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02/09/2024, 11:01 Agulha Revista de Cultura: ZEBBA DAL FARRA | Mudez

mais bogarddirk2@gm

Agulha Revista de Cultura


1999-2024 | Criada por Floriano Martins

sábado, 25 de março de 2023 Ficha técnica

ZEBBA DAL FARRA | Mudez


Quando explodiu a Grande Guerra em 1914

o escritor Karl Kraus se opôs

ao entusiasmo da maioria:

Quem insufla as ações Índice Geral | 2023-2024

[da guerra] Agulha Revista de Cultura #

profana a palavra e a ação Agulha Revista de Cultura #

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e é duplamente desprezível.
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Os que agora nada têm a dizer Agulha Revista de Cultura #

porque a ação captura a palavra Agulha Revista de Cultura #

seguem falando. Agulha Revista de Cultura #

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Quem tiver algo a dizer
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que dê um passo adiante e se cale! Agulha Revista de Cultura #

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Seu contemporâneo Walter Benjamin Agulha Revista de Cultura #

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preferiu calar. [1]
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Grande Guerra de 1914 Agulha Revista de Cultura #

o discurso da propaganda Agulha Revista de Cultura #

atuou efetivamente Agulha Revista de Cultura #

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como arma.
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*** Agulha Revista de Cultura #

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MUDEZ Agulha Revista de Cultura #

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Há um intento em marcha para livrar a linguagem de sua incômoda espessura, um intento de
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apagar das palavras todo sabor e toda ressonância, o intento de impor pela violência uma linguagem
lisa, sem manchas, sem sombras, sem rugas, sem corpo, a língua dos deslinguados, uma língua sem Agulha Revista de Cultura #

outro, na qual ninguém se escute a si mesmo quando fala, uma língua despovoada. [2] Agulha Revista de Cultura #

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O alerta do filósofo espanhol José Luis Pardo expõe a mudez da palavra contemporânea, esvaziada Agulha Revista de Cultura #
e desincorporada pela disseminação crescente de uma linguagem meramente informativa. Desta
língua dos deslinguados extirpou-se o seu sabor de boca, pois
Índice Geral | 1999-2022

Para acessar a linguagem, temos que falar uma língua (a – ou as –materna/s, ao menos em
princípio) e falá-la desde dentro, com nossa própria voz (manifestando nossas dores e prazeres
com ela) e com nossa própria língua. E isso faz com que as palavras nos deixem um resíduo na
ponta da língua, um sabor de boca (doce ou amargo, bom ou mau), o que elas nos fazem saber
(nos dão a saborear) de nós mesmos e que ninguém mais do que nós pode saber, porque ninguém
mais pode saboreá-las com nossa língua e nossa boca, porque a ninguém mais podem soar como
a nós nos soam. [3] Floriano Martins

Calibrada pelas exigências de padronização e modulação da produção em série, a palavra


contemporânea deve objetivar os significados, explicitar, explicar. Em nosso mundo dominado pela
verdade estatística, a objetivação da linguagem pode ser atestada, por exemplo, nos corretores de
texto digitais, cuja sugestão de probabilidades para a continuação das frases demonstra o estreito
limite de nosso vocabulário cotidiano. Se as vozes artificiais são tão semelhantes às nossas, é porque
já falamos uma língua plana, mecânica, binária: curtir-não-curtir, seguir-não-seguir, concordar-
discordar, cancelar-celebrizar. Perdemos a capacidade de saborear e deixar as palavras
escorregarem pela língua, de captar sua ressonância ao dizê-las e desfrutar de seu sabor, com a luz
das imagens que suscitam, ao encontro do saber que propiciariam.

*** Criador e Editor

Não se trata de devorar FLORIANO MARTINS (Fort


Poeta, editor, dramaturgo, en
mas de saborear as palavras. plástico e tradutor. Criou em
Revista de Cultura. Coordeno
coleção “Ponte Velha” de aut
da Escrituras Editora (São Pa
projeto “Atlas Lírico da Amér
Para saborear a comida da revista Acrobata. Esteve p
festivais de poesia realizados
é preciso destruir antes de deglutir Bolívia, Chile, Colômbia, Cos
República Dominicana, El Sa
Espanha, México, Nicarágua
o sentido do movimento é de fora para dentro Portugal e Venezuela. Curado
Internacional do Livro do Ce
para garantir prazeres e nutrição. [4] 2008), e membro do júri do P
Américas (Cuba, 2009), foi p
convidado da Universidade d
(Ohio, Estados Unidos, 2010
livros de César Moro, Federic
Ao contrário Guillermo Cabrera Infante, V
Hans Arp, Juan Calzadilla, E
o sentido vetorial da vocalidade poética aponta para fora Jorge Luis Borges, Aldo Pelle
Antonio Cuadra. Criador e in
de Aproximações Líricas. En
eu saboreio para dizer mais recentes se destacam U
surrealismo no hará ningún d
a alguém. (ensaio, México, 2015), O ilu
baleia (teatro, Brasil, em par
Sardan, 2016), Antes que a á
(poesia completa, Brasil, 202
do tempo (novela, com Berta
Saborear é um ato de lapidação e de descoberta 2020), Las mujeres desapare
Chile, 2022) e Sombras no ja
impulso da viagem da palavra poética, Brasil, 2023). Conta
[email protected].
provocadora de sentidos

ao encontro de corpos. Elys Regina Zils

O sabor coincidente com o dizer ratifica a não-linearidade da voz. [5]

Na deglutição

há sucessão de ações

respirar, saborear, engolir.

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no dizer

as ações são simultâneas

expirar, saborear, ressoar, ritmar, lançar.

***

MUDEZ

Na virada do milênio, o dramaturgo e pintor suíço Valère Novarina atesta a condição contemporânea
de circulação das palavras como se fossem moedas de troca.

Eis que agora os homens trocam entre si palavras como se fossem ídolos invisíveis, forjando nelas
apenas uma moeda:

Editora
acabaremos mudos de tanto comunicar;
ELYS REGINA ZILS (Brasil,
artista visual, tradutora. Dou
em Estudos da Tradução pela
nos tornaremos enfim iguais aos animais, PGET/Universidade Federal
Catarina. Possui graduação e
Espanhola e Literaturas e Le
porque os animais nunca falaram também pela Universidade F
Catarina/Florianópolis, Bras
mas sempre comunicaram, muito-muito bem. Literatura Latinoamericana,
principalmente Vanguardas L
Só o mistério de falar nos separava deles. Artísticas com ênfase em Lite
Surrealista Latinoamericana
Agulha Revista de Cultura (2
No final, nos tornaremos animais: criada por Floriano Martins.
lado dele, de sua trilogia ded
domados pelas imagens, surrealismo, Bússola do Acas
responsável ainda, parcialme
emburrecidos pela troca de tudo, curadoria e tradução de poet
americanos para o Atlas Líric
Hispânica, da revista Acroba
regredidos a comedores do mundo e a matéria para a morte. Edições, casa de livros artesa
elementos terrestres, de Eun
bilíngue organizada e traduzi
Atualmente tem em preparaç
O fim da história é sem fala. [6] livros de Marosa di Giorgio e
para a mesma Sol Negro Ediç
Recentemente criou a Editor
cujo catálogo estreia com O d
orgasmos (Leila Ferraz), Sus
A experiência da palavra pela voz em relação Visões vertiginosas da criaçã
significa a presença concreta de participantes entrevista, ERZ) e Fragmento
(poesia e colagem, ERZ), tod
implicados nesse ato de maneira imediata. [7] Contato: [email protected].
Ocorre que as tecnologias e os espaços
virtuais abstraem a presença, digitalizam o
Conexão Hispânica
circuito entre os corpos: a voz, descarregada
dos odores, suores, ruídos e silêncios do livre
trânsito, emana agora de um corpo abstrato.

***

Habito um texto como habito uma cidade


Editoras & Revistas
para orelhas atentas e olhos distraídos

há sempre alguma surpresa

em esquinas antigas.

***

MUDEZ Colección Libros Imposibles

Em carta de 22 de agosto de 1603, dirigida a seu amigo Francis Bacon, Lord Chandos preambula um
relato de mudez, em gesto confessional.

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Eu terei de mostrar-lhe o que há dentro de mim - uma estranheza, uma doença, uma fraqueza –
se você puder compreender que um abismo sem ponte, intransponível, me separa tanto dos
trabalhos literários que eu presumo escreverei, quanto dos que escrevi, estes que hesito chamá-
los meus, tão estranhos me parecem.

Lord Chandos reclama um vínculo da linguagem com a natureza e uma unidade da existência, Séries & Dossiês
cuja separação o afeta porque possui um sabor de boca, no rastro da palavra, ao passo que a língua
se tornará crescentemente despovoada e falada por deslinguados.

Em poucas palavras: naquele tempo, embebido numa espécie de embriaguez permanente, toda a
existência se apresentava como uma grande unidade: entre mundo mental e físico não havia
contradição alguma, como tampouco entre o gentil e o animal, entre a arte e a barbárie, a solidão
e a companhia; em tudo percebia a natureza […] e em toda a natureza me percebia a mim mesmo. As Resenhas da Agulha
[8]

Este processo se inicia historicamente no umbral do século XVII, diz Foucault:

No seu ser bruto e histórico do século XVI, […] a linguagem faz parte da grande distribuição das
similitudes e das assinalações. Por conseguinte, deve, ela própria, ser estudada como uma coisa
da natureza. Seus elementos têm, como os animais, as plantas ou as estrelas, suas leis de Atlas Lírico da América H
afinidade e de conveniência, suas analogias obrigatórias. […] A linguagem não é o que é porque
tem um sentido; seu conteúdo representativo […] não tem aqui papel a desempenhar. As palavras
agrupam sílabas e as sílabas, letras, porque há, depositadas nestas, virtudes que as aproximam e
as desassociam, exatamente como no mundo as marcas se opõem ou se atraem umas às outras.
[9]

Lord Chandos habita o limiar do divórcio entre as palavras e as coisas, nas bordas do
Renascimento, e se insere no movimento de separação que ocorre na fronteira da modernidade, do Rede de Aproximações Líric

qual o corte anatômico [10] é seu gesto objetivo e preciso.

As coisas e as palavras vão separar-se. O olho será destinado a ver e somente a ver; o ouvido
somente a ouvir. O discurso terá realmente por tarefa dizer o que é, mas não será nada mais que
o que ele diz. Imensa reorganização da cultura de que a idade clássica foi a primeira etapa, a mais
importante talvez, posto ser ela a responsável pela nova disposição na qual estamos ainda presos
— posto ser ela que nos separa de uma cultura onde a significação dos signos não existia, por ser Floriano Martins - Obra
absorvida na soberania do Semelhante; mas onde seu ser enigmático, monótono, obstinado,
primitivo, cintilava numa dispersão infinita. [11]

Lord Chandos vê palavras flutuando ao seu redor, mas que se desintegram em uma língua que já
não diz. A cintilação vira um redemoinho que o captura, leva ao vazio e o impele a fugir.

Las Mujeres desaparecida


***

Em 18 de outubro de 1902, Hugo von Hofmannsthal publica Uma Carta, sobre a qual diz Jorge
Larrosa:

BERTA LUCÍA ESTRADA E


A carta está datada de 22 de agosto de 1603, e nela Lord Chandos descreve a seu amigo Francis
Bacon os sintomas de uma estranha doença: as palavras abstratas, que naturalmente a língua
precisa dizer para expressar qualquer ideia, se esfarinhavam na minha boca como cogumelos
podres. Porém, o rastro desta enfermidade atravessa o século XX e alcança dimensões de
pandemia nessa sociedade que se chama a si mesma do conhecimento, da informação e da
comunicação. [12]

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1603, 1902, 2023. Nos saltos temporais que o texto do escritor austríaco propõe e provoca, as
palavras falham no seu propósito de dizer o mundo: a virada do século XVII, época do
emudecimento da personagem Lord Chandos, quando “as coisas e as palavras vão separar-se”; o
umbral do século XX, momento da criação do texto por Hofmannsthal, prenúncio da captura das
palavras pela propaganda da guerra; e o momento atual, estágio avançado da saturação das
palavras.

Os gestos de Lord Chandos são um relato de mudez e um ato de fuga no sentido pré-moderno,
em que “o mundo é coberto de signos que é preciso decifrar, e estes signos, que revelam
semelhanças e afinidades, não passam, eles próprios, de formas da similitude. Conhecer será, pois,
interpretar: ir da marca visível ao que se diz através dela e, sem ela, permaneceria palavra muda,
adormecida nas coisas.” [13]

Evidencia-se aqui a diferença fundamental


entre os emudecimentos pré-moderno e
contemporâneo da palavra. Aquela palavra
muda é promessa e desejo de expressão. Na
atualidade, a palavra é muda por saturação de
informação comunicativa, por sua redução a
dimensões modulares, próprias das
produções em série. A objetividade científica,
apoiada na linguagem verbal, atinge o contato
entre as pessoas, mediado pela palavra. O
mundo global é dominado pela hegemonia
científica, avalizada pela erudição. No saber
até o século XVI, magia e erudição acolhiam-
se, ao mesmo tempo e no mesmo plano.

***

A superação das dicotomias entre corpo e voz, som e sentido, impõe um enfrentamento com a
própria linguagem. Não por acaso, nota-se atualmente o surgimento de vários neologismos para dar
conta da integridade destas instâncias fragmentadas: corpo-voz, corpovoz, corpo-vocal, corpooral,
palavra-corpo. Contestando o estudo da literatura oral sem atentar para os corpos e vozes dos
sujeitos que a criaram e propagaram, Paul Zumthor propôs substituir oralidade por vocalidade. [14]
Portanto, vocalidade pressupõe a solidariedade entre corpo e voz. Em situação teatral, nos
processos de relações em movimento, para vocalidade diz-se vocalidade poética. Entre vocalidade e
vocalidade poética, é a dimensão do adjetivo poética que posiciona ator, atriz, performer e aprendiz,
no espaço entre ficção e não-ficção, terreno transitório próprio do contemporâneo.

***

Na vocalidade poética, o grão da voz não nega o logos pelo protagonismo da phoné, mas aposta na
vocalização do logos desvocalizado, [15] em um dizer que se constrói em trânsito, na dobra entre o
íntimo e o público. Não se trata de isolar o som do sentido, mas de liberar conexões na ressonância.
O dizer em trânsito se constitui entre nós, não se apoia na apropriação do texto pelo ator, mas antes
que ele se deixe levar pelo fluxo das frases, exponha-se aos impulsos dos versos, contagie-se pelos
rastros das palavras na ponta da língua.

Vocalizar o logos. Entre o fonético e o fonológico, entre dizer e cantar, entre som e sentido.

***

Há um silêncio na escuta

silêncio fecundo

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como o da pausa presente na respiração

sopro de Artaud [16]

pausa de retomada do ciclo

fronteira entre os afetos presentes no já dito

em tensão com o dizer que virá.

Gesto e ação da palavra

exigem seu facho de sombra

seus espectros de silêncios

seus ruídos singulares.

a vocalidade contemporânea

se arrisca em habitar essa fratura

em busca da ressonância perdida

capaz de soldar o dorso do tempo. [17]

***

O ator e a atriz em vocalidade poética superam a condição de falantes que também são. Valère
Novarina analisa esta superação poética, quando diz que

Falar não é comunicar. Falar não é trocar nem fazer escambo – das ideias, dos objetos -, falar não
é se exprimir, designar, esticar uma cabeça tagarela na direção das coisas, dublar o mundo com
um eco, uma sombra falada; falar é antes abrir a boca e atacar o mundo com ela, saber morder. O
mundo é por nós furado, revirado, mudado ao falar. Tudo o que pretende estar aqui como um real
aparente pode ser por nós subtraído ao falar. As palavras não vêm mostrar coisas, dar-lhes lugar,
agradecer-lhes educadamente por estarem aqui, mas antes parti-las e derrubá-las. [18]

A morte é condição de fecundidade. As palavras que minha voz murmura, balbucia, pronuncia,
acusticamente mortas quando atiradas ao ar no sentido dos outros, vivem pelo poder de nossas
escutas, fecundam nossos afetos, provocam nossos pensamentos, violam nossas peles, ressoam
nossas intimidades, impelem nossas ações.

Entretanto, condenadas pelo uso cotidiano e por sua configuração contemporânea de


informação, as palavras se esquivam do risco: nem vivem, nem morrem. Permanecem anestesiadas,
sem peso, sem espessura, sem volume, sem densidade. O perigo da exposição à singularidade da
voz do sujeito poético ameaça a ordem do capitalismo recente, cuja manutenção exige todos os
esforços dos especialistas, dos políticos, dos funcionários, dos jornalistas, para esvaziá-la de
conotação, de melodia, de ressonância, de música, de cor, e reduzi-la a simples portadora de
informação, à sua mínima condição utilitária.

***

Em discurso no Fórum Social Mundial de 2005, José Saramago atenta para o esvaziar da ideia de
democracia:

A democracia em que vivemos é uma democracia sequestrada, condicionada, amputada […] As


grandes decisões são tomadas numa outra esfera. E todos sabemos qual é. As grandes
organizações financeiras internacionais, os FMI’s, as Organizações Mundiais do Comércio, os
Bancos Mundiais, […] nenhum desses organismos é democrático. Como podemos falar de

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democracia, se aqueles que efetivamente governam o mundo não são eleitos democraticamente
pelo povo? [19]

A palavra democracia parece ocultar a palavra capitalismo, proscrita dos noticiários. Não
obstante a distância entre democracia e capitalismo, diariamente somos bombardeados por frases
do tipo desrespeito à democracia, lutamos por liberdade e democracia, isso não condiz com a
democracia. Na manobra, a palavra democracia, que exige a igualdade como seu primeiro lema,
encapsula o capitalismo, que exige a desigualdade, a competição e a exploração como condição de
existência.

A democracia é a máscara do capitalismo.

***

Falar contra a música, prescrevia Bertolt Brecht[20], na época da Ópera de Três Vinténs, para criar
um

espaço de estranhamento

um vazio provocador do confronto da palavra em circulação com os sentidos de suas múltiplas


camadas,

para quebrar a familiaridade das palavras,

sua automação, seu desgaste,

para rasgá-las, perfurá-las desde dentro:

vesti-las de assombro.

Em nossa época, vozes sitiadas que somos pelas palavras reduzidas à informação e à
comunicação, uma missão contemporânea da vocalidade poética será pensar contra a língua, falar
contra as palavras e cantar contra a música, pois

cada palavra de teu idioma tem uma armadilha:

mais adiante aprenderás a pensar

contra tua própria língua. [21]

Estranhar significa historicizar.

***

Vocalidade poética contemporânea

prazer dialético

que corta

estranha

historiciza

e assombra.

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***

À imagem mecânica e instrumental da linguagem que nos propõe o grande sistema de mercado que
vem estender sua rede sobre nosso Ocidente desorientado, à religião das coisas, à hipnose do
objeto, à idolatria, a esse tempo que parece se ter condenado a ser apenas o tempo circular de uma
venda perpétua, a esse tempo no qual o materialismo dialético, desmoronado, dá passagem ao
materialismo absoluto

oponho

nossa descida em linguagem muda na noite da matéria de nosso corpo pelas palavras e a
experiência singular que cada falante faz, cada falador daqui, de uma viagem na fala;

oponho

o saber que nós temos, que existe, bem no fundo de nós, não algo do qual seríamos proprietários
(nossa parcela individual, nossa identidade, a prisão do eu), mas uma abertura interior,

uma passagem falada. [22]

***

MUDA

A linguagem impronunciável do mundo


confirma uma língua esvaziada de
ressonância. Se a constatação do
esvaziamento da experiência com as palavras
nos atormenta, talvez da própria palavra
muda possa nascer uma vocalidade viva e
vibrante, pois, no dizer do poeta alemão
Friedrich Hölderlin (1770-1843),

onde há o perigo, cresce também o que


salva.

Talvez a palavra muda

emudecida

possa engendrar

a palavra-broto

galho

muda de árvore

a palavra-mudança

transformação.

NOTAS

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Este artigo é corolário direto do estágio pós-doutoral Linguagem, experiência e memória: poéticas da voz do
narrador e do cantor como sujeitos do ator, realizado na Universitat de Barcelona, em 2011, com financiamento
da Fapesp e supervisão de Jorge Larrosa. Desenvolvi seus temas principais no livro Palavra Muda. Sobre
poéticas para vozes em Estado de Sítio (DAL FARRA MARTINS, 2020).

1. KOVACSICS, 2007. Traduzido por Dal Farra.

2. PARDO, 2000. Traduzido por Dal Farra.

3. PARDO, 2004. Traduzido por Dal Farra.

4. Diz Hannah ARENDT (1987), na seção Labor e fertilidade, de sua grande obra A condição humana: Ambos [o
trabalho e o labor] são processos devoradores que se apossam da matéria e a destroem: o trabalho realizado
pelo labor em seu material é apenas o preparo para a destruição final deste último. Podemos dizer que a
vocalidade poética – projeto de atuação da atriz, do narrador, do cantor, da performer – encontra-se entre o
ser e o fazer, entre o labor e o trabalho. O labor instaura um saber orgânico, necessário à manutenção
constante da vida; o trabalho, um saber poético, de fabricação. A observação de Hannah Arendt nos instiga a
indagar: o que a voz destrói quando se lança? De fato, há uma queima energética própria dos processos
corporais, mas há também uma espécie de poda no teor de memórias, pensamentos e emoções: quando eu
digo, coloco para fora, desabafo, confesso, declaro. Parece haver aí também uma destruição, no sentido da
transformação já inerente ao labor, quando garante a manutenção do ciclo vital.

5. BARTHES (1987) sugere uma anisotropia do texto: Se você mete um prego na madeira, a madeira resiste
diferentemente conforme o lugar em que é atacada: diz-se que a madeira não é isotrópica. O texto tampouco é
isotrópico: as margens, a fenda, são imprevisíveis. Assim também a voz e a vocalidade poética, pluralidade
corporal de ritmos, ressonâncias, respirações.

6. NOVARINA, 2003. Grifei.

7. ZUMTHOR, 2001.

8. HOFMANNSTHAL, 2010. Traduzido por Dal Farra.

9. FOUCAULT, 1992. Grifei.

10. David LE BRETON (2013) marca o surgimento do homem anatomizado no limiar da modernidade:
Anteriormente o corpo não está singularizado do sujeito ao qual empresta um rosto. O homem é indissociável
de seu corpo, ele ainda não está submetido a esse singular paradoxo de ter um corpo. Durante toda a duração
da Idade Média, as dissecções são proibidas, impensáveis mesmo. A introdução violenta do utensílio nos corpos
seria uma violação do ser humano, fruto da criação divina. Além disso, seria atentar sobre a pele e a carne do
mundo. No universo dos valores medievais, o homem está tomado pelo universo, ele condensa o cosmo. Com
os anatomistas, […] nasce o dualismo contemporâneo que, de um modo igualmente implícito, considera o
corpo isoladamente, em uma espécie de indiferença em relação ao homem ao qual empresta seu rosto. […] O
corpo é posto em suspensão, dissociado do homem, ele é estudado por si mesmo, como realidade autônoma.

11. FOUCAULT, 1992. Grifei.

12. LARROSA, 2010. Traduzi. Grifei.

13. FOUCAULT, 1992. Grifei.

14. ZUMTHOR, 2000.

15. CAVARERO, 2011.

16. ARTAUD, 1983.

17. AGAMBEN, 2009.

18. NOVARINA, 2003.

19. SARAMAGO, 2005.

20. BRECHT, 1978.

21. Juan Goytisolo, escritor catalão. In: LARROSA, 2010. Traduzi.

22. NOVARINA, 2003.

Referências

AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo e outros ensaios. Chapecó: Argos, 2009.

ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1987.

ARTAUD, Antonin. Um atletismo afetivo. In: O teatro e seu duplo. São Paulo: Max Limonad, 1983.

BARTHES, Roland. O prazer do texto. São Paulo: Perspectiva, 1987.

BRECHT, Bertolt. Estudos sobre Teatro. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1978.
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CAVARERO, Adriana. Vozes Plurais. Belo Horizonte, UFMG, 2011.

FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

HOFMANNSTHAL, Hugo von. Una Carta. Bogotá: Asolectura, 2010.

KOVACSICS, Adan. Guerra y lenguaje. Barcelona: Acantilado, 2007.

LARROSA, Jorge. Herido de realidad y en busca de realidad. Notas sobre los lenguajes de la experiencia. In:
DOMINGO, José Contreras y FERRÉ, Núria Pérez de Lara (org.). Investigar la experiencia educativa. Madrid:
Morata, 2010.

LE BRETON, David. Antropologia do corpo e modernidade. São Paulo: Editora Vozes, 2013.

NOVARINA, Valère. Diante da palavra. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2003.

PARDO, José Luis. La Intimidad. Valencia: Pre-Textos, 2004.

___. Carne de palabras. In: VALENTE, José Ángel. Anatomía de la palabra. Valencia: Pre-Textos, 2000.

___. Los pájaros de la lengua. In: Estética de lo peor. Madrid: Pasos Perdidos, 2010.

SARAMAGO, José. Discurso durante o Fórum Social Mundial. Porto Alegre: janeiro de 2005. Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=m1nePkQAM4w. Acesso em 30/05/2018.

ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção, leitura. São Paulo: Editora da PUC, 2000.

ZEBBA DAL FARRA. Músico, encenador, ator e cantor, é professor e pesquisador


livre-docente sênior do Departamento de Artes Cênicas (ECA-USP). Atua nos
campos do teatro e da música, dedicando-se especialmente ao estudo da voz e
das vocalidades poéticas contemporâneas, em conexão com a canção brasileira.
Em 2020, publicou os livros Palavra Muda. Sobre poéticas para vozes em Estado
de Sítio e O ser aprendiz. Um itinerário com Myrian Muniz, pela Editora Giostri.

CHRISTINE BOUMEESTER (Indonésia, 1904-1971). Nossa artista convidada se


expressou através de colagens, óleos, litografias, desenhos, aquarelas. O ritmo
de sua plástica define a presença de modulações sugestivas, delicadas
passagens de cores e formas, em atmosfera quase onírica. Casada com o
gravador Henri Goetz – que ela conheceu em Paris, para onde se mudou, em
meados dos anos 1930, após residência em Amsterdã, cidade onde realizou sua
primeira individual–, o casal descobre no Surrealismo uma significativa
afinidade que definiria sua linguagem. As relações resplandeciam: Picasso,
Breton, Éluard, Wilfredo Lam, Hans Arp. Com a chegada da 2ª Guerra Mundial,
Christine e Henri se recolhem na pequena Carcassonne, ao sul da França, e ali
se encontram com alguns integrantes do grupo surrealista belga (Raoul Ubac,
René Magritte, Louis Scutenaire) e, juntos, fundam a revista La main à plume, que resistirá de 1941 a 1944. Após
este período Christine realiza uma série de exposições e é celebrada pela crítica como uma relevante artista
abstrata, embora essa abstração seja fruto não de uma evasão de sentido, mas antes do recorte de uma paisagem
onírica onde a artista busca precisar novos valores imaginários.

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Agulha Revista de Cultura

Número 226 | março de 2023

Artista convidada: Christiane Boumeester (Indonésia, 1904-1971)

editora | ELYS REGINA ZILS | [email protected]

ARC Edições © 2023

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Postado por Elys às 15:07

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