UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ - UFC
FARMÁCIA
RAINA MAGALHÃES BARCELOS (567490)
TRABALHO DA DISCIPLINA SI0243 - INTEGRAÇÃO A PRÁTICA
FARMACÊUTICA I (2024.1 - T02)
Fortaleza
2024
SUMÁRIO
1. Informações sobre a Digoxina.............................................................................. 3
2. A Origem e Descoberta da Digoxina.................................................................................4
3. Descoberta da Digoxina: contexto político e histórico...................................... 8
4. Empregos e mecanismo de ação........................................................................10
5. Problemas documentados e efeitos adversos.................................................. 11
6. Perspectivas de emprego.................................................................................... 13
REFERÊNCIAS..........................................................................................................14
DIGOXINA
1. Informações sobre a Digoxina[1]
Nome científico: Digitalis purpurea L. ; Digitalis lanata Ehrh.
Sinônimos vulgares: dedaleira; erva-dedo; abeloura; seiva-de-
nossa-senhora; erva-de-são-leonardo; luvas-de-nossa-se-
nhora). (Oliveira e Akisue, 1991)
Família botânica: Scrophulariaceae
O gênero Digitalis compreende cerca de vinte espécies herbáceas de ocorrência
essencialmente européia. Digitalis purpurea L. é uma erva bianual, com flores
violáceas, originária do sudeste europeu, mas aclimatada em várias outras regiões
da Europa, Estados Unidos e Canadá e cultivada na Holanda, Reino Unido e
Alemanha (Bruneton, 1993).
Digitalis lanata Ehrh. é encontrada apenas em cultivo, em diversos países da Europa
Ocidental e Central, sendo utilizada para a extração industrial de cardioativos
(Bruneton, 1993; Reynolds, 1993). A dissecação das folhas deve ser realizada
rapidamente a uma temperatura tão baixa quanto possível e com intensa ventilação,
para evitar a destruição dos heterosídeos. A droga deve ser estocada ao abrigo da
luz em ambiente seco, com umidade residual aproximada de 5%. De qualquer
maneira, a conservação é limitada.
Dados químicos: As folhas das espécies de Digitalis contém numerosos compostos
como flavonóides, antraquinonas, saponosídeos, digitanol-heterosídeos e, os de
maior interesse, heterosídeos cardioativos (Bruneton, 1993).
Todas as espécies do gênero contêm cardenolídeos, mas somente as espécies D.
purpurea L. e D. lanata Ehrh. são utilizadas para a extração dos principais
heterosídeos usados na terapêutica. Os principais heterosídeos encontrados nestas
espécies são a digitoxina, digoxina, gitoxina e gitaloxina (Hollman, 1985; Gaignault e
Bidet, 1988).
A concentração destas substâncias ativas varia apreciavelmente com a fonte da
planta e as condições de crescimento (Robbers et ai., 1996).
A estrutura básica dos heterosídeos de Digitalis lanata
Ehrh. e Digitalis purpurea L. é a
SBQ (Sociedade Brasileira de Química). Imagem da molécula de digoxina.
mesma. Porém, em D. lanata Ehrh. a molécula de digitoxose, vizinha à glicose
terminal, caracteriza-se por apresentar a hidroxila acetilada em 3 ou 4 (Bruneton,
1991).
Composição química de Digitalis purpurea L.: As folhas secas de Digitalis purpurea
L. contém não menos do que 0,3% de heterosídeos cardíacos (BP, 1988).
Composição química de Digitalis lanata Ehrh.: As folhas secas de Digitalis lanata
Ehrh. contêm de 1 a 1,4% de uma mistura de heterosídeos cardíacos (Reynolds,
1993) distribuídos em grupos diferentes de compostos.
2. A Origem e Descoberta da Digoxina
Os digitálicos foram inicialmente identificados e isolados em espécies dos
gêneros Digitalis e Scilla sendo conhecidos já pelos egípcios e romanos.[2] A digitalis,
derivada da planta dedaleira, é mencionada em escritos já em 1250; uma família
galesa, conhecida como os Médicos de Myddvai, coletava diferentes ervas e a
digitalis era incluída em suas prescrições[3] e em 1542, Fuchs a descreveu
botanicamente em sua obra “De Historia Stirpium Commentarii Insignes”,
denominando-a “Digitalis".[4]
Como a planta não possui nome tanto em grego quanto em latim atualmente,
acreditamos que isso se deve ao fato de que era desconhecida pelos antigos.
Encantados por sua beleza, não toleramos que ficasse sem nome por mais
tempo. Portanto, chamamos de Digitalis, aludindo à nomenclatura alemã
Singerhüt (dedaleira), pois os alemães chamam essa planta assim devido à
semelhança de suas flores com dedais, que ela reproduz e imita
perfeitamente. Usaremos este nome até que nós ou outros encontremos um
melhor. (FUCHS, 1542, p. 892)
Ele também relatou em sua obra
a existência dos dois gêneros da espé-
cie, a Digitalis purpurea que possui flo-
res roxas, e que por isso tinha o “purpu-
rea” em seu nome. Já o outro gênero
possui flores amarelas, daí o nome Digi-
talis lutea.
(FUCHS, Digitalis purpurea e Digitalis lutea, 1542) .
Registros da época indicam que, no século XVI, médicos elogiavam as
propriedades medicinais da digitalis purpurea. Porém, os praticantes não
organizaram nem compartilharam suas experiências clínicas de forma sistemática. [5]
Em 1661, o ano de sua primeira inclusão na Farmacopeia de Londres, a
dedaleira estava sendo recomendada para epilepsia e como sedativo, também era
administrada para consumption, mais tarde conhecido como tuberculose. Vale
lembrar que a insuficiência cardíaca frequentemente afeta os pulmões[6], e que pode
ter sido difícil para os médicos distinguir a tuberculose da insuficiência cardíaca, ou
seja, a digitalis estava sendo recomendada como tratamento para uma doença que
ela não poderia aliviar. [5]
William Salmon, um médico inglês que raramente fazia afirmações exageradas,
escreveu [7]:
Este remédio restaurou (quando o paciente já estava além de qualquer cura)
além de toda expectativa...ele abre o peito e os pulmões, os liberta de fleuma
espessa…pessoas em profundo estado de consunção, já desenganadas por
todos os médicos, foram estranhamente recuperadas a ponto de voltarem a
engordar. Recomendo-o como um segredo, e ele deve ser mantido como um
tesouro. Estas poucas linhas sobre este medicamento valem dez vezes o
preço de todo o livro. (SALMON, 1696)
Devido à sua toxicidade, grandes doses provocam reações violentas, e com
isso a digitalis ganhou uma reputação de tóxica. Hermann Boerhaave no século
XVIII considerava o medicamento um veneno e advertia contra seu uso, após isso
outros cessaram de recomendá-lo. Esse descrédito culminou em um evento
pseudocientífico amplamente divulgado.
A digitalis era usada com sucesso em um caso e depois sem sucesso em
outro, aparentemente, por 1745, os fracassos do medicamento haviam começado a
superar os sucessos; e naquele ano, foi retirado da influente Farmacopeia de
Londres. [5]
Um médico francês chamado Jean-Baptiste de Salerne, enfiou algumas
folhas de dedaleira nas gargantas de dois perus. Ambos os pássaros adoeceram
violentamente, as autópsias revelaram que os intestinos dos pássaros estavam
encolhidos e secos. Salerne relatou suas descobertas à Academia Francesa de
Ciências, árbitro da medicina europeia na época, e elas foram publicadas nos canais
da Academia em 1748. Depois disso, nenhum médico ousou usar tal droga tóxica no
tratamento de seres humanos. [5, 8]
A digitalis não foi readmitida na Farmacopeia até o final do século XVIII,
quando um médico inglês chamado William Withering publicou sua obra sobre o seu
uso. [5]
William Withering (1741-1799) foi responsável pelos primeiros testes com
extrato de dedaleira para tratar uma condição chamada “hidropisia” (retenção de
líquidos geralmente associada à insuficiência cardíaca). Isso foi relatado em seu
livro publicado em 1785, An Account of the Foxglove, and Some of
Its Medical Uses, com observações práticas sobre hidropisia e
outras doenças. [9]
Withering usou digitalis para uma ampla variedade de doenças,
incluindo anasarca (edema generalizado), epilepsia, hidrotórax
(fluido nas cavidades pleurais), hidropisia ovariana e phthisis
pulmonalis (provavelmente tuberculose). [10]
Tendo executado, de certa forma, um ensaio clínico de dez anos com a
digitalis, ele publicou seus resultados não com nenhuma reivindicação especial à
fama, mas para se proteger contra o uso indevido da droga pela profissão médica,
que naturalmente se interessou intensamente por ela após rumores do sucesso de
Withering. Ele escreveu em sua obra: [11]
“O uso da Foxglove está se espalhando e é melhor que o mundo obtenha
alguma informação, embora imperfeita, da minha experiência, do que que as
vidas dos homens sejam arriscadas por sua exibição desprotegida, ou que
um medicamento de tanta eficácia seja condenado e rejeitado como perigoso
e incontrolável.”
Ele experimentou as várias formas de sua preparação tradicional - como chá
de dedaleira, como decocção e como infusão. Ele preferiu usar o "belo pó verde"
feito das folhas secas, seja ao sol ou em uma panela de lata ou prato de estanho
antes do fogo,[10] coletadas pouco antes do período de floração, pois nesse período
[6,11]
elas contêm quantidades máximas dos glicosídeos ativos do digitalis. Withering
usava o pó diretamente ou fazia uma infusão dele.[8]
Em seu livro, Withering discutiu 158 pacientes que ele tratou com a dedaleira.
Destes, 101 pacientes com insuficiência cardíaca congestiva experimentaram alívio
após a administração do medicamento. [11]
Withering investigou o uso tradicional da droga e descobriu que a dosagem
era geralmente excessiva. Withering procedeu a quantidade ideal da droga a ser
administrada como uma dose única, e que a quantidade de digitalis que ele
prescreveu tinha apenas um pouco menos atividade do que o comprimido usado na
prática contemporânea. Além disso, a incidência de efeitos colaterais da droga
diminuiu à medida que Withering ganhou experiência clínica ao longo dos dez anos
de sua pesquisa. [11]
Estes e White observaram que a incidência geral de efeitos colaterais
atribuíveis à digitalis nos pacientes de Withering se aproxima da incidência
registrada pelos médicos hoje. “Alguém poderia aprender a usar a digitalis de forma
eficaz e segura se não tivesse outro texto além do Relato da dedaleira de Withering.”
(ESTES, WHITE, 1965, p. 114)
Fui mais detalhado na narrativa deste caso, em parte porque o Dr. Darwin o
relatou de forma um tanto imperfeito...confiando, imagino, na memória, e em
parte porque foi um caso que deu origem a um uso muito geral do
medicamento na parte de Shropshire.(WITHERING, 1785)
Esse parágrafo descreve um momento embaraçoso na história do uso
medicinal da dedaleira. Erasmus Darwin, avô de Charles Darwin, publicou o crédito
para si por introduzir a digitalis na medicina, sem mencionar Withering, embora
tenha seguido e aplicado com sucesso o conselho de Withering. William não podia
criticar abertamente Darwin, já que ele havia ajudado a estabelecer sua carreira
médica. No entanto, ao escrever sua obra, Withering incluiu esse parágrafo para
corrigir os fatos e garantir o reconhecimento pelos registros históricos. [5]
Nesses mesmos testes, Withering identificou que, embora o extrato de
dedaleira pudesse ajudar seus pacientes, ele estava associado a efeitos colaterais
graves em algumas pessoas, que ele descreveu como enjoo, vômito, purgação,
tontura, visão confusa, objetos parecendo verdes ou amarelos; aumento da
secreção de urina...pulso lento, até mesmo tão lento quanto 35 em um minuto, suor
frio, convulsões, síncope (inconsciência), morte. [9,10]
Logo após a publicação do livro, sua saúde já delicada começou a declinar;
em 1799, ele morreu de tuberculose, uma doença que ele, como seus antecessores,
havia tentado curar com dedaleira. [5]
Em 1799, John Ferriar, pioneiramente, atribuiu ação cardiotônica às
substâncias digitálicas. No mesmo ano, Thomas Beddoes escreveu que a digitalis
'aumenta a ação orgânica das fibras contráteis', uma observação que está de acordo
com nossa compreensão moderna de como a droga atua. Beddoes também
descobriu que a digitalis aliviava pacientes com doenças pulmonares apenas
quando a doença não se limitava ao pulmão, ou seja, quando era secundária a
doenças cardíacas. [5]
Em 1835, Homolle preparou pela primeira vez um extrato purificado das
folhas de Digitalis purpurea e, cerca de 30 anos depois, Nativelle em 1869,
aperfeiçoou o processo de purificação de Homolle e obteve a assim a chamada
digitalina cristalina, normalmente denomina digitalina Nativelle, e que foi usada por
várias décadas.[2]
A molécula foi isolada pela primeira vez da planta dedaleira pelo Dr. Sydney
Smith do Burroughs Wellcome, em Dartford, Inglaterra, em 1930. Em seus estudos
ele ressalta o fato de que nas folhas da Digital lutea possuem um potencial
fisiológico maior que a Digitalis purpurea, que antes desses relatos era a mais
utilizada na medicina. [5, 12, 13]
Os glicósidos totais das folhas dessa espécie foram então isolados e
fracionados para separar os glicósidos e compará-los com os da espécie
oficial. Embora essa parte do trabalho ainda não esteja completa, durante a
fracionação foi obtido um glicósido em pequena quantidade, diferente dos
conhecidos até então. Esse novo glicósido é chamado digoxina. (SMITH,
1930, p. 508)
Na mesma década, um grande laboratório britânico colocou no mercado o
fármaco chamado comercialmente Lanoxin.[5]
3. Descoberta da Digoxina: contexto político e histórico
Além de saber como se deu o processo de descoberta da digoxina, também é
importante entender o papel do contexto tanto de sua época quanto da região em
que William Withering viveu e exerceu sua profissão.
Sua família tinha uma formação médica e seu pai era um próspero boticário
(farmacêutico), e naqueles tempos, ter uma boa compreensão e conhecimento sobre
plantas era importante, pois elas forneciam a base para os medicamentos utilizados
na época. Fica claro que ele reconheceu a importância dessa ciência em sua
profissão, mesmo tendo apresentado desinteresse pela área no início de sua
formação acadêmica, e com isso ele ganhou fama internacional pela primeira vez
devido às suas pesquisas botânicas. [11, 14]
Após a educação em casa, parece ter sido aprendiz de seu pai durante quatro
anos, começando em 1758, e, possivelmente sob a influência de seu tio materno, Dr.
Brooke Hector, que era médico, decidiu se tornar médico e ingressou na
Universidade de Edimburgo em 1762. Durante a primavera e o verão de 1768,
quando ele tratou de uma jovem paciente chamada Helena Cookes, filha do escrivão
da cidade local, que tinha talento para o desenho e era amadora de flores, o que
pode ter alimentado seu crescente interesse pela botânica, além de aproximá-los;
após isso, eles se casaram em 1772. [11, 14]
Withering cresceu e viveu em uma época de grande agitação social e
intelectual, tendo em vista que a Inglaterra foi o país pioneiro da Revolução
Industrial. Energia, matérias-primas e intelecto se combinavam em Birmingham
(onde sua carreira médica progrediu) e arredores, e a filosofia era incentivada, ao
invés de ser desprezada, essas qualidades foram todas exemplificadas pela Lunar
Society, um grupo de cientistas, médicos e industriais influentes que se reuniam
regularmente para discutir avanços científicos e industriais, da qual Withering era um
membro distinto. [14,15, 16]
Sua mente investigativa também o levou a campos como a geologia, análise
química e história social, e talvez tenha sido essa combinação que lhe permitiu fazer
sua observação particular naquele momento específico. Quando o diagnóstico
médico se baseava apenas nas informações limitadas obtidas da história clínica do
paciente e de observações simples no exame físico, Withering validou a crença
herbalista de que alguns casos de hidropisia poderiam responder à dedaleira. [14]
As qualidades intrínsecas de Withering já se demonstraram enquanto ele
praticava em Stafford, mas sua carreira floresceu em Birmingham. Mas o que havia
de tão especial em Birmingham?
Como já mencionado, durante a segunda metade do século XVIII, a
Revolução Industrial fez com que a cidade crescesse consideravelmente,
tornando-se a segunda maior cidade da Inglaterra. Seu principal engenheiro,
Matthew Boulton, demonstrou grande interesse por assuntos mais amplos, e sua
aprovação foi claramente importante quando Withering se juntou a John Ash. Ele
manteve relações profissionais e sociais calorosas com médicos, cientistas e
industrialistas na área, havia outros grupos intelectuais nas principais cidades
provinciais, mas a combinação em Birmingham era única. [16]
Jantares periódicos, agendados com a lua cheia, levaram à formação do
círculo Lunar, que, inicialmente de forma irregular, mas depois em uma base mais
definida, reunia seus membros para discussões uma vez por mês na casa de um
deles, na tarde da segunda-feira mais próxima à lua cheia, essencialmente para
atividades sociais. A transformação no mais oficial Lunar Society ocorreu no início
de 1755, embora a primeira reunião propriamente dita tenha sido realizada em 31 de
dezembro daquele ano. Mas mesmo antes disso, o grupo já havia se desenvolvido e
mostrado seu alcance. [16]
A Lunar Society sempre foi pequena e não teve mais do que 14 membros ao
todo, William Withering se juntou a eles em seu primeiro ano. Após 1791, a Lunar
Society passou a se reunir cada vez menos, e suas atividades gradualmente
diminuíram, embora seus membros continuassem a se ver. Isso ocorreu devido a
esses tempos serem politicamente difíceis; tanto as revoluções americana quanto
francesa tiveram seus efeitos, pois alguns de seus membros apoiaram ambas as
revoluções sofrerem represálias. Embora politicamente mais moderado, Withering
compartilhava suas opiniões em apoio à Revolução Francesa, e durante os
celebrados Motins de Birmingham de 14 a 17 de julho de 1791, teve a sua casa
saqueada. [11,16]
É notório que todos esses fatores influenciaram e colaboraram na descoberta
feita por Withering, pois sem as oportunidades que surgiram para ele no meio da sua
jornada acadêmica ele não teria chegado a Birmingham e conhecido tantos homens
que o ajudaram em sua trajetória.
4. Empregos e mecanismo de ação
4.1 Empregos
Embora dois glicosídeos cardíacos (digoxina e digitoxina) tenham sido usados
no passado, a digitoxina não está amplamente disponível desde a década de 1980,
por isso digoxina é o glicosídeo mais utilizado para fins medicinais atualmente. [17,18]
Atualmente, sabe-se que seus efeitos cardíacos consistem em:
– redução da frequência cardíaca e da velocidade de condução no nó
atrioventricular;
– aumento da força de contração (efeito inotrópico positivo);
– distúrbios de ritmo, principalmente bloqueio da condução AV e aumento da
atividade marcapasso ectópica.
A digoxina é utilizada com objetivo de reduzir a frequência ventricular na
fibrilação atrial rápida persistente, no tratamento de insuficiência cardíaca nos
pacientes que permanecem sintomáticos, apesar do uso de diuréticos e de
inibidores da enzima conversora de angiotensina.
Vale ressaltar que a digoxina também pode ser utilizada para indicações
cardíacas fetais, pois ultrapassa a barreira placentária, e maternas, não havendo
evidências de dano fetal ou efeito teratogênico. [17]
Alguns estudos controlados demonstraram que a digoxina não é capaz de
reduzir a mortalidade da IC, mas promove uma melhora da qualidade de vida,
contribuindo para o alívio dos sintomas e reduzindo as taxas de internação
hospitalar. Tais benefícios acontecem mesmo nos pacientes em ritmo sinusal, ou
seja, sem fibrilação atrial. [19]
4.2 Mecanismo de ação
Efeito inotrópico positivo: Os glicosídeos em concentrações terapêuticas
inibem levemente a Na+/K+-ATPase cardíaca, causando aumento da [Na+]
intracelular. O aumento de [Na+]i inibe a extrusão do Ca2+ por meio do NCX,
resultando em [Ca2+] intracelular mais alta e contratilidade aumentada. O aumento
da contratilidade e, portanto, do débito cardíaco, proporciona alívio sintomático em
pacientes com IC. Com a retirada do principal deflagrador para a ativação
neuro-humoral, o tônus nervoso simpático e, consequentemente, a frequência
cardíaca e a resistência vascular periférica caem. Essas reduções na pré-carga e
pós-carga diminuem a dilatação das câmaras e, portanto, o estresse da parede, um
forte determinante do consumo de O2 do miocárdio. O aumento da perfusão renal
diminui a produção de renina e aumenta a diurese, diminuindo ainda mais a
pré-carga. [20]
5. Problemas documentados e efeitos adversos
Por causa do baixo índice terapêutico, a toxicidade dos glicosídeos cardíacos
é um problema clínico comum. Arritmias, náuseas, distúrbios da função cognitiva e
visão borrada ou amarelada são as manifestações habituais. Concentrações séricas
elevadas de digitálicos, hipoxia (p. ex., decorrente de doença pulmonar crônica) e
anormalidades eletrolíticas (p. ex., hipopotassemia, hipomagnesemia e
hipercalcemia) predispõem a arritmias induzidas por digitálicos. [20]
Embora a intoxicação por digitálicos possa causar qualquer arritmia,
determinados tipos são característicos. As arritmias que devem levantar maior
suspeita de intoxicação digitálica são aquelas nas quais ocorre taquicardia
relacionada com PDT associada ao comprometimento da função do nó sinusal ou do
nó AV. A taquicardia atrial com bloqueio AV é clássica, mas também pode ocorrer
bigeminismo ventricular (batimentos sinusais que se alternam com batimentos de
origem ventricular), taquicardia ventricular “bidirecional” (uma entidade rara),
taquicardias juncionais AV e vários graus de bloqueio AV. [20]
Um homem de 32 anos que ingeriu uma decocção de Digitalis purpurea
(dedaleira) e Laburnum em uma tentativa de suicídio apresentou vômitos,
episódios de bloqueio cardíaco, bradicardia e níveis elevados de potássio
(sintomas resultantes principalmente do componente dedaleira da decocção);
ele se recuperou. [21] (MURRAY, 1996, p. 741)
Na intoxicação grave (p. ex., após tentativas de suicídio), observam-se
hiperpotassemia grave, decorrente da intoxicação da Na+/K+-ATPase, e
bradiarritmia profunda, que pode não responder ao tratamento com marca-passo.
Em pacientes com níveis séricos elevados de digitálicos, o risco de precipitar FV por
cardioversão com CD é provavelmente maior. Em pacientes com níveis sanguíneos
terapêuticos, a cardioversão com CD pode ser usada com segurança.
Formas menos graves de intoxicação por glicosídeos cardíacos podem não
requerer tratamento específico além da monitoração do ritmo cardíaco até que se
resolvam os sinais e sintomas de toxicidade. [20]
A bradicardia sinusal e o bloqueio AV geralmente respondem à atropina
intravenosa, mas o efeito é transitório. O Mg2+ já foi usado com sucesso em alguns
casos de taquicardia induzida por digitálicos. Qualquer arritmia grave deve ser
tratada com fragmentos Fab antidigoxina (Digibind, Digifab), que são eficazes em
ligar-se à digoxina e à digitoxina, aumentando sua excreção renal. [20]
As concentrações séricas dos glicosídeos aumentam notavelmente com o
emprego de anticorpos antidigitálicos, mas isso corresponde à fração ligada
(farmacologicamente inativa) do fármaco. Um marca-passo cardíaco temporário
pode ser necessário para a disfunção avançada do nó sinusal ou AV. Os digitálicos
exercem efeitos vasoconstritores arteriais diretos, que podem ser especialmente
deletérios em pacientes com aterosclerose avançada que fazem uso intravenoso do
fármaco. Já foram também descritas isquemias mesentéricas e coronárias. [20]
6. Perspectivas de emprego
Mesmo nos dias atuais, depois de mais de 200 anos da publicação de
Withering, a digoxina ainda mantém um papel definido no tratamento de pacientes
com insuficiência cardíaca (IC). [19]
Porém, cada vez se torna menos frequente a necessidade do uso de digoxina
no início do tratamento de IC. Após a otimização do tratamento, deve-se
reconsiderar a necessidade do uso de digitálicos, que, em alguns casos, podem ser
suspensos. A ocorrência da fibrilação atrial na IC não constitui, por si só, uma boa
indicação para uso da digoxina.
Atualmente, os betabloqueadores são a primeira escolha para o controle da
resposta ventricular nesses pacientes. Além disso, a digoxina é um medicamento
com potencial tóxico, especialmente em doses elevadas ou quando não ajustadas
adequadamente, sobretudo os idosos (mais suscetíveis metabolicamente), pacientes
com insuficiência renal (devido ao aumento da concentração sérica de digoxina),
aqueles com doenças coronarianas (onde a isquemia interfere na sensibilidade da
bomba de Na⁺/K⁺), e os pacientes polimedicados (onde podem ocorrer interações
medicamentosas ou confusão nas doses e medicações). [19,22]
Acredita-se que a maioria dos casos de toxicidade medicamentosa em idosos
relatados nas emergências acontece após a administração de medicamentos com
interações já conhecidas, sendo que muitas dessas situações poderiam ser
evitadas. Por isso, é essencial conscientizar tanto os profissionais de saúde quanto
a população sobre os perigos da automedicação. [22]
Apesar disso, o tamanho do mercado global de digoxina foi de US$ 60
milhões em 2021 e deve atingir US$81,1 milhões até 2031, exibindo uma taxa de
[23]
crescimento anual composta (CAGR) de 3,1% durante o período projetado.
(BUSINESS RESEARCH INSIGHTS)
Em atuais estudos foi descoberto que dos seis novos compostos derivados da
digoxina, o 21-p-dimetilaminobenzilidenodigoxina (4-BD) é tão potente quanto a
digoxina contra células de carcinoma de colo uterino (HeLa). [24]
Tendo isso em vista, fica claro que o papel futuro da digoxina na prática
clínica ainda precisa ser determinado devido às evidências conflitantes sobre sua
eficácia e segurança e que ela ainda pode trazer novidades.
REFERÊNCIAS
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