Universidade Federal da Paraíba
Centro de Ciências Jurídicas
Departamento de Ciências Jurídicas
Direito Processual Civil III
Orlando Matias Cabral de Gois, Emanuely Cardoso da Silva, Marcos Chagas Vinícius da
Silva, Felipe Costa Barreto, Miguel Gustavo de Oliveira Dantas
Trabalho entregue à disciplina de Direito
Processual Civil III, ministrada pela Profa.
Dra. Ana Carolina Couto Matheus, como
forma de obtenção de nota referente à terceira
unidade.
SANTA RITA - PB
2023
1. RECURSO ESPECIAL
1.1 Hipóteses de cabimento
O recurso especial, como o próprio nome sugere, constitui uma espécie de recurso, e,
portanto, precisa atender a todos os pressupostos gerais de admissibilidade dos recursos, no
entanto, para além destes, também existem outros pressupostos específicos que constam no
art. 105, III, a, b e c, da Constituição Federal de 1988, e que podem ser divididos em
pressupostos cumulativos e alternativos.
Assim, o referido dispositivo do texto constitucional vai determinar que é de
competência do Superior Tribunal de Justiça julgar em sede de recurso especial as causas que
forem decididas em única ou última instância pelos Tribunais Regionais Federais, bem como
pelos Tribunais de Justiça, quando a decisão recorrida contrariar tratado ou lei federal, ou
ainda negar-lhe vigência, julgar válido ato de governo local contestado em face de lei federal,
e dar a lei federal interpretação divergente da que lhe haja atribuído outro tribunal.
1.2 Pressupostos cumulativos
1.2.1 Decisão de única ou de última instância
Os pressupostos cumulativos são aqueles que constam no caput do art. 105, da
Constituição Federal, e o primeiro deles diz respeito à necessidade da decisão ter sido
proferida em única ou última instância. Conforme leciona Daniel Amorim Assumpção Neves,
o que o texto constitucional quer passar neste momento é que é essencial que tenha sido
esgotadas as vias ordinárias de impugnação, de forma que não pode haver interposição de
recurso especial enquanto ainda for cabível um recurso ordinário, assim dispõe o referido
autor:
Mesmo que o recorrente acredite que terá mais sucesso no Superior Tribunal
de Justiça no julgamento do recurso especial do que no órgão competente
para o julgamento do recurso ordinário previsto pelo ordenamento
processual, será obrigado a esgotar a via ordinária de impugnação. (NEVES,
2021, p. 1.740)
Um exemplo prático da aplicação deste pressuposto é na situação de julgamento
monocrático do relator, onde somente pode haver interposição de recurso especial quando for
interposto o recurso de agravo interno, de forma que caso seja interposto embargo de
declaração, somente será possível interpor recurso especial caos o embargo de declaração
seja recebido como agravo interno, conforme decidiu o Superior Tribunal de Justiça no REsp
1.082.653/SP, com relatoria do Ministro Benedito Gonçalves.
1.2.2 Decisão proferida por tribunal
Ademais, outro pressuposto cumulativo emanado do dispositivo constitucional diz
respeito a necessidade da decisão proferida em única ou última instância ter sido proferida
por Tribunais Federais Regionais Federais ou pelos Tribunais estaduais, do Distrito Federal e
Territórios. Em síntese, é necessário que o órgão que proferiu a decisão tenha natureza de
tribunal, por isso não cabe recurso especial de decisão proferida em matéria de recurso
inominado no âmbito dos Juizados Especiais. Além disso, é impossível haver interposição de
recurso especial contra decisão proferida em primeiro grau de jurisdição, pois mesmo que
tenha natureza recursal, ainda assim o art. 105, caput, da Constituição Federal faz apenas
menção a tribunais de segundo grau.
No entanto, é importante mencionar que a vedação ora mencionada acerca de decisão
proferida no âmbito dos Juizados Especiais apenas vale para os Juizados Especiais Estaduais,
quanto aos Federais e da Fazenda Pública, tanto o art. 14, da Lei n° 10.259/2001, como o art.
18 e 19 da Lei n° 12.153/2009 permitem o acesso ao Superior Tribunal de Justiça para fins de
uniformização da jurisprudência. Porém, em função disso, não é raro encontrar julgados nos
Juizados Especiais Estaduais que contrariem flagrantemente a jurisprudência do Superior
Tribunal de Justiça, por isso a corte superior vem admitindo a reclamação constitucional
contra decisões de Colégios Recursais que contrariem flagrantemente a jurisprudência do
STJ. Não obstante, é importante mencionar que parte da doutrina como Daniel Amorim
Assumpção Neves e Humberto Theodoro Júnior criticam o posicionamento do tribunal, pois
tal entendimento somente abarca normas de direito federal material, deixando de fora as
normas de direito processual que forem violadas.
1.2.3 Prequestionamento
O requisito do prequestionamento é fundamental para a atuação do Superior Tribunal
de Justiça enquanto um órgão revisor de decisões judiciais, surgindo como um comando que
ordena que apenas pode ser alvo do recurso especial objeto que já tenha sido alvo de decisão
prévia nas instâncias inferiores. Neste sentido, exemplo típico da aplicação deste requisito é
nas situações em que há embargos de declaração, conforme demonstra Daniel Amorim
Assumpção Neves:
O Superior Tribunal de Justiça é firme no entendimento de que os embargos
de declaração só serão cabíveis, e por consequência só será provido o
recurso especial, se efetivamente existir vício na decisão impugnada, não
sendo admitidos os embargos de declaração com efeitos infringentes, ou
seja, com o objetivo de modificar o acórdão recorrido. (NEVES, 2021, p.
1.743)
Todavia, em que pese o entendimento pacificado no STJ, o Código de Processo Civil
de 2015 fez bem em inovar na matéria, determinando que “consideram-se incluídos no
acórdão os elementos que o embargante suscitou, para fins de prequestionamento, ainda que
os embargos de declaração sejam inadmitidos ou rejeitados, caso o tribunal superior
considere existentes erro, omissão, contradição ou obscuridade” (BRASIL, 2015). Assim,
diante da inovação legislativa, o STJ passou a entender que para haver a presença desse
prequestionamento a que se refere a codificação processual civil, seria necessário comprovar
que se comprovasse a indevida recusa do tribunal de instância inferior em sanar erro
existente, dando o nome disso de prequestionamento ficto.
1.3 Pressupostos alternativos
1.3.1 Decisão que contrariar ou negar vigência a tratado ou lei federal
Todos os pressupostos alternativos constam nas alíneas do art. 105, III, da
Constituição Federal, de forma que o recorrente deve demonstrar o atendimento a um dos três
pressupostos alternativos, sendo o primeiro deles a necessidade de haver uma decisão que
contrarie ou negue vigência a tratado ou lei federal. Em que pese haver debate doutrinário
pouco produtivo acerca da diferença entre “contrariar” e “negar vigência”, é certo que ambos
têm a mesma gravidade e permitem a interposição de recurso especial, e, portanto, tal debate
não produz resultados práticos. No entanto, o mesmo não vale para a abrangência do termo
“lei federal” e “tratado”, e quanto a isto a doutrina é unânime em considerar que ambos
devem ser interpretados de forma ampla, abarcando, por um lado, todas as leis de
abrangência nacional, e, por outro lado, toda sorte de ajuste, acordo, compromisso e tratado
stricto sensu.
Ademais, não cabe recurso especial, por não se tratar de lei, as portarias ministeriais,
resoluções normativas, normas regimentais dos tribunais e as súmulas, mesmo as vinculantes,
contra a qual caberia, na opinião de Daniel Amorim Assumpção Neves, recurso
extraordinário. Além disso, nas palavras do referido doutrinador, é imprescindível que todo
recurso especial interposto com fundamento no art. 105, III, “a”, da Constituição Federal
indique a lei federal ou tratado violado, sob pena de inadmissibilidade do recurso (NEVES,
2021).
1.3.2 Decisão que julgar válido ato de governo local contestado em face de lei federal
Como bem assinala a boa doutrina, o recurso especial existe para proteger o
ordenamento jurídico federal, e, portanto, boa parte dos seus pressupostos alternativos
existem na situação de uma afronta a uma legislação federal. Assim, ato de governo local,
com natureza administrativa ou normativa, que afronte lei federal autoriza a interposição de
recurso especial perante o Superior Tribunal de Justiça.
1.3.3 Decisão que der a lei federal interpretação divergente da que lhe haja atribuído outro
tribunal
O último dos três pressupostos alternativos diz respeito à situação em que uma
determinada decisão judicial atribuiu a lei federal uma interpretação divergente da que fora
usada por outro tribunal. Nesse contexto, em atendimento a diversos princípios
constitucionais, em especial a segurança jurídica, o Superior Tribunal de Justiça atua
enquanto um agente uniformizador da jurisprudência pátria, devendo-se tomar o devido
cuidado para não confundir o objeto do recurso especial fundado no art. 105, III, “c”, da
Constituição Federal, com a assunção de competência e os embargos de divergência.
Para efetuar a diferenciação, basta observar que a exigência que o texto constitucional
faz é que seja uma divergência entre tribunais distintos, podendo ser tribunais de justiça
distintos, tribunais regionais federais distintos, tribunais de justiça e tribunais regionais
federais da mesma região, e tribunal de segunda instância e a jurisprudência do Superior
Tribunal de Justiça. Conforme aponta Daniel Amorim Assumpção Neves, deve ser feita no
recurso umas comparação estritamente análitica entre os dois acordãos, visando mostrar os
trechos que são similares entre as duas decisões judiciais:
É comum, inclusive, que o recorrente o faça em forma de tabela, de
maneira que os trechos fiquem na peça recursal lado a lado, o que
facilita a demonstração da comparação analítica. Existem decisões do
Superior Tribunal de Justiça que dispensam essa comparação analítica
quando a divergência é notória, em especial quando o acórdão paradigma é
do próprio tribunal. (NEVES, 2021, p. 1.748)
Ademais, o art. 1.029, § 1°, do Código de Processo Civil de 2015 traz como requisito
essencial para interposição do recurso especial com tal fundamento a prova da existência do
acordão paradigma:
Quando o recurso fundar-se em dissídio jurisprudencial, o recorrente fará a
prova da divergência com a certidão, cópia ou citação do repositório de
jurisprudência, oficial ou credenciado, inclusive em mídia eletrônica, em
que houver sido publicado o acórdão divergente, ou ainda com a reprodução
de julgado disponível na rede mundial de computadores, com indicação da
respectiva fonte, devendo-se, em qualquer caso, mencionar as circunstâncias
que identificam ou assemelham os casos confrontados. (BRASIL, 2015)
É comum os doutrinadores entenderem que a divergência nos entendimentos dos
tribunais deve permanecer até os dias atuais, ainda que os acórdãos escolhidos como
paradigmas não sejam recentes, o que se comprova com a mera indicação de alguns julgados
que operem no mesmo sentido do acórdão paradigma. Por obviedade, contudo, não há que se
falar em interpor recurso especial com base em dissídio jurisprudencial quando a divergência
já foi superado por entendimento consolidado no âmbito do Superior Tribunal de Justiça.
2. RECURSO EXTRAORDINÁRIO
2.1 Hipóteses de cabimento
Semelhantemente aos recursos especiais, os recursos extraordinários se submetem aos
pressupostos genéricos dos recursos, no entanto contam com pressupostos específicos, que
constam no art. 102, III e § 3°, da Constituição Federal de 1988. Neste sentido, também serão
divididos os pressupostos específicos dos recursos extraordinários em cumulativos e
alternativas, aos quais serão melhor detalhados adiante.
2.2 Pressupostos cumulativos
2.2.1 Decisão de única ou última instância
A determinação de que haja um prévio esgotamento das vias ordinárias para poder
interpor recurso extraordinário deriva do art. 102, III, da Constituição Federal, que determina
que é de competência do Supremo Tribunal Federal julgar, mediante recurso extraordinário,
as causas decididas em única ou última instância. No entanto, uma primeira diferença surge
para o recurso especial, visto que aqui esta decisão de única ou última instância não precisa
ter sido prolatada por um órgão com natureza de tribunal, possuindo, assim, o recurso
extraordinário um caráter mais amplo que o recurso especial.
Assim, não existe a mesma controvérsia aqui acerca dos Juizados Especiais, cabendo
sim a interposição de recurso extraordinário contra decisão dos Colégios Recursais, bem
como contra decisão que julga embargos infringentes, conforme a Súmula n. 640 do Supremo
Tribunal Federal. Todavia, é estritamente necessário que a decisão judicial a ser recorrida via
embargos de declaração tenha sido proferida em meio a um processo judicial, não sendo
possível, desta forma, impugnar decisão prolatada em sede de processo administrativo
disciplinar (NEVES, 2021).
2.2.2 Prequestionamento
Assim como ocorre nos recursos especiais, visa-se aqui impedir que o Supremo
Tribunal Federal aprecie de forma originária matérias que sequer tenham sido apreciadas no
decurso do processo. Neste sentido, é importante notar que antes mesmo do Código de
Processo Civil de 2015 inserir na legislação processual a previsão para o prequestionamento
ficto, discutido em tópico anterior, a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal já o vinha
admitindo, conforme se retira do teor da Súmula n. 356, sendo exigido atualmente que se
demonstre a existência de erro, omissão, contradição ou obscuridade no acórdão. Todavia, é
de extrema valia a observação apontada pelo Daniel Amorim Assumpção Neves, no sentido
de que o prequestionamento ficto não se confunde com o prequestionamento implícito:
Trata-se de situação em que a matéria constitucional foi alegada
anteriormente à decisão impugnada pelo recurso extraordinário, mas que
não foi objeto de solução por tal decisão. Nesse caso, mesmo tendo sido a
matéria suscitada no processo, a ausência de enfrentamento pela decisão
impugnada pelo recurso extraordinário afasta a existência do
prequestionamento. (NEVES, 2021, p. 1.752)
Além disso, não se confunde o prequestionamento ficto com a necessidade de se
indicar a norma constitucional que fora violada na decisão impugnada, o prequestionamento
vem apenas para exigir que o objeto do recurso já tenha sido previamente apreciado. Algo
que corrobora mais ainda esse entendimento é a previsão do art. 941, § 3°, do Código de
Processo Civil de 2015, que traz a determinação de que basta estar presente no voto vencido a
apreciação da matéria constitucional que estará cumprido o pressuposto do
prequestionamento.
2.2.3 Repercussão geral
A exigência de repercussão geral é nova no direito brasileiro, advindo com a reforma
do judiciário de 2004, e teve como principal objetivo mitigar um pouco a quantidade de
recursos extraordinários que eram interpostos perante o Supremo Tribunal Federal, que, ao
menos na teoria, deveria se reservar apenas aos casos mais relevantes e de grande interesse
social. Assim, determina o art. 102, §3°, da Constituição Federal de 1988:
No recurso extraordinário o recorrente deverá demonstrar a repercussão
geral das questões constitucionais discutidas no caso, nos termos da lei, a
fim de que o Tribunal examine a admissão do recurso, somente podendo
recusá-lo pela manifestação de dois terços de seus membros. (BRASIL,
1988)
Outro ponto interessantíssimo sobre a repercussão geral é que ele é de apreciação
exclusiva do próprio Supremo Tribunal Federal, e é o último pressuposto de admissibilidade
a ser analisado, ou seja, somente se análise repercussão geral de recurso que passou por todos
os demais pressupostos de admissibilidade, inclusive com previsão expressa para tal no
Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal. No entanto, não basta a alegação de
repercussão, é necessário demonstrá-la, conforme determina o art. 1.035, § 2°, do Código de
Processo Civil de 2015, embora não se faça mais necessário demonstrar em sede preliminar
de recurso extraordinário, mesmo que o Supremo Tribunal Federal venha ainda fazendo essa
exigência ultrapassada.
Dito isto, a determinação do que é repercussão geral cumpre, via de regra, ao próprio
Supremo Tribunal Federal, pois trata-se de um conceito jurídico indeterminado, mas em geral
a doutrina considera que existem requisitos de ordem qualitativa, que diz respeito a uma
importância transcendente para a sistematização e desenvolvimento do Direito, e quantitativa,
que diz respeito a uma importância transcendente pelo número de pessoas que foram
atingidas pela decisão (NEVES, 2021). Além disso, o Regimento Interno do Supremo
Tribunal Federal em seu art. 322, parágrafo único, determina que a questão deve ser
relevante, cumulativamente, economicamente, politicamente, socialmente, ou juridicamente e
ainda ultrapassar os interesses subjetivos da parte.
No entanto, em que pese a repercussão geral ser um conceito indeterminado, existem
também hipóteses de presunção absoluta de repercussão geral, elencadas no art. 1.035, § 3°, I,
III, e art. 987, § 1°, todos do Código de Processo Civil de 2015:
§ 3° Haverá repercussão geral sempre que o recurso impugnar acórdão que:
I - contrarie súmula ou jurisprudência dominante do Supremo Tribunal
Federal;
III - tenha reconhecido a inconstitucionalidade de tratado ou de lei federal,
nos termos do art. 97 da Constituição Federal.
Art. 987. Do julgamento do mérito do incidente caberá recurso
extraordinário ou especial, conforme o caso.
§ 1º O recurso tem efeito suspensivo, presumindo-se a repercussão geral de
questão constitucional eventualmente discutida.
Neste âmbito, em que pese haver corrente doutrinária que defende a existência dessa
presunção de repercussão geral em casos de divergência entre tribunais a respeito de questão
constitucional, existência de ação de controle de constitucionalidade, e ações coletivas,
Daniel Amorim Assumpção Neves vai ressaltar que todos esses casos cabem dentro das
hipóteses já previstas no Código de Processo Civil. Ademais, como dito anteriormente, a
apreciação do recurso vai ser realizada pelo Supremo Tribunal Federal, porém tal apreciação
se dá apenas de forma eletrônica, sendo submetido por via eletrônica aos demais ministros
para manifestação, nos termos do art. 323 e 324 do Regimento Interno do Supremo Tribunal
Federal.
Importante questão surge também sobre a deliberação por meio eletrônico, afinal os
ministros têm um prazo de 20 dias para se manifestar sobre o tema, de forma que caso não
haja manifestação será considerado que o ministro votou tacitamente a favor do recorrente.
Por obviedade tal previsão poderia suscitar muitos problemas, ainda mais considerando o
enorme número de casos que a Corte Constitucional tem para decidir, e foi considerando isso
que o STF entendeu que o pleno pode decidir pelo não conhecimento de determinado recurso
extraordinário, mesmo que este já tenha sido admitido por deliberação eletrônica,
especialmente por se tratar de matéria de ordem pública a repercussão geral.
Além da apreciação por via eletrônica, outra peculiaridade trazida pelo Código de
Processo Civil de 2015, em seu art. 1.035, § 4°, permite que exista a manifestação de
terceiros, representado por procurador, e admite inclusive a intervenção do amicus curiae,
levando um maior conhecimento técnico aos ministros sobre certos temas. Outrossim, sempre
que houver recursos extraordinários com idêntica controvérsia jurídica, será selecionado um
ou mais, enquanto os demais ficam sobrestados, tais recursos são chamados de recursos
paradigmas e servem para que não sejam apreciados certos temas sem um posicionamento
prévio da Suprema Corte sobre a repercussão geral daquele assunto. Em caso de ser negada a
repercussão geral, os demais recursos sobrestados são inadmitidos pelos tribunais de origem,
sendo a competência para fazer essa inadmissão do presidente ou vice-presidente do
respectivo tribunal.
Importante notar que a legislação fala em inadmissão automática dos recursos
sobrestados, conforme o parágrafo único do art. 1.039 do Código de Processo Civil de 2015,
todavia boa parte da doutrina considera inviável a inadmissão sem uma decisão do juízo ad
quo, até porque isso inviabilizaria a interposição de embargos de declaração, por exemplo,
em caso de erro. Além disso, a decisão do Supremo Tribunal Federal que denegou
repercussão geral é irrecorrível, nos termos do art. 1.035, da codificação processual, o que,
todavia, não se aplica a decisão monocrática do relator ou presidente do STF, conforme
ensina o regimento interno do tribunal, cabendo o recurso de agravo interno nessas hipóteses.
Enfim, desde que conhecida a repercussão geral, o art. 1.035, § 5°, do Código de
Processo Civil de 2015 determina que o relator estabelecerá a suspensão de todos os
processos pendentes que tratam daquela matéria. Destaca-se que tal suspensão não é
automática, e precisa ser determinada pelo relator para ocorrer, esse é o entendimento do
Supremo Tribunal Federal sobre a matéria, em que pese a crítica de doutrinadores como
Daniel Amorim Assumpção Neves:
O entendimento contraria a literalidade do art. 1.035, § 5°, do CPC, que
impõe ao relator a suspensão como consequência natural do reconhecimento
de repercussão geral. De qualquer modo, partindo-se da equivocada
premissa de que se trata de efetiva decisão monocrática do relator, é
inafastável o cabimento do recurso de agravo interno. (NEVES, 2021, p.
1.758)
Conforme determina o art. 1.035, § 9°, do Código de Processo Civil, existe um prazo
para que recursos com repercussão geral sejam julgados, e é de 01 ano, ganhando preferência
sobre os demais processos, exceto quando este processo versar sobre réu preso ou houver
habeas corpus.
2.3 Requisitos específicos
2.3.1 Decisão que contrariar dispositivo constitucional
Os requisitos específicos constam nas alíneas do art. 102, III, da Constituição Federal,
e o primeiro deles determina que a decisão impugnada deve contrariar norma constitucional,
sendo entendimento majoritário da doutrina e da jurisprudência a percepção de que tal
dispositivo deve ser interpretado de forma extensiva, considerando também cabível recurso
extraordinário contra tratado internacional que verse sobre direitos humanos e que fora
aprovado nos mesmos moldes de uma PEC. Ademais, não se admite a ofensa indireta ou
reflexa, ela deve ser expressa e clara:
O Supremo Tribunal Federal não admite a ofensa indireta (reflexa ou
oblíqua) à norma constitucional, exigindo que a ofensa seja direta, ou seja,
se a decisão ofendeu uma norma infraconstitucional e somente de maneira
reflexa atingiu a Constituição Federal, não caberá recurso extraordinário.
(NEVES, 2021, p. 1.760)
Importante notar que, geralmente, quando se existe uma ofensa reflexa está se falando
de uma ofensa direta a uma lei federal, de modo que caberia fungibilidade ao recurso
especial, no entanto a doutrina vem relativizando essa regra quando a ofensa indireta vier de
um Colégio Recursal, desde que o reflexo constitucional da ofensa a lei federal seja relevante.
Todavia, apesar do esforço doutrinário, a jurisprudência majoritária vem entendendo que em
tais hipóteses cabe reclamação constitucional, o que é uma situação dramática, pois apenas
amplia as injustiças que ocorrem nesses juízos por meio de ofensas a jurisprudências
consolidadas.
2.3.2 Decisão que declarar a inconstitucionalidade de tratado ou lei federal
Conforme é de amplo conhecimento, a tarefa primordial do Supremo Tribunal Federal
é interpretar a Constituição Federal, inclusive declarando a inconstitucionalidade de leis, seja
em matéria de controle abstrato ou difuso de constitucionalidade. Assim, o constituinte levou
isso em consideração ao colocar no art. 102, III, b, da Constituição Federal que pode ser alvo
de recurso extraordinário a decisão que, em controle difuso de constitucionalidade, declara a
inconstitucionalidade de lei federal ou tratado internacional.
Ademais, conforme se retira da leitura do dispositivo, apenas pode ser alvo de recurso
extraordinário a declaração de inconstitucionalidade, mesmo que incidental, a declaração de
constitucionalidade não pode ser alvo do recurso:
A justificativa é clara: toda norma é naturalmente constitucional, o que
significa dizer que toda norma é criada pretensamente constitucional, pois
há expectativa de que todas elas tenham tal qualidade, de forma que, ao
declarar a constitucionalidade incidentalmente, o órgão jurisdicional nada
mais faz do que declarar o estado natural da norma, confirmando a
expectativa de que esteja conforme a Constituição Federal. (NEVES, 2021,
p. 1.761)
2.3.3 Decisão que julgar válida lei ou ato de governo local contestado em face da
Constituição Federal.
Tal hipótese se refere à situação em que uma lei estadual ou municipal é contestada
em face da Constituição Federal e é tida como válida, aqui pode ser que a legislação local
esteja sendo apreciada em decorrência da Lei Maior, daí a possibilidade de interpor o recurso
extraordinário. No entanto, é importante notar que a jurisprudência e a doutrina estende essa
possibilidade também para atos administrativos ou normativos praticados pelas tres esferas de
Poder, desde que contestados em face da Constituição Federal.
2.3.4 Decisão que julgar válida lei de governo local contestado em face de lei federal
Por fim, o último requisito específico consta no art. 102, III, d, da Constituição
Federal, e fora introduzido como tal pela famosa reforma do judiciário de 2004, e que gera
grandes dúvidas dos juristas, pois supostamente estaria colocando o Supremo Tribunal
Federal como guardião da lei federal, e não o Superior Tribunal de Justiça. No entanto, a
contestação a que se refere esse dispositivo é quando envolve conflito de competência entre
Estados e Municípios e a União, ou seja, a competência legislativa, sendo tal matéria
constitucional, e não é de competência de apreciação do Superior Tribunal de Justiça.
3. ASPECTOS PROCEDIMENTAIS COMUNS AOS RECURSOS
EXTRAORDINÁRIO E ESPECIAIS
3.1 Procedimento.
A princípio, não foge da usualidade processual os prazos para a interposição recursal
referente aos recursos especiais e extraordinários, sendo mantido o prazo de 15 dias, bem
como as possibilidades de o prazo ser contado em dobro. Contudo, existem ressalvas
concernentes à dilatação de prazo relativa ao caso de litisconsortes com diferentes advogados
pertencentes à diferentes sociedades, a saber, necessidade de mais de um litisconsorte ter
interposto o recurso em primeiro grau e ter tido sucumbência na decisão recorrida.
Ademais, ambos os recursos excepcionais, apesar da íntima relação, gozam de certa
autonomia quanto à possibilidade de sua propositura, não sendo, por regra, necessária a
interposição de ambos os recursos. Porém, é possível que determinado acórdão seja baseado
tanto em fundamento constitucional quanto infraconstitucional, sendo, nesse cenário,
imprescindível que ambos os fundamentos sejam revistos a fim de que o interesse do
recorrente seja satisfeito. A expressão desse entendimento é visível na Súmula 126 do STJ,
que aduz: “É inadmissível o recurso extraordinário, quando a decisão recorrida assenta em
mais de um fundamento suficiente e o recurso não abrange todos eles. ”
Em face da necessidade de interpor tanto recurso especial quanto recurso ordinário,
vale lembrar a impossibilidade de preclusão consumativa deste quando interposto aquele, e
vice-versa, sendo independentes os prazos. Podem, por conseguinte, ser interpostos os
recursos em dias distintos, desde que dentro do prazo recursal de 15 dias.
Naturalmente, após a interposição do recurso, é aberto, ao recorrido, o prazo de igual
extensão destinado às contrarrazões. Decorrido este prazo, existentes ou não as contrarrazões,
cabe ao presidente ou vice-presidente do tribunal de onde emanou o acórdão recorrido, uma
vez que recebidos os autos, tratar o recurso na forma do art. 1030 do Código de Processo
Civil.
Nesse ínterim, deve ser negado seguimento ao recurso caso:
a) a recurso extraordinário que discuta questão constitucional à qual o Supremo
Tribunal Federal não tenha reconhecido a existência de repercussão geral ou a
recurso extraordinário interposto contra acórdão que esteja em conformidade com
entendimento do Supremo Tribunal Federal exarado no regime de repercussão
geral;
b) a recurso extraordinário ou a recurso especial interposto contra acórdão que
esteja em conformidade com entendimento do Supremo Tribunal Federal ou do
Superior Tribunal de Justiça, respectivamente, exarado no regime de julgamento de
recursos repetitivos; (BRASIL, 2015).
Quando o recurso não tenha seu seguimento negado em razão do supracitado, tendo o
presidente ou vice-presidente do tribunal verificado a inconformidade do acórdão recorrido
com entendimento do STF ou STJ manifesto em tema de repercussão geral ou recursos
repetitivos, há de ser encaminhado o recurso para o órgão julgador, com a finalidade de
possibilitar o juízo de retratação, nos ditames do inciso II do art. 1030.
Vale assinalar, ainda, a hipótese de o recurso versar sobre matéria de caráter repetitivo
ainda não decidida pelo STF ou STJ, situação na qual é necessário que seja sobrestado o
recurso até que seja firmado entendimento pelo tribunal superior ao qual se aguarda decisão,
na forma do inciso III do art. 1030. O recurso, uma vez declarado na situação de sobrestação
mencionada, não precisa passar pelo juízo de admissibilidade até que seja desvencilhado de
tal condição.
Em contrapartida, no caso de o recurso ser selecionado como representativo de
controvérsia constitucional ou infraconstitucional, atribuição também do presidente ou vice-
presidente do tribunal, é necessário prévio juízo de admissibilidade, conforme o inciso IV do
art. 1030 do CPC, não podendo o recurso paradigma fugir dos requisitos de admissibilidade
elencados no art. 1030, inciso V, do diploma legal supramencionado.
Nesse sentido, acerca de recurso contra as decisões conferidas ao presidente ou vice-
presidente do tribunal nos termos do art. 1030 do CPC, Daniel Assumpção Neves assevera:
De todas as decisões do presidente e vice-presidente descritas nos incisos do art.
1.030, do CPC, apenas aquelas consagradas nos incisos I, III e V, tem previsão
expressa de recorribilidade, dando a entender que as decisões com fundamento nos
incisos II e IV são irrecorríveis. Da decisão que nega seguimento ao recurso
especial ou extraordinário com fundamento nos incisos I e III do art. 1.030 do CPC
cabe agravo interno ao próprio tribunal de segundo grau. Significa dizer que,
pretendendo a parte discutir a incorreção da decisão monocrática com fundamento
na distinção do caso concreto com a tese aplicada para a inadmissão ou
sobrestamento do recurso, não terá recurso para o tribunal superior, devendo se
contentar com recurso para o próprio tribunal de segundo grau. (NEVES, 2021).
3.2 Confusão entre juízo de admissibilidade e juízo de mérito
Na exegese da autorização constitucional atinente à matéria dos recursos
excepcionais, é possível, ante à prática jurídica visível nas atribuições dos tribunais, a mescla
entre juízo de admissibilidade em juízo de mérito. Em dados casos, o juízo de admissibilidade
atribuído ao tribunal ad quo, uma vez que efetuado, conjuga consigo também juízo de mérito.
À título de exemplo, é nítido o art. 102, III, a, da Constituição.
No referido diploma, é compelido ao Supremo Tribunal Federal a competência para
julgar, em sede de recurso extraordinário, decisão que contrarie dispositivo constitucional.
Precisamente desta disposição que surge a possível confusão entre juízo de admissibilidade e
juízo de mérito, dado que decidir se determinada decisão contraria ou não determinado
mandamento constitucional pode ser encarado tanto enquanto requisito de cabimento do
recurso quanto a própria matéria recursal.
Logo, é evidente a problemática acerca da confusão entre juízo de admissibilidade e
juízo de mérito, posto que a declaração de inadmissibilidade de determinado recurso por não
contrariar a Constituição determinaria, ao mesmo tempo, julgamento de mérito do recurso
sequer conhecido.
Nesse viés, ensina Daniel Assumpção Neves:
Na análise do cabimento, a ofensa será tratada abstratamente, ou seja, basta que o
recorrente alegue que houve a ofensa à lei federal ou à norma constitucional para
que o recurso seja admitido, considerando-se o seu cabimento. Uma vez conhecido
o recurso, o tribunal superior competente passará a analisar a efetiva existência de
ofensa no caso concreto, de forma que a matéria será o mérito do recurso; havendo a
ofensa, o recurso será provido; não havendo a ofensa alegada, será negado
provimento ao recurso (NEVES, 2021, p. 1769)
3.3 Efeitos do recursos federais
O efeito devolutivo, constante dos recursos excepcionais, quando nestes, é
particularmente caracterizado precisamente pela limitação à devolução imposta pela
impossibilidade de os tribunais superiores poderem apreciar matéria de direito, somente é
possível a análise de matéria de fato. Logo, a matéria a ser devolvida ao tribunal superior em
caso de recurso especial ou extraordinário diz respeito somente à matéria de direito.
Contudo, é possível que matéria de fato seja afetada, de forma indireta, por elemento
apreciado por tribunal superior. No que tange à produção de provas concernente ao processo
percorrido no juízo ad quem, é possível que seja debatido em tribunal superior matéria
respectiva a regras de direito probatório, como assevera Daniel Neves: “Questões referentes à
ilicitude da prova, objeto de convicção, ônus da prova, procedimento probatório, entre outras,
poderão ser objeto de recurso especial ou extraordinário, a depender do caso concreto.
(NEVES, 2021, p. 1770).
Vale ressaltar, ainda, quanto ao efeito devolutivo, a profundidade da matéria a ser
devolvida ao tribunal superior. Contudo, ao contrário da limitação relativa à impossibilidade
de discutir matéria fática em tribunal superior, a profundidade da matéria recorrida segue a
regra geral do efeito devolutivo: ao ser devolvido fundamento a matéria impugnada, também
são devolvidos os fundamentos necessários à resolução da matéria impugnada, ainda que não
nominalmente contestados em recurso, nos ditames do parágrafo único do art. 1034 do CPC.
Todavia, ainda há que se falar no efeito suspensivo dos recursos especial e
extraordinário, efeito esse cuja aplicação carece de iguais particularidades, quando
contraposto ao efeito devolutivo.
A regra aplicada aos recursos excepcionais é a ausência de efeito suspensivo.
Entretanto, em determinados casos, é possível a concessão de determinado efeito, uma vez
que comprovada a probabilidade do direito e o perigo de dano, sendo seu regramento
detalhado no §5º do art. 1029 do CPC. O referido dispositivo aponta a possibilidade de tanto
o tribunal superior realizar o juízo de concessão do efeito suspensivo, como usual, quanto o
tribunal recorrido, em situações de o recurso não ter sido ainda conhecido pelo tribunal
superior.
4. JULGAMENTO POR AMOSTRAGEM
4.1 Cabimento
Tanto o Superior Tribunal de Justiça (STJ), quanto o Supremo Tribunal Federal (STF)
possuem um número de servidores e magistrados inferiores a toda a demanda nacional de
Recursos Especiais (RESP) ao STJ e Recursos Extraordinários (RE) ao STF. Nesse viés, o
legislador ordinário, ao editar o Novo Código de Processo Civil (NCPC, 2015), entendeu por
incluir, quando se trata dos recursos supramencionados, uma forma de resolver um maior
número de recursos e processos pendentes sobre o mesmo tema com apenas uma decisão
Ultra Partes, de sorte que trouxe consigo uma aplicação mais efetiva da segurança jurídica e
isonomia nas decisões.
Isso se dá quando há uma multiplicidade de recursos com fundamento em idêntica
questão em direito - veja-se, não são questões de fato, pois não são analisadas por tais órgãos
do poder judiciário -. Portanto, quando se têm RE e RESP repetitivo, nos moldes
mencionados, é obrigatório que se realize o julgamento por amostragem. Nesse viés explicita
o (NCPC, 2015):
Art. 1.036. Sempre que houver multiplicidade de recursos extraordinários ou
especiais com fundamento em idêntica questão de direito, haverá afetação
para julgamento de acordo com as disposições desta Subseção, observado o
disposto no Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal e no do
Superior Tribunal de Justiça.
Para que se entenda melhor a aplicação do julgamento por amostragem, é importante
entender como ocorre a sua instauração
4.2 Instauração
A instauração do julgamento por amostragem vem disciplinado no NCPC, 2015, que
em seu art. 1.036, § 1º assevera que, o presidente e vice-presidente do Tribunal de Justiça
(TJ), bem como o do Tribunal Regional Federal (TRF) têm a função de selecionar os
recursos que funcionarão como paradigmas (dois ou mais) representativos da controvérsia,
estes, são “encaminhados ao Supremo Tribunal Federal ou ao Superior Tribunal de Justiça
para fins de afetação”. Tais órgãos do Poder Judiciário, por sua vez poderão divergir acerca
do teor do recurso enquadrar-se como subsumido a característica necessária da
multiplicidade, de tal modo que, por exemplo, o TJ entenda que ocorre a multiplicidade de
recursos especiais, mas o STJ, por meio do relator, entenda que, na verdade, não existe a
multiplicidade, não cabendo, portanto, o julgamento por amostragem.
Quanto a seleção destes recursos paradigmas, haverá autonomia em relação a sua
escolha, esta não vincula o STJ ou STF, que poderão selecionar outros que acharem mais
adequadas, inclusive, poderá ser requisitado processo de outros tribunais, quando também
repetitivos, haja vista sua dimensão nacional, por exemplo, são controvérsias do TJPB e o
STJ pode requerer recurso repetitivo do TJ PR para ampliar o objeto analisado. Além disso,
eles podem ainda, retirar os escolhidos pelo TJ ou TRF, haja vista a relação hierárquica.
Nesse viés serão definidos e delimitados os recursos que serão submetidos ao julgamento, de
modo a buscar matéria mais ampla. Desse modo, busca-se replicar a decisão no máximo de
casos possíveis. Nessa perspectiva, explicita Daniel Amorim que:
Apesar de ser possível a instauração da técnica de julgamentos
repetitivos com a seleção de apenas dois recursos paradigmas, a
experiência demonstra que a quantidade de recursos selecionados
tende a ser maior. Afinal, um número maior de recursos excepcionais
permite uma análise mais ampla da matéria jurídica, sendo importante
tal amplitude em razão da eficácia ultra partes do julgamento dos
recursos paradigmas. (NEVES, 2021, p.1774)
Todavia, um questionamento surge diante do explicitado. E se o Presidente ou Vice-
presidente do TJ ou TRF não selecionarem os recursos repetitivos para a adoção da técnica de
julgamento por amostragem? Jamais será adotada tal técnica? Não. Isso, porque o art. 1.036,
§ 5º do NCPC, 2015, estabelece que independentemente da iniciativa daquele ou do vice-
presidente, o relator em tribunal superior também poderá selecionar 2 (dois) ou mais recursos
representativos da controvérsia para julgamento da questão de direito.
Além do mais, o NCPC, 2015, traz também a necessidade de o recurso repetitivo ser
admissível, na forma do art. 1.036, § 6º, diante disso, segundo Daniel Amorim Assumpção
Neves (2021, p.1776), advém duas consequências, quais sejam: (i) o TJ ou TRF realizará o
juízo de admissibilidade de RE e RESP nesses casos, haja vista que é o Presidente ou Vice-
presidente que irão selecionar os recursos como fora evidenciado; (ii) mesmo tendo passado
pelo juízo de admissibilidade supracitado, passará também por tal juízo na instância de
superposição, que poderá entender não ser admissível o recurso, de sorte que, se não só um,
mas todos os recursos paradigmas selecionados forem reputados inadmissíveis, a técnica de
amostragem será afastada.
4.3 Suspensão dos processos que versem sobre a mesma controvérsia jurídica
Quanto aos demais recursos e processos que não foram selecionados como
paradigmas da controvérsia, serão sobrestados - impositivamente as partes - com
determinação do Presidente ou Vice-presidente do TJ ou TRF, sejam eles individuais ou
coletivos, haja vista que a decisão acerca do paradigma resolverá também os demais quando
for julgada. Não faz sentido, então, recursos e processos com matéria idêntica continuarem o
trâmite, pois o STJ ou STF decidirá de um modo que resolverá também aquele caso concreto
não selecionado. Do contrário, a segurança jurídica seria firmemente atingida, na medida em
que, hipoteticamente, nem sempre a decisão do STJ e STF seriam no mesmo sentido da
decisão do outro caso concreto que deveria ser sobrestado. Então, ter-se-iam casos com
matérias idênticas de direito, porém com decisões distintas. Assim sendo, para evitar essa
patologia, ocorre o sobrestamento dos demais “não paradigmas”.
Além disso, a contar da decisão de afetação, os recursos paradigmáticos deveriam ser
julgados em 1 ano, caso contrário estabelecia o NCPC (2015) que os processos sobrestados
seguiram o seu curso, todavia, isso foi revogado pela Lei nº 13.256, de 2016, que alterou o
NCPC (2015), de sorte que a suspensão durará até o julgamento do recurso repetitivo, não
havendo prazo para tal. Isso não o exime da necessidade de julgar em até 1 ano, pois o art.
1.037, § 4º assim estabelece, inclusive, possuindo preferência sobres os demais feitos - salvo
Habeas Corpus e réu preso - no entanto, apenas não há a consequência de cessar o
sobrestamento com o não julgamento, pois foi revogado o § 5º do artigo supracitado que
assim determinava.
Além disso, cabe salientar que embora ocorra o sobrestamento supracitado, é decisão
do STJ, aplicada, portanto, aos recursos especiais, que dá a possibilidade do julgamento
antecipado parcial do mérito quanto ao objeto do processo não vinculado à suspensão
determinada em razão dos recursos especiais repetitivos. (REsp 1.551.956/SP, rei. Min. Paulo
de Tarso Sanseverino, j. 15/04/2016.). Nesse viés, o sobrestamento também não impede a
apreciação de tutela de urgência pelo juízo da causa.
Por fim, salienta Daniel Neves (2021, p.1778) que as decisões que determinem o
sobrestamento são irrecorríveis, sendo este o entendimento tanto do STJ, quanto do STF,
tanto é que:
Na vigência do CPC/1973, o Superior Tribunal de Justiça consolidou
entendimento de que a decisão que determinava o sobrestamento dos
recursos especiais repetitivos não selecionados como paradigmas era
irrecorrível, também não admitindo contra ela o ingresso de
sucedâneos recursais. Como se pode notar de precedentes já na
vigência do atual diploma processual, não houve modificação no
entendimento. O Supremo Tribunal Federal, da mesma forma,
contínua a entender irrecorrível a decisão que determina o
sobrestamento, não sendo também cabível reclamação contra tal
pronunciamento. (NEVES, 2021, p. 1778)
Porém, a parte processual não estará de mãos atadas, isso, porque é possível o
prosseguimento do feito com o requerimento de distinção, por meio do qual a parte aponta
que a sua situação é distinta (NCPC, 2015, art. 1.037, § 9º). Esse requerimento ocorre: (i) no
juízo de primeiro grau, se nele estiver tramitando o processo sobrestado, cabendo agravo de
instrumento da denegação em relação ao requerimento, (ii) ao relator no TJ ou TRF, se em
um deles estiver tramitando, cabendo agravo interno da decisão proferida pelo relator, (iii) ao
relator, no próprio STJ ou STF, também cabendo agravo interno. Isso ocorre, porque são
suspensos todos os processos que versem sobre a mesma matéria de direito, seja onde estiver,
não interessa se está no primeiro grau ou no STF. Em relação a distinção ocorrida, como
garantia ao contraditório, a outra parte deverá ser ouvida sobre o requerimento no prazo de 5
(cinco) dias. Após isso, reconhecida a distinção, o feito prosseguirá, do contrário, continuará
suspenso.
Por fim, sobrevindo durante o prazo de suspensão a decisão do tribunal superior sobre
os recursos representativos da controvérsia, o art. 1.040, III, do CPC prevê que o juiz
proferirá sentença e aplicará a tese firmada dando claramente a entender que a eficácia do
julgamento é vinculante, estando o juiz de primeiro grau obrigado a aplicar a tese firmada
pelo tribunal superior em sua sentença (NEVES, 2021, p.1779).
4.4 Procedimento
Em questão procedimental, o Código de Processo Civil, visando unificar a
jurisprudência dos tribunais pátrios com vistas a evitar decisões conflitantes entre os órgãos
jurisdicionais pode - em casos excepcionais - proferir decisão de afetação do recurso
interposto, conforme preleciona o Art 1037 do Código de Processo Civil. Em caso de dupla
ou tripla afetação, será prevento o Ministro proferiu a primeira decisão afetando o recurso,
conforme disposição do Inciso III, art, 1037 do CPC.
Para o funcionamento dos órgãos jurisdicionados, o julgamento do recurso afetado
promove efeito suspensivo aos processos que versem sobre a mesma tese jurídica afetada
pelo órgão superior, formulando forte jurisprudência que, embora não vinculante, serve como
fundamento para outras decisões sobre aquela matéria, quando os tribunais e seus órgãos
foram instados a julgar.
Colaciono, por oportuno, um exemplo de Recurso Especial com decisão de afetação,
nos termos do Art. 1036 do Código de Processo Civil:
PROCESSUAL CIVIL. PROPOSTA DE AFETAÇÃO. RECURSO
ESPECIAL. RITO DOS RECURSOS ESPECIAIS REPETITIVOS.
MAJORAÇÃO DE HONORÁRIOS DE SUCUMBÊNCIA EM GRAU
RECURSAL. RECURSO TOTAL OU PARCIALMENTE PROVIDO.
CONSECTÁRIOS DA CONDENAÇÃO. OBSERVÂNCIA DO ART.
1.036, § 5º, DO CPC/2015 E DOS ARTS. 256-E, II, E 256-I DO RISTJ. 1.
Delimitação da controvérsia: (im) possibilidade da majoração, em grau
recursal, da verba honorária estabelecida na instância recorrida, quando o
recurso for provido total ou parcialmente, ainda que em relação apenas aos
consectários da condenação. 2. Recurso especial afetado ao rito do art. 1.036
e seguintes do CPC/2015 (arts. 256-E, II, e 256-I do RISTJ). 3. Determinada
a suspensão da tramitação apenas dos recursos especiais e agravos em
recurso especial cujos objetos coincidam com a matéria afetada. 4. Acolhida
a proposta de afetação do recurso especial como representativo da
controvérsia para que seja julgado na Corte Especial.
(STJ - ProAfR no REsp: 1865553 PR 2020/0055558-6, Data de Julgamento:
05/04/2022, CE - CORTE ESPECIAL, Data de Publicação: DJe
06/05/2022)
Conforme inicialmente dito, a decisão de afetação do Recurso Especial ou Recurso
Extraordinário é de suma importância para a construção de posteriores decisões sobre a
matéria afetada, uma vez que a jurisprudência dos Tribunais a quo tendo a seguir as decisões
proferidas em instâncias extraordinárias, principalmente em processos com matéria afetadas
pelas Cortes Extraordinárias do país, pela tendência institucional de julgamento conforme a
consolidação da matérias pelos órgãos jurisdicionais, essencialmente os julgamentos
proferidos pelas Cortes Superiores.
É importante salientar que o momento processual no qual estejam os processos com
teses parecidas daqueles que forem afetados em decisão monocrática do Ministros será
essencialmente importante para a consequência extra partes que a decisão de afetação
provocará.
4.5 Eficácia ultra partes e vinculante do julgamento
Os arts. 1.039 a 1.041 do CPC tratam da eficácia ultra partes do julgamento dos
recursos representativos da controvérsia, sendo o primeiro dirigido aos tribunais superiores e
o segundo, aos tribunais de segundo grau e ao primeiro grau de jurisdição.
Conforme dito na discussão estabelecida no último item, os recursos afastados e
julgados pelas Cortes Extraordinárias, seja pelo Superior Tribunal de Justiça seja pelo
Supremo Tribunal Federal, não possuem efeito vinculante taxativamente previsto na
legislação processual.
Ocorre, no entanto, que as consequências do julgamento pelas Cortes Especiais
podem, inclusive, afetar a prestação de serviços público, gerando mudanças na prestação
pública que de autarquia ou órgão público que sequer era parte daquele processo, na forma do
inciso IV, art. 1040 do Código de Processo Civil, in verbis:
Art. 1.040. Publicado o acórdão paradigma:
(...)
IV - se os recursos versarem sobre questão relativa a prestação de serviço
público objeto de concessão, permissão ou autorização, o resultado do
julgamento será comunicado ao órgão, ao ente ou à agência reguladora
competente para fiscalização da efetiva aplicação, por parte dos entes
sujeitos a regulação, da tese adotada.
Nesse contexto, doutrinadores como Daniel Amorim Assumpção Neves entendem
que disposições tais quais aquela prevista no Inciso IV, do art. 1040 do Código de Processo
Civil demonstram característica de efeito vinculante dos julgamentos dos Recursos Especiais
ou Extraordinários que tiverem julgamento afetado pelo Superior Tribunal de Justiça e pelo
Supremo Tribunal Federal, respectivamente. In verbis o entendimento de Daniel Amorim:
Em clara demonstração que a eficácia vinculante ultra partes do julgamento
de recursos extraordinários e especiais repetitivos não se limita a processos
judiciais que versem sobre a mesma matéria jurídica, o art. 1.040, IV, do
CPC prevê que se os recursos versarem sobre questão relativa à prestação de
serviço público objeto de concessão, permissão ou autorização, o resultado
do julgamento será comunicado ao órgão, ao ente ou à agência reguladora
competente para fiscalização da efetiva aplicação, por parte dos entes
sujeitos a regulação, da tese adotada. (NEVES, 2021, p. 1.785/)
Os precedentes são aqueles em que a sua ratio decidendi não precisa
obrigatoriamente ser observado e seguido pelo juiz em casos concretos análogos àquele que
originou o precedente. Sendo assim, o juiz tem a faculdade de observá-lo ou não, embora na
maior parte dos casos, observando o Princípio Constitucional da Segurança Jurídica, os
órgãos jurisdicionais ordinários tendem a seguir as teses adotadas pelos Tribunais
Extraordinários, essencialmente com relação às teses firmadas em julgamento de Recurso
Especial ou Recurso Extraordinário julgado sob o rito de incidente de resolução de demandas
repetitivas ou aqueles afetados, conforme já descrito.
Segundo Lucas Buril de Macêdo, “o precedente persuasivo serve apenas como
reforço argumentativo para a tomada de decisão em determinado sentido, todavia não a
vincula no sentido apontado”.
Por fim, é válido destacar que, embora o precedente judicial com efeito persuasivo
não tenha força vinculante máxima, o magistrado ao rejeitar a sua aplicação no caso sub
judice, deve fazê-lo de forma motivada, ou seja, apresentando fundamentação suficiente para
tanto.
O referido entendimento ganhou força a partir da adoção sistemática dos incisos do
art. 924 do Código de Processo Civil ao determinar o que deve ser observado pelos Juizos e
Tribunais (parece apontar para os Tribunais de Segundas Instâncias, como os Tribunais de
Justiça ou Tribunais Regionais Federais), uma vez que são os responsáveis por - na análise da
matéria fática - aplicar as noções de direito previstas em lei, in verbis os itens da legislação
processual:
Art. 927. Os juízes e os tribunais observarão:
I - as decisões do Supremo Tribunal Federal em controle concentrado de
constitucionalidade;
II - os enunciados de súmula vinculante;
III - os acórdãos em incidente de assunção de competência ou de resolução
de demandas repetitivas e em julgamento de recursos extraordinário e
especial repetitivos;
IV - os enunciados das súmulas do Supremo Tribunal Federal em matéria
constitucional e do Superior Tribunal de Justiça em matéria
infraconstitucional;
V - a orientação do plenário ou do órgão especial aos quais estiverem
vinculados.
No cenário atual, ainda não há consenso jurisprudencial e doutrinário sobre a
intensidade da força vinculante de cada uma das decisões elencadas pelo art. 927 do CPC/15.
Na dissertação de Mestrado supramencionada, de autoria da Dra. Luiza Gonzaga Drumond
Cenachi, há apresentação do entendimento de que “tal dispositivo deve ser lido em conjunto
com a Constituição Federal e com os poderes nela outorgados, o que significa que apenas os
precedentes do STF e STJ previstos no art. 927 do CPC/15 tornaram-se fonte de direito com
eficácia erga omnes, já que somente o STF e STJ possuem o poder constitucional de emanar
normas jurisdicionais gerais oponíveis a toda a sociedade em matéria de direito federal. ”
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRASIL. Lei no 13.105 de 16 de março de 2015: Código de Processo Civil. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm. Acesso em:
20/05/2023.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil: promulgada em 5 de outubro de
1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm.
Acesso em: 20/05/2023.
BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial 1.551.956/SP, rel. Min. Paulo de
Tarso Sanseverino, j. 15/04/2016.
CENACHI, Luiza Gonzaga Drumond. Precedentes judiciais na arbitragem: A vinculação
do árbitro às fontes de direito com eficácia erga omnes na arbitragem regida pelo
direito brasileiro; Luiza Gonzaga Drumond Cenachi; orientador José Roberto dos Santos
Bedaque – São Paulo, 2021. 164 f. Dissertação (Mestrado - Programa de Pós-Graduação em
Direito Processual) - Faculdade de Direito, Universidade de São Paulo, 2021., p 68
NEVES, Daniel Amorim Assumpção. Manual de direito processual civil: volume único.
15. ed. Salvador: JusPodivm, 2023. 1296 p.
THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de Direito Processual Civil. 56. ed. Rio de
Janeiro: Forense, 2023. 3 v. 1138 p.