PATOLOGIA GERAL
AULA 4
Profª Giane Santos
CONVERSA INICIAL
Olá! Seja bem-vindo à aula de inflamação e reparo.
Durante a disciplina, iremos estudar o mecanismo envolvido nas
respostas inflamatórias. Abordaremos a classificação do processo inflamatório
em agudo e crônico, os agentes lesivos e principais estímulos que podem levar
a uma inflamação. Veremos as principais diferenças de sinais e sintomas de uma
inflamação aguda para uma inflamação crônica, bem como os mediadores
inflamatórios responsáveis pela resposta à lesão.
TEMA 1 – RESPOSTAS INFLAMATÓRIAS
A inflamação ou flogose (palavra originada do grego phlogos que significa
“pegar fogo”) é uma das mais importantes respostas presentes na execução da
resposta imunitária. Através dessa complexa reação, os agentes nocivos são
isolados, destruídos e/ou diluídos, desencadeando uma cascata de eventos com
o intuito de reparar o tecido lesado.
De um modo geral, a inflamação é um mecanismo de defesa com o intuito
de agir localmente para restringir a extensão do dano tecidual. Em situações em
que o agente nocivo ou estímulo agressor permanece a lesar o tecido, a resposta
inflamatória extravasa e pode vir a se manifestar em todo organismo. Em
determinados casos, o processo inflamatório pode ser danoso, uma vez que a
manifestação da inflamação pode lesar o próprio organismo, como por exemplo
em doenças autoimunes.
A inflamação é caracterizada por respostas vasculares, migração e
ativação dos leucócitos (células do sangue) e por reação sistêmica. Os principais
componentes que auxiliam em todo o processo inflamatório são as células
sanguíneas, células do conjuntivo, como os macrófagos e os fibroblastos,
proteínas fibrosas estruturais, células endoteliais e moléculas sinalizadoras.
Todos os componentes serão estudados detalhadamente ao decorrer da aula.
Além da reação vascular, o processo inflamatório é morfologicamente
caracterizado pela saída de líquidos para o interstício.
Dentro do contexto da resposta inflamatória, devemos lembrar que o que
irá determinar o curso do processo inflamatório é a natureza e a extensão do
agente lesivo causador da inflamação, que classicamente pode ser dividida em
aguda e crônica. A inflamação aguda é o processo inicial em resposta à injúria
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celular e tecidual. Em contrapartida, a inflamação crônica é caracterizada por ser
de longa duração, podendo ser precedida por uma fase aguda.
1.1 Histórico da inflamação
O processo inflamatório é investigado desde a antiguidade. No início da
Era Cristã, Aulo Cornélio Celso (30 a.C. – 50 a.C) descreveu os quatro sinais
cardeais da inflamação: Signa inflammationis quatuor sunt: rubor et tumor, cum
calor et dolor (“dor, calor, rubor e tumor”).
Em 1793, Jonh Hunter descreveu a inflamação como sendo uma resposta
inespecífica, com efeito salutar sobre o hospedeiro. Ele enfatizou ainda que a
inflamação não é uma doença. No século XIX, Julius Friedrich Cohnheim,
através do ponto de vista da microscopia, elucidou as bases histológicas do
processo inflamatório, observando que o aumento da permeabilidade capilar se
deve à lesão direta ao endotélio. Na mesma época, Rudolf Virchow, patologista
alemão, acrescentou ao conceito de inflamação um quinto sinal, functio lesae
(“perda de função”), estabelecendo, dessa forma, as bases fisiopatológicas do
processo inflamatório.
No ano de 1927, Lewis descreveu as respostas cutâneas frente a agentes
lesivos. Foi possível observar a presença de eritema local, edema e eritema
adjacente, correlacionando a histamina, denominada na época de substância H,
na mediação desses sinais. Essa descoberta foi um grande avanço e, por meio
dela, foi desenvolvido o teste para diagnóstico da lepra cutânea. Mais tarde, em
1930, William S. Tillet e Thomas Francis, no instituto Rockefeller, nos Estados
Unidos, descreveram a proteína C-reativa (PCR). Os autores observaram que o
soro de pacientes com infecções agudas formava um precipitado quando
misturado com extrato solúvel de Streptococcus pneumoniae.
Em meados dos anos 40, o termo “fase aguda” foi introduzido no estudo
da inflamação para descrever as alterações séricas observadas no soro desses
pacientes. Na década de 70, a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-
USP) contribuiu para o entendimento do mecanismo de ação de drogas anti-
inflamatórias.
Atualmente, a busca pela elucidação dos mecanismos celulares e
moleculares da ação anti-inflamatória de drogas estereoidais e não estereoidais
vem crescendo, bem como a busca por novos marcadores para o diagnóstico de
doenças autoimunes.
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TEMA 2 – INFLAMAÇÃO AGUDA
A resposta inflamatória aguda é caracterizada por ser uma resposta do
tipo inespecífica de caráter exsudativo. Ademais, o processo inflamatório pode
variar de intensidade, mas para todo e qualquer agente lesivo, a resposta é
estereotipada. É uma resposta rápida com o objetivo de “recrutar” células
sanguíneas. Nesse tipo de inflamação, as células predominantes no processo
são os leucócitos (neutrófilos) e proteínas plasmáticas, responsáveis por chegar
ao local da lesão e iniciar o processo de reparo.
A inflamação aguda possui dois componentes principais: alterações
vasculares e eventos celulares. As principais manifestações locais da inflamação
aguda são o aumento do fluxo sanguíneo como consequência da dilatação da
arteríola, da vênula e da expansão do leito capilar. A ação hormonal da
serotonina e da histamina estão presentes nesse primeiro evento. O segundo
evento compreende o extravasamento de proteínas plasmáticas, bem como a
ação das proteínas C3 e C5 do sistema complemento e a deposição de líquido
intersticial, causando edema. Por fim, neutrófilos polimorfonucleares emigram
para o local da lesão e são ativados, se tornando aptos a eliminar o agente lesivo.
Esse terceiro evento é mediado pela ação de integrinas, selectinas e fatores de
quimioatração.
2.1 Estímulo para a inflamação aguda
São vários os estímulos que podem desencadear uma inflamação aguda.
Entre eles, podemos citar:
• Infecções: as infecções bacterianas, virais, parasitárias e toxinas
microbianas são as principais causas do desencadeamento de inflamação
aguda;
• Traumas: podem ser do tipo contusos ou penetrantes, causados por
substâncias químicas e agentes químicos, como por exemplo
queimaduras ou congelamento, capazes de induzir respostas
inflamatórias;
• Necrose tissular: provinda de qualquer origem, incluindo isquemia e
lesão química ou física;
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• Corpos estranhos: aqui podemos citar farpas, terra, suturas, depósito de
cristais;
• Reações imunológicas: também chamadas de reações de
hipersensibilidade, podem ocorrer por contato com agentes externos ou
contra os próprios tecidos do organismo.
2.2 Alterações vasculares
As alterações causadas nos vasos sanguíneos por meio da vasodilatação
durante o processo inflamatório são compostas pelo aumento da permeabilidade
vascular e o aumento do fluxo sanguíneo, favorecendo a saída de células
sanguíneas, proteínas e substâncias químicas para o local da lesão, com o
intuito de eliminar os agentes lesivos.
2.2.1 Alteração no fluxo e calibre vasculares
As alterações vasculares ocorrem rapidamente após a injúria celular e
desaparecem de três a cinco segundos. Tais alterações estão associadas à
liberação de algumas substâncias, como a adrenalina. A velocidade com que as
alterações acontecem é variável e dependente da gravidade e da natureza do
estímulo lesivo.
Os primeiros sinais da inflamação, o eritema e calor, são causados após
a vasoconstrição transitória de origem neurogênica que ocorre geralmente em
segundos. A vasodilatação das arteríolas e o aumento do fluxo sanguíneo resulta
no aumento da pressão hidrostática local, seguido da abertura dos leitos
capilares, resultando em eritema e calor.
Com o aumento da permeabilidade da microvasculatura devido aos
mediadores químicos que modificam o revestimento endotelial, há a saída de
fluido proteico para tecido extravascular, resultando em edema.
As hemácias, nesse estágio, ficam mais concentradas devido à perda de
líquido, e a viscosidade do sangue fica aumentada, diminuindo a velocidade da
circulação sanguínea. Esse processo é chamado de estase. A partir desse
evento, os leucócitos começam a se acumular na superfície do vaso, causando
um processo chamado de marginação leucocitária.
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2.2.2 Aumento da permeabilidade celular
Na fase inicial da inflamação, ocorre o extravasamento de líquidos nos
tecidos, também chamado de transudato (líquido com baixa concentração de
proteínas), devido à vasodilatação seguida do aumento do fluxo sanguíneo e o
aumento da pressão hidrostática intravascular. Com a permeabilidade vascular
aumentada, líquidos ricos em proteínas saem para o tecido intersticial. Esses
são denominados de exsudato. O gradiente osmótico é modificado com o
aumento do efluxo de água do sangue para os tecidos, resultando no edema.
Diversos fatores podem contribuir para o aumento da permeabilidade
vascular, como:
• Contração das células endoteliais: a ativação de proteínas contráteis
actina-miosina do citoplasma das células endoteliais é responsável pela
formação de lacunas através da separação das células endoteliais a partir
de suas junções, aumentando a permeabilidade celular. A contração
dessas células ocorre rapidamente por meio da ligação de mediadores
químicos aos receptores específicos das células, sendo geralmente de
duração curta;
• Lesão endotelial: ocorre o extravasamento vascular imediato, tendo
como causa o desprendimento endotelial ou necrose celular. A
permeabilidade começa após a injúria persistente, até que haja o reparo
dos vasos danificados. O acúmulo de leucócitos na parede do vaso pode
levar ao desprendimento ou à lesão endotelial devido à liberação de
mediadores tóxicos;
• Extravasamento de novos vasos sanguíneos: o reparo tecidual
envolve a formação de novos vasos sanguíneos, evento chamado de
angiogênese. As novas células endoteliais expressam de forma
aumentada receptores para mediadores vasoativos, induzindo
diretamente um aumento da permeabilidade vascular através da
transcitose;
• Aumento da transcitose de proteínas: a permeabilidade das vênulas
ocorre através de canais formados pela junção de vesículas
intracelulares, frente alguns mediadores celulares;
• Resposta dos vasos linfáticos: a estrutura dos vasos linfáticos é
adaptada na situação de inflamação; os linfáticos da área afetada dilatam
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e ficam proeminentes. Ademais, existe um aumento do número de
lacunas denominas gaps. Através desses gaps, ocorre a drenagem do
fluido do edema, dos leucócitos e restos celulares do espaço
extravascular.
TEMA 3 – RECRUTAMENTO E ATIVAÇÃO DOS LEUCÓCITOS
Na inflamação aguda, o principal tipo leucocitário circulante são os
neutrófilos, responsáveis por uma resposta imune eficaz, pois constituem a
primeira linha de defesa do organismo, também chamada de imunidade inata.
A função do transporte leucocitário de linhagem mieloide do local de
maturação na medula óssea até os locais de injúria tecidual no organismo é
proteger, remover tecidos necróticos, eliminar agentes infecciosos e reparar o
local da lesão.
Produtos de células necróticas, infecções por microrganismos, citocinas e
mediadores quimiotáticos induzem várias respostas nos linfócitos, incluindo a
ativação destes. Uma vez ativados, os leucócitos possuem a capacidade de
prolongar a inflamação, induzindo lesão tecidual via mediadores tóxicos
liberados a partir da destruição de agentes patológicos.
Para que os leucócitos exerçam normalmente sua função na defesa do
organismo, é necessário que o recrutamento e a ativação dessas células ocorra
apenas quando é realmente necessário.
3.1 Recrutamento dos leucócitos
Em condições fisiológicas normais, os leucócitos circulam rapidamente na
corrente sanguínea; em contrapartida, nos processos inflamatórios, eles se
acumulam na parede do vaso e são levados ao local da lesão ou são
apresentados ao agente causador da injúria, em sítios extravasculares. O
recrutamento dos leucócitos consiste em uma sequência de eventos que será
descrita detalhadamente ao longo desta aula.
• Marginação e rolamento dos leucócitos: a marginação dos leucócitos
na periferia dos vasos e o acúmulo dessas células se dá pelo fluxo laminar
sanguíneo. Antes de saírem dos vasos, há uma interação com as células
endoteliais que revestem o vaso, especialmente quando há estase. O
processo de adesão fraca dos leucócitos ao endotélio é dependente da
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ativação endotelial por citocinas e outros mediadores, como integrinas e
selectinas. Posteriormente, os leucócitos se aderem firmemente ao
endotélio e começam o processo de rolamento na superfície endotelial.
As selectinas são moléculas de adesão, receptores expressos no
endotélio vascular em condições de inflamação após estímulo por
mediadores inflamatórios como TNF e IL8 nos leucócitos. As principais
selectinas envolvidas no processo de adesão e rolamento dos leucócitos
são as E-selectinas, expressas nas células endoteliais, P-selectinas,
exteriorizadas em plaquetas e no endotélio, e a L-selectina, presente na
superfície dos leucócitos;
• Adesão e transmigração: nesta fase, os leucócitos expressam
moléculas de adesão chamadas de integrinas, expressas na superfície
celular. Essas moléculas interagem com seus ligantes nas células
endoteliais, favorecendo a ligação. Os mediadores inflamatórios IL-1 e
TNF aumentam a expressão endotelial de ligante de integrina, incluindo a
molécula 1 de adesão intercelular (ICAM-1) e a molécula 1 de adesão
vascular (VCAM-1). A rolagem leucocitária é interrompida seguida da
migração do leucócito até o local da lesão. Esse evento é denominado
diapedese. O objetivo da transmigração é chegar ao local da lesão,
destruir o agente patológico e fagocitar os restos celulares. Os leucócitos
migram pela parede do vaso orientados por quimiocinas, guiando através
de gradientes químicos. Os eventos de ligação necessários para que os
leucócitos atravessem o endotélio é mediado por moléculas de adesão
plaquetárias, como PECAM-1 ou CD31;
• Quimiotaxia: a quimiotaxia é a migração unidirecional e orientada dos
leucócitos ao longo de um gradiente químico. Esses fatores quimiotáticos,
como IL-8 e MCP-1, podem ser liberados por tecidos lesados, reações
imunológicas, nas infecções por microrganismos, determinadas citocinas
e produtos do metabolismo do ácido aracdônico. A maioria dessas
citocinas são produtos de respostas celulares aos patógenos e tecidos
lesados ou produzidas por macrófagos. As células linfocitárias
predominantes no infiltrado inflamatório inicial são depois substituídas
pelos macrófagos.
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3.2 Ativação leucocitária
A partir do momento em que os leucócitos chegam ao local da lesão, eles
precisam ser ativados para exercer suas funções. A IL-8 é liberada no local da
lesão por macrófagos ativados, sendo também responsável por atrair neutrófilos
até o tecido lesado. A molécula MCP-1 é responsável por recrutar monócitos,
células NK, células T e, posteriormente, células dendríticas. A ativação
leucocitária pode resultar em vários eventos, como: a fagocitose de partículas
resultantes do processo inflamatório, destruição intracelular de microrganismos
e células necróticas, produção de mediadores como citocinas e metabólitos do
ácido aracdônico.
Os processos de injúria celular, recrutamento e ativação leucocitária
podem ser observados na figura a seguir.
Figura 1 – Mecanismo de injúria
Créditos: Blamb/Shutterstock.
• Fagocitose: a eliminação de agentes patogênicos é realizada através da
fagocitose e liberação de mediadores tóxicos (enzimas) por neutrófilos e
macrófagos. A fagocitose envolve três processos distintos para eliminar o
agente causador da injúria;
• Reconhecimento e ligação: os neutrófilos apresentam receptores em
sua membrana, capazes de reconhecer mediadores solúveis provindos
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do sistema complemento e opsoninas, principalmente as imunoglobulinas
do tipo IgG, que se ligam às superfícies do antígeno do microrganismo,
marcando-o para fagocitose. A adesão ativa receptores que
desencadeiam a montagem da actina;
• Captura: após o reconhecimento do microrganismo pelas opsoninas, o
processo de fagocitose é iniciado pelos neutrófilos através da formação
de pseudópodos impulsionados pela montagem da actina no córtex
celular, componente do citoesqueleto capaz de se montar e desmontar.
Os pseudópodos englobam o microrganismo a ser internalizado, que se
fundem em vacúolos que se desprendem e penetram no interior celular.
Esse compartimento criado pela membrana citoplasmática da célula é
chamado de fagossomo;
• Morte e degradação: o fagossomo dá origem ao fagolisossomo, levando
à degradação do conteúdo vesicular, por meio de espécies reativas de
oxigênio (ROS) ou por meio do arsenal granular dos leucócitos. Após a
destruição, os microrganismos são degradados pelas enzimas
lisossômicas presentes nos fagolissomos. Dependendo da quantidade de
microrganismos invasores, os leucócitos se expandem e acabam
sofrendo lise. A lise celular dos leucócitos libera sinalizadores químicos
como citocinas, que atraem novos leucócitos para combater os
microrganismos causadores da injuria tecidual. Na Figura 2, podemos
observar os processos da fagocitose.
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Figura 2 – Englobamento da bactéria através dos pseudópodos dos leucócitos,
internalização da bactéria nos fagossomos e degradação pelo fagolisossomo,
lise do leucócito, liberação de citocinas através da lise dos leucócitos,
recrutamento de novos leucócitos para o local da lesão
Créditos: Timonina/Shutterstock.
3.3 Término da resposta inflamatória
A resposta inflamatória deve cessar uma vez que atinja seu objetivo,
devolvendo a homeostase ao tecido. Caso a inflamação não cesse por diversos
motivos, irá se instalar a cronicidade, levando a doenças inflamatórias crônicas
ou autoimunes. A imunomodulação inflamatória é responsável por parar o
processo de inflamação.
A inflamação aguda possui três resultados, sendo eles resolução, no qual
o tecido é capaz de se regenerar, através da remoção dos estímulos nocivos,
células inflamatórias e mediadores da inflamação, havendo a proliferação celular
de mesma origem que estavam presentes no local da lesão, retomando a função
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tecidual normal. Se no processo inflamatório ocorrer morte tecidual por necrose
e formação de abscesso, irá acontecer um processo de cicatrização. Nesse
caso, há a proliferação de tecido fibroso mediado por fibroblastos com a perda
da função local. Além disso, a inflamação pode se tornar crônica, a injúria
tecidual permanece, o agente patológico não é removido e a regeneração dos
tecidos pode ser afetada. Na inflamação crônica, a restauração do tecido pode
culminar em cicatrização ou reestabelecimento da função normal.
TEMA 4 – INFLAMAÇÃO CRÔNICA
A inflamação crônica é causada pela permanência do agente agressor,
aumento dos graus de celularidade e a persistência de neutrófilos ativados ou
mortos no tecido. A ausência da resolução da inflamação por períodos extensos
pode evoluir para condições patológicas crônicas. Essa condição primariamente
esboça respostas de baixa intensidade e é frequentemente assintomática.
A transição da inflamação aguda para crônica é variável. Esse processo
pode ocorrer diretamente, sem evidências de inflamação aguda ou em ataques
recorrentes. Tem como principal característica morfológica a infiltração de
células mononucleadas (linfócitos, plasmócitos e macrófagos) e fenômenos
proliferativos como a angiogênese (proliferação de novos vasos). É evidenciado
destruição tecidual do parênquima e estroma; simultaneamente, ocorrem
fenômenos de inflamação aguda, como o processo de reparação com produção
de tecido conjuntivo, angiogênese e fibrose.
Na inflamação crônica, há o recrutamento contínuo de monócitos ao local
da lesão através dos estímulos quimiotáticos do sistema complemento C5a, bem
como pelo PDGF (fator de crescimento derivado das plaquetas) e através de
fragmentos de degradação de fibronectina e colágeno. As principais causas da
inflamação crônica são:
• Infecções persistentes por microrganismos de baixa toxicidade.
Exemplos disso são infecções por micobacterium tuberculosis, agente
causador da tuberculose e micoses sistêmicas, capazes de induzir reação
imunológica e hipersensibilidade tardia, mediada por linfócitos T,
adotando geralmente um padrão específico como a reação do tipo
granulomatosa;
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• Exposição a agentes tóxicos (endógenos ou exógenos): causado por
substâncias inertes não degradáveis, tais como a sílica, causadora da
patologia silicose (inflamação crônica nos pulmões), deposição de cristais
de colesterol presentes na evolução aterosclerose, aumento do ácido
úrico sérico na doença denominada gota;
• Doenças autoimunes: causadas pelo desencadeamento de reação
imunológica que se autoperpetua, que resultam em doenças inflamatórias
crônicas tais como a artrite reumatoide, lúpus, esclerose sistêmica e
doenças inflamatórias intestinais.
Os principais mediadores químicos na inflamação crônica são as
interleucinas (IL-1 e IL-6) e Fatores de Necrose Tumoral Alfa (TNF-α); a IL-1 é
responsável pela proliferação de fibroblastos, IL-6 promove maturação e
ativação de neutrófilos, maturação de macrófagos e diferenciação/manutenção
de linfócitos T, citotóxicos, LB e células NK, TNF-α, e as IL-1 estimulam a
migração e ativação de linfócitos.
4.1 Infiltração mononuclear
A inflamação crônica envolve interações complexas entre células e
mediadores inflamatórios. Neste tópico, abordaremos as células e mediadores
responsáveis pela infiltração mononuclear no local da lesão.
• Linfócitos: são células mobilizadas nas respostas humorais e celulares
(Linfócitos B e Linfócitos T), na manifestação de qualquer estímulo imune
específico. Essas células são mediadas por células inflamatórias e por
anticorpos, atuando de maneira bidirecional. Estão presentes em doenças
autoimunes e inflamatórias crônicas. Os macrófagos e linfócitos agem de
maneira bidirecional. Os macrófagos apresentam via MHC os linfócitos T,
os linfócitos ativados produzem o Interferon-alfa (IFN-α), principal ativador
de macrófagos;
• Macrófagos: células derivadas de monócitos, após ativação e emigração
da corrente sanguínea. O conjunto de macrófagos formam o sistema de
fagócitos mononucleares. Sendo as principais células na inflamação
crônica, são responsáveis pela apresentação de antígenos para linfócitos
T. São encontrados no tecido conjuntivo, baço, linfonodo, fígado e
pulmões. Os macrófagos são responsáveis pela produção de inúmeros
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mediadores celulares, induzindo a proliferação de fibroblastos e
deposição de colágeno. A principal função dos macrófagos é a eliminação
de microrganismos nas respostas imune humoral e celular. Se acumulam
no foco inflamatório pelos mecanismos de quimiotaxia, proliferação de
macrófagos no foco inflamatório e liberação no foco inflamatório de um
fator de inibição da migração de macrófagos, que os impede de
abandonar o foco inflamatório;
• Plasmócitos: são responsáveis pela produção de anticorpos contra
antígenos persistentes e componentes teciduais alterados. Se
desenvolvem a partir de linfócitos B ativados;
• Eosinófilos: são importantes nas reações imunes e infecções
parasitárias e são um dos mais potentes antiparasitários do organismo.
Presentes em reações alérgicas, seus grânulos contêm proteínas tóxicas
que podem levar à lise celular. Encontrados em mucosas, como do trato
gastrintestinal, respiratório e geniturinário;
• Mastócitos: presentes no tecido conjuntivo, podem participar da resposta
inflamatória aguda e crônica. Produzem citocinas responsáveis pela
fibrose tecidual.
TEMA 5 – INFLAMAÇÃO GRANULOMATOSA
A inflamação granulomatosa se difere da inflamação crônica por possuir
acúmulo focal de macrófagos ativados. Geralmente, essas células se
assemelham a células epiteliais, também chamadas de células epitelioides.
Podem ocorrer em condições infecciosas, não infecciosas e imunomediadas. A
fusão das células epitelioides dão origem às células gigantes, com
aproximadamente 20 núcleos. Essas células possuem as bordas circundadas de
leucócitos mononucleados e ocasionalmente de eosinófilos. Nesse tipo de
inflamação, há deposição de fibroblastos e tecido conjuntivo. Em granulomas
antigos, pode-se observar uma cápsula formada por fibroblastos e tecido
conjuntivo com colágeno do tipo I. A figura a seguir mostra a morfologia do
granuloma.
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Figura 3 – Estrutura celular do granuloma
Créditos: Designua/Shutterstock.
Os granulomas inflamatórios podem ser classificados em granulomas
imunes e granulomas não imunes (granulomas de corpo estranho). Nos
granulomas imunes, há a presença de linfócitos T e macrófagos, causados por
partículas solúveis. As principais interleucinas envolvidas no processo são a IL-
12 e IL-2; os mediadores TNF e IFN-γ são responsáveis pelo recrutamento dos
monócitos, ativação e acúmulo de macrófagos epitelioides no local da lesão.
Os granulomas de corpo estranho são provocados por corpos estranhos
inertes causados por partículas, fibras ou suturas grandes o suficiente para que
o macrófago não seja capaz de realizar a fagocitose sozinho, não provocando
uma resposta imune. Nesse tipo de granuloma, não há a presença de linfócitos
T, que pertencem à resposta imune inata. O corpo estranho é envolto por células
epitelioides e células gigantes. No quadro a seguir, estão descritas as principais
inflamações granulomatosas.
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Quadro 1 – Inflamações granulomatosas
Doença Agente Etiológico Padrão Histológico
Tuberculose Mycobacterium tuberculosis Granuloma caseoso
Hanseníase Mycobacterium leprae Granuloma não caseoso
Sífilis (na fase terciária) Treponema pallidum Goma sifilítica
Doença da Arranhadura do Gato Bartonella henselae Granuloma arredondado
Doença de Crohn Doença Autoimune Granuloma não caseoso
Esquistossomose Schistosoma mansoni Granuloma não caseoso
NA PRÁTICA
Caso clínico: paciente 42 anos, masculino, agricultor. Queixa de tosse
produtiva há mais de três semanas, febre vespertina, sudorese noturna. Relata
emagrecimento e cansaço. Foi solicitado radiografia de tórax e baciloscopia. O
resultado da radiografia evidenciou sequela, apresentando imagens sugestivas
de lesões cicatriciais. Apresentou baciloscopia positiva. De acordo com as
informações da patologia do paciente, explique qual é o tipo de doença
inflamatória que acometeu esse homem e por qual motivo, no exame radiológico,
lesões cicatriciais são observadas.
FINALIZANDO
Nesta aula, abordamos as respostas inflamatórias e o processo de reparo
tecidual. Verificamos as principais características da inflamação aguda e crônica.
A inflamação aguda possui um início rápido que pode durar por minutos ou
horas, enquanto a inflamação crônica é de início lento e pode durar dias. Os
infiltrados celulares se diferem; enquanto na inflamação aguda observamos
principalmente neutrófilos, na crônica, as células principais são os monócitos,
macrófagos e linfócitos. Em relação à lesão tecidual e fibrose, na resposta
aguda, esta é, geralmente, autolimitada e leve. Em contrapartida, na crônica, é
acentuada e progressiva. Na inflamação aguda, os sinais e sintomas são bem
aparentes, enquanto na crônica podem ser assintomáticos ou menos
proeminentes. Estudamos ainda que a inflamação granulomatosa se difere da
inflamação crônica pela formação de células gigantes a partir de células
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epitelioides, e pode ser classificada em granuloma imune e granuloma de corpo
estranho.
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REFERÊNCIAS
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Koogan, 2016.
BECHARA, G. H.; SZABÓ, M. P. J. Processo inflamatório. Alterações
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<[Link]
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DE PAULO, L. F. et al. Inflamação: História, Tipos e Causas. Revista Uningá
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Animais e Humanos, Interdisciplinary Journal of Experimental Studies, v.
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VOLTARELLI, J. C. Febre e inflamação. Medicina (Ribeirão Preto), v. 27, p. 7-
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