Análise da Voz Passiva no Português
Análise da Voz Passiva no Português
INSTITUTO DE LETRAS
DEPARTAMENTO DE LINGUÍSTICA, PORTUGUÊS E LÍNGUAS CLÁSSICAS
BRASÍLIA-DF
2016
SIMONE ELISA FERREIRA DA SILVA
BRASÍLIA-DF
2016
FICHA CATALOGRÁFICA
RESUMO
Este trabalho tem o objetivo de tratar sobre as construções passivas no português do Brasil a
partir de diferentes perspectivas. O projeto de pesquisa está dividido em três capítulos, sendo
eles: introdução e objetivos; revisão literária e discussão. No trabalho teremos uma síntese da
análise dos artigos: Voz e valência, de Thomas Payne (2006); A competência linguística, de
Negrão, Scher e Viotti (2008); e Construções de voz, de Roberto Camacho (2002). Este
trabalho irá auxiliar graduandos do curso de Letras a perceber as diferentes perspectivas de
análise que existem com relação à construção da voz passiva.
This study has the aim of discussing the passive constructions in Portuguese of Brazil from
different perspectives. The research project is divided into three chapters, they are:
introduction and objectives; literature review and discussion. In this paper, we have a
summary of the analysis of the articles: Voice and valence, Thomas Payne (2006); Linguistic
competence, Negrao, Scher and Viotti (2008); e Voice constructions, Roberto Camacho
(2002). This study will assist graduate students of the course of Letters to notice different
analytical perspectives that exist related to the passive voice construction.
2.1.1 Transitividade............................................................................................................. 14
falantes nativos do Português do Brasil, somos capazes de identificar possíveis restrições que
impedem a realização da passiva. Ao realizar o contraste dos artigos de Negrão, Scher e Viotti
(2008) e de Camacho (2002), a proposta deste trabalho é mostrar que, de certa maneira, os
textos podem complementar um ao outro.
Desta forma, este trabalho está organizado da seguinte forma: no capítulo 1 há a
apresentação do objeto de estudo, o problema, a justificativa, o objetivo e a estrutura do
trabalho. No capítulo 2 será abordado a revisão da literatura, em que constam os ensaios dos
respectivos artigos: Payne (2006); Negrão, Scher e Viotti (2008) e Camacho (2002). No
capítulo 3 apresenta-se a discussão, tendo como foco o contraste dos textos de Negrão, Scher
e Viotti (2008) com o de Camacho (2002). De forma derradeira apresenta-se as considerações
finais, seguidas pelas referências.
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Vozes são construções que influenciam o alinhamento dos papéis semânticos e das
relações gramaticais nas orações, e estão presentes em todas as línguas. Nas construções na
voz ativa há a presença de sujeito da oração (que nesse caso tem a função de agente) e o
objeto (que tem a função de paciente). Já nas orações na voz passiva podemos observar que há
uma mudança na estrutura dessas orações, pois o paciente ocorre como sujeito.
Como foi dito anteriormente, nas orações ativas encontramos o paciente na função de
objeto, mas na passiva esse elemento passa a ter a função de sujeito da oração, enquanto que o
agente ocorre na função oblíqua.
Exemplos:
(1a) Cena1: AGENTE BAKE PACIENTE ATIVA
Oração: A Verbo O
“Orna baked these cookies”
1
Podemos observar que em 1 há a configuração de uma estrutura que é formada por forma e função.
Nesta termos como agente e paciente que compõem a cena apresentada (função), enquanto que
como sujeito, verbo e objeto exibem a gramática (forma) de cada um deles dentro da oração.
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Exemplo:
“João comeu”
2.2 Transitividade
Não nos podemos esquecer de que ao falar de valência também estamos falando de
transitividade, pois a noção de valência está ligada à ideia tradicional de transitividade. Uma
situação transitiva é uma relação que envolve dois participantes, e esses vão atuar na direção
um do outro ou sobre o outro. As situações transitivas podem ser classificadas como
bivalentes ou trivalentes, as bivalentes têm valência semântica de dois participantes, como no
exemplo: Ele matou o urso. Nesse caso temos dois participantes, pois para morrer o urso
precisou da ação de alguém. Assim como as trivalentes, que também podem ser chamadas de
ditransitivas ou bitransitivas são situações que envolvem três participantes, como na oração:
Ele nos deu a chave do portão. Neste exemplo há a ocorrência de um destinatário e de algo
que é dado possivelmente para outra pessoa ou não. Já a intransitiva está ligada a situações em
que envolvem apenas um participante, como em: Maria comeu. Pode-se observar nesse
exemplo que há a participação de um elemento em cena e isso é uma característica muito
relevante das situações intransitivas. Acontecimentos como esses algumas vezes são
chamados de situações univalentes, que têm uma valência semântica de número um.
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A seguir trataremos a respeito da teoria de valência, que pode ser compreendida pela
seguinte metáfora, muito utilizada pelos linguistas em pesquisas sobre a compreensão do
discurso e produção: o ato comunicativo como uma peça teatral. Essa metáfora tem auxiliado
na elaboração de pressupostos consistentes e afirmações sobre a maneira como as pessoas se
comunicam.
A seguir temos uma representação desse modelo, que é apresentado por Payne (2006).
Observa-se que na figura 1, na segunda “tira”, um dos participantes passa a ter mais
visibilidade em comparação com a primeira, momento em que ele aparece na lateral da cena.
Mas temos ao centro do palco participantes como possíveis agentes ou controladores; à
margem, participantes como pacientes ou afetados, que podem exercer diversas outras
funções periféricas – recipientes, instrumentais, benefactivos.
O ato de colocarmos ao centro ou à margem da cena um dos participantes resulta em
uma mudança de perspectiva – isto é, da importância/visibilidade que se atribui a um ou outro
participante – que, apesar de não alterar a semântica, afeta as relações gramaticais entre os
participantes.
A respeito desse aspecto de perspectivização podemos pensar em outros exemplos,
para que possamos compreender e analisar a presença de outros participantes, como as
funções periféricas.
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Exemplo:
(3a) Cena: AGENTE ABRIR PACIENTE INSTRUMENTO
Oração: A Verbo O Oblíquo
“Eu abri a porta com a chave”
Os exemplos anteriores demonstram que todas essas orações codificam uma mesma
situação de mensagem (cena), porém elas podem ser vistas de diferentes perspectivas e sob
aspectos diferentes, pois em cada uma delas vamos perceber que os participantes exercem
diferentes funções sintáticas. Estas abordagens capturam o fato de que todo o conhecimento é
adquirido e armazenado com referência a um contexto.
Em (3a) observa-se que o pronome eu funciona como o agente, pois é ele que realiza a
ação deliberadamente, e o termo a porta funciona como paciente. Além disso, nota-se que há
a presença de mais um papel semântico que compõe a cena, o instrumento, a chave, sendo
codificado por uma função oblíqua.
Na cena (3b) observamos que ocorre uma mudança nas relações gramaticais, pois
quem passa a ser o foco da cena já não é mais o agente eu, mas sim o instrumento, a chave. A
função de agente é demovida, mas o termo a porta continua exercendo a função de paciente.
Já em (3c) pode-se observar que o elemento a porta ocorre como o sujeito da oração,
ao mesmo tempo em que o agente é demovido.
Na próxima seção apresentaremos algumas das diferentes estratégias de redução de
valência encontradas nas línguas do mundo.
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2.4.1 Reflexivas
Exemplo:
(4) Cena: AGENTE PACIENTE
Oração: S
Calvin shaved AGENTE S, PACIENTE S
Nota-se nas orações de estrutura reflexiva lexical que os papéis semânticos de agente e
paciente são expressos por um único argumento de uma oração monoargumental. O exemplo
anterior demonstra como se realiza essa estrutura de construção reflexiva lexical, em que
podemos perceber que os termos agente e paciente se comportam de uma mesma maneira
para expressar o argumento.
As construções reflexivas morfológicas são caracterizadas por um processo
morfológico. Na língua inglesa não há exemplos de reflexivos morfológicos, porém podemos
encontrar essas estruturas nas línguas românicas. A formação do reflexivo na língua
espanhola ocorre a partir de um verbo transitivo com a adição de um proclítico se, como
podemos observar no exemplo a seguir.
Exemplo:
(5a) NÃO REFLEXIVO: AGENTE PACIENTE
A Verbo O
“Matilde quemó la cena”
Nota-se que há diferenças nas estruturas apresentadas, em (5a), que apresenta uma
sentença de estrutura não reflexiva, o papel semântico de agente é realizado por Matilde, pois
é ela quem realiza a ação, e o papel de paciente é la cena („o jantar‟). Não há mudanças com
relação às funções apresentadas na oração, pois A e O continuam exercendo a função de
agente e paciente. Porém, na sentença (5b) de construção reflexiva podemos observar que os
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papéis semânticos realizados por agente e paciente têm como função a de sujeito da oração,
pois Matilde, nesse caso, não queima outra entidade não humana, mas ela se queima.
Em espanhol os verbos semanticamente transitivos para serem reconhecidos como
reflexivos devem apresentar um reflexivo proclítico, como observaremos nos exemplos a
seguir.
Exemplo:
(6a) Cena: AGENTE LAVARSE PACIENTE
Oração: A Verbo O
“Matilde lavó el carro”
Exemplo:
(7a) Cena: AGENTE PACIENTE
Oração: S
“Milton se mordió”
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Exemplo:
(8) Cena: AGENTE PACIENTE
Oração: S
Ona podnimajet seb‟a
1SG.F levantar. PR.3SG [Link]
“ela se levanta”
Na cena (8) observa-se que o reflexivo analítico não diminui a valência sintática, pois
os argumentos A e S são distintos.
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2.4.2 Médias
A construção média ou voz média tem sido muito utilizada em várias nomenclaturas,
porém o que todas estas construções têm em comum é que elas compreendem uma redução de
valência. A construção média tem como objetivo expressar a situação semanticamente
transitiva, em que há um processo sofrido por um paciente, mas não como uma ação realizada
por um agente.
Denomina-se construção média prototípica aquela que é expressa por uma forma
verbal especial. Porém muitas línguas possuem verbos que podem ser utilizados com um
sentido médio sem haver a necessidade de marcação morfológica, por exemplo. Estes verbos
são caracterizados como verbos médios lexicais. Acredita-se que seja interessante utilizar o
termo verbo médio, pois essa nomenclatura é oportuna já que nos possibilita capturar a
semelhança funcional entre as construções intransitivas formadas com esses verbos.
Exemplo:
(9a) TRANSITIVA: AGENTE PACIENTE
A O
Even “The smallest person can change the future”
Nota-se que ao utilizar o verbo transitivamente ocorre normalmente uma mudança que
expressa um agente na função de A e um paciente com a função de O, porém nota-se que
quando usado intransitivamente, termo que é expresso como paciente, passa a ter a função de
S. É o que podemos observar nas sentenças citadas. Na estrutura transitiva podemos perceber
a presença de termos que expressam um agente na função de A e um paciente tendo a função
de O, porém na sentença (9b) não há a presença de agente cumprindo a função A, mas sim um
termo de paciente que realiza a função S, ou seja, de sujeito da oração.
Podemos observar que existe uma semelhança entre as construções médias e as
passivas, pois a única diferença que existe é que a passiva representa uma dada situação a
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partir da ação realizada pelo agente. Mas uma construção média prototípica trata a situação
como um processo, assim demove a função de agente.
As construções médias morfológicas serão representadas pelo Canela, que é uma
língua falada pelos Apãniekrá e Ramkokamekrá (família Jê, tronco Macro-Jê) do interior no
Maranhão. (dados Castro Alves, comunicação pessoal)
Exemplo:
(10a) Cena: AGENTE PARTIR PACIENTE
Oração: A Verbo O
itɛ kotõj kahek
1Erg cabaça partir
“eu parti a cabaça”
2.4.3 Passivas
Exemplo:
(12a) Cena: AGENTE TIBI PACIENTE
Oração: A Verbo O
músó bàra kirin tibi ATIVA
realiza a ação nessa sentença é a mulher. Enquanto o termo agente é expresso por A, o termo
paciente é expresso por O. Na oração (12b) pode-se perceber que a função de agente é
demovida, mesmo que possamos compreender que existe um agente que realiza a ação. Além
disso, a função de agente pode ser expressa por meio de um oblíquo. A construção (12b)
representa uma passiva lexical, pois não há nenhuma morfologia extra ou elementos sintáticos
adicionais.
A passiva morfológica é caracterizada pelos morfemas passivos, que são derivados de
morfemas de aspecto perfeito, cópula ou nominalização. Os exemplos a seguir são do Kalam
Kohistani, que é uma língua falada no Noroeste do Paquistão.
Exemplo:
(13a) TRANSITIVA: AGENTE PACIENTE
A O
muräd-ä Jämäl baka-y
Murad- ERG Jamal. ABS bater-PERF
“Murad bateu em Jamal”
na sentença (13a). A adição deste sufixo na sentença tem o objetivo de alterar a estrutura
argumental da construção.
Em português, as passivas analíticas são formadas com a inserção do verbo auxiliar
“ser”, seguido do particípio passado do verbo principal.
Exemplo:
(14a) TRANSITIVA: AGENTE PACIENTE
A O
“As irmãs Maria e Joaquina fecharam a janela”
O exemplo anterior pode ser considerado como uma passiva analítica, pois há a
presença do verbo auxiliar ser e do particípio passado como. Além disso, nota-se a ocorrência
da mudança da sentença na transitiva para a passiva, pois o A que é um argumento similar ao
agente, que na transitiva realizava essa função, na passiva passa ocupar a função oblíqua. Já o
argumento O, que pode ser considerado como o paciente da cena, passa para a passiva como
S, ou seja, realizando a função de sujeito da oração.
A passiva sintática também pode ser construída a partir do verbo ser com o auxílio de
um verbo psicológico, como o verbo amar. A seguir podemos observar e analisar este tipo de
construção.
Exemplo:
(15a) Cena: AGENTE AMAR PACIENTE
Oração: A Verbo O
“Os pais amam os filhos”
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Por fim, trataremos a respeito das construções passivas impessoais, que tem por
característica serem menos prototípicas, em que são menos ativas que a própria voz ativa.
Ocorre rebaixamento ou demoção do agente, que nesse caso não é específico e pode ser
formado a partir da construção de verbos transitivos e intransitivos.
Exemplo:
(16a) TRANSITIVA: AGENTE COMPRAR PACIENTE
Oração: A VERBO O
“João comprou mais um título”
Exemplo:
(17) Cena: AGENTE
Oração:
Se caen mucho acá
REF cair.3pl muito aqui
“Se cai muito aqui”
Podemos observar a partir deste exemplo do espanhol que o termo agente foi
demovido e que a 3a pessoa do plural marcada pelo verbo não demonstra fazer referência a
alguém, mas sim a pessoas em geral, já que não podemos identificar quem foi que caiu.
É possível que em algum momento da nossa vida, como falantes nativos do português,
nos questionamos a respeito do por que temos de aprender a disciplina Língua Portuguesa na
escola. Pois sabemos a língua, nos comunicamos por esse idioma e, de certa maneira, nos
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compreendemos e somos compreendidos. Então por que aprender uma língua que já sabemos?
Pode-se responder a esse questionamento se compararmos ao ensino de outra língua, como o
inglês. Pois ao aprendermos um novo idioma temos a intenção de conhecer mais sobre o
vocabulário e seus respectivos significados. Além disso, temos o desejo de adquirirmos a
pronúncia, pois sabemos que os sons do inglês são diferentes do português, visto que temos a
intenção de nos tornarmos proficientes na língua.
Nota-se que não são essas atividades realizadas na escola com o ensino de Português,
pois só aprendermos a codificar e a decodificar a representação gráfica, ou seja, ler e escrever.
Os alunos aprendem a utilizar essas construções socialmente, aquelas que não só são
aceitáveis, mas as consideradas mais elegantes – porque foram usadas por escritores
consagrados. A justificativa é para esse ensino a elaboração de textos bem concisos e com
argumentos coerentes.
Os cursos de Língua Portuguesa têm o objetivo de fazer com que os estudantes
utilizem a língua de maneira mais adequada e que possam conectar o conhecimento
linguístico já adquirido com o que eles estudam na escola. Ao fazer uso desse conhecimento
prévio e do que aprendem, eles são capazes de formar uma sentença e perceber as
características da língua, pois os falantes nativos conseguem compreender as construções
desse idioma.
Exemplo:
(1) Cena: TER PACIENTE/TEMA
Oração: Verbo SNobjeto SPoblíquo
Tinha [uma jabuticabeira] [no quintal da minha avó]
(2). A gramática normativa recomenda que em certos tipos de contextos não se utilize o verbo
ter.
Exemplo:
(2) Cena: HAVER PACIENTE/TEMA
Oração: Verbo SNobjeto
Havia uma jabuticabeira no quintal da minha avó.
Nesta seção vamos discutir a respeito do comportamento dos verbos nas construções
de voz passiva. Teremos a oportunidade de observar que há duas classes de verbos distintas
que se comportam de maneiras diferentes nas estruturas de voz passiva e impessoal.
Exemplos:
(3) Cena: AGENTE CUSTAR
Oração: SNsujeito Verbo SNobjeto
O residente custou [para examinar a paciente do quarto 12]
Exemplos:
(5) Cena: PACIENTE CUSTAR AGENTE
Oração: SNsujeito Verbo SPoblíquo
[A paciente do quarto 12] custou [para ser examinada [pelo residente]]
Exemplos:
(7) Cena: AGENTE EXAMINAR PACIENTE
Oração: SNsujeito Verbo SNobjeto
Custou para que [o residente] examinasse [a paciente]
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Nota-se que as sentenças (7) e (8) apresentam o verbo custar, que é impessoal, ou seja,
um verbo sem sujeito. Os termos residente e paciente do quarto 12 satisfazem as exigências
semânticas do verbo examinar, pois esse verbo indica uma ação que necessariamente envolve
agente e objeto. Esses constituintes que estão envolvidos na ação do verbo são chamados de
argumento do verbo, que neste caso são o residente e a paciente do quarto 12. Já nas
sentenças (9) e (10) ocorre a mesma situação com o verbo custar, pois os constituintes
residente e paciente do quarto 12 não satisfazem as exigências do verbo pretender, mas sim
do verbo examinar, que exige um participante que realize a ação e o objeto, ou seja, o
paciente. Essas sentenças são agramaticais, pois elas não explicitam quem realmente deve
realizar a ação. Além disso, acredito que essas construções também causam uma estranheza
ao leitor, pois é possível imaginar que alguém pretenda que o residente examine a paciente,
mas ao colocar em prática essa sentença não se torna possível para quem está lendo.
Diante dos argumentos apresentados podemos perceber as diferenças que existem
entre os verbos custar e pretender. Com isso, nota-se que há dois grupos de verbos, um que se
comporta como o verbo custar, destacando-se outros como: parecer, costumar, começar, entre
outros. E outro conjunto que age como o verbo pretender, como: querer, tentar, desejar, entre
outros. A seguir analisaremos mais algumas sentenças, tendo como foco o contraste entre o
verbo parecer e tentar.
Exemplo:
(11) Cena: AGENTE PARECER PACIENTE
Oração: SNsujeito Verbo SNobjeto
[O residente] parece ter examinado [a paciente do quarto 12]
32
A gramática tradicional aborda que os verbos têm sujeito e objeto, e a partir dessa
construção é possível realizar uma sentença de voz passiva, como pode ser observado nos
exemplos a seguir:
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Exemplo:
(15a) Cena: AGENTE CONSTRUIR TEMA ATIVA
Oração: SNsujeito Verbo SNobjeto
O Pedro construiu esta casa
Exemplo:
(17a) Cena: AGENTE QUEBRAR PACIENTE
Oração: SNsujeito Verbo SNobjeto
As crianças quebraram o vaso de cristal
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Como foi dito anteriormente, o verbo quebrar é transitivo direto e pode ser
passivizado, como podemos observar na sentença (17b) o termo o vaso é promovido a sujeito
da oração e compreende-se que foi necessário a ação de alguém para que ocorresse a quebra.
Todavia, a sentença (18b), que também é uma construção com o verbo quebrar, vai nos
mostrar uma situação diferente da anterior.
Exemplo:
(18a) Cena: AGENTE QUEBRAR PACIENTE
Oração: SNsujeito Verbo SNobjeto
O Pedro quebrou a perna
Exemplo:
(19a) Cena: AGENTE PERDER PACIENTE/TEMA
Oração: SNsujeito Verbo SNobjeto
O carteiro perdeu a carta do banco
Nota-se que o verbo perder é um verbo transitivo direto e a partir das construções
apresentadas podemos observar que é possível realizar a construção de voz passiva a partir
desse verbo, a sentença (19b) é um exemplo disso. Observemos o que acontece com as
sentenças a seguir, que também apresentam construções com o verbo perder.
alguma base que regule a possibilidade de os verbos transitivos diretos serem usados na voz
passiva, mas que não são tratados da maneira adequada pelas gramáticas tradicionais. Nota-se
que esse princípio é bem conhecido pelos falantes nativos, pois sabemos como e quando usar
a voz passiva.
Outro fenômeno a ser analisado é com relação à passivização dos verbos psicológicos.
Como temos visto é comum que verbos transitivos diretos possam realizar-se na voz passiva,
mas não é o que temos conseguido comprovar, e isso também ocorre com os verbos
psicológicos. Na próxima seção, apresentaremos a respeito do comportamento dos verbos
psicológicos.
A classe de verbos psicológicos é outro fenômeno que não pode ser generalizado com
relação à aplicação da voz passiva a toda a classe de verbos transitivos diretos. Os verbos
psicológicos são aqueles que se expressam através do estado emocional.
Exemplo:
(21a) Cena: AGENTE AMAR PACIENTE
Oração: SNsujeito Verbo SNobjeto
O Paulo amava a Maria
participarem de uma sentença de voz passiva, e a partir desses testes pode-se concluir que
com relação à questão da construção da voz passiva observa-se que esse processo só pode
ocorrer quando o sujeito da sentença estiver no controle da ação que é expressa pelo verbo,
pois se isso não se realizar não é possível a passivização. Com relação aos verbos
psicológicos também são realizados testes, para que não se generalize a aplicação da passiva
na classe dos verbos transitivos, e novamente as autoras observam que em algumas
construções é possível formar a voz passiva, mas por algum princípio que regula o verbo em
outras ocasiões não é possível realizar a passiva.
da posição que esse termo encontra-se na sentença e da conjugação do verbo. Observa-se que
em uma sentença ativa a ação é vista a partir do ponto de vista do agente. Por outro lado, na
construção passiva, a ação passa a ser do ponto de vista do paciente. A realização da noção de
perspectiva resulta da hierarquia de empatia DELANCEY (1981, pp.626-57 apud
CAMACHO, 2002, p.231), que também pode ser denominada hierarquia de
pessoa/animacidade, por Dik (1989 apud CAMACHO, 2002, p.231).
Exemplo:
[P1, P2] > P3 humano > animado > força inanimada > inanimado
Diante do que foi relatado, trataremos nesse texto a respeito de construção de voz. Há
no português duas construções principais de voz, sendo elas: a voz passiva e a voz impessoal.
A voz passiva, que também pode ser chamada de analítica, tem como formação um auxiliar,
sendo que pode estar em qualquer tempo verbal, e também um particípio passado, que pode
ocorre concomitantemente a um SP agentivo (ou não). Já as construções impessoais, também
chamadas de passiva sintética, são constituídas por um verbo conjugado na 3a pessoa,
combinado com o pronome se, tendo a função de pronome apassivador, que segundo a
gramática tradicional o qualifica como clítico. Ao se eliminar o SN agentivo pode-se observar
que a voz impessoal passa a ter uma função diferente da que possui a construção passiva.
Nota-se que nessas estruturas o termo que codifica o paciente aparece como sujeito e há a
possibilidade de se introduzir um representante do agente, comum sintagma preposicionado.
Na voz impessoal observa-se que há a ausência do argumento sujeito, para que a ação
verbal possa ter vantagem. Observa-se que na formação da construção impessoal cria-se uma
estrutura ativa impessoal, em que o argumento paciente não tem a função de sujeito, pois essa
posição é preenchida com a partícula se.
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Exemplo:
(1) Cena: AGENTE VIVER
Oração: Verbo + SE Advérbio modo Advérbio lugar
Vive-se bem aqui
Nota-se que na sentença vive-se bem aqui, não há a presença de agente, ou seja, aquele
que realiza a ação, pois ele foi demovido. Mas o uso da partícula se demonstra a indefinição
de quem é o agente da sentença. Segundo Naro (1976 apud CAMACHO, 2002, p.233), a
construção de voz impessoal é uma estrutura recente, pois ao analisar textos antigos não foi
possível detectar a presença de sentenças desse tipo.
Outra construção que deve ser discutida é a voz média, que Camacho (2002) denomina
também de reflexiva. Essa construção é organizada a partir de uma estrutura com verbo na
voz ativa, em que se acrescenta um pronome reflexivo ao sujeito. Ao se comparar essa
construção com a impessoal, nota-se que há uma certa dificuldade para diferenciar esses dois
tipos de construções de vozes, já que são estruturas muito parecidas. É possível diferenciar
cada uma dessas vozes, uma vez que a impessoal exibe o clítico se posto ao verbo, já as de
voz média ou reflexivas, o clítico precede o verbo.
Exemplos:
(2) Cena: AGENTE VENDER PACIENTE
Oração: Verbo Clítico SNobjeto
Aluga(m) - se casas
A sentença aluga(m)-se casas não pode ter o sujeito expresso, pois não sabemos quem
está vendendo as casas. Como falantes nativos do português, sabemos que há alguém que está
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vendendo essas casas. Na segunda sentença, o vaso se quebrou nota-se que há a presença de
um sintagma nominal exercendo a função de sujeito, porém não se pode afirmar que ele esteja
realizando a ação. Ou seja, não há agente, já que um vaso não pode se quebrar sozinho. Para
que isso ocorra é necessário que haja a ação de um humano ou de um ser animado.
(estado e posição) e evento (ação e processo). Nesse sentido, serão analisados alguns pontos,
como: traços [+/ - dinâmico], [ +/- télico] e [+/- controlado]. O resultado de uma predicação
de posição tem como finalidade a combinação de traços [- dinâmico, + controlador];
predicação de estado [- dinâmico, - controlador]; predicação de ação [+ dinâmico,+
controlador]; e um processo de estado de coisas [+ dinâmico, - controlador].
Com relação aos argumentos, Dik (1989 apud CAMACHO, 2002, p.236) descreve as
seguintes funções semânticas para o argumento A1 e A2, sendo que A1 representa o único
argumento do predicado de um lugar e o mais central do predicado de dois lugares: agente é
entidade que controla a ação; posicionador sendo aquele que controla a posição; força é a
entidade que não controla, porém investiga o processo; processado é aquele que sofre o
processo; zero é a entidade que está envolvida primariamente em um estado; processador-
experienciador é quem experiência o processo; zero-experienciador a entidade que
experiência. Já argumento que se encontra na posição A2 tem como funções semânticas: meta
ou meta-experienciador é aquela entidade afetada ou efetuada pela ação de algum controlador
(agente e posicionador) ou não controlador (força); recipiente é a entidade para a qual se
transfere alguma coisa; locação e direção são autodefinidas; referência é o segundo ou terceiro
termo em referência ao qual há uma relação que se mantém. Nota-se que as funções de
agente, posicionador e força exercem o papel de realizar a ação. A meta representa a entidade
de protopapel de paciente, ou seja, representa as entidades de um evento transitivo
prototípico. Essas características são desenvolvidas semanticamente pelos argumentos. Ao
longo do texto vamos interpretar e reconhecer algumas delas.
Os critérios a seguir estão relacionados à especificação dos critérios e técnicas de
levantamento que são responsáveis pela análise pragmática. O principal objetivo nessa função
está relacionado ao exame da topicalidade dos argumentos que estão na posição de sujeito nos
tipos de construção de voz que estão sendo analisados, ou seja, passiva e impessoal, com base
em dois parâmetros, que são baseados em Givón (1981; 1994 apud CAMACHO, 2002, p.237)
e Wright e Givón (1987 apud CAMACHO, 2002, p.237), que segundo esses teóricos, a
topicalidade de referentes nominais pode ser baseada nas seguintes dimensões: acessibilidade
anafórica e persistência catafórica.
Esses fundamentos estão baseados no postulado de quanto mais relevantes há a
tendência de eles serem referentes, tanto mais anaforicamente acessíveis e cataforicamente
persistente, ou seja, quanto mais tópico os elementos forem mais recorrentes vão ser e
contínuos. Portanto, pode-se observar que essas duas medidas não avaliam diretamente a
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Transitivo
60 85 7 15 67 7,3
circunstancial
Intransitivo 60 76 19 24 79 8,6
42 5,2
Existencial 6 12 88 48
Esta seção tem como foco os dois tipos de construção, a voz passiva e a impessoal, e
logo a seguir a tabela 4 apresenta alguns desses aspectos relevantes para essas duas
construções.
47
Observa-se que quanto menor o grau de formalidade maior será a incidência das
construções passivas. Por outro lado, nota-se que a construção impessoal não recebe tanto
prestigio assim, pois a sua incidência é menor.
2
Baixa formalidade.
3
Média formalidade.
4
Alta formalidade.
48
Observa-se por meio dos dados demonstrados na tabela 5 que a grande maioria dos
predicados que ocorrem na construção de voz passiva são verbos de ação. Nos esquemas
apresentados de predicado, o argumento A2 tem a função temática de paciente, representado
por uma entidade afetada ou efetuada (meta e meta experienciador). Já no argumento A1
temos a entidade sendo representada pelo papel temático de agente. Esse demonstra traços [+
humano] e [+ controlador]. A seguir exemplos que podem ilustrar essa situação.
Observa-se diante dos dados apresentados que há incidência, não muito significativa,
de predicados de posição, 3,5% (9/255) que são somados aos de ação, totalizando 95,5% – a
maioria é semanticamente marcada pelo traço [+ controlador]. Essa posição, segundo Dik
(1989 apud CAMACHO, 2002, p.247), inclui verbos de percepção ou posição mental, como
considerar e seus similares.
49
A2 Referência 22 8,5
Meta experienciador 7 3
Total 255 100
Fonte: Camacho 2002.
Exemplo:
(6a) Cena: AGENTE QUEBRAR PACIENTE
Oração: SNsujeito Verbo SNobjeto
João quebrou o vidro da janela
Pode-se observar que nessa estrutura ativa há a presença do sujeito, que é o causador
da ação, é o agente, assim como também é ele quem controla o ato, portanto uma entidade
animada. Mas por outro lado os elementos que são representados pelo objeto são afetados pela
ação verbal.
Exemplo:
(6b) Cena: PACIENTE QUEBRAR AGENTE
Oração: SNsujeito Verbo Oblíquo
O vidro da janela foi quebrado (por João)
As sentenças demonstram uma diferença entre elas, pois em (6b) temos o vidro
acontecendo na função de sujeito, embora esteja implicado que essa ação for realizada por
alguém. Já na sentença (6c) temos a impressão de que não há um agente envolvido.
As sentenças com entidades animadas agentivas, porém não controladoras, fogem do
protótipo de construções passivas, como se pode observar nas estruturas a seguir: Sem querer
a faxineira quebrou o vaso quando varria a casa e Sem querer o vaso foi quebrado pela
faxineira quando ela varria a casa. Nota-se que na primeira sentença a entidade a faxineira
apresenta características de um termo mais tópico, uma vez que é ela que está promovendo a
ação. Porém, na segunda estrutura observa-se que o termo o vaso é promovido a sujeito da
oração, enquanto que o sintagma a faxineira é demovido e passa a realizar a função oblíqua da
51
Exemplos:
(7a) Cena: CAUSADOR DERRUBAR PACIENTE
Oração: SNsujeito Verbo SNobjeto
O vento derrubou o vaso
Nota-se que na sentença (7a) que causador da ação é o vento e, portanto, ele é quem
realiza a derrubada do vaso. Porém, em (7b), o vento, ainda sendo causador, é demovido da
sua função de sujeito, enquanto que o vaso é promovido na estrutura oracional, passando a
ocupar, assim, a posição de sujeito.
Os verbos que expressam estado psicológico, como amar, odiar, detestar, admirar,
estimar, aceitar, ignorar, conhecer, e aqueles que expressam processos fisiológicos, como ver,
ouvir, cheirar, tanto permitem construções passivas quanto impessoais.
Exemplo:
(8a) Cena: TEMA AMAR EXPERIENCIADOR
Oração: SNsujeito Verbo Oblíquo
Antônio é amado por Maria
52
Diante das estruturas apresentadas há um fato que deve ser discutir, pois gera dúvidas
quanto à veracidade. As construções com verbos de estado e de processo, em que a função de
sujeito é realizada por uma entidade experienciadora, são, de fato, verdadeiras construções
passivas do tipo ser Vdo por N. Tem-se a impressão de que não é uma possível explicação
para esses verbos que sintaticamente, mas não nocionalmente transitivos, aceitem esses tipos
de construções passivas podem ser encontrados a partir da motivação formal e da motivação
pragmática.
A motivação formal mora no paralelismo estreito entre sentenças prototipicamente
transitivas, como José feriu Maria. E sentenças do tipo experienciação de estados e processos,
como em: Jose amou Maria e José viu Maria. Estas sentenças podem fazer com que o leitor
pense de acordo com Lyons (1979 apud CAMACHO, 2002, p.254) que verbos como amar e
ver sejam vistos como atividades em que a primeira iniciativa é dada pela entidade humana,
como ocorre com a entidade agentiva ferir.
A motivação pragmática tem a ideia de que os verbos de percepção psicológica, como
amar, e fisiológica, como ver, abrangem, na maioria das vezes, duas entidades humanas.
Neste caso, a passiva, em vez de um processo semântico de detransitivização, poderia ser
considerada como um processo pragmático de perspectivização (FILMORE, 1968; DIK, 1989
apud CAMACHO, 2002, p.254).
53
A animacidade também é uma característica que deve ser analisada, e quando se trata
de animacidade da entidade na função oblíqua devemos observar as suas ocorrências.
Nota-se que não pode ser possível aplicar às entidades abstratas o traço de
animacidade. Assim, podem-se incluir as abstratas à categoria das inaminadas. Observa-se
também que as construções passivas são caracterizadas por um alto índice de entidades
inanimadas na função de sujeito. Caracteriza-se como o total remanescente de entidades
54
Como mencionado na seção anterior, dois dos mais relevantes aspectos da topicalidade
de referentes nominais podem ser medidos, tendo em vista duas referências textuais, ou seja,
acessibilidade anafórica e persistência referencial, pois o objetivo aqui é avaliar a relação
anafórica entre constituintes na função de sujeito da construção passiva.
Primeiramente vamos tratar a respeito do método que mede a distância referencial. No
lugar de medir a lacuna anafórica e o número de orações que separam a presente ocorrência
da última no texto antecedente, este texto tem o objetivo de avaliar a relação anafórica entre o
constituinte na função de sujeito da construção passiva, de acordo com os seguintes fatores na
tabela 9: (1) o antecedente anafórico está na oração imediatamente anterior; (2) o antecedente
ocorre na segunda ou terceira oração desde a presente ocorrência; (3) não se encontra nenhum
antecedente nas três orações anteriores.
Número (%)
Pronome relativo 47 18,5
Oracional 3 1
SN lexical 103 40,5
Anáfora zero 71 28
Anáfora pronominal 29 11,3
Pronome não referencial 2 0,7
Total 255 100
Fonte: Camacho 2002.
Os dados apresentados denotam uma alta incidência dos pronomes relativos, anáfora
zero, com 57,8% (147/255), tendo como oposição dos SNs lexicais, que tiveram incidência de
40,5% (103/255).
Vamos tratar agora do segundo método, que tem como objetivo medir – também
chamada continuidade catafórica – a persistência tópica. São analisados três subfatores que
compõem a contagem: (1) o SN sujeito não é retomado em nenhuma das orações; (2) o SN
sujeito é retomado em duas orações ou em pelo menos uma das sentenças; (3) o SN sujeito é
retomado em três ou mais sentenças. Os resultados estão na tabela 11.
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Número (%)
Não retomada 94 37
Retomada em uma ou duas
85 33
orações seguintes
Retomada em três ou mais
76 30
orações seguintes
Total 255 100
Fonte: Camacho 2002.
Segundo Dik (1981; 1989 apud CAMACHO, 2002, p.272), para se construir uma
estrutura subjacente de uma sentença é necessário que haja um predicado, e deve-se aplicar a
ele um número apropriado de termos. Tendo em vista que os predicados vão designar
propriedades e relações e os termos que se refiram a entidades. A seguir temos o resultado
desse pressuposto.
A nossa interpretação da predicação é que estão dando algo a alguém, mas isso não
está sendo bem formulado. Para Dik (1989 apud CAMACHO, 2002, p.273), a constituição de
um estado de coisas não é somente determinado pelo que se diz, mas também pelo modo
como está se moldando o esquema da predicação. Nota-se na sentença apresentada que não há
uma realidade e é necessário expressar por meio da predicação.
A estrutura fundamental da predicação, em seu nível mais abstrato, pode ser
determinada pelas possibilidades combinatórias dos predicados, todos sendo constituídos por
57
elementos lexicais. Tal como vamos apresentar no esquema de predicado nuclear do verbo
dar.
Exemplo:
(10a) Cena: AGENTE DAR RECIPIENTE
Oração: SNsujeito Verbo SNobjeto SP
João deu o livro a José
O nosso ponto de partida aqui é examinar primeiramente um subtipo de voz média que
pode ser denominado como construção impessoal, que semanticamente se aproxima da
passiva. O clítico se, que compõem essa construção de voz, não apresenta relação anafórica e
58
também não tem um correferencial com o SN sujeito. Assim, podemos compreender essa
partícula como um morfema sinalizador de passiva, denominado, segundo a gramática
tradicional, pronome apassivador.
Nota-se algumas propriedades que fazem com que essa estrutura se aproxime da
passiva. São elas: a construção somente é possível com predicados que também aceitem a voz
passiva; as restrições de seleção sobre o sujeito e o objeto do esquema do predicado são
idênticas; a construção impessoal faz com que o argumento agentivo seja suprimido, mas
subtende-se que ele está lá. Observa-se que há semelhanças entre as duas construções
(impessoal e passiva), porém ocorre a diferenciação entre elas com relação a não identificação
do sujeito agentivo: presente na passiva, mas ausente na impessoal. A seguir examinaremos
os dados da natureza semântica do predicado e de seus argumentos em um esquema de
predicado.
Observa-se que a grande maioria dos predicados das construções impessoais é de ação,
86% (128/149). Nas construções a seguir observaremos mais a respeito desse fenômeno.
Nota-se que a incidência dos outros tipos de predicado é pouco significativa, muito
embora esses dados aplicam-se à construção impessoal as mesmas condições semânticas que
se aplicam a uma construção passiva.
59
Outro ponto que deve ser analisado com relação à construção impessoal é a
distribuição dos papéis semânticos dos dois argumentos envolvidos.
Tabela 13 – Papel semântico dos argumentos na voz impessoal
Clítica Não clítica Total
No (%) No (%) No (%)
Agente 76 82 52 93 128 86,5
A1 Posicionador 5 5 3 7 8 5,5
Processo 12 13 - - 12 8
Meta 74 79,5 51 91 125 84,5
A2 Referência 19 20,5 4 9 23 15,5
Total 93 - 56 - 148 -
Fonte: Camacho 2002.
Exemplos:
(11a) Cena: AGENTE VACINAR PACIENTE
Oração: SNsujeito Verbo SNobjeto
Um homem vacinou o cachorro
Diante do que foi exposto, ao examinar as construções de voz ativa nos dados
apresentados pelo Nurc, observou-se que o português falado culto se manifesta em uma
estrutura SV (O), que não é marcada, e que deve ser considerado o esquema de predicado
canônico. Esse esquema apresenta o argumento sujeito pragmaticamente tópico,
61
Nota-se que a construção ativa é aquela em que o agente é mais tópico que o paciente
e, portanto, possui mais topicalidade. Na passiva, o paciente é mais tópico que o agente,
apesar de esse não expressar tão bem essa topicalidade. Por isso, podendo ser mantido ou
suprimido. A construção média apresenta características do paciente sendo tópico e o agente é
demovido, pois é uma estrutura que se apresenta como não tópica. Essa construção não foi
discutida nesse texto, mas acredito que seja necessário apresentar essa característica, para que
possamos comparar com as demais. E por fim, temos a construção impessoal – clítica ou não
clítica –, sendo que essa estrutura apresenta um agente extremamente não tópico, assim sendo
suprimido, porém o paciente, ainda que mais tópico que o agente, pode ou não adquirir
características subjetivas.
62
CAPÍTULO 3 – DISCUSSÃO
Esta seção tem como proposta discutir os critérios estabelecidos pelos autores dos
textos A competência linguística (critério sintático) e Construções de voz (critério pragmático,
semântico e sintático). Esses escritos são relevantes para este trabalho, uma vez que os autores
apresentam diferentes visões com relação aos tipos de construções de voz.
Negrão, Scher e Viotti (2008) têm como principal objetivo discutir que tipo de
conhecimento os falantes possuem. A partir do critério sintático e na interface com léxico, as
autoras abordam o contraste entre verbos que permitem certos tipos de construções de voz,
enquanto outros verbos não.
As autoras apresentam na introdução o questionamento a respeito do porque
aprendemos português na escola se já somos falantes nativos dessa língua. Conecta
conhecimento linguístico com ler/escrever, com construção mais elegante – para elaboração
de textos mais concisos e com argumentos coerentes.
Em seguida, utiliza o critério sintático para analisar duas classes de verbos que
apresentam diferentes estruturas, como os verbos custar e pretender. Observa-se que a
substituição de sentenças infinitivas por sentenças desenvolvidas nos mostra que a estrutura
das sentenças com o verbo custar é diferente daquela do verbo pretender:
Podemos observar nas sentenças (a) e (b) que o verbo custar é impessoal, sem sujeito,
e os termos residente e paciente do quarto 12, não satisfazem as exigências semânticas desse
verbo, mas sim do examinar. Já as sentenças (c) e (d) que estão marcadas com asterisco não
representam construções que podem ser realizadas no português do Brasil. Os constituintes
presentes nessas sentenças satisfazem o verbo examinar, mas o próprio verbo pretender exige
um constituinte que preencha o papel daquele que pretende.
Portanto, para que essas sentenças sejam realizáveis no português do Brasil é
necessário utilizar termos que satisfaçam as exigências desse verbo. A seguir observaremos
essa construção com os devidos ajustes.
(e) O residente pretende que o médico-chefe examine a paciente do quarto 12.
64
(f) O residente pretende que a paciente do quarto 12 seja examinada pelo médico-chefe.
Pode-se observar que ao inserir os constituintes que satisfazem o verbo pretender essas
construções não são mais agramaticais, pois os termos o residente e o médico-chefe foram
capazes de atender as exigências do verbo.
Outro aspecto discutido pelas autoras é a respeito do conjunto de verbos que se
comporta como o custar, parecer, costumar, começar e outro conjunto de verbos que se
comportam como o pretender, querer, tentar, desejar.
A seguir observaremos o contraste entre os verbos parecer e tentar, ambos pertencem
ao conjunto de verbos custar e pretender.
Pode-se observar que ao contrastar as sentenças (g) e (i) da voz ativa/passiva referente
ao conjunto do verbo custar não acarreta em mudança semântica na estrutura, uma vez que a
sentença na passiva é equivalente à estrutura da ativa. Já ao contrastarmos as sentenças (h) e
(j) da voz ativa/passiva referente ao conjunto do verbo pretender observar-se que acarreta
mudança na estrutura e na semântica, pois percebe-se na sentença ativa que quem tenta
examinar a paciente é o residente sendo o agente da ação, mas na construção passiva ocorre
que a paciente é promovida a sujeito da ação, pois é ela quem tenta ser examinada pelo
residente.
Negrão, Scher e Viotti (2008) discutem a respeito de algumas restrições de verbos
transitivos diretos, uma destas delimitações é com relação aos verbos quebrar e perder, a outra
é com relação aos verbos psicológicos amar e chatear. Os verbos quebrar e perder são verbos
que apresentam restrições a partir de construções passivas.
no português do Brasil, uma vez que não compreendemos que a perna quebrada é de Pedro,
mas sim que a perna foi quebrada pelo Pedro. Outras construções que devem ser analisadas
são as com o verbo perder.
Observa-se que ao contrastar os verbos amar e chatear nota-se que a primeira sentença
aceita a passiva, porém a segunda não permite esta construção. A oração (r) não admite a
passiva, pois é uma sentença agramatical no português do Brasil.
Outro aspecto a ser analisado é sobre as construções passivas que tem como auxiliar o
verbo ser e ficar, sendo que o verbo amar aceita a passiva sintática, aquela realizada com o
verbo ser, porém sentenças com o verbo chatear não aceitam esta construção. A seguir esses
tipos de construções.
Portanto, pode-se concluir que ocorrem essas restrições com esses grupos de verbos,
uma vez que observamos que existem constituintes participantes dessas estruturas que
possuem traços mais humanos. Além disso, nota-se que há uma sistematicidade nas relações
entre léxico e sintaxe, que também se observa em outros conjuntos linguísticos.
66
Camacho (2002), autor do texto Construções de voz, tem como principal foco discutir
uma caracterização semântica e pragmática à diversidade morfossintática das construções de
voz por meio da combinação de três domínios funcionais, que se distingue pela função
pragmática de atribuição tópica.
O autor apresenta o conceito de voz e discute também esse conceito em português,
sendo voz passiva e voz impessoal. Distinguindo que a passiva, também conhecida como
analítica, se constitui a partir de um auxiliar e um particípio, que pode ser seguido ou não de
um SP agentivo. Já a impessoal é também conhecida como passiva sintética, que é constituída
por um verbo na 3a pessoa da forma ativa, e que se combina com o pronome se. Camacho
(2002) apresenta alguns aspectos que diferem das construções passiva da impessoal, um deles
é a promoção do paciente a sujeito da oração, que ocorre nas construções passivas. Já nas
impessoais, o autor comenta a ausência do argumento sujeito, pois se cria uma estrutura ativa
impessoal, que o argumento paciente não possui a função de sujeito, já que esta posição é
preenchida pela partícula se.
O autor no item Universo de pesquisa e procedimentos metodológicos apresenta o
corpus que será analisado ao longo do texto, os dados são do Projeto da Nurc, tendo como
informantes cultos de Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. Tem-se
como objetivo estabelecer, no final desse estudo, uma tipologia funcional em busca de
generalizações válidas que caracterizem um subsistema gramatical do português falado.
Camacho (2002) comenta sobre alguns fatores que são necessários para analisar as
construções de voz passiva e impessoal. Sendo eles de natureza semântica, pragmática e
sintática, tendo em vista que a análise semântica tem como objetivo examinar o tipo de
predicado e as funções dos argumentos A1 e A2, ou o papel temático. Além desses fatores,
analisa-se o grau de animacidade de referentes envolvidos. O objetivo desse tratamento
semântico é de promover um quadro das condições que autorizam a formulação de estruturas
de voz passiva e impessoal. Com relação aos critérios pragmáticos, o objetivo neste caso é
examinar a topicalidade dos argumentos na posição de sujeito dos tipos de construção de voz.
Tendo como base dois parâmetros, a acessibilidade anafórica e a persistência catafórica. Tais
critérios fazem referência ao postulado de que, quanto mais tematicamente importante tem a
ser os referentes, tanto mais anaforicamente acessíveis e cataforicamente persistente, ou seja,
quanto mais tópico, mais textualmente contínuo e recorrente.
O autor aponta e discute resultados gerais, mediante os quais se situa o bloco de
construções passivas e impessoais em oposição ao das ativas. Além disso, Camacho (2002)
indica dados que tem referência à relação entre subtipos de construção de voz e a presumível
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variação dialetal e estilística. Outro ponto discutido pelo autor é a respeito da análise
semântica e pragmática das construções passivas e suas consequências sintáticas para a
gramática do português. Além do que o autor ainda apresenta uma descrição geral de como se
estruturam as construções de voz impessoal.
Os dois textos apresentam dados na sua redação, Camacho (2002) utiliza o corpus
coletado pelo Projeto Nurc, gravado com informantes dos estados de Recife, Salvador, Rio de
Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, e essa informação é relevante, pois percebemos como os
falantes nativos utilizam essas construções de diferentes maneiras. No texto A competência
linguística, as autoras também utilizam dados, e inclusive realizam diversos testes, mas não
informam aos leitores a respeito desses elementos.
O artigo A competência linguística se baseia na sintaxe para abordar a discussão a
respeito dos tipos de construções de voz. Na publicação, as autoras não apresentam teóricos
que possam contribuir para o embasamento da discussão. Camacho (2002), no texto
Construções de voz, apresenta vários teóricos para compor debate com relação aos tipos de
construção de voz, o que torna o texto dele mais abrangente.
Negrão, Scher e Viotti, (2008) discutem a respeito da passiva, mas não apresentam a
definição e as propriedades da voz passiva no português do Brasil e entendo que isso seja um
ponto negativo no texto das autoras. Acredito que seria interessante se elas tivessem
apresentado essas informações, pois agregaria mais dados para o artigo delas. Além disso,
comentar a respeito da demoção do agente e da promoção do agente a sujeito, fato que ocorre
nas construções passivas, não são mencionados também.
Outro ponto interessante que podemos comentar é de que os textos têm em comum o
fato de eles abordarem os verbos psicológicos nas construções passivas. As autoras Negrão,
Scher e Viotti (2008) argumentam que alguns verbos psicológicos transitivos diretos ao
integrarem uma construção passiva pode-se notar que existem algumas restrições que
impossibilitam a estrutura a passiva, como constituintes com traços mais humanizados e o uso
de verbo auxiliar ser. Segundo as autoras, o fato de um certo grupo de verbos psicológicos
aceitarem realizar a passiva e outros não é um fenômeno que demonstra a sistematicidade nas
relações entre léxico e sintaxe. Já Camacho (2002) trata esses verbos como aqueles que
exprimem estado psicológico, e não como um estado emocional como as autoras defendem.
Além disso, o autor também discute que verbos como esses na maioria das vezes têm como
participantes entidades humanas e que a passiva, em vez de um processo semântico de
detransitivização, seria antes um processo pragmático de perspectivização.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
também com outros recursos, e utilizar esses textos acadêmicos proporcionará aos estudantes
uma oportunidade de aprendizado a respeito das construções passivas, mas a partir de
abordagens diferentes. É claro que para que isso aconteça é necessário interesse dos
professores em utilizar esse tipo de material em sala de aula.
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REFERÊNCIAS bibliográficas