O pátio do recreio estava cheio de actividade.
Com oito anos, Mikhail já estava há dois nos Es-
tados Unidos e, felizmente, já não receava que
batessem a qualquer momento à sua porta para
levarem o seu pai ou que o acordassem, de re-
pente, numa manhã na Ucrânia, para ter de fugir
para a Hungria, atravessar a Áustria e chegar final-
mente a Nova Iorque. Coisa que, depois do tempo
decorrido, lhe parecia um sonho.
Vivia em Brooklyn e gostava. Tinha a nacio-
nalidade americana, o que era ainda melhor. Ia à
escola com a sua irmã mais velha e o seu irmão
mais novo... e falavam inglês a maior parte do
tempo. A sua maninha mais nova, ainda bebé,
nascera ali e, por sorte, nunca saberia o que era
tremer de frio escondida num vagão de comboio,
à espera que a descobrissem, ou à espera de al-
cançar a liberdade.
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NORA ROBERTS
Havia vezes em que não pensava em nada disso.
Gostava de se levantar de manhã e olhar pela ja-
nela do seu quarto para as casinhas pequenas que
tanto se pareciam com a dele. Gostava de cheirar
o pequeno-almoço que a sua mãe fazia na cozi-
nha e de ouvir o seu pai assobiar enquanto se pre-
parava para sair para trabalhar. O seu pai tinha de
trabalhar muito e, às vezes, voltava muito cansa-
do, mas tinha sempre um sorriso nos lábios. E, à
noite, havia sempre comida quente e gargalhadas
na mesa onde se sentavam para jantar.
A verdade era que a escola não era má e estava
a aprender muito. Excepto quando os seus profes-
sores diziam que tinha o defeito de sonhar acor-
dado com demasiada frequência.
– Olha... as raparigas estão a saltar à corda –
comentou Alexei, o seu irmão mais novo, no pá-
tio do recreio.
Ambos tinham o cabelo escuro e os olhos cas-
tanhos. Com aquela idade, não se preocupavam
muito com as raparigas. A não ser que fossem da
família.
– Natasha... – acrescentou Alex, com um sor-
riso orgulhoso, referindo-se à sua irmã mais ve-
lha. – É a que salta melhor.
– É uma Stanislaski – comentou Mikhail, como
se isso explicasse tudo.
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NEGÓCIOS E PRAZER
Alexei assentiu em silêncio enquanto estudava
o pátio do recreio. Gostava de ver como as pes-
soas se comportavam, o que faziam e não faziam.
Fixou o olhar nos dois rapazes que se encontra-
vam no outro extremo do pátio.
– À saída da escola temos de dar àqueles dois
o que merecem: Willy e Charlie Braunstein.
– Está bem. Porquê? – inquiriu Mikhail.
– Porque Will disse que éramos espiões russos
e Charlie riu-se da brincadeira.
– Sim – assentiu Mikhail. E os dois irmãos en-
treolharam-se, sorrindo.
Voltaram tarde para casa da escola. Mikhail ti-
nha as calças rasgadas e Alexei tinha o lábio infe-
rior magoado, mas valera a pena. Os irmãos Sta-
nislaski tinham saído vitoriosos da batalha.
– Charlie tem um bom gancho – comentou
Mikhail. – Quando voltares a enfrentá-lo, terás
de ser mais rápido. E, além disso, tem os braços
mais compridos do que tu.
– Mas agora tem um olho arroxeado – indicou
Alex, num tom satisfeito.
– Sim. Quando formos à escola amanhã...
Oh, oh – interrompeu-se de repente, atemori-
zado.
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NORA ROBERTS
Nadia Stanislaski, a sua mãe, estava à espera de-
les à porta de casa, com as mãos nas ancas.
– Oh... Acho que vamos ter problemas... –
murmurou Alexei.
– A quem o dizes... – replicou Mikhail.
Alexei ensaiou o mais beatífico dos seus sor-
risos, apesar da dor no lábio, mas Nadia continua-
va a olhar para eles com uma expressão carran-
cuda.
– Voltaram a lutar?
Como o mais velho dos dois, Mikhail deu um
passo em frente.
– Só um bocadinho.
– Entre vocês?
– Não, mãe – Alex lançou-lhe um olhar espe-
rançado. – Will Braunstein disse-nos que...
– Não me interessa o que Will Braunstein vos
disse. Sou a mãe de Will Braunstein?
Face ao seu tom zangado, ambos baixaram o
olhar para o chão, murmurando:
– Não, mãe.
– Não, claro. Sou a vossa mãe. E isto é o que
faço quando os meus filhos voltam tarde da escola
e lutam como vândalos...
Contudo, antes de conseguir pô-los em casa,
ouviu um ruído que só podia provir da velha car-
rinha do seu marido, Yuri.
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NEGÓCIOS E PRAZER
– O que é que fizeram? – inquiriu, ao observar
a cena.
– Lutaram com os Braunstein. Vamos para
dentro agora para telefonarmos à senhora Brauns-
tein e pedir desculpas!
– Ai! Ui! – protestou Mikhail, quando Nadia
o agarrou por uma orelha.
– Acho que isso pode esperar. Tenho uma
coisa para vos mostrar... – anunciou Yuri, en-
quanto saía do veículo, segurando um cachorri-
nho minúsculo. – Apresento-vos Sasha, o vosso
novo maninho.
Ambos os meninos gritaram de deleite e, uma
vez livres, correram para o acariciar. O cachorro
lambeu-os, agradecido, e Yuri entregou-o sole-
nemente a Mikhail.
– É para vocês e para Tasha e Rachel. Cuida-
rão dele, entendido?
– Cuidaremos muito bem dele, pai! – excla-
mou Alex. – Dá-mo, Mike! – exigiu.
– Sou o meu velho. O pai deu-mo primeiro.
– Eh, não discutam. Vá lá, vão mostrá-lo às
vossas irmãs – replicou Yuri e os dois meninos
abraçaram-no, emocionados.
– Obrigado, pai – disse Mikhail e virou-se de-
pois para a sua mãe para lhe dar um beijo na face.
– Já vamos telefonar à senhora Braunstein, mãe.
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NORA ROBERTS
– Claro que telefonarão – Nadia abanou a ca-
beça enquanto os dois meninos entravam a correr
em casa, chamando as suas irmãs aos gritos. –
Vândalos – redarguiu, repetindo a palavra que
aprendera recentemente com a sua vizinha, a se-
nhora Poffenberger, e que tão bem parecia des-
crever os seus filhos.
– Ora... É normal com a sua idade – comen-
tou Yuri, antes de pegar na sua esposa ao colo,
rindo-se às gargalhadas. – Somos uma família
americana – pô-la no chão e, segurando-a pela
cintura, começou a entrar na casa. – Diz-me, o
que temos hoje para jantar?
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Não era uma mulher paciente. Tolerava mal
os atrasos e as desculpas. Quanto às esperas, e na-
quele momento estava à espera, faziam com que
o seu mau feitio piorasse. Para Sydney Hayward,
aquela fúria gelada era muito pior do que a raiva
mais ardente. Um frio olhar ou um comentário
faziam com que o seu feitio piorasse mais. E ela
sabia.
Naquele momento, passeava pelo seu escritó-
rio, no décimo andar de um arranha-céus do
centro de Manhattan. Estava tudo no seu lugar:
documentos, arquivos, agendas e livros. A sua se-
cretária de ébano com aplicações de bronze es-
tava perfeitamente arrumada, com as canetas e lá-
pis arrumados em fileira sobre a sua superfície
polida, os blocos cuidadosamente situados ao lado
do telefone...
A sua própria aparência era um reflexo da pre-
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NORA ROBERTS
cisão meticulosa e da elegância fina do escritório:
um fato bege perfeitamente engomado que des-
tacava as suas pernas compridas, o seu colar de pé-
rolas simples, com os brincos a condizer e o seu
relógio de ouro, tudo muito discreto, mas ao mes-
mo tempo selecto. Como correspondia a uma
Hayward.
Prendera o cabelo ruivo com um gancho dou-
rado. As sardas minúsculas que salpicavam o seu
rosto eram quase invisíveis sob uma leve camada
de maquilhagem. Sydney tinha consciência de
que aquelas sardas a faziam parecer demasiado jo-
vem e vulnerável. Com vinte e oito anos, tinha
uma cara que expressava na perfeição a sua ori-
gem. Maçãs do rosto realçadas, queixo levemente
levantado, nariz recto e pequeno. Tinha um rosto
aristocrático, tão pálido como a porcelana, com
uma boca bem delineada e uns olhos azuis enor-
mes, em que muita gente achava ver tanta ino-
cência como vulnerabilidade.
Olhou novamente para o seu relógio, suspirou
e aproximou-se da sua secretária. Antes de con-
seguir pegar no telefone, ouviu o intercomuni-
cador.
– Sim?
– Senhora Hayward, há um homem aqui que
insiste em falar com a pessoa que está encarre-
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NEGÓCIOS E PRAZER
gada do projecto Soho. E a sua reunião às qua-
tro...
– Já são quatro e meia – interrompeu-a Syd-
ney. – Manda-o entrar.
– Sim, mas não se trata do senhor Howing-
ton...
Portanto, Howington mandara um subordi-
nado. A irritação fê-la erguer ainda mais o quei-
xo.
– Manda-o entrar – repetiu, antes de desligar o
intercomunicador. Evidentemente, tinham pen-
sado que um executivo jovem conseguiria acal-
má-la. Respirando fundo, decidiu atormentar o
mensageiro.
Felizmente, anos de treino tinham-na prepa-
rado para não cometer o descuido de abrir a
boca de espanto quando viu entrar aquele ho-
mem. Quando o viu entrar... como um pirata
atraente a avançar pela coberta do seu barco. O
seu espanto inicial nada teve de ver com o facto
de ser terrivelmente bonito. Tinha o cabelo preto
e encaracolado, preso numa trança curta, e um
rosto de traços finos, bronzeado, com uns olhos
quase tão pretos como o seu cabelo. A barba de
vários dias dava-lhe uma aparência sombria, pe-
rigosa.
Ainda pior era o facto de vestir aquela roupa
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NORA ROBERTS
de trabalho: umas calças de ganga velhas e desbo-
tadas, uma t-shirt suada e umas botas gastas e
poeirentas. Sydney pensou imediatamente que
não se tinham incomodado em enviar um jovem
executivo, mas um operário que nem sequer se
arranjara um pouco antes de ir à reunião.
– É Hayward? – inquiriu, num tom insolente
e com um ligeiro sotaque eslavo.
– Sim e o senhor está atrasado.
– Ah, sim? – olhou para ela com os olhos se-
micerrados, do outro lado da secretária.
– Sim. Talvez seja útil usar um relógio. E, em-
bora não valorize o seu tempo, eu valorizo o meu,
senhor...
– Stanislaski – deslizou os polegares na cintura
calças de ganga, adoptando uma pose inequivo-
camente arrogante. – Sydney é um nome mascu-
lino.
– Obviamente, engana-se – arqueou uma so-
brancelha.
Mikhail estudou-a lentamente com um olhar
carregado de tanto interesse como tristeza. Era
tão apetecível como um bolo gelado, mas não
deixara o seu trabalho por fazer para suportar uma
mulher assim.
– Obviamente. Eu pensava que Hayward era
um idoso de bigode branco.
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NEGÓCIOS E PRAZER
– Refere-se ao meu avô.
– Ah... Então, é com o seu avô que quero fa-
lar.
– Isso não será possível, senhor Stanislaski, já
que o meu avô faleceu há perto de dois meses.
A arrogância do olhar do recém-chegado trans-
formou-se em compaixão.
– Lamento. É muito difícil perder um fami-
liar.
Sydney não sabia porquê, mas aquelas simples
palavras, pronunciadas por um desconhecido, co-
moveram-na profundamente.
– É, sim. E agora, se quiser sentar-se, podere-
mos falar de negócios.
Fria, dura e tão distante como a lua, pensou
Mikhail. Melhor assim. Isso impedi-lo-ia de pen-
sar nela de uma forma demasiado... pessoal. Pelo
menos, até resolver o que fora tratar.
– Enviei várias cartas ao seu avô – sentou-se à
frente da sua secretária. – Talvez a última se tenha
perdido com a lógica confusão gerada pelo seu
falecimento...
– Toda a sua correspondência foi entregue –
declarou Sydney, entrelaçando as mãos sobre a
mesa. – Como saberá, a Empresas Hayward está
a considerar...
– O quê?
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NORA ROBERTS
Sydney teve de dominar a sua irritação por ter
sido interrompida daquela forma.
– Desculpe?
– O que é que a sua empresa está a conside-
rar?
Se estivesse sozinha, teria suspirado profunda-
mente e fechado os olhos. Em vez disso, tambo-
rilou com os dedos sobre a mesa.
– Que posição tem, senhor Stanislaski?
– Posição?
– Sim, sim... O que faz?
A impaciência do seu tom fê-lo sorrir.
– Refere-se ao que faço na vida? Trabalho a
madeira.
– É carpinteiro?
– Às vezes.
– Às vezes – repetiu ela e recostou-se na sua
poltrona. – Talvez possa dizer-me porque é que
a Construções Howington tem o costume de en-
viar operários para os representarem em reuniões
como estas.
– Podia fazê-lo, certamente... Se eles me tives-
sem enviado, que não é o caso.
Sydney demorou alguns segundos a perceber
que não estava a mostrar-se deliberadamente ob-
tuso com ela.
– Não pertence à Howington?
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NEGÓCIOS E PRAZER
– Não. O meu nome é Mikhail Stanislaski e
vivo num dos seus edifícios. Se está a pensar em
contratar Howington, se fosse a si, pensaria duas
vezes. Uma vez trabalhei para eles, mas cuidavam
muito pouco dos detalhes e poupavam demasiado
em material.
– Desculpe-me – Sydney carregou no botão
do seu intercomunicador. – Janine, o senhor Sta-
nislaski disse-te que representava Howington?
– Oh, não, senhora. Ele só queria uma reunião
consigo. Há dez minutos, o senhor Howington
telefonou para adiar a reunião. Se quiser...
– Não importa – recostando-se novamente na
sua poltrona, olhou para o homem que olhava
para ela, sorrindo levemente. – Aparentemente,
houve um mal-entendido...
– Se com isso quer dizer que cometeu um erro,
sim. Vim para falar consigo sobre o seu edifício
de apartamentos de Soho.
Sydney sentiu uma vontade incrível de passar
as duas mãos pelo cabelo, nervosa.
– Portanto, veio apresentar-me uma queixa
como arrendatário.
– Vim para apresentar uma queixa em nome
de muitos arrendatários – corrigiu-a.
– Deveria saber que, para esse tipo de assuntos,
há sempre um procedimento estabelecido que...
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NORA ROBERTS
– É a dona do edifício, não é? – arqueou uma
sobrancelha.
– Sim, mas...
– Então, a responsabilidade é sua.
Sydney ficou visivelmente tensa.
– Sinto-me perfeitamente consciente das mi-
nhas responsabilidades, senhor Stanislaski. E agora,
se me desculpar...
Mikhail levantou-se e ela também, com aspecto
inflexível.
– O seu avô fez promessas. Para honrar a sua
memória, deveria cumpri-las.
– O que devia fazer – replicou, num tom gla-
cial, – é ocupar-me do meu negócio. Pode dizer
aos outros inquilinos que a Hayward está prestes
a contratar um construtor, porque sabe perfeita-
mente que boa parte das nossas propriedades pre-
cisam de uma reparação ou restauração. A seu de-
vido tempo, ocupar-nos-emos dos apartamentos
de Soho.
A expressão de Mikhail não mudou face àquele
desplante, tal como o tom da sua voz ou a sua pos-
tura de desafio tranquilo.
– Estamos cansados de esperar. Queremos o
que nos prometeu e queremo-lo agora.
– Se quiser enviar-me uma lista com os vossos
pedidos...
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NEGÓCIOS E PRAZER
– Já o fizemos.
– Então, eu própria reverei os arquivos esta tar-
de.
– Os arquivos são os arquivos e as pessoas são
as pessoas. Recebe a renda todos os meses, mas
não pensa nas pessoas que têm de pagar – apoiou
as mãos na secretária e inclinou-se para ela. – Al-
guma vez viu o edifício ou as pessoas que vivem
nele?
– Tenho os meus relatórios.
– Relatórios – praguejou, entredentes. – Tem
os seus contabilistas e advogados que a servem e
fica aqui sentada, neste escritório luxuoso, a re-
mexer papéis – fez um gesto com a mão, abran-
gendo depreciativamente a divisão. – Mas não sabe
de nada. Não é a senhora que passa frio quando se
estraga o aquecimento ou que tem de subir cinco
andares pelas escadas quando o elevador está ava-
riado. Não a preocupa se água não sair quente ou
se a instalação eléctrica for tão velha que pode pro-
vocar um incêndio.
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