FUNDAMENTOS DA
ARTETERAPIA: MÉTODOS
E PROCESSOS
Autoria: Gislene Nunes Guimaraes
1ª Edição
Indaial - 2023
UNIASSELVI-PÓS
CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI
Rodovia BR 470, Km 71, no 1.040, Bairro Benedito
Cx. P. 191 - 89.130-000 – INDAIAL/SC
Fone Fax: (47) 3281-9000/3281-9090
Reitor: Janes Fidelis Tomelin
Diretor UNIASSELVI-PÓS: Tiago Lorenzo Stachon
Equipe Multidisciplinar da Pós-Graduação EAD:
Tiago Lorenzo Stachon
Ilana Gunilda Gerber Cavichioli
Norberto Siegel
Julia dos Santos
Ariana Monique Dalri
Jairo Martins
Marcio Kisner
Marcelo Bucci
Revisão Gramatical: Desenvolvimento de Conteúdos EdTech
Diagramação e Capa:
Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI
Ficha catalográfica elaborada pela equipe Conteúdos EdTech
UNIASSELVI
C397
Guimaraes, Gislene Nunes
Fundamentos de Arteterapia: Métodos e Processos. / Gislene
Nunes Guimaraes. - Indaial: UNIASSELVI, 2023.
135 p.; il.
ISBN Digital 978-65-5466-074-7
1. Fundamentos. - Brasil. 2. Arteterapia. - Brasil. II. Centro
Universitário Leonardo da Vinci.
CDD 372,5019
Impresso por:
Sumário
APRESENTAÇÃO.............................................................................5
CAPÍTULO 1
História da Arte, Psicologia e Arteterapia................................ 7
CAPÍTULO 2
Abordagens Psicológicas em Arteterapia............................... 59
CAPÍTULO 3
Psicossomática e Arteterapia no Contexto
Educacional................................................................................ 101
APRESENTAÇÃO
A criatividade merece destaque na teoria freudiana e ocupa um lugar central
nas psicologias junguiana e humanista.
A necessidade interior do núcleo criativo do inconsciente emergir ao nível
consciente ecoa, fortemente, neste novo tempo do efêmero, no qual a obra
sintetiza as expressões de sentimentos, emoções, dores, alegrias, medos, raiva,
tristeza, percepções novas e antigas, que impactam a nossa vida e os nossos
comportamentos.
Quando criamos alguma coisa, nem sempre, temos a noção exata do que
deve se tornar.
Jung (2008; 2017) entende o símbolo como algo que surge como uma
representação de alguma coisa, para a qual não existe conceito.
O homem é um ser em relação, criativo por natureza, e que criar é transformar
a realidade e ser transformado por ela. Por isso, ao ser tocado por uma obra,
assistir a vídeos, pesquisar, aprofundar o conhecimento, estabelece conexões
entre as vidas e as obras de artistas e os grandes expoentes da Psicologia.
Contextualiza representações do espírito da época e nos ambientes político,
social, educacional e emocional.
Construir e sistematizar as fundamentações teóricas e práticas da arteterapia,
na educação, despertam os compromissos de acesso e compartilhamento de es-
paços mentais sagrados, secretos e proibidos, de maneira aceitável, o que colore e
torna possível adentrar, amorosamente, na perspectiva de redução de danos.
Ao serem consideradas as potencialidades psicológicas das pessoas e dos
grupos, são produzidos novos sentidos, ajustes criativos e transformadores,
o que torna a vida, dentro e fora do contexto educacional, mais significativa e
com propósito. Assim, a arteterapia participa da construção mais importante do
humano: das subjetividades de saber ser, saber fazer e saber ter.
A arte, através da história e no momento presente, é um veículo que atua de
forma inigualável, como suporte para representar a nossa humanidade, a nossa
história de vida.
Cada síntese, cada novo nível de compreensão a ser alcançado corresponde
à base do aparecimento de novas possibilidades de ser e de criar, assim, a criação
é um perene desdobramento, uma perene reestruturação.
C APÍTULO 1
HISTÓRIA DA ARTE, PSICOLOGIA E
ARTETERAPIA
A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes
objetivos de aprendizagem:
Estudar as principais características dos movimentos artísticos.
Relacionar a arte à Psicologia.
Compreender aspectos freudianos e junguianos.
Analisar a Gestalt terapia.
Observar a influência da arteterapia em intervenções diversas.
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
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Capítulo 1 HISTÓRIA DA ARTE, PSICOLOGIA E ARTETERAPIA
1 CONTEXTUALIZAÇÃO
No contexto atual, a educação necessita de novas ferramentas para o desen-
volvimento de habilidades que possam conduzir educadores, educandos e familia-
res ao autoconhecimento e à criatividade, para que possam se ajustar aos novos
contextos. Assim, passam a conviver com situações desafiadoras do cotidiano,
com culturas diferentes, e fortalecem um papel transformador na sociedade.
A seguir, estabeleceremos um olhar para a história da arte e entenderemos
os processos evolutivos do homem, pois, meio deles, comunicamos; eternizamos
registros de emoção, história e cultura; e fazemos uso de valores estéticos.
A arte, com as mais variadas formas, registra criações notáveis, conectadas
com a história da humanidade, e permite a recriação do presente. Muitos desafios
foram superados e muitos valores foram marcados pelos artistas que, de certa
forma, ousaram projetar pensamentos, visões e sentimentos em suportes que
ficaram para a posteridade.
Como somos históricos e visuais por excelência, até hoje, as obras e os
feitos dos artistas nos trazem informações, provocam admiração e nos inspiram
para que enfrentemos os novos desafios do nosso tempo.
Ainda, contemplaremos a arteterapia como uma abordagem de interfaces
entre a Psicologia, a criatividade e a arte, portanto, conheceremos as linhas
teóricas psicológicas nas quais se embasa, o que é, definitivamente, importante.
Freud postula o poder do inconsciente e o impacto dele no comportamento
humano ao desenvolver o conceito de psicodinâmica da Psicologia. Por meio de
metodologias, tratou de questões voltadas à sexualidade, a pulsões, a recalques
e a instintos que vão além dos sonhos e dos desejos reprimidos.
Uma das belezas que a Psicologia Analítica nos proporciona é a mudança
das formas de olhar, de sentir e de perceber a vida. Por trás de cada processo, dor
e história, existe uma infinidade de símbolos que permite profundos aprendizados
e que, quando ampliados, geram saltos de consciência.
A Psicologia Humanista dá ênfase ao consciente, à crença e à integralidade
entre a natureza e as condutas dos seres humanos. A psicoterapia, de bases
fenomenológica, humanista e existencial, busca entender o homem através de si
mesmo, das angústias, motivações e sentidos dele. Traz, no cerne da filosofia, a
ideia de um homem construtor da própria história e de possibilidades.
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F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
Ainda, focaremos na contextualização de aspectos da grupalidade e da
andragogia como pano de fundo para as intervenções da arteterapia nos espaços
educacionais e psicopedagógicos.
2 FRAGMENTOS DA HISTÓRIA DA
ARTE
A palavra arte tem derivação da palavra latina “tékne”. Aristóteles se referia a
“póiesis”. A arte tem sentido amplo, e significa o meio de fazer ou produzir alguma
coisa, uma criação. É a representação de uma ideia, de meios e de procedimentos,
através dos quais são possíveis finalidades práticas ou uma produção de objetos,
com técnica.
A história da arte consiste em uma ciência que estuda os movimentos
artísticos, as modificações na valorização estética, as obras e os artistas ao longo
do tempo.
Optamos por mergulhar na história da arte moderna, contemporânea, pela
proximidade do impacto dela ao nosso tempo presente.
Para mantermos uma linha de raciocínio e um caráter didático, sintetizaremos
fragmentos que julgamos relevantes.
Vamos acompanhar a linha do tempo da história da arte? Aces-
se https://www.youtube.com/watch?v=XNznsSaLN7U.
• REALISMO
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Capítulo 1 HISTÓRIA DA ARTE, PSICOLOGIA E ARTETERAPIA
FIGURA 1 – MOÇAS PENEIRANDO TRIGO - GUSTAVE COUBERT
FONTE: <https://www.todamateria.com.br/realismo-arte/>. Acesso em: 24 abr. 2021.
Surgiu diante da industrialização, e o artista entendeu que precisava ser re-
alista, inclusive, perante as próprias criações artísticas, e deixou de lado visões
emotivas e subjetivas da realidade. Procurava representar o mundo de forma do-
cumental.
Na Renascença, o artista demonstrava a natureza com acuidade fotográfica,
já no Realismo, empregava a imitação, a cópia precisa do que podia ver ou tocar,
algo considerado real. Trouxe, à arte, uma sensação de sobriedade silenciosa.
A vertente se manifestou, principalmente, na literatura, e o marco inicial foi o ro-
mance realista Madame Bovary, de Gustave Flaubert, com pinturas de Gustave
Coubert, na França.
De certa forma, a arte passou a ser um meio de denúncias de injustiças, desi-
gualdades imensas entre os trabalhadores e a burguesia. Manifestou-se como um
protesto a favor do oprimido. No Brasil, o Realismo foi caracterizado pela ironia,
principalmente, em relação aos costumes da burguesia. O artista realista fez uma
crítica sociopolítica, centrada nos acontecimentos contemporâneos e nas análises
psicológicas dos personagens. Os protagonistas, integrantes da elite burguesa,
eram descritos como opressores, corruptos e hipócritas. O escritor Machado de
Assis foi um expoente, com os livros Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom
Casmurro, Quincas Borba etc.
As principais características do período foram:
• Cientificismo, expressão da realidade.
• Valorização dos objetos, sóbrios e minuciosos.
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F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
Seguem vídeos a respeito do Realismo e dos maiores
representantes dele: https://bit.ly/3QYIH1D, https://bit.ly/3GIrvIJ e
https://bit.ly/3waGN4m.
Merecem destaque a vida e a obra de Camille Clodel, grande
expoente feminino no mundo das artes: https://bit.ly/3ISu7q4 e
https://bit.ly/3CSRAUB
• IMPRESSIONISMO
FIGURA 2 – PONTE JAPONESA - CLOUD MONET
FONTE: <https://bit.ly/3CRXu8c>. Acesso em: 24 abr. 2021.
Surgiu na França, no século XIX. Artistas buscavam retratar ao explorar as
intensidades das cores, os efeitos de luz sobre a natureza, a sensibilidade, por
isso, pintavam ao ar livre. Exploravam contrastes e as claridades das cores, e
captavam o instante em que a ação acontecia, em horários e luminosidades dife-
rentes, com as expressões de felicidade e harmonia. As obras espontâneas não
tinham uma preocupação fiel com a realidade.
Os principais artistas impressionistas foram Cloud Monet, Edgar Degas, Re-
noir, Camille Clodel, Vicent Van Gogh etc.
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Capítulo 1 HISTÓRIA DA ARTE, PSICOLOGIA E ARTETERAPIA
No Brasil, Eliseu Visconti e Washington Maguetas tiveram contato com as
obras impressionistas e souberam transformar as características do movimento,
conforme a cor e a atmosfera luminosas.
• FAUVISMO
FIGURA 3 – A DANÇA - HENRY MATISSE
FONTE: <https://www.todamateria.com.br/fauvismo/>. Acesso em: 24 abr. 2021.
Esta corrente foi chamada de “Les Fauves”, com tradução para Feras ou Sel-
vagens, por um crítico de arte que descreveu a sensação causada ao observar
obras em uma exposição.
Surgiu em 1901, na França, e buscava levar o ser humano ao estado natural
dele, por meio da estética primitivista, da simplificação das formas, como o estado
de pureza das criações infantis.
Os artistas se preocupavam mais com as qualidades expressivas do que
com uma interpretação pessoal, e deixavam de lado aspectos da composição da
pintura. Com pinceladas largas e espontâneas, os fauvistas delimitavam planos e
criavam a sensação de profundidade.
Era marcante o uso de cores vibrantes e emotivas em um estado puro, sem
matizes, as quais simplificavam as formas. Assim, delimitavam e modelavam o
volume, por meio de uma gradação fraca, ou inexistente, de matizes de cor.
O estilo de pintura se constituía como uma arte do equilíbrio, da pureza, da
glorificação dos instintos e das sensações vitais, sem receio de questionamentos
de cânones tradicionais.
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F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
Era relegado a segundo plano, com aspectos, como a forma e o conteúdo.
Ainda, representados assuntos leves e alegres, sem conotação política. Temas
deprimentes eram evitados.
As principais características do período foram:
• Utilização de cores puras fortes e vibrantes, de forma arbitrária.
• Simplificação das formas.
• Falta de compromisso com uma representação fiel à realidade.
• Influências das artes primitivista e pós-modernista.
Os fauvistas que se destacaram foram Van Gogh, Paul Gauguin e Henry
Matisse.
O vídeo a seguir sintetizará, visualmente, através de obras, o
Movimento Fauvista: https://bit.ly/3XdsUOw.
• EXPRESSIONISMO
FIGURA 4 – O GRITO - EDVARD MUNCH
FONTE: <https://www.todamateria.com.br/expressionismo/>. Acesso em: 24 abr. 2021.
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Capítulo 1 HISTÓRIA DA ARTE, PSICOLOGIA E ARTETERAPIA
Surgiu em Berlim, uma corrente artístico-cultural que apresentava obras de
aparente simplicidade, as quais convergiam com um jogo de cores e profundidade.
Comunicavam e, ao mesmo tempo, faziam os seres humanos sentirem.
O Expressionismo oportunizava, ao artista, pintar um estado de ser, pintar o
que era.
Eram percebidas uma estreita ligação com a intuição e uma ampla diversidade
de manifestações, como dança, teatro, cinema, literatura e artes.
Surgiu no início do século XX, e buscou representar um mundo em
constante transformação, com mudanças provocadas pela automação industrial,
crescimento das metrópoles e surgimento de novas tecnologias.
Podemos observar tendências, excessivamente, coloridas, até formas mais
abstratas.
O maior valor desse movimento era a liberdade de expressão, com a projeção
de aspectos instintivos, irracionais. A emoção e a subjetividade eram, fortemente,
refletidas.
Artistas buscaram materializar a obra ao expressar sentimentos de dilace-
ração e frustração. Com uma visão trágica do ser humano, oriunda da Primeira
Guerra Mundial, exageravam e distorciam os temas em processos de catarse, o
que revelava o lado pessimista da vida.
A arte refletia a angústia existencialista do indivíduo alienado, fruto da
sociedade moderna, industrializada. Assim, os expressionistas captaram o drama
da existência, a tentativa do homem de dominar a realidade e o fato de ser
arrastado por ela.
Engajados em um projeto de crítica social daquele tempo, os expressionistas
elegiam temas relacionados à angústia da condição humana, à morte, ao medo e
ao sexo.
O momento do pós-guerra, na Alemanha, país considerado o berço do
Expressionismo, trouxe uma sensação ainda maior de derrota, de miséria. Os
alemães se sentiam humilhados, uma situação que favoreceu a tomada do poder
pelo partido nazista.
O Expressionismo sofreu grande repressão do governo nazista, que
considerava a arte moderna degenerada.
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F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
As principais características do período foram:
• Contraste e intensidade cromáticos.
• Valorização do universo psicológico, de sentimentos densos, como an-
gústia e solidão.
• Técnicas abruptas e intensas na pintura, com grossas camadas de tinta.
• Deformação das formas, poética do feio, representação do indesejável.
• Temas sombrios e mórbidos.
Os principais expressionistas europeus foram: Otto Mueller, conhecido pelo
nu artístico; Wasily Kandisnky, com uma arte abstrata, com riqueza de cores e
simplificação; Jackson Pollock, também, com uma arte abstrata, “action painting”,
a chamada tinta derramada espontaneamente; e Paul Klee, com obras carrega-
das de movimento, ritmo, natureza e cor.
No Brasil, Anita Malfatti, Lasar Segal e Iberê Camargo foram significativos
expoentes do Expressionismo.
Cândido Portinari representou, em obras, as mazelas do povo nordestino. Foi
um artista plástico, mundialmente, reconhecido. Dentre as principais obras dele,
podemos citar Guerra e Paz, na sede da ONU, em Nova York.
FIGURA 5 – CAFÉ - CÂNDIDO PORTINARI
FONTE: <https://escolaeducacao.com.br/candido-portinari/>. Acesso em: 24 abr. 2021.
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Capítulo 1 HISTÓRIA DA ARTE, PSICOLOGIA E ARTETERAPIA
Com relação às vanguardas europeia e brasileira, podemos
saber um pouco mais em http://bit.ly/3IPgecf, http://bit.ly/3CUTTXc,
http://bit.ly/3GKXZlF e https://bit.ly/3iG0Owt.
Frida Kahlo foi um ícone feminino da arte expressionista, e no
cenário político do México.
A pintora mexicana retratava, em quadros, tragédias e amores. As-
sim, merece um olhar especial. Vamos pesquisar a vida e a obra delas?
AS DUAS FRIDAS KHALO
FONTE: <http://bit.ly/3H60lNn/>. Acesso em: 24 abr. 2021.
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F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
• CUBISMO
FIGURA 6 – GUERNICA - PABLO PICASSO
FONTE: <http://bit.ly/3XdtVWQ>. Acesso em: 24 abr. 2021.
Fez parte da vanguarda artística europeia, com início no século XX, na Fran-
ça. Rompeu com modelos estéticos que só valorizavam a perfeição das formas.
Foi marcado pela geometrização das formas, modeladas por cubos e
cilindros. Procurava retratar pessoas e objetos em todos os ângulos, como se
estivessem abertos.
Abandonou as noções de perspectiva e de terceira dimensão, tão buscadas
pelos pintores do Renascimento.
Este movimento artístico se caracterizou pela incorporação do imaginário
urbano industrial em obras.
As principais características do período foram:
• Figura em três dimensões, sem qualquer noção de profundidade.
• Linhas retas, modeladas por cubos e cilindros. Retratação simplificada.
• Geometrização das formas e dos volumes.
• Renúncia à perspectiva, como claro-escuro.
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Capítulo 1 HISTÓRIA DA ARTE, PSICOLOGIA E ARTETERAPIA
Dividiu-se em três fases:
• Cezzanista: Fase influenciada pelo artista francês Paul Cézzane, a
partir de experiências com simplificações das formas, e, mais tarde, com
figuras dispostas em um mesmo plano.
• Analítica: Fase caracterizada pela cor moderada, com a acentuação de
cores, cinzas, pretos e marrons. O esfacelamento das formas chegou a
níveis tão elevados que as figuras acabaram por se tornar irreconhecíveis.
• Cubismo Sintético: Fase marcada pelas cores fortes e por um retorno
ao figurativo, o que tornou as figuras reconhecíveis, mas sem volta ao
Realismo.
Os pintores de destaque foram Pablo Picasso, George Braque, Juan Gris,
Fernand Léger e o muralista mexicano Diego Rivera. Dentre os escultores, Ray-
mond Duchamp-Villon e Constantin Brancus.
FIGURA 7 – FONTE - DUCHAMP
FONTE: <https://bit.ly/3w60aeD>. Acesso em: 24 abr. 2021.
A obra anterior é uma réplica de um mictório de porcelana comprado pelo
artista, em 1917. Duchamp, simplesmente, assinou o objeto com o pseudônimo
R. Mutt, e, depois, acabou por inscrevê-lo em uma exposição, ao desafiar as
definições tradicionais de arte. O item bizarro exemplifica a noção de ser tirado
um objeto do cenário habitual dele para ser colocado em um contexto novo e
incomum.
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F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
• FUTURISMO
FIGURA 8 – ARRANHA-CÉUS E TÚNEIS - FORTUNATO DEPERO
FONTE: <https://www.todamateria.com.br/futurismo/>. Acesso em: 24 abr. 2021.
Representou um movimento literário, musical e artístico, e tinha, como princi-
pal característica, a valorização da tecnologia e da velocidade.
Esta corrente fazia parte das vanguardas artísticas, no início do século XX, e
se juntou ao movimento das vanguardas europeias.
O início foi marcado pelo Manifesto Futurista, idealizado pelo escritor italiano
Filippo Marinetti, com predominância na França.
Estava evidente, no Futurismo, a valorização da industrialização e da tecno-
logia enquanto progresso técnico. A pintura futurista, influenciada pelo Cubismo e
pelo Abstracionismo, tinha pretensão de dinamismo. Ao captar a forma plástica, a
velocidade era descrita pelos objetos no espaço.
As principais características do período foram:
• Exaltação à tecnologia.
• Valorização da velocidade e do dinamismo.
• Ligação ideológica com o fascismo.
• Utilização da publicidade e de tipografias.
• Ruptura com a arte do passado.
• Tendência à justificação da violência através do militarismo.
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Capítulo 1 HISTÓRIA DA ARTE, PSICOLOGIA E ARTETERAPIA
Os principais artistas futuristas foram Carlo Carrá, Luigi Russolo, Giacomo
Balla, Gino Severini e Umberto Boccioni.
• DADAÍSMO
FIGURA 9 – FOTOMONTAGEM DADAÍSTA - HANNA HOCH
FONTE: <https://conhecimentocientifico.com/dadaismo/>. Acesso em: 24 abr. 2021.
Foi pertencente às vanguardas europeias do século XX, cujo lema era: des-
truição, também, é criação. Tristan Tzara era o maior articulador do movimento
dadaísta.
Surgiu de “dadá”, que, em francês, significa cavalo. A palavra pouco importa-
va, pois era um mundo tomado pelo irracionalismo da guerra, assim, a arte “perdia
sentido”. O intuito principal era o de chocar a burguesia da época, além de criticar
a arte tradicionalista, a guerra e o sistema.
Teve influência em um movimento propulsor de ideias surrealistas e um cará-
ter ilógico, antirracionalista, com uma forma de protesto. Recorreu a táticas para
atacar tradições estabelecidas, como realizar manifestações artísticas absurdas,
projetadas, deliberadamente, para escandalizar e chocar as autoridades e o pú-
blico, em geral. Inovou ao introduzir a colagem e a fotomontagem, e passou a
influenciar os movimentos do Surrealismo e Art Pop e técnicas contemporâneas,
como Instalação e Performance.
As principais características foram:
• Anarquismo e niilismo.
• Busca de caos e desordem.
• Teor ilógico, improvisação, irreverência artística.
21
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
• Caráter irônico, radical, destrutivo, agressivo, pessimista.
• Críticas ao consumismo e ao capitalismo.
• Rejeição ao nacionalismo e ao materialismo.
Os principais destaques foram Francis Picabia, Hugo Ball, Raoul Hausmann,
Max Ernst e Man Ray.
Vamos entender a vertente do Dadaísmo? Acesse https://www.
youtube.com/watch?v=bkq_k88UpfA.
• SURREALISMO
FIGURA 10 – A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA - SALVADOR DALI
FONTE: <https://www.todamateria.com.br/surrealismo/>. Acesso em: 24 abr. 2021.
Foi idealizado por André Breton, e surgiu em Paris, no início do século XX.
Valorizava a fantasia, a loucura, o universo onírico, e deu vazão às manifestações
do inconsciente humano.
22
Capítulo 1 HISTÓRIA DA ARTE, PSICOLOGIA E ARTETERAPIA
O movimento apareceu em reação ao racionalismo e ao materialismo da
sociedade ocidental. Influenciou outras manifestações, como escultura, literatura,
teatro e cinema.
Foi um período de insatisfação, desequilíbrio, contradições e isenção da
lógica. Assim, a pintura surrealista tomou duas direções: figurativa e abstrata.
Na Europa, o período entre duas guerras (1918-1939), com a incerteza da
predominância da paz, levou ao desejo de se viver, apenas, o presente.
O estudo da Psicanálise estava em desenvolvimento, assim, Freud
influenciou, fortemente, o Surrealismo. Propôs a valorização da fantasia, da
loucura, e a utilização da reação automática. Nessa perspectiva, o artista
precisava se deixar levar pelo impulso e registrar tudo o que viesse à mente, sem
preocupação com a lógica.
Os artistas surrealistas tinham, como objetivo, usar os potenciais do
subconsciente e dos sonhos como fonte para a criação de imagens fantásticas.
Assim, nas artes, como na literatura, havia a possibilidade de expressão da fusão
dos sonhos e de uma realidade absurda.
As principais características do período foram:
• Pensamento livre, com valorização da fantasia e da loucura.
• Expressividade espontânea.
• Influência das teorias da Psicanálise, com a valorização do inconsciente.
Vamos aprofundar o nosso conhecimento das obras e das in-
fluências dos artistas surrealistas, com destaque para Pablo Picas-
so, René Magritte, Joan Miró, Frida Kahlo e Mark Shagal: http://bit.
ly/3WhfCzt e http://bit.ly/3HaafxF.
23
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
• CONCRETISMO
FIGURA 11 – FUNÇÃO DIAGONAL - GERALDO BARROS
FONTE: <http://bit.ly/3iGsSzF>. Acesso em: 24 abr. 2021.
Foi um movimento de vanguarda europeia, em meados do século XX, o qual
visava à criação de uma nova linguagem, de uma arte abstrata. Trazia a criação
de uma nova linguagem por meio de figuras geométricas. Buscava a sensação
de movimento pela expressão de formas abstratas, aspiração de uma comunica-
ção universal e integração da arte à comunicação visual, assim, coube, ao artista,
contribuir, de modo abrangente, para a socialização da forma.
Passou a utilizar, no suporte e na obra, materiais industrializados, produzidos
em série, como ferro, alumínio, tinta-esmalte, dentre outros, com rigor geométrico.
Assim, tornou as imagens precisas, feitas com régua e compasso.
Foi influenciado por um cenário com violência e morte, como Guerra Fria,
Guerra da Coreia, Guerra do Vietnã e lançamento do primeiro satélite Sputnik.
No Brasil, ascendeu no governo de Juscelino Kubitschek, com a dívida social
e a inflação pela forma política, processo de industrialização maciço, êxodo rural e
surgimento da televisão.
Ainda, ocorreu a Primeira Bienal de Artes de São Paulo, com a chegada de
Max Bill, artista americano influente do movimento do Concretismo, a fim de im-
pulsionar vários movimentos artísticos.
A arte era influenciada pelos estudos da percepção visual da Gestalt: o todo
não é, simplesmente, a soma das partes.
24
Capítulo 1 HISTÓRIA DA ARTE, PSICOLOGIA E ARTETERAPIA
As principais características do período foram:
• Busca de precisão nas formas; influência do Cubismo.
• União entre forma e conteúdo.
• Defesa da racionalidade, da lógica e do cientificismo.
Geraldo Barros, pintor e fotógrafo brasileiro, destacou-se na gra-
vura, nas artes plásticas e no desenho industrial. Foi um dos pionei-
ros da fotografia abstrata e do modernismo no Brasil, e considerado
um importante artista do movimento concretista brasileiro.
A seguir, apresentaremos materiais que ampliarão o entendi-
mento das vanguardas europeias: https://www.todamateria.com.br/
surrealismo/ e https://www.youtube.com/watch?v=zAGmM9BMTH4.
3 MODERNISMO NO BRASIL
Foi um movimento artístico, cultural e literário que se caracterizou pela
liberdade estética, pelo nacionalismo e pela crítica social.
Inspirado pelas vanguardas europeias, no Expressionismo, teve, como
marco inicial, a Semana de Arte Moderna, em 1922, em São Paulo. O cenário
era de insatisfação, pela estagnação da economia e da cultura. O poder ficava
concentrado nas mãos de grandes fazendeiros paulistas e mineiros, que se
revezavam na política. Em 1930, ocorreu um golpe de estado, o qual pôs fim à
República Velha.
A Semana de Arte Moderna propôs uma renovação estética na arte, um novo
olhar, mais libertário, contrário ao tradicionalismo e ao rigor estético.
Liderada pelo grupo dos cinco, que abarcava Anita Malfatti, Tarsila do Amaral,
Mario de Andrade, Menotti del Picchia e Oswald de Andrade, o evento envolveu
25
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
apresentações, exposições, movimentos artísticos e grupos com experimentações
estéticas. Tudo isso permitiu consolidar as ideias modernistas.
O modernismo, no Brasil, surgiu após a Primeira Guerra Mundial (1914-
1918), em decorrência da inflação, que impulsionava greves, protestos,
manifestos, um momento de muita insatisfação com a oligarquia agrária. A grande
crise econômica, pela quebra da bolsa de Nova Iorque, acelerou o processo de
mudança, cujo golpe de estado depôs Washington Luis, com o fim da República
Velha e o início da era Vargas. Dividiu-se em três fases:
• Primeira fase (1922-1930): heroica, ou de destruição, mais dos mode-
los que vigoravam no cenário artístico cultural. Muito radicalismo.
• Segunda fase (1930-1945): de consolidação de uma arte, genuinamen-
te, brasileira. Possibilitou a valorização da cultura e do folclore. Artistas
demonstraram mais equilíbrio, racionalidade, e surgiram movimentos,
como Pau-Brasil, Antropofágico, Regionalista, Verde e Amarelo. Fértil na
literatura, com uma vasta produção de textos poéticos em verso e prosa,
a serem incluídas temáticas nacionalistas, com caráter social, crítico, re-
volucionário.
• Terceira fase (1945-1960): pós-moderna, geração de 45, com o fim da
Segunda Guerra Mundial e o processo de redemocratização do país.
A arte brasileira ganhou novos contornos e linguagens. Reuniu-se um
grupo de escritores, chamados de neoparnasianos, o qual produziu uma
poesia objetiva e equilibrada.
A liberdade formal, característica das fases anteriores, foi deixada de lado
para dar lugar à métrica e ao culto à forma, ao academicismo. Ainda, a experi-
mentações artísticas (ficção experimental), ao realismo fantástico (contos fantás-
ticos), a inovações linguísticas, ao regionalismo universal e ao foco em temáticas
sociais e humanas.
Os escritores modernistas que se destacaram foram Carlos Drummond de
Andrade, Vinícius de Moraes, Graciliano Ramos e Cecília Meireles.
26
Capítulo 1 HISTÓRIA DA ARTE, PSICOLOGIA E ARTETERAPIA
FIGURA 12 – CARLOS DRUMMOND
FONTE: <https://www.pensador.com/frase/NjMyNTA0/>. Acesso em: 24 abr. 2021.
Os pintores modernistas mais conhecidos foram Tarsila do Amaral, com
obras marcadas por cores fortes e temas sociais e cotidianos; Anita Malfatti, com
uma arte espontânea, pautada na cultura popular; Di Cavalcanti, muralista, gos-
tava de pintar festas populares, favelas, operários, assim, passavam-se alegria e
celebração; e Cândido Portinari, que retratava como vivia o povo, questões so-
ciais, festas populares, relações de trabalho, infância etc.
Negócios com obras de Tarsila Amaral ganharam força, com fama global.
Atualmente, as obras circulam pelo Museu de Arte Contemporânea de Nova
York, com representações em camisetas, chinelos, perfumes, caixas de lápis de
cor etc. Os 40 herdeiros recebem royalties em todas as negociações.
FIGURA 13 – ABAPORU - TARSILA DO AMARAL
FONTE: <https://www.todamateria.com.br/tarsila-do-amaral/>. Acesso em: 24 abr. 2021.
27
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
Seguem vídeos que contextualizarão o movimento do
modernismo no Brasil, além das vidas e obras dos protagonistas dele:
https://bit.ly/3Xhbu3H, https://bit.ly/3iHQ5BA, https://bit.ly/3WfZQF0 e
https://bit.ly/3CTbTkw.
1 O movimento surrealista, idealizado por André Breton, na França,
surgiu em reação ao racionalismo e ao materialismo. O que é
relevante destacar?
2 O Expressionismo surgiu no início do século XX, assim, a arte
moderna buscou representar um mundo em constante transfor-
mação. Foram percebidas mudanças provocadas pela automa-
ção industrial, pelo crescimento das metrópoles e pelo surgimen-
to de novas tecnologias. O que os artistas buscavam expressar?
3 A vida e a arte de Frida Khalo são muito estudadas na arteterapia.
A que se deve tal interesse?
A arte, ao longo da história, representou os momentos histórico e político, as
relações sociais, os pensamentos e os comportamentos das pessoas. O artista é
o porta-voz, que registra, através da produção, a expressão da coletividade. Por
isso, sempre, foi de grande interesse da Psicologia.
28
Capítulo 1 HISTÓRIA DA ARTE, PSICOLOGIA E ARTETERAPIA
4 ARTE E PSICOLOGIA
FIGURA 14 – ARTE E PSICOLOGIA
FONTE: <http://bit.ly/3XEvblR>. Acesso em: 24 abr. 2021.
Sigmund Freud (1856-1939) foi um médico neurologista, responsável pela
estruturação de um método de tratamento por meio do diálogo.
A Psicanálise traz a ideia do inconsciente como a parte mais significativa dos
processos mentais, o qual influencia todo o modo de viver de um sujeito.
O inconsciente é constituído de desejos e pulsões que reprimimos e que
podem gerar efeitos nocivos à saúde psíquica da pessoa (neurose).
Ele desenvolveu a análise como um método de cura dessas neuroses.
Através da fala, a partir de uma relação entre o analisando (paciente) e o
psicanalista, buscou a origem dos problemas de ordem psíquica. Dar voz ao
inconsciente era a forma mais eficaz para a superação de traumas e a cura de
desordens em processos mentais.
O sujeito é composto por estruturas: inconsciente (id, superego), pré-
consciente e consciente (ego).
O id representa o lugar das pulsões. As pulsões são impulsos orgânicos
e desejos inconscientes, que visam ao prazer e à satisfação imediata de um
indivíduo. Está relacionado ao prazer sexual, à libido, a medos e traumas.
O inconsciente não é acessível ao consciente. Possui linguagem própria, e
pulsões e instintos podem vir à tona, de maneira indireta ou simbólica.
29
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
O pré-consciente tem conteúdos emocionais não conscientes, mas podem
ser trazidos à consciência. São porções acessíveis da memória.
O superego é outra parte inconsciente, relacionada à censura de pulsões,
imposta pela vida social, através da moral, da educação recebida pelos pais e
dos ensinamentos de como deve agir ou se comportar. Essa estrutura cria uma
representação do eu ideal. Ainda, (super eu) impõe repressões.
O consciente é a mente atenta, o lado racional, a ação no mundo externo.
O ego (eu) é a consciência. Cabe, ao ego, encontrar um equilíbrio entre o id
e o superego.
A pulsão pelo prazer marca presença, nas pessoas, desde muito cedo, e, ao
longo da infância, vai se transformando.
O diagrama a seguir sintetizará a estrutura da psique:
FIGURA 15 – ESTRUTURA DA PSIQUE
FONTE: <https://bit.ly/3H7cEsN>. Acesso em: 24 abr. 2021.
Foram definidas fases de formação da sexualidade:
• Oral - 0/2 anos: prazer pela boca, com leite materno, mamadeira, chupeta.
• Anal - 2/3 anos: toda atenção ao controle de esfíncteres, fezes, excreções.
• Fálica, ou genital - 3/6 anos: atenção canalizada aos órgãos genitais e
zonas que os estimulam.
30
Capítulo 1 HISTÓRIA DA ARTE, PSICOLOGIA E ARTETERAPIA
Nesta fase, ocorre o Complexo de Édito, inspirado na seguinte tragédia grega:
Édipo deseja matar o pai para assumir o lugar dele junto à mãe. Nesse processo,
o id desenvolve desejos incestuosos sobre o pai e a mãe, o que gera conflito
com a outra figura paterna ou materna. Independentemente da forma através da
qual esse complexo é superado, esse período orienta todo o desenvolvimento
psíquico de uma pessoa. O superego se desenvolve dos seis anos até o início da
adolescência.
• Latência - 6/10 anos: foco na socialização na escola, na aprendizagem,
nos amigos. As repressões moldam o indivíduo e orientam as ações dele.
• Adolescência - 10/18 anos: prazer genital com relevância, mas subme-
tido a regressões do superego. A busca pelo equilíbrio dessas forças é
o que torna o período da adolescência tão conflituoso e instável. Após
essa etapa, o conflito entre essas forças se mantém, mas de maneira
equilibrada.
5 PSICANÁLISE E TRANSTORNO
MENTAL
A psicanálise tem, como base, a relação do “eu inconsciente” e do “eu
consciente”. Os diversos tipos de transtornos mentais decorrem de questões
relacionadas ao inconsciente, com algum tipo de manifestação.
Em uma mente equilibrada, o ego reprime os impulsos do ID e, ao mesmo
tempo, impõe limites ao poder do superego.
O desequilíbrio da função é a origem dos principais transtornos mentais,
dentre eles, da neurose e da psicose. “O ego não é mestre em sua própria casa”.
A neurose é uma forma que o inconsciente encontra para lidar com traumas
e conflitos. A partir da impossibilidade de lidar com esses eventos, a mente produz
efeitos observáveis que influenciam, em maior ou menor grau, as vidas dos
indivíduos.
A psicose é a incapacidade de a pessoa perceber o que é e o que não é
real. A psicanálise busca descobrir, por meio da fala, as causas desses traumas e
conflitos inconscientes através da interpretação.
Clarificou, Freud (1913), que o inconsciente jamais se tornará consciente,
mas alguns pontos podem ser interpretados através das técnicas da psicanálise,
como as interpretações dos sonhos e a livre associação.
31
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
• INTERPRETAÇÕES DOS SONHOS
Freud já trabalhava com sonhos quando começou a perceber que o
desejo inconsciente poderia se manifestar neles. Observou que o inconsciente
se mostrava por meio das memórias da infância. Concluiu que o do adulto era
formado pela criança, ainda, presente dentro desse indivíduo, e viu que isso
ocorria, independentemente da idade.
• ASSOCIAÇÃO LIVRE
Usava, basicamente, a hipnose, e, a partir dessa experiência, passou a utilizar
os sonhos, o que se tornaria uma das principais características da psicanálise.
Então, Freud começou a trabalhar com a técnica da Associação Livre.
O filósofo abandonou a terapia que não praticava, realizada por meio da
hipnose. Após uma autoanálise, passou a usar os sonhos como principal material
de trabalho. Ele notou que, muitas vezes, assim como os pacientes, também,
demonstrava certa resistência ao tratamento. Ainda, entendeu que o progresso
era lento e difícil. Durante a fase de autoanálise, iniciou uma pesquisa da nova
teoria a respeito dos sonhos.
Após um longo dia de atividades, nada como uma boa noite de sono. Para
muitos, os sonhos têm pouco sentido, entretanto, para a prática psicanalítica,
podem revelar desejos e traumas, ou outros elementos presentes no nosso
inconsciente.
Freud (1913) afirma que os sonhos são a realização de um desejo. Tratam-
se de desejos escondidos que, muitas vezes, não realizamos, devido a costumes,
cultura, educação, religião, tabu, moral etc. Ficam reprimidos e vêm à tona quando
sonhamos, isso porque, quando dormimos, a mente relaxa e o inconsciente tem
mais autonomia em relação ao consciente.
Um sonho é uma válvula de escape dos desejos mais secretos, os quais a
consciência julga como proibidos de serem realizados. São reveladores para o
acesso à vida psíquica.
O pensamento freudiano influenciou muitas áreas das Ciências Humanas.
A marca registrada dele era o sofá, pois, sempre, deixava o terapeuta fora do
alcance da visão do cliente. Entendia que existia uma assimetria: o analista
serve como um objeto, uma tela em branco, neutro, no qual o paciente deposita
fantasias e projeções.
32
Capítulo 1 HISTÓRIA DA ARTE, PSICOLOGIA E ARTETERAPIA
FIGURA 16 – SIGMUND FREUD
FONTE: <https://www.pensador.com/frase/MjI1NjM1MA/>. Acesso em: 24 abr. 2021
Uma grande contribuição da teoria de Freud são os mecanismos de defesa.
Explica, Freud (1919), que são subterfúgios criados pelo ego diante de
situações de dor, sofrimento e decepção. São estratégias do ego para proteger
a pessoa de algo que parece ameaçar, assim, impede de vir, à consciência, o
que pode gerar desconfortos. É mais fácil continuarmos a reproduzir verdades, a
autoimagem, a fim de mantermos uma redoma de segurança.
O cérebro e a mente estão atentos para evitar a dor, para proteger as nossas
integridades física e emocional, e manter a saúde psíquica, a fim de serem mini-
mizados os riscos de perigo e sofrimento de toda a natureza. Assim, a verdadeira
função dos mecanismos de defesa é impedir o acesso a verdades dolorosas, pois
estas abalam o amor próprio, o conceito e a imagem que temos de nós mesmos.
Como diz um ditado popular, muitas vezes, “tapamos o sol com a peneira”.
Os mecanismos de defesa têm as seguintes funções:
• Proteger a nossa psique.
• Aliviar tensões.
• Ativar processos de socialização.
• Diminuir o estresse.
• Manter um equilíbrio psíquico.
Dentre os mecanismos mais usamos, estão:
• NEGAÇÃO
Nega partes da realidade exterior que não são agradáveis e substitui por
outra realidade que não existe. Assim, é gerada uma fantasia para a satisfação de
desejos. O que você nega, domina; o que você aceita, transforma.
33
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
• PROJEÇÃO
É uma defesa primitiva. A pessoa tira de si e coloca, no outro, o que não
deseja em si: características, desejos e sentimentos que recusa que façam parte
de si mesmo.
O ciúme exagerado, sem razão aparente, pode ser um bom exemplo para se
entender esse mecanismo. Teme-se uma traição de um cônjuge, assim, surge o
temor que ele deseje outra pessoa, o risco da traição. Na verdade, o desejo por
outras pessoas causa vergonha, insegurança e dor. Então, deposita-se, projeta-
se, no outro, algo de si.
• REPRESSÃO OU RECALQUE
Brota do conflito do id com o superego. São censurados, mantidos, presos a
sete chaves, no id/inconsciente, impulsos, ideias penosas, que causam ameaça
se chegarem à consciência.
O que a boca cala, o corpo fala, assim, transforma-se em um mal-estar e aciona
dores, as quais exames fisiológicos não registram. A mente gasta muita energia
tentando reprimir o que pode gerar alguma dor emocional. Reconhecer a causa-
raiz, essa dor que está contida e aprisionada, proporciona o fim desses sintomas.
• SUBLIMAÇÃO
Canaliza, uma pessoa, a energia da libido (angústia, desejo sexual,
agressividade e necessidade imediata de prazer) para o trabalho, ou uma arte,
sem saber que o faz.
Freud (1919) entende que é um mecanismo de defesa muito positivo para
a vida em sociedade, pois artistas e cientistas, com grandes feitos, só foram
possíveis graças a ele.
O sofrimento e a angústia fazem parte da vida, mas podemos estabelecer um
limite, com um redirecionamento, uma outra forma. Isso surge para direcionar os
nossos impulsos a algo que seja, socialmente, aceito.
A título de exemplificação, como é o procedimento de lipoaspiração? Um
cirurgião plástico pode canalizar os instintos agressivos dele nessa atividade,
algo, totalmente, aceito e desejado por muitas mulheres e homens.
34
Capítulo 1 HISTÓRIA DA ARTE, PSICOLOGIA E ARTETERAPIA
Outra forma de sublimação é o excesso de exercício físico, uma forma ímpar
de liberação de energia que os nossos impulsos podem conter. Ainda, produzimos
endorfinas, neurotransmissores do bem-estar.
Ainda, talvez, não identificamos, como tal, as novas tecnologias, como jogos,
filmes e séries, nos quais colocamos a nossa atenção na fantasia, ao invés do
mundo real, e damos vazão à compulsividade, à agressividade, à sexualidade, ao
romantismo etc.
• FORMAÇÃO REATIVA
Ocorre quando uma pessoa sente desejo de dizer ou fazer algo mas faz o
oposto. Trata-se de uma resposta, de uma reação temida.
• RACIONALIZAÇÃO
Acontece quando uma pessoa usa argumentos lógicos, simplificações,
generalizações e estereótipos para que o ego permaneça em uma situação de
conforto. Ao raciocinarmos, acreditamos que estamos corretos, que temos razão.
6 FREUD E A ARTE
A partir da teoria, o artista é, em princípio, introvertido, uma pessoa não mui-
to distante da neurose, oprimida por necessidades instintuais, demasiadamente
intensas. Deseja conquistar honra, poder, riqueza, fama, mas faltam, a ele, meios
para conquistar essas satisfações.
Afirma, Freud (1919), que, assim como qualquer homem insatisfeito, afas-
ta-se da realidade e transfere todo interesse e libido para construções plenas de
desejos, fantasias, o que a arte permite.
Os artistas sofrem uma inibição parcial de eficiência devido à
neurose, e utilizam o mecanismo de defesa sublimação e com
determinado grau de frouxidão nas repressões, o que é decisi-
vo para um conflito (FREUD, 1919, p. 65).
A arte funciona como uma espécie de artifício, fantasia do imaginário, meio
pelo qual podem, os artistas, realizar ambições.
É compreendido, por afirmação, que a criatividade, o processo de criação
depende de uma certa tolerância do superego, para que o artista tenha acesso
aos conteúdos reprimidos no inconsciente, pois, nele, está a fonte para a criação.
35
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
A repressão e a severidade do superego impedem o acesso a essa fonte. Assim,
existe uma grande distância entre ser criativo e ser artista.
O artista, graças aos próprios dons, é capaz de dar materialidade às fanta-
sias e apresentá-las de uma forma universalizada e disfarçada, de tal maneira
que possam ser aproveitadas e usufruídas por todas as pessoas.
Concebe, Freud (1919), que os artistas têm a capacidade de compartilhar,
com os outros, os próprios mundos internos, as maneiras de perceberem as coi-
sas e a vida. Assim, permitem o alargamento do mundo interno para aqueles que
entram em contato com as obras deles.
Em incursões pelo universo da arte, Freud pesquisava a vida do artista,
procurava entender os aspectos neuróticos e psicóticos projetados no fazer
artístico dele.
7 TEORIA JUNGUIANA
FIGURA 17 – TEORIA JUNGUIANA
Este diagrama sintetiza os principais temas da Psicologia Analítica de Jung, a qual
discorreremos a seguir.
FONTE: <https://bit.ly/3ZFfgFB>. Acesso em: 24 abr. 2021.
36
Capítulo 1 HISTÓRIA DA ARTE, PSICOLOGIA E ARTETERAPIA
Jung foi um psicólogo austríaco, discípulo de Freud, pois compactua com
muitos dos conceitos do mestre, e, a partir de pesquisas e experiências, traz
novas contribuições, como veremos a seguir.
Para uma pessoa se tornar um ser único, deve passar por um processo de
individuação, encontrar a essência, encontrar a si mesmo, completar-se. É um
processo espontâneo de amadurecimento, por meio do qual o sujeito se torna o
que está destinado a ser. É o grande desafio da existência humana.
No processo de individuação, torna-se consciente o material da sombra. É
lançar luz sobre os recantos escuros, o que tem, como resultado, o alargamento
da consciência.
O conceito de individuação, talvez, seja o aspecto mais relevante da obra
dele, pois individuar é se tornar si próprio, autorrealizar, sem a pretensão de se
tornar perfeito, mas aceita conviver com tendências opostas, inerentes à própria
essência, com as conotações de bem e mal, assim, atinge níveis integrativos,
sempre, mais elevados.
Na sequência do texto, abordaremos, sinteticamente, conceitos de
fundamental importância para entendermos a teoria junguiana, baseados no livro
Fundamentos da Psicologia Analítica (JUNG, 2017).
• ARQUÉTIPOS
São possibilidades herdadas para representar imagens similares. São matri-
zes arcaicas a partir das quais configurações análogas aos semelhantes tomam
forma, derivam do inconsciente coletivo.
Os conteúdos do inconsciente coletivo são chamados de arquétipos. São
modelos originais, ou matrizes do comportamento humano, elementos primordiais
e estruturais da psique humana. Manifestam-se através de complexos e coletiva-
mente, por meio de características culturais.
A função deles é mostrar um modo herdado de funcionamento, ou um padrão
de comportamento, oriundo dos nossos ancestrais.
Cada um de nós cresce com uma noção, ou predisposição para experimen-
tar conceitos, como pai, mãe, filho, nascimento, morte e casamento. A cada novo
estágio da vida, de consciência e experiências, deparamo-nos com uma nova in-
terpretação para esses conceitos, a fim de nos adaptarmos à situação atual, mas
os antigos aprendizados, ainda, seguem dentro de nós.
37
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
• PERSONA
É a máscara social, uma pessoa que passamos a ser nos processos de edu-
cação, de adaptação ao meio social, mais aceitável ao convívio. É o que mostra-
mos ao mundo, formada por atitudes que se repetem frente às expectativas do
mundo sobre nós.
FIGURA 18 – SOMBRA
FONTE: <http://bit.ly/3w9s2P2>. Acesso em: 24 abr. 2021.
• SOMBRA
É inconsciente, o que é reprimido na consciência. Parte de nós inclui tendên-
cias, desejos, memórias, experiências que são rejeitados porque são incompatí-
veis com a persona, por isso, é ignorada. É o nosso eu mais profundo, aquilo que,
genuinamente, somos.
• EGO
Proporciona, o ego, nas nossas vidas conscientes, um sentido de consistên-
cia, de direção. Tende a se contrapor às coisas que podem ameaçar a consciên-
cia. Somos levados a acreditar que o ego é o elemento central da psique, entre-
tanto, ele dialoga com o inconsciente.
38
Capítulo 1 HISTÓRIA DA ARTE, PSICOLOGIA E ARTETERAPIA
FIGURA 19 – CARL JUNG
FONTE: <https://www.pensador.com/frase/MTk0MzcyNA/>. Acesso em: 24 abr. 2021.
• SELF
É o arquétipo central, de ordem, de totalidade da personalidade. É formado
pelo consciente e pelo inconsciente.
Animus e Anima são condutores, respectivamente, das consciências femini-
na e masculina para o mundo exterior.
ANIMA significa aspectos femininos no inconsciente do homem.
ANIMUS designa o componente masculino no inconsciente da mulher.
Anima e animus aparecem em sonhos, contos e mitos e nos mais variados
fenômenos do comportamento humano.
Esta é uma teoria psicológica complexa, mas, à medida faze-
mos conexões com exemplos cotidianos, estudamos, entendemos
os conceitos, vai se tornando familiar, cada vez mais compreensível.
Vamos por partes... Segue um vídeo de uma arteterapeuta junguiana
que explica a teoria: https://bit.ly/3IYbBg6.
39
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
Para se alcançar a individuação, um dos passos seria “por meio da
assimilação das quatro funções psíquicas que a consciência usa para fazer o
reconhecimento do mundo exterior e se orientar” (JUNG, 2017, p. 32).
As funções psíquicas são sensação, pensamento, sentimento e intuição, e,
com as atitudes de introversão e extroversão, representam os tipos psicológicos.
Normalmente, uma combinação dessas quatro funções gera uma abordagem
equilibrada do mundo para a pessoa.
Com relação ao inconsciente pessoal, Jung (1917) o define como uma
parcela do inconsciente que possui relação com conteúdos adquiridos por meio
de vivências, reprimidas da consciência em algum momento da vida.
O inconsciente pessoal se estrutura como camadas mais superficiais do
inconsciente e fronteiras com o consciente, o que pode influenciar os processos
conscientes e, até mesmo, provocar distúrbios psíquicos, ou somáticos.
8 ARTISTA E OBRA, QUE RELAÇÃO É
ESSA?
A obra, muitas vezes, sai pronta, e traz, em si, a própria forma, pois o autor
é inundado por uma torrente de pensamentos e imagens que, jamais, pensou
em criar, e que a vontade dele nem quis trazer à tona. Tem que reconhecer que,
nisso, tudo é, sempre, o self que fala, que é a natureza mais íntima que se revela
por si mesma. A riqueza da vida simbólica está presente em tudo e em todos os
momentos da vida humana. Daí a postura de não falar do artista, mas do processo
criador. Algumas vezes, a análise desse artista revela como é forte o impulso
criativo que brota do inconsciente, que o coloca a serviço da obra e, muitas vezes,
à custa da própria saúde e do bem-estar.
Apenas, o aspecto da arte, que existe no processo de criação artística, pode ser
objeto da Psicologia, não aquele que constitui o próprio ser da arte, ou seja, a per-
gunta sobre o que é a arte em si não pode ser objeto de considerações psicológicas,
apenas, estético. Criar é um processo impessoal do criador, que pode ter neurose, ou
não, mas, enquanto artista, só está apto a ser compreendido a partir do ato criador.
Há uma satisfação substitutiva presente na obra de arte, que representa
repressão e condicionamentos pessoais, analisada como um desvio, um erro.
Jung (2008) destaca que a essência da obra de arte não é constituída pelas par-
ticularidades pessoais que pesam sobre ela, fala do espírito, coração da humanidade.
40
Capítulo 1 HISTÓRIA DA ARTE, PSICOLOGIA E ARTETERAPIA
A arte é inata, como um instinto que, dele, empodera-se, que o faz um
instrumento. Ele é um homem coletivo, plasmador da alma inconsciente e ativa
da humanidade. A aventura interior do artista pode ser perigosa para ele, e pode,
eventualmente, levar a uma paralisação, ou a uma catastrófica explosão de
opostos conjugados em tensão.
Por essas razões, Jung (19171) defende que um artista deve ser explicado a
partir da própria arte, não de conflitos pessoais e fragilidades.
A psicologia da criação artística é, essencialmente, feminina.
A obra de arte jorra das profundezas do inconsciente, sendo,
justamente, o domínio das mães. [...] O processo de criação é
conduzido pelo inconsciente, esse deus misterioso que habita
de modo que é compelido a criar, sem saber a finalidade, o
porquê. A exigente paixão criadora é intransigente e põe em
risco desejos e seguranças pessoais, de modo que o artista,
frequentemente, acaba pagando caro pela centelha divina de
capacidade genial (JUNG, 1917, p. 36).
Assim, concluímos que, para Jung (1917), a autêntica obra de arte é uma
produção impessoal, pois os conflitos pessoais e dos artistas não são decisivos
para o conhecimento da obra. Para ele, o artista é um homem coletivo que ex-
pressa, com obras, a alma inconsciente e ativa da humanidade como um todo.
A respeito da perspectiva em questão, a Psicologia Analítica de Jung bus-
ca contribuir no processo de decifração de imagens simbólicas contidas em uma
obra, a fim de provocar, clarificar possíveis significações.
FIGURA 20 – SÍMBOLO
FONTE: <https://bit.ly/3XgGYqD>. Acesso em: 24 abr. 2021.
41
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
Um símbolo é uma produção espontânea da psique, e pode ser de natureza pes-
soal ou coletiva, comum para toda humanidade, ou característico de uma determinada
cultura. Possui características atemporais, é inesgotável, vivo e multidimensional.
Os símbolos provêm da consciência, e o inconsciente, sendo capaz de unir
ambas as partes, funciona como um elo unificador. Muito estudada no universo
junguiano, a simbologia da Mandala se relaciona à luta pela unidade total do eu.
Significa um suporte para a transformação e o crescimento
internos no indivíduo, para alcançar a totalidade. Mostra-se
como tentativas do inconsciente de buscar uma cura interna.
Com isso, a psique poderia ser restaurada e colocada em or-
dem (JUNG, 2008, p. 24).
Os orientais carregavam uma forma única que influenciou a percepção da
mandala.
O movimento de centralização era fundamental para a construção da
mandalas, o encontro com o self, com a própria essência, relacionada ao encontro
com Deus. Essas estruturas tratam, respectivamente, de self, inconscientes
pessoal e coletivo. Neste caminho, quando é atingida a totalidade do ser, não há
espaço para a autoilusão na personalidade.
O desenho era um arquétipo do próprio universo. Consiste em um diagrama
de formas geométricas concêntricas, utilizado no hinduísmo, no budismo, nas
práticas psicofísicas da yoga e no tantrismo, como objeto ritualístico.
Criar representa uma intensificação do viver, um vivenciar-se no fazer, e, em vez
de substituir a realidade, é uma nova realidade que adquire dimensões novas, pelo
fato de nos articularmos em nós e perante nós mesmos, em níveis de consciência
cada vez mais elevados e complexos. Somos, todos nós, a nova realidade. Daí os
sentimentos do essencial e do necessário no criar: o sentimento de um crescimento
interior, a partir do qual nos ampliamos para a nossa abertura para vida.
Nise da Silveira, psiquiatra brasileira, estabeleceu uma
comunicação, diretamente, com Jung. Foi responsável pela
implantação de projetos ligados ao universo das artes em Psiquiatria,
e seguiu a abordagem analítica. Vamos ampliar o olhar para essa
teoria? Acesse https://bit.ly/3HcoT7E, https://bit.ly/3CPke8L e https://
bit.ly/3H9RgTF.
42
Capítulo 1 HISTÓRIA DA ARTE, PSICOLOGIA E ARTETERAPIA
9 TEORIA HUMANISTA: GESTAL
TERAPIA
FIGURA 21 - GESTALT
FONTE: <https://www.ellocursos.com.br/gestalt-terapia/>. Acesso em: 24 abr. 2021.
Teve origem na Alemanha do século XX. A teoria é baseada na obra de Max
Wertheimer, que pensava na mente como um todo. Daí a afirmativa de que o todo
é maior do que a soma das partes.
A palavra vem do alemão, relacionada à figura, e busca a boa forma, descrita
como padrão, ou configuração. É uma corrente da Psicologia que se baseia no
estudo da percepção.
A terapia gestáltica foi desenvolvida por Fritz e Laura Perls, treinados em
Psicanálise e Psicologia da Gestalt. Com Paul Goldman, trabalharam para desen-
volver um estilo de terapia humanista, que focalizasse a pessoa e a singularidade
da experiência dela.
A Gestalt terapia tem uma visão do homem baseada no existencialismo, que
valoriza a subjetividade, a singularidade, a responsabilidade, a vivência, e que
tem, como foco, a existência humana. Busca explicar a percepção humana e a
maneira através da qual tomamos decisões com base no que percebemos, em
como a mente captura as informações.
É uma abordagem psicoterapêutica centrada no cliente, com foco no presen-
te, no aqui e agora. A ideia é que esse cliente entenda o que, realmente, acontece
na vida dele, em tempo real. É encorajado a falar a respeito do passado e de pro-
jetos para o futuro, mas o contexto atual é o que importa.
43
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
Podemos dizer que as percepções que temos se configuram por meio da
soma de peças, de imagem, tato, som e memória. Todas essas informações criam
representações mentais, pela soma de várias partes, o que é constituído pelos
dados dos nossos órgãos dos sentidos e da memória e forma uma figura inteira.
Através do processo gestáltico, o cliente aprende a se tornar mais consciente
de como os próprios padrões de pensamento ocorrem e se reeditam. Passa a co-
nhecer comportamentos negativos que possam bloquear a verdadeira autoconsci-
ência e torná-lo infeliz.
O setting terapêutico é um lugar seguro para explorar, com segurança, expe-
riências, sem medo de julgamento.
Essa teoria é uma das bases da Dinâmica dos Grupos, pois o ser humano se
transforma, transforma o mundo e é transformado por ele.
• AWARENESS
É um conceito, em Gestalt, que se refere à tomada de consciência do sujeito
de forma global, no momento presente, ou seja, vem de um conjunto das percep-
ções pessoal, emocional, interior e ambiental. É uma forma de experimentar a
recriação.
Pelo conceito de figura-fundo, existe uma tendência visual de simplificação
de cena com um objeto, para o qual olhamos, que é a figura. É tudo o que forma
o cenário ao fundo.
• LEI DA PREGNÂNCIA
É, também, chamada de lei da simplicidade, ou da boa forma. Assim, há um
grau de assimilação melhor de um objeto quando ele é organizado de modo sim-
ples. Para perceber o todo, é preciso perceber as partes, ter várias percepções de
algo. Existe uma tendência de formar imagens mais equilibradas e harmoniosas.
Os exemplos das figuras a seguir exemplificarão o contexto
exposto. Tente perceber as primeiras expressões, o que a mente
captura de informação.
44
Capítulo 1 HISTÓRIA DA ARTE, PSICOLOGIA E ARTETERAPIA
Provocam, apenas, a nossa percepção visual. O que você vê?
Descubra!!!
Este tema merece ser aprofundado, assim, segue um material
para entender melhor: https://bit.ly/3iJPO13.
VASO DE RUBIN
FONTE: <http://bit.ly/3HarOgO>. Acesso em: 24 abr. 2021.
MY WIFE AND MY MOTHER-IN-LAW
FONTE: <https://www.todoestudo.com.br/filosofia/gestalt>. Acesso em: 24 abr. 2021.
No processo de Gestalt, os objetivos consistem em:
• Fazer o cliente perceber as partes rejeitadas, ou inconscientes, para
juntá-las, a fim de tornar essa pessoa um ser inteiro.
• Trazer de volta as potencialidades do paciente que estão perdidas e que
advêm da totalidade dele.
45
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
• Colaborar com o terapeuta, para aumentar a conscientização pessoal e
desafiar, ativamente, os bloqueios encontrados.
1 Como Freud (1919) concebe a arte e os artistas?
2 Qual é a função dos mecanismos de defesa para Freud?
3 O que são arquétipos pela Teoria de Jung?
10 INTERVENÇÕES
ARTETERAPÊUTICAS E GRUPALIDADE
NO ESPAÇO EDUCACIONAL
No final do século XX, acompanhamos o surgimento e o desenvolvimento de
novas propostas de ações e atividades no contexto de sala de aula, potencializa-
dos autoconhecimento e criatividade, o que devem diminuir os problemas relacio-
nados a aspectos emocionais e de aprendizagem de alunos.
A arteterapia, que se originou na área da saúde mental, iniciou pequenos
movimentos, a fim de ser uma grande alternativa.
Entendemos que é válido retomar à linha do tempo, a fim de
refletirmos a respeito dos papéis da escola e das questões grupais
na contemporaneidade.
Nos primórdios da civilização, a educação se dava através de
formas espontâneas de ensino: feiticeiras, anciãos e curandeiros
transmitiam, oralmente, conhecimentos aos jovens, em qualquer
hora ou lugar.
No século V, a transmissão espontânea passou a ser
sistematizada, a fim de ser tirada, essa responsabilidade de
educação, dos pais. Na Grécia, a escola elementar, o conhecimento
46
Capítulo 1 HISTÓRIA DA ARTE, PSICOLOGIA E ARTETERAPIA
ocorria nas praças, nas entradas de templos. Os romanos criaram
um prédio para a escola, preocupados em impor valores e costumes
aos povos dominados.
No período medieval, a educação formal era restrita a igrejas
e mosteiros. Até século XIV, a educação permaneceu nas mãos
dos monges e com acesso restrito à elite. A sistematização e a
disseminação do ensino ocorreram a partir do século XVII, com
o lançamento da Carta Magna, a arte de ensinar a todos, que se
tornaria a base do pensamento pedagógico da época. Assim,
aconteceu uma estruturação no sistema de ensino, com a divisão da
escola em níveis e uma educação adequada por idade.
O conceito de se transferir, para a escola, a responsabilidade de
cuidado de crianças, foi disseminado no período de industrialização,
na Inglaterra, no século XVIII; na Europa, no Japão e nos EUA, no sé-
culo XIX. Naquele período, a ênfase era dada a crianças da Educação
Infantil, com caráter de assistência social, sem pretensão didática.
No Brasil, a educação surgiu com jesuítas catequizadores. Antes,
as tradições eram passadas pelos anciãos, mas, na sequência, esses
jesuítas apregoavam as disciplinas de horário, obediência, felicidade
do paraíso, não na vida terrena, informações destinadas à resignação
e à dominação culturais, à desvalorização cultural de um povo.
D. Pedro I deu o primeiro passo para a educação pública
primária, e surgiram, no período republicano, as escolas privadas,
controladas por religiosos, como é feito até hoje.
A tecnologia do século XXI aproxima e distancia pessoas. Surgiu a hipótese
de o computador ocupar o papel do professor (o que pode até ser possível algum
dia), entretanto, o face a face, a função social que a escola ocupa é fundamental
para a construção da personalidade de uma pessoa.
O educando passa muito tempo de vida na escola, e, com a família, são
forjados valores, normas e condutas. Neste momento de efêmeras e rápidas
transformações, uma série de paradigmas está sendo contestada, modificada,
substituída por outros. Esses impactos ecoam na escola e desafiam o educador a
rever posturas, conceitos, práxis e formas de compartilhar o conhecimento.
47
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
Na era da globalização, o meio educacional precisa desenvolver a
competência técnica, a cognição, mas, paralelamente, deve dar prioridade
ao desenvolvimento do afeto, do relacional, por impactar, profundamente, a
autoimagem, a autoestima, a inteligência emocional.
À medida que o educador percebe que é um facilitador de processos de
desenvolvimento humano e aprendizagens, a instituição de ensino passa ser um
espaço de promoção de saúde, inclusão e prevenção de adoecimentos. A partir
desse entendimento, o público-alvo da arteterapia, na educação, são educadores,
equipe diretiva, funcionários, alunos e familiares.
Os papéis da arteterapia, através da teoria que a sustenta, dinâmicas e
técnicas de intervenção, são:
• Oportunizar autoconhecimento ao sujeito, entendimento das formas de
ser, sentir, agir, relacionar-se com as pessoas e com o próprio ambiente.
• Proporcionar conhecimento para aliviar angústias, conflitos, frustrações,
traumas, dificuldades a serem superadas.
• Estimular e empoderar pessoas a serem artistas, e buscar potencializar
aprendizagens cognitivas e emocionais.
• Fortalecer relações intra, interpessoais e grupais no espaço educacional.
Em função da escolha de uma das bases teóricas psicológicas, relacionadas
no Capítulo 2, pautaremos a intervenção em arteterapia. As modalidades artísticas
e técnicas expressivas são similares em todas, o que difere é a abordagem,
incluindo o entendimento e a condução da sessão, a partir de uma proposta de
atelier terapêutico ou workshop.
A partir da nossa experiência, no contexto da arteterapia, na educação,
conectamos, à Psicologia Humanista, o modelo andragógico de aprendizagem
e as dinâmicas de grupo, como complementares, por trazerem uma ampliação
do olhar: saber ser, saber aprender pelo fazer, e, por consequência, surge o
merecimento, o saber ter.
A arteterapia é uma abordagem processual que utiliza recursos expressivos
e artísticos com foco no desenvolvimento pessoal e/ou terapêutico. Já o modelo
andragógico se relaciona, basicamente, com a educação de adultos. É a base
ao estruturarmos a sequência de um workshop, ou sessões de arteterapia, a fim
de serem oportunizados subsídios para reflexões e possibilidades de desenvol-
vimentos intrapessoal (autoconhecimento), interpessoal (relação com o outro) e
grupal (contexto social, ambiente de inserção).
48
Capítulo 1 HISTÓRIA DA ARTE, PSICOLOGIA E ARTETERAPIA
Resumidamente, a andragogia é a arte, ou ciência, de orientar adultos a apren-
derem. É o oposto da Pedagogia, que se refere à educação de uma criança (do
grego paidós – criança; andragogia - do grego andros – adulto; gogos – educar.
Entendemos que é uma metodologia, um caminho educacional que busca
compreender o adulto, o qual é um aprendiz com experiência, pois o conhecimento
vem da realidade, da busca, no desenvolvimento pessoal, de soluções para outras
áreas da vida.
Baseia-se nas premissas e em alguns pressupostos básicos da andragogia:
• Necessidade de conhecimento: o adulto precisa saber o porquê e que
ganhos deve ter com essa aprendizagem. Antes de ela começar, de fato,
necessita compreender os benefícios em termos de qualidade de vida
ou desempenhos pessoal e profissional.
• Autoconceito do aprendiz: o adulto amadurece, assim, deixa de ser
dependente para se tornar autodirecionado. Percebe-se responsável
pela própria vida e decisões.
• Papel da experiência: o adulto acumula muitas experiências, uma fonte
inesgotável de aprendizagem. Por isso, a ênfase deve estar nas técni-
cas que partem das experiências do aprendiz para realizar discussões,
reflexões, métodos de laboratório e workshops.
• Prontidão para aprendizado: o adulto assimila, aprende aquilo a ajudar
na superação do problema que enfrenta e desempenha papéis sociais.
À medida que se desenvolve, adquire prontidão para realizar tarefas,
mudanças necessárias.
• Orientação para aprendizagem: o adulto tem a perspectiva focada na
aplicação imediata do conhecimento. A orientação para aprender está
centrada em contextos da vida real.
• Motivação: o adulto apresenta, como fatores intrínsecos mais podero-
sos, o desejo de autoconhecimento, autoestima, um novo olhar para a
evolução pessoal, bem-estar e qualidade de vida, que se refletem em
conquistas profissionais.
Osório (1997, p. 12) destaca que é possível identificar o grupo como um dis-
positivo de aprendizagem individual e coletivo, pelo fato de processos relacionais,
acontecidos no interior, funcionarem como uma sala de espelhos, na qual cada
membro vê parte do eu projetado nas atitudes do outro.
A arteterapia, na educação, em uma abordagem de desenvolvimento intra/
interpessoal, ou grupal, com uma proposta de workshops, ou sessões individuais,
estabelece interfaces com a andragogia.
49
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
A responsabilidade do adulto é um ponto-chave para o sucesso do próprio
processo de aprendizagem. Quando o grupo é estimulado, ocorrem reações e
movimentos, assim, a evolução e o desenvolvimento dos indivíduos ocorrem a
nível de envolvimento de cada um. Estimula-se o desenvolvimento coletivo à me-
dida em que são criadas condições que promovam um ambiente de troca.
A partir do que foi visto até então, podemos dizer que a arteterapia, na educa-
ção, é um conjunto de dinâmicas e atividades vivenciais que empregam técnicas
artísticas para estimular os padrões cognitivos, emocionais e comportamentais
dos participantes, para que possam mover pessoas e grupos para o desenvolvi-
mento e/ou terapêutico.
Entender os processos e as dinâmicas dos grupos, na educação, objetiva a leitu-
ra e a compreensão dos movimentos de um grupo, a fim de que os membros possam
entender os próprios processos e, a partir daí, decidir, ou não, a respeito de mudanças.
A criatividade é a matéria-prima da arteterapia e dos processos de aprendizagem.
Guilford (1968), um dos pioneiros deste estudo, entende a criatividade como
função cognitiva e que as capacidades produtivas empregam duas formas de
pensamento: convergente e divergente:
• pensamento convergente: ocorre quando há um problema que exige
um método padrão de resolução. É reeditado, pelo cérebro, sempre que
possível, e segue os mesmos caminhos neurais, conhecidos e usados
pelo pensador, que pode gerar uma solução;
• pensamento divergente: tende a ocorrer quando o problema, ainda, deve
ser descoberto. Não existe ainda. Portanto, aponta uma única forma para a
solução correta, pois pode produzir uma gama de soluções possíveis.
A arteterapia contribui para a ativação das capacidades criativas estimuladas
pelo pensamento convergente.
Nas últimas décadas, o desenvolvimento dos potenciais criativo, cognitivo e
intelectual do aluno constitui um dos objetivos educacionais mais importantes.
As formas costumeiras de pensamento e de ação são insuficientes e, mes-
mo, inadequadas para lidar com mudanças e inovações.
Devem ser utilizados novos recursos, métodos e estratégias no contexto es-
colar, para que as pessoas sejam estimuladas a pensar de forma ativa e a desen-
volver inteligência emocional, flexibilidade, sensibilidade, autoconfiança, autoesti-
ma e protagonismo.
50
Capítulo 1 HISTÓRIA DA ARTE, PSICOLOGIA E ARTETERAPIA
Compartilha a ideia de que o sistema educacional brasileiro pode preparar
educadores e ambientes adequados à estimulação das capacidades criativas
transformadoras, e oportunizar a expressão de potencialidades individuais, como
afetiva, cognitiva, social e produtiva, em qualquer campo de atuação, seja pessoal
ou profissional.
O bom ensino é caracterizado pelo relacionamento autêntico, pela capacida-
de de escuta, pela confiança estabelecida e por um clima ambiental de segurança
psicológica, contribuições que podem ser advindas dos processos arteterapêuticos,
com educadores, familiares, funcionários da escola e com os próprios aprendentes.
A educação, que deve ser um ato coletivo e solidário (um ato de amor, dá
para pensar sem susto), não pode ser imposta, pois educar é uma tarefa de tro-
cas entre pessoas e, se não pode ser, jamais, feita por um sujeito isolado, pois
até a autoeducação é um diálogo a distância, não pode ser, também, o resultado
do desejo de quem supõe que possui o saber sobre aquele que, do outro lado, é
obrigado a pensar que não possui nenhum.
De certa forma, todos estão envolvidos para bons resultados, o professor tem
a função de facilitar o crescimento pessoal do aluno, a fim de auxiliá-lo a construir
o próprio conhecimento, a lidar com dificuldades, fragilidades que o processo edu-
cacional pressupõe, a canalizar forças para a superação de obstáculos.
Quanto mais bem resolvidas e preparadas, emocionalmente, estiverem as
pessoas que fazem parte do processo de ensino-aprendizagem, maior será o ga-
nho do aluno.
Portanto, a arteterapia, no contexto educacional, possibilita um processo
de desenvolvimento emocional, uma aprendizagem consciente e integrada com
convicções, pensamentos e sentimentos, direcionados para educar com a arte.
Assim, dá suportes a alunos, educadores e a funcionários da escola para se tor-
narem mais competentes emocionalmente, perante a vida.
A arteterapia surge das práticas e das reflexões que demarcam um novo
espaço terapêutico contemporâneo, uma interface da Psicologia e da arte. Essa
abordagem contempla as artes plásticas como poderosas ferramentas para curas
emocionais e desenvolvimento humano.
Delors (1996), a partir da abordagem andragógica, destaca pilares da educa-
ção: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos, aprender a
conviver com outros e aprender a ser.
51
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
A Psicopedagogia é uma construção contemporânea que nasce da fronteira
da Psicologia com a Pedagogia. Tem o compromisso de empoderar o aprendiz
para ativar as habilidades de novas formas de ser, fazer e aprender no mundo.
Fagali (2005 apud CIORNAI, 2005, p. 27), psicopedagoga, arteterapeuta,
destaca “que seu nascimento é marcado pela busca da reintegração do que foi
separado na aprendizagem, segundo a concepção moderna de construção do co-
nhecimento e do homem: o sujeito/o objeto do conhecimento, o afetivo/o cogniti-
vo, o pensamento/o corpo, as diferentes linguagens, a prática/a teoria, a lógica/o
imaginário criativo”.
Criatividade e sensibilidade são um potencial humano. Todos
nós nascemos com um potencial de criatividade e nos múlti-
plos encontros com a vida que vão se revelar, desabrochar.
[...] Concebo a saúde como ligada à criatividade, a processos
criativos na vida, à visão de homem como um ser em relação,
ser no mundo, cuja natureza peculiar é ser criador (CIORNAI,
2005, p. 59).
Assim, concluímos que a arteterapia é uma abordagem terapêutica que ab-
sorve saberes de diversas áreas do conhecimento. É uma prática transdisciplinar
que visa resgatar o homem em sua integralidade, através de processos de auto-
conhecimento e transformação.
A escola é um laboratório humano, um espaço de convivência, com possi-
bilidades do vir a ser, de autoconhecimento, no qual se descobrem os próprios
limites e os do outro. Há “[...] o interesse pelo autoconhecimento, o que gere, com
consciência, nossas limitações e possibilidades, aceita e respeita as diferenças”
(PAGANOTTO apud TOMMASI, 2011, p. 249).
O espaço arteterapêutico, na educação, fortalece as possibilidades dos se-
res social e histórico, pensante, criador, realizador de sonhos, capaz de nutrir uma
gama de emoções e sentimentos. À medida que o educador se autoriza estar
nesses papéis, proporciona, ao aluno, o mesmo processo.
Bello (2003, p. 32) coloca que “o sistema educacional deveria estar interes-
sado em expandir o autoconhecimento e o potencial criativo nos estudantes e
atuar como ponte, incorporando o aprendizado emocional ao sistema, do primeiro
grau até a educação adulta”.
A arteterapia é um processo estruturado que, por meio de atividades orga-
nizadas, explora materiais artísticos, delimita a abrangência de atuação, demar-
ca cronologias, acompanhamento, avaliações, e permite o autoconhecimento e a
transformação das pessoas.
52
Capítulo 1 HISTÓRIA DA ARTE, PSICOLOGIA E ARTETERAPIA
O fazer arte implica, diretamente, em mudanças, transformações, pois esti-
mula as ordenações de ideias surgidas pela elaboração mental. Aquele que tem
acesso à arte, ou ao fazer artístico, tem as oportunidades de desenvolver e de
configurar habilidades, as quais são, por sua vez, reveladoras da estrutura cogni-
tiva de quem as realiza, o que reflete a maneira pessoal de se relacionar, de ver
o mundo.
Qual é a relação da Psicopedagogia com a arteterapia?
Fagali (2005 apud CIORNAI, 2005) nos ajuda a responder a essa questão,
ao afirmar que a Psicopedagogia, durante os processos de avaliação e interven-
ção, está, diretamente, envolvida com uma visão integrada do homem e do co-
nhecimento, quando destaca o corpo, a emoção e a cognição como partes de um
todo único e indivisível. A arteterapia vem para enriquecer a visão que lida com a
aprendizagem, através do enfoque terapêutico, que busca a mediação das lingua-
gens artísticas.
Segundo Rubstein (2013), são duas as áreas de atuação psicopedagógica:
• Clínica: direcionada à terapêutica, ao tratamento.
• Institucional: voltada para a prevenção, a profilática das dificuldades de
aprendizagem.
A investigação psicopedagógica é uma forma de ação para identificar possí-
veis defasagens no processo de aprendizagem.
Gonzaléz (apud RUBSTEIN, 2013) sintetiza que problemas precisam ser
solucionados, situações precisam ser resolvidas, ou temas devem ser trabalhados.
Cita que isso pode partir da escola, da família ou do aprendente. A partir daí,
estabelece-se o processo de avaliação psicopedagógica, com enfoque preventivo,
ou de tratamento. Com os resultados dessa avaliação, o profissional faz uma
intervenção, sendo que a duração depende desses resultados encontrados
durante o processo avaliativo.
Rubstein (2013) afirma que o objetivo da intervenção é facilitar a relação
que a pessoa estabelece com o conhecimento, com o saber e com os processos
de aprendizagem. Muitas vezes, essa relação é, emocionalmente, delicada, por
vezes, conflituosa, e, nesse contexto, a ludicidade e a criatividade, com o uso de
linguagem expressivas e artísticas, podem, e muito, contribuir.
A arteterapia pode ser empregada de duas formas: no contexto no qual a
arte é usada como uma ferramenta de expressão, para estimular reflexões e
elaboração verbal, e em um atelier terapêutico, como estímulo ao fazer.
53
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
Como já foi visto, em capítulos anteriores, há pesquisas e estudos
consistentes que orientam o material e a modalidade que melhor podem contribuir
para se trabalhar a dificuldade identificada. Talvez, é preciso encontrar a causa-
raiz ou fortalecer, emocionalmente, o aprendente, para que o bloqueio, ou a
resistência, seja ultrapassado criativamente, com leveza e suavidade.
O processo criativo pode ser revelador, trazer pistas significativas para o
entendimento do paciente.
A Psicopedagogia e a arteterapia têm uma prática terapêutica com uma
abordagem multidisciplinar, o que permite a interação de diversas formas, com
conhecimento e expressão.
Ciornai (2005, p. 32) menciona que “a Psicopedagogia, como área do
conhecimento que leva em consideração a percepção do aprendente que cria a si
mesmo e que constrói o próprio conhecimento, diante dos processos de avaliação
e intervenção, está, diretamente, envolvida com a visão integrada do homem
(corpo, cognição, emoção)”. Assim, essa área pode utilizar as ferramentas da
arteterapia na práxis cotidiana, em contextos terapêuticos de profilaxia e para a
prevenção de dificuldades de aprendizagem.
Nos espaços educativos e psicopedagógicos, são utilizados, amplamente,
os recursos expressivos e artísticos, mas acreditamos que sem tantas clareza
e funcionalidade. Ao se acessar esse conhecimento profundo da potencialidade
psicológica de cada modalidade artística, abre-se um canal de possibilidades para
um mergulho no mundo interno, através de histórias e inúmeros personagens;
do jogo teatral; da música que concentra, ativa, relaxa; de desenhos, colagens e
pintura.
Através de cores, formas e volumes, a autoimagem e a autoestima do cliente
podem ser trabalhadas, a fim de se romperem as defesas rígidas da afetividade.
Dessa forma, facilita-se a expressão de inúmeros bloqueios emocionais e
sentimentos que, talvez, impossibilitem que a aprendizagem siga o curso natural,
instigada a resolução de conflitos pessoais.
Outro fator que merece destaque é o aperfeiçoamento do modo através do
qual um cliente estabelece uma comunicação consigo mesmo e com a família, a
escola, os funcionários, os educadores e outros grupos com os quais convive, a
fim de ser estimulado o desenvolvimento de um ambiente e de relações saudáveis.
54
Capítulo 1 HISTÓRIA DA ARTE, PSICOLOGIA E ARTETERAPIA
1 A arteterapia e os processos de aprendizagem têm, como base, a
criatividade. Guilford (1968) afirma que a criatividade é composta
por duas formas de pensamento. Quais são elas?
2 Qual é a contribuição da arteterapia no espaço educacional?
3 A partir do que foi visto até então, que conceito podemos adotar
de arteterapia na educação?
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
A história da arte vem como uma provocação, vem desacomodar o
tempo presente, muito embora a imaginação e o pensamento sempre foram,
dialeticamente, espaços de liberdade e aprisionamentos, os quais podem ser
adentrados, se assim é autorizado ao arteterapeuta.
É permitido, à luz das linhas teóricas da Psicologia, um forte embasamento:
o entendimento, diálogos entre o real e o imaginário, a fim de ser definida uma
intervenção prática. A arte pede passagem para projetar o mundo interno, repleto
de fantasias; plasmar o símbolo, pois necessita de concretude, então, surge a
obra expressiva, carregada de fragmentos da nossa história.
No universo arteterapêutico ou no cotidiano da vida, a arte nos invade, nem
sempre, de forma consciente. Temos a sensação de que está a serviço do prazer
e da plenitude, de minimizar as complexidades e as vicissitudes da vida. Por outro
lado, pode ser um pedido de socorro, pois retrata incômodos, desconfortos e
provoca furor.
Ao criarmos, de certa forma, buscamos dar formas a obras que compensem,
externem e traduzam fragilidades internas, ou algo que, conscientemente, merece
registro.
Quando somos tomados por alguma manifestação artística, somos norteados
pelas emoções mais genuínas, o que dá luz ao que não tínhamos percebido com
clareza até então. Pela terminologia junguiana, dizemos que a imagem arquetípica
apresenta uma manifestação artística que nos ativa um complexo. Por isso, em
uma sessão arteterapêutica, ou fora dela, quando uma imagem nos invade, é
55
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
preciso escutar esse diálogo que se estabelece, pois toda informação que brota
é um material de grande riqueza para entendermos o processo no qual estamos
inseridos.
Cabe, aqui, fazermos uma investigação e questionamentos, sem medo
de respostas: O que sinto ao me deparar com tal obra? Por que me sinto
desconfortável diante desta imagem? Que memórias surgem ao ouvir esta
música? Que emoções e sentimentos esta obra provoca em mim?
Assim, com relação aos processos artísticos e à concretização de uma obra,
existem dois processos distintos de criação: um está ligado à intenção do artista,
ao que ele deseja representar, o que torna acessível a compreensão da obra; já
o outro parece sobrepor, escapar do entendimento do próprio artista que a cria. É
como uma inspiração maior, que impulsiona o criar.
REFERÊNCIAS
BELLO, S. Pintando sua alma. São Paulo: Editora Wak, 2003.
CIORNAI, S. Percursos em arteterapia. Rio de Janeiro: Summus Editorial, 2005.
FREIRE, J. Educação e mudança. 6. ed. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 2008.
FREUD, S. Mal-estar da civilização. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1919.
FREUD, S. Totem e tabu. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1913.
GUILFORD, J. P. Intelligence, creativity and their educational implications.
San Diego: Robert R. Knapp, 1968.
JUNG, C. G. Fundamentos da Psicologia Analítica. Rio de Janeiro: Editora
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JUNG, C. G. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Editora Nova
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MOSCOVICI, F. Desenvolvimento interpessoal - Treinamento em grupo. 8.
ed. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1998.
OSÓRIO, L. C. Como trabalhamos com grupos. Porto Alegre: Artes Médicas,
1997.
56
Capítulo 1 HISTÓRIA DA ARTE, PSICOLOGIA E ARTETERAPIA
RUBSTEIN, E. A atuação psicopedagógica e aprendizagem escolar. Rio de
Janeiro: Editora Vozes, 2013.
SILVEIRA, N. Imagens do inconsciente. São Paulo: Editora Vozes, 2015.
SILVEIRA, N. Jung, vida e obra. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1981.
TOMMASI, S. B. Arteterapeuta: um cuidado da psique. São Paulo, 2011.
57
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
58
C APÍTULO 2
ABORDAGENS PSICOLÓGICAS EM
ARTETERAPIA
A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes
objetivos de aprendizagem:
Aprofundar o conhecimento em linhas teóricas da Psicologia aplicada à
arteterapia.
Reconhecer a metodologia e as formas de intervenção arteterapêuticas.
Identificar com que abordagem teórica mais se identifica e como se
fundamentam as intervenções arteterapêuticas.
Empregar metodologias e recursos expressivos na sua área de atuação.
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
60
Capítulo 2 ABORDAGENS PSICOLÓGICAS EM ARTETERAPIA
1 CONTEXTUALIZAÇÃO
A arteterapia surge como uma metodologia com interfaces da Psicologia,
da Psiquiatria, das Artes, da Filosofia e da Antropologia, por possuir essa
característica multifacetada por natureza, e tem, como essência, o caráter de
transdisciplinaridade.
Constitui-se como uma área do conhecimento que busca sentido em experi-
ências criadoras, orientadas a partir de pressupostos teóricos de diferentes abor-
dagens psicológicas.
Ressaltamos que as modalidades e os materiais expressivos e artísticos são
usados com uma certa intencionalidade. Podem ser possíveis mediadores de
uma proposta de intervenção, individual ou grupal, rumo ao autoconhecimento, ao
bem-estar, a fim de serem qualificadas as relações consigo mesmo e com o meio
no qual está inserido.
Destacamos dois aspectos: criatividade em ação e uso de recursos artísticos
a serviço da elaboração psíquica de conteúdos pessoais, algo facilitador de quali-
dade de vida e de registros históricos da existência humana.
Registramos uma história recente, da arteterapia e da metodologia dela, e
assumimos o desafio de ser um reduto de transformação, do lúdico e do prazer
em meio à dor, uma ressignificação à experiência humana. Essas abordagens
referendam o universo da arteterapia.
Primeiramente, pela arteterapia, a partir da abordagem de Jung, mergulhare-
mos nos mundos dos sonhos, da fantasia, da religião e dos mitos. As pesquisas
dele, que abarcam a persona, a sombra, o mundo dos símbolos e o universo ar-
quetípico, trazem uma base sólida e científica para o entendimento das obras dos
clientes e dos artistas ao longo da história. O inconsciente coletivo e a ancestrali-
dade proporcionam conexões poderosas e transformadoras.
Logo após, daremos destaque à brilhante psiquiatra Nise da Silveira, com
vida e obra. O trabalho e a pesquisa dela foram um marco histórico no movimento
Antimanicomial, no Brasil, por se posicionar, firmemente, contra técnicas
psiquiátricas agressivas e excludentes, empregadas em paciente hospitalizados.
Criou um ateliê de pintura e modelagem com a intenção de possibilitar, aos
doentes, reatarem o vínculo com a realidade, através da expressão simbólica e
da criatividade.
61
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
Por fim, com a arteterapia pela abordagem humanista, contemplaremos as
escolas com base na terapia centrada na pessoa, na Gestalt terapia, na Psicolo-
gia positiva e a contribuição ao universo da arteterapia na educação.
As abordagens têm, em comum, as fortes tendências existencial e fenome-
nológica, pois estimulam o autoconhecimento aqui e agora, sendo, a própria pes-
soa, protagonista da vida que deseja e merece. Assim, a arteterapia tem, como
objetivo, estimular a potencialidade criativa das pessoas, por meio de técnicas
projetivas com recursos expressivos e artísticos. Assim, possibilita visualizar inter-
corrências, cristalizações, sofrimentos e auxiliar nessa percepção e para a supe-
ração de crises, ao acionar caminhos transformadores para as saúdes biopsicos-
social e espiritual.
No Capítulo 1, introduzimos conceitos da teoria psicanalítica, pois, dela, bro-
ta a teoria junguiana, que é uma vertente muito forte da arteterapia no Brasil, lado
a lado com a arteterapia humanista, da Gestalt.
Entendemos que a Psicologia positiva, que se consolida cada vez mais, pode
respaldar a arteterapia na educação.
As teorias psicológicas têm identidades próprias, convergem e divergem a
partir de bases estruturais, entretanto, com algumas dinâmicas e técnicas, dialo-
gam de forma complementar, por meio de uma intervenção grupal ou individual.
A reflexão desenvolvida mostra que, apesar das diferentes molduras teóri-
cas, a arteterapia é perpassada por uma concepção estética do humano, visto
como ser criativo, capaz de se transformar em artista na própria vida.
Há pressupostos fundamentais que norteiam o profissional na prática, in-
cluindo aspectos conceituais e metodológicos próprios a cada uma das aborda-
gens principais em arteterapia.
Conclui-se, então, que a arte pode ser uma ferramenta valiosa para
intervenção em diferentes contextos, vinculada ao compromisso ético de contribuir
para que o sujeito se (re) constitua como autor da própria história. Ainda, favorece
a multiplicidade de olhares de um mesmo fenômeno e pode, profilaticamente,
levar o sujeito à amplificação da consciência, ao autoconhecimento e à integridade
psíquica.
62
Capítulo 2 ABORDAGENS PSICOLÓGICAS EM ARTETERAPIA
2 ABORDAGENS PSICOLÓGICAS EM
ARTETERAPIA
A partir de uma retrospectiva histórica, a arteterapia surgiu após a Segunda
Guerra Mundial, em um momento de desolação, falta de perspectiva, extrema de-
sorganização, crise de valores humanos que sustentava o projeto de modernida-
de. Contudo, por mais que os trabalhos de Freud e Jung tenham se popularizado,
o uso da arte transcendeu a área psiquiátrica, pois, somente, na década de 1940,
a arteterapia foi sistematizada.
Em 1941, Margaret Naumburg, considerada precursora da arteterapia, par-
tindo da psicanálise, desenvolveu trabalhos com os clientes dela. Acreditava na
possibilidade de um diálogo do inconsciente com o consciente.
No Brasil, em 1923, Osório Cesar, residente do Hospital Psiquiátrico do Ju-
query, em São Paulo, começou a desenvolver estudos que abarcavam as artes
dos pacientes internos. O critério, para a realização dos trabalhos, era a esponta-
neidade, e acreditava que estes representavam a autêntica arte. Em 1925, criou
a Escola Livre de Artes Plásticas do Juquery, e, em 1929, publicou a Expressão
Artística dos Alienados.
Durante a carreira, Osório realizou mais de 50 exposições para divulgar as
artes dos doentes mentais.
Em 1946, Nise da Silveira desenvolveu um trabalho de orientação junguiana
no Centro Psiquiátrico D. Pedro II, em Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro,
uma fonte de inspiração para a implantação de projetos de arte em hospitais e um
instrumento de apoio aos serviços de saúde mental.
Em 1950, Edith Krammer iniciou, em uma escola de Nova York, a utilizar o re-
curso artístico durante a psicoterapia de crianças com problemas emocionais. Foi
responsável pela mudança de foco para a aplicação de técnicas criativas, assim,
retirou a ênfase do produto final e a colocou no processo em si.
63
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
3 ARTETERAPIA NA ABORDAGEM
JUNGUIANA
FIGURA 1 – FRASES DE JUNG
FONTE: <http://bit.ly/3ZHUsx9>. Acesso em: 24 abr. 2021.
Sugerimos que sejam retomados os conceitos da teoria junguiana, do Capí-
tulo 1, o que será a base para o entendimento dos aspectos dinâmicos e da apli-
cabilidade no universo arteterapêutico.
A alma é o ponto de partida de todas as experiências humanas,
e todos os conhecimentos que adquirimos acabam por levar
a ela. A alma é o começo e o fim de qualquer conhecimento
(JUNG, 1964, p. 61).
A arte é a linguagem da alma. Jung revela um universo repleto de mitos, símbo-
los, sonhos, religiosidade, arte e alquimia. Busca entender o homem na sua totalidade
e traz uma percepção de que a criação está dentro de nós, a única forma de conhe-
cermos o mundo, assim, o ponto de partida é mergulharmos dentro de nós mesmos.
O processo analítico de Jung apregoa que, para compreender uma pessoa,
um grupo ou uma comunidade, a expressão artística, como as músicas, os poe-
mas, as pinturas, as danças e outras manifestações criativas se constituem como
um código não verbal.
Um olhar para a história da arte revela que, muito antes de o homem falar e
escrever, ele desenhava. A arte, sempre, foi uma função estruturante da consci-
ência, sendo possível associar, por exemplo, os desenhos de bisões e pinturas de
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Capítulo 2 ABORDAGENS PSICOLÓGICAS EM ARTETERAPIA
mãos nas cavernas, que registraram a trajetória humana de estruturação do eu,
medos, dúvidas, perplexidades diante do desconhecido.
A arteterapia possibilita dar voz ao inaudível, visibilidade ao invisível, pois se
vale do simbólico. O numinoso pode ser expresso por meio dela, pois, como coloca
Jung (1962), o símbolo agrupa significados contrastados, daí a possibilidade de se
transcender por meio da arte, de se atingir aquilo que, a princípio, figura como ina-
tingível. Entretanto, o que é numinoso? Pouco familiar essa palavra, não é mesmo?!
É uma forma de expressão das experiências da vida, a partir das quais senti-
mos que estamos mais próximos do que é divino. Enquanto Freud estudou o incons-
ciente individual, Jung valorizou o inconsciente coletivo, toda energia advinda da an-
cestralidade, dos campos físico e espiritual, o que influencia, involuntariamente, o
inconsciente. As linguagens da arte são facilitadoras do encontro com o numinoso.
Por trás do impulso criativo, existe um nível mais profundo de compromisso,
um estado de comunhão com um todo que está além de nós. Quando esse ele-
mento de união é injetado nas nossas formas de expressão, atingimos algo que
ultrapassa a mera criatividade, o simples propósito ou a simples dedicação.
Desde épocas arcaicas, a arte funciona como um meio de apreensão e re-
conhecimento das coisas significativas do homem, por meio de experiências ex-
ternas e internas. Ao escrevermos uma poesia, tocarmos, pintarmos, dançarmos,
escutarmos uma música, somos capazes de trabalhar com forças interiores que,
se permanecessem inconscientes, poderiam nos esmagar.
Atualmente, não só psicólogos junguianos pesquisam a respeito
do inconsciente coletivo, mas, também, a Física Quântica traz um
holofote para o numinoso, a interconectividade, a não localidade e a
transcomunicação.
Apesar do distanciamento histórico, os conceitos da Física
Quântica estão alinhados com os da Psicologia Analítica de Jung.
Vamos entender essas conexões? Acesse https://bit.ly/3ZERtFL e
https://bit.ly/3iJVIiJ.
65
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
Uma vez que o inconsciente se comporta de forma autônoma, os arquétipos
podem se manifestar na personalidade e assumir diferentes formas, de acordo
com a época e a cultura vigentes. Reconhecer tais fenômenos significa reconhe-
cer um elemento sagrado e numinoso, o que nos mobiliza a um diálogo entre
inconsciente e consciente, em busca do sentido e da completude.
A arteterapia fornece suportes materiais adequados para que a
energia psíquica torne visíveis símbolos de criações diversas.
Esse processo colabora para a compreensão e a resolução
de estados objetivos conflitados, e favorece a estruturação e a
expansão da personalidade por meio da criação (MONTEIRO,
2009, p. 22).
Assim, a arte utilizada no espaço terapêutico revela a riqueza inconsciente
da pessoa, e, por se constituir como uma linguagem simbólica, torna-se um instru-
mento eficiente para acessar a alma humana.
Destaca, Jung (1962), que o inconsciente é a matriz pré-formadora da pró-
pria consciência, cujos conteúdos consistem em desejos incompatíveis, reprimi-
dos e partes da personalidade pouco desenvolvidas. Já o consciente registra o
que acontece dentro de nós e o mundo que nos rodeia, ligado à história pessoal,
e tem, como função principal, situar a pessoa no tempo e no espaço, ao realizar
adaptações e orientações necessárias.
O inconsciente é imenso e, sempre, contínuo, enquanto a
consciência é um campo restrito, de visão momentânea. [...]
A psique é um vasto oceano (inconsciente), no qual emerge
uma pequena ilha (consciente). O inconsciente produz vários
conteúdos, reagrupa outros já existentes e trabalha em uma
relação compensatória e complementar com a consciência
(SILVEIRA, 1984, p. 71).
Jung (1962) subdivide o inconsciente em dois níveis:
• inconsciente pessoal ou psique subjetiva: refere-se aos conteúdos
adquiridos durante a trajetória existencial. É uma camada superficial,
sem um marco divisório muito rígido com o consciente;
• inconsciente coletivo, ou psique objetiva: tratam-se de conteúdos
que estão presentes desde a concepção. É a camada mais profunda
da psique, constituída por conteúdos herdados da ancestralidade,
independentemente das experiências individuais.
No nível do inconsciente coletivo, encontram-se os instintos e os arquétipos.
Jung (1962) afirma que instintos são impulsos fisiológicos, nossas necessidades
básicas para sobrevivência, movidas pelos sentidos. Quando esses instintos são
66
Capítulo 2 ABORDAGENS PSICOLÓGICAS EM ARTETERAPIA
fantasias, devaneios representados, unicamente, em forma de imagens simbó-
licas, há, então, um arquétipo. Em resumo, um arquétipo é uma maneira de ex-
pressão do instinto quando faz referência a símbolos.
Há vários arquétipos que compõem a nossa personalidade, utilizados
para representar padrões de comportamento associados a um personagem,
ou papel social, entretanto, um deles é predominante. Esses personagens têm
características percebidas, de maneira semelhante, por todos os seres humanos.
É um molde ancestral.
Cada arquétipo tem uma função específica em construir
mecanismos para que possamos utilizar a nossa personalidade
em sociedade. No entanto, tais arquétipos podem ter forças
diferentes em cada pessoa, a depender das influências e das
experiências próprias (MONTEIRO, 2009, p. 25).
Aprofundados os conceitos do Capítulo 1, de arquétipos, vamos relembrar os
principais identificados por Jung? Isso será útil para o exercício que se encontrará
mais adiante.
PERSONA é como uma pessoa se apresenta para a sociedade, o papel que
ela assume quando está em público. Certamente, você já ouvir certas frases, a
exemplo de “Vou desmascarar você!”, ou “A máscara caiu”. A persona é um perso-
nagem, uma representação externa. Existe uma caracterização, que é represen-
tada pela imagem da máscara, que oculta o rosto, que esconde, verdadeiramente,
as emoções do sujeito. É um instinto natural de adotar diferentes personalidades,
comportamentos e ideias para facilitar a adaptação em um determinado contexto,
o que se torna uma forma de proteção.
SOMBRA são aspectos da personalidade que não conhecemos, sejam virtu-
des ou defeitos. Lembre-se de uma situação na qual alguém falou algo a seu res-
peito, na qual a sua reação foi de fúria. Bem possível que essa pessoa expôs uma
parte da sua sombra, associada à ausência de luz, que é projetada na superfície.
São características que julgamos não serem boas, aspectos desconhecidos, mas
que fazem parte da personalidade.
ANIMA/ANIMUS são arquétipos que permitem a construção de representa-
ções do gênero oposto ao que nos identificamos, colocados como ideais. Ambas
as personificações apresentam partes negativas e positivas, e podem levantar
questões importantes e confrontar as pessoas com partes desconhecidas das
próprias personalidades, uma vez que há uma supressão desses lados por conta
das pressões sociais.
Anima são aspectos femininos no gênero masculino.
67
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
Animus são características masculinas no gênero feminino.
SELF é a significação da nossa mente e da nossa personalidade, a psique
como um todo. Representa a unificação do inconsciente com o consciente. É o
produto da individuação, quando uma pessoa consegue integrar e balancear to-
dos os aspectos da personalidade e se conhecer por completo. A busca da indivi-
duação está ligada ao autoconhecimento pela espiritualidade e pela compreensão
de vida e morte.
GRANDE MÃE/PAI se relaciona à tendência de que filhos desenvolvem a
imitação de aspectos positivos e negativos das figuras materna e paterna. Um
exemplo seria a imagem materna: todas as pessoas têm essa presença na família
e podem formar uma imagem própria desse papel, mas há semelhanças a partir
de uma percepção coletiva. Isso explica a existência de temas idênticos em mitos
e religiões, entre grupos sociais de diferentes lugares e épocas, mas que não
tiveram contato.
FIGURA 2 – JUNG PENSADOR
FONTE: <https://br.pinterest.com/pin/316940892522895287/>. Acesso em: 24 abr. 2021.
Jung (1962) postulava que os arquétipos são uma herança psicológica, ou
seja, resultam de experiências de milhares de gerações para o enfrentamento
de situações cotidianas, portanto, o autor não concorda com a ideia de que as
pessoas nascem como uma folha em branco. Afirmava que, assim como os
animais são capazes de herdar comportamentos instintivos para sobreviver, nós,
também, somos capazes de passar hereditariamente e gerar representações
comuns. As imagens arquetípicas são encontradas em mitos, lendas, literatura,
filmes e sonhos.
68
Capítulo 2 ABORDAGENS PSICOLÓGICAS EM ARTETERAPIA
A teoria de Jung permanece atual. Essa vertente é uma das
bases psicológicas de maior expansão no Brasil. Assim, os vídeos
a seguir possibilitarão entender a dinâmica dos arquétipos e a base
da teoria junguiana: https://bit.ly/3GITFU9, https://bit.ly/3ZFphTd,
https://bit.ly/3klWkvr e https://bit.ly/3QS9UD2.
Psicólogos e arteterapeutas usam os padrões arquetípicos para estudar
a personalidade de uma pessoa, a partir disso, estimulam que ela desenvolva
potencialidades.
Para Jung (1962), a mente é um produto da história, além das heranças
biológicas. São características psicológicas que influenciam os nossos
comportamentos e experiências. Outro exemplo de imagem que se repete, desde
os primórdios da vida humana, é a existência de um ser divino ao qual se recorre
em situações difíceis e desconhecidas.
Os arquétipos, também, são compreendidos como disposições
inerentes à estrutura do sistema nervoso, que geram
representações, sempre, análogas ou similares, assim como
os instintos, as pulsões herdadas. São padrões hereditários de
comportamento psíquico, revestidos de qualidades dinâmicas,
como numinosidade e autonomia (MONTEIRO, 2009, p. 25).
Os arquétipos são figuras e símbolos do inconsciente coletivo que influenciam
nossas emoções, ensinamentos e comportamentos. São modelos universais
hereditários que sobreviveram com o passar do tempo e, hoje, estão no nosso
subconsciente.
Ao acessarmos os recursos mentais ligados a esses símbolos arquétipos,
experimentamos a energia desse modelo de pensamento. Uma ferramenta interna
muito efetiva e poderosa dá pistas de habilidades que podem ser desenvolvidas
para realização nas vidas pessoal e profissional.
Os arquétipos podem ser entendidos pelos resultados que provocam.
Com relação ao lado positivo, há crescimento, desenvolvimento, poder,
autoestima, realização, dinheiro, prosperidade, emprego, saúde, união, felicidade
e prazer. Quanto ao negativo, doença, depressão, melancolia, tristeza, depressão
do sistema imunológico, pobreza, desemprego, suicídio, morte, separação e
sabotagem.
69
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
As pesquisas de Jung (1962) identificaram outros arquétipos:
• Sábio: busca o conhecimento e pratica a autorreflexão. Analisa situa-
ções e age com sabedoria e inteligência.
• Mago: acredita que o mundo pode ser diferente, crê na transformação e
na revolução, e age no sentido de renovar as relações.
• Explorador: gosta de liberdade para agir e descobrir o mundo, busca
experiências novas e foge de situações rotineiras.
• Criador: mostra-se como artista, inventor, dá vida à imaginação e a coi-
sas que, ainda, não existem.
• Herói: está presente em filmes e lendas, o guerreiro destemido que luta
para proteger os seus e não teme o perigo.
• Rebelde: pensa de maneiras diferentes, foge dos padrões e acredita
que as regras podem ser quebradas.
• Amante: dá grande importância para as relações, é sensível e se sente
feliz ao dar amor e ser amado.
• Bobo da corte: é alegre, gosta de divertimento, de aproveitar a vida, de
fazer piadas. Conhecido, também, como louco, autêntico. Não tem ver-
gonha de rir de si mesmo.
Como os arquétipos se expressam?
Eles são arcaicos, ancestrais, antigos. A expressão deles ultrapassa a
linguagem oral e alcança o simbólico. Dessa forma, expressam-se através de
sonhos, pois possibilitam o contato direto com o inconsciente. Segundo Jung
(1962), apresentam-se em forma de símbolos, representados cotidianamente.
É comum essa representação aparecer em pinturas, danças, livros e outras
manifestações artísticas que carregam uma carga simbólica.
Na atualidade, algumas pessoas usam determinado arquétipo para definir
como querem ser vistos, entretanto outros não tem essa intencionalidade, é
inconsciente.
Seguem exemplos que clarificarão o conceito de arquétipos:
Albert Einstein: arquétipo do sábio.
Madre Teresa: arquétipo do cuidador.
Marilyn Monroe: arquétipo da amante.
Chico Anísio: arquétipo do bobo da corte.
O cinema, a literatura e a música utilizam, fortemente, as figuras e
simbologias existentes nos arquétipos. Criam as personalidades que o ator e a
história precisam, e empregam músicas, cenas e cenários inesquecíveis.
70
Capítulo 2 ABORDAGENS PSICOLÓGICAS EM ARTETERAPIA
Harry Potter: arquétipo do mago.
Rambo: arquétipo do guerreiro.
Indiana Jones: arquétipo do explorador.
Homem-Aranha: arquétipo do herói.
Contatar com os arquétipos que habitam em nós mesmos possibilita autoco-
nhecimento e acesso a outros positivos, fortes, que nos conduzem à individuação,
ao equilíbrio, à inteireza do ser.
Arquétipos positivos são aqueles que induzem a produção de neurotransmis-
sores, os quai geram poder e felicidade. Produzem uma sensação de prosperida-
de, crescimento, elevada estima, criatividade, gratidão e foco na solução.
FIGURA 3 – FRASES JUNGUIANAS
FONTE: <https://bit.ly/3iH6ypN>. Acesso em: 24 abr. 2021.
Os exemplos e os vídeos facilitaram o entendimento dos arqué-
tipos? Segue um material interessante de pesquisa de arquétipos e
sentimentos que despertam em nós.
Qual é o seu arquétipo positivo? Que arquétipo necessita ser
trabalhado, por acionar aspectos sombrios e fragilidades?
Acesse https://bit.ly/3Hdyr2d.
71
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
A prática, na arteterapia junguiana, através dos arquétipos, procura entender
a simbolização dos sintomas físicos, relacionais, laborais, familiares, sociais
e espirituais, o que facilita o engajamento consciente do ego ao processo
de individuação, que equivale ao alinhamento com o sentido e o significado
existenciais, e respeita a condição única, complexa e criativa de cada indivíduo.
A experiência expressiva possibilita o despertar, na pessoa, de uma reflexão ética
da própria existência.
Seguem algumas sugestões de atividades pela arteterapia junguiana:
É necessário construir um filme, assim, quais seriam os personagens?
Entregar, a um grupo, uma folha A7 sulfite, com uma lista de
arquétipos, a fim de serem nomeadas as pessoas desse grupo, o
papel de cada uma, pelos jeitos de ser delas no dia a dia.
Pode ser aplicada, essa técnica, em uma sessão individual, sendo, os
personagens, pessoas da família ou de convivência diária. Partilhar
ideias e percepções presentes.
Contar uma história que envolva diversos animais em uma floresta.
Solicitar que escolha um animal que vem à mente que o represente e
um que tem repulsa, medo. Construir, com massa de modelar, esses
animais, e usar sucata para criar o ambiente no qual se encontram.
Apreciar a obra, sensações e sentimentos que emergem. Criar
possibilidades de diálogos, a fim de estabelecer conexões com a
persona, a sombra e os arquétipos frágil e de poder.
Seguem sugestões de livros e ferramentas, como cartas, e uma
meditação guiada on-line que pode ser empregada em uma sessão
de arteterapia: http://bit.ly/3iNiu9p, http://bit.ly/3XFI3YV e https://bit.
ly/3kmFnRA.
72
Capítulo 2 ABORDAGENS PSICOLÓGICAS EM ARTETERAPIA
• Complexos
Os complexos são portadores de uma carga energética substancial. Trata-se
de um conjunto de conteúdos afetivos, como sentimentos, lembranças, imagens,
padrões de comportamento e atitudes pessoais, aglomerados em torno de um
núcleo arquetípico que funciona como um polo energético, que atrai, cada vez
mais, conteúdos referentes a ele. Ao se deparar com o conteúdo complexado, a
consciência fica obscurecida, com orientação no mundo exterior e percepção de
tempo e espaço reduzida. Isso se deve à autonomia da ação e ao desenvolvimento
do núcleo complexado, que pode tomar consciência e subordinar o ego. Neste
momento, a pessoa perde as liberdades de ação e de pensamento, pois passa
a viver em função do complexo. Tende a perceber o mundo a partir do universo
complexado, muito embora esse complexo não seja negativo em si, mas os
efeitos podem ser.
O complexo é dotado de energia própria e tende a formar uma
pequena personalidade, com uma espécie de uma fisiologia
particular (JUNG, 1964, p. 149).
Silveira (1984) coloca que a superação do complexo ocorre a partir da
intensidade do que é vivido e da compreensão do próprio papel nos padrões de
comportamento e reações emocionais. Assim, a energia complexada pode ser
liberada, a fim de possibilitar a integração de novos conteúdos à consciência, o
que pode ser feito através de um sonho, meditação, oração, apreciação de um
quadro de um pintor, desenho, pintura, dança, ou mesmo, um esquete de teatro.
Concluímos que o complexo possibilita a movimentação da psique e acaba
se tornando um grande aliado do sujeito, a fim de impulsionar o desenvolvimento
psíquico, um verdadeiro motor que impele e vitaliza.
O inconsciente, para Jung (1962), não é, apenas, reativo; ele, também, age,
prediz, alerta, abre horizontes, elucida, sobretudo, por meio de imagens. Contém
conteúdos do passado e sementes do futuro, portanto, nutre uma função prospectiva.
A produção inconsciente antecipa uma nova fase do desenvol-
vimento da psique. Quando os sonhos e o fazer artístico, por
exemplo, apontam o rumo a ser seguido pela energia psíqui-
ca, anunciam, para o consciente, o que está por vir, embora a
consciência esteja alheia aos fatos, às situações já se encon-
traram em incubação (JUNG, 1962, p. 201).
Surge, aí, o método de amplificação, criado por Jung (1962), que, por meio
de associações, a partir de conteúdos que emergem dos sonhos, em fantasias
espontâneas ou dirigidas, e do fazer artístico, possibilita novas ligações com
as vivências gravadas no inconsciente coletivo, sem vínculo com a experiência
pessoal.
73
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
4 SIMBOLOGIA EM ARTETERAPIA
Para a Psicologia Analítica, todo e qualquer objeto pode se revestir de valor
simbólico. Traz, para a consciência, o sentido oculto de uma situação concreta,
a possibilitar inúmeras percepções, até então, desconhecidas, e alcançar dimen-
sões que o racional não pode atingir. Por isso mesmo, apresenta diferentes face-
tas, com inúmeros significados, que vão muito além da representação imediata.
O símbolo nasce da própria alma, surge do conflito psíquico
inerente a esta. Conjuga, de um lado, o arquétipo, fonte de
numinosidade e, em si mesmo, irrepresentável; do outro, apre-
senta uma imagem concreta, retirada do contexto e que, ao
revestir e dar forma ao arquétipo, de certo modo, também, dá
existência a ele, diferenciando-o do caos do inconsciente do
qual se origina, como que realizando o próprio ato cosmológico
da criação (MONTEIRO, 2009, p. 29).
Com uma capacidade de síntese, o símbolo permite que a consciência e o
inconsciente realizem a união dos opostos e formem a totalidade.
O trabalho com canais, como expressões plásticas e corporais, a música, a
literatura e Artes Cênicas, transforma a arte em um meio facilitador, que confere
uma manifestação visível ao afeto.
No uso das técnicas expressivas, a linguagem simbólica pela qual o incons-
ciente se expressa emerge por meio de diferentes técnicas, o que dá acesso à
mente inconsciente do cliente. A função simbólica da arte reside na possibilidade
dessa expressão e nos múltiplos significados das obras de arte produzidas.
Na década de 20, Jung passou a utilizar a arte como parte do tratamento
psicoterápico. Para ele, as imagens eram uma simbolização do inconsciente, e,
a criatividade, uma atividade humana natural que, à medida que pode auxiliar a
estruturar o pensamento, possui uma função em si mesma.
A prática da arteterapia facilita a decifração do mundo interno, o confronto
com as imagens e a energia psíquica que, aí, configuram-se. A compreensão des-
sas formas simbólicas possibilita o confronto com o inconsciente e a tomada de
consciência de conteúdos, pois o mundo das emoções e o mundo das coisas con-
cretas não estão separados por fronteiras intransponíveis.
Um processo terapêutico é baseado na criação e na análise de séries de pro-
duções artísticas, as quais, isoladas, poderiam ser de difícil decodificação. Assim,
permitem acompanhar o desdobramento do processo intrapsíquico e identificar te-
mas que possuam relação significativa com os casos que estão sendo trabalhados.
74
Capítulo 2 ABORDAGENS PSICOLÓGICAS EM ARTETERAPIA
Então, a arteterapia, sob a ótica junguiana, parte do princípio de que a vida
psíquica tem uma tendência inata à organização e que o processo terapêutico,
por meio da arte, pode dinamizar essa tendência.
1 O que é uma persona pela dinâmica da abordagem analítica de
Jung? Dê um exemplo.
2 Como é o arquétipo sombra? Cite um exemplo.
3 A arteterapia desperta muito interesse e são empregadas inúme-
ras dinâmicas e técnicas voltadas para os arquétipos. Por quê?
5 NISE DA SILVEIRA E O MOVIMENTO
ANTIMANICOMIAL
A médica psiquiátrica Nise da Silveira é considerada pioneira na Terapia Ocu-
pacional e no uso da arte como ferramenta terapêutica. Foi apontando falhas,
contestando o modelo psiquiátrico asilar, demonstrando novas práticas e soluções
e dando novos contornos e sentidos ao tratamento do adoecimento psíquico e à
relação entre médicos e família do cliente. Formou-se em 1926, em uma turma
composta, apenas, por homens, em um período muito conservador.
Ao utilizar a linguagem artística, percebeu o impacto positivo que as artes po-
deriam ter nas vidas das pessoas, com a implantação de novas formas de alcance
dos frequentadores dos centros de saúde nos quais trabalhava.
Devido a uma opinião política forte, foi presa e exilada pelo Estado Novo,
mas retornou em 1944, quando foi readmitida para atuar no Centro Psiquiátrico
Dom Pedro II, no qual trabalhou 28 anos. Desenvolveu atividades que estimula-
vam os pacientes, que aumentavam a interação deles com o meio, ao usar diver-
sas formas artísticas para expressão.
Em 1946, promoveu uma exposição nos campos da Psiquiatria e artístico e
se consolidou. Contou com o apoio do crítico Mario Pedrosa e assinou a curadoria
da exposição Nove Artistas do Engenho de Dentro, realizada no Salão Nobre da
Câmara Municipal do Rio de Janeiro.
75
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
No ano seguinte, outra mostra, Arte Psicopatológica, ocorreu no Congresso
Internacional de Psiquiatria, em Paris. A partir de então, anualmente, havia uma
exposição que valorizava a produção artística dos pacientes.
Em 1952, a fim de fazer estudos de imagens e símbolos para acompanhar
casos clínicos, fundou o Museu de Imagens do Inconsciente.
Não aceitava o modelo focado na Psicopatologia, o qual destituía as pessoas
da humanidade delas, seguido pelo modelo tradicional de tratamentos agressivos,
com eletrochoques. Já combatia muitas atrocidades que era obrigada a presen-
ciar nos hospitais psiquiátricos, e destoava de colegas. Era hostilizada por ideias
inovadoras, entretanto, os ideais dela foram sementes fortes para a humanização
e a reforma psiquiátrica.
Ao longo dos anos, os projetos de Nise ganharam espaço, e a arte, como
meio terapêutico, comprovou excelentes resultados para a evolução de tratamen-
tos de internos de hospitais.
Alicerçou a própria prática na teoria de Jung, do qual foi uma fiel seguidora.
Com mentoria dele, implantou a própria metodologia. Introduziu, no Brasil, a teoria
e a prática junguianas, supervisionadas por ele, por meio de cartas e relatos de
experiência. Desmontou o modelo anterior, pois levava os internos a realizarem
atividades, como varrer o chão, carregar roupa suja, limpar o ateliê de artes e os
materiais usados etc., a fim de serem trabalhados os sensos de responsabilidade
e de pertencimento, além de assumirem a condição de artistas.
Fundada em 1956, por Nise e equipe, a Casa das Palmeiras funcionava com
uma estrutura semelhante à dos ambulatórios, com moldes que funcionam hoje,
como o CAPS – Centro de Atenção Psicossocial.
A práxis dela foi um modelo a ser seguido pelo movimento da Luta Antimani-
comial, alicerçado no respeito e nos direitos das pessoas com sofrimento psíqui-
co. O movimento da Reforma Psiquiátrica se iniciou na década de 70, em pleno
processo de redemocratização.
Com o lema “Por uma sociedade sem manicômios”, envolveu familiares, pro-
fissionais da saúde, usuários, instituições acadêmicas e políticas que propuseram
a reorganização do modelo de atenção à saúde mental, indo contra os mode-
los hospitalares alisares excludentes, que geravam discriminação e exclusão dos
usuários dos serviços.
76
Capítulo 2 ABORDAGENS PSICOLÓGICAS EM ARTETERAPIA
Ainda, o movimento da reforma psiquiátrica gerou a garantia constitucional
da saúde através do SUS. Esse marco legal estabeleceu a responsabilidade do
Estado para uma política de saúde mental, através do fechamento de hospitais
psiquiátricos e da abertura dos CAPS em todas as cidades do Brasil, ligados às
prefeituras, com uma equipe multidisciplinar, incluindo um arteterapeuta.
Nise implantou um modelo simples e funcional de agrupamento,
com modalidades de atividade terapêutica bem definidas e
consideradas as habilidades identificadas e as necessidades de
desenvolvimento de potencialidades.
• Atividades mais utilitárias que levem em consideração o esforço
típico do trabalho. Encontram-se setores de marcenaria, sapataria,
cestaria, costura, jardinagem e encadernação. Essas atividades
seriam indicadas para favorecer a afirmação da personalidade adulta,
assim, o monitor trabalharia, somente, com pacientes tratados.
• Atividades expressivas. Há pintura, modelagem, entalhe, música,
dança, teatro e outras atividades que valorizavam a livre expressão.
• Atividades recreativas. Inserem-se jogos, festas, cinema, rádio,
televisão, esportes, passeios, valorizados por serem lúdicos, e
proporcionam satisfação imediata, com trabalhos de organização,
disciplina e regras de convivência em grupo.
• Atividades culturais. São ligadas ao ensino e ao estudo.
ATELIER AO AR LIVRE
FONTE: <https://bit.ly/3w7QiRF>. Acesso em: 24 abr. 2021.
77
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
A ideia de Nise, após bons resultados obtidos em relação aos pacientes,
era consolidar a atividade terapêutica como uma prática efetiva e modalidade da
Psicoterapia a ser considerada e levada a sério, com base em teorias psicológicas
e estatística.
Nise acreditava na totalidade das pessoas e via, como meio de transformar
as vidas dos pacientes, conhecimento nas histórias deles, interioridade. Então,
usou a expressão da arte para isso.
FIGURA 4 – NISE E PACIENTES
FONTE: <https://bit.ly/3w7QiRF>. Acesso em: 24 abr. 2021.
Assim, a arteterapia é uma das modalidades oferecidas aos usuários, e faz
parte dessa equipe de atendimento como uma prática integrativa.
1 Na teoria analítica junguiana, o que representa o self?
2 Qual foi a contribuição de Nise da Silveira à arteterapia junguiana?
3 Como se deu a reforma psiquiátrica? Qual foi o lugar da artetera-
pia nesse contexto?
78
Capítulo 2 ABORDAGENS PSICOLÓGICAS EM ARTETERAPIA
6 ARTETERAPIA NA ABORDAGEM
HUMANISTA
Na Psicologia Humanista, a pessoa é percebida como um ser holístico, como
um todo: corpo, mente, espírito e emoções. Parte do princípio de que somos seres
pensantes, únicos, com a psique saudável, e enfatiza que toda pessoa é provida
de recursos internos para a evolução pessoal e a autorrealização.
Propõe uma abordagem terapêutica não diretiva e centrada na pessoa, assim,
a responsabilidade pela condução e pelo sucesso do tratamento é do cliente. Foca
em como o comportamento é uma expressão dos nossos sentimentos íntimos,
genuínos, e como estes afetam a nossa imagem.
FIGURA 5 – PENSAMENTO
FONTE: <http://bit.ly/3IU06X3>. Acesso em: 24 abr. 2021.
A base da Psicologia Humanista são os fundamentos da Fenomenologia, que
entende que o indivíduo tem total consciência do mundo e de toda a experiência
dele, e do Existencialismo, que vê o ser como o centro dos processos. Enquanto
outras teorias, na época, focavam em pensamentos e comportamentos problemá-
ticos, Maslow e Rogers tinham interesse em saber o que fazia as pessoas felizes
e como poderiam fazer para atingir esse objetivo. Esses dois profissionais foram
considerados os pais da Psicologia Humanista. Ao invés de se concentrarem na
disfunção, a intenção deles era auxiliar a pessoa a realizar um potencial e a maxi-
mizar o próprio bem-estar.
79
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
6.1 TERAPIA CENTRADA NA PESSOA
No final da década de 1950, os estudos do psicólogo Abraham Maslow se vol-
taram para compreender a existência humana, sendo responsável pela criação da
Escala de Necessidades Humanas. Foi considerado um dos principais teóricos da
motivação, pois acreditava que as pessoas têm o desejo natural de busca da au-
torrealização e a capacidade de perseguir objetivos, de forma livre e independente.
Os indivíduos buscam satisfazer, em primeiro lugar, necessi-
dades fisiológicas. Sem que essas necessidades sejam satis-
feitas, o ser humano não consegue avançar na hierarquia das
necessidades [...]. Depois a estima chega no topo da pirâmide,
em busca da autorrealização (ROGERS, 2012, p. 35).
FIGURA 6 – PIRÂMIDE DAS NECESSIDADES DE MASLOW
FONTE: <https://bit.ly/3kpky7S>. Acesso em: 24 abr. 2021.
• Fisiológicas: comida, sono, sexo, respiração, excreção, organismo com
funcionamento em equilíbrio.
• Segurança: do corpo e do ambiente, família, emprego.
• Social: família, amigos, comunidade, relação com as pessoas.
• Estima: aprovações da família e dos amigos, respeito dos outros, amor,
relacionamento.
• Autorrealização: crescimento pessoal, autoconhecimento, realização
do potencial, autocontrole, independência, aceitação dos fatos e
criatividade.
O psicólogo americano Carl Rogers (2012), ao referendar Maslow, acredita-
va que os seres humanos têm o desejo básico de se autorrealizar. Isso significa
atingir o nível mais elevado possível de potencial. Cita o exemplo de uma flor, que
80
Capítulo 2 ABORDAGENS PSICOLÓGICAS EM ARTETERAPIA
desenvolve todo o potencial dela se as condições do ambiente são adequadas.
Cada ser é único e se desenvolve de acordo com a subjetividade, um de maneira
diferente do outro.
Direcionou a própria abordagem para as capacidades que cada pessoa pos-
sui de renovar e atualizar potenciais e competências, concluindo que as expe-
riências vividas contribuem para que conceitos e padrões construídos desde a
infância sejam substituídos e reforçados.
Considerava a pessoa um agente da própria saúde, cujo objetivo era aumen-
tar a confiança em si, a partir de um processo de busca de crescimento pessoal e
com mudanças necessárias. Ainda, criou o conceito de terapia centrada na pes-
soa e substituiu o termo paciente por cliente.
Para Rogers (2012), a capacidade de se autodesenvolver está dentro de
cada um de nós, embora, muitas vezes, necessite ser despertada. Acredita que as
pessoas são, essencialmente, boas e criativas, que se tornam destrutivas quando
um conceito ruim de si mesmas e restrições externas se sobrepõem à valorização
de capacidades.
FIGURA 7 – REFLEXÃO
FONTE: <https://www.pensador.com/frase/MjIxMTM2NQ/>. Acesso em: 24 abr. 2021.
Afirma, Rogers (2012), que cinco características indicam um indivíduo funcio-
nal, com a ideia de personalidade, que todos deviam buscar para a autorrealização:
• Abertura à experiência
Pessoas abertas a viver experiências, que aceitam emoções positivas e
aprendem a trabalhar com as negativas.
81
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
• Vida existencial
Pessoas em constante movimento, ativas, que vivem, aprendem, buscam
o sentido de existência. Não deixam de considerar o passado, ou o futuro, mas
aproveitam, ao máximo, o momento atual.
• Confiança nos sentimentos
Pessoas que confiam nos próprios sentimentos, instintos e reações. São
pessoas autoconfiantes e que prezam pelas capacidades de decidir e de fazer
escolhas certas.
• Criatividade
Pessoas que possuem um pensamento criativo e assumem riscos. Agem
com criatividade e inovação para superar crises. Têm as capacidades de se ajus-
tar às situações e buscar novas experiências.
• Liberdade Experiencial
Pessoa autorrealizadas são felizes e estão, sempre, em busca de preencher
o próprio tempo com novas experiências e emoções, com liberdade e responsa-
bilidade. São equilibradas e reconhecidas como motivadoras, empreendedoras.
6.2 FORMAÇÃO DA PERSONALIDADE
Postulava, Rogers (2012), que todas as pessoas buscam congruência, equilíbrio,
consistência entre a autoimagem e o eu ideal. A teoria da personalidade se apoia no
eu, ou autoconceito, um conjunto organizado de percepções e crenças de si mesmo.
FIGURA 8 – ACEITAÇÃO
FONTE: <https://www.pensador.com/frase/MTUzNzk0OQ/>. Acesso em: 24 abr. 2021.
82
Capítulo 2 ABORDAGENS PSICOLÓGICAS EM ARTETERAPIA
O conceito inclui três elementos:
• Autoestima: é a avaliação que a pessoa faz de si próprio e como valori-
za as características individuais dela.
• Autoimagem: é como uma pessoa se enxerga e se descreve. A autoi-
magem influencia os modos de uma pessoa de pensar, sentir, compor-
tar-se, relacionar-se com o mundo.
• Eu ideal: é a forma que uma pessoa gostaria de ser, com um conjunto
de valores, características a ter, incluindo ambições e objetivos. Quanto
mais próximo do eu ideal e a autoimagem mais congruente, aumentam-
-se a estima e o valor de si mesmo.
A teoria rogeriana contempla a autorrealização quando uma pessoa está em
estado de congruência, quando o eu ideal (como essa pessoa gostaria de ser) é
congruente com o comportamento real dela (autoimagem).
O objetivo da terapia humanista é oportunizar confrontos e questionamentos
que levem o cliente a refletir a respeito do eu ideal e da autoimagem dele, a fim
de buscar congruência em direção a esse eu ideal, pois possui controle do próprio
processo de desenvolvimento.
A incongruência demonstra que uma das partes é inaceitável, ou a autoima-
gem distorcida, o que causa discrepância e, por consequência, sofrimento, dese-
quilíbrio, ansiedade e angústia.
Uma crença básica de Rogers (2012) é que o organismo humano sabe o que
é melhor para ele, assim, para isso, conta com sentidos aprimorados ao longo da
evolução da espécie.
Através do tato, do olfato, do paladar, da visão e da audição, estabelecemos
contato com o mundo. As pessoas compreendem o que é bom para elas e podem
encontrar aquilo que necessitam na natureza e na família.
Segundo Rogers (2012), a sociedade e a cultura desenvolvem mecanismos
que contrariam essas relações, potencialmente, harmoniosas. Dentre o mais noci-
vo, está a valorização condicional. Escola, família e outras instituições sociais têm,
apenas, que atender a necessidades do indivíduo se ele prova ser merecedor.
Decorrem, disso, a consideração positiva condicional, como o carinho dos pais
dado como recompensa por bom comportamento, e a autoconsideração positiva
condicional, originada pela tendência de que as pessoas têm a absorver valores
culturais, além de utilizá-los como parâmetro para a valorização de si mesmas.
83
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
6.3 FUNCIONALIDADE PLENA
Do conflito entre o indivíduo (eu) e o que se exige dele (devo ser) nasce
o que Rogers (2012) chama de incongruência, o que gera sofrimento. Esse é o
processo que se define como neurose. Ao se ver aprisionada a corresponder a
expectativas sociais, uma pessoa se presencia em uma situação de ameaça, o
que leva a desenvolver defesas psicológicas. Diante disso, o objetivo do terapeuta
é que os clientes se tornem funcionais, ou seja, saudáveis.
As principais marcas desse estado são a abertura a novas experiências, a
capacidade de se viver aqui e agora, a confiança nos próprios desejos e intuições,
a liberdade e a responsabilidade de ação e a disponibilidade para a criação.
Tornar-se saudável é, basicamente, uma questão de se ouvir, de satisfazer
os próprios desejos, ou interesses. Assim, as melhores qualidades de um tera-
peuta são facilitar processos e interferir o menos possível. É esse o significado do
termo não diretivo, marca registrada da teoria rogeriana.
Para que o terapeuta seja capaz de exercer o próprio papel, são esperadas
posturas:
• congruência: ser autêntico com o cliente;
• empatia: compreender, genuinamente, os sentimentos dele;
• respeito: ter uma consideração positiva incondicional.
FIGURA 9 – ROGERS E EDUCAÇÃO
FONTE: <http://bit.ly/3WlH2UC>. Acesso em: 24 abr. 2021.
84
Capítulo 2 ABORDAGENS PSICOLÓGICAS EM ARTETERAPIA
No campo da educação, Rogers (2012) acreditava que as pessoas só
aprendem aquilo que necessitam, ou que querem aprender. A tenção recai sobre
a relação professor-aluno, que deve ser impregnada de confiança e destituída da
noção de hierarquia.
Procedimentos, como avaliação, recompensa e punição, são excluídos, com
a valorização da autoavaliação.
Os aspectos antiautoritário e anticonvencional eram apoiados, nos anos 60,
durante o auge da contracultura, representada pelo movimento hippie.
No Brasil, foi influenciada a formação dos orientadores educacionais, que
eram mediadores de conflitos. As intervenções deles traziam um olhar para o
problema, mas sem punição, focadas na melhor forma de resolução da questão.
Assim, as principais características da psicologia humanista são:
• Evitar julgamentos: uma abordagem de aconselhamento a partir da
qual o profissional não julga o que é compartilhado por um cliente, inde-
pendentemente do conteúdo divulgado.
• Ter empatia: uma característica que é fundamental da terapia centrada
na pessoa.
• Não ser patológico: o diagnóstico fica como pano de fundo, pois se
encoraja o cliente a se concentrar nos próprios pontos fortes (também,
conhecida como a abordagem baseada na força).
• Concentrar-se no eu: o objetivo é encaminhar a expressão de senti-
mentos, pensamentos e emoções do cliente por meio do diálogo. Em
alguns casos, recursos expressivos são encorajados, como escrever,
pintar, desenhar e atuar.
• Ser existencial: a ajuda é focada nos clientes, a fim de se trabalhar
através de padrões e abordagens, encorajadas a autoexpressão e a
criatividade. São exploradas as dimensões física, social, psicológica e
espiritual.
7 GESTALT TERAPIA
No Brasil, as correntes que mais se desenvolveram foram as gestáltica e jun-
guiana, entretanto, outras despontam lentamente.
A Gestal terapia se apoia nas bases teóricas do humanismo de Carl Rogers,
tendo os mesmos princípios, mas acrescenta, à metodologia, intervenções criati-
vas e artísticas.
85
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
Nesta abordagem, a função do fazer artístico é a aquisição de insight de
como percebemos, pelas formas criadas, o mundo e nós mesmos.
A experiência gestáltica de arte é o seu eu complexo fzendo
formas; envolvendo-se com as formas que você está criando
como fenômeno; observando o que faz e, possivelmente, es-
pera; percebendo, por meio das suas produções gráficas, não
apenas, como você é agora, mas, também, modos alternati-
vos, que estão disponíveis para que possa se tornar a pessoa
que gostaria de ser (ANDRADE, 2000, p. 44).
Dessa forma, a vivência de criação de arte promove a descoberta de senti-
mentos e qualidades pessoais, o que auxilia o desenvolvimento do potencial único
de cada um, que, no produto criado, pode se reconhecer, ao ver uma nova forma
ao visualizar possibilidades, até então, ignoradas.
Rhyne (2000) entende a atividade artística como um modo consciente de in-
tegração entre fantasia e realidade, que se encontram, de maneira construtiva,
em uma obra criada. É uma ponte entre as realidades interna e externa, pela qual
se expressam mensagens enviadas pela pessoa a ela mesma.
A compreensão de tais mensagens se baseia na percepção de relações en-
tre a forma e o objeto criado e os processos subjetivos do criador, que, assim,
toma conhecimento de aspectos pessoais, até então, desconsiderados.
A Gestalt terapia, como a Arteterapia, tem fundamentos anco-
rados em processos de criação, e, portanto, ao falarmos de
tais abordagens e das interconexões delas, faz-se necessário
compreender melhor o que são criatividade e processo criati-
vo e as implicações para as referidas abordagens e práticas
(CIORNAI, 2004, p. 26).
A Gestalt oportuniza vivenciar, experienciar um evento, estar, pessoal e emo-
cionalmente, envolvido nesse acontecimento, ou seja, estar no aqui e agora, frente
à dualidade dos papéis de protagonista e observador do acontecimento em curso.
Fritz e Laura Perls, precursores da Gestalt terapia, valorizaram os valores
estéticos da arte e os conceitos psicológicos, e contemplaram a ressignificação da
realidade que a arte permite e uma contribuição para o encontro de significados e
a criação de insight.
O conteúdo relacional é o cerne da teoria gestáltica, dos desenvolvimentos
intra e interpessoal e grupal.
O teor de uso da arte é firmado, justamente, no processo de que a realida-
de convida a pessoa a um mergulho no mundo interno, a partir do fazer criativo
e transformador, com analogias. A partir da potencialidade dos materiais e das
86
Capítulo 2 ABORDAGENS PSICOLÓGICAS EM ARTETERAPIA
técnicas expressivas e artísticas, novas obras surgem, a fim de possibilitarem ex-
pressão e concretude à subjetividade de cada artista.
Nesse sentido, a vivência da arte, em Gestalt, segundo Andrade (2000), é um
meio para o contato do sujeito consigo mesmo, para:
• Produzir formas expressivas e artísticas.
• Estar, emocionalmente, envolvido com as formas a serem criadas, como
um evento pessoal revelador.
• Observar o que é feito.
• Perceber, através de produções realizadas, como a pessoa está no mo-
mento, além de alternativas possíveis para se desenvolver, a fim de se-
guir modelos mais desejados por ela mesma.
Assim, a vivência artística permite, ao sujeito, desvelar-se pelas formas e
imagens criadas, com conteúdos emocionais, até então, desconhecidos pela pes-
soa, o que possibilita se revelar, projetar, de formas diversas, novos modos de ser
no mundo.
Rhyne (2000, p. 140) cita que “as imagens criadas têm um significado parti-
cular por si mesmas: o modo como as percebemos dá, a elas, significado”.
Na metodologia de Rhyne (2000), a abordagem dos trabalhos de arte deve
respeitar os sentidos, trazidos pela pessoa a partir da criação dela, e valorizar a
subjetividade de cada ser humano. Pode-se associar várias modalidades expres-
sivas e artísticas, como forma de dinamização da awareness, pois os sentidos de
uma mensagem visual estão aptos a se tornar mais claros para o próprio cliente,
por meio de uma descrição verbal, ou escrita, a respeito da produção.
Relembra, Ciornai (2004), que os papéis do arteterapeuta gestáltico é acom-
panhar e guiar a busca do cliente, a fim de utilizar os processos artísticos para
intensificar o contato do sujeito consigo mesmo, com os outros e com o mundo,
de modo que a arte seja, para ele, uma fonte de aprendizado de si mesmo.
Conforme Ciornai (2004), na Gestalt terapia, o sujeito é compreendido como um
sistema aberto, em constantes desenvolvimento e crescimento, em função de trocas
significativas com ambiente, por ser um ser relacional que interage com o mundo.
As funções de contato, mecanismos que a pessoa tem, à disposição, para se
relacionar com o campo, são, sempre, criativas, na medida em que lidam com o
novo. Ao longo desses processos de contato, o indivíduo vai respondendo a infor-
mações, sensações e percepções decorrentes das trocas com o sistema, o que é
chamado de autorregulação organísmica.
87
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
Por outro lado, pode se alienar de si e de seus critérios e se
manter em uma posição impessoal, de modo a agir de forma
pouco criativa, o que, certamente, dificulta qualquer crescimen-
to. Portanto, o processo criativo começa com a compreensão
do que existe ali: essência, clareza e o impacto do que está em
nossa volta (ZINKER, 2007, p. 35).
7.1 PROCESSO CRIATIVO
Para a Gestalt terapia, o instrumental do qual uma pessoa dispõe para ir
ao encontro da realidade, sentir, avaliar, selecionar e responder ao que está em
volta, são as funções de contato, sendo que todo contato é criativo, pois lida com
o novo.
Ciornai (2004) descreve contato como o eu que interage com o meio, que
interfere no mundo externo e é impactado por ele. O contato com o desconhecido,
com o aqui e agora das relações, sempre, traz um ingrediente do novo e nos per-
mite vislumbrar outras dimensões.
Todo contato gera uma mudança, e, ao lidar com a realidade, uma pessoa
se depara, invariavelmente, com situações e contextos novos, que proporcionam
uma nova concepção.
A criatividade consiste em entender a realidade e a nossa própria percepção
diante dela, frente a uma necessidade de resposta. Essa resposta provoca uma
ação, ao fazer ou colocar algo novo, uma indagação interna que inspira e pede
ampliação do olhar.
Quando a qualidade do contato é pobre, as figuras que aparecem na nos-
sa awareness são fracas, nebulosas, indefinidas ou opacas, a pessoa se sente
confusa, ansiosa, angustiada, deprimida. O contato precisa ser intensificado e a
energia deve ser trazida para a experiência, a fim de facilitar novas percepções,
insights e compreensões, que, eventualmente, levam a reconfigurações e novas
aberturas no nosso mundo interno (CIORNAI, 2004).
Para Zinker (2007, p. 15), “essa compreensão, a tomada de consciência, ou
a awareness da relação eu-ambiente, é fundamental no processo criativo, pois a
criatividade não é, somente, a concepção, é o ato em si, a realização do que é
urgente, do que exige ser anunciado”.
Podemos dizer que a criatividade instaura uma novidade, uma ligação intrín-
seca e marcas profundas na percepção desse criador. Esse novo surge com algo
histórico já vivido.
88
Capítulo 2 ABORDAGENS PSICOLÓGICAS EM ARTETERAPIA
À medida que o homem cria, forma e transforma, é, também, impregnado e
transformado pelo meio. Toda criação é ligada a um criador e ao contexto no qual
está inserido, a vivências e urgências da vida atual. Necessariamente, no mo-
mento que criamos, são projetados fragmentos conscientes, ou inconscientes, da
nossa história e experiências de vida.
Nas atividades de pintar, desenhar, fazer poesia, um bordado, o sujeito se
depara com algo novo, e é convidado a visualizar e a se indagar a respeito da
obra realizada.
Ciornai (2004) afirma que, enquanto ser criador, essa nova realidade que se
materializa tem poder de gerar ressonâncias à medida que fala algo do artista, o
que pode fragilizar ou empoderar, em um primeiro momento, algo visto como posi-
tivo ou negativo. Independentemente disso, é uma mensagem do mundo interno,
uma comunicação intersubjetiva, em busca de uma tomada de consciência e de
realização de uma necessidade de mudança.
A pessoa encontra, nas próprias produções, respostas, provocações ou refle-
xões, o que provoca insights significativos.
O arteterapeuta não deve se preocupar com a interpretação da obra, mas
fazer com que, a partir da própria percepção, encontre sentido e significados que
sejam relevantes ao desenvolvimento pessoal.
Durante o processo de criação e nos processos de vida, estão
presentes fantasias, ideias, desejos, pensamentos, angústias,
dentre outras experiências vividas pela pessoa. Elas propiciam
experiências das mais variadas no processo de criar, podendo
interferir de modo a propiciar, ou inibir, a criação (CIORNAI,
2004, p. 53).
Concluímos que, a partir do processo criativo, entramos em contato com todas
as emoções e sentimentos mais genuínos e verdadeiros, que se manifestam de for-
ma gradativa ou intensa, através de cores, formas e volumes. Assim, o grande desa-
fio do arteterapeuta é dar continência e acolhimento ao conteúdo que emerge, além
de conduzi-lo, de uma forma processual, às sensações de inteireza e bem-estar.
7.2 ARTETERAPIA GESTÁLTICA
Arteterapia está, diretamente, relacionada ao uso de atividades
de cunho artístico como recurso terapêutico, sendo capaz de
propiciar uma expansão do self, da consciência. É uma abor-
dagem processual na qual o fazer arte e os processos de ela-
boração e reflexão a respeito do que é produzido são vistos
como tendo valor terapêutico (CIORNAI, 2004, p. 6).
89
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
Após a Primeira Guerra Mundial, começou a se consolidar esse campo de
atuação. Surgiu como resposta a questionamentos acerca da ciência, da concep-
ção do humano e de novas interlocuções entre saúde, cura e criatividade, a fim
de ser entendido o caos instalado. Como mudança de paradigma, veio essa res-
posta, arteterapia, uma ciência de interfaces para a construção de novos conheci-
mentos e intervenções a serviço do bem-estar das pessoas.
Acompanhe lives com contribuições da arteterapia humanista
em tempos de crises, pandemias e desastres, no Chile e no Brasil,
com Selma Ciornai: https://www.youtube.com/watch?v=mvpTOtz-W-
JE e https://www.youtube.com/watch?v=u_kz3cZYiyw.
De acordo com Ciornai (2004), a chegada de novos conceitos e a teorização
do homem se configuraram como cruciais por volta dos anos 50, a partir da arte-
-educação, que se fortalecia com o propósito de exercitar a criatividade e a lin-
guagem artística, a fim de buscar o desenvolvimento de potencialidades diversas.
A história da arteterapia, no Brasil, teve início na década de 30, com atuação
do médico-psiquiatra e crítico de arte Osório César, e da médica-psiquiatra jun-
guiana Nise da Silveira. Assim, a arte era empegada como recurso terapêutico ao
desenvolver trabalhos em oficinas de artes com os internos de hospitais.
A fim de acompanhar esse movimento, observamos que a arteterapia vai se
fortalecendo como um campo abrangente, que possibilita a inserção de práticas
de diferentes abordagens, psicológicas e artísticas, o que constitui uma base teó-
rica consistente, com metodologia própria, e não se limita, somente, a uma união
de conhecimentos.
Por meio do criar em arte e do refletir a respeito de processos
e trabalhos artísticos resultantes, pessoas podem ampliar os
conhecimentos de si e dos outros; aumentar a autoestima;
lidar melhor com sintomas, estresse e experiência traumáticas;
desenvolver recursos físicos e cognitivos; e desfrutar do prazer
vitalizador do fazer artístico. Arteterapeutas são profissionais
com treinamento em arte e em terapia. Têm conhecimento do
desenvolvimento humano, teorias psicológicas, prática clínica,
tradições espirituais, multiculturais e artísticas e potencial
curativo da arte (CIORNAI, 2004, p. 8).
90
Capítulo 2 ABORDAGENS PSICOLÓGICAS EM ARTETERAPIA
Ciornai (2004) referenda que um arteterapeuta assume o papel de facilitador
dos processos de desenvolvimentos pessoal e criativo, e, sempre, estimula e su-
gere experimentos que levem à descoberta do desconhecido, de novos caminhos.
É essencial, a esse arteterapeuta, uma vivência na arte, familiaridade com o uni-
verso simbólico, e que confie no processo criativo do outro.
O processo arteterapêutico valoriza não só o que a pessoa expressa, mas,
também, o que imagina, pensa, vislumbra, assim, permite acionar a criatividade
para a ampliação da individualidade e o desenvolvimento de potenciais, e oferece
as oportunidades de crescimento e mudança.
Uma das principais contribuições da psicologia da Gestalt, à arteterapia, é
a linguagem da forma, com conceito de figura-fundo e concepção da percepção
como subjetiva e intencional. Assim, o arteterapeuta gestáltico se empenha em
acionar a experiência pessoal, e propicia um forte contato com a realidade e aber-
tura para mudança.
Como somos indissociáveis do nosso meio, toda expressão que imprimimos
à realidade nos caracteriza, e tudo o que nos toca é usado, de algum modo, para
no expressarmos. Quanto a isso, Rhyne (2000) menciona o seguinte: A forma
como percebemos visualmente está, diretamente, relacionada às formas como
pensamos e sentimos. A correlação se torna aparente quando representamos
nossas percepções com materiais artísticos. As figuras centrais que representa-
mos emergem de um fundo difuso e nos dão pistas do que é central na nossa
vida. A forma como usamos linhas, formas e cores, em relação umas às outras, e
ao espaço no qual as colocamos, indica como organizamos os padrões na nossa
vida. A estrutura, ou falta dela, nas nossas formas, está relacionada ao nosso
comportamento nas situações que vivemos.
Em uma relação dialógica de eu-tu, em arteterapia, é esperado ser acionado,
no cliente, o ajustamento criativo, a fim de interagir com ambiente, desenvolver
uma capacidade de adaptação, e flexibilizar a interação com ele. A mudança ge-
nuína e duradoura ocorre quando aceitamos o que é, os fatos e os contextos, e
deixamos, como pano de fundo, o medo do novo.
Um funcionamento criativo é um funcionamento saudável, é uma espécie de
permissão para que as pessoas experimentem, reinventem-se e encontrem es-
tratégias e soluções para uma vida em equilíbrio. Zinker (2007, p. 34) afirma que,
no processo criativo, o terapeuta ajuda o cliente a ser um experi-
mentador, um modificador ativo, ao mesmo tempo em que man-
tém uma atitude compreensiva e respeitosa em relação à postura
atual. É nesse processo rítmico de trocas e exploração ativa da
vida interior do cliente que a estrutura geral começa a mudar.
91
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
Seguem sugestões de atividades na arteterapia:
1. Realizar uma meditação guiada em um cenário de natureza,
no qual há muitas árvores, com uma atenção especial. Ao se
aproximar, observar os detalhes que elas possuem quanto ao
tamanho, folhas, frutos e raiz. Identificar o ambiente no qual estão
plantadas, o entorno. Ao voltar da meditação, desenhar uma
árvore escolhida, e usar giz-pastel oleoso ou tinta.
Descrever, detalhadamente, uma árvore e o ambiente dela. Há ou-
tras semelhantes? Como é raiz? Como é o local no qual está plan-
tada, o cenário? Que sentimentos ela nutre? O que essa árvore tem
em comum com você e com o seu momento de vida?
2. Fazer uma meditação ativa e contemplar as partes do corpo: sen-
tir pés, pernas, pulmões, coração, ombros, braços, mãos, pesco-
ço, couro cabeludo e face. Voltar da meditação com silêncio.
Solicitar a lembrança de uma situação alegre. Lembrar de uma situa-
ção muito feliz. Como agir diante dessa emoção? Como se manifes-
tar? Que parte do corpo expressa esse sentimento?
Se a alegria tivesse cor, que cor seria? Qual seria a forma dela?
Desenhar uma linha alegre e usar a cor escolhida anteriormente.
Fazer esse exercício com outras emoções e sentimentos.
Alternadamente, colocar uma música. Pessoas de olhos fechados
estabelecem contato pela audição. Ao ouvirem essa música, pedir,
aos clientes, que imaginem algo e o associem a algum sentimento.
8 PSICOLOGIA POSITIVA
Esta é uma das abordagens humanistas contemporâneas que podem, e mui-
to, contribuir com a arteterapia na educação. Em tempos líquidos e desafiadores,
a ansiedade e a falta de esperança fazem parte das rotinas de muitas pessoas, o
que reflete, diretamente, no sistema educacional, que é desafiado a se reinventar.
92
Capítulo 2 ABORDAGENS PSICOLÓGICAS EM ARTETERAPIA
A Psicologia Positiva carrega, no cerne, a busca de um propósito e de uma
vida em equilíbrio emocional e bem-estar. Emprega, basicamente, recursos da
música, programação mental, storytelling e meditação ativa. Diante dos cenários
pandêmico, de guerra, inflação, sequência de corrupções do poder público, é ine-
vitável não se deixar envolver por preocupações de toda a natureza.
Vamos entender as bases da Psicologia Positiva em http://bit.
ly/3ISK7IM, http://bit.ly/3CVw9Ce e http://bit.ly/3klNTQG.
Por muito tempo, a psicologia tradicional se concentra no estudo das
disfunções, das doenças da mente, dos estados de desordem, além de como
tratá-las. A abordagem humanista examina como as pessoas comuns podem se
tornar mais felizes e satisfeitas e superar, criativamente, os obstáculos, em busca
do bem-estar.
A Segunda Guerra Mundial trouxe, para EUA e Europa, o desafio de lidarem
com a morte. Pessoas perderam casas, trabalho, famílias, identidades pessoal
e grupal, uma completa destruição. Como consequência, crises de ansiedade,
neuroses, psicoses, histeria, depressão e traumas figuraram entre as principais
causas de dor e sofrimento.
Pesquisadores e especialistas defendem a necessidade de observação,
não apenas, do lado obscuro da mente, mas, também, aspectos positivos das
emoções e dos comportamentos. Esses psicólogos acreditavam que, ao acessar
esses aspectos da psique, poderiam ajudar as pessoas em um tratamento,
ou, mesmo, em um processo de cura de uma doença. Nascem, aí, conceitos
importantes, os quais dariam origem e sustentação à Psicologia Positiva. Essa
abordagem científica estuda pensamentos, sentimentos e comportamentos
humanos com foco em pontos fortes, em vez de fraquezas, assim, constrói o bem
na vida em vez de, apenas, consertar o mal.
Vale ressaltar que, nesse período, Maslow (1954) e Rogers (1959),
defensores da Psicologia Humanista, tentaram dar os primeiros passos para uma
mudança de perspectiva.
93
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
FIGURA 10 – MARTIN SELIGMAN, PRECURSOR DA PSICOLOGIA POSITIVA
FONTE: <http://bit.ly/3GTMtom>. Acesso em: 24 abr. 2021.
Martin Seligman (2019), psicólogo americano, e Mihaly Csikszentmihaly, psi-
cólogo húngaro, desenvolveram as bases da Psicologia Positiva. Sintetizaram a
teoria pelo modelo PERMA, essencial para o autoconhecimento. Entenderam as
emoções e a satisfação verdadeira em ser e existir.
Positive Emotion - Emoção Positiva.
Engagement - Engajamento.
Relationship - Relacionamento.
Meaning - Propósito.
Accomplishment - Realização.
Entenderemos melhor o que significa pela explanação de Seligman (2019).
• Emoção Positiva
Está relacionada ao otimismo, à conquista do bem-estar, à autossatisfação,
ao entusiasmo, à motivação e à felicidade. Ao acreditar que algo bom vai acon-
tecer, nosso corpo recebe uma carga de hormônios naturais, produzidos pelo cé-
rebro, como ocitocina, dopamina, serotonina, endorfina, os quais causam uma
sensação de bem-estar, dispostos a acreditar que tudo acontece da melhor forma
e que a solução será encontrada. Além de sonhar, de planejar qualquer coisa,
incluindo a ação para a realização, é fundamental que a pessoa creia, verdadeira-
mente, que é possível.
94
Capítulo 2 ABORDAGENS PSICOLÓGICAS EM ARTETERAPIA
Portanto, as emoções positivas são uma espécie de combustí-
vel que, além de nos fazer olhar para a vida por novos ângulos,
faz a gente liberar boas energias onde quer que estejamos.
Ajuda-nos a ter mais foco, a desempenhar, com mais quali-
dade, o nosso trabalho. Fortalece relações interpessoais, fa-
miliares, amorosas, sociais e profissionais. Aumenta a nossa
criatividade, torna-nos mais abertos e flexíveis, esperançosos
e otimistas em relação ao futuro. Dificuldade, todos enfren-
tamos, mas a negatividade não pode nos aprisionar (SELIG-
MAN, 2019, p. 34).
• Engajamento/Dedicação
É representado por um estado de atenção, plenamente, focado. Por exem-
plo, ao realizar um trabalho concentrado e feliz, um sujeito perde as noções de
tempo e espaço, e passa horas imerso em atividades, sem perceber que algo
acontece ao redor. Essa sensação surge, apenas, quando fazemos aquilo que
gostamos. Quando não se gosta de um trabalho, não se consegue colocar ener-
gia e prazer na realização da tarefa.
A Psicologia Positiva acredita que, ao alcançar mais engaja-
mento, uma pessoa identifica talentos, forças e virtudes. Essas
competências precisam encontrar um lugar onde possam ser
exercitadas, de modo que a integração entre aquilo que a pes-
soa gosta e sabe fazer possa levá-la a se conectar, verdadeira-
mente, com aquilo que faz (SELIGMAN, 2019, p. 54).
Para ter uma vida mais realizada, é fundamental identificar, consciente e in-
conscientemente, que trabalhos e momentos que criam confiança, produtividade,
concentração e bem-estar em você. Isso faz com que você se entregue de corpo
e alma ao que faz.
A seguir, você terá acesso a exercícios da Psicologia Positiva.
Conectar teoria e prática é a melhor forma de aprender e assimilar
conhecimento e aplicabilidade, como base teórica da arteterapia na
educação: http://bit.ly/3iHk3FZ.
• Relacionamento
Trata-se do seguinte: Como seres relacionais, temos as necessidades de
criar vínculos, gerar conexões, envolvimento emocional. Quanto mais positivas e
construtivas forem essas relações, mais positivas serão nossas emoções, ideias e
95
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
comportamentos. Construir laços exige tempo, comprometimento, confiança, res-
peito e colaboração. Todos os envolvidos devem contribuir e fazer a própria parte
para que tragam bons frutos e todos usufruam. Quando alguém não colabora, o
laço fica fraco e pode se quebrar a qualquer momento.
As relações interpessoais criam a oportunidade de se estar em contato com
pessoas semelhantes e diferentes, de se ampliarem perspectivas e visão de mun-
do. O mesmo ocorre quando auxiliamos as pessoas ao nosso redor, pois um re-
lacionamento, em sua essência, é uma troca, assim, somamos, aprendemos uns
com os outros. Quanto mais qualidade nesses relacionamentos, mais chances de
conquistarmos bem-estar, paz interior e felicidade autêntica.
• Propósito
É, para Seligman (2019), o propósito de existir, de ser quem você é, de bus-
car transformar sonhos em realidade. Quando não temos esse sentido claro, acor-
damos por acordar, trabalhamos por trabalhar, vivemos por viver, porém, a vida é
preciosa para ficarmos perdidos, sem direção. Assim, propósito é aquilo que nos
conecta a algo maior, que dá sentido à existência que temos e nos faz querer ir
além. Algo que preenche nosso ser, e, diante das dificuldades, faz a gente seguir
em frente, preservadas as integridades psíquica e emocional.
• Realizações
Descreve, Seligman (2019), que não basta sonhar, é preciso realizar. As rea-
lizações trazem as transformações que buscamos, mostram como somos capazes
de ir além, de superar obstáculos e medos para construir algo maior. Para atingir
um estado de felicidade plena, o ser humano precisa acionar o poder da ação, as-
sim, olhar para a própria história e ter orgulho dos resultados. Quando temos obje-
tivos claros, dedicamos, com mais assertividade, energia, tempo e conhecimento,
assim, canalizamos esforços para a realização. Ao realizarmos esses objetivos,
reforçamos valor, autoestima, autoconfiança, uma sensação de plenitude.
Reforça, Seligman (2019), que precisamos saber que há um esforço e que a
nossa capacidade de superar barreiras proporciona a realização. Devemos valo-
rizar as conquistas do passado, apoiar a usufruir das do presente e buscar inspi-
ração para um futuro melhor. Celebrar pequenas conquistas pessoais e profissio-
nais fortalece o poder interior para a construção de uma felicidade autêntica.
A Psicologia Positiva se concentra nos eventos positivos e nas influências da
vida, como:
96
Capítulo 2 ABORDAGENS PSICOLÓGICAS EM ARTETERAPIA
• Experiências positivas: felicidade, alegria, inspiração e amor.
• Estados e traços positivos: gratidão, resiliência e compaixão.
• Instituições positivas, com princípios dentro das organizações.
Seligman passou por uma forte depressão, e buscava, em pesquisas, a pró-
pria cura. Usufruiu da aplicabilidade das técnicas dele.
1 Qual é o conceito da arteterapia gestáltica?
2 Qual é o diferencial da Psicologia Positiva em relação a outras
abordagens mais tradicionais?
3 Qual é o papel do arteterapeuta na abordagem humanista?
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
O uso da arte, em processos terapêuticos e de desenvolvimento pessoal,
permite acessar dores, conflitos, traumas e sofrimentos de uma forma suportável.
Ao romper defesas, rigidamente, estruturadas, traz luz à sombra, voz ao silêncio,
cor e definição ao que é imperceptível e obscuro.
A arteterapia e as nuances que se apresentam a partir das linhas teóricas
são uma prática terapêutica consolidada cientificamente, valorizada e, amplamen-
te, difundida nas áreas clínica e de saúde mental. Ao adentrar no espaço educa-
cional, cumpre um papel na profilaxia.
Ao pintar, desenhar, cantar, escrever, dançar e representar, um sujeito cons-
titui formas instigantes e contundentes de manifestação do eu. Torna-se, cada vez
mais, um espaço de expressão, revelação dos sentimentos e das histórias mais
secretas, uma libertação, uma abertura para uma vida que se deseja.
Por meio do processo criativo, estabelece uma ponte entre o intrapsíquico
e a realidade, que pode vir a curar muitas dissociações, pois, ao criar uma obra,
constitui-se das partes, e soma um todo com perguntas necessárias e respostas
curativas.
97
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
Independentemente da linha teórica com a qual você mais se identifica, fica
a certeza de que a expressão artística e expressiva traz, em si, uma possibilidade
de tradução de imagens e representações mentais, uma revelação do mundo in-
terno para o concreto.
A arteterapia pode ser a linguagem simbólica ao abarcar a imagética do in-
consciente e estruturante da personalidade, ou, mesmo, um diálogo consciente
que dá pistas de estratégias para a realização de objetivos, metas, ao acionar o
poder da ação no aqui e agora.
Todas as linhas teóricas são comprometidas com a ética do cuidado, e em-
pregam o potencial criativo e transformador, peculiar ao ser humano.
Ao utilizarmos esses canais criativos, passamos a investigar, além dos sinto-
mas, sofrimentos, as questões existenciais de que cada sujeito, com cada sessão
individual ou grupal, um encontro único, repleto de significados, através de cores,
formas e volumes.
REFERÊNCIAS
ANDRADE, L. Q. Terapias expressivas. São Paulo: Editora Vetor, 2000.
CIORNAI, S. Percursos em arteterapia. São Paulo: Summus Editorial, 2004.
JUNG, C. G. Homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira,
1964.
JUNG, C. G. Memórias, sonhos e reflexões. Rio de Janeiro: Editora Nova
Fronteira, 1962.
MONTEIRO, D. M. R. Arteterapia: arquétipo e símbolos. 2009.
RHYNE, J. Arte e Gestalt: padrões que convergem. São Paulo: Summus
Editorial, 2000.
ROGERS, C. Ética humanista e psicoterapia. São Paulo: Editora Alínea, 2012.
SELIGMAN, M. Felicidade autêntica. São Paulo: Editora Objetivo, 2019.
98
Capítulo 2 ABORDAGENS PSICOLÓGICAS EM ARTETERAPIA
SILVEIRA, N. Imagens do Inconsciente. Rio de Janeiro: Editora Alhambra,
1984.
ZINKER, J. Processo criativo em Gestalt terapia. São Paulo: Summus
Editorial, 2007.
99
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
100
C APÍTULO 3
PSICOSSOMÁTICA E ARTETERAPIA NO
CONTEXTO EDUCACIONAL
A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes
objetivos de aprendizagem:
Reconhecer a arteterapia como um canal de comunicação do mundo interno
com a realidade, através das linguagens expressivas e artísticas.
Perceber, através da linguagem simbólica, formas de expressão e alívio do so-
frimento psíquico, além de como refletem no corpo.
Ampliar a percepção e a escuta ativa, a fim de notar relações do adoecimento
psíquico com a observação da interferência nos órgãos e no corpo.
Intervir, com ferramentas e técnicas de arteterapia, no tratamento de dores
emocionais.
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
102
Capítulo 3 PSICOSSOMÁTICA E ARTETERAPIA NO CONTEXTO
EDUCACIONAL
1 CONTEXTUALIZAÇÃO
A partir de diálogos com Vygotsky, por representar um interlocutor nas nossas
reflexões a respeito de arte, psicologia e educação, pela concepção sócio-históri-
ca dele, sustenta-se que a atividade criadora é a realização de algo novo, que se
trata de reflexos de algum objeto do mundo exterior, de determinadas construções
do cérebro ou sentimentos vivenciados e que e se manifestam no ser humano.
Não é por acaso que, desde a antiguidade, a arte tem sido considerada um
meio e um recurso na educação, isto é, uma determinada modificação duradoura
do nosso comportamento e do nosso organismo. Todo o valor aplicado de arte
acaba por se reduzir a um efeito educativo, e todos os autores que percebem
uma afinidade entre pedagogia e arte veem, inesperadamente, o pensamento
confirmado pela análise psicológica.
Os profissionais envolvidos no dia a dia da arteterapia entendem que é uma
prática interdisciplinar e o quanto são bem-vindos os múltiplos conhecimentos
das estratégias artísticas, as quais dialogam com as teorias psicológicas, e das
estratégias educacionais, que negociam com as teorias da criatividade.
Com relação à transdisciplinaridade, a própria palavra já evoca, pela
etimologia, a necessidade de irmos além, de nos inserirmos nas conexões
sistêmicas, o que nos impulsiona para outros campos do saber.
A arteterapia, por se formar pelas interfaces de vários saberes, é
interdisciplinar desde a origem, portanto, considerado o pós-pandemia, a realidade
educacional brasileira nos remete a sintomas de somatização e a doenças
originárias. Tem origem na estrutura cognitiva, em pensamentos disfuncionais que
geram sofrimento e contribuem com sintomas físicos.
A seguir, acessaremos aspectos históricos da Psicologia e da Medicina
Psicossomáticas e reforçaremos termos conceituais. Entenderemos os impactos
das emoções, dos sentimentos a partir de acontecimentos e fatos marcantes da
vida de uma pessoa, pois acabam sendo ancorados no corpo e, com isso, limitam
o livre viver. Ainda, reconheceremos as couraças musculares pesquisadas por
Reich e como interferem no corpo e comportamento.
Refletiremos a respeito da qualidade do pensamento, o qual gera respostas
e reações a nível corporal, e aprofundaremos as causas dos sintomas físicos
e psicológicos, que relações se estabelecem entre os órgãos e os sistemas do
corpo, com emoções e feridas emocionais. O que isso tem a ver com arteterapia
e educação?
103
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
Por fim, abordaremos as contribuições das modalidades artísticas e expres-
sivas, com destaque para a linguagem corporal como forma de cuidado e inter-
venção para aspectos de somatização e doenças psicossomáticas. Ampliaremos
o olhar no que tange à Síndrome de Burnout, decorrente da cronificação do es-
tresse, associada a atividade laborais de uma pessoa, o que causa fragilidades
e é o principal motivo de afastamento, do trabalho, de profissionais da saúde e
educação.
O ser humano tem experimentado, ao longo do tempo, mudanças físicas,
psíquicas, sociais e educacionais. Com a globalização, pandemias e guerras, no-
vas formas de viver foram criadas, e tudo passou a ser mais dinâmico e interativo.
Ao interagirmos com o mundo, adquirimos experiências, produzimos
sentimentos e emoções que ficam armazenados na memória autobiográfica, a
qual é base da identidade que dá sentido ao que somos e a como sentimos as
relações e as situações no dia a dia. Assim, desenvolver inteligência emocional
se tornou uma necessidade para que as pessoas gerenciem as próprias emoções
e performem melhor, mas não podemos nos esquecer de que, antes de a mente
pensar, o corpo sente e essas sensações ficam ancoradas.
A linguagem corporal é muito usada na arteterapia, um recurso terapêutico
para aliviar as tensões provenientes das emoções que ficam ancoradas no corpo,
o que proporciona um diálogo do mundo interno com a imagem corporal. Assim, é
preciso entender os processos mentais que desencadeiam as principais doenças
e os desenvolvimentos delas.
O motivo de o corpo transformar emoções e sentimentos em doenças
psicossomáticas está relacionado à dificuldade de olhar, verdadeiramente, para
si, a fim de identificar o que nutre o sofrimento psíquico carregado por longa data
e encontrar uma solução da melhor forma.
2 QUANDO A MENTE ADOECE O
CORPO
As questões mente/corpo e saúde/doença foram objetos de interesse do ho-
mem durante toda a história da humanidade.
O pai da Medicina, Hipócrates, em 460 a.C., tentou explicar os estados de
saúde e doença a partir da existência de quatro humores: bile amarela, bile negra,
fleuma e sangue. A saúde seria o equilíbrio entre esses elementos, pois a enfermi-
dade se tornaria a desorganização desses estados.
104
Capítulo 3 PSICOSSOMÁTICA E ARTETERAPIA NO CONTEXTO
EDUCACIONAL
Galeno 220 d.C. entendia a causa da doença como endógena, de dentro do
próprio homem, pela constituição física ou hábitos de vida que levavam ao dese-
quilíbrio. Contudo, a saúde, para ele, era sinônimo de harmonia e equilíbrio entre
o mundo e tudo ao redor, com o surgimento de desafios dessa homeostase, de
desequilíbrio.
Na Idade Média, membros da Igreja Católica consideravam que todas as do-
enças eram atribuídas ao pecado, sendo, o corpo, o lócus dos defeitos e das
fragilidades. A alma era o valor supremo, responsável pela espiritualidade e pela
racionalidade do homem. São Tomás de Aquino concluiu que a alma, não somen-
te, era a sede da razão, mas, também, uma manifestação do divino, que ligava o
homem a Deus, a fim de torná-lo imortal.
Descartes abarcou a dissociação completa entre corpo e mente, a separação
do corpo e da alma, ao afirmar que o homem possuía uma substância material e
outra pensante, e que o corpo desprovido do espírito era, apenas, uma máquina.
Esse discurso cartesiano influenciou o pensamento médico, reforçada uma visão
reducionista da etiologia da doença.
A palavra psicossomática deriva de “psique” (mente) e soma (corpo), e se re-
fere a doenças que afetam a mente e que provocam resultados físicos no homem,
os quais causam uma desordem física no corpo, originadas ou agravadas da psi-
que, de processos emocionais do indivíduo.
O estudo da psicossomática, segundo McDougall (2015) evoluiu em três fases:
1. a psicanalítica, com foco na gênese inconsciente das enfermidades, nas
teorias de regressão e nos benefícios secundários do adoecer.
2. intermediária, ou behaviorista, caracterizada pelo estímulo à pesquisa
em homens e animais. Tentativa de enquadramento dos achados à luz
das Ciências Exatas e estudos de estresse.
3. Atual, ou multidisciplinar, origem da importância do social, de uma ativi-
dade de interconexão entre várias áreas da saúde. Mente e corpo são
estudados pelas formas única, conjunta e dinâmica.
Freud, no início do século XX, resgatou a importância dos aspectos internos
e os relacionou à emoção reprimida, não aliviada pelos canais normais, o que
gera a constituição de distúrbios crônicos e psíquicos no corpo. Contribuiu para
uma mudança de paradigma ao superar o reducionismo cartesiano.
O psicanalista Grodeeck, em 1917, considerou que toda doença tem um sen-
tido, e mencionou que o paciente é responsável por ela, não sendo fruto do acaso.
105
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
Na década de 30, o psicanalista Franz Alexander defendia que as doenças
orgânicas poderiam ser respostas fisiológicas, decorrentes de uma tensão emo-
cional, motivada por processos mentais.
Na sequência, em 1996, Pierre Mart desenvolveu o conceito de depressão
essencial, decorrente de eventos traumáticos, sendo que a somatização surge
das estruturas psíquicas deficitárias das capacidades de representação e elabo-
ração simbólicas.
McDougall (2015), um dos maiores nomes da Psicossomática, explica que
os pacientes não querem perder o controle de emoções e, inconscientemente,
deixam de usar estratégias que evitam isso. O que ejetado, pelo psiquismo, é con-
vertido no corpo. Acredita que a unicidade do corpo e da mente faz, do homem,
um ser psicossomático, e reconhece a multicausalidade do adoecimento.
A nossa memória autobiográfica armazena experiências, emoções e senti-
mentos, o que constitui a nossa identidade, o que somos, como nos sentimos,
relacionamo-nos, comportamo-nos no dia a dia.
A mente armazena, ancora com palavras, toques, estímulos visuais e olfati-
vos, relacionados a acontecimentos marcantes. O cérebro experimenta o mundo
e codifica essa interação, modifica as maneiras futuras de reagir e busca a preser-
vação de si e o bem. O cérebro busca poupar energia, já o corpo quer movimento.
As emoções e os sentimentos acontecem na mente e no corpo, e pensamentos
e crenças cognitivas desencadeiam reações emocionais que se repercutem no
organismo, representam-se na pele e nos órgãos.
Goleman (2001), neuropsicólogo de Harvard, referência na pesquisa de inte-
ligência emocional, diz que cada tipo de emoção nos predispõe, corporalmente, a
uma ação imediata.
De todas as imagens geradas em qualquer momento, as que são registra-
das são aquelas que têm um colorido emocional de interesse para a consciência.
Portanto, podemos concluir que determinados estados corporais, com suficiente
carga emocional, geram diferentes estados mentais e, consequentemente, varia-
ções, ou ajustes, na percepção automática de si mesmo e das realidades interna
e externa.
Tudo o que nos impacta e gera grandes emoções é guardado pela memória,
mesmo que a nível inconsciente. O corpo é movimento, sensibilidade, expressão
criadora. Assim, o corpo que sofre, é humilhado, recebe impactos que vão além
da esfera mental e do que a consciência é capaz de mensurar, por isso, surgem
as couraças, formas de defesa, proteção ou contenção dos impulsos.
106
Capítulo 3 PSICOSSOMÁTICA E ARTETERAPIA NO CONTEXTO
EDUCACIONAL
Para Lowen (1986), o processo de formação da couraça muscular é um meio
de sobrevivência, uma forma de evitarmos a dor intolerável. Para darmos conta de
sobreviver no mundo, acabamos por conter atos, palavras, emoções, a fim de estru-
turarmos um comportamento, socialmente, aceitável, o que impede o livre fluxo ener-
gético. Para que o corpo possa ser sentido em sua totalidade, precisa ser trabalhado
em todos os segmentos, assim, permite-se que a energia volte a circular livremente.
Os impactos das emoções e dos acontecimentos, na vida de uma pessoa,
acabam sendo ancorados no corpo, e, com isso, limitam os movimentos e o livre
fluxo do viver, pois nos adequamos à cultura, ao ambiente, e ajustamos, também,
as nossas emoções ao que é esperado, ou, socialmente, aceito.
A corporalidade é a soma de todo processo existencial de uma
pessoa, é a composição de todas as dimensões indissociadas,
como: emocional-afetiva (instinto, pulsão, afeto); física (estru-
tura orgânica, biofísica, motora), mental-espiritual (cognição,
razão, pensamento, ideia, consciência) e sócio-histórica (va-
lores, hábitos, costumes, sentidos, significados, simbolismos)
(LOWEN, 1986, p. 58).
Goleman (2001) acredita que a emoção é um caminho de conexão que te-
mos com os outros, para o bem ou para o mal. Tendemos a reagir de acordo com
o que sentimos, e, quando tomados pela emoção, a razão pouco importa, pois
costumamos nos expressar pelo corpo e pelas palavras.
Lowen (1986) cita Reich, psicanalista, contemporâneo de Freud, que muito
contribui com a Psicossomática, com os conceitos das couraças e de sete níveis
energéticos que envolvem partes do corpo: tecidos, músculos e órgãos.
FIGURA 1 – COURAÇAS MUSCULARES
FONTE: <https://bit.ly/3IUC4LJ>. Acesso em: 24 abr. 2021.
107
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
Relata, Lowen (1986), que a terapia corporal tem, como objetivo, flexibilizar
as couraças musculares instaladas no corpo, e que impedem a livre circulação
energética. Ao trabalharmos com as couraças, é possível acessarmos emoções,
difíceis de lidar nas fases de desenvolvimento. A liberação dessas emoções pro-
duz alívio, conhecimento e relaxamento.
As couraças musculares podem atingir órgãos e provocar um estado de con-
tração do corpo, o que produz manifestações psicossomáticas. O corpo se contrai
até atingir estados crônicos e produzir doenças.
Em uma abordagem transpessoal, ou junguiana, na arteterapia, esses con-
ceitos são estudados com profundidade. O conceito dos sete segmentos está cor-
relacionado ao sistema de chakras, da filosofia oriental.
Os chackras captam a energia vital e a distribuem para todo o corpo, através
do sistema nervoso, dos órgãos vitais e das glândulas endócrinas. Quando algum
chackra está bloqueado, ou desequilibrado, pode afetar as emoções e a saúde,
em geral.
QUADRO 1 – PLANILHA DOS CHAKRAS
FONTE: <http://bit.ly/3QN8w4j>. Acesso em: 24 abr. 2021.
108
Capítulo 3 PSICOSSOMÁTICA E ARTETERAPIA NO CONTEXTO
EDUCACIONAL
Emoções e afetos são expressos, no corpo, através de
movimentos, ou contidos, pela rigidez. Ao longo da vida, a forma
através da qual lidamos com situações, emocionalmente, impactantes,
determina padrões de tensão nos nossos corpos e molda parte da
nossa forma física. É por isso que, na bioenergética, fala-se tanto
de “couraça muscular do caráter”. A seguir, explicaremos, um pouco
melhor, esse assunto: https://bit.ly/3XF1HE7, https://bit.ly/3XuWnU8
e http://bit.ly/3XlJewM.
2.1 DOENÇAS PSICOSSOMÁTICAS
São adoecimentos físicos causados ou agravados por problemas emocio-
nais. Há uma relação direta entre as saúdes emocional e física. É um processo
inconsciente, muitas vezes, com diagnóstico demorado, uma vez que todas as
outras possíveis causas devem ser investigadas e excluídas, através de exames
e testes clínicos.
No Transtorno de Somatização, a pessoa costuma apresentar múltiplas quei-
xas físicas, em diferentes locais do corpo, e que não são explicadas por nenhuma
alteração orgânica. Geralmente, os sintomas se intensificam quando essa pessoa
está diante de situações de estresse ou pressão emocional.
Segundo McDougall (2015), não existe uma única causa para desenvolver uma
doença psicossomática, pois depende de uma predisposição pessoal e orgânica. Re-
laciona-se com o corpo e o psicológico reage frente a certas situações na vida, como:
• sobrecarga profissional;
• eventos traumáticos (infância, adolescência, vida adulta);
• violência psicológica, física ou sexual;
• sofrimento psicológico não tratado.
São múltiplas as formas a partir das quais uma doença psicossomática pode
se manifestar:
• Psicológicas
o Ansiedade e exaustão.
o Irritabilidade e impaciência.
o Tristeza, pouca disposição para atividades diárias.
109
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
• Físicas
o Dor e queimadura no estômago.
o Constipação ou diarreia.
o Sensação de falta de ar.
o Dores musculares, de cabeça e insônia.
o Aumento da pressão arterial e dos batimentos cardíacos.
o Coceira, ardência, formigamento e lesões na pele.
o Queda excessiva de cabelo.
o Mudanças na libido, dificuldades para urinar e alteração no ciclo
menstrual.
Em tempos de pandemia, crises, situações estressantes, com grandes desa-
fios, caso não haja uma forma adequada de lidarmos com uma situação, o adoe-
cimento é, quase, inevitável. Educadores, alunos, familiares, todos estão sujeitos,
direta ou indiretamente, a esses contextos.
Como é possível percebermos, através dos sintomas anteriores, são muitas
as formas e apresentações das doenças psicossomáticas e que merecem aten-
ção, considerada a necessidade de disponibilidade interna e o equilíbrio emocio-
nal para um resultado satisfatório no processo de ensino-aprendizagem.
Somatizar é se manifestar, no corpo, em forma de doença ou sintoma, algum
conflito emocional não expresso, ou trabalhado, terapeuticamente.
Em um evento on-line, ao falar de aspectos da pandemia, a psi-
cóloga pesquisadora da UFRJ compartilhou o posicionamento dela:
Há repercussões preocupantes quando se fala da Psicossomática, e,
ainda, estão, como pano de fundo, o medo, a tristeza e a raiva.
Quem nunca sentiu uma dor específica ou um mal-estar e, ao ir
ao médico e fazer os exames solicitados, descobriu que o problema
tinha origem emocional? Atualmente, a relação entre doenças físicas e
emocionais é bem comum. Com a pandemia, a tendência se agravou.
Segundo Flávia Teixeira, psicóloga, mestre em Saúde Coletiva
pela UFRJ, professora de pós-graduação em Psicologia Hospitalar,
também, na UFRJ, e pós-graduada em Psicossomática Contemporâ-
nea, as doenças apresentam sintomas físicos sem que nenhum exa-
me laboratorial, ou de imagem, corrobore com a organicidade deles.
110
Capítulo 3 PSICOSSOMÁTICA E ARTETERAPIA NO CONTEXTO
EDUCACIONAL
“Estar sob forte pressão no trabalho, na escola, ter passado por
um rompimento amoroso abrupto, pela perda de um ente querido,
ou estar com problemas financeiros, são exemplos de situações que
podem levar o indivíduo a uma condição de estresse, ansiedade, tris-
teza tão grave que o corpo acaba absorvendo os desequilíbrios emo-
cionais e mentais”, explica a psicóloga.
Ainda, de acordo com Flávia Teixeira, no momento atual, têm
existido muitos casos de pessoas que, devido a situações de estres-
se forte e constante, acabam tendo sintomas de gripe, dores no
peito ou dificuldades de respirar, o que se remete aos sintomas da
Covid-19, e, consequentemente, intensifica a ansiedade.
A seguir, a psicóloga listará as cinco doenças psicossomáticas
mais comuns percebidas durante e após a pandemia.
1. Resfriados frequentes
Quando os episódios acontecem com frequência, é sinal de que
há algo de errado. Se os exames médicos não encontram uma expli-
cação lógica para essa imunidade, sempre, baixa, e você está pas-
sando por dificuldades, a somatização pode ser a resposta. “Para
agravar o quadro, alguns sintomas se assemelham aos da Covid-19,
e abalam, ainda mais, o emocional”, reforça a psicóloga.
2. Herpes
O vírus é transmitido através do contato com uma pessoa infec-
tada. Entretanto, ele se manifesta em ocasiões de baixa imunidade.
Ter episódios constantes de herpes, em especial, a labial, indica que
o indivíduo apresenta alguma desordem no organismo. As feridas po-
dem surgir em momentos de muito estresse. Os sintomas são surgi-
mento de feridas ao redor da boca ou na região genital, com fortes
dores e sensação de queimação no local.
3. Enxaquecas
A enxaqueca não é uma dor de cabeça convencional, e pode
durar algumas horas ou, até mesmo, dias. Alguns casos são inca-
pacitantes, ou seja, a pessoa não consegue realizar atividades ro-
tineiras. Estudos científicos apontam que o principal gatilho para o
episódio de enxaqueca é o estresse. Por isso, ela, também, é consi-
111
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
derada uma doença psicossomática. Os sintomas são dor intensa e
localizada em um ponto da cabeça, náuseas e falta de concentração.
“Quando não tratadas, as enxaquecas frequentes podem se tornar
uma doença crônica, e acompanhar a pessoa por toda a vida dela”.
4. Alergia nervosa
Talvez, você nunca tenha ouvido falar, mas existe um tipo de
alergia de fundo nervoso. O indivíduo apresenta erupções na pele,
desencadeadas por um forte processo de estresse. Os sintomas são
coceira, vermelhidão no local e irritabilidade. “Uma crise, se não for
tratada, pode gerar um choque anafilático”, adverte Flávia Teixeira.
5. Diarreia
Em algumas pessoas, episódios de diarreia são decorrentes de
forte estresse. Quando a diarreia se mostra constante e não há uma
explicação física, como a Síndrome do Intestino Irritável, é bem pos-
sível que se configure como um caso de doença psicossomática. Os
sintomas são dores abdominais e fezes, extremamente, líquidas.
“Na realidade, não existe uma dicotomia que separe os seres hu-
manos em mental/psicológico/físico. Nosso funcionamento é resultado
da interação com o meio e com tudo aquilo que nos afeta”. Para lidar
com a psicossomatização, a terapia, às vezes, associada à medica-
ção, é a melhor forma de evitar ou de diminuir essas reações.
“Cuidar da saúde mental é fundamental para o autoconheci-
mento e para entender os alertas que o corpo emite. Neste momento
conturbado em que estamos, esses sinais aparecem constantemente
e nunca devem ser negligenciados. Daí a importância de procurar-
mos a ajuda de um médico especializado frente ao menor sinal de
que algo não vai bem”, finaliza Flávia Teixeira.
FONTE: <http://bit.ly/3HlxWTT>. Acesso em: 24 abr. 2021.
112
Capítulo 3 PSICOSSOMÁTICA E ARTETERAPIA NO CONTEXTO
EDUCACIONAL
Seguem sugestões de livros de educação na pandemia, os quais
abordam as implicações nas bases pedagógicas, fragilidades e adoe-
cimentos psicológicos no contexto educacional. A pandemia foi e ainda
está sendo um agente de profundo impacto na educação. Quando as
mudanças são bruscas, assimilamos, dificilmente, o que vivemos e os
desdobramentos em docentes, funcionários, alunos e familiares.
CONTE, S. Educando para a vida no pós-pandemia. São Paulo:
Editora Novo Século, 2021. Mudou, a pandemia, a face da educação,
e não retornará a ser a mesma após a experiência vivenciada. Esse é
o mote desta obra que relata os desafios enfrentados por pais e pro-
fessores, como adaptação a ferramentas tecnológicas, apoio às famí-
lias no ambiente virtual e vulnerabilidade dos alunos fora da escola,
além de como essa experiência impactará no contexto pós-pandemia.
Para a autora, quando a Covid for superada completamente, caberá,
à escola, não somente, o papel de ser uma ponte entre o saber e o
aluno, mas, também, de atuar como fio condutor nos quesitos ampa-
ro, resiliência, amor e complacência.
FAVIERI, J. E. Múltiplas dimensões da educação na era do co-
ronavírus. São Paulo: Editora Liber Ars, 2020. Traz o olhar para a
educação pública e para todas as necessidades flagrantes, como
superlotação de turmas, sobrecarga de trabalho, tecnologias insufi-
cientes e defasagem técnica. Os autores propõem uma reflexão para
que possa ser elaborado um projeto educacional consistente e inclu-
sivo, e, com isso, o cenário escolar público consiga se destacar pelos
bons resultados alcançados pelos alunos.
SOUZA, R. Educação pública na pandemia do coronavírus. Curi-
tiba: Editora CRV, 2021. Busca decifrar, sob uma perspectiva crítica,
a realidade educacional que emerge nas temáticas de política e ges-
tão da educação, trabalho docente, prática pedagógica e tecnologias
em educação, proporcionadas análises que objetivam contribuir para
o debate educacional no cenário de coronavírus.
113
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
1 No que se baseava a teoria de Descartes?
2 O que são transtornos psicossomáticos?
3 Segundo McDougall (2015), grande pesquisadora da atualidade,
qual é a causa dos adoecimentos psicossomáticos?
3 NEUROPSICOLOGIA: CORPO E
MENTE SÃO UM SISTEMA ÚNICO
Os problemas da nossa mente podem se tornar problemas para o nosso
corpo. Por isso, quando algo não vai bem com a saúde mental, outros órgãos
são, diretamente, afetados pela psicossomatização. Muitas vezes, nenhum
exame clínico é capaz de identificar o problema e o corpo, apenas, reage ao que
o cérebro, o pensamento emite.
Situações tensas, perigosas, ou muito desconfortáveis, despertam, no ser
humano, uma série de fortes emoções, as quais impedem a capacidade dele de
raciocinar, clara e ordenadamente.
A seguir, observe como se dá o processo psicossomático, o qual pode ser
tratado a partir de uma abordagem psicanalista, cognitivo-comportamental ou
humanista. Você se lembra delas? Caso não, podem ser revisitadas em capítulos
anteriores.
114
Capítulo 3 PSICOSSOMÁTICA E ARTETERAPIA NO CONTEXTO
EDUCACIONAL
FIGURA 2 – PROCESSO PSICOSSOMÁTICO
FONTE: <https://cetapes.org/2013/10/02/psicossomatica/>. Acesso em: 24 abr. 2021.
Ao contrário do que pregava Descartes, hoje, não se aceita a divisão entre
corpo e mente, pois tudo está interligado, comportamentos e emoções são
produtos do contexto em que vivemos.
Quando o corpo sofre muita pressão, ele adoece. É como um espelho, pois
reflete nossas emoções, crenças e pensamentos. Sempre que algo não vai bem,
o corpo encontra um meio de sinalizar que há um problema. As doenças são
manifestações do inconsciente, que precisa sinalizar questões internas nada bem
resolvidas.
Emoções em deficiência, ou em excesso, estão relacionadas a mudanças
e a padrões limitantes de comportamento, alguns dos fatores que levam ao
desequilíbrio emocional e desencadeiam doenças.
3.1 COMO SE DÁ A CONEXÃO CORPO
E MENTE?
• Componente Subjetivo: como experimentamos a emoção, o sentimento.
• Componente Fisiológico: como o nosso corpo reage ao pensarmos e
sentirmos.
115
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
• Componente Expressivo: como é a reação, o padrão de atitudes e
comportamentos.
McDougall (2015) relata que a medicina moderna tende a ter uma visão me-
cânica e fisiológica das funções dos órgãos que compõem o nosso corpo. A soma-
tização faz parte dos padrões de normalidade, pois o corpo reage ao impacto de
emoções e sentimentos.
À medida que a somatização se reedita, há a continuidade dos sintomas.
É definida como um distúrbio psiquiátrico a partir do qual um paciente apresen-
ta variadas queixas físicas, devido a dores em diversos órgãos, ou membros do
corpo. Entretanto, essas sensações, quando não são diagnosticadas em exames,
nem facilmente, explicadas pelos médicos, já que não apresentam alguma altera-
ção clínica plausível, são consideradas transtornos psicossomáticos. Geralmente,
pessoas, com esse tipo de transtorno de somatização, sofrem com ansiedade ex-
cessiva e apresentam constantes alterações de humor.
A medicina tradicional chinesa estabelece conexões entre os órgãos e os
sistemas corporais com as dores e os adoecimentos.
A postura e todas as questões corporais que abarcam a personalidade, a au-
toimagem e as dores emocionais, são pistas, aspectos inconscientes aos quais um
arteterapeuta precisa estar atento para decodificá-los, para poder intervir, a fim de
utilizar métodos e materiais com potencialidades psicológicas, que possibilitem o
entendimento do que se passa, do desbloqueio emocional, com foco em novas per-
cepções. Mudanças são necessárias, com novos comportamentos e soluções.
Segundo Lowen (1986), a medicina tradicional chinesa revela
conexões entre os sintomas, os sentimentos e os comportamentos.
Destacamos os sintomas mais comuns:
Alergia: nervosismo ou irritação com atitudes de outra pessoa.
Anemia: falta de confiança em si.
Artrite: mania de perfeição consigo mesmo, insistente, exigente, crí-
tico, desejo de resolução de problemas sozinho.
Asma: complexo de culpa.
Bulimia: ódio de si mesmo, crença de não suficiente bom,
autoimagem frágil.
Câncer: ressentimentos profundos, mágoas não expressas.
116
Capítulo 3 PSICOSSOMÁTICA E ARTETERAPIA NO CONTEXTO
EDUCACIONAL
Doenças do Coração: mágoas contidas, estresse, ansiedade
exacerbada.
Doenças do Fígado: acúmulo de raiva e rancor.
Doenças Respiratórias: medo intenso, preocupação, desejo de
ação de tudo ao mesmo tempo.
Dores: culpa e medo de punição.
Dores nas Costas, Ombros: sobrecarga de tarefas, insegurança,
medo e desamparo.
Dores no Pescoço, Nuca: fortes conflitos internos entre razão e
emoção, rancor.
Gastrite: guarda dos problemas, apenas, para si, especialmente, em
pessoas introvertidas. Lembranças de situações ruins e uma falsa
tranquilidade.
Obesidade: insegurança, “engolir sapo”.
Problemas de Coluna: responsabilidade toda acumulada para si
mesmo. Não delegação de funções para outras pessoas.
Problemas Digestivos: dificuldade de enfrentamento de novas
ideias e experiências.
Problemas na Bexiga: depósito de dores.
Problemas na Garganta: medo da mudança, dificuldade de fala de
pensamentos, frustração, “engolir sapos”.
Problemas nas Pernas: medo de enfrentamento de coisas novas no
dia a dia.
Problemas nos Dentes e Gengiva: responsabilização pela família.
Problemas nos Joelhos: inflexibilidade, ego inflado, medo de mu-
danças.
Problemas nos Pés: dificuldade de compreensão de si próprio,
medo de tomada de decisões, de escolhas. Zona de conforto.
Problemas nos Rins: acúmulo de mágoa, tristeza, dores emocionais.
Retenção de Líquidos: intuição forte de falta de respeito.
Tumor: feridas emocionais antigas não curadas.
Úlcera: medo do não bom o suficiente, autoexigência.
Varizes: incapacidade de aceitação de condições impostas.
117
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
O que a boca cala, o corpo expressa. Pela sua observação e
experiência, concorda com isso? Observe o esquema a seguir:
O CORPO E AS EMOÇÕES
FONTE: <https://bit.ly/3CW1rZL>. Acesso em: 24 abr. 2021.
O vídeo a seguir poderá trazer ainda mais clareza para o en-
tendimento do processo psicossomático e de como tratá-lo. Em um
tempo pós-pandemia, a escola sente o reflexo, e arteterapia pode
ser uma excelente ferramenta de cuidado: https://www.youtube.com/
watch?v=mZgLIZdefq4.
118
Capítulo 3 PSICOSSOMÁTICA E ARTETERAPIA NO CONTEXTO
EDUCACIONAL
1 Explique a afirmação: corpo e mente são um sistema único.
2 Pelo entendimento da psicossomática, como se dá a conexão
corpo e mente?
3 Frequentes dores e problemas nos pés se relacionam a que
problemas?
4 ARTETERAPIA E PSICOSSOMÁTICA
Tido o diagnóstico de uma doença psicossomática, é importante a busca de
um tratamento, para evitarmos consequências ou agravamentos irreversíveis.
Esse tratamento pode envolver medicações para o alívio de sintomas, no entanto,
é necessário um acompanhamento psicológico, ou psiquiátrico, para o controle do
impacto que as emoções causam nos sintomas e para um trato da causa do fato.
A arteterapia, por ser uma prática integrativa complementar, vem para com-
por a estrutura de apoio ao tratamento. Compreender as causas emocionais asso-
ciadas a um problema de saúde e identificar o que a doença sinaliza, através de
sintomas, aproximam-nos da cura e de novos comportamentos e atitudes.
Alguns profissionais, ligados aos conceitos da medicina ocidental tradicional,
mas em número cada vez menor, ainda, acreditam que o corpo está dissociado
da mente. Contudo, com novos estudos, tal paradigma vem sendo diluído em ex-
periências e práticas terapêuticas, com foco nos modelos sistêmicos e holísticos
do corpo.
O tratamento médico age no sintoma, portanto, a medicação pode aliviar as
dores e os desconfortos. No entanto, esse tratamento não age com foco na cura
da doença: o sentimento e as situações que são as fontes geradoras. Dessa for-
ma, a arteterapia surge como uma possibilidade para o tratamento de doenças
psicossomáticas nos contextos educacional e psicopedagógico. Parte da visão in-
tegrativa da saúde: corpo endócrino, mente, pensamento, emoções, sentimentos
e dinâmicas psicoemocionais.
Ter uma doença psicossomática não significa que, de fato, persista e seja
duradoura. Muitas vezes, o sintoma, a situação de sofrimento que a pessoa vive
pode ser aliviada, à medida que consegue identificar e tratar da causa-raiz.
119
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
As teorias psicológicas estudadas neste capítulo salientam que há um sis-
tema integrado, que configura a psique (pensamento) e a matéria (corpo), dife-
rentes aspectos de uma mesma unidade. A partir dessa perspectiva, é preciso
associar, dialeticamente, a origem de uma doença a fenômenos psicoemocionais,
como enfermidades autoimunes e idiopatas.
As pesquisas de McDougall (2015) revelam que uma doença autoimune se
caracteriza pelo prejuízo no funcionamento do sistema imunológico, o que faz
com que o organismo afete os próprios tecidos. Não se sabe a causa exata que
desencadeia isso, mas se acredita que fatores ambientais possam ser um gatilho
para o desenvolvimento em pessoas com predisposição genética. A autora cita,
como exemplos, a artrite reumatoide, o lúpus eritematoso, a tireoide de Hashimo-
to, a diabetes Mellitos e a doença celíaca.
McDougall (2015) esclarece que o termo idiopático se refere a sintomas, ou
doenças, que não tenham causa definida. Há várias causas, algumas delas, sem
uma explicação visível e determinante do problema. Exemplos: polineuropatia
axonal e idiopática crônica.
Na abordagem interdisciplinar da arteterapia, as linguagens expressivas e
artísticas fragilizam as defesas, rigidamente, estruturadas, e permitem que muitas
informações do inconsciente venham à tona, o que facilita insights poderosos.
Assim, o cliente percebe aspectos da própria vida que causam desconforto, an-
gústia, preocupação ou fonte de estresse. Torna-se possível haver clareza para
o que, realmente, causa e mantém um problema, com o contexto em que ocorre
e possíveis ajustes criativos para mudanças, boicotes e procrastinação, o que,
inicialmente, manifesta-se como resistência, a fim de se manter tudo como está.
O “dar-se conta”, ao identificar a causa-raiz, autoriza o cliente a lidar com
medos, angústias e ansiedades oriundos de traumas e dores emocionais, a fim
de instalar novas percepções, estratégias para lidar com as situações difíceis e
dolorosas, e, necessariamente, novos comportamentos.
É importante aceitar a ajuda arteterapêutica para dar cor ao que parece invi-
sível, luz para deixar vir à tona aquilo que está guardado na escuridão da mente.
Buscar esse atendimento é permitir que a luz volte a brilhar na vida, fazer com
que lidemos melhor com os nossos passado, presente e futuro.
Além da livre expressão, podemos definir, como objetivos do tratamento, ou
prevenção de doenças psicossomáticas, através da arteterapia:
• promover o autoconhecimento, a fim de reconhecer forças a serem valo-
rizadas e fragilidades a serem superadas;
120
Capítulo 3 PSICOSSOMÁTICA E ARTETERAPIA NO CONTEXTO
EDUCACIONAL
• olhar para a própria história, e entender que tudo foi feito da forma que
era possível, que faz parte do passado;
• desbloquear emoções, dar voz ao inaudível e cristalizar a forma do que
não podia ser visto e sentido;
• observar conflitos ocultos e comportamentos disfuncionais passíveis de
serem modificados.
Lowen (1986), ao citar Jung, diz que a arte é a forma de expressão mais pura
e genuína para o inconsciente poder evidenciar a natureza, a sensibilidade e a
criatividade. Assim, as práticas criativas funcionam como uma espécie de catali-
zador, pois ajudam a desenrolar e dar vazão aos conteúdos inconscientes e trans-
formadores. O corpo expressa um conflito psíquico, assim, na maior parte das
vezes, conseguimos entendê-lo e seguir a vida, entretanto, o que não é resolvido
vai para o inconsciente e passa a ser um gerador de modificações imunológicas e
bioquímicas. Isso faz com que a estrutura corporal padeça em função do desequi-
líbrio químico-emocional produzido pelo conflito.
Seguimos aprofundando o entendimento e as possíveis
intervenções arteterapêuticas para a prevenção e o tratamento
de doenças psicossomáticas: https://bit.ly/3H8QnuL, https://bit.
ly/3GG8sPa, https://bit.ly/3CUKb6V e https://bit.ly/3ZISvR5.
4.1 É POSSIVEL PREVENIR A
DOENÇA PSICOSSOMÁTICA?
Voltamos para o ponto de partida, para a disciplina Tópicos Especiais em
Educação, e fazemos conexões com a inteligência emocional. É fundamental en-
tender, além de estudar a consciência corporal, o processo de saúde-doença, vis-
to que a modernidade chegou e o homem adoeceu, no entanto, estamos falando
de um adoecimento que vai além do sofrimento biológico, que demanda da limita-
ção e da fragilidade do corpo físico ao emocional.
Se as doenças psicossomáticas estão relacionadas a emoções e
sentimentos aprisionados, e que se manifestam através de sintomas,
entendemos que uma forma de os prevenir seria a desativação das toxidades,
com a minimização da negatividade e a possibilidade de serem expressos
121
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
das mais variadas formas. Os desequilíbrios emocional e psicológico deixam
o sistema imunológico abalado, que libera, em excesso, no organismo, os
hormônios da tristeza, da raiva e do medo.
O estímulo ao uso inteligente das emoções pode ser o grande mote da arte-
terapia na educação, a fim de encorajar docentes, funcionários, crianças e ado-
lescentes a lidarem com os próprios sentimentos de forma construtiva e saudável.
A inteligência deve ser encarada como uma construção permanente, otimiza-
da por meio da educação das emoções.
Por mais que se origine no seio familiar, que tenha, como referência, as rela-
ções que se estabelecem na família, na escola, o educando passa grande parte
do tempo, vivencia a socialização, questões hierárquicas, conflitos de toda a na-
tureza, assim, fortalece ou fragiliza a autoestima, a autoimagem, e constrói um re-
pertório para lidar com emoções e sentimentos da forma mais adequada possível.
Como o desenvolvimento emocional é um processo de construção, altamen-
te, influenciado pelo meio, as escolas exercem um papel ativo. Em alguns países
e escolas particulares brasileiras, há uma disciplina que faz parte do currículo,
com o nome de “Ciência do Eu” ou “Alfabetização Emocional”, ou programas pa-
ralelos relacionados à solução criativa de conflitos, ao desenvolvimento e à com-
petência social.
Os benefícios trazidos pela arteterapia, ao contexto escolar, devem-se a um
trabalho conjunto, com a escola, a família e o arteterapeuta, respeitadas a neces-
sidade e a subjetividade de cada aluno.
Seguem alguns pontos de melhoria:
• concentração e rendimento escolar com dinâmicas que ressaltam a im-
portância do diálogo e que promovem o conhecimento de facilidades e
dificuldades no processo de aprendizagem;
• relacionamento intrapessoal, com foco no autocontrole. É preciso pen-
sar antes de agir para evitar perdas e frustrações, além de buscar solu-
ções criativas para os problemas. As competências socioemocionais são
desenvolvidas lentamente;
• relações interpessoais, e trabalhados, com crianças e jovens, respeito à
diferença, empatia e capacidade de criação de relações saudáveis.
122
Capítulo 3 PSICOSSOMÁTICA E ARTETERAPIA NO CONTEXTO
EDUCACIONAL
5 A EDUCAÇÃO SE AJUSTA AO
ALUNO OU O ALUNO SE ADAPTA À
ESCOLA?
A educação, em tempos atuais, exige entendermos e sabermos lidar com as
fases evolutivas do pensamento e do comportamento, que definem a interação da
pessoa consigo mesma, com os outros e com o meio. Como isso afeta os traba-
lhos do arteterapeuta e do professor ao lidarem com as diferentes gerações?
Conta, a nosso favor, entenderemos como é a personalidade de um sujeito,
como funciona, como pensa, age, sente, o que é importante para conduzir um
trabalho e práticas pedagógicas, ou de desenvolvimento humano, de modo mais
eficaz, em consonância com esse público. As pesquisas recentes não invalidam
as fases psicossociais de Erickson, visto em capítulos anteriores, mas ampliam
olhares sobre elas. No entanto, temos visto uma demanda de alunos, jovens e
adolescentes, que desenvolve desequilíbrios físico e emocional, assim, parece
que têm se tornado comuns a ansiedade e o estresse desde muito cedo, o que
começa pela vida estudantil e pode gerar adultos adoecidos.
Pesquisadores da educação, preocupados com essas questões, trazem uma
alerta dessas mudanças. Acompanhe!
Cada época é marcada por acontecimentos culturais, políticos,
sociais, econômicos que impactam a visão de mundo e a forma de
nos relacionarmos com as pessoas que nascem em determinado
período. Essa ideia embasa a divisão por grupos geracionais. Cada
uma dessas gerações tem algumas características específicas e
maneiras de pensar, sentir e agir em diferentes ambientes, como o
escolar e o profissional. Conhecer esses traços é importante, pois
nos ajuda a lidar melhor, e de forma mais assertiva, com as pessoas
desses diferentes grupos geracionais. Não há consenso a respeito
dos anos nos quais começa e termina cada um, mas há uma divisão:
Baby Boomers (nascidos entre 1946 a 1964)
Hoje, têm entre 57 e 75 anos. Receberam esse nome em alu-
são ao aumento de nascimentos de bebês depois do fim da Segun-
da Guerra Mundial. Viveram grandes transformações do pós-guerra.
123
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
Criados com rigidez e disciplina, cresceram focados e obstinados, e
valorizam trabalho, família, realização pessoal, estabilidade financei-
ra e busca por melhores condições de vida.
Geração X (entre 1965 a 1980)
Têm entre 41 e 56 anos, e fazem parte de uma geração que
vivenciou a Guerra Fria, movimentos de grandes impactos cultural
e social, onda hippie e luta pelos direitos políticos e sociais. No Bra-
sil, era um período de ditadura militar, desenvolvimento industrial e
crescimento econômico. Com um mercado de trabalho competitivo,
as pessoas davam valor ao diploma formal, à capacitação e à estabi-
lidade profissionais.
A geração X, ao ministrar aula, faz tudo conforme a própria visão
de mundo, e solicita, ao aluno, que se enquadre, daí os conflitos em
sala de aula.
Não transita, naturalmente, no mundo digital, assim, tem o de-
safio de se inserir nesse novo contexto. Foi escolarizada dentro do
modelo pedagógico tradicional, que prima pela passividade, então,
reproduz esse modelo.
Os conflitos de relacionamento nada mais são que o descom-
passo de linguagem e postura entre duas gerações. Esse descom-
passo gera desmotivação nos jovens que se vêem desconectados do
mundo de sala de aula e conectados com o lá de fora.
Geração Y ou Millenials (nascidos entre 1981 a 1996)
Faixa etária entre 25 e 40 anos, presenciou a chegada do novo
milênio, ainda, criança. Considerada criativa, alinhada às causas so-
ciais, não tem, como prioridades, trabalho intenso, formação de uma
família e busca por estabilidade na carreira, ao contrário das gera-
ções anteriores. Familiarizados com a tecnologia, são multitarefas,
impulsivos, competitivos, questionadores, e desejam rápidos cresci-
mentos financeiro e profissional. Os conflitos são menores pois há
mais empatia e flexibilidade.
124
Capítulo 3 PSICOSSOMÁTICA E ARTETERAPIA NO CONTEXTO
EDUCACIONAL
Geração Z (nascidos entre 1997 a 2010)
No mercado de trabalho, nativos digitais convivem com o univer-
so da internet, mídias sociais e recursos tecnológicos desde sempre.
São multifocais e aprendem de várias maneiras, e usam múltiplas
fontes e objetos de aprendizagem. Costumam acompanhar os acon-
tecimentos em tempo real e se comunicam, intensamente, por meios
digitais, assim, estão, sempre, on-line. Em termos de comportamen-
to, tendem a se engajar com questões ambientais, sociais e identitá-
rias e parecem mais conservadores do que a geração anterior.
Geração Alfa (nascidos a partir de 2010)
A exposição à tecnologia e às telas é ainda mais forte nessa
geração. Com muitos estímulos e acostumados a usar meios digi-
tais para se entreter e buscar informações, requerem uma educação
mais dinâmica, ativa, multiplataforma e personalizada. Essas crian-
ças têm, como características, flexibilidade, autonomia e um poten-
cial maior para inovar e buscar soluções para problemas de forma
colaborativa. Gostam de ser protagonistas, colocar a mão na massa
e aprender com situações concretas.
FONTE: <https://bit.ly/3iIZZmu/>. Acesso em: 24 abr. 2021.
TABELA 1 – GERAÇÕES
Geração X Geração Y Geração Z
Data de
Entre 1961 e 1978 Entre 1979 e 1994 A partir de 1995
nascimento
Ligados em
São questionadores,
São práticas, socialização
multitarefas (fazem
empreendedoras e também por meios
várias coisas ao
independentes. eletrônicos,
Características mesmo tempo),
Respeitam preocupados com
imediatistas.
autoridades beleza. Aprendem
Buscam prazer no
e hierarquias. muito rápido, porém
trabalho. Preferem
Preferem ler livros. têm dificuldade de
meios eletrônicos.
concentração.
125
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
Tecnologia,
Coletividade,
velocidade, Vaidade, dispersão,
Palavras-chave cultura,
individualismo, flexibilidade
popularização
urgência
FONTE: <http://bit.ly/3XzXnpR>. Acesso em: 24 abr. 2021.
6 QUAL É O PAPEL DO PROFESSOR?
No processo de educação emocional, pode ser parceiro do arteterapeuta,
a fim de usar a própria sensibilidade para transpor barreiras de conhecimento e
prática em sala de aula, envolver dinâmicas e técnicas e relacionar as disciplinas
com a inteligência emocional.
Outra possibilidade é o professor ser o arteterapeuta, assim, ao explorar
esse vetor do conhecimento, prepara os alunos para serem mais conscientes e
responsáveis diante das formas de pensamento, sensação e ação. Ao reconhe-
cer as próprias emoções e as das pessoas ao redor, o arteterapeuta educacional
pode criar um canal, extremamente, fértil e acessível para uma interação equili-
brada, a partir de emoções básicas, como alegria, tristeza, raiva, medo, nojo e
desdobramentos.
Segundo McDougall (2015), hormônios, como adrenalina e cortisol, libera-
dos pelas glândulas suprarrenais, ao comando do cérebro, geram desequilíbrio
bioquímico e alteração funcional, mesmo sem a presença de um dano físico. A
persistência disso causa uma alteração estrutural.
O cérebro não trabalha com fatos, mas com informações de fatos, a partir de
uma tentativa de se defender de uma ameaça não identificada, poder reagir com
manifestações relacionadas ao emocional.
As emoções e os sentimentos tóxicos precisam ser, adequadamente, canali-
zados e expressos, e a arteterapia está a serviço dessa necessidade. Assim, são
projetados e expressos nos fazeres expressivo e artístico.
A inteligência emocional pode ser desenvolvida e aperfeiçoada no decorrer
da vida, porém, depende de disponibilidade interna e de vontade de mudarmos,
pois há uma significativa distância entre o que compreendemos que deve ser feito
e o que, de fato, fazemos para transformar a realidade. Relaciona-se com as ca-
pacidades criativas de termos contato com um problema e focarmos na solução
de forma eficaz.
126
Capítulo 3 PSICOSSOMÁTICA E ARTETERAPIA NO CONTEXTO
EDUCACIONAL
O foco é auxiliar o cliente a conhecer e a nomear emoções e sentimentos,
aceitar e reconhecer que fazem parte da essência dele. Ainda, ficar atento aos
gatilhos, em busca de entender o que querem transmitir, reviver e como podem
ser administrados.
A regulação emocional necessita desenvolver habilidades e estratégias para
que as emoções e os sentimentos venham à tona de forma adequada, a fim de
que haja contribuição para a sensação de bem-estar físico, além de cognitivo,
psicológico e social.
O contexto educacional é o palco de grandes acontecimentos na trajetória de
vida de uma pessoa. Depois da família, é um espaço importante de pertencimen-
to, relações sociais e liderança, e, se a criança é, emocionalmente, desenvolvida,
torna-se um adulto mais capaz de enfrentar e solucionar dificuldades.
A contribuição da arteterapia se relaciona a aprimorar as formas criativas de
observação de um problema, de busca de um significado e de um pensamento
crítico e uma relação positiva consigo mesmo e com o mundo ao redor.
A atuação, no campo da educação, envolve um enorme contingente de de-
safios e responsabilidades ao educador, uma vez que o profissional se depara
com inúmeras situações que vão além do ato de ensinar. Adentram, na escola, os
reflexos de todas as mazelas sociais que envolvem famílias, alunos, e que interfe-
rem no processo educativo.
Os constantes desafios e demandas, no contexto educacional, abarcam in-
clusão do aluno portador de necessidades especiais em uma turma regular; ca-
racterísticas das gerações e inserção delas no mundo digital; dificuldades relativas
ao dia a dia, das relações interpessoais com lideranças, colegas e familiares dos
alunos; sistemas político-pedagógicos ineficientes; e pouco respaldo de cursos
e treinamentos para lidar com essas variáveis. Assim, docentes da rede pública
municipal, e estadual, estão mais suscetíveis ao adoecimento emocional, sendo
vítimas da Síndrome de Burnout.
Segundo McDougall (2015), o estresse seria decorrente da Síndrome Geral
de Adaptação, a qual consiste em reações do corpo diante de situações estres-
santes. O desenvolvimento pode englobar três fases:
• Alarme: reconhecimento de uma situação estressante.
• Resistência: situações de estresse com mobilização de defesas, com
mais ansiedade e irritabilidade nas pessoas.
• Esgotamento ou Exaustão: fim de recursos; perda progressiva da ca-
pacidade diante do estresse.
127
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
Com relação à Síndrome de Burnout, é decorrente da cronificação do es-
tresse, além de outros acometimentos biopsicossociais associados à atividade la-
boral de uma pessoa, mais comumente, encontrada em ocupações assistenciais,
como nas áreas da saúde e da educação. A respeito do papel docente, são depo-
sitadas muitas expectativas e demandas. Outrora, era considerada uma profissão
nobre, mas deixou de ser valorizada, o que ocasionou uma série de implicações.
Muito exigido e pouco apoiado, o professor se tornou um profissional carente de
um olhar atento no campo do trabalho e no da saúde.
Ao olharmos pesquisas feitas na última década, temos uma visão mais ampla
dos problemas que têm persistido no dia a dia docente, o que traz sofrimento e
avanços e retrocessos para a saúde mental. Assim, diante de dados, parecem ser
um grito de alerta. Como lidar com essa problemática? Acreditamos que a artete-
rapia, na educação, pode ser uma alternativa valiosa.
GRÁFICO 1 – ESTATÍSTICA DE CASOS DE ADOECIMENTO DO
PROFESSOR NO BRASIL POR DOENÇAS PSICOSSOMÁTICAS
FONTE: <http://bit.ly/3QO0ybt>. Acesso em: 24 abr. 2021.
Segundo estudos, estamos na era da doença mental. Há quem
diga doença da alma, como a depressão e a ansiedade, considera-
das o mal do século. Envolvem crianças, adolescentes e adultos.
No livro da disciplina de Psicopatologia, estão descritas detalhada-
mente, como se manifestam e podem ser tratadas, assim, sugerimos que
você retome a leitura que abarca a depressão, os transtornos mentais.
128
Capítulo 3 PSICOSSOMÁTICA E ARTETERAPIA NO CONTEXTO
EDUCACIONAL
Por ser uma nova frente de intervenção do arteterapeuta que atua na educa-
ção, daremos destaque à Síndrome de Burnout.
A Síndrome de Burnout é definida como uma reação ao estresse elevado,
devido a uma tensão crônica gerada a partir do contato direto e excessivo com
outros seres humanos. Logo, o trabalho do educador, que orienta, ensina, cuida,
gera tensão emocional constante, o que pode levar as condições físicas dele a
um estado extremo, gerada uma fragilidade do corpo. Como essa síndrome se
manifesta?
• Exaustão emocional: sente que não pode dar mais de si mesmo. Per-
cebe-se esgotado, sem as energias física e mental, devido a um contato
diário com problemas.
• Despersonalidade: desenvolve atitudes negativas, como cinismo com
alunos, pais, colegas, equipe diretiva e familiares, assim, há um endure-
cimento afetivo.
• Baixo rendimento pessoal: entende afetadas a habilidade de realiza-
ção e a produtividade.
Doenças psicossomáticas: o cérebro pode nos adoecer?
ISSO É COISA DA SUA CABEÇA
FONTE: <https://www.amazon.com.br/>. Acesso em: 24 abr. 2021.
129
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
A doutora Suzanne O’ Sullivan, neurologista, autora do best sel-
ler Isso é Coisa da sua Cabeça, mergulha no desconhecido mundo
das doenças psicossomáticas. Afirma que, de noventa doenças, cin-
quenta são produzidas pela culpa, e, quarenta, pela ignorância. Es-
sas doenças são conhecidas há muito tempo, mas, em pleno século
XXI, continuam gerando muita incompreensão. Muitos veem como
simulações, falsidade.
[...] nós não temos um corpo; antes, nós somos o nos-
so corpo, e, dentro de todas as dimensões energéticas,
portanto, de forma global, devemos buscar razões para
justificar uma expressão legítima do homem, por meio
de manifestações do pensamento, do sentimento e do
movimento (SULLIVAN, 2016, p. 108).
Todas as emoções geram mudanças físicas. Por exemplo, falar
em público, para muitos, acelera o coração, as pernas tremem. Nin-
guém duvida da conexão entre emoções e manifestações físicas, en-
tretanto, surgem dúvidas para se reconhecer esse medo como fonte
de origem de sintomas mais graves. Ainda, há uma forte tradição que
separa o corpo da mente, ao considerar os fenômenos mentais como
ficção, e, os físicos, como o real.
A autora afirma que, no início da prática médica dela, recebia
pacientes com sintomas graves. Muitos apresentavam convulsões
epiléticas, no entanto, ao pesquisar isso, descobriu que não havia
um padrão neurológico que as abarcasse. O sintoma e a reação
eram idênticos aos pacientes nos quais era possível identificar uma
causa neurológica. Foi aí que entendeu que as manifestações são,
basicamente, as mesmas, o que varia é a origem, e, portanto, o pro-
tocolo de intervenção recomendado.
Sullivan conta que muitos dos pacientes se mostravam decep-
cionados, inclusive, irritados quando eram informados de que os pro-
blemas deles eram psicossomáticos. Costumavam pedir que os exa-
mes fossem repetidos ou buscavam segundas opiniões. Em muitos
casos, sentiam que estavam sendo considerados loucos.
Então, ao receber o diagnóstico, a pessoa precisa reconhecer
aquilo que, antes, decidiu ignorar, e muitos não estão preparados
para isso ou não acreditam nessa relação.
130
Capítulo 3 PSICOSSOMÁTICA E ARTETERAPIA NO CONTEXTO
EDUCACIONAL
Há estudos da Organização Mundial da Saúde, segundo os
quais uma a cada cinco pessoas possui, pelo menos, seis sintomas
físicos que não podem ser explicados por alguma razão orgânica, ou
seja, são psicossomáticos.
A neurologista demonstra que o problema continua sendo a re-
sistência de muitos pacientes em aceitarem o diagnóstico, já que é
necessária a colaboração ativa do paciente para atacar o que está
somatizado e produzir a sintomatologia. O sofrimento é real, portan-
to, é importante buscar, além de validar novas abordagens e metodo-
logias que tratem, profunda e resolutivamente, desse adoecimento.
Para saber mais, leia Sullivan, S. O. Isso é coisa da sua
cabeça. São Paulo: Editora Best Seller, 2016.
7 LINGUAGEM CORPORAL
A linguagem corporal é um recurso poderoso na arteterapia: teatro, dança,
jogo teatral, vivências corporais, biodança e dançaterapia. Na arte sensorial, na
prática arteterapêutica, focalizam-se o corpo e as sensações, como via de acesso
ao inconsciente.
Lígia Clark é fonte de inspiração para a arteterapia. Desenvolveu estudos e
práticas que envolveram a arte contemporânea e a sensorialidade e corpo e revi-
talizaram o campo, mediante técnicas psicoterapêuticas.
Por meio do contato com a obra, podemos nos reinventar, recriar a nossa
história e ressignificar a nossa existência.
É no aqui e agora que o acontecimento se dá como se fosse
pela primeira vez, embora, em um passado remoto, esse acon-
tecimento já se tenha dado através de sensações corpóreas.
Nós o sentimos hoje, não por tudo estar lá, mas, sim, por tudo
estar lá por sentirmos no aqui e agora (SANTANA, 2006, p. 96).
Nas atividades que envolvem as linguagens corporais, há:
• experiência de modalidade artística;
• investigação de sensações que vêm do corpo e dos sentidos;
• sentimento que vem do mundo interno, conexões com lembranças, me-
mórias, fatos importantes e crenças.
131
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
A arte corporal é a manifestação de sentimentos ou sensações internas, tan-
to quanto conteúdos mentais, por meio de movimentos representativos e simbó-
licos do corpo. A comunicação não verbal é representada por gestos, ritmo e tom
da voz, postura e movimento.
As modalidades artísticas que empregam a arte corporal proporcionam uma
forte consciência da própria estrutura corporal, para que tornem o corpo expressi-
vo e desenvolvam plasticidade.
Permite-se que o corpo fale, expresse, que seja ouvido, lido,
percebido nessa comunicação tão particular. Talvez, isso nos
liberte para a natureza se sermos nós mesmos, dentro dos
nossos corpos. Talvez, permita-nos estarmos mais conscientes
de nós, sermos mais livres, mais criativos, mais harmoniosos
(SANTANA, 2006, p. 67).
Segue um relato de experiência das artes sensorial e corporal que desen-
volvemos em uma sessão de arteterapia.
L. tem 30 anos, veio procurar apoio para aliviar a ansiedade e muita
tristeza. Perdeu seu marido com COVID, desde então, não tem von-
tade de comer, cuidar da casa e de si, nem de realizar atividades la-
borais. Reconheceu que existiam muitos conflitos, criados por ela, no
trabalho e na família. Referia-se ao aumento da irritabilidade e ao mau
humor incontrolável que vivia todos os meses, por conta da TPM.
L. relatou fortes dores de cabeça constantes. “Parece que vai explo-
dir”. Exames descartaram uma causa orgânica, assim, foi encami-
nhada para o atendimento arteterapêutico.
O foco inicial foi um exercício de programação mental para o alívio da dor:
- Identifica em que parte do corpo se localiza a dor e coloca a mão.
Nesse local, o que o sintoma quer dizer? Qual é a cor da dor? De 0 a
10, qual é intensidade da dor?
- Visualiza um balão que tem a cor da dor, bem grande e vibrante, e
segura nas mãos.
- Solta o balão e percebe os movimentos que ele faz no ambiente. Vai
diminuindo e clareando a cor. Observa, atentamente, os movimentos.
132
Capítulo 3 PSICOSSOMÁTICA E ARTETERAPIA NO CONTEXTO
EDUCACIONAL
- Muito pequeno, ele se aloja na mão. Parece uma bola de sabão.
Explode a bola.
- Percebe como está a dor? De 0 a 10, como está?
L. disse que o exercício trouxe lembranças da infância, pois se lem-
brou dela, menina, brincando de balão. Então, pedimos que conver-
sasse com a imagem, e me dissesse com o que aquela menina so-
nhava. Fez um desenho com casa, pessoas, corações, uma grande
grade sobre essas imagens. Disse que o sonho de infância era viver
um grande amor, além de casar e ter filhos.
Essa experiência permitiu ter contato, simbolicamente, com a frustra-
ção dos sonhos infantis, dor, luto pela perda, medo do desconhecido,
sensação de solidão e planos destruídos.
Desde então, encontramo-nos por uma hora, semanalmente. As ses-
sões de arteterapia individual foram um espaço de acolhimento da dor,
frustração, medo e angústia dela, e permitiram o contato com senti-
mentos e pensamentos negativos que, por serem represados, refle-
tiam-se em dores psicossomáticas.
As dores emocionais ficaram claras, visíveis, ganharam voz, cor, mo-
vimento e palavras. A dor de cabeça cotidiana desapareceu, e apa-
receu, somente, em situações de extrema tensão, mas, ao aplicar a
técnica de programação mental, logo, amenizou.
Muitos médicos nos encaminham clientes com sintomas ou diagnósticos
de doenças psicossomáticas, e muitas educadoras fazem parte. Surgiu
um grupo de arteterapia com mulheres, que ocorre duas vezes ao mês.
L., agora, faz parte dele. Passou a fazer atividades físicas, biodança e
reeducação alimentar para eliminar o sobrepeso, o que afetava a au-
toimagem dela, e passou a produzir mais dopamina e serotonina, hor-
mônios do bem-estar. Assim, tem criado oportunidades para fazer novos
amigos, harmonia familiar e um bom clima com colegas de trabalho.
Assumiu a condição de protagonista, e deixou, como figura de fundo,
a vitimização (tem recaídas, o que é normal). Começou a administrar
a própria dor, sem depositá-la em comportamentos agressivos, o que
gera tensão no ambiente e magoa pessoas. Aos poucos, vai libertan-
do a criança ferida, construindo novos projetos, reconstruindo a vida e
se permitindo novos sonhos e que outras pessoas façam parte deles.
133
F. DA ARTETERAPIA: MÉTODOS E PROCESSOS
1 A arteterapia, na educação, como pode contribuir para o
tratamento de doenças psicossomáticas?
2 Professores da rede pública enfrentam muitos estresses
externos, os quais podem desencadear fragilidades, o que
culmina no afastamento da atividade laboral. O que é e quais são
os sintomas da Síndrome de Burnout?
3 Com relação à prevenção de doenças psicossomáticas, qual é a
contribuição da arteterapia?
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
Ter saúde é manter o bem-estar físico, além de mental e espiritual, com uma
visão integral, contempladas todas as dimensões humanas.
As práticas integrativas atuam na área do desenvolvimento humano, nos âm-
bitos da prevenção e do tratamento de doenças emocionais. A arteterapia se in-
terliga à educação, sendo uma ponte, a fim de contribuir para a consciência dessa
nova ética de cuidado e a prevenção de problemas internos e externos do aluno,
do educador e de funcionários.
O lidar com as linguagens expressivas e artísticas, em um contexto artetera-
pêutico, desperta percepção, criatividade, cognição, imaginação e sensibilidade
de se expressar por meio da dança, música, linhas, formas e cores tão sutis e tão
reveladoras dos imaginários social e humano, com a criação de um vínculo afetivo
e expressivo do cliente com o fazer artístico.
No preenchimento do espaço do papel, ou da tela; no encontro com o vazio,
com o contraste entre os claros e os escuros; e na luz e na sombra, o processo
criativo vai ganhando espaço e forma durante o fazer.
Nos movimentos da dança; das palavras, poeticamente, escritas e faladas; e
das imagens mentais e reais, as linhas ganham movimento e permitem a expres-
são dos medos, das raivas, das alegrias e das tristezas.
Portanto, a arteterapia se consolida, cada dia mais, como uma metodologia
de interfaces, com ferramentas simples e preciosas no espaço educacional.
134
Capítulo 3 PSICOSSOMÁTICA E ARTETERAPIA NO CONTEXTO
EDUCACIONAL
O teatro da vida coloca o arteterapeuta e o cliente face a face ao se conectar
com diferentes personagens, por vezes, vítima, vilão, herói, uma verdadeira cons-
cientização da diversidade de papéis que assumimos por opção, ou falta deles.
Há a compreensão de que, em determinados momentos, somos o nosso maior
antagonista, e, em outros tantos, um protagonista que merece aplausos.
Vivemos enredos surpreendentes, a partir dos quais o corpo sai da obscuri-
dade do subjugado lugar de segundo plano, tem uma participação efetiva, expres-
sa saúde ou somatiza e pede cuidado.
A música, no teatro da vida, revela sons com os mais diferentes acordes,
desde o pulsar do coração, da natureza, até de composição de Vivaldi. Nossos
órgãos dos sentidos são ativados, pois a sonoridade leva a mente, o corpo e a
alma a diferentes estados de emoção, e traz memórias, emoções e sentimentos
revisitados pois nos fortalecem ou nos ressignificam, pois nos aprisionam.
A expressividade do ser humano se faz presente em uma relação dialética
entre corpo e mente, razão e emoção, pois, ao criar, o ser dá significado a si mes-
mo e ao mundo em que vive.
REFERÊNCIAS
GOLEMAN, D. Inteligência emocional: a teoria revolucionária que define o que
é ser inteligente. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
LOWEN, A. Prazer: uma abordagem criativa da vida. São Paulo: Summus, 1986.
MCDOUGALL, J. Teatros do eu; Ilusão e verdade na cena psicanalítica. São
Paulo: Zagodoni Editora, 2015.
MERLEAU-PONTY, M. A. Estrutura do comportamento. Belo Horizonte:
Interlivros, 1975.
SANTANA, R. Linhas vivas. São Paulo: Editoras Paulinas, 2006.
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