Mudez
Mudez
mais bogarddirk2@gm
ao entusiasmo da maioria:
outro, na qual ninguém se escute a si mesmo quando fala, uma língua despovoada. [2] Agulha Revista de Cultura #
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O alerta do filósofo espanhol José Luis Pardo expõe a mudez da palavra contemporânea, esvaziada Agulha Revista de Cultura #
e desincorporada pela disseminação crescente de uma linguagem meramente informativa. Desta
língua dos deslinguados extirpou-se o seu sabor de boca, pois
Índice Geral | 1999-2022
Para acessar a linguagem, temos que falar uma língua (a – ou as –materna/s, ao menos em
princípio) e falá-la desde dentro, com nossa própria voz (manifestando nossas dores e prazeres
com ela) e com nossa própria língua. E isso faz com que as palavras nos deixem um resíduo na
ponta da língua, um sabor de boca (doce ou amargo, bom ou mau), o que elas nos fazem saber
(nos dão a saborear) de nós mesmos e que ninguém mais do que nós pode saber, porque ninguém
mais pode saboreá-las com nossa língua e nossa boca, porque a ninguém mais podem soar como
a nós nos soam. [3] Floriano Martins
Na deglutição
há sucessão de ações
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no dizer
***
MUDEZ
Na virada do milênio, o dramaturgo e pintor suíço Valère Novarina atesta a condição contemporânea
de circulação das palavras como se fossem moedas de troca.
Eis que agora os homens trocam entre si palavras como se fossem ídolos invisíveis, forjando nelas
apenas uma moeda:
Editora
acabaremos mudos de tanto comunicar;
ELYS REGINA ZILS (Brasil,
artista visual, tradutora. Dou
em Estudos da Tradução pela
nos tornaremos enfim iguais aos animais, PGET/Universidade Federal
Catarina. Possui graduação e
Espanhola e Literaturas e Le
porque os animais nunca falaram também pela Universidade F
Catarina/Florianópolis, Bras
mas sempre comunicaram, muito-muito bem. Literatura Latinoamericana,
principalmente Vanguardas L
Só o mistério de falar nos separava deles. Artísticas com ênfase em Lite
Surrealista Latinoamericana
Agulha Revista de Cultura (2
No final, nos tornaremos animais: criada por Floriano Martins.
lado dele, de sua trilogia ded
domados pelas imagens, surrealismo, Bússola do Acas
responsável ainda, parcialme
emburrecidos pela troca de tudo, curadoria e tradução de poet
americanos para o Atlas Líric
Hispânica, da revista Acroba
regredidos a comedores do mundo e a matéria para a morte. Edições, casa de livros artesa
elementos terrestres, de Eun
bilíngue organizada e traduzi
Atualmente tem em preparaç
O fim da história é sem fala. [6] livros de Marosa di Giorgio e
para a mesma Sol Negro Ediç
Recentemente criou a Editor
cujo catálogo estreia com O d
orgasmos (Leila Ferraz), Sus
A experiência da palavra pela voz em relação Visões vertiginosas da criaçã
significa a presença concreta de participantes entrevista, ERZ) e Fragmento
(poesia e colagem, ERZ), tod
implicados nesse ato de maneira imediata. [7] Contato: [email protected].
Ocorre que as tecnologias e os espaços
virtuais abstraem a presença, digitalizam o
Conexão Hispânica
circuito entre os corpos: a voz, descarregada
dos odores, suores, ruídos e silêncios do livre
trânsito, emana agora de um corpo abstrato.
***
em esquinas antigas.
***
Em carta de 22 de agosto de 1603, dirigida a seu amigo Francis Bacon, Lord Chandos preambula um
relato de mudez, em gesto confessional.
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Eu terei de mostrar-lhe o que há dentro de mim - uma estranheza, uma doença, uma fraqueza –
se você puder compreender que um abismo sem ponte, intransponível, me separa tanto dos
trabalhos literários que eu presumo escreverei, quanto dos que escrevi, estes que hesito chamá-
los meus, tão estranhos me parecem.
Lord Chandos reclama um vínculo da linguagem com a natureza e uma unidade da existência, Séries & Dossiês
cuja separação o afeta porque possui um sabor de boca, no rastro da palavra, ao passo que a língua
se tornará crescentemente despovoada e falada por deslinguados.
Em poucas palavras: naquele tempo, embebido numa espécie de embriaguez permanente, toda a
existência se apresentava como uma grande unidade: entre mundo mental e físico não havia
contradição alguma, como tampouco entre o gentil e o animal, entre a arte e a barbárie, a solidão
e a companhia; em tudo percebia a natureza […] e em toda a natureza me percebia a mim mesmo. As Resenhas da Agulha
[8]
No seu ser bruto e histórico do século XVI, […] a linguagem faz parte da grande distribuição das
similitudes e das assinalações. Por conseguinte, deve, ela própria, ser estudada como uma coisa
da natureza. Seus elementos têm, como os animais, as plantas ou as estrelas, suas leis de Atlas Lírico da América H
afinidade e de conveniência, suas analogias obrigatórias. […] A linguagem não é o que é porque
tem um sentido; seu conteúdo representativo […] não tem aqui papel a desempenhar. As palavras
agrupam sílabas e as sílabas, letras, porque há, depositadas nestas, virtudes que as aproximam e
as desassociam, exatamente como no mundo as marcas se opõem ou se atraem umas às outras.
[9]
Lord Chandos habita o limiar do divórcio entre as palavras e as coisas, nas bordas do
Renascimento, e se insere no movimento de separação que ocorre na fronteira da modernidade, do Rede de Aproximações Líric
As coisas e as palavras vão separar-se. O olho será destinado a ver e somente a ver; o ouvido
somente a ouvir. O discurso terá realmente por tarefa dizer o que é, mas não será nada mais que
o que ele diz. Imensa reorganização da cultura de que a idade clássica foi a primeira etapa, a mais
importante talvez, posto ser ela a responsável pela nova disposição na qual estamos ainda presos
— posto ser ela que nos separa de uma cultura onde a significação dos signos não existia, por ser Floriano Martins - Obra
absorvida na soberania do Semelhante; mas onde seu ser enigmático, monótono, obstinado,
primitivo, cintilava numa dispersão infinita. [11]
Lord Chandos vê palavras flutuando ao seu redor, mas que se desintegram em uma língua que já
não diz. A cintilação vira um redemoinho que o captura, leva ao vazio e o impele a fugir.
Em 18 de outubro de 1902, Hugo von Hofmannsthal publica Uma Carta, sobre a qual diz Jorge
Larrosa:
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1603, 1902, 2023. Nos saltos temporais que o texto do escritor austríaco propõe e provoca, as
palavras falham no seu propósito de dizer o mundo: a virada do século XVII, época do
emudecimento da personagem Lord Chandos, quando “as coisas e as palavras vão separar-se”; o
umbral do século XX, momento da criação do texto por Hofmannsthal, prenúncio da captura das
palavras pela propaganda da guerra; e o momento atual, estágio avançado da saturação das
palavras.
Os gestos de Lord Chandos são um relato de mudez e um ato de fuga no sentido pré-moderno,
em que “o mundo é coberto de signos que é preciso decifrar, e estes signos, que revelam
semelhanças e afinidades, não passam, eles próprios, de formas da similitude. Conhecer será, pois,
interpretar: ir da marca visível ao que se diz através dela e, sem ela, permaneceria palavra muda,
adormecida nas coisas.” [13]
***
A superação das dicotomias entre corpo e voz, som e sentido, impõe um enfrentamento com a
própria linguagem. Não por acaso, nota-se atualmente o surgimento de vários neologismos para dar
conta da integridade destas instâncias fragmentadas: corpo-voz, corpovoz, corpo-vocal, corpooral,
palavra-corpo. Contestando o estudo da literatura oral sem atentar para os corpos e vozes dos
sujeitos que a criaram e propagaram, Paul Zumthor propôs substituir oralidade por vocalidade. [14]
Portanto, vocalidade pressupõe a solidariedade entre corpo e voz. Em situação teatral, nos
processos de relações em movimento, para vocalidade diz-se vocalidade poética. Entre vocalidade e
vocalidade poética, é a dimensão do adjetivo poética que posiciona ator, atriz, performer e aprendiz,
no espaço entre ficção e não-ficção, terreno transitório próprio do contemporâneo.
***
Na vocalidade poética, o grão da voz não nega o logos pelo protagonismo da phoné, mas aposta na
vocalização do logos desvocalizado, [15] em um dizer que se constrói em trânsito, na dobra entre o
íntimo e o público. Não se trata de isolar o som do sentido, mas de liberar conexões na ressonância.
O dizer em trânsito se constitui entre nós, não se apoia na apropriação do texto pelo ator, mas antes
que ele se deixe levar pelo fluxo das frases, exponha-se aos impulsos dos versos, contagie-se pelos
rastros das palavras na ponta da língua.
Vocalizar o logos. Entre o fonético e o fonológico, entre dizer e cantar, entre som e sentido.
***
Há um silêncio na escuta
silêncio fecundo
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como o da pausa presente na respiração
a vocalidade contemporânea
***
O ator e a atriz em vocalidade poética superam a condição de falantes que também são. Valère
Novarina analisa esta superação poética, quando diz que
Falar não é comunicar. Falar não é trocar nem fazer escambo – das ideias, dos objetos -, falar não
é se exprimir, designar, esticar uma cabeça tagarela na direção das coisas, dublar o mundo com
um eco, uma sombra falada; falar é antes abrir a boca e atacar o mundo com ela, saber morder. O
mundo é por nós furado, revirado, mudado ao falar. Tudo o que pretende estar aqui como um real
aparente pode ser por nós subtraído ao falar. As palavras não vêm mostrar coisas, dar-lhes lugar,
agradecer-lhes educadamente por estarem aqui, mas antes parti-las e derrubá-las. [18]
A morte é condição de fecundidade. As palavras que minha voz murmura, balbucia, pronuncia,
acusticamente mortas quando atiradas ao ar no sentido dos outros, vivem pelo poder de nossas
escutas, fecundam nossos afetos, provocam nossos pensamentos, violam nossas peles, ressoam
nossas intimidades, impelem nossas ações.
***
Em discurso no Fórum Social Mundial de 2005, José Saramago atenta para o esvaziar da ideia de
democracia:
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democracia, se aqueles que efetivamente governam o mundo não são eleitos democraticamente
pelo povo? [19]
A palavra democracia parece ocultar a palavra capitalismo, proscrita dos noticiários. Não
obstante a distância entre democracia e capitalismo, diariamente somos bombardeados por frases
do tipo desrespeito à democracia, lutamos por liberdade e democracia, isso não condiz com a
democracia. Na manobra, a palavra democracia, que exige a igualdade como seu primeiro lema,
encapsula o capitalismo, que exige a desigualdade, a competição e a exploração como condição de
existência.
***
Falar contra a música, prescrevia Bertolt Brecht[20], na época da Ópera de Três Vinténs, para criar
um
espaço de estranhamento
vesti-las de assombro.
Em nossa época, vozes sitiadas que somos pelas palavras reduzidas à informação e à
comunicação, uma missão contemporânea da vocalidade poética será pensar contra a língua, falar
contra as palavras e cantar contra a música, pois
***
prazer dialético
que corta
estranha
historiciza
e assombra.
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***
À imagem mecânica e instrumental da linguagem que nos propõe o grande sistema de mercado que
vem estender sua rede sobre nosso Ocidente desorientado, à religião das coisas, à hipnose do
objeto, à idolatria, a esse tempo que parece se ter condenado a ser apenas o tempo circular de uma
venda perpétua, a esse tempo no qual o materialismo dialético, desmoronado, dá passagem ao
materialismo absoluto
oponho
nossa descida em linguagem muda na noite da matéria de nosso corpo pelas palavras e a
experiência singular que cada falante faz, cada falador daqui, de uma viagem na fala;
oponho
o saber que nós temos, que existe, bem no fundo de nós, não algo do qual seríamos proprietários
(nossa parcela individual, nossa identidade, a prisão do eu), mas uma abertura interior,
***
MUDA
emudecida
possa engendrar
a palavra-broto
galho
muda de árvore
a palavra-mudança
transformação.
NOTAS
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Este artigo é corolário direto do estágio pós-doutoral Linguagem, experiência e memória: poéticas da voz do
narrador e do cantor como sujeitos do ator, realizado na Universitat de Barcelona, em 2011, com financiamento
da Fapesp e supervisão de Jorge Larrosa. Desenvolvi seus temas principais no livro Palavra Muda. Sobre
poéticas para vozes em Estado de Sítio (DAL FARRA MARTINS, 2020).
4. Diz Hannah ARENDT (1987), na seção Labor e fertilidade, de sua grande obra A condição humana: Ambos [o
trabalho e o labor] são processos devoradores que se apossam da matéria e a destroem: o trabalho realizado
pelo labor em seu material é apenas o preparo para a destruição final deste último. Podemos dizer que a
vocalidade poética – projeto de atuação da atriz, do narrador, do cantor, da performer – encontra-se entre o
ser e o fazer, entre o labor e o trabalho. O labor instaura um saber orgânico, necessário à manutenção
constante da vida; o trabalho, um saber poético, de fabricação. A observação de Hannah Arendt nos instiga a
indagar: o que a voz destrói quando se lança? De fato, há uma queima energética própria dos processos
corporais, mas há também uma espécie de poda no teor de memórias, pensamentos e emoções: quando eu
digo, coloco para fora, desabafo, confesso, declaro. Parece haver aí também uma destruição, no sentido da
transformação já inerente ao labor, quando garante a manutenção do ciclo vital.
5. BARTHES (1987) sugere uma anisotropia do texto: Se você mete um prego na madeira, a madeira resiste
diferentemente conforme o lugar em que é atacada: diz-se que a madeira não é isotrópica. O texto tampouco é
isotrópico: as margens, a fenda, são imprevisíveis. Assim também a voz e a vocalidade poética, pluralidade
corporal de ritmos, ressonâncias, respirações.
7. ZUMTHOR, 2001.
10. David LE BRETON (2013) marca o surgimento do homem anatomizado no limiar da modernidade:
Anteriormente o corpo não está singularizado do sujeito ao qual empresta um rosto. O homem é indissociável
de seu corpo, ele ainda não está submetido a esse singular paradoxo de ter um corpo. Durante toda a duração
da Idade Média, as dissecções são proibidas, impensáveis mesmo. A introdução violenta do utensílio nos corpos
seria uma violação do ser humano, fruto da criação divina. Além disso, seria atentar sobre a pele e a carne do
mundo. No universo dos valores medievais, o homem está tomado pelo universo, ele condensa o cosmo. Com
os anatomistas, […] nasce o dualismo contemporâneo que, de um modo igualmente implícito, considera o
corpo isoladamente, em uma espécie de indiferença em relação ao homem ao qual empresta seu rosto. […] O
corpo é posto em suspensão, dissociado do homem, ele é estudado por si mesmo, como realidade autônoma.
Referências
ARTAUD, Antonin. Um atletismo afetivo. In: O teatro e seu duplo. São Paulo: Max Limonad, 1983.
BRECHT, Bertolt. Estudos sobre Teatro. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1978.
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CAVARERO, Adriana. Vozes Plurais. Belo Horizonte, UFMG, 2011.
LARROSA, Jorge. Herido de realidad y en busca de realidad. Notas sobre los lenguajes de la experiencia. In:
DOMINGO, José Contreras y FERRÉ, Núria Pérez de Lara (org.). Investigar la experiencia educativa. Madrid:
Morata, 2010.
LE BRETON, David. Antropologia do corpo e modernidade. São Paulo: Editora Vozes, 2013.
___. Carne de palabras. In: VALENTE, José Ángel. Anatomía de la palabra. Valencia: Pre-Textos, 2000.
___. Los pájaros de la lengua. In: Estética de lo peor. Madrid: Pasos Perdidos, 2010.
SARAMAGO, José. Discurso durante o Fórum Social Mundial. Porto Alegre: janeiro de 2005. Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=m1nePkQAM4w. Acesso em 30/05/2018.
ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção, leitura. São Paulo: Editora da PUC, 2000.
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