See discussions, stats, and author profiles for this publication at: [Link]
net/publication/359966931
Concordância verbal, difusão da mudança linguística no contínuo rural-
urbano e mudança em curto espaço de tempo
Article in Working Papers em Linguística · April 2022
DOI: 10.5007/1984-8420.2021.e76094
CITATIONS READS
4 46
2 authors:
Silvana Silva de Farias Araujo Raquel Meister Ko. Freitag
Universidade Estadual de Feira de Santana Universidade Federal de Sergipe
20 PUBLICATIONS 20 CITATIONS 183 PUBLICATIONS 919 CITATIONS
SEE PROFILE SEE PROFILE
All content following this page was uploaded by Raquel Meister Ko. Freitag on 18 April 2022.
The user has requested enhancement of the downloaded file.
[Link]
concordância verbal, difusão da mudança linguística no
contínuo rural-urbano e mudança em curto espaço de tempo
verbal agreement, diffusion of linguistic change in the rural-
urban continuum and change in a short period of time
Silvana Silva de Farias Araújo | Lattes | [Link].2014@[Link]
Universidade Estadual de Feira de Santana
Raquel Meister Ko Freitag | Lattes | rkofreitag@[Link]
Universidade Federal de Sergipe
Resumo: O estudo de processos de mudança linguística em situações de transição possi-
bilita observar efeitos de fatores sociais no condicionamento de regras da gramática. Para
contribuir com os estudos de sintaxe diacrônica e sintaxe comparativa em perspectiva
histórica, este texto explora o comportamento da concordância verbal com a terceira pes-
soa do plural em Feira de Santana-Bahia, considerando efeitos da sócio-história e compa-
rando o comportamento da variável com outras comunidades na região com uma sócio-
-história diferente. Em uma abordagem de meta-análise, os resultados apontam fronteiras
geográficas e sociais bem demarcadas quanto ao traço da concordância verbal padrão.
Palavras-chave: Concordância verbal. Meta-análise. Sócio-história.
Abstract: The study of linguistic change processes in transition situations enables to elu-
cidate the social factors effects on grammar constraining. In order to contribute to the
studies of diachronic syntax and comparative syntax from a historical perspective, this
text explores the behavior of verbal agreement with the third person plural in Feira de
Santana, Bahia. It considers the effects of the socio-history and compares them with oth-
er communities in the region with different socio-history. In a meta-analysis approach,
the results point to well-demarcated geographical and social boundaries for standard ver-
bal agreement features.
Keywords: Verbal agreement. Meta-analysis. Socio-history.
Work. Pap. Linguíst., 22(2), Florianópolis, 2021 266
[Link]
Introdução
A concordância verbal é um fenômeno variável no português brasileiro (PB) que
atua como um marcador social, na medida em que é sensível à formalidade e à zona de
residência dos falantes.1 Um grande conjunto de estudos apontam evidências que suge-
rem diferenças na fala de pessoas da zona rural em relação à de pessoas da zona urbana
(RODRIGUES, 1987; VIEIRA, 1995; SILVA, 2005; LUCCHESI; BAXTER; SILVA,
2009; ARAUJO, 2012, 2014), que embasam o fato de a ausência de marcas de número
em formas verbais ser um dos traços caracterizadores da fronteira sociolinguística brasi-
leira, que separa a fala culta da popular. A explicação é que os habitantes das zonas mais
afastadas dos grandes centros tiveram, e ainda têm, menos acesso a instâncias que levem
à aquisição de padrões linguísticos prestigiados.
Enquanto no início do século XX, a sociedade brasileira se configurava como ma-
joritariamente rural, entre a década de 1940 e 1980, com um expressivo crescimento da
população, deu-se uma inversão da distribuição populacional entre as áreas rurais e ur-
banas. Esse processo não ocorreu de forma organizada e síncrona: na região Nordeste,
particularmente, a formação de centros metropolitanos ocorreu mais tarde do que no
Sudeste. Uma destas formações é a cidade de Feira de Santana, na Bahia, que cresceu
substancialmente nas últimas décadas, mas ainda conserva traços de suas origens forte-
mente ligada à cultura rural (BOAVENTURA, 1989; OLIVEIRA, 2016). Os contatos
decorrentes de um processo de transição entre rural e urbano encontrado não só em Feira
de Santana, mas em outras cidades de médio e grande porte em termos populacionais e
de expansão tardia, em termos sociolinguístico, precisam ampliar a concepção dicotômi-
ca de língua, na oposição norma urbana vs. norma rural. A transição permite supor a exis-
tência de uma norma intermediária, que pode ser rotulada como rurbana (SOUTHALL,
1973; BORTONI-RICARDO, 1985, 2011).
O estudo de processos de mudança linguística em situações de transição é, ao mes-
mo tempo, produtivo, por contribuir de modo especial com a elucidação de efeitos de
fatores sociais no condicionamento de regras da gramática, e desafiador, por conta da
escassez e assistematicidade de dados linguísticos com informações que permitam o de-
lineamento do perfil social do falante da língua. Para contribuir com os estudos de sin-
taxe diacrônica e sintaxe comparativa em perspectiva histórica, neste texto exploramos a
concordância verbal com a terceira pessoa do plural em Feira de Santana, considerando
efeitos da sua sócio-história e comparando o comportamento da variável com o de outras
comunidades na região, cuja realidade sócio-histórica é distinta. Para tanto, nos valemos
Work. Pap. Linguíst., 22(2), Florianópolis, 2021 267
[Link]
de “maus dados”: resultados de estudos sociolinguísticos sobre o fenômeno, com diferen-
tes metodologias de obtenção de dados. A fim de ampliar o poder explanatório para além
da constatação das frequências, como ocorre em estudos de revisão narrativa, emprega-
mos a técnica de meta-análise para consolidar resultados e poder comparar com maior
segurança e amparo em técnicas de generalização estatísticas.
1 A polarização rural-urbano na perspectiva sociolinguística
O ambiente rural agrupa peculiaridades socioculturais que levam a que os seus pa-
drões linguísticos e culturais sejam diversos dos urbanos. Por essa razão, desde a realiza-
ção dos primeiros trabalhos que investigaram a diversidade linguística brasileira (a prin-
cípio, pelo viés dialetológico), era proclamada a urgência de serem realizadas descrições
dos falares rurais, antes que a “modernização” produzisse a extinção de suas principais
características (AMARAL, 1976).
As particularidades do falar rural em relação ao falar urbano relacionam-se às con-
dições de formação da realidade sociolinguística brasileira, em que uma massa de pes-
soas sem instrução e arraigada a processos mais “tradicionais”, típicos de ambientes do
interior, opunha-se a uma embrionária elite, mais ligada a hábitos “modernos”, estas mais
próximas ao litoral, nos pequenos povoamentos urbanos.
Os estudos sociológicos brasileiros são unânimes em enfatizar a primazia da cul-
tura rural no Brasil. Holanda (1963) afirma que, para se entender a realidade do Brasil-
colônia, é importante considerar a diferença entre civilização de raízes rurais e civilização
agrícola, destacando que a primeira foi o caso do Brasil, onde todos os trâmites políticos,
sociais e econômicos existiam em dependência do meio rural, mesmo depois de procla-
mada a sua independência política:
É efetivamente nas propriedades rústicas que tôda a vida da colônia se
concentra durante os séculos iniciais da ocupação europeia: as cidades
são virtualmente, senão de fato, simples dependências delas. Com pouco
exagero pode dizer-se que tal situação não se modificou essencialmente até
à abolição. 1888 representa o marco divisório entre duas épocas; em nossa
evolução nacional, essa data assume significado singular e incomparável
(HOLANDA, 1963, p. 57).
A partir da extinção do tráfico daqueles que sustentavam as atividades rurais no
Brasil, em 1850, ocorre uma onda de ações que introduzirão uma aparência urbana no
país: a fundação do segundo Banco do Brasil e do Banco Rural, a criação de estradas e o
uso de técnicas modernas agrárias. Consequentemente, incrementam-se medidas cita-
Work. Pap. Linguíst., 22(2), Florianópolis, 2021 268
[Link]
dinas, começadas após a vinda da Corte Portuguesa em 1808. Contudo, não serão facil-
mente apagadas as características rurais na sociedade brasileira, pois, além de serem pou-
cos os centros urbanos, as primeiras ocupações burocráticas e profissões liberais foram
exercidas por lavradores e donos de engenhos.
A urbanização criou um confronto entre os padrões citadinos, influenciados pela
industrialização, e o meio rural tradicional, levando as cidades a assumirem uma posição
de superioridade em relação à vida interiorana. Ao associar a dualidade rural-urbano com
o repertório sociolinguístico das comunidades, Bortoni-Ricardo (2004, 2005, 2011) pos-
tula um aparato metodológico em que se delineiam três contínuos: o de urbanização, o de
letramento e o de monitoração linguística. O primeiro, diretamente relacionado ao foco
deste artigo, abrange as comunidades rurais mais isoladas até os grandes centros, estando
entre esses dois polos, o que se estende por uma zona “rurbana”:
Todo falante do português do Brasil situa-se em um ponto determinado
desse contínuo, mas pode movimentar-se em direção a qualquer dos
pólos, dependendo de sua rede de relações sociais, sua inserção em
práticas sociais letradas e participação no sistema de produção, bem como
seu gênero, faixa etária e outros componentes de sua identidade social.
O contínuo de urbanização permite ainda distinguir regras variáveis
graduais, presentes ao longo de todo o contínuo, e regras descontínuas,
características do repertório das populações situadas no pólo rural e na
zona rurbana (BORTONI-RICARDO et al, 2008, p. 231, grifos nossos).
Os traços graduais ou contínuos dizem respeito aos usos igualitários de uma deter-
minada variante por grupos sociais distintos, sendo, assim, traços que se espraiam em
diversas variedades da língua (dizer “cadera” em vez de “cadeira”, por exemplo). Enquanto
os traços descontínuos ou abruptos referem-se a não igualdade de uma variante usada por
diferentes grupos sociais (dizer “galfo” em vez de “garfo”, por exemplo). Os traços gradu-
ais são menos estigmatizados pela sociedade urbana, não gerando discriminação sob seus
utentes.
Com a globalização, a realidade das comunidades rurais se modificou bastante, es-
tando seus moradores, em sua maioria, expostos aos meios de comunicação de massa
e frequentando instituições formais de ensino. Esse contato com outras normas leva a
instâncias de variação nos diferentes níveis da língua, demandando o aprofundamento
da investigação das influências sócio-histórico-culturais para a configuração linguística
dessas comunidades em transição.
Para Bortoni-Ricardo (2005, p. 33), “o êxodo rural promoveu, no plano linguístico, a
conversão de uma ampla variação diatópica em uma profunda variação diastrática”. Sobre
Work. Pap. Linguíst., 22(2), Florianópolis, 2021 269
[Link]
o contínuo de urbanização proposto por Bortoni-Ricardo (2004, 2005, 2011), Lucchesi
(2015), pautando-se em resultados empíricos obtidos com dados da fala popular do esta-
do da Bahia, propõem uma gradação de normas, que vai das comunidades mais isoladas,
social e geograficamente, até as mais urbanizadas, estando a capital do estado, Salvador,
funcionando como modelo de difusão de padrões linguísticos urbanos (Quadro 1).
Quadro 1: Continuum de variedades potenciais da norma popular brasileira
no eixo rural-urbano
português afro-brasileiro
português rural
português popular rurbano do interior
português popular urbano do interior
português popular rurbano das grandes
cidades
português popular urbano das grandes
cidades
Fonte: Lucchesi (2015, p. 218).
Nos dias atuais, em face das profundas mudanças ocorridas na sociedade brasi-
leira, em razão da diminuição das fronteiras geográficas e sociais, motivadas por fatores
como construções de estradas, democratização do ensino, acesso a meios de comunica-
ção de massa e acesso à internet, as chamadas “comunidades rurais afro-brasileiras iso-
ladas” (LUCCHESI; BAXTER; RIBEIRO, 2009) sofreram também mudanças em suas
configurações, o que provavelmente gerou influências no vernáculo de seus moradores.
Comunidades rurais afro-brasileiras apresentam, ainda, especificidades devido à sua só-
cio-história, no entanto, não são totalmente isoladas, demandando investigações para
desvelar a real configuração do falar afro-brasileiro no século XXI. Para tanto, é necessá-
rio considerar traços como comunidades [± isoladas], [+ afrodescendentes], [+ africani-
zadas] e localizadas em municípios (microáreas) e regiões (macroáreas) que foram, nos
períodos colonial e imperial, [+ escravocratas] (SANTANA; ARAUJO; FREITAG, 2018,
2018a), a fim de desvelar como se dão os contatos, os deslocamentos e a relação entre o
português rural e o português afro-brasileiro.
A concordância de número é um dos fenômenos morfossintáticos variáveis do PB
com a maior amplitude de estudos, seja quanto ao tipo de amostra, ao tempo, à região
dialetal, o que nos permite afirmar que são os falantes não escolarizados e de zonas rurais
mais afastadas dos padrões de urbanização os que mais utilizam variantes sem marcas de
Work. Pap. Linguíst., 22(2), Florianópolis, 2021 270
[Link]
número em formas verbais (LUCCHESI; BAXTER; SILVA, 2009), independentemente
da pessoa do discurso. Quanto ao nível de apreciação social (LABOV, 1972), a associação
entre o traço linguístico da não concordância e o perfil de falantes pode ser considerado,
nas comunidades urbanas, como um estereótipo, pois está no nível da consciência socio-
linguística da comunidade como um traço socialmente estigmatizado.
A variação no uso da concordância verbal de número envolve usos em que a dife-
rença entre as formas do singular e do plural é saliente no nível fônico, a exemplo de “eles
foi” e “nós sabia”. Nesses contextos mais salientes, falantes da norma urbana culta podem
notar mais facilmente a ausência do morfema de plural; ao contrário do que ocorre em
outros contextos fônicos e sintáticos, como ocorre em, por exemplo, “eles estuda” e “che-
gou os livros”, algo que sugere que na variação da concordância verbal há traços contínuos
e descontínuos. A título de ilustração, citamos o estudo de Graciosa (1991) – que focali-
zou a concordância verbal com sujeitos de terceira pessoa do plural com dados de falan-
tes com nível superior completo do Projeto Norma Urbana Culta (NURC), coletados na
década de 1970 em cinco capitais brasileiras, selecionadas por seu grau de urbanização e
de desenvolvimento –, no qual a não realização de flexão de número em verbos foi de 6%
do total, sendo estes dados em contextos majoritariamente de baixa saliência fônica e de
inversão da ordem canônica sujeito-verbo (SV) para a ordem verbo-sujeito (VS), con-
texto este em que a variante não padrão tem o percentual de 35%2. Ao contrário, formas
em que a diferença entre o singular e o plural é menos saliente no nível fônico podem ser
consideradas como um traço contínuo, ao passo que as mais salientes, descontínuo.
No entanto, a saliência do plural é um traço associado à escolarização, e à escolari-
zação é associada à urbanização: residentes das zonas mais afastadas dos grandes centros
tradicionalmente têm menos acesso a instâncias que levam à aquisição de padrões lin-
guísticos prestigiados. Em um contexto de expansão e crescimento urbano, como é o caso
de Feira de Santana, os limites entre rural e urbano não ficam tão claros.
2 Aspectos sócio-históricos de Feira de Santana-BA3
Feira de Santana é o segundo município mais populoso do estado da Bahia, com
556.642 habitantes (IBGE, 2010), ficando atrás apenas da capital, Salvador, da qual
dista 108 quilômetros. É o maior entroncamento rodoviário do Norte e Nordeste do
Brasil, sendo atravessado por três rodovias federais, a BR-324, a BR-116 (Norte e Sul) e
2
Estes contextos têm gerado resultados iguais em praticamente todos os estudos realizados com dados do
PB no que tange à concordância verbal com a terceira pessoa do plural.
3
Há muitos estudos que tratam da sócio-história de Feira de Santana, podendo ser citados como pioneiros
Poppino (1968) e Galvão (1982). Para este estudo, retomamos, principalmente, os estudos de Oliveira
(2000, 2016), por apresentarem os impactos da vinda de muitos migrantes da zona rural para a sede do
município de Feira de Santana, fornecendo bases para discutirmos os usos linguísticos rurais e urbanos e
suas interferências mútuas na comunidade de fala de Feira de Santana.
Work. Pap. Linguíst., 22(2), Florianópolis, 2021 271
[Link]
a BR-101, o que faz com que pessoas de diferentes regiões do Brasil passem por Feira de
Santana em viagens terrestres. Feira de Santana está entre “o sertão e o litoral” – às portas
do semiárido baiano –, por onde passava a Estrada das Boiadas, caminho dos vaqueiros e
tropeiros que conduziam o gado do sertão para ser vendido na maior Feira de Gado do
estado (em Feira de Santana) e também para a região do Recôncavo Baiano.
Almeida (2012, p. 4) afirma que “as origens da sede do município de Feira de
Santana remontam ao século XVIII e a um passado eminentemente rural, caracterizan-
do-se por ser um lugar de pouso para viajantes, vaqueiros e suas boiadas, que vinham
de toda a microrregião e até de outros estados”. A sua formação econômica e populacio-
nal foi promovida pela intensa migração de “nortistas” que se deslocaram de regiões do
Norte e do Nordeste do Brasil, em um misto de dialetos e aspectos culturais.
Feira de Santana é conhecida como “Princesa do Sertão”, título que recebeu de Ruy
Barbosa, quando de sua visita ao município em 1919, o que significa afirmar que o mu-
nicípio se projeta como uma espécie de “segunda capital” do estado, com uma elite local,
zeladora dos bens culturais urbanos e letrados, que recebeu grande fluxo de pessoas de
“interiores menores” da Bahia e de outros estados nordestinos, com características emi-
nentemente rurais.
Em fontes primárias diversas, como jornais, textos literários, cartas pessoais, despa-
chos municipais e fotografias que circulavam na cidade de Feira de Santana no período de
1920-1960, Oliveira (2016) identificou a motivação de vários conflitos decorrentes do
fato de “as elites baianas não se considerarem nordestinas”, como assinala Albuquerque Jr.
(2016, p. 25) no prefácio do referido livro. Ao destacar grupos esquecidos nas narrativas
oficiais e hegemônicas sobre a história da cidade, Oliveira (2016) evidencia que a diver-
sidade faz parte do município, revelando interdições, silenciamentos que intencionavam
ocultar a origem e cultura rurais, com o intuito de imprimir uma “aura” de capital à sede
do município feirense.
O rótulo de cidade hospitaleira marca Feira de Santana e não é sem razão: a popu-
lação do município quintuplicou em sete décadas, passando de eminentemente rural, na
década de 1940, para eminentemente urbana, em 2010 (Tabela 1).
Tabela 1: Crescimento absoluto e relativo da população urbana e rural residente
no município de Feira de Santana (1940 – 2010)
Work. Pap. Linguíst., 22(2), Florianópolis, 2021 272
[Link]
População residente
Anos
Total % (1)
urbana %(1) rural %(1)
1940 83.268 - 19.660 - 63.608 -
1950 107.205 28,75 34.277 74,35 72.928 14,65
1960 141.757 32,23 69.884 103,88 71.873 -1,44
1970 187.290 32,12 131.720 88,48 55.570 -22,68
1980 291.504 55,65 233.905 77,58 57.599 3,65
1991 406.447 39,43 348.973 49,20 56.875 -1,26
2000 480.949 18,33 431.730 23,71 49.219 -13,46
2010 556.642 15,74 510.637 18,28 46.007 -6,53
(1)
Variação percentual com o período imediatamente anterior.
Fonte: Anuário Estatístico de Feira de Santana (2012).
Feira de Santana passa de uma cidade que nasceu sendo pouso de vaqueiros para
uma cidade com um considerável crescimento populacional urbano, devido à vinda de
pessoas de outras regiões interioranas, seja de municípios vizinhos ou de outros estados
nordestinos. E este avanço populacional não se deu sem conflitos, pois foi relacionado
ao aumento da criminalidade e tributado como uma ameaça à consolidação do título de
segunda cidade do estado, passando a existir forte policiamento contra os novos morado-
res do perímetro urbano. O trecho seguinte, um despacho emitido por um juiz, ilustra a
realidade vivenciada em Feira de Santana no ano de 1952:
Dizem que venho rebuscando velharias, eu – que estou aumentando
com minhas próprias mãos, minha grande e assoberbante tarefa nesta
trabalhosa Comarca, cujo índice de criminalidade dia a dia se torna mais
acentuado, mais alarmante, porque ao lado do enorme crescimento da
cidade, segundo os observadores a cidade que mais cresce no interior
baiano –, infelizmente aumenta, cresce avultadamente, assustadoramente,
a percentagem de delinquência (OLIVEIRA, 2016, p. 43).
A associação expressa no documento entre o aumento da criminalidade e o aumen-
to da população urbana pode ser considerada uma tônica em diversas partes do Brasil,
mas o que torna a situação de Feira de Santana peculiar é a associação dessa violência ao
movimento migratório de sertanejos de outros estados nordestinos, conforme se depre-
ende no trecho seguinte, extraído de uma notícia estampada no Jornal Folha do Norte, no
ano de 1949:
O crime de domingo último. Domingo p. passado um bárbaro crime de
morte abalou a cidade logo às primeiras horas da noite. O comerciante
Work. Pap. Linguíst., 22(2), Florianópolis, 2021 273
[Link]
Valmir Borborema, paraibano, de 32 anos de idade e aqui domiciliado
há cerca de dois anos, matou um indivíduo em Campina Grande, sendo
preso, julgado e condenado, evadindo-se da cadeia para vir fixar residência
nesta cidade, como ultimamente vem fazendo os ladrões e assassinos
acossados pela polícia dos Estados do Norte (OLIVEIRA, 2016, p. 45).
Pessoas de origem rural que transitavam no espaço urbano do município também
foram alvo de preconceito e discriminação, tal como acontecia com migrantes em Feira
de Santana, e cujos porta-vozes eram, principalmente, os jornais que circulavam na cida-
de. Oliveira (2000, 2016) evidencia narrativas que intencionavam banir as práticas rurais
na nova configuração que se queria na cidade, isto é, a de progresso industrializado e “ur-
banocêntrico”, algo que entrava em conflito direto com a origem rural do município. O
trecho seguinte ilustra como a presença de vaqueiros – que estiveram presentes no espaço
urbano desde o início do povoamento urbano de Feira de Santana – eram vistos como
indesejados na cidade que pretendia consolidar-se com o título de “Princesa do Sertão”.
Em a segunda-feira última quando se realizava a feira de gado, o Sr. Felix
Cerqueira de Almeida, morador do lugar Panelas, próximo a esta cidade,
foi atropelado no Campo General Câmara, por vaqueiros que perseguiam
atabalhoadamente, reses destacadas dos seus respectivos lotes. O pobre
lavrador ficou muito contundido e os vaqueiros... talvez radiantes de
jubilo pela desastrada e condenável exibição (OLIVEIRA, 2016, p. 114).
A notícia que circulou no Jornal Folha do Norte, no ano de 1952, apresenta os va-
queiros como ameaçadores, para não dizer perigosos e maldosos. São aqueles que atro-
pelam pessoas e sentem-se felizes com isso. A solução seria banir os indesejáveis do pe-
rímetro urbano do município, como evidencia o trecho seguinte, extraído de Oliveira
(2016, p. 116-117), que destaca que, no Código de Posturas, publicado no final da déca-
da de 1930, trabalhadores rurais mereceram uma atenção especial por parte dos autores
da Constituição Municipal.
Sob o Título Transito Público (VI), no Capítulo Circulação Urbana
(I), foram introduzidos alguns artigos que tinham como alvo direto os
cavaleiros, no de número 119 estava fixado: “É vedado conduzir animais
bravos, boiadas, tropas, manadas de porcos etc., pelas ruas da cidade”. No
artigo seguinte, ficava ainda mais explícito o objeto da normatização: É
terminantemente proibido: a) Correr a cavalo e conduzir animais em
disparada pelas ruas e praças da cidade e das povoações do Município. b)
Andar a cavalo, guiar ou reter animais por cima dos passeios. c) Amarrar
animais às árvores, aos postes, gradis etc. (...). Pena – Multa de 20$000
pela infração da letra a e 10$000 pelas demais deste artigo.
Work. Pap. Linguíst., 22(2), Florianópolis, 2021 274
[Link]
Assim, a sede do município de Feira de Santana tem, em seu processo de constitui-
ção, a forte presença de migrantes vindos predominantemente de cidades pouco urba-
nizadas ou de zonas rurais. Os contatos e os conflitos ficam demarcados socialmente e,
consequentemente, refletem na língua; daí a necessidade de investigar como se intersec-
cionam os falares rurais e urbanos em Feira de Santana, município que pode ser conside-
rado urbano, pois 82% da sua população vivem na sede, com alta densidade demográfica,
com centro industrial e comercial desenvolvido4, e comparar estes usos com os de outro
município plenamente desenvolvido, como a capital, Salvador, que foi incluída na amos-
tra do NURC, nos anos 1970, por conta de sua expressividade econômica e urbanização.
O uso variável da concordância verbal, principalmente com sujeitos de primeira e terceira
pessoas do plural, por se comportar como traço descontínuo, é um fenômeno propício
para a observação da interseccionalidade.
3 A concordância verbal em Feira de Santana no contexto de outras comunidades
de fala do estado da Bahia
3.1 Notas metodológicas
O fenômeno da concordância verbal no PB, com todas as pessoas do discurso, é
amplamente descrito, em diferentes comunidades de fala, inclusive em Feira de Santana
(ARAUJO, 2014), mas, neste estudo, focamos a atenção para com a terceira pessoa do
plural (P6). As sentenças (1) e (2) exemplificam, respectivamente, a variante padrão,
com plural explícito, e a variante não padrão, com plural não explícito.
(1) Os meninos foram ao sítio.
(2) Os meninos foi ao sítio.
No entanto, esta diversidade de estudos é caracterizada por arranjos metodológi-
cos únicos, considerando apenas o fenômeno e um recorte de comunidade, o que não
permite, por exemplo, traçar generalizações mais amplas a respeito de uma trajetória de
mudança. Uma proposta de hierarquização das evidências científicas, considerando a for-
ça da evidência e a probabilidade de erro costuma ser empregada para a avaliação de estu-
4
Critérios adotados pela Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) para
considerar um município urbano, ao contrário do que estabelece o Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE), que considera “toda sede de município ou distrito, independentemente do tamanho e
das características das atividades produtivas de sua população, uma área urbana” (BORTONI-RICARDO,
2005, p. 92).
Work. Pap. Linguíst., 22(2), Florianópolis, 2021 275
[Link]
dos nas áreas da saúde (GALVÃO; SAWADA; MENDES, 2003), mas que também pode
ser transposta para outras áreas de investigação, incluindo a sociolinguística, e que pode
auxiliar na consolidação de evidências para uma explicação sobre processos de mudança
como no caso da concordância verbal.
No que diz respeito, por exemplo, ao processo de mudança linguística muitos estu-
dos sobre a concordância verbal com a terceira pessoa do plural, realizados com dados de
fala urbana e de pessoas com escolaridade até o nível médio de escolaridade, têm revelado
uma variação estável. Os resultados tornam-se diferentes quando se investiga esse uso
variável em comunidades rurais ou com dados de falantes com baixo ou nenhum nível de
escolarização (VIEIRA, 1995; SILVA, 2003, 2005; ARAUJO, 2014, entre outros). Nessas
comunidades falantes mais jovens tendem a fazer mais uso das marcas de plural nas for-
mas verbais, sugerindo uma mudança em curso.
Nessa proposta de hierarquização, as evidências mais frágeis ou com forte margem
de erro são aquelas baseadas em relatos observacionais de um único caso. É o que ocorre
com os estudos individuais sobre concordância verbal em cada uma das comunidades,
com seus critérios metodológicos únicos. A força da evidência aumenta se o relato for
composto por um conjunto de relatos observacionais, como costuma acontecer em revi-
sões narrativas (ou integrativas), em que são reportados resultados dos diferentes estudos
individuais sobre concordância. A ampliação da força de evidência no caso de estudos
observacionais de concordância verbal seria a revisão sistemática, em que os estudos são
compilados de acordo com parâmetros pré-estabelecidos e com um objetivo específico,
que, neste estudo, é responder a uma questão de pesquisa: no caso da concordância ver-
bal, qual é o nível de uso da forma padrão? E um nível acima na forma de evidência está
o estudo de meta-análise. Em linhas gerais, a revisão sistemática define uma questão de
pesquisa, para a qual são selecionadas e sumarizadas as evidências empíricas de estudos a
partir de critérios previamente definidos. A meta-análise é o uso de métodos estatísticos
para consolidar os resultados de cada um destes estudos (SAMPAIO; MANCINI, 2007;
FIELD; GILLET, 2010).
Para traçarmos os efeitos da sócio-história de Feira de Santana no comportamento
da concordância verbal com a terceira pessoa do plural, realizamos os seguintes procedi-
mentos:
(i) Procedemos à busca de estudos de concordância verbal com a terceira
pessoa do plural na Bahia, tendo como critério de busca o banco de dados da
CAPES;
Work. Pap. Linguíst., 22(2), Florianópolis, 2021 276
[Link]
(ii) Realizamos revisão sistemática para identificar a direção e a força do uso
da variante, com o uso de técnicas estatísticas para recuperar estes resultados;
(iii) Construímos um modelo de regressão com a concordância padrão em
todos os estudos selecionados.
Para a recuperação dos resultados, retomados os dados tabulares apresentados ou
com resultados de frequências ou com resultados inferenciais obtidos pelo método de
regressão logística com pesos centrados (“pesos relativos”), que é o método empregado
pelo programa Varbrul e versões subsequentes. Este resultado refere-se sempre àquela
variável em questão, e cujo valor pode ser diferente do peso relativo do modelo original,
que considera o efeito de todas as variáveis independentes computadas.
Para as especificidades deste estudo, que parte de resultados de estudos prévios, a
consideração de percentuais ou de pesos relativos isoladamente, sem considerar o mode-
lo como um todo, não seria uma evidência estatisticamente válida, pois a comparação de
efeitos de cada um dos modelos depende do tamanho e magnitude da amostra.
Em termos práticos, um peso relativo é relativo a um modelo (conjunto de variá-
vel dependente e independentes) em uma amostra; o mesmo conjunto de variáveis, em
outra amostra, pode apresentar variância na magnitude do resultado, e o efeito pode ser
decorrente do tamanho da amostra. O mesmo vale para percentuais. Por este motivo, exe-
cutamos procedimentos matemáticos para converter as frequências em contagens para
realizar testes inferenciais de distribuição (qui-quadrado) e de força da associação (V2 de
Cramer para tabelas n x n, e φ para tabelas 2 x 2) em cada uma das amostras dos estudos.
O teste de distribuição de qui-quadrado (χ2) mede a diferença entre a observação espera-
da e a realizada para variáveis categóricas. Já os testes de associação de V2 e φ resultam em
um número entre 0 e 1, cujo resultado indica a força de associação entre duas variáveis
categóricas; quanto mais próximo de 1, maior a força da associação. Para ambos os testes
(χ2 e V2 ou φ), o p-valor assumido foi de 0.05.
Os procedimentos quantitativos foram realizados na plataforma R (R CORE
TEAM, 2020), utilizando o pacote base para a construção dos vetores de dados a partir
das contagens dos estudos selecionados na revisão sistemática. As contagens foram con-
vertidas em ocorrências e submetidas a tratamento estatístico inferencial para associação
e força, com o pacote sjPlot v2.6.1 (LÜDECKE, 2018), e a construção do modelo de re-
Work. Pap. Linguíst., 22(2), Florianópolis, 2021 277
[Link]
gressão de meta-análise foi realizada pelo pacote ggstatsplot (PATIL, 2018). O script de
análise dos dados, que torna reprodutível todas as tabelas e todos os gráficos deste artigo,
está disponível em [Link] .5
Seguindo a tendência dos estudos prévios, partimos da hipótese de que os habitan-
tes das zonas mais afastadas dos grandes centros tiveram/têm menos acesso a instâncias
que levem à aquisição de padrões linguísticos prestigiados, logo empregam mais formas
verbais sem marcas explícitas de concordância sujeito-verbo, o que chamamos de con-
cordância não padrão. A inclusão em um mesmo modelo de regressão o efeito de cada
um dos estudos, considerando a magnitude e as especificidades dialetais e sociais de cada
uma das amostras, possibilita um retrato mais apurado do ponto de vista estatístico.
3.2 Revisão sistemática
Para situar o efeito do contínuo rural-urbano na concordância verbal com a tercei-
ra pessoa do plural em Feira de Santana, partimos dos estudos de Araujo (2013, 2014,
2015), que consideram dados coletados nesse município, pertencentes ao acervo do pro-
jeto A língua portuguesa falada no semiárido baiano – Fase 3.6 A amostra aqui considerada
é estratificada quanto à escolarização, com participantes analfabetos ou parcamente es-
colarizados (norma popular rurbana) e com participantes com ensino superior (norma
culta); em três faixas etárias (faixa I: 25 a 35 anos; faixa II: 45 a 55 anos e faixa III: a partir
de 65 anos) e pelos dois sexos, sendo todos feirenses filhos de feirenses e nascidos e resi-
dentes da zona urbana. Há um viés na estratificação da amostra: apenas os representantes
da norma popular foram ainda estratificados como “feirenses filhos de feirenses” e “fei-
renses filhos de migrantes”.
O conjunto de dados de Araujo (2015) permite estimar o efeito das normas na
concordância verbal em Feira de Santana (Tabela 2).
Tabela 2: Distribuição da concordância verbal com a terceira pessoa do plural
quanto ao tipo de norma em Feira de Santana
Concordância verbal
padrão não padrão Total
619 40 659
Norma culta 93.9 % 6.1 % 100 %
Work. Pap. Linguíst., 22(2), Florianópolis, 2021 278
[Link]
Norma popular 119 307 426
urbana 27.9 % 72.1 % 100 %
Norma popular 97 352 449
rural 21.6 % 78.4 % 100 %
835 699 1534
Total 54.4 % 45.6 % 100 %
χ2=730.183 · df=2 · V2=0.690 · p=0.000
Fonte: Elaboração própria a partir dos dados de Araujo (2015).
Há uma forte associação (V2 = 0.690) estatisticamente significativa entre o tipo de
norma e a taxa de concordância: falantes da norma culta realizam mais a concordância
padrão do que os falantes de norma popular urbana, que, por sua vez, realizam mais a
concordância do que os falantes de norma popular rural; o que corrobora a hipótese de
difusão do urbano culto para o rural, já evidenciada por estudos anteriores em outras co-
munidades de fala: por exemplo, Rodrigues (1987), que analisou a fala de migrantes, mo-
radores da periferia de São Paulo (29% de concordância padrão); Vieira (1995), que es-
tudou a fala popular do norte fluminense (38%% de concordância não padrão), os quais
trazem resultados que contrastam com os obtidos por Graciosa (1991), com amostra de
dados do Projeto Norma Urbana Culta (NURC), com 94% de concordância padrão na
fala culta carioca.
No tocante à comunidade de fala de Feira de Santana, foco deste estudo, conside-
rando o viés na constituição da amostra (todos os falantes de norma culta são feirenses),
para verificar o efeito da comunidade externa no fenômeno da concordância, é necessário
segmentar a amostra, considerando apenas a influência da migração, a partir do conjunto
de dados utilizados no estudo de Araújo (2014) (Tabela 3).
Work. Pap. Linguíst., 22(2), Florianópolis, 2021 279
[Link]
Tabela 3: Distribuição da concordância verbal com a terceira pessoa do plural
quanto à migração em Feira de Santana
Concordância verbal
padrão não padrão Total
105 330 435
Filho de migrantes 24.1 % 75.9 % 100 %
119 307 426
Feirenses 27.9 % 72.1 % 100 %
224 637 861
Total 26 % 74 % 100 %
χ2=1.420 · df=1 · φ=0.043 · p=0.233
Fonte: Elaboração própria a partir dos dados de Araujo (2014).
A associação entre origem do falante e taxa de concordância, dentro do conjunto da
norma popular (menor escolarização) não é estatisticamente significativa, sugerindo que
o efeito maior, na comunidade de fala de Feira de Santana está relacionado à escolariza-
ção: aqueles que nascidos e residentes numa cidade com um forte passado rural – e que,
tiveram, inevitavelmente, contato com os padrões comportamentais e linguísticos de pes-
soas que vieram de cidades menores ou da zona rural da circunvizinhança –, demarcam
sua identidade por meio de um falar que os distancie da fala popular, evidenciado pela
alta taxa de concordância padrão na fala desses indivíduos com ensino superior comple-
to. Esse resultado nos fez questionar se, de fato, há efeito do contínuo rural-urbano no uso
da concordância ou efeito da escolarização. Para dirimir esta questão, passamos a sistema-
tizar os resultados de estudos sobre a concordância verbal em outras comunidades de fala
da Bahia, considerando o efeito da escolarização e do contato de normas, nas medidas
disponíveis em cada estudo.
Na região centro-sul da Bahia, o estudo de Silva (2005) considerou a concordância
verbal com a terceira pessoa do plural em três comunidades com perfis diferentes quanto
à urbanização: uma comunidade urbana, com amostras de dados coletadas na sede do
município de Poções, que fica a 68,5 km de Vitória de Conquista, uma comunidade rural,
Morrinhos, e uma comunidade afro-brasileira, Cinzento, que também foi considerada no
estudo de Lucchesi, Baxter e Ribeiro (2009).
Work. Pap. Linguíst., 22(2), Florianópolis, 2021 280
[Link]
Tabela 4: Distribuição da concordância verbal com a terceira pessoa do plural quanto
ao perfil de urbanização no centro-sul da Bahia
Concordância verbal
padrão não padrão Total
290 921 1211
Escolarização precária 23.9 % 76.1 % 100 %
77 812 889
Analfabeto 8.7 % 91.3 % 100 %
367 1733 2100
Total 17.5 % 82.5 % 100 %
χ2=82.000 · df=1 · φ=0.199 · p=0.000
Fonte: Elaboração própria a partir dos dados de Silva (2005).
O efeito da comunidade é estatisticamente significativo (Tabela 4), mas com fra-
ca associação (V2 = 0.142). Na mesma direção dos resultados encontrados em Feira de
Santana, há associação entre a taxa de concordância padrão e o contínuo rural-urbano: a
comunidade urbana realiza mais concordância verbal do que a comunidade rural, que, re-
aliza mais concordância do que a comunidade afro-brasileira. Diferentemente da amostra
de Feira de Santana, que contava com falantes com pouca escolarização (norma popular)
e altamente escolarizados (norma culta), a estratificação de Silva (2005) considerou ape-
nas falantes com pouca escolarização ou analfabetos (Tabela 5).
Tabela 5: Distribuição da concordância verbal com a terceira pessoa do plural quanto à
escolaridade no centro-sul da Bahia
Concordância verbal
padrão não padrão Total
166 298 464
Alta exposição 35.8 % 64.2 % 100 %
84 625 709
Média-baixa exposição 11.8 % 88.2 % 100 %
250 923 1173
Total 21.3 % 78.7 % 100 %
χ2=94.329 · df=1 · φ=0.286 · p=0.000
Fonte: Elaboração própria a partir dos dados de Silva (2005).
Mesmo dentro do conjunto do que equivaleria à norma popular, há diferenças
quanto à concordância verbal padrão: falantes com escolarização precária usam mais a
concordância padrão do que falantes analfabetos, associação estatisticamente significati-
Work. Pap. Linguíst., 22(2), Florianópolis, 2021 281
[Link]
va fraca a moderada. Mas, muito mais forte do que a escolarização, parece ser a exposição
à mídia (tabela 6).
Tabela 6: Distribuição da concordância verbal com a terceira pessoa do plural
quanto à exposição à mídia no centro-sul da Bahia
Concordância verbal
padrão não padrão Total
216 582 798
Comunidade rural 27.1 % 72.9 % 100 %
114 411 525
Comunidade urbana 21.7 % 78.3 % 100 %
330 993 1323
Total 24.9 % 75.1 % 100 %
χ2=4.566 · df=1 · φ=0.061 · p=0.033
Fonte: Elaboração própria a partir dos dados de Silva (2005).7
O uso da concordância padrão está moderadamente associado (V2 = 0.286) à expo-
sição à mídia: a concordância padrão é mais recorrente entre os falantes que estão sujeitos
à alta exposição à mídia do que entre aqueles com média-baixa exposição, e esta diferença
é estatisticamente significativa. Este resultado indica contato de normas mediante expo-
sição, e sugere que o efeito atribuído à escolarização não seja necessariamente efeito da
escola, e sim de contato de normas e exposição às variantes de prestígio.
Mais próximo geograficamente de Feira de Santana, no Recôncavo da Bahia, Burgos
(2015) considera o município de Cachoeira, a 120 km de Salvador e a 51 km de Feira de
Santana, com amostras coletadas na sede, zona urbana, e no Povoado do Saco, zona rural
do município.
Tabela 7: Distribuição da concordância verbal com a terceira pessoa do plural
quanto à zona de residência dos falantes em Cachoeira
Concordância verbal
Padrão não padrão Total
108 479 587
Ao menos seis meses 18.4 % 81.6 % 100 %
222 292 514
Nunca esteve fora 43.2 % 56.8 % 100 %
330 771 1101
Total 30 % 70 % 100 %
Work. Pap. Linguíst., 22(2), Florianópolis, 2021 282
[Link]
χ2=79.073 · df=1 · φ=0.270 · p=0.000
Fonte: Elaboração própria a partir dos dados de Burgos (2015).
O efeito do contínuo rural-urbano em Cachoeira na concordância verbal é con-
trário ao que se encontra em Feira de Santana e no centro-sul da Bahia, com maior uso
da concordância padrão na comunidade rural do que na urbana, com nula associação,
embora estatisticamente significativa. O contato com outras normas, aferido pela variável
tempo fora da comunidade, com moderada associação, também vai em direção contrária
ao que sugerem os demais estudos: a concordância verbal padrão é maior dentre aqueles
falantes que nunca estiveram fora da comunidade do que aqueles que tiveram experiência
de ao menos seis meses fora (Tabela 8).
Tabela 8: Distribuição da concordância verbal com a terceira pessoa do plural quanto à
estada fora da comunidade em Cachoeira
Concordância verbal
padrão não padrão Total
98 307 405
Rio de Contas 24.2 % 75.8 % 100 %
58 316 374
Helvécia 15.5 % 84.5 % 100 %
117 810 927
Cinzento 12.6 % 87.4 % 100 %
273 1433 1706
Total 16 % 84 % 100 %
χ2=28.187 · df=2 · Cramer's V=0.129 · p=0.000
Fonte: Elaboração própria a partir dos dados de Burgos (2015).8
O efeito do isolamento é estatisticamente significativo mesmo em comunidades,
por hipótese, mais isoladas, como é o caso das comunidades afro-brasileiras (LUCCHESI;
BAXTER; SILVA, 2009, p. 357) (Tabela 9).
Tabela 9: Distribuição da concordância verbal com a terceira pessoa do plural em
comunidades afro-brasileiras da Bahia
Work. Pap. Linguíst., 22(2), Florianópolis, 2021 283
[Link]
Concordância verbal
padrão não padrão Total
98 307 405
Rio de Contas 24.2 % 75.8 % 100 %
58 316 374
Helvécia 15.5 % 84.5 % 100 %
117 810 927
Cinzento 12.6 % 87.4 % 100 %
Total 273 1433 1706
16 % 84 % 100 %
χ2=28.187 · df=2 · Cramer's V=0.129 · p=0.000
Fonte: Elaboração própria a partir dos dados de Lucchesi, Baxer e Silva (2009).
Dentre as comunidades afro-brasileiras, Rio de Contas é a com mais abertura a con-
tatos, com estrutura turística e atrativos naturais, que mobilizam maior fluxo de pessoas.
Por outro lado, Cinzento é a comunidade mais restrita de contatos, com estrutura endo-
gâmica e de difícil acesso. A distribuição da concordância verbal padrão tem associação
fraca (V2 = 0.129), mas estatisticamente significativa com a abertura da comunidade a
contatos: a comunidade de Rio das Contas apresenta maior uso de concordância padrão
do que a de Helvécia, que, por sua vez, apresenta maior taxa do que Cinzento.
Os resultados sistematizados apresentados, que caracterizam Feira de Santana e a
sua aderência ao polo rural do contínuo rural-urbano, evidenciam que na concordância
verbal com terceira pessoa do plural:
(a) Existe efeito forte entre norma culta e norma popular em Feira de Santana;
(b) O efeito do contato de normas por mobilidade não é significativo;
(c) Há comunidades em que o efeito rural-urbano é estatisticamente signi-
ficativo, como no centro-sul da Bahia e nas comunidades afro-brasileiras; e
(d) Há comunidades, como Cachoeira, em que o efeito rural-urbano não é
estatisticamente significativo.
Destacamos a diversidade de critérios de constituição de amostra e de estabeleci-
mento de parâmetros de aferição dos efeitos (tempo na comunidade, exposição à mídia
e mobilidade).
Passamos agora a comparar os resultados do fenômeno em Feira de Santana com
uma comunidade que está na direção do polo urbano do contínuo rural-urbano: Salvador.
Para observar a difusão da variante da concordância padrão no interior e na capital do
Work. Pap. Linguíst., 22(2), Florianópolis, 2021 284
[Link]
estado da Bahia, os resultados de Araújo (2013) são comparados com os resultados de
Souza (2011), que tratou da concordância verbal na terceira pessoa do plural em uma
amostra de dados do Programa de Estudos do Português Popular (PEPP), e com os de
Teixeira (2013), que tratou do mesmo fenômeno, mas com dados da amostra do pro-
jeto Vertentes do Português Popular do Estado da Bahia.9 Esses três estudos controlaram
a variável faixa etária com os mesmos critérios, o que permite a comparação da difusão
das variantes não só quanto ao contínuo rural-urbano, mas também em direção a uma
mudança, com dados em tempo aparente.
Na norma culta, em Feira de Santana, a variante padrão está associada aos falantes
mais jovens (χ2=27.586, df=2, p=0.00), enquanto em Salvador, a associação se dá na dire-
ção contrária, com a associação da variante padrão às faixas etárias mais altas (χ2=189.131,
df=3, p=0.000), embora exista diferença entre a força da associação, fraca em Feira de
Santana (V2 = 0.160) e moderada em Salvador (V2 = 0.237).
Já quanto à norma popular, a situação se inverte: em Feira de Santana, há associa-
ção entre a variante padrão da concordância e os falantes mais jovens (χ2=24.204, df=2,
p=0.000), com força moderada (V2 = 0.239), enquanto em Salvador, a associação é ine-
xistente. A mudança em tempo aparente sugere efeito da sócio-história recente da urbani-
zação de Feira de Santana, com um maior uso da variante padrão na fala dos mais jovens,
ratificando a interpretação de mudança geracional da regra padrão de concordância ver-
bal na fala popular, assim como em Salvador.
O modelo de regressão logística para verificar o efeito da faixa etária, da comunidade
e do tipo de norma na realização da variante padrão da concordância verbal com os con-
juntos de dados dos três estudos anteriores (ARAÚJO, 2013; TEIXEIRA; LUCCHESI;
MENDES, 2013; SOUZA, 2011) tem poder explicativo moderado (R2 = 0.21).
Tabela 10: Efeito da faixa etária, comunidade e tipo de norma, no uso da concordância
padrão em modelo de regressão logística com o conjunto de dados dos três estudos
considerados
Variante padrão da concordância verbal
Razão de chances β estatística P
(Intercept) 0.40 -0.92 -15.81 <0.001
idade [45 a 55 anos] 0.94 -0.07 -0.90 0.370
idade [mais de 65 anos] 0.86 -0.15 -1.96 0.050
comunidade [Feira de Santana] 1.15 0.14 2.05 0.041
norma [popular] 8.21 2.11 32.15 <0.001
Observações 5680
R2 0.206
Work. Pap. Linguíst., 22(2), Florianópolis, 2021 285
[Link]
Fonte: Elaboração própria a partir dos dados de Souza (2011), Araujo (2013), Teixeira;
LUCCHESI; MENDES, (2013).
Em relação ao nível de referência (faixa etária 25 a 35 anos, comunidade Salvador
e norma culta), os níveis da variável faixa etária não se mostram estatisticamente signifi-
cativos, mas o efeito da comunidade e do tipo de norma sim, com maior força a norma
popular.
Figura 1: Distribuição da variante padrão de concordância verbal com a terceira pessoa
do plural, conforme o continuum de urbanização no estado da Bahia
Fonte: Elaboração própria a partir dos dados de mata-análise.
Quando considerados em conjunto quanto ao tipo de norma e à comunidade
(Figura 1), em uma meta-análise de uma regressão linear generalizada (fórmula = VD ~
1), as amostras apresentam heterogeneidade considerável (I2 – 99,7%) entre si, com três
padrões claramente distintos quanto à concordância padrão, que podem ser relacionados
Work. Pap. Linguíst., 22(2), Florianópolis, 2021 286
[Link]
ao tipo de norma e urbanização das comunidades:
- A norma culta e urbanizada em Feira de Santana e Salvador estão associadas à
concordância verbal padrão;
- A norma popular, rurbana geograficamente circunscrita, como em Cachoeira, e
em situações de menor escolarização, como Feira de Santana e Salvador, em estágio in-
termediário de associação à concordância verbal padrão;
- A norma popular rural, em comunidades rurais, como no centro-sul da Bahia, e
em comunidades afro-brasileiras em estágio pouco associado à concordância verbal pa-
drão.
O nível de difusão da variante padrão em diferentes variedades do português falado
na Bahia aponta ainda para uma realidade bipolarizada quando se consideram varieda-
des-extremo, a saber, o português rural afro-brasileiro e o português urbano culto (cf.
LUCCHESI, 2015). Por sua vez, identificamos também um continuum quando se pas-
sa de comunidades rurais a rurbanas. Não foram identificadas diferenças significativas
quando se compararam os resultados da norma popular de Salvador (capital do estado) e
Feira de Santana, mesmo esta cidade tendo tido uma presença forte da cultura rural. Os
resultados quantitativos se alinham à percepção da própria comunidade, que é orientada
para o prestígio/status e não para a identidade.
A força identitária das normas linguísticas não se faz apenas
endocentricamente, mas também exocentricamente. Assim como há
uma tendência dos falantes a se acomodar às práticas linguísticas normais
de seu grupo social (e isso pode se transformar em motivo de orgulho
e, eventualmente, em fator de resistência a processos sociais sentidos
como ameaçadores ao grupo), o desejo de se identificar com outro(s)
grupo(s) ou a própria pressão das redes de relações sociais externas ao
grupo podem levar os falantes a buscar o domínio de outra(s) norma(s).
(FARACO, 2008, p. 41)
Quanto à norma culta, no caso de Feira de Santana, os membros da elite evitaram
a influência de falares rurais, a fim de demarcarem a sua condição de letrados, a sua iden-
tidade, também por meio de um falar que os distancie da fala popular. O excerto a seguir
é extraído da entrevista de um homem de Feira de Santana da faixa II, engenheiro civil
e professor universitário, que ilustra o quanto as pessoas escolarizadas policiam-se para
evitar a ausência da concordância, cometendo, por vezes, hipercorreções, como a que se
constata abaixo, quando o entrevistado interrompe o entrevistador para fazer uma “cor-
reção” na sua própria fala:
Work. Pap. Linguíst., 22(2), Florianópolis, 2021 287
[Link]
INF: E retorno aos pontos... onde me marcou e marcam ainda muito: o mer-
cado, feira livre... ainda gosto de fazer feira.
DOC: Hum-hum.
INF: Vou ao... a ... Centro de Abastecimento.
INF: E gosto de tá ali na feira, escolhendo os artigos, os preços e... conviven-
do num... naquele meio... que tá na minha raiz, nas minhas lembranças.
DOC: Hum-hum.
INF: A feira livre...
DOC: E...
INF: Estão, aliás.
Fonte: Entrevista pertencente ao acervo linguístico do Projeto “A língua por-
tuguesa do semiárido baiano – Fase III”.
A ausência de marcas de número em formas verbais é avaliada negativamente na
comunidade, sendo uma forma estigmatizada e envolta de preconceito. Essa percepção
expressa pelo falante reflete as mudanças ocorridas no Brasil a partir da década de 1930,
com processos de urbanização e de industrialização, consolidados principalmente na dé-
cada de 1950, e que alteraram a estrutura social no Brasil, levando a ocorrer, por exemplo,
um amplo quadro de êxodo rural, além e outros deslocamentos, haja vista que os núcleos
industriais e urbanos no Brasil não foram distribuídos de maneira igualitária, havendo,
na verdade, “ilhas de industrialização e de urbanização”, com diversos deslocamentos
populacionais motivados por oportunidades de trabalho e estudo. As mudanças sociais
levaram a alterações na realidade sociolinguística no Brasil, com processos de variação e
mudança que, para alguns grupos, demonstram a adoção de formas prestigiadas e, para
outros, de formas desprestigiadas.
Em Feira de Santana, os resultados em tempo aparente mostram que são os mais
jovens que fazem mais uso da variante padrão da concordância verbal, sugerindo que, no
passado, o uso de marcas de plural nas formas verbais deveria ser menos frequente. Já em
Salvador, os resultados indicam que, ao contrário, são os mais velhos que fazem uso da
variante padrão. Considerando a distribuição do traço da concordância verbal padrão no
português falado na Bahia, desde comunidades com maiores índices de isolamento a até
outras com maiores níveis de interações, com redes de contatos diversos, até mesmo, com
Work. Pap. Linguíst., 22(2), Florianópolis, 2021 288
[Link]
o universo letrado, demostramos o efeito dos processos de urbanização e de industrializa-
ção, sinalizado pelo traço da concordância verbal no PB.
Conclusão
A perda da morfologia flexional relacionada às regras de concordância verbal é, sem
dúvida, um dos traços linguísticos que caracterizam as variedades populares do PB. E a
não utilização da regra padrão de concordância verbal com a terceira pessoa do plural,
nas comunidades de fala urbanas, é um estereótipo sociolinguístico, sendo avaliado, por
falantes escolarizados em comunidades urbanas, como algo típico da fala de pessoas da
zona rural ou de não escolarizadas.
Nos dias que correm, é praticamente impossível encontrar comunidades cujos
moradores não interajam com pessoas com padrões socioeconômicos, históricos e lin-
guísticos diferentes dos seus. Os avanços das novas tecnologias tornam praticamente
impossível haver comunidades rurais no Brasil com moradores que não ouçam rádio,
não assistam à televisão, não usem internet ou não viagem para regiões urbanas. É muito
difícil encontrar níveis altos de isolamento linguístico no Brasil, mesmo em comunida-
des rurais, inclusive as marcadas etnicamente. No entanto, os resultados da meta-análise
apontam que existem fronteiras geográficas e sociais bem demarcadas no Brasil quanto
ao uso da língua, e o traço da concordância verbal padrão tem comportamento estável nas
diferentes comunidades. A diversidade de métodos e de amostragens pode ser neutrali-
zada com a adoção de procedimentos estatísticos para um estudo de meta-análise, sem o
qual não seria possível dar validade científica à percepção das diferenças.
Quanto aos objetivos deste texto, os resultados evidenciam que a sócio-história do
município de Feira de Santana, com recente e acelerado crescimento urbano, exerce influ-
ência no uso atual das marcas de concordância de número em formas verbais, o que de-
monstra o peso de questões sociais no uso de formas alternantes do nível morfossintático.
Uma análise que considerasse apenas as frequências absolutas levaria à interpretação de
que o contínuo rural-urbano seria o fator mais atuante, já que o uso padrão cresce pro-
gressivamente a partir dos dados dos residentes da zona rural com baixa ou nula escolari-
zação, perpassando pelos dados dos residentes na periferia da sede do município também
com baixa ou nula escolarização, até atingir os maiores percentuais na fala dos escolari-
zados com nível superior de escolarização e residentes na sede do município. Entretanto,
uma análise mais aprofundada, com uso de testes estatísticos revelou que o fator mais
importante é a escolarização e não a questão da diazonalidade.
Como se dariam os resultados em outras regiões da Bahia? Resultados de pesqui-
Work. Pap. Linguíst., 22(2), Florianópolis, 2021 289
[Link]
sas realizadas no centro-sul baiano foram analisados por meio de testes estatísticos e de-
monstraram que há uma associação, embora fraca, entre diazonalidade e concordância
verbal com P6 nos dados da fala popular, mostrando um processo de difusão da variante
padrão a partir da zona urbana, de modo que os falantes das comunidades afro-brasileiras
usariam menos a variante padrão em relação aos dados dos residentes na zona urbana,
que, por sua vez, usariam mais que os da zona rural não marcada etnicamente, mesmo
sendo todos participantes das três comunidade representantes da norma popular. De
modo interessante, os resultados mostraram que os que frequentaram a escola, mesmo
que pouco, usavam mais marcas de concordância plural. Essa constatação já levou a sus-
peitar que o que realmente estaria atuando seria o contato com a variante de prestígio e
não necessariamente a aprendizagem da norma padrão possibilitada pelo contato com a
escola. Essa hipótese foi confirmada pela forte associação revelada por meio da variável
exposição à mídia.
Relacionando os resultados com a sócio-história do português falado no município
de Feira de Santana, os resultados obtidos por meio da meta-análise trouxeram resultados
interessantes no que concerne ao processo de mudança linguística. Com as mesmas fai-
xas etárias, os dados da norma culta em Feira de Santana e Salvador mostraram resultados
diferentes. Faixa etária mais jovem está associado ao uso padrão em Feira de Santana,
enquanto que, na capital, à faixa etária mais alta. O passado eminentemente rural de Feira
de Santana, com acesso ao universo de escolarização mais tardio, parece ter influenciado
que os que recentemente tiveram acesso à norma padrão veiculada na escola façam uso da
variante prestigiada, negando as suas raízes rurais.
A consideração do estudo de Burgos (2015), com dados gravados em Cachoeira,
mostrou que o efeito rural-urbano não é estatisticamente significativo. Nesse sentido,
sendo um município que ainda preserva muito da cultura rural, com menores índices
de urbanização, reforça o peso da recente urbanização em Feira de Santana para que as
variantes não prestigiadas sejam preteridas.
Os resultados obtidos com este estudo chamam, pois, atenção para a necessidade
de serem realizados estudos que analisem o peso das redes de contatos no processo de
variação/ mudança linguística, bem como para o uso de ferramentas estatísticas para a
comparação de resultados.
Referências
ALMEIDA, Norma Lucia Fernandes de. Urbanização, escolarização e variação linguística
em Feira de Santana-Bahia (século XX). Tabuleiro de Letras: Revista do Programa de Pós-
Graduação em Estudo de Linguagens da UNEB, Salvador, n. 4, 2012. Disponível em:
Work. Pap. Linguíst., 22(2), Florianópolis, 2021 290
[Link]
[Link]
Acesso em: 19 mai. 2020.
AMARAL, Amadeu. O Dialeto caipira. São Paulo: HUCITEC/Secretaria da Cultura,
1976.
ANJOS, Sandra Espínola. Um estudo variacionista da concordância verbo-sujeito na fala dos
pessoenses. 1999. 160 f. Dissertação (Mestrado em Linguística). Universidade. Federal da
Paraíba, João Pessoa, 1999.
ARAUJO, Silvana Silva de Farias. A concordância verbal e sua importância para os estudos
sobre a formação do português brasileiro. Papia (Brasília), v. 22(1), p. 91-110, 2012.
ARAUJO, Silvana Silva de Farias. Estudo comparado dos padrões de uso da concordância
verbal em Feira de Santana e Salvador. In: Norma da Silva Lopes; Lígia Pelon de
Lima Bulhões; Lúcia Maria de Jesus Parcero (Org.). (Org.). Salvador, sob o olhar da
Sociolinguística. Feira de Santana: UEFS Editora, 2013, v. 1, p. 109-142.
ARAUJO, Silvana Silva de Farias. A concordância verbal no português falado em Feira de
Santana-Ba: sociolinguística e sócio-história do português brasileiro. 2014. 342 f. Tese
(Doutorado em Língua e Cultura). Instituto de Letras, Universidade Federal da Bahia,
2014.
ARAUJO, Silvana Silva de Farias; ALMEIDA, Norma Lucia Fernandes de. O projeto A
língua portuguesa no semiárido baiano – fase 3: critérios de constituição e da amostragem
do banco de dados. In: FREITAG, Raquel, Meister. Metodologia de Coleta e Manipulação
de Dados em Sociolinguística. São Paulo: Blucher, 2014, p. 16-20.
ARAUJO, Silvana Silva de Farias. A concordância verbal na fala culta e popular do
português brasileiro. In: KRAGH, Kirsten Jeppesen; LINDSCHOUW, Jan. (Org.). Les
variations diasystématiques et leurs interdépendances dans les langues romanes. Strasbourg:
Éditions de linguistique et de philologie (ELiPhi), 2015, v. 1. p. 281-292.
BOAVENTURA, Eurico Alves. Fidalgos e vaqueiros. Salvador: EDUFBA, 1989.
BORTONI-RICARDO, Stella Maris. The Urbanization of Rural Dialect Speakers: a
sociolinguistic study in Brazil. Cambridge: Cambridge University Press, 1985.
BORTONI-RICARDO, Stella Maris. Educação em língua materna: a sociolingüística na
sala de aula. São Paulo: Parábola Editorial, 2004.
BORTONI-RICARDO, Stella Maris. Nós cheguemu na escola, e agora? Sociolingüística na
sala de aula. São Paulo: Parábola, 2005.
BORTONI-RICARDO, Stella Maris. Do campo para a cidade: estudo sociolinguístico de
migração e redes sociais. São Paulo: Parábola Editorial, 2011.
BORTONI-RICARDO, Stella Maris; SILVA, Maria da Guia Taveiro; CAXANGÁ, Maria
do Rosário Rocha; LINS, Maria Vieira. Raízes sociolingüísticas do analfabetismo no
Brasil. In: Acolhendo a alfabetização nos países de língua portuguesa, v. 04, 2008. p. 215-234.
BURGOS, Luiz Eduardo. A variação na concordância verbal no português popular do
Município de Cachoeira BA. 2015. Tese (Doutorado em Língua e Cultura) - Universidade
Work. Pap. Linguíst., 22(2), Florianópolis, 2021 291
[Link]
Federal da Bahia, Salvador, 2015.
CENSO DO IBGE (2010). Disponível em: [Link]
populacao/censo2010/resultados_dou/[Link]. Acesso em 27 nov. 2020.
FARACO, Carlos Alberto. Norma culta brasileira: desatando alguns nós. São Paulo:
Parábola, 2008.
FIELD, Andy P.; GILLETT, Raphael. How to do a meta‐analysis. British Journal of
Mathematical and Statistical Psychology, v. 63, n. 3, p. 665-694, 2010.
FREITAG, Raquel M. K. Como fazer meta-análise com dados sociolinguísticos?. Disponível
em: [Link] 2020 Acesso em: 23 mai. 2021.
GALVÃO, Cristina Maria; SAWADA, Namie Okino; MENDES, Isabel Amália Costa. A
busca das melhores evidências. Revista da Escola de Enfermagem da USP, v. 37, n.4, p. 43-
50, 2003.
GALVÃO, Renato de Andrade. Os povoadores da região de Feira de Santana. Stientibus,
Feira de Santana, v.1, n. 1, p. 25-31, jul./dez. 1982.
GANDRA, Ana Sartori. A concordância verbal no português europeu rural. In:
OLIVEIRA, Klebson; Cunha e Souza, Hirão F.; Gomes, Luís (Org.). Novos tons de rosa...
para Rosa Virgínia Mattos e Silva. Salvador: EDUFBA, 2009. p. 142-161.
GRACIOSA, Diva Maria Dias. Concordância verbal na fala culta carioca. 1991. 100 f.
Dissertação (Mestrado em Língua Portuguesa) – Universidade Federal do Rio de Janeiro,
Rio de Janeiro, 1991.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Prefácio de Antônio Cândido. 4. ed.
Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1963.
LABOV, William. Sociolinguistic patterns. Philadelphia: University of Pennsylvania Press,
1972.
LEMLE, Miriam; NARO, Anthony Julius. Competências básicas do português. Relatório
final de pesquisa apresentado às instituições patrocinadoras Fundação Movimento
Brasileiro de Alfabetização (Mobral) e Fundação Ford, 1977.
LUCCHESI, Dante. Língua e sociedade partidas: a polarização sociolinguística do Brasil.
São Paulo: Contexto, 2015.
LUCCHESI, Dante; BAXTER, Alan; RIBEIRO, Ilza. (Org.). O Português Afro-Brasileiro.
Salvador: EDUFBA, 2009.
LUCCHESI, Dante; BAXTER, Alan; SILVA, Jorge Augusto Alves da. A concordância
verbal. In: LUCCHESI, Dante; BAXTER, Alan; RIBEIRO, Ilza. (Org.). O Português
Afro-Brasileiro. Salvador: EDUFBA, 2009. Cap. 14, p. 331-371.
LÜDECKE, Daniel. sjPlot - Data Visualization for Statistics in Social Science. Disponível
em: [Link] 2018. Acesso em: dia mês. ano.
MONGUILHOTT, Isabel de Oliveira e Silva. Variação na concordância verbal de terceira
pessoa do plural na fala dos florianopolitanos. 2001. 99f. Dissertação (Mestrado em
Work. Pap. Linguíst., 22(2), Florianópolis, 2021 292
[Link]
Lingüística), Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2001.
MONGUILHOTT, Isabel de Oliveira e Silva. Estudo sincrônico e diacrônico da concordância
verbal de terceira pessoa do plural no PB e no PE. 2009. 228 f. Tese (Doutorado em
Linguística), Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2009.
MONTE, Alexandre. Concordância verbal e variação: um estudo descritivo-comparativo
do português brasileiro e do português europeu. 2012. 171 f. Tese (Doutorado em
Linguística e Língua Portuguesa) – Faculdade de Ciências e Letras, Universidade
Estadual Paulista, Campus de Araraquara, 2012.
MONTE, Alexandre. Concordância verbal e variação: uma fotografia sociolinguística
da cidade de São Carlos. 2007. 114f. Dissertação (Mestrado em Língua Portuguesa) –
Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista, Araraquara, 2007.
NARO, Anthony Julius. The social and structural dimensions of syntactic change.
Language, v. 57, n.1, p. 63-98, 1981.
NINA, Terezinha de J. C. Concordância nominal/verbal do analfabeto na Microrregião
Bragantina. 1980. 140 f. Dissertação (Mestrado em Lingüística), PUC-RS, Porto Alegre,
1980.
OLIVEIRA, Clóvis Frederico Ramaiana Moraes. De empório a princesa do sertão: utopias
civilizadoras em Feira de Santana (1893-1937). 128 f. Dissertação (Mestrado em História)
– Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal da Bahia, Salvador,
2000.
OLIVEIRA, Clóvis F. R. M. Canções da cidade amanhecente: urbanização, memórias,
silenciamentos, 1920-1960. Salvador: Editora da Universidade Federal da Bahia-
EDUFBA, 2016.
PATIL, Indrajeet. ggstatsplot: “ggplot2” based plots with statistical details. Disponível em:
[Link] 2018. Acesso
em: 26 jan. 2021.
PEREIRA, Deize Crespim. Concordância Verbal na língua nas trilhas das bandeiras paulistas.
2004. 116 f. Dissertação (Mestrado em Filologia e Língua Portuguesa), Universidade de
São Paulo, São Paulo, 2004.
POPPINO, Rollie E. Feira de Santana. Salvador: Itapuã, 1968.
PROJETO A LÍNGUA PORTUGUESA DO SEMIÁRIDO BAIANO – FASE 3: A
LÍNGUA FALADA EM FEIRA DE SANTANA. Disponível em: [Link]
nelp/fases_subprojetos.htm. Acesso em: 20 jul. 2020.
PROJETO CORPUS ELETRÔNICO DE DOCUMENTOS HISTÓRICOS DO
SERTÃO (CE-DOHS). Disponível em: [Link]
corpora_o.html. Acesso em: 10 jul. 2020.
RODRIGUES, Ângela Cecília de Souza. A concordância verbal no português popular em
Work. Pap. Linguíst., 22(2), Florianópolis, 2021 293
[Link]
São Paulo. 1987. 259f. Tese (Doutorado em Filologia e Língua Portuguesa), Universidade
do Estado de São Paulo, São Paulo, 1987.
RUBIO, Cássio Florêncio. Padrões de concordância e de alternância pronominal no português
brasileiro e europeu: estudo sociolinguístico comparativo. 2012. 392 f. Tese (Doutorado em
Estudos Linguísticos) – Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas, Universidade
estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Campus de São José do Rio Preto, 2012.
SAMPAIO, Rosana Ferreira; MANCINI, Marisa Cotta. Estudos de revisão sistemática:
um guia para síntese criteriosa da evidência científica. Revista Brasileira de Fisioterapia, v.
11, p. 83-89, 2007.
SANTANA, José Humberto dos Santos; ARAUJO, Silvana Silva de Farias; FREITAG,
Raquel Meister Ko. Documentação do português falado em comunidades rurais afro-
brasileiras de Sergipe: patrimônio e memória. Palimpsesto, v. 17, n. 28, p. 121-138, 2018.
SANTANA, José Humberto dos Santos; ARAUJO, Silvana Silva de Farias; FREITAG,
Raquel Meister Ko. Documentação do português falado em comunidades rurais afro-
brasileiras de Sergipe: procedimentos metodológicos. PAPIA: Revista Brasileira de
Estudos do Contato Linguístico, v. 28, n. 2, p. 219-237, 2018a.
SCHERRE, Maria Marta Pereira; NARO, Anthony Julius. Duas dimensões do
paralelismo formal na concordância de número no português popular do Brasil. DELTA.
Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada, v. 9, n. 1, p. 1-14, 1993.
SCHERRE, Maria Marta Pereira; NARO, Anthony Julius. A concordância de número
no português do Brasil: um caso típico de variação inerente. In: HORA, Dermeval da
(Org.). Diversidade Lingüística no Brasil. João Pessoa: Idéia, 1997. p. 93-114.
SILVA, Jorge Augusto Alves da. A concordância verbal de terceira pessoa do plural no português
popular do Brasil: um panorama sociolingüístico de três comunidades do interior do
Estado da Bahia. Tese (Doutorado em Letras). Instituto de Letras, Universidade Federal
da Bahia, Salvador, 2005.
SOUTHALL, Aidan. Urban Anthropology. New York: Oxford University Press, 1973.
SOUZA, Constância Maria Borges de. A concordância verbal variável no português dos
Tongas. Papia, v. 2, n. 21, p. 183-193, 2011.
TEIXEIRA, Suelem Cristina Cunha; LUCCHESI, Dante; MENDES, Elisângela Passos.
A concordância verbal no português popular de Salvador: uma amostra da variação
linguística na periferia da capital baiana. Entrepalavras, v. 3, p. 251-275, 2013.
VIEIRA, Silvia Rodrigues. Concordância verbal: variação em dialetos populares do norte
fluminense. 164f. Dissertação (Mestrado em Língua Portuguesa). Universidade Federal
do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 1995.
Data de submissão: 30/07/2020
Data de aceite: 13/09/2021
Work. Pap. Linguíst., 22(2), Florianópolis, 2021 294
View publication stats