A Cosmologia na Ásia
Existia (a ainda existe) um certo desejo entre
historiadores eurocêntricos em retroceder a ciência e
filosofia antigas somente até os gregos. Com isso esses
importantes pilares do conhecimento humano,a ciência
e a filosofia, aparecem como algo totalmente criado no
ocidente. Deste modo a préhistória asiática das
ciências ocidentais, em particular a base asiática sobre
a qual se apoia uma parte da ciência e filosofia gregas,
é absolutamente ignorada. Mais recentemente começou
a haver um reconhecimento, com uma certa má vontade, de que os Babilônios e os Egípcios
podem ter contribuido para o desenvolvimento das idéias científicas e filosóficas dos
gregos.
A cosmologia na Índia
A literatura dos Vedas e a arqueologia indianas nos fornecem bastante evidências
relacionadas com o desenvolvimento da ciência pelos povos que habitavam este país.
Segundo alguns arqueólogos, existem registros que nos permitem acompanhar estes
desenvolvimentos recuando no tempo até o ano 8000 a.C.
A mais antiga fonte textual destas narrativas históricas está no Rig Veda, o livro sagrado
dos Hindus, que é uma compilação de material muito mais antigo. A descoberta de que
Sarasvati, o importante rio da época Rig Vedica, ficou seco por volta do ano 1900 a.C.
devido a movimentos tectônicos fortalece a idéia de que os hinos do Rig Veda recordam
eventos anteriores a esta época. De acordo com a história tradicional o Rig Veda é anterior
a 3100 a.C.
Existem referências astronômicas neste e em outros livros Védicos que recordam eventos
ocorridos no terceiro ou quarto milênio a.C. ou ainda antes deste tempo.
Em resumo, os textos Védicos apresentam uma visão do universo que é tripartida e
recorrente. O Universo é visto como três regiões, terra, espaço e céu, que no ser humano
estão espelhadas no corpo físico, a respiração (prana) e mente. Os processos que ocorrem
no céu, sobre a terra e dentro da mente são tomados como estando conectados. O universo
também está conectado com a mente humana conduzindo à idéia de que a introspecção
pode produzir conhecimento. O universo passa por ciclos de vida e morte.
Os profetas Védicos estavam cientes de que todas as descrições do universo conduzem a
paradoxos lógicos.
Mostramos abaixo um dos hinos sobre a criação que faz parte dos Vedas (cantem todos,
bem alto!).
As características mais notáveis da visão Védica do universo eram:
· o Universo é grande, cíclico e extremamente velho
Os Vedas falam de um universo infinito e os Brahmanas mencionam "yugas" (eras)
muito grandes. A visão Védica recorrente do universo exige que o próprio universo
passe por ciclos de criação e destruição. Esta visão cíclica se tornou parte da
estrutura astronômica desenvolvida por eles e isso fez com que ciclos muito longos,
de bilhões de anos, fossem considerados. Os Puranas falam do universo passando
por ciclos de criação e destruição de 8,4 bilhões de anos embora também existam
ciclos mais longos.
Assim, na cosmologia hindu o universo tem uma natureza cíclica. A unidade de
medida usada é a "kalpa", que equivale a um dia na vida de Brahma, o deus da
criação. Uma kalpa tem aproximadamente 4,32 bilhões anos. O final de cada
"kalpa", realizado pela dança de Shiva, é também o começo da próxima kalpa. O
renascimento segue à destruição. Shiva é representada tendo na mão direita um
tambor que anuncia a criação do universo e na mão esquerda uma chama que
destruirá o universo. Muitas vezes Shiva é mostrada dançando num anel de fogo que
se refere ao processo de vida e morte do universo.
O mais notável na cosmologia hindu, que lhe dá uma característica única, é o fato
de que nenhuma outra cosmologia antiga usou períodos de tempo tão longos nas
suas descrições cosmológicas.
· um mundo atômico
De acordo com a doutrina de Kanada existem nove classes de substâncias:
o éter, espaço e tempo, que são contínuas.
o as quatro substâncias elementares, ou partículas, chamadas terra, ar, água e
fogo, que são atômicas.
o dois tipos de mentes, uma onipresente e outra que é o indivíduo.
A doutrina atômica de Kanada é, em certos aspectos bem mais interessante do que
aquela proposta pelo grego Demócrito.
· relatividade do espaço e do tempo
Descrições mostrando que nem o espaço nem o tempo precisam fluir à mesma taxa
para observadores diferentes é encontrada nas histórias de Brahmana e Purana assim
como no Yoga Vasistha.
Certamente estas histórias não têm qualquer ligação com a teoria da relatividade
especial que estabelece um limite superior para a velocidade da luz.
· números binários e o infinito
Parece que um sistema de números binários foi usado por Pingala por volta do ano
450 a.C. A estrutura deste sistema numérico pode ter ajudado na invenção da forma
gráfica que distingue o zero, feita pelos indianos possivelmente entre os anos 50 a.C
a 50 d.C. Sem o símbolo do zero a matemática teria tido grandes dificuldades no seu
desenvolvimento. O sistema de números binários foi descoberto no ocidente pelo
matemático alemão Leibnitz em 1678, quase 2000 anos depois de Pingala.
A idéia do infinito é encontrada nos próprios Vedas. Ele foi corretamente
compreendido como aquilo que permanece inalterado se adicionarmos ou
subtrairmos dele o próprio infinito.
Segundo a crença hindu o universo é destruido no final de cada kalpa, que é a vida
do deus criador Brahma. Entre a destruição do universo e sua recriação, no final de
cada ciclo, o deus Vishnu repousa nos anéis de Ananta, a grande serpente do
infinito, enquanto espera o universo se autorecriar.
A imagem abaixo mostra um dos conceitos hindús do Universo. A Terra, chamada
por eles de Monte Meru, e as regiões infernais eram transportadas por uma
tartaruga, símbolo da força e poder creativo. Por sua vez, a tartaruga repousava
sobre a grande serpente, que era o emblema da eternidade. Existiam três mundos. A
região superior era a residência dos deuses. A região intermediária era a Terra e a
região inferior era a região infernal. Eles acreditavam que o Monte Meru cobria e
unia os três mundos. No topo do Monte Meru estava o triângulo, o símbolo da
criação. As estrelas giravam em volta da montanha cósmica Meru.
A ciência indiana, mas não a sua religião, sofreria uma profunda modificação com a
incorporação dos conhecimentos trazidos pelos gregos.
Ocorre que a transmissão das idéias desenvolvidas pelos filósofos gregos para os
árabes não foi algo que ocorreu de modo direto. Antes de chegar aos árabes, a
filosofia grega passou pela Índia. Esta transmissão de conhecimentos dos gregos
para os indianos possivelmente já ocorria desde o final do período grego antigo, em
particular desde a época das conquistas de Alexandre, o Grande.
Certamente muitas idéias e inovações científicas surgiram na India em uma época
anterior à idade científica grega. No entanto, os historiadores não conseguiram
mostrar que as inovações criadas pelos indianos de alguma forma estivessem
associadas às correspondentes inovações que surgiram na Grécia.
Os astrônomos indianos ficaram fascinados com a astronomia grega. Em particular
eles se impressionaram com o método científico que os gregos tinham trazido, e
tornado necessário, para a ciência.
No entanto, os filósofos indianos estavam pouco preocupados com dados puramente
observacionais. Seu principal interesse se fixava nos princípios subjacentes que
governavam o movimento dos planetas, do Sol, e da Lua, ou seja, eles se
interessavam mais pela matemática que descrevia estes movimentos e que já havia
sido desenvolvida pelos astrônomos gregos.
Os filósofos indianos sempre foram fascinados pela matemática. Como já vimos,
foram os matemáticos indianos que inventaram o zero, uma absoluta necessidade
para que pudesse ser desenvolvida uma aritmética tratável. Isto se refletiu
diretamente no desenvolvimento da ciência quantitativa.
A era realmente produtiva da antiga astronomia indiana, entretanto, ocorreu muito
depois que os gregos passaram a fazer parte do império bizantino. Este
desenvolvimento deve ter acontecido do meio do terceiro século até o sétimo
século, pois foi durante este período que a Índia teve um grande desenvolvimento
sob as regras da dinastia Gupta e a cultura Harsch. Nesta época a cultura hindu
experimentou sua idade de ouro. Durante este tempo viveram os dois principais
astrônomos indianos Aryabhata e Brahmagupta.
Aryabhata de Kusumapura nasceu no ano 476. Ele foi um grande matemático, o
primeiro a usar álgebra na astronomia. Seus trabalhos, incluidos como parte de uma
compilação tradicional de escritos matemáticos e astronômicos coletivamente
conhecidos como Siddhantas, incluiam fórmulas aritméticas, medições
trigonométricas e equações quadráticas.
Aryabhata acreditava que existiam fórmulas algébricas e princípios geométricos
capazes de explicar toda a mecânica celeste. Ele não aceitava o processo ptolomaico
usado para explicar e verificar fatos astronômicos. Na verdade, Aryabhata nunca
esteve completamente satisfeito com as idéias de Ptolomeu sobre as maneiras pelas
quais os planetas se moviam nem com as várias idéias cosmológicas deste filósofo
grego.
Aryabhata opunhase particularmente à idéia de que a Terra estava em repouso. Ele
se sentia bastante seguro de seus próprios cálculos e observações e, baseado neles,
afirmava que a Terra devia girar, estivesse ou não fixa em uma coordenada espacial.
Brahmagupta, que viveu no período entre 590660, também foi matemático e
astrônomo. Ele escreveu um poema chamado "BrahmaSphutaSiddhanta", que
significa "sistema melhorado de Brahma", que era, na verdade, um trabalho sobre
astronomia que incluia também capítulos sobre matemática.
Brahmagupta conhecia muito bem as idéias de Ptolomeu e Aryabhata. No entanto,
ele preferiu apoiar as teorias planetárias de Aryabhata, pois ele também acreditava
que haviam evidências suficientes para provar que a Terra girava.