17 de maio.
Cara Flora,
Fumaça, fogo e morte. Essas são as três palavras capazes de definir o decorrer das últimas
horas de confronto. Foi o que disse ao Pe. Ignácio, que tem nos acompanhado desde que
deixamos Aldebarán; ele não dignou-se a me responder, apenas baixou os olhos e suspirou
algo inaudível, que entendi como um suspiro de concordância, varrido pela poeira que se
levantava da terra. Um cheiro de resignação paira no ar.
Com desmedida grosseria, típica dos oficiais de nosso país, o coronel Anteparo García
dispensou a presença do sacerdote, que ajeitou as lentes do óculos redondo que carrega
sobre o nariz, despediu-se timidamente e partiu. Na sequência, ele mandou que me
dirigisse até a tenda hospitalar, com o funesto instituto de apurar a contagem dos mortos. O
médico, Hector Hernández, o homem no qual encontrei a ternura de um amigo, recebeu-me
com um aperto de mão, que fundiu o suor e o sangue que escorriam em nossos dedos. Ao
todo, contamos doze feridos e trinta e dois mortos. Trinta e dois!
De sua barraca, o coronel Anteparo vigia a chegada dos novos reforços, enviados de Vega.
À caráter de contexto, chegamos a Aldebarán há duas noites, e aqui nos deparamos com
uma cidade praticamente deserta, carente de qualquer vida ou alegria. Lembro-me
perfeitamente da expressão de Arlindo Rodríguez e suas palavras diante desse receptáculo
de desassossego, "se Deus deu felicidade a esta gente, recolheu-a de volta para si."
Nossas mulas estavam cansadas de tanto andar, inebriadas pela poeira dos páramos e pelo
vento frio que descia das montanhas. O vigário local veio diligentemente saudar-nos,
apresentado-se como Pe. Héctor Hernández, como já lhe mencionei. Após ser submetido a
rispidez do interrogatório de meu superior, Pe. Hernández dividiu sua atenção aos soldados,
lendo-lhes versículos que traziam esperança e dando a extrema unção àqueles que
desejassem. Tempo depois, veio ter comigo.
— Qual é o teu nome, meu filho?
— Valdir Rivera, padre.
— E donde vens?
— De Alhena.
— Meu amigo, o Pe. Francisco Antunes, é de lá. Decerto o conheces.
— Por certo. Pe. Francisco é capelão na Vila dos Sapateiros, onde nasci e me criei.
Um disparo de carabina sobressaltou-nos, quebrando o ritmo da conversa.
— Caranchos filhos da puta! — berrou um jagunço saído ninguém sabia de onde, que agora
corria em nossa direção, a cabeleira negra e desgrenhada soprada pelo ventania.
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, a bala disparada pela pistola do coronel Anteparo
rasgou suas vestes, atravessando o seu peito e levando consigo um rastro de sangue que
formou uma poça no chão de terra alaranjada.
— Porco maldito. — Anteparo limitou-se a dizer.
A lua não demorou a surgir no horizonte, contornando com um brilho prateado os espinhos
dos cactos que davam de beber aos soldados famintos. Por ordem do coronel, vários de
meus companheiros espalharam-se pela cidade, montando vigília em pontos estratégicos,
ocultos pela sombra dos telhados, a penumbra dos becos ou as esquinas mal iluminadas.
Pela primeira vez em muitos dias, tive o privilégio do sono.
Durante a noite, madrugada alta, ouvi o estrondo de um canhão não muito longe de minha
tenda. Os clarões das explosões projetavam nas paredes de minha tenda sombras
fantasmagóricas de homens correndo sem rumo, subitamente explodidos por um balaço de
chumbo que distribuía pelos ares dezenas de pedaços de seus corpos. Imediatamente,
peguei minha carabina e saí, atirando em todas as direções, com pedaços de sonhos ainda
pendendo em meus olhos.
Tudo que sei é que acordei na manhã seguinte estirado no chão, o rosto repleto de
hematomas e arranhões, com o corpo de um de nossos inimigos sobre o meu, com a boca
escancarada, tomada pelas moscas. Com esforço, joguei-o para o lado e me levantei,
limpando em vão o pó de minha farda e mirando o sol da manhã, com uma das mãos
formando uma aba sobre os olhos. Mais tarde, quando serviram nossa dose diária de ração,
um de meus companheiros relatou o que houve.
— As tropas de De La Cruz nos atacaram durante a noite – derrubaram de surpresa nossas
sentinelas, cercaram o acampamento e abriram fogo. Por sorte, acordamos a tempo de
desabilitar-lhes os canhões e proteger o armazém.
— Que foi que houve comigo?
— Um bugre tentou esfaqueá-lo no meio do combate, arrancou a carabina de suas mãos e
começou a desferir-lhe golpes raivosos. Ramírez deu-lhe um tiro que parou na jugular.
Depois, ele caiu sobre você, que ficou desacordado até o fim do ataque.
Passei o resto do dia refletindo sobre a cena, que fugiu totalmente de minha lembrança.
Agora, escrevo-lhe esta carta com pressa, pois logo partiremos para outra província, e não
tenho previsão de quando voltarei a dar-lhe notícias.
Por favor, diga-me como andam as coisas em Alhena – os ânimos da guerra, o pânico, os
amigos que deixei para trás. Diga ao Pe. Francisco que seu correspondente de Aldebarán
lhe manda lembranças. E, acima de tudo, diga-me como está você, minha irmã, pois anseio
por notícias suas, escritas de próprio punho, que no momento são a única coisa capaz de
trazer paz para este militar cansado.
Não esqueça que a amo profundamente, e espero logo poder retornar para nossa casa no
fim da Rua das Flores, onde o verde das castanheiras e o colorido das casas nos convidam
a ser felizes.
Com carinho, do seu
Valdir Rivera.
Diário de Valdir Rivera, 18 de maio.
Escrevi para Flora ontem, ainda atordoado com o ataque repentino em Aldebarán. Me
tranquiliza saber que De La Cruz voltou sua atenção para o norte, longe de Alhena, por
mais que isso signifique a iminência de novos confrontos.
Levantamos acampamento logo após o almoço, e fizemos uma varredura na cidade e
arredores para garantir que não voltaríamos a ser atormentados novamente. Um carroceiro
da região, que misteriosamente surgiu na cidade ao alvorecer, limitou-se a nos dizer que De
La Cruz enviou tropas para Canopéa, saqueando e incendiando os vilarejos ao redor.
Segundo ele, um destacamento dos Vagalumes havia invadido e massacrado uma aldeia,
tomando a mulher dos índios que ali viviam e em seguida matando a todos. Nada
saquearam, pois não viram valor nos objetos simples daquela gente.
Martin Ferrera deu-me um cigarro. Afastei-me um pouco do restante dos homens para
fumar; foi quando o carroceiro decidiu puxar conversa.
— Ocê vem de muito longe?
— Um pouco.
— Matou muita gente?
— Um bocado.
— Sente culpa?
— Por vezes.
Não me apetecia aquele papo furado, que tantos outros já vieram ter comigo. Às vezes, é
como se a gente sentisse culpa por obrigação, porque esperam isso da gente. Quando vim
para esta guerra, a contragosto, tudo me parecia extremamente cruel e desumano, como
se, a cada tiro, eu matasse também a mim – um pedaço de minha alma. Logo, descobri que
era muito pior. Para um soldado, a guerra é um trabalho, é nossa maneira de levar a vida,
então degolar alguém é, para nós, como o ato de cortar madeira para o serralheiro. Por uma
infelicidade que nem mesmo Deus é capaz de explicar, esse ofício vai se tornando comum.
Jamais hei de me acostumar com os horrores da morte, e jamais hei de dormir da mesma
forma, sem acordar suado, repassando mentalmente todas as barbaridades que vi e sofri.
Ademais, anseio grandemente poder voltar para casa, esquecer de uma vez por todas essa
vida infernal, jamais empunhar uma arma novamente, voltar a ser feliz sem ter nas mãos o
sangue inimigo, ou então o meu próprio. Porém, com uma velocidade que escapa a nossos
olhos, a matança vai nos conformando, deixando-nos céticos. Aos poucos, vamos nos
tornando animais.
Aposto minha própria alma que, antes de tudo isso, o coronel Anteparo era um bom
homem, bom pai, bom marido. Mas não lhe repreendo por ter se deixado endurecer pelo
ofício da guerra. Todo dia, no campo de batalha, é um trago de desamparo e medo. Nosso
peso não é pela culpa de matar, mas sim por fazê-lo com tamanha naturalidade.
— Sente por aqueles índios?
— Sinto por todos, meu senhor. Sinto mais por mim, e olhe que eu tenho uma casa para
onde retornar — se eu retornar.
Por fim, procurei a capela daquele povoado, e lá encontrei o Pe. Hernández, que
comungava sozinho, e rezava pela vida daquela cidade. De maneira direta, pedi-lhe
confessionário.
— Queira o Senhor me perdoar pelo que digo, — disse o Pe. Hector — mas, às vezes, acho
que Deus também devia se confessar.