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Violência na Ditadura: Análise do Projeto ORVIL

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Anos 90: Revista do Programa de Pós-

Graduação em História
ISSN: 0104-236X
[email protected]
Universidade Federal do Rio Grande do
Sul
Brasil

Brandão, Priscila Carlos; Leite, Isabel Cristina


Nunca foram heróis! A disputa pela imposição de significados em torno do emprego da
violência na ditadura brasileira, por meio de uma leitura do Projeto ORVIL
Anos 90: Revista do Programa de Pós-Graduação em História, vol. 19, núm. 35, julio-,
2012, pp. 299-327
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Porto Alegre, Brasil

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Como citar este artigo


Número completo
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Nunca foram heróis! A disputa
pela imposição de significados
em torno do emprego da violência
na ditadura brasileira, por meio
de uma leitura do Projeto ORVIL
Priscila Carlos Brandão*
Isabel Cristina Leite**

Resumo: Este texto aborda o processo de criação, execução e divulgação do


Projeto ORVIL, a partir da perspectiva de um de seus principais executores: o
então tenente-coronel “N2”. O projeto foi pensado ainda no início de 1984 e

* Priscila Carlos Brandão é professora adjunta do Programa de Pós-Graduação


em História da Universidade Federal de Minas Gerais, coordenadora do CEEIG
(Centro de Estudos Estratégicos e Inteligência Governamental) da UFMG e líder
do Diretório de Pesquisa do CNPq “Inteligência Governamental”. Pós-doutora
em Ciência Política pela Universidade de Burgos (2011) e doutora em Ciências
Socais pela UNICAMP (2005). Desenvolve pesquisa sobre a reforma dos seto-
res de informações/inteligência desde o período da ditadura brasileira e sobre a
implementação do Sistema Brasileiro de Inteligência de Segurança Pública/SISP.
Atuou como coordenadora do primeiro curso de Especialização em Inteligência
de Segurança Pública promovido pela SENASP/MJ, em parceria com a UFMT.
Também atua como consultora do Governo Federal e de alguns governos estaduais
no processo de elaboração de políticas para a área de inteligência de Segurança.
** Isabel Cristina Leite é doutoranda em História Social na Universidade Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ) e tutora de História da América III na Universidade
Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Desenvolve a pesquisa: Ningún
justificativo nos vuelve inocentes: a construção da memória sobre a luta armada
na Argentina a partir dos anos 1970.

Anos 90, Porto Alegre, v. 19, n. 35, p. 299-327, jul. 2012


Nunca foram heróis! A disputa pela imposição de significados...

propunha a elaboração de uma “Escrita da História” que deslocasse o discurso que


vinha sendo produzido pelos militantes de esquerda acerca da tortura no Brasil,
principalmente a partir da Anistia, e divulgado por meio de entrevistas e de uma
extensa bibliografia memorialística. Permeado pelo discurso relativo à memória
e às disputas realizadas em torno de sua imposição, o texto analisa, a partir da
perspectiva individual, como esta construção se traduziu em um cenário institu-
300

cional. Procuramos: a) compreender como um determinado grupo de militares,


marcadamente ultraconservadores, concebiam-se no cenário do golpe militar e
de implementação da repressão; b) perceber quais estratégias foram e ainda são
utilizadas para contar e rememorar esse passado e, por fim; c) identificar quais
fatores possuem capacidade de intervir nessa construção, tanto da perspectiva
endógena, em termos de instituição, quanto exógena.
Palavras-chave: ORVIL. Serviços de Informações. Tortura. Memória. Ditadura
Brasileira. Serviços Secretos.

Introdução

Obcecada pelas memórias de trauma e violência características


dos regimes autoritários e totalitários do século XX, a sociedade
contemporânea encontra-se imersa em uma espécie de obrigação
permanente de recordar, de evocar o passado e torná-lo presente,
passível de inquirição (HUYSSEN, 2004, p. 22). Necessidade que
vem sendo interpretada e nominada de diversas formas pela histo-
riografia, a exemplo da “hegemonia do efêmero”, de Pierre Nora
(NORA, 1994, p. 17-42), e da “sociedade musealizada”, de Hugo
Achugar (ACHUGAR, 2003, p. 199).
A construção da memória reflete a soma entre vários produ-
tos individuais, resultantes de um processo particular entre o que
se lembra, como se lembra e o que se esquece, por um lado, e um
produto coletivamente compartilhado, resultante dos embates entre
o que se deseja que seja lembrado e como, e o que se deseja que seja
esquecido, por outro. Nesse ínterim, estão envolvidos todos os tipos
de conflitos possíveis, sejam eles geracionais, corporativos, étnicos
etc., porque, apesar de a memória ser uma reconstrução do passado,
está orientada pelos interesses presentes. Assim, paradoxalmente,
“a memória” é sempre um dos produtos da luta pela imposição de
“determinadas memórias”. Até mesmo da perspectiva individual,

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Priscila Carlos Brandão, Isabel Cristina Leite

reflete experiências coletivamente compartilhadas em um contexto


social, de existências que foram compartilhadas em harmonia ou
de forma antagônica, em determinado espaço e tempo, e cujo “ato
de lembrar” responde a interesses do presente.
A dinâmica do lembrar e esquecer ocorre sempre no mo-
mento presente. Não obstante, sua temporalidade é subjetiva, é

301
relativa ao passado, ao mesmo tempo em que cobra vínculo com o
presente e busca projeções para o futuro. Quando analisamos uma
memória puramente dessa perspectiva, não existem formas de obs-
truir reinterpretações, leituras ou a elaboração de novos sentidos,
pois, conforme destacam Elizabeth Jelin e Suzana Kaufman, “[...] al
analizar la memoria, estamos frente a múltiples inter-subjetividades,
múltiples transmisores y receptores de recuerdos parciales, múltiples
sentidos, ambíguos, contracditórios, en puja.” (JELIN; KAUFMAN,
1998, p. 11)
Assim, um trabalho sobre memória exige que se construa uma
distância temporal necessária entre o pesquisador e o seu “objeto”
de análise, um recuo que permita historicizá-la. Apenas dessa forma
será possível analisar as transformações pelas quais passam cada
um dos atores sociais envolvidos e compreender o que recordam
ou esquecem, porque recordam ou esquecem (JELIN, 2002, p. 02).
“Como” e “porque” se lembra ou se esquece é uma discussão
primordial neste trabalho. A tentativa de imposição de uma deter-
minada memória e de esquecimentos específicos, oculta os embates
existentes entre distintas memórias rivais. A construção dessa
memória é um campo de luta política. Enquanto elemento cultural,
a memória é capaz de construir significados e assim fortalecer o
sentimento de pertencimento, mas, enquanto mecanismo político, a
interpretação a ser fixada e reproduzida visa a legitimar determinados
discursos, ao mesmo tempo em que busca desqualificar outros. O
passado é interpretado em função destas lutas do presente.
Tais embates são particularmente conflitantes, quando estão
em disputa memórias dos militantes de esquerda e aquelas defen-
didas pelos organismos de Defesa dos Direitos Humanos, por um
lado, e a memória de militares, do outro, no contexto das recentes
ditaduras latino-americanas. Mais do que imprimir significados,
as lutas pela demarcação dessa memória possuem um caráter

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Nunca foram heróis! A disputa pela imposição de significados...

instrumental, uma vez que envolvem a possibilidade de compensação


(e definição) de vítimas, a atribuição de responsabilidades àqueles
que recorreram ao uso da violência, bem como o reconhecimento
público e institucional sobre o desencadeamento de determinados
crimes. Tratam-se de batalhas dominadas por paixões e convicções,
como destacam Felipe Aguero e Eric Hersberg, com uma dose nada
302

desdenhável de cálculos estratégicos, cujas estratégias, não raro,


resultam inoportunas, mal concebidas ou deslocadas da realidade.
(AGUERO; HERSHBERG, 2005, p. 02)
Há pelo menos quarenta anos, existe uma tentativa de se fixar
um relato padrão entre os militares do Cone Sul para explicar os
processos que levaram às ditaduras, assim como justificar as vio-
lações aos direitos humanos durante estes regimes. Este relato está
centrado no combate à subversão e na precariedade dos governos
que antecederam aos golpes militares (MARCHESI, 2005, p. 175).
Dessa maneira, há uma tentativa de construir uma memória baseada
no heroísmo castrense e na defesa dos valores nacionais, frente ao
inimigo “subversivo marxista”, que muito povoou o imaginário
popular sobre sua suposta periculosidade (MOTA, 2002, p. 37).
Com o presente artigo, visamos a reconstituir e apresentar
alguns debates desta tentativa de imposição de memória construída
pelos militares no apagar das luzes da ditadura militar no Brasil, assim
como problematizar sua inserção em um contexto maior de busca
de legitimidade sobre a narrativa do passado. Para tanto, centra-
remos nossa pesquisa no denominado Projeto ORVIL (anagrama
de “livro”, em português) que veio à tona em 2007, por meio da
análise do documento que lhe deu origem, do depoimento de um
de seus principais executores e de alguns discursos deste projeto,
ainda hoje em dia atuantes, por meio do site TERNUMA1.
Optamos por privilegiar o depoimento como fio construtor
de nossa pesquisa, pois entendemos que há a construção de uma
narrativa plausível sobre os fatos que levaram ao aparecimento do
ORVIL. Todavia, estamos conscientes do processo de construção
de memória ali envolvido. Entendemos que a divulgação de parte
desta documentação do ORVIL, na internet, funcionou como um
“nó convocante” da memória, que conduziu o depoente à releitura
do próprio regime militar e suas ações e reafirmação de suas posturas

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dentro da hierarquia militar e de suposto compromisso com a so-


ciedade, no sentido de se contar o que “realmente aconteceu”. Na
disputa pela legitimidade da reconstrução do período da ditadura
militar, os militares construíram uma racionalidade acerca do tema,
enfatizando aspectos da vida militar e subestimando valores da vida
civil (D’ARAÚJO; CASTRO, 1994, p. 04)

303
Estamos cientes de que está sendo apresentada uma versão
da história, que, como veremos, poderá ser confrontada com outra
divulgada pelo jornalista Lucas Figueiredo, nas questões que se
referem, principalmente, à origem e às motivações do livro, trazidas
a público por meio de uma série de reportagens sobre o ORVIL,
produzidas em 2007, e que mais tarde deram origem ao livro: Olho
por olho. Os livros secretos da ditadura, publicado em 2009.
Manipular e cotejar estas duas fontes é uma tarefa delicada,
em função do teor dos dados contidos no livro, que se baseia,
como será visto adiante, em Informes produzidos pelas Forças
Armadas e por depoimentos de militantes. Atualmente, já se sabe
que no Brasil, como também no Paraguai, parte desses documentos
“confessionais” de militantes foram produzidos em situações-limite,
como a tortura (JELIN; CATELA, 2002, p. 05). De todo modo, o
aparecimento do ORVIL reanimou o debate acerca da busca pela
legitimidade da memória da ditadura civil-militar brasileira e eviden-
ciou que ainda há muito o que se descobrir e discutir sobre o tema.

O Projeto

Pensado ainda no começo do ano de 1984 como uma forma de


se contrapor ao destaque que ganhavam as memórias de militantes
de esquerda sobre a ditadura militar brasileira, o projeto ORVIL
não pode ser compreendido separadamente do seu processo de
extensiva divulgação, iniciado em 2007, e que tem continuidade por
meio dos sites do projeto TERNUMA e do Jornal Inconfidência2, bem
como sem uma análise sobre seu principal mentor e executor: N2
ou F. Dumont, conforme pseudônimos adotados pelo autor em
entrevistas (N2) e nos sites do projeto TERNUMA e do Grupo
Inconfidência (F. Dumont) 3.

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Nunca foram heróis! A disputa pela imposição de significados...

Considerar parte da trajetória deste ex-analista de informações


do Centro de Informações do Exército é fundamental para a com-
preensão da batalha que vem sendo empreendida por alguns mili-
tares, no sentido de impor sua versão dos fatos sobre a aplicação
da violência durante a recente ditadura. Neste sentido, pode ser
dividida em três tempos: 1984 – quando N2 elabora a Apreciação que
304

destaca a necessidade de se reescrever a história das esquerdas no


Brasil4; 2007 – quando a divulgação da obra pela mídia o incentiva
a falar mais detalhadamente do projeto; e a partir do final de 2010
– quando, após sua aposentadoria definitiva, sob o pseudônimo
de F. Dumont, começa a publicar sistematicamente, no site do
TERNUMA, análises detalhadas sobre organizações de esquerda,
retiradas do próprio projeto, cujo teor já se encontra disponível para
download em sua íntegra.
Optamos por privilegiar o depoimento como fio construtor
de nosso trabalho, pois entendemos que existe a construção de uma
narrativa plausível sobre o desencadeamento do projeto, endossada
por documentação, e por uma política identificável de N2, de manter
o debate aceso, por meio de suas publicações no site do TERNUMA.
Estamos conscientes do processo de construção de memória envol-
vido, que estamos apresentando uma versão da história, que será
confrontada com outra, divulgada pelo jornalista Lucas Figueiredo,
trazidas a público em uma série de reportagens sobre o ORVIL em
2007, que posteriormente ensejaram a publicação do livro: Olho por
olho. Os livros secretos da ditadura, em 2009.
Manipular e cotejar estas duas fontes é uma tarefa delicada,
face o teor dos dados contidos no livro, baseados principalmente
em Informes5 e em depoimentos de militantes. De todo modo, o
aparecimento do ORVIL reanimou o debate acerca da busca pela
legitimidade da memória da ditadura e evidenciou que ainda há
muito o que descobrir e discutir sobre o tema.

A história narrada por N2

Pensado ainda durante o governo do último general-presidente,


João Batista Figueiredo, em 1984, por um analista do Centro de

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Priscila Carlos Brandão, Isabel Cristina Leite

Informações do Exército (CIE), o projeto que posteriormente seria


nominado ORVIL visava à construção de uma narrativa histórica
baseada na visão dos “vencedores”. Preocupado com a memória
produzida pelos “terroristas” por meio de um “Trabalho de Massa”
(mídia, movimentos estudantil, religioso, político, sindical),6 e concre-
tizado pela publicação de livros autobiográficos7 e divulgação de

305
entrevistas, N2 expressou ao chefe do CIE a necessidade de viabilizar
a construção de uma “história verdadeira”, que deslegitimasse o
discurso realizado pelos comunistas. Estes estariam atuando agres-
sivamente, deturpando os fatos, distorcendo as notícias, imprimindo
significados diferentes aos “fatos históricos”. Faziam com que a
“história da subversão”, que “já havia ficado na história”, fosse
reescrita “do modo que lhe é conveniente”.8
A história da subversão já havia sido colocada pelos militares
em seu devido lugar, principalmente por meio da anistia. O debate
em torno da publicação desta versão “deturpada”, que transformava
“antigos terroristas” em heróis, implicava revolver o passado, cujo
esquecimento era uma das condições básicas do compromisso não
escrito da transição: “Os terroristas de ontem, estão sendo, hoje,
glorificados, ganhando nomes de ruas, praças e avenidas. Nas as-
sembleias legislativas os Lamarcas são descritos como patriotas e
defensores do povo”9.
Mas uma vez remexida essa história, era necessário reescrevê-la
de forma a transformar as “vítimas” dos terroristas em heróis. Era
preciso homenageá-los, reverenciar suas famílias:

Enquanto isso, os que deram o sangue contra a subversão fo-


ram esquecidos. Seus filhos nunca viram um ato de reconhe-
cimento pelo sacrifício de seus pais. E pior: constantemente
vêem seus nomes tachados de sádicos torturadores, opres-
sores e reacionários10.

Evidentemente preocupado com o público interno e com o


papel que estaria sendo pensado para as Forças Armadas em um
processo de transição, propunha construir uma história que não
permitisse aos jovens militares repetirem as histórias que estariam
lendo e escutando, de que os militares nada mais teriam sido do que

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“radicais de direita, corruptos” e “agentes do imperialismo ianque”.


Por outro lado, era preciso reafirmar a imagem dos “terroristas”
como “delinquentes e clandestinos”11.
Para tanto, foi proposto um plano de pesquisa que seria reali-
zado em três fases sucessivas: a) Primeira fase (curto prazo): seleção
dos casos mais conhecidos de ação dos guerrilheiros, para posterior
306

produção de slides, ilustrações e quadros a serem divulgados em


aulas ou palestras; b) Segunda fase (médio prazo): ampliação da
pesquisa para casos menos conhecidos e; c) Terceira fase (longo
prazo): produção de livros amparados por essas informações12. De
acordo com N2, apesar de haver “muita coisa que não pode ser
contada”, os militares tinham os dados e os fatos para a construção
desta, apenas faltava-lhes “a vontade e a decisão”.13

Figura 1 - Nosso personagem e sua luta

Apreciação S/No A1 – 27 Mar 84

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Mas quem é este personagem que, no limite de sua obediência,


não apenas provoca o debate, mas também questiona o comporta-
mento de seus superiores, ao sugerir que faltaria vontade política do
Exército, ainda em pleno regime militar, para escrever sua própria
história?
Pois bem, N2 era um tenente-coronel do Exército e havia se

307
tornado membro do extinto CIE apenas um ano antes, em 1983.
Ingressou na carreira militar em 1962, por influência de um tio e,
em 1969, teve seu primeiro contato com a área de informações, por
meio do Curso de Informações do Centro de Estudo Pessoal do Exército
(CEPE). Em função de seu ótimo desempenho como aluno, teria
sido convidado a lecionar no Centro no ano seguinte, prosseguindo
com suas aulas, mesmo quando o curso foi transferido para a Es-
cola Nacional de Informações (ESNI), criada em 197114. Atuou
no Destacamento de Operação Interna (DOI) entre 1975 e 1981 e
teria sido, segundo seu depoimento, o responsável por desenvolver
uma capacidade de coleta e análise de informações e por suprimir
“a parte operacional do DOI”15. Ou seja, está afirmando que teria
acabado com o processo de tortura e prisões a partir de meados da
década de 1970.
Formado em Filosofia e profundo conhecedor dos discursos
hegeliano e marxista, N2 define-se como um homem da área de
análise de informações, o qual, em função de sua experiência e
conhecimento (teria sido considerado o maior especialista em es-
querdas do país naquele período), foi convidado, em 1983, a integrar
o CIE. No papel de analista e “observador”, atento às publicações
do período, teria se alarmado face o número de livros que vinham
sendo editados no – e sobre – o país, que abordavam a questão
da violência empreendida pelo governo após a “revolução demo-
crática”. Em sua concepção, esta leva de informações faria parte de
uma trama da esquerda para desqualificar e deslegitimar a atuação
dos militares. Tal literatura, em sua maior parte composta de depoi-
mentos e biografias, seria responsável por fixar uma memória “falsa”
sobre a atuação do Exército, que sempre teria agido em defesa dos
interesses democráticos e da ordem.
Lendo a emergência e o crescimento dos discursos proferidos
pelos militantes como uma nova “[...] tentativa de tomada do poder”,

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N2 sugeriu a seu chefe imediato, por meio da Apreciação S/No-A1,


de 27 de março de 1984, que se escrevesse uma outra história. Tal
sugestão seria acatada apenas em 1985, já no governo José Sarney,
durante a gestão do Ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves:
308

Isso aqui deve ter ficado como um gérmen na cabeça de


algumas pessoas. Quando chegou em 1985, quando o coro-
nel Agnelo Del Nero assumiu a Seção de Análise do CIE,
eu mostrei isso aqui [a Apreciação] para ele. Não sei se ele
já tinha vindo com essa ideia ou não, ele assumiu isso aqui,
para fazer um livro.16

A pesquisa foi dividida de forma mais ou menos equilibrada


entre os membros. O chefe do CIE reuniu alguns de seus oficiais em
busca de ideias, entre as quais N2 destacou a fornecida por membros
da Seção de Contrainformações, que propunham a contratação de
escritores para a redação da pesquisa que seria realizada pela área
de informações. Por falta de recursos, a proposta foi recusada e o
chefe do CIE articulou o desencadeamento da pesquisa a partir do
material humano disponível, seus analistas.
Inicialmente, ainda em meados de 1985, Del Nero teria ado-
tado a metodologia de dividir as principais organizações comunistas
entre os analistas e estabelecido um prazo de dois meses para que
cada um pesquisasse e produzisse um documento sobre determinada
organização de esquerda17. N2 relatou que produziu um documento
muito rápido sobre o Movimento Revolucionário Tiradentes e o
encaminhou para o coronel, que teria ficado impressionado com
a qualidade do trabalho e com o nível de sua capacidade analítica.
Em função deste destaque (em sua concepção, o fato de ter cursado
Filosofia contribuí para a sofisticação de suas análises), Del Nero
optou por lhe repassar os documentos que estavam sendo produ-
zidos por outros analistas, de modo a empreender um processo de
revisão, verificando se as informações acerca das organizações esta-
riam corretas. As fontes consultadas foram os informes, informações
coletadas em relatórios periódicos, documentos de operações e,
principalmente, depoimentos coletados durante interrogatórios18.

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Entretanto, os problemas na pesquisa logo surgiriam, acar-


retando uma interrupção do trabalho: “Isso aqui não dá para conti-
nuar, é que tinha morto assaltando banco. O terrorista tinha sido
morto em abril, e estava assaltando banco em julho”19. De acordo
com o depoente, os erros ocorriam em virtude da composição
heterogênea destes analistas, especialistas em movimentos outros,

309
que não as organizações comunistas20.
Seriam necessários outros critérios e a solução de Del Nero
teria sido a de designar N2 – especialista em organizações de es-
querda – o responsável por toda a pesquisa sobre organizações
comunistas. O trabalho foi repensado em termos cronológicos. As-
sim, em janeiro de 1986, iniciava-se o trabalho que levaria o nome
de As quatro tentativas de tomada de poder:

A primeira tentativa [de tomada do poder] era a de 35, a


segunda tentativa era a de 63/64, a terceira tentativa era essa
da luta armada [67/74], e a quarta tentativa que era essa, tra-
balho de massa, que tava começando naquela época 84/85.
Então, essa quarta tentativa abriu as ideias para que nós íamos
enfrentar um novo surto de tentativa de tomada do poder. E
deram. Não exatamente comunista, mas à esquerda21.

Para o desenvolvimento de tamanho trabalho, o analista teria


contado apenas com a ajuda de um sargento, responsável por dati-
lografar o que escrevia a próprio punho, além das considerações
elaboradas pelo coronel Del Nero (N1). Em função da diferença
das redações, teriam optado por realizar uma padronização das
análises, que teria ficado sob a responsabilidade de N2. Outra di-
visão de funções havia sido estabelecida entre os dois, Del Nero
teria ficado com a incumbência de pesquisar e produzir análises de
conjuntura, sobre a política e as ações militares dos anos de 1960
e 1970, enquanto N2 desenvolvia o seu estudo sobre as organiza-
ções22. Segundo N2, ele teria realizado cerca de 60% do conjunto
da pesquisa e passado a tarefa adiante, a partir do debate sobre a
Guerrilha do Araguaia, quando N3 assumiria.
O resultado da pesquisa está descrito em dois volumes de
caráter reservado, perfazendo um total de mais de 900 páginas. O

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primeiro volume começa com Uma explicação necessária, na qual o


coordenador da pesquisa manifesta sua preocupação em contar para
a juventude a história do país e narrar o processo de luta armada,
principalmente entre os anos de 1969 e 1973. Contudo, à medida
que foi sendo desenvolvida uma série de questionamentos sobre a
raison d´être destes agrupamentos guerrilheiros se tornaram evidentes:
310

Quais suas matrizes ideológicas? Como se formaram, estruturavam,


quais seus objetivos, quais modelos e métodos estrangeiros queriam
transplantar para o país, em quais seguimentos sociais buscavam
militantes?23
Tendo em vista que o objetivo do ORVIL seria a construção
de uma memória sobre a guerrilha que desmobilizasse a versão que
estava sendo construída pela esquerda, as questões levantadas não
poderiam se limitar às supracitadas, que se referiam unicamente
à dinâmica guerrilheira e suas raízes. Necessitava-se evidenciar os
dilemas enfrentados pela direita para combater o “terrorismo”
que desestruturava o status quo: em que nível as ações guerrilheiras
colocavam em cheque o monopólio da força armada organizada? O
seu combate exigia o envolvimento das Forças Armadas? Estariam
preparadas e estruturadas para este combate insólito (grifo nosso)?
Quais sacrifícios lhes foram impostos? Venceram a luta?24
Tais questões foram apenas o início de uma pesquisa minu-
ciosa que retrocede no tempo, até chegar às origens das ações do
Partido Comunista Brasileiro; nas diferentes vertentes teóricas do
comunismo; nos congressos e nas dezenas de cisões, tudo sendo
contextualizado e reconstituído histórica e factualmente, fornecendo
uma ampla perspectiva da atuação da esquerda ao longo de nossa
história republicana. Construiu-se uma narrativa bem estruturada,
ainda que cheia de rótulos e juízos de valor fortemente conserva-
dores, que buscava referências nos clássicos marxistas, repleta de
mapas, cenas de crime, fotografias de militantes e de suas vítimas, de
modo a tentar comprovar que, por três vezes, o país esteve próximo
a uma tomada de poder pelos comunistas. Na quarta tentativa, a es-
querda, não necessariamente os terroristas, finalmente “o tomariam”,
como evidencia o discurso de N2, ao afirmar que o MR8 estava no
poder durante o governo Sarney, que Fernando Henrique havia se
tornado presidente etc.25

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A primeira tentativa de tomada de poder remonta a 1935, com


o levante comunista, pejorativamente tratado por Intentona. Segun-
do os autores do ORVIL, como muito já havia sido escrito sobre o
episódio de 1935, restava-lhes “relembrar os atos de terror” daqueles
dias e levantar hipóteses acerca de seu fracasso. Para além da não
adesão de outros setores sociais à causa, os pesquisadores militares

311
tentavam responder outros questionamentos, para tentar entender
o fracasso da tentativa de tomada do poder conduzida pelo Partido
Comunista. Sob a direção de Luís Carlos Prestes: “Houve estreita
interpretação do materialismo histórico? A crença de que bastava
um partido resoluto para impulsionar o processo revolucionário?
Erro de avaliação da realidade nacional? Superestimação do papel
dos militares comunistas? Cumprimento incondicional às ordens da
Internacional Comunista”?26 O levante comunista foi, desse modo,
classificado como “[...] um crime que ceifou dezenas de vidas e que
se poderia repetir no momento em que seus idealizadores julgassem
haver um amadurecido processo revolucionário”27.
N2, em seu processo de narrativa exposto no site do TER-
NUMA em 11/01/2011 (agora sob pseudônimo F. Dumont),
busca reforçar a imagem de um Prestes frio, calculista, sanguinário
e hipócrita, ao destacar o assassinato de Elza Fernandes (adolescente
amante de Miranda, então Secretário Geral do Partido, “justiçada”
pelos “terroristas”, em 1936) e sua recusa, nos anos que se seguiram,
em falar sobre o assunto. Desconfiados de que Elza os teria traído, o
“Tribunal Vermelho” decidiu por seu assassinato, mas teria vacilado
em sua execução, a qual ocorreu mediante uma ordem de Prestes,
em conhecida carta por ele enviada aos seus companheiros:

[...] fui dolorosamente surpreendido pela [...] vacilação de


vocês. [...] ou [...] concordam com as medidas extremas e
neste caso, já deviam ter colocado a resolução em prática,
ou então discordam, mas não defendem como devem, tal
opinião.28

Após narrar com minúcias a execução de Elza, destacando


a violência empreendida, N2 não perde a chance de ironizar a
situação, ao destacar que “A reação do ‘Cavaleiro da Esperança’

Anos 90, Porto Alegre, v. 19, n. 35, p. 299-327, jul. 2012


Nunca foram heróis! A disputa pela imposição de significados...

foi imediata”, assim como destaca que Prestes, em poucos meses,


passaria por situação semelhante, quando sua esposa Olga Benário
foi entregue a Hitler29.
A segunda tentativa de tomada de poder abarca os anos que an-
tecederam ao golpe de 1964. Teria ocorrido já dentro do cenário
das cisões com o PCB, que deram origem à chamada nova esquerda
312

no Brasil, organizações e partidos clandestinos críticos ao PCB,


surgidos no início da década de 1960 (REIS; SÁ, 1997, p. 07). São
matrizes dessa nova esquerda duas organizações, quais sejam, Política
Operária (POLOP) e Ação Popular (AP), e um partido, o Partido
Comunista do Brasil (PC do B)30. De acordo com a análise contida
no ORVIL, a ascensão de João Goulart ao poder, trazendo consigo
figuras radicais da esquerda, como Leonel Brizola – que propunha
abertamente a luta armada – e Miguel Arraes, ao mesmo tempo
em que a Nova Esquerda ganhava simpatizantes, os sindicatos
fortaleciam-se, e parcela das Forças Armadas se insurgiam contra
a situação nos quartéis, é que teria forçado a necessidade de inter-
venção militar como forma de pacificar o país e evitar a ditadura do
proletariado, que seria implantada pelo governo comunista de Jango.
Sobre estas perspectivas, não podemos deixar de destacar nova-
mente a ironia de N2, expressa tanto em suas entrevistas quanto
em sua redação, que, ao narrar a emergência do Grupo dos Onze,
organização criada por Brizola e Neiva Moreira ainda em 1963, rea-
liza uma analogia com o filme dirigido por Mário Monicelli (1965),
ao intitular sua análise como O incrível Exército de Brizoleone, exposto
em seis capítulos na página do TERNUMA, em 04/02/2011.
A terceira tentativa de tomada de poder seria a mais óbvia e a que
mais teria motivado a proposta da pesquisa. Esta tomada ocor-
reria via luta armada, através das várias organizações guerrilheiras
existentes e atuantes, principalmente entre os anos de 1967 e 1973.
Há um exaustivo trabalho de análise dos programas de todas as
organizações de esquerda, seus militantes – incluindo a atuação de
alguns deles no exterior –, bem como as ações de assaltos, sequestro
de embaixadores e confronto com a polícia. Não é de se estranhar
a descrição minuciosa das medidas políticas “legitimadoras” do
governo militar, que também visavam a justificar o fechamento do
regime em 1968, por meio do Ato Institucional No5. Quando o

Anos 90, Porto Alegre, v. 19, n. 35, p. 299-327, jul. 2012


Priscila Carlos Brandão, Isabel Cristina Leite

assunto é a tortura, por exemplo, é evidente a negação do fato. É


tida como uma tentativa dos guerrilheiros de manchar a imagem
do governo no exterior, com apoio da Amnesty International, dando
ênfase ao que os militares chamavam de “psicopolítica”:

313
Em meados de 1970, a Amnesty International publicou e
difundiu o documento “Mission d´ Enquete au Brasil”. O
texto, segundo a publicação, representava o resultado de uma
pesquisa que teria sido realizada por dois advogados da Corte
de Apelação de Paris, Louis E. Pettiti e Jean Louis Weil, sobre
a situação dos presos políticos no Brasil. Após acusar a legis-
lação revolucionária de discriminatória, o relatório admitia
a existência de tortura contra os presos políticos no Brasil.
Descrevia, pormenorizadamente, todos os tipos de tortura
possíveis e imagináveis, e alegava que seriam elas impostas
aos prisioneiros no Brasil. A partir dessa publicação, qualquer
subversivo que tivesse a oportunidade de ser entrevistado
podia “escolher o tipo de suplício” – que desejava fazer
crer – a que tivesse sido submetido. Ninguém se perguntou
quem eram Louis E. Pettiti e Jean Louis Weil, quais suas
ideologias, quais seus objetivos... O homem é assim, daí o
êxito da psicopolítica31.

Citando Esquerdismo, doença infantil do comunismo, de Lênin, a fra-


cassada terceira tentativa é narrada não apenas como “uma estupidez,
como também um crime”32 sobre a qual julgaram irresponsável a
doutrinação cubana realizada entre os jovens estudantes; inútil a
atuação do “clero progressista”, que manipulou pessoas de boa fé;
e o que mais indignou, a forma com a qual “líderes egocêntricos”
agrediram psicologicamente tais jovens, baseando-se na difamação
das Forças Armadas e deturpação da realidade brasileira33.
Pela lógica castrense, após o fim da luta armada, os militantes
da esquerda revolucionária buscaram transformar sua derrota militar
em vitória política, pois teria sido constatado, após o período de
autocrítica destes grupos, que foi o afastamento das massas um dos
responsáveis pelo fracasso do empreendimento armado. Assim, o

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Nunca foram heróis! A disputa pela imposição de significados...

novo foco dos militantes de esquerda tornar-se-ia, justamente, o


acesso a essas massas, em sua quarta tentativa de tomada do poder:

O trabalho de massa consiste na propagação da ideologia e na


utilização das técnicas de agitação, de propaganda, de recru-
314

tamento e de infiltração, valendo-se de todos os meios de


comunicação social para atuar sobre os diferentes segmentos
sociais (movimento operário/sindical; movimento educa-
cional; movimentos populares; etc), a fim de conscientizar
a massa para a necessidade de fazer a revolução. Objetiva,
particularmente, conquistar a população, sobretudo fazendo
com que perca a fé nos governantes, no regime e nas insti-
tuições, dominar, especialmente por meio da infiltração, as
estruturas governamentais; e educar, organizar e orientar os
diversos segmentos sociais para a revolução34.

A partir do processo de distensão política em 1974, os antigos


militantes passaram a abraçar causas diversas, a exemplo da anistia,
da revogação do AI-5, da livre organização dos direitos políticos, do
respeito aos direitos humanos, da extinção dos órgãos de repressão
e punição dos envolvidos em crimes durante a ditadura. Esta nova
estratégia efetivaria, na concepção dos autores, a possibilidade de
prepararem-se para uma nova tentativa de tomada de poder “[...]
com segurança, com a garantia do direito, valendo-se da prerrogativa
que só este regime paradoxal – a democracia, sem aspas e adjetivos
– oferece: a possibilidade de seus inimigos prepararem-se para a
tomada do poder sob o amparo da lei”35.
Os processos eleitorais para governadores, em 1982, e para
presidente, em 1984, significariam a efetivação do projeto político
junto às massas, desencadeado pelos antigos subversivos. Segundo os
militares, não bastou aos guerrilheiros tão-somente o fim dos gover-
nos ditatoriais e a chegada dos civis ao poder. A “ardilosa” esquerda
passaria agora fazer a população “desacreditar da Revolução de 64”,
negar seus êxitos, e proclamar a “farsa do milagre econômico”. Em
tom de desabafo, escrevem:

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Priscila Carlos Brandão, Isabel Cristina Leite

Imanente a todo este trabalho estava o objetivo de atingir


os seus algozes – agora as próprias Forças Armadas – que
não só recentemente, como em 1935 e 1964, haviam sido o
obstáculo mais sério a suas tentativas de tomada de poder,
com o fito de afastá-las ou neutralizá-las como empecilhos
à sua caminhada36.

315
Mas para além da construção da “verdade” militar sobre a luta
armada e o período ditatorial, o ORVIL apresentou informações até
então desconhecidas. Mais de 1,7 mil pessoas – entre guerrilheiros
e artistas famosos – foram citados, além de trazer informações iné-
ditas sobre o destino de ao menos 23 desaparecidos políticos, sobre
os quais repetiam, ao longo de mais de 30 anos, que não se tinha
notícias. Reside aí, talvez, uma das mais importantes contribuições
do documento.
O projeto, apesar de desenvolvido ao longo de três anos,
não foi imediatamente divulgado. De acordo com N2, a decisão
de Leônidas Pires de não publicar o livro estaria relacionada ao
momento político do país e aos impactos políticos negativos que
poderiam acarretar à instituição militar, no momento em que as
bases da transição ainda não estariam fortemente assentadas.37 Seus
resultados foram mantidos em stand by, como uma arma guardada,
a ser usada apenas em caso de necessidade. Conforme argumenta
o próprio general Leônidas, guardada como uma arma, contra um
possível revanchismo em relação às Forças Armadas, por parte de
“quem perdeu a guerra”.

Naquele tempo (em que o livro foi feito) não havia o que
acontece agora, um revanchismo sem propósito. [...] No meu
período como ministro (1985-1990), não houve nenhum
problema dessa natureza, essas ‘mães não-sei-do-quê’, Tortu-
ra Nunca Mais.38

Anos 90, Porto Alegre, v. 19, n. 35, p. 299-327, jul. 2012


Nunca foram heróis! A disputa pela imposição de significados...

Uma luta pela memória

Temos claro que a narrativa ora apresentada versa sobre uma


leitura muito específica sobre o processo de construção do ORVIL,
que vem sendo tratado de várias formas pela mídia, por militantes
ou por acadêmicos que têm aprofundado suas pesquisas sobre o
316

tema. O projeto já havia sido abordado pelo coronel Brilhante


Ustra em sua obra A verdade sufocada, publicada no início de 2006;
já havia sido comentado em entrevista realizada em agosto daquele
mesmo ano; quarenta páginas de seu texto já estavam expostas no
site do TERNUMA; e alguns trechos já haviam sido utilizados por
militares que publicaram sua versão dos fatos e/ou suas memórias,
sem identificar suas fontes39. Mas foi a partir da divulgação do pro-
jeto e seu conteúdo pelo jornalista Lucas Figueiredo, em uma série
de reportagens especiais que saíram simultaneamente nos jornais
Estado de Minas e Correio Braziliense40, posteriormente transformadas
em seu livro Olho por olho41, que o tema tomou maiores proporções.
Até esta divulgação, não se sabia a origem das informações contidas
nesse site ou nos livros, cujo teor expressa o ponto de vista de mili-
tares ultraconservadores. Tampouco era sabido que essas páginas
integravam uma empreitada muito maior.
Não obstante, um pouco diferente do que conta Lucas Figuei-
redo, a iniciativa do ORVIL não foi uma resposta ao projeto Brasil:
Nunca Mais (BNM), produzido em oposição ao relato construído
pelos militares durante a ditadura (o projeto BNM, assumido pela
Arquidiocese de São Paulo, resultou na publicação do livro Um
relato para a história: Brasil Nunca Mais, lançado em 1985, que rapida-
mente alcançou a posição de um dos livros mais vendidos do país).
Como visto na entrevista e corroborado pela Apreciação datada de
23 de março de 1984, a disputa pela fixação de uma memória so-
bre a atuação da esquerda no país e o sistema repressivo já havia
começado muito antes de se ter conhecimentos sobre o projeto da
Arquidiocese. A autorização para a sua execução é que foi concedida
apenas depois de adquirido conhecimento sobre o mesmo, o que
nos leva a discordar da afirmativa que a ideia do livro teria partido
do ex-ministro Leônidas Pires.

Anos 90, Porto Alegre, v. 19, n. 35, p. 299-327, jul. 2012


Priscila Carlos Brandão, Isabel Cristina Leite

Muito comenta-se que a repercussão causada pelo apare-


cimento do ORVIL evidenciou a temática acerca da abertura dos
arquivos da ditadura e da reabertura de alguns processos para a
indenização de famílias. O então ministro-chefe da Secretaria Espe-
cial de Direitos Humanos, Paulo Vanucchi, manifestou-se à época,
dizendo que haveria uma “pressão diferente” para a abertura dos

317
arquivos sigilosos, e que chamaria o General Leônidas Pires para
depor. Mas, como não se tocou mais no assunto, foram os familiares
dos desaparecidos que reivindicaram a abertura dos arquivos que
embasaram o livro, para que se pudesse ajudar a localizar os corpos42.
Interessante destacar que alguns militares, através de publi-
cações de extrema direita, também bradavam pela abertura dos
arquivos e faziam provocações aos antigos militantes. O exemplo
mais evidente é o jornal do Grupo Inconfidência, que, na semana
da publicação das reportagens, lançou o editorial Abrindo os arquivos
da “ditadura”. No texto, argumenta-se que se o objetivo da abertura
dos arquivos fosse alentar os familiares dos mortos e desaparecidos
e o “resgate da verdade” sobre o período, a esquerda sairia frustrada,
pois iriam encontrar apenas descrições sobre “crimes que cada um
dos ‘heróis’ terroristas praticou [...] incluindo detalhes cruéis e nomes
das vítimas”.43 Destoando deste discurso, o general Pires Gonçalvez
acreditava que não se deveria abrir arquivos e divulgar aquilo que é
passado: “Vamos olhar para frente”, afirmou (LEITE, 2009, p. 231).
De todo modo, o projeto ORVIL foi desenvolvido dentro
de um governo dito democrático. Várias questões acerca do livro
precisam ser respondidas, como afirma Suzana Lisboa, destacada
militante dos Direitos Humanos: Onde estão os documentos que
foram base para o livro? Quem colaborou? Quanto custou?44
E é por aqui que entram as análises sobre o ORVIL, específicas
de nosso trabalho, vista a partir da perspectiva de um de seus execu-
tores. Em primeiro lugar, cremos importante inverter a ordem dos
fatores. Mais do que compreender a divulgação do projeto como um
ganho dos familiares de mortos e desaparecidos, é preciso entender
a divulgação do ORVIL como uma estratégia astuta de militares de
ultradireita, de questionamento à política de indenizações que vem
sendo desenvolvida pela Secretaria Nacional de Direitos Humanos, e

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Nunca foram heróis! A disputa pela imposição de significados...

que transforma Lamarcas, em heróis. Em sua perspectiva, é a “bolsa


ditadura” ou “bolsa guerrilha” quem está sendo questionada.
Mas também podemos observar que – claro que não há una-
nimidade –, ao invés de admitirem e aceitarem as consequências de
serem atores responsáveis pela interrupção da ordem democrática,
constitucionalmente estabelecida, estes “autores” – expoentes de
318

uma linha ultraconservadora – não admitem uma autocrítica, con-


forme as próprias esquerdas vêm realizando desde a década de 1990.
Em sua obra Ditadura militar, esquerdas e sociedade, Daniel Aarão
Reis, ex-militante do MR8, discorre sobre os deslocamentos de
sentido produzido no país, que procuraram se fixar na memória
nacional enquanto verdades absolutas, correspondentes ao processo
histórico objetivo, e não a versões consideradas apropriadas por seus
autores. Principalmente os partidários da anistia e os militantes em
defesa dos Direitos Humanos, apresentaram os guerrilheiros como
o braço armado da resistência democrática ao regime, apagando a
perspectiva ofensiva e revolucionária que os havia moldado. No
entanto, “[...] não eram de modo algum apaixonadas pela democracia,
francamente desprezada em seus textos”45. Uma memória que, de
maneira alguma, poderia ser apresentada de forma unívoca, dado
que a memória das esquerdas reflete seus múltiplos movimentos,
rachas, dissidências, tornando impossível atribuir-lhes algum nível
de organicidade.
Ao contrário do que veio lentamente fazendo essa esquerda,
os militares insistem em afirmar que sua conduta foi uma resposta
legítima à violência daqueles que teriam se recusado ao diálogo e
optado pelo radicalismo e ilegalidade, ao tomarem iniciativas de
pegar em armas e “desencadear ações criminosas”, conforme consta
em resposta elaborada pelo Centro de Informações do Exército,
após a divulgação das evidências de que o jornalista Vladimir Herzog
teria sido assassinado em suas dependências, em outubro de 200446.
Como se houvesse opção para o diálogo em alguma esfera política
naquele momento, como se o debate no Congresso não fosse cer-
ceado pelas diversas cassações que haviam lhe sido impostas.
O discurso militar é um pouco dividido no que tange às
formas de se proteger a instituição. Como visto, os ultraconserva-
dores bradam a abertura dos arquivos como meio de evidenciar a

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Priscila Carlos Brandão, Isabel Cristina Leite

postura violenta da esquerda e legitimar a forma e o grau com que a


repressão foi implementada (daí a divulgação do ORVIL), ao passo
que outros militares primam pelo esquecimento deste passado, que
deve ser tratado enquanto uma história que já passou. Os dois a
defendem, ainda que de maneira distinta. Mas a memória sobre o
desencadeamento do golpe em si, evidente no discurso de N2, pode

319
ser considerada um discurso relativamente homogêneo. No papel de
defensores da nação e da civilização cristã ocidental, argumentam que
a intervenção era uma condição necessária para a proteção do país,
cuja unidade estaria ameaçada tanto externa quanto internamente.
Seu ato não teria sido apenas justificado, mas também considerado
heróico. Um heroísmo que vem sendo sistematicamente esquecido
e deturpado pela memória que vinha sendo construída pelos mili-
tantes: “[...] enquanto isto, aqueles que lutaram e deram o sangue
contra a subversão, são esquecidos”47.
Fator importante a ser considerado ainda é o argumento de
que lhes caberia a preservação da integridade das Forças Armadas
enquanto tais, face a infiltração de elementos subversivos em seu
meio, sobretudo entre oficiais de média patente, em um processo
político marcado por sua fragilidade e graus de corrupção.
Ainda justificaria não só o golpe, mas a intensidade da re-
pressão, a percepção de que a mobilização das forças de esquerda
era um elemento de guerra (fria e suja). Em um estado de guerra,
sempre são produzidos efeitos colaterais que, por mais que sejam
minimizados, existem. Só que esse argumento de seguir uma lógica
doutrinária é válido enquanto elemento legitimador apenas para os
militares. O debate leninista de incorporação da luta armada como
meio de expropriação dos meios de poder da burguesia enquanto
classe dominante não pode ser entendido enquanto uma estratégia
inerente a este mesmo processo de guerra. Guerrilheiros precisam
ser desqualificados de suas ideologias e apresentados como “delin-
quentes”, por não partilharem valores específicos da instituição mili-
tar. São traidores, conforme argumenta N2, ao narrar a história de
Lamarca – um desertor, terrorista, assaltante de banco e incentivador
de guerrilhas, que deve entrar para a história como um terrorista, e
não como um herói –, e de Nahuel Moreno, que, ao ser interrogado
por N2, teria entregado as organizações representantes da Quarta

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Internacional no Brasil, em troca da abertura de uma livraria “de


livros do Trotski” (a viúva do Trotski teria dados a Nahuel os direitos
autorais sobre suas obras), e da legalização da então Convergência
Socialista, o PST. Outra: ao recorrerem ao uso da violência, o que
seria justificável doutrinariamente em uma guerra, conforme argu-
mentam os militares, os militantes no país são apenas sanguinários, a
320

exemplo dos “Irmãos Metralha”, conforme o autor designa a família


composta por Daniel, Derly, Devanir, Jairo e Joel José de Carvalho,
cujo membro mais radical, Devanir, no exercício de sua militância,
“[...] pôde livremente desenvolver seus apetites pela violência”, ou
concretizar seus sonhos: “roubar e matar”48.
Aliás, não são poucas as incoerências que podem ser identifi-
cadas no discurso de N2, retiradas da entrevista realizada em julho
de 2007 e que, provavelmente, refletem características desta linha de
militares ultraconservadores de modo geral. A recusa em reavaliar
sua atuação exemplifica casos em que participou de interrogatórios,
como o de Nahuel, mas afirma que nunca fez ações: “[...] eu nunca
torturei ninguém, eu nunca fiz ações, eu fui analista, trabalhava com
a cabeça. Mas eles dizem que o analista também é torturador, e aí
danou-se, não tem jeito”49. Afirma, categoricamente, que não quer
falar sobre o projeto ORVIL, “[...] não, eu não quero falar não. Até
porque eu tenho a minha família aqui. O problema é essa esquerda
revanchista aí...” Mas não apenas publica sistematicamente sobre
o tema no site TERNUMA, assim, como estabelece como meta
de vida, se dedicar à elaboração de denuncias sobre as ações da
esquerda: “E vou passar a escrever também. Esse vai ser o final da
minha vida, escrever estas coisas aí.”
É consciente de que narra uma história, muitas vezes deturpada
pelo processo de criação dos documentos: “[...] nós nos baseávamos
em informes, informações, em relatórios periódicos [...] e, principal-
mente, depoimentos dos interrogatórios”, mas, conforme afirma,
“[...] houve realmente casos em que aconteceu uma coisa e criou-se
um documento diferente”. Justifica-se, argumentando que fazia o
correto, conferindo tudo, para apresentar apenas os fatos. Destaca,
inclusive, o fato de ter encontrado um “terrorista morto assaltando
banco”, e procura construir um discurso em que o equívoco na
elaboração seria concernente apenas a aspectos factuais.

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Priscila Carlos Brandão, Isabel Cristina Leite

Sem dúvidas, encontramo-nos mediante um falso modesto


que, na luta pela imposição da sua narrativa, não mede esforços para
alcançar reconhecimento junto a seus pares, pois apenas os militares
saberão, a partir da divulgação de seu pseudônimo (realizada com
nossa contribuição, é verdade), de quem se trata. Em entrevista rea-
lizada em 2006, trata da publicação do livro Verdade Sufocada, por

321
Brilhante Ustra, mas destaca o fato de que “[...] ele não fala meu
nome, é claro”. Apenas uma obviedade em relação à necessidade
de sigilo da identidade, ou um “é claro”, em função de que Ustra
narra o projeto, mas que naquele espaço não era possível evidenciar
seus esforços? No decorrer da exposição que o projeto alcança
em 2007, não apenas aceita conceder a entrevista sobre o assunto
(apenas havíamos tomado conhecimento de que ele participara do
projeto, porque, em entrevista anterior, sobre tema distinto, havia
tocado no tema), como procuram destacar todas as evidências de
sua iniciativa e empenho na execução do projeto, em detrimento
de uma perspectiva de equipe, evidenciado nos outros espaços que
falam do ORVIL: “O que eu quero dizer é que a ideia dentro do
CIE já existia, de escrever o livro, e tá aqui a prova”; “Eu trabalhava
sozinho”; “Fui eu quem escrevi a biografia do Lamarca. Eu escrevi,
está no TERNUMA”. Poucos seriam os que possuíam reconhecida
competência para desenvolver o trabalho como fazia, como era o
caso raro de quem o sucedeu na execução do projeto: “Eu, o número
3 [...] O resto é o resto, que conviviam e comeram na nossa mão”.
Uma necessidade de reconhecimento claramente expressa nesta
declaração:

Por exemplo, isso aqui... Você conhece isso aqui? Isso aqui é
um grupo de Minas Gerais. Inconfidência lá de Minas Gerais.
Isso aqui eu recebi agora. Fala sobre o Livro Negro... Isso
aqui eu não conheço: o Livro Negro... Aí eu olhei isso daqui...
Está vendo esse desenho aqui? Isso aqui fui eu quem fiz esse
desenho aí. Fazia parte das minhas palestras.

Ou nesta, na qual, inclusive, evidencia disputas institucionais


existentes no âmbito da comunidade de informações: “Aí eu escrevi

Anos 90, Porto Alegre, v. 19, n. 35, p. 299-327, jul. 2012


Nunca foram heróis! A disputa pela imposição de significados...

tudo e mandei pro SNI, que não entendia nada disso. Aquela gente
nunca soube p... nenhuma. Essa é a realidade”.
Tratamos de alguém que procura fazer dos embates presentes,
claramente, um espaço de disputa política. Um “historiador” dema-
siadamente subjetivo, que opta pelo esquecimento da atuação de
um grupo de direita radical terrorista no Brasil, que atuava desde a
322

década de 1940, muito antes da “revolução democrática”50, e que


manuseia fontes de questionável veracidade, como se contivessem
“verdades históricas”. O que aconteceria a nós, efetivamente histo-
riadores, se tomássemos estes arquivos como verdadeiros e não os
confrontássemos com os testemunhos daqueles que foram perse-
guidos pelo regime? Que história estaríamos forjando?
A esquerda também recorreu ao uso da violência, assim como
existem algumas posturas que podem ser consideradas oportunistas
no processo de revisão do passado e na aplicação da política de inde-
nizações. Mas se os militares veem sua aplicação da violência como
uma necessidade, como uma resposta à atuação dos guerrilheiros,
militantes de esquerda e membros da oposição (porque muitos foram
os torturados que não pegaram em armas), cabe ressaltar que, para
a esquerda, a aplicação da violência visava a destituir a burguesia de
seus meios de poder. Esse era o caminho preconizado no processo de
transformação social, que conduziria, sobretudo, a uma redução, das
desigualdades. A aplicação da violência foi efetiva, mas seria legitima
na concepção da esquerda daquele momento, da mesma forma em
que uma garotinha, na iminência de ser estuprada, impõe resistência a
seu agressor, por meio de socos e pontapés. Nesta guerra, os militares
privilegiaram a individualização do adversário e sua localização, acima
da sua dignidade. Mesmo em termos doutrinários, é impossível falar
que houve proporcionalidade no desencadeamento da repressão.
No máximo, o uso da força foi proporcional à projeção que alguns
militares, amparados em seus valores institucionais, realizaram sobre
seus inimigos. Ou seja, também nunca foram heróis! Nem militantes
de esquerda, nem militares.

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Priscila Carlos Brandão, Isabel Cristina Leite

NEVER WERE HEROES! THE DISPUTE OVER THE IMPOSI-


TION OF MEANINGS AROUND THE USE OF VIOLENCE IN THE
BRAZILIAN DICTATORSHIP, THROUGH A READING OF ORVIL
PROJECT
Abstract: This paper covers the process of creation, implementation, and dis-
semination of Project ORVIL, from the perspective of one of its main perform-

323
ers; the then Lieutenant Colonel “N2”. The project was thought in early 1984,
and proposed the establishment of a “History Writing” that shifted from the
perspective that was being used by left-wing militants about torture in Brazil,
mainly from the Amnesty, and disseminated through interviews and an extensive
memorial bibliography. Permeated by the speeches concerning to memory and
disputes held around their imposition, this paper looks from the individual per-
spective and how this construction was transplanted to an institutional setting. We
seek to a) understand how a given military group, markedly ultra-conservatives,
saw the scenario of the military coup and the implementation of repression; b)
realize what strategies were and still are used to tell and reminds us that past,
and finally; c) identify which factors have the capability to intervene in this con-
struction, both from a endogenous perspective, in terms of institution, as in a
exogenous perspective.
Keywords: ORVIL. Information Services. Torture. Memory. Brazilian Dictator-
ship. Secret Services.

Notas

1
Terrorismo Nunca Mais, criado em resposta ao projeto Brasil Nunca Mais. Dis-
ponível em: <www.ternuma.com.br>.
2
O Jornal Inconfidência foi fundado em 1994, e é um periódico mensal, de distri-
buição em âmbito nacional. Seu conteúdo está identificado “na luta contra o
comunismo e a corrupção, pelo fortalecimento das forças armadas e pela defesa
da vida humana, da família tradicional e dos valores conservadores da sociedade”.
Disponível em: <www.grupoinconfidencia.com.br>.
3
Entrevistas concedidas à autora, Priscila Brandão, sob condição de reserva, reali-
zadas em Cuiabá (11 de agosto de 2006), e no Rio de Janeiro (05 de julho de 2007).
4
Uma Apreciação é o Conhecimento resultante de raciocínio elaborado por um profis-
sional de inteligência, que expressa o seu estado de opinião frente à verdade, sobre
fato ou situação passados e/ou presentes, admitindo a realização de projeções.
5
Em termos doutrinários, Informe é o conhecimento resultante de juízo formulado
por um profissional de inteligência, que expressa seu estado de certeza, opinião
ou de dúvida frente à verdade sobre fato ou situação passado e/ou presente.

Anos 90, Porto Alegre, v. 19, n. 35, p. 299-327, jul. 2012


Nunca foram heróis! A disputa pela imposição de significados...

6
Entrevista com N2, concedida sob condição de reserva, em 05 de julho de 2007.
7
Os primeiros clássicos memorialísticos de militantes de esquerda começaram
a sair ainda em fins dos anos de 1970. O primeiro, Em câmara lenta, de Renato
Tapajós, data de 1977 e causou a reação de setores conservadores, que acusaram
o livro de ser um “instrumento de guerra revolucionária”, ao ponto de levar o
autor a ficar 10 dias preso, incomunicável, mesmo não havendo algum empecilho
324

legal à sua circulação. Passados 15 dias da prisão de Tapajós, o livro foi censurado.
Os demais livros saíram a partir de 1979. MAUÉS. Eloísa. Em câmara lenta: historia
do livro, experiência histórica da repressão e narrativa literária. Dissertação. USP, 2008;
TAPAJÓS, Renato. Em câmara lenta. São Paulo: Alfa-Ômega, 1977; GABEIRA,
Fernando. O que é isso companheiro? Rio de Janeiro: CODECRI, 1979. SIRKIS,
Alfredo. Os carbonários. Global: São Paulo, 1981; DANIEL. Herbert. Passagem para
o próximo sonho. Rio de Janeiro: CODECRI, 1982.
8
Apreciação S/Nº. – A1. 27/03/1984. p. 01
9
Apreciação S/Nº. – A1. 27/03/1984. p. 01
10
Idem. p. 01
11
Idem. p. 02
12
Idem. p. 02
13
Idem. p. 03.
14
Sobre o tema, ver: ANTUNES, Priscila C. Brandão. SNI e ABIN: uma leitura
dos serviços secretos brasileiros ao longo do século XX. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2002.
15
Entrevista realizada em Cuiabá, em 11 de julho de 2006.
16
Entrevista de N2 citada.
17
Entrevista de N2 citada.
18
Entrevista de N2 citada.
19
Idem.
20
Idem.
21
Idem.
22
Idem.
23
As quatro tentativas de tomada de poder – ORVIL. p. XV-XVI. Retirado de:
http://www.averdadesufocada.com/images/orvil/orvil_completo.pdf, conferido
em 15 ago. 2011.
24
Idem. p. XVI-XVII.
25
Entrevista de N2 citada.
26
As quatro tentativas de tomada de poder – ORVIL. p. 22. Retirado de: http://
www.averdadesufocada.com/images/orvil/orvil_completo.pdf, acesso em: 15
ago. 2011.
27
Idem. p. 23
28
Disponível em: <http://www.ter numa.com.br/ter numa/index.
php?open=20&data=26&tipo=2>. Acesso em: 30 jul. 2011.

Anos 90, Porto Alegre, v. 19, n. 35, p. 299-327, jul. 2012


Priscila Carlos Brandão, Isabel Cristina Leite

29
Disponível em: <http://www.ter numa.com.br/ter numa/index.
php?open=20&data=26&tipo=2>. Acesso em: 30 jul. 2011.
30
Maiores informações sobre estas cisões ver: LEITE, Isabel. Comandos de Li-
bertação Nacional. Oposição armada à ditadura militar em Minas Gerais. Dissertação.
UFMG, 2009.
31
As quatro tentativas de tomada de poder – ORVIL. p. 472. Retirado de: http://

325
www.averdadesufocada.com/images/orvil/orvil_completo.pdf, acesso em: 15
ago. 2011.
32
Idem. p. 836.
33
As quatro tentativas de tomada de poder – ORVIL. p. 837. Retirado de: http://
www.averdadesufocada.com/images/orvil/orvil_completo.pdf, acesso em: 15
ago. 2011.
34
Idem. p. 839.
35
Idem. p. 842.
36
As quatro tentativas de tomada de poder – ORVIL. p. 856. Retirado de: http://
www.averdadesufocada.com/images/orvil/orvil_completo.pdf, acesso em: 15
ago. 2011.
37
N2 12 de julho de 2007
38
O Livro era uma arma, diz general. Estado de Minas. Reportagem Especial.12
de abril de 2007, p. 4.
39
Dentre os livros que tiveram o ORVIL como base, estão: Rompendo o silêncio, A
grande mentira, Guerrilha do Araguaia: a grande verdade.
40
O livro negro do terrorismo no Brasil. Estado de Minas. Reportagem Especial. 08
de abril de 2007; O Livro era uma arma, diz general. Estado de Minas. Reportagem
Especial.12 de abril de 2007.
41
FIGUEIREDO, Lucas. Olho por olho. Os livros proibidos da ditadura. São Paulo:
Record, 2009.
42
Parte desta discussão está em: LEITE, Isabel. Os arquivos da repressão e a luta pela
memória da ditadura militar. Revista Eletrônica de História do Brasil. n. 9. UFJF.
2007. Disponível em: http://www.ufjf.br/rehb/files/2010/03/v9-n1-a11.pdf.
acesso em: 15 ago. 2011.
43
Disponível em: www.grupoinconfidencia.com.br/jornais/108/jornal108.pdf
44
Idem.
45
REIS FILHO, Daniel. Ditadura militar, esquerdas e sociedade. Rio de Janeiro: Zahar,
2005, p. 70.
46
“Nota do Centro de Comunicação do Exército”. Folha de São Paulo, terça-feira,
19 de outubro de 2004.
47
Apreciação S/No-A1, de 27/03/1984.
48
Disponível em: http://www.ter numa.com.br/ter numa/index.
php?open=20&data=164&tipo=2. Acesso em: 30 jul. 2011.

Anos 90, Porto Alegre, v. 19, n. 35, p. 299-327, jul. 2012


Nunca foram heróis! A disputa pela imposição de significados...

49
Entrevista N2, citada.
50
Ver: ARGOLO, José A.; RIBEIRO, Kátia; FORTUNATO, Luiz Alberto. A
direita explosiva no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Mauad, 1996. Bibliografia

Referências
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TAPAJÓS, Renato. Em câmara lenta. São Paulo: Alfa-Ômega, 1977.

Recebido em: 16/05/2012


Aprovado em: 11/07/2012

Anos 90, Porto Alegre, v. 19, n. 35, p. 299-327, jul. 2012

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