Eça de Queiroz
O TESOURO
e-book.br
EDITORA UNIVERSITÁRIA
DO L IV R O D IGI TA L
Os livros eletrônicos
da coleção E-Poket, con-
forme o título já indica,
têm como característica
o tamanho reduzido, si-
milar às pequenas cole-
ções de bolso. O forma-
to que designamos de e-
poket foi desenvolvido
para ser lido, com todo
conforto visual, em celu-
lares e outros equipa-
mentos de telas com ta-
manho diminuto.
O conto “O Tesouro”
é mais um texto inco-
mum na obra de Eça de
Queiroz, geralmente co-
nhecida e admirada pela
sua narrativa realista.
Ambientado em um
momento da história da
Península Ibérica – quan-
do a antiga nobreza de-
sacostumada ao trabalho
era formada tanto por ri-
cos herdeiros quanto por
nobres pobres e, às ve-
zes, miseráveis – o estilo
deste conto lembra os
textos populares medie-
vais retomados pelos es-
critores românticos.
Eça de Queiroz
O TESOURO
Seleção, organização e notas:
Cid Seixas
e-book.br
EDITORA UNIVERSITÁRIA
DO L IV R O D IGI TA L
Coleção
e-poket
Obras de Eça de Queiroz
Volume III
CONSELHO EDITORIAL:
Alana El Fahel (UEFS)
Cid Seixas (UFBA | UEFS)
Ester Ma de Figueiredo Souza (UESB)
Francisco Ferreira de Lima (UEFS)
Moanna Brito S. Fraga (CEDAP)
Endereços deste e-book:
issuu.com/e-book.br/docs/tesouro
e-book.uefs.br/tesouro
linguagens.ufba.br
Fonte: Original-Garamond 12
Formato: 10 x 17 mm
Número de páginas: 32
Salvador, 2019
SUMÁRIO
Obras de Eça,
página 7
O Tesouro,
página 9
A Arca de Eça,
página 25
eç a de que ir oz
Retrato de Eça de Queiroz
6 coleção e-poket
o tesouro
OBRAS DE EÇA
O Mistério da Estrada
de Sintra (1870)
O Crime do Padre Amaro (1875)
A Tragédia da Rua
das Flores (1877)
O Primo Basílio (1878)
O Mandarim (1880)
A Relíquia (1887)
Os Maias (1888)
Uma Campanha Alegre (1890)
A Ilustre Casa
de Ramires (1900)
OBRAS PÓSTUMAS
A Cidade e as Serras (1901)
e- boo k. br 7
eç a de que ir oz
Contos (1902)
Prosas Bárbaras (1903)
Ecos de Paris (1905)
Notas contemporâneas (1909)
Últimas páginas (1912)
A Capital (1925)
O Conde de Abranhos (1925)
Alves & Companhia (1925)
OBRAS DE EÇA NA E-BOOK.BR
Volume I:
Singularidades de uma
Rapariga Loira (2017)
Volume II:
O Suave Milagre (2018)
Volume III:
O Tesouro (2019)
8 coleção e-poket
O TESOURO
Os três irmãos de Medranhos, Rui,
Guanes e Rostabal, eram então, em todo
o Reino das Astúrias, os fidalgos mais
famintos e os mais remendados.
Nos Paços de Medranhos, a que o
vento da serra levara vidraça e telha, pas-
savam eles as tardes desse Inverno, en-
gelhados nos seus pelotes de camelão,
batendo as solas rotas sobre as lajes da
cozinha, diante da vasta lareira negra,
onde desde muito não estalava lume,
nem fervia a panela de ferro. Ao escure-
cer devoravam uma côdea de pão negro,
esfregada com alho.
e- boo k. br 9
eç a de que ir oz
Depois, sem candeia, através do pá-
tio, fendendo a neve, iam dormir á
estrebaria, para aproveitar o calor das
três éguas lazarentas que, esfaimadas
como eles, roíam as traves da manjedou-
ra. E a miséria tornara estes senhores mais
bravios que lobos. Ora, na Primavera,
por uma silenciosa manhã de domingo,
andando todos três na mata de
Roquelanes a espiar pegadas de caça e a
apanhar tortulhos entre os robles, en-
quanto as três éguas pastavam a relva
nova de Abril — os irmãos de Medranhos
encontraram, por trás de uma moita de
espinheiros, numa cova de rocha, um
velho cofre de ferio. Como se o resguar-
dasse uma torre segura, conservava as
suas três chaves nas suas três fechadu-
ras. Sobre a tampa, mal decifrável atra-
vés da ferrugem, corria um dístico em
letras árabes. E dentro, até às bordas,
estava cheio de dobrões de ouro!
No terror e esplendor da emoção, os
três senhores ficaram mais lívidos do que
círios. Depois, mergulhando furiosa-
mente as mãos no ouro, estalaram a rir,
10 coleção e-poket
o tesouro
num riso de tão larga rajada que as fo-
lhas tenras dos olmos, em roda, tremi-
am... E de novo recuaram, bruscamente
se encararam, com os olhos a flamejar,
numa desconfiança tão desabrida que
Guanes e Rostabal apalpavam nos cin-
tos as cabos das grandes facas. Então
Rui, que era gordo e ruivo, e o mais avi-
sado, ergueu os braços, como um árbi-
tro, e começou por decidir que o tesou-
ro, ou viesse de Deus ou do Demônio,
pertencia aos três, e entre eles se reparti-
ria, rigidamente, pesando-se o ouro em
balanças. Mas como poderiam carregar
para Medranhos, para os cimos da serra,
aquele cofre tão cheio? Nem convinha
que saíssem da mata com o seu bem, an-
tes de cerrar a escuridão. Por isso ele en-
tendia que o mano Guanes, como mais
leve, devia trotar para a vila vizinha de
Retortilho, levando já ouro na bolsilha,
a comprar três alforjes de couro, três
maquias de cevada, três empadões de
carne e três botelhas de vinho. Vinho e
carne eram para eles, que não comiam
desde a véspera: a cevada era para as
e- boo k. br 11
eç a de que ir oz
éguas. E assim refeitos, senhores e caval-
gaduras, ensacariam o ouro nos alforjes
e subiriam para Medranhos, sob a segu-
rança da noite sem lua.
— Bem tramado! — gritou Rostabal,
homem mais alto que um pinheiro, de
longa guedelha, e com uma barba que lhe
caía desde os olhos raiados de sangue até
á fivela do cinturão.
Mas Guanes não se arredava do co-
fre, enrugado, desconfiado, puxando
entre os dedos a pele negra do seu pes-
coço de grou. Por fim, brutalmente:
— Manos! O cofre tem três chaves...
Eu quero fechar a minha fechadura e le-
var a minha chave!
— Também eu quero a minha, mil rai-
os! — rugiu logo Rostabal. Rui sorriu.
Decerto, decerto! A cada dono do ouro
cabia uma das chaves que o guardavam.
E cada um em silêncio, agachado ante o
cofre, cerrou a sua fechadura com for-
ça. Imediatamente Guanes, desanuviado,
saltou na égua, meteu pela vereda de ol-
mos, a caminho de Retortilho, atirando
12 coleção e-poket
o tesouro
aos ramos a sua cantiga costumada e
dolente:
Olé! Olé!
Sale la cruz de la iglesia,
Vestida de negro luto...
II
Na clareira, em frente à moita que
encobria o tesouro (e que os três tinham
desbastado a cutiladas) um fio de água.
brotando entre rochas: caía sobre uma
vasta laje escavada, onde fazia como um
tanque, claro e quieto, antes de se escoar
para as relvas altas. E ao lado, na sombra
de uma faia, jazia um velho pilar de gra-
nito, tombado e musgoso. Ali vieram
sentar-se Rui e Rostabal, com os seus
tremendos espadões entre os joelhos. As
duas éguas retouçavam a boa erva pintal-
gada de papoulas e botões-de-ouro. Pela
ramaria andava um melro a assobiar. Um
cheiro errante de violetas adoçava o ar
e- boo k. br 13
eç a de que ir oz
luminoso. E Rostabal, olhando o Sol,
bocejava com fome.
Então Rui, que tirara o sombreiro e
lhe cofiava as velhas plumas roxas, co-
meçou a considerar, na sua fala avisada e
mansa, que Guanes, nessa manhã, não
quisera descer com eles à mata de Ro-
quelanes. E assim era a sorte ruim! Pois
que se Guanes tivesse quedado em
Medranhos, só eles dois teriam desco-
berto o cofre, e só entre eles dois se di-
vidiria o ouro! Grande pena! Tanto mais
que a parte de Guanes seria em breve
dissipada, com rufiões, aos dados, pelas
tavernas.
— Ah! Rostabal, Rostabal! Se Gua-
nes, passando aqui sozinho, tivesse acha-
do este ouro, não dividia conosco, Ros-
tabal!
O outro rosnou surdamente e com
furor, dando um puxão às barbas negras:
— Não, mil raios! Guanes é sôfre-
go... Quando o ano passado, se te lem-
bras, ganhou os cem ducados ao espadei-
14 coleção e-poket
o tesouro
ro de Fresno, nem me quis emprestar três
para eu comprar um gibão novo!
— Vês tu? — gritou Rui, resplande-
cendo.
Ambos se tinham erguido do pilar
de granito, como levados pela mesma
ideia, que os deslumbrava. E, através das
suas largas passadas, as ervas altas silva-
vam.
— E para quê — prosseguia Rui. —
Para que lhe serve todo o ouro que nos
leva? Tu não o ouves, de noite, como
tosse? Ao redor da palha em que dorme,
todo o chão está negro do sangue que
escarra! Não dura até ás outras neves,
Rostabal! Mas até lá terá dissipado os
bons dobrões que deviam ser nossos,
para levantarmos a nossa casa, e para tu
teres ginetes, e armas, e trajes nobres, e
o teu terço de solarengos, como compe-
te a quem é, como tu, o mais velho dos
de Medranhos...
— Pois que morra, e morra hoje! —
bradou Rostabal.
— Queres?
e- boo k. br 15
eç a de que ir oz
Vivamente, Rui agarrara o braço do
irmão e apontava para a vereda de ol-
mos, por onde Guanes partira cantan-
do:
— Logo adiante, ao fim do trilho,
há um sítio bom, nos silvados. E hás de
ser tu, Rostabal, que és o mais forte e o
mais destro. Um golpe de ponta pelas
costas. E é justiça de Deus que sejas tu,
que muitas vezes, nas tavernas, sem pu-
dor, Guanes te tratava de «cerdo» e de
«torpe», por não saberes a letra nem os
números.
— Malvado!
— Vem!
Foram. Ambos se emboscaram por
trás de um silvado que dominava o ata-
lho, estreito e pedregoso como um leito
de torrente. Rostabal, assolapado na
vala, tinha já a espada nua. Um vento leve
arrepiou na encosta as folhas dos álamos
— e sentiram o repique leve dos sinos de
Retortilho. Rui, coçando a barba, calcu-
lava as horas pelo Sol, que já se inclinava
para as serras. Um bando de corvos pas-
16 coleção e-poket
o tesouro
sou sobre eles, grasnando, e Rostabal,
que lhes seguira o voo, recomeçou a bo-
cejar, com fome, pensando nos empa-
dões e no vinho que o outro trazia nos
alforjes.
Enfim! Alerta! Era, na vereda, a can-
tiga dolente e rouca, atirada aos ramos:
Olé! Olé!
Sale la cruz de la iglesia,
Vestida de negro luto...
Rui murmurou: — Na ilharga! Mal
que passe! — O chouto da égua bateu o
cascalho. uma pluma num sombrero
vermelhejou por sobre a ponta das sil-
vas.
Rostabal rompeu de entre a sarça por
uma brecha, atirou o braço, a longa es-
pada — e toda a lâmina se embebeu
molemente na ilharga de Guanes, quan-
do ao rumor, bruscamente ele se virara
na sela. Com um surdo arranco, tombou
de lado, sobre as pedras. Já Rui se arre-
messava aos freios da égua — Rostabal.
e- boo k. br 17
eç a de que ir oz
caindo sobre Guanes, que arquejava, de
novo lhe mergulhou a espada, agarrada
pela folha como um punhal, no peito e
na garganta.
— A chave! — gritou Rui.
E arrancada a chave do cofre ao seio
do morto, ambos largaram pela vereda
— Rostabal adiante, fugindo, com a plu-
ma do sombrero quebrada e torta, a es-
pada ainda nua entalada sob o braço,
todo encolhido, arrepiado com o sabor
do sangue que lhe espirrara para a boca:
Rui, atrás, puxava desesperadamente os
freios da égua, que, de patas fincadas no
chão pedregoso, arreganhando a longa
dentuça amarela. não queria deixar o seu
amo assim estirado, abandonado, ao
comprido das sebes.
Teve de lhe espicaçar as ancas laza-
rentas com a ponta da espada — e foi
correndo sobre ela, de lâmina alta, como
se perseguisse um mouro, que desembo-
cou na clareira onde o sol já não doura-
va as folhas. Rostabal arremessara para a
relva o sombrero e a espada; e debruça-
18 coleção e-poket
o tesouro
do sobre a laje escavada em tanque, de
mangas arregaçadas, lavava, ruidosamen-
te, a face e as barbas.
A égua, quieta, recomeçou a pastar,
carregada com os alforjes novos que
Guanes comprara em Retortilho. Do
mais largo, abarrotado, surgiam dois gar-
galos de garrafas. Então Rui tirou, len-
tamente, do cinto, a sua larga navalha.
Sem um rumor na relva espessa, desli-
zou até Rostabal, que resfolegava, com
as longas barbas pingando. E serenamen-
te, como se pregasse uma estaca num
canteiro, enterrou a folha toda na largo
dorso dobrado, certeira sobre o coração.
Rostabal caiu sobre o tanque, sem um
gemido, com a face na água, os longos
cabelos flutuando na água. A sua velha
escarcela de couro ficara entalada sob a
coxa. Para tirar de dentro a terceira cha-
ve do cofre, Rui solevou o corpo — e
um sangue mais grosso jorrou, escorreu
pela borda do tanque, fumegando.
o o o
e- boo k. br 19
eç a de que ir oz
III
Agora eram dele, só dele, as três cha-
ves do cofre! E Rui, alargando os bra-
ços, respirou deliciosamente. Mal a noi-
te descesse, com o ouro metido nos
alforjes, guiando a fila das éguas pelos
trilhos da serra, subiria a Medranhos e
enterraria na adega o seu tesouro! E
quando ali na fonte, e além rente aos sil-
vados, só restassem, sob as neves de De-
zembro. alguns ossos sem nome. ele se-
ria u magnífico senhor de Medranhos, e
na capela nova do solar renascido man-
daria dizer missas ricas pelos seus dois
irmãos mortos... Mortos como? Como
devem morrer os de Medranhos — a
pelejar contra o Turco!
Abriu as três fechaduras, apanhou
um punhado de dobrões, que fez retinir
sobre as pedras. Que puro ouro, de fino
quilate! E era o seu ouro! Depois foi exa-
minar a capacidade dos alforjes — e en-
contrando as duas garrafas de vinho, e
20 coleção e-poket
o tesouro
um gordo capão assado, sentiu uma
imensa fome. Desde a véspera só come-
ra uma lasca de peixe seco. E há quanto
tempo não provava capão!
Com que delícia se sentou na relva,
com as pernas abertas, e entre elas a ave
loura, que recendia, e o vinho cor de
âmbar! Ah! Guanes fora bom mordomo
— nem esquecera azeitonas. Mas porque
trouxera ele, para três convivas, só duas
garrafas? Rasgou uma asa do capão: de-
vorava a grandes dentadas. A tarde des-
cia, pensativa e doce, com nuvenzinhas
cor-de-rosa.
Para além, na vereda, um bando de
corvos grasnava. As éguas fartas dormi-
tavam, com o focinho pendido. E a fon-
te cantava, lavando o morto.
Rui ergueu à luz a garrafa de vinho.
Com aquela cor velha e quente, não te-
ria custado menos de três maravedis. E
pondo o gargalo à boca, bebeu em sor-
vos lentos, que lhe faziam ondular o pes-
coço peludo. Oh vinho bendito, que tão
prontamente aquecia o sangue! Atirou
e- boo k. br 21
eç a de que ir oz
a garrafa vazia — destapou outra. Mas,
como era avisado, não bebeu, porque a
jornada para a serra, com o tesouro, re-
queria firmeza e acerto. Estendido so-
bre o cotovelo, descansando, pensava em
Medranhos coberto de telha nova, nas
altas chamas da lareira por noites de
neve, e o seu leito com brocados, onde
teria sempre mulheres.
De repente, tomado de urna ansie-
dade, teve pressa de carregar os alforjes.
Já entre os troncos a sombra se adensava.
Puxou uma das éguas para junto do co-
fre, ergueu a tampa. tomou um punha-
do de ouro... Mas oscilou, largando os
dobrões, que retilintaram no chão, e le-
vou as duas mãos aflitas ao peito. Que
é, D. Rui? Raios de Deus! Era um lume,
um lume vivo, que se lhe acendera den-
tro, lhe subia até às goelas. Já rasgara o
gibão, atirava os passos incertos, e, a ar-
quejar, com a língua pendente. limpava
as grossas bagas de um suor horrendo
que o regelava como neve. Oh Virgem
Mãe! Outra vez o lume, mais forte, que
alastrava, o roía! Gritou:
22 coleção e-poket
o tesouro
— Socorro! Alguém! Guanes! Ros-
tabal!
Os seus braços torcidos batiam o ar
desesperadamente. E a chama dentro
galgava — sentia os ossos a estalarem
como as traves de uma casa em fogo.
Cambaleou até à fonte para apagar
aquela labareda, tropeçou sobre Rosta-
bal; e foi com o joelho fincado no mor-
to, arranhando a rocha, que ele, entre
uivos, procurava o fio de água. que re-
cebia sobre os olhos, pelos cabelos. Mas
a água mais o queimava, como se fosse
um metal derretido. Recuou. caiu para
cima da relva. que arrancava aos punha-
dos, e que mordia, mordendo os dedos,
para lhe sugar a frescura. Ainda se er-
gueu. com uma baba densa a escorrer-
lhe nas barbas: e de repente; esbugalhan-
do pavorosamente os olhos, berrou,
como se compreendesse enfim a traição,
todo o horror:
— É veneno!
Oh! D. Rui, o avisado, era veneno!
Porque Guanes, apenas chegara a Retor-
tilho, mesmo antes de comprar os alfor-
e- boo k. br 23
eç a de que ir oz
jes, correra cantando a uma viela, por
detrás da catedral, a comprar ao velho
droguista judeu o veneno que, mistura-
do ao vinho, o tornaria a ele, a ele so-
mente, dono de todo o tesouro.
Anoiteceu. Dois corvos, de entre o
bando que grasnava além nos silvados,
já tinham pousado sobre o corpo de
Guanes. A fonte, cantando. lavava o
outro morto. Meio enterrado na erva
negra, toda a face de Rui se tornara ne-
gra. Uma estrelinha tremeluzia no céu.
O tesouro ainda lá está, na mata de
Roquelanes.
24 coleção e-poket
A ARCA
DE EÇA
Cid Seixas
O conto “O Tesouro” é mais um tex-
to incomum na obra de Eça de Queiroz,
geralmente conhecida e admirada pela
sua narrativa realista. Ambientado em
um momento da história da Península
Ibérica – quando a antiga nobreza, de-
sacostumada ao trabalho, era formada
tanto por ricos herdeiros quanto por
nobres pobres e, às vezes, reduzidos à
miséria – o estilo deste conto lembra as
histórias populares da Idade Média, re-
tomadas pelos escritores românticos, em
busca das raízes nacionais dos diversos
povos europeus.
e- boo k. br 25
eç a de que ir oz
Se o leitor menos avisado de hoje es-
tranhar o estado caricaturalmente mise-
rável dos nobres moradores do paço em
ruinas, convém lembrar que a grande
parte da herança legada pelas famílias
poderosas era destinada ao morgado, ou
ao filho mais velho. Assim os demais fi-
lhos, sobrinhos e netos de uma família
de posses, ao contrário do herdeiro, se-
riam igualmente nobres, porém pobres.
Enquanto a aristocracia vivia nos
bem protegidos castelos, à sua volta for-
mavam-se vilas de trabalhadores que la-
vravam a terra demarcada pela estirpe
dos guerreiros. Os senhores da terra e
das armas desfrutavam do resultado do
trabalho dos habitantes dessas vilas, os
chamados vilões.
Não por acaso, a conotação depre-
ciativa do termo atravessou o tempo e
chegou até nós: de um lado as nobres
pessoas de bem; do outro, os vis vilões.
Ainda hoje, a prática se repete quando
aqueles que produzem a riqueza vivem
na miséria e os beneficiários dessa práti-
26 coleção e-poket
o tesouro
ca ancestral, membros dos três poderes
que substituiram a nobreza de sangue,
desfrutam de privilégios reais e faraôni-
cos. Sem esquecer, naturalmente, os re-
ligiosos, encarregados por Deus ou,
muito provavelmente, pelo Diabo de co-
brar seus dízimos, enquanto dizimam os
demais.
Essa é a realidade. Retrato do realis-
mo que caracteriza o movimento literá-
rio do século dezenove presente na obra
de Eça de Queiroz. Após o deleite bur-
guês, narrado pelos autores românticos,
uma nova geração de escritores perce-
beu o contraste ente as classes sociais e
assumiu o compromisso da sua denún-
cia. Foi nessa mesma época conturbada
que Marx e Engels escreveram o Mani-
festo do Partido Comunista, de 1848, le-
vando para o plano da economia políti-
ca idênticos problemas constituintes das
obras literárias Realistas.
Se o conto “O Tesouro” apresenta
deliciosos recursos românticos e popula-
rescos, por outro lado o caráter dos per-
e- boo k. br 27
eç a de que ir oz
sonagens dá conta das teorias determi-
nistas vigentes. Submetidos a condições
desumanas de vida, os irmãos de Medra-
nhos seriam capazes das mais aterrori-
zantes vilezas.
Assim, obedecendo a tal determinis-
mo, mesmo se apossando de ouros e ri-
quezas, todos eles acabam da forma mais
atroz possível. Eça mistura num mesmo
contexto a exposição da miséria huma-
na e a fantástica bonança dos contos de
fadas. Os três famintos irmãos encon-
tram um tesouro com três chaves à sua
espera. Tudo maravilhosamente dispos-
to para encantar o sonho e a fantasia.
Para engendrar sua história, o autor
foi beber em uma das fontes narrativas
mais miraculosas do invento humano, As
Mil e uma Noites, estabelecendo uma
espécie de diálogo intertextual entre fan-
tasia e determinismo realista.
Em uma das noites de magia, Shera-
zade narra ao seu Senhor a história de
três homens que encontram uma imen-
28 coleção e-poket
o tesouro
sa pedra de ouro. Um dos homens en-
carregados ir buscar alimento envenena
a comida e termina morto por um dos
envenenados.
Como as narrativas literárias são
constituídas por histórias inventadas ou
reinventadas, este conto de Eça de Quei-
roz não foge à regra, tecendo em novos
teares o mesmo tecido renascido.
o o o
Para finalizar as rápidas observações
aqui contidas, convém um esclarecimen-
to sobre a grafia do nome do autor, ado-
tada tanto neste e-book quanto em ou-
tros por nós organizados.
Convém lembrar que ambas as for-
mas – “Queirós” e “Queiroz” – são con-
sideradas aceitáveis ou corretas pelas
infindáveis contendas travadas pelos
gramáticos que se atribuem o papel de
legisladores da língua que, obedientes,
todos nós usamos.
e- boo k. br 29
eç a de que ir oz
Nos livros de Eça que organizamos
mais recentemente, preferimos adotar a
grafia “Queiroz”, por ter sido a usada
no registro de nascimento do autor – e
nos documentos e livros da sua época.
Idêntico critério é usado no Brasil
para o nome de Ruy Barbosa, por exem-
plo, ou de outras pessoas, empresas e
lugares, oriundos de um momento an-
terior às atuais reformas ortográficas da
nossa língua comum. Assim, creio ser
mais indicado usar o nome do autor na
forma original do século dezenove.
Salvador, janeiro de 2019
Cid Seixas
30 coleção e-poket
Os livros eletrônicos
da coleção E-Poket, con-
forme o título já indica,
têm como característica
o tamanho reduzido, si-
milar às pequenas cole-
ções de bolso. O forma-
to que designamos de e-
poket foi desenvolvido
para ser lido, com todo
conforto visual, em celu-
lares e outros equipa-
mentos de telas com ta-
manho diminuto.
O conto “O Tesouro”
é mais um texto inco-
mum na obra de Eça de
Queiroz, geralmente co-
nhecida e admirada pela
sua narrativa realista.
Ambientado em um
momento da história da
Península Ibérica – quan-
do a antiga nobreza de-
sacostumada ao trabalho
era formada tanto por ri-
cos herdeiros quanto por
nobres pobres e, às ve-
zes, miseráveis – o estilo
deste conto lembra os
textos populares medie-
vais retomados pelos es-
critores românticos.
O Tesouro
Eça de Queiroz
Seleção, organização e notas:
Cid Seixas
Os três irmãos de Medra-
nhos, Rui, Guanes e Rosta-
bal, eram então, em todo o
Reino das Astúrias, os fidal-
gos mais famintos e os mais
remendados.
e-book.br
EDITORA UNIVERSITÁRIA
DO L IV R O D IGI TA L