura da Proposta

A Proposta é composta por seis capítulos. O capítulo I estabelece


as disposições gerais, definindo os termos usados e os objetivos da
proposta. O capítulo II estabelece as condições mediante as quais os
prestadores de serviços essenciais de plataforma devem ser desig-
nados como controladores de acesso (art. 3.º) e o procedimento de
revisão desse estatuto (art. 4.º).
O capítulo III estabelece as práticas dos controladores de acesso
que limitam a disputabilidade e que são desleais, elencando obri-
gações diretamente aplicáveis (art. 5.º) e obrigações suscetíveis de
serem mais especificadas (art. 6.º), além de regular outros aspetos
relevantes relativos à determinação das medidas concretas a apli-
car com vista ao cumprimento das obrigações, à possível suspen-
são ou isenção das obrigações, aos mecanismos de antievasão e de
atualização da lista de obrigações, entre outros aspetos relativos às
obrigações impostas nestes capítulo.
O capítulo IV determina o regime da realização de investigações
de mercado, definindo os requisitos para a abertura de uma inves-
tigação de mercado (art. 14.º) e regras para realizar diversos tipos
de investigações de mercado, conforme o seu fim: designação de um
controlador de acesso (art. 15.º), investigação sobre incumprimentos

13
Cf. Opinião 2/2021 (10.02.2021). Acessível em EDPS: [Link]
tem/files/2021-02/21-02-10-opinion_on_digital_markets_act_en.pdf (consultado a 13 de
abril de 2021).

1 RDTec (2021) 105-139


Introdução à proposta do Regulamento dos Mercados Digitais   | 113

sistemáticos (art. 16.º), investigação sobre novos serviços essenciais


de plataforma e novas práticas (art. 17.º).
O capítulo V prevê a execução e o controlo do cumprimento do
Regulamento Proposto, fixando requisitos para a abertura de pro-
cedimentos (art. 18.º), regras relativas aos instrumentos que podem
ser utilizados no contexto de investigações de mercado ou procedi-
mentos ao abrigo do regulamento (arts. 19.º a 24.º), bem como as
decisões que a Comissão pode tomar: decisão de incumprimento
(art. 25.º), decisão de aplicação de coimas ao controlador de acesso
(art. 26.º) e ainda decisão de aplicação de sanção pecuniária com-
pulsória (art. 27.º). Ademais, este capítulo estabelece ainda regras
relativas a: (i) prazos de prescrição; (ii) garantias perante a Comis-
são, nomeadamente a formação do Comité Consultivo Mercados
Digitais; e (iii) possibilidade de realização de pedidos de aberturas
de investigações de mercado por três ou mais Estados-membros.
Por fim, o capítulo VI estabelece regras gerais acerca da obri-
gação de publicação de decisões da Comissão, da competência do
Tribunal de Justiça da União Europeia (“TJUE”) para reapreciar
decisões da Comissão em matéria de coimas e sanções pecuniárias
e acerca do início de vigência do DMA. Estabelece-se neste capítulo
ainda os requisitos relativos aos atos de execução e aos atos delega-
dos a serem adotados pela Comissão14 e prevê-se uma cláusula de
reexame do regulamento, a ser acionada de três em três anos.

5. Entidades visadas pela proposta

Na Exposição de Motivos da Proposta, lê-se que, de entre mais


de 10 mil plataformas que atuam na economia digital europeia, na
sua maioria PME, “um pequeno número de plataformas em linha de
grandes dimensões captura a maior parte do valor global gerado”.
E conseguem-no, ao abusar sistematicamente do seu poder de mer-
cado, impedindo pequenos agentes de penetrar no mercado através

14Atos que permitem à Comissão atualizar o Regulamento sem necessidade de aprovação


do Parlamento e do Conselho.

1 RDTec (2021) 105-139


114 | Beatriz de Macedo Vitorino, João Pinto Ramos

de práticas desleais que colocam as empresas Big Tech na quali-


dade de controladores de acesso entre os utilizadores profissionais
e os utilizadores finais15. Entende a Comissão que o domínio do
mercado digital por um número reduzido de empresas capazes de
controlar o acesso ao mesmo gera resultados ineficientes no setor
digital, como preços mais elevados, qualidade inferior e redução
de inovação e das opções disponíveis aos utilizadores finais. Por
estes motivos, o DMA visa especialmente “gigantes tecnológicos”
(conhecidos globalmente como Big Tech): empresas dominantes no
âmbito da indústria da tecnologia da informação.
O Considerando 13 do DMA explica que a fraca disputabilidade
e as práticas desleais são mais frequentes e pronunciadas em cer-
tos setores digitais do que noutros, sendo superiores nos serviços
digitais de utilização generalizada que servem maioritariamente de
intermediários diretos entre os utilizadores profissionais e os utili-
zadores finais, pelo que importa “centrar a atenção exclusivamente
nos serviços digitais mais amplamente utilizados pelos utilizado-
res profissionais e utilizadores finais e nos contextos em que, com
base nas condições de mercado atuais, as preocupações em matéria
de fraca disputabilidade e práticas desleais dos controladores de
acesso são mais visíveis e prementes do ponto de vista do mercado
interno”. Assim, a Proposta assume-se como incindindo apenas
sobre prestadores de serviços essenciais de plataforma, quais
sejam serviços de intermediação em linha, motores de pesquisa em
linha, redes sociais, serviços de plataforma de partilha de vídeos,
serviços de comunicações eletrónicas interpessoais independentes
do número, sistemas operativos, serviços de computação em nuvem,
serviços de publicidade on-line, entre outros.

15
O art. 2.º define “utilizador final” como “qualquer pessoa singular ou coletiva que utilize
serviços essenciais de plataforma e não seja um utilizador profissional”. Este conceito não é
totalmente correspondente a consumidor. Veja-se que no Considerando 13 se esclarece que,
“[e]m determinadas circunstâncias, importa que a noção de «utilizadores finais» abranja
utilizadores habitualmente considerados utilizadores profissionais, mas que, numa deter-
minada situação, não utilizem os serviços essenciais da plataforma para fornecer bens ou
prestar serviços a outros utilizadores finais, por exemplo as empresas que dependem de
serviços de computação em nuvem para fins próprios”.

1 RDTec (2021) 105-139


Introdução à proposta do Regulamento dos Mercados Digitais   | 115

Os prestadores dos serviços essenciais de plataforma serão alvo


do Regulamento Proposto e das obrigações por este impostas quando
estejam presentes as seguintes características: (i) os serviços de
plataforma multilaterais serem altamente concentrados, ou seja,
uma ou poucas plataformas digitais de grandes dimensões esta-
belecerem as condições comerciais com grande autonomia face aos
(potenciais) concorrentes, clientes ou consumidores; (ii) um pequeno
conjunto de plataformas digitais de grandes dimensões atuar como
porta de acesso para os utilizadores profissionais chegarem aos
seus clientes e vice-versa; (iii) ocorrer um frequente abuso de poder
por parte destas plataformas digitais de grandes dimensões, por via
de práticas desleais para com os clientes e utilizadores profissionais
economicamente dependentes. O DMA será aplicável aos serviços
prestados ou propostos por controladores de acesso a utilizadores
profissionais estabelecidos na União ou a utilizadores finais estabe-
lecidos ou situados na União (artigo 1.º, n.º 2).
A Proposta só incide, portanto, sobre prestadores de serviços
essenciais de plataforma que sejam controladores de acesso, i.e.,
que (a) tenham um impacto significativo no mercado interno, (b)
operem uma ou várias portas de acesso importantes para os utili-
zadores profissionais chegarem aos finais e (c) gozem ou forem sus-
cetíveis de gozar de uma posição enraizada e duradoura nas suas
operações (artigo 3.º, n.º 1, alíneas a), b) e c) do DMA). As referidas
características serão aferidas com base em limiares quantitativos,
que servem de base a presunções ilidíveis (artigo 3.º, n.º 2 do DMA).
Quanto ao impacto significativo no mercado interno [alínea a)],
Veja-se o critério utilizado consiste em saber se o prestador dos
serviços teve um volume de negócios anual no Espaço Económico
Europeu igual ou superior a 6 mil e 500 milhões de euros nos últi-
mos três exercícios financeiros, uma capitalização bolsista média
ou valor justo de mercado equivalente à empresa à qual o prestado
pertence de, pelo menos, 65 mil milhões de euros no último exercício
financeiro, desde que a prestação do serviço ocorra em pelo menos
três Estados-Membros.
Quanto a servir de porta de acesso importante [alínea b)], o Regu-
lamento Proposto determina como critério relevante a prestação
de um serviço essencial de plataforma com mais de 45 milhões de

1 RDTec (2021) 105-139


116 | Beatriz de Macedo Vitorino, João Pinto Ramos

utilizadores finais ativos mensalmente, estabelecidos ou situados


na União, e mais de 10 000 utilizadores profissionais ativos anual-
mente, estabelecidos na União, no precedente exercício financeiro.
Quanto a ocupar uma posição enraizada e duradoura [alínea c)]:
o critério relevante é o atingimento dos limiares indicados supra
nos três últimos exercícios financeiros.
Por sua vez, o artigo 3.º, n.º 3, impõe aos prestadores que atinjam
todos os limiares quantitativos a obrigação de informar a Comissão
desse facto, não ficando, todavia, a designação desse prestador como
controlador de acesso dependente da cedência desta informação.
O n.º 4 do mesmo preceito determina que, até 60 dias após a receção
das informações, a Comissão designará o prestador como controlador
de acesso, salvo se o prestador, na notificação, houver aduzido argu-
mentos suficientemente fundamentados para demonstrar o contrá-
rio, invocando concretas circunstâncias. Alguns Autores consideram
que este prazo deveria ser diminuído, por motivos de eficiência16.
Não obstante, os limiares quantitativos são complementa-
dos por critérios qualitativos, que permitem à Comissão designar
como controladores de acesso os prestadores de serviços essenciais
de plataforma que apresentam os mesmos riscos ou riscos seme-
lhantes quanto à equidade e à disputabilidade do mercado, bem
como excluir do escopo das obrigações os prestadores de serviços
essenciais de plataforma que não tenham importância significativa.
Neste sentido, dispõe o artigo 3.º, n.º 6 do DMA que, mesmo que o
prestador não atinja todos os limiares quantitativos ou aduza argu-
mentos suficientemente fundamentados, a Comissão poderá ainda
identificá-lo como controlador de acesso, por via de uma investi-
gação de mercado, quando aquele tenha impacto significativo no
mercado interno, sirva de porta de acesso e goze ou seja previsível
que venha a gozar de uma posição duradoura, tendo em conta: (a)
a dimensão, incluindo o volume de negócios e a capitalização bol-
sista, as operações e posição de mercado do prestador; (b) o número

16
Rupprecht Podszum/Philipp Bongartz/Sarah Langenstein, Proposals on how to improve
the Digital Markets Act (25-mar.-2021), 9. Acessível em SSNR: [Link]
com/sol3/[Link]?abstract_id=3788571 (consultado a 13 de abril de 2021).

1 RDTec (2021) 105-139


Introdução à proposta do Regulamento dos Mercados Digitais   | 117

de utilizadores profissionais que dependem do serviço essencial de


plataforma para chegarem aos utilizadores finais e o número de uti-
lizadores finais; (c) os obstáculos à entrada decorrentes de efeitos de
rede e de vantagens resultantes da utilização de dados; (d) os efeitos
de escala e de âmbito de que o prestador beneficia; (e) a vinculação
tecnológica dos utilizadores profissionais ou finais; (f) outras carac-
terísticas estruturais do mercado. A Comissão deverá ainda ter em
conta a evolução previsível de todos estes elementos, bem como o
cumprimento, por parte do prestador, das medidas de investigação
impostas pela Comissão.
O Regulamento Proposto estabelece ainda condições mediante
as quais a Comissão poderá, a pedido ou por iniciativa própria,
reconsiderar a designação de um controlador de acesso (artigo 4.º,
n.º 1 do DMA), nomeadamente quando: (i) ocorra uma alteração
substancial da situação de facto em que a decisão se fundou; ou (ii)
a decisão se haja baseado em informações incompletas, inexatas ou
deturpadas. Além disso, nos termos do artigo 4.º, n.º 2 do DMA, a
Comissão procede periodicamente, pelo menos de dois em dois anos,
a uma revisão da decisão, prazo que alguns Autores têm conside-
rado demasiado curto17.

6. Obrigações decorrentes do DMA

As obrigações previstas pela Proposta limitam-se às práticas (i)


que são particularmente desleais ou prejudiciais, (ii) que podem ser
identificadas de modo claro e inequívoco, e (iii) em relação às quais
haja “suficiente experiência”, conforme decorre da Exposição de
Motivos. As obrigações propostas visam promover a transparência
face aos utilizadores profissionais e aos utilizadores finais, remo-
ver conflitos de interesses e comportamentos arbitrários por parte
dos controladores de acesso, bem como limitar a extração de dados
e promover o acesso e a mobilidade dos mesmos. Além do mais, a
Proposta visa acelerar a implementação de soluções para compor-

17 Podszum/Bongartz/Langenstein, Proposals cit., 8.

1 RDTec (2021) 105-139


118 | Beatriz de Macedo Vitorino, João Pinto Ramos

tamentos anticoncorrenciais por parte destes gatekeepers ou “con-


troladores de acesso”, mediante a imposição de obrigações ex ante.
Em particular, o DMA procura combater certas práticas desleais
e anticoncorrenciais, tais como o bundling (comercialização de pro-
dutos em pacotes), o tying (venda ou comercialização subordinada)
e, sobretudo, a prática denominada por self-preferencing. As duas
primeiras práticas tendem a reconduzir-se, nos casos mais graves,
a situações de abuso de posição dominante por exclusão ou por cone-
xão de mercados18, nos termos do artigo 102.º, alínea d) do TFUE19,
na medida em que estas condutas abrangem mercados conexos
entre si e visam impedir os concorrentes de um determinado opera-
dor económico de entrarem no mercado, criando barreiras.
O exercício de self-preferencing20, por sua vez, consiste no con-
junto de práticas comerciais que visam favorecer o posicionamento
de uma empresa ou grupo empresarial, ou as condições de comer-
cialização dos respetivos produtos e/ou serviços, em detrimento
dos produtos ou serviços concorrentes. Esta prática suscita diver-
sas dúvidas ao nível do direito da concorrência, porquanto não se
afigura sequer inequívoco que a mesma se possa reconduzir, em
abstrato, à noção de abuso de posição dominante (artigo 102.º do
TFUE)21, sendo necessário proceder a um teste quanto aos efeitos
dessa prática nas trocas comerciais e nos consumidores.

18
Miguel Moura e Silva, Direito da Concorrência, 2ª ed., AAFDL Editora: Lisboa (2020),
574 ss.
19 Cf., artigo 102.º, alínea d) do TFUE: “Subordinar a celebração de contratos à aceitação,

por parte dos outros contraentes, de prestações suplementares que, pela sua natureza ou
de acordo com os usos comerciais, não têm ligação com o objecto desses contratos”.
20 Apesar de a expressão self-preferencing ser a mais comum para designar este tipo de prá-

ticas comerciais, alguma doutrina tem recorrido igualmente a outras expressões, tais como
self-favouring ou exclusionary discrimination. Neste sentido, e a título meramente exem-
plificativo, cf. Nicolò Zingales, Google Shopping: Beware of ‘Self- Favouring’ in a World of
Algorithmic Nudging (6-dez.-2020). Acessível em SSRN: [Link]
[Link]?abstract_id=3707797 (consultado a 13 de abril de 2021), passim; Pablo Ibáñez
Colomo, Exclusionary Discrimination under Article 102 TFEU, 51 Common Market Law
Review (2014), 141-163, passim.
21 Lorenzo Gugliotta, The legality of self-preferencing under Article 102 TFEU: An answer

from Google Search, Master’s thesis in European Competition Law, Tilburg University

1 RDTec (2021) 105-139


Introdução à proposta do Regulamento dos Mercados Digitais   | 119

Ao nível europeu, podemos assinalar dois processos que consubs-


tanciaram marcos relevantes na avaliação das práticas de self-pre-
ferencing, à luz do direito da concorrência: os casos Google Search
(Shopping)22 e Google Android 23. Em ambos os casos, a Comissão
considerou que as práticas comerciais adotadas pela Google e pela
sua empresa-mãe (Alphabet Inc.) consubstanciavam abuso de posi-
ção dominante e que as mesmas tiveram um efeito considerável sob
as trocas comerciais, não tendo sido provado pela Google a indis-
pensabilidade do seu comportamento para a obtenção de ganhos de
eficiência. Por conseguinte, a Comissão Europeia impôs a adoção de
medidas corretivas, além de terem sido aplicadas coimas à Google,
nos montantes de € 2,4 milhões e de € 4,3 milhões, respetivamente.
Assim, as práticas de self-preferencing têm vindo a ser uma preo-
cupação da Comissão Europeia, sobretudo no contexto das platafor-
mas digitais, porquanto estas são raramente intermediários puros,
podendo haver um interesse da plataforma em favorecer os seus

(2019), 4-5. Acessível em ARNO: [Link] (consultado


a 13 de abril de 2021).
22 Caso n.º AT.39740. A decisão da Comissão, de 27 de junho de 2017, estabelece que o facto

de a Google favorecer, nas suas páginas de resultados de pesquisa geral, o posicionamento


e a visualização do seu próprio serviço de comparação de preços em detrimento dos serviços
concorrentes de comparação de preços consubstancia abuso de posição dominante porque: (i)
desvia o tráfego dos serviços concorrentes para o serviço de comparação de preços da própria
Google, no sentido em que diminui o tráfego das páginas de resultados de pesquisa geral
da Google para os serviços concorrentes de comparação de preços e aumenta o tráfego das
páginas de resultados de pesquisa geral da Google para o seu próprio serviço de compara-
ção de preços; e (ii) é suscetível de ter, ou tem provavelmente, efeitos anticoncorrenciais nos
mercados nacionais dos serviços de comparação de preços e dos serviços de pesquisa geral.
23 Caso n.º AT.40099. A decisão da Comissão, de 18 de julho de 2018, determinou que o

comportamento da Google, no que respeita a determinadas condições previstas em acordos


relacionados com a utilização do sistema operativo Android para dispositivos móveis inte-
ligentes, e de certas aplicações móveis e serviços, constituiu abuso de posição dominante,
porquanto se verificaram as seguintes práticas anticoncorrenciais: (i) subordinação da apli-
cação Google Search à Play Store; (ii) subordinação do Google Chrome à Play Store e à apli-
cação Google Search; (iii) concessão de licenças de acesso à Play Store e à aplicação Google
Search condicionada às obrigações de antifragmentação nos acordos de antifragmentação;
e (iv) pagamentos sob a forma de percentagem de receitas baseados na carteira subordi-
nados à condição de não pré-instalação de nenhum serviço geral de pesquisa concorrente.

1 RDTec (2021) 105-139


120 | Beatriz de Macedo Vitorino, João Pinto Ramos

próprios produtos e serviços, ou os dos seus “afiliados”, distorcendo


a concorrência de uma forma que possivelmente reduza o bem-es-
tar dos consumidores. Mais ainda, as práticas de self-preferencing
nas plataformas digitais tendem a ocorrer frequentemente sob a
forma de discriminação ou de “enviesamento” algorítmico (algorith-
mic bias), o que torna a monitorização destas práticas consideravel-
mente mais difícil24.
Atendendo ao exposto supra, o DMA procurou, nos artigos 5.º
e 6.º, vedar certas práticas comerciais dos controladores de acesso
(gatekeepers) que limitam a disputabilidade ou que são desleais,
estabelecendo, para o efeito, diversas obrigações. As obrigações pre-
vistas no artigo 5.º aplicam-se automaticamente, não carecendo as
mesmas de especificação adicional ou de qualificação prévia, ao con-
trário das obrigações elencadas no artigo 6.º, que são suscetíveis de
ser melhor especificadas.
Assim, nos termos do artigo 5.º, os controladores de acesso
devem:

(a) abster-se de combinar dados pessoais obtidos a partir dos


serviços essenciais de plataforma com dados pessoais pro-
venientes de qualquer outro serviço, bem como de inscrever
utilizadores finais noutros serviços com o intuito de combi-
nar dados pessoais, salvo se tiver sido apresentada uma pos-
sibilidade de escolha específica ao utilizador final e este tiver
consentido25/26;

24
Luís Cabral et al., The EU Digital Markets Act: A Report from a Panel of Economic
Experts, Luxembourg: Publications Office of the European Union (2021), 13. O estudo, elabo-
rado por diversos peritos económicos, apresenta o exemplo de um algoritmo da Amazon que
coloca um produto da própria Amazon como prioritário na lista de produtos recomendados
face aos produtos concorrentes de terceiros. A dificuldade acrescida de monitorização advém
do facto de isto poder ser o resultado de self-preferencing, ou simplesmente porque o produto
da Amazon é mais adequado às necessidades e interesses daquele consumidor específico.
25 O EDPS recomenda que se clarifique que também outras plataformas on-line que não os

controladores de acesso poderão carecer de obter consentimento individual antes de combi-


nar os seus dados. O EDPS recomenda ainda que se especifique que o controlador de acesso
deve apresentar aos utilizadores finais soluções fáceis e céleres para gerir o seu consenti-
mento, em conformidade com o artigo 25.º do RGPD, relativo à proteção de dados desde a

1 RDTec (2021) 105-139


Introdução à proposta do Regulamento dos Mercados Digitais   | 121

26 permitir que os utilizadores profissionais proponham os


(b) 
mesmos produtos ou serviços aos utilizadores finais por via
de serviços de intermediação em linha de terceiros a preços
ou em condições diferentes dos propostos por via dos seus
serviços de intermediação27/28;

conceção e por defeito, também designada proteção de dados by design e by default . Neste
sentido, cf. Opinião 2/2021, de 10 de fevereiro de 2021. Acessível em EDPS: [Link]
[Link]/system/files/2021-02/21-02-10-opinion_on_digital_markets_act_en.pdf
(consultado a 13 de abril de 2021).
26 Essencialmente, este problema de agregação de dados pessoais sem o consentimento

do utilizador final ocorreu no caso de uma autoridade alemã (Bundeskartellamt) contra


o Facebook, em que esta plataforma foi acusada da prática de abuso de posição domi-
nante por agregar os dados pessoais dos utilizadores do Facebook, do Instagram e do
WhatsApp. A autoridade alemã proibiu que os termos e condições do Facebook impusessem
aos seus utilizadores a referida agregação de dados pessoais para aceder aos serviços da
rede social, sob pena de o consentimento não ser verdadeiramente livre. O sumário da deci-
são encontra-se acessível em: [Link]
EN/Fallberichte/Missbrauchsaufsicht/2019/[Link]?__blob=publicationFile&v=4
(consultado a 13 de abril de 2021).
27 Alguns Autores identificam que a obrigação aí prevista consubstancia uma proibição

automática das denominadas “cláusulas de nação mais favorecida” (most favoured nation
clauses), as quais decorrem de instrumentos normativos de comércio internacional, nomea-
damente o acordo que instituiu a Organização Mundial do Comércio e o Acordo Geral de
Tarifas e Comércio. Nos termos das referidas cláusulas, quando determinados produtos
são considerados “produtos similares”, qualquer tratamento mais favorável que tenha sido
concedido a um terceiro, terá igualmente de ser concedido à contraparte de um acordo-
-base. Neste sentido, cf. Pablo Ibáñez Colomo, The Draft Digital Markets Act: A Legal and
Institutional Analysis (12-mar.-2021), 9-10. Acessível em SSNR: [Link]
abstract=3790276 (consultado a 13 de abril de 2021). Não obstante, existem vários Auto-
res que criticam esta proibição, defendendo que as “cláusulas de nação mais favorecida”
não têm, necessariamente, um efeito anticoncorrencial, e que deveriam ser objeto de uma
análise casuística, e.g., Avantika Chowdhury, Most favoured nation clauses: in need of an
effects-based approach, 1 Concurrences (2021), 21-25.
28 Um marco relevante nesta matéria foi a decisão da Comissão Europeia, de 4 de maio de

2017, relativa ao Caso n.º AT.40153 – Livros eletrónicos: cláusulas NMF e questões cone-
xas. Na referida decisão, a Comissão tornou juridicamente vinculativos os compromissos
propostos pela [Link], Inc., e as suas entidades controladas direta e indiretamente,
de proibição de certas cláusulas de paridade e disposições semelhantes introduzidas nos
acordos da Amazon com fornecedores de livros eletrónicos. A título preliminar, a Comissão
considerou que a Amazon abusou da sua posição dominante nos mercados da distribuição a

1 RDTec (2021) 105-139


122 | Beatriz de Macedo Vitorino, João Pinto Ramos

permitir que os utilizadores profissionais promovam ofertas


(c) 
a utilizadores finais angariados por via do serviço essencial
de plataforma e celebrem contratos com esses utilizadores
finais, independentemente de utilizarem ou não os serviços
essenciais de plataforma do controlador de acesso para esse
efeito, bem como permitir que os utilizadores finais acedam
e utilizem, por intermédio dos serviços essenciais de pla-
taforma do controlador de acesso, conteúdos, subscrições,
funcionalidades ou outros itens por meio da aplicação infor-
mática de um utilizador profissional, se esses itens tiverem
sido adquiridos pelos utilizadores finais junto do utilizador
profissional em causa sem recurso aos serviços essenciais de
plataforma do controlador de acesso;
(d) abster-se de impedir ou restringir a possibilidade de os uti-
lizadores profissionais recorrerem a autoridades públicas
competentes relativamente a qualquer prática dos controla-
dores de acesso;
abster-se de exigir aos utilizadores profissionais que utili-
(e) 
zem, proponham ou interoperem com um serviço de iden-
tificação do controlador de acesso no contexto dos serviços
propostos pelos utilizadores profissionais que utilizem os
serviços essenciais de plataforma do controlador de acesso29;

retalho de livros eletrónicos em língua inglesa e em língua alemã aos consumidores do EEE,
exigindo que os fornecedores de livros eletrónicos: (i) notificassem a Amazon das condições
mais favoráveis ou alternativas oferecidas noutros locais; e/ou (ii) que oferecessem à Ama-
zon as condições que, direta ou indiretamente, dependem das condições oferecidas a outros
retalhistas de livros eletrónicos (em conjunto «cláusulas de paridade»). As preocupações
preliminares da Comissão referiam-se à utilização pela Amazon de cláusulas de paridade
não relacionadas com os preços, exigindo que os fornecedores de livros eletrónicos ofereces-
sem à Amazon os mesmos modelos de negócios («paridade de modelos de negócios»), livros
eletrónicos num determinado território e/ou datas de publicação («paridade de seleção»),
características, funcionalidades, regras de utilização, elementos ou conteúdo («paridade de
características»), bem como cláusulas de paridade relacionadas com os preços de retalho em
acordos de agência («paridade de preços de agência»), e promoções («paridade de promoção»).
29 O EDPS recomenda que se estenda esta obrigação, com vista a não abranger apenas os uti-

lizadores profissionais, mas quaisquer utilizadores finais. Cf., Opinião 2/2021 (10.02.2021).

1 RDTec (2021) 105-139


Introdução à proposta do Regulamento dos Mercados Digitais   | 123

abster-se de exigir aos utilizadores profissionais ou finais


(f) 
que subscrevam ou se registem em quaisquer outros serviços
essenciais de plataforma como condição de acesso, inscrição
ou registo (tying); e
fornecer aos agentes publicitários e editores comerciais aos
(g) 
quais prestam serviços de publicidade, a pedido destes,
informações relativas ao preço pago pelo agente publicitário
e editor comercial, bem como sobre a quantia ou a remunera-
ção paga ao editor comercial, pela publicação de certo anún-
cio e por cada um dos serviços de publicidade pertinentes
prestados pelo controlador de acesso.

O artigo 6.º do DMA, por sua vez, impõe aos controladores de


acesso que:

(a) se abstenham de utilizar, em concorrência com utilizadores


profissionais, dados não disponíveis publicamente que sejam
gerados pelo uso feito por aqueles utilizadores profissionais
dos serviços essenciais de plataforma;
permitam que os utilizadores finais desinstalem quaisquer
(b) 
aplicações informáticas pré-instaladas nos seus serviços
essenciais de plataforma;
permitam a instalação e a utilização efetiva de aplicações
(c) 
informáticas de terceiros ou de lojas de aplicações informáti-
cas que utilizam ou interoperam com sistemas operativos do
controlador de acesso, bem como permitam o acesso a essas
aplicações informáticas ou lojas de aplicações informáticas
por outros meios além dos serviços essenciais de plataforma
desse controlador;
(d) se abstenham de classificar de forma mais favorável os ser-
viços e produtos propostos pelos próprios ou por qualquer
terceiro pertencente à mesma empresa, comparativamente
aos de terceiros;

Acessível em EDPS: [Link]


on_digital_markets_act_en.pdf (consultado a 13 de abril de 2021).

1 RDTec (2021) 105-139


124 | Beatriz de Macedo Vitorino, João Pinto Ramos

se abstenham de restringir tecnicamente a capacidade dos


(e) 
utilizadores finais para mudarem e subscreverem diferentes
aplicações informáticas e serviços a aceder por meio do sis-
tema operativo do controlador de acesso;
permitam aos utilizadores profissionais e aos prestadores
(f) 
de serviços complementares o acesso e a interoperabilidade
com o mesmo sistema operativo, equipamento informático
ou funcionalidades de software disponíveis ou utilizados na
prestação de qualquer serviço complementar por parte do
controlador de acesso;
forneçam aos agentes publicitários e editores comerciais,
(g) 
a pedido destes e a título gratuito, acesso às ferramentas
de mediação de desempenho do controlador de acesso e às
informações necessárias para que os agentes publicitários e
editores comerciais efetuem a sua própria verificação inde-
pendente do inventário de anúncios;
(h) proporcionem uma portabilidade efetiva dos dados gerados
no decurso das atividades de um utilizador e forneçam fer-
ramentas aos utilizadores finais que permitam exercer o
direito de portabilidade dos dados30;
proporcionem aos utilizadores profissionais ou a terceiros
(i) 
autorizados por um utilizador profissional, gratuitamente, o
acesso e a utilização de dados agregados ou não agregados,
fornecidos ou gerados no contexto da utilização dos serviços
essenciais de plataforma em causa por esses utilizadores
profissionais e por utilizadores finais31;

30
O EDPS recomenda que se clarifique a letra desta alínea no sentido de esclarecer quem
fica legitimado para levar a cabo a portabilidade de dados pessoais e quais dados, se pes-
soais se não-pessoais, poderiam constituir o objeto da portabilidade. O EDPS recomenda que
se especifique que, quanto à portabilidade de dados de utilizadores finais, um controlador
de acesso deverá fornecer ao utilizador final as ferramentas para facilitar a portabilidade
efetiva dos seus dados pessoais, incluindo os dados pessoais gerados através da sua ativi-
dade como utilizador final, em concordância com o art. 20.º do RGPD. Cf., Opinião 2/2021
(10.02.2021). Acessível em EDPS: [Link]
10-opinion_on_digital_markets_act_en.pdf (consultado a 13 de abril de 2021).
31 O EDPS critica a letra desta alínea, considerando-a confusa, na medida em que pode

conduzir a inconsistências face ao RGPD, uma vez que pode conduzir ao entendimento de

1 RDTec (2021) 105-139


Introdução à proposta do Regulamento dos Mercados Digitais   | 125

permitam a todos os terceiros fornecedores de motores de


(j) 
pesquisa em linha, a pedido destes, um acesso não discri-
minatório a dados sobre classificações, pesquisas, cliques e
visualizações relativamente a pesquisas gratuitas e pagas,
gerados por utilizadores finais nos motores de pesquisa em
linha do controlador de acesso, sob reserva de anonimização
dos dados pessoais32; e
apliquem aos utilizadores profissionais condições gerais de
(k) 
acesso equitativas e não discriminatórias à respetiva loja de
aplicações informáticas (proibição de unfair de-platforming).

Alguns Autores já têm, contudo, apontado como crítica ao regu-


lamento a aparente aleatoriedade axiológica das obrigações acima
elencadas, aparentemente resultantes da indução baseada em con-
cretos casos passados ou futuros que preocupam a Comissão33/34.

que dados agregados ou não-agregados não incluem dados pessoais, o que não corresponde
à verdade. Cf., Opinião 2/2021 (10.02.2021), acessível em EDPS: [Link]
eu/system/files/2021-02/21-02-10-opinion_on_digital_markets_act_en.pdf (consultado a
13 de abril de 2021).
32 O EDPS propõe que se clarifique, num considerando, que o controlador de acesso deve

ser capaz de demonstrar que a anonimização dos dados sobre pesquisa, cliques e visualiza-
ções foi testada adequadamente contra possíveis riscos de identificação. Cf., Opinião 2/2021
(10.02.2021). Acessível em EDPS: [Link]
10-opinion_on_digital_markets_act_en.pdf (consultado a 13 de abril de 2021).
33 Podszum/Bongartz/Langenstein, Proposals cit., 4: “Art. 5 and 6 are like a case-induced

mingle-mangle without any structure or guiding principles”.


34 Também neste sentido, Nicolas Petit, The Proposed Digital Markets Act (DMA): A Legal

and Policy Review (11.05.2021). Acessível em SSRN: [Link]


(consultado a 13 de maio de 2021).
Escreve o Autor, na p. 12: "The DMA obligations follow each other in random order. In a
sense, the DMA is a pragmatic instrument. The obligations more or less correspond to the
issues that were at the core of past or ongoing competition cases at European and national
levels. That said, the main difficulty with a discussion of the obligations of article 5 and 6
(and 12 and 13) lies in the absence of an explicit
framework that would allow one to organize them rationally. The difficulty is not just
analytical.
Article 7 requires running the measures that further specify the obligations of Article 6
through an effectiveness and proportionality assessment. Moreover, Articles 7(1) and (7)

1 RDTec (2021) 105-139


126 | Beatriz de Macedo Vitorino, João Pinto Ramos

Aponta-se, por este motivo, a ausência de princípios que pudessem


servir de guia para moldar os mercados digitais e, em particular, as
obrigações dos controladores de acesso. Neste sentido, três Autores
propõem três princípios idóneos para esta tarefa, sendo eles o prin-
cípio da contestabilidade dos mercados, o princípio da justiça na
intermediação e o princípio da independência de decisão35.
O princípio da contestabilidade dos mercados seria já prote-
gido pelas obrigações constantes das alíneas b), c), e) e f) do artigo
5.º e alíneas e) e f) do artigo 6.º, podendo ainda acrescentar-se a
obrigação do controlador de acesso de não promover ou permitir
restrições à competição na plataforma. O princípio da justiça na
intermediação significaria que o controlador de acesso, apesar de
atuar como um agente para várias entidades em simultâneo (o que
pode provocar conflitos de interesses), não poderia: (i) abusar das
assimetrias de poder e de informação daí derivadas, não devendo
impor condições injustas aos seus utilizadores (“fair bargain”); (ii)
dar tratamento preferencial aos seus próprios serviços, nomeada-
mente devendo para tal efeito separar o serviço de intermediação
das suas demais áreas negociais (“neutral intermediation”); (iii)
explorar serviços e dados daqueles para quem servem de interme-
diários com vista a fornecer os seus próprios serviços noutros mer-
cados ou em competição com os utilizadores (“no sherlocking”); e
(iv) impedir o controlo do serviço de intermediação, devendo man-
tê-lo transparente (“transparency”). Este princípio estará presente
nas obrigações constantes da alínea g) do artigo 5.º e das alíneas

states that each obligation has a unique objective, when they talk about 'the objective of
the relevant obligation'.
How is an effectiveness and proportionality test do be done if the DMA does not identify
and specify objectives, beyond a broad and inseparable reference to the dual objectives of
'fairness and contestability'? More specified proxies, pragmatic tests and intermediate
objectives are necessary to allow the Commission, the EU Courts, gatekeepers and third
parties to benchmark the effectiveness and proportionality of article 7 remedies, and more
generally to evaluate the success of the policy underpinning the DMA.”
35 Podszum/Bongartz/Langenstein, Proposals cit., 4-7.

1 RDTec (2021) 105-139


Introdução à proposta do Regulamento dos Mercados Digitais   | 127

a), d), g), i), j) e k) do artigo 6.º, mas poderia ainda acrescentar-se
obrigações como a proibição dos controladores de acesso de tornar
o uso dos seus serviços dependente de uma distribuição desequili-
brada de direitos, obrigações e oportunidades de lucro. Por fim, o
princípio da independência de decisão impediria os controladores
de diminuírem a possibilidade de os agentes económicos tomarem
decisões de modo independente, devendo os consumidores ser os
“árbitros” do mercado, para o que é necessário (i) que os utilizado-
res tenham influência substancial no uso dos seus dados, (ii) que
os utilizadores tenham uma real possibilidade de escolha quanto
aos produtos e serviços que usam, (iii) que haja comunicação livre
entre utilizadores, (iv) que os negócios e utilizadores privados
tenham a possibilidade de se defender contra práticas dos con-
troladores com o apoio de autoridades e tribunais sem qualquer
sanção pelo controlador. Na Proposta, decorrem deste princípio as
obrigações constantes das alíneas a) e d) do artigo 5.º e das alíneas
b), c), h) e i) do artigo 6.º, mas poderiam ainda impor-se obrigações
como as de garantir que o controlador de acesso proporciona real
escolha aos utilizadores, com base em adequada informação e neu-
tralidade por parte do intermediário, ou ainda a obrigação de não
restringir a comunicação livre entre negociantes e consumidores
por via da plataforma, ou ainda a obrigação de os controladores
não assumirem funções de instituições soberanas.
Além do mais, o artigo 7.º do DMA prevê a possibilidade de uma
aplicação adaptada de algumas das obrigações por meio de um diá-
logo entre a Comissão e os controladores de acesso, mediante um
diálogo quanto às medidas que o controlador de acesso toma ou ten-
ciona tomar a fim de cumprir as referidas obrigações. À partida,
o controlador de acesso pode decidir quais as melhores medidas a
tomar para cumprir as obrigações estabelecidas no artigo 6.º, mas
a Comissão pode igualmente defini-las no prazo de seis meses a
contar da data de abertura do procedimento quando entenda que
as medidas comunicadas pelo controlador são insuficientes para
garantir o cumprimento. Alguma doutrina propõe a revisão deste
preceito, com vista a garantir que ele se estende em parte às obriga-
ções do artigo 5.º, pois, apesar de estas terem aparentemente efeito
direto sem necessidade de concretização (“self-executing”), ainda

1 RDTec (2021) 105-139


128 | Beatriz de Macedo Vitorino, João Pinto Ramos

assim poderá haver questões em aberto quanto ao modo de executar


tais obrigações36.
O Regulamento Proposto estabelece condições que permitem a
suspensão de certas obrigações, em circunstâncias excecionais e não
imputáveis ao controlador, com base em pedido fundamentado que
demonstre que o cumprimento de certa obrigação ou obrigações é
suscetível de pôr em risco a viabilidade económica das suas opera-
ções na União, e apenas na medida necessária para eliminar essa
ameaça para a sua viabilidade; a decisão de suspensão será revista
anualmente (artigo 8.º do DMA).
Admite-se também a isenção de obrigações determinadas a um
certo serviço essencial de plataforma, a pedido ou por iniciativa da
Comissão, por motivos de interesse público, baseada na moralidade
pública, na saúde pública ou na segurança pública (artigo 9.º). De
igual modo, é estabelecido um mecanismo para atualizar a lista de
obrigações por via de atos delegados (artigo 10.º), e clarifica-se que
as obrigações estabelecidas no regulamento são aplicáveis indepen-
dentemente de a prática em causa do controlador de acesso revestir
natureza contratual, comercial, técnica ou outra, combatendo assim
a evasão (artigo 11.º).
Por fim, os controladores de acesso estão obrigados a notificar
a Comissão de qualquer concentração projetada (artigo 12.º) e de
sujeitar quaisquer técnicas de definição de perfis (“profiling”)37 dos
consumidores que apliquem no âmbito dos seus serviços a uma
auditoria independente (artigo 13.º). O EDPS recomenda que a Pro-
posta especifique que os resultados da auditoria serão partilhados
com qualquer autoridade supervisora competente representada no
Comité Europeu para a Proteção de Dados, a seu pedido38.

36 Podszum/Bongartz/Langenstein, Proposals cit., 10.


37
O EDPS recomenda que se clarifique que a noção de “definição de perfis” (profiling) deverá
ter no art. 13.º do DMA o mesmo sentido que o constante do art. 4.º, n.º 4, do RGPD. Cf.,
Opinião 2/2021 (10.02.2021). Acessível em EDPS: [Link]
2021-02/21-02-10-opinion_on_digital_markets_act_en.pdf (consultado a 13 de abril de 2021).
38
Cf., Opinião 2/2021, (10.02.2021). Acessível em EDPS: [Link]
tem/files/2021-02/21-02-10-opinion_on_digital_markets_act_en.pdf (consultado a 13 de
abril de 2021).

1 RDTec (2021) 105-139


Introdução à proposta do Regulamento dos Mercados Digitais   | 129

7. Investigações de Mercado

Feito um breve enquadramento do modelo de regulação ex ante


previsto no DMA, verificamos ainda uma preocupação ao nível da
regulação ex post, tendo particular relevância o Capítulo IV, no qual
são elencados os requisitos processuais para a abertura de uma
investigação de mercado (artigo 14.º), bem como as regras relativas
à realização de diversos tipos de investigações de mercado.
Ora, decorre do artigo 14.º que, antes de ser efetuada uma inves-
tigação de mercado, a Comissão deverá adotar uma decisão de aber-
tura de investigação de mercado, na qual se encontrarão especifica-
dos: (i) data de abertura; (ii) descrição do objeto da investigação; e
(iii) finalidade da investigação.
Quanto à finalidade da investigação, a mesma poderá consubs-
tanciar: (i) designação ou identificação de controladores de acesso e
de serviços essenciais da plataforma (artigo 15.º); (ii) averiguação de
incumprimentos sistemáticos das obrigações previstas nos artigos 5.º
e 6.º (artigo 16.º); e (iii) identificação de novos serviços essenciais ou
práticas desleais e/ou que limitam a disputabilidade (artigo 17.º).
Na sequência de uma investigação de mercado para fins de
designação de controladores de acesso, poderá suceder, conforme
salienta o artigo 15.º, n.º 4, do DMA, que a Comissão identifique
controladores de acesso suscetíveis de gozar de uma posição enrai-
zada e duradoura num futuro próximo, sendo que, nesses casos,
apenas deverão ser impostas as obrigações necessárias e adequadas
para impedir que esses controladores de acesso alcancem esse sta-
tus. Não obstante, e conforme esclarece o Considerando 63, deverá
“ser decidido num determinado momento se tal prestador de servi-
ços essenciais de plataforma deve estar sujeito a todas as obriga-
ções que incumbem aos controladores de acesso porquanto adquiriu
uma posição enraizada e duradoura, ou se não estão reunidas as
condições de designação, devendo-se, por conseguinte, prescindir
de todas as obrigações anteriormente impostas”. Ao artigo 15.º, n.º
4, já tem sido apontada a crítica de que favorece a limitação da
competição aos controladores de acesso já existentes (inter-platform
competition), sendo uma barreira injustificada quando a plataforma
em questão ainda não seja um controlador de acesso, uma vez que é

1 RDTec (2021) 105-139


130 | Beatriz de Macedo Vitorino, João Pinto Ramos

sempre (e ainda mais no mundo digital) incerto saber quando é que


uma plataforma se torna “viral”39.
O artigo 16.º trata das investigações de mercado sobre incumpri-
mentos sistemáticos por parte dos controladores de acesso. Ora, nos
termos do art. 16.º, n.º 1, quando a Comissão esteja a levar a cabo
uma investigação de mercado sobre incumprimentos sistemáticos
e esta demonstre que um controlador de acesso desrespeitou siste-
maticamente as obrigações previstas nos arts. 5.º e 6.º e reforçou a
sua posição de controlo, a Comissão pode, após consultar o Comité
Consultivo Mercados Digitais nos termos do n.º 4 do art. 32.º, impor
ao controlador de acesso as medidas corretivas comportamentais ou
estruturais que se figurem proporcionadas para a infração cometida
e necessárias para assegurar o cumprimento do Regulamento Pro-
posto, devendo finalizar a sua investigação adotando uma decisão
no prazo de 12 meses a contar da data de abertura da investigação.
Não obstante, nos termos do n.º 2 do artigo 16.º, existe uma pre-
ferência por medidas corretivas comportamentais, apenas devendo
a Comissão adotar medidas corretivas estruturais quando não
exista nenhuma medida corretiva comportamental com a mesma
eficácia ou, mesmo existindo, quando esta seja mais onerosa para o
controlador de acesso do que a medida corretiva estrutural. Veja-se
que, nos termos do Considerando 64, as medidas corretivas estru-
turais podem passar pela separação jurídica, funcional ou estru-
tural, nomeadamente a alienação de uma empresa ou de partes da
mesma. Justificar-se-ia uma medida deste tipo quando tivesse sido
uma aquisição ou uma fusão a contribuir para o incumprimento sis-
temático, mas mesmo nesses casos será de preferir a imposição de
medidas comportamentais, quando tal baste para fazer cumprir o
Regulamento Proposto. Segundo alguns Autores, todavia, o dese-
nho de medidas comportamentais é difícil de fazer, pelo que o n.º 2
do artigo 16.º deveria ser revisto no sentido de aumentar a possibi-
lidade de imposição de medidas estruturais40.

39
Cf., Petit, Nicolas, The Proposed cit., pp. 22-23.
40 Podszum/Bongartz/Langenstein, Proposals cit., 10.

1 RDTec (2021) 105-139


Introdução à proposta do Regulamento dos Mercados Digitais   | 131

Alguns Autores41 propõem ainda que, para além das referidas


investigações de mercado iniciadas pela Comissão Europeia, sejam
ainda previstos mecanismos através dos quais terceiros possam
reclamar contra atuações de plataformas digitais, e possivelmente
requerer procedimentos de arbitragem suscetíveis de impor solu-
ções relacionadas com a fixação de preços, devendo assegurar-se,
para o efeito, a existência de árbitros independentes, com conheci-
mentos técnicos suficientes e com acesso aos dados e aos algoritmos
das plataformas.
Por fim, o artigo 17.º prevê as investigações de mercado que
visam identificar novos serviços essenciais ou práticas desleais e/
ou que limitam a disputabilidade. Este tipo de investigações pre-
tende assegurar que as obrigações estabelecidas no Regulamento
Proposto vão sendo atualizadas à medida da rápida evolução da rea-
lidade digital. O DMA estabelece um mecanismo para a Comissão
atualizar a lista de obrigações previstas nos arts. 5.º e 6.º por via
de atos delegados (artigos 10.º e 34.º), sempre que identifique, no
âmbito de uma investigação de mercado, a necessidade de impor
novas obrigações destinadas a evitar práticas análogas às constan-
tes daquelas enumerações, na medida em que igualmente limitem a
disputabilidade dos serviços essenciais de plataforma ou sejam des-
leais. Contudo, uma crítica a apontar a este regime é a morosidade
do procedimento previsto pelo mesmo. Alguns Autores propõem
uma regra que habilite a Comissão a tomar medidas provisórias
baseadas em princípios gerais, durante o curso da investigação de
mercado, quando esteja em causa uma violação séria dos princípios
subjacentes às obrigações decorrentes dos artigos 5.º e 6.º do Regu-
lamento Proposto42.

8. Execução do regulamento e imposição de sanções

No contexto dos poderes de investigação, execução e de acompa-


nhamento, e ao abrigo do regulamento, pode a Comissão solicitar

41
Cabral et al., The EU cit., 14.
42 Podszum/Bongartz/Langenstein, Proposals cit., 7.

1 RDTec (2021) 105-139


132 | Beatriz de Macedo Vitorino, João Pinto Ramos

informações (art. 19.º), realizar entrevistas e recolher depoimentos


(art. 20.º), efetuar inspeções no local (art. 21.º), bem como adotar
medidas provisórias contra um controlador de acesso, perante a
constatação prima facie do incumprimento das obrigações constan-
tes dos artigos 5.º ou 6.º, quando haja risco de um prejuízo grave e
irreparável para os utilizadores profissionais ou finais (art. 22.º). A
Comissão pode ainda tornar vinculativas para os controladores de
acesso medidas previamente voluntárias (art. 23.º) ou acompanhar
o cumprimento do regulamento (art. 24.º).
Ademais, a Comissão pode tomar as seguintes decisões: (i) deci-
são de incumprimento, na qual ordena que o controlador de acesso
cesse o incumprimento num prazo adequado e que apresente escla-
recimentos sobre o modo como tenciona fazê-lo (art. 25.º); (ii) deci-
são de aplicação de coimas ao controlador de acesso, num valor não
superior a 10% do seu volume de negócios total no exercício finan-
ceiro precedente (art. 26.º); e (iii) decisão de aplicação de sanção
pecuniária compulsória até 5% do volume de negócios diário médio
no exercício financeiro precedente, por cada dia de atraso a partir
da data fixada na decisão (art. 27.º). As duas últimas são suscetíveis
de reapreciação pelo TJUE (artigo 35.º).
O poder da Comissão de impor sanções prescreve no prazo de
três anos a contar da infração e o prazo para executar as sanções é
de cinco anos (artigos 28.º e 29.º).
Os prestadores de serviços essenciais de plataforma têm direito
a ser ouvidos e aceder ao processo (art. 30.º), à proteção do sigilo
profissional (art. 31.º) e à consulta do Comité Consultivo Mercados
Digitais (art. 32.º). O EDPS recomenda o elenco expresso das enti-
dades que farão parte deste Comité e aconselha que seja composto
por representantes do Comité Europeu para a Proteção de Dados,
bem como representantes das autoridades da concorrência compe-
tentes dos Estados-Membros43.

43
Opinião 2/2021 (10.02.2021). Acessível em EDPS: [Link]
files/2021-02/21-02-10-opinion_on_digital_markets_act_en.pdf (consultado a 13 de abril
de 2021).

1 RDTec (2021) 105-139


Introdução à proposta do Regulamento dos Mercados Digitais   | 133

Por fim, cumpre atentar no previsto no artigo 1.º, n.º 7, do


DMA, o qual estabelece uma obrigação mútua de cooperação e
coordenação entre os Estados-Membros e a Comissão no que res-
peita às medidas de execução do regulamento, proibindo as auto-
ridades nacionais de tomar decisões contrárias a uma decisão ado-
tada pela Comissão. Na medida em que o regulamento tem efeito
direto, os tribunais nacionais deverão aplicar o DMA. Contudo, é
duvidosa a capacidade de aplicação do art. 6.º do mesmo pelos tri-
bunais nacionais, na medida em que a implementação e execução
das obrigações constantes deste preceito requer a determinação
do seu concreto conteúdo, o qual não resulta da mera leitura do
Regulamento Proposto44. Além do mais, o artigo 1.º, n.º 5, limita
a legiferação dos Estados-Membros, na medida em que impede a
imposição de obrigações adicionais que visem assegurar a dispu-
tabilidade e equidade dos mercados aos controladores de acesso,
nada obstando, porém, a que os Estados-Membros imponham
obrigações que tenham como objetivo proteger outros interesses
públicos legítimos, nomeadamente a proteção dos consumidores e
a luta contra concorrência desleal, “desde que essas obrigações não
estejam relacionadas com o facto de as empresas visadas terem o
estatuto de controlador de acesso”.
O EDPS considera importante que o Regulamento Proposto dis-
ponha de uma clara base legal que permita a troca de informações
relevantes entre as diversas autoridades comunitárias que possam
ter áreas de ligação com as matérias tratadas na Proposta45. Poder-
-se-á ainda questionar a necessidade de uma integração de entida-
des privadas, corpos independentes e Estados-Membros mais forte
na execução do Regulamento Proposto, de modo a evitar atrasos
decorrentes da dependência que as medidas de execução apresen-
tam face à União Europeia.
Assim, embora a Comissão assegure, na Exposição de Moti-
vos, que a Proposta é proporcionada por apenas exigir a criação de

44 Neste sentido, Petit, Nicolas, The proposed cit., pp. 20-21.


45
Opinião 2/2021 (10.02.2021). Acessível em EDPS: [Link]
files/2021-02/21-02-10-opinion_on_digital_markets_act_en.pdf (consultado a 13 de abril
de 2021).

1 RDTec (2021) 105-139


134 | Beatriz de Macedo Vitorino, João Pinto Ramos

alguns postos de trabalho e do Comité Consultivo de Mercados Digi-


tais, alguns Autores afirmam que, além da criação deste Comité,
deveria ser criada uma Unidade de Mercados Digitais composta por
membros das diversas direções-gerais, mas também por peritos de
autoridades nacionais (nomeadamente, das autoridades nacionais
de concorrência) e peritos independentes, dedicada à tomada de
decisões sobre investigações e sanções, de modo a evitar delongas
e influências políticas no processo decisório – deixar-se-ia à Comis-
são a decisão sobre a designação de controladores de acesso, mas
admitir-se-ia que autoridades estatais notificassem a Comissão de
potenciais controladores de acesso e assim fosse acionado o procedi-
mento para a designação (contrariamente ao que decorre do art. 33.º
da Proposta, que apenas admite esta atuação por três autoridades
nacionais)46.
Além disto, defende-se que mesmo as entidades particulares
(que não os controladores de acesso) deverão ter a possibilidade de
recorrer a um painel de controlo de plataformas que seja consti-
tuído por um corpo de especialistas, compreendendo funcionários
da Comissão e autoridades nacionais, no caso de tomarem conhe-
cimento da violação de obrigações por parte de um designado con-
trolador de acesso. Mais ainda, questiona-se se os particulares não
poderão requerer à respetiva autoridade nacional a designação
de entidades como controladores de acesso, devendo a autoridade
nacional responder rapidamente no sentido de rejeitar o requeri-
mento ou no sentido de o encaminhar à Comissão47. Os mesmos
Autores48 afirmam que se deveria esclarecer que as entidades pri-
vadas têm direito a indemnização com base na Diretiva 2014/104/
UE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 26 de novembro de
2014. Concordamos com estas recomendações, independentemente
dos custos acrescidos que as mesmas envolvam.

46 Podszum/Bongartz/Langenstein, Proposals cit., 8.


47
Idem, 9.
48 Idem, ibidem.

1 RDTec (2021) 105-139


Introdução à proposta do Regulamento dos Mercados Digitais   | 135

9. Síntese conclusiva

A proposta do DMA encontra-se atualmente em consulta pública.


Esta parte do pressuposto de que existem problemas de concorrên-
cia, sobretudo de abuso de posição dominante, no contexto das Big
Tech e das plataformas digitais, que não são plenamente resolvi-
dos com recurso aos instrumentos normativos atualmente em vigor,
nomeadamente atendendo ao impacto internacional destas plata-
formas, preocupando-se a Comissão Europeia maioritariamente
com o equilíbrio do mercado interno europeu.
A experiência mais recente de atuação da Comissão Europeia
com vista a prevenir práticas anticoncorrenciais neste contexto tem
revelado que os processos relativos a práticas de self-preferencing
por plataformas digitais não têm um quadro legal e regulamentar
harmonizado ao nível da União Europeia, e que as investigações
tendem a ser demasiado morosas – veja-se, por exemplo, o caso Goo-
gle Search, cujo processo, desde a instauração até à adoção de deci-
são por parte da Comissão, demorou mais de 6 anos.
Pois bem, os mecanismos de regulação ex post, típicos de maté-
ria antitrust, não são suficientes e devem ser complementados com
mecanismos ex ante, sendo essa a solução procurada pelo DMA. O
Regulamento Proposto procura, assim, evitar questões sobre a defi-
nição de mercados, a avaliação da posição dominante ou a averigua-
ção do teste dos efeitos sob as trocas comerciais e os consumidores.
É certo que os casos que surgiram ao abrigo das regras de con-
corrência em relação ao ambiente digital se basearam em factos
complexos e levantaram questões difíceis sobre a aplicação dos prin-
cípios típicos de direito da concorrência. Esta natureza case-based
gera preocupações acerca da eventual lacunosidade do DMA em
relação a práticas equivalentes, que, de todo o modo, são em parte
dissolvidas pela previsão de mecanismos de revisão do DMA (quer
por via da cláusula de reexame, quer pela adoção de atos delegados).
Como apontado por alguma doutrina, porém, o reexame ocorrer de
três em três anos aparenta efetivamente ser demasiado longo para
o mundo digital, ainda que se compreenda a necessidade de alguma
estabilidade regulativa, de modo a evitar dificuldades a nível buro-
crático na execução do Regulamento.

1 RDTec (2021) 105-139


136 | Beatriz de Macedo Vitorino, João Pinto Ramos

De qualquer modo, o recurso à regulamentação adicional ex


ante não é, propriamente, uma novidade. Com efeito, esta aborda-
gem dupla já foi utilizada anteriormente, nomeadamente no setor
das telecomunicações. Todavia, ao contrário do regime das teleco-
municações, onde as autoridades reguladoras nacionais assumem
um papel de particular importância, a ser aceite o DMA conforme
proposto pela Comissão, os poderes de execução do mesmo caberão
exclusivamente à Comissão Europeia. As autoridades nacionais,
por sua vez, participarão no Comité Consultivo dos Mercados Digi-
tais, que assistirá a Comissão nos respetivos trabalhos. Como isto
será transposto para a prática é matéria ainda indefinida.
Uma dúvida suscitada pela presente proposta diz respeito à rela-
ção entre este instrumento, o RGPD e, possivelmente, a Diretiva
e-Privacy. Embora algumas das proibições ex ante pareçam fluir na
mesma direção das regras de proteção de dados (nomeadamente, a
obrigação de se abster de agrupar dados pessoais, bem como a liga-
ção de serviços de identidade), poderá haver alguma tensão ao nível
da portabilidade dos dados pelas empresas e o acesso aos dados dos
utilizadores, que estarão provavelmente – pelo menos, em certa
medida – sujeitos aos controlos do RGPD. Resta saber como funcio-
narão os dois instrumentos normativos europeus em conjunto, e se
as preocupações em matéria de concorrência funcionarão no sentido
de reduzir a proteção de dados.
Uma Autora questiona-se se o movimento global de combate
aos gigantes tecnológicos irá ser bem-sucedido, ao que responde
com hesitação, atendendo à indefinição associada à pendência de
vários processos relevantes nos E.U.A., assim como da legislação
europeia49. Realmente, o DMA e o DSA poderão – e muito prova-
velmente irão – sofrer alterações, restando saber se estas serão de
maior ou de menor substância.
Subsiste igualmente a questão de saber se regulação a nível
comunitário é suficiente para travar o crescimento dos gigantes tec-
nológicos e da sua conformação do mundo digital, ou se em breve
nos depararemos com iniciativas a nível quasi-global, através de

49 Cf., Colino, Towards cit, 3.

1 RDTec (2021) 105-139


Introdução à proposta do Regulamento dos Mercados Digitais   | 137

Convenções internacionais que unifiquem o direito material aplicá-


vel aos serviços essenciais de plataforma e às suas interações com
os utilizadores finais, sejam estes consumidores ou profissionais,
eventualmente com a criação de autoridades supervisoras a nível
descentralizado ou, alternativamente, deixando-se a execução de
tais Convenções a autoridades estaduais com adequada competên-
cia para o efeito.
O caráter global da Internet, bem como das plataformas que
foram sendo mencionadas ao longo deste texto, podem exigi-lo.
A necessidade de regulação global da Internet já foi reconhecida
em algumas instâncias, nomeadamente no contexto dos direitos de
autor, para cuja regulação unificada foram celebrados os dois Tra-
tados sobre a Internet de 1996, sob a égide da Organização Mun-
dial sobre a Propriedade Intelectual (OMPI); da mesma forma, a
Convenção das Nações Unidas sobre a Utilização de Comunicações
Eletrónicas em Contratos Internacionais.
Parece-nos que o combate à monopolização do tecido do mer-
cado digital consubstancia um interesse global, transversal a todos
os Estados e suas populações, para que não se caia numa “ditadu-
ra”50 das grandes plataformas digitais que, mais do que os Esta-
dos, tenham capacidade financeira e tecnológica para moldar – e,
na medida em que o software é seu, regular – os modos possíveis
de mercantilização, consumo e socialização no espaço cibernético, à
escala global.

50Cf., Eve Smith, The Techlash against Amazon, Facebook and Google – and what they
can do (20-jan.-2018). Acessível em The Economist: [Link]
fing/2018/01/20/the-techlash-against-amazon-facebook-and-google-and-what-they-can-do
(consultado a 13 de abril de 2021). Neste artigo de opinião, a Autora cunhou o acrónimo
“BAADD” para designar estas empresas, significando “too big, anti-competitive, addictive
and destructive to democracy”.

1 RDTec (2021) 105-139


138 | Beatriz de Macedo Vitorino, João Pinto Ramos

Bibliografia

Cabral, Luís et al., The EU Digital Markets Act: A Report from a Panel of
Economic Experts, Luxembourg: Publications Office of the European
Union (2021).
Chowdhury, Avantika, Most favoured nation clauses: in need of an effects-
-based approach, 1 Concurrences (2021), 21-25.
Colino, Sandra Marco, Towards a Global Big Tech Clampdown? (28-jan.-
2021). Acessível em SSRN: [Link]
(consultado a 13 de abril de 2021).
Colomo, Pablo Ibáñez, The Draft Digital Markets Act: A Legal and Institu-
tional Analysis (12-mar.-2021). Acessível em SSNR: [Link]
com/abstract=3790276 (consultado a 13 de abril de 2021);
– Exclusionary Discrimination under Article 102 TFEU, 51 Common Mar-
ket Law Review (2014), 141-163.
Gugliotta, Lorenzo, The legality of self-preferencing under Article 102
TFEU: An answer from Google Search, Master’s thesis in European
Competition Law, Tilburg University (2019). Acessível em: [Link]
[Link]/[Link]?fid=147739 (consultado a 13 de abril de 2021).
Petit, Nicolas, The Proposed Digital Markets Act (DMA): A Legal and
Policy Review (11.05.2021). Acessível em SSRN: [Link]
abstract=3843497 (consultado a 13 de maio de 2021).
Podszum, Rupprecht/Bongartz, Philipp/Langenstein, Sarah, Proposals
on how to improve the Digital Markets Act, Heinrich Heine Univer-
sity Düsseldorf (2021). Acessível em SSNR: [Link]
com/sol3/[Link]?abstract_id=3788571 (consultado a 13 de abril de
2021).
Reuters Staff, China steps up Internet sector scrutiny, fines deals involving
Alibaba, Tencent (14-dez.-2020). Acessível em Reuters: [Link]
[Link]/article/us-china-antitrust-idUSKBN28O0CQ (consultado
a 13 de abril de 2021).
Silva, Miguel Moura e, Direito da Concorrência, 2.ª ed., AAFDL Editora:
Lisboa (2020).
Smith, Eve, The Techlash against Amazon, Facebook and Google – and
what they can do (20-jan.-2018). Acessível em The Economist: https://
[Link]/briefing/2018/01/20/the-techlash-against-ama-

1 RDTec (2021) 105-139


Introdução à proposta do Regulamento dos Mercados Digitais   | 139

zon-facebook-and-google-and-what-they-can-do (consultado a 13 de
abril de 2021).
Streel, Alexandre de, Digital Markets Act: Policy Choices and Conditions
for Success (13-jan.-2021). Acessível em Promarket: [Link]
[Link]/2021/01/13/digital-markets-act-explainer-european-regu-
lation-big-tech/ (consultado a 13 de abril de 2021).
Zingales, Nicolò, Google Shopping: Beware of ‘Self- Favouring’ in a World
of Algorithmic Nudging (6-dez.-2020). Acessível em SSRN: https://
[Link]/sol3/[Link]?abstract_id=3707797 (consul-
tado a 13 de abril de 2021).

1 RDTec (2021) 105-139

Você também pode gostar