Igreja do Futungo.
Tema: O culto racional
Livro Base: Romanos12.1-2. Data: 30-10-2024 (06/11/2024)
Pregador: Matateu André
Romanos foi escrito provavelmente em meados da década de 50dC enquanto Paulo
estava em Corinto, cidade que se caracterizava como um importante centro
comercial e cultural na época. A carta foi enviada a Igreja em Roma, uma cidade
cosmopolítica na época, onde Paulo desejava ir (Rm1.10-13).
Nos capítulos anteriores, Paulo faz uma extensa abordagem sobre a doutrina da
justificação pela fé e como isso transforma a mente do indivíduo e seus
relacionamentos (Ele e Deus, Ele e ele mesmo, ele e os irmãos/igreja, ele e os seus
inimigos).
Em Romanos12- 1, Paulo começa com um apelo forte, convocando-nos a
apresentar nossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, o que ele
chama de “vosso culto racional “. Esse ato de adoração envolve uma dedicação total
de todo o nosso ser — corpo, alma e espírito — para honrar ao Senhor em tudo o
que fazemos.
Em relação a Romanos12.1-2, destacam-se alguns comentários de
determinados teólogos
1. John Stott. O apelo de Paulo à transformação e à não conformidade com o
mundo é um convite para que os cristãos adotem um estilo de vida distinto. Ele vê
o sacrifício como uma resposta prática à misericórdia de Deus, em que o "corpo"
representa toda a vida da pessoa. Stott sublinha que a renovação da mente é
essencial para a compreensão da vontade de Deus, uma vez que a mente
transformada permite discernir e viver de acordo com os valores divinos. Stott, J.
(1994)-The Message of Romans.
2. Karl Barth- Barth interpreta Romanos 12:1-2 como um chamado radical à ação.
Ele entende que a verdadeira adoração se manifesta na vida cotidiana, onde o
crente apresenta a si mesmo a Deus através do serviço e da obediência. Para
Barth, o "não se conformar com este mundo" reflete a tensão entre a igreja e a
sociedade secular, chamando os cristãos a um viver que contradiga as normas do
mundo em prol do Evangelho. Barth, K. (1968)-The Epistle to the Romans.
3.F.F. Bruce - Bruce destaca que o chamado à transformação da mente implica
uma mudança de perspectiva, em que os cristãos devem continuamente buscar
uma mentalidade alinhada à vontade de Deus. Ele observa que essa transformação
ocorre pelo Espírito e que o entendimento da "boa, perfeita e agradável vontade de
Deus" é progressivo, revelando-se conforme o crente vive uma vida de obediência.
Bruce, F.F. (1985)-The Letter of Paul to the Romans.
4. N.T. Wright - Wright enfatiza que Paulo está convocando os cristãos a um estilo
de vida contracultural. Ele argumenta que a renovação da mente ajuda a
comunidade cristã a se tornar uma alternativa ao sistema do mundo, vivendo como
uma amostra do novo reino de Deus. Para Wright, o "sacrifício vivo" é uma
chamada à adoração no dia a dia, não confinada a um espaço ou momento
específico. Wright, N.T. (2002). Paul for Everyone: Romans, Part 2.
5. John Calvin- Calvin interpreta este texto destacando a necessidade de o crente
submeter-se inteiramente a Deus, renunciando aos desejos mundanos. Para ele,
Paulo está incentivando a mortificação da carne e a entrega completa do ser a
Deus. Ele também enfatiza que a transformação da mente significa uma mudança na
compreensão que leva o crente a discernir a vontade de Deus. Calvin, J. (1960)-
Commentary on the Epistle to the Romans.
Como se vê, cada teólogo enxerga a relação entre a mente transformada e a prática
de vida como central para a compreensão e prática da vontade de Deus.
Quando é que oferecemos o nosso corpo como um sacrifício vivo a Deus?
João Crisóstomo responde: O olho não pode ver algo mau, a língua não pode dizer
nada vergonho, a mão não deve fazer nada ilegal.
Mas não basta isso: A mão precisa dar esmolas, a boca precisa abençoar, o ouvido
precisa prestar atenção sem cessar aos ensinamentos divinos.
Hernandes Dias Lopes, parafraseando o Crisóstomo, diz:
Quer saber como se oferece o corpo como sacrifício vivo e agradável a Deus?
Simples. O que você está a ver que não deveria ver? O que você está a ouvir que não
deveria ouvir? Onde você está indo que não deveria ir? O que você está fazendo que
não deveria fazer?
Mas não basta só isso. A questão é: O que você deixou de fazer que deveria fazer?
Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da
vossa mente.
Em língua portuguesa, a palavra conformar-se significa: submeter-se a alguma
coisa sem se revoltar com ela, acomodar-se, atribuir forma a determinada
coisa, configurar. Já a palavra transformar significa mudar a forma de…
Em Romanos 12:2, o termo "conformar-se" refere-se ao ato de moldar-se ou
adaptar-se aos padrões, valores e comportamentos do mundo. Materialismo e
busca desenfreada por riqueza, Comportamentos imorais, autopromoção,
Relativismo moral… são exemplos de acções, pensamentos e comportamentos de
uma sociedade sem Deus. E disso devemos fugir. Podem até nos chamar de
ultrapassados, mas os ensinamentos de Deus ainda continuam valendo para as
nossas vidas.
Transformar (do grego metamorphoō) significa uma mudança profunda e
completa, que ocorre de dentro para fora. Diferente da conformidade, que é
superficial e imposta pelo ambiente externo, a transformação é uma renovação
interior que reflete o caráter e os valores de Deus. Paulo usa essa palavra para
descrever um processo de transformação espiritual que afeta os pensamentos,
desejos, e atitudes, conduzindo a uma vida cada vez mais parecida com a de Cristo.
A forma do mundo muda todo o dia e hora. O que era certo ontem, hoje pode estar
errado. O que era moralmente reprovado ontem, amanhã pode ser aceite. O mundo é
um mar de ideologias cheio de contravalores e imoralidades! Não assuma a forma
do mundo como um camaleão que muda de cor a depender do ambiente. A tua
essência interior, precisa estar cada vez mais embasada em Cristo, Exemplo
Supremo de Moralidade e Espiritualidade. Não se permita seduzir pelas paixões
desse mundo caído! Como nova criatura, você precisa ter em atenção todas as
formas de seduções aliciantes que o mundo lhe oferece seja no trabalho, na escola,
no bairro, na sociedade de um modo geral, na internet … Diabo pode nos tentar de
diversas formas, logo basta uma pequena distração para a permissividade em relação
ao pecado e coisas inconvenientes tomar conta das nossas consciências! Depois, as
coisas não serão tão más, tão erradas, tão inúteis, tão graves assim!
Vê que quando estamos espiritualmente debilitados por causa de um distanciamento
considerável em relação a vida de oração, leitura da palavra, meditação, mais
facilmente tendemos a perder a sensibilidade ao pecado e facilmente nos movemos
na direcção do erro.
Basta uma distração da nossa parte para termos coisas claras nas escrituras como
passíveis de reinterpretação e negociações! Até pode não ser algo que
explicitamente defendemos, mas facto é que as nossas consciências, pela perda da
sensibilidade espiritual, vão tomando como normal algo grave e condenável pelas
escrituras! Por isso, precisamos cuidar da nossa mente, pois geralmente o modo
como enxergamos as coisas dita muito o modo como vivemos, afinal a vida de um
ser, é conduzida por aquilo que ele pensa, geralmente!
Portanto, há toda uma necessidade de estarmos em alerta contra todo o sistema
pervertido do mundo a fim de não nos acharmos conduzidos por elas de forma
despretensiosa, muitas vezes! Para tal, é preciso inegociar a leitura da palavra, a
oração, a meditação, a comunhão com os santos e não só, pois a transformação e
renovação das nossas mentes só se dá na medida em que tornamos esses exercícios
espirituais uma regra inegociável em nossas vidas.
A nossa carne é fraca. As vezes, através dos olhos, mente, coração, mão e língua,
vimos, pensamos, sentimos, fizemos e falamos um conjunto de coisas típicas de
quem está cada vez mais distante de Deus. Por isso é que as vezes ocupamo-nos
com discuções que não acrescentam nada em nossa fé, pois estamos cada vez mais
recebendo influência do mundo.
Ao invés de sermos sal da terra e luz do mundo, tornamo-nos candeeiros sem
combustível que com um vento o seu fogo se apaga e se molda a escuridão do
ambiente! Ao invés de influenciarmos o mundo, é o mundo que nos influencia
constante e continuamente por meio da internet, programas de TV, redes sociais…
E, como consequência, a igreja se tornou um hospital de enfermos espirituais que
nunca curam, pois nunca mostraram disposição em renovar a sua fé, propósito de
vida, confiança e esperança em Deus, antes pelo contrário, estão cada vez mais,
como um saco vazio e leve, serem arrastados pela força do vento e as ondas do mar
das ideologias deturpadas dessa vida de um lado para outro!Não é essa vida que
Deus exige de nós. Precisamos ter sede de Deus em nossos corações a fim de que a
cada dia que passa, a Sua palavra seja o fundamento da nossa vida e reflexão!