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Validação do Yale Food Addiction Scale em Crianças

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net/publication/340006322

Tradução, adaptação e validação preliminar da versão em português do


questionário Yale Food Addiction Scale para crianças de baixa renda com
excesso de peso

Article · April 2019

CITATION READS

1 1,007

6 authors, including:

Andrea Filgueiras Ricardo Sesso


Universidade Federal de São Paulo Universidade Federal de São Paulo
13 PUBLICATIONS 81 CITATIONS 251 PUBLICATIONS 6,340 CITATIONS

SEE PROFILE SEE PROFILE

Paulo Cesar Koch Nogueira Ana L Sawaya


Universidade Federal de São Paulo Universidade Federal de São Paulo
116 PUBLICATIONS 1,671 CITATIONS 121 PUBLICATIONS 4,171 CITATIONS

SEE PROFILE SEE PROFILE

Some of the authors of this publication are also working on these related projects:

epidemiology of chronic kidney disease View project

Effectiveness of a 16-month View project

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ARTIGO ORIGINAL
17

Andrea Rocha
Filgueiras1 Tradução, adaptação e validação
Ricardo de Castro
Cintra Sesso2
Viviane Bellucci
preliminar da versão em português
Almeida3
Paulo Koch Nogueira4
do questionário Yale Food Addiction
Carlos Eduardo Silva5
Ana Lydia Sawaya6
Scale para crianças de baixa renda com
excesso de peso
Translation, adaptation and preliminary validity of the Portuguese
version of the Yale Food Addiction Scale questionnaire for low
income children with overweight

> RESUMO
Objetivo: Uma quantidade crescente de evidências sugere que alimentos hiper palatáveis, ou certos ingredientes desses
alimentos, podem desencadear processos aditivos. Assim, o objetivo deste estudo foi traduzir a Escala de Dependência
Alimentar de Yale (YFAS-C) para o português, adaptá-la culturalmente para o Brasil e determinar suas propriedades
psicométricas, confiabilidade e validade de dimensões para a avaliação de crianças de baixa renda e com excesso de
peso. Métodos: Um comitê científico realizou a tradução transcultural e a validação para o português do YFAS-C e,
posteriormente, um nativo de língua inglesa retraduziu o questionário para o inglês. As propriedades psicométricas, como
a confiabilidade e a validade do construto, foram determinadas pela aplicação de YFAS-C e EAT-26 a 138 crianças com
sobrepeso (escore Z do IMC =1) de duas escolas públicas. Resultados: A confiabilidade interna foi boa (alfa de Cronbach =
0,83). A validade do construto, calculada pelo coeficiente de correlação de Spearman com o escore de bulimia do EAT-26,
apresentou um coeficiente de r = 0,212 (p = 0,013). As análises de Bartlett (x2 = 715,56, p=0,001) e Kaiser-Meyer-Olkin
(KMO = 0,79) mostraram a relevância dos itens do questionário que foram incluídos no modelo fatorial. Conclusão: A
versão em português da YFAS-C para crianças de baixa renda e com excesso de peso apresenta boa confiabilidade e
validade de constructo e parece sensível na detecção da dependência alimentar, avaliada pelos critérios de dependência
do DSM-IV.

Doutorado em Nutrição pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Mestrado em Pediatria e Ciências Aplicadas à Pediatria pela
1

Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). São Paulo, SP, Brasil.


2
Pós-Doutorado em Ciências da Saúde pela Johns Hopkins University (JHU) e pela University of Pennsylvania (UPENN). Doutorado e
Mestrado em Medicina (Nefrologia) pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Mestrado em Epidemiologia pela University of
Pennsylvania (UPENN). Docente pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). São Paulo, SP, Brasil.
3
Doutoranda em Nutrição pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Mestrado em Ciências (Alimentos, Nutrição e Saúde) pela
Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Docente pela Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU SP). São Paulo, SP, Brasil.
4
Pós-Doutorado em Pediatria pela Universidade Claude Bernard Lyon (ULB). Doutorado e Mestrado em Pediatria e Ciências Aplicadas à
Pediatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Docente pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). São Paulo, SP,
Brasil.
Mestrando em Nutrição pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). São Paulo, SP, Brasil.
5

6
Pós-Doutorado em Ciências da Saúde pela Tufts University e Massachusetts Institute of Technology (MIT). Doutorado e Mestrado em
Nutrição pela University of Cambridge (CAM). Mestrado em Fisiologia pela Universidade de São Paulo (USP). Docente pela Universidade
Federal de São Paulo (UNIFESP). São Paulo, SP, Brasil.
Andrea Rocha Filgueiras ([Link]@[Link] ou [Link]@[Link]) – Universidade Federal de São Paulo
(UNIFESP), Departamento de Fisiologia da Nutrição. Rua Botucatu, 862, Vila Clementino, São Paulo, SP, Brasil. CEP: 04023-062.
Submetido em 16/02/2019 - Aprovado em 08/04/2019

Adolescência & Saúde Adolesc. Saude, Rio de Janeiro, v. 16, n. 4, p. 17-22, out/dez 2019
18 TRADUÇÃO, ADAPTAÇÃO E VALIDAÇÃO PRELIMINAR DA Filgueiras et al.
VERSÃO EM PORTUGUÊS DO QUESTIONÁRIO YALE FOOD
ADDICTION SCALE PARA CRIANÇAS DE BAIXA RENDA COM
EXCESSO DE PESO

> PALAVRAS-CHAVE
Dependência Alimentar; Obesidade; Comportamento Alimentar; Criança.

> ABSTRACT
Objective: A growing amount of evidence suggests that hyper-palatable foods, or certain ingredients in these foods, may
trigger additive processes. Thus, the objective this study was to translate the Yale Food Addiction Scale (YFAS-C) into
Portuguese, culturally adapt it to Brazil, and determine its psychometric properties, reliability, and validity of dimensions
for the evaluation of low-income children overweight. Methods: A scientific committee performed the cross-cultural
translation and validation of the YFAS-C and afterward an English-speaking native retranslated the questionnaire to English.
The psychometric properties, such as the reliability and validity of the construct, were determined by the application of
YFAS-C and EAT-26 to 138 overweight children (BMI Z score =1) from two public schools. Results: Internal reliability was
good (Cronbachs alpha = 0.83). The validity of the construct, calculated by the Spearman correlation coefficient with the
bulimia score of the EAT-26, presented a coefficient of r = 0.212 (p=0.013). The Bartlett (x2=715.56, p=0.001) and Kaiser-
Meyer-Olkin (KMO=0.79) analyses showed the relevance of the questionnaire items that were included in the factorial
model. Conclusion: The Portuguese version of the YFAS-C has good reliability and construct validity and seems sensitive in
detecting food dependence, as assessed by the DSM-IV dependency criteria.

> KEY WORDS


Food Addiction; Obesity; Feeding Behavior; Child.

> INTRODUÇÃO alguns estudos sobre dependência alimentar são


focados em crianças7.
A obesidade infantil tem sido o foco de muitos Atualmente, o único instrumento com vali-
estudos em todo o mundo nas últimas décadas. dade psicométrica comprovada para dependência
A epidemia global da obesidade fez com que os alimentar em crianças é o Yale Food Addiction Scale
pesquisadores se concentrassem em descobrir for children (YFAS-C)2,8, que foi adaptado e valida-
e entender as consequências físicas e psicológi- do a partir da versão adulta em 20139. A YFAS-C
cas, além de identificar os fatores que levam ao avalia os mesmos sintomas que o YFAS original,
ganho de peso e perturbar os comportamentos mas com terminologia de leitura mais simples e
alimentares1–3. Uma quantidade crescente de evi- perguntas reformuladas, para ser mais facilmen-
dências sugere que alimentos altamente palatáveis te compreendido por crianças e adolescentes,
ou alguns ingredientes nesses alimentos, podem por exemplo, contendo referências como escola,
desencadear um processo aditivo4. O termo 'de- colegas e pais4.
pendência alimentar' é usado na comunidade A importância de sua validação para a língua
científica há décadas e refere-se a comportamentos portuguesa decorre do fato de estudos no Brasil
alimentares que envolvem consumo excessivo de terem relatado a crescente associação entre fa-
alimentos específicos de maneira semelhante a tores ambientais e comportamentais e aumento
uma dependência3,4. A associação entre compor- da adiposidade.7,10 E entre os fatores ambientais
tamentos de dependência com alguns alimentos mais característicos relatados estão a ingestão
foi relatada em uma revista científica em 1890, de dietas ricas em gordura e açúcar e pobres em
quando o chocolate foi apontado como alimento fibras, vitaminas e minerais. Embora os alimentos
com potencial para desencadear comportamentos hiper-palatáveis possam ter um potencial viciante
de dependência5,6. Desde então, os esforços para menor do que outras substâncias, o consumo
entender e verificar a existência de dependência repetido desses alimentos no início do desen-
alimentar têm se concentrado nos adultos5, apenas volvimento da criança pode aumentar o risco de

Adolesc. Saude, Rio de Janeiro, v. 16, n. 4, p. 17-22, out/dez 2019 Adolescência & Saúde
Filgueiras et al. TRADUÇÃO, ADAPTAÇÃO E VALIDAÇÃO PRELIMINAR DA 19
VERSÃO EM PORTUGUÊS DO QUESTIONÁRIO YALE FOOD
ADDICTION SCALE PARA CRIANÇAS DE BAIXA RENDA COM
EXCESSO DE PESO

resultados deletérios, especialmente no que diz do IMC foi ≥1,94; 64 das crianças eram meninos
respeito às vulnerabilidades neurais e psicológicas11. e 74 meninas. Todos estavam entre o quarto e o
Portanto, é importante investigar se há realmente quinto ano do ensino fundamental e possuíam
dependência alimentar na infância e adolescência uma renda familiar per capita mínima de 0,57
e que tipos de alimentos têm maior probabilidade (≈ R$ 500,00 / US $ 157,00).
de causar dependência. As medidas antropométricas e a aplicação
Até o momento, não há estudos sobre de- dos questionários foram realizadas diretamente
pendência alimentar em crianças no Brasil ou em na escola (para mais detalhes sobre o protocolo
outros países de língua portuguesa. Portanto, o de intervenção e coleta de dados vide Patriota et
objetivo do presente estudo foi traduzir o YFAS-C al. 2017)12.
para o português, adaptá-lo culturalmente ao Brasil Para o cálculo do estado nutricional, o peso
e determinar suas propriedades psicométricas, da criança foi avaliado em balança digital portátil
confiabilidade e validade de dimensões para a ava- (marca Plenna® MEA 07400, São Paulo, Brasil) e a
liação de crianças com sobrepeso de baixa renda. estatura em estadiômetro portátil para pesquisa
de campo com precisão de 1 mm (Altura Exata®,
São Paulo, Brasil). O escore z do IMC foi calculado
> MATERIAL E MÉTODOS pelo anthroPlus (versão 1.0.4, 2009). Todos os par-
ticipantes assinaram os termos de consentimento
Primeiramente foi obtida a permissão da e consentimento.
autora principal do estudo, Ashley N. Gearhardt,
para traduzir o YFAS-C para o português. O pe- Yale Food Addiction Scale for Children (YFAS-C)
dido de validação para o português surgiu como
A YFAS-C scale contém 25 itens baseados no
parte do desenvolvimento de um protocolo de
Manual de Diagnóstico de Doenças Psiquiátricas -
intervenção para o tratamento de crianças obe-
IV (DSM-IV)14 para investigar sete critérios diagnós-
sas12, aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa
ticos que identificam a presença de dependência
da Universidade Federal de São Paulo (CAAE:
e comprometimento ou perda clínica relacionada
34,304,714,40000,5505).
à um comportamento alimentar específico. De
acordo com Ashley et al.15, foram consideradas
Participantes várias opções de pontuação, incluindo opções
O cálculo do tamanho mínimo da amostra foi dicotômicas, de frequência e da escala Likert.
realizado considerando a recomendação de Hair Os autores afirmaram que uma combinação de
et al. 201013 de pelo menos cinco respondentes pontuação dicotômica e de frequência foi a mais
para cada variável manifestada do modelo final. apropriada para capturar os critérios diagnósticos.
Considerando que 25 variáveis foram inseridas A pontuação de frequência foi usada para avaliar
no modelo final, a estimativa mínima era de 125 comportamentos que poderiam ocorrer de manei-
sujeitos. ra plausível ocasionalmente em pessoas que não
Para testar a versão dessa escala em portu- comiam problemas (ou seja, critérios associados
guês, primeiro testamos um grupo piloto com- ao consumo excessivo, alimentação emocional
posto por 10 crianças de uma escola pública com ou dieta). A pontuação dicotômica foi usada para
idades entre 9 e 11 anos e com excesso de peso perguntas consideradas mais graves e, portanto,
corporal (Índice de Massa Corporal (IMC) / Altura provavelmente indicariam problemas alimentares
≥ 1 Z Ponto). (ou seja, continuar consumindo alimentos de uma
Após a adaptação transcultural do instru- certa maneira diante de problemas emocionais ou
mento, a escala foi aplicada em 138 crianças em físicos). A escala contém instruções para concluir
duas outras escolas públicas. A média de idade da a medida que se refere especificamente ao con-
amostra foi de 9,57 anos e a média do escore Z sumo de alimentos com alto teor de gordura e

Adolescência & Saúde Adolesc. Saude, Rio de Janeiro, v. 16, n. 4, p. 17-22, out/dez 2019
20 TRADUÇÃO, ADAPTAÇÃO E VALIDAÇÃO PRELIMINAR DA Filgueiras et al.
VERSÃO EM PORTUGUÊS DO QUESTIONÁRIO YALE FOOD
ADDICTION SCALE PARA CRIANÇAS DE BAIXA RENDA COM
EXCESSO DE PESO

açúcar. Para a opção de pontuação de contagem


Teste de atitudes alimentares – EAT - 26
de sintomas, o número de sintomas endossados
foi somado (intervalo de 0 a 7). Para a medida Este questionário foi desenvolvido original-
dicotômica, os participantes que relataram três ou mente para medir comportamentos alimentares
mais sintomas e comprometimento ou angústia desordenados que eram comumente observados
clinicamente significativos (que é análogo aos re- em pacientes com anorexia nervosa. O instru-
quisitos de diagnóstico de dependência de subs- mento gera uma pontuação entre 0 e 78 e possui
tâncias no DSM-IV)14 foram considerados como três dimensões: dieta (0 - 39); bulimia (0-18) e
tendo cumprido os critérios de diagnóstico de preocupação com alimentos e controle oral (0-
dependência alimentar. 21). O comportamento alimentar é considerado
Os sintomas que caracterizam os critérios alterado, ou seja, existe uma tendência a desen-
para o diagnóstico de dependência são: (A) tole- volver distúrbios alimentares, especificamente
rância, conforme definido por: 1) necessidade de anorexia, quando a pontuação atinge ou excede
quantidades marcadamente aumentadas da subs- 20 pontos16. O Teste de atitudes alimentares em
tância para obter intoxicação ou efeito desejado, crianças foi aplicado exatamente da mesma forma
ou 2) efeito acentuadamente reduzido com o uso que a YFAS-C.
continuado da mesma quantidade da substância;
(B) abstinência, manifestada por: 1) síndrome ca- Tradução, adaptação e retrotradução da YFAS-C
racterística de abstinência da substância, ou 2) As recomendações de Beaton et al.17 foram
quando a mesma substância (ou intimamente seguidas para estabelecer a equivalência cultural da
relacionada) é tomada para aliviar ou evitar os versão original em inglês do questionário YFAS-C
sintomas de abstinência; ou (C) tomar a subs- (Figura 1). Dois profissionais de saúde com profi-
tância frequentemente em quantidades maiores ciência na língua inglesa trabalharam inicialmente
ou por um período maior do que o pretendido; independentes entre si na primeira tradução do
(D) desejo persistente ou esforço mal sucedido questionário para a língua portuguesa (Figura 1).
de reduzir ou controlar o uso de substâncias; (E) Um dos profissionais era ingênuo ao propósito da
dedicar muito tempo às atividades necessárias tradução e o outro estava ciente do objetivo do
para obter ou usar a substância ou recuperar-se instrumento e aplicação. Isso resultou em duas
de seus efeitos; (F) desistir de atividades sociais, versões diferentes, que foram comparadas poste-
ocupacionais ou recreativas por causa do uso de riormente para produzir a versão consensual final
substâncias; e (G) continuar usando a substância no idioma português do Brasil (VP1). Essa versão
com o conhecimento de que está causando ou foi submetida a um comitê de especialistas cujos
agravando um problema físico ou psicológico membros eram todos fluentes em inglês, com-
persistente ou recorrente. postos por dois médicos (nefrologista e pediatra),
O questionário foi aplicado simultaneamente dois nutricionistas (mestrado em nutrição) e o
em duas crianças por um único entrevistador. As pesquisador que liderou a intervenção do estudo
crianças foram separadas para que não pudessem (o primeiro autor). Uma nova versão (VP2) foi
se ver e foram instruídas a não ler suas respostas em construída após a análise e consenso do comitê.
voz alta. As crianças receberam os questionários e A VP2 versão foi testada (pelo mesmo pesqui-
uma caneta para marcar suas respostas. As linhas sador) em um grupo piloto de 10 estudantes. O
foram alternadas com fundo branco e cinza para objetivo dessa etapa de validação do instrumento
facilitar o acompanhamento das crianças e não foi verificar o entendimento geral das questões.
marcar a resposta na pergunta errada. O entre- Os alunos apresentaram dificuldades nas seguintes
vistador leu cada pergunta enquanto as crianças perguntas: # 7, # 12, # 13 e # 23. Um exemplo
acompanhavam a leitura em seus próprios ques- foi adicionado à pergunta # 7 para melhor com-
tionários. A aplicação durou cerca de 15 minutos. preensão. A opção de compra de alimentos em

Adolesc. Saude, Rio de Janeiro, v. 16, n. 4, p. 17-22, out/dez 2019 Adolescência & Saúde
Filgueiras et al. TRADUÇÃO, ADAPTAÇÃO E VALIDAÇÃO PRELIMINAR DA 21
VERSÃO EM PORTUGUÊS DO QUESTIONÁRIO YALE FOOD
ADDICTION SCALE PARA CRIANÇAS DE BAIXA RENDA COM
EXCESSO DE PESO

Figura 1. Descrição do processo de tradução transcultural do YFAS-C.

máquinas automáticas foi retirada, uma vez que vo, a palavra “doente” foi substituída pela palavra
não é comum no Brasil e nem é acessível nessa “ruim” (Tabela 1). Por fim, a pergunta nº 23 não
faixa socioeconômica (Tabela 1). As perguntas 12 foi compreendida por nenhum dos dez alunos e,
e 13 usam o termo "doente", que em português portanto, foi necessário introduzir um exemplo
significa presença de uma doença. Por esse moti- para melhorar a compreensão (Tabela 1).

Adolescência & Saúde Adolesc. Saude, Rio de Janeiro, v. 16, n. 4, p. 17-22, out/dez 2019
22 TRADUÇÃO, ADAPTAÇÃO E VALIDAÇÃO PRELIMINAR DA Filgueiras et al.
VERSÃO EM PORTUGUÊS DO QUESTIONÁRIO YALE FOOD
ADDICTION SCALE PARA CRIANÇAS DE BAIXA RENDA COM
EXCESSO DE PESO

Tabela 1. Avaliação da equivalência semântica e modificações feitas na versão em português do YFAS-C após consolidação
da versão em português e após a retrotradução.
Item Versão original Versão traduzida Versão retrotraduzida

When I start eating, I find it hard Quando começo a come, eu acho difícil parar
1 When I start eating, I find it hard to stop.
to stop. de comer.

I eat food even when I am not


2 Eu como mesmo quando não estou com fome. I eat even when I’m not hungry.
hungry.

I eat until my stomach hurts or Eu como até meu estômago doer ou me sentir
3 I eat until my stomach hurts or I feel sick.
I feel sick. mal.

I worry about eating too much


4 Eu me preocupo quando como demais. I worry about eating too much food.
food.

I feel tired a lot because I eat


5 Eu me sinto cansada(o) por comer demais. I feel tired for eating too much.
too much.

6 I eat food all day long. Eu como o dia inteiro. I eat all day.

If I can not find a food I want, Se eu não consigo encontrar uma comida que
If I can’t find a food I want, I’ll do whatever it
I will try hard to get it (ex. ask eu quero, vou fazer de tudo para conseguir
takes to get it (for example, I ask a friend, mom,
7 a friend to get it for me, find a (por exemplo, peço a um amigo, mãe, vizinho
neighboor to go get it for me or I go out to buy it or
vending machine, sneak food pegar para mim ou saio para comprar ou pego
I get it when no one is watching).
when people aren’t looking). enquanto ninguém está vendo).

I eat food rather than do other Eu fico comendo ao invés de fazer outras coisas
I eat instead of doing other things I like (for example
8 things I like (ex. play, hang out que eu gosto (por exemplo, jogar, sair com os
play, go out with friends).
with friends). amigos).

I eat so much that I feel bad


Eu como tanto que me sinto mal depois. Sinto- I eat so much that I feel sick afterwards. I feel so sick
afterwards. I feel so bad that I
9 me tão mal que não faço coisas que eu gosto that I don’t do things I enjoy (for example play or go
do not do things I like (ex. play,
(por exemplo, brincar, sair com amigos). out with friends).
hang out with friends).

I avoid places that have a lot of


Eu evito lugares que têm muita comida, porque I avoid places with too much food because I might
10 food, because I might eat too
eu posso comer demais. eat too much.
much.

I avoid places where I cannot eat Evito lugares onde não consigo comer a comida
11 I avoid places where I can’t eat what I want.
the food I want. que eu quero.

When I do not eat certain foods, I Quando eu não como certos alimentos, sinto-
12 When I don’t eat certain foods I get upset or bad.
feel upset or sick. me chateado ou mal.

I eat certain foods to stop from Eu como certos alimentos para parar de me
13 I eat certain foods to stop feeling upset or bad.
feeling upset or sick. sentir chateado ou mal.

When I cut down or stop eating


Quando diminuo ou paro de comer certos When I restrict or stop eating certain foods, I start
14 certain foods I crave them a lot
alimentos, passo a querer muito mais ele. wanting them even more.
more.

The way I eat makes me really


15 A maneira como eu como me deixa infeliz. The way I eat makes me unhappy.
unhappy.

The way I eat causes me


A maneira como eu me alimento me causa The way I feed myself cause me problems. (Example:
problems. (ex. problems at
16 problemas. (Ex. problemas na escola, com problems at school, with my parents, with my
school, with my parents, with my
meus pais, com meus amigos). friends).
friends).

continua

Adolesc. Saude, Rio de Janeiro, v. 16, n. 4, p. 17-22, out/dez 2019 Adolescência & Saúde
Filgueiras et al. TRADUÇÃO, ADAPTAÇÃO E VALIDAÇÃO PRELIMINAR DA 23
VERSÃO EM PORTUGUÊS DO QUESTIONÁRIO YALE FOOD
ADDICTION SCALE PARA CRIANÇAS DE BAIXA RENDA COM
EXCESSO DE PESO

continuação da tabela 1

I want to cut down or stop eating Eu quero reduzir ou parar de comer certos
17 I want to restrict or stop eating certain foods.
certain foods. alimentos.

How often do you try to cut Com que frequência você tentou reduzir certos How often have you tried or do you try to restrict
18
down on certain foods? alimentos? certain foods?

The way I eat has made me feel A maneira como eu como faz eu me sentir
19 The way I eat makes me feel sad, nervous or guilty.
sad, nervous, or guilty. triste, nervosa (o) ou culpada(o).

The way I eat has made me A maneira como eu me alimento tem me


20 The way I eat has made me sick.
unhealthy. deixado doente.

I eat in the same way even Eu continuo comendo do mesmo jeito apesar I keep eating the same way despite the problems it
21
though it is causing problems. dos problemas que me causa. causes me.

I need to eat more to get the


Eu preciso comer mais para me sentir bem. (Ex I need to eat more to feel good. (Example: feel
22 good feelings I want. (ex. feel
sente-se feliz, calma e relaxada). happy, calm and relaxed).
happy, calm, relaxed)

23. Quando eu como a mesma quantidade


When I eat the same amount of food I used to
When I eat the same amount of de comida que comia antes, eu não me sinto
eat before, I don’t feel as good as I used to. (For
food, I do not feel good the way bem do jeito que costumava sentir. (Ex um
23 example a food you like a lot, you used to eat an
I used to. (ex. feel happy, calm, alimento que você gosta muito, você comia
amount to feel good, now you need to eat it more
relaxed) uma quantidade e já ficava bem, agora precisa
to feel good).
comer mais pra se sentir bem).

I try to cut down or stop eating Eu tento reduzir ou parar de comer certos
24 I try to restrict or stop eating certain foods.
certain foods. alimentos.

I am able to cut down on certain Eu sou capaz de reduzir ou parar de comer


25 I managed to restrict or stop eating certain foods.
foods. certos alimentos.

O comitê científico e o pesquisador que apli- português do Brasil foi decidido que a melhor
cou o questionário VP2 com o objetivo de corrigir opção seria ler o questionário em voz alta para
as dificuldades de compreensão encontradas pelos o aluno durante uma entrevista pessoal, porque
alunos nas versões VP1 e VP2 elaboraram uma nova os estudantes de baixa renda dessa faixa etária
versão (VP3). A versão VP3 foi então submetida dificuldade em entender um texto escrito, apesar
a um tradutor nativo da língua inglesa com pro- de ser considerado alfabetizado. O questionário foi
ficiência na língua portuguesa, que era ingênuo aplicado com a leitura oral das questões e eventual
em relação ao experimento, para obter a versão esclarecimento do significado das mesmas. O ques-
de retro tradução (BT). Após a preparação do BT, tionário aplicado dessa maneira levou uma média
o comitê científico fez a comparação do BT e da de 10 minutos para ser totalmente respondido.
versão original em inglês. Essa nova avaliação per-
mitiu confirmar que a adaptação transcultural do Confiabilidade e validade convergentes
instrumento era equivalente gramatical e seman- Para o estudo de confiabilidade e validade, o
ticamente à versão original em inglês (Tabela 1). questionário YFAS-C foi aplicado no mesmo dia do
A versão original em inglês foi projetada para EAT-26. O coeficiente de correlação de Spearman
ser autoaplicável, enquanto que para a versão em foi utilizado para avaliar a validade convergente.

Adolescência & Saúde Adolesc. Saude, Rio de Janeiro, v. 16, n. 4, p. 17-22, out/dez 2019
24 TRADUÇÃO, ADAPTAÇÃO E VALIDAÇÃO PRELIMINAR DA Filgueiras et al.
VERSÃO EM PORTUGUÊS DO QUESTIONÁRIO YALE FOOD
ADDICTION SCALE PARA CRIANÇAS DE BAIXA RENDA COM
EXCESSO DE PESO

> ANÁLISE ESTATÍSTICA respostas nunca (0), raramente (1) e às vezes (2).
Os coeficientes de correlação corrigidos para cada
Uma análise descritiva e inferencial foi rea- item estavam em torno do valor de critério de 0,30,
lizada no programa estatístico SPSS (Statistical exceto os itens 17 ("Quero reduzir ou parar de co-
Package for the Social Sciences), versão 21.0. Para mer certos alimentos"), 18 ("Com que frequência
verificar a confiabilidade da consistência inter- você tentou reduzir determinados alimentos?") e
na para toda a escala e para os itens excluídos, 25 (“Eu sou capaz de reduzir ou parar de comer
foi utilizado o coeficiente alfa de Cronbach e o certos alimentos"), que apresentaram coeficientes
critério de Nunnally18 foi adotado: ≥ 0,70 in- de correlação mais baixos. Esses três itens per-
dica "aceitável" e ≥ 0,80 indica "bom". Para a tencem ao mesmo grupo de sintomas, descrito
análise convergência do instrumento foi utilizado como "desejo persistente ou um esforço infrutífero
o coeficiente de correlação de Spearman com para reduzir ou controlar o uso de substâncias".
o escore de bulimia da escala EAT-26. Os testes Quando esses três itens foram removidos, o valor
de esfericidade de Bartlett e Kaiser-Meyer-Olkin de alfa de Cronbach permaneceu semelhante à
(KMO) foram realizados para avaliar a adequação análise geral de todos os outros itens. A remoção
da amostragem para a análise fatorial das variá- específica do item 18 aumentou o valor do alfa
veis. Posteriormente, a análise fatorial exploratória de Cronbach para 0,85.
foi realizada extraindo o componente principal
com rotação Varimax. Cargas fatoriais iguais ou Análise fatorial
superiores a 0,3 foram consideradas satisfatórias19. A análise fatorial exploratória (Tabela 3) foi
Para todas as análises, valores de p <0,05 foram realizada com 21 itens dos 25 itens da escala. As
considerados estatisticamente significantes. seguintes perguntas não foram pontuadas, mas
foram niveladoras das perguntas: # 19, # 20 e #
24. O teste de esfericidade de Bartlett foi alta-
> RESULTADOS mente significativo (valor = 715,56, p <0,001) e
o Kaiser-Meyer-Olkin teste (KMO) mostrou um
Análise descritiva e confiabilidade
valor de 0,79, indicando também que a matriz de
O número médio de sintomas encontrados correlação foi adequada para a análise fatorial. A
foi de 3,46 (DP = 1,90) para ambos os sexos. Para primeira coluna da tabela 3 apresentou a carga
os meninos, o número médio de sintomas foi de fatorial de cada item considerando um modelo de
3,27 (DP = 1,83) e para as meninas de 3,64 (DP fator único (estrutura de 1 fator). Os itens 17, 18,
= 1,96); não houve diferença significativa entre os 21, 23 e 25 apresentaram carga fatorial inferior ao
sexos. A porcentagem de dependência foi de 24% valor do critério de 0,30. Quando esses itens foram
na amostra total (n = 138), onde a dependência é excluídos, o valor do alfa de Cronbach aumentou.
indicada ao marcar três ou mais sintomas que acar- A análise fatorial sem um número fixo de
retem mais dificuldade ou prejuízo clínico. Entre fatores gerou uma solução de sete dimensões,
os estudantes dependências, 59% eram meninas como no artigo original; no entanto, o exame
e 41% meninos. A consistência interna obtida com de screeplot (Figura 2) e a interpretabilidade dos
o alfa de Cronbach indicou valores de 0,83 para fatores indicaram que uma solução de dois fato-
toda a amostra (variando de 0,81 a 0,85 para as res seria uma estrutura adequada para explicar
questões individuais) e = 0,83 e = 0,84 para os dados (Tabela 3, colunas 2 e 3). O primeiro
meninos e meninas, respectivamente (Tabela 2). fator compreendeu 25,55% da variância com um
A Tabela 2 mostra a mediana das respostas de valor próprio de 5,37. Esse fator abrange todos
cada item do YFAS-C, os coeficientes de correlação os sete sintomas que descrevem a dependência
total do item corrigido e os alfas de Cronbach, alimentar (18 perguntas) e teve boa consistência
se o item foi excluído. A mediana ficou entre as interna, com um valor alfa de Cronbach de 0,85.

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EXCESSO DE PESO

O segundo fator foi composto por 4 itens dos 0,23, indicando baixo nível de consistência interna,
sintomas A e D e apresentou 7,45% da variância, provavelmente devido ao baixo número de itens.
um autovalor de 1,57 e um alfa de Cronbach de

Figura 2. Scree plot da análise fatorial exploratória para cada componente da


extração.

Tabela 2. YFAS - Mediana das crianças (M) das respostas a itens individuais, correlação item-total e consistência
interna (alfa de Cronbach) se o item for excluído.

Correlação Alfa de Cronbach

Item M item-total se o item for

corrigida excluído

1) When I start eating, I �ind it hard to stop. (Quando começo a comer, eu acho di�ícil parar de comer.) 2 0,42 0,82

2) I eat food even when I am not hungry. (Eu como mesmo quando não estou com fome.) 1 0,39 0,82

3) I eat until my stomach hurts or I feel sick. (Eu como até meu estômago doer ou me sentir mal.) 0 0,34 0,82

4) I worry about eating too much food. (Eu me preocupo quando como demais.) 1 0,36 0,82

5) I feel tired a lot because I eat too much. (Eu me sinto cansada(o) por comer demais.) 1 0,42 0,82

6) I eat food all day long. (Eu como o dia inteiro.) 2 0,51 0,81

7) If I can not �ind a food I want, I will try hard to get it (ex. ask a friend to get it for me, �ind a vending machine,

sneak food when people aren’t looking). (Se eu não consigo encontrar uma comida que eu quero, vou fazer de
2 0,52 0,81
tudo para conseguir (por exemplo, peço a um amigo, mãe, vizinho pegar para mim ou saio para comprar ou pego

enquanto ninguém está vendo).

8) I eat food rather than do other things I like (ex. play, hang out with friends). (Eu �ico comendo ao invés de fazer
1 0,5 0,81
outras coisas que eu gosto (por exemplo, jogar, sair com os amigos).)

continua

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EXCESSO DE PESO

continuação da tabela 2

9) I eat so much that I feel bad afterwards. I feel so bad that I do not do things I like (ex. play, hang out with

friends). (Eu como tanto que me sinto mal depois. Sinto-me tão mal que não faço coisas que eu gosto (por 1 0,57 0,81

exemplo, brincar, sair com amigos).

10) I avoid places that have a lot of food, because I might eat too much. (Eu evito lugares que têm muita comida,
1 0,46 0,82
porque eu posso comer demais.)

11) I avoid places where I cannot eat the food I want. (Evito lugares onde não consigo comer a comida que eu
0 0,5 0,81
quero.)

12) When I do not eat certain foods, I feel upset or sick. (Quando eu não como certos alimentos, sinto-me
1 0,46 0,82
chateado ou mal.)

13) I eat certain foods to stop from feeling upset or sick. (Eu como certos alimentos para parar de me sentir
1 0,43 0,82
chateado ou mal.)

14) When I cut down or stop eating certain foods I crave them a lot more. (Quando diminuo ou paro de comer
2 0,59 0,81
certos alimentos, passo a querer muito mais ele.)

15) The way I eat makes me really unhappy. (A maneira como eu como me deixa infeliz.) 0 0,55 0,81

16) The way I eat causes me problems. (ex. problems at school, with my parents, with my friends). (A maneira
1 0,57 0,81
como eu me alimento me causa problemas. (Ex. problemas na escola, com meus pais, com meus amigos).

17) I want to cut down or stop eating certain foods. (Eu quero reduzir ou parar de comer certos alimentos.) 1 0,08 0,83

18)How often do you try to cut down on certain foods? (Com que frequência você tentou reduzir certos
2 -0,4 0,85
alimentos?)

19) The way I eat has made me feel sad, nervous, or guilty. (A maneira como eu como faz eu me sentir triste,
- - -
nervosa (o) ou culpada(o).

20)The way I eat has made me unhealthy. (A maneira como eu me alimento tem me deixado doente. ) - - -

21) I eat in the same way even though it is causing problems. (Eu continuo comendo do mesmo jeito apesar dos
0 0,21 0,83
problemas que me causa.)

22) I need to eat more to get the good feelings I want. (ex. feel happy, calm, relaxed) (Eu preciso comer mais para
0 0,28 0,82
me sentir bem. (Ex sente-se feliz, calma e relaxada).

23) When I eat the same amount of food, I do not feel good the way I used to. (ex. feel happy, calm, relaxed)

(Quando eu como a mesma quantidade de comida que comia antes, eu não me sinto bem do jeito que costumava
1 0,27 0,82
sentir. (Ex um alimento que você gosta muito, você comia uma quantidade e já �icava bem, agora precisa comer

mais pra se sentir bem).

24) I try to cut down or stop eating certain foods. (Eu tento reduzir ou parar de comer certos alimentos.) - - -

25) I am able to cut down on certain foods. (Eu sou capaz de reduzir ou parar de comer certos alimentos.) 1 -0,4 0,83

Tabela 3. Análise fatorial com rotação varimax com fator 1 e 2 da versão em português da YFAS-C.

Estrutura de 1 fator Estrutura de 2 fatores

Sintomas e itens Carga de 1 fator Carga de 1 fator Carga de 2 fatores

Sintoma A: Tolerância

Item 22 0,39 0,38ᵃ -0,40

Item 23 0,29 0,29 0,48ᵇ

continua

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continuação da tabela 3

Sintoma B: Abstinência

Item 12 0,53 0,54ᵃ 0,30

Item 13 0,54 0,54ᵃ 0,22

Item 14 0,69 0,68ᵃ -0,19

Sintoma C: Tomar a substância frequentemente em


quantidades maiores ou durante um período mais longo do
que o pretendido.

Item 1 0,51 0,50ᵃ -0,18

Item 2 0,45 0,45ᵃ -0,12

Item 3 0,41 0,40ᵃ -0,23

Sintoma D: Desejo persistente ou esforço mal sucedido de


reduzir ou controlar o uso de substâncias.

Item 4 0,46 0,46ᵃ -0,28

Item 17 0,02 0,02 0,36ᵇ

Item 18 -0,07 - 0,06 0,59ᵇ

Item 25 -0,11 - 0,10 0,59ᵇ

Sintoma E: Passa muito tempo nas atividades necessárias


para obter ou usar a substância ou recuperar-se de seus
efeitos

Item 5 0,52 0,52ᵃ -0,10

Item 6 0,58 0,58ᵃ -0,73

Item 7 0,62 0,61ᵃ -0,20

Sintoma F: Desistir de atividades sociais, ocupacionais ou


recreativas por causa do uso de substâncias.

Item 8 0,57 0,57ᵃ 0,12

Item 9 0,67 0,67ᵃ 0,15

Item 10 0,52 0,53ᵃ 0,18

Item 11 0,60 0,60ᵃ 0,01

Sintoma G: A continuação do uso da substância com o


conhecimento de que está causando ou exacerbando um
problema físico ou psicológico persistente ou recorrente.

Item 21 0,26 0,26ᵃ -0,03

Prejuízo clínico

Item 15 0,65 0,65ᵃ -0,01

Item 16 0,65 0,65ᵃ 0,22

ᵃ Itens associados ao fator 1 da estrutura de dois fatores

ᵇ Itens associados ao fator 2 da estrutura de dois fatores

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EXCESSO DE PESO

> VALIDADE DO CONSTRUTO de correlação, cujo resultado é consistente com


o artigo original4. Além disso, para reforçar a vali-
O coeficiente de correlação de Spearman dade do construto, não houve correlação positiva
entre o escore dicotômico de dependência ali- com os escores alimentares e atitudes de controle
mentar do questionário YFAS-C e a bulimia obtido oral do EAT-26, o que era esperado, uma vez que
pela escala EAT-26 foi de r = 0,212 p = 0,013. A o principal resultado dessas duas dimensões é a
correlação entre dependência alimentar e escore tendência do indivíduo em desenvolver anorexia.
de anorexia foi r = 0,131 (p = 0,129) e alimento A versão brasileira do YFAS-C apresentou um
(anormalidade normal x) variou de r = 0,162 (p alto valor de confiabilidade interna, próximo ao
= 0,059). valor encontrado na versão original4. Dessa for-
ma, pode-se afirmar que o instrumento brasileiro
preservou a coerência e a integração dos itens que
> DISCUSSÃO o compunham.
Na versão original da escala YFAS-C, os au-
Este estudo é o primeiro a validar a versão
tores realizaram a análise fatorial com um único
brasileira do YFAS para crianças e estabelecer sua
fator. No entanto, ao realizar a análise fatorial ex-
confiabilidade e validade de constructo em uma
ploratória por meio da extração do componente
amostra de crianças de baixa renda. Para isso, foi
principal com rotação varimax, fomos confronta-
realizada validação transcultural, análise de con-
dos com a indicação pelo screeplot de que o melhor
fiabilidade interna e análise fatorial exploratória.
modelo para explicar a versão em português seria
Um dos componentes centrais da teoria da
um modelo de dois fatores. Portanto, decidimos
dependência alimentar é o potencial viciante de
comparar os dois modelos para investigar qual se
certos alimentos20,21, principalmente de alimentos
encaixaria melhor na nova versão em português.
altamente processados que apresentam altas taxas
No modelo de fator único, cinco itens (17, 18,
de adição de açúcar e gordura22 que propiciam
21, 23 e 25) apresentaram baixo coeficiente de
consumo descontrolado. Como consequência, os
correlação, de acordo com o ponto de corte suge-
indivíduos dependentes teriam dificuldade em re-
rido por Kline19. Os itens 17, 18 e 25, juntamente
gular as emoções, a impulsividade, a disfunção da
com o item 4, compõem o sintoma D ("Existe um
recompensa e a sinalização alterada da dopamina,
desejo persistente ou um esforço malsucedido de
semelhante a pessoas com transtornos por uso de
reduzir ou controlar o uso de substâncias"). Se os
substâncias8. YFAS-C mapeia os sintomas de de-
três itens que apresentavam baixos coeficientes
pendência em comida como desejo e abstinência e
de correlação fossem excluídos, conforme suge-
não apenas compulsão alimentar periódica, como
rido pela análise, o item 4 poderia representar o
ocorre em outros instrumentos validados para o
sintoma D sem perder a validade do instrumento,
idioma português. Portanto, a possibilidade de
por apresentar um bom coeficiente de correlação.
usar esse instrumento entre crianças de língua
O item 21, que por si só representa o sin-
portuguesa representa uma ferramenta importante
toma G ("Continuar o uso da substância com o
para identificar alimentos viciantes em locais onde
conhecimento de que está causando ou agravar
a obesidade está aumentando bastante.
o problema físico ou psicológico persistente ou
Estudos sobre dependência alimentar me-
recorrente"), apresentou uma correlação de baixo
didos pela YFAS, sugeriram que este instrumento
coeficiente, o que significa que o sintoma pode
pode detectar um subtipo mais grave de compul-
não estar bem representado pelo item. De acor-
são periódica22,23. Portanto, a análise de validade de
do com o modelo de fator único, a solução ideal
construto do YFAS-C foi realizada com as medidas
seria a retirada desse sintoma. A remoção de um
de compulsão alimentar (bulimia score) do EAT-26
sintoma do instrumento o tornaria diferente do
para essa faixa etária e apresentou altos valores
proposto na versão original em inglês e perderia

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a validade do diagnóstico, uma vez que os sinto- lise fatorial para os critérios dicotômicos sustentam
mas representam os critérios de diagnóstico para o uso dos critérios do DSM-IV para dependência
dependência de acordo com o DSM-IV. de substâncias nas áreas de comportamento ali-
A análise fatorial com a solução de dois fatores mentar e dependência alimentar. Nossos resultados
apresentou-se como uma estrutura bastante ade- suportam a confiabilidade adequada do conceito
quada para explicar os resultados. Nesse modelo, o de dependência alimentar, conforme avaliado pelos
item 21 apresentou baixo coeficiente de correlação, critérios de dependência do DSM-IV. Em nosso
mas com uma carga fatorial melhor do que quando estudo, encontramos uma taxa de prevalência
utilizado o modelo de fator único e mais próximo de dependência alimentar menor do que um es-
do valor de referência de 0,30. Esse baixo valor tudo americano, com uma prevalência de 38%,
não foi atribuído a problemas de tradução, pois realizado em uma amostra clínica com crianças e
foi feito estritamente para garantir a equivalência adolescentes com excesso de peso7.
entre os idiomas e, portanto, pode ser possível que Embora o presente estudo apresente uma
houvesse dificuldade de entendimento para essa ferramenta importante para a prevenção e trata-
faixa etária e classe socioeconômica. mento da obesidade infantil, existem limitações
Por fim, os dois modelos de análise fatorial a serem consideradas. Primeiramente, o estudo
apontam para o mesmo resultado e sugerem a foi realizado com uma amostra composta apenas
exclusão de alguns itens com baixo coeficiente de por estudantes de baixa renda e, portanto, de
correlação. No entanto, optamos por não excluir escolas públicas onde o ensino é mais precário e a
nenhum item. A análise fatorial indica quanto compreensão dos itens mais difícil. Outra limitação
um item explica a variável ou dimensão e busca foi a falta de outros instrumentos para detectar
reduzir os itens do instrumento, portanto, itens distúrbios de desejo ou abstinência, permitindo
com o menor coeficiente de correlação de 0,30 uma comparação mais ampla do que o EAT-26.
são sugestivos de exclusão. No entanto, o objetivo Esperamos que a atual validação da escala
do nosso estudo não foi reconstruir o instrumento, YFAS-C permita mais pesquisas entre a população
mas validá-lo para uso no Brasil e nos oito países mundial de língua portuguesa, além de aumentar
de língua portuguesa (250 milhões de pessoas). o conhecimento sobre dependência alimentar.
Os altos fatores de carga evidenciados na aná-

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