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Inveja e Superego na Psicanálise

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Eliane Michelini Marraccini e Luís Cláudio Figueiredo

Onde está Eros?


Sobre inveja e superego invejoso1
Where is Eros?
About envy and envious superego
Eliane Michelini Marraccini
Luís Cláudio Figueiredo

Resumo
A partir da noção de inveja primária, este trabalho examina a constituição e a ação do supe-
rego invejoso, noção pouco estudada desde sua apresentação por Melanie Klein em 1957. Na
clínica psicanalítica são frequentes casos que suscitam a pergunta “Onde está Eros?”, nos quais
a pulsão de morte conduz à simples sobrevivência, sem realizações subjetivas e sem investi-
mento libidinal nos objetos. Único laço forte com a não vida, o que produz extenso apaga-
mento subjetivo. A inveja primária exacerbada promove a internalização dos restos do objeto
primário atacado destrutivamente, deslancha a constituição de um ego frágil e um superego
invejoso com força intensificada pelo predomínio da pulsão de morte. Com a ação domina-
dora que submete e tiraniza o ego, o superego invejoso destrói sorrateira e persistentemente
as possibilidades de desenvolvimento egoico desde o início da vida mental. Uma submissão
atravessada por intensos conflitos que encerram o sujeito no círculo vicioso da ameaça, da
culpa, da autopunição e da impossibilidade de reparação.

Palavras-chave: Inveja primária, Superego invejoso, Círculo vicioso, Compulsão à repetição,


Autopunição.

Em nossa experiência clínica têm se apre- desvitalizada, cronicidade de uma existência


sentado casos em que nos desafiam questões em que é destacada a resistência em estabe-
instigantes. Onde está Eros? Como esses pa- lecer vínculos e renovar laços. O único laço
cientes têm conseguido existir desde sempre, forte que indica ser exatamente com a não
como muitos reforçam, sem a circulação da vida. A vitalização defensivamente evitada
pulsão de vida, que imprime sentido ao vi- para não haver modificação do “status quo”
ver? O que esses pacientes teriam perdido de morbidez e linearidade.
ao longo da vida, ou nem teriam chegado a O tributo imposto é o apagamento subje-
constituir, para essa sobrevivência sem pul- tivo, a existência amorfa, encolhida e ame-
sação libidinal? drontada com a vida. Seriam sujeitos sob o
Esses pacientes padecem de um sofrimen- domínio da pulsão de morte, no sentido en-
to que é silencioso a maior parte do tempo, tendido por (Freud, [1920] 1996), a inércia
mas que pode promover fortes angústias e conduzindo silenciosamente o organismo
somatizações importantes. Uma vida frágil e para o fim?

1. Este trabalho faz parte do pós-doutorado em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-
SP) levado a efeito por Eliane Michelini Marraccini sob s supervisão do Prof. Dr. Luis Claudio Figueiredo.

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Onde está Eros? Sobre inveja e superego invejoso

O atendimento a esses pacientes tem nos na dinâmica intrapsíquica que promovem


remetido à nossa tese de doutorado (Mar- efeitos comprometedores na subjetividade.
raccini, 2007), em que aprofundamos a Nessa direção, há especial sentido em
investigação clínica em torno de pacientes considerar as questões da inveja primária,
impossibilitados de elaboração de perda(s) que ataca a habilidade de valorizar e apreciar
sofrida(s), fator determinante para o deslan- a vida na sua origem, como apontou Caper
char de ampla falência e ruir em sua vida. (2020). E particularmente a ação nefasta do
Em continuidade às inquietações envol- superego invejoso junto ao ego e suas fun-
vendo a constituição psíquica e o desenvol- ções, produzindo expressivos reflexos na re-
vimento primitivo, emerge nosso interesse lação analítica e obstáculos para o avanço do
atual nos pacientes que “vivem na perda”. tratamento.
Nunca tentaram um viver significativo nem
ser vencedores na sua própria vida. Sobre a inveja primária
Objetivando conferir no funcionamen- A noção de inveja primária, inserida funda-
to mental desses pacientes um comprome- mentalmente no campo da destrutividade e
timento relativo à origem da vida mental e com efeito desvinculador, é derivada da ação
estruturação psíquica, decidimos investigar da pulsão de morte e se configura como a
a conflitiva entre as instâncias psíquicas no mais radical das suas manifestações, confor-
interior do self e nas relações com os obje- me Klein (1957) concebeu em seu trabalho
tos internos. E a partir daí, as significativas inaugural Inveja e gratidão.
repercussões na interação do sujeito com a Apesar das controvérsias iniciais sobre a
realidade e os objetos externos, incluindo a ênfase atribuída à base constitucional da in-
relação analítica. veja, com variações de intensidade em dis-
Fomos levados a supor que a predomi- tintos sujeitos, a noção de inveja primária,
nância da pulsão de morte comprometia complexa e multideterminada, foi plena-
o desenvolvimento não apenas do ego mas mente incorporada no pensamento psicana-
também do superego e suas respectivas fun- lítico desde então.
ções. Para Klein (1957), a pulsão de morte A inveja primária se refere à relação dual,
estaria ligada à destrutividade e à agressivi- de características essencialmente narcísicas,
dade, e atacaria tanto o próprio sujeito quan- entre o bebê e o seio, quando ambos ainda
to os objetos internos e externos, além de não estão plenamente diferenciados. O in-
contaminar a realidade externa por meio de vestimento libidinal prévio dirigido ao seio,
projeções e identificações projetivas. compreende a ânsia do bebê por tentar res-
Essa visão imprime outra perspectiva no taurar em fantasia o ambiente pré-natal, com
sentido da pulsão de morte particularmente sentido de plenitude e como paradigma de
significativa na clínica desses pacientes, que satisfação absoluta, em que a união narcísica
vivem um inferno particular interno. Eles é um ideal.
apresentam não propriamente uma renúncia Confere-se, portanto, o paradoxo que
à vida, mas uma impossibilidade conflitiva abriga a noção de inveja primária, com as-
de se libertar para viver a vida a que teriam pectos libidinais e destrutivos imbricados. As
direito. fantasias de ataques sádico-orais pretendem
A retomada da teoria das relações objetais se apossar destrutivamente de todo o con-
de Melanie Klein (1957) e dos autores que a teúdo idealizado do objeto seio, sua criativi-
sucederam foi a direção de nossa escuta do dade, enquanto os ataques sádico-uretrais e
sofrimento desses pacientes, examinando as sádico-anais visam inoculá-lo de conteúdos
relações objetais fundantes com o objeto pri- destrutivos, buscando extinguir as qualida-
mário e investigando as ligações e disjunções des disparadoras da inveja.

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Eliane Michelini Marraccini e Luís Cláudio Figueiredo

O bebê não consegue tolerar nem a sepa- se bebê algum para reintrojetar o terror sem
ratividade, nem a dependência do bom que nome. O objeto que retorna fica invejoso... é o
lhe é ofertado, pois a ferida narcísica pela resultado de uma dissecção e de um esvazia-
frustração na experiência real com o objeto mento invejoso de tudo de bom que havia no
desvela sua incompletude e escancara sua bebê... devido à semelhança com o superego,
falta. afirma, incessantemente, sua superioridade,
encontrando sempre alguma coisa para repli-
Ao compreender que a fonte de vida está fora car. Parece odiar qualquer desenvolvimento
do eu, a criança reage com fúria narcísica. novo na personalidade, como se essa eventu-
Essa fúria pode ser interpretada como a inve- alidade constituísse um novo rival. (Bléan-
ja na teoria de Klein. (Chuster; Trachten- donu, 1993, p. 168).
berg, 2009, p. 57).
Nessa direção, consideramos a inveja, pa-
O surgimento da inveja só provocará da- radoxalmente, uma verdadeira “cilada” para
nos extremos ao objeto primário caso seja o próprio sujeito invejoso. Em decorrência
exacerbada ou patológica, como alguns pre- da perda da ilusão de união narcísica e do-
ferem denominar. A intensidade ampliada lorosa ferida impetrada, emergem poderosos
interfere substancialmente na acentuada ci- impulsos sádicos, que atacam e visam des-
são do objeto, obstaculizando a integração truir o bom do objeto, que é imprescindível
de seus aspectos bons e maus. Essa integra- para a efetiva e sólida constituição psíquica.
ção conduziria ao reconhecimento da rea- Sem contar com o aporte do objeto bom para
lidade psíquica, ao sentimento de culpa em identificação e a consequente edificação de
relação aos ataques e, consequentemente, à um eixo narcísico sólido, se constituirá um
reparação dos danos cometidos em fantasia. ego frágil e deficitário em suas funções, de-
vido à incorporação de restos espoliados do
A inveja contribui para as dificuldades do bom objeto intensamente atacado pela inve-
bebê em construir um objeto bom, pois ele ja.
sente que a gratificação de que foi privado foi O ego que foi originariamente impulsio-
guardada, para uso próprio, pelo seio que o nado a se defender, expelindo para dentro do
frustrou... A inveja é o sentimento raivoso de objeto a poderosa perturbação da destrutivi-
que outra pessoa possui e desfruta algo de- dade que o invade, promove a cisão que, pela
sejável – sendo o impulso invejoso o de tirar troca projetiva-introjetiva, inevitavelmente
este algo ou de estragá-lo. (Klein, 1957, p. resultará na reintrojeção da própria destruti-
212). vidade, impregnada nos restos do objeto que
foi atacado. Resta, então, uma subjetividade
A inveja interfere na gratificação, per- comprometida, na qual deveriam prevalecer
turba o desenvolvimento da capacidade de o amor e a gratidão ao objeto.
amar e, consequentemente, a gratidão, que Em contraste com um ego especialmen-
não chegará a mitigar os impulsos destruti- te frágil e pouco desenvolvido, se constitui-
vos compreendidos na relação invejosa com rá um superego impregnado de toda a força
o objeto primário. destruidora da inveja primária. O ego per-
manece submetido e penalizado pela força
A inveja traz uma emoção tão violenta que dominante e destruidora de um superego
parece provocar o esvaziamento de quase que inveja seu potencial de realização subje-
toda a personalidade do bebê. Prossegue sua tiva.
obra nefasta esvaziando ao extremo a parte Como se fosse a vingança internalizada
projetada no seio. Por último, não sobra qua- do objeto que promove a destruição egoica,

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Onde está Eros? Sobre inveja e superego invejoso

o self permanece impedido de evoluir pela possibilidade de a inveja da mãe contaminar


ação dos restos do objeto atacado, que cons- o bebê. Como afeto que emerge na relação
tituem o superego invejoso. dual mãe-bebê, a inveja conteria o germe de
Nesse sentido, o ego se insere num círculo uma triangularidade pré-genital, uma vez
vicioso negativo de ameaça, culpa, necessi- que o que fica retido pelo objeto eliciaria a
dade de punição e impossibilidade de repa- fantasia inconsciente de estar destinado a
ração, conforme Klein (1957) e diretamente um outro, geraria o ciúme como defesa con-
estudado por Feldman (2020), destacando a tra a inveja.
desvalorização do self e os efeitos na relação Questões importantes como essas preci-
analítica. sam ser examinadas e, em alguma medida,
o serão neste trabalho, entretanto demanda-
Por seu lado, Cintra e Figueiredo (2004, p. riam um espaço amplo para aprofundamen-
130) enfatizam que to, o que não constitui aqui o escopo princi-
pal. Serão reservadas para futuro desenvol-
[...] a inveja excessiva impede a formação de vimento.
elos associativos necessários à construção do
pensar. É isso que torna a reflexão sobre a Sobre o superego invejoso
inveja tão interessante: o fato de que, sendo Klein (1958) considerou que o ego é impul-
a manifestação por excelência da pulsão de sionado pela pulsão de vida, que tem a fun-
morte, ela surja do próprio “ninho” de onde ção de defletir para o exterior a pulsão de
brota a pulsão de vida, com o objetivo de morte, em sua luta contra a ameaça interna
destruir Eros, a capacidade de associar e a de e a angústia de aniquilamento que coloca em
pensar. risco a sobrevivência do sujeito.
Ao se defender da inundação dos impul-
Questões relevantes têm sido levanta- sos destrutivos e da ansiedade persecutória, o
das nos últimos anos a respeito da noção de ego lança mão da cisão, da deflexão e da pro-
inveja primária, em especial, o livro Revisi- jeção de parte desses impulsos para o exte-
tando “Inveja e gratidão”. As organizadoras rior, fundamentalmente o objeto. O processo
Priscilla Roth e Alessandra Lemma (2020) de introjeção, também a serviço da pulsão de
reúnem autores que discutem aspectos im- vida, promove a introjeção do seio nutridor
portantes, como o momento do desenvolvi- e assenta alicerces para todos os processos de
mento, quando a inveja emergiria, quando internalização.
predomina a indiferenciação entre sujeito e Essa relação objetal primitiva investe o
objeto ou quando a separatividade e a dife- seio com fantasias destrutivas constituindo
renciação já seriam vivenciadas pelo bebê, o objeto mau originário com projeção de
como ressaltou Britton. fantasias libidinais e o objeto bom originá-
Outro ponto é a relevância de fatores in- rio. Como esses objetos polarizados serão
ternos para o emergir da inveja exacerbada, reintrojetados, a pulsão de vida e a pulsão de
contrapondo-se à experiência real com o ob- morte, que haviam sido projetadas, vão ope-
jeto, de modo a constituir a personalidade rar novamente no interior do self.
atravessada pela inveja. Para Klein (1957), o núcleo do superego
Fonagy e Erlich valorizam a constitu- é o seio da mãe, tanto o bom quanto o mau,
cionalidade e os fatores internos, enquanto e fundamentalmente é a instância psíquica
Brenman-Pick e O’Shaugnessy se detêm na que traz em si as marcas do intersubjetivo,
complementaridade entre fatores internos e além de manter o psiquismo aberto à inter-
externos. Polmear privilegia a privação de subjetividade, constituindo um mundo de
continência afetiva do objeto primário e a objetos não assimilados ao Eu, que é resul-

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Eliane Michelini Marraccini e Luís Cláudio Figueiredo

tante da internalização dos objetos primários Brenman-Pick (2020). A descrição desse


que mantêm relações internas entre eles. (Fi- círculo vicioso é uma das maiores contribui-
gueiredo, 2009). ções de Klein, na opinião de Smith (2020).
Rosenfeld (1968) destacou que Klein Constituído primordialmente pela intro-
(1946) é quem mais contribuiu para a com- jeção dos restos do objeto espoliado pela in-
preensão das origens arcaicas do superego, veja, o superego invejoso permanecerá com
considerando inclusive que o superego da suas funções fixadas e comprometidas pela
latência proposto por Freud teria função de- primazia da pulsão de morte. Destaca-se, em
fensiva contra as ansiedades do superego pri- especial, sua ação destrutiva junto ao ego: ele
mitivo de características pré-genitais. constitui uma dimensão patológica do supe-
Na concepção de Klein (1946) sobre a po- rego persecutório, que se desenvolve origi-
sição esquizoparanoide, o caráter ameaçador nalmente na posição esquizoparanoide.
do superego predomina com ação cruel e Bion (1988) destacou que o seio sofre mu-
destrutiva, porque promove no ego intensa tilações nas fantasias sádicas do bebê. O pa-
ansiedade persecutória e determina todos os ciente se sente aprisionado num estado men-
processos do início da vida mental. tal do qual é incapaz de fugir, pois se ressente
O desejo por um seio inesgotável e sem- da falta do aparelho de percepção da reali-
pre presente inclui o desejo de que o objeto dade, que constituiria a chave que permitiria
seio possa liquidar ou controlar os impulsos sua libertação. Ao tentar reaver os objetos na
destrutivos originários da pulsão de morte. tentativa de restaurar o ego, o paciente terá
Nessa imago idealizada do seio, reside a fan- de trazê-los de volta mediante a identificação
tasia de que ele proteja o objeto bom, salva- projetiva invertida, vivenciando o reingresso
guardando o bebê contra ansiedades perse- como uma invasão, um ataque, uma tortu-
cutórias, dominando a ameaça de aniquila- ra. Sua capacidade de unir, sintetizar estará
mento e garantindo a sobrevivência do ego. comprometida pela hiperatividade da cisão e
Em muitos pacientes esquizofrênicos crô- da identificação projetiva, características da
nicos e fronteiriços, os objetos idealizados e parte psicótica da personalidade e mecanis-
os objetos persecutórios têm algumas fun- mos mais primários do que a repressão.
ções do superego, como enfatizou Rosenfeld Por seu lado, O’Schaughnessy (1999) con-
(1991). Os objetos idealizados incrementam sidera inadequada uma concepção unitária
a severidade do superego pelas exigências ri- do superego e demonstra a disjunção e o
gorosas e impossíveis, muitas vezes sentidos antagonismo entre as formas normal e pato-
como persecutórios e tornando difícil a dife- lógica do superego. Baseia-se na concepção
renciação entre eles. bioniana de que o superego patológico se er-
A noção de superego invejoso menciona- gue em cima das falhas de comunicação en-
da por Klein (1957) indica que ele é intrinse- tre mãe e bebê, experenciadas como ataques
camente relacionado à intensidade da força ao vínculo tanto pela mãe, que se recusa a in-
perniciosa da inveja primária dirigida ao seio gressar nas comunicações do infante, quanto
e sua criatividade. A reintrojeção do objeto pelo infante, que impede ou ataca a comuni-
atacado constitui o superego invejoso, que cação com raiva e inveja. Desse modo, um
interfere nas tentativas de reparação dos es- “super” ego que destrói vínculos é formado e
tragos ao objeto bom, pois expele sentimen- permanece essencialmente atuante.
tos de perseguição, engendra sentimento de O’Schaughnessy (1999) destaca que a na-
culpa e necessidade de punição. Ele encontra tureza do superego anormal não se caracte-
satisfação no incremento da desvalorização riza pela exacerbação de traços do superego
do eu e instaura um verdadeiro círculo vi- normal, já que tem natureza e ação distintas.
cioso que se retroalimenta, como reforçou O superego normal se forma a partir das re-

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Onde está Eros? Sobre inveja e superego invejoso

lações precoces. O superego anormal se ori- A lamentável submissão a esse sistema


gina das dissociações primitivas e seu obje- inaugurado pela inveja primária e autoen-
tivo é dissociar o paciente, atacar o vínculo gendrado pela constituição do superego
com o objeto. invejoso, que impede a introjeção do bom
O superego anormal coexiste na perso- objeto e a sua integração no núcleo do ego.
nalidade junto com o superego normal, tal É essencial que o self desenvolva relações ob-
como Bion supôs com a parte psicótica e jetais libidinais, que a gratificação ative a ca-
parte não psicótica da personalidade, e cada pacidade de amar e conduza ao sentimento
um deles tem um espaço e abrangência. O de gratidão, como destacou O’Schaughnessy
superego anormal predomina nos sujeitos (2020). Isso é fundamental para a recupera-
mais regredidos e de funcionamento primiti- ção do laço amoroso com o objeto, a vivifi-
vo, enquanto o superego normal predomina cação da troca com ele para a consolidação
no funcionamento de pacientes neuróticos. da confiança em si e na própria criatividade.
Nessa perspectiva, é importante conside- Assim, a bússola fundamental para a es-
rar que o superego anormal pode comportar cuta psicanalítica do sofrimento inconscien-
uma dimensão eminentemente destrutiva e te causado pela inveja e pela ação dominado-
invejosa, persistente ao longo da vida como ra do superego invejoso é a cuidadosa aten-
superego invejoso, além de ser impermeável ção à fragilidade e à desvitalização egoica,
à integração com o superego normal. A falta mediante submissão ao sistema sustentado
de permeabilidade entre eles os mantêm fun- pela destrutividade circulante internamen-
damentalmente cindidos dentro da própria te, o que compromete a subjetividade e suas
instância superegoica. relações objetais. A função inimiga não está
A ação do superego invejoso dentro do fora. A principal vítima é o próprio sujeito,
psiquismo é entendida como regente da or- enredado e sequestrado, sem alcançar a li-
questra destruidora do ego, com função an- bertação desse sistema dominante.
tivida conforme concebeu Feldman (2020). Como bem apontou Britton (2020, p.
O ego e sua vitalidade são encarados como 197),
uma grande ameaça de alteração do status
quo instituído, representando perda do do- [...] os analistas devem ter em mente: a pessoa
mínio e supremacia do superego invejoso. afligida por uma natureza invejosa não é ape-
As defesas implementadas com função de se nas um agressor em potencial; ela também é
opor, deter ou paralisar a ação superegoica vítima de suas predisposições.
destrutiva permanecem condenadas à inefi-
cácia, conflitiva, que compromete o self em A apresentação de elementos de um aten-
sua solidez e seu equilíbrio interno. dimento clínico conduzido por um dos au-
Trata-se de um ego que não consegue tores deste trabalho tem o objetivo de indi-
romper a repetição do círculo negativo im- car na subjetividade comprometida a função
petrado pela inveja, um ego que não tem prevalente da inveja primária exacerbada e a
força para superar o sentimento de culpa e ação dominante de um superego invejoso.
o sistema autopunitivo, quebrar a compul-
são à repetição regida pela pulsão de morte, Preguiça de viver
entendida como instinto antivida, como su- Helena iniciou a sessão dizendo não saber o
geriu Steiner (2020). Além do mais, esse ego que falar. Estava especialmente preguiçosa de
não consegue desenvolver a capacidade de tudo. Preguiça da vida. Embora soasse como
pensar e reparar, seja os danos fantasiosos ao condição especial, era o estado em que vivia.
objeto, seja os efeitos resultantes no próprio À espera de algo que não sabia. Desde pe-
ego. quena fora assim, mas nos últimos tempos a

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Eliane Michelini Marraccini e Luís Cláudio Figueiredo

inércia se ampliara. Não via sentido na vida. demais com as angústias emergentes, o sen-
Sem estímulo para sair do refúgio domésti- timento de culpa perturbador, a dolorosa
co, onde criara um ambiente confortável que cobrança pela perda da ilusão perfeccionis-
dividia na companhia do seu cachorro. Na ta, a urgência acentuada em reparar danos e
imobilidade ele a admirava e ela se alimenta- promover o restabelecimento do status quo,
va desse olhar encantado, um amor incondi- com toda a força de seu controle onipotente.
cional que jamais sentira ser possível contar. Qualquer alteração em seu reduzido entorno
Não sabia o que faria quando ele partisse. a desestabilizava.
Helena era espectadora da vida pelo celu- As novas aquisições só traziam a preocu-
lar. Seguia os que tinham projeção nas redes pação em ter que zelar para o bem, não per-
sociais. Figuras idealizadas que acenavam der o estado de perfeição inicial. Vivenciava
com uma vida agitada que jamais sonhara muita angústia quando era necessária a re-
desfrutar. Viver nesse encanto parecia lhe paração de algo, sempre urgente e imperio-
bastar, imaginando sempre ser o outro por- sa. Alimentava a certeza de que tudo ficaria
tador do atributo valorizado. Quanto mais pior, exigindo novas reparações, sempre in-
observava seus ídolos, mais se sentia só fra- suficientes e ineficazes. Refém de sua tortura
casso, distante da perfeição fantasiada. Con- particular, mantinha-se escravizada à impos-
siderava-se feia desde que nasceu. O cabelo sibilidade de atingir o ideal e não conseguir
ralo e a pele caída. Lutava para não voltar a a imobilidade definitiva de seu túmulo em
engordar como em muitos períodos. Com vida.
amplo descrédito em si, poderia interessar a Seus intestinos dominavam parte de sua
alguém e estabelecer relação viva de compa- vida. Não podia sair, viajar, marcar compro-
nheirismo? Preguiça e falta de esperança em missos, enquanto não resolvesse o funcio-
conhecer pessoas, estabelecer laços. namento orgânico. Penitência de toda uma
O namorado morava distante, e quando vida, refém dos restos que resistiam em ser
vinha, não desejava sair, o que lhe era muito eliminados, mas que também podiam sur-
confortável. Tinha de tolerar a bagunça, dava preendê-la fugindo inesperadamente ao seu
trabalho, mas preferia assim. Era o tributo controle.
que pagava para não se mover dali. Ficava De tudo fizera para reduzir a obesidade,
parado o desejo de sair, se distrair, mas res- enfrentando até cirurgias, porém a mansidão
tava a inércia compartilhada. Tinha a com- de sua vida encontrava nas guloseimas um
plementaridade de um parceiro que também escape, um gozo escondido. Alguns quilos
apenas sobrevivia, embora sempre com o pé e, então, como aliviar a culpa de ter se ex-
na estrada. Prometia mudanças, fazia planos, cedido no que não devia? Decretava castigo
mas desembocava no nada. Tudo estático há merecido escondendo-se de todos, buscando
anos ou desde sempre. se esconder de si mesma. Em círculo vicioso,
Quando ele se ia, Helena recolocava tudo recorria novamente a algum consolo no ex-
estritamente no lugar. Voltavam a imperar cesso, o que aumentava o peso e a culpa.
a ordem asséptica e a ausência de vestígios Seu lugar sempre fora o daquela que in-
de que por ali passara um outro, com algu- vejava as irmãs. Uma com a beleza e a outra
ma pulsação ou energia vital. Helena voltava com a graça atraíam olhares e admiração.
para seu refúgio inalterado, onde nada podia Para ela, a não contemplada, restavam as crí-
se vitalizar. Assim, evitava angústias podero- ticas maternas ao peso excedente, a necessi-
samente perturbadoras que beiravam o de- dade de fazer dieta desde menina. E quando
sespero. a mãe se dedicava a embelezar seus cabelos e
Atormentada por obsessões e compulsão roupas, os piorava ainda mais, aos olhos de
à repetição, Helena procurou análise. Sofria Helena. Era reconhecidamente inteligente,

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Onde está Eros? Sobre inveja e superego invejoso

mas esse atributo não emergia na superfície tratamento, com seu lado que, silenciosa-
nem atraía o encantamento da mãe. Entre mente, se opunha ao fluir da energia vital, a
ciúme e inveja se consumia: o ciúme defensi- transferência fazendo seu trabalho.
vo em relação à inveja, mais primitiva. Na sua ilusão negativa da impossibilidade
A mãe fora sempre muito eficiente e dava de recursos pessoais, imaginava-se passiva-
conta de tudo para a família. Porém, a frieza mente se beneficiar dos recursos e da pro-
afetiva e os safanões que ministrava, quando dução da analista. Destinava-lhe o lugar de
havia algo falho ou imperfeito, se encarre- ter de corresponder à sua fantasia, visando
garam de marcar Helena para sempre. Uma defensivamente controlá-la e impedi-la de
mãe intolerante à falha e não receptiva à na- se mover em outra função ou direção, como
tureza que lhe pertencia, como se a cada vez destacou Steiner (2020).
denunciasse a decepção que Helena lhe cau- Sem perceber que reiterava sua dependên-
sava. Desde pequena, a pergunta diária ajoe- cia, vitimava-se em condição de inferiorida-
lhada aos pés da mãe: “Você gosta de mim?”. de e fortalecia a certeza de que os recursos da
Ouvia resposta assertiva protocolar, cansada analista jamais poderiam ser alcançados em
da insistência. No entanto, isso era suficiente si. Ferida narcisicamente desde sempre, con-
para Helena se assossegar para o sono, ape- denada a viver na sombra do objeto invejado
sar da falta de afeto em ser acolhida perante que obscurecia o ego, punida por sua inveja
a ameaça de não merecer o amor materno e, e voracidade em almejar ser e ter algo além.
de algum modo, ter perdão por ser quem era. Helena podia acompanhar as interven-
ções analíticas que ampliavam sua consciên-
Na relação analítica cia sobre si. Afinal, era racional e inteligen-
Quando Helena não se encontrava no mar de te. Mas as interpretações não conseguiam
angústia por algo que fugira ao seu controle transpor a barreira inconsciente de seu refú-
ou demandava pronta resolução ou repara- gio psíquico, a ponto de sensibilizá-la e ela
ção, seu discurso se empobrecia. Não conse- aceder ao trabalho psíquico que poderia ter a
guia tecer uma narrativa pelos meandros de chance de alavancar mudança psíquica.
seu mundo interior. Helena não se surpreendia com essa im-
Frente à sua inércia, a analista se sentia possibilidade, como se fosse velha conhecida,
alvo de pressão para encampar o papel vitali- pois não se atribuía crédito em desenvolver
zador de dar sentido para seu existir, lembrá condições melhores para enfrentar seus fan-
-la de sua condição de sujeito psíquico com tasmas, seus conflitos, suas cisões, suas pro-
possibilidade de pensar sobre si, destacar sua jeções. A analista tinha a experiência emo-
inserção no mundo e sua implicação nas re- cional de se sentir impelida a lhe emprestar
lações objetais que eventualmente estabele- vida, doar-lhe sua seiva, fornecer-lhe ener-
cia. gia para tentar desenvolver o potencial que
O lugar destinado para a analista era, se- mantinha guardado em seu arquivo morto.
gundo dizia, o encontro com alguém que a A pulsão de vida mantinha Helena apenas
compreendia. Porém, mais profundamente, na sobrevivência psíquica. Não conseguia
sua expectativa era que a analista lhe ofere- vencer o embate da força mortífera, fosse da
cesse uma solução mágica e definitiva para inércia como pretendia Freud, fosse da des-
seus males, uma vez que era atormentada trutividade como preferia interpretar Klein.
pela culpa, pela cobrança, pela desvaloriza- Revelava-se uma verdadeira luta incansável,
ção de si, pela compulsão à repetição e pela patrocinada pela pulsão de morte e com a
impossibilidade de reparação. E que tudo se cronicidade do ódio que revertia sobre si.
resolvesse sem ser necessário seu próprio A resistência em relação à mudança psí-
trabalho psíquico! Um modo de resistir ao quica poderia ser entendida como “reação

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terapêutica negativa”, fruto do entrelaçamen- lhe despertava. Poder-se-ia pensar no dese-


to entre inveja, culpa e ciúme, como desta- jo oculto e mortal de aniquilação nascido da
cou Brenman-Pick (2020), evitando a alte- admiração ao objeto, como sugere Fonagy
ração do status quo com retirada para o re- (2020).
fúgio psíquico em que mantinha um estado Como não havia lugar para a integração, a
de irrealidade psíquica, como escreveu Weiβ intensidade da dicotomia pulsional produzi-
(2020). ra a necessidade de permanecer na imobili-
E lá se acreditava imune a ter seu narci- dade de seu refúgio psíquico, a fim de evitar
sismo ferido, dispensada da necessidade de a desestabilização de seu equilíbrio frágil e
integrar as cisões do ego, a realidade de seus instável. Para tanto, lhe era demandado ex-
impulsos e as demandas da realidade exter- cessivo controle interno e externo, a desorga-
na. nização emocional sempre temida e iminen-
Entretanto, os aspectos narcísicos envol- te, a vida lhe soando sempre perigosa com
vidos, a relação desigual e inferiorizante em seus estímulos e demandas.
que sempre sentia que o outro dotado dos re- Seu ego primitivo permanecia na sombra
cursos e da potência que lhe faltavam, além humilhante de não ser tudo o que almejava
de sua passiva dependência, apontavam fla- ser, ter e conter, distante do ideal na fantasia
grantemente para a circulação dos efeitos da materna, o que a lançara no terreno da inveja
inveja primária exacerbada não superada. E exacerbada, seja por condições internas de-
um trabalho plenamente exitoso do supere- terminantes, seja pela contribuição de uma
go invejoso junto ao ego. figura materna não receptiva às suas deman-
das afetivas, ou até decepcionada por Helena
Considerações finais ser quem era, como acreditava.
O caso clínico de Helena levantou questões O ciúme das irmãs era defensivo em re-
intrigantes: um quadro psicopatológico em lação à inveja oral mais primitiva que dera
que flagrantes traços e sintomas obsessivo- origem ao superego anormalmente sádico,
compulsivos conduziram à revelação de uma mais especificamente um superego invejoso
configuração psíquica muito mais primitiva e destruidor do ego, flagrante ou silenciosa-
e comprometida. mente. Uma dinâmica psíquica constituída
Ao longo do tratamento, foi possível iden- pela internalização do embate invejoso com
tificar aspectos importantes da complexa e o objeto primário, que permaneceu intro-
multifacetada inveja primária não superada, jetado no confronto insolúvel entre o ego e
que promovia um funcionamento subjetivo esse superego impulsionado pela força des-
amplamente perturbado pela ação destrutiva trutiva da pulsão de morte.
do superego invejoso, o que implicava am- O superego invejoso massacrava o ego
plas consequências na dinâmica psíquica, es- com permanentes acusações indevidas e
pecialmente no intenso conflito entre ego e desqualificadoras. Acusava Helena de fa-
superego, na intersubjetividade das relações lhas cuja reparação obsessiva era ineficaz e
internas e externas, como na lida com a rea- distante do ideal. Cobrava-lhe culpas que
lidade externa. compulsivamente ela procurava saldar sem
Sua estruturação psíquica deficitária, conseguir reparar, enclausurada em círculo
com a edificação narcísica que não alcança- vicioso com intenso sistema autopunitivo
ra o fortalecimento do ego e a constituição atuante.
de autoestima positiva, indicava que Helena Tais circunstâncias deram origem à fra-
era refém da cisão que a mantinha siderada gilidade de um self que se fixou no ideal de
pelo amor idealizado à mãe, objeto original, ego, não confiando na efetivação de um Eu
bem como refém do ódio que mãe também que pudesse se desenvolver pela introjeção

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Onde está Eros? Sobre inveja e superego invejoso

do bom objeto, para com ele se identificar Abstract


e criativamente atingir a unicidade do self, Based on the notion of primary envy, this pa-
alavancando uma vida com sentido e direção per aims to examine the constitution and ac-
própria. tion of the envious superego, a notion that has
É importante destacar que o superego de been little examined since its presentation by
Helena produzia ameaças internas em que Melanie Klein in 1957. In the psychoanalytic
predominavam não a ameaça persecutória clinic, there are frequent cases that raise the
em relação ao objeto, mas o secar da vida question “Where is Eros?”, in which the death
imposto pela ação destrutiva junto ao ego. drive leads to simple survival, without sub-
A conflitiva original da inveja em direção ao jective achievements and without libidinal
objeto primário tinha sido revertida para a investment in objects. The only strong bond
dramática dos embates intrapsíquicos entre being with non-life, producing extensive sub-
ego e superego invejoso, destruindo a possi- jective erasure. The exacerbated primary envy
bilidade de desenvolvimento do self. promotes the internalization of the remains of
Ao final, Helena tinha que pagar peniten- the primary object destructively attacked, trig-
temente pelos impulsos destrutivos origi- gers the constitution of a fragile ego and an
nais com a moeda do próprio viver alienado, envious superego with strength intensified by
encolhido e culpado. O poder do superego the predominance of the death drive. Within
invejoso coexistia, em alguma medida, com a dominating action that subdues and tyran-
os aspectos de um superego mais maduro e nizes the ego, the envious superego sneakily
generoso, mas nunca forte o suficiente para and persistently destroys the possibilities of
proteger o ego contra os ataques da dimen- ego development since the beginning of mental
são destrutiva do superego invejoso. O su- life. A submission crossed by intense conflicts,
perego invejoso sempre revidava e retaliava which enclose the subject in the vicious circle
quando o ego cometia a ousadia de buscar of threat, guilt, self-punishment and impossi-
libertar-se do sistema soberano e dominador bility of reparation.
do qual era refém. Um sistema que imperava
no cenário psíquico e condenava amplamen- Keywords: Primary envy, Envious superego,
te a subjetividade. Vicious circle, Compulsion to repeat, Self-
punishment.

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Eliane Michelini Marraccini e Luís Cláudio Figueiredo

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Recebido em: 10/03/2021
KLEIN, M. Notas sobre alguns mecanismos esquizoides. Aprovado em: 08/04/2021
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Onde está Eros? Sobre inveja e superego invejoso

Sobre os autores

Eliane Michelini Marraccini


Graduada em Psicologia pela
Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo (PUC-SP).
Mestre em Psicologia Clínica pela
Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo (PUC-SP).
Doutora em Psicologia Clínica pela
Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo (PUC-SP).
Professora e supervisora clínica
no curso de especialização Formação
em Psicanálise do Departamento Formação
em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.
Membro da Associação Universitária
de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental.
Pós-doutora em Psicologia pela
Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo (2020).

Luis Claudio Figueiredo


Psicanalista.
Membro Efetivo do Círculo Psicanalítico
do Rio de Janeiro.
Mestre em Psicologia (Psicologia Experimental)
pela Universidade de São Paulo (USP).
Doutor em Psicologia pela Universidade
de São Paulo (USP).
Livre Docência em Psicologia
pela Universidade de São Paulo (USP).
Professor doutor da Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo (PUC-SP).
Professor associado da Universidade
de São Paulo (USP).

Endereço para correspondência

Eliane Michelini Marraccini


E-mail: [Link]@[Link]

Luis Claudio Figueiredo


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