000650026
000650026
Porto Alegre
2008
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIA POLÍTICA
Porto Alegre
2008
2
JAMES BATISTA VIEIRA
Autor
BANCA EXAMINADORA
__________________________________________
Prof. Dr. André Borges de Carvalho (Orientador)
__________________________________________
Prof. Dr. André Marenco dos Santos
__________________________________________
Prof. Dr. César Marcello Baquero Jacome
__________________________________________
Prof. Dr. Giácomo Balbinotto Neto
Esta dissertação não seria possível sem a colaboração da minha família, dos meus
agradecimento.
4
RESUMO
novo conceito ontológico que aspira inferir os microfundamentos deste fenômeno e contribuir
5
RESUMEN
construir un nuevo concepto ontológico que, por su vez, pretende inferir los
6
LISTA DE TABELAS
corrupção______________________________________________________________ 51
7
SUMÁRIO
RESUMO ______________________________________________________________05
ABSTRACT ____________________________________________________________06
INTRODUÇÃO_________________________________________________________ 10
8
CAPÍTULO IV – O Referencial Análitico da Corrupção Reconsiderado _________ 44
CONCLUSÕES_________________________________________________________ 70
9
INTRODUÇÃO
Da mesma forma que o indivíduo comum apreende o mundo por meio da linguagem, o
carregam consigo uma série de distorções que poderão impor custos ainda maiores as
foi realizado este estudo, em favor de um novo conceito ontológico que aspira inferir os
corruptas.
10
PARTE I – FORMULAÇÕES METODOLÓGICAS
descritivas, preditivas e explicativas; e sua constituição exige uma acurada análise teórica e
científica, pois assume que as definições utilizadas para designar um fenômeno são
arbitrárias. Contudo, se a definição não for relacionada ao fenômeno empírico, não haverá
nada com que referenciar o objeto e o problema se resumirá ao responsável e sua legitimidade
imposto à pesquisa científica teórica e empírica das ciências sociais, é o principal requisito
ao aprimoramento institucional.
técnicas de pesquisa das ciências sociais. Seu diagnóstico correto, entretanto, não resultará em
11
um prognóstico adequado, pois suas conclusões recaem de forma desmedida sobre o aspecto
assume que os conceitos são como teorias sobre os elementos constitutivos do fenômeno1.
Sob a perspectiva ontológica, a estrutura conceitual é configurada por três níveis: básico
(elemento constituinte das proposições teóricas), secundário (que descreve aquilo no que o
podem ser analisados a partir dos níveis que possui, das dimensões destes níveis e do
GOERTZ, 2005)
inicialmente, refletir sobre a substância e a estrutura do conceito para, então, estabelecer sua
sua extensão – a relação entre os atributos e o número de casos empíricos abarcados pela
definição. É importante evitar que a distribuição dos casos exerça influência sobre as decisões
do nível básico, pois a distribuição empírica dos casos deve ser explicada, não presumida nos
próprios conceitos – o que é tão comum nas definições de corrupção presentes na literatura.
1
Ontológico porque trata das características essenciais do fenômeno e sua inter-relação.
2
É possível generalizar ao nível básico e secundário, enquanto a sensibilidade a diversidade é incorporada nos
indicadores, promovendo uma sólida fundamentação empírica a estrutura teórica. (GOERTZ, 2005)
12
Uma conseqüência direta desta abordagem ontológica dos conceitos é sua
contraposição à análise fatorial, muito presente na ciência política inspirada pela metodologia
causa dos indicadores. Ou seja, é um modelo que afirma a doença pelo seu sintoma; mas a
doença causa os sintomas e não o contrário. Isto significa dizer que os indicadores podem
capturar diferentes causas, dentre as quais aquelas que não são do interesse da pesquisa - a
realizada com mais de 10.000 empresários em 80 países, entre 1999-2000; um dos indicadores
3
Paul Lazarsfeld (1966) desenvolve estudos de referência, sob esta perspectiva, aplicados à ciência política
4
World Business Environment Survey: “Measuring Conditions for Business Operation and Growth”. Question
38: Please judge on a four point scale how problematic are the following factors for the operation and growth of
your business: h) Corruption (No Obstacle, Minor Obstacle, Moderate Obstacle or Major Obstacle) (BANCO
MUNDIAL, 1999)
13
Tabela 1.0. Percepção mundial da corrupção nos negócios
“A Corrupção é um constrangimento ao crescimento de seu negócio?”
%
Freqüência % % Válida Acumulada
Válido Não obstaculariza 2053 24,1 26,7 26,7
Obstáculo baixo 1766 20,7 23,0 49,7
Obstáculo moderado 1750 20,5 22,8 72,5
Maior obstáculo 2116 24,8 27,5 100,0
Total 7685 90,1 100,0
Perda do Sistema 846 9,9
Total 8531 100,0
Fonte: World Business Environment Survey: “Measuring Conditions for Business Operation
and Growth” (BANCO MUNDIAL, 1999)
Segundo a perspectiva inspirada pela análise fatorial, este seria um bom indicador de
corrupção. Estes valores poderiam ser combinados a outros indicadores e constituir um índice
crítica à análise fatorial discute é até que ponto estes valores realmente mensuram a corrupção
e não outros aspectos próximos ou que decorrem do fenômeno sob análise. Utilizando-se do
mesmo exemplo, é possível questionar até que ponto esta percepção de que a corrupção afeta
os negócios não está ligada à avaliação que os empresários têm sobre a qualidade do governo,
por exemplo. A tabela a seguir descreve os resultados do cruzamento entre a percepção sobre
ao crescimento do negócio.
14
Tabela 2.0. Cruzamento entre percepção da qualidade do governo e corrupção.
Count
Corrupção é um constrangimento ao seu negócio?
não obstáculo obstáculo maior
obstaculariza menor moderado obstáculo Total
Qualidade Muito Bom 91 45 33 33 202
dos Serviços Bom 493 382 276 284 1435
Públicos Ligeiramente
465 451 428 443 1787
Bom
Ligeiramente
350 343 348 404 1445
Ruim
Ruim 262 292 354 499 1407
Muito Ruim 124 122 213 338 797
Total 1785 1635 1652 2001 7073
Fonte: World Business Environment Survey: “Measuring Conditions for Business Operation
and Growth” (BANCO MUNDIAL, 1999)
Asymp. Sig.
Valor df (2-sided)
Pearson Chi-Square 327,071a 15 ,000
Likelihood Ratio 323,985 15 ,000
Linear-by-Linear
298,917 1 ,000
Association
N of Valid Cases 7073
Obs.: 0 cells (0%) have expected count less than 5.
The minimum expected count is 46, 69.
serve de evidência para sustentar a hipótese de que este indicador é de baixa qualidade para
mensurar corrupção, pois, como foi dito, não distingue causas e efeitos do fenômeno.
Por esta razão, de acordo com Daniel Little (1991), indicadores ligados a conceitos
subjacentes - não mensuráveis diretamente pela postulação de modelos causais, nos quais os
15
pressupostos devem ser explícitos - não permitem que as análises de fator estabeleçam
aproximações por simples correlação; pois esta análise implicaria num modelo causal real
correlação entre os indicadores é produzida por uma única variável subjacente, procedimentos
operacionais como a análise fatorial podem ser utilizados para se obter estimativas de
variáveis não mensuráveis; contudo, toda a mensuração deste tipo assume indicadores de
efeito e há muitas situações em que os indicadores seriam mais bem aproveitados como
causas da variável. (LITTLE, 1991) Há testes disponíveis que permitem a avaliação destes
De acordo com Daniel Treisman (2007), os índices de percepção e seus dados não só
sociais e econômicas;
fornecem a maior parte dos dados) podem ser influenciadas por pré-
5
Motivo que levou a Transparência Brasil a pedir desligamento da Transparência Internacional em 2006.
(TRANSPARÊNCIA BRASIL, 2007).
16
e ampla de corrupção, como denuncia Filgueiras (2006), possibilita que o
Os índices de percepção estão altamente correlacionados entre si, mas não há garantias
de que estejam, de fato, mensurando corrupção. Além disso, os índices de corrupção baseados
menos desenvolvidos (o que levanta suspeitas sobre a franqueza dos respondentes e/ou a
corrupção estão mais associadas com a percepção do que com a experiência individual
Isto vem sendo particularmente problemático porque os pesquisadores têm usado estes
dados para afirmar proposições sobre a relação de aspectos sociais, econômicas e políticos
com a “corrupção”. Então surgem complexas questões metodológicas de análise destes dados,
que:
ii. a redução dos erros de mensuração pode não ser mero ruído;
iii. pode haver problemas de integridade dos dados à medida que as variáveis
interação que afetam a especificação dos modelos, pois os mecanismos causais são,
17
reconhecidamente, complexos e as relações estabelecidas podem ser baseadas em correlações
A concepção ontológica dos conceitos não é causal, por isso é uma alternativa superior
caso, a dimensão básica e secundária do conceito não são suas causas, mas constituem o que o
uma teoria sobre a inter-relação das partes do conceito como um todo. Isso implica dizer que
esta abordagem não requer, como a anterior, uma alta correlação entre os indicadores da
variável subjacente, não mensurada - o seu oposto é um melhor sinal de que o conceito é
apropriado.6
manifestação; por isso a relação entre o conceito e a mensuração é tão direta que não é
efeitos do fenômeno são importantes, mas igualmente importantes são as causas destes
efeitos. Isto implica afirmar que é fundamental examinar a doença tanto quanto os seus
6
Por definição, a equivalência significa que a ocorrência de um atributo A pode substituir a ocorrência de um
atributo B; mas, de acordo com a abordagem ontológica, o nível secundário pode estar presente quando não
houver correlação entre os indicadores.
7
A mensuração do Quociente Intelectual dos indivíduos (Q.I.), por exemplo, é um bom exemplo desta
perpectiva.
18
proposições teóricas. Caso contrário, as medidas de intervenção serão, necessariamente,
ineficazes, ineficientes e carregarão consigo uma série de distorções que poderão impor custos
deliberada por aqueles interessados em promover seus interesses por meio de afirmações, por
vezes, insuficientes.8
interpretam este fenômeno com maior ou menor grau de especificação, acuidade, precisão,
especialistas buscam afirmar algo sobre o estado futuro deste fenômeno, por meio de
proposições preditivas, que buscam estabelecer relações do tipo: onde X estiver presente Y
comprovação empírica relativamente fácil, pois o evento será ou não confirmado pelos fatos;
mas estas proposições não estabelecem nenhuma relação causal entre os fenômenos, embora
ela possa existir.10 Contudo, durante o período em que tais proposições permanecem válidas,
8
Na política, a manipulação oportunística da informação e do conhecimento para influenciar as decisões e o
comportamento da autoridade pública denomina-se lobby e este é um instrumento legítimo de exercício da
pressão política. Contudo, o conhecimento necessário a intervenção social orientada impõe critérios rígidos de
conceitualização, proposição e validação que devem superar a manipulação do conhecimento.
9
Como, por exemplo, segundo Treisman (2000), países são percebidos como mais corruptos se dependerem de
exportações de combustível, tiverem regulação empresarial intrusiva e sofrerem com inflação não previsível; ou
ainda os estudos empíricos que demonstram que a maior percepção de corrupção reduz o crescimento
econômico. (Mauro, 1995)
10
A menos que, de acordo com a perspectiva de Karl Popper (1993[1934]), a proposição não seja falsiável, por
diversas razões, dentre as quais se destaca a manipulação dos dados e das informações, sempre passíveis de
interpretação pelos especialistas.
19
determinados interesses são reafirmados ou prejudicados; em detrimento de perspectivas
diversas.
severos custos sociais, decorrentes da ineficácia, ineficiência e não efetividade das medidas.
incorrem em erros que só podem ser justificados pela urgência destas medidas de intervenção.
Como o objetivo da ciência social aplicada é reduzir este risco, por meio do
estabelecimento:
A partir disto, permite-se inferir que fenômenos como a corrupção não são resultado
fenômenos sociais que refletem fatos sobre a agência individual. Ou seja, os mecanismos de
que caracterizam os indivíduos cuja ação influencia o fenômeno social, pois não há processo
de causação social que seja autônomo das regularidades das ações individuais.
sobre fatores sociais que necessita dispor de alguma hipótese sobre como a corrupção leva os
indivíduos a agirem de maneira a gerar esta instabilidade, pois a explicação social causal
20
requer a explicitação de seus microfundamentos. Afirmar que uma instituição exerce
influência causal a despeito de outras entidades sociais exige considerar a maneira como os
organização social adquirem seu poder explicativo causal pelos efeitos que exercem sobre as
nos dá razão para acreditar que há relação causal de algum tipo afetando-as, mas não
estabelece a natureza desta relação. É preciso, pois avançar as hipóteses sobre os mecanismos
ii. o falso negativo, concluindo sobre a não existência de relação causal entre duas
subjacentes que mediam a relação entre causa e efeito. Por isso, os estudos baseados em
regularidades indutivas devem ser entendidos como uma fonte de hipóteses causais e um
11
Em geral, especialistas da corrupção que desenvolvem estudos de política comparada orientada por variáveis
arrogam-se o direito de sustentar explicações deste tipo, a partir das quais serão extraídas conclusões que
resultarão em medidas de intervenção e critérios de avaliação de caráter geral. São exemplos desta perspectiva os
estudos de Vito Tanzi (1994); Mauro (1995); Treisman (2000); Carraro&Hillbrecht (2003).
21
O estabelecimento das relações causais exige ainda a identificação das condições
condições necessárias - das quais o fenômeno não pode ocorrer sem sua presença - e
innovation” e, embora, exista uma substancial literatura sobre o tema da corrupção, os estudos
que buscam inferir os mecanismos causais deste fenômeno ainda padecem pela inexistência
corruptas, que estabeleça seus microfundamentos, será possível promover um novo conjunto
de problemas e proposições teóricas que, uma vez validados, servirão de base para inovadoras
12
A principal implicação do respeito a estas condições nas ciências sociais é série de pressupostos e condições
ceteris paribus presentes em suas proposições, como aquelas de informação completa e perfeita, racionalidade
instrumental, maximização da utilidade.
13
Seja em sua aproximação dedutiva, estabelecendo as conexões causais entre os fatores sociais baseados numa
teoria subjacente ao processo; ou indutiva, justificando a relação causal dos eventos de acordo com sua
associação, por meio de correlações estatísticas ou análise comparativa. (LITTLE, 1991)
22
PARTE II – FORMULAÇÕES TEÓRICO-CONCEITUAIS
definido como mínimo - foi cunhado pelos liberais para assegurar a divisão entre o Estado e a
acordo com a sua revisão da literatura, esta definição é a mais comumente usada, refletindo os
índices de corrupção que enfatizam fenômenos como o suborno e a propina. É uma definição
A partir desta definição, uma série de outras definições surgiram para qualificar a
riqueza privada de membros do governo, quando a estes não é conferido esse direito
(JOHNSON, 1975);
iii. é a venda por funcionários públicos de propriedade do governo para ganho pessoal
(SHLEIFER&VISHNY, 1993);
iv. é o uso de uma posição pública para extrair vantagens privadas ou excepcional
lucro partidário pela subversão do processo político para fins pessoais; refere-se a atos nos
14
Esta é a definição adotada pelos principais organismos internacionais responsáveis pelo diagnóstico e
prognóstico do fenômeno da corrupção; segundo o Banco Mundial: “corruption is [..] the abuse of public office
for private gain” (BANCO MUNDIAL, 2007); segundo o Escritório das Nações Unidas Contra Drogas e Crime,
a corrupção é o “abuso de poder em proveito próprio” (UNODC, 2007); segundo o Fórum Econômico Mundial
“corruption is [..] the misuse of entrusted power for private benefit” (FÓRUM ECONÔMICO MUNDIAL,
2007); e, segundo a Transparência Internacional, “corruption is the abuse of entrusted power for private gain”
(TRANSPARÊNCIA INTERNACIONAL, 2007).
23
quais o poder do cargo público é usado para ganhos pessoais de uma forma que transgride as
definição mínima é imprópria, pois o ônus do conceito recai apenas sobre os funcionários
públicos, desconsiderando o papel dos corruptores; supondo, além disso, que todos os atos
legalmente estabelecidos não possam incorrer em práticas corruptas, “o que nem sempre
cargo para ganhos privados”, descreve não só o comportamento corrupto, mas, também,
aquelas transações que fazem parte do funcionamento normal das instituições. (FURTADO,
2005)
Esta é uma definição mínima de corrupção, pois adota uma condição necessária, mas
não suficiente ao fenômeno. A autoridade política eleita explora o cargo público para ganhos
privados, quando há oportunidade legal e legítima para isso, da mesma maneira que a maioria
dos indivíduos explora tais oportunidades quando as circunstâncias lhe são favoráveis; não
sendo, por isso, acusados de praticar corrupção. Neste caso, o comportamento só é tido como
inapropriado - ao estender-se para áreas que geram conflitos de interesse. (HARRIS, 2003)
abarca um número muito amplo de fenômenos. Durante muito tempo, justificou-se esta
com a concepção ontológica dos conceitos, é sabido que estas diferenças não devem ser
24
vantagem sob outras definições; pois, como foi discutido, a imprecisão conceitual desta
Uma das estratégias adotadas pelos especialistas foi definir a corrupção por meio de
tipologias que classificassem as irregularidades. Segundo Morris Szeftel (1983) apud Robert
Harris (2003), por exemplo, as definições de corrupção focam algum de muitos aspectos do
fenômeno: (i) o interesse público (corrupção é injúria que destrói o interesse público); (ii) o
mercado (as normas que governam a autoridade pública); a autoridade pública (o mau uso da
autoridade pública); a opinião pública (corrupção está no critério legal). O mesmo recurso é
utilizado por Syed Alatas (1990) que define a corrupção em sete tipos distintos - transacional,
estas limitações da definição mínima ao afirmar que pouca atenção empírica foi direcionada a
formas menos típicas de apropriação do posto público e político por interesses privados, não
necessariamente ilegais, como a captura do Estado pela venda direta de políticas e a influência
de políticas em troca de votos. Segundo os autores, é preciso superar esta visão míope, de
curto prazo, legalista e centrada no setor público de corrupção. A partir de uma nova
15 A corrupção ilegal se dá quando a alta iniqüidade e a baixa renda submetem a população, que não tem
recursos para reagir, ao governo corrupto de forma aberta. A corrupção legal acontece quando a elite esconde a
25
variedade de transações ilegais e legais (escondida sob as barreiras legais), sendo preciso
recuperar o papel das firmas na determinação dos resultados corruptos e prestar maior atenção
a corrupção legal, mais presente nos países desenvolvidos – mas, sumariamente, ignorada
2005).
que assume que o ato corrupto é qualquer ação que infringe a lei positiva. Estas definições
estão descritas no direito administrativo dos países, que regulamenta as relações entre o
funcionário público e a coisa pública, tipificando a corrupção na forma de delitos, tais como a
fraude, o estelionato, etc.; ou ainda nas definições que sustentam que a corrupção é a quebra,
pelo interesse do ganho financeiro ou político, das regras de conduta dos negócios públicos
corrupção, investindo em barreiras legais que evitem a ação coletiva da população que, mesmo atenta ao
fenômeno, não dispõe de mecanismos de accountability efetivos para identificá-la e puni-la.
(KAUFMANN&VICENTE, 2005).
26
tornar, pela tua vontade, em lei universal da natureza”. (KANT, 1980, [1785]; apud
FILGUEIRAS, 2004)
Disto, permite-se inferir que o direito desvincula a corrupção do ato moral ou ético,
outras palavras, a corrupção não significa um atentado ao interesse público, mas a lei
poder coativo. No entanto, Hans Kelsen (2000) apud Filgueiras (2004), afirma – por meio do
Novas aproximações no campo da nova sociologia institucional têm sido feitas para
Esta noção de que a corrupção é uma infração formal da lei esquece que:
será necessário uma determinação judicial, que pode não ser adequada.
27
iv. em termos lógicos, em regimes em que não existam regras de conduta sobre
elites que estão no poder dos países e que, não surpreendentemente, são objeto de suspeita e,
corrupção por sua ilegalidade implica omitir toda a dimensão transacional deste fenômeno –
seu modus operandi. É preciso entender que a própria lei é objeto de formulação,
interpretação e execução parcial; por isso, é tanto produto da corrupção como instrumento de
seus objetivos.
mas nenhuma inteiramente satisfatória, pois como a maioria das aproximações é orientada
para a análise de casos particulares, suas concepções sui generis raramente permitem a
inferência e a comparação precisa. Estas abordagens fazem uso de abordagens macro sociais
seus valores sociais, fazendo uso de recursos como custo moral, grau de institucionalização e
1989)
16
Há diversos estudos nas ciências sociais relacionando a existência de capital social e corrupção, mas todos
assumem uma definição mínima de corrupção, a partir da qual agregam qualificações. Para um maior
conhecimento do tema, consultar os estudos de Robert Putnam (1996), Timothy Power e Júlio González (2003) e
Peter Graeff (2005).
28
desenvolvimento político e econômico e da maneira que ela pôde contribuir ou emperrar sua
Seu conceito parte da idéia de que a prática da corrupção representa uma ação
intencional por parte de uma autoridade, no interior de um sistema social, que tende a
sobrepor seus interesses privados ao interesse comum, tendo em vista uma estrutura
normativa institucionalizada, a qual determina as fronteiras de uma ação aceita ou não aceita
por Vilfredo Pareto (1984 [1916]) ao afirmar que a diferença [entre os países] será
identificada, substancialmente, no sentimento do povo; ou seja, onde o povo for mais honesto,
haverá um governo honesto; e, Samuel Huntington (1975), ao afirmar que a corrupção é uma
incentivos para que os grupos sociais explorem o poder público para auferir benefícios
privados.
do comportamento das normas aceitas quando do desvio das normas dos padrões
29
comunidade. As sociedades imbuídas da modernização, mas com baixa institucionalização
política, estão mais sujeitas às práticas de corrupção. Isto porque, entre modernização e
FILGUEIRAS, 2006).
observação. Isto resulta em recomendações gerais como as de Joseph Nye (1967) que ao
sociais favoráveis. Como abordagem teórica, o desafio da teoria da modernização é fazer com
que esta corrupção sistêmica produza resultados agregados para o desenvolvimento. (NYE,
modernização, para conter a corrupção, deve fomentar uma mudança nos padrões culturais
30
esquemas destinados a pilhar os recursos públicos a favor de interesses privados.
transações corruptas envolveria a mensuração dos seus custos e benefícios esperados. Fazer
parte de uma transação corrupta, como no crime, exigiria um benefício líquido esperado
quais são ponderados o retorno esperado do ato criminoso e o custo a ele associado, tanto no
presente quanto no futuro. Esta decisão, entretanto, não ocorre no vácuo; é influenciada por
VIAPIANA, 2006)
qualquer outra atividade ilegal. O crime comum envolve um agente criminoso e outro
inocente, enquanto nas transações corruptas do setor público, por exemplo, a autoridade
pública e o agente da sociedade civil são parceiros em um mesmo crime – cooperando contra
17
Esta perspectiva é fortemente influenciada pela perspectiva utilitarista de que a legislação governa os
indivíduos por meio do interesse de cada um; ou seja, a legislação é um sistema de gratificação e punição que
“incentiva” o comportamento socialmente desejável. A obra “Dos Delitos e Das Penas” de Cesare Bonesana,
Marquês de Beccaria (2004, [1764]), é, sem dúvida, a maior referencia histórica desta perspectiva.
31
sobre a validade das conclusões obtidas, a despeito da acuidade na mensuração e da
econômica da corrupção, ao tratar este fenômeno como resultado da busca, por parte de
alguns agentes ou grupos, de rendas monopolistas concedidas pelo Estado, denominado rent-
seeking. (TULLOCK, 1967; KRUEGER, 1974; MUELLER, 1989) Esta abordagem analisa a
indevidos ao agente ou um grupo beneficia-se das rendas recebidas por outro grupo. Se
como corrupção. (JAIN, 2001) A busca de proteção, título, licença, direito, torna possível que
plano político e econômico, visando a criar regras fixas para a interação entre os interesses
18
Um exemplo disto é a pesquisa de Borini e Grisi (2007, p.07) que ao operacionalizar o conceito de corrupção
identifica trinta e seis variáveis que melhor representam as práticas de corrupção evidenciadas no dia-dia das
empresas brasileiras: 1) pagamento antecipado ao fornecedor e não recebimento a mercadoria exata; 2) compra
de produtos sem nota fiscal pelos seus concorrentes; 3) fraude interna praticada por funcionários; 4) práticas de
concorrência desleal; 5) casos de empresas que foram fechadas devido a agir de forma desleal; 6) pagamento de
propina para fechar negócios; 7) pagamento de propina para fiscais do governo; 8) manutenção do caixa-dois; 9)
descontos por meio do faturamento sem impostos; 10) fornecedores que vendem mercadorias sem nota fiscal;
11) empresas do ramo que vendem mercadorias sem nota fiscal; 12) ofertas (comércio) de informações sigilosas
de concorrentes; 13) compra informações sigilosas de outras empresas; 14) concorrentes que ficam sabendo do
lançamento de produtos ou serviços antes da divulgação oficial; 15) venda de produtos cujas especificações são
diferentes das características anunciadas; 16) compra e venda de mercadorias desviadas; 17) casos de apreensão
de mercadorias por suspeita de desvio; 18) venda de produtos com valor muito abaixo do mercado; 19)compra e
venda de produtos piratas; 20) venda de produtos com qualidade inferior ao padrão exigido por lei; 21) “lavagem
de dinheiro"; 22) casos de fiscalização que fechou algum negócio por lavagem de dinheiro; 23) fornecedores que
já tiveram seus nomes envolvidos em casos de corrupção; 24) receptação de carga roubada; 25) possibilidade de
uma empresa adquirir cargas roubadas sem saber que é roubada; 26) casos de simulação de roubo para obtenção
do seguro; 27) sonegação de impostos; 28) subfaturamento; 29) prática de omissão de informações ao cliente
para conclusão de uma venda; 30) perda de vendas devido a concorrentes que vendem produtos com
informações omitidas; 31) prática de oferecer dinheiro para o fornecedor ou comprador; 32) prática de oferecer
dinheiro ao fiscal para garantir uma licença; 33) prática de oferecer dinheiro para a fiscalização para obter um
serviço especial; 34) oferecer dinheiro para escapar de multa; 35) prática de oferecer dinheiro para obter
vantagem na competição; 36) venda de produtos a preço muito abaixo do custo médio.
32
privados e o interesse público, comungando com mecanismos institucionais que impeçam a
maximizando seu bem-estar econômico, seja seguindo as regras do sistema, ou não. É preciso
anteceder à ação dos agentes públicos de caça a rendas, sua ação de monopolizar a burocracia,
possibilitando o controle do fluxo das decisões políticas e o controle sobre a dependência dos
que o resultado político provém de decisões tomadas por indivíduos pertencentes a grupos que
possuem agendas próprias de interesse - motivadas pelo desejo de maximizar seus ganhos
(SIRIPRACHAI, 1993)
33
estará sempre relacionada ao controle governamental e à regulamentação da atividade
econômica.19 Uma vez estabelecido o governo haverá grupos buscando utilizar o aparato
governamental para redistribuir renda em benefício próprio, uma vez que os empreendedores
que desejam o monopólio, artificialmente criado pelo governo, precisam comprar estas
parte das rendas geradas pelo monopólio, por meio de propinas; enquanto os empreendedores
pagam suborno com o intuito de diminuir as perdas impostas pela regulação governamental.
bem ou serviço público. Se o sistema econômico fosse desregulado e o acesso aos mercados
racionalidade dos atores políticos, exige a necessária transferência das atividades controladas
pelo Estado - que seria uma estrutura personalista por natureza - para o mercado, tanto em sua
2006)
19
A teoria do rent-seeking, ao enfatizar apenas os problemas do setor público, omite que a corrupção é um
fenômeno que atinge, também, o setor privado.
20
As democracias competitivas e os mercados são condições necessárias para um governo honesto, já que
estabilizam os interesses egoístas dos agentes em torno de regras mínimas de pacificação social, criando a
estabilidade e o contexto de cooperação necessário à prosperidade. (MONTINOLA&JACKMAN, 2002, apud
FILGUEIRAS, 2006).
34
ordinária das relações humanas na economia (mercado) e na política (Estado).21
apesar de oferecer um amplo referencial teórico para análise dos fenômenos econômicos e
políticos, incorre no mesmo resultado insatisfatório ao não oferecer critérios suficientes para
seeking), mas estes indivíduos não ascendem e se perpetuam no poder em todos os Estados. O
institucional que permite este resultado, para que seja possível corrigi-lo. Isto é distinto de
perpetuará por razões que independem de sua existência – com o agravante de aprofundar os
21
Segundo James Buchanan (1980), seria preciso distinguir o comportamento daqueles que buscam maximizar
seus lucros por meio de suas capacidades e oportunidades - o profitseeking, que é socialmente benéfico; dos
esforços individuais para maximizar valor que geram perda ao invés vez de excedente social - rent-seeking.
22
Matar o doente para acabar com a infecção é uma solução eficaz e eficiente contra a moléstia; mas, não
cumpre o objetivo de aumentar-lhe o bem-estar.
35
CAPÍTULO III – Os Fundamentos de um Novo Conceito de Corrupção
indivíduos estabelecem entre si, de maneira formal ou informal. Este vinculos são o
fundamento das relações privadas e sociais - mediadas pelas instituições que são o resultado
de nexos contratuais. (NORTH, 1990) Toda a interação humana pode ser objeto de um
contrato, mas para as relações sociais interessam, particularmente, aqueles firmados para a
realização de algum tipo de ação ou representação nas decisões, que exigem a identificação de
uma parte contratada (agente) e outra contratante (principal), em nome do qual alguma
atividade será realizada. Neste caso, o interesse analítico recai sob a teoria dos contratos
dos contratos ótimos e das variáveis que influenciam estas características, de acordo com o
pois em que cada momento as partes (contratante ou contratado) escolhem a estratégia ótima,
dada a situação já alcançada e assumindo que todos os envolvidos farão o mesmo (sub game
utilidade esperada, visto que aceitou o contrato; mas fica claro que haverão partes mais
informadas que outras em diferentes momentos deste relacionamento. Situações como esta,
em que uma parte detém informações sob aspectos relevantes que a outra parte é ignorante,
CASTRILLO, 1997)
23
Segundo o modelo contratual de referência, da teoria econômica dos contratos, cabe ao contratante (principal)
desenhar o contrato e oferecê-lo ao contratado (agente); por isso, ao primeiro cabe todo o poder de barganha.
Além disso, os objetivos do contratado (agente) estão em conflito com aqueles do contratante (principal) e vice-
versa, pois a vantagem de um eleva os custos do outro. (MACHO-STANDLER&PÉREZ-CASTRILLO, 1997)
36
A racionalidade limitada (capacidade limitada de acumular, processar e transmitir
condições que podem afetar as interações humanas, com impactos negativos sobre o processo
O que acarreta afirmar que contratos são relacionais, pois é impossível, ou economicamente
estabelecendo compromissos que, a priori, sabe que não poderá cumprir. O oportunismo está
de fluxos de recurso. Esta atitude é uma habilidade do contratado (agente) que identifica e
relevantes são a seleção adversa e a sinalização que ocorrem antes do contrato ser firmado
(ex ante) e o risco moral que sucede o seu estabelecimento (ex post). (WILLIAMSON, 1985;
MACHO-STANDLER&PÉREZ-CASTRILLO, 1997)
quando:
24
Há, portanto, uma mudança de ênfase, do estabelecimento do contrato original, ao acompanhamento da
evolução da relação ao longo do tempo. Ao invés de especificar obrigações no contrato, prevendo os possíveis
problemas, os parceiros buscam estabelecer medidas para sua resolução futura - renegociando o contrato ao
longo de sua execução. (NELSON&WINTER, 1982; WILLIAMSON, 1985; LAMBSDORFF&TEKSOZ, 2005)
37
i. o contratante (principal) pode verificar o comportamento do contratado (agente),
mas a decisão ótima e seu custo dependem de certas características do processo produtivo que
determinação do tipo de contrato e antes de sua assinatura, quando o contratado (agente) pode
contratante (principal) sobre a sua identidade - tomando alguma parte da decisão para si.
(MACHO-STANDLER&PÉREZ-CASTRILLO, 1997)
O risco moral (Moral Hazard) acontece quando uma das partes de um contrato muda
sua conduta após ter havido pactuado, se aproveitando do fato de que só ele tem acesso a
algumas informações para obter ganhos em detrimento de um ou mais agentes com os quais a
ii. os esforços do agente não podem ser verificados, por isso não podem ser
iii. os ganhos do agente, seu pay-off, não dependerão dos seus esforços, ou do que foi
25
Isto é possível quando as ações dos agentes não são verificáveis ou quando o agente recebe informações
depois do relacionamento ter tido inicio.
38
3.2. Microfundamentos da Transação Corrupta: As Instituições Sociais
podem ser exploradas por aqueles que possuem alguma vantagem informacional. Em razão
(NORTH, 1992)
organização.28 As regras, socialmente definidas, que tratam do uso dos recursos sociais
(direitos de propriedade) são definidas pelo sistema legal em vigor, mas seu conteúdo é
ações possíveis, determinando uma estrutura de incentivos para as decisões. Esta estrutura de
26
A racionalidade limitada, a complexidade e a incerteza, a assimetria de informação, o oportunismo e a
especificidade dos ativos são os fatores determinantes para a existência destes custos, presentes em toda a
interação humana regulada por contratos.
27
As instituições são repositórios de autoridade e recurso para resolver os problemas que se repetem ao longo do
tempo. As respostas aos problemas sociais recorrentes são institucionalizadas, provendo incentivo aos
indivíduos, para que tomem as medidas necessárias. As instituições são materializadas em organizações, cuja
estrutura de governança permite que a ambição individual e os objetivos organizacionais sejam atingidos,
concomitantemente. (DIERMEIER &KREHBIEL, 2001; SHEPSLE&BONCHECK, 1997)
28
Segundo os neoinstitucionalistas, as instituições e suas organizações são melhor definidas em termos
contratuais, relaxando a hipótese de informação perfeita e aceitando o fato de que os agentes estão propensos ao
oportunismo - as redes de contrato são um artifício para centralizar as relações contratuais em torno da parte
contratante, ao invés de organizá-la em um agregado de relações bilaterais.
39
Como a interação dos indivíduos dentro e fora das instituições e organizações é
diluída, a noção de limite institucional fica comprometida; pois há, de fato, uma variedade de
que permitem aos estratos gerenciais (ou a qualquer outro contratado – agente) utilizar os
(subgoal pursuit) é caracterizada por este esforço dos indivíduos no sentido de manipular o
capaz de garantir a integridade dos acordos.29 Contudo, a análise neoclássica dos contratos
assume que os parceiros do contrato são anônimos; enquanto a perspectiva relacional sugere
que a identidade dos parceiros é um aspecto fundamental dos contratos. Isto porque as
transações estão em constante negociação e uma vez que a identidade das partes muda, o
ao comportamento oportunista, à medida que se torna possível excluir a parte oportunista dos
(LAMBSDORFF&TEKSOZ, 2005)
29
Segundo Oliver Williamson (1996, p. 5), o estudo da governança está preocupado com a identificação,
explicação e mitigação de todas as formas de problemas contratuais.
40
3.3. O Modelo Analítico da Relação de Agência
garantir que as preferências dos contratantes (principais) sejam consideradas nas decisões dos
quanto aquelas entre cidadãos e Estado – sem distinguir o setor público do privado, pois serve
por cumprir qualquer papel social. O modelo chama a atenção para a necessidade de analisar a
integração dos indivíduos nas instituições e sua capacidade de gerar resultados agregados
socialmente benéficos, apesar de agirem movidos apenas por seus interesses particulares.
para uma relação de agência não eliminável em um mundo complexo e incerto, onde a
obtenção de informações implica em custos; por isso, tende a ser imperfeita e incompleta.
Considerando que o comportamento dos indivíduos é pautado pela busca do interesse próprio
comportar de acordo com os termos do contrato; é factível imaginar que estes agirão de
acordo com sua própria função objetivo e que o comportamento das instituições/organizações
poderá não resultar naquilo que se esperaria delas, implicando em uma alocação de recursos
1996)
contratados de uma forma que incremente seus ganhos, em detrimento dos benefícios do
30
Sejam elas empresas de capital de aberto, grupos de interesse, partidos políticos, governos.
31
Por isso, este modelo supera a abordagem parcial da teoria da escolha pública que limita sua análise as
transações corruptas dos burocratas e políticos do setor público, concluindo logicamente que a redução da
corrupção implica necessariamente na redução do tamanho do Estado; sem atentar para a devida complexidade
do fenômeno.
41
contratante (principal), toda a relação contratual incorre em custos de agência - perdas
sofridas pelo principal devido à conduta oportunista dos agentes somada ao dispêndio de
(agentes) resulta do fato dos últimos poderem auferir ganhos sem custos, já que a redução da
referencial analítico, sob uma perspectiva pouco abrangente, afirmando que a corrupção é um
autoridade pública (contratada pela sociedade) possui valor para indivíduos e grupos
(terceiros a relação contratual) estes poderiam estar inclinados a oferecer propina e tentar
que auxiliasse na maximização dos lucros deste terceiro. Susan Rose-Ackerman (1978),
Donatella Della Porta e Alberto Vannucci (1999) oferecem bons exemplos de definições que
32
Segundo Rose-Ackerman (1978), a corrupção surge quando uma terceira pessoa, que pode se beneficiar pela
decisão do agente, procura influenciar sua decisão oferecendo propina que não é repassada ao principal;
enquanto para Donatella Della Porta e Alberto Vannucci (1999), a transação corrupta ocorre quando o agente
desrespeita as regras por causa da intervenção de um terceiro que o induz a partilhar recursos ligados ao seu
interesse, seja devido ao seu poder discricionário, as informações privilegiadas que possui ou a possibilidade de
42
Estas relações, marcadas pela assimetria de informações, impondo limitações ao
pública que, ao perceber que sua atividade não é devidamente fiscalizada, poderá agir em
uma nova fonte de incentivos para que as transações corruptas como forma de normalizar ou
FILGUEIRAS, 2006) Ironicamente, sob esta perspectiva limitada das relações contratuais,
ampliação das fontes de poder para a própria autoridade pública corrupta. Entretanto, uma
à corrupção.
proteção de seus interesses - a retribuição oferecida ao agente público, geralmente, na forma de suborno que, em
sentido amplo, se traduz em recursos financeiros, materiais ou simbólicos.
43
CAPÍTULO IV – O Referencial Analítico da Corrupção Reconsiderado
formal ou informal, entre as partes. Todo o contrato garante à parte contratada uma esfera de
contratante; contudo, além destas condições, é indispensável, para caracterizar uma transação
Assim:
44
Tabela 3.1. O significado das condições necessárias e suficientes da corrupção.
Condições Aspecto Relacionado
equilíbrio entre oito critérios interdependentes entre si. Segundo estes critérios, o conceito
45
Tabela 4.0. Critérios de análise geral do conceito ontológico da corrupção.
Critério Descrição
familiares;
garante a inclusão das condições necessárias ao fenômeno, presentes nas outras definições,
46
Uma avaliação comparativa entre a perspectiva ontológica e as demais permite um
4. O fenômeno da corrupção não é definido somente pela sua dimensão no setor público?
fenômeno?
microfundamentos?
Perspectivas 1 2 3 4 5 6
A partir dos resultados da tabela é possível identificar, com clareza, que somente a
transações criminosas de outras atividades ilícitas (que a definição mínima e do crime não
47
legal e do crime); incorpora as diferenças culturais, sem relativizar o conceito ao nível básico,
restringe a corrupção ao setor público (como fazem a definição mínima, legal e econômica do
corruptas (que não fica clara em todas as demais definições, com exceção da abordagem legal
que normatiza estas condições); e, por fim, o conceito incorpora a dimensão causal do
relaciona diretamente. Disto, não se permite inferir que haja superioridade ou diferença
ontológica a qualquer uma destas dimensões da corrupção, mas apenas uma diferenciação
entre as relações contratuais passíveis de transação corrupta. De tal modo que, aproveitando-
se das categorias introduzidas por Mark E. Warren (2004), é possível diferenciar os domínios
das transações corruptas de acordo com as funções dos contratos firmados e sua importância
1. no domínio público:
i. o burocrático ou executivo;
iii. o judiciário;
2. no domínio privado:
i. a esfera pública;
48
iii. os mercados/corporações;
privados.33 No primeiro estariam contidos aqueles contratos firmados entre os indivíduos para
pública são instituições que resultam de uma rede de contratos públicos; da mesma forma que
Um aspecto fundamental dos contratos públicos é que uma parcela destes tem como
objeto a provisão de bens públicos, não excludentes e não rivais, que exigem a contratação
importante é a constituição do Estado e dos poderes públicos, que, por definição, são
contratos privados este mesmo controle foi, preferencialmente, realizado por meio do próprio
PINHO&VASCONCELLOS, 2004)
A única razão para que a corrupção dos contratos públicos, como a corrupção
legislativa e burocrática, atraísse para si maior interesse social é o fato de que suas
da sociedade; não havendo razões teóricas ou empíricas para afirmar, a priori, que qualquer
33
Esta diferenciação de caráter analítica extrapola a concepção econômica corrente de setor público e privado,
por isso, deve ser compreendida exclusivamente dentro dos termos aqui apresentados.
49
uma das dimensões sociais da corrupção seja maior ou menor – como afirmam os teóricos da
escolha pública. Proposições deste tipo devem ser formuladas e validadas empiricamente com
acuidade, não podem ser decorrência de pura dedução lógica, antes de serem incorporadas ao
corrupção dos fenômenos que estão conceitualmente próximos e promove a coerência interna
institucional) pelo contratado (agente) em beneficio próprio, que atenda o interesse de terceiro
diferenciações correspondentes.34
+ + + + Transação Corrupta 04
50
Tabela 6.1. Condições secundárias, pertencentes à estrutura lógica do conceito de
corrupção.
a manipulação oportunística do contrato (sistema institucional) pelo contratado
X1 (agente).
X2 em benefício próprio;
atividades corriqueiras do mundo político, onde é comum, por exemplo, que parlamentares
troquem votos que atendam seus interesses de maior preferência. O contrato parlamentar de
interesse da comunidade política, a cada proposta que lhe for apresentada; negociar o seu voto
maximizando, inclusive o interesse social; mas, a princípio, não deixará de ser a simples
risco moral não implicam, por si mesmas, em nenhuma transação corrupta, embora possam
ser tão prejudiciais quanto à corrupção. É um fato comum da política os candidatos aos cargos
35
A literatura de ciência política define este fenômeno como logrolling: o intercâmbio de votos entre os
parlamentares para aprovação de diferentes leis. Esse intercâmbio de votos é possível posto que os legisladores
têm diferentes intensidades de preferência pelas leis apresentadas. Segundo os teóricos da Escolha Pública, o
logrolling cumpre uma função política indispensável ao bom funcionamento dos Parlamentos, pois supera as
limitações da regra da maioria explicitadas no paradoxo do voto e permite encontrar soluções à dificuldade de
obter decisões ótimas pela coletividade. (MUELLER, 1989; BORSANI, 2004)
51
das eleições, de tal forma que os candidatos influenciem as crenças dos eleitores sobre sua
marcado pela assimetria de informação fazendo promessas que sabem, desde o princípio, que
transações legais e legítimas nos regimes democráticos. Uma vez assegurado o desempenho
do contrato político estabelecido entre a autoridade política eleita e os eleitores, nada impede
as pressões políticas que visam atender o interesse de terceiros, ou de grupos particulares, por
meio de uma influência que beneficie a própria autoridade política e, por vezes, o próprio
promovem projetos políticos que ajudam a garantir determinados resultados políticos. Este
36
Segundo a tradição democrática moderna, a participação em grupos e associações reforça a democracia,
ressaltando os valores democráticos essenciais a preservação do Estado. (TOCQUEVILLE, 1998 [1835];
PATEMAN, 1970). James Madison (2003 [1788]) discute a noção facciosa dos grupos e entendendo que os
indivíduos perseguirão seu auto-interesse, recomenda que a autoridade pública eleita aceite o fato de ser objeto
de pressões, desenvolvendo uma estrutura governamental que seja capaz de antecipar-se a elas. Assim, desde sua
origem, os parlamentos democráticos modernos acolhem os interesses de particulares, obrigando os
parlamentares a equilibrarem sua posição dentro e fora do congresso.
37
A analogia com a literatura da firma é direta, pois as firmas, como as interações entre lobistas e parlamentares,
se organizam para reduzir custos de transação. As interações repetitivas são necessárias aos lobistas para que os
grupos ganhem acesso ao congresso e também o são aos parlamentares porque reduzem a incerteza e os custos
associados com intrincadas negociações. Estas interações estabelecem um canal regular de influência que é de
mão dupla, permitindo o lobby reverso, em que a opinião dos grupos é, também, influenciada pelos
parlamentares. (SHAIKO, 1998; AINSWORTH, 2002)
52
e política que de outra forma os parlamentares não disporiam; além disso, mobilizam
interesses que podem afetar o curso dos debates políticos. Os parlamentares, por sua vez,
podem afetar somente indiretamente a mobilização de interesses, mas, não há dúvidas, de que
provendo não mais do que uma rejeição benéfica a outros. (SALISBURY&SHEPSLE, 1981;
por isso, desempenham uma função extremamente útil aos legisladores e a sociedade.38 Os
contatam os lobistas para lhes oferecerem conselhos. Contudo, embora o lobista possa
oferecer informação valiosa, nenhum legislador ou lobista é cego para as implicações das
decisões políticas em questão. É claro que a desigual distribuição das informações faz com
que o lobista seja valioso; mas, também, potencialmente perigoso, porque não há incentivos
para que sejam reveladas informações verdadeiras ao parlamentar – os lobistas têm incentivos
para exagerar nos benefícios de atendê-los e nos custos de não os atender, potencializando o
No entanto, os parlamentares têm uma vantagem sobre os lobistas, pois são eles os
responsáveis por desenhar e estabelecer as regras de sua interação; os lobistas devem cumprir
disseminar informação valiosa; para isso o legislativo usa regras formais e meios informais de
38
As informações prestadas pelos lobistas permitem ao parlamentar conhecer as implicações técnicas, políticas,
econômicas, sociais dos projetos em discussão, que de outra forma, não seriam conhecidas por ele; reduzindo os
custos do processo de tomada de decisão política.
39
Esta interação é formalizada por jogos de sinalização, para uma descrição mais aprofundada consultar Eric
Rasmusen (1993), Randolph Sloof (1998) e Scott Ainsworth (2002).
53
regular esta interação. (AINSWORTH, 1993; 2002) O lobby dos grupos de interesse é,
abuso da autoridade pública em beneficio próprio. Na maioria dos casos estas práticas, além
eleito, muda sua conduta, aproveitando-se do fato de que só ele tem acesso a algumas
informações para obter ganhos em detrimento da autoridade pública que lhe foi investida,
eleitores não conseguem verificar os esforços do seu representante ou controlar suas ações e
os ganhos do representante não dependem dos seus esforços, ou do que foi contratado -
Neste caso, a corrupção política fica caracterizada quando ao invés de exercer pressão, por
comprando as decisões da autoridade eleita – que deixa de ter responsabilidade para com a
terceiros.
40
É importante notar que no Brasil o lobby é considerado uma atividade ilegal. Situação diferente ocorre nos
Estados Unidos, onde a atividade é regulamentada.
54
Neste caso, a corrupção é uma transação que manipula contratos cujas vítimas são
transação corrupta, em sua dimensão política, infringe perdas a coletividade e aos interesses
difusos. Contudo, a porção extraída pelo corrupto, embora imperceptível para as vítimas, pode
resultado de uma coletividade que sofre do problema de oportunismo do tipo caroneiro (free-
rider) que leva a um equilíbrio social sub-ótimo. (OLSON, 1965; JAIN, 2001)
Segundo Robert Harris (2003), este fato é tão ordinário nas relações políticas que uma
funcionamento dos regimes políticos atuais. A corrupção política não seria nada que a vasta
maioria das autoridades públicas eleitas já não tenha feito em ocasiões anteriores, uma
desejo de ajudar os financiadores com seus problemas. (PHILP 2002 apud HARRIS, 2003)
Entretanto, apesar de todas as sociedades terem indivíduos que exploram o processo político e
sistemática que, de fato, importa a corrupção política. Visto que o fenômeno não é ordinário e
pois a autoridade política corrupta não opera sozinha, mas em rede. A autoridade política
clientela (com os eleitores e seus subordinados) e patronagem (com aqueles de quem será
dependente), operando uma cadeia de transações que integra recursos e poder político. De
41
A corrupção política se torna um jogo com um vencedor, mas “sem perdedores”.
55
manutenção no poder nos regimes democráticos. Assim, os políticos corruptos recebem
propinas e reinvestem parte delas na compra de votos, criando um circulo vicioso, onde a
eleva os custos de transação destes acordos: a barganha se torna mais complicada e consome
mais tempo, a complexidade das trocas faz com que os controles e as garantias sejam
Nos contratos corruptos, assim como nos contratos legais, os parceiros podem agir
estruturas sociais facilitará a promoção dos acordos. Nas transações corruptas, entretanto,
estes custos de transação serão agravados, pois não haverá garantias do Estado aos acordos e
caracterizam estes acordos. Sob transações corruptas, os direitos de propriedade não estão
42
As transações corruptas acontecem em segredo (a busca por parceiros, as negociações e a garantia dos
contratos se dão longe do público); e, a dependência mútua entre as partes os coloca a mercê da traição, tornando
as partes mutuamente dependentes das informações secretas de que dispõem, uns sobre os outros.
(LAMBSDORFF, 2002, 2005)
56
assegurados; pois os parceiros da relação devem acreditar na palavra do outro e os direitos
sobre as rendas extraídas são incertos. Esta condição revela que a proibição das transações
contratos; mas não cancela, nem impede, o desenvolvimento destas transações que ocorrerão
impulsionadas por outros mecanismos, promovidos por arranjos institucionais mais primitivos
indivíduos corruptos, gerando expectativas estáveis que constranjam suas ações, impondo o
cumprimento dos contratos ilegais. Segundo Della Porta e Vannucci (2005), estes sistemas
sobre o cumprimento dos contratos, de tal forma que sua violação produzirá um custo
1984) A confiança é uma condição indispensável nestas situações, pois a aquisição de uma
43
É um fato que qualquer tipo de transação pode ser facilitada quando as partes estão imersas em estruturas
sociais de amizade, religião, cultura, ideologia; pois estas relações reduzem os custos de transação (AOKI, 2002
apud DELLA PORTA&VANNUCCI, 2005). Como observa Lambsdorff (2002), a corrupção não é uma
exceção: “as transações corruptas podem ser aprimoradas com parceiros com que algum tipo de relacionamento
organizacional já exista – provendo uma garantia primordial contra o oportunismo.
57
reputação de “honestidade” nos negócios corruptos permite a redução dos riscos da interação
Por fim, o “controle da terceira parte” pode ser necessário quando as redes de
situações como esta, ficará claro que o mecanismo garantidor da terceira parte não é neutro,
assim como é idealizada a proteção garantida pelo Estado; pois, de fato, os garantidores
incentivos nas atividades dos agentes e organizações quando estas estiverem envolvidas na
tendem a ser maiores quando os acordos e os recursos são ilegais; por isso, esta relação é
Estados modernos tentam lidar por meio da taxação compulsiva. (OLSON, 1965) Entretanto,
com exceção das organizações do crime organizado como as máfias, as terceiras partes não
podem garantir os acordos e exigir o pagamento dos serviços de proteção por meio da
garantidores não farão uso de seu poder de maneira a controlar seus recursos, ao invés de
44
Os custos de transação estão negativamente associados com a confiança mútua entre os contratantes
(LAMBSDORFF&TEKSOZ, 2005). Assim, quanto menor a confiança entre os contratantes, maiores os custos
de transação. Isto ajuda a explicar por que as transações corruptas tender a serem interações repetitivas.
58
Compreender a arquitetura organizacional das normas e mecanismos que ajudam a
países com arranjos institucionais similares. Ou ainda, não ajuda a explicar, por que, após
nas instituições.
Este desafio exige uma compreensão maior sobre o aspecto dinâmico das
afirmam que uma ação tomada em determinada direção aumenta a probabilidade das demais
ações seguirem a mesma trajetória, desde que os benefícios relativos daquela atividade,
comparada com as outras opções, aumente ao longo do tempo, associada aos altos custos de
saída. Assim, quanto mais uma determinada ação se desenvolve, mais custoso será substituí-la
por outra trajetória – uma condição que tende a produzir resultados menos eficientes do que se
individualmente; mas, também, ao nível macro, nos arranjos institucionais, que oferecem
interação social e da adaptação institucional tendem a produzir estes resultados, cujas redes de
entrada devido à combinação de penalidades legais, custos morais e riscos para a reputação;
da mesma forma que custos iniciais são impostos para estruturar um sistema corrupto
59
favorável. Entretanto, uma vez superadas esta barreira, os atos subseqüentes de corrupção se
aumentam com a adoção desta mesma estratégia pelos demais, pois quanto mais a corrupção
corrupção reduz o senso de culpa e o risco de envolvimento, pois onde a corrupção for
generalizada, o risco de ser acusado parece ser extremamente baixo. Se somente poucas
pessoas estiverem envolvidas, elas serão pegas; mas se muitas estiverem, a probabilidade de
qualquer uma ser punida é muito baixa; enquanto os ganhos desta transação são crescentes.
(SHLEIFER&VISHNY, 1993) Desta forma será mais difícil punir, pois haverá uma
prover informação ficará limitado – obrigando até mesmo os não corruptos a aceitarem ou
praticarem o conluio.46
tempo – efeito do aprendizado. A incerteza e a tensão são reduzidas quando existem “regras”
compartilhadas para guiar o comportamento das transações corruptas; pois não haverá
preocupações relacionadas aos indivíduos com que se interage, sendo suficiente conhecer e
45
Uma vez superados os custos fixos de iniciar uma transação corrupta, os indivíduos terão incentivos para
mantê-la; pois, ao longo do tempo, estas atividades reduzirão os custos, por unidade, da corrupção.
46
A difusão da corrupção reduz o custo moral e aprimora a “cultura da corrupção”, acompanhada pela
expectativa de que é reconhecida e compartilhada pelos demais, expandindo um sistema de valores particular no
qual o comportamento dos demais influenciará minha perspectiva moral. Se a expectativa é de que a corrupção é
amplamente praticada, então a profecia tenderá a se tornar auto-realizadora; não só pelo cálculo racional, mas
porque as barreiras aquela atividade serão reduzidas num processo de auto-legitimação das práticas corruptas. E,
vice-versa, pois se a corrupção é percebida como marginal, os indivíduos adaptarão suas ações de tal forma a
respeitar suas crenças, aumentando os custos de informação e proteção contra as transações corruptas.
(HIRSCHMAN, 1982 apud DELLA PORTA&VANNUCCI, 2005)
60
repetitiva favorece o processo de aprendizado pela prática cotidiana, que ensinará como agir
maneira a não serem excluídos dos benefícios dos acordos corruptos – expectativas
adaptativas. Como os agentes são recompensados pelos seus esforços, de acordo com os
assim, uma vez recompensados pelo sistema, passarão a dar suporte a sua reprodução e
Estes fatores permitem explicar porque há múltiplos equilíbrios possíveis nos sistemas
sociais – inclusive nos corruptos. Uma vez que os indivíduos podem ter valores similares,
dentro e entre as sociedades, estruturas institucionais similares e, mesmo assim, isto resultar
as diferenças nos custos morais podem ser explicadas pela evolução das normas sociais, como
civismo, reciprocidade; ou sistema de valores que são mais ou menos favoráveis às praticas
garantia das transações corruptas e seus arranjos institucionais serão reforçados e resistirão às
PORTA&VANNUCCI, 2005)
61
PARTE III – AS IMPLICAÇÕES PARA A PREVENÇÃO E O COMBATE À
CORRUPÇÃO
serem enfrentados, sempre foi analisada como um epifenómeno social pelos amplos
referenciais teóricos das ciências sociais. A corrupção, como fenômeno social, não raro foi e
continua sendo objeto de intensa reinterpretação semântica, baseada por uma definição
minimalista geral, guiada por interesses acadêmicos, políticos, econômicos, sociais que não
47
A “existência da corrupção” pode ser usada para justificar reações políticas ou manifestações de poder
político, capazes de se representar em campanhas e na legislação anticorrupção, como uma espécie de tática para
remover inimigos poderosos. Esta estratégia fui usada, particularmente pelos militares, para justificar golpes de
Estado em várias partes do mundo. (HARRIS, 2003)
62
seus microfundamentos, cumpre a tarefa primordial de contribuir para os esforços
corrupção.
diversas abordagens teóricas relacionadas ao tema e analisar sob uma perspectiva crítica as
medidas propostas por cada uma delas. As conclusões permitem identificar como cada medida
sugerida está ou não ligada ontologicamente ao fenômeno. Contudo, como esta avaliação
comparativa das medidas não faz parte dos objetivos imediatos deste estudo, a discussão
de uma coletividade que sofre do problema de oportunismo do tipo caroneiro (free-rider) que
dos jogos, este equilíbrio será do tipo “dilema do prisioneiro”, onde a solução dada é (0,0), no
qual indivíduos optam por adotar um comportamento não cooperativo que os encaminha a um
(SHEPSLE&BONCHECK, 1997)
48
Acredita-se que esta etapa posterior da pesquisa cientifica seja aprofundada a partir do conceito proposto.
63
Tabela 7.0. A corrupção segundo a perspectiva da teoria dos jogos.
Indivíduo B
se discute recentemente, na mobilização coletiva dos indivíduos para promover seu interesse
coletivo e, dentre outras coisas, exercer o controle social sobre as instituições.49 (OLSON
desejo de evitar a dor; consequentemente, a solução mais evidente quando se deseja dissuadir
49
Nenhum assunto foi mais debatido na história do pensamento social do que os mecanismos institucionais para
promover a cooperação social e conter o comportamento oportunista dos indivíduos - seja em sua dimensão
econômica ou política. Esta questão intrigou os principais pensadores sociais modernos dentre eles Thomas
Hobbes em “Leviatã” [1651]; Charles-Louis de Secondat, o barão de Montesquieu, em “O Espírito das Leis”
[1748]; Adam Smith em “Uma investigação sobre a natureza e a causa da riqueza das nações” [1776]; Benjamin
Constant em “Princípios de Política” [1815]; James Mill em “Ensaio sobre o Governo” [1825].
50
Os fundamentos do utilitarismo foram descritos por Jeremy Benthan (1979, [1789]) em sua obra “Introdução
aos Princípios de Moral e Legislação” de 1789.
64
Exaurida a eficiência desta perspectiva de controle punitivo, baseada nos incentivos
altruísmo, por meio de incentivos positivos que superem o equilíbrio não cooperativo. No
externo indireto exercido por terceiros, em geral a sociedade como um todo, que possam
terceiros).51 Iniciativas como o controle social exigem, além dos incentivos, a absoluta
transparência das instituições públicas e privadas; pois a dissociação de algum destes dois
eficiência da instituição afete o bem-estar dos contratados na mesma magnitude das eventuais
internalizar nos indivíduos a “perspectiva pivotal”, ou seja, de que sua contribuição é decisiva
51
A recente iniciativa do governo do estado de São Paulo no combate à sonegação fiscal (Programa de Estímulo
da Cidadania Fiscal), por meio do controle social é um exemplo de iniciativa de compatibilização do interesse
pessoal com o altruísmo. A lei prevê a devolução de 30% do ICMS mensalmente recolhido pelo estabelecimento
comercial aos consumidores identificados pelo CPF ou CNPJ no momento da compra, proporcionalmente ao
valor registrado nas notas e cupons fiscais emitidos.
52
No que diz respeito à transparência, é essencial que as informações estejam disponíveis a baixo custo, não
exija alto grau de qualificação técnica para o entendimento e que não sejam previamente manipuladas.
53
Como o comportamento humano é eminentemente manipulável, o prazer deriva, realmente, da crença de que a
contribuição terá impacto discernível na ação. (HARRIS, 2003)
65
identidade, a confiança, o reconhecimento - cumprem um papel indispensável à cooperação e
É importante notar que esta não é uma questão de moralização, pois aceitando a lógica
explorar alguma vantagem, assim o faça; por isso, os fundamentos das estratégias de combate
próprio).55 Neste caso, o problema não é que a corrupção seja anormal, como um ato de
vilania individual; mas que é perfeitamente natural; pois, ao resultar dos contratos, permeia
apud HARRIS, 2003) Contudo, o objeto central da corrupção, não é o monopólio; mas o
contrato – o monopólio do setor público é apenas a sua característica mais acentuada. Com o
desenvolveram, pois como os contratos não são eliminados, a corrupção pode ser até mesmo
ser exacerbada no sistema privatizado - onde novas estruturas regulatórias ainda não estão
66
privatizações criaram novas oportunidades de corrupção em curto prazo são persuasivas.
infringir maior sofrimento e custo àquelas sociedades que precisavam combater à corrupção;
arranjo institucional ótimo, que oferece os incentivos mais propícios a cooperação, pois isto
institucionais semelhantes. O desafio, nos dias de hoje, é entender como as condições que
permitem o sucesso das transações corruptas conseguem evoluir, adaptando-se aos novos
2005)
oportunismo. Os custos de transação para os acordos corruptos, no entanto, são mais elevados
do que para a maioria dos contratos legalmente estabelecidos, pelas razões que já foram
aprimoradas.57
56
Como o fundamento da corrupção é o contrato, a maior ou menor institucionalização não eliminará as
transações corruptas, apenas irá situá-las em novos padrões, impondo novos desafios ao seu combate. Disto
decorre que as reformas institucionais de combate à corrupção devem ser avaliadas com muito cuidado.
57
Como nas transações corruptas a incerteza e os custos de transação são altos, os mecanismos de governança
desempenham um papel crucial, cujo conhecimento é indispensável às estratégias de combate à corrupção. Neste
contexto, a análise institucional comparada desempenha um papel decisivo, pois é preciso investigar a
diversidade institucional e a complexidade das respostas organizacionais que os arranjos institucionais corruptos
promovem ao reduzir os custos de transação dos seus acordos - esclarecendo as variáveis que influenciam os
diferentes processos de difusão e diferenciação das transações corruptas.
67
Em geral as ações de intervenção visam evitar oportunidades limitando a
controle, ainda com ênfase naqueles de caráter hierárquico. Esta nova proposta sugere maior
atenção ao fato dos mecanismos de sanção legal estarem sendo instrumentalizados para
problemas de garantia dos acordos corruptos, prevenindo que as autoridades públicas lhe
sirvam de meio para reduzir os custos dos acordos; evitando os casos em que as leis,
estabelecida podem ser um campo fértil para as transações corruptas florescerem, sob a
“segurança jurídica” que esta lhe proporciona. Os acordos legais permitem a utilização de
uma série de mecanismos de sanção que podem ser aplicados para garantir a retaliação dos
corruptas parece maior que os benefícios, pois tais acordos são certamente detectados e
punidos. Contudo, a intermediação não desapareceu, só passou a ser operado de maneira mais
demonstram ter razão para afirmar que não são corruptos, mas beneficiários da democracia
institucionais que facilitam estes acordos - precisamente porque a corrupção é uma extensão
68
do comportamento normal que envolve o cruzamento de limites institucionais mutáveis.
(HARRIS, 2003)
69
CONCLUSÕES
parlamentar da Câmara dos Deputados e teve seu mandato cassado em plenário. Em seu
"Tirei a roupa do rei. Mostrei ao Brasil quem são esses fariseus", gritou Jefferson,
O exemplo ilustra bem a forma como uma instituição legal, no caso, o conselho de
ética da Câmara dos Deputados, pode servir para garantir acordos corruptos. O deputado
federal Roberto Jefferson traiu o acordo que mantinha com os demais envolvidos no
compra de votos e pagamento dos parlamentares; por isso, foi punido pelos demais, alguns
Esta punição, isolada, serviu de exemplo aos demais, de que não se deve violar o
segredo das transações políticas corruptas, sob pena de exclusão dos benefícios futuros da
participação no esquema e a ameaça da perda do próprio mandato. Este exemplo elucida que
as transações legais e ilegais são complementares, não substitutas; e, que, em muitos casos, o
corruptos.58
58
Segundo Octáciano Nogueira, cientista político da Universidade de Brasília, esta é uma das principais razões
pela qual é preciso acabar com o conselho de ética e decoro parlamentar que dispende recursos preparando
pareceres que são ignorados pelo plenário e é constituído por membros, não raro, envolvidos nos próprios
processos de acusação. Em 2006, depois do escândalo das “sanguessugas” descobriu-se que, dos dezesseis
membros do conselho de ética, nada menos que metade (oito membros) eram acusados de envolvimento no
esquema. (ESCOSTEGUY, 2006)
70
Como em qualquer contrato, a transação corrupta requer mecanismos de governança
estabelecida pode ser um campo fértil para as transações corruptas florescerem, sob a
“segurança jurídica” que esta lhe proporciona. Os acordos legais permitem a utilização de
uma série de mecanismos de sanção que podem ser aplicados para garantir a retaliação dos
algumas de suas principais implicações, o presente estudo oferece uma perspectiva inovadora
para a análise e avaliação das instituições sociais, em especial aquelas do domínio político,
cases, que permitam testar novas hipóteses teóricas acerca das transações corruptas.
Novos estudos de caso deverão ser realizados para rastrear os processos causais e
tanto mais convincentes quanto as múltiplas relações da cadeia causal possam ser
(MAHONEY, 2007; GERRING, 2007) Da mesma forma, as comparações entre casos deverão
servir para testar as diferentes hipóteses rivais. Isto significaria assumir que tanto os métodos
método, é possível associá-los aos estudos das transações corruptas, visto que há, de fato,
71
complementaridades na busca de inferências causais válidas. (BRADY, COLLIER e
SEAWRIGHT, 2006)
oferece maiores recursos para a formulação de novas hipóteses, baseadas no estudo de caso
de investigação (fonte de novos conceitos e hipóteses explicativas que não estão presentes nas
Além disso, uma aproximação qualitativa inicial, por meio de técnicas de análise das
conjunturas críticas e dos processos de dependência da trajetória, facilitará o estudo dos dados
às transações corruptas, das instituições políticas entre regiões e países com arranjos
institucionais similares. Além de oferecer as respostas quanto às razões pelas quais, após
72
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