Validação do Yale Food Addiction Scale em Crianças
Validação do Yale Food Addiction Scale em Crianças
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1 1,007
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Andrea Rocha
Filgueiras1 Tradução, adaptação e validação
Ricardo de Castro
Cintra Sesso2
Viviane Bellucci
preliminar da versão em português
Almeida3
Paulo Koch Nogueira4
do questionário Yale Food Addiction
Carlos Eduardo Silva5
Ana Lydia Sawaya6
Scale para crianças de baixa renda com
excesso de peso
Translation, adaptation and preliminary validity of the Portuguese
version of the Yale Food Addiction Scale questionnaire for low
income children with overweight
> RESUMO
Objetivo: Uma quantidade crescente de evidências sugere que alimentos hiper palatáveis, ou certos ingredientes desses
alimentos, podem desencadear processos aditivos. Assim, o objetivo deste estudo foi traduzir a Escala de Dependência
Alimentar de Yale (YFAS-C) para o português, adaptá-la culturalmente para o Brasil e determinar suas propriedades
psicométricas, confiabilidade e validade de dimensões para a avaliação de crianças de baixa renda e com excesso de
peso. Métodos: Um comitê científico realizou a tradução transcultural e a validação para o português do YFAS-C e,
posteriormente, um nativo de língua inglesa retraduziu o questionário para o inglês. As propriedades psicométricas, como
a confiabilidade e a validade do construto, foram determinadas pela aplicação de YFAS-C e EAT-26 a 138 crianças com
sobrepeso (escore Z do IMC =1) de duas escolas públicas. Resultados: A confiabilidade interna foi boa (alfa de Cronbach =
0,83). A validade do construto, calculada pelo coeficiente de correlação de Spearman com o escore de bulimia do EAT-26,
apresentou um coeficiente de r = 0,212 (p = 0,013). As análises de Bartlett (x2 = 715,56, p=0,001) e Kaiser-Meyer-Olkin
(KMO = 0,79) mostraram a relevância dos itens do questionário que foram incluídos no modelo fatorial. Conclusão: A
versão em português da YFAS-C para crianças de baixa renda e com excesso de peso apresenta boa confiabilidade e
validade de constructo e parece sensível na detecção da dependência alimentar, avaliada pelos critérios de dependência
do DSM-IV.
Doutorado em Nutrição pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Mestrado em Pediatria e Ciências Aplicadas à Pediatria pela
1
6
Pós-Doutorado em Ciências da Saúde pela Tufts University e Massachusetts Institute of Technology (MIT). Doutorado e Mestrado em
Nutrição pela University of Cambridge (CAM). Mestrado em Fisiologia pela Universidade de São Paulo (USP). Docente pela Universidade
Federal de São Paulo (UNIFESP). São Paulo, SP, Brasil.
Andrea Rocha Filgueiras ([Link]@[Link] ou [Link]@[Link]) – Universidade Federal de São Paulo
(UNIFESP), Departamento de Fisiologia da Nutrição. Rua Botucatu, 862, Vila Clementino, São Paulo, SP, Brasil. CEP: 04023-062.
Submetido em 16/02/2019 - Aprovado em 08/04/2019
Adolescência & Saúde Adolesc. Saude, Rio de Janeiro, v. 16, n. 4, p. 17-22, out/dez 2019
18 TRADUÇÃO, ADAPTAÇÃO E VALIDAÇÃO PRELIMINAR DA Filgueiras et al.
VERSÃO EM PORTUGUÊS DO QUESTIONÁRIO YALE FOOD
ADDICTION SCALE PARA CRIANÇAS DE BAIXA RENDA COM
EXCESSO DE PESO
> PALAVRAS-CHAVE
Dependência Alimentar; Obesidade; Comportamento Alimentar; Criança.
> ABSTRACT
Objective: A growing amount of evidence suggests that hyper-palatable foods, or certain ingredients in these foods, may
trigger additive processes. Thus, the objective this study was to translate the Yale Food Addiction Scale (YFAS-C) into
Portuguese, culturally adapt it to Brazil, and determine its psychometric properties, reliability, and validity of dimensions
for the evaluation of low-income children overweight. Methods: A scientific committee performed the cross-cultural
translation and validation of the YFAS-C and afterward an English-speaking native retranslated the questionnaire to English.
The psychometric properties, such as the reliability and validity of the construct, were determined by the application of
YFAS-C and EAT-26 to 138 overweight children (BMI Z score =1) from two public schools. Results: Internal reliability was
good (Cronbachs alpha = 0.83). The validity of the construct, calculated by the Spearman correlation coefficient with the
bulimia score of the EAT-26, presented a coefficient of r = 0.212 (p=0.013). The Bartlett (x2=715.56, p=0.001) and Kaiser-
Meyer-Olkin (KMO=0.79) analyses showed the relevance of the questionnaire items that were included in the factorial
model. Conclusion: The Portuguese version of the YFAS-C has good reliability and construct validity and seems sensitive in
detecting food dependence, as assessed by the DSM-IV dependency criteria.
Adolesc. Saude, Rio de Janeiro, v. 16, n. 4, p. 17-22, out/dez 2019 Adolescência & Saúde
Filgueiras et al. TRADUÇÃO, ADAPTAÇÃO E VALIDAÇÃO PRELIMINAR DA 19
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ADDICTION SCALE PARA CRIANÇAS DE BAIXA RENDA COM
EXCESSO DE PESO
resultados deletérios, especialmente no que diz do IMC foi ≥1,94; 64 das crianças eram meninos
respeito às vulnerabilidades neurais e psicológicas11. e 74 meninas. Todos estavam entre o quarto e o
Portanto, é importante investigar se há realmente quinto ano do ensino fundamental e possuíam
dependência alimentar na infância e adolescência uma renda familiar per capita mínima de 0,57
e que tipos de alimentos têm maior probabilidade (≈ R$ 500,00 / US $ 157,00).
de causar dependência. As medidas antropométricas e a aplicação
Até o momento, não há estudos sobre de- dos questionários foram realizadas diretamente
pendência alimentar em crianças no Brasil ou em na escola (para mais detalhes sobre o protocolo
outros países de língua portuguesa. Portanto, o de intervenção e coleta de dados vide Patriota et
objetivo do presente estudo foi traduzir o YFAS-C al. 2017)12.
para o português, adaptá-lo culturalmente ao Brasil Para o cálculo do estado nutricional, o peso
e determinar suas propriedades psicométricas, da criança foi avaliado em balança digital portátil
confiabilidade e validade de dimensões para a ava- (marca Plenna® MEA 07400, São Paulo, Brasil) e a
liação de crianças com sobrepeso de baixa renda. estatura em estadiômetro portátil para pesquisa
de campo com precisão de 1 mm (Altura Exata®,
São Paulo, Brasil). O escore z do IMC foi calculado
> MATERIAL E MÉTODOS pelo anthroPlus (versão 1.0.4, 2009). Todos os par-
ticipantes assinaram os termos de consentimento
Primeiramente foi obtida a permissão da e consentimento.
autora principal do estudo, Ashley N. Gearhardt,
para traduzir o YFAS-C para o português. O pe- Yale Food Addiction Scale for Children (YFAS-C)
dido de validação para o português surgiu como
A YFAS-C scale contém 25 itens baseados no
parte do desenvolvimento de um protocolo de
Manual de Diagnóstico de Doenças Psiquiátricas -
intervenção para o tratamento de crianças obe-
IV (DSM-IV)14 para investigar sete critérios diagnós-
sas12, aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa
ticos que identificam a presença de dependência
da Universidade Federal de São Paulo (CAAE:
e comprometimento ou perda clínica relacionada
34,304,714,40000,5505).
à um comportamento alimentar específico. De
acordo com Ashley et al.15, foram consideradas
Participantes várias opções de pontuação, incluindo opções
O cálculo do tamanho mínimo da amostra foi dicotômicas, de frequência e da escala Likert.
realizado considerando a recomendação de Hair Os autores afirmaram que uma combinação de
et al. 201013 de pelo menos cinco respondentes pontuação dicotômica e de frequência foi a mais
para cada variável manifestada do modelo final. apropriada para capturar os critérios diagnósticos.
Considerando que 25 variáveis foram inseridas A pontuação de frequência foi usada para avaliar
no modelo final, a estimativa mínima era de 125 comportamentos que poderiam ocorrer de manei-
sujeitos. ra plausível ocasionalmente em pessoas que não
Para testar a versão dessa escala em portu- comiam problemas (ou seja, critérios associados
guês, primeiro testamos um grupo piloto com- ao consumo excessivo, alimentação emocional
posto por 10 crianças de uma escola pública com ou dieta). A pontuação dicotômica foi usada para
idades entre 9 e 11 anos e com excesso de peso perguntas consideradas mais graves e, portanto,
corporal (Índice de Massa Corporal (IMC) / Altura provavelmente indicariam problemas alimentares
≥ 1 Z Ponto). (ou seja, continuar consumindo alimentos de uma
Após a adaptação transcultural do instru- certa maneira diante de problemas emocionais ou
mento, a escala foi aplicada em 138 crianças em físicos). A escala contém instruções para concluir
duas outras escolas públicas. A média de idade da a medida que se refere especificamente ao con-
amostra foi de 9,57 anos e a média do escore Z sumo de alimentos com alto teor de gordura e
Adolescência & Saúde Adolesc. Saude, Rio de Janeiro, v. 16, n. 4, p. 17-22, out/dez 2019
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Filgueiras et al. TRADUÇÃO, ADAPTAÇÃO E VALIDAÇÃO PRELIMINAR DA 21
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EXCESSO DE PESO
máquinas automáticas foi retirada, uma vez que vo, a palavra “doente” foi substituída pela palavra
não é comum no Brasil e nem é acessível nessa “ruim” (Tabela 1). Por fim, a pergunta nº 23 não
faixa socioeconômica (Tabela 1). As perguntas 12 foi compreendida por nenhum dos dez alunos e,
e 13 usam o termo "doente", que em português portanto, foi necessário introduzir um exemplo
significa presença de uma doença. Por esse moti- para melhorar a compreensão (Tabela 1).
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Tabela 1. Avaliação da equivalência semântica e modificações feitas na versão em português do YFAS-C após consolidação
da versão em português e após a retrotradução.
Item Versão original Versão traduzida Versão retrotraduzida
When I start eating, I find it hard Quando começo a come, eu acho difícil parar
1 When I start eating, I find it hard to stop.
to stop. de comer.
I eat until my stomach hurts or Eu como até meu estômago doer ou me sentir
3 I eat until my stomach hurts or I feel sick.
I feel sick. mal.
6 I eat food all day long. Eu como o dia inteiro. I eat all day.
If I can not find a food I want, Se eu não consigo encontrar uma comida que
If I can’t find a food I want, I’ll do whatever it
I will try hard to get it (ex. ask eu quero, vou fazer de tudo para conseguir
takes to get it (for example, I ask a friend, mom,
7 a friend to get it for me, find a (por exemplo, peço a um amigo, mãe, vizinho
neighboor to go get it for me or I go out to buy it or
vending machine, sneak food pegar para mim ou saio para comprar ou pego
I get it when no one is watching).
when people aren’t looking). enquanto ninguém está vendo).
I eat food rather than do other Eu fico comendo ao invés de fazer outras coisas
I eat instead of doing other things I like (for example
8 things I like (ex. play, hang out que eu gosto (por exemplo, jogar, sair com os
play, go out with friends).
with friends). amigos).
I avoid places where I cannot eat Evito lugares onde não consigo comer a comida
11 I avoid places where I can’t eat what I want.
the food I want. que eu quero.
When I do not eat certain foods, I Quando eu não como certos alimentos, sinto-
12 When I don’t eat certain foods I get upset or bad.
feel upset or sick. me chateado ou mal.
I eat certain foods to stop from Eu como certos alimentos para parar de me
13 I eat certain foods to stop feeling upset or bad.
feeling upset or sick. sentir chateado ou mal.
continua
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Filgueiras et al. TRADUÇÃO, ADAPTAÇÃO E VALIDAÇÃO PRELIMINAR DA 23
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EXCESSO DE PESO
continuação da tabela 1
I want to cut down or stop eating Eu quero reduzir ou parar de comer certos
17 I want to restrict or stop eating certain foods.
certain foods. alimentos.
How often do you try to cut Com que frequência você tentou reduzir certos How often have you tried or do you try to restrict
18
down on certain foods? alimentos? certain foods?
The way I eat has made me feel A maneira como eu como faz eu me sentir
19 The way I eat makes me feel sad, nervous or guilty.
sad, nervous, or guilty. triste, nervosa (o) ou culpada(o).
I eat in the same way even Eu continuo comendo do mesmo jeito apesar I keep eating the same way despite the problems it
21
though it is causing problems. dos problemas que me causa. causes me.
I try to cut down or stop eating Eu tento reduzir ou parar de comer certos
24 I try to restrict or stop eating certain foods.
certain foods. alimentos.
O comitê científico e o pesquisador que apli- português do Brasil foi decidido que a melhor
cou o questionário VP2 com o objetivo de corrigir opção seria ler o questionário em voz alta para
as dificuldades de compreensão encontradas pelos o aluno durante uma entrevista pessoal, porque
alunos nas versões VP1 e VP2 elaboraram uma nova os estudantes de baixa renda dessa faixa etária
versão (VP3). A versão VP3 foi então submetida dificuldade em entender um texto escrito, apesar
a um tradutor nativo da língua inglesa com pro- de ser considerado alfabetizado. O questionário foi
ficiência na língua portuguesa, que era ingênuo aplicado com a leitura oral das questões e eventual
em relação ao experimento, para obter a versão esclarecimento do significado das mesmas. O ques-
de retro tradução (BT). Após a preparação do BT, tionário aplicado dessa maneira levou uma média
o comitê científico fez a comparação do BT e da de 10 minutos para ser totalmente respondido.
versão original em inglês. Essa nova avaliação per-
mitiu confirmar que a adaptação transcultural do Confiabilidade e validade convergentes
instrumento era equivalente gramatical e seman- Para o estudo de confiabilidade e validade, o
ticamente à versão original em inglês (Tabela 1). questionário YFAS-C foi aplicado no mesmo dia do
A versão original em inglês foi projetada para EAT-26. O coeficiente de correlação de Spearman
ser autoaplicável, enquanto que para a versão em foi utilizado para avaliar a validade convergente.
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> ANÁLISE ESTATÍSTICA respostas nunca (0), raramente (1) e às vezes (2).
Os coeficientes de correlação corrigidos para cada
Uma análise descritiva e inferencial foi rea- item estavam em torno do valor de critério de 0,30,
lizada no programa estatístico SPSS (Statistical exceto os itens 17 ("Quero reduzir ou parar de co-
Package for the Social Sciences), versão 21.0. Para mer certos alimentos"), 18 ("Com que frequência
verificar a confiabilidade da consistência inter- você tentou reduzir determinados alimentos?") e
na para toda a escala e para os itens excluídos, 25 (“Eu sou capaz de reduzir ou parar de comer
foi utilizado o coeficiente alfa de Cronbach e o certos alimentos"), que apresentaram coeficientes
critério de Nunnally18 foi adotado: ≥ 0,70 in- de correlação mais baixos. Esses três itens per-
dica "aceitável" e ≥ 0,80 indica "bom". Para a tencem ao mesmo grupo de sintomas, descrito
análise convergência do instrumento foi utilizado como "desejo persistente ou um esforço infrutífero
o coeficiente de correlação de Spearman com para reduzir ou controlar o uso de substâncias".
o escore de bulimia da escala EAT-26. Os testes Quando esses três itens foram removidos, o valor
de esfericidade de Bartlett e Kaiser-Meyer-Olkin de alfa de Cronbach permaneceu semelhante à
(KMO) foram realizados para avaliar a adequação análise geral de todos os outros itens. A remoção
da amostragem para a análise fatorial das variá- específica do item 18 aumentou o valor do alfa
veis. Posteriormente, a análise fatorial exploratória de Cronbach para 0,85.
foi realizada extraindo o componente principal
com rotação Varimax. Cargas fatoriais iguais ou Análise fatorial
superiores a 0,3 foram consideradas satisfatórias19. A análise fatorial exploratória (Tabela 3) foi
Para todas as análises, valores de p <0,05 foram realizada com 21 itens dos 25 itens da escala. As
considerados estatisticamente significantes. seguintes perguntas não foram pontuadas, mas
foram niveladoras das perguntas: # 19, # 20 e #
24. O teste de esfericidade de Bartlett foi alta-
> RESULTADOS mente significativo (valor = 715,56, p <0,001) e
o Kaiser-Meyer-Olkin teste (KMO) mostrou um
Análise descritiva e confiabilidade
valor de 0,79, indicando também que a matriz de
O número médio de sintomas encontrados correlação foi adequada para a análise fatorial. A
foi de 3,46 (DP = 1,90) para ambos os sexos. Para primeira coluna da tabela 3 apresentou a carga
os meninos, o número médio de sintomas foi de fatorial de cada item considerando um modelo de
3,27 (DP = 1,83) e para as meninas de 3,64 (DP fator único (estrutura de 1 fator). Os itens 17, 18,
= 1,96); não houve diferença significativa entre os 21, 23 e 25 apresentaram carga fatorial inferior ao
sexos. A porcentagem de dependência foi de 24% valor do critério de 0,30. Quando esses itens foram
na amostra total (n = 138), onde a dependência é excluídos, o valor do alfa de Cronbach aumentou.
indicada ao marcar três ou mais sintomas que acar- A análise fatorial sem um número fixo de
retem mais dificuldade ou prejuízo clínico. Entre fatores gerou uma solução de sete dimensões,
os estudantes dependências, 59% eram meninas como no artigo original; no entanto, o exame
e 41% meninos. A consistência interna obtida com de screeplot (Figura 2) e a interpretabilidade dos
o alfa de Cronbach indicou valores de 0,83 para fatores indicaram que uma solução de dois fato-
toda a amostra (variando de 0,81 a 0,85 para as res seria uma estrutura adequada para explicar
questões individuais) e = 0,83 e = 0,84 para os dados (Tabela 3, colunas 2 e 3). O primeiro
meninos e meninas, respectivamente (Tabela 2). fator compreendeu 25,55% da variância com um
A Tabela 2 mostra a mediana das respostas de valor próprio de 5,37. Esse fator abrange todos
cada item do YFAS-C, os coeficientes de correlação os sete sintomas que descrevem a dependência
total do item corrigido e os alfas de Cronbach, alimentar (18 perguntas) e teve boa consistência
se o item foi excluído. A mediana ficou entre as interna, com um valor alfa de Cronbach de 0,85.
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Filgueiras et al. TRADUÇÃO, ADAPTAÇÃO E VALIDAÇÃO PRELIMINAR DA 25
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O segundo fator foi composto por 4 itens dos 0,23, indicando baixo nível de consistência interna,
sintomas A e D e apresentou 7,45% da variância, provavelmente devido ao baixo número de itens.
um autovalor de 1,57 e um alfa de Cronbach de
Tabela 2. YFAS - Mediana das crianças (M) das respostas a itens individuais, correlação item-total e consistência
interna (alfa de Cronbach) se o item for excluído.
corrigida excluído
1) When I start eating, I �ind it hard to stop. (Quando começo a comer, eu acho di�ícil parar de comer.) 2 0,42 0,82
2) I eat food even when I am not hungry. (Eu como mesmo quando não estou com fome.) 1 0,39 0,82
3) I eat until my stomach hurts or I feel sick. (Eu como até meu estômago doer ou me sentir mal.) 0 0,34 0,82
4) I worry about eating too much food. (Eu me preocupo quando como demais.) 1 0,36 0,82
5) I feel tired a lot because I eat too much. (Eu me sinto cansada(o) por comer demais.) 1 0,42 0,82
6) I eat food all day long. (Eu como o dia inteiro.) 2 0,51 0,81
7) If I can not �ind a food I want, I will try hard to get it (ex. ask a friend to get it for me, �ind a vending machine,
sneak food when people aren’t looking). (Se eu não consigo encontrar uma comida que eu quero, vou fazer de
2 0,52 0,81
tudo para conseguir (por exemplo, peço a um amigo, mãe, vizinho pegar para mim ou saio para comprar ou pego
8) I eat food rather than do other things I like (ex. play, hang out with friends). (Eu �ico comendo ao invés de fazer
1 0,5 0,81
outras coisas que eu gosto (por exemplo, jogar, sair com os amigos).)
continua
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EXCESSO DE PESO
continuação da tabela 2
9) I eat so much that I feel bad afterwards. I feel so bad that I do not do things I like (ex. play, hang out with
friends). (Eu como tanto que me sinto mal depois. Sinto-me tão mal que não faço coisas que eu gosto (por 1 0,57 0,81
10) I avoid places that have a lot of food, because I might eat too much. (Eu evito lugares que têm muita comida,
1 0,46 0,82
porque eu posso comer demais.)
11) I avoid places where I cannot eat the food I want. (Evito lugares onde não consigo comer a comida que eu
0 0,5 0,81
quero.)
12) When I do not eat certain foods, I feel upset or sick. (Quando eu não como certos alimentos, sinto-me
1 0,46 0,82
chateado ou mal.)
13) I eat certain foods to stop from feeling upset or sick. (Eu como certos alimentos para parar de me sentir
1 0,43 0,82
chateado ou mal.)
14) When I cut down or stop eating certain foods I crave them a lot more. (Quando diminuo ou paro de comer
2 0,59 0,81
certos alimentos, passo a querer muito mais ele.)
15) The way I eat makes me really unhappy. (A maneira como eu como me deixa infeliz.) 0 0,55 0,81
16) The way I eat causes me problems. (ex. problems at school, with my parents, with my friends). (A maneira
1 0,57 0,81
como eu me alimento me causa problemas. (Ex. problemas na escola, com meus pais, com meus amigos).
17) I want to cut down or stop eating certain foods. (Eu quero reduzir ou parar de comer certos alimentos.) 1 0,08 0,83
18)How often do you try to cut down on certain foods? (Com que frequência você tentou reduzir certos
2 -0,4 0,85
alimentos?)
19) The way I eat has made me feel sad, nervous, or guilty. (A maneira como eu como faz eu me sentir triste,
- - -
nervosa (o) ou culpada(o).
20)The way I eat has made me unhealthy. (A maneira como eu me alimento tem me deixado doente. ) - - -
21) I eat in the same way even though it is causing problems. (Eu continuo comendo do mesmo jeito apesar dos
0 0,21 0,83
problemas que me causa.)
22) I need to eat more to get the good feelings I want. (ex. feel happy, calm, relaxed) (Eu preciso comer mais para
0 0,28 0,82
me sentir bem. (Ex sente-se feliz, calma e relaxada).
23) When I eat the same amount of food, I do not feel good the way I used to. (ex. feel happy, calm, relaxed)
(Quando eu como a mesma quantidade de comida que comia antes, eu não me sinto bem do jeito que costumava
1 0,27 0,82
sentir. (Ex um alimento que você gosta muito, você comia uma quantidade e já �icava bem, agora precisa comer
24) I try to cut down or stop eating certain foods. (Eu tento reduzir ou parar de comer certos alimentos.) - - -
25) I am able to cut down on certain foods. (Eu sou capaz de reduzir ou parar de comer certos alimentos.) 1 -0,4 0,83
Tabela 3. Análise fatorial com rotação varimax com fator 1 e 2 da versão em português da YFAS-C.
Sintoma A: Tolerância
continua
Adolesc. Saude, Rio de Janeiro, v. 16, n. 4, p. 17-22, out/dez 2019 Adolescência & Saúde
Filgueiras et al. TRADUÇÃO, ADAPTAÇÃO E VALIDAÇÃO PRELIMINAR DA 27
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EXCESSO DE PESO
continuação da tabela 3
Sintoma B: Abstinência
Prejuízo clínico
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28 TRADUÇÃO, ADAPTAÇÃO E VALIDAÇÃO PRELIMINAR DA Filgueiras et al.
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EXCESSO DE PESO
a validade do diagnóstico, uma vez que os sinto- lise fatorial para os critérios dicotômicos sustentam
mas representam os critérios de diagnóstico para o uso dos critérios do DSM-IV para dependência
dependência de acordo com o DSM-IV. de substâncias nas áreas de comportamento ali-
A análise fatorial com a solução de dois fatores mentar e dependência alimentar. Nossos resultados
apresentou-se como uma estrutura bastante ade- suportam a confiabilidade adequada do conceito
quada para explicar os resultados. Nesse modelo, o de dependência alimentar, conforme avaliado pelos
item 21 apresentou baixo coeficiente de correlação, critérios de dependência do DSM-IV. Em nosso
mas com uma carga fatorial melhor do que quando estudo, encontramos uma taxa de prevalência
utilizado o modelo de fator único e mais próximo de dependência alimentar menor do que um es-
do valor de referência de 0,30. Esse baixo valor tudo americano, com uma prevalência de 38%,
não foi atribuído a problemas de tradução, pois realizado em uma amostra clínica com crianças e
foi feito estritamente para garantir a equivalência adolescentes com excesso de peso7.
entre os idiomas e, portanto, pode ser possível que Embora o presente estudo apresente uma
houvesse dificuldade de entendimento para essa ferramenta importante para a prevenção e trata-
faixa etária e classe socioeconômica. mento da obesidade infantil, existem limitações
Por fim, os dois modelos de análise fatorial a serem consideradas. Primeiramente, o estudo
apontam para o mesmo resultado e sugerem a foi realizado com uma amostra composta apenas
exclusão de alguns itens com baixo coeficiente de por estudantes de baixa renda e, portanto, de
correlação. No entanto, optamos por não excluir escolas públicas onde o ensino é mais precário e a
nenhum item. A análise fatorial indica quanto compreensão dos itens mais difícil. Outra limitação
um item explica a variável ou dimensão e busca foi a falta de outros instrumentos para detectar
reduzir os itens do instrumento, portanto, itens distúrbios de desejo ou abstinência, permitindo
com o menor coeficiente de correlação de 0,30 uma comparação mais ampla do que o EAT-26.
são sugestivos de exclusão. No entanto, o objetivo Esperamos que a atual validação da escala
do nosso estudo não foi reconstruir o instrumento, YFAS-C permita mais pesquisas entre a população
mas validá-lo para uso no Brasil e nos oito países mundial de língua portuguesa, além de aumentar
de língua portuguesa (250 milhões de pessoas). o conhecimento sobre dependência alimentar.
Os altos fatores de carga evidenciados na aná-
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30 TRADUÇÃO, ADAPTAÇÃO E VALIDAÇÃO PRELIMINAR DA Filgueiras et al.
VERSÃO EM PORTUGUÊS DO QUESTIONÁRIO YALE FOOD
ADDICTION SCALE PARA CRIANÇAS DE BAIXA RENDA COM
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